ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 1 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ISSN 1519-0846 ANÁLISE. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta Jundiaí – SP: Sociedade Padre Anchieta de Ensino. 21 cm. Semestral Inclui Bibliografia 2 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 EDITORIAL Ao completar seis anos de existência, a revista ANÁLISE consolida-se como instrumento de divulgação do conhecimento científico produzido pelos docentes do Centro Universitário Padre Anchieta, bem como por outros colaboradores interessados em prover nossa comunidade com temas abrangentes e diversificados. No primeiro artigo, “Um ensaio sobre o deslocamento do capitalismo face aos projetos de responsabilidade socioambiental empresarial (RSE)”, o autor discorre sobre o surgimento de uma nova visão das organizações: a escola das relações humanas, onde as organizações não poderiam ser apenas máquinas, argumentando que os sistemas sociais têm tanta ou mais influência sobre a organização do que seu sistema técnico. Na sequência, o autor do artigo “A Alca e o desenvolvimento sustentável do Mercosul” argumenta que o crescimento econômico sustentável deve ser focado nas pessoas, com conseqüente preservação do meio ambiente e alega que órgãos oficiais estão redimensionando os projetos de desenvolvimento e democratizando o processo decisório. No artigo seguinte, “Educação a distância no ensino de informática utilizando o ambiente Teleduc”, os autores procuram identificar as vantagens e desvantagens da aplicação de cursos de informática no Teleduc. As informações divulgadas poderão auxiliar educadores interessados em utilizar o ensino a distância,na montagem de cursos ou como complemento de aulas tradicionais. No quarto artigo, “Sistema de visualização de documentos via internet”, os autores argumentam que a principal função deste sistema é facilitar a consulta de documentos dentro das empresas, reduzindo o acesso a arquivos físicos, além de possibilitar o controle de usuários com autorização de visualização dos mesmos. Na seqüência, o artigo “A filosofia política de Norberto Bobbio” discute a proposta de unir aspectos positivos do liberalismo e do socialismo, com o objetivo de estabelecer na mesma estrutura as seguintes características da cidadania: liberdades civis, garantias políticas e direitos sociais. No artigo seguinte, “O impacto da globalização na gestão administrativa”, Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 3 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 os autores procuram avaliar o estágio atual da globalização com a larga e crescente utilização dos recursos tecnológicos. Discutem as conseqüências desse tipo de globalização para o administrador, para que se possam identificar ações e atitudes que devem ser buscadas e cultivadas por aqueles que atuam na gestão de negócios. No sétimo artigo, “Educação: reprodução ou transformação?”, procura-se discutir os conceitos de reprodução e transformação com base nas análises de Paulo Freire e Dermeval Saviani que, segundo os autores, indicam alguns caminhos para a superação da reprodução cultural e social via escolarização. O oitavo artigo, “Tendências a serem monitoradas na área de tecnologia da informação e comunicações”, pretende divulgar conceitos e informações sobre algumas das tendências na área de Tecnologia da Informação e Comunicação (TIC) que acredita-se devam ser monitoradas em função das oportunidades e ameaças que podem trazer às organizações no curto e médio prazo. O autor argumenta que a inclusão do tema no processo de planejamento estratégico é importante, pois permitirá que o monitoramento seja feito de forma sistemática e eficiente. Na seqüência no artigo “Desenvolvimento de software com metodologia Praxis auxiliada pela ferra- menta Case Rational Rose”, procura-sveerificarcomo o emprego da metodologia Praxis pode ser suportado de maneiraefetivapelousoconjuntodaferramentaCase Rational Rose. A análise desta metodologia, de seus artefatos e da contribuição da ferramenta escolhida permite apresentar algumas das vantagens e desvantagens desta combinação no processo de desenvolvimentodesoftware.Finalmente,oartigo“Gerenciamento de dados do censo 2000 utilizando o SPSS” mostra que é possívelcriarum indicador doníveldevidapara municípios selecionados utilizando a base de dados doCenso2000,disponibilizadapeloIBGE.Paratanto, exploram-se os recursos do software Statistical Package for the Social Science. 4 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Análise é uma publicação periódica das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração de Empresas Padre Anchieta e está aberta à colaboração de pesquisadores de outras instituições, mediante a apreciação dos trabalhos pelo Conselho Editorial. As posições expressas em trabalhos assinados são de exclusiva responsabilidade de seus autores e seus textos não poderão ser reproduzidos sem a permissão dos mesmos. Conselho Editorial Adilson José da Silveira Antonio Rebello Leo Ferreira Arantes Messias Mercadante de Castro Raimundo Cláudio da Silva Vasconcelos Sérgio Pio Bernardes Coordenação de Edição José Milton Sanches Secretária Geral Sílvia Raizza Prado Martini Correspondência Rua Bom Jesus de Pirapora, 140 - Centro - Jundiaí-SP CEP 13207-270 • Caixa Postal 240 Fax (11) 4587-6165 • e-mail: [email protected] www.anchieta.br Editoração Departamento de Publicidade das Escolas e Centro Universitário Padre Anchieta Revisão João Antonio de Vasconcellos Isabel Cristina Alvares de Souza Tiragem 2.000 Análise Revista semestral das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração de Empresas Padre Anchieta. Pede-se permuta • Pide-se canje • We ask for exchange Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 5 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 6 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ÍNDICE Um ensaio sobre o deslocamento do capitalismo face aos projetos de responsabilidade socioambiental empresarial (RSE) Carlos Henrique Pellegrini ............................................ 9 A Alca e o desenvolvimento sustentável do Mercosul Alexandre Ramalho ....................................................33 Educação a distância no ensino de informática utilizando o ambiente Teleduc Ernesto Charles Niklaus e Raimundo Claudio da Silva Vasconcelos ..............................................................41 Sistema de visualização de documentos via internet Helder de Andrade Freitas e Raimundo Claudio da Silva Vasconcelos ............................................................. 59 A filosofia política de Norberto Bobbio José Jair Ferraretto e Samuel Antonio Merbach de Oliveira.71 O impacto da globalização na gestão administrativa Hugolino de Sena Batista, Vinícius Rodrigues da Costa, João Victor Bevilacqua, Milena Jacobsen Pelizari Pinto e Luciana Ferreira Baptista........................................................ 81 Educação: reprodução ou transformação? Eduardo Tadeu Pereira, José Renato Polli e Sidnei Ferreira de Vares ................................................................... 89 Tendências a serem monitoradas na área de tecnologia da informação e comunicações Vivaldo José Breternitz ............................................. 103 Desenvolvimento de software com metodologia Praxis auxiliada pela ferramenta Case Rational Rose André Fernando Tetto e Peter Jandl Junior ................. 115 Gerenciamento de dados do Censo 2000 utilizando o SPSS Jose Milton Sanches e Haroldo Santos Sanches ........ 131 Normas para apresentação de originais....................145 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 7 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 8 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 UM ENSAIO SOBRE O DESLOCAMENTO DO CAPITALISMO FACE AOS PROJETOS DE RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL EMPRESARIAL (RSE) Carlos Henrique Pellegrini* Basta um sonho para que mudemos toda uma história. Todas as grandes revoluções nasceram de um sonho. A priorização da responsabilidade socioambiental nas organizações já é mais que um sonho. O capitalismo está se deslocando! RESUMO No início do século XX, a gestão organizacional era baseada nas escolas clássicas de Taylor, Fayol e Weber que buscavam de maneira geral criar uma organização que atingisse seu objetivo de forma eficiente. Taylor na área da análise do trabalho, Fayol na administração e controle e Weber na análise do contexto socioambiental e os princípios que fundamentam as organizações (MAXIMINIANO, 2000). A indústria experimentava um grande crescimento e aí começaram os primeiros trabalhos sobre os efeitos da poluição socioambiental gerada pelas minas e fábricas, sob o enfoque da saúde dos trabalhadores. É nesse ambiente que se criou condição para o surgimento de uma nova visão das organizações; a escola das relações humanas onde as organizações não poderiam ser apenas máquinas como na escola clássica, e os sistemas sociais têm tanta ou mais influência sobre o desempenho da organização do que seu sistema técnico. Nesse sistema o ser humano é a medida de tudo. É nessa época que surge a preocupação que liga capitalismo, responsabilidade socioambiental e cultura organizacional (TACHIZAWA, 2002). Palavras-chave: Capitalismo, competitividade, sociedade, meio ambiente, administração, gestão, organizações, produtividade. ABSTRACT At the beginning of the 20th century, administrative organization was based on the classic schools of Taylor, Fayol and Weber which generally sought to create an organizational structure that could efficiently reach its objectives. Taylor theorized in labor analysis; Fayol worked in administration and control; and Weber handled the social-environmental analysis of context and foundational principals of the organizations. (MAXIMINIANO, 2000) Industry was undergoing remarkable growth and so began the first studies on the effects of social environmental pollution produced by mines and factories, through the vintage point of worker health. In this setting, conditions for a new vision of organizations, schools of human relations, were formed in which the organizations could no longer be mere mechanisms, as in the classic school, and in which the social systems had as much or more influence over the outcome of the organization as its technical ·Mestre em Administração – PUC / SP. Aluno especial e doutorando FEA USP/SP, Engenheiro e Administrador. Professor titular nas FEAs UNIANCHIETA, PUC/SP, UNIP/Jundiaí. Pós-graduado em Engenharia Econômica (USJT) e Gestão Socioambiental na FEA USP/SP. Diretor Operacional da Maxirecur Consulting e membro de [email protected] www.maxirecur.com.br diretoriaseconselhosdediversasempresasprivadas. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 9 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 system. In the new system, the human being is the measure of everything. It is at this time that concern connecting capitalism, social-environmental responsibility and organizational culture arises. (TACHIZAWA, 2000) Key words: Capitalism, Competitiveness, Society, Natural Environment, Administration, Management, Organizations, Productivity. HISTÓRICO SOCIOAMBIENTAL NAS ORGANIZAÇÕES Até a década de 60 do século XX, permanece a idéia de que as fontes de recursos naturais seriam inesgotáveis e que o livre mercado maximizaria o bemestar socioambiental. Como a gestão da economia era baseada em recursos escassos e a natureza não se encontrava nesta classificação, esta última era irrelevante. Contrapondo-se a isso, o Clube de Roma divulga um relatório com grande repercussão intitulado “Limites do Crescimento”, no qual são feitas projeções de esgotamento dos recursos naturais na Terra. Já nas décadas de 70 e 80, ocorreram grandes acidentes nas indústrias químicas e petroquímicas como: contaminação da Baía de Minamata, acidente com o petroleiro Exxon Valdez no Alasca, o acidente de Bophal na Índia, o acidente em Seveso, na Itália, e acidente de Tchernobyl na União Soviética (MOURA, 2002), todos com grandes impactos ambientais ao ar, solo, água, flora, fauna, recursos naturais e pessoas. E também com grandes impactos sociais: morte, destruição, comunidades sem meio de vida, com problemas de saúde e sem alimentos. Em 1972 também ocorreu a Conferência de Estocolmo das Nações Unidas para o Meio Ambiente com a conclusão de que o mundo teria de conciliar atividade econômica com a conservação do meio ambiente. Parece que o modelo conceitual do mundo, fruto de uma visão cartesiana, mecanicista, reducionista forjada em 300 anos de Revolução Científica e Industrial estava sendo questionado. A natureza, sistêmica, complexa, não linear pedia um novo paradigma para ser compreendida: orgânico, holístico, integrador (ALMEIDA, 2002). Em 1987 é publicado o relatório Brundtland onde a expressão desenvolvimento sustentável aparece e fica cada vez mais claro que os problemas ambientais estão profundamente ligados aos problemas econômicos e sociais (ALMEIDA, 2002). Preocupadas em dar uma resposta à sociedade pelos vários acidentes protagonizados, as indústrias químicas lançam o Programa de Atuação Responsável, apoiado na melhoria do desempenho da indústria e na comunicação com as comunidades vizinhas às fábricas e sociedade. As idéias do Programa começaram a ser geradas na década de 70 no Canadá e foram sendo adotadas aos poucos até o final da década de 80 e início de 90 no caso brasileiro. A atuação responsável ajudou a melhorar o desempenho das indústrias químicas. Entre 1990 e 1996 as emissões de substâncias tóxicas pelas indústrias do setor nos Estados Unidos caíram 60%, enquanto a produção crescia 20%. Na década de 90 houve um grande impulso com relação à consciência socioambiental. É realizada a conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambi- 10 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ente e o Desenvolvimento, a Rio 92. Produziu-se a Agenda 21, um plano de ação para implantar as decisões da conferência, e o documento Declaração do Rio sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento com recomendações para preservar o meio ambiente que se juntando à Declaração dos direitos humanos aprovada pela ONU em 1948 são uma declaração de valores acordados entre os povos. A gestão socioambiental ganha a norma britânica BS 7750 lançada em 1992 que vai ser a base da ISO 14000 lançada em 1996. A ISO (International Organization for Standardization), visando a atender a todos os tipos e partes da organização, criou a família de normas ISO 14000. O conjunto de normas abrange cinco áreas: Sistema de Gestão Socioambiental, Auditoria Socioambiental, Avaliação de Desempenho Socioambiental, Avaliação do Ciclo de Vida e Rotulagem Socioambiental. Em meados de 1990, a pedido da ONU, foi criada uma comissão de empresários, com a responsabilidade de formular uma perspectiva global sobre desenvolvimento sustentável do ponto de vista dos empresários para ser apresentada na Conferência da ONU para 1992, a Rio 92. Nessa época, foi o criado o BCSD (Business Council for Sustainable Development). Em 1992 esse grupo publica um livro-relatório: “Mudando o rumo: uma perspectiva empresarial global sobre desenvolvimento e meio ambiente”, que postula que o controle socioambiental é estratégico e deve ser visto como vantagem competitiva. Essa publicação faz com que o mundo passe a ser visto de uma forma tripolar: governo, sociedade e empresa. Três anos depois é criado o WBCSD (World Business Council for Sustainable Development), que hoje conta com empresas que representam aproximadamente 20% do PIB mundial. Em 1997 foi criado o CBDS (Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável), que tem a missão de ajudar os empresários brasileiros a se adaptar ao novo paradigma da sustentabilidade, que já engloba as dimensões socioambiental e econômica. A forma de quantificar a sustentabilidade de uma empresa é muito vasta e complexa e não é escopo deste artigo. São raríssimos – se é que existem – os casos de organizações que atendam integralmente os princípios de Desenvolvimento Sustentável, meçam os indicadores correspondentes e relatem seu desempenho com tal abrangência (FURTADO, 2003). Para simplificar poderemos considerar que a meta da Gestão Socioambiental seria conseguida com a prática da eco-eficiência e a busca da qualidade de vida dos stakeholders. A eco-eficiência é a uma estratégia gerencial que combina desempenho socioambiental e econômico. Possibilita processos de produção mais eficientes e a criação de melhores produtos e serviços, ao mesmo tempo em que reduz o uso de recursos, a geração de resíduos e a poluição socioambiental ao longo de toda a cadeia de valor (SCHMIDHEINY, 2002). Ela também pode ser considerada como o “grau de eficiência com que recursos são usados para atender às necessidades humanas” (OCDE, 1998). Ela é Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 11 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 definida como o índice obtido pela divisão do output (o valor dos produtos e serviços produzidos por uma empresa, por um setor ou pela economia como um todo ) pelo input (a soma das pressões ambientais geradas pela empresa, pelo setor ou pela economia como um todo). Ou, simplificando mais ainda: fazer mais com menos. Na virada do século XX as empresas, em plena globalização, na sua luta pela sobrevivência no curto prazo, terminam o século buscando produtividade e competitividade. Por outro lado a realidade socioambiental mostra um quadro desolador: segundo o relatório da United Nations Conference on Trade and Development (Unctad) de 1997, nas últimas três décadas, a concentração de renda aumentou dramaticamente no planeta, desequilibrando profundamente a relação lucros e salários. No entanto, esses lucros mais elevados não estão levando a maiores investimentos: cada vez mais, são desviados para atividades de intermediação especulativa, particularmente na área das finanças. Hoje, cerca de 80% da população do mundo concentra-se nos países em desenvolvimento e sobrevive com 20% dos recursos planetários (SCHMIDHEINY, 2002). O sistema atual joga milhões no desemprego, dilapida o meio ambiente e remunera mais os especuladores que os produtores (DOWBOR, 2002). Para Barrett (1998), o interesse próprio e a busca obsessiva de acumulação de riquezas estão no âmago da crise atual. E para promover o advento da sociedade sustentável, é preciso urgentemente uma ética universal que transcenda todos os outros sistemas de crenças e alianças, um tipo de síntese da consciência humana, completamente ciente da interdependência e raridade de todas as formas de vida para nos guiar em nossos esforços, para realizar as mudanças (RATTNER, 1999). E, portanto, conceitos como ética, responsabilidade socioambiental e desenvolvimento sustentável assumem um papel cada vez mais relevante nas estratégias das organizações. O papel do setor privado, segundo alguns de seus representantes, não se restringe mais à geração de riqueza, devendo contemplar também a dimensão socioambiental. Com efeito, um dos pontos mais enfatizados na recente literatura da responsabilidade empresarial é a substituição da análise restrita dos stockholders, focada anteriormente apenas no compromisso da organização com seus acionistas e funcionários. O contato socioambiental entre a organização e a sociedade deve estar baseado na legitimação dos diversos stakeholders, isto é, todas as partes interessadas direta ou indiretamente, afetadas pela atividade da empresa (DEMAJOROVIC, 2000). VALORES ORGANIZACIONAIS NA GESTÃO COM RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL O estudo dos valores aparece, muitas vezes, juntamente com o estudo da ética, já que os valores são a base dos códigos de ética. A ética pode ser definida como a disciplina ou campo do conhecimento que trata da definição e avaliação do comportamento de pessoas e organizações (MAXIMINIANO, 2000). 12 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Ao se estudarem as organizações, a ética e os valores estão associados com a cultura organizacional. Segundo Fleury (1989), pode-se entender cultura organizacional como um conjunto de valores e pressupostos básicos, expresso em elementos simbólicos, que, em sua capacidade de ordenar, atribuir significações, construir a identidade organizacional, tanto agem como elemento de comunicação e consenso como ocultam e instrumentalizam as relações de dominação. Schein (1985) complementa esta definição com a proposição de três diferentes níveis através dos quais a cultura de uma organização pode ser apreendida: n Nível dos artefatos visíveis: é representado pelos elementos concretos e visíveisdeuma organização: selayout, u o comportamento e vestuário das pessoas, rituais, mitos organizacionais, assim como crença expressa em documentos. Estes artefatos são geralmente fáceis de serem percebidos, mas difíceis de serem interpretados; n Nível dos valores compartilhados: esses valores expressam o que as pessoas reportam ser a razão de seu comportamento, o que na maioria das vezes são idealizações ou racionalizações. As razões subjacentes ao seu comportamento permanecem escondidas ou inconscientes; n Nível dos pressupostos básicos: normalmente inconscientes, determinam como os membros do grupo percebem, pensam e sentem. À medida que certos valores compartilhados pelo grupo conduzem a determinados comportamentos e esses comportamentos se mostram adequados para solucionar problemas, o valor é gradualmente transformado em um pressuposto inconsciente de como as coisas realmente são. A apresentação dos três níveis da cultura organizacional proposta por Schein (1985) já apresenta uma definição de valores, que compreendem o segundo e o terceiro nível da cultura. O terceiro nível – dos pressupostos básicos – compreende valores que foram profundamente enraizados na cultura da organização. Esses valores são mais difíceis de serem diagnosticados, pois já se encontram no inconsciente das pessoas e deixam de ser percebidos por elas. Os valores compartilhados – segundo nível da classificação – são mais fáceis de serem diagnosticados, pois fazem parte da crença das pessoas. Tamayo e Gondim (1996) fazem uma referência a esta classificação de valores como sendo inerentes aos indivíduos, e apresentam uma segunda categoria: os valores organizacionais, que tratam de “princípios e crenças que, segundo os membros da organização, orientam seu funcionamento e sua vida”. Por exemplo, “uma empresa pode ser descrita como norteada por valores referentes aos aspectos técnico e tecnológico, ao passo que outra é percebida como enfatizado o extremo oposto, ou seja, centrando suas preocupações principalmente no bem-estar dos indivíduos que a compõem” (TAMAYO; GONDIM, op. cit.). Os valores individuais – que compreendem grande parte dos estudos sobre valores – se diferenciam dos valores organizacionais na medida em que aqueles Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 13 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 são crenças de cada um dos indivíduos e estes são valores que embora um indivíduo possa não concordar, pessoalmente, verifica como sendo um valor da organização em que trabalha. Para os autores, “quase todo empregado é capaz de detectar diferenças nos valores que dominam em determinadas organizações e que determinam seu clima e sua cultura organizacional”. Os valores organizacionais não devem ser confundidos com os valores pessoais dos membros da organização, nem com os que eles gostariam que existissem na empresa. Uma característica bastante importante dos valores organizacionais, no que diz respeito ao presente estudo, é sua organização em uma hierarquia de valores. Os valores podem ser definidos como princípios ou crenças organizados hierarquicamente, relativos a tipos de estrutura ou a modelos de comportamento desejáveis que orientam a vida da empresa e estão a serviço de interesses individuais, coletivos ou mistos. Nem toda crença constitui um valor: somente aquelas que são enfatizadas. Obviamente, as crenças que estabelecem os valores estão em interação entre si e com outras crenças, de forma a compor um sistema de valores complexo e organizado hierarquicamente. Para Rokeach (1968), um sistema de valores é uma disposição hierárquica de valores, uma classificação ordenada de valores ao longo de um continuum de importância. Os valores organizacionais implicam necessariamente preferência, distinção entre o importante e o secundário, entre o que tem valor e o que não tem. A idéia de graus de valor encontra sua base na relação dos valores com o tempo, elemento fundamental para o seu desenvolvimento, com a missão e os objetivos da empresa, cuja especificidade e importância organizacional impõem uma ordem de primazia, e com o esforço realizado pela empresa e pelos seus membros para a obtenção das metas propostas. O gerenciamento dos valores organizacionais passa por um processo obrigatório de diagnóstico. Schein (1989) e Davis (1984) ressaltam a importância da análise e gerenciamento da cultura organizacional para os processos de mudança na organização. Em outras palavras, os processos de mudança organizacional devem passar por diagnóstico e gerenciamento da cultura da empresa, e com parte da cultura, de seus valores. Pettigrew (1986) também ressalta esta relação entre o processo de mudança e a cultura organizacional, acrescentando que o gerenciamento da cultura é um processo que envolve dimensões intangíveis, e, por isso, é de elevada complexidade; contudo, seu gerenciamento é possível com o uso de metodologias adequadas. Uma dessas metodologias foi descrita por Shinyashiki (1995): o processo utilizado pela consultoria de alta gestão McKinsey & Co. para gerenciar a cultura organizacional. Este processo é composto pelas seguintes etapas: n Identificar que tipo de cultura é necessário; n Avaliar a cultura existente para determinar os “gaps”; n Decidir como preencher os “gaps”; 14 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 n Repetir periodicamente o processo. Em uma correlação com os valores organizacionais, um processo completo de gerenciamento envolveria a identificação dos valores que caracterizam a empresa hoje e sua comparação com os valores organizacionais que seriam ideais, de acordo com as metas da empresa. Neste estudo, foi desenvolvida a primeira parte deste processo: o diagnóstico dos valores atuais. O diagnóstico de valores ideais não foi apresentado por não fazer parte do enfoque proposto: relacionar os valores organizacionais que já existem em uma empresa que executa projetos de gestão com responsabilidade socioambiental. A IMPORTÂNCIA D O S VALORES ORGANIZACIONAIS NA G E S T Ã O SOCIOAMBIENTAL A responsabilidade socioambiental pode ser definida como “o dever ou obrigação da organização para responder – perante todas as partes interessadas – pelas conseqüências ou impactos sociais e ambientais causados por seus produtos, serviçoseatividadesintroduzidosnoambientepúblico FURTADO, ”( 2003). O termo “socioambiental” pode, portanto, ser justificado pela união das conseqüências sociais e ambientais causadas pelas empresas: pobreza, saúde, segurança, criminalidade, abrigo, alimentação, entre outros eventos, são questões sociais intimamente associadas às ações humanas resultantes do uso do meio físico e biológico e vice-versa. Uma empresa com Gestão com Responsabilidade Socioambiental (RSA) deverá gerir seu negócio de forma que atenda ou ultrapasse as expectativas éticas, públicas, legais e comerciais, em relação a aspectos ou questões sociais e ambientais envolvidos nos processos produtivos de bens e serviços. Ela também deve respeitar os interesses das partes ou grupos, que afetam ou são afetados pelos negócios ou atividades da organização, abrangendo: proprietários, acionistas e investidores (stockholder) e demais interessados (stakeholders), como trabalhadores, suas famílias, comunidade na vizinhança ou entorno, contratados, fornecedores, distribuidores, consumidores, concorrentes, outros agentes econômico-financeiros, governo e sociedade em geral. A adoção da gestão socioambiental passa por uma mudança no Planejamento Estratégico da empresa e pela elaboração e disseminação de normas que estabeleçam seu escopo na organização. Furtado (op. cit.) define que, para atuar com responsabilidade socioambiental (RSA), é preciso conhecer o eixo central de atividade ou negócio da organização e reconhecer e identificar as expectativas dos acionistas (shareholders) e das demais partes interessadas (stakeholders). Devese integrar a RSA com a missão da organização, definir valores socioambientais, princípios, indicadores de desempenho e formalização da política específica pela alta administração. Dessa forma, o levantamento dos valores organizacionais está intimamente Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 15 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ligado à capacidade da empresa em atuar com RSA. Eles estão além das próprias normas definidas pela empresa, e constituem uma espécie de ideologia – as normas da organização estão enraizadas nos valores, e podem ser consideradas até mesmo como operacionalização destes (TAMAYO; GONDIM, 1996). As normas definem explicitamente as formas de comportamento esperadas dos membros de uma organização e os valores proporcionam uma justificação mais elaborada e generalizada, tanto para o comportamento apropriado como para as atividades e funções do sistema. E além do mais, os valores, como parte da cultura organizacional, estão significantemente associados ao desempenho organizacional, conforme os estudos de Santos (2000). Nos países desenvolvidos, os principais estímulos à prática da Responsabilidade Socioambiental originam-se do mercado, caracterizado por demandas de consumidores, pressões de ONGs, regulamentação, organizações indexadoras com influência no mercado de ações e exigências de investidores, especialmente os fundos éticos. Estes últimos aumentaram de 168 (1999) para 230 (2001). No Brasil, ainda, as motivações para a Responsabilidade Socioambiental vêm da mídia (FURTADO, op. cit.). Uma questão importante é que a RSA não está voltada a ações paternalistas e nem filantrópicas. A visão é de que a RSA é um processo contínuo de comportamento responsável, voltado para a melhoria da qualidade de vida e o desenvolvimento sustentável. A implantação desse conceito na empresa deverá ser assumida pela alta administração.Mas todos ostakeholders s precisarão ser envolvidos. E no limite, Barrett (1998) afirma até mesmo que, “para uma empresa ter sucesso a longo prazo, ela deve tornar-se uma entidade viva e autônoma que reflita os valores coletivos de todos os empregados”. APRENDIZAGEM SOCIOAMBIENTAL NAS ORGANIZAÇÕES A forma com que as empresas lidam com seu conhecimento e gerenciam o processo de aprendizagem na construção de capacidades organizacionais são grandes fontes de vantagem competitiva, na medida em que as tornam capazes e detentoras do know-how necessário para operarem e produzirem os produtos desejados. Ser capaz de alguma coisa é ter o conjunto de habilidades necessárias para realizar algo de maneira eficiente, fluida e sem surpresas e melhor do que os concorrentes. Uma empresa capaz realiza suas operações sem mudanças drásticas ou interrupções, visto que a maioria das situações é resolvida da maneira como sempre foi. “As capacidades organizacionais preenchem a lacuna entre intenção e resultado, de maneira que o resultado corresponde àquilo que foi intencionado.” (DOSI; NELSON; WINTER, 2000). A aplicação produtiva do conhecimento e seu processo de acumulação nas práticas administrativas ocorrem em sua forma mais eficiente durante a execução das rotinas organizacionais. O conceito de rotina foi popularizado na Teoria Organizacional por Simon (1945), March e Simon (1958) e, principalmente, Cyert e 16 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 March (1963). No campo da estratégia foi definido originalmente por Nelson e Winter (1982). Na visão dos autores, o pressuposto de perfeita racionalidade, defendido pela Teoria Neoclássica, é questionado na medida em que os indivíduos tentam ser racionais mas não conseguem. Ou seja, além de possuírem racionalidade limitada (SIMON, 1945) – pela falta de informações sobre todas as opções disponíveis que torna o processo de decisão mais direcionado à “satisfação” das necessidades do decisor do que a “maximização” das opções – o insucesso da racionalidade perfeita é causado por restrições cognitivas do decisor ao desconsiderar opções alternativas às quais não está habituado. “[...] existe uma grande diferença entre a situação de o decisor estar incerto sobre o resultado da opção X e a situação na qual o decisor nem ao menos considerou, ou pensou a respeito, se a opção X é importante ou não” (NELSON; WINTER, 1982). A restrição cognitiva causada pelo hábito fundamenta a ação organizacional através da performance de rotinas. No dia-a-dia de trabalho, os indivíduos interagem utilizando uma linguagem simbólica que permite compartilhar significados sobre o trabalho realizado, instituindo o que se considera “normal”, legítimo ou em conformidade com o que é aceito pelo grupo. Como resultado, em vez de maximizarem ou satisfazerem sua função utilidade, os indivíduos procuram conformidade com o grupo. Nesse sentido, rotina organizacional pode ser entendida como o modo “como as coisas são feitas por aqui”. Para Teece, Pisano e Schuen (1997), rotinas “são padrões de interação que representam soluções de sucesso para problemas específicos [...] que se encontram enraizadas no comportamento do grupo”. É importante deixar claro as características do tipo de decisão que se enquadra no conceito de rotinas organizacionais. Segundo Nelson e Winter (1982), todas as decisões que são regulares e freqüentes, que utilizam formas habituais de resolução de problemas cujos resultados são relativamente fáceis de serem previstos, que são processadas pela empresa de maneira fluida e não drástica e que não são encaradas como surpresa constituem-se em rotinas organizacionais. As rotinas podem ocorrer em todos os níveis da organização, desde o operacional até o nível estratégico. Contudo, é óbvio que nem todas as decisões organizacionais se enquadram como rotina. Principalmente em situações de crise e/ou quando a empresa não está preparada, ou enfrenta problemas complexos cujos resultados são altamente imprevisíveis, irregulares, percebidos pela empresa como uma surpresa ou situação nova, as decisões exigem um grande esforço de atenção e deliberação. Ao longo de sua história, a empresa acumula conhecimento e desenvolve heurísticas que se institucionalizam nas rotinas da empresa, restringindo cognitivamente futuras decisões. Por exemplo, em um processo decisório deliberativo e consciente, o portfólio de alternativas apresenta-se filtrado pela cognição compartilhada dos decisores, bem como o processo de avaliação e escolha da alternativa é influenciado pela cultura da empresa, pelos outros atores ambientais e pela dependência de recursos com o ambiente (DOSI; NELSON; WINTER, 2000). Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 17 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 O CONHECIMENTO E A INÉRCIA ORGANIZACIONAL NAS MUDANÇAS SOCIOAMBIENTAIS A mudança organizacional é considerada um processo que requer a superação de uma carga significativa de inércia organizacional. Mais detalhadamente, dentre as características que conferem inércia às empresas e que dificultam a mudança, podem-se citar: a) a característica evolutiva do processo de aprendizagem e do processo de estabilização das novas rotinas; b) a alta carga de conhecimento tácito na operação das rotinas; e c) as opções de novos desenvolvimentos e investimentos, que em determinado momento do tempo são fortemente influenciadas pelas escolhas feitas no passado (path-dependency). Antes que se analise cada característica acima, é necessário salientar que serão adotados os pressupostos de Teece, Pisano e Schuen (1997) para descrever as organizações. Os autores salientam que as atividades da organização ocorrem em um ambiente onde padrões de comportamento e aprendizado são descentralizados, porém com uma supervisão central. Nesse contexto, o aprendizado organizacional é um processo evolutivo, cujo conhecimento gerado tem uma característica “aderente” (sticky), e ocorre, principalmente, durante a execução e estabilização das rotinas organizacionais. Uma vez estabilizadas, as rotinas impregnam as práticas administrativas com conhecimento tácito e procedimentos automáticos que tornam quase impossível aos indivíduos a percepção de novas possibilidades e a identificação das causas do seu sucesso ou de problemas (causal ambiguity). Com relação à inércia organizacional, Cohen e Bacdayan (1994) salientam que a dificuldade de mudança nas rotinas, quando existe conhecimento armazenado em memória procedimental, deve-se às seguintes características: a) o esquecimento, devido ao passar do tempo, é baixo, tornando-se difícil a introdução de novas rotinas; b) a baixa acessibilidade ao investigar as rotinas e determinar as suas causas de sucesso e/ou falha; e c) a dificuldade de transferir códigos registrados procedimentalmente para outros contextos. Em suma, devido às características evolutivas do aprendizado organizacional e à característica “aderente” do conhecimento organizacional, para que novas rotinas se estabilizem e novas habilidades organizacionais sejam institucionalizadas (takenfor-granted) é necessário um período considerável de tempo (DIERICKX; COOL, 1989). GESTÃO DO CONHECIMENTO E APLICAÇÃO DOS PROJETOS SOCIOAMBIENTAIS A partir do pano de fundo teórico exposto nas seções anteriores, duas dimensões devem ser consideradas na gestão do conhecimento em um processo de mudança organizacional com vistas à implantação de processos socioambientalmente responsáveis: a) grau de presença da variável socioambiental nas práticas organizacionais; e b) grau de institucionalização das práticas 18 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 organizacionais. A seguir detalham-se as características de cada dimensão. O grau de presença da variável socioambiental nas práticas organizacionais refere-se ao conhecimento explícito sobre a variável socioambiental que foi acumulado ao longo da história da empresa. Se tal conhecimento explícito for alto, isso é indício de que a empresa tem experimentado a responsabilidade socioambiental, seja por força da Lei, seja por imposição mercadológica. A presença da variável socioambiental se manifestará nos manuais de procedimentos, formalmente determinados, ou por meio do conhecimento explícito, declarado pelos indivíduos, sobre as atividades previstas pelas normas ambientais. Por outro lado, se a empresa teve nenhum ou pouco contato com práticas e procedimentos adequados às normas, não acumulou conhecimento sobre a variável socioambiental e sua presença não será evidenciada nas práticas. Isso significa que não seria possível encontrar posturas socioambientalmente responsáveis nas práticas organizacionais. A outra dimensão, o grau de institucionalização das rotinas organizacionais, diz respeito ao compartilhamento sobre o significado do trabalho realizado. Se o grau de institucionalização for alto e os significados plenamente compartilhados, significa que as práticas organizacionais assumem características próximas às das rotinas organizacionais, sejam no sentido estrito do conceito ou no amplo, como é o caso das heurísticas. Nesse caso, a organização, ou um grupo, opera de maneira fluida, aplicando produtiva e eficientemente o conhecimento acumulado e aprendido através do exercício das suas habilidades. Em caso contrário, para um grupo com baixo grau de institucionalização das rotinas organizacionais, o significado que os indivíduos atribuem para a natureza e o conteúdo das suas atividades não está plenamente compartilhado. Nessa situação, as operações não ocorrem de maneira fluida, visto que cada atividade requer um esforço de atenção e de deliberação, incorrendo em interrupções na execução de suas atividades. As duas dimensões se cruzam para formar uma matriz com quatro quadrantes, denominada neste trabalho matriz da gestão socioambiental e do conhecimento organizacional (Matriz GAC). O diagnóstico de um grupo, ou organização, mensurando-se as duas dimensões, deve situá-lo em um dos quatro quadrantes da figura 1: Figura 1: Matriz GAC Grau de presença da variável Quadrante II Quadrante I Quadrante III Quadrante IV Grau de institucionalização O quadrante I significa que a organização ou grupo em análise possui uma operação fluida e sem interrupções. Seus indivíduos têm uma visão compartilhada do trabalho a ser feito, interpretam as interações de maneira semelhante, execu- Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 19 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 tam de maneira quase automática seus procedimentos e possuem heurísticas e estratégias conhecidas por todos. Ademais, a variável socioambiental está presente fortemente nas operações. O quadrante I representa a melhor situação para os gestores da empresa e é o estado ideal, meta para o processo de mudança organizacional, na medida em que o grupo já possui os comportamentos previstos nas normas ambientais, institucionalizados em seu portfólio. O quadrante II representa a situação com o melhor potencial para que a organização ou grupo em análise mova-se na direção do quadrante I, principalmente porque a variável socioambiental já está fortemente presente. O fato de que as rotinas do departamento não estejam institucionalizadas constitui-se em vantagem, pois a inércia organizacional é menor. Em outras palavras, o esforço gerencial deve ser no sentido de fomentar a interação, a comunicação, o treinamento das atividades atuais, para que as rotinas se estabilizem e as práticas de responsabilidade socioambiental sejam consolidadas. Caso a organização ou o grupo em análise estejam situados no quadrante III, a mudança na direção do quadrante I necessita de maior esforço gerencial. Como as duas dimensões estão baixas, as estratégias de intervenção devem atuar no sentido de incorporar o conhecimento sobre a variável socioambiental e fomentar a sua institucionalização nas rotinas organizacionais do grupo. Finalmente, a pior situação reside no quadrante IV. Nesse caso, a inércia organizacional é grande, visto que as rotinas estão estabilizadas, e isso diminui a probabilidade de os indivíduos se aperceberem e incorporarem a variável socioambiental em suas atividades. Necessariamente, o movimento para o quadrante I passa pelo quadrante II, em um processo de reaprendizado das práticas atuais. O esforço gerencial é triplo: a) colocar as habilidades atualmente institucionalizadas em desuso, ou combinar as habilidades atuais de forma diferente para incorporar os requisitos da mudança; b) aumentar o grau de presença da variável socioambiental; e c) fomentar a nova institucionalização. Como conseqüência dessa mudança, necessariamente haverá perdas de eficiência, na medida em que os indivíduos alocaram maiores esforços de atenção para as novas deliberações acerca de suas atividades que surgirão em função das novas exigências. Um longo período de tempo será necessário até que se forme um novo esquema cognitivo compartilhado pelo grupo. A estratégia mais eficiente para a mudança, nesse caso, consiste na recombinação das habilidades atuais que possibilitam o reaprendizado de novas habilidades de maneira mais rápida quando comparado ao aprendizado de algo totalmente novo (KOGUT; ZANDER, 1992). As estratégias a serem utilizadas pelos gerentes para a condução da mudança organizacional na direção do quadrante I encontram semelhanças na tipologia de conversão do conhecimento proposto por Nonaka e Takeuchi (1995). Segundo os autores, a transformação do conhecimento entre tácito e explícito ocorre de quatro formas: a) de tácito para explícito: externalização; b) de tácito para tácito: socioambientalização; c) de explícito para explícito: combinação; e d) de explícito 20 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 para tácito: internalização. Figura 2: Quatro modelos de conversão do conhecimento Fonte: Nonaka e Takeuchi (1995) Conhecimento tácito de Conhecimento explícito Conhecimento tácito para Conhecimento explícito Socioambientalização Externalização Internalização Combinação A figura a seguir sintetiza os possíveis resultados da aplicação da ferramenta para diagnosticar um grupo ou organização, em um determinado instante de tempo, e relaciona as estratégias de intervenção mais adequadas para minimizar os esforços dos administradores em posicionar a empresa no quadrante I, utilizando as quatro possibilidades propostas por Nonaka e Takeuchi (1995). Figura 3: Síntese dos resultados da aplicação da ferramenta: diagnóstico e prescrição Diagnóstico Trajetória Quadrante I Manter-se no quadrante Esforço Estratégias de mudança gerencial Reduzido Reforçar as interações entre os indivíduos. Quadrante II II para I Baixo Quadrante III III para I Médio Internalização: conhecimento explícito para conhecimento tácito. Disseminar um esquema cognitivo compartilhado sobre o trabalho a ser executado. Fomentar as interações entre Articulação: conhecimento tácito para conhecimento explícito. Esclarecer quais os novos procedimentos e como eles deveriam Articulação: conhecimento tácito para conhecimento Quadrante IV III para II para I Alto explícito. Reaprendizado de novas práticas através da recombinação das habilidades atuais, reconfigurando as novas rotinas organizacionais. Estratégias da trajetória III para I. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 21 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Finalmente, é importante ressaltar que a eficiência das estratégias de mudança é função da capacidade de os gerentes liderarem o processo, principalmente das suas competências em: a) reconhecerem as habilidades que podem ser recombinadas (quadrante IV); b) arquitetarem a estrutura adequada para aumentar a interação entre os indivíduos e a criação dos sistemas de recompensa (quadrante II e III); e c) comunicarem claramente o conteúdo declarativo e procedimental das novas normas (quadrante III). A próxima seção apresenta as principais considerações metodológicas para a operacionalização da Matriz GAC em um estudo de caso. RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL EMPRESARIAL NA ÓPTICA DO CAPITALISMO A Responsabilidade Socioambiental Empresarial – RSE é um tema que tem sido amplamente debatido nos últimos anos, no Brasil, e nas duas últimas décadas, no mundo. Mas, o que significa? Qual é a explicação para a propagação do conceito e disseminação desta prática? Como se justifica este movimento? Encontramos na obra “O Novo Espírito do Capitalismo”, de Luc Boltanski e Ève Chiapello (1999), um caminho para responder esta questão. Sucintamente, a obra fornece um ferramental de análise das transformações do capitalismo, sem a pretensão de generalizar para todo o mundo, uma vez que os autores utilizam o caso da França como estudo. A análise é de ordem pragmática, levando em consideração as diferentes maneiras como as pessoas se comprometem na ação, suas justificações e o sentido que dão a seus atos. Os autores procuram esclarecer as relações que se estabelecem entre o capitalismo e suas críticas e, principalmente, o surgimento de novas representações da sociedade, das formas de colocar à prova as pessoas e as coisas e, em conseqüência, as novas formas de sucesso ou fracasso. Para aprofundarmos a discussão sobre o “Novo Espírito”, necessário se faz entender a gênese do conceito de “Espírito do Capitalismo”, em Max Weber. Assim, na segunda parte do trabalho apresentamos alguns pontos de Weber sobre o capitalismo e seu “Espírito”, entendido como a ideologia que justifica e possibilita o primeiro. A seguir, apresentamos e discutimos as idéias de Boltanski e Chiapello, autores contemporâneos que estendem a análise weberiana, buscando interpretar a RSE a partir de seu modelo. O conceito de responsabilidade socioambiental não é novo. A preocupação com o tema remonta aos anos 50, quando as conseqüências da expansão da indústria já se faziam sentir. Surge, então, como fruto de profundas críticas sociais, éticas e econômicas que as organizações passaram a sofrer ao se verem totalmente envolvidas na economia de mercado. Porém, não se chegou a um consenso sobre seu significado e limites, uma vez que o conceito é amplo, defrontando-se em áreas-limite da ética e da moral (VENTURA, 1999). Nota-se, contudo, uma crescente conscientização de que as organizações 22 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 podem e devem assumir um papel mais amplo dentro da sociedade. Neste trabalho, entendemos Responsabilidade socioambiental como o compromisso que uma organização deve ter para com a sociedade, expresso por meio de atos e atitudes que a afetem positivamente, de modo amplo, ou a alguma comunidade, de modo específico, agindo pró-ativamente e coerentemente no que tange ao seu papel específico na sociedade e à sua prestação de contas para com ela, assumindo, assim, além das obrigações estabelecidas em lei, também obrigações de caráter moral, mesmo que não diretamente vinculadas às suas atividades, mas que possam contribuir para o desenvolvimento sustentável dos povos (VENTURA, 1999; ASHLEY, 2002). Assim, numa visão expandida, responsabilidade socioambiental é toda e qualquer ação que possa contribuir para a melhoria da qualidade de vida da sociedade. Atualmente, raros são os casos de empresários e executivos que ainda desconsiderem totalmente suas responsabilidades sociais. Pode-se dizer que a sensibilidade para os problemas sociais já está institucionalizada. As organizações têm sido pressionadas para se tornarem mais solidárias e chamadas a uma maior participação, abertura e integração com a sociedade, sob a ameaça de serem abandonadas por seus consumidores. Neste sentido, a RSE avança à medida que a globalização acirra a competição entre empresas. Na visão de Cheibub e Locke (2002), RSE implica em ações que vão além da “letra da lei” e em ações não resultantes de negociações políticas com sindicatos ou organizações de trabalhadores. Abaixo reproduzimos um quadro com os modelos existentes na literatura sobre as diferentes formas como as empresas podem se inserir em seu meio socioambiental: Quadro I: Modelos de RSE Fonte: Cheibub; Locke (2002: p.281) Alvo da ação Motivação da ação Instrumental Acionistas / Donos Produtivismo Stakeholders Moral Filantropia Progressista Idealismo ético Segundo os autores, há uma tendência na literatura de se privilegiar a dimensão valorativa da responsabilidade socioambiental (filantropia e idealismo ético), num discurso eminentemente normativo. Para eles, o principal problema com esses modelos e com os argumentos que os sustentam é que eles se concentram na determinação das razões, dos motivos, das conseqüências e dos benefícios da responsabilidade socioambiental e, assim, assumem que todos os outros atores sociais ganham com a adoção da responsabilidade socioambiental. Ou seja, não se considera no debate a dimensão pública/política dessas ações. Dever-se-ia in- Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 23 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 dagar, por exemplo, se e como a responsabilidade socioambiental contribui – ou não – para a garantia dos direitos dos cidadãos estabelecidos na organização da sociedade. O Estado estaria garantindo estes direitos, ou se eximindo, quando permite, ou incentiva, que outros atores sociais também executem ações sociais? Assim, o principal ponto para os autores é que as ações de RSE não têm conseqüências somente para a própria empresa ou para seus beneficiários diretos, mas para a sociedade como um todo, pois podem influir na distribuição de poder político na própria sociedade. Assim, a questão do poder das empresas também não deve ser negligenciada. Para os autores não há, em princípio, base moral e política para que as empresas assumam responsabilidades sociais – no sentido de algo além de suas obrigações legais. Assim, responsabilidade socioambiental não seria uma questão moral, mas sim de interesse econômico das empresas: se trata-se de interesses ou valores, esta questão é política e moralmente irrelevante. Consideram bom, todavia, que as empresas assumam posicionamentos socioambientalmente responsáveis, desde que estejamos atentos para os riscos políticos que podem advir desse movimento. Assim, na visão dos autores, a RSE é uma questão de auto-interesse das empresas, pois mesmo que não seja de seu interesse exclusivo e imediato, é do seu interesse esclarecido e de longo prazo, na medida em que suas ações podem contribuir para o fortalecimento da sociedade civil, tornando-a mais densa e articulada – o que favorece, em última instância, a condução de seus negócios. EXPLICAÇÃO DO MOVIMENTO DE RESPONSABILIDADE SOCIOAMBIENTAL À LUZ DO CAPITALISMO Uma das teorias utilizadas para o entendimento dos processos de institucionalização dos fenômenos organizacionais é a chamada Teoria Institucional. Segundo Vieira e Misoczky (2000), a partir da década de oitenta a perspectiva institucional retomou fôlego na explicação da estruturação das organizações, a partir dos trabalhos de Meyer e Rowan (1977) e de DiMaggio e Powell (1983). Selznick, o precursor dessa abordagem, chamou de “processo de institucionalização” a forma pela qual as expressões racionais da técnica são substituídas por expressões valorativas compartilhadas no ambiente onde a organização opera (VIEIRA; MISOCZKY, 2000). Sucintamente, a abordagem institucional das organizações enfatiza: a) a dependência socioambiental da estrutura organizacional; b) as dimensões política e cultural envolvidas; e c) os efeitos dessas dependências na definição da natureza de organizações mais modernas, particularmente a natureza fluida e complexa de organizações criadas em ambientes altamente institucionalizados (SCOTT; MEYER apud VIEIRA; MISOCZKY, 2000). Assim, a ênfase é colocada no ambiente. A legitimidade e a questão do isomorfismo são fatores considerados vitais para a sobrevivência das organizações. A noção de ambiente, então, evoluiu de um enfoque generalista para um enfoque 24 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 simbólico, acrescentando ao ambiente técnico um sistema simbólico (ambiente institucional), que são os fatores que dão forma à ação organizacional. Os ambientes passam a ser considerados não apenas fonte de recursos e depósito de resultados do processamento das atividades organizacionais, mas um grupo de elementos que fornecem crenças que funcionam como “mitos racionais” (VIEIRA; MISOCZKY, 2000). Na abordagem institucional, as estruturas formais racionalizadas assumem tanto um caráter passivo como também ativo na configuração da realidade socioambiental. Importa identificar o conjunto de valores fundamentais de um determinado contexto que seja formador das práticas organizacionais. Esta teoria leva-nos à seguinte reflexão: como e por que a RSE está se tornando um processo institucionalizado nas empresas? E será que a RSE não estaria se tornando um discurso e uma prática institucionalizada pelo mecanismo de isomorfismo? A resposta à primeira questão vai ser buscada em Boltanski & Chiapello, a seguir. Para a segunda, uma suposição é de que, sob o aspecto coercitivo, as organizações mais fortes forçam as empresas de sua cadeia produtiva a adotar práticas similares às suas, no caso impondo ações que elegem importantes no âmbito da RSE. Sob o aspecto mimético, organizações copiam as práticas de organizações que julgam de ponta, tentando com isso se livrar das incertezas ambientais. Sob o aspecto normativo, a conscientização dos gerentes e a demanda da sociedade civil que cobra uma postura mais responsável e cidadã fazem as ações organizacionais convergirem para ações mais responsáveis, que levem em conta os stakeholders da organização, divulgando e ampliando o movimento pela responsabilidade socioambiental. Disto deriva outra suposição, a de que, em muitos casos, as organizações lançam-se no discurso da responsabilidade socioambiental sem ao menos questionar o que isto significa e sem, verdadeiramente, produzir mudanças reais em suas ações, mas buscando “estampar” aquilo que pode ser divulgado e “condecorado” pela sociedade (e consumidores). A TRANSFORMAÇÃO DO CAPITALISMO A ênfase da obra “Le Nouvel Esprit du Capitalisme”, de Boltanski e Chiapello (1999), é sobre as transformações do espírito do capitalismo nos últimos 30 anos, estudando a passagem do chamado segundo espírito para o terceiro. A título de ilustração, o primeiro espírito se refere ao capitalismo burguês, doméstico, de pequenas empresas familiares que vigorou até o início do século XX, cuja ênfase estava sobre a figura do burguês, do empresário, individualmente. Já o segundo espírito aporta entre os anos 30 e 60, quando o crescimento e burocratização das empresas fez com que a figura do executivo ganhasse espaço e notoriedade na sociedade. A ênfase não é mais no empresário, mas na organização e seus dirigentes, agora diplomados e qualificados. É nesse período que se Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 25 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 alavancam a produção e o consumo em massa, assegurando a referência ao bem comum e justificando tal sistema como propício à justiça socioambiental. O terceiro espírito é aquele das sociedades ditas “em rede”, interconectadas tanto por sistemas informatizados quanto por parcerias e alianças que reconfiguram as relações sociais e laboriais. Para Manuel Castells (2000), a sociedade em rede é uma forma específica de estrutura socioambiental – arranjos organizacionais de homens nas relações de produção, consumo, experiência e poder – característica da Era da Informação. Para ele, os “significados” criam a “cultura” – que é um sistema de valores e crenças que informa códigos de comportamento. O CAPITALISMO EM MAX WEBER Para Max Weber, em sua sociologia compreensiva, não há determinantes para o capitalismo, mas sim condições que possibilitam sua formação. Assim, as ciências sociais só podem compreender, não podem explicar, uma vez que não existe uma relação causa-efeito. A ação socioambiental – como os indivíduos agem - para Weber, é a chave de interpretação da realidade socioambiental. Ela pressupõe uma relação socioambiental entendida como a possibilidade previsível de que determinados indivíduos adotem determinado comportamento. Assim, é orientada pela expectativa de ações e reações dos outros. É imperativo, então, para o autor, compreender quais motivações os indivíduos têm para suas próprias ações. Para ele, o capitalismo não é fundamentalmente um fenômeno econômico, mas é cultural, ou seja, tem a ver com os valores de uma época. Neste sentido, discute em sua obra as características do protestantismo que possibilitaram o desenvolvimento capitalista. Características marcantes deste processo são a mercantilização, pela qual os meios de vida tornam-se mercadorias, e a quantificação, que significa que tudo é calculado em termos de rentabilidade. Em “A Ética protestante e o Espírito do capitalismo”, Weber estuda a relatividade da formação do moderno ethos econômico e sua relação com a ética do protestantismo ascético. Assevera que a “ânsia do lucro” existe em todas as pessoas, independente de sua função, em todos os tempos. Chama de ação econômica “capitalista” aquela que se baseia na expectativa de lucro através da utilização das oportunidades de troca, isto é, nas possibilidades pacíficas de lucro. Tudo é feito em termos de balanço, para a verificação do lucro obtido: “Na medida em que as operações são racionais, toda ação individualmente das partes é baseada em cálculo” (WEBER, 2001, p.5). Nesse mundo, o que importa é a efetiva orientação para um ajustamento dos lucros ao investimento, por mais primitiva que seja a sua forma. Nesse sentido, o empreendimento capitalista existe de longa data e em toda parte. Mas o ocidente desenvolveu uma gama de significados do capitalismo e, o que lhe dá consistência – tipos, formas e direções. O especulador, que Weber chama de aventureiro capitalista, em sua visão também existiu em todas as épocas. Suas atividades eram de caráter puramente irra- 26 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 cional e especulativo. Mas o que o Ocidente veio a conhecer, além disso, foi a singular organização capitalista racional assentada no trabalho livre; pois o cálculo exato – base de todos os demais – só é possível no plano do trabalho livre. Outra peculiaridade do capitalismo ocidental são dois fatores de seu desenvolvimento: a separação da empresa da economia doméstica, contabilmente – contabilidade racional – e espacialmente – separação jurídica dos bens da empresa e do indivíduo. Segundo Weber, o ocidente foi capaz de produzir desenvolvimento universal em seu valor e significado, por meio da ciência. Em todas as áreas do desenvolvimento – química, física, leis, arte – o desenvolvimento do ocidente foi mais racionalizado. E o mesmo acontece com o capitalismo. Assim, a forma peculiar do moderno capitalismo ocidental foi influenciada pelo desenvolvimento das possibilidades técnicas, implicando numa dependência das ciências, principalmente as matemáticas e as ciências exatas. O próprio desenvolvimento de tais ciências e das técnicas nelas baseadas recebem impulso dos interesses capitalistas ligados à sua aplicação prática na economia. Nesse sentido, uma das realizações específicas do protestantismo é ter colocado a ciência a serviço da técnica e da economia (WEBER, 1942, p.309). Assim, a utilização técnica dos conhecimentos científicos foi encorajada dadas as características da organização socioambiental do ocidente: as estruturas racionais do direito e da administração. O racionalismo econômico, embora dependa parcialmente da técnica e do direito racional, é ao mesmo tempo determinado pela capacidade ou disposição dos homens em adotar certos tipos de conduta racional. As questões religiosas, e os ideais éticos decorrentes, são importantes elementos formativos da conduta. Assim, o desenvolvimento do capitalismo ocidental, para Weber, em a “História económica general”, pode ser assim definido: “O que definitivamente criou o capitalismo foi a empresa duradoura e racional, a contabilidade racional, a técnica racional, o Direito racional; a tudo isto há de se acrescentar a ideologia racional, a racionalização da vida, a ética racional na economia .”(WEBER, 1942, p.298). O MODELO DA TRANSFORMAÇÃO CAPITALISTA O modelo explicativo da transformação do capitalismo nos últimos trinta anos, apresentado por Boltanski e Chiapello (1999), baseia-se em três conceitos imbricados, considerados como “macro-atores” (uma vez que, diferentemente de Max Weber, não consideram em seu modelo um sujeito ou ator coletivo): o capitalismo, o espírito do capitalismo e a crítica. Sobre a relação destes conceitos, os autores fazem generalizações que nos serviram de base para entender a responsabilidade socioambiental das empresas como crítica e deslocamento do capitalismo. O primeiro ponto é que o capitalismo precisa de um espírito que torne possível engajar as pessoas necessárias à produção e ao desenvolvimento dos negócios, uma vez que a utilização da força, da violência para fazer as pessoas trabalharem para outrem, tal qual nos períodos escravocratas da história, está fora do escopo e Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 27 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ideologia do capitalismo. Isto significa que as pessoas precisam “querer” o trabalho, pois o capitalismo pressupõe esta liberdade – de trabalhar e de empreender. Assim, necessita uma implicação positiva dos trabalhadores, um motivo, uma razão para que todos queiram(os) trabalhar. Essa razão encontra-se no “espírito do capitalismo”. Mas para que este espírito possa realmente mobilizar as pessoas, deve incorporar uma dimensão moral, seja porque as pessoas vivem outras dimensões fora da esfera produtiva, seja porque as pessoas, que são saciáveis em suas necessidades e desejos, precisam de justificativas para fazer parte deste processo insaciável que é o capitalismo. Aqui está um dos principais pontos, a nosso ver, do modelo de transformação: o equacionamento entre a saciabilidade humana e a insaciabilidade capitalista, que é a chave para a manutenção do capitalismo. Tanto o espírito do capitalismo quanto a crítica do capitalismo se conectam a esta “peçachave” – a dimensão moral – conseguindo manter a ordem e valores capitalistas em posição privilegiada em relação aos outros “mundos” e esferas de vida das pessoas. Dessa forma, um terceiro ponto deriva do segundo. Para perpetuar-se, o capitalismo precisa, então, de estimular e refrear, ao mesmo tempo, sua insaciabilidade, seu processo de acumulação ilimitada. É nessa dinâmica, nessa tensão permanente, que o espírito do capitalismo equaciona a tendência capitalista de autodestruição com as exigências morais de bem comum. CONCLUSÃO A resposta à indagação que deu origem a este ensaio – como se justifica o movimento pela RESPONSABILIDADE SOCIAMBIENTAL EMPRESARIAL (RSE) – pôde ser esboçada com base na obra de Boltanski e Chiapello (1999), buscando entender a RSE como uma crítica e deslocamento do capitalismo. Necessário se fez entender o conceito de espírito do capitalismo como uma justificativa ideológica que possibilita as mobilizações necessárias para o desenvolvimento capitalista e, a partir daí, interpretar a RSE. Em Weber encontramos o nascedouro do conceito, e verificamos como a dimensão moral por ele já era considerada importante na solidificação do Espírito do Capitalismo. Vimos que muitas dimensões da RSE, tal qual a dimensão pública/política, são deixadas de lado nas análises existentes, sendo o movimento inquestionavelmente aceito como positivo para o bem comum pela maioria das pessoas. Assim, hoje, uma empresa que não se insere no movimento pela responsabilidade socioambiental passa a ser criticada e punida por seus consumidores, tamanha a institucionalização e aceitação da idéia. Vimos também que a teoria institucional pode fornecer respostas ao entendimento da RSE, explicando a institucionalização das práticas na ação organizacional. O isomorfismo é uma das respostas para a propagação do conceito e disseminação da prática de RSE. Atentamos para o fato de que as organizações podem muitas vezes se lançar nesse discurso sem questionar o que realmente significa, 28 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 sem rever valores ou crenças, com o objetivo exclusivo de se legitimar perante a sociedade. Porém, o modelo de Boltanski e Chiapello pôde melhor demonstrar como este processo ocorre, considerando não a ação de um ator específico, mas de macroatores que agem com vistas a perpetuar o capitalismo. Assim, o movimento pela RSE não seria fruto simplesmente de uma mudança desejada pela sociedade, da crítica, mas também um deslocamento do capitalismo objetivando combater a crítica. Ou seja, os deslocamentos do capitalismo e as transformações nos dispositivos que os acompanham contribuem para desmantelar a crítica, que se torna inoperante, dando-lhe uma nova possibilidade de acumulação e lucros. Desta forma, o capitalismo sobrevive, transformando-se todas as vezes que tiver que atentar para a crítica que lhe é feita, conformando um novo espírito legitimador e justificador de suas práticas, que garanta o engajamento das pessoas. Assim, na visão dos autores, a construção de um novo espírito do capitalismo é necessária não apenas do ponto de vista humanista, mas também para a perpetuação do próprio capitalismo. E são exatamente os movimentos críticos que informam o capitalismo dos riscos que o ameaçam. Assim parece acontecer no movimento da responsabilidade socioambiental: são inúmeros atores sociais alertando que é preciso mudar! E não tendo sido mais possível fugir desta crítica, foi preciso agir. Mas o que ocorre é que a crítica também busca tornar-se isomórfica quanto aos objetos aos quais se aplica. Compreendendo que mudaram as ordens de grandeza, busca identificar novas provas, reconstituindo os esquemas de interpretação que possibilitam dar sentido às mudanças juntamente com os representantes das empresas, consultores, entre outros, recategorizando as provas. Diante disso, as empresas passam a agir, de acordo com as novas provas instituídas, legitimando o movimento pela RSE. É para estes pontos que julgamos que os estudiosos da Gestão Socioambiental, e outros atores que compõem a crítica, tal qual os gerentes e consultores, devem atentar, para simplesmente não reproduzirem o discurso capitalista com uma nova roupagem e para poderem, posteriormente, monitorar a ação organizacional no âmbito da RSE. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Rui Otávio Bernardes de; TACHIZAWA, Takeshy; CARVALHO, Ana Barreiros de. Gestão Socioambiental: Enfoque Estratégico Aplicado ao Desenvolvimento Sustentável. São Paulo: Makron Books, 2000. ASHLEY,Patrícia (coord.). Ética e responsabilidade socioambiental nos negócios. São Paulo: Saraiva, 2002. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 29 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 BOLTANSKI, Luc; CHIAPELLO, Ève. Le Nouvel Esprit du Capitalisme. Paris: Gallimard, 1999. CAPRA, Fritjof. A teia da vida ( The web of life). 2. ed. São Paulo: Cultrix AmanaKey, 2000. CARVALHO, Cristina Amélia; VIEIRA, Marcelo Milano Falcao; LOPES, Fernando Dias. Contribuições da perspectiva institucional para a análise das organizações. Anais do 23o ENANPAD, Foz do Iguaçu, PR, 1999 (CD ROOM). CASTELLS, Manuel. Materials for an explanatory theory of the network society. The British Journal of Sociology. v. 51, n. 1, jan./mar. 2000. DiMAGGIO, Paul J.; POWELL, Walter W. The iron cage revisited: institutional isomorphism and collective rationality. American Sociological Review, n. 48, 1983. DOSI, G.; NELSON, R.; WINTER, S. (org.) 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Muitas organizações não governamentais (ONGs) insurgem-se contra a definição oficial de desenvolvimento dos governos, das agências internacionais e concordam que sustentabilidade é o princípio do processo de desenvolvimento focado nas pessoas e que deve ser o motivo de esforços das nações para impulsionar o crescimento econômico, preservando o meio ambiente. Gradativamente, governos, universidades, agências multilaterais e empresas de consultoria técnica estão inserindo considerações e propostas protetoras do meio ambiente, redimensionando os projetos de desenvolvimento e a democratizando os processos decisórios. Palavras-chave: Área de Livre Comércio das Américas (ALCA) e Mercado Comum do Cone Sul (MERCOSUL). ABSTRACT Noticeably, today, there is concern for the protection of our natural environment. In international conferences the last five years, there is common debate about sustainability of developmental activities. Many non-governmental organizations (NGOs) disagree with the definition of development used by governments; international agencies agree that sustainability should be at the center of the developmental process focusing on the people and should be the nations’ motivation to propel economic growth while preserving the natural environment. Gradually, governments, universities, multi-lateral agencies and technical consulting firms are including measures and proposals that protect the environment, drawing new lines for developmental projects and democratizing the decision making processes. Key words: North American Free Trade Agreement (NAFTA), Southern Common Market (MERCOSUR). INTRODUÇÃO O conceito de sustentabilidade transcende o exercício analítico de explicar a realidade, requerendo coerência lógica nas aplicações práticas, isto é, o discurso precisa ser transformado em realidade objetiva. Os atores sociais, ao atuar, estão dotados de legitimidade política e autoridade para administrar, na prática, os comportamentos sociais e políticas de desenvolvimento. A elaboração teórica materializa-se através da luta oculta pelo poder entre diferentes atores sociais, competindo pela posição hegemônica, oferecendo diretri* Administrador de empresas (PUC-Campinas) e pós-graduado em Finanças e Controladoria pela Metrocamp de Campinas. Professor de Estatística e Matemática Financeira do Unicursos (Campinas/SP). Professor da área de métodos quantitativos no Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí/SP. E-mail: [email protected] Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 33 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 zes que fortaleçam a sustentabilidade, a biodiversidade e a sobrevivência do planeta. A sustentabilidade tem que ser vista através do contexto ecológico e sociocultural, analisando como era no passado, como é tratada no presente e como será no futuro. Informações passadas servem como parâmetro de sustentabilidade, enquanto o que ocorrerá no futuro exige a definição do Estado desejável para a sociedade do porvir. O destino das nações nos campos políticos, culturais e econômicos é impulsionado pelas elites de poder. A produção e disseminação de idéias, valores e representações coletivas provêm destes dirigentes. A força e a legitimidade das alternativas de desenvolvimento sustentável ficam na dependência da racionalidade dos argumentos e das soluções estabelecidas pelos atores sociais, atuantes nas áreas política e ideológica. O planejamento e a implementação da ação social justa são frutos da teoria, da doutrina ou do paradigma sobre sustentabilidade. Portanto, faz-se necessário rever os argumentos que os autores, pertencentes a diferentes correntes de pensamento, desenvolvem e que os governantes põem em prática, almejando saber se são soluções autênticas para a sustentabilidade. ALCA: RISCOS E OPORTUNIDADES PARA O MERCOSUL Pesquisas realizadas pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID)1, divulgadas pelo Seminário “ALCA cada vez mais próxima”, revelam o oposto: há problemas graves acontecendo, que se referem, principalmente, ao próprio entendimento dos vários países da ALCA, às prioridades geopolíticas americanas, à questão da Farm Act, da Bipartisan Trade Promotion Authority2, à própria crise em que o MERCOSUL está hoje. Há muitos fatores negativos, mas, realmente, aceita-se que o Brasil não pode se afastar das negociações. O Brasil precisa debater e fazer prevalecer o direito na questão agrícola. Há conjecturas de que os ganhos que a agricultura brasileira obterá na ALCA são maiores que aqueles originados dos negócios com a União Européia. Há entraves a serem enfrentados pelo Brasil ao participar da ALCA e isto se constata, através da lei Bipartisan Trade Promotion Authority (TPA) ou Farm Act, por ser muito restritiva no que tange ao comércio internacional. Pode-se afirmar que a lei denominada TPA afeta a ALCA ao separar trezentos produtos agrícolas, visando a beneficiar os agricultores norte-americanos. Na prática do Comércio Internacional, através da ALCA, as questões apresentadas por outros países, devidas a 1 Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) – Instituição Internacional sediada em Washington, foi criada em 1959 para prestar ajuda financeira para os Países da América do Sul e Caribe. th Congress 107 , Bipartisan Trade Promotion Authority Act of 2001, em http://thomas.loc.gov. 2 34 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 este protecionismo, serão estudadas em seus impactos pela International Trade Commission e pelo aval de quatro comitês do Congresso americano. Vê-se que nesta lista de produtos agrícolas americanos protegidos pela TPA estão relacionados os mesmos produtos ofertados pelos exportadores brasileiros e, conseqüentemente, isto vai dificultar e atrasar as negociações. A Farm Act faz parte da legislação americana que oferece diretrizes aos subsídios e não se atém à proteção. No aspecto de proteção ela nada modifica. Os subsídios fazem parte dos estudos da Organização Mundial do Comércio (OMC). O Brasil registra o maior saldo comercial agrícola do mundo. É preciso considerar que nosso país coloca, atualmente, o setor agrícola como prioritário e isto representa a conquista entusiasmante destes últimos anos.3 VISÃO DOS SETORES PRODUTIVOS Pesquisa atual, realizada pelo Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (IEDI) sobre o impacto da ALCA no setor industrial, focalizou cerca de vinte e três áreas industriais do país e concluiu que pelo menos onze delas estão despreparadas para exercitar o livre comércio, e sentirão dificuldades em transacionar na ALCA. Podem ser enquadrados nesta situação de baixa competitividade: os alimentos, a metalurgia, a química, bens de capital e componentes eletrônicos. Este estudo contribuiu para se saber que estes setores estão produzindo no mesmo nível que os concorrentes estrangeiros, no entanto, o custo final destes produtos, acrescidos de vários encargos, não premia a competitividade. Setenta e dois por cento dos empresários entrevistados pelo IEDI julgam que os empresários brasileiros precisam de maior atenção para se elevarem na concorrência com os países da ALCA, principalmente com os Estados Unidos; 91% calculam que o bloco da ALCA permitirá a existência de novos mercados; 70% afirmam que a economia brasileira ainda não é competitiva para empreendimento de tal envergadura; 100% consideram que o custo do capital é o fator inibidor da competitividade do país. Além desses, outros setores podem ser citados como mais competitivos na Associação de Livre Comércio das Américas, conforme esta pesquisa: autopeças, cerveja e refrigerantes, cimento, cosméticos, agronegócio, embalagens e siderurgia. Em pesquisa da Receita Federal, orientada pelos registros de recolhimento de impostos de importação/exportação, no período de 1997 a 2000, pelos países constituintes da ALCA, verificou-se: neste período, o número de empresas exportadoras no Brasil registrou aumento de 6,3%, correspondendo a 1.700 firmas. O número de importadoras caiu 9,97%. Nesta época, a exportação obteve acréscimos em produtos de alto valor agregado, como aviões, helicópteros e celulares 4. 