Universidade Estadual de Londrina Pró-Reitoria de Graduação Diretoria de Apoio à Ação Pedagógica Anais do IV SIES Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Organizadoras Ingrid Caroline de Oliveira Ausec Ednéia Aparecida Peres Hayashi Dirce Missae Suzuki Londrina 2014 Universidade Estadual de Londrina Pró-Reitoria de Graduação Diretoria de Apoio à Ação Pedagógica COMISSÃO ORGANIZADORA DO EVENTO Coordenação Psicóloga Ms. Ingrid Caroline de Oliveira Ausec (PROGRAD) Profa. Dra. Karen Ribeiro (EDU) Comissão Executiva Ms. Gino Marzio Ciriello Mazzetto (PROGRAD) Bibliotecária Dirce Missae Suzuki (Bib. Setorial da COU) Profa. Dra. Edneia Aparecida Peres Hayashi (PGAC) Pedagoga Esp. Eliane Fátima Guimarães de Oliveira (PROGRAD) Comissão de Apoio Bruno Guerra - graduando Psicologia UEL (coordenador) Gustavo Chagas - graduando Psicologia UEL Gabriela Drews - graduanda Psicologia UEL Jéssica Faganello - graduanda Psicologia UEL Ana Paula Shinaide - graduanda Psicologia UEL Danielle Brizola Alves - Estagiário PROGRAD Pascoal Joaquim Julio - Estagiário PROGRAD Comissão Científica Profa. Dra. Edneia Aparecida Peres Hayashi (PGAC) Profa. Dra. Karen Ribeiro (EDU) Universidade Estadual de Londrina Pró-Reitoria de Graduação Diretoria de Apoio à Ação Pedagógica Apoiadores do Evento PROGRAD - Pró- Reitoria de Graduação PROEX- Pró-Reitoria de Extensão PARFOR - Plano Nacional de Formação de Professores GEPE - Grupo de Estudos de Práticas de Ensino Congresso Brasileiro Multidisciplinar de Educação Especial Biblioteca Central Entre passos - Cia de Dança Floricultura Shangri-la Itamaraty Universidade Estadual de Londrina Pró-Reitoria de Graduação Diretoria de Apoio à Ação Pedagógica Os textos apresentados são de criação original dos autores, que responderão individualmente por seus conteúdos ou por eventuais impugnações de direito por parte de terceiros. É autorizada a livre circulação dos conteúdos desta página em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, desde que citada a fonte. Universidade Estadual de Londrina Pró-Reitoria de Graduação Diretoria de Apoio à Ação Pedagógica SUMÁRIO REPENSANDO A FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO: UM ENSAIO TEÓRICO PARA REFLETIR A QUALIDADE DO ATENDIMENTO E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS A USUÁRIOS COM DEFICIÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR 05 CONCEPÇÕES DE VIGOTSKI E A EDUCAÇÃO DE SURDOS 16 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA ACESSO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA AO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO 26 A INSERÇÃO DE SURDOS NO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO 38 ENSAIOS DA PROPOSTA DE CONSTRUÇÃO COLETIVA DAS POLÍTICAS DE INCLUSÃO NO INSTITUTO FEDERAL DE MINAS GERAIS – IFMG 47 PERCEPÇÕES DE DOCENTES E DISCENTES EM RELAÇÃO À INCLUSÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA NA EDUCAÇÃO SUPERIOR DA EDUCAÇÃO INICIAL AO ENSINO SUPERIOR: (RE)PENSANDO A FORMAÇÃO DE PROFESSORES DE LÍNGUA INGLESA PARA A INCLUSÃO/INTEGRAÇÃO DE ALUNOS COM TGD 57 71 DOS SABERES DOCENTES À FORMAÇÃO CONTINUADA: A EDUCAÇÃO ESPECIAL NO ENSINO DE GEOGRAFIA 79 O ATENDIMENTO AO DEFICIENTE EM CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA 95 ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS NO ENSINO SUPERIOR: CONSTRUINDO ESTRATÉGIAS INCLUSIVAS 105 PROPOSTA DE ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO PARA ESTUDANTES COM ALTAS HABILIDADES/ SUPERDOTAÇÃO NA UEL 114 DA ORALIZAÇÃO OBRIGATÓRIA À ACEITAÇÃO DO SER SURDO 125 INCLUSÃO NO ENSINO SUPERIOR 135 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 REPENSANDO A FORMAÇÃO DO BIBLIOTECÁRIO: UM ENSAIO TEÓRICO PARA REFLETIR A QUALIDADE DO ATENDIMENTO E PRESTAÇÃO DE SERVIÇOS A USUÁRIOS COM DEFICIÊNCIA NO ENSINO SUPERIOR Michelle Karina Assunção Costa1 Cesar Dos Santos Moreira2 Introdução A atual sociedade globalizada e fortemente marcada pelas tecnologias da informação e da comunicação (TIC) impõe desafios a todos os setores que a compõe, inclusive ao sistema educacional brasileiro em todos os níveis, do ensino fundamental ao superior. Sendo assim, demandará por novas competências, habilidades e atitudes dos profissionais que nele atua, principalmente dos bibliotecários, visto a gama de informações produzidas diariamente e as diferentes tecnologias para seu tratamento e controle, o que afeta diretamente sua atuação. Mas, a questão social é outro ponto que passa por mudanças, a diversidade de pessoas presentes no ensino superior nos chama atenção devido as suas particularidades, seu comportamento, suas necessidades informacionais, dentre outros aspectos. Esses primeiros apontamentos reforçam a necessidade de atenção à formação continuada do profissional bibliotecário, já que se relacionar com um público cada vez mais exigente e com características e necessidades bem diferentes é uma realidade atual, o que consequentemente, demandará na criação de novos produtos e serviços acessíveis nas bibliotecas universitárias. Ao longo das leituras sobre a temática da inclusão e acessibilidade, constata-se que as universidades federais brasileiras têm recebido uma diversidade de alunos, dentre os quais, alguns possuem necessidades 1 Mestranda em Ciência da Informação, Universidade Federal de Minas Gerais. Especialista em Gestão de Pessoas (FATEC-BH) e Administração de Sistemas de Informação (UFLA). Bibliotecária, Universidade Federal de Ouro Preto. Rua Hernestina L. de Oliveira, 267. Conj. Cristina B, Santa Luzia/MG. CEP: 3311-600. E-mail: [email protected] 2 Especialização em Gestão Escolar (UFOP) e Educação a Distância (SENAC MG). Bibliotecário, Instituto Federal de Minas Gerais. Rua Augusto Franco, 671, apto 1005. São João Batista, Belo Horizonte/ MG. CEP 31515-240. E-mail: [email protected] 5 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 educacionais diferenciado, especiais nas capacitados e especiais (NEE), que demandam por um acolhimento por mais mobilidade, por equipamentos e instalações instituições de ensino superior, bem como por profissionais conscientes da diversidade. Sabendo que, a universidade é um espaço onde há a criação, transferência e aplicação de conhecimentos e onde ocorre a formação e a capacitação de indivíduos, possuindo assim, um importante papel a cumprir, principalmente social, na sociedade, questiona-se: na formação do bibliotecário brasileiro a matriz curricular dos cursos de biblioteconomia abarca assuntos como inclusão e acessibilidade? A partir do momento que alunos com deficiência estão presentes nas universidades brasileiras, as bibliotecas universitárias, que representam um campo grande de trabalho do bibliotecário, são afetadas diretamente. Vale dizer que este novo cenário refletirá na exigência de um profissional qualificado e com conhecimentos específicos para o atendimento desse público. Destacamos o quão importante é o contato e o relacionamento do bibliotecário com seus usuários, seja ele qual for. Por meio de uma biblioteca acessível e com um profissional capacitado, o processo ensino/aprendizagem se efetivará por completo, pois, contribuirá diretamente para a formação dos alunos com NEE e, posteriormente, com sua inserção no mercado de trabalho, visto que encontrar uma universidade e profissionais (bibliotecários) que preocupam com o seu desenvolvimento acadêmico e pessoal, possibilita aos alunos com deficiência conseguirem concluir com êxito seus estudos. Assim, este ensaio tem como objetivo contribuir com as discussões acerca da formação continuada do bibliotecário, visando-se à eliminação de barreiras que impeçam os alunos com deficiência de conviverem e utilizarem todos os espaços da universidade, principalmente das bibliotecas, bem como seus recursos e seus serviços. Método 6 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Realizou-se uma pesquisa bibliográfica sobre o tema central e seus desdobramentos, a fim de possibilitar um entendimento da temática, bem como uma consulta às matrizes curriculares dos cursos de duas instituições, uma pública e outra privada, que oferecem o curso de Biblioteconomia em Minas Gerais (MG). Com o intuito de comparar essas informações com as de outras instituições de ensino que também oferecem o curso em questão, optou-se pelo Estado de São Paulo (SP) por possuir um número expressivo de instituições (10, entre públicas e privadas) que formam bibliotecários no país. Resultado As instituições de ensino superior que ofertam o curso de Biblioteconomia em MG são: Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) – cidade de Belo Horizonte e o Centro Universitário de Formiga (UNIFOR-MG) – cidade de Formiga. Em SP pode-se citar: Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESP), Universidade de São Paulo (USP), Centro Universitário Assunção (UNIFAI) - capital do Estado; Universidade de São Paulo (USP) – campus Ribeirão Preto; Faculdades Integradas Teresa D'Ávila (FATEA) – cidade de Lorena; Faculdades Integradas Coração de Jesus (FAINC) – cidade de Santo André; Pontifícia Universidade Católica de Campinas (PUCCAMPINAS) – cidade de Campinas; Universidade Estadual Paulista (UNESP) – cidade de Marília; Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) – cidade de São Carlos, e; Instituto Manchester Paulista De Ensino Superior (IMAPES) – cidade de Sorocaba. Escolhidas as instituições de ensino, procedeu-se à averiguação da disponibilidade das matrizes curriculares no sítio das mesmas. Em MG, ambas as instituições disponibilizaram as matrizes de seus cursos de Biblioteconomia em resposta ao pedido via e-mail. Já em SP, apenas o Instituto Manchester Paulista de Ensino Superior (IMAPES), localizado na cidade de Sorocaba, não possui matriz curricular disponível no sítio institucional. Então, com o intuito de saber se alguma dessas instituições oferta disciplinas voltadas para a temática “inclusão e acessibilidade”, apenas as instituições de MG possuem na matriz curricular dos seus cursos uma disciplina que aborda a temática. Já em SP, nenhuma das instituições analisadas oferta disciplinas acerca da temática citada. 7 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Na Escola de Ciência da Informação da UFMG, a disciplina Fundamentos de LIBRAS foi incluída na matriz curricular do curso como disciplina optativa, tendo a mesma sido ofertada pela primeira vez em 2013/1. O mesmo ocorre na UNIFOR-MG, com a disciplina optativa de LIBRAS que passou a fazer parte da matriz curricular no ano de 2006, sendo oferecida no 8º período. Entretanto, entre as nove instituições de SP que disponibilizam as matrizes curriculares dos cursos de Biblioteconomia, apenas a UNIFAI, na capital, faz menção à oferta da disciplina de LIBRAS aos seus alunos. A disciplina em questão é ofertada como disciplina opcional a quem desejar se matricular, independente do curso, não fazendo parte propriamente da grade curricular (obrigatória ou optativa) do curso de Biblioteconomia. Já na UNESP, a disciplina de LIBRAS é ofertada como optativa no curso de Pedagogia, podendo ser aproveitada no curso de Biblioteconomia, também como disciplina optativa. Analisando os estudos já realizados, percebe-se que a prática de uma sociedade inclusiva e, consequentemente, de bibliotecas universitárias acessíveis ainda está longe de ser uma realidade efetiva. Ainda são poucas as instituições que possuem núcleos de acessibilidade e que contam na sua equipe com um profissional bibliotecário capacitado para essa demanda. Muitos bibliotecários não sabem que estas pessoas “existem” nas unidades na qual trabalham. Falta comunicação entre os diversos setores da universidade e as bibliotecas (sejam elas centrais e/ou setoriais), onde estas deveriam ser comunicadas sobre os estudantes deficientes assim que estes se matriculam nos cursos, para que as mesmas possam se preparar e/ou se adaptar para recebê-los. Assim, devido à ausência de comunicação mais estreita por parte do setor responsável pelo primeiro acolhimento dos alunos deficientes (especialmente a coordenação pedagógica) com os demais setores da universidade, principalmente, com as bibliotecas, setor responsável pelo suporte informacional a todos os usuários (alunos, funcionários, professores, comunidade, etc.), não há um trabalho de sensibilização para recepção correta destes universitários, o que dificulta a interação e comunicação com os mesmos. 