ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 E ERA DANÇA OU NÃO: BREVIDADES SOBRE TEMPO E CRIAÇÃO1 Anderson Marcos da Silva (UFBA)* Orientadora: Adriana Bittencourt Machado (UFBA)** RESUMO: Neste artigo, pretende-se demonstrar a possibilidade de compreender os processos de criação em dança como exercícios sujeitos às instabilidades. A dança será apresentada como sistema que coevolui no tempo com a ciência, com a filosofia e demais campos do conhecimento, coparticipando na construção da realidade complexa. Estudos da física contemporânea e da semiótica estão imbricados no entendimento de que cada dança é realização de trânsitos sígnicos singulares entre corpo e ambiente e, portanto, é irreversível e imprevisível. Dança se faz no tempo. PALAVRAS-CHAVE: Dança. Tempo. Irreversibilidade. Processos de criação. IT WAS DANCE OR NOT: NOTES ABOUT TIME AND CREATION ABSTRACT: In this paper, we intend to demonstrate the possibility to understand the processes of creation in dance as exercise subject to instabilities. The dance will be presented as a system that evolves over time along with the science, philosophy and other fields of knowledge, participating in building an of the complex reality. Studies of contemporary physics and semiotics are intertwined with the understanding that each dance is performing singular signic transits between body and environment and therefore is irreversible and unpredictable. Dancing is made over time. KEYWORDS: Dance. Time. Irreversibility. Creation processes. 1 Este artigo integra uma investigação em andamento junto ao Programa de Pós-Graduação em Dança (PPGDANCA), na Escola de Dança da Universidade Federal da Bahia, em nível de Mestrado, sob a orientação da Professora Doutora Adriana Bittencourt Machado. 1 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 Introdução Uma possibilidade que se realiza como impulso para investigação: pensar a dança como existente em uma realidade complexa, formada por sistemas abertos em fluxo incessante, que coabita o mundo com a ciência, a filosofia, a política etc. – agente comunicativo que transforma os contextos em que se realiza. Cada dança, enquanto processo irreversível no tempo, pode desafiar as pré-determinações por ser fruto dos trânsitos sígnicos singulares entre corpo e ambiente. Enquanto sistema de signos, a dança pode ser pensada como agente na criação de sentidos acerca de seu próprio processo de feitura e participante na elaboração de saberes compartilhados junto a outros campos de conhecimento. A partir de uma compreensão sistêmica da realidade, pretende-se apontar as possíveis implicações estéticas e epistemológicas que se constituem no fazer de cada dança. Neste contexto, a discussão dos processos criativos que se pretende desenvolver vai ao encontro da proposta de Vieira (2000), que defende que a conceituação de sistema, construída com fundamentação ontológica, seria pertinente para os estudos acerca da alta complexidade dos sistemas culturais. A abordagem da Teoria Geral dos Sistemas proposta pelo físico e filósofo da ciência Mario Bunge e desenvolvida pelo Professor Jorge Vieira, Doutor em Comunicação e Semiótica, se caracteriza como uma oportunidade de articulação entre a filosofia e o pensamento científico – e também entre arte e ciência. Tal compreensão é possível a partir de uma identificação entre Ontologia e Metafísica, de modo que seja consolidado um substrato teórico para investigações sobre “[...] os traços genéricos de todo modo de ser e vir-a-ser, assim como as características peculiares da maior parte dos existentes.” (VIEIRA, 2000, p. 12). Em discussões acerca de temas como possibilidade, probabilidade e acaso, espaço, tempo e evolução, tal fundamentação demonstra sua fecundidade, fazendo emergir inovações científicas, filosóficas e, porque não dizer, artísticas. É do domínio ontológico, todo pensamento que se propõe em estudar os fundamentos, as características constituintes e distintivas de qualquer objeto ou agregado de objetos, e é nesse sentido que a Teoria Geral dos Sistemas é apresentada como uma possível ontologia científica. Quando fenômenos e objetos passam a ser pensados como 2 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 relativos a sistemas, tensões, negociações e tudo o que acontece entre, ganha relevância para a melhor compreensão da realidade – como em uma dança que se faz de processos coevolutivos, transformando-se e impulsionando transformações – nos corpos, no ambiente, em outras danças – em um