3 JANK, M.S. apud HABERFELD, S. ALCA – Riscos e Oportunidades. São Paulo: Manole, 2003. 4 MARQUES, C. apud HABERFELD, S. A visão do setor privado e das associações de classe. São Paulo: Manole, 2003, p. 105. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 35 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Prevê-se que o mercado ALCA movimente em torno de 12 trilhões de dólares, com 800 milhões de consumidores. O Brasil é o grande interessado que isto se suceda, uma vez que se propôs a se inserir na ação global competitiva. Sabe-se, entretanto, ser este o enorme desafio, diante das diferenças comuns nestes países. Empreendem-se esforços para se calcularem os riscos e as oportunidades e se criarem produtos com valor agregado, equilibrando a balança comercial com os países desenvolvidos. Em estudos feitos com a Fundação Getúlio Vargas, concluiu-se que as questões do custo de capital e dos tributos trarão prejuízos de 20% ao Brasil no comércio com a ALCA. Estas assimetrias precisam ser solucionadas pelo governo brasileiro, tais como: a capitalização, o perfil de endividamento mais longo, a aprovação das reformas básicas, buscando erguer o Brasil ao nível da concorrência internacional. É preciso também se manifestar contra as políticas discriminatórias e protecionistas dos Estados Unidos. Os Estados Unidos, através destes artifícios, vencem o Brasil nos negócios com o suco de laranja, com o papel e celulose, com os aviões da EMBRAER e na siderurgia. É preciso exigir transparência dos parceiros na ALCA, da mesma forma imposta ao Brasil. Na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) foi elaborado o projeto denominado Benchmarket Global, contendo 500 mil informações, visando à sua apresentação ao governo, com análises de noventa e oito setores industriais de São Paulo, comparados com os dos Estados Unidos e México, objetivando subsidiar os negociadores brasileiros e estes setores, para serem bem sucedidos no comércio exterior. Entretanto, no setor industrial, há empresários que sugerem ampliar o prazo para o ingresso na ALCA, mas há outros que se sentem habilitados, como é o caso do setor de brinquedos, apresentando vantagens comparativas e competitivas. Por ser a globalização um processo inexorável, cabe, portanto, ao governo brasileiro solucionar o custo Brasil. O Brasil conta com a indústria empreendedora, criativa, instituições políticas estáveis, segmentos com capacidade, produtos de classe mundial. A FIESP tem feito o trabalho de convencimento e conscientização desta realidade aos pequenos e médios empresários. Aloizio Mercadante diz que o país está amplamente aberto à negociação. As negociações, geralmente, serão trabalhosas e caras, porque nelas atuam especialistas, com o acompanhamento da Câmara Americana e da FIESP. A partir de 2003, iniciou-se a real abertura do País, e as empresas estão participando deste processo com responsabilidade. 5 Tanto na indústria como no comércio sabe-se que negociar é fundamental. Faz-se necessário haver ânimo para se entender com os Estados Unidos, que importam um trilhão e 200 bilhões de dólares por ano, ou com o grupo do Tratado 5 PIVA, H. L. apud HABERFELD, S. ALCA – Riscos e Oportunidades. São Paulo: Manole, 2003, p. 106. 36 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Americano de Livre Comércio (NAFTA), que importa um trilhão e 600 bilhões de dólares anualmente. A negociação comercial de compra e venda com os países da ALCA leva tempo e é preciso esperar mais pela aprovação nos congressos para que passe a vigorar. Em 2004, o Brasil exportou mais de 95 bilhões de dólares o que ainda é pouco, apesar do crescimento expressivo em relação ao ano anterior (mais de 30%). É preciso contribuir com a concretização da ALCA para oferecer seus produtos ao maior mercado do mundo. Nos dias atuais, o Brasil já envia cinqüenta por cento das exportações para o grupo da ALCA e na área têxtil; 70% das exportações destinam-se aos outros 33 países pertencentes a esta área de livre comércio. Entretanto, os Estados Unidos impõem cotas e o Brasil não faz o mesmo. A ALCA está prevista para funcionar em 2006; até lá, o governo brasileiro tem que concluir as reformas de base. Não se admite a incompetência e as reformas deveriam ser aprovadas dentro deste prazo. O negócio é visto como bom quando beneficia a todos. Há estatísticas que confirmam que o Brasil exporta pouco. Os Estados Unidos são consumidores de têxteis de confecção no valor de US$ 90 bilhões por ano. Deste total, a República Dominicana e a Guatemala juntamente com outros países da América Central suprem os EUA com US$ 9 bilhões e o Brasil com menos de 15% deste valor. 6 Espera-se da ALCA que se concretize neste hemisfério o modelo para os governos democráticos de todo o mundo. Na Reunião de Cúpula em Miami foram prometidas a integração das economias, eliminando-se barreiras, e a realização da zona de livre comércio das Américas. Houve promessas de se investir no desenvolvimento sustentável, com a campanha de solidariedade para reduzir a pobreza. Os empresários brasileiros, entretanto, mostram-se insatisfeitos com a Lei de Proteção de Aço americano e o Farm Act. Há forças protecionistas atuantes nos Estados Unidos. Pode-se ver, também aqui no Brasil, a presença de forças protecionistas e considera-se normal que aqueles que se sentem prejudicados pelo livre comércio queiram impedir a mudança. No entanto, em relação aos EUA as pessoas enganam-se porque o país é classificado pelas outras nações como uma das economias mais abertas do mundo. Há questões, entretanto, para serem discutidas na Organização Mundial do Comércio (OMC) relativas às negociações sobre livre comércio nas Américas. O Farm Act é visto no Brasil como retrocesso ao compromisso de abrir os mercados agrícolas. Os subsídios estão crescendo. O aumento nos subsídios também foi criticado no interior dos EUA. Há países, como os pertencentes à União Européia (UE) e o Japão que concedem elevados subsídios aos produtores agrícolas. Vê-se que os Estados Unidos não pretendem interromper a ajuda aos produtores agrícolas daquela nação. 6 SKAFF, P. apud HABERFELD, S. ALCA – Riscos e Oportunidades. São Paulo: Manole, 2003, p. 117. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 37 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Por outro lado, os Estados Unidos demonstram interesse em trabalhar com o Brasil e as grandes nações agrícolas e estão dispostos a negociar, visando a alcançar o equilíbrio no comércio agrícola. Neste setor, ambos os países serão bemsucedidos. O governo americano empenha-se em ajustar o livre comércio e prepara a TPA que se adapte melhor a estas negociações, conforme se vê através do acordo firmado por três Ministros de Estado: o representante de Comércio dos EUA, Robert B. Zoellick, a Secretária de Agricultura, Ann Veneman, e o Secretário de Comércio, Don Evans, em carta mandada ao presidente Bush recomendando veto ao fast track se não for aprovada no Congresso uma autorização para este fim. A globalização apresenta benefícios, mas são previstos, como conseqüência, os custos. Houve drásticas e rápidas mudanças e os trabalhadores em todo o mundo ainda não se adaptaram a elas. A globalização prejudicou alguns países e eles estão precisando de ajuda. Os países envolvidos neste processo devem despender recursos na educação e treinamento, objetivando acompanhar esta evolução, porque os benefícios do livre comércio são reais. Permite que haja mais empregos, com maior rendimento e bens importados mais acessíveis. Os indicadores sociais do Brasil melhoraram com as exportações. Os empregos de melhores remunerações são mantidos nas empresas exportadoras. A expansão da produção agrícola brasileira é conseqüência do crescimento das exportações de produtos deste setor. Os benefícios do livre comércio e da abertura econômica fazem-se sentir no Brasil, graças às exportações que se destinam aos Estados Unidos. Em 2001, ocorreu o comércio bilateral de 30 bilhões de dólares, registrando-se que o mercado dos Estados Unidos comprou 25% das exportações do Brasil, e em 2002 atingiu 28% nos quatro primeiros meses. Prevê-se que o Brasil possa vender ainda mais e isto se explica por não se tratar de um mercado fechado. Embora as questões econômicas predominem as conversações bilaterais, a idéia de que esta parceria é somente comercial não se justifica, pois os EUA enaltecem os atos democráticos comuns em sociedades abertas. Os EUA são constituídos por sociedades multiétnicas e multirraciais, que se esforçam, dentro do possível, para eliminar as barreiras contra a justiça social. Há um bom relacionamento entre o Brasil e os Estados Unidos, procurando concretizar o ideal de Miami, podendo-se citar como exemplos: a) juntos, apaziguaram as disputas entre o Peru e o Equador; b) o Departamento de Agricultura dos Estados Unidos e o Estado da Califórnia buscam apoio da Universidade de São Paulo no combate à bactéria que ameaça a indústria vinícola; c) o Departamento de Trabalho dos Estados Unidos apóia o governo brasileiro para melhorar as condições do trabalho e erradicar o trabalho infantil; d) as polícias dos dois países juntam forças para deter traficantes de drogas; e) os cientistas das duas nações trabalham juntos em experimentos de grande escala na Amazônia; f) o Serviço Florestal dos Estados Unidos une-se ao Ibama para ajudar os bombeiros brasilei- 38 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ros a localizar os incêndios, destruidores de florestas tropicais; g) há também parcerias com os EUA no que tange às conquistas espaciais; h) a Embraer, empresa brasileira exportadora, faz parceria com os EUA e as aeronaves são construídas em conjunto. A Embraer planeja importar turbinas e componentes dos EUA, totalizando US$ 7 bilhões, nos próximos cinco anos, o que se traduz no aumento de empregos nos EUA; i) a montadora General Motors inaugurou no Rio Grande do Sul mais uma filial e destinou US$ 500 milhões para este fim, resultando em mais de três mil empregos para o Brasil, produzindo o carro denominado Celta. Este empreendimento gera benefícios para os gaúchos, para os portos brasileiros, para os acionistas da GM, para os fornecedores de peças e para os clientes. Tem-se, como novidade, a venda pela Internet, que somou 7% dos carros vendidos; j) a Lucent Technologies, sediada no Brasil desde 1995, emprega brasileiros e exporta, para os países do MERCOSUL, US$ 130 milhões, reforçando o superávit comercial do Brasil. A Lucent investiu, até hoje, US$ 220 milhões no Brasil, porque acredita na concretização da ALCA.7 CONSIDERAÇÕES FINAIS A missão da Câmara Americana de Comércio de São Paulo, que conta com cinco mil associados sediados no Brasil, é impulsionar a cidadania empresarial, atrair investimentos para o Brasil e promover o comércio. A Associação de Livre Comércio das Américas (ALCA) está sendo efetivada e vai ao encontro dos ideais desta missão. Neste processo de globalização começam a se delinear quatro grandes blocos de comércio: o Bloco Asiático, o Bloco Europeu, o Bloco Pan-Americano (ALCA) que está em formação, e finalmente o Bloco dos Excluídos. A integração regional subentende a atitude cooperativa, respeitando valores e interesses compartilhados. Portanto, o comércio internacional e a integração contêm aspectos positivos benéficos aos participantes, devem estar vinculados à utilização da política que privilegie o desenvolvimento de todos. Facilitar o comércio de produtos primários, commodities ou bens industrializados de baixo valor agregado, bem como, nas negociações da Associação de Livre Comércio das Américas (ALCA), garantir e não debilitar o alcance dos objetivos estratégicos como o desenvolvimento tecnológico e de setores high-tech, proporcionando a sustentabilidade do desenvolvimento. O desenvolvimento das negociações da ALCA permitiu alcançar resultados que oferecem parciais garantias de eqüidade nas relações dos Estados. Torna-se importante o princípio do single undertaking, que de fato garante o poder de veto para todos os países participantes. As negociações para a constituição da ALCA não travam outras negociações 7 HINAK, D. apud HABERFELD, S. As visões oficiais dos EUA e do Brasil. São Paulo: Manole, 2003, p. 75. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 39 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 feitas pelo Brasil e pelos países do MERCOSUL, como exemplo, com a União Européia. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BARBOSA, R. A. (ALCA) em Debate. Embaixador do Brasil em Washington e excoordenador do Brasil no MERCOSUL (1991-1994) pesquisado em [email protected] Home Page: www.funcex.com.br - acesso em 5-02-2005. BATISTA Jr., P. N. A Economia como ela é. São Paulo: Boitempo Editorial, 2001. BATISTA JR., P. N. O que sobrou da Alca? Pesquisado em: http://www.pnbe.org.br/ alca/coment/textos/m2013.htm>. Acesso em: 05-02-2005. HABERFELD, S. ALCA – Riscos e Oportunidades. São Paulo: Manole, 2003. RATTNER, H. Mercosul e ALCA – O futuro incerto dos Países Sul-Americanos. São Paulo: Edusp, 2002. VIGEVANI, T.; MARIANO, M. P. Associação de Livre Comércio das Américas (ALCA) – O gigante e os anões. São Paulo: SENAC, 2003. 40 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA NO ENSINO DE INFORMÁTICA UTILIZANDO O AMBIENTE TELEDUC Ernesto Charles Niklaus* Raimundo Claudio da Silva Vasconcelos** RESUMO Este artigo tem por escopo examinar o ambiente de educação a distância TelEduc e sua aplicação no ensino de informática por meio da análise de cursos desenvolvidos no ambiente. O produto resultante deste trabalho poderá auxiliar professores e educadores da área de informática, na utilização de recursos de educação a distância como complemento de aulas tradicionais, ou como base para desenvolvimento de cursos a distância. Palavras-chave: Educação a Distância, TelEduc, Informática. ABSTRACT This article aims to examine the virtual environment for distance courses “TelEduc” and its uses in computer technology instruction through analysis of courses developed in that environment. The results of the study may assist instructors of computer sciences in the use of distance education resources as a complement of traditional lessons or as a foundation for distance course development. Key Words: Distance Education, TelEduc, Computer Science. INTRODUÇÃO Em educação a distância (EAD) denota-se como característica básica o estabelecimento de uma comunicação de dupla via em que professor e aluno não se encontram juntos no mesmo espaço físico, necessitando de meios que possibilitem a comunicação entre ambos como correspondência postal ou eletrônica, telefone, rádio, televisão, etc. (NUNES, 2004) Há várias denominações para EAD: estudo aberto, educação não-tradicional, extensão, estudo por contrato, mas nenhuma delas serve para descrevê-la com exatidão. Segundo Nunes (2004), EAD pressupõe um processo educativo sistemático e organizado que exige não somente a dupla via de comunicação como também a instauração de um processo continuado em que os meios ou os multimeios devem estar presentes na estratégia de comunicação. A escolha de determinado meio ou * Bacharel em Sistemas de Informação e pós-graduando em Redes de Computadores pelo Centro Universitário Padre Anchieta. [email protected] ** Doutorando em Ciência da Computação(IC-Unicamp). Mestre em Ciência da Computação (IC-Unicamp). Bacharel em Ciência da Computação (UFC) e Administração de Empresas (UECE). Professor de cursos de graduação e pós-Graduação do Centro Universitário Padre Anchieta e da Universidade São Francisco. [email protected] Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 41 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 multimeios vem em razão do tipo de público, custos operacionais e, principalmente, eficácia para a transmissão, recepção, transformação e criação do processo educativo. Existem diversos ambientes para EAD, comerciais e não comerciais. Dentre os comerciais podemos citar o WebCT (www.webct.com). Dentre os programas não comerciais podemos destacar o AulaNet e o TelEduc. O AulaNet é um ambiente de software baseado na Web, desenvolvido no Laboratório de Engenharia de Software - LES - do Departamento de Informática da PUCRio, para administração, criação, manutenção e participação em cursos a distância. A idéia do ambiente começou com um projeto final de curso, em que os alunos de pós-graduação do curso de Sociedade da Informação tiveram que fazer uma ferramenta para que os professores que não soubessem HTML pudessem fazer cursos através de um ambiente da WEB. O projeto foi levado adiante e incrementado, hoje o Aulanet é um software que abre espaço para quem quer aprender e também para aqueles que querem ensinar.(PUC) O TelEduc é um dos ambientes para EAD desenvolvido tendo como meta a formação de professores para a Informática na Educação. Seu desenvolvimento teve início em 1997 no NIED (Núcleo de Informática Aplicada à Educação) da Unicamp (ROCHA, 2002). O ambiente TelEduc cresceu e se solidificou, e em fevereiro de 2001 foi disponibilizada sua primeira versão como um software livre. A partir deste lançamento, várias instituições públicas e privadas – como UFRGS, USF, PUCSP, FUNDAP, UNB etc. – passaram a usar o TelEduc. Este uso, nos mais diferentes contextos, levou à implementação de novas ferramentas e ao lançamento, em março de 2002, da sua versão 3.0, completamente reestruturada e otimizada. Várias características do TelEduc fazem com que esse ambiente seja adequado ao ensino a distância, e essas características serão vistas neste artigo. EVOLUÇÃO DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA A EAD, desde sua criação, teve diferentes estágios ou gerações. A primeira geração caracterizou-se pelo estudo por correspondência, cujo meio de comunicação era o material impresso, geralmente um guia de estudos com exercícios escritos e outras tarefas enviados pelo correio, incluindo os cursos via semanais (revistas). Muitos dos cursos a distância espalhados pelo mundo ainda são conduzidos por correspondência. (EADUN) A segunda geração da EAD iniciou-se nos anos 1970, com a criação das primeiras universidades abertas. As universidades abertas utilizaram uma visão sistêmica na implementação do projeto de educação a distância. Usaram recursos de instrução por correspondência e transmissão de material gravado através de rádio e televisão e envio de videotapes, um exemplo de curso via televisão ainda em uso é o Telecurso 2000. Os recursos utilizados pelas universidades abertas representaram uma transição para o surgimento da terceira geração de EAD. Aos materiais dos cursos, transmitidos por TV ou enviados no formato de videotape, somou- 42 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 se a interação através de telefone, satélite, cabo ou ISDN (Integrated Services Digital Network), aumentando assim a sua qualidade. A partir da década de 1990 emerge a terceira geração de EAD, baseada em redes de computadores, recursos para conferências e multimídia. A EAD entrou em um terceiro momento histórico que permite a universalização do aprendizado como conseqüência dos avanços tecnológicos. Nesse contexto é que o TelEduc se encaixa. Hoje já se considera uma quarta geração de EAD, caracterizada pelo uso de banda larga de comunicação, que permite estabelecer e manter a interação dos participantes de uma comunidade de aprendizagem com mais qualidade e rapidez. Em função das tecnologias adotadas para a transmissão da informação, a evolução do ensino a distância pode ser dividida em três fases ou gerações: textual, analógica e digital. CONTEXTO ATUAL DA EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA O cenário atual apresenta algumas iniciativas de cursos a distância ou semipresenciais, em programas de capacitação de docentes de redes públicas em nível superior, com significativa cooperação entre instituições de ensino, sobretudo as públicas, e governos estaduais e municipais. De fato, nesse âmbito, há cursos com projetos inovadores, soluções criativas e materiais didáticos, impressos ou eletrônicos, de alta qualidade, especialmente desenhados para aprendizagem a distância, apoiados por tutoriais presenciais e virtuais (MEC, 2002). Em relação à demanda, o panorama atual já apresenta alguns milhares de alunos matriculados em cursos autorizados de graduação a distância, porém a demanda está longe de ser atendida, o que prova que há muito campo para quem se interessar em prover cursos de educação a distância. Dentre os cursos de EAD atuais pode-se perceber, em termos institucionais, que a oferta de cursos superiores a distância poderia ser classificada dentro das seguintes três grandes tendências: Ação individual - instituições de ensino superior, com cursos regulares e reconhecidos, que passam a oferecer seus cursos ou novos cursos na modalidade à distância. Associações - associação (parcerias ou convênios) de instituições de ensino superior brasileiras, organizadas em redes estaduais, regionais ou nacionais para o desenvolvimento de projetos de educação a distância. Instituições exclusivamente virtuais - instituições privadas criadas exclusivamente para oferecer cursos a distância, operando no momento apenas cursos de extensão. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 43 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 CARACTERÍSTICAS DE UM AMBIENTE DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Este tópico aborda as principais características que um ambiente de educação a distância precisa oferecer para que seja eficiente para o ensino não presencial. (FUSHITA, 2001) Ambiente do Aluno n Devem existir ferramentas que permitam o acesso ao material de curso e às anotações privadas do aluno. n Deve carregar cursos completos ou partes localmente pelo aluno, ou seja, na máquina do aluno. As plataformas mais utilizadas (Windows, Macintosh, Linux) devem ser suportadas para que o conteúdo possa ser lido e manipulado de forma mais rápida pelo aluno, possibilitando a ele estudar o material sem ter que permanecer conectado ao curso via Internet. n O aluno deve poder interromper uma sessão de aprendizagem a qualquer momento e poder retomar seus estudos do ponto onde parou. n O aluno deve ter condição de se socializar com outros alunos do curso, por meio de ferramentas que possibilitem ao aluno se apresentar e manter um contato aluno-aluno sem que outras pessoas possam ver as conversas. n O ambiente não deve exigir compra de software comercial para sua utilização. O aluno deve ter a possibilidade de usar ferramentas livres e assim não ficar limitado ao uso de programas comerciais (geralmente caros). n Todos os dados pessoais (anotações, resultados, informações pessoais etc.) devem ser protegidos, pelo menos por um nome de usuário e senha. É desejável que este cadastro de aluno, nome de usuário e senha possa ser utilizado em múltiplos cursos. Comunicação Assíncrona n O ambiente deve permitir a comunicação entre dois indivíduos usando um correio eletrônico comum. n O ambiente de aprendizagem deve possibilitar a comunicação entre uma pessoa e um grupo de indivíduos via correio eletrônico. Deve haver lista de e-mails adaptável, possibilitando o envio de e-mails de forma independente para diferentes grupos. n Permitir a comunicação dentro de um grupo de indivíduos como discussões em conferência e fóruns de discussão. n Proporcionar trabalho em equipe. Poder visualizar o trabalho em equipe. n Proporcionar ao aluno possibilidade de armazenar materiais que possam ser lidos por componentes do grupo. Comunicação Síncrona n Deve haver um Chat (uma área onde os alunos fazem troca de mensagens de texto de forma imediata). 44 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 n Deve haver meios de o aluno fazer perguntas ao formador, de forma on-line; isso pode ser conseguido utilizando-se o recurso de sessões de Chat, marcadas anteriormente para discussão de determinados temas. n Ferramenta Pedagógica: facilidades para o aluno comparar o seu progresso no aprendizado com o aprendizado objetivado no curso ou com o de outro aluno. n Ambiente do Formador n Não deve exigir conhecimento técnico para desenvolver o material do curso ou o autor do curso não deve ser forçado a aprender ou saber algo relacionado a linguagens como HTML ou formatos específicos para poder publicar seu material. n O sistema deve oferecer apoio para converter material de curso existente em formatos que possam ser usados pelos alunos, bem como ferramentas para descompactação de material compactado. n O sistema deve suportar múltiplos autores para um curso. Inclui características como bloquear e desbloquear usuários, ferramentas do curso e materiais. Estes autores devem poder enviar senhas para alunos cadastrados em caso de perda e cadastrar novos alunos. n A ferramenta deve suportar a criação de um índice automático do curso e um glossário. n O curso pode ser desenvolvido e mantido com uma interface ergonômica disponível (um local de aplicação que corre sobre todas as plataformas importantes). n O sistema deve fornecer meios de avaliação de alunos, para que se possa avaliar o rendimento do curso. n O sistema deve prover meios de carga de materiais, possibilitando a edição do material fora do ambiente. n O sistema deve prover importação de dados entre cursos para que o professor de mais de um curso possa utilizar informações de outros cursos ministrados por ele. ANÁLISE DO USO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Este tópico aborda as principais vantagens e desvantagens do uso de Educação a Distância (RODRIGUES, 2002): Vantagens n Não há a necessidade de o professor e os alunos estarem no mesmo local; o primeiro não está em contato com o segundo diretamente, mas ensina o aluno orientando-o, na sua aprendizagem, por meio do uso de materiais didáticos e recursos tecnológicos trabalhando como um orientador. n Há uma maior flexibilidade, pois o aluno aprende no seu ritmo, pode rever e Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 45 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 reavaliar conceitos que lhe pareçam importantes e pode, de forma ativa e com outros alunos, sanar suas dúvidas. Além disso, fornece ao aluno a experiência de buscar o saber por si só, aumentando sua independência no processo de superação do nível cultural. n Possibilidade de utilização de meios tecnológicos, capazes de derrubar fronteiras para o acesso à informação e à cultura que oportunizam igualdade ao conhecimento e a democratização da educação. Atualmente existem recursos técnicos que possibilitam o avanço da EAD: áudio, vídeo, materiais impressos, Internet, entre outros. n Oportunizar a formação de profissionais de acordo com as exigências atuais e culturais. Um professor especialista no assunto que more em determinada região pode preparar alunos de qualquer parte do mundo. n Elaboração de conteúdos e recursos multimídia, que atraem a atenção dos alunos fazendo com que as aulas se tornem mais agradáveis. n Formação permanente e pessoal, por meios técnicos, com o fim de aprimorar a qualidade profissional. Preparação qualificada para o trabalho. n Organização de apoio e tutoria, na qual uma pessoa que esteja organizada e disponha de recursos didáticos seja capaz de ser autodidata e alcançar sucesso profissional. n Formação teórico-prática relacionada à experiência do aluno. Aprendizagem dinâmica e inovadora e formação fora do contexto da sala de aula. n Aprendizagem independente e flexível. Ela possibilita um trabalho independente e individual de aprendizagem. Essa aprendizagem só é possível com a utilização de tecnologias de comunicação que proporcionam a EAD de maneira autônoma. n Acesso aos cursos ou níveis de estudos. n Flexibilidade no que se refere à rigidez de requisitos como espaço, tempo e ritmo. n Permanência do aluno em ambiente profissional, cultural e familiar, pelo fato de aprender fora da sala de aula. O aluno torna-se o sujeito ativo da sua formação e ritmo de aprendizagem desenvolvendo atitudes e valores educativos. n Comunicação bidirecional, na qual o aluno não é um mero receptor de conteúdos planejados e distribuídos por docentes e sim criador de um processo de comunicação, ou seja, um diálogo de otimização do ato educativo, que pode ser feito através da conversação entre docente e aluno gerada por materiais de estudo. n Enfoque tecnológico e a comunicação massiva; o primeiro enfatiza a educação como uma concepção científica, sistemática e globalizada, e que o planejamento pedagógico é imprescindível a EAD. Tudo deve ser coordenado sem improvisações, que poderiam levar a prejuízos sérios aos alunos. E a segunda, comunicação massiva, refere-se à eliminação de fronteiras espaço-temporais propiciando 46 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 que as novas tecnologias sejam aproveitadas por um grande número de pessoas mesmo estando dispersas geograficamente. Essa modalidade está direcionada a inúmeras pessoas, inclusive às que não puderam freqüentar a escola tradicional. n Redução dos custos em relação aos do sistema presencial, no que se refere à confecção de cursos em grande escala. n Possibilidade de professores especialistas em determinados assuntos, disseminarem seu conhecimento sem barreiras geográficas, permitindo aos alunos de qualquer lugar o acesso ao conhecimento especializado. Desvantagens n Diminuição de experiências advindas da relação educativa pessoal entre professor e aluno. n Dificuldade em alcançar o objetivo da socialização pela falta de interação dos alunos com o docente e entre si. n A retificação de possíveis erros pode ser mais lenta, embora os meios tecnológicos reduzam tal possibilidade. n Necessidade de um rigoroso planejamento em longo prazo, a fim de evitar erros na execução da aprendizagem. n Possibilidade de ocorrerem dúvidas quanto aos materiais didáticos elaborados pelos docentes, pelo fato de não haver educação presencial. n Perigo dos materiais instrucionais com poucas ocasiões de diálogo aluno docente, levando à homogeneidade de aprendizado. n Os métodos de avaliação da EAD são menos confiáveis, pois oportunizam plágio ou fraude. n Custos iniciais muito altos para implantação de cursos a distância. n Serviços administrativos mais complexos que os dos cursos presenciais. Análise Nota-se que a educação a distância possui alguns inconvenientes em relação à educação presencial no que tange a socialização, correção de erros, planejamento de estudo, método de avaliação, entre outros.(RODRIGUES, 2002) Depois de analisadas suas características, vantagens e desvantagens, conclui-se que: n Tal sistema de aprendizado pressupõe uma grande ênfase e incentivo ao aluno em estudar e pesquisar de modo independente, de maneira que são dinamizadas a comunicação e a troca de informações entre alunos e professores, propiciando a independência do aluno. n A educação a distância baseia-se em estratégias para viabilizar aulas não presenciais promovendo uma maior interação entre aluno-professor, aluno-aluno e Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 47 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 aluno-conteúdo, de maneira que se adapte às condições de vida, de cultura, de conhecimento e de espaço dos participantes do processo. n Pelo que pode ser visto nas características de cursos a distância, percebese que um bom ambiente de educação a distância provê todas as ferramentas necessárias para garantir um bom entendimento do assunto estudado, portanto, no ensino de informática, um bom ambiente de educação a distância é suficiente em termo de aulas, ficando apenas as avaliações presenciais, pelo fato de não se poder garantir a veracidade de uma avaliação não presencial. O AMBIENTE TELEDUC O ambiente TelEduc tem o propósito de oferecer um ambiente computacional que permita a elaboração e o acompanhamento de cursos através da Internet (CER, 1998). Ele foi concebido visando ao processo de formação de professores para informática educativa, baseado na metodologia de formação contextualizada desenvolvido por pesquisadores do Nied (Núcleo de Informática Aplicada à Educação) da Unicamp. A metodologia de ensino/aprendizagem proposta pelo ambiente é a execução de atividades práticas com orientação constante e on-line do formador, aprendizagem de conhecimentos teóricos de forma contextualizada com a execução dessas atividades, comunicação entre os participantes e discussão de assuntos teóricos (TES, 2000). Assim, um curso criado no TelEduc se desenvolve ao redor de um conjunto de atividades sugeridas pelo formador. Para a resolução dessas atividades, o ambiente fornece um conjunto de ferramentas nas quais o formador disponibiliza informações e conteúdos da dinâmica do curso. Além disso, o ambiente fornece recursos de comunicação que possibilitam o acompanhamento do processo de aprendizagem do aluno, além de permitirem um contato constante entre o formador e os alunos do curso e entre os próprios alunos, através de Chat e e-mail internos ao ambiente. Para se ter acesso ao curso é preciso que se tenha uma senha e uma identificação pessoal (login), ambas solicitadas ao participante sempre que ele acessar o curso. PÁGINA DE ENTRADA DO CURSO A página de entrada do curso é dividida em duas partes. À esquerda estão as ferramentas que serão utilizadas durante o curso e à direita é apresentado o conteúdo correspondente àquela determinada ferramenta selecionada na parte esquerda (Figura 1). 48 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Figura 1 – Página de entrada do curso Ao entrar no curso é apresentado o conteúdo da ferramenta “Agenda”, que contém informações atualizadas, dicas ou sugestões dos formadores para os alunos. Esta página funciona como um canal de comunicação direto dos formadores com os alunos. Nela são colocadas informações que seriam fornecidas normalmente no início de uma aula presencial. O conteúdo de “Agenda” é atualizado de acordo com a dinâmica do curso. Cada curso apoiado pelo ambiente TelEduc pode utilizar um subconjunto das ferramentas descritas a seguir. Assim, pode acontecer de em um determinado momento do curso algumas ferramentas não estarem visíveis no menu à esquerda e, portanto, não disponíveis. Oferecer ou não uma ferramenta, em diferentes momentos do curso, faz parte da metodologia adotada por cada formador. Geralmente, se há a inserção de uma nova ferramenta, este fato é avisado ao aluno por meio da Agenda. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 49 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Estrutura do Ambiente Figura 2 - Estrutura do Ambiente Teleduc Como pode ser observado na fig. 2, o TelEduc foi concebido tendo como elemento central a ferramenta que disponibiliza Atividades. Isto vem ao encontro do pressuposto de que o aprendizado de conceitos de qualquer domínio do conhecimento é feito a partir da resolução de problemas, com o subsídio de diferentes materiais como textos, software e instruções de uso que podem ser colocados para o aluno por meio de ferramentas como: Material de Apoio, Leituras, Perguntas Freqüentes etc. (ROCHA, 2002) FERRAMENTAS DO AMBIENTE: Dinâmica do Curso Contém informações sobre a metodologia e a organização geral do curso. Agenda É a página de entrada do ambiente e do curso em andamento. Traz a programação de um determinado período do curso (diária, semanal, etc.). Avaliações Lista as avaliações em andamento no curso. 