8 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Outro aspecto evidenciado é a falta de capacitação ofertada pela universidade para preparar os bibliotecários para atendimento a este público. Ações de acessibilidade devem ser implementadas em todas as suas dimensões nas bibliotecas universitárias e, o bibliotecário deve se apropriar e participar efetivamente dos espaços, bem como dos núcleos e dos centros de inclusão nas universidades. É preciso ficar claro que as pessoas são diferentes e têm necessidades distintas. Dessa maneira será possível eliminar as barreiras arquitetônicas, comunicacional, metodológica, instrumental, programática, educacional e atitudinal nas bibliotecas e nos ambientes das universidades federais brasileiras. Discussão Para podermos refletir sobre a formação do bibliotecário e sua relação com os usuários com NEE, o presente ensaio está alicerçado em três eixos: na legislação brasileira que dá condições para o acolhimento, recebimento e permanência dos estudantes com deficiência no ensino superior e para a garantia de seus direitos na sociedade; no discurso da sociedade inclusiva e, no compromisso social do profissional bibliotecário. No que se refere à legislação, mencionamos: a) o decreto nº 7.611/2011 dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências; b) Portaria 3284/2003 - dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências, para instruir os processos de autorização e de reconhecimento de cursos, e de credenciamento de instituições; c) Lei nº 10.436/2002 - dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências; d) Decreto nº 3. 298/1999 - dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências; e) Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Lei nº 9.394/1996 - estabelece as diretrizes e bases da educação nacional; dentre outras. Uma questão que deve ser destacada é a expressão correta que deve ser empregada ao nos referirmos a estas pessoas. O correto é pessoa com deficiência, e não portador de deficiência de acordo com a obra “Terminologia sobre deficiência na era da inclusão” (2002, p.7). 9 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 A Organização das Nações Unidas (ONU) foi a primeira a difundir a expressão “sociedade para todos” no ano de 1990, sendo registrada na resolução 45/91 da Assembleia Geral das Nações Unidas. E seus documentos constantemente recordavam sobre a meta para a criação de uma sociedade para todos (sociedade inclusiva) no prazo de cerca de 20 anos (1991-2010). Como perante a lei somos todos iguais, é direito de qualquer pessoa (seja ela “normal ou especial”) participar de todos os espaços sociais, principalmente, quando se trata da educação, direito básico e fundamental para participação igualitária nos diversos contextos sociais. Assim, é dever do Estado à garantia desse direito e sua proteção contra qualquer forma de discriminação. Tal fato obriga o Estado a editar normas para resguardar a observância a esse direito tão fundamental, porém, a lei por si só não garante a efetivação desse direito, o que também obriga o Estado à função de fiscalizar o cumprimento desse direito. Acerca do direito à educação e do dever de educar, o Art. 4º, parágrafo 3 da Lei nº 9.394/96 estabelece que é dever do Estado o “atendimento educacional especializado gratuito aos educandos com necessidades especiais, preferencialmente na rede regular de ensino.” Também complementa com o Art. 59, quando diz os sistemas de ensino devem assegurar aos educandos com necessidades especiais: I - currículos, métodos, técnicas, recursos educativos e organização específicos, para atender às suas necessidades; II - terminalidade específica para aqueles que não puderem atingir o nível exigido para a conclusão do ensino fundamental, em virtude de suas deficiências, e aceleração para concluir em menor tempo o programa escolar para os superdotados; III professores com especialização adequada em nível médio ou superior, para atendimento especializado, bem como professores do ensino regular capacitados para a integração desses educandos nas classes comuns; IV - educação especial para o trabalho, visando a sua efetiva integração na vida em sociedade, inclusive condições adequadas para os que não revelarem capacidade de inserção no trabalho 10 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 competitivo, mediante articulação com os órgãos oficiais afins, bem como para aqueles que apresentam uma habilidade superior nas áreas artística, intelectual ou psicomotora; V - acesso igualitário aos benefícios dos programas sociais suplementares disponíveis para o respectivo nível do ensino regular. Quanto à inclusão, ao fazermos referência a uma sociedade inclusiva, ou seja, onde todos deveriam ter os mesmos direitos, independentemente de suas particularidades, e poder utilizar todos os espaços, sejam públicos ou privados, encontramos em Targino (1984, p. 65) uma passagem que ilustra bem a necessidade das mudanças que devem ocorrer nas bibliotecas. Segundo o autor as reformulações sociais alteram profundamente as funções da biblioteca, conduzindo sua estrutura a modificações continuas, até que mude também seu significado e sua natureza. E é esta tendência revelada por alguns estudiosos da biblioteca, no sentido de colocar a implantação e o desenvolvimento das bibliotecas como variável dependente de fatores socioculturais, que pode ser encarada como um avanço no estudo histórico de bibliotecas e também na análise da evolução conceitual da biblioteca. No que concerne ao terceiro eixo da discussão proposta, o papel/compromisso social do profissional bibliotecário, segundo Araújo (1985, p. 117) “sendo o papel do bibliotecário definido pela sociedade, e consequentemente, tendo aquele compromisso social para com essa, este papel somente será bem desempenhado quando aquele profissional integrarse ao sistema político-social predominante”. Ainda de acordo com este autor, o profissional bibliotecário não deve se limitar em realizar as tarefas tradicionais de uma biblioteca. Para Araújo (1986, p. 118) cabe-lhe ser um elemento dinâmico que se identifica com as necessidades sociais, conhece os hábitos especialmente os de leitura, e as potencialidades dos usuários, a fim de prestar um atendimento satisfatório. 11 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Poderá, desta forma, melhor servir aos indivíduos e aos grupos de pessoas nos seus diversos interesses: culturais, educacionais ou profissionais. Assim, ele estará sempre contribuindo para o enriquecimento da vida da comunidade. Conclusão Este ensaio buscou chamar a atenção para situações “novas”, como a presença ainda tímida dos usuários com deficiência que surgem no universo do profissional bibliotecário e que merecem ser discutidas e investigadas para um melhor entendimento e atendimento às necessidades dos usuários das bibliotecas universitárias. A discussão proposta contribuirá para que as bibliotecas universitárias disponibilizem serviços com qualidade também aos usuários com NEE. Nesse momento em que esforços são realizados para se criar uma sociedade para todos, os bibliotecários devem estar atentos para que todos os usuários da biblioteca, independentemente de suas características ou condições, utilizem os serviços que são disponibilizados às pessoas ditas “normais”, propiciando a acessibilidade em todas as suas dimensões. Atentos a essa necessidade, a formação continuada do bibliotecário para atendimento à diversidade constitui-se como fator importante não somente para reflexão e discussão dessa questão, mas também para possibilitar a criação e implantação de mecanismos que facilitem novos olhares e novos caminhos no trato com os usuários especiais das bibliotecas universitárias. Conforme as experiências do dia-a-dia e com base na literatura analisada, alguns apontamentos podem ser listados para que ocorra a inclusão no âmbito das bibliotecas universitárias, como: a) formação continuada do bibliotecário para trabalhar com a diversidade; b) comunicação direta com os setores da universidade responsáveis pela matrícula dos alunos com NEE; c) aquisição e disponibilização de recursos tecnológicos e didáticos para atendimento desse público; d) sensibilização e preparo da equipe das bibliotecas para o atendimento aos usuários com deficiência; d) e por fim, a presença do bibliotecário nos núcleos e laboratórios de acessibilidade/inclusão da universidade deve ser efetivada, a fim de 12 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 contribuir com o desenvolvimento de ações que permitirão disponibilizar bibliotecas acessíveis. Referências ANDRADE, M. V. M.; SANTOS, A. R. dos. Acesso a usuários portadores de necessidades especiais em bibliotecas universitárias: revisão de literatura. 2004. Disponível em: <http://www.ndc.uff.br/repositorio/Acesso%20a%20usu%E1rios%20portadore s%20de%20necessidades%20especiais.pdf>. Acesso em: 20 mar. 2014. ARAÚJO, W. T. DE. A biblioteca pública e o compromisso social do bibliotecário. Revista da Escola de Biblioteconomia da UFMG, Belo Horizonte, v.14, n.1, p.106-122. 1985. BRASIL. Decreto nº 3. 298, de 20 de dezembro de 1999. Dispõe sobre a Política Nacional para a Integração da Pessoa Portadora de Deficiência, consolida as normas de proteção, e dá outras providências. Presidência da República. Brasília, DF, 20 dez. 1999. ________. Decreto nº 7.611, de 17 de novembro de 2011. Dispõe sobre a educação especial, o atendimento educacional especializado e dá outras providências. Presidência da República. Casa Civil. Brasília, DF, 21 nov. 2011. ________. Lei nº 10.436/2002. 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Dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras de deficiências, para 13 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 instruir os processos de autorização e de reconhecimento de cursos, e de credenciamento de instituições Diário Oficial da União, Brasília, DF, 11 nov. 2003. Seção 1, p. 12. ________. Ministério da Educação. Programa incluir. Disponível em:< http://portal.mec.gov.br/index.php?Itemid=495&id=12257&option=com_con tent&view=article>. Acesso em: 15 set. 2012. ________. Ministério da Educação. Secretaria Educação Especial. Política nacional de educação especial na perspectiva da educação inclusiva. 2007. Disponível em: < http://peei.mec.gov.br/arquivos/politica_nacional_educacao_especial.pdf> . Acesso em: 24 mar. 2014. FACHIN, G. R. B.; Hillesheim, Araci Isaltina de Andrade; Mata, Maria Margarete Sell da. Atuação do bibliotecário na educação especial. 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Em relação à surdez, que os estudos de Vygotsky ganham ainda ênfase em razão da centralidade que o mesmo atribui nos debates sobre a oralização e a língua de sinais, debates que acontecem em um meio educacional como um meio de socialização e comunicação entre surdos. Vygotsky era mais favorável ao primeiro, considerando a língua de sinais muito limitada para haver uma socialização efetiva com os ouvintes e nesse caso então, para elaboração de certos conceitos necessários para o sujeito (Vygotsky, 1997). Porém seus últimos textos sobre a educação de surdos e o desenvolvimento psíquico, evidenciam uma diferente postura quando tratam do domínio de diferentes formas de linguagem, assumindo então, a relevância de variados sistemas comunicacionais na educação de pessoas surdas, considerando a linguagem falada e a língua de sinais, aliadas no processo de desenvolvimento e de apropriação cultural dos sujeitos surdos. Segundo Skliar (1998, p.5): 3 Mestranda em Educação nas Ciências. Especialista em Interpretação, Tradução e Docência de Libras e Especialista em Psicopedagogia Institucional. Graduada em Pedagogia: Orientação e Supervisão Escolar. Professora de Libras na Universidade Federal da Fronteira Sul – campus de Cerro Largo/RS. Avenida América, 523. Centro. Santa Rosa/RS. E-mail: [email protected] 4 Mestre em Educação nas Ciências. Especialista em Interpretação, Tradução e Docência de Libras. Graduada em História. Professora de Libras na Universidade Federal da Fronteira Sul – campus de Erechim/RS. E-mail: [email protected] 16 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Os Estudos Surdos se constituem enquanto um programa de pesquisa em educação, onde as identidades, as línguas, os projetos educacionais, a história, a arte, as comunidades e as culturas surdas, são focalizados e entendidos a partir da diferença, a partir do seu reconhecimento político. Temos alguns importantes estudos sobre a surdez que se fundamentam na abordagem da psicologia histórico-cultural. Nesse caso específico falamos de Góes (1996, 1999, 2000) sendo que, uma grande contribuição dessa autora na educação de surdos, é em relação à defesa da Língua de Sinais como um caminho principal para o trabalho educacional com crianças surdas, rompendo então com o Oralismo, que historicamente causou desvantagens significativas no âmbito social e cultural de todo o povo surdo. Povo surdo, na concepção de Strobel (2008, p.29) “são sujeitos surdos que, não habitam no mesmo local, mas que estão ligados por uma origem, por um código ético de formação visual, independente do grau de evolução linguística, tais como a língua de sinais, a cultura surda e quaisquer outros laços”. Temos também outros pesquisadores como Goldfeld (2002), que investiga sobre o desenvolvimento cognitivo das crianças surdas, sistematizando então as contribuições de Vigotski. Lacerda (1997 e 2000) analisa as interlocuções e trocas de conhecimento entre ouvintes e surdos em salas de aula e sobre o papel que desempenha a língua de sinais nesse processo de aquisição do conhecimento e para encerrar, temos ainda Gesueli (2003) e outros que pesquisam sobre o desenvolvimento da escrita por surdos, evidenciando as diferenças linguísticas entre sujeitos surdos e ouvintes. Todas essas pesquisas fundadas na teoria histórico-cultural, apresentada por Vygotsky, bem como outras ainda não mencionadas aqui, como Carlos Skliar, Gládis Perlin, Karin Strobel e outros, mostram possibilidades de intervenção e estudos na área de educação de surdos. 