processo irreversível. “Em resumo, é esta a vida, é o tempo que se inscreve na matéria, e isto vale não só para a vida, mas também para a obra de arte.” (PRIGOGINE, 2008, p. 30). Um sistema2 se configura como um agregado de elementos cuja singularidade de relações permite a emergência de propriedades partilhadas. A partir de uma articulação com o conceito de signo, desenvolvido por Charles Sanders Peirce (2010), cientista e lógico fundador da semiótica, a compreensão de sistema pode ser expandida. A capacidade de mediação, inerente aos signos, impulsiona os fluxos entre áreas distintas do conhecimento que compõem a realidade sistêmica, de maneira “[...] que a conectividade entre os seus subsistemas, com o consequente transporte de informação, gera a condição de que cada subsistema é mediado ou vem a mediar outros, comportando-se como signo [...]”. (VIEIRA, 2000, p. 14). Dança pode ser pensada, portanto, como um sistema em que corpos e ambientes se articulam no fluxo incessante dos signos – dança é emergência. Desse modo, podem ser desfeitas as crenças de que há corpos universais e ambientes neutros, pois, cada obra se estrutura a partir de negociações singulares. Dança não é uma soma simples de seus elementos constituintes, é fruto de propriedades compartilhadas e, portanto, não existe separada das relações que se estabelecem em cada contexto, está inscrita no fluxo no tempo. E era dança ou não – porque dança só é quando acontece. Para repensar o tempo: calor As discussões sobre as relações singulares que se estabelecem entre sistemas (físicos, químicos, biológicos, sígnicos etc.) e sobre as transformações incessantes do contexto por eles compartilhado, só são possíveis a partir das redefinições no pensamento científico, de uma busca de alternativas à estrutura do conhecimento 2 “[...] um agregado de coisas (qualquer que seja a natureza) será um sistema quando por definição tiver um conjunto de relações entre os elementos do agregado de tal forma que venham a partilhar propriedades.” (VIEIRA, 2000, p. 14). 3 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 clássico. Os estudos acerca das singularidades dos processos físicos, químicos e biológicos – que foram fundamentais para a construção do entendimento de uma realidade complexa, formada por sistemas abertos e cujas leis são instituídas no decorrer de sua existência – remetem a Jean-Joseph Fourier, matemático e físico francês, responsável pelo desenvolvimento da Teoria analítica do calor, publicada em 1922, quando ficou evidente a possibilidade de uma teoria física rigorosa, matematicamente estruturada, mas distante dos conceitos deterministas da física clássica. Pontos de vista antagônicos passam a coexistir na física matemática: a gravitação age na matéria “[...] inerte que a sofre sem ser afetada de outra maneira que não seja pelo movimento que recebe ou transmite; o calor transforma a matéria, determina mudanças de estado [...].” (PRIGOGINE; STENGERS, 1991, p. 84). As mudanças de estado impostas à matéria pela ação do motor térmico indicam a produção de movimento, um fenômeno que não poderia ser explicado pelos cálculos da transmissão de movimento que caracteriza as máquinas simples. Para que a produção de movimento tivesse continuidade, no entanto, era necessário um processo inverso que reestabelecesse as condições iniciais de volume, temperatura e pressão: para continuar produzindo movimento através do calor, o sistema precisava passar por um resfriamento. Configurase assim o problema do rendimento das máquinas térmicas, relação entre o trabalho produzido e o calor necessário para a realização dos dois processos. A não equivalência entre conservação de energia e a reversibilidade, problemática que impulsionou os primeiros estudos da termodinâmica, recebeu a atenção do físico e matemático alemão Rudolf Clausius. A explicação desenvolvida para a existência de processos que conservam energia, mas que não são reversíveis, como diversas reações físico-químicas, foi estruturada a partir do conceito de entropia. A introdução de uma função de estado que, tal qual a energia, depende apenas dos valores dos parâmetros de descrição do estado do sistema (pressão, volume, temperatura e quantidade de calor), parecia pertinente para o cálculo da diferença entre a conservação, fluxos úteis, e a dissipação, fluxos perdidos, em cada ciclo. A diferença entre o sistema térmico ideal, sem dissipação de energia, e os sistemas reais caracteriza a indeterminação dos processos termodinâmicos. A