50 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Atividades Apresenta as atividades a serem realizadas durante o curso. Material de Apoio Apresenta informações úteis relacionadas à temática do curso, subsidiando o desenvolvimento das atividades propostas. Leituras Apresenta artigos relacionados à temática do curso, podendo incluir sugestões de revistas, jornais, endereços na Web, etc. Perguntas Freqüentes Contém a relação das perguntas realizadas com maior freqüência durante o curso e suas respectivas respostas. Parada Obrigatória Contém materiais que objetivam desencadear reflexões e discussões entre os participantes ao longo do curso. Mural Espaço reservado para que todos os participantes possam disponibilizar informações consideradas relevantes para o contexto do curso. Fóruns de Discussão Permite acesso a uma página que contém tópicos que estão em discussão naquele momento do curso. O acompanhamento da discussão se dá por meio da visualização de forma estruturada das mensagens já enviadas e, a participação, por meio do envio de mensagens. Bate-Papo Permite uma conversa em tempo real entre os alunos do curso e os formadores. Os horários de bate-papo com a presença dos formadores são, geralmente, informados na “Agenda”. Se houver interesse do grupo de alunos, o bate-papo pode ser utilizado em outros horários. Correio Trata-se de um sistema de correio eletrônico interno ao ambiente. Assim, todos os participantes de um curso podem enviar e receber mensagens através deste correio. Todos, a cada acesso, devem consultar seu conteúdo a fim de verificar as novas mensagens recebidas. Grupos Permite a criação de grupos de pessoas para facilitar a distribuição e/ou desenvolvimento de tarefas. Perfil É um espaço reservado para que cada participante do curso possa se apresentar aos demais de maneira informal, descrevendo suas principais características, além de permitir a edição de dados pessoais. O objetivo fundamental do Perfil é fornecer um mecanismo para que os participantes possam se “conhecer a distância”, visando a ações de comprometimento entre o grupo. Além disso, favorece a escolha de parceiros para o desenvolvimento de atividades do curso (formação de Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 51 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 grupos de pessoas com interesses em comum). Diário de Bordo Espaço onde os alunos podem registrar experiências ao longo do curso: sucessos, dificuldades, dúvidas, anseios, visando a proporcionar meios que desencadeiem um processo reflexivo a respeito do seu processo de aprendizagem. Portfólio Nesta ferramenta os participantes do curso podem armazenar textos e arquivos utilizados e/ou desenvolvidos durante o curso, bem como endereços da Internet. Esses dados podem ser particulares, compartilhados apenas com os formadores ou compartilhados com todos os participantes do curso. Cada participante pode ver os demais portfólios e comentá-los se assim o desejar. Acessos Permite acompanhar a freqüência de acesso dos usuários ao curso e às suas ferramentas. Intermap Permite aos formadores visualizar a interação dos participantes do curso nas ferramentas Correio, Fóruns de Discussão e Bate-Papo, facilitando o acompanhamento do curso. Configurar Permite alterar configurações pessoais no ambiente tais como: senha, idioma e notificação de novidades. Ferramentas Exclusivas As ferramentas descritas a seguir são de uso exclusivo dos formadores e do coordenador do curso: Administração Permite gerenciar as ferramentas do curso, as pessoas que participam do curso e ainda alterar dados do curso. As funcionalidades disponibilizadas dentro de administração são: • Visualizar/Alterar dados e cronograma do curso • Escolher e destacar ferramentas do curso • Inscrever alunos e formadores • Gerenciamento de inscrições, alunos e formadores • Alterar nomenclatura do coordenador • Enviar senha Suporte Permite aos formadores entrar em contato com o suporte do ambiente (administrador do TelEduc) através de e-mail. EXPERIÊNCIAS COM O AMBIENTE TELEDUC Foram feitas algumas experiências no ambiente TelEduc a fim de provar que o ambiente é eficiente no ensino de informática; serão mostradas as experiências 52 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 com os cursos desenvolvidos: Orientação de Dúvidas e OpenOffice.org. Curso de Orientação de Dúvidas O curso “Orientação de Dúvidas” foi criado em 25/05/2004 com a finalidade de ser um apoio aos estudantes do 4º ano de Sistemas de Informação, da Faculdade de Tecnologia Padre Anchieta, de Jundiaí – SP, e meio de aprendizagem das ferramentas de formador do ambiente TelEduc. O curso continha as matérias da grade de Sistemas de Informação, que podiam ser acessadas para que os alunos pudessem tirar dúvidas e ter acesso a materiais de apoio, utilizados para complementar o entendimento da matéria. Alguns resultados merecem atenção. Próximo à avaliação de uma das matérias, considerada uma das mais difíceis pelos alunos, o curso teve grande procura. Muitas discussões ocorreram dentro do fórum de discussões, mostrando que esta ferramenta se torna muito útil na resolução de problemas e soluções de dúvidas entre os alunos. O curso não era freqüentado nos períodos em que não havia avaliações, mostrando que não havia um interesse maior em aprender mais sobre as matérias. Durante os meses nos quais não havia avaliações consideradas difíceis pelos alunos a visita ao curso era quase nula. As experiências obtidas com o curso foram válidas, pelo fato de se poder analisar todas as ferramentas com um contingente de alunos que já conheciam o formador e, portanto, nos casos de erro, ou má utilização dos recursos por parte deste não havia uma sanção ou crítica agressiva, e sim dicas para a melhoria dos conhecimentos; os dados levantados durantes o curso foram utilizados para avaliar as ferramentas de orientador, tanto no controle de acesso quanto na implementação e análise de dados utilizados como material de apoio ao curso. Apesar das informações terem sido fartas, um ponto que merece atenção foi a falta de interesse da maioria dos alunos do curso de Sistemas de Informação em relação ao ambiente TelEduc. Os alunos pareciam temer um pouco a educação a distância, talvez por falta de conhecimento ou por dificuldade em utilizar uma ferramenta on-line. Algumas pessoas deixaram de ingressar no curso pelo simples fato de não estarem dispostas a ter “mais uma” ferramenta para utilizar; este foi um dos maiores problemas, pois mesmo com um curso agradável e eficiente esta barreira não pôde ser quebrada. A utilização da ferramenta “Perguntas Freqüentes” mostrou-se muito eficiente na elaboração de uma lista de exercícios resolvidos, que foi utilizada para estudo de questões relacionadas a avaliação de uma das disciplinas. Dentro dessa ferramenta os alunos puderam ler as questões com ou sem respostas. Isso os auxiliou muito a assimilar o assunto, pois quando lida a questão sem resposta e respondida mentalmente, o aluno ia simulando a situação da avaliação e depois da tentativa podia ler a resposta correta. Outra ferramenta bastante utilizada nas últimas semanas de análise foi a ferramenta “Material de Apoio”, que foi usada para a centralização de todo o material Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 53 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 disponibilizado pelos alunos nas apresentações de trabalho. CURSO OPENOFFICE.ORG O curso OpenOffice.org, voltado a alunos de Sistemas de Informação da Faculdade de Tecnologia Padre Anchieta e Funcionários do Centro Universitário Padre Anchieta, foi criado dentro do ambiente TelEduc como teste para a comprovação da eficácia do uso do ambiente para o ensino de informática. Para a criação deste curso foi utilizada uma metodologia diferente da utilizada no curso de Orientação de Dúvidas; ao invés de apresentar todo o conteúdo de forma simultânea, o curso foi dividido em módulos. O material de cada módulo era disponibilizado e ao final algumas questões eram feitas para verificar o entendimento sobre o conteúdo visto. O tema OpenOffice.org foi fruto de uma pesquisa de opinião indireta feita com alunos e professores, e pareceu interessante para muitos. O curso era basicamente composto por apostilas criadas por instituições que têm forte conhecimento sobre o uso do OpenOffice.org. Essas apostilas foram disponibilizadas no curso e o estudo delas foi direcionado por atividades criadas pelo formador. Uma atividade, por exemplo, direcionando a leitura dos capítulos 1 e 2 do manual de OpenOffice.org. O método utilizado neste curso foi o mesmo usado em outras universidades, como, por exemplo, a UFLA - Universidade Federal de Lavras – no seu curso de pós-graduação lato sensu em “Administração em redes Linux”. Desta forma puderam ser testadas as dificuldades de criação e manutenção de um curso utilizando um método que pode ser aplicado para qualquer curso em informática. Assim afirma-se que o maior segredo para o sucesso do curso dependerá da qualidade do material disponibilizado e da eficiência do instrutor na criação e aplicação de exercícios que proporcionem uma melhor imersão no tema abordado. ANÁLISE DAS EXPERIÊNCIAS Freqüência Durante a execução dos dois cursos, foi percebida uma falta de interesse por parte dos alunos. No curso “Orientação de Dúvidas”, pelo fato de não haver uma obrigatoriedade, como uma lista de presença, ou avaliações sobre o assunto, muitas pessoas deixavam de freqüentá-lo e o utilizavam apenas como fonte de dados para o estudo de matérias, antes de avaliações presenciais feitas por professores do curso de Sistemas de Informação da Faculdade de Tecnologia Padre Anchieta. Motivação Pôde-se perceber também, de forma geral, uma falta de motivação dos alunos envolvidos no projeto em aprender a matéria de forma constante. Foi visto que apesar da disponibilização dos dados ocorrer bem antes da avaliação presencial, apenas nas vésperas desta é que o material era consultado; viu-se também que as 54 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 pessoas preferiam as aulas presenciais ministradas nos finais de semana à aula não presencial, talvez por falta de conhecimento em relação ao ambiente ou pelo fato de não se sentirem motivadas a estudar em casa. Em relação ao curso “OpenOffice.org”, houve a total falta de interesse dos alunos em participar, uma vez que o curso não fazia parte da grade da graduação, apesar de se tratar de um assunto de grande interesse para a comunidade ligada à tecnologia, da qual os alunos de um curso de sistemas de informação fazem parte. Atividade Avaliativa Para melhor poder avaliar o ambiente TelEduc foram feitas algumas análises em cursos ministrados no curso de Letras do Centro Universitário Padre Anchieta, e pode-se perceber que quando existem atividades que fazem parte das avaliações de rendimento de cursos presenciais muitos alunos interagem no sistema, porém quando a atividade não tem essa finalidade acaba sendo deixada de lado. Por outro lado, em cursos estritamente não presenciais como, por exemplo, na pós graduação lato sensu em “Administração em Redes Linux” da UFLA – Universidade Federal de Lavras, a adesão e responsabilidade dos alunos é bem mais alta. Pode-se perceber que a motivação para o curso dependerá muito do aluno, porém um bom material, com apelo visual bom, consegue ajudar neste ponto também. Um material bem elaborado motiva o aluno a estudar e a se manter no curso. CONCLUSÃO A análise dos dados demonstra algumas peculiaridades do ambiente de educação a distância. Iniciando-se a análise pelos problemas, deve-se salientar a ausência de interesse por parte dos alunos envolvidos nos cursos de teste; essa falta de interesse pode ser expandida à maioria das pessoas que utilizam ambientes de educação a distância, portanto pode ser considerada um problema deste método de ensino. Uma solução encontrada é o emprego de avaliações esporádicas do tema abordado no curso, sem data marcada, para que os alunos sejam “forçados” a assistir às aulas, porém ainda não pode ser considerada como eficaz pois, à medida que os alunos começam a se conhecer, pode haver uma troca de informação sobre a ocorrência de avaliações. O emprego desta solução, associado com algum tipo de controle de presença mais rigoroso poderia ser implementado sem grandes esforços e solucionaria esse problema. Tomando como base a dificuldade de prender a atenção dos alunos em um curso de EAD e diminuir o problema de socialização, o curso deve ser desenvolvido com recursos atraentes e inovadores, a fim de tornar o curso algo mais interessante; além disso, para maior integração dos componentes do curso, podem ser marcadas também reuniões presenciais, “happy hours” e encontros, que motivam os alunos a participarem mais ativamente do grupo. Desta forma é possível aumentar também o rendimento do curso, pois como já pôde ser experimentado em edu- Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 55 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 cação presencial, quanto mais unido um grupo, maior a sua interação e facilidade de aprender entre si. Analisando os dados de alunos de cursos não presenciais pode-se concluir que o ambiente traz características que facilitam a aprendizagem, porém algumas melhorias poderiam vir a aumentar seu potencial, principalmente quando o foco do curso não é tecnologia, mais especificamente quando o ensino aplicado é de língua estrangeira. O ambiente TelEduc é precário em comunicação em tempo real, tendo apenas um Chat como meio, e uma ferramenta que pudesse prover comunicação oral, onde um professor pudesse falar e os alunos pudessem escutar, seria muito bem aplicado, principalmente no ensino de pronunciação de palavras e no emprego de técnicas de reunião ou apresentação. Existem ferramentas de comunicação deste tipo para Java, e isso poderia ser agregado ao TelEduc. Após essas análises, o uso do ambiente TelEduc para ensino de Informática pôde ser considerado válido, pois provê todas as ferramentas necessárias para o desenvolvimento, manutenção e análise do curso de forma eficiente e completa. Quando se fala de utilização do tema estudado de forma paralela ao ambiente estamos falando de utilizar o que se aprende simultaneamente à leitura do material utilizado no curso, pois se tratando de um curso de informática, o material usado será o computador e algum software, e desta forma pode ser feita muitas vezes a leitura do material e aplicação direta no objeto do estudo. Um exemplo disso é o curso de OpenOffice.org, no qual o material e os arquivos usados para ensino dos módulos são feitos no padrão do OpenOffice.org, portanto os arquivos serão abertos dentro do ambiente que se está estudando, possibilitando assim uma aplicação direta do conhecimento adquirido. Por fim, o fato de o ambiente TelEduc estar em permanente desenvolvimento e vários cursos terem sido implementados com sucesso por instituições renomadas, como, por exemplo, a UNICAMP, comprova que o uso da ferramenta é adequado ao ensino não presencial. Este trabalho, aliado a esse fato, comprova a eficiência e eficácia do ambiente para o ensino de informática. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CERCEAU, Alessandra de Dutra. Formação a Distância de Recursos Humanos para Informática Educativa. Dissertação de Mestrado. Campinas: UNICAMP, 1998. FUSHITA, Kátia Maria Teruco. Estudo comparativo de ambientes integrados para educação a distância: AulaNet e TelEduc. Dissertação de Graduação. Universidade São Francisco, 2001. 56 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Ministério da Educação e Cultura. Relatório Final da Comissão Assessora para Educação Superior a Distância (Portaria Ministerial Nº 335/2002). Agosto de 2002. Disponível: http://www.rau-tu.unicamp.br/nou-rau/ead/document/?view=21; Consultado em 07 set. 2004. NUNES, Ivônio B. Noções de Educação a Distância. Revista Educação a Distância, Brasília, n.4/5, p.7-25,dez. 93-abr. 94. Disponível: http://www.intelecto.net/ead/ ivonio1.html - Consultado em 03 ago. 2004. Pontifícia Universidade Católica do Rio. Página Inicial do AulaNet na PUC do Rio. Disponível: http://aulanet.les.inf.puc-rio.br/aulanet. ROCHA, Heloisa Vieira. Projeto TelEduc: Pesquisa e Desenvolvimento de Tecnologia para Educação à Distância. Campinas, abril de 2002. RODRIGUES, Gustavo Machado. Definição de um Ambiente de cursos para Ensino/Aprendizagem de Estatística via Internet. Pelotas, Rio Grande do Sul, 2002. TESSAROLLO, Márcia Renata Matero. Ambiente de Autoria de Cursos a Distância (AutorWeb). Dissertação de Mestrado. Campinas: Universidade Estadual de Campinas, 2000. UNICAMP. Orientação para o Desenvolvimento de cursos Mediados por Computador. Campinas, São Paulo. Guia elaborado pela equipe de EAD da Universidade Estadual de Campinas. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 57 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 58 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 SISTEMA DE VISUALIZAÇÃO DE DOCUMENTOS VIA INTERNET Helder de Andrade Freitas* Raimundo Cláudio da Silva Vasconcelos** RESUMO Este artigo tem por objetivo descrever o funcionamento de um sistema de visualização de documentos via Internet. A principal função deste sistema é facilitar a consulta de documentos dentro das empresas, reduzindo o acesso aos arquivos físicos e possibilitando o controle de usuários com autorização de visualização dos documentos. Palavras-chave: visualização de documentos via Internet, HTML, JavaScript, VBScript, SQLServer. ABSTRACT This article aims to describe the features of a system that permits document visualization by means of the Internet. The main goal of this system is to facilitate the viewing of documents within companies, reducing access to hardcopies and allowing control over users through document visualization authorizations. Key Words: visualization of documents through the Internet, HTML, JavaScript, VBScript, SQLServer. INTRODUÇÃO Este artigo tem como objetivo descrever as atividades e funcionamento do protótipo de um Sistema de Visualização de Documentos Via Internet. Sua principal função é facilitar a consulta de documentos dentro das empresas, reduzindo o acesso aos arquivos físicos e possibilitando o controle de usuários com autorização de visualização dos documentos. Para auxiliar nos propósitos deste trabalho foi realizado um estudo criterioso sobre visualização de imagens via Internet. De forma geral, as empresas possuem uma quantidade enorme de documentos físicos que ocupam espaço, dificultando a organização, localização e consulta das informações contidas nestes documentos. A dificuldade aumenta quando os documentos possuem valor jurídico1 ou fiscal2, o que impede a sua criação em formato eletrônico de edição como, por exemplo, um arquivo do MS Word. A melhor solução para este problema seria a digitalização destes documentos, mesmo as* Bacharel em Sistemas de Informação pelo Centro Universitário Padre Anchieta. [email protected] ** Doutorando em Ciência da Computação. Mestre em Ciência da Computação. Bacharel em Ciência da Computação e Administração de Empresas. Professor de cursos de graduação e pós-graduação do Centro Universitário Padre Anchieta e da Universidade São Francisco. [email protected] 1. Documentos que possuem assinaturas, rubricas, reconhecimento de firma, autenticações ou qualquer forma de identificação pessoal única. 2. Documentos com informação ou comprovante de tributação fiscal, com autorização de emissão única e exclusiva pelo governo. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 59 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 sim ainda haveria problemas de localização e consulta. Uma das principais vantagens que a Internet trouxe, foi a possibilidade de encurtar distâncias e facilitar o contato entre pessoas e entre empresas. Pensando nisso, o objetivo deste projeto foi desenvolver uma solução para a pesquisa e visualização de documentos via Internet. Desta forma um usuário, devidamente autorizado, poderá visualizar os documentos sem a necessidade de se locomover até o arquivo físico. Mais de um usuário poderá visualizar um documento ao mesmo tempo e o controle de acesso aos documentos fica restrito aos usuários cadastrados no sistema que possuam permissão de visualização de cada tipo de documento. Este trabalho será dividido da seguinte forma: a primeira seção descreve o ambiente tecnológico utilizado para desenvolver o protótipo; em seguida o sistema é descrito e o seu funcionamento é detalhado; na conclusão possíveis extensões futuras são descritas. AMBIENTE TECNOLÓGICO O ambiente tecnológico foi montado com base em tecnologia Microsoft Windows, com sistema operacionalMicrosoftW indows2000Server STARLIN, ( 2001), com o pacote de IIS 5.0 (TULLOCH, 2001; IIS) e atualização para instalação do Service Pack 4 e pacotes de segurança. A escolha deste sistema operacional foi devida ao fato de sua administração ser fácil e centralizada, reduzindo o esforço de gerenciamento e manutenção do sistema. Devido à utilização do ambiente operacional Windows e do IIS 5.0, no desenvolvimento do sistema foi utilizada programação ASP (Jones, 2001; ASPBrasil), através das linguagens HTML (HTML), JavaScript (SILVA, 2001) e VBScript (VBScript). O sistema de gerenciamento de banco de dados escolhido foi o SQL Server 2000 (WAYMIRE, 2001; SQLServer) com Service Pack 3, devido a sua confiabilidade e eficiência. Com a finalidade de alcançar melhor desempenho do sistema, foi utilizado o método de 3 camadas com a utilização de stored procedure, view, trigger, e function. Desta forma, as regras de negócio do sistema ficam a cargo do banco de dados facilitando assim a codificação. Para evitar uma sobrecarga do banco de dados, as imagens dos documentos digitalizados não foram armazenadas diretamente nele, mas gravadas em diretórios protegidos no servidor, seus nomes, bem como suas localizações no disco, foram armazenados no Banco de Dados. Como medida de segurança o projeto foi desenvolvido para a utilização de um Data Center3; desta forma toda a infra-estrutura de segurança fica a cargo da empresa contratada. Mesmo assim, como medida de segurança adicional, foi instalado no servidor o Firewall4 Internet Security Systems Blackice versão 3.6 (ISS) cci e o antivírus Norton Antivírus Corporate Edition (Norton). 3. Centro de armazenamento de servidor. 4. Mecanismos de segurança que protegem os recursos de hardware e software dos perigos e ameaças aos qual o sistema está exposto. 60 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Quanto ao hardware, o critério de escolha do servidor foi a capacidade de armazenamento. Não é necessário ter um grande processador, mas é preciso ter uma grande capacidade de armazenamento em HD para guardar as imagens digitalizadas dos documentos. DESCRIÇÃO DO SISTEMA O sistema de visualização de documentos foi desenvolvido para uma instituição financeira de uma montadora de automóveis controlar e visualizar os documentos referentes aos distribuidores de automóveis. O sistema agrupa os documentos conforme o tipo, como apresentado na figura 1: Documentos Documentos Cadastrais Distribuidor Contrato Social Documentos Cadastrais Sócios Procuração Cartão de CPNJ Relação de Bens Cartão de Assinatura Aditamentos Contratos Contrato 1 Contrato 1 Contrato 3 Contrato 3 Contrato 2 Contrato 2 Garantias Hipoteca Figura 1 - Árvore de documentos Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 61 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 A figura 2 mostra o DFD de nível 0 do sistema. Como se pode observar, o usuário pode realizar e obter ações e resultados. Solicitação de Documento Imagem do Documento Cadastro de Usuários Usuário Solicitação de Acesso Permissão de Acesso Relatório Analítico í Relatório Sintético Sistema de Visualização de Documentos Via Inernet VisDoc - NET Relatório de Eventos Figura 2 - Diagrama de Contexto 62 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 A figura 3 mostra o diagrama lógico do banco de dados com as entidades, atributos, relacionamentos e cardinalidade do sistema utilizado a ferramenta Allfusion Erwin Data Modeler 4.1.2765 (ErWin). CONTROLE_SENHAS CodCtlSenha CodUsuario (FK) Senha Data TIPOS_EVENTOS CodTipEvento Descricao USUARIOS CodUsuario Login Nome Fone EMail Depto Senha DatValSenha CodGrpUsuario (FK) DatInclusao Status Bloqueio SenhaPadrao GRUPOS_USUARIOS CodGrpUsuario Nome MODULOS_X_GRUPOS_USU CodGrpUsuario (FK) CodModulo (FK) EVENTOS CodEvento CodUsuario (FK) CodTipEvento (FK) Data IP Complemento PERMISSOES CodUsuario (FK) CodTipDoc (FK) Permissao TIPOS_DOC CodTipDoc Descricao CodGrpDoc (FK) MODULOS CodModulo Descricao Nome Menu TamMenu TamSubMenu Ordem Arquivo GRUPOS_DOC CodGrpDoc Descricao IMAGENS CodDistribuidor (FK) CodTipDoc (FK) Imagem DISTRIBUIDORES CodDistribuidor Nome CNPJ N para N 1 para N Figura 3 - Diagrama Lógico do ErWin Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 63 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 O sistema permite que apenas as pessoas autorizadas acessem os módulos. A senha de cada usuário é armazenada no banco de dados de forma criptografada e tem uma validade de 90 (noventa) dias. Depois deste período o usuário é obrigado a trocar a senha e não poderá repetir uma senha no período de 270 (duzentos e setenta) dias. Cada usuário só terá permissão de acesso aos documentos autorizados pelos administradores do sistema através do módulo de Permissão. Neste módulo, o administrador seleciona os tipos de documento que um determinado usuário poderá visualizar. O usuário poderá trocar a sua senha a qualquer momento através do módulo Troca de Senha. O módulo de Cadastro de Usuário possibilita aos administradores cadastrar novos usuários e alterar os cadastros de usuários. O administrador poderá cadastrar as seguintes informações referentes aos usuários: nome completo, nome do login de acesso ao sistema, e-mail, telefone, departamento em que o usuário trabalha, em que tipo de acesso e status, que indica se o usuário está ativo ou inativo, ou seja, se pode ou não acessar o sistema. O tipo de acesso é dividido em: n Master, que tem acesso a todos os módulos do sistema com exceção do cadastro de usuário e do relatório de eventos. n Simples, que não tem acesso ao módulo de pesquisa e visualização de imagens dos documentos e também não poderá acessar o modulo de cadastro de usuários e relatórios de eventos. Quando o usuário é criado, automaticamente recebe uma senha padrão que é composta de seu nome de login mais o mês corrente e obrigatoriamente ele terá de trocar a senha no seu primeiro acesso ao sistema. Exemplo de senha padrão: “fulano09” Usuário: fulano Mês: Setembro (09) A pesquisa (ver figura 4) poderá ser feita por código, parte do nome, CNPJ do distribuidor, ou a combinação entre estes campos. 64 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Figu arFigura Figura 4 - Tela de Pesquisa A pesquisa traz como resultado uma lista de distribuidores, que são mostrados em páginas com até 10 (dez) ocorrências e o usuário poderá movimentar as páginas através dos botões de avanço e retrocesso, seguindo a seguinte legenda (ver Fig. 5): - Movimenta o registro para a primeira página; - Movimenta o registro para a página anterior à atual; - Movimenta o registro para a página seguinte à atual; - Movimenta o registro para a última página. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 65 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Figura 5 - Tela de Resultado de Pesquisa Selecionando um distribuidor, o sistema mostrará uma “árvore” com os tipos de documentos e um ícone indicando se o distribuidor possui ou não documento a ser visualizado (ver figura 6). 66 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 - Não possui documento a ser visualizado; - Possui documento a ser visualizado. Figura 6 - Tela de Arvore Expandida de Documentos Selecionando o documento a ser visualizado, o sistema abrirá uma nova janela do Internet Explorer e mostrará a imagem do documento utilizando o plug-in do AcrobatReader( SOUZA, 2001; Adobe) com todas as suas funções; desta forma o usuário poderá ajustar o zoom, imprimir, visualizar miniaturas etc. (ver figura 7). Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 67 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Figura 7 - Tela de Visualização do Documento O sistema gera três tipos de relatórios. O Relatório Analítico mostra a quantidade de cada tipo de documento. O Relatório Sintético mostra a soma de todos os documentos agrupados por cada tipo. O Relatório de Eventos só pode ser acessado por administrador e relata os eventos de acesso ao sistema e pode ser filtrado por usuário, tipo de evento, mês, ano ou a combinação destes campos, tendo como resultado a listagem dos eventos mostrados em páginas de dez ocorrências e o administrador poderá mudar de página através dos botões de avanço e retrocesso. Os eventos relatados neste modulo são: n Login ao Sistema; 68 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 n Usuário bloqueado; n Troca de senha. Todos os relatórios podem ser impressos clicando no botão Imprimir. CONCLUSÃO Os resultados obtidos no desenvolvimento do projeto do sistema de visualização de documentos via Internet foram muito satisfatórios e os objetivos da fase de planejamento foram alcançados. O sistema possui todas as funcionalidades esperadas de um visualizador de documentos. O conhecimento adquirido neste projeto poderá ser expandido para empresas das mais variadas áreas, não somente para instituições financeiras, como foi o caso deste protótipo. Com poucas alterações, poderá ser utilizado em qualquer área da indústria ou do comércio. Muitas empresas têm problema semelhante de armazenamento e gerenciamento dos seus documentos. Com a implantação do sistema de Visualizador de Documentos Via Internet a empresa poderá deslocar o seu arquivo de documentos para um outro local e melhor aproveitar o seu espaço físico para produção. Este projeto poderá evoluir para um gerenciamento de documentos via Internet, que poderá controlar solicitações de documentos físicos e, desta forma, a empresa terá condições de gerenciar com quem os documentos estão e por quanto tempo. Esta evolução traria a vantagem do controle de acesso a documentos físicos, pelo qual o encarregado do controle do arquivo só poderá fornecer os documentos aos usuários autorizados. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS JONES, A. Russell. Dominando Active Server Pages 3. São Paulo: Makron Books, 2001. SILVA, Osmar J. JavaScript Avançado. São Paulo: Erica, 2003. SOUZA, Tereza Cristina Félix (Tradutora). Acrobat 5.0: Guia autorizado. STARLIN, Gorki; ALCANTARA, Izaias. Microsoft Windows 2000 Server: Curso Completo. Rio de Janeiro: Alta Books, 2002. TULLOCH, Mitch. Dominando IIS 5.0. Rio de Janeiro: Ciência Moderna, 2001. WAYMIRE, Richard. Aprenda em 21 dias Microsoft SQL Server 2000. Rio de Janeiro: Campus, 2001. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 69 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 SITES (CONSULTADOS EM 11/11/2004): (IIS) http://support.microsoft.com/default.aspx?xmlid=fh;en-us;iis50 (ASPBrasil) http://www.aspbrasil.com.br/ (HTML) http://msdn.microsoft.com/library/default.asp?url=/workshop/author/dhtml/ dhtml_node_entry.asp (VBScript) http://msdn.microsoft.com/library/default.asp?url=/library/en-us/dnanchor/ html/scriptinga.asp (SQLServer) http://www.microsoft.com/sql/default.asp (ISS) http://www.iss.net/ (Norton) http://www.symantec.com.br/region/br/product/nav/navce/ (ErWin) http://www3.ca.com/Solutions/Product.asp?ID=260 (Adobe) http://www.adobe.com.br/ 70 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 A FILOSOFIA POLÍTICA DE NORBERTO BOBBIO José Jair Ferraretto* Samuel Antonio Merbach de Oliveira** RESUMO Este artigo tem como objetivo debater a proposta de Bobbio de unir os aspectos positivos do liberalismo e do socialismo, no projeto denominado socialismo-liberal, que conjuga as duas correntes do pensamento político ocidental com a democracia, estabelecendo na mesma estrutura três características da cidadania: as liberdades civis, as garantias políticas e os direitos sociais. Palavras-chave: direitos individuais, direitos coletivos, liberalismo, socialismo e democracia. ABSTRACT This article aims to debate the proposal of Bobbio to unite positive aspects of liberalism and socialism, in the project called liberal-socialism, which combines the two lines of Western political thought with democracy, establishing in the same structure, three characteristics of citizenship: civil liberties, political guarantees and social rights. Key words: individual rights, collective rights,liberalism, socialism, democracy. INTRODUÇÃO Em 9 de janeiro de 2004 faleceu um dos maiores filósofos políticos contemporâneos, o italiano Norberto Bobbio. Bobbio foi senador vitalício da Itália, nasceu em Turim, onde estudou direito e filosofia, foi professor universitário e jornalista. É conhecido como filósofo que se aplicou ao estudo do direito, da filosofia e da política. Bobbio escreveu para diversos periódicos italianos tendo suas reflexões políticas e teóricas comentadas em diversos diários do país, contribuindo, assim, para aproximar as pessoas através do debate e colaborando para o exercício da cidadania. Bobbio sempre esteve disposto a dialogar com seus interlocutores. Suas preocupações teóricas e políticas em relação às questões centrais da democracia, da liberdade, da igualdade, da república e dos direitos humanos foram os elementos básicos de sua atividade intelectual e política. Por isso, Norberto Bobbio é considerado um dos maiores filósofos contemporâneos. * Mestre em Direito pela UNIP - Campinas, Especialista em Advocacia Empresarial pela FMU, Especialista em Direito Penal pela PUC-SP, Professor do Curso de Direito do Centro Universitário Padre Anchieta. ** Mestre em Direito pela PUC-Campinas, Mestre em Filosofia pela PUC-Campinas, Especialista em Direito Material e Processual do Trabalho pelo Centro Universitário Padre Anchieta, Especialista em Direito Processual Civil pela PUC-Campinas, aluno do Curso de Especialização em Direito Penal e Processo Penal pelo Centro Universitário Padre Anchieta, Professor dos Cursos de Direito e de Administração de Empresas do Centro Universitário Padre Anchieta, e congressista do II Congresso Mundial de Direito Processual realizado em Recife. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 71 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 1. LIBERALISMO O termo liberalismo tornou-se conhecido após a Revolução Francesa, em 1789. O liberalismo é uma doutrina do Estado limitado tanto com respeito aos seus poderes quanto às suas funções. O primeiro é o Estado de direito e o segundo é o Estado mínimo. Contudo, é possível que um Estado de direito não seja mínimo, como também um Estado mínimo que não seja um Estado de direito. O Estado de direito se opõe ao Estado absoluto; o Estado mínimo se contrapõe ao Estado máximo. Por Estado de direito entende-se geralmente um Estado em que os poderes públicos são regulados por normas gerais e devem ser exercidos no âmbito das leis que os regulam. Trata-se da doutrina da superioridade do governo das leis sobre o governo dos homens. O Estado de direito significa não só subordinação dos poderes públicos às leis, mas também subordinação das leis ao limite material do reconhecimento de alguns direitos fundamentais considerados constitucionalmente e, portanto, invioláveis. Integram o Estado de direito os mecanismos constitucionais que impedem o exercício arbitrário e ilegítimo do poder, bem como o abuso do poder. Os mais importantes desses mecanismos são: 1, o controle do Poder Executivo pelo Legislativo; 2, o eventual controle do parlamento no exercício do Poder Legislativo ordinário por parte de uma corte jurisdicional, a quem se pede a averiguação da constitucionalidade das leis; 3, uma relativa autonomia do governo local em todas as suas formas e graus, com respeito ao governo central; 4, uma magistratura independente do poder político (BOBBIO, 1997, p. 19). Os mecanismos constitucionais que caracterizam o Estado de direito têm o objetivo de defender o indivíduo dos abusos do poder. Para os liberais, a liberdade individual é garantida, mais do que pelos mecanismos constitucionais, também pelo fato de que ao Estado são reconhecidas tarefas limitadas à manutenção da ordem pública interna e internacional. Pode-se dizer quealimitação das tarefas do Estado constitui condiçsine ão qua non do controle dos poderes coercitivos do Estado. O Estado mínimo é mais controlável do que o Estado máximo. Uma vez defendida a liberdade no sentido predominante da doutrina liberal como liberdade em relação ao Estado, a formação do Estado liberal pode ser identificada como o progressivo alargamento da esfera de liberdade individual diante dos poderes públicos. Mas mesmo o objetivo liberal de construir um “Estado limitado” pode ser compreendido de duas formas distintas: o sentido liberal de limitação dos seus poderes (Estado de direito) ou o sentido liberista de limitação das suas funções (Estado mínimo). Trata-se da identificação do liberalismo com a defesa das forças de mercado. Em sentido contrário temos o termo “liberista”, que serve para designar os adeptos do liberalismo econômico, ao passo que liberalismo refere-se ao universo do liberalismo político (BOBBIO, 1997, p. 39; 87). 72 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 2. LIBERALISMO E DEMOCRACIA O início das democracias liberais se evidenciou nas revoluções burguesas que entre os séculos XVIII e XIX ocorreram nos Estadas Unidos e na Europa. Fatos importantes como a Guerra de Independência Estadunidense (1776), a Revolução Francesa (1789) e as diversas revoluções européias de 1848 que destruíram o absolutismo, legado do feudalismo. Na vanguarda desses acontecimentos estava a nova classe social emergente, a burguesia, que derrotou as monarquias de direito divino, consolidando a liberdade econômica, reduzindo o poder da Igreja (separação entre Igreja e Estado) e instituindo as noções de cidadão e de representação política: noções de homem, de voto. O termo liberalismo ganhou destaque após a Revolução Francesa, em 1789. Em sua origem, o liberalismo não se confunde com a democracia. De fato, nem todos os Estados originariamente liberais tornaram-se democráticos. Entretanto, os Estados democráticos existentes foram originariamente liberais. Assim, liberalismo e democracia não são interdependentes: um Estado liberal não é necessariamente democrático e um governo democrático se transforma necessariamente num Estado liberal. Isto porque enquanto o ideal do primeiro é limitar o poder, o do segundo é distribuir o poder. Liberalismo e democracia tratam de assuntos divergentes: o liberalismo da questão das funções do governo e da limitação de seus poderes; a democracia do problema de quem deve governar e com quais procedimentos. O liberalismo exige que todo poder seja submetido a limites, inclusive o da maioria. A democracia, ao contrário, chega a considerar a opinião da maioria o único limite aos poderes do governo. É uma teoria dos limites do poder do Estado. Tais limites valem para quem quer que detenha o poder político, inclusive para um regime democrático em que todos os cidadãos têm o direito de participar, mesmo que indiretamente, da tomada das grandes decisões, e cuja regra é a regra da maioria. Na formulação hoje mais corrente, o liberalismo é a doutrina do “Estado mínimo”. Ao contrário dos anarquistas, para quem o Estado é um mal absoluto e deve, pois, ser eliminado, para o liberal o Estado é sempre um mal, mas é necessário, devendo, portanto, existir, mas dentro dos limites mais restritos. Nesse contexto, Bobbio defende o liberalismo democrático, contra a visão instrumental de democracia dos liberistas. Com o avanço do socialismo no mundo, o liberalismo acabou se concentrando na luta pela economia de mercado e pela liberdade econômica. Com isso, de doutrina do Estado de Direito, o liberalismo se transformou em doutrina do Estado mínimo. Nesse contexto, Bobbio entende: a) que hoje o método democrático seja necessário para a salvaguarda dos direitos fundamentais da pessoa, que estão na base do Estado liberal; b) que a salvaguarda desses direitos seja necessária para o correto funcionamento do método democrático (BOBBIO, 1997, p. 43). Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 73 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 3. SOCIALISMO: A DOUTRINA MARXISTA De fato, para o marxismo apenas num sistema econômico comunista é possível se ter uma sociedade democrática. Entende a democracia como o governo do povo, uma vez que se fundamenta na realização do interesse do povo e, portanto, na sua verdadeira vontade. A doutrina marxista entende a democracia como a melhor forma de governo, mas isso só é possível sob o socialismo, visto como o melhor sistema econômico, que se desenvolve a partir de uma interpretação econômica da sociedade, segundo a qual os fenômenos políticos como o Estado e o Direito são apenas uma superestrutura posta acima da realidade econômica, formada pelas relações de produção. É a primazia do econômico sobre o político. De fato, na sociedade capitalista a minoria burguesa detém a posse dos meios de produção, sendo, por isso, o grupo economicamente dominante, o que contradiz veementemente a democracia enquanto governo para a maioria. Dessa maneira, apenas quando a maioria se tornar o grupo economicamente dominante, o que conforme a tese marxista só será possível por meio da socialização dos meios de produção, é que teremos realmente a democracia. 