17 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 As reflexões de Vygotsky sobre a educação das pessoas com deficiências nos dão algumas pistas concretas para a realização de experiências no âmbito educacional, que favorece a autonomia e o exercício da sua cidadania, embora que, o excesso de discursos e leis que sustentam a educação inclusiva não tem proporcionado condições efetivas para a sua consolidação na prática. Por isso, nas obras até aqui lidas e estudadas, que têm como base a teoria histórico-cultural, percebemos essas contribuições como sendo um indicativo para uma melhoria nas condições de ensino e aprendizagem do sujeito surdo. Diante do exposto acima, em relação às contribuições de Vygotsky, queremos abordar aqui, de um modo amplo, sobre o fator linguístico na aprendizagem e desenvolvimento cognitivo da criança surda. As pessoas ainda consideram o surdo como um sujeito incapaz quando encontram ou se deparam com textos produzidos pelos mesmos, visto que o atraso na aquisição da Língua de Sinais pode vir a acarretar problemas, em se falando de estruturações gramaticais nas frases, porém o que poucos sabem ou muitas vezes não querem saber, é que, quanto mais cedo for estimulado esse surdo num meio linguístico (com uso da sua língua – a Língua de Sinais) assim como os ouvintes, melhor ele conseguirá trabalhar essa habilidade de produção escrita de textos considerando as suas dificuldades em abstrair conceitos, que para um sujeito ouvinte pode vir a ser banal. Ainda, embasados na teoria de Vygotsky, podemos dizer que o ser humano aprende em todos os momentos e em todos os lugares, dentro da escola e fora dela e em todos os espaços informais. É a interação que esse indivíduo estabelece com o meio que propicia a aprendizagem, que movimenta o processo de desenvolvimento do mesmo. Esses dois processos, aprendizagem e desenvolvimento, fazem com que o individuo se constitua através das relações que mantem com os outros. De acordo com Oliveira (1997) a linguagem escrita é construída de maneira social com a interação dos indivíduos e com o mundo, de maneira contínua. Assim, podemos afirmar que quanto mais tempo o surdo que está iniciando a aprendizagem da Língua de Sinais estiver ou tiver contato com o surdo mais fluente na língua, conseguirá aprendê-la com mais rapidez e fluência e por 18 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 consequência disso, poderá iniciar e aprimorar o seu processo de aprendizagem da escrita. Conforme Rego (1995) o processo de aprendizagem da escrita é entendida por Vygotsky, como algo muito complexo, por se “constituir num simbolismo de segunda ordem que, gradualmente, torna-se um simbolismo direto” (VYGOTSKY, 1998, P.140). Ainda com Vygotsky (1998, p. 154) podemos entender que “a compreensão da linguagem escrita é efetuada primeiramente, através da linguagem falada” e no caso dos surdos, a compreensão e uso da língua de sinais. Felizmente muito desses estereótipos produzidos em relação ao surdo estão se modificando. Hoje existe a visão da surdez que entende o sujeito surdo como um sujeito com muitas potencialidades, conforme é defendida por Skliar: [...] potencialidade como direito à aquisição e desenvolvimento da língua de sinais como primeira língua; potencialidade de identificação das crianças surdas com seus pares e com os adultos surdos; potencialidades de desenvolvimento de estruturas e funções cognitivas visuais; potencialidades para uma vida comunitária e de desenvolvimento de processos culturais específicos. (SKLIAR, 1998, p.26). Metodologia Esse texto é fruto de uma pesquisa que as autoras vêm fazendo sobre a educação de surdos e de como acontece a aprendizagem do surdo em relação ao letramento tendo a Libras como sua primeira língua e ainda, sobre a inclusão durante estudos realizados no curso de Mestrado em Educação e experiências em sala de aula no decorrer da docência em Libras embasados pelas contribuições da teoria de Vygotsky sobre o processo de aprendizagem do sujeito surdo. 19 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Os instrumentos utilizados foram a pesquisa bibliográfica e coleta de dados durante as aulas ministradas na Instituição de ensino superior no curso de Letras como contribuição na escrita. Algumas entrevistas foram realizadas no curso de Letras de maneira informal, para coletar informações com os acadêmicos que frequentam o componente de Libras sobre as dificuldades enfrentadas por estes em relação ao uso e ensino da língua em sua sala de aula, como futuros docentes, considerando a mesma como uma língua com estruturação linguística e gramática específica. Resultado e discussão A cultura, a linguagem e principalmente o diálogo, são fatores necessários para o desenvolvimento integral do sujeito. Precisamos reconhecer o surdo em todas as suas potencialidades. O seu desenvolvimento linguístico e a aprendizagem de uma língua são imprescindíveis para a formação da cognição, mesmo que a criança surda encontre muitas dificuldades devido aos aspectos do desenvolvimento linguístico, suas potencialidades e habilidades são as mesmas de uma criança ouvinte, o que vem a diferenciar, são os estímulos que devem ser oferecidas de maneira visual. A aprendizagem num sentido bem amplo tem um significado que envolve uma interação social, falando aqui sobre a aquisição da linguagem e sobre a cognição. Quando a criança adquire a linguagem, ela entra em contato com o mundo simbólico. É a partir da sua entrada no mundo dos signos que as suas funções mentais superiores são operadas. Por isso uma importante noção Vigotskiana é de perceber a linguagem não apenas como um fator de comunicação, mas como uma importante função reguladora do pensamento. Dessa maneira podemos dizer que é pela linguagem que o indivíduo ouvinte ou surdo se constitui, seja de maneira oral/auditiva ou visual/espacial. A aquisição da linguagem se dá preferencialmente pelo canal auditivo, por isso a perda auditiva ou surdez interfere na aquisição da linguagem e no desenvolvimento da criança. Mas isso não significa que a criança surda apresentará déficits na sua aprendizagem e desenvolvimento cognitivo por 20 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 não adquirir a linguagem, pois sabemos que a linguagem não se resume apenas a modalidade auditiva/oral. Conforme Fernandes (2006, p.16) Linguagem é tudo que envolve significação, que pode ser humano (pintura, música, cinema), animal (abelhas, golfinhos, baleias) ou artificial (linguagem de computador, código Morse, código internacional de bandeiras). Ou seja, sistema de comunicação natural ou artificial, humana ou não. Para Vygotsky linguagem também não é apenas uma expressão do conhecimento adquirido pela criança. Existe uma inter-relação fundamental entre pensamento e linguagem, um proporcionando recursos ao outro. Desta forma a linguagem tem um papel essencial na formação do pensamento e do caráter do indivíduo e pode ser percebida pelos diferentes órgãos dos sentidos e por esse motivo podemos distingui-la em linguagem oral e visual. Nas Orientações Curriculares: A Língua Brasileira de Sinais tem, para as pessoas surdas, a mesma função que a Língua Portuguesa na modalidade oral tem para as ouvintes e é ela, portanto, que vai possibilitar às crianças surdas atingirem os objetivos propostos pela escola, incluindo o aprendizado da Língua Portuguesa na modalidade escrita. (PEREIRA, 2008, pg.22) No caso da criança surda, fica mais difícil adquirir uma linguagem oral, mas o sentido da visão lhe oferece a aquisição da linguagem visual, no caso a Língua de Sinais. Já pelo fato de os sujeitos surdos viverem num mundo completamente visual-espacial, seu cognitivo também se desenvolve de maneira visual e ainda, por estarem inseridos em uma comunidade onde ainda são a minoria linguística, as chances de ocorrer uma falha na comunicação ainda é maior. 21 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Para o desenvolvimento de uma identidade surda, a aquisição da Língua de Sinais é completamente necessária. Cada um precisa identificar-se num grupo, interagir de modo pleno dentro de uma comunidade para termos uma identidade cultural. Perlin (1998) percebe a identidade surda como algo que está em permanente construção, em constante movimento, e em constante transformação. Ao mesmo tempo, Perlin (1998) ainda explicita que para podermos representar a identidade surda, há a necessidade de afastarmos da visão meramente clínica da surdez, para conseguirmos ter uma visão de alteridade cultural. Os surdos procuram seus iguais, sentem satisfação em estar juntos, com eles formam um grupo e possuem a sensação de pertencimento. Para ilustrar esta reflexão, Laboritt (1994) apresenta um depoimento de sua vivência como surda: A criança surda tem necessidade de identificação com os adultos (surdos), uma necessidade crucial. É preciso convencer todos os pais de crianças surdas a colocá-las em contato, o mais rápido possível, com adultos surdos, desde o nascimento. É preciso que os dois mundos se entrelacem, aquele do barulho e o outro, do silêncio. O desenvolvimento psicológico da criança surda se fará mais rapidamente e bem melhor. Ela construirá longe daquela solidão angustiante de ser a única no mundo, sem ideias construtivas e sem futuro. (1994, p.49) O surdo percebe o mundo de maneira visual e faz uso de uma linguagem também diferenciada dos ouvintes usando a Língua de Sinais. Strobel (2008) em seu livro, intitulado como “As imagens do outro sobre a Cultura Surda”, aborda sobre os artefatos culturais que fazem parte da cultura surda, e como sendo a Libras um dos artefatos culturais, a mesma é submetida a uma significação social a partir de critérios estabelecidos, sendo aprovada como um sistema de linguagem rida e independente a partir de estudos feito por Stokoe (1960), apresentado em seu livro “Sign Language Structure”. 22 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 No Brasil em 2002, a Língua Brasileira de Sinais adquire o status linguístico com a sanção da Lei nº 10.436, em seu artigo primeiro “sendo reconhecida como meio legal de comunicação e expressão a Língua Brasileira de Sinais – Libras e outros recursos de expressão a ela associados”. É compreendida ainda em seu parágrafo único sendo [...] a forma de comunicação e expressão, em que o sistema linguístico de natureza visual-motora, com estrutura gramatical própria, constitui um sistema linguístico de transmissão e fatos, oriundos de comunidades de pessoas surdas do Brasil (Brasil, 2006). Conclusão Diante dessas questões e que de maneira bem simples, tentamos concluir e também comprovar que o surdo tem as mesmas condições/possibilidades em relação ao ouvinte no desenvolvimento linguístico. O fato é que a Língua de Sinais é de suma importância para o seu desenvolvimento cognitivo e aprendizagem, respeitando assim no surdo a sua condição bilíngue. Conforme Sanchez (1991) a proposta de educação bilíngue para surdos, parte do reconhecimento de que os surdos estão em contato com duas línguas e que uma destas línguas é a língua de sinais. No caso do Brasil, como uma proposta recente defendida por linguistas voltados para o estudo da Língua de Sinais, parte do princípio que o surdo deve adquirir como sua primeira língua, a língua de sinais com a comunidade surda e seus pares. Cabe ao docente aprimorar seus conhecimentos em relação ao conhecimento sobre a estrutura linguística e gramática da Língua de Sinais, analisar o meio em que os seus alunos surdos estão inseridos, bem como as relações que esses sujeitos estabelecem com esse meio. É importante enfatizar que o processo de alfabetização do sujeito surdo, acontece de maneira similar com a do sujeito ouvinte, sendo imprescindível que as atividades e principalmente, o ambiente seja motivador tanto para a aquisição da língua oral (para ouvintes), sinalizada (para os surdos) ou escrita (ouvintes e surdos). É importante que alfabetizemos os nossos alunos, ensinando a eles a ler e escrever no contexto de suas práticas sociais, conforme Vygotsky mesmo afirma. 