entropia, embora associada às ideias de degradação e de morte, indica a possibilidade de evolução 4 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 espontânea, cria a flecha do tempo que orienta quase todos os fenômenos, “[...] quer se trate da termodinâmica, da química ou da biologia. Independentemente da direção para onde nos voltemos, o objeto ao qual nos referimos exprime a diferença entre passado e futuro.” (PRIGOGINE, 2009, p. 53). Para os sistemas em equilíbrio ou perto do equilíbrio, as instabilidades não modificam efetivamente a estrutura e a organização dos sistemas que, para a manutenção de suas existências, logo reestabelecem seu comportamento padrão. Os estados experimentados pelos sistemas em equilíbrio podem ser descritos por equações matemáticas, ou seja, seguem as determinações das leis da física clássica. Os processos naturais observados no cotidiano, no entanto, não corroboram com a ideia de uma natureza determinada. Quase tudo que se pode ver – e viver – acontece na distância do equilíbrio. “Ao passo que, no equilíbrio e perto do equilíbrio, as leis são universais, longe do equilíbrio elas se tornam específicas, dependem do tipo de processos irreversíveis.” (PRIGOGINE, 2011, pp. 70-71). A irreversibilidade do tempo, portanto, ratifica que as atividades criativas humanas não são estranhas à natureza, mas, sim, procedimentos de ampliação e intensificação de traços já presentes no mundo físico (PRIGOGINE, 2011). E, a partir daí, “[...] em todos os campos se descobre o caráter essencial do tempo: evoluções das formações geológicas, das espécies, das sociedades, da moral, do gosto, das linguagens.” (PRIGOGINE; STENGERS, 1991, p. 94). Os estudos sobre o calor e a criação de movimento criam a flecha do tempo, ratificam cientificamente a experiência cotidiana de que o tempo não volta. Outras formas de pensar o mundo que podem frutificar em novas possibilidades de fazer dança. Podemos dizer que a dança se constrói a partir de relações entre corpos e ambiente, em um tempo que não volta. São as propriedades partilhadas que emergem nas atividades auto-organizativas de cada sistema que o definem como tal, criam sua particularidade – e é pertinente esclarecer que tais características desapareceriam se este fosse reduzido às suas partes. Desse modo, a existência de cada dança se processa na (auto-)organização das relações singulares, localizadas – cada movimento de dança só acontece por meio das negociações entre a estrutura de cada corpo, seu repertório de ações, condições físicas do ambiente e informações que fluem no contexto de sua 5 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 realização. É a ação (auto-)organizativa que consolida as possíveis articulações entre as informações que compõem o sistema e seus fluxos com o ambiente. A complexidade, parâmetro evolutivo presente em níveis diferentes em cada configuração sistêmica, está também implicado com a emergência de propriedades partilhadas na constituição de cada sistema. A evolução se processa em ganhos de complexidade através de estratégias adaptativas, o que permite a expansão do repertório de informações e o aumento da sensibilidade e da seletividade para futuras trocas. A organização, configuração estruturante de um sistema, seria, portanto, uma resultante das funções e conexões singulares e temporárias realizadas por cada um dos subsistemas existentes – na dança, os corpos, os diversos modos de mover, os ambientes de apresentação etc.. A dança se faz entre, pois, são as instabilidades que impulsionam as trocas de energia, matéria e informação entre diferentes subsistemas que a constituem – corpos e ambientes singulares, repertórios de ações codificadas, práticas de criação de movimento etc. –, coadaptações que se configuram como estratégias para a construção de metaestabilidades que permitem sua permanência no tempo. A continuidade de uma dança implica em sua transformação, pois, é a heterogeneidade compartilhada entre os diversos sistemas que impulsiona sua coevolução. “A permanência está na capacidade de ser criativo, não apenas na busca do novo, mas principalmente nas soluções produzidas de sobrevivência, o que aponta para um tipo de novidade.” (BITTENCOURT, 2001, p. 35). Criação em dança como exercício de desequilíbrio A dança, como expõe Bittencourt (2012), é fruto de regularidades e dissipações e, desse modo, não pode ser repetida com perfeição, somente reorganizada. Não há equivalência entre passado e futuro, de modo que cada movimento