4. BOBBIO E OS COMUNISTAS ITALIANOS De fato, Bobbio, além de teórico político, também teve importante participação política na Itália. Sua militância teve como premissas fundamentais a defesa da liberdade, do socialismo, da tolerância e da democracia. Em dezembro de 1943, militava no clandestino Partido da Ação (que recolhia a herança de Piero Gobetti e Carlo Rosselli) contra o fascismo e pela libertação da Itália, entendia que esta não era uma luta de classes e sim uma revolução democrática, tendo nessa época um diálogo permanente com os comunistas do PCI (hoje Partido Democrático da Esquerda), em que os via “não adversários, mas interlocutores” e reconhecia o valor de suas idéias. Dessa maneira, como representante do socialismo-liberal, o Partido da Ação era totalmente contrário ao fascismo que fora anti-liberal na política e anti-socialista na economia. Na luta contra o fascismo Bobbio dialogou com seus adversários comunistas italianos acerca dos temas da liberdade, da democracia, para resistir contra a ofensiva da direita reacionária (REGO, 2001). Para Bobbio os comunistas não são inimigos que devem ser combatidos, mas sim devemos considerá-los como interlocutores em um diálogo acerca das razões da esquerda. Com efeito, na obra Política e Cultura, Bobbio dialoga de maneira serena e civilizada com os comunistas italianos acerca da defesa dos direitos humanos, em particular os direitos da liberdade. A discussão começou com Ranuccio Bianchi Bandelli, seguiu com Galvano della Volpe e finalizou com a intervenção de Palmiro Togliati. Esse diálogo é um exemplo de tolerância, levando em consideração a 74 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 importância da função moderadora e mediadora de dogmatismos opostos (BOBBIO, 1955). Bobbio debateu com os discípulos de Gramsci temas como o projeto de democracia indicado pelos comunistas como alternativa à democracia representativa dos liberais e a compatibilidade, ou não, da proposta de transformação socialista com a continuidade da democracia, entendida como um conjunto de regras que regulam o jogo político. Bobbio não foi marxista e nem anti-marxista. Considerava a obra de Marx como um clássico que devia ser lido e relido para se averiguar o que permanece da sua obra. Norberto Bobbio levantando sempre o problema central da relação entre socialismo e democracia, critica o suposto desprezo dos comunistas italianos pela democracia liberal em prol da idéia de ditadura do proletariado. Embora tenha algumas idéias contrárias ao marxismo entende que não seria possível sem o marxismo entender a história sob a ótica dos oprimidos, ganhando assim uma nova perspectiva do mundo sem a qual não nos teríamos salvado. Bobbio também foi o pioneiro na análise da sociedade civil nos Cadernos do Cárcere, com um excelente texto que desencadeou diversas discussões que ajudaram na compreensão das categorias Estado/sociedade, sociedade civil / sociedade política quando considerou a originalidade de Gramsci evidenciando a importância do seu pensamento, sobretudo acerca da sociedade civil (BOBBIO, 1999). Bobbio entendeu que o marxismo tratava de teorias importantes, buscando sempre examiná-las. Afirmou a grandiosa colaboração do legado do marxismo, como filosofia política irrenunciável para o desenvolvimento da civilização. 5. SOCIALISMO E DEMOCRACIA Bobbio definiu-se como socialista-liberal, uma tradição muito particular na Itália. Entretanto, sua ideologia política jamais o impediu de reconhecer a importância do marxismo. Bobbio também observa outra característica diferenciadora, a divisão entre moderados e extremistas: a posição ante a idéia de liberdade, a apreciação do método democrático. Do cruzamento destas variáveis, resultaram quatro possibilidades de doutrinas e movimentos políticos, a saber: a) na extrema-esquerda, os igualitários autoritários, descendentes do jacobinismo e do bolchevismo e adeptos do socialismo real; b) na centro-esquerda, os igualitários libertários, encontrados nos vários partidos social-democratas e social-liberais e defensores do Welfare State; c) na centro-direita, os libertários inigualitários, filiados aos partidos conservadores e liberal-conservadores e favoráveis à onda neoliberal; d) na extrema-direita, os autoritários inigualitários, originários do nazismo e do fascismo e simpatizantes das suas novas aparições (BOBBIO, 2001, p. 134-135). Como sabemos, Bobbio é um socialista-liberal defendendo a segunda opção política – a libertária igualitária ou moderada de esquerda, na qual sintetiza o seu Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 75 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 objetivo socialista-liberal com dois elementos inseparáveis: igualdade e liberdade. Defende os princípios liberais nas questões políticas e os socialistas nas questões sociais, sendo que o ideal socialista é mais amplo do que o ideal do liberalismo, porque, ao obter mais igualdade, se estará conseguindo também mais liberdade. Para Bobbio a democracia é uma forma de governo na qual todos são livres porque são iguais. A priori, a relação entre liberalismo e socialismo foi muito difícil. A divergência ocorre no fato da defesa ilimitada da propriedade privada. O socialismo descreve que a propriedade privada é a principal responsável pela desigualdade entre os homens. Entretanto, a relação entre socialismo e democracia sempre foi possível. O processo de democratização produziria ou favoreceria o advento de uma sociedade socialista, baseada na transformação da propriedade privada e na coletivização dos meios de produção. O advento da sociedade socialista reforçaria e ampliaria a participação política e, portanto, tornaria possível a plena realização da democracia, entre cujos compromissos se situa a distribuição igualitária do poder econômico e do poder político. Esta união entre socialismo e democracia, no entender de Bobbio, é possível. Isto não quer dizer que a relação entre ambos sempre foi pacífica. Sob certos aspectos, foi polêmica. Diante de tal possibilidade, criaram-se as expressões socialismo liberal e liberalismo social. 6. O SOCIALISMO-LIBERAL DE NORBERTO BOBBIO De fato, a teoria acerca do socialismo-liberal remonta a Stuart Mill e possui importantes expoentes na Itália, como Rosselli e, mais recentemente, Norberto Bobbio. Tais pensadores, sem renunciar a uma concepção individualista da sociedade, cujo núcleo fundamental é a liberdade, afirmam a indissolubilidade da relação entre liberdade e igualdade. A emergência e a difusão da doutrina e de movimentos socialistas e a aliança desses movimentos com os partidos democráticos reabriram o contraste histórico entre liberalismo e democracia, exatamente quando parecia ter havido uma conciliação histórica definitiva entre liberalismo e democracia. Precisamente na reação contra o avanço do socialismo, com seu planejamento econômico e a coletivização dos meios de produção, a doutrina liberal foi cada vez mais se concentrando na defesa da economia de mercado e da livre iniciativa econômica, identificando-se como a doutrina econômica chamada liberismo, na Itália. A Itália tem sido a precursora dos socialistas-liberais. Entre as razões para isso, destaca-se o fascismo, cuja ascensão teve o condão de aliar liberais e socialistas na luta contra o inimigo comum, a ponto até de mesclá-los, como foi o caso do Partito d’Azione – o partido dos socialistas liberais, que tinha por escopo realizar a síntese entre liberalismo e socialismo. 76 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Mesmo sem entrar em detalhes, é ilustrativo mencionar a “Revolução Liberal” de Piero Gobetti, intelectual que defendia o livre comércio, ao mesmo tempo em que admirava Lenin e colaborava com Gramsci, o “Movimento Liberal Socialista”, formado em 1937 por Guido Calogero e Aldo Capitini, o “Socialismo Liberal”, de Carlos Rosselli, que desejava mesclar os princípios liberais no socialismo. Na Itália Rosseli esforçou-se para construir a teoria de um socialismo-liberal, mas seu primeiro grande idealizador foi um filósofo oriundo de uma corrente não marxista, na qual Stuart Mill exerce um papel muito importante. O socialismo-liberal apresenta-se como uma alternativa ao marxismo, do qual critica, filosoficamente, o determinismo e o materialismo, ou seja, a negligência das forças morais que movem a história, economicamente, o coletivismo global, politicamente, e o Estado materialista e coletivista. Em contrapartida, o socialismo-liberal também é uma alternativa ao capitalismo liberal, que com o desenvolvimento da sociedade industrial serviu para oprimir e escravizar os trabalhadores, como também ao neo-liberalismo entendido hoje, como uma doutrina econômica conseqüente, da qual o liberalismo político é apenas um modo de realização, nem sempre necessário; ou, em outros termos, uma defesa intransigente da liberdade econômica, da qual a liberdade política é apenas um corolário. Para os socialistas-liberais, o socialismo originou-se do desenvolvimento histórico do liberalismo no processo de emancipação da humanidade, que objetivava, sobretudo, a liberdade. Após a emancipação política, que é obra da Revolução Francesa, seria necessária a emancipação econômica. Entretanto, a emancipação econômica não foi possível de ser realizada. É possível se chegar ao socialismo-liberal através do método liberal que é aberto, que só levará ao socialismo se a classe trabalhadora assim desejar. Nesse contexto, o sufrágio universal é o meio para se alcançar o poder político. É a aplicação do princípio de liberdade, é o direito de participar do poder político, mas também, ao mesmo tempo, uma aplicação do princípio da igualdade como acesso igual aos direitos políticos. Por fim, para Bobbio o socialismo é um ideal a ser alcançado através da luta política permanente, mas sem identificá-lo com a coletivização dos bens de produção, e muito menos com o emprego da violência para alcançar tal ideal. CONCLUSÃO Para Bobbio, o homem, como indivíduo, deve ser livre; como ser social deve estar com os demais indivíduos em relação de igualdade. Liberdade e igualdade são os valores que servem como fundamento ao socialismo-liberal. A “igualdade democrática”, na “liberdade liberal”, é aquela perante a lei e os direitos. Diferentemente do binômio democracia e socialismo, no qual democracia será vista como igualdade social, no binômio democracia e liberalismo, democracia terá como sinônimo a expressão sufrágio universal. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 77 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Dessa maneira, para o êxito do socialismo-liberal, o liberalismo e a democracia são, ao mesmo tempo, fins em si próprios e meios efetivos para o socialismoliberal alcançar seu triunfo final. Por fim, o socialismo liberal de Bobbio objetiva encontrar um terceiro caminho entre o bloco comunista e o mundo capitalista. Tal caminho teria de combinar teorias marxistas e liberais liberais. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOBBIO, Norberto. As Ideologias e o Poder em Crise. 3. ed. Brasília: UNB, 1994. ________. Direita e Esquerda: razões e significados de uma distinção política. 2. ed rev. e ampl. São Paulo: Unesp, 2001. ________. Elogio da Serenidade e outros escritos morais. São Paulo: Unesp, 2002. BOBBIO, Norberto. Ensaios Sobre Gramsci e o conceito de sociedade civil. São Paulo: Paz e Terra, 1999. ________. Igualdade e Liberdade. 4. ed. 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Rio de Janeiro: Bertrand, 1988. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A Ideologia Alemã. 11. ed. São Paulo: Hucitec, 1999. __________. Textos – Manifesto do Partido Comunista. v. 3. São Paulo: Alfa Ômega, 1977. MILL, John Stuart. Capítulos sobre o socialismo. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2001. REGO, Walquiria Domingues Leão. Em Busca do Socialismo Democrático. São Paulo: UNICAMP, 2001. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 79 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 80 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 O IMPACTO DA GLOBALIZAÇÃO NA GESTÃO ADMINISTRATIVA Hugolino de Sena Batista* Vinícius Rodrigues da Costa* João Victor Bevilacqua* Milena Jacobsen Pelizari Pinto* Luciana Ferreira Baptista** RESUMO O propósito do presente artigo é discutir o impacto da Globalização, tal qual a conhecemos hoje, no âmbito da Administração. No primeiro capítulo estaremos analisando qual o sentido da Globalização, bem como verificando o seu arcabouço histórico. No segundo capítulo estaremos focando a Globalização em seu estágio atual, com a larga e crescente utilização de recursos tecnológicos. No terceiro capítulo discutiremos as conseqüências desse tipo de Globalização para o administrador, a fim de identificarmos ações e atitudes que devam ser buscadas e cultivadas por todo aquele que necessita atuar na Gestão de Negócios. Palavras-chave: globalização, gestão de negócios, gestão administrativa, administração. ABSTRACT The intention of the present article is to discuss the impact of Globalization, as known today, in matters of administration. In the first chapter the meaning of Globalization will be analyzed as well as verifying the its historical outline. The second chapter focuses on Globalization in its present stage, with its large and growing use of technological resources. In the third chapter, consequences of this type of Globalization for the administrator are discussed in order to identify actions and attitudes that should be sought after and developed by all those in business management. Key words: globalization, business management, administrative management, administration 1. A GLOBALIZAÇÃO – VISÃO GERAL 1.1 Conceituação Definir o termo “globalização” é mais difícil do que a princípio se imagina. Isso porque não existe uma definição única e inquestionável, em torno da qual todos concordem (COSTA, 2005)1. Como esclarece um dos autores pesquisados: Como todo conceito imperfeitamente definido, globalização significa coisas distintas para diferentes pessoas. Pode-se, no entanto perceber quatro linhas básicas * Graduandos em Tecnologia em Informática com Gestão em Negócios pela FATEC Jundiaí. ** Mestre em Engenharia de Produção – Sistemas de Informação (UNIMEP), especialista em Administração de Empresas (USF) e Analista de Sistemas (USF). Professora dos cursos de Sistemas de Informação e Administração de Empresas do Centro Universitário Padre Anchieta, do curso de Tecnologia em Informática com Gestão em Negócios da FATEC Jundiaí e do curso de Administração de Empresas em Análise de Sistemas da FACCAMP. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 81 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 de interpretação do fenômeno: (i) globalização como uma época histórica; (ii) globalização como um fenômeno sociológico de compressão do espaço e tempo; (iii) globalização como hegemonia dos valores liberais; (iv) globalização como fenômeno socioeconômico. (PRADO, 2005) A título de exemplo reproduzimos abaixo três das definições encontradas: “A globalização é um processo de aprofundamento da integração econômica e social dos países do Mundo no final do Século XX, é um fenômeno observado na necessidade de formar uma Aldeia Global que permita maiores ganhos para os mercados internos já saturados” (WIKIPÉDIA [1], 2005). Globalização é ‘’o processo de aumentar a integração internacional nas esferas econômica, política, social e cultural nas quais ações além das fronteiras nacionais limitam e influenciam resultados nacionais. A interação é vista sob forma de um fluxo maior de bens e serviços, de capital, e de interações culturais e políticas, migração de pessoas e muitas outras” (COSTA, 2005). “Definimos globalização como o processo de integração de mercados domésticos, no processo de formação de um mercado mundial integrado” (PRADO, 2005). Em uma primeira análise pode-se notar que há certas diferenças entre as definições citadas, tanto no que diz respeito à amplitude quanto na questão da exatidão terminológica. No entanto, abstraindo-nos destes detalhes, gostaríamos de ressaltar os pontos de convergência existentes. O primeiro deles é o conceito de que a Globalização é um “processo”. Há um certo consenso de que a globalização não é algo pronto e acabado, mas, sim, algo que está se desenvolvendo no decorrer do tempo. “A globalização como ´processo` está em andamento; não foi inventada por ninguém e não tem dono. Simplesmente existe, ampliando transações comerciais, facilitando a comunicação e a informação” (COSTA, 2005). O segundo ponto de convergência é a idéia de “integração”. Quando falamos em globalização temos em mente a universalização dos mercados. Como ressalta a pesquisadora Maria de Lourdes Rollemberg Mollo (2005): “A globalização da economia é o processo através do qual se expande o mercado e onde as fronteiras nacionais parecem mesmo desaparecer”. Há, ainda, um terceiro conceito, um terceiro ponto de convergência, que, embora não seja tão nítido quanto os anteriores, está presente, por assim dizer, nas entrelinhas. Trata-se da idéia de que, a despeito do que se imagina, a Globalização não é um fenômeno recente. Ou seja, estamos presenciando uma aceleração em algo que já existia. Isso fica claro quando lemos, na primeira definição, que a globalização é “um processo de aprofundamento da integração” (grifo nosso). Na 1 “Pesquisa feita pela Globalisation Organization mostrou que em 2820 artigos sobre globalização e em 589 livros publicados em 1988 nos Estados Unidos, virtualmente todos autores deram sua própria definição de globalização”. 82 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 definição seguinte o autor se refere à globalização como sendo um “processo de aumentar a integração”. Na terceira definição, embora não haja um termo específico, tal idéia fica subentendida no conceito de processo, algo em movimento, que parte de um ponto em direção a outro, conforme já discutido em parágrafo anterior. 1.2 Aspectos Históricos Partindo do pressuposto de que a Globalização tal qual conhecemos é um aprofundamento, uma intensificação, uma ampliação, da integração entre os mercados, deve-se, neste ponto, traçar, ainda que de forma superficial, a história daquilo que se entende por globalização2. Um dos autores estudados divide a globalização em três etapas distintas: a “primeira fase da globalização, ou primeira globalização, dominada pela expansão mercantilista (de 1450 a 1850) da economia-mundo européia; a segunda fase, ou segunda globalização, que vai de 1850 a 1950, caracterizada pelo expansionismo industrial-imperialista e colonialista; e, por último, a globalização propriamente dita, ou globalização recente, acelerada a partir do colapso da URSS e da queda do muro de Berlim, de 1989 até o presente” (SCHILLING, 2005). Seguindo o raciocínio acima exposto, a primeira etapa da globalização (de 1450 a 1850) foi marcada por uma ênfase mercantilista. Nessa fase, os europeus descobriram o Novo Mundo e estabeleceram feitorias comerciais na Índia, China e Japão. Durante os séculos dessa globalização primitiva, os povos iniciaram um processo de integração, ora de forma voluntária, ora de modo compulsório, como se pode deduzir do trecho abaixo: Enquanto as especiarias eram embarcadas para os portos de Lisboa e de Sevilha, de Roterdã e Londres, milhares de imigrantes iberos, ingleses e holandeses, e um bem menor número de franceses, atravessaram o Atlântico para vir ocupar a América. Aqui formaram colônias de exploração, no sul da América do Norte, no Caribe e no Brasil, baseadas geralmente num só produto (açúcar, tabaco, café, minério, etc.) utilizando-se de mão-de-obra escrava vinda da África ou mesmo indígena; ou colônias de povoamento, estabelecidas majoritariamente na América do Norte, baseadas na média propriedade de exploração familiar. (SCHILLING, 2005) A Revolução Industrial, com todos os seus desdobramentos, marca o fim da primeira e o início da segunda fase da globalização (de 1850 a 1950). A industrialização crescente, os meios de transporte mais rápidos, a importância cada vez maior dos bancos – tudo isso somado cria um novo ambiente. O mundo dominado 2. Como se lê no texto constante do verbete Globalização da Wikipédia: “A rigor, as sociedades do mundo estão em processo de globalização desde o início da História”. ([1] 2005). Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 83 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 por nobres e reis passa a ser regido por uma burguesia industrial e bancária. “Nestes cem anos da segunda fase da globalização os antigos impérios dinásticos desabaram (o dos Bourbons em 1789 e, definitivamente, em 1830, o dos Habsburgos e dos Hohenzollers em 1914, o dos Romanov em 1917). Das diversas potências que existiam em 1914 (o Império britânico, o francês, o alemão, o austro-húngaro, o italiano, o russo e o turco otomano) só restam depois da 2ª Guerra as superpotências: os Estados Unidos e a União Soviética” (SCHILLING, 2005). Após o fim da 2ª Guerra, o mundo presenciou a disputa entre as duas superpotências naquilo que se costumou chamar de “Guerra Fria”. Nesse período, os países se dividiram em torno de correntes políticas (comunistas x capitalistas) e, embora tenha havido um aumento na integração, as barreiras ideológicas constituíram-se, por vezes, em um sério impedimento. Por fim, com o colapso da URSS e a queda do muro de Berlim, chegamos à fase atual da globalização, sob a égide de uma só superpotência mundial: os Estados Unidos (SCHILLING, 2005). Na presente etapa, a globalização “caracteriza-se por: a) deslocamento espacial das diferentes etapas do processo produtivo, de forma a integrar vantagens nacionais diferentes; b) desenvolvimento tecnológico acentuado, nas áreas de telemática e informática, usando-o de forma a possibilitar o deslocamento espacial das fases de produção e reduzindo tempo e espaço no processo de comercialização; c) simplificação do trabalho, para permitir o deslocamento espacial da mão-deobra; d) igualdade de padrões de consumo, para permitir aumento de escala; e) mobilidade externa de capitais, buscando rentabilidade máxima e curto prazo; f) difusão (embora desigual) dos preços e padrões de gestão e produção, mantendo, todavia, diferenças de condições produtivas que são aproveitadas no deslocamento da produção” (MOLLO, 2005). 2. A GLOBALIZAÇÃO NA ERA DA INFORMÁTICA Pode-se definir informática como sendo “o processo de tratamento automático da informação por meio de máquinas eletrônicas” (WIKIPÉDIA [2], 2005). Ou, dizendo de outra forma, “a origem da palavra informática se dá através da junção da palavra informação com a palavra automática” (WIKIPÉDIA [2], 2005). Isso posto, para se entender o impacto da Informática no processo da globalização, devemos iniciar com uma breve discussão sobre a informação. Como ressalta Peter Drucker (2005), estamos presenciando “a quarta revolução da informação”. Acompanhemos seu raciocínio: A próxima revolução da informação será a quarta da história da humanidade. Eis a respectiva cronologia: A primeira revolução consistiu na invenção da escrita que ocorreu há cerca de 5 ou 6 mil anos na Mesopotâmia; milhares de anos mais tarde na China; e 1500 anos depois, na Civilização Maia da América Central. A segunda 84 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 revolução foi a da invenção do livro escrito. Ela ocorreu em primeiro lugar na China, por volta de 1300 a. C.; e em seguida, 800 anos mais tarde, na Grécia (quando Peisistratos, o tirano de Atenas, mandou copiar os versos de Homero — que até então eram apenas recitados — para livros). A terceira revolução foi a da invenção da imprensa escrita entre 1450 e 1455, pela qual Gutemberg foi responsável. Segundo este autor, “a próxima revolução da informação vai abranger todas as organizações importantes da sociedade moderna”. Essa revolução já começou e está tendo “um impacto mais profundo no terreno dos negócios, forçando os executivos a redefinir o que é a empresa e o que deveria ser. A empresa passou a ter como principal função a ‘criação de valor e de riqueza’ que, por sua vez, impulsionou o atual debate sobre a sua ‘propriedade’ isto é, para quem é que cria valor e riqueza” (DRUCKER, 2005). Paralelamente à importância crescente da informação, deve-se ressaltar o desenvolvimento tecnológico em escala exponencial, seja no campo das telecomunicações, seja no campo de hardware e software. Nesse aspecto, destaca-se a Internet como tecnologia revolucionária, que eliminou completamente as barreiras geográficas, aproximando fornecedores e consumidores, independentemente da distância entre eles. Como afirma o autor Clélio Campolina Diniz (2001): “O fenômeno contemporâneo denominado globalização vem alterando, profundamente, as estruturas produtivas, as relações técnicas e sociais de produção e os padrões organizacionais e locacionais. Esse processo é, ao mesmo tempo, resultado e condicionante das mudanças tecnológicas radicais das últimas décadas, sob a liderança das tecnologias da informação e das comunicações e sua imprecedente capacidade de atingir e impactar todos os setores ou atividades produtivas, as relações sociais e políticas”. 3. A ADMINISTRAÇÃO EM UM AMBIENTE GLOBALIZADO Vivemos em um ambiente globalizado, dominado pela tecnologia, onde a informação é de suma importância. “É a primeira vez na história em que a humanidade convive com tamanha quantidade de informações. O principal desafio que aparece neste contexto é o de como absorver estes conhecimentos em proveito próprio e de como torná-los acessíveis a toda comunidade(...) Não se trata apenas de aprender muitas coisas, mas sim de aprender coisas diferentes em um curto espaço de tempo. O grande volume de informações a ser assimilado e a velocidade de mudança levam a um aperfeiçoamento ao longo de toda a vida, incorporando-se o conceito de aprendizado contínuo de toda a humanidade” (PADLIPSKAS, 2005). Como ressalta outro autor pesquisado: “Atualmente, caminha-se para um ambiente em que o tempo é o recurso mais escasso e verdadeiramente não renovável. A pressão da reação rápida, da resposta em curto espaço de tempo, está impressa nas atitudes e comportamentos e gerenciar eficazmente o tempo é um diferencial competitivo tanto para empresas quanto para os profissionais em Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 85 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 geral(...) A humanidade está inserida na era da informação. O grande volume de informações existentes contribui para tornar o conhecimento uma ‘arma’ à disposição das pessoas e das empresas para vencer a competitividade. A comunicação passou a ser valorizada, pois é o meio pelo qual se disseminam as informações, agregando valor aos indivíduos que conseguem transformar essas informações em conhecimentos” (LIMA, 2005). Tais constatações nos dão uma idéia dos desafios que se antepõem à pessoa do administrador. O autor Mário Pascarelli Filho (2005), no artigo Competitividade é o Caminho da Sobrevivência, afirma: “Outro choque, o da globalização, quebrando os muros e as barreiras internacionais, nos coloca diariamente diante de mercados onde não só a língua é muito diferente mas, principalmente, a cultura e os valores. Isso exige, de todos, alto grau de agilidade e flexibilidade”. Nesse mesmo sentido adverte Gilberto Dimenstein (2001): “as empresas nunca sofreram tanta concorrência, devido à mistura explosiva de globalização com inovação tecnológica numa velocidade desconhecida – cresce, assim, o risco de obsolescência dos profissionais e negócios”. Para efeito de ilustração reproduzimos o quadro abaixo, que faz uma análise comparativa do administrador do passado com o administrador do presente (WICK, 2005): Quadro 1 – Administradores do Passado e do Presente OS ADMINISTRADORES DO PASSADO OS ADMINISTRADORES DO TERCEIRO MILÊ NIO Aprendiam quando alguém lhes ensinava Procuram deliberadamente aprender Achavam que o aprendizado ocorria principalmente na sala de aula Reconhecem o poder do aprendizado decorrente da experiência de trabalho Responsabilizavam o chefe pela carreira Sentem-se responsáveis pela sua própria carreira Não eram considerados responsáveis pelo próprio desenvolvimento Assumem a responsabilidade pelo seu próprio desenvolvimento Acreditavam que sua educação estava completa ou só precisava de pequenas reciclagens Encaram a educação como uma atividade permanente para a vida toda Não percebiam a ligação entre o que aprendiam e os resultados profissionais Percebem como o aprendizado afeta os negócios Deixavam o aprendizado a cargo da instituição Decidem intencionalmente o que aprender Como se pode notar, as mudanças introduzidas pela informática no ambiente globalizado têm se tornado determinantes para uma mudança de paradigma na 86 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 teoria e prática administrativas. “A Internet está hoje em todos os lugares na vida do administrador. Na empresa, ou na vida particular, o gestor de negócios se depara com a presença da Internet a todo momento. O comércio eletrônico está mudando a forma como as empresas fazem seus negócios, o comportamento do consumidor on-line está cada vez mais diferenciado. A comunicação organizacional está entrando em um outro patamar com as intranets. A cooperação entre as empresas está criando novas alternativas de redução de custo de produtividade com as extranets. Enfim, modelos totalmente novos estão surgindo, e acompanhar essas mudanças não é nada fácil, mas absolutamente necessário num ambiente competitivo globalizado como o atual” (LIMA, 2005). CONCLUSÃO Como podemos ver no decorrer do presente trabalho, a globalização é uma realidade presente e inquestionável, cujos efeitos se estendem por campos variados como economia, cultura, política, etc. A informática, por sua vez, com seu pujante desenvolvimento tecnológico, tem multiplicado exponencialmente o alcance desse mundo globalizado. Nesse contexto, a tarefa do administrador se reveste de capital importância. Ele precisa estar cônscio e preparado para um mundo em constante mudança, onde a informação se encontra de forma abundante, e onde as decisões precisam ser tomadas num exíguo espaço de tempo. Priorizar a aprendizagem, manter-se atualizado, ter uma atitude pró-ativa são características desejáveis no perfil atual do administrador. Por sua vez, as empresas no atual cenário, devem procurar valorizar seu capital intelectual, usar os recursos tecnológicos a seu favor, e estar prontas para se adaptarem às novas exigências do mercado. Como ressalta Mário Pascarelli Filho (2005): “Não serão as grandes corporações que sobreviverão, mas com certeza as estruturas mais ágeis e, portanto, as mais competitivas”. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COSTA, Rubens Vaz. O que é a globalização? Disponível em: <http:// jbonline.terra.com.br/jb/papel/opiniao/2005/02/25/ joropi20050225004.html>. 26 fev. 2005. 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Acesso em: 5 mar. 2005. 16:25:12. 88 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 EDUCAÇÃO: REPRODUÇÃO OU TRANSFORMAÇÃO? 1 Eduardo Tadeu Pereira* José Renato Polli ** Sidnei Ferreira de Vares*** RESUMO: O presente trabalho tem o objetivo de discutir os conceitos de reprodução e transformação em educação, tendo como ponto de partida teórico as análises crítico-reprodutivistas que despontam na década de 70, assim como as análises de Paulo Freire e Dermeval Saviani, ambos teóricos brasileiros que, ao nosso ver, indicam alguns caminhos para a superação da reprodução cultural e social via escolarização. Tanto o conceito de reprodução quanto o de transformação, muito utilizados atualmente, sustentam um debate acirrado e polêmico, dividindo opiniões. As discussões em torno do papel da escola nas sociedades modernas exigem análises que irrompam com o determinismo teórico e possibilitem uma refuncionalização do sistema escolar. Com efeito, acreditamos que as idéias de Freire e Saviani possam contribuir para a superação do conceito de reprodução em educação. Palavras-chave: educação, escola, reprodução, transformação, resistência. ABSTRACT The aim of this study is to discuss the concepts of reproduction and transformation in education, having as theoretical base the critical-reproductivist analyses that appeared in the decade of the 1970´s, as well as the analyses of Paulo Freire and Dermeval Saviani, both Brazilian theorists, that, in our opinion, demonstrate paths to overcome cultural and social reproduction through education. The concepts of reproduction as well as that of transformation, currently in frequent use, generate heated controversy that divides opinions. The discussions around the role of in modern societies require analyses that liberate from the theoretical determinism and permit a re-functionalisation of the school system. Effectively, we believe that the ideas of Freire and Saviani may contribute to overcome the concept of reproduction in education. Key words: education, school, reproduction, transformation, resistance. * Licenciado em História pela PUC/SP; Mestre e doutorando em Educação pela UNICAMP; professor do Centro Universitário Padre Anchieta. ** Licenciado em Filosofia e Pedagogia; Mestre em História Social pela PUC-SP; doutorando em Educação pela USP; Professor do Centro Universitário Padre Anchieta. *** Licenciado em História e Pedagogia pelo UniFAI; pós-graduado em Psicopedagogia pelo UniFAI; mestrando em Educação pela USP; professor do Centro Universitário Assunção. 1. A pergunta que dá título a este artigo tem importância fundamental para a compreensão do papel da escola nas sociedades modernas. Não sem pouca importância tal indagação tem promovido debates acalorados e opiniões tão divergentes sobre o tema. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 89 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 1. AS TEORIAS DA REPRODUÇÃO: UM NOVO OLHAR EM SOCIOLOGIA DA EDUCAÇÃO Falar sobre educação é falar sobre o próprio homem, uma vez que a educação faz parte de nossas vidas e é sobre ela que recai a responsabilidade de fazer sobreviverem certos aspectos culturais sem os quais as novas gerações não poderiam produzir experiências novas. A pertinência deste tema, que toma a configuração de uma pergunta, pode ser atestada por ser considerado a grande indagação que tem fomentado angústias nos sociólogos da educação. Descobrir maneiras de romper o ciclo de reprodução social e cultural através da educação, tornando a escola um espaço de resistência e transformação, talvez seja o maior desafio, não só para os sociólogos, filósofos e psicólogos da educação, mas para os educadores em geral. A importância da escola nas sociedades letradas, enquanto espaço que personifica a educação, é indubitável. Como aponta Gomes (1985, p. 36): A educação, mais do que a riqueza, parece ter uma capacidade insuspeitada de sertransmitidaporumageraçãoàoutra.Portanprivilégios to podem ser criados e perpetuados através da escolarização e da educação em geral. Esta é uma advertência para que tais questões sejam cuidadosamente observadas, com base em profundos conhecimentos científicos das mesmas. Se nos solicitassem uma definição que exprimisse o principal objeto atual da sociologia da educação, acreditamos que a indagação que dá título a este artigo poderia descrever com propriedade o que esta área do conhecimento tem mais analisado ao longo das poucas décadas que constituem sua existência. Contudo, em virtude da brevidade de nossa exposição, sugerimos discutir alguns pontos que consideramos relevantes, mapeando historicamente a trajetória dos estudos sociológicos em educação, a partir dos conceitos de reprodução e transformação. Podemos afirmar que a discussão acerca desta temática tem início a partir da primeira metade da década de 60, quando da publicação do trabalho de Bourdieu e Passeron, Os herdeiros (1964), germinando o que mais tarde, somando-se outras pesquisas, seria denominado “teoria da reprodução”. A teoria da reprodução, que na verdade constitui um conglomerado de trabalhos de diversos autores, com agendas de pesquisas e metodologias distintas, desponta com força a partir da década de 70, com a publicação de alguns trabalhos pioneiros, como A reprodução: elementos para uma teoria de ensino (1970), dos sociólogos franceses Bourdieu e Passeron; A Escola Capitalista na França (1971), de Boudelot e Establet; “Ideologia e Aparelhos ideológicos de Estado” (1970) do filósofo Louis Althusser; e A Escola Capitalista na América (1976), dos economistas norte-americanos Bowles e Gintis. A concatenação dessas obras pode ser considerada o início de uma visão diferenciada da escola nas sociedades capitalistas ocidentais. Passadas duas guerras mundiais, as pessoas se perguntavam o que havia 90 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 acontecido de errado diante de tantos conflitos e problemas sociais. Com efeito, se perguntavam qual era o papel da escola neste contexto, uma vez que grande parte das pessoas passa longos anos de suas vidas dentro dessa instituição. Para compreendermos a descrença que se sucedeu em educação, é mister averiguarmos o contexto em que as teorias da reprodução despontam, antes de definirmos suas principais características. Do pós-guerra, pelo menos até a década de 60, vigorou em educação certa tendência funcionalista, baseada em interpretações teóricas anteriores, como o positivismo, o evolucionismo e organicismo. A tendência funcionalista, que tem no sociólogo Talcot Parsons seu maior expoente, buscou explicar a educação enfatizando os processos integrativos e associativos. A escola adquire um caráter essencialmente instrumental, ou melhor, funcional, sendo interpretada como instituição que cumpre certas funções sociais, objetivando o equilíbrio e a manutenção social (TORRES, 1999). A sociedade é analogamente comparada a um organismo vivo, que se desenvolve num processo que vai do mais simples ao mais complexo. Os membros que constituem esse organismo estão em relação harmônica, devendo funcionar de maneira regular, não havendo, portanto, espaço para conflitos. Os desvios ou disfunções do sistema são vistos negativamente, como algo externo, que não faz parte da lógica de seu funcionamento. A escola contribui para a manutenção do sistema (entenda-se status quo) preparando e incutindo certos valores, princípios e comportamentos adequados ao funcionamento social. Essa visão de educação que, como já fora frisado, predomina até a década de 60, delega à escola o papel messiânico de progresso social e econômico. Pesquisas, como as de Denison (1960), contribuem para uma visão distorcida de educação, tendo-a como fator de desenvolvimento e modernização. Assim, a tendência funcionalista ignorou a história, os conflitos e as tensões sociais, criando um “otimismo pedagógico” (GOMES, 1985). A crença na escola como instrumento equalizador dos problemas sociais, como instituição neutra dedicada à formação de agentes diferenciados para assumir suas posições no sistema social, toma corpo neste período. É de suma importância observarmos que o mito da escola democrática e desenvolvimentista ainda permeia o imaginário de muitos educadores, que acreditam piamente na potencialidade da escola – representante do conhecimento científico – como fator de crescimento socioeconômico, validando um processo de mistificação da escola e da educação (RODRIGUES, 1998). Hoje, porém, sabemos que a escola está longe de tornar-se fator de desenvolvimento ou de equalização social, em decorrência da forma como vem sendo organizada. Em pesquisa recente, encomendada pela UNESCO, publicada no Jornal Folha de São Paulo de 30.04.2003, evidencia-se o caráter desigual da escola brasileira. No ano de 2002, no Brasil, dos 8,7 milhões de alunos matriculados no ensino médio, 7,569 milhões pertenciam à rede pública de ensino (municipal, estadual, e federal). A probabilidade de encontrarmos alunos com baixo acesso à tecnologia, à Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 91 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 cultura e ao lazer é infinitamente maior entre os alunos da rede pública. No caso da rede particular, 60% dos alunos dispõem de computador em casa, assim como 77% utilizam o computador na escola. No caso da rede pública, temos um enorme déficit, sendo que 80% dos alunos não possuem computador em suas residências e apenas 34% destes têm acesso a computadores na escola. A desigualdade presente no ensino médio brasileiro tem reflexo direto no ensino superior. Em pesquisa igualmente recente, do IBGE, publicada pelo mesmo jornal em 13.06.2003, constata-se que dos 59% dos alunos que freqüentam universidades públicas 20% pertencem às camadas com maior renda, sendo que em relação às camadas mais pobres este índice cai para 3,4%. 