23 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Ainda mais, os surdos constituem grupos sociais que possuem interesses, lutas e muitos desafios em relação ao seu processo de aprendizagem e terão que lutar muito para que possam a vir a exercer de maneira plena a sua cidadania, tendo liberdade e direito de cidadão, em decidir sobre o melhor para sua aprendizagem sem a interferência de sujeitos ouvintes. Nesse sentido, ressaltamos a importância de os surdos estarem em contato com surdos adultos, tendo o acesso irrestrito a sua língua natural – a Língua de Sinais, trazendo assim inúmeras possibilidades do seu desenvolvimento como um todo. Referências Bibliográficas LABORIT, Emmanuelle, O Vôo da Gaivota. São Paulo: Ed. Best Seller, 1994. OLIVEIRA. Marta Kohl de. Vygotsky: aprendizado e desenvolvimento um processo sócio-histórico. 4. Ed. São Paulo: Spicione, 1997. PEREIRA, Maria Cristina da C.(org.). Orientações Curriculares e Proposição de Expectativas de Aprendizagem para a Educação Infantil e Ensino Fundamental. São Paulo: Secretaria da Educação do Estado de São Paulo, 2008. PERLIN, Gládis T.T. Identidades surdas. In Skliar Carlos (org.) A Surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998. SKLIAR, Carlos, A Surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Editora Mediação, 1998. STROBEL, Karin Lilian. As imagens do outro sobre a cultura surda. Florianópolis: Editora UFSC, 2008. STROBEL, Karin Lilian; FERNANDES, Sueli. Aspectos linguísticos da LIBRAS. Secretaria de Estado da Educação. Superintendência de Educação. Departamento de Educação Especial. Curitiba: SEED/SUED/DEE. 2002. STOKOE, William. “Sign Language Structure: An autline of the visual communication system of the American deaf”. Studies in Linguistics, Occasional Papers nº 8,1960. VIGOTSKI, L.S. Pensamento e Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2005. Trad. De Jefferson Luiz Camargo, 3ª Ed. 24 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 VIGOTSKI, L.S. A Construção do Pensamento e da Linguagem. São Paulo: Martins Fontes, 2001. (Texto integral traduzido do russo Pensamento e Linguagem, por Paulo Bezerra, USP, SP). 25 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 POLÍTICAS PÚBLICAS PARA ACESSO DE PESSOAS COM DEFICIÊNCIA AO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO Diléia Aparecida Martins5 Lúcia Pereira Leite6 Cristina Broglia Feitosa de Lacerda7 Introdução O presente trabalho propõe o estudo das políticas relativas às matrículas de pessoas com deficiência no ensino superior brasileiro com base em indicadores educacionais. Pela análise da evolução do ingresso de estudantes com deficiência em cursos de graduação presencial e a distância indaga a ampliação do acesso de estudantes com deficiência em Instituições de Educação Superior (IES). O tratamento de dados quantitativos contingenciados tem se apresentado como uma alternativa benéfica para pesquisas no campo da educação. Em concordância a Bueno e Meletti (2011) para o desenvolvimento da pesquisa, buscou-se propor uma leitura mais ampla do cenário educacional, de modo macro, refletindo a influência das ações políticas e econômicas para a efetivação de práticas inclusivas. O foco nas matrículas de estudantes com deficiência na educação superior instiga a identificação de pesquisas que exploraram esse contexto e que assim apresentaram ao meio acadêmico dados que podem colaborar no 5 Pedagoga. Mestre em Educação e Doutoranda em Educação Especial/PPGEE Universidade Federal de São Carlos. Bolsista CAPES, pelo programa Observatório em Educação – OBEDUC. Projeto Acessibilidade no Ensino Superior. E-mail: [email protected] 6 Psicóloga, Mestre e Doutora em Educação pela Unesp/Marília – Professora do Departamento de Psicologia e do Programa de Pós-graduação em Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, da Universidade Estadual Paulista – Unesp/ Bauru. E-mail: [email protected] 7 Fonoaudióloga, Mestre e Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas Coordenadora do PPGEEs/Universidade Federal de São Carlos e docente do curso de licenciatura em Educação Especial UFSCar. Grupo de Pesquisa Abordagem Bilíngue e Surdez. E-mail [email protected] 26 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 desenvolvimento de pesquisas. Pela revisão de trabalhos que abordaram a temática foi possível identificar a existência de produções datadas desde a década de 1990, momento em que foram firmadas as primeiras ações direcionadas ao auxílio de estudantes com deficiência no ensino superior brasileiro. Guerreiro (2011) desenvolveu um estudo com o objetivo de conhecer o nível de satisfação do aluno com deficiência quanto ao acesso e permanência com relação às estruturas físicas e operacionais oferecidas, o nível de satisfação e atitudes perante os obstáculos e o conhecimento da legislação sobre acessibilidade e a NBR 9050/2004. Os resultados dessa pesquisa revelaram variação entre o grau de satisfação e a adequação da universidade a cada tipo de deficiência com destaque a existência de diversas barreiras arquitetônicas e a necessidade emergencial de modificações no campus da instituição para que os alunos tivessem condições de concluir o curso. Com foco também nessa dimensão de acesso, Cambruzzi e Araóz (2011) desenvolveram um estudo da acessibilidade do universitário com deficiência física com o objetivo de identificar e analisar a acessibilidade para um cadeirante, o espaço físico de onde acontecem as aulas, a localização do banheiro, elevador e bebedouro. Os resultados da pesquisa revelam que aspectos da acessibilidade não atendem às normas. Nas duas pesquisas acima relatadas, ambas realizadas em universidades federais do Estado de São Paulo nota-se que além de serem poucos os estudantes com deficiência aprovados no processo de seleção para ingresso nas universidades federais estes se deparam com barreiras físicas e arquitetônicas que geram um alto grau de insatisfação. No que se refere diretamente aos estudantes a pesquisa de Ferreira (2010) declina-se à análise de experiências de alunos com deficiência visual nas IES da cidade de Uberlândia e as dificuldades encontradas por eles no cotidiano acadêmico. Constata que as barreiras encontradas pelos alunos com deficiência visual são atitudinais, o alto custo de materiais e a falta de profissional especializado. Com relação ao último item Chahini (2010) cuja pesquisa pautou-se em atitudes sociais e opinião de professores e alunos da Universidade Federal do Maranhão (UFMA) em relação à inclusão de alunos com deficiência na educação superior, menciona que tanto professores 27 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 como alunos apresentam atitudes sociais relativamente favoráveis à inclusão, mas que há carência de profissionais especializados. O ingresso desses estudantes acarreta uma série de modificações na estrutura universitária, entretanto muitas delas dependem de ações institucionais plenamente planejadas, tal como a formação de profissionais técnicos, docentes, a compra de materiais de alto custo dentre outros. O que se pode aprender dessas experiências é que o acesso do estudante com deficiência deve compor um rol de investimentos antevistos pelas esferas administrativas por meio de ações contínuas com foco em demandas futuras. No que tange o trabalho docente frente à inclusão de estudantes com deficiência no ensino superior, Nogueira (2010) desenvolveu um estudo em três instituições particulares na cidade de Sorocaba. Observa que a inclusão interferiu positivamente no trabalho dos docentes, mas que se faz necessário pensar em ferramentas de suporte para as políticas educacionais inclusivas do vestibular à arquitetura universitária para a permanência do estudante na IES. Mediante o exposto, tratar da matrícula do estudante com deficiência na educação superior brasileira, a partir dos indicadores sociais, impõe a reflexão articulando as possibilidades de leitura de dados quantitativos a essa demanda qualitativa, revelada pelos agentes desse contexto. Indicadores de matrículas de estudantes com deficiência na educação superior brasileira Após a leitura atenta do contexto relativo à educação especial na educação superior brasileira, considerando o objetivo da pesquisa em analisar as políticas relativas às matrículas da educação especial no ensino superior brasileiro com base em indicadores educacionais com foco na evolução do ingresso desses estudantes em cursos de graduação presencial e a distância iniciou-se a coleta de dados. A pesquisa se caracteriza descritivo-analítica com base documental cujas fontes de dados foram resumos técnicos e planilhas do censo da educação superior no período de 2000 a 2011 Os procedimentos para a coleta e organização dos dados seguiram a seguinte sistemática: 28 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 a) Análise do Resumo Técnico do Censo da Educação Superior; b) Indicação da distribuição de matrículas e informações referentes à educação superior brasileira com base em dados coletados dos resumos técnicos e em planilhas do INEP/MEC. Na Tabela 1: Matrículas em IES: graduação presencial e distância os dados numéricos foram agrupados e apresentados lado a lado, permitindo a identificação de diferenças significativas entre a quantidade de matrículas de pessoas com e sem deficiência na educação superior, pública e privada. A análise dos Resumos Técnicos proporcionou uma visão geral acerca da publicação dos documentos e coleta de dados da educação superior brasileira por parte do INEP/MEC. Na tabela 1 Matrículas em IES: graduação presencial e distância estão presentes os dados coletados conforme mencionado anteriormente. Os dados foram organizados da seguinte maneira: Tabela 1: Matrículas em IES: graduação presencial e distância. Ano 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Total 2694245 3030744 3479913 3564628 4163733 4453156 4676646 4880381 5080056 5954021 6379299 6739689 PcD FA (n) PCD FR (%) IES Pública PcD FA (n) PCD FR (%) IES Privada PcD FA (n) PCD FR (%) 2173 0.08 887026 1135 0.13 1807219 1038 0.06 2898 0.10 939225 391 0.04 2091529 2507 0.12 2425 0.07 1051655 705 0.07 2428258 1720 0.07 5078 0.14 1136370 1373 0.12 2750652 3705 0.13 5395 0.13 1178328 1318 0.11 2985405 4077 0.14 6327 0.14 1192189 2080 0.17 3260967 4247 0.13 6960 0.15 1209304 1855 0.15 3467342 5105 0.15 6934 0.14 1240968 1390 0.11 3639413 5544 0.15 12015 0.24 1273965 1984 0.16 3806091 10031 0.26 20965 0.35 1523864 6598 0.43 4430157 14367 0.32 20287 0.32 1643298 6884 0.42 4736001 13403 0.28 23250 0.34 1773315 6531 0.37 4966374 16719 0.34 Fonte: MEC/INEP. Legenda: PcD – pessoa com deficiência FA – frequência absoluta FR – frequência relativa 29 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Pela análise dos dados demonstrados na tabela 1 percebe-se que ao longo do período analisado houve aumento do número de matrículas de pessoas com deficiência em IES, a exemplo, no ano 2000 quando as matrículas de pessoas com deficiência representavam 0,08 do total geral (total geral 2694245, PcD Fa (n) 2173, PcD FR (%) 0.08) e no ano seguinte 0.10 (total geral 3030744, PcD FA (n) 2898, PcD FR (%) 0.10). No entanto, nem sequer 1% da população matriculada em cursos de graduação possuía algum tipo de deficiência. No tange ao quantitativo de matrículas por setor público e privado nota-se um possível comportamento do grupo, alterações que ocorrem ano a ano e que ao longo de uma década podem ser analisados como o foco na tendência de progressão. É o que se pretende apresentar no gráfico a seguir: Gráfico 1: Variação da frequência relativa - Pessoas com Deficiência em IES públicas e privadas - 2000 à 2011. IES Pública PCD FR % IES Privada PCD FR% 0,43 0,42 0,37 0,34 0,26 0,13 0,06 2000 0,12 0,07 0,07 0,13 0,12 0,14 0,11 0,17 0,13 0,15 0,15 0,32 0,28 0,15 0,16 0,11 0,04 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Os dados acima apresentados permitem aferir que: 1. Há indícios de que ao longo dos anos, os estudantes com deficiência estejam chegando em maior número, talvez com maior facilidade, ao ensino superior brasileiro; 2. Nota-se que a quantidade de estudantes matriculados por setor público e privado caminha em proporção semelhante até o ano 2007, 30 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 quando há em 2008 uma diferença de 0.10 entre o número de matriculas em IES públicas e privadas, seguido em 2009 da reversão desse dado, quando o número de matrículas em IES públicas atinge 0.43 (em 2007 era de 0.16), ou seja, houve uma inversão pela ampliação do número de matrículas em IES públicas e redução deste número em IES privadas. 