decorre de incessantes negociações e está sujeito ao acaso. A irreversibilidade do tempo se inscreve no acontecimento de cada dança. Nos sistemas de signos – as linguagens – as instabilidades e os fluxos também impulsionam sua evolução. Tendo em vista este processo de constante adaptação, a impossibilidade de comunicação pode se apresentar em dois casos: na extrema previsibilidade da mensagem, caracterizada por alto nível de 6 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 redundância; ou na imprevisibilidade total, quando o grau de informações novas é tão elevado que não se processa a decodificação. Os processos de codificação da informação – criação de modelos de organização de movimentos, de palavras, de sons etc. –, como expõe Bittencourt (2001), se constituem em uma possibilidade de permanência3 para os sistemas. As estratégias de formulação e replicação de padrões, porém, também podem levar um sistema à desestruturação se a mensagem expressa não for reconhecida. Desse modo, através de sua atividade (auto-)organizativa, os sistemas (corpos, danças etc.) experimentam diferentes gradações de regularidades e de dissipações em sua configuração, de modo que seja criada uma coesão interna, mas que tal fato se dê junto a uma renovação das capacidades comunicativas através de uma diversidade que gere complexidade. Tais características podem aproximar os processos de criação em dança da noção não teleológica de sistema apresentada por Vieira (2000), pois as propriedades emergentes que definirão a existência de cada configuração sistêmica – cada dança – serão fruto das relações entre os diversos corpos e códigos envolvidos, de negociações temporárias que podem criar conexões e coerências singulares, situação que desafia os parâmetros institucionalizados da arte e da estética. Cada dança pode, desse modo, criar a sua estrutura e seu sentido de maneira simultânea, pois “[...] se distingue exatamente por não ser uma fala sobre algo fora da fala, mas por inventar o modo de dizer, ou seja, inventar a própria fala de acordo com aquilo que está sendo falado.” (SETENTA, 2008, p. 17). Uma dança que se faz no desequilíbrio, nos fluxos sígnicos temporários e localizados entre corpo e ambiente. Em geral, nos processos tradicionais de criação se busca a constituição de uma obra cuja validação esteja associada ao seu grau de conservação em relação ao modelo, fato que a torna mais coesa e menos susceptível a variações aleatórias. As configurações que se aproximam da noção de acontecimento, no entanto, vão ao encontro das instabilidades. A repetição, entendida como meio para se alcançar o movimento perfeito, é ressignificada através da impossibilidade de reversão temporal e, não havendo modelo, 3 Para uma compreensão mais abrangente da permanência como parâmetro sistêmico e suas relações com a dança, consultar a dissertação de mestrado de Adriana Bittencourt, A natureza da Permanência: processos comunicativos complexos e a dança, que consta nas referências deste artigo. 7 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 as características poéticas da obra serão definidas no processo, pois “[...] o corpo, ao se auto-organizar, apresenta sempre outras possibilidades. Soluções exigem organizações singulares, não se repetem. Afinal, ações não dão ré, e o tempo não volta atrás.” (BITTENCOURT, 2012, p. 84). O desequilíbrio se torna fator compositivo, pois são as novas possibilidades de existência que emergem diante das flutuações, que criam novas coerências entre os corpos e seus repertórios de signos. Nestes casos, é a distância crítica do equilíbrio, que possibilita a existência da obra. A partir de diversas tensões entre as necessidades que precisam ser satisfeitas para a permanência e as possibilidades que se apresentam aleatoriamente é que se desenvolvem os processos evolutivos. “Assim, a dança é livre, pois na origem, é atributo do acaso. E nasce sem fronteiras, rumo à complexidade do pensamento do corpo e aos „passos‟ que constituem sua existência.” (BITTENCOURT, 2001, p. 85). Cada acontecimento se constitui como uma realização da incerteza no tempo. Algo acontece quando um sistema se auto-organiza diante de uma flutuação. Em cada acontecimento é criada uma nova estrutura, cujas coerências decorrem de acordos entre as necessidades do sistema e a aleatoriedade dos processos naturais. Dança acontece. São os acontecimentos que evidenciam as diferenças entre o passado e o futuro. Associados à incerteza, são pontos de fuga para os