1.1 O despontar das teorias crítico-reprodutivistas Entretanto, como na análise que desenvolvem chegam invariavelmente à conclusão de que a função própria da educação consiste na reprodução da sociedade em que ela se insere, bem merecem a denominação de teorias crítico-reprodutivistas. (SAVIANI, 1986, p. 27) Na década de 70, o paradigma do conflito, que norteia as teorias da reprodução, desponta em contraposição à visão funcionalista/positivista. Longe de enxergar a escola como instituição neutra, equalizadora dos problemas sociais e em relação harmônica com a sociedade, esse paradigma vê a escola como espaço de tensões, conflitos e movimentos contraditórios. O consenso, preconizado pelo paradigma anterior, é posto em xeque pelos teóricos da reprodução, visto sempre como artificial e produzido por coerção externa. Neste sentido, as teorias da reprodução, a partir de um discurso crítico, negam a visão ingênua dos autores funcionalistas, buscando demonstrar empiricamente (somente Althusser foge do legado empirista, o que é compreensível por se tratar de um filósofo) que a escola exerce o papel de reproduzir e manter as desigualdades sociais e a estrutura societária, apresentando-se como instituição conservadora. Em outras palavras, a escola estaria a serviço da sociedade capitalista, reforçando e inculcando a ideologia burguesa. Dermeval Saviani, em seu trabalho Escola e Democracia, publicado em 1983, ao abordar os problemas da marginalidade no sistema educacional brasileiro, observa dois momentos históricos distintos durante o século XX, que vêm ao encontro de nossas afirmações. Para o autor, até a década de 60 vigorou aquilo que ele chama de “teorias não-críticas”, passando-se na década posterior à predominância das “teorias críticas”, em que se enquadram as teorias da reprodução, que ele denomina como “teorias crítico-reprodutivistas”, uma vez que estas, apesar de denunciarem a existência de problemas na escola, não oferecem caminhos para superálos. 92 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 1.2 Caraterísticas das teorias da reprodução O caráter crítico deste conjunto teórico remonta às influências principalmente do marxismo e neomarxismo. Contudo, muitas outras correntes de pensamento, como o weberianismo e o próprio funcionalismo, exerceram influência decisiva para a compilação dos trabalhos que constituem as teorias da reprodução. Adotando o modelo proposto por Saviani (1986), podemos subdividir, num esforço didático, esse conjunto teórico em: a) teoria da violência simbólica; b) teoria dos aparelhos ideológicos do Estado; c) teoria da escola dualista. Outra divisão possível, que aponta diferenças existentes entre os principais representantes das teorias reprodutivistas, pode ser atribuída a Henry Giroux (1986), em sua obra Teoria Crítica e Resistência em Educação: para além das Teorias da Reprodução, na qual o autor propõe duas vertentes facilmente identificáveis: a) a vertente cultural; b) a vertente econômica. De qualquer forma, mesmo considerando as diferenças substanciais entre esses autores, os trabalhos produzidos possuem um ponto comum: convergem para uma visão da escola enquanto reprodutora e mantenedora da sociedade de classes. 1.3 As principais críticas à teoria da reprodução Nos anos 80, surge um novo conjunto de teorias, que propõe uma análise mais profunda da relação escola/sociedade. Autores como Giroux, Apple, McLaren e, no Brasil, Freire e Saviani, entre outros, elaboram uma crítica afiada aos teóricos da reprodução, afirmando que estes se alicerçaram demasiadamente numa visão fatalista e mecanicista de escola, que estaria submetida deterministicamente às estruturas societárias. Grande parte das acusações feitas pelos teóricos da resistência (parte dos autores acima citados) aos teóricos da reprodução tem como alvo a ausência de uma dimensão histórica, enfocando a incapacidade desse conjunto teórico em enxergar no cotidiano escolar, espaços onde os agentes sociais resistem à dominação sistêmica. Faltaria à teoria da reprodução um olhar mais apurado sobre as reais potencialidades da escola em resistir e, nesse sentido, produzir uma contraideologia (no sentido grasmciano). Assim, recaíram sobre os teóricos da reprodução as mesmas acusações de determinismo e organicismo que tanto criticaram nas teorias funcionalistas. A tragédia desta posição é que ela impede que os educadores de esquerda desenvolvam uma linguagem programática para reformas pedagógicas ou escolares. (...) Os educadores radicais concentram-se de tal forma na linguagem da dominação que não resta qualquer esperança viável de se desenvolver uma estratégia educacional política progressista. (...) Com efeito, os educadores radicais desperdiçaram a oportunidade tanto de questionar o ataque conservador nas escolas e as formas correntes nas quais as escolas reproduzem desigualdades arraigadas Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 93 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 como de reconstruir um discurso no qual o professor possa ser definido através das categorias de democracia, autorização e possibilidade. (GIROUX, 1997, p. 27) 1.4 As contribuições das teorias da reprodução Apesar das inúmeras críticas que podem ser feitas às teorias da reprodução, não podemos deixar de verificar suas contribuições em educação. Podemos afirmar que um dos elementos marcantes do discurso reprodutivista é a criticidade. Com efeito, este elemento parece ter perdurado e contribuído para a construção de um novo discurso em educação, representado pela teoria da resistência. Neste sentido, as teorias da reprodução podem ser vistas como um divisor de águas, o ponto de partida, que indica uma ruptura entre teorias não-críticas e teorias críticas. As aporias e os sintomas de degeneração do sistema educacional foram desvelados pelos teóricos da reprodução, que fizeram emergir seus problemas. A problematização proposta por esses teóricos engrossa o coro da desmistificação da escola e das crenças que despontam em torno da educação. Com efeito, se por um lado as teorias da reprodução não apresentaram soluções práticas e concretas para os problemas educacionais então desvelados, por outro, abriram a caminho para que estas soluções fossem apontadas ou até mesmo erigidas por teóricos posteriores. Ainda na década de 70, Freire e Saviani apresentam alternativas de interpretação do papel exercido pela escola na sociedade capitalista, buscando superar o determinismo e a desesperança dos teóricos da reprodução. Seguindo modelos diferenciados, Paulo Freire e Dermeval Saviani apontam possibilidades de resistência e transformação a partir da educação; fugindo de posicionamentos ingênuos e eufóricos, procuram demonstrar o quão importante seria a escola para a construção de um discurso transformador. 2. EDUCAÇÃO E TRANSFORMAÇÃO SOCIAL EM PAULO FREIRE O estudo da obra de Paulo Freire nos ajuda a compreender questões da educação do presente que quase sempre são vistas a partir de referenciais do senso comum. Entre elas está a noção de que a educação é um fator de desenvolvimento. A palavra desenvolvimento, se analisarmos seu significado, proposto pelo dicionário Aurélio, vem carregada de um viés meramente econômico. Há um simplismo nesta posição, uma vez que se atribui à formação escolar, pura e simples, a solução para os problemas econômicos de um país. Ao contrário, os números desmentem esta afirmativa, pois mesmo em países com alto investimento em educação, como na Alemanha ou nos EUA, problemas graves de natureza social ainda persistem, como o alto número de desempregados e de marginalizados sociais de todas as naturezas. A ingenuidade, portanto, está em não se observarem os meandros do funcionamento do atual modelo econômico neoliberal, que, conforme afirmam o consagrado geógrafo brasileiro Milton Santos e o economista norte-americano John Galbraith, é 94 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 uma falácia, uma fantasia criada para justificar a dominação das grandes corporações internacionais sobre a economia mundial. Ao contrário, o desenvolvimento econômico, se visto e realizado em bases justas, poderia promover uma educação de qualidade, com vistas à transformação da sociedade. Como ficamos então? Aceitamos o mero discurso de que há uma reprodução do modelo social, feita no âmbito da escola? Um dos conceitos centrais da obra de Paulo Freire é o da esperança. Uma esperança que não seja ingênua, mas crítica. Como diz Ariano Suassuna, é preferível um “pessimismo esperançoso”, a um otimismo ingênuo ou acrítico, ou ainda, um pessimismo cético. Sem dúvida nenhuma, Paulo Freire é o educador brasileiro mais reconhecido internacionalmente. Sua obra e reconhecimento, aliás, começaram no exterior. Mesmo tendo iniciado sua carreira no Brasil, passando por todos os processos de discussão sobre educação brasileira até os anos 60, produziu grande parte de sua obra no exterior. A pedagogia do oprimido, sua obra fundamental, foi publicada originalmente no Chile e nos Estados Unidos, para ser traduzida para o português e publicada no Brasil somente em 1975. Freire faz parte da tendência progressista em educação brasileira, criando a “pedagogia da libertação”. Sua formação se dá, segundo muitos autores, em dois momentos. Num primeiro momento incorpora o debate proposto pelo movimento da “escola nova”, sobretudo assimilando a idéia da experiência prática, do cotidiano vivido pelos sujeitos educandos. Esta influência veio através de Anísio Teixeira, discípulo e divulgador da obra do filósofo pragmatista norte-americano John Dewey no Brasil. Num segundo momento, Freire absorve as idéias do existencialismo cristão para posteriormente produzir uma síntese entre suas influências iniciais e o pensamento marxista. Freire, a partir daí, pode ser considerado um revisionista em termos da aplicação das teorias marxistas em educação. Hoje Paulo Freire pode ser considerado um pensador neomoderno, ou seja, não cedeu ao falacioso discurso “pós-moderno”, que decretou a morte da razão e dos horizontes utópicos. Ao contrário, sempre foi um árduo defensor de uma racionalidade, mas vista em outras bases, não aquela racionalidade “instrumental”, da qual fala o filósofo alemão contemporâneo Jürgen Habermas, mas de uma racionalidade inserida no que ele chama de “teoria dialética do conhecimento”. Por esta visão, caberia não pensar pensamentos, mas pensar o concreto. Paulo Freire foi muito incompreendido e criticado por defender este ponto de vista, chegou a ser visto até como um pensador que abriu mão da razão e da teoria, um idealista, como dizia Dermeval Saviani, que apesar de ser também um educador progressista, criticava Freire por seu “idealismo”. Ao levantarmos aspectos da crítica de Freire ao modelo tradicional de educação, veremos que as críticas a ele dirigidas são, em grande parte, infundadas. Em primeiro lugar, questionava um processo acrítico de transmissão de conteúdos (edu- Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 95 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 cação bancária) e uma acentuação do aspecto formal em educação (tanto no que se refere à alfabetização quanto em relação à assimilação dos conhecimentos ditos “clássicos”). As letras, as palavras e o “conteúdo” não devem ser vistos antes de seu significado. Num segundo aspecto, Freire foi um dos educadores brasileiros que mais fez perceber que a educação está relacionada e intimamente ligada aos processos de dominação existentes na sociedade de classes capitalista e propôs que toda educação é um ato político (por influência direta da teoria gramsciana) e nunca é um processo neutro. Se considerarmos a própria realidade educacional brasileira ou mesmo a de países como os EUA, veremos que os interesses privados têm dado o tom tanto às concepções sobre o que é educar quanto às políticas públicas desenvolvidas por governos neoliberais. No Brasil, reflexo do ideário do “estado mínimo”, vimos aprovados referenciais legais, como a LDB que se fundamentam nesta perspectiva, flexibilizando ao máximo as regras públicas no âmbito da educação. Há um movimento muito forte hoje, tanto acadêmico quanto popular, de resgate da obra de Paulo Freire como mecanismo para reinterpretação dos dilemas atuais no campo educacional. Sua proposta de educação popular tem sido muito relacionada a propostas de outros grandes pensadores mundiais, como Habermas, por fundamentar-se em conceitos como diálogo, intersubjetividade, compromisso transformador, humanismo ético, experiência cotidiana, etc. Vários projetos têm sido desenvolvidos pelo Instituto Paulo Freire, fundamentando-se nessa nova teorização em curso, como o daEscola “ Cidadã ”, “Ecopedagogia”, “Universidade Paulo Freire”, etc. Com relação ao discurso freireano em torno das novas tecnologias em educação, podemos afirmar que Freire não caiu no “canto da sereia”, nesta euforia acrítica em torno do tema. Ao contrário, dizia que a aplicação dessas tais “novas tecnologias” é resultado dos interesses das classes dominantes e que não estancam a multiplicação de excluídos existentes em nossa sociedade. Classifica tal euforia como um messianismo romântico, uma ilusão de equalização social produzida pela nova cultura tecnológica. Os oprimidos continuam fora deste processo, as novas oportunidades tecnológicas nunca serão para todos, apesar de constituírem um direito fundamental que veio tarde. Para comprovar o argumento de Paulo Freire, basta verificar a pesquisa produzida pela UNESCO em treze capitais brasileiras e publicada no Jornal O Estado de São Paulo em 30.04.2003. Constataremos que em 76% das escolas públicas brasileiras não há utilização de computadores, ao passo que nas escolas privadas este número cai para 14%. Entre os alunos de escolas públicas, 62% não possuem computador, já entre os de escolas privadas, apenas 18%. O acesso à internet é muito restrito em escolas públicas, apenas 8,2% delas possui. Entre as escolas privadas, 32% delas possuem internet. Estes dados podem ser complementados com estudos realizados e apresentados no Fórum Educacional Tecnologia na Educação, promovido pela Intel, em São Paulo, em abril de 2003. 96 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 3. DERMEVAL SAVIANI: RUMO A UMA PRÁXIS TRANSFORMADORA O professor Dermeval Saviani é um dos mais importantes teóricos brasileiros na área da educação na atualidade. Entre suas principais obras, podemos citar: Educação Brasileira: Estrutura e Sistema (1973); Educação: do senso comum à consciência filosófica (1980) e Escola e Democracia (1983) que já se encontra na sua 36ª edição. Sua obra tem sido alvo de muitas críticas e também de muitos desdobramentos, o que mostra ainda mais sua importância. Saviani esteve ainda presente, atuante e sendo uma das lideranças, nas lutas em torno de uma nova LDB mais avançada e democrática, desde o início dos debates em 1987. Buscando superar o que chama de “crítico-reprodutivismo”, e ao mesmo tempo as posições não críticas, Saviani desenvolve uma teoria sobre o papel específico da escola e da educação recuperando os valores da educação tradicional no que diz respeito à importância dos conteúdos. Saviani parte de uma compreensão marxista do mundo e busca na obra de Antonio Gramsci, a quem considera um marxista ortodoxo por buscar apenas no marxismo sua orientação teórica, a linha de pensamento para o debate acerca do papel da escola e da educação. Partindo da Filosofia da Educação, que considera como sendo “uma reflexão (radical, rigorosa e de conjunto) sobre os problemas que a realidade apresenta” (Saviani, 1980, p. 27), procura compreender o papel específico da escola na sociedade, e assim debater acerca do potencial que essa instituição pode ter no processo de transformação social. Como marxista, Saviani está preocupado em desvendar os mecanismos pelos quais as classes dominantes mantêm o capitalismo e apontar caminhos para a transformação da sociedade. Como educador preocupa-se em identificar o papel que poderá cumprir a escola em tal processo. Para empreender tal debate, Saviani inicia por apontar o que considera como problemas e limitações das teorias educacionais, às quais intitula “pedagogias da essência e da existência”. Indica com clareza que a pedagogia nova (proveniente do movimento da escola nova, nos anos 30), ou pedagogia da existência, tem um papel conservador na medida em que representa uma teoria pedagógica burguesa, cuja lógica prende-se ao liberalismo, não sendo sequer democrática (SAVIANI, 1986, p. 52). Tal projeto prende-se, necessariamente, à manutenção da hegemonia da classe dominante, sendo por vezes, equivocadamente, utilizado por setores que pretendem contribuir para a transformação social. Para combater tais perspectivas escolanovistas, Saviani defende alguns valores que vê encarnados na proposta pedagógica da escola tradicional, ou conteudista. Com isso considera que está fazendo a “curvatura da vara”, ou seja, criticando além do necessário a escola nova e defendendo além do recomendável a escola tradicional, na perspectiva de que tal crítica coloque o debate (ou vara em sua analogia) no seu devido lugar. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 97 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Considerando que as perspectivas que chama de “crítico-reprodutivistas” são críticas, “uma vez que postulam não ser possível compreender a educação senão a partir de seus condicionantes sociais” (SAVIANI, 1986, p. 19), mas não conseguem propor saídas adequadas à educação, propõe-se ele próprio a formular uma alternativa de caráter crítico, porém inovador. Para Saviani podem ser consideradas “crítico-reprodutivistas” as concepções de P. Bourdieu e J. C. Passeron, expressas na obraA Reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino, que expressaria a “teoria do sistema de ensino enquanto violência simbólica”; de L. Althusser e sua teoria da escola enquanto aparelho ideológico de Estado; e a de C. Baudelot e R. Establet, exposta no livro L’ecole capitaliste em France, que classifica como “teoria da escola dualista” (SAVIANI, 1986). De maneira geral considera tais concepções como limitadas, inicialmente porque Na verdade estas teorias não contêm uma proposta pedagógica. Elas se empenham tão somente em explicar o mecanismo de funcionamento da escola tal como está constituída. Em outros termos, pelo seu caráter reprodutivista, estas teorias consideram que a escola não poderia ser diferente do que é. (SAVIANI, 1986, p. 34) Nesse sentido considera que o papel específico e essencial da escola seja exatamente trabalhar os conteúdos socialmente acumulados, possibilitando que os setores oprimidos e dominados tenham acesso a ele, assim A escola existe, pois, para propiciar a aquisição dos instrumentos que possibilitam o acesso ao saber elaborado (ciência), bem como o acesso aos rudimentos desse saber. (...) Está aí o conteúdo fundamental da escola elementar: ler, escrever, contar, os rudimentos das ciências naturais e das ciências sociais (história e geografia humanas) (SAVIANI, 1986, p. 23). Na sua perspectiva, procedendo dessa forma a escola estaria possibilitando às pessoas oriundas das camadas populares a ascensão do senso comum, “uma concepção fragmentária, incoerente, desarticulada, implícita, degradada, mecânica, passiva e simplista a uma concepção unitária, coerente, articulada, explícita, original, intencional, ativa e cultivada” (SAVIANI, 1980, p. 10), ou seja, à consciência filosófica. Tal mudança na maneira de pensar e agir das camadas populares é a tarefa fundamental da escola, sua contribuição ao processo de contra-hegemonia, é “condição necessária para situar a educação numa perspectiva revolucionária” (SAVIANI, 1980, p.13), colocando-a efetivamente a serviço das camadas populares, possibilitando a seus membros “a passagem da condição de ‘classe em si’ para a condição de ‘classe para si’” (SAVIANI, 1980, p.13). É nessa perspectiva que Saviani defende o que considera uma teoria realmente crítica sobre o papel da educação e da escola, ou seja, buscando o caráter específico da escola na sociedade e nele verificar a possibilidade de que esta venha a 98 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 contribuir com a transformação social. Por isso o empreendimento de demonstrar o potencial transformador da escola e o papel central do professor nesse processo. A centralidade do processo ensino-aprendizagem e, portanto, do conteúdo e do professor como agente, são defendidos por Saviani como parte de um projeto de transformação social e da construção da contra-hegemonia. Muito há por criticar em tais posições. Aliás, muito se tem feito e escrito nesse sentido. No entanto há que se resgatar a importância desse autor no Brasil, particularmente nos anos 80, quando se encaminhava o resgate, conforme mencionado já no presente texto, de uma perspectiva transformadora em que a educação e a escola pudessem ter um papel ativo, exatamente quando os professores e alunos saíam às ruas pedindo “diretas já”, cidadania e mais democracia. 4. CONSIDERAÇÕES FINAIS Diante das posições teóricas aqui abordadas, caberia indagar qual é o papel da educação no mundo globalizado de hoje: seria a escola apenas espaço de reprodução social e cultural ou uma via de transformação? Mediante as dúvidas que se nos apresentam, acreditamos que a escola seja um espaço tanto de reprodução como de transformação social, isto porque constitui um local de circulação de idéias, aparentemente livres, capazes de “refuncionalizar” a dinâmica da instituição, passando de uma situação de reprodução a uma de transformação social, num sentido gramsciano (FREITAG, 1980). Apesar das críticas severas sofridas no início dos anos 80, as teorias da reprodução, acusadas de não oferecerem saídas concretas aos problemas educacionais, têm sua parcela de contribuição para a construção de uma teoria da resistência, pois desvelaram o funcionamento do sistema educacional, permitindo aos teóricos da resistência, entre os quais Saviani e Freire, discutir e propor algumas saídas para a escola moderna. Neste sentido, alguns autores como Tomaz Tadeu da Silva (1992), afirmam que as teorias da resistência são na verdade um refinamento teórico das teorias da reprodução, não se apresentando como corpos teóricos fechados e antagônicos. Vimos, tanto na proposta de Freire como na proposta de Saviani, alguns caminhos alternativos para a educação moderna. Apesar das diferenças teóricas que marcam os dois autores, ambos atribuem à educação, e neste sentido à escola, um papel estratégico, seja enquanto espaço de diálogo ou conscientização. Evidentemente, não podemos ser ingênuos e acreditar que somente a escola é capaz de proporcionar todas as transformações sociais e culturais necessárias. Porém, se não podemos creditar à escola um papel messiânico, não é menos verdade que não podemos ignorar sua influência. Em tempos de globalização e de neoliberalismo, tais como os que vivemos, em que a educação tem sido tratada cada vez mais como mercadoria, como serviço a ser prestado e comprado no mercado e cada vez menos como direito social constitutivo dos direitos fundamentais da cidadania, trata-se de retomar o estudo Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 99 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 crítico e criativo dos autores estudados e apontados nesse texto, para repensar o papel da educação e da escola na perspectiva de transformação social. As mudanças dos tempos algumas vezes provocam também mudanças na forma de exclusão e de reprodução da estrutura social e cultural da sociedade pela escola, não alterando, porém, seu papel reprodutor, como apontavam autores citados acima. Trata-se, nesse momento, de empreender estudos que busquem verificar essa exclusão e reprodução em novos moldes e também, e principalmente, a construção de alternativas que apontem, como Freire e Saviani, para um papel transformador da educação e da escola. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTHUSSER, Louis. Aparelhos ideológicos de Estado. Traduzido por Walter José Evangelista e Maria Laura Viveiros de Castro. Rio de Janeiro: Graal, 1986. BOURDIEU, Pierre. Escritos de Educação. Organizadores Maria Alice Nogueira e Afrânio Catani. 3. ed. São Paulo: Vozes, 1998. FREIRE, P. Pedagogy of the opressed. New York: Seabury, 1970. _______. Pedagogia da autonomia. 11. ed. São Paulo: Paz e Terra, 1999. FREITAG, Bárbara. Escola, Estado e Sociedade. 6. ed. 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Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 101 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 102 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 TENDÊNCIAS A SEREM MONITORADAS NA ÁREA DE TECNOLOGIA DA INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÕES Vivaldo José Breternitz* RESUMO O objetivo deste trabalho é trazer aos administradores conceitos e informações acerca de algumas das tendências na área de Tecnologia da Informação e Comunicações (TIC) que, acreditase, devam ser monitoradas em função das oportunidades e ameaças que podem trazer às organizações em prazo curto ou médio. Ao discutirem TIC, as organizações colocam em primeiro plano os aspectos relativos à eficiência e à segurança. Eficiência, no sentido de otimizar a utilização dos recursos disponíveis, é fundamental numa época de hipercompetição, margens cada vez menores, etc. Segurança, englobando aspectos como confidencialidade e furto de dados, disponibilidade de sistemas, proteção contra vírus e assemelhados, sabotagem, etc., é assunto cada vez mais prioritário. Além da eficiência e segurança, deve também ser considerada como objetivo do uso da TIC a obtenção da flexibilidade suficiente para que a organização possa mudar seus rumos no momento adequado e agilidade tal que permita reagir às mudanças do ambiente em que atua. Este trabalho não pretende esgotar o assunto – tendências na área da TIC são detetadas, consolidam-se ou deixam o cenário com rapidez, pelo que se reitera a importância do monitoramento constante da área pelos administradores, não só por aqueles que atuam na área de TIC propriamente dita, mas também pelos que atuam nas áreas de negócios. A inclusão do tema no processo de planejamento estratégico pode auxiliar bastante no sentido de que esse monitoramento seja feito de forma sistemática e eficiente. Palavras-chave : Informação, comunicação, eficiência, segurança, tendências. ABSTRACT The objective of this paper is to present administrators with concepts and information concerning trends in the information and communications technology (ICT) field that should be monitored due to the short or mid term opportunities for and threats to organizations. When discussing ICT, organizations give priority to issues related to efficiency and security. Efficiency, in the sense of optimizing the use of available resources, is fundamental in this hyper competitive era. Security, including aspects such as: maintaining confidentiality of information, inhibiting data theft, assuring system readiness, protecting against viruses and sabotage, etc., is also increasingly prioritized. Besides efficiency and security, another objective of the use of ICT should be to acquire sufficient flexibility and agility for organizations to timely adapt methods and react to changes in their environment. This study does not intend to be exhaustive. Trends in the ICT area are fast moving and dynamic, for which reason the importance of constant monitoring by administrators is advised, not only for those that work in the ICT area itself, but also for those in other related areas. To include the theme in the strategic planning process may significantly contribute in the sense that this monitoring could then be done in a systematic and efficient manner. Key words: information, communication, efficiency, security, trends. * Mestre em Engenharia Elétrica, professor do Centro Universitário Padre Anchieta e da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Rua Profa. Joceny Vilella Curado 73, Jundiaí ([email protected]). Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 103 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 INTRODUÇÃO O objetivo deste trabalho é trazer aos administradores conceitos e informações acerca de algumas das tendências na área de Tecnologia da Informação e Comunicações (TIC) que, acredita-se, devam ser monitoradas em função das oportunidades e ameaças que podem trazer às organizações em prazo curto ou médio. Na atualidade, ao discutirem a utilização de TIC, as organizações colocam em primeiro plano os aspectos relativos à eficiência e à segurança. Eficiência, no sentido de otimizar a utilização dos recursos disponíveis, é fundamental numa época de hipercompetição, margens cada vez menores, etc. Segurança, englobando aspectos como confidencialidade e furto de dados, disponibilidade de sistemas, proteção contra vírus e assemelhados, sabotagem, etc., é assunto cada vez mais prioritário. Os aspectos relativos à segurança recebem cuidados especiais. Em sua edição de 19/02/2005, o jornal O Estado de S. Paulo informa que Ralph Basham, diretor do Serviço Secreto dos Estados Unidos, participando da RSA Security Conference, realizada em San Francisco, disse que fraudadores on-line ameaçam seriamente a economia dos Estados Unidos, o que mostra a gravidade de que se reveste o assunto. Apenas em 2002, os prejuízos financeiros dos bancos e empresas causados por esse tipo de fraude foram da ordem de US$ 32 bilhões e os das pessoas físicas cerca de 3,8 bilhões, sem contar os dissabores e o trabalho necessários à resolução dos problemas decorrentes de situações como essas (BRETERNITZ, 2003). Cabe observar que eficiência e segurança não necessariamente convergem, podendo, no curto prazo, ser até mesmo divergentes: o desejo ou a necessidade de implantar rapidamente novos sistemas ou a opção pela redução de investimentos podem gerar a diminuição das preocupações com segurança. Este trabalho foca as tecnologias que são de interesse mais amplo e imediato, deixando de abordar temas de interesse muito restrito ou que demandarão um time to market muito longo, como por exemplo, nanotecnologia ou semantic web. Passaremos agora a abordar as tendências que julgamos devam ser monitoradas. VOZ SOBRE IP (VOICE OVER INTERNET PROTOCOL - VOIP) A utilização da Internet para comunicação telefônica está afetando modelos de negócio, com os provedores de acesso à Internet estruturando-se para fornecer esses serviços. VoIP chegou ao mercado em meados da década de 90, apresentando à época qualidade de serviço insatisfatória e instalação muito complexa. Mas na medida em que o serviço tem sua qualidade melhorada, se torna mais amigável e seguro (especialmente objetivando impedir “grampos”), mais e mais usuários se dispõem a utilizar a Internet para fazerem ligações telefônicas para qualquer parte do mundo pagando apenas pela conexão à rede. Empresas que utilizem intensivamente telefonia interurbana e/ou internacional estão instalando estruturas para utilizar intensivamente essa tecnologia; em fins de 2004, a duração das ligações internacionais via VoIP superou a das realizadas via sistemas conven- 104 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 cionais. Para a efetiva utilização de VoIP, é fundamental que os circuitos telefônicos sejam do tipo Digital Subscriber Line (DSL), de banda larga e capazes de suportar grande volume de tráfego. No curto prazo, grande parte das chamadas de voz continuarão a utilizar a rede telefônica convencional (PSTN - Public Switched Telephony Network ), devido à sua maior qualidade e confiabilidade. Acredita-se, no entanto, que as operadoras de PSTN reduzirão seus preços em resposta à concorrência de VoIP, e aumentarão seus esforços de marketing na tentativa de estimular o volume de chamadas nas redes fixa e celular, reforçando seu aparato tecnológico, investindo em telefones mais sofisticados, com teclas de conveniência que permitam, por exemplo, memorizar números, enviar mensagens de texto, teleconferência, etc. Também é licito esperar-se que soluções híbridas se popularizem, com empresas utilizando VoIP e PSTN onde cada uma delas melhor se adequar, atendendo às exigências de eficiência e segurança. TECNOLOGIAS SEM FIO (WIRELESS) As tecnologias de comunicação móveis, sem fio, cuja face mais visível são os telefones celulares, foram concebidas inicialmente para comunicação telefônica (voz), mas estão ganhando espaço rapidamente no mundo da comunicação de dados. A possibilidade do usuário de um notebook acessar a rede de uma organização sem se conectar à rede de telefonia convencional aumenta sua eficiência. Ocorre, no entanto, que determinados equipamentos, como por exemplo os PDA (Personal Digital Assistants), ainda têm dificuldades em acessar determinados sistemas de informação que foram desenvolvidos para computadores convencionais. Essas dificuldades vem sendo removidas, mas esses equipamentos ainda têm algumas deficiências no que se refere a apresentação (telas pequenas, por exemplo), transmissão de dados via banda larga, etc. As redes locais sem fio (WLAN - Wireless Local Area Network ), que permitem essa conexão, deverão nos próximos anos ser combinadas com outras tecnologias emergentes, em especial a terceira geração dos telefones celulares (UMTS - Universal Mobile Telecommunication System) e a WiMax (Worldwide Interoperability for Microwave Access), elevando a taxa de transmissão a até 70 megabits por segundo (dezenas de vezes superior à oferecida pela banda larga atualmente, disponibilidade prevista para 2007) a uma distância de até 50 quilômetros (contra os atuais 500 metros), viabilizando assim novas aplicações. Aspectos relativos à segurança, em especial confidencialidade, ainda são os pontos fracos dessas tecnologias, que, no entanto, abrem novos horizontes em termos de aumento da eficiência dos trabalhadores que a utilizarão. COMPUTAÇÃO EM GRADE (GRID COMPUTING) A idéia central da Computação em Grade (Grid Computing – GC) é conectar um Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 105 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 grande número de computadores de forma a criar uma estrutura com grande capacidade de processamento e armazenagem de dados, funcionando com um único grade computador. A idéia nasceu da constatação de que usuários domésticos normalmente utilizam uma parcela relativamente pequena da capacidade de processamento e armazenagem de dados de seus PCs. Partindo dessa constatação, foi lançado em 1999 o projeto SETI@home (Search for Extraterrestrial Intelligence), coordenado pela Universidade da Califórnia (Berkley) e que busca identificar sinais de rádio vindos do espaço em busca de evidências acerca da existência de vida fora da Terra. A estrutura do SETI conta hoje com cinco milhões de PCs, espalhados por 226 países. O conceito evoluiu em função das necessidades de processamento intensivo para a realização de atividades científicas complexas. Redes como essas têm algumas vantagens óbvias, como a maximização do uso dos recursos disponíveis, às quais correspondem desvantagens também óbvias, como as dificuldades para administração da rede, segurança, etc. Em função disso, pode-se dizer que GC é adequada apenas quando se trata de processos padronizados e estruturados, claramente delimitados e em que questões de segurança não sejam muito relevantes. Um dos maiores projetos de GC é o TeraGrid, que reúne universidades, instituições de pesquisa e empresas, em sua maioria norte-americanas, que em 2004 já tinha capacidade de computação de vinte teraflops (vinte trilhões de operações por segundo) distribuídos por nove sites, com capacidade de armazenamento de dados da ordem de um petabyte, ou 250 bytes (www.teragrid.org). Outras aplicações muito conhecidas são as da Universidade da Pensylvannia, que utiliza grid para armazenar imagens de mamografias, a Network for Earthquake Engineering and Simulation, grid que reúne 20 laboratórios que pesquisam movimentos sísmicos, e o San Diego Supercomputer Center, que utiliza GC para mapeamento do cérebro humano. A experiência pioneira de GC em escala global é a do IVDGL (International Virtual Data Grid Laboratory), com nós espalhados pelo mundo e que pretende dar suporte a experimentos nas áreas de física e astronomia. Existem