3. No ano 2011, ao final do período analisado, há novamente uma proporção semelhante de matrículas nos dois setores. Todavia, ressalta-se que existem mais cursos de graduação em IES privadas do que em IES públicas. Segundo o censo da educação superior ano 2010 (INEP, 2010) existe 284 (12%) IES públicas e 2.081 (88%) num total de 2.365 instituições. Com relação à oferta de cursos de graduação do total de 29.376, apenas 9.368 estão na rede pública, enquanto que 20.008 estão na rede privada. Esses dados permitem compreender que embora a IES privada esteja em maior número, se a proporção de matrículas é semelhante ao quantitativo da IES pública, o número de matrículas de pessoas com deficiência é maior no setor público. 4. A criação do Incluir gera nova mudança de comportamento do grupo visto que, ao longo do último quinquênio a quantidade de matriculas em IES públicas vem aumentando progressivamente. O incluir começa em 2006, mas o impacto da criação desse programa é identificado em 2009 quando salta o número de matrículas de estudantes com deficiência em IES públicas. Esse fato remete a um acontecimento histórico, na década de 1990, boa parte dos estudantes com deficiência encontravam-se matriculados em instituições especializadas (privadas sendo mantidas com recursos públicos), ocorrendo progressivamente a ampliação de matrículas na escola comum pública após a Declaração de Salamanca (UNESCO, 1994) e a lei n. 10.098 de 19 de dezembro de 2000 (BRASIL, 2000). No ensino superior brasileiro, a adequação dos espaços educacionais públicos passam a acontecer na medida em que os direitos das pessoas com deficiência são concretamente implementados por meio dos programas governamentais. No entanto, esse processo é de certo modo lento, visto que a cada ano se reconhece avanços significativos, porém ainda insuficientes se observados em paralelo aos dados do censo populacional (IBGE, 2012). Em 31 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 2010, 6,7% das pessoas com deficiência possuíam diploma de curso superior, enquanto 10,4% das pessoas sem deficiência o possuíam. Tais dados revelam que o acesso de pessoas com deficiência ainda é limitado o que permite aferir que essa população é menos assistida que a população não deficiente. Considerações Finais As políticas públicas para o acesso de pessoas com deficiência ao ensino superior brasileiro vêm sofrendo ao longo dos últimos dez anos um processo de adequação ao pleito mundial. Os organismos internacionais tais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), suscitam a ampliação do investimento em educação, no sentido de favorecer o acesso de grupos socialmente desfavorecidos ao ensino público. Nessa perspectiva, o ensino destinado às pessoas com deficiência tem se inserido no rol de prioridades governamentais instigando a adequação dos recursos educacionais e a transposição de barreiras. Todavia, o número de matrículas desse público vem crescendo em maior proporção em IES privadas do que em IES públicas. Paralelamente o índice de matrículas em IES pública vem se ampliando, uma possível consequência da implementação de programas do governo federal, oriundos pontualmente da gestão petista iniciada no ano 2003. Tal modo de gestão do serviço público tem impactado na organização da educação nacional e de modo específico no formato da educação especial cujos projetos e operacionalização assumem por base o atendimento educacional especializado que na educação básica tem seu lócus prioritário a Sala de Recursos Multifuncionais e na educação superior nos programa Incluir – pela criação dos núcleos de acessibilidade. De modo geral, o acesso e permanência de estudantes com deficiência ao ensino superior brasileiro perdura como um foco de estudos e pesquisas desafiante em face das lacunas e demandas investigativas que emergem do acesso de estudantes cujas deficiências acarretam ainda a transposição de barreiras atitudinais, o investimento na formação de recursos humanos para tratamento apropriado a esses estudantes. 32 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 REFERÊNCIAS BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial. Brasília: MEC/SEESP, 2008. BRASIL. Decreto Nº 3.956, de 8 de outubro de 2001. Promulga a Convenção Interamericana para a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra as Pessoas Portadoras de Deficiência. Guatemala: 2001. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. 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Rio de Janeiro, 2009. 37 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 A INSERÇÃO DE SURDOS NO ENSINO SUPERIOR BRASILEIRO Maria Izabel Dos Santos Garcia 8 Introdução O presente trabalho tem como proposta uma discussão acerca da inserção de surdos nas instituições de ensino superior, público e privado. A motivação para o desenvolvimento do mesmo se deve ao fato de que, empiricamente, observarmos ainda uma forte resistência na adequação das instituições de nível superior no atendimento às leis em vigor a partir de 2002, o que em princípio se traduz como um fator de suma importância no que tange ao ingresso de membros desse grupo social. Nesse sentido, a presente proposta se insere no debate atual em torno das políticas públicas educacionais, eixo da discussão dos movimentos sociais. Nos últimos dez anos, após a discussão em torno da chamada educação inclusiva – nova categoria proposta pelo MEC em substituição à educação especial – muitos questionamentos vêm sendo levantados. Seja por parte das instituições educacionais, seja pela militância de surdos. Entre as instituições educacionais a grande questão é como incluir a criança, jovem/adolescente ou adulto surdo nos ensinos fundamental, médio e ensino superior sem que os profissionais possuam a devida qualificação, nesse caso há a necessidade de revisão do modelo pedagógico ouvintista – do qual falaremos adiante – além do desconhecimento quase completo da LIBRAS (Língua Brasileira de Sinais). Por parte da militância de surdos e afins, as questões se colocam principalmente no fato de que por inclusão está se desprezando que os surdos não terão atendidas a necessidade de terem como LIBRAS como L1 e a Língua Portuguesa, na forma escrita, como L2. Daí a mobilização atual do grupo reivindicando a educação bilíngüe em oposição à educação inclusiva proposta pelo governo através do PNE – Plano Nacional de Educação, por entenderem que sua língua materna deve ser respeitada no âmbito das políticas públicas educacionais adotadas pelo MEC. Situando lingustico-historicamente a questão da surdez 8 Doutora em Antropologia Social/UFRJ, Mestre em Psicologia e Práticas Sócio-Culturais/UERJ. [email protected] 38 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 A LIBRAS faz parte de uma modalidade lingüística na qual o aspecto viso-espacial (ou gesto-visual) é o que a diferencia da modalidade áudio-oral – sistema apoiado na fala articulada. Alguns lingüistas vêm transcrevendo a sintaxe de diferentes línguas de sinais e um dos pioneiros foi William Stockoe que em parceria com Ursula Bellugi, publicaram em 1965, o Dictionary of American Sign Language, considerado o primeiro dicionário de língua de sinais editado no mundo. Para eles, a analogia gesto-língua não apresenta dúvidas, sendo os elementos gestuais de base designados por queremes, cuja função se assemelha a dos fonemas nas línguas áudio-orais. Como qualquer outro sistema lingüístico, as línguas de sinais diferem no mundo, apresentando inclusive muitas variações dialetais. Mesmo em países com uma única língua áudio-oral oficial – caso do Brasil – as línguas de sinais diferem e mantém independência em relação ao sistema oral. Nos países com mais de uma língua áudio-oral oficial – caso da Bélgica – só há uma língua de sinais, ainda que com suas variações dialetais. Outro aspecto relevante em relação aos usuários da língua de sinais é que em experimentos neurológicos9 ficou claro que sua produção também é controlada pelo hemisfério esquerdo do cérebro, área considerada como a que governa a competência lingüística daqueles que usam a língua áudiooral. No Brasil, a educação formal de surdos teve início em 1857 com a inauguração da primeira escola especial: o INES – Instituto Nacional de Educação de Surdos (ESPAÇO, 1997). Fundado no Rio de Janeiro por Ernest Huet, professor surdo francês, apoiado por D. Pedro II, o Instituto ainda é palco de acirradas disputas entre a abordagem oralista, assim considerada por não reconhecer o status linguístico da LIBRAS, e outras orientações que admitem seu uso. Obviamente que, dado ao atual momento, o discurso atual do Instituto se volta ao bilinguismo como forma norteadora da educação do surdo que leva em consideração a LIBRAS como L1. Isso, porém, ainda pertence à ordem mais do discurso do que à prática propriamente dita uma vez que muitos professores ainda não dominam a LIBRAS e trabalham em parceria com monitores e/ou professores surdos. As línguas de sinais são línguas de modalidade gestual-visual em oposição às de modalidade áudio-orais, como é o caso do Português, do Espanhol. Estas últimas usam o canal auditivo na recepção e o aparelho 9 Ursula Bellugi e Helen Neville demonstraram através de experimentos que o sinal pode ser “lido” mais acuradamente quando apresentado no campo visual direito (Sacks, 1990). 39 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 fonador para a articulação dos sons da fala. Já as línguas de sinais utilizam o canal visual na recepção e a expressão facial e a configuração do movimento das mãos em relação ao corpo, na emissão da mensagem. É bom acrescentar que as línguas de sinais, justamente pelo status linguístico que carregam, não são iguais em todos os países. Atualmente muitas vêm sendo estudadas e dentre elas podemos citar a ASL – American Sign Language10, a LFS – Langue Française des Signes, a BSL – Britanic Sign Language e a própria LIBRAS. Nesta proposta, entenderemos a língua como uma das vias que possibilita a comunicação entre as pessoas que, reciprocamente, dela fazem uso. Mas, em relação ao conceito de comunicação, atribuiremos uma dimensão que ultrapassa os limites impostos pela língua. A comunicação, como a entendemos, admite, inclusive, não só uma forma verbal (linguisticamente falando) como também uma não-verbal. Com efeito, o modo como as pessoas se vestem, o aperto de mão nas situações de cumprimento em um determinado grupo social ou mesmo os gestos ritualizados, como a continência militar, a piscadela de olhos em uma situação de paquera, todos são exemplos de uma comunicação não-verbal que ocorre entre indivíduos e grupos, além de se constituírem em “sinais” que demarcam diferentes identidades. Nesse ponto, é oportuno lembrar a importância das teses desenvolvidas por Norbert Elias (1994) ao pensar como o indivíduo constrói uma forma particular de estar no mundo, nas quais a constituição de uma rede de relações apresenta ao indivíduo os modos possíveis e os nãopossíveis de se comportar em uma dada sociedade ou grupo. Assim, é impossível pensar acessibilidade – em seus diferentes níveis – sem pensar a participação direta dos indivíduos que constituem os grupos excluídos socialmente. Em seu artigo intitulado The Deaf Community and the Culture of Deaf People, Carol Padden, linguista e pesquisadora surda americana, enfoca um aspecto fundamental da vida dos surdos: o fato de que esses indivíduos formam grupos e possuem uma cultura própria. Ela afirma que antes de 1965, a abordagem tradicional não ia além de patologizar o surdo. Após a publicação do American Sign Language Dicionary, por Bill Stokoe, Carl Croneberg e Doroth Casterline, teria ocorrido uma modificação na forma 10 Segundo Skliar (1990) a ASL - American Sign Language é a terceira língua de maior uso nos Estados Unidos. 