determinismos – econômicos, sociais, políticos, científicos, estéticos etc. – pois fazem emergir possibilidades que superam o provável. Um acontecimento não tem autor porque não pode ser definido através dos parâmetros hegemônicos da teoria da arte – é fruto de flutuações, de instabilidades compartilhadas pelos sistemas e produz resultantes imprevisíveis. Quando uma dança é pensada como um acontecimento, podem ser evidenciadas as relações que se estabelecem entre os corpos e, através dos fluxos de informação no ambiente, os repertórios podem ser atualizados – surgem novas possibilidades de movimento e novas sensibilidades para leitura de acontecimentos artísticos etc. Os corpos que dançam, os que assistem à dança e o ambiente podem alcançar novos níveis de complexidade com as conexões que emergem na ação. Considerações finais 8 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 Dança é sistema que se transforma para permanecer no tempo, possibilidade que se realiza na incerteza da existência. Cada dança se constrói no fluxo irreversível entre matéria e signos, articulação singular entre natureza e cultura. Apesar dos modelos, conjuntos de relações determinadas a priori, as coerências entre os diversos corpostextos envolvidos sempre serão fruto de negociações temporárias – cada vez que uma dança acontece, cria-se um novo sentido. Cada dança se faz a partir de diversas tensões entre as necessidades que precisam ser satisfeitas para a sua permanência e as possibilidades que se apresentam aleatoriamente no tempo irreversível. Diante disso, podemos dizer que a noção de autoria se redefine, deixando de ser sinônimo de uma ação de controle do artista sobre a obra. Cada corpo age sobre a obra, escolhe em seu repertório de informações aquelas que serão transformadas em dança. O processo de criação, por sua vez, age em cada corpo, fazendo emergir novas conexões entre as informações pré-existentes, criando novas formas de dançar. Por mais racionalizáveis que sejam as escolhas assumidas no processo, por mais específicos que sejam seus parâmetros, a obra sempre escapa ao controle do autor. Abdicar das certezas e dos modelos pré-estabelecidos transforma os processos de criação em dança em oportunidades de exercício de desequilíbrio, faz da instabilidade uma estratégia de composição – e cada escolha é irreversível, pois o tempo não para e nem volta. Corpo, ambiente e tempo: trânsitos de signos em (des)acordo, que podem se transformar em dança – ou não. Referências BITTENCOURT, Adriana. Imagens como acontecimentos: dispositivos do corpo, dispositivos da dança. Salvador: Edufba, 2012. BITTENCOURT, Adriana. A natureza da permanência: processos comunicativos complexos e a dança. 2001. 113 f. Dissertação (Mestrado em Comunicação e Semiótica) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo. 2001. PEIRCE, Charles Sanders. Semiótica. Trad. José Teixeira Coelho Netto. 4. ed. São Paulo: Perspectiva, 2010. PRIGOGINE, Ilya. O fim das certezas – tempo, caos e as leis da natureza. 2. ed. São Paulo: Editora Unesp, 2011. 9 http://www.portalanda.org.br/anais ANAIS DO III CONGRESSO NACIONAL DE PESQUISADORES EM DANÇA Comitê Dança em Configurações Estéticas – Setembro/2014 PRIGOGINE, Ilya. O futuro está dado? In: CARVALHO, Edgard de Assis; ALMEIDA, Maria da Conceição de (Orgs.). Ciência, razão e Paixão. 2. ed. São Paulo: Editora Livraria da Física, 2009. PRIGOGINE, Ilya. O nascimento do tempo. Trad. Marcelina Amaral. 2. ed. Lisboa: Edições 70, 2008. PRIGOGINE, Ilya; STENGERS, Isabelle. A nova aliança – metamorfose da ciência. Trads. Miguel Faria e Maria Joaquina M. Trincheira. Brasília: Universidade de Brasília, 1991. SETENTA, Jussara. O fazer-dizer do corpo: dança e performatividade. Salvador: Edufba, 2008. VIEIRA, Jorge Albuquerque. Organização e sistemas. (2000). Informática na educação: teoria e prática. v. 3, p. 11-24, 2000. * Bacharel em Arte e Mídia pela Universidade Federal de Campina Grande. Mestrando no Programa de Pósgraduação em Dança da Universidade Federal da Bahia, onde é membro do Grupo de Pesquisa Laboratório Co-adaptativo. Bolsista Capes. E-mail: [email protected]. ** Licenciatura em dança pela Universidade Federal da Bahia, Especialização em Coreografia pela mesma instituição. Mestrado e Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. Professora da Escola de dança da Universidade Federal da Bahia, Graduação e do Programa de Pós-Graduação em Dança, mestrado (PPGDANCA). E-mail: [email protected]. 10 http://www.portalanda.org.br/anais