problemas para transformar GC em negócio, em especial a definição de critérios de apuração de custos pela utilização de recursos de terceiros; no entanto, empresas que operam grandes data centers talvez possam vir a se beneficiar da idéia. Grandes organizações, com um vasto parque de equipamentos, talvez possam otimizar seus recursos criando intragrids. Num futuro mais remoto, que foge ao escopo deste trabalho, talvez se possa falar em utility computing, com os usuários consumindo recursos de processamento do mesmo modo como consomem água ou energia, sem se preocuparem com o local de onde provêm esses recursos e pagando apenas pelo que usarem. CRIPTOGRAFIA QUÂNTICA Do que já se viu até o momento, os problemas relativos à confidencialidade das informações estão entre os mais críticos no que tange à segurança; esses proble- 106 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 mas vêm sendo enfrentados recorrendo-se à criptografia – até o final de 2004, 29% das empresas norte-americanas já se utilizavam dessa ferramenta (SURMACZ, 2005). Ocorre porém que a disponibilidade de computadores mais poderosos aumenta a possibilidade de quebra de códigos e conseqüentemente da confidencialidade (SUGIMOTO, 2004). Dado esse cenário prevê-se que a criptografia convencional, baseada em chaves, deve ser substituída pela criptografia quântica no final desta década. Diferentemente da criptografia clássica, que se apóia na aplicação de chaves baseadas em princípios matemáticos, a criptografia quântica apóia-se na física. As mensagens são codificadas com o uso de fótons (partículas associadas a campos magnéticos), e, se interceptadas, se corrompem, impedindo a decodificação; a técnica permite que caso isso aconteça, o processo de codificação e transmissão seja imediatamente reiniciado. A técnica deve tornar praticamente impossível a decifração das mensagens assim criptografadas. BIOMETRIA COMO FERRAMENTA DE IDENTIFICAÇÃO O uso de características físicas ou comportamentais como ferramenta para a identificação de pessoas é chamado genericamente biometria. Dentre as características físicas, podemos citar impressões digitais, geometria da face, contorno da mão, padrões da íris e da voz, etc. Quanto às características ditas “comportamentais”, podem-se citar os movimentos feitos ao caminhar, a forma de digitar (os antigos operadores de código Morse reconheciam outro operador pelo ritmo em que transmitiam), a assinatura, etc. A utilização da biometria, aliada à criptografia quântica, deve se confirmar como importante fator na busca da segurança dos sistemas de informação. Como conseqüência dos recentes eventos terroristas, muitos governos têm trabalhado intensivamente no assunto, o que deve fazer com que a área se desenvolva rapidamente; a empresa de consultoria Frost & Sullivan estima que o mercado mundial de equipamentos, serviços e software voltados à biometria deve saltar de cerca de 150 milhões de Euros em 2002 para seis bilhões em 2010. SOFTWARE LIVRE Em TIC, tecnologias abertas são aquelas que permitem aos usuários conhecerem como funcionam os diversos componentes de um sistema. A mais comum dessas tecnologias é a chamada open source, programas conhecidos como “software livre”, em que são permitidas a cópia, a alteração e a distribuição do código fonte. Uma das principais características do software livre é a possibilidade de fazer modificações num produto original e até mesmo desenvolver novos produtos baseados em produtos anteriores sem qualquer tipo de dependência em relação ao fornecedor original. Assim, o desenvolvimento de sistemas abertos tende a ser descentralizado, apresentando diversas vantagens em relação às tecnologias fechadas ou proprietá- Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 107 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 rias: melhor adequação às necessidades de cada usuário, rapidez no desenvolvimento e custos mais baixos, principalmente. Os principais problemas para a utilização de software livre são a falta de suporte adequado, a falta de uma massa crítica de aplicativos que permita o atendimento de um maior número de necessidades, a relativa “imaturidade” dos produtos e a falta de pessoal treinado, diz a empresa de pesquisas Forrester Research, em pesquisa realizada em 2004. Em países como o Brasil, TIC abertas tendem a ser mais eficientes do que as proprietárias, uma vez que a descentralização do seu desenvolvimento permite a criação de produtos mais adequados à nossa realidade a custos significativamente inferiores. Além disso, a independência em relação ao fornecedor original é importante para países que não dispõem de recursos para atualizar continuamente seus sistemas de informação em função dos interesses das grandes produtoras de software, interesses esses nem sempre convergentes com os desses países. A utilização desoftware livre tende a gerar mais empregos nos países que o utilizam, economizar divisas, etc; sua utilização em conjunto com software proprietário acaba tornando as empresas mais eficientes, especialmente quando ferramentas como sistemas operacionais, gerenciadores de bancos de dados, editores de texto e planilhas eletrônicas substituem seus correspondentes baseados em tecnologia fechada. É importante mencionar que software livre não é sinônimo de software gratuito, mas, como se disse, sua utilização de forma adequada tende a trazer mais eficiência. Outro ponto a ser considerado é a possibilidade de se desenvolver mão-deobra local para criação de software. É estratégico para o país dispor de mão-deobra capaz de desenvolver TIC, e não apenas aplicá-las. A opção por software livre induz à formação de mão-de-obra qualificada. No Brasil, nota-se um aumento no uso do software livre, especialmente pelo poder público e universidades, embora já se observe a utilização desse tipo de ferramenta no mercado corporativo. Nota-se também a presença de empresas que baseiam seu modelo de negócio em software livre, desenvolvendo aplicativos, fornecendo serviços de consultoria e treinamento, etc. TERCEIRIZAÇÃO (OUTSOURCING) Em tempos de busca de eficiência, a terceirização de processos de TIC tende a ser uma opção especialmente atraente. Empresas situadas em países desenvolvidos têm a opção de praticá-la na modalidade offshoring, transferindo trabalhos para empresas situadas em países onde a mão-de-obra tem custo menor – apenas para comparação, o custo hora de um programador de computadores na Rússia é de 9,24 euros, enquanto nos Estados Unidos esse valor vai a 44 e na Alemanha a 54 euros (SCHAAF, 2004). Cabe observar, no entanto, que determinados processos não podem ser terceirizados sem riscos, em função de sua importância estratégica para a organi- 108 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 zação ou por sua especificidade. A terceirização usualmente traz bons resultados se o processo a ser terceirizado for bastante estruturado, puder ter seus limites claramente traçados no interior da organização e não exigir interação intensiva com outros processos da organização. Uma modalidade de terceirização que vem despontando é a do aluguel de software; ela se insere num conceito maior, em que os recursos de informática seriam utilizados de forma análoga à que se pratica atualmente para luz e água: pagar-se-ia pelo efetivamente utilizado, quer se trate de hardware, software ou serviços profissionais. O instituto de pesquisa IDC estima que a demanda por aluguel de software vá aumentar em 25% ao ano até 2008, quando atingirá US$ 9 bilhões; esse ritmo de crescimento é impressionante, quando comparado ao crescimento de 5% esperado para a indústria de TIC como um todo (EXAME, 2005). Os problemas trazidos pela terceirização normalmente são decorrentes da má escolha do terceirizado, da não existência de adequados acordos de nível de serviço e da preparação inadequada das estruturas da organização para a terceirização, especialmente no que se refere a pessoal. Fagundes (2005) relata que grandes organizações estão reassumindo processos terceirizados por terem experimentado problemas com a terceirização de processos estratégicos na área de sistemas de informações. O mesmo autor enfatiza a necessidade de que as empresas procurem preservar a habilidade de “ver” o futuro e que para atingir esse objetivo devem manter uma estrutura de especialistas em TIC capazes de alinhar as tecnologias disponíveis com os modelos de negócios da empresa, com flexibilidade para atender aos requisitos de mercado no tempo certo (time to market). ETIQUETAS ELETRÔNICAS As e-tags ou etiquetas eletrônicas RFID (Radio Frequency Identification - Identificação por Rádio Freqüência) são etiquetas compostas basicamente por um chip muito simples e uma antena, que emitem sinais de rádio, enviando informações acerca da identificação, características e localização do produto ao qual estão afixadas. Seu custo logo estará na faixa dos três centavos de dólar por unidade, tornando economicamente viável sua utilização no controle de um grande número de produtos. As e-tags deverão ter inúmeras aplicações, mas é no comércio varejista que sua utilidade se torna mais evidente. Nas lojas, poderemos ter automaticamente alterações de preços, alertas sobre datas de validade expiradas, emissão de ordens de reposição, proteção contra furtos, check-out rápido, etc. As etiquetas são muito finas, podendo se adaptar a superfícies cilíndricas, facilitando a aplicação e ficando imperceptíveis aos olhos do cliente; podem ser aplicadas sob os rótulos, de forma a que nem mesmo os funcionários das lojas consigam localizá-las com facilidade. A possibilidade de se controlar automaticamente o fluxo de produtos e peças por toda a cadeia de suprimentos, identificando cada item individualmente, abre Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 109 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 inúmeras possibilidades para a gestão eficiente dessa cadeia, otimizando o relacionamento fabricante/distribuidor/vendedor/consumidor, acabando por permitir a prática de preços mais baixos. Isso será possível pela possibilidade de manutenção de menores estoques, redução de perdas, otimização das linhas de produção, etc. Essa tecnologia começou a ser desenvolvida na década de 90, por um consórcio formado por instituições de pesquisa, como o Massachusetts Institute of Technology (MIT) e empresas como Procter & Gamble, Gillette e outras – essas duas, não por coincidência, produtoras de bens de consumo que vendem milhões de unidades por todo o mundo e que recentemente passaram à propriedade do mesmo grupo empresarial. Acredita-se que a adoção das e-tags será gradual, em função de questões como custos, privacidade, segurança, etc. – de qualquer forma, já se fala que até 2008 o mercado dessas etiquetas e de produtos ligados a elas (leitores, gravadores, etc.) girará cerca de US$ 3 bilhões. A tecnologia de código de barras deve acabar sendo totalmente substituída pelas e-tags. Por falar em segurança, é ilustrativo o caso do grupo Benetton, que por exigência de seus clientes teve de suspender a aplicação de 15 milhões de etiquetas em roupas e acessórios que comercializa. As e-tags seriam aplicadas às peças durante o processo de fabricação e ali permaneceriam durante todo seu ciclo de vida; as informações que constariam da etiqueta incluiriam estilo, cor, tamanho e destinação das peças, objetivando facilitar a distribuição e controle de estoques. Embora a Benetton houvesse alertado os consumidores de que as etiquetas seriam desativadas ao saírem do ponto de venda, não foi possível convencê-los de que não seriam rastreados por onde fossem, e essa realmente é uma perspectiva pouco agradável. Há também problemas de natureza ambiental que provavelmente retardarão o processo de adoção das e-tags: nos Estados Unidos, são permitidas etiquetas com potência de até 2 watts, enquanto na União Européia esse valor cai a 0,5 watt, reduzindo a distância em que as informações poderão ser lidas e conseqüentemente a utilidade da tecnologia; essas restrições devem-se a preocupações com os efeitos da radiação eletromagnética sobre a saúde. ARQUITETURA ORIENTADA PARA M O D E L O S ( M O D E L DRIVEN ARCHITECTURE - MDA) A crescente velocidade com que novas ferramentas vêm sendo incorporadas ao arsenal de TIC, muitas vezes tornando rapidamente obsoletos computadores, sistemas operacionais, linguagens, etc., faz crescer muito a necessidade de redesenho, reprogramação e adaptação de aplicativos a novos ambientes computacionais; esses serviços têm custos elevados e a intensidade de sua utilização gera pesados encargos às organizações. Visando a enfrentar esses problemas, surgiu o Object Management Group (OMG, www.omg.org), uma organização sem fins lucrativos que pretende estabelecer e 110 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 manter padrões para a área de engenharia de software, de forma a permitir, principalmente, que sistemas sejam desenvolvidos sem que haja preocupação quanto ao ambiente em que serão processados. Sistemas gerados de acordo com esses padrões praticamente não precisam ser alterados quando gerenciadores de bancos de dados, hardware ou sistemas operacionais são mudados, gerando economias e conseqüentemente eficiência para as organizações que os adotarem, não só eliminando a necessidade de redesenho, reprogramação e adaptação de aplicativos a novos ambientes computacionais, como também reduzindo necessidades de treinamento dos desenvolvedores, reduzindo erros, acelerando o processo de teste de sistemas, melhorando os padrões de documentação, diminuindo o tempo que alterações levariam para ser implantadas, etc. Esse conjunto de características aumenta também a segurança dos sistemas de informação. O principal padrão produzido pela OMG é a Arquitetura Orientada para Modelos (Model Driven Architecture - MDA), que pode ser considerada um framework para desenvolvimento de software centrado na definição de modelos. Esse framework é baseado em padrões como UML (Unified Modeling Language), MOF (Meta-Object Facility), CWM (Common Warehouse Meta-model), XML(Extensible Markup Language), etc. Para um futuro mais remoto, fica a idéia de uma “máquina programadora” (programming machine), estrutura capaz de receber informações acerca das necessidades dos usuários e, analisando os modelos disponíveis, juntar partes dos mesmos, de forma a gerar automaticamente sistemas que atendam às referidas necessidades. GERENCIAMENTO DO CICLO DE VIDA DA INFORMAÇÃO (INFORMATION LIFECYCLE MANAGEMENT - ILM) O imenso volume de dados que são armazenados nas redes de computadores de uma organização gera custos elevados, não apenas pelo seu volume e diversidade (textos, sons, imagens), mas também pelas redundâncias que freqüentemente ocorrem, e pela necessidade de manutenção de estruturas de administração que permitam o adequado gerenciamento desses dados. A se considerar, também, os riscos derivados de perda, furto e vazamento de informações. O conceito de ILM consiste em alocar os dados dentro dos meios físicos disponíveis, com base numa hierarquia que avalia a importância de cada informação para a organização, otimizando a relação eficiência versus segurança. Diante desse cenário, empresas estão se organizando para assumir a tarefa de gerenciar todo o ciclo de vida dessas informações, atuando de forma terceirizada e cuidando de todos os aspectos relativos ao assunto, fornecendo desde a armazenagem propriamente dita até ferramentas de recuperação, serviços de consultoria e implementação, etc. Já estão operando também algumas empresas que fornecem serviços específicos, além de hardware (fitotecas robotizadas, cartuchos, discos Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 111 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 de alta performance, etc.). As empresas precisam compreender que ILM não é apenas um back up sofisticado, mas sim um conjunto que compreende o conhecimento acerca dos dados, sua hierarquização em termos de importância para a organização, inter-relacionamento, necessidade de guarda, sensibilidade em termos de perda, furto e vazamento, freqüência de uso, etc., de forma a que se possa atingir uma relação ótima entre eficiência e segurança. CONSIDERAÇÕES FINAIS As TIC são vitais para qualquer organização; sua utilização de maneira equivocada pode gerar ineficiência, impedindo que a organização atue de forma efetiva e, quando for o caso, mantenha-se competitiva. Além da eficiência e segurança, deve também ser considerada como objetivo do uso da TIC a obtenção da flexibilidade suficiente para que a organização possa mudar seus rumos no momento adequado e agilidade tal que permita reagir às mudanças do ambiente em que atua. Isso posto, fica clara a importância do acompanhamento das tendências na área pelos administradores, de forma a que possam tomar providências no sentido de que as escolhas de equipamentos e serviços de TIC sejam as melhores possíveis. Cabe também registrar que este trabalho não pretende esgotar o assunto – tendências na área das TIC são detectadas, consolidam-se ou deixam o cenário com rapidez, pelo que se reitera a importância do monitoramento constante da área pelos administradores, não só por aqueles que atuam na área de TIC propriamente dita, mas também pelos que atuam nas áreas de negócios. A inclusão do tema no processo de planejamento estratégico pode auxiliar bastante no sentido de que esse monitoramento seja feito de forma sistemática e eficiente. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRETERNITZ, Vivaldo José. Roubo de identidade. Belo Horizonte, O Tempo, 24 set. 2003. Deixa que ele cuida do software. São Paulo, Exame, 30 mar. 2005. FAGUNDES, Eduardo Mayer. Quais são as promessas da terceirização das áreas de tecnologia da informação nas empresas ? Disponível em: <http:// www.efagundes.com/Artigos>, acesso em: 12 mar. 2005. SCHAAF, Jurgen. Offshoring: globalisation wave reaches services sector. Frankfurt am Main, Deutsche Bank Research, 27 set. 2004. 112 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 SUGIMOTO, Luiz. O que os cientistas reservam para Alice, Bob e a espiã Eva. Campinas, Jornal da Unicamp, 7 a 21 jun. 2004. SURMACZ, Jon. Less than one-third of companies have deployed encryption to desktops. Disponível em: <www.csoonline.com/metrics/viewmetric.cfm?id=784>, acesso em: 20 mar. 2005. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 113 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 114 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 DESENVOLVIMENTO DE SOFTWARE COM METODOLOGIA PRAXIS AUXILIADA PELA FERRAMENTA CASE RATIONAL ROSE André Fernando Tetto* Peter Jandl Junior** RESUMO Este trabalho pretende verificar como o emprego da metodologia Praxis pode ser suportado de maneira efetiva pelo uso conjunto da ferramenta CASE Rational Rose. A análise desta metodologia, de seus artefatos e da contribuição da ferramenta escolhida permite apresentar algumas das vantagens e desvantagens desta combinação no processo de desenvolvimento de software. Palavras-chave: engenharia de software, processo de software, desenvolvimento de software, metodologia de desenvolvimento, CASE. ABSTRACT The aim of this study is to verify how the use of the Praxis methodology can be effectively supported by the use of the Rational Rose Case Tool. The analysis of this methodology, its artifacts and the contributions of the selected tool exposes some advantages and restrictions of the proposed association in the software development process. Key words: software engineering, software process, software development, development methodology, CASE. INTRODUÇÃO Quando projetos de programas de computação complexos são realizados de maneira informal, isto é, sem auxílio de metodologias apropriadas de desenvolvimento, aumentam-se os riscos deste processo levando, com freqüência, a situações desagradáveis: cronogramas em atraso, insatisfação do cliente e baixa qualidade do software produzido. Quando funcionam é devido a talentos individuais, mas os sucessos quase nunca se repetem, sem considerar o desperdício de recursos e dinheiro quando assim conduzidos (PAULA, 2003; PRESSMAN , 2003; W IKIPEDIA, 2005). A Engenharia de Software, disciplina que tem como uma de suas principais preocupações a oferta de metodologias e ferramentas apropriadas para o desenvolvimento de software, pode e deve ser utilizada para que os resultados esperados em um projeto de software possam ser alcançados (SOMMERVILLE, 2003). Uma metodologia de desenvolvimento de software fornece os detalhes de “como fazer” para desenvolver um software envolvendo um amplo conjunto de tarefas que incluem: levantamento e análise dos requisitos, projeto, implementação e testes de software. Já as ferramentas proporcionam apoio automatizado ou semi- * Analista de Sistemas (USF). Analista Programador Micro Mídia Informática. ** Mestre em Educação (USF) e Engenheiro de Eletrônica (UNICAMP). Professor de cursos de Graduação, Pósgraduação e Extensão da Universidade São Francisco e do Centro Universitário Padre Anchieta. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 115 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 automatizado para as metodologias como, por exemplo, as ferramentas CASE (Computer Aided Software Engineering), que auxiliam nas diferentes fases do ciclo de vida do software através do uso de bases de dados e interfaces gráficas e textuais. Segundo Barrére (1999), uma ferramenta CASE tem como propósito auxiliar o desenvolvedor na maximização de suas habilidades intelectuais e criativas para a obtenção de software de mais alta qualidade com maior produtividade. Este trabalho apresenta o estudo da metodologia de desenvolvimento de software Praxis, escolhida por ser uma metodologia brasileira, e sua interação com a ferramenta CASE Rational Rose (IBM, 2005A), muito utilizada nos âmbitos acadêmico e profissional, averiguando de que forma esta metodologia é suportada pela ferramenta escolhida, o que possibilita a determinação de algumas das vantagens e desvantagens desta combinação no desenvolvimento de software. A METODOLOGIA DE DESENVOLVIMENTO PRAXIS O Praxis (Processo para Aplicativos eXtensíveis InterativoS) é, com mais rigor, um processo de desenvolvimento de software que enfatiza o desenvolvimento de aplicações gráficas interativas, e foi idealizado pelo professor Wilson de Pádua Paula Filho (2003). Inicialmente desenhado para suportar projetos didáticos em disciplinas de engenharia de software de cursos de informática e em programas de capacitação profissional em processo de software, pode também ser utilizado como base de treinamento preparatório para o uso dos processos RUP (Rational Unified Process), PSP (Personal Software Process), TSP (Team Software Process). Também é adequado ao desenvolvimento de projetos comerciais, desde que personalizado de acordo com a organização que o adotar (PAULA, 2003). O processo Praxis abrange tanto métodos técnicos (requisitos, análise, desenho, testes e implementação) quanto métodos gerenciais (gestão de requisitos, de projetos e de configurações, além de garantia da qualidade). Propõe assim um ciclo de vida composto por fases que produzem um conjunto bem caracterizado de artefatos (documentos, modelos e relatórios) (PAULA, 2003). É baseado na tecnologia orientada a objetos, possuindo como notação de análise e desenho a UML (Unified Modeling Language) (FOWLEY ; SCOTT, 2000; MATOS, 2003; IBM, 2005B). Os fluxos do Praxis cobrem áreas chaves de processo do SW-CMM (Software Capability Maturity Model), um modelo de capacitação específico para a área de software (SEI/CMU, 2005), cujos padrões estão em conformidade com os propostos pelo IEEE (Institute of Eletrical and Eletronic Engineers) (IEEE, 1994) e reflete elementos do RUP (PAULA, 2002; PAULA, 2003). Segundo Paula (2003), o uso, personalização e reprodução do processo Praxis é livre, desde que citadas suas fontes e também claramente identificadas as diferenças frente ao Praxis padrão, que garante para quem o utilizar o nível três (3) do SW-CMM (SEI/CMU, 2005), como destacado na Tabela 1. 116 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Tabela 1. Praxis e o SW-CMM Característica da Característica dos Processos Organização Número do Nível Nome do Nível 1 Inicial Não segue rotinas Processos caóticos 2 3 Repetitivo Definitivo Processos disciplinados Processos padronizados 4 Gerido Segue rotinas Escolhe rotinas Cria e aperfeiçoa rotinas 5 Otimizante Otimiza rotinas Processos previsíveis Processos em melhorias contínuas NOMENCLATURA Descreve-se a seguir a nomenclatura empregada pelo Praxis, ilustrada na figura 1. Tal como o RUP, o Praxis abrange tanto fases quanto fluxos. • Fase : divisão maior de um processo, para fins gerenciais, que corresponde aos pontos principais de aceitação por parte do cliente (divisões orientadas para gestão de projetos). Uma fase é composta por uma ou mais iterações. • Iteração: divisões de uma fase, nas quais se atinge um conjunto bem definido de metas parciais de um projeto, é um exemplo de passo. Cada iteração possui um script. • Script: conjunto de instruções que definem como uma iteração deve ser executada. • Fluxo: subprocesso caracterizado por um tema técnico ou gerencial (divisões orientadas por disciplina de engenharia de software). Um fluxo é dividido em uma ou mais atividades. • Atividades: passos constituintes de um fluxo. • Passos: divisão formal de um processo, com pré-requisitos, entradas, critérios de aprovação e resultados definidos. * Analista de Sistemas (USF). Analista Programador Micro Mídia Informática. ** Mestre em Educação (USF) e Engenheiro de Eletrônica (UNICAMP). Professor de cursos de Graduação, Pósgraduação e Extensão da Universidade São Francisco e do Centro Universitário Padre Anchieta. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 117 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Figura 1 - Estrutura de Processo, Fase e Fluxo. As relações existentes entre fases, iterações, scripts, fluxos, atividades e artefatos no processo Praxis descrevem o funcionamento do processo. FASES A divisão das fases obedece ao modelo de ciclo de vida de entrega evolutiva, sendo que o término de cada fase é sempre determinado pela entrega e aprovação de um conjunto preestabelecido de artefatos (resultados) (PAULA, 2003). Como no RUP, o Praxis apresenta as seguintes fases: • Concepção: as necessidades dos usuários e os conceitos da aplicação são analisados o suficiente para justificar a especificação de um produto de software. • Elaboração: a especificação do produto é detalhada o suficiente para modelar conceitualmente o domínio do problema, validar os requisitos em termos desse modelo conceitual e permitir um planejamento detalhado da fase de construção. • Construção: é desenvolvida, ou seja, desenhada, implementada e testada uma versão completamente operacional do produto, a qual atende aos requisitos especificados. 118 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 • Transição: passagem do produto do ambiente de desenvolvimento para o ambiente do usuário. ITERAÇÕES Uma iteração é o resultado da divisão de uma fase. As fases são divididas assim (PAULA, 2003): Concepção • Ativação: levantamento e análise das necessidades dos usuários e conceitos da aplicação, em nível de detalhe suficiente para justificar a especificação de um produto de software. Elaboração • Levantamento de requisitos: levantamento das funções, interfaces e requisitos não-funcionais desejados para o produto. • Análise dos requisitos: modelagem conceitual dos elementos relevantes do domínio do problema e uso desse modelo para validação dos requisitos e planejamento detalhado da fase de construção. Construção • Desenho implementável: definições internas e externas dos componentes de um produto de software, em nível suficiente para decidir as principais questões de arquitetura e tecnologia e também permitir o planejamento da fase de construção. • Liberação: implementação de um subconjunto de funções do produto que será avaliado pelos usuários; após a implementação de todas as liberações, o produto estará totalmente implementado. • Testes Alfa: realização dos testes de aceitação, no ambiente de desenvolvimento, juntamente com elaboração da documentação do usuário e possíveis planos de Transição. Transição • Testes Beta: realização dos testes de aceitação no ambiente dos usuários. • Operação piloto: operação experimental do produto em instalação piloto do cliente, com a resolução de eventuais problemas através de processo de manutenção. SCRIPTS Para cada iteração o script indica os artefatos que consome (insumos) e produz (resultados), os respectivos critérios de entrada (pré-requisitos) e de saída (critérios de aprovação) e um conjunto de atividades sugeridas. Toda iteração possui como único pré-requisito o término da iteração anterior e todos os insumos de uma iteração são os resultados da iteração anterior. Por essa razão os pré-requisitos e os insumos não são detalhados nos scripts das iterações do Praxis (PAULA, 2003). Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 119 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 FLUXOS No Praxis, os fluxos podem ser de natureza técnica ou gerencial. Os fluxos de natureza técnica são: Requisitos, Análise, Desenho, Implementação, Testes e Engenharia de Sistemas; os fluxos de natureza gerencial são: Gestão de Projetos, Gestão da Qualidade e Engenharia de Processos. Os fluxos definem os papéis desempenhados pelos participantes dos projetos e algumas atividades requerem a participação de vários papéis em sua execução (PAULA, 2003). ARTEFATOS Os resultados produzidos e os insumos consumidos nos passos do Praxis são chamados de artefatos do processo, cujos tipos são: • Documento: artefato produzido por ferramenta de processamento de texto ou hipertexto, para fins de documentação dos principais aspectos de engenharia de um projeto, incluindo aspectos selecionados dos modelos e aspectos não modeláveis. • Modelo: artefato de uma ferramenta técnica específica, produzido e utilizado nas atividades de um dos fluxos do processo. • Relatório: artefato que relata as conclusões das atividades do projeto. DOCUMENTOS Este processo utiliza-se de vários documentos diferentes que detalham aspectos específicos do projeto: • PESw (Proposta de Especificação do Software): delimita preliminarmente o escopo de um projeto, contendo um plano da fase de elaboração. • ERSw (Especificação dos Requisitos do Software): descreve o conjunto de requisitos especificados para um produto de software. • PDSw (Plano de Desenvolvimento do Software): descreve os compromissos que o fornecedor assume em relação ao projeto quanto a recursos, custos, riscos e outros aspectos gerenciais. • PQSw (Plano de Qualidade do Software): descreve os procedimentos de garantia da qualidade que serão adotados no projeto. • DDSw (Descrição do Desenho do Software): descreve os aspectos mais importantes no desenho do software. • DTSw (Descrição dos Testes do Software): descreve os planos e as especificações dos testes que serão executados. • MUSw (Manual do Usuário do Software): serve como referência para uso do produto. Os únicos documentos gerenciais são o PDSw e PQSw, sendo os demais considerados documentos técnicos. Esses documentos são tipicamente produzidos através de uma ferramenta de edição de textos (PAULA, 2003). 120 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 MODELOS Seguem os modelos utilizados pelos Praxis e as ferramentas necessárias para sua confecção: • CRSw (Cadastro dos Requisitos do Software): contém os requisitos levantados, assim como referências aos itens correspondentes dos modelos seguintes. [Planilha, banco de dados]. • MASw (Modelo de Análise do Software): contém os conceitos do domínio do problema a resolver que sejam relevantes para a validação dos requisitos. [Ferramenta de modelagem orientada a objetos]. • MPPSw (Memória de Planejamento do Projeto do Software): contém a informação necessária para o acompanhamento de tamanhos, esforços, custos, prazos e riscos dos projetos. [Planilha, ferramenta de gestão de projetos]. • MDSw (Modelo de Desenho do Software): detalha a estrutura lógica e física do produto, em termos de seus componentes. [Ferramenta de modelagem orientada a objetos]. • BTRSw (Bateria de Testes de Regressão do Software): conjunto dos scripts dos testes de regressão. [Ferramenta de desenvolvimento, ferramenta de testes]. • CFSw (Códigos Fontes do Software): conjunto dos códigos fontes produzidos. [Ferramenta de desenvolvimento]. • CESw (Códigos Executáveis do Software): conjunto dos códigos executáveis produzidos. [Ferramenta de desenvolvimento]. Segundo Paula (2003), a MPPSw é o único modelo gerencial. RELATÓRIOS Existem vários relatórios, que são produzidos por diferentes responsáveis: • RTSw (Relatórios dos Testes de Software): descreve os resultados dos testes realizados. [Grupo de testes do projeto]. • RRSw (Relatórios de Revisão do Software): descreve as conclusões da revisão de um artefato. [Grupo revisor do artefato]. • RISw (Relatórios de Inspeção do Software): descreve as conclusões da inspeção de um artefato. [Grupo inspetor de artefato]. • RAQSw (Relatórios das Auditorias da Qualidade do Software): descreve as conclusões de uma auditoria da qualidade realizada. [Grupo de garantia da Qualidade]. • RAPSw (Relatórios de Acompanhamento do Projeto do Software): descreve esforços, custos, prazos e riscos até a data corrente. [Gerente de projeto]. • RFPSw (Relatório Final do Projeto de Software): relatório de balanço final do projeto. [Gerente do projeto]. Os três primeiros são de caráter técnico e os demais de caráter gerencial. O plano da qualidade prevê as datas de emissão dos relatórios de testes, revisões e Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 121 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 auditorias. Os relatórios de acompanhamentos são produzidos com a periodicidade especificada no plano de desenvolvimento, geralmente por iteração (PAULA, 2003). CRONOGRAMA DOS ARTEFATOS As tabelas 2 e 3 mostram o relacionamento entre as iterações, os modelos e os documentos do Praxis (PAULA, 2003). PESw ERSw PDSw PQSw DDSw Levantamento dos requisitos P P Análise dos requisitos C C C P Desenho implementável A A A I P Liberação A A A I I Testes Alfa A A A C C P Testes Beta A A A A A A Operação piloto A A A A A C Ativação DTSw MUSw C P - Artefato começa a ser produzido I - Versão incompleta C - Artefato completado A - Artefato pode ser alterado Tabela 2. Relação entre iterações e documentos 122 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 CRSw MASw MPPSw MDSw BTRSw CFSw CESw Levantamento dos requisitos P P P Análise dos requisitos C C C P Desenho implementável A A A I P P P Liberação A A AI I I I I Testes Alfa A A A C C C C Testes Beta A A A A A A A Operação piloto A A A A A A A Ativação P - Artefato começa a ser produzido I - Versão incompleta C - Artefato completado A - Artefato pode ser alterado Tabela 3. Relação entre iterações e modelos GARANTIA DE QUALIDADE Procedimentos de controle são executados de maneira uniforme, em diferentes iterações do ciclo de vida, sendo sua conclusão condição necessária para que as iterações do projeto sejam consideradas aprovadas, passando-se às iterações seguintes. Algumas iterações requerem aprovação dos usuários chave para determinar se os requisitos foram corretamente interpretados pelos desenvolvedores, ou do cliente quando envolvem decisões de continuidade do projeto (fim da Concepção e Elaboração) ou aceitação do produto (fim da Construção e Transição). Esses pontos de aceitação pelo cliente demarcam, por definição, os finais das fases (PAULA, 2003). VANTAGENS E DESVANTAGENS Como vantagens pode-se indicar que o Praxis é baseado na tecnologia orientada a objetos; possui como notação de análise e desenho a UML; seus fluxos cobrem áreas chaves de processo do SW-CMM, garantindo inicialmente o nível 3 (três); seus padrões são conformes aos padrões de engenharia de software do IEEE; reflete elementos do Processo Unificado; e é um processo iterativo que pode Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 123 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ser utilizado para fins didáticos e comerciais desde que personalizado (PAULA, 2003). Como desvantagens tem-se que este processo possui uma comunidade pequena de usuários, talvez devido ao pequeno período de sua divulgação, e que ainda foram relatados poucos casos de sucesso do seu uso (ÁLVARES, 2000; CARVALHO, 2000; B ORGES, 2002; P ERES, 2002; B ORGES; P AULA, 2003; S ANTOS, 2004). Também não pode ser utilizado ou considerado como uma metodologia ágil, pois exige muita documentação. AVALIAÇÃO COMPARATIVA ENTRE PRAXIS E RUP Embora não constitua um dos objetivos deste trabalho, dada a similaridade de nomenclatura de alguns elementos do Praxis com relação ao RUP, mais conhecido nos meios acadêmico e profissional, é conveniente a realização de uma análise comparativa mínima para estabelecer outras semelhanças e caracterizar diferenças entre estes processos. Segundo Kruchten (2003), o RUP é simultaneamente um processo de engenharia de software (pois fornece uma abordagem disciplinada para assumir tarefas e responsabilidades dentro de uma organização de desenvolvimento), um produto de processo (pois é desenvolvido e mantido pela Rational Software e integrado com seu conjunto de ferramentas de desenvolvimento de software) e uma estrutura de processo (pois pode ser adaptada e estendida para compor as necessidades de uma organização que o adote). Seu objetivo é assegurar a produção de software de alta qualidade que satisfaça as necessidades de seus usuários finais dentro de prazos e orçamentos previsíveis. Embora tanto o Praxis quanto o RUP (IBM, 2005C) sejam processos de software baseados na tecnologia orientada a objetos, no Processo Unificado e que utilizam a notação UML, possuem objetivos diferentes. Enquanto o RUP destina-se claramente ao desenvolvimento de aplicações comerciais complexas, o objetivo do Praxis é o desenvolvimento de projetos didáticos em disciplinas de engenharia de software de cursos de informática e em programas de capacitação profissional. Desta forma o Praxis não possui como objetivo substituir ou mesmo concorrer com o RUP. O Praxis não detalha papéis, deixando esta tarefa a cargo das organizações que o adotarem; já no RUP o conceito central do processo está em um trabalhador, isto é, em uma posição (IBM, 2005C; W IKIPEDIA, 2005). Finalmente, outra diferença expressiva é que o RUP é um produto de processo, ou seja, para ser utilizado precisa ser comprado, enquanto o Praxis é um processo de uso, reprodução e personalização livre. AVALIAÇÃO DO SUPORTE NA FERRAMENTA RATIONAL ROSE AO