40 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 como os surdos americanos eram encarados. Este trabalho não só oferecia uma nova descrição baseada em princípios linguísticos, mas também dedicava uma seção à descrição das características “culturais” e “sociais” dos surdos que usam a língua de sinais. Em seu trabalho, Padden apresenta as definições do sociólogo George Hillery, que entendia por comunidade “um sistema social geral, no qual um grupo de pessoas vivem juntas, partilham objetivos comuns e possuem certas responsabilidades umas para com as outras” (Padden, 1980, p. 30) e a cultura como “um conjunto de comportamentos aprendidos, como a língua, valores, regras de conduta e tradições” (ibidem, p. 30). Dentro dessa perspectiva, Padden qualifica como “comunidade de surdos” aquela “formada por pessoas que vivem em um lugar específico, partilham objetivos comuns, e de várias formas, (...) pode incluir pessoas que não são surdas, mas que apoiam ativamente os objetivos da comunidade” (ibidem, p. 31). Para a autora, as “comunidades de surdos” possuiriam três características básicas: são influenciadas por suas localizações, admitem flexibilidade no uso da língua de sinais e possuem objetivos igualitários. Na literatura sobre surdez, produzida por surdos, é comum encontrarmos o “S” maiúsculo para designar um grupo linguístico e cultural em respeito à nomenclatura da Comunidade de Surdos Americana (Sacks, 1990). Já o “s” na forma minúscula é usado em relação à condição física: a falta de audição propriamente. Esses diferentes usos, no entanto, são pouco abordados e esclarecidos pelos autores desses textos, talvez até mesmo porque só há pouco tempo os surdos começaram, eles próprios, a expor através da escrita suas reivindicações e sua forma de entender a surdez em suas vidas. No Brasil, já se pode sentir o reflexo que o movimento de surdos americanos vem produzindo. Há alguns anos, os surdos brasileiros começaram a se interessar pela pesquisa da LIBRAS11 e pelo desenvolvimento de métodos de ensino aos ouvintes; pelo desenvolvimento de atividades artísticas profissionais como as companhias de teatro e de poesia em LIBRAS12; pela retomada das discussões sobre sua própria educação, atuando também como instrutores, monitores e professores de 11 Acerca de dez anos o Departamento de Lingüística da UFRJ desenvolve pesquisas sob a supervisão de uma pesquisadora surda. 12 Ainda que existam alguns “corais de surdos” esses não nos parecem ter surgido como resultado direto da motivação de surdos, e sim de ouvintes. 41 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 crianças, jovens e adultos surdos ao integrar as equipes pedagógicas em escolas de surdos. Além dessas investidas, membros dessa comunidade começaram a exigir tradutores LIBRAS/Português em diferentes situações cotidianas; legendas em português13 em noticiários e programas educativos/televisivos; a disponibilização de TDD14 públicos; a criação de acervo com material videográfico na LIBRAS; legendas em filmes nacionais, dentre outras demandas. Tomando por base o documento já citado, “A educação que nós Surdos queremos”, devemos acrescentar a necessidade da qualificação profissional de tradutores-intérpretes de LIBRAS/Português, via o Curso de Letras/LIBRAS, bem como professores fluentes em LIBRAS. A fundação no Rio de Janeiro, em 1987, da FENEIS (Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos) 15, entidade nãogovernamental presidida por surdo em conjunto com uma diretoria composta de surdos e ouvintes, constituiu-se como a principal forma de organização de luta do grupo que, desde a emergência das associações de surdos, sempre manteve formas de se congregar em espaços sociais para usar livremente a língua de sinais. Assim, o movimento social de surdos no mundo parece revelar forças subjacentes aos estereótipos encontrados no imaginário social, também representados em instituições sociais como família e escola, por exemplo. Desse modo, penso que o grande objetivo das lideranças, além da confrontação das lógicas próprias aos “mundos” de ouvintes e de surdos, é a possibilidade de transformação da “identidade estigmatizada” que atualmente o surdo carrega em uma “identidade respeitada e valorizada” (Goffman, 1988). Infelizmente, a despeito do discurso “politicamente correto” propagado pela idéia de acessibilidade e inclusão social, o que ainda persiste parece ser uma forma assistencialista na relação entre ouvintes e surdos, mesmo quando os primeiros apóiam e integram o movimento social dessa “comunidade”. 13 14 A despeito da maioria dos surdos brasileiros serem analfabetos na língua portuguesa. No Brasil, também chamada Telefonia para Surdos (TS), vem a se constituir no acoplamento ao aparelho de telefone de um teclado com display de cristal líquido, onde através de códigos específicos, pessoas surdas e ouvintes, podem conversar. 15 Atualmente com representantes em São Paulo, Rio Grande do Sul, Pernambuco, Paraná, Amazonas, Ceará, Distrito Federal e outras capitais do país. 42 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Para os surdos, a comunicação em seu código lingüístico peculiar não só os coloca em relação como permite aprender a partir da troca dentro de um contexto em que a experiência visual é o elemento mais importante de compartilhamento. Como qualquer relação, essa também pode fazer disparar – além do já evidente exercício de poder entre surdos e ouvintes – disputas entre os próprios surdos. Algumas delas podendo ocorrer segundo um critério de maior ou menor domínio da LIBRAS ou do Português como um elemento de hierarquização entre eles. Entendendo a existência de embates como uma forma de se pensar relação, Marilyn Strathern (1999) introduz a noção de socialidade, em oposição à de sociabilidade, justamente pelo fato desta última estar carregada de um sentido de compartilhamento de idéias, o que nem sempre ocorre no interior das relações sociais. A partir daí podemos pensar a alteridade e, portanto, repensar a idéia de exclusão/inclusão social, tão debatida no âmbito das políticas para inclusão de surdos. Há aproximadamente cinquenta anos atrás, as línguas de sinais não eram qualificadas como pertencentes ao grupo das línguas naturais. Somente no final da década de cinquenta, com a publicação do livro Sign Language Structure de Stokoe, linguista norte americano, as línguas de sinais começaram a sair da marginalidade que lhe foi imposta durante tanto tempo. Segundo Carlos Skliar, fonoaudiólogo e pesquisador argentino, após o desenvolvimento dos trabalhos da linguística pós-estruturalista foi observado que as línguas de sinais, enquanto sistema linguístico diferenciado das línguas orais, utilizam “o espaço, com valor sintático e topográfico, e a simultaneidade dos aspectos gramaticais são algumas das restrições impostas pelo tipo de modalidade viso-espacial e determinam sua diferença estrutural em relação às línguas auditivo-orais” (Skliar, 1997, p. 40). Para este autor, as línguas gesto-visuais e áudio-orais não deveriam ser definidas somente através das diferentes modalidades nas quais se expressam, caracterizando uma relação de oposição, mas sim, a partir do fato de ambas carregarem uma estrutura subjacente , ainda que usando “canais diferentes [mas] igualmente eficientes, para a transmissão e a recepção da capacidade da linguagem” (ibidem, p. 40). Voltando a questão para a aprendizagem da língua materna, podemos acrescentar que mesmo uma criança já começa a apresentar ao falar, a visão de mundo de seu grupo social, assim como a ideologia que permeia e mantém as relações sociais desse grupo. Desde cedo os indivíduos são 43 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 conduzidos a agir de forma a “não perturbar a ordem vigente”, caso contrário poderá ser considerado como “anormal”, “desviante”. Assim, a língua, como produto de uma coletividade, reproduz através de seus significados os valores associados a práticas sociais que se cristalizaram com os anos. Nessa comunicação pretendemos apontar que, a despeito das Leis nº 10.43616 e nº 12.31917 e do Decreto nº 5.62618 e nº 6.94919, membros das comunidades de surdos ainda enfrentam dificuldades em nosso país, no que se refere à acessibilidade ao espaço acadêmico e à pesquisa, via IES (Instituições de Ensino Superior). A acessibilidade aqui colocada se refere tanto à via de acesso federal (ENEM – Exame Nacional do Ensino Médio) e aos vestibulares estaduais (FUVEST – Fundação para o Vestibular/SP, por exemplo) e autarquias (USCS – Universidade de São Caetano, por exemplo), como pela permanência – que só é garantido caso haja a contratação de profissionais com a devida qualificação. A presente comunicação oral pretendeu explanar um pouco sobre a forma como a inclusão social de surdos no espaço acadêmico ainda faz parte de um discurso longe da prática propriamente. A forma como a mesma vem sendo conduzida fere a própria Constituição Brasileira. Tal como as diferentes etnias indígenas e quilombolas, os surdos encontram-se reféns de uma legislação que não contempla uma participação efetiva dentro das políticas públicas educacionais e outras. Aqui é importante refletirmos sobre em que aspectos teóricos e práticas cotidianas é possível ancorar a noção de cultura e identidade social, tão reivindicados pelos movimentos sociais das comunidades surdas. Além disso, precisamos pensar como os membros destas constroem a imagem de si em meio a relações produzidas no interior de uma sociedade tão desigual como a brasileira. Da mesma forma, vale ressaltar como é possível a sobrevivência de uma língua legítima nos tempos atuais, a despeito de toda sua negação. Fato que mantém a manutenção da transmissão oral em meio aos grupos de surdos, renegada ainda hoje em segundo plano na educação brasileira. 16 Ver em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm 17 Ver em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2010/Lei/L12319.htm 18 Ver em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2005/decreto/d5626.htm 19 Ver em http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2007-2010/2009/decreto/d6949.htm 44 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Nesse sentido, podemos pensar a complexidade do espaço social, não só entre surdos, mas entre qualquer ouro membro da sociedade brasileira. Como apontado por Garcia (2011): “Trata-se de uma luta ou um movimento que atue desfavorecendo dentre outras coisas, o processo de homogeneização das diferenças que apesar de muitas vezes aparecer travestido de inclusão, ao se apropriar da força de algumas expressões do tipo ‘somos todos iguais’, fortalece o processo de exclusão através da anulação e rejeição das potencialidades singulares, aprisionando-as dentro de um contexto específico e considerado ‘apropriado’.” (p. 45) Contemporaneamente, no campo referente a essas questões, muitas têm sido as discussões que objetivam promover a inserção social destas pessoas, através da conscientização e reconhecimento de seus direitos e deveres como cidadão. Discussões que apontam dentre outras coisas para a necessidade de equiparação de oportunidades e a valorização de seu potencial humano dentro dos limites impostos de acordo com o tipo de peculiaridade particular e suas deficiências. Estes são grandes desafios para as sociedades atuais. Referências Bibliográficas BERGER & LUCKMANN (1985) A Construção Social da Realidade. Rio de Janeiro: Vozes. BRITO, L. F. (1993) Integração Social & Educação de Surdos. Rio de Janeiro: Babel. ELIAS, N. (1994) Mozart: sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Zahar. ESPAÇO - Informativo Técnico Científico do INES, Edição Especial Comemorativa dos 140 Anos da Instituição, 1997, Rio de Janeiro. GARCIA, M. I. S. (2011) Movimento Social dos Surdos: interseções, atravessamentos e implicações. Tese de Doutorado/UERJ. 45 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 GOFFMAN, E. (1988) Estigma. Rio de Janeiro: Guanabara. IBGE Relatório do Censo 2000. (Acessado em 16/07/2004). Disponível em http://www.ibge.org.br LOBO, L. (1992) Deficiência: prevenção, diagnóstico e estigma. In Grupos e Instituições em Análise. Rio de Janeiro: Rosa dos Tempos. PADDEN, C. (1980) The Deaf Community and the Culture of Deaf People. In Baker, C. & Battison, R. (Orgs.) Sign language and the Deaf Comunity: essays in honour of William Stokoe. National Association of the Deaf: USA. SACKS, O. (1990) Vendo vozes: uma jornada pelo mundo dos surdos. São Paulo: Imago. SKLIAR, C. (1997) A Educação para os Surdos: entre a Pedagogia Especial e as Políticas para as Diferenças. In Anais do Seminário Desafios e Possibilidades na Educação Bilíngüe para Surdos, INES, p. 32-47. STRATHERN, M. (1999) Entrevista: No limite de uma certa linguagem. In Mana: Estudos de Antropologia Social, vol. 5, nº. 2, p. 157-175. SITES http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10436.htm, acessado em 12/09/2013. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato20072010/2010/Lei/L12319.htm, acessado em 12/09/2013. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20042006/2005/decreto/d5626.htm, acessado em 12/09/2013. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato20072010/2009/decreto/d6949.htm, acessado em 12/09/2013. 46 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 ENSAIOS DA PROPOSTA DE CONSTRUÇÃO COLETIVA DAS POLÍTICAS DE INCLUSÃO NO INSTITUTO FEDERAL DE MINAS GERAIS – IFMG Carolina Cândida Da Cunha20 Delaine Oliveira Sabbagh21 Luci Aparecida Souza Borges De Faria22 Introdução O Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais (IFMG) foi criado em dezembro de 2008, pela Lei nº 11.892 e, atualmente, encontra-se em fase de expansão. É uma autarquia formada inicialmente pela incorporação da Escola Agrotécnica Federal de São João Evangelista, dos Cefets de Ouro Preto e Bambuí e das Unidades de Ensino Descentralizadas de Formiga e Congonhas. Os demais câmpus foram criados posteriormente, em regiões estratégicas do Estado, e estão vinculados a uma Reitoria, que tem sede em Belo Horizonte. Atualmente, são treze câmpus do IFMG em funcionamento, além da Reitoria: Bambuí, Betim, Congonhas, Formiga, Governador Valadares, Ouro Branco, Ouro Preto, Ponte Nova, Piumhí, Ribeirão das Neves, Sabará, Santa Luzia e São João Evangelista. Um novo câmpus, localizado no município de Ibirité, está em fase de implantação, com início das obras previsto para o primeiro semestre de 2014. Encontra-se, ainda, em fase de implantação os câmpus avançados de Coronel Fabriciano, Ipatinga, Pitangui e Sete Lagoas. É importante destacar que os câmpus, que atualmente funcionam em prédios provisórios, a exemplo de Betim, Ribeirão das Neves e Sabará, ou que apresentam espaços insuficientes, como o Câmpus Ouro Branco, terão nova sede ou suas áreas (construídas) serão ampliadas. O IFMG caracteriza-se por sua atuação pluricurricular e multicâmpus. No âmbito de sua atuação, tem como objetivos ministrar educação profissional 20 Mestre em Saúde Pública pela Universidade Federal de Minas Gerais, Técnica em Assuntos Educacionais da Pró-reitoria de Ensino do IFMG 21 Mestre em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora, Técnica em Assuntos Educacionais da Pró-reitoria de Ensino do IFMG 22 Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas, Pedagoga do câmpus do IFMG em Governador Valadares 47 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 técnica de nível médio, ofertar cursos de formação inicial e continuada de trabalhadores, ministrar educação superior e de pós-graduação, respeitando os preceitos da Lei 11.892 de 29/12/2008. A Instituição atua fortemente na realização de pesquisas aplicadas, estimulando o desenvolvimento de soluções técnicas e tecnológicas, e no desenvolvimento de atividades de extensão de acordo com os princípios e finalidades da educação profissional e tecnológica, em articulação com o mundo do trabalho e os segmentos sociais, com ênfase na produção, desenvolvimento e difusão de conhecimentos científicos e tecnológicos. Em 2010, o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais em conformidade com a proposta de Educação Inclusiva do Programa TEC NEP em parceria com a Secretaria de Educação Especial – SEESP do Ministério da Educação iniciou o processo de implementação do NAPNE como Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas no IFMG e seu processo construtivo nos Campus de Bambuí, Congonhas, Formiga, Governador Valadares, Ouro Preto e São João Evangelista. A constituição do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE) teve como princípio promover a inserção dos indivíduos nos cursos de formação inicial e continuada, de nível técnico e tecnológico nas Instituições Federais de Educação Tecnológica, bem como formar parcerias com os sistemas estaduais e municipais. A partir dos princípios básicos de cidadania, buscou-se com a proposta de constituição do NAPNE nos câmpus atender as demandas do processo de implementação da Política de Educação Inclusiva, que exige adequação dos espaços físicos, quebra das barreiras atitudinais e reestruturação das práticas pedagógicas, reconhecendo que as dificuldades enfrentadas evidenciam a necessidade de confrontar as práticas discriminatórias e criar alternativas para superá-las. Assim, o projeto de implementação do NAPNE fundamentou-se na Política Nacional de Educação Especial, estabelecendo diretrizes que possam complementar o ensino ministrado nas salas de aula comum, caracterizando as ações voltadas para a promoção do acesso e permanência dos alunos no IFMG. Atualmente, o IFMG possui treze câmpus em atividade, sendo que nove deles possuem o NAPNE em funcionamento, com a devida Portaria que designa o coordenador e seus respectivos membros e os demais já estão em fase de implantação do Núcleo, sendo que os integrantes já estão atuando e providenciando a Portaria de designação dos membros. 48 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Diante do exposto acima, esse trabalho tem como objetivo descrever e analisar como tem sido a atuação dos NAPNEs nos diferentes câmpus do IFMG para que seja possível traçar metas e ações para superar as barreiras referentes ao atendimento das pessoas com necessidades específicas e, assim, assegurar as condições adequadas para o sucesso acadêmico e social desses estudantes, estimulando o desenvolvimento e consolidação das ações. Metodologia Os Núcleos de Atendimento às Pessoas com Necessidades Específicas, os NAPNEs, têm por missão promover a cultura da educação para a convivência, o respeito à diferença e, principalmente, buscar a quebra de barreiras arquitetônicas, educacionais e atitudinais na Instituição e no espaço social mais amplo, de forma a efetivar os princípios da educação inclusiva. Muitos são os desafios e obstáculos para o cumprimento das ações propostas pelos Núcleos e como forma de diagnosticar a atuação e a efetivação das ações referentes às políticas inclusivas nos câmpus o Setor de Políticas Inclusivas do IFMG realizou, em 2012 e 2013, um levantamento diagnóstico a respeito da atuação dos Núcleos nos diferentes câmpus na busca de traçar metas e ações para superar as barreiras referentes ao atendimento das pessoas com necessidades específicas e, assim, assegurar as condições adequadas para o sucesso acadêmico e social desses estudantes, estimulando o desenvolvimento e consolidação das ações. Para isso, o levantamento diagnóstico foi realizado em três momentos. Etapa 1: Levantamento histórico das ações realizadas Primeiramente, foi feita a leitura dos documentos e arquivos sobre as políticas inclusivas que estavam no Setor de Políticas Inclusivas/ PróReitoria de Ensino com o objetivo de resgatar o histórico das ações realizadas. Etapa 2: Levantamento diagnóstico Em um segundo momento, enviado um questionário a todos os câmpus para ser respondido preferencialmente pelo coordenador ou algum membro do NAPNE. No caso dos câmpus que ainda não possuíam NAPNE implantado, algum membro do câmpus ficou responsável pelo preenchimento. O questionário levantava questões do tipo: número de alunos e servidores com necessidades específicas agrupadas por tipo de necessidade, recursos humanos capacitados para o atendimento, demandas de capacitação, 49 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 aspectos para melhoria das ações e atividades realizadas pelos NAPNEs. Os questionários foram respondidos pelos dez câmpus em funcionamento no momento da pesquisa. Etapa 3: Discussão ampliada do diagnóstico realizado: Para finalizar o levantamento, em um terceiro momento foi realizado um encontro sobre as Políticas Inclusivas do IFMG para discutir os resultados obtidos via questionário, esclarecer algumas questões, enriquecer o levantamento e promover a troca de experiências entre os câmpus. Resultados De acordo com o levantamento realizado, apenas três câmpus possuem recursos humanos formados/capacitados para trabalhar com alunos com necessidades específicas. Além disso, como as necessidades específicas são bastante diversificadas, a capacitação deve ser constante e necessita abordar as diversas temáticas da inclusão, como também as legislações pertinentes. Apenas dois câmpus possuem professor de Libras, sendo que em um deles o professor é contratado. Os câmpus que possuem cursos de formação de professores devem ficar atentos ao cumprimento do que é determinado no Decreto nº 5626/2005 regulamenta a Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002, que dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais – Libras – e determina que ela deve ser inserida como disciplina curricular obrigatória nos cursos de formação de professores para o exercício do magistério, em nível médio e superior (os cursos de Licenciatura, nas diferentes áreas do conhecimento, o curso Normal de nível médio, o curso Normal superior, o curso de Pedagogia e o curso de Educação Especial), e nos cursos de Fonoaudiologia. Além dos professores de Libras, outro fator importante é a necessidade de realização de concursos públicos para a contratação dos intérpretes/tradutores da língua brasileira de sinais. Esses profissionais, diferentemente do professor de Libras, são responsáveis pela mediação comunicacional professor/aluno. O tradutor e intérprete terá competência para realizar interpretação da Libras e da Língua Portuguesa de maneira simultânea ou consecutiva e proficiência em tradução e interpretação das duas línguas. O governo, por meio do PL 2134/2011, criou 2564 vagas para o cargo de Tradutor e Intérprete de Linguagem de Sinais, nível D, 40 horas. Entende-se que essa iniciativa pode ser um dos caminhos para minimizar os problemas existentes pela falta de intérprete/tradutor de Libras nos câmpus. A criação desses cargos poderá reduzir a dificuldade enfrentada, 50 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 até então, no que se refere à contratação desses profissionais, pois, além de serem escassos no mercado, a remuneração é baixa e não há vínculo empregatício com a Instituição. Importante lembrar que a disseminação do conhecimento de Libras não deve se restringir aos intérpretes e aos membros do NAPNE, que atenderão aos alunos de forma especializada. É necessário que haja investimento e sensibilização para que o maior número de servidores possa se capacitar e seja capaz de atender e orientar, ainda que minimamente, qualquer pessoa com deficiência auditiva que procure a Instituição. Com base no levantamento diagnóstico, apenas um câmpus adapta-se ou desenvolve material didático para alunos com necessidades específicas. A proposta é começar gradativamente a elaboração desse tipo de material, iniciando pela troca de experiências com o câmpus que já o desenvolve e capacitando os profissionais através de cursos e palestras. Dentre as dificuldades encontradas na realização das atividades inclusivas nos Campus as mais frequentes foram a falta de recursos humanos devidamente capacitados para trabalhar com as ações das Políticas Inclusivas; a falta de capacitação continuada dos profissionais envolvidos com as Políticas Inclusivas, inclusive dos docentes; a falta de carga horária específica para se dedicar às atividades do NAPNE; a falta de espaço físico apropriado, com a existência de câmpus que ainda não funcionam em sua sede própria, e sim em locais cedidos, através de contrato com prefeituras ou empresas; a falta de regimento próprio, orientação, conhecimento da legislação; a falta de material didático adequado; as barreiras arquitetônicas; a falta de sensibilidade de gerentes/diretores para com os membros do NAPNE e a falta de reconhecimento institucional. Diante do contexto de dificuldades apontadas foram apresentadas as seguintes sugestões para melhoria da atuação dos Núcleos: a maior disponibilização de servidores para atuarem no NAPNE; a ampliação/criação do espaço físico destinado aos NAPNEs; a capacitação continuada dos servidores dos NAPNEs; a necessidades de encontros regulares dos NAPNEs do IFMG para troca de experiências; um espaço no site do IFMG para colocar as leis e realizar a troca de experiências sobre inclusão, bem como as legislações específicas; o fomento das ações de inclusão; a sensibilização de toda a comunidade sobre a importância da atuação dos NAPNEs; a quebra das barreiras arquitetônicas; o desenvolvimento de projetos de pesquisa e de extensão sobre a temática da inclusão, com participação de toda a comunidade acadêmica. 