PROCESSO PRAXIS Segundo Matos (2003), o Rational Rose é uma ferramenta CASE para UML que implementa as recomendações da OMG (Object Management Group) e que é baseada no conceito de modelo de negócios. É uma ferramenta robusta, com o 124 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 propósito de desenvolver soluções que atendam às necessidades do negócio do cliente, que vão desde uma simples solução localizada até soluções complexas baseadas em ambientes distribuídos. A construção de um modelo de negócios envolve diagramas de casos de uso, diagramas de objetos, diagramas de classes e demais diagramas da UML, os quais são suportados pelo Rational Rose. Em sua versão mais completa oferece suporte bastante amplo as linguagens de programação existentes, entre elas C++, Visual Basic e Java. A fim de se avaliar o suporte efetivo oferecido pelo Rational Rose quando se utiliza o processo Praxis, foi necessário o desenvolvimento de um projeto de software. Como plataforma de desenvolvimento escolheu-se o Java devido a sua relevância atual (JANDL, 2002; SUN , 2004). O Rational Rose foi usado na confecção parcial ou total de um conjunto dos artefatos mais importantes do processo. O projeto de software desenvolvido foi o Funny 1.0, um sistema de gestão de contas a pagar e receber para uma loja fictícia de equipamentos eletrônicos denominada Circuito Integrado. A principal motivação para a escolha desse projeto foi a existência de conhecimento prévio sobre a lógica do negócio desse tipo de sistema. Esse sistema possibilita a inclusão, consulta, alteração, exclusão, liquidação (pagamento) e estorno da liquidação (cancelamento do pagamento) de títulos a pagar e a receber. Possibilita também a importação de títulos a pagar e a receber do sistema de compras e vendas já existente da loja e também a inclusão, consulta, alteração e exclusão dos responsáveis desses títulos (clientes quando títulos cadastrados como contas a receber; fornecedores quando títulos cadastrados como contas a pagar). Neste trabalho forma utilizados: processo Praxis versão 2.0, Rational Rose 98 Enterprise Edition (com suporte para versão JDK 1.1.X da plataforma Java) e também o Borland JBuilder X. O critério de seleção de artefatos do processo Praxis escolhidos para avaliar o suporte do Rational Rose considerou a importância dos artefatos no processo e se sua confecção permitiria a avaliação de suporte. Embora tenha se procurado um conjunto mínimo, para evitar a descaracterização do processo, foram incluídos os artefatos PESw e MPPSw, cuja confecção não necessita uma ferramenta CASE. Sendo assim o conjunto de artefatos escolhidos e desenvolvidos foi: documentos (PESw, ERSw e DDSw) e modelos (MPPSw, MASw, MDSw e CFSw). Estes artefatos foram total ou parcialmente produzidos através do Rational Rose. O desenvolvimento dos artefatos seguiu o cronograma definido pelo processo Praxis (veja tabelas 2 e 3). Também foi realizado um controle do tempo necessário para a confecção de cada artefato (Tabela 4). Os primeiros artefatos produzidos e avaliados foram o ERSw e MASw, desenvolvidos em paralelo na fase de elaboração. Para o ERSw o Rational Rose foi utilizado para a confecção dos diagramas de contexto, de casos de uso e de classes persistentes. Para o MASw o Rose permitiu a confecção total do modelo, o que inclui todos os diagramas existentes na ERSw, além do diagrama de classes. O Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 125 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 processo Praxis recomenda o uso da notação UML para a confecção desses diagramas. Especificamente em relação ao MASw, existe a recomendação para que sejam desenvolvidas classes de três tipos: Fronteira (boundary), que modelam as interfaces do produto com os usuários e com outros sistemas; Entidades (entity), que modelam informações persistentes; e Controle (control), que coordenam o fluxo de um caso de uso complexo, encapsulando lógica que não se enquadra naturalmente nas responsabilidades das entidades. Em particular, o projeto desenvolvido neste trabalho possui apenas os tipos de classes de fronteira e de entidade. As classes de controle não foram necessárias, pois não havia casos de uso complexos a serem coordenados por este tipo de classe, podendo ser coordenados pelas classes de fronteira sem infringir as recomendações do processo Praxis, que menciona que casos de uso simples podem ser coordenados por classes de fronteira. O Rose suportou adequadamente todos estes desenhos, de acordo com o recomendado pelo processo Praxis, tal como indicado na tabela 4. Ainda na fase de construção foram desenvolvidos em paralelo os artefatos DDSw e MDSw, como definido pelo processo Praxis. É importante mencionar que foram feitas apenas as iterações Desenho Implementável e Liberação 1: Manutenção de Títulos, pois através do desenvolvimento dessas iterações foi possível coletar material suficiente para o objetivo deste trabalho. Para a DDSw foi possível utilizar o Rose para a confecção dos diagramas da estrutura dinâmica do produto, diagramas de visão lógica (pacotes lógicos, classes, realizações dos casos de uso e interação), e diagramas de visão física (componentes físicos). Já para o MDSw o Rose permitiu a confecção total do modelo, o que inclui todos os diagramas existentes na DDSw. Como antes, existe a recomendação de emprego da notação UML na confecção dos diagramas, ou seja, uso dos diagramas de colaboração para descrever a estrutura dinâmica do software e dos diagramas de pacotes para representar a visão lógica do sistema em termos de camadas e componentes. O Rose suportou adequadamente a construção destes diagramas, com pequenas restrições nos diagramas de casos de uso e de interações devido à versão utilizada. Não foi possível a criação do desenho das tabelas de banco de dados utilizadas pelo projeto, mas apenas a geração de scripts de criação de base de dados a partir das classes (no caso das classes de entidade), e executá-los em um gerenciador de banco de dados. Os tempos consumidos na confecção da DDSw e do MDSw estão indicados na tabela 4. O CFSw foi o último artefato desenvolvido e analisado neste trabalho. O Rose gerou adequadamente a codificação das classes na plataforma Java de acordo com o diagrama de classes do MDSw. O código gerado consiste nos atributos e nas assinaturas dos métodos, incluindo os construtores destas classes. Após a geração do código foi possível sua edição através do Borland JBuilder X, indicando que outros ambientes de programação poderiam ser empregados. 126 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Uma análise das classes geradas permitiu verificar que não houve a inclusão de código desnecessário, exceto a declaração de algumas classes que realizam associações no diagrama de classes. Nesta etapa o Rose não realiza uma compilação das classes em busca de erros. Também não existe a necessidade de um desenho prévio dos componentes do software antes de geração do código, pois caso não existam, esses desenhos serão gerados automaticamente. A documentação das classes geradas também é produzida automaticamente. Estudando-se a característica do Rose de engenharia reversa da codificação das classes foi notada a realização de uma compilação com o propósito de se encontrarem erros de sintaxe e de configuração. Durante a realização da engenharia reversa também foi criado o desenho dos componentes de software referentes às classes do software. O Rose não suportou a engenharia reversa das classes contendo o desenho das interfaces de usuário (classes de fronteira) produzidas pela ferramenta de programação (no caso o JBuilder X), conforme recomendação do processo Praxis. Sendo assim todas as classes contendo interfaces de usuário foram desenhadas totalmente no Rose, situação que também possibilitou a geração automática de sua documentação. Finalmente o MPPSw foi utilizado para armazenar o tempo necessário para a confecção de cada artefato, tal como mostra a tabela 4. Artefato PESw Confecção Tempo Não aplicável Suporte Não avaliado ERSw Total 19h45m Adequado DDSw Total com restrições 16h00m Adequado MPPSw Não aplicável Não avaliado MASw Total 15h30m Adequado MDSw Total com restrições 10h00m Adequado CFSw Total 06h00m Adequado Tabela 4. Tempos de produção dos artefatos e adequação do suporte do Rational Rose CONCLUSÃO No geral o suporte da ferramenta CASE Rational Rose oferecido ao processo Praxis foi bastante satisfatório, pois dos onze diagramas recomendados nenhum problema foi encontrado em sete deles, existindo pequenas restrições na confecção dos demais. Contudo, o fato da engenharia reversa não ser possível para classes contendo as interfaces de usuário desenhadas no JBuilder foi um aspecto Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 127 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ruim. Isto exigiu a separação das fontes das classes de interface de usuário geradas pelo Rose e pelo JBuilder. Os tempos mensurados, embora razoáveis, são apenas referenciais e provavelmente podem ser reduzidos com um maior domínio da ferramenta CASE a ser obtido através de seu uso continuado. Constatou-se assim que projetos de software de cunho acadêmico que utilizem o processo Praxis podem se beneficiar do apoio oferecido pelo Rational Rose, principalmente se for possível o uso de versões mais recentes, que incluem suporte mais adequado para a notação UML, além de novas características. Outra contribuição é a verificação que projetos comerciais de software também podem utilizar o Praxis combinado com o Rational Rose para o seu desenvolvimento. No entanto é recomendável a personalização do processo de acordo com as necessidades da organização. Este trabalho poderia ser continuado de diversas formas, entre elas: desenvolvendo-se outras customizações e extensões para o Praxis, tais como nos trabalhos de Álvares (2000) e Peres (2002); ou efetuando-se avaliações semelhantes do suporte de outras ferramentas CASE em relação ao processo Praxis padrão ou de suas extensões. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ÁLVARES, Patrícia M. R. de S. WebPraxis - Um Processo Personalizado para Projetos de Desenvolvimento para a Web. In Anais da IV Semana de Pós-Graduação em Ciência da Computação (SPG’2000), 28/08/00 a 30/08/00, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. On-Line: http://www.dcc.ufmg.br/pos/html/ spg2000/anais/pmarques/pmarques.htm, recuperado em 20/04/2005. BARRÉRE, Tathiana da Silva; PRADO, Antonio Francisco; BONAFE, Vitor César. CASE Orientada a Objetos com Múltiplas Visões e Implementação Automática de Sistemas – MVCASE. São Carlos, 1999. 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Praxis Mentor - Uma Ferramenta de Apoio à Utilização de um Processo de Desenvolvimento de Software. In Anais da IV Semana de Pós-Graduação em Ciência da Computação (SPG’2000), 28/08/00 a 30/08/00, Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte. On-Line: http://www.dcc.ufmg.br/pos/html/ spg2000/anais/junia/junia.htm, recuperado em 20/04/2005. FOWLEY, Martin; SCOTT, Kendall. UML Essencial. 2.ed. Porto Alegre: Bookman, 2000. IBM. RATIONAL Software. On-Line: http://www-306.ibm.com/software/rational/, recuperado em 20/04/2005 (A). IBM. UML Resource Center. On-Line: http://www-306.ibm.com/software/rational/uml/, recuperado em 20/04/2005 (B). IBM. Rational Unified Process. On-Line: http://www-306.ibm.com/software/awdtools/ rup/, recuperado em 20/04/2005 (C). IEEE. IEEE Standards Collection – Software Engineering. IEEE, New York – NY, 1994. JANDL, Peter Junior. Introdução ao Java. São Paulo: Berkeley, 2002. KRUCHTEN, Philippe. Introdução ao RUP: Rational Unified Process. 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ABSTRACT The objective of this article is to explore the data base of the 2000 Census through SPSS, to create an indicator of living conditions for six municipalities located in the region of Jundiaí. To this end, the presence or absence of seven variables will be used (water, electricity, sewage, refrigerator, television, personal computer, and automobile). If the household has all the factors, the index would be equal to one and the conditions totally satisfactory; on the contrary, in their absence, the index would be equal to zero and the conditions totally unsatisfactory. Key words: demographic census, medium index, indicators, municipalities, equipment. Introdução Os censos demográficos realizados pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) têm se constituído em instrumentos importantes para que possa entender e analisar o desenvolvimento da população brasileira. Segundo informações do próprio IBGE, o censo de 2000 investigou um total de 54 265 618 domicílios em todos os municípios brasileiros, sendo levantado um conjunto de aspectos sobre características gerais da população, educação, migração, trabalho e rendimento, etc. A expansão da amostra foi realizada a partir de pesos atribuídos ao domicílio e a cada um de seus moradores. A partir do momento em que o IBGE disponibilizou os microdados do censo 2000, foi possível elaborar estudos socioeconômicos e demográficos para cada um dos 5560 municípios brasileiros. Neste sentido, pretende-se investigar características que permitam estabelecer um indicador do nível de vida para seis municípios localizados na região de Jundiaí. ∗ Mestre em Economia pela PUC São Paulo. Professor Adjunto da PUC Campinas e professor titular do Centro Universitário Padre Anchieta de Jundiaí. **Graduado em Administração de Empresas pela PUC Campinas. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 131 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 A recuperação e o tratamento dos microdados do censo 2000, disponibilizados em CD-ROM, foi feita através do Statistical Package for the Social Science (SPSS), cujas potencialidades permitem, entre outras, a seleção de grupos específicos e o cruzamento de informações. 1. MUNICÍPIOS E VARIÁVEIS ENVOLVIDAS NO ESTUDO Na presente investigação optamos por levantar uma série de indicadores demográficos que caracterizassem um conjunto de seis municípios que estão localizados entre o município de São Paulo e o de Jundiaí. Tal escolha se deve ao fato de tratar-se de uma região com grande diversidade econômica e social, e que apresentou expressivo crescimento na última década. A região de estudo é formada pelos seguintes municípios: Caieiras, Cajamar, Campo Limpo Paulista, Francisco Morato, Franco da Rocha e Várzea Paulista (vide cartograma). O O objetivo final do estudo é criar um indicador do nível de vida para os seis municípios selecionados, a partir das seguintes variáveis: n Rede pública de água: quando o domicílio é servido de água ligada à rede geral de abastecimento; n Rede pública de esgoto: quando a canalização das águas servidas e dos dejetos é ligada a um sistema de coleta que conduza a um desaguadouro oficial; 132 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 n Rede pública de energia: quando o domicílio dispõe de iluminação elétrica, proveniente ou não de uma rede geral, com ou sem medidor que registre o consumo exclusivo do domicílio; Geladeira: quando o domicílio dispõe de geladeira ou freezer; Microcomputador: quando o domicílio dispõe de microcomputador; Televisor: quando o domicílio dispõe de pelo menos um televisor; n n n n Automóvel: quando o domicílio dispõe de pelo menos um automóvel. No entanto, pretende-se também avaliar individualmente cada um dos indicadores para o conjunto de municípios selecionados, com o intuito de identificar diferenças que possam melhor qualificá-los. Em todos os casos, optou-se por classificação dicotômica da variável, ou seja, de forma binária (0 ou 1), significando ausência ou presença do equipamento. 2. ANÁLISE INDIVIDUAL DOS INDICADORES Abastecimento de água Tabela 1: Rede pública de água Rede pública de água Município Total Índice 17992 19039 0,95 1934 11780 13714 0,86 Campo Limpo Paulista 1616 15084 16700 0,90 Francisco Morato 2553 31471 34024 0,92 Franco da Rocha 1514 24712 26226 0,94 Várzea Paulista 2939 21509 24448 0,88 Total 11603 122548 134151 0,91 Não Sim Caieiras 1047 Cajamar Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) Verifica-se que, em média, 91% dos domicílios possuem rede pública de água, sendo que três deles (Caieiras, Francisco Morato e Franco da Rocha) apresentam índices superiores à média. Outros três (Cajamar, Campo Limpo Paulsita e Várzea Paulista) apresentam índices abaixo da média. A diferença entre o maior índice de domicílios ligados à rede pública (Caieiras) e o menor (Cajamar) é de 9 pontos percentuais. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 133 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Rede de esgoto Tabela 2: Rede pública de esgoto Rede pública de esgoto Município Total Índice 13363 19006 0,70 4357 9278 13635 0,68 5675 10991 16666 0,66 24376 9447 33823 0,28 9179 16992 26171 0,65 Várzea Paulista 4253 20187 24440 0,83 Total 53483 80258 133741 0,60 Não Sim Caieiras 5643 Cajamar Campo Limpo Paulista Francisco Morato Franco da Rocha Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) Observa-se que os índices de domicílios ligados à rede geral de esgoto estão muito abaixo do que poderia ser considerado razoável, uma vez que a maioria já possui rede pública de água. Na melhor situação está o município de Várzea Paulista, com 83% dos domicílios servidos pela rede geral. Em contrapartida, o município de Francisco Morato possui apenas 28% dos domicílios ligados à rede, ou seja, em 72% dos domicílios a canalização é ligada a fossas sépticas, fossa rudimentar, vala, rio, etc. Rede pública de energia Tabela 3: Rede pública de energia Rede pública de energia Município Total Índice 18994 19039 1,00 31 13683 13714 1,00 83 16617 16700 1,00 165 33859 34024 1,00 Franco da Rocha 131 26094 26225 1,00 Várzea Paulista 52 24396 24448 1,00 Total 507 133643 134150 1,00 Não Sim 45 Cajamar Campo Limpo Paulista Francisco Morato Caieiras Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) Com relação à energia elétrica, observa-se que a situação é bastante satisfatória em quase todos os municípios, pois o índice médio de domicílios ligados 134 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 à rede é de aproximadamente 100%. Cumpre, no entanto, lembrar que se trata de energia elétrica, proveniente ou não de uma rede geral, com ou sem medidor ou relógio que registre o consumo exclusivo do domicílio. Geladeira ou freezer Tabela 4: Geladeira ou Freezer Geladeira ou freezer Município Total Índice 18348 19039 0,96 12820 13714 0,93 Não Sim Caieiras 691 Cajamar 894 Campo Limpo Paulista 624 16076 16700 0,96 Francisco Morato 2378 31646 34024 0,93 Franco da Rocha 1139 25087 26226 0,96 Várzea Paulista 731 23718 24449 0,97 6457 127695 134152 0,95 Total Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) Os valores elevados dos índices indicam que a maior parte dos domicílios possui geladeira ou freezer. O menor índice registrado se refere aos municípios de Cajamar e Francisco Morato (93%). Aparelho de tv Tabela 5: Aparelho de TV TV Município Total Índice 18018 19039 0,95 895 12819 13714 0,93 Campo Limpo Paulista 1208 15492 16700 0,93 Francisco Morato 3370 30653 34023 0,90 Franco da Rocha 1738 24488 26226 0,93 Não Sim Caieiras 1021 Cajamar Várzea Paulista Total 1820 22628 24448 0,93 10052 124098 134150 0,93 Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 135 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Como é de se esperar, os índices são muito parecidos com os anteriores, ou seja, 93% dos domicílios, em média, possuem pelo menos um aparelho de televisão. Microcomputador Tabela 6: Microcomputador Microcomputador Município Total Índice 2472 19039 0,13 12645 1069 13714 0,08 Campo Limpo Paulista 14498 2202 16700 0,13 Francisco Morato 32560 1464 34024 0,04 Franco da Rocha 24171 2055 26226 0,08 Várzea Paulista 22449 1999 24448 0,08 Total 122890 11261 134151 0,08 Não Sim Caieiras 16567 Cajamar Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) Verifica-se que o índice de domicílios que possuem microcomputadores é muito baixo (8% em média). A situação é crítica no município de Francisco Morato, onde apenas 4% dos domicílios dispõem desse equipamento. Automóvel Tabela 7: Automóvel Automóvel Município Total Índice 8418 19039 0,44 5095 13714 0,37 8780 7920 16700 0,47 Francisco Morato 26576 7448 34024 0,22 Franco da Rocha 16908 9318 26226 0,36 Várzea Paulista 12282 12166 24448 0,50 Total 83786 50365 134151 0,38 Não Sim Caieiras 10621 Cajamar 8619 Campo Limpo Paulista Fonte: Microdados do Censo 2000 (IBGE) 136 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Observa-se uma grande variabilidade em torno do índice médio (38%) de domicílios que possuem pelo menos um automóvel. A pior situação se refere ao município de Francisco Morato, onde apenas 22% possuem automóvel. Já no município de Várzea Paulista, em metade dos domicílios há pelo menos um veículo. 3. ÍNDICE DO NÍVEL DE VIDA (INV) A qualidade de vida dos indivíduos que residem no domicílio é medida a partir da disponibilidade de equipamentos que contribuem para a elevação do bem-estar individual e coletivo. Neste sentido, entende-se que os sete indicadores utilizados neste estudo permitem a construção de um índice geral, cujo objetivo é identificar a disponibilidade dos equipamentos em termos relativos. Ou seja, ao domicílio que dispõe de todos os equipamentos será atribuído índice igual a 1; para aqueles que não dispõem de nenhum dos equipamentos será atribuído índice igual a zero. 3.1 Sumário de dados para os diversos índices Para os oito níveis de índice (INV), a tabela 8 indica as freqüências absolutas e relativas dos municípios que participam do estudo. Tabela 8: Índice do Nível de Vida (INV) para municípios selecionados continua IN V Caieiras % Cajamar % Campo Limpo Paulista % 0,00 5 0,0 0 0,0 10 0,1 0,14 76 0,4 52 0,4 30 0,29 184 1,0 226 1,7 264 0,43 762 4,0 1204 8,8 1110 0,57 3442 18,1 2802 20,6 3362 0,71 7804 41,1 5622 41,2 5901 0,86 5130 27,0 3180 23,3 4451 1,00 1604 8,4 549 4,0 1537 Total 19007 100,0 13635 100,0 16665 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 0,2 1,6 6,7 20,2 35,4 26,7 9,2 100,0 137 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 INV Francisco Morato % Franco da Rocha % Várzea Paulista % Total % 0,00 27 0,1 54 0,2 8 0,0 104 0,1 0,14 135 0,4 148 0,6 64 0,3 505 0,4 0,29 830 2,5 283 1,1 246 1,0 2033 1,5 0,43 4267 12,6 1384 5,3 1224 5,0 9951 7,4 0,57 15633 46,2 6039 23,1 3593 14,7 34871 26,1 0,71 9741 28,8 11174 42,7 9364 38,3 49606 37,1 0,86 2696 8,0 5910 22,6 8435 34,5 29802 22,3 1,00 494 1,5 1179 4,5 1507 6,2 6870 5,1 Total 33823 100,0 26171 100,0 24441 100,0 133742 100,0 Os dados indicam uma maior concentração de domicílios entre os índices 0,57 e 0,86 para os municípios pesquisados. Ou seja, a maior parte dos domicílios possui entre 4 e 6 equipamentos, dentre os sete utilizados na pesquisa. 3.2 Índice médio do nível de vida Embora os dados desagregados forneçam informações relevantes sobre a concentração em determinadas faixas do índice, é necessário obter uma medida que sumarize o conjunto de informações, de tal forma que possa identificar as possíveis diferenças no nível de vida dos municípios selecionados. Para tanto, optouse pelo cálculo do índice médio e do desvio padrão ponderado. Os resultados são apresentados na tabela 9. 138 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Tabela 9: Índice médio e Desvio padrão Município Índice médio Desvio padrão Caieiras 0,73 0,15 C a j a m a r 0,69 0,15 C a m p o L i m p o Paulista 0,72 0,16 Francisco Morato 0,61 0,14 Franco da Rocha 0,70 0,15 Várzea Paulista 0,74 0,14 Total 0,69 0,15 Índice do Nível de Vida 0,8 0,7 0,6 0,5 0,4 0,3 0,2 0,1 0 Caieiras Cajamar Campo Limpo Paulista Índice Francisco Morato Franco da Rocha Várzea Paulista Desvio Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 139 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Verifica-se que o desvio padrão em torno dos índices médios, para os seis municípios, é aproximadamente o mesmo (15%). Por sua vez, os índices do nível de vida apresentam diferenças significativas; o município de Francisco Morato, que se encontra em pior situação, tem índice igual a 0,61. Ou seja, a maior parte dos domicílios possui 4 dentre os sete equipamentos selecionados. Em melhor situação encontra-se o município de Várzea Paulista com índice igual 0,74, em média, indicando que os domicílios possuem 5 dentre os sete equipamentos propostos. CONCLUSÃO A publicação pelo IBGE dos resultados finais do Censo 2000, constituiu-se numa importante fonte de informações para pesquisadores interessados em levantamentos demográficos e socioeconômicos da população brasileira. De posse das informações, foi necessário selecionar aquelas de interesse para o estudo, além de efetuar transformações que permitiram análises consistentes e conclusivas sobre os domicílios dos municípios. Para tanto, foi utilizado o Statistical Package for the Social Science (SPSS), que é considerado um dos melhores programas estatísticos para análise de dados. Neste estudo procurou-se levantar dados referentes a sete indicadores para um conjunto de seis municípios localizados na região de Jundiaí. A partir deles foi possível criar um índice do nível de vida de cada município, que indica o número de equipamentos disponibilizados nos domicílios. Com relação aos equipamentos: rede de água, rede de energia, geladeira e televisor, verifica-se a existência na maior parte dos domicílios (acima de 90%). No caso específico de rede de energia, praticamente 100% dos domicílios estão servidos. Apesar da rede de água estar presente na maior parte dos domicílios, o mesmo não ocorre com a rede de esgoto; ao contrário, o índice médio para o conjunto de municípios é baixo (60%), e a variabilidade é muito grande. O município de Francisco Morato, que está em pior situação, possui apenas 28% dos domicílios ligados à rede geral de esgoto. Em melhor situação encontra-se Várzea Paulista, com 83% dos domicílios ligados à rede geral. A existência de microcomputador no domicílio constitui-se num indicador importante de qualidade de vida, pois indica, provavelmente, que os residentes estão conectados com a rede mundial de computadores (Internet). No entanto, a situação é crítica neste item, pois apenas 8% (em média) dos domicílios dispõem deste equipamento. No caso de Francisco Morato, a situação é pior ainda, já que apenas 4% dos domicílios possuem microcomputador. No caso de automóvel, a melhor situação ocorre em Várzea Paulista, onde um em cada dois domicílios dispõe desse equipamento. Em pior situação, novamente está Francisco Morato, pois apenas um em cada cinco domicílios possui automóvel. O índice médio do nível de vida para o grupo de municípios ficou entre 0,61 (Francisco Morato) e 0,74 (Várzea Paulista), com desvio padrão em torno de 0,15. 140 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Estas estatísticas indicam que a maior parte dos domicílios possui entre 4 e 6 equipamentos dentre os sete utilizados na pesquisa. Ainda que se possa questionar a validade do indicador, devido ao pequeno número de variáveis utilizadas na sua construção, deve-se considerar que variáveis adicionais, provavelmente, mantêm relação causal com as que foram utilizadas na elaboração do índice, o que de certa forma valida as informações obtidas. REFERÊNCIAS BIBILIOGRÁFICAS CENSO DEMOGRÁFICO 2000. Questionário da Amostra: Microdados São Paulo Parte 2 e 3. Rio de Janeiro: IBGE, 2003. CD-ROM. INDICADORES SOCIAIS MUNICIPAIS. 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Ou seja, a maior parte dos domicílios possui 4 dentre os sete equipamentos selecionados. Em melhor situação encontra-se o município de Várzea Paulista com índice igual 0,74, em média, indicando que os domicílios possui 5 dentre os sete equipamentos propostos. CONCLUSÃO A publicação pelo IBGE dos resultados finais do Censo 2000, constituiu-se numa importante fonte de informações para pesquisadores interessados em levantamentos demográficos e socioeconômicos da população brasileira. De posse das informações, foi necessário selecionar aquelas de interesse para o estudo, além de efetuar transformações que permitiram análises consistentes e conclusivassobreosdomicíliosdosmunicípios.Paratanto,foiutilizad Statiscal oos Package for the Social Science (SPSS), que é considerado um dos melhores programas estatísticos para análise de dados. Neste estudo procurou-se levantar dados referentes a sete indicadores para um conjunto de seis municípios localizados na região de Jundiaí. A partir deles foi possível criar um índice do nível de vida de cada município, que indica o número de equipamentos disponibilizados nos domicílios. Com relação aos equipamentos: rede de água, rede de energia, geladeira e televisor, verificam-se a existência na maior parte dos domicílios (acima de 90%). No caso específico de rede de energia, praticamente 100% dos domicílios estão servidos. Apesar da rede de água estar presente na maior parte dos domicílios, o mesmo não ocorre com a rede de esgoto, muito pelo contrário, o índice médio para o conjunto de municípios é baixo (60%), e a variabilidade é muito grande. O município de Francisco Morato, que está em pior situação, possui apenas 28% dos domicílios ligados à rede geral de esgoto. Em melhor situação encontra-se Várzea Paulista, com 83% dos domicílios ligados à rede geral. A existência de microcomputador no domicílio constitui-se num indicador importante de qualidade de vida, pois indica, provavelmente, que os residentes estão conectados com a rede mundial de computadores (Internet). No entanto, a situação é crítica neste item, pois apenas 8% (em média) dos domicílios dispõem deste equipamento. No caso de Francisco Morato, a situação é pior ainda, já que apenas 4% dos domicílios possuem microcomputador. No caso de automóvel, a melhor situação ocorre em Várzea Paulista, onde um em cada dois domicílios dispõe desse equipamento. Em pior situação, novamente está Francisco Morato, pois apenas um em cada cinco domicílios possui automóvel. O Índice médio do nível de vida para o grupo de municípios ficou entre 0,61 (Francisco Morato) e 0,74 (Várzea Paulista), com desvio padrão em torno de 0,15. 142 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 Estas estatísticas indicam que a maior dos domicílios possuem entre 4 e 6 equipamentos dentre os sete utilizados na pesquisa. Ainda que se possa questionar a validade do indicador, devido ao pequeno número de variáveis utilizadas na sua construção, deve-se considerar que variáveis adicionais, provavelmente, mantêm relação causal com as que foram utilizados na elaboração do índice, o que de certa forma, valida as informações obtidas. REFERÊNCIAS BIBILIOGRÁFICAS CENSO DEMOGRÁFICO 2000. Questionário da Amostra: Microdados São Paulo Parte 2 e 3. Rio de Janeiro: IBGE, 2003. CD-ROM. INDICADORES SOCIAIS MUNICIPAIS. Uma análise dos Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000: Brasil e Grandes Regiões. Rio de Janeiro: IBGE, 2004. Acompanha CD-ROM. JANNUZZI,PaulodeM.Indicadores sociais no Brasil: conceitos, fontes de dados e aplicações de políticas públicas, elaboração de estudos econômicos. Campinas: Alínea, 2001. MAROCO, João. Análise Estatística: com utilização do SPSS. Lisboa: Edições Silabo, 2003. PESTANA, Maria Helena e GAGEIRO, João Nunes. Análise de dados para Ciências Sociais: A complementaridade do SPSS. Lisboa: Edições Silabo, 2003. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 143 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 144 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE ORIGINAIS 1. A revista ANÁLISE tem por finalidade a publicação de trabalhos e estudos referentes às áreas de Tecnologia, Economia, Ciências Contábeis e Administração, conforme apreciação de seu Conselho Editorial. Os conceitos, informações e pontos de vista contidos nos trabalhos são de exclusiva responsabilidade de seus autores. 2. Os trabalhos poderão ser elaborados na forma de artigos (inéditos), relatos de pesquisa ou experiência, pontos de vista, resenhas bibliográficas ou entrevistas. Quando se tratar de relato de pesquisa, deverá obedecer à seguinte organização: introdução, metodologia (sujeitos, material e procedimento), resultados, discussão, referências bibliográficas e anexos. 3. Os trabalhos deverão ser redigidos em programa Word for Windows , espaço duplo, fonte Times New Roman, tamanho 12, folha A4, com 2,5 cm de margem (esquerda, direita, superior e inferior). Os trabalhos deverão ter, no máximo, 20 páginas. 4. Um disquete 3,5” e duas cópias impressas (com conteúdo e formato idênticos) devem ser enviados à Secretaria da Faculdade de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração de Empresas Padre Anchieta, à av. Dr. Adoniro Ladeira, 94, CEP 13210-800, Jundiaí - SP. 5. A capa deverá conter, na seguinte seqüência, o título do trabalho, em parágrafo centralizado (TODAS AS LETRAS MAIÚSCULAS); abaixo do título, em parágrafo centralizado, o tipo de publicação (artigo, relato de pesquisa, resenha etc.); abaixo, em parágrafo justificado, deverá vir o sobrenome do autor (TODAS AS LETRAS MAIÚSCULAS), seguido do nome completo (separados por vírgulas), sua mais alta titulação acadêmica e atuação profissional, endereço completo, telefone e, se tiver, o endereço eletrônico. Para trabalhos com mais de um autor, os sobrenomes devem ser colocados em ordem alfabética ou apresentados conforme este critério: em primeiro lugar, aqueles que mais contribuíram para a execução do trabalho e, em seguida, os colaboradores. 6. A primeira página deverá conter, como cabeçalho, o título do trabalho, em parágrafo centralizado (TODAS AS LETRAS MAIÚSCULAS). Abaixo do título, em parágrafo alinhado à direita, deverá vir o nome completo do autor. A titulação acadêmica e a atuação profissional deverão vir em forma de nota de rodapé, inserida após o sobrenome. No caso de múltiplos autores, a ordem deve ser idêntica à da capa. Abaixo do cabeçalho, deverão vir o resumo do trabalho (máximo 20 linhas), cinco palavras-chave, abstract e key words. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 145 ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 7. Quadros, tabelas, fotos e figuras deverão ser devidamente identificados com numeração, títulos e legendas. 8. As citações indiretas deverão ser seguidas do sobrenome do(s) autor(es) (TODAS AS LETRAS MAIÚSCULAS) e ano da publicação, entre parênteses. Exemplo: (BOSSA, 1994) 9. As citações literais, de até três linhas, deverão ser apresentadas entre aspas duplas e estar acompanhadas da respectiva referência, incluindo-se a(s) página(s). Exemplo: (BOSSA, 1994, p. 32). As aspas simples são utilizadas para indicar citação no interior da citação. Se o nome do autor for mencionado fora da referência entre parênteses, devem ser usadas letras maiúsculas e minúsculas. Exemplo: Oliveira e Leonardos (1943, p. 146) dizem que a “[...] relação da série São Roque com os granitos porfiróides pequenos é muito clara.” 10. As citações literais com mais de três linhas deverão ser redigidas em parágrafo destacado, com 4 cm de recuo da margem esquerda, letra tipo Times New Roman, fonte 10, sem as aspas. Exemplo: A teleconferência permite ao indivíduo participar de um encontro nacional ou regional sem a necessidade de deixar seu local de origem. Tipos comuns de teleconferência incluem o uso da televisão, telefone, e computador. Através de áudio-conferência, utilizando a companhia local de telefone, um sinal de áudio pode ser emitido em um salão de qualquer dimensão. (NICHOLS, 1993, p. 181). 11. As citações indiretas de diversos documentos de vários autores, mencionados simultaneamente, devem ser separadas por ponto-e-vírgula, em ordem alfabética. Exemplo: Diversos autores salientam a importância do “acontecimento desencadeador” no início de um processo de aprendizagem (CROSS, 1984; KNOX, 1986; MEZIROW, 1991). 12. As referências bibliográficas, no final do texto, serão limitadas aos trabalhos realmente lidos e citados no corpo do trabalho, obedecendo ao seguinte padrão: sobrenome do autor (TODAS AS LETRAS MAIÚSCULAS), nome do autor, título completo da obra (em itálico), local de publicação e editora, ano de publicação; se a obra tiver dois ou três autores, os nomes devem ser separados por pontoe-vírgula, seguido de espaço; quando existirem mais de três autores, indica-se apenas o primeiro, acrescentando-se a expressão et al. Exemplos: CHEVALIER, Jean; GHEERBRANT, Alain. Dicionário de símbolos. Tradução Vera da Costa e Silva et al. 3. ed. rev. e aum. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1990. 146 Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta ANÁLISE - Ano VI - Nº 12 - Março/2006 ROMANO, Giovanni. Imagens da juventude na era moderna. In: LEVI, G.; SCHMIDT, J. (Org.). História dos jovens 2. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. p. 7-16. SANTOS, F. R. dos. A colonização da terra do Tucujús. In: ______. História do Amapá, 1o grau. 2. ed. Macapá: Valcan, 1994. cap. 3, p. 15-24. SEKEFF, Gisela. O emprego dos sonhos. Domingo, Rio de Janeiro, ano 26, n. 1344, p. 30-36, 3 fev. 2002. URANI, A. et al. Constituição de uma matriz de contabilidade social para o Brasil. Brasília, DF: IPEA, 1994. 13. O nome do autor de várias obras referenciadas sucessivamente, na mesma página, é substituído, nas referências seguintes à primeira, por um traço sublinear (equivalente a seis espaços) e ponto. Exemplos: VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1984. ______. Pensamento e linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 1989. 14. Referenciamento de material em meio eletrônico (disquete, CD-ROM, on line etc.): a) as referências devem ser acrescidas das informações relativas à descrição física do meio eletrônico. Exemplo: KOOGAN, André; HOUAISS, Antonio (Ed.). Enciclopédia e dicionário digital 98. Direção geral de André Koogan Breikmam. São Paulo: Delta: Estadão, 1998. 5 CDROM. b) quando se tratar de obras consultadas on line, são essenciais as informações sobre o endereço eletrônico, apresentado entre os sinais < >, precedido da expressão Disponível em: e a data de acesso ao documento, precedida da expressão Acesso em:, opcionalmente acrescida dos dados referentes a hora, minutos e segundos (NOTA: não se recomenda referenciar material eletrônico de curta duração nas redes). Exemplo: ALVES, Castro. Navio Negreiro. [S.I.]: Virtual Books, 2000. Disponível em: <http:/ /www.terra.com.br/virtualbooks/freebook/port/Lport2/navionegreiro.htm >. Acesso em: 10 jan. 2002. 16:30:30. 15. Estas normas passam a vigorar a partir do próximo número desta publicação. Revista das Faculdades de Tecnologia e de Ciências Econômicas, Contábeis e de Administração Padre Anchieta 147