51 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Devido à demanda por capacitação dos recursos humanos que atuam com as políticas inclusivas nos Núcleos, foram levantados os cursos e áreas mais relevantes: como cursos sobre tipos de necessidades específicas e como trabalhar/lidar com cada tipo de necessidade. Os temas dos cursos devem abranger mais do que os “tipos/conceitos” de necessidades específicas, abordando também as possibilidades de apoio, avaliações e intervenções didático-pedagógicas para uma educação inclusiva. Dentre os cursos citados estão: Curso de Libras; Curso de braille; Orientações sobre legislação; Orientações sobre a solicitação de verbas, estrutura e atuação dos NAPNEs; Formação em Educação Inclusiva; Tecnologia Assistiva. Outro fator importante para o diagnóstico das Políticas Inclusivas do IFMG é o levantamento anual dos alunos com necessidades específicas, total e por câmpus. Tais dados contribuem para orientar as políticas nos câmpus e programar as demandas de recursos humanos, material didático, espaço físico entre outros. Em relação ao número de alunos com necessidades específicas no ano de 2013, destaca-se o quantitativo de alunos com Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), déficit cognitivo, com deficiência visual, baixa visão e cegos, deficiência física, deficiência auditiva, baixa audição e surdez (Tabela 1). Tabela 1: Levantamento de alunos com necessidades específicas por câmpus e tipo de necessidade, IFMG 2013. Bambuí Betim Congonhas Formiga Governador Valadares Ouro Preto Ouro Branco Altas habilidades/superdotação 1 0 0 0 1 0 0 0 0 0 2 Déficit cognitivo 4 0 0 1 1 1 0 0 0 4 11 Deficiência física 3 0 0 0 0 4 1 0 0 0 8 Deficiências múltiplas 1 0 0 0 0 0 0 0 0 0 1 Deficiência auditiva/ baixa audição 0 0 0 0 1 1 1 0 0 1 4 Surdez 0 0 0 0 0 2 0 0 0 0 2 Deficiência visual/cegos 0 0 0 0 0 1 0 0 0 1 2 Deficiência visual/baixa visão 1 0 0 3 1 1 2 0 0 1 9 0 0 0 0 2 4 0 0 0 0 6 Necessidade Específica Transtornos Globais do Desenvolvimento Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TADH) Ribeirão das Neves Sabará São João Evangelista TOTAL 6 0 0 1 6 0 0 0 0 4 17 Coordenação motora (Equilíbrio 0 0 0 0 1 0 0 0 0 1 2 Mobilidade Reduzida Fotofonia (sensção de sensibilidade ou aversão a qualquer tipo de luz) 1 0 0 1 1 1 0 0 0 2 6 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 0 Distúrbio Bipolar 0 1 0 1 1 0 2 0 0 0 5 TOTAL 17 1 0 7 15 15 6 0 0 14 75 52 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Fonte: Setor de Políticas de Ingresso e Inclusão, Pró-reitoria de Ensino – IFMG. Segundo o levantamento, em três dos dez câmpus não há alunos com necessidades específicas matriculados. Isso pode estar ocorrendo realmente pela ausência desses alunos ou também pela dificuldade dos câmpus em detectar que seus alunos possuem essas necessidades, tanto por falta de capacitação dos recursos humanos, como de orientação ou pelo fato de um desses três câmpus não terem NAPNE implantado ou o NAPNE foi implantado recentemente. Isso reforça a necessidade de diversas formas de capacitação, desde palestras e minicursos até cursos de pós-graduação lato e stricto sensu. Com relação ao número de servidores obteve-se a informação de que em dois câmpus existem servidores com necessidades específicas, sendo todos efetivos. Importante destacar que há uma grande tendência desse quantitativo se tornar cada vez maior devido à reserva de vagas para deficientes, conforme a legislação: a Lei nº 8112/90, que rege o servidor público federal, determina que sejam reservadas até 20% das vagas oferecidas em concurso público para deficientes, desde que as atribuições do cargo sejam compatíveis com a deficiência. O Decreto nº 3298/99 definiu o percentual mínimo de 5% ao regulamentar a Lei nº 7853/89. Conclusões Baseando-se no levantamento realizado, percebeu-se a importância de definir metas e traçar ações efetivas. A providência inicial é que todos os câmpus tenham NAPNE implantado, com Portaria de nomeação do coordenador. Paralelamente a isso, todos os NAPNEs estão trabalhando juntos para desenvolver um regimento interno dos Núcleos que seja base e comum aos NAPNEs do IFMG, respeitando-se as particularidades de cada Núcleo. A criação dos Núcleos é o primeiro passo para que se inicie a consolidação das ações inclusivas nos diversos câmpus e no IFMG como um todo. Além disso, é preciso evoluir em relação à estrutura física dos NAPNEs, carga horária exclusiva dos profissionais para as ações inclusivas, reconhecimento da importância das ações de inclusão por parte de alunos, servidores e comunidade. A necessidade de capacitação e a troca de experiências entre os NAPNEs dos câmpus do IFMG e de outros Institutos ficou bastante evidente. O 53 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 regimento interno dos NAPNEs do IFMG está sendo discutido por esse grupo de discussões e um último encontro presencial será realizado para finalizar o documento. É importante ainda estimular e fortalecer a articulação entre os serviços e setores de diferentes áreas de formação e atuação do IFMG, bem como realizar parcerias interinstitucionais, em prol do desenvolvimento e consolidação das ações voltadas para a inclusão de pessoas com necessidades específicas, além de desenvolver e executar ações para eliminação de barreiras atitudinais, arquitetônicas, pedagógicas e de comunicação, visando garantir o exercício da cidadania dessas pessoas. As políticas inclusivas do IFMG deverão ter como diretrizes gerais para os próximos anos o acompanhamento, avaliação, ingresso, o acesso, a permanência e a conclusão de estudos dos alunos com necessidades específicas, visando assegurar as condições adequadas para o seu sucesso acadêmico e social. Precisamos assegurar que as diretrizes da Convenção sobre os Direitos das Pessoas com deficiência sejam cumpridas com o compromisso de assegurar às pessoas com deficiência um sistema educacional inclusivo em todos os níveis de ensino, em ambientes que maximizem o desenvolvimento do aluno, compatível com a meta de inclusão plena, com a adoção de medidas para garantir que as pessoas com deficiência não sejam excluídas do sistema educacional geral sob alegação de deficiência e possam ter acesso ao ensino de qualidade em igualdade de condições com as demais pessoas na comunidade em que vivem. Referências Bibliográficas BRASIL. Lei nº 11.892, de 29 de dezembro de 2008. Institui a Rede Federal de Educação Profissional, Científica e Tecnológica, cria os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, e dá outras providências. BRASIL. Decreto nº 5296 de 2 de dezembro de 2004. Regulamenta as Leis nos 10.048, de 8 de novembro de 2000, que dá prioridade de atendimento às pessoas que especifica, e 10.098, de 19 de dezembro de 2000, que estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. 54 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 BRASIL. Resolução CNE/CEB n° 2, de 11 de setembro de 2001. Institui Diretrizes Nacionais para a Educação Especial na Educação Básica. BRASIL. Lei nº 10.436, de 24 de abril de 2002. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras e dá outras providências BRASIL. Lei de 10.098 de 19 de dezembro de 2000. Estabelece normas gerais e critérios básicos para a promoção da acessibilidade das pessoas portadoras de deficiência ou com mobilidade reduzida, e dá outras providências. IFMG. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2014. Plano de Desenvolvimento Institucional, 2014-2018 (no prelo). IFMG. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2014. Plano de Desenvolvimento Institucional, 2014-2018. Cap. 6 Diagnóstico dos Cursos Existentes e dos Núcleos de Atendimento à Pessoas com Necessidades Específicas. (no prelo). IFMG. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2010, Pró-Reitoria de Ensino. Projeto de Implantação do Núcleo de Atendimento à Pessoas com necessidades educacionais Especiais. IFMG. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Belo Horizonte, 2012. Portaria nº 0732 de 28 de agosto de 2012. Dispõe sobre a política de aplicação e de gestão do design inclusivo para acessibilidade ambiental no meio edificado do IFMG. IFMG. Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Minas Gerais. Pró-Reitoria de Ensino/Setor de Políticas Inclusivas. Belo Horizonte, 2012. Relatório sobre as Políticas Inclusivas do IFMG 1º semestre de 2012. ONU: Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência: Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, Brasília, setembro de 2007; Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da ação inclusiva. Documento elaborado e nomeado pela Portaria n°555/2007 prorrogada pela portaria n°948/2007, Ministério da Educação, 07 de Janeiro de 2008. 55 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 PERCEPÇÕES DE DOCENTES E DISCENTES EM RELAÇÃO À INCLUSÃO DE ALUNOS COM DEFICIÊNCIA NA EDUCAÇÃO SUPERIOR Thelma Helena Costa Chahini23 Introdução Sabe-se que a Educação Superior representa, para todos os cidadãos, uma condição necessária para competirem no mercado de trabalho. Como relembra Cunha (2009), os postos de trabalho diminuíram em decorrência do desenvolvimento da tecnologia, bem como pela restrição dos investimentos dos Estados Nacionais. Logo, tanto a educação média quanto a superior passaram a representar as principais possibilidades de acesso ao mercado de trabalho formal. Diante dessa realidade, pontua-se a seguinte questão: quais as percepções dos docentes e dos discentes da Universidade Federal do Maranhão em relação à inclusão de alunos com deficiência na Educação Superior? Teve-se como objetivo geral conhecer as percepções de professores e alunos da Universidade Federal do Maranhão em relação à inclusão de alunos com deficiência na Educação Superior. Considerando-se que atos jurídicos devem ser acatados e, portanto, postos em prática, não há como negar o processo de inclusão. Ele existe, de fato, pela via legal. Isso, no entanto, não é suficiente para determinar àqueles que são incluídos a permanência com êxito e conclusão de seus cursos, daí a importância de se conhecer o que pensam e como agem os professores e colegas de alunos com deficiência em relação a estes. Ressalta-se, portanto, a importância de uma formação de qualidade para os professores, visando prepará-los para o atendimento especializado de alunos com deficiência em todos os níveis de ensino. A inclusão no âmbito específico da educação implica rejeitar, por princípio, a exclusão tanto presencial quanto acadêmica de qualquer aluno com ou sem necessidades educacionais especiais (RODRIGUES, 2006). 2 Materiais e Métodos Realizou-se uma pesquisa exploratória, descritiva. No total, este estudo teve 357 participantes, subdivididos em cinco grupos: 23 Doutora em Educação – Universidade Federal do Maranhão – UFMA [email protected] 56 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Grupo 1 (G1), constituído por 15 alunos com deficiência, sendo que 09 deles ingressaram na Universidade através da Política de Cotas a partir do primeiro semestre de 2007 ao segundo semestre de 2008 (auto-declarados com deficiências: física, visual e auditiva) e 06 alunos com deficiência que ingressaram antes da referida Política. Correspondendo 100% do universo de alunos com deficiência que no momento se encontravam frequentando a universidade, nove alunos do sexo masculino e 06 alunos do sexo feminino, com faixa etária entre 20 a 50 anos (média, 26 anos). Grupo 2 (G2), formado por 100 alunos que não tinham colega com deficiência em sala de aula. Sendo 56 alunos do sexo masculino e 44 alunos do sexo feminino, com faixa etária entre 19 a 54 anos (média, 24 anos). Grupo 3 (G3), constituído por 100 alunos que tinham colega com deficiência em sala de aula. Sendo 53 alunos do sexo masculino e 47 alunos do sexo feminino, com faixa etária entre 19 a 34 anos (média, 22 anos). Grupo 4 (G4), constituído por 42 professores que tinham aluno com deficiência em sala de aula. Sendo 20 professores do sexo masculino e 22 professores do sexo feminino, com faixa etária entre 30 a 66 anos (média, 49 anos). Grupo 5 (G5), formado por 100 professores que não tinham aluno com deficiência em sala de aula, selecionados nos quatro Centros da universidade (Centro de Ciências Tecnológicas – CCET; Centro de Ciências Sociais – CCSO; Centro de Ciências Biológicas - CCBS; Centro de Ciências Humanas - CCH). Sendo 58 professores do sexo masculino e 42 professores do sexo feminino, com faixa etária entre 25 a 68 anos (média, 47 anos). O critério de seleção das amostras foi estabelecido a partir do universo dos alunos com deficiência. Estas foram constituídas por professores e alunos da Universidade que se disponibilizaram a participar deste estudo. Os instrumentos utilizados compreenderam cinco versões diferentes de questionários para cada grupo. A coleta de dados foi realizada por amostragem, dentro das normas apresentadas pela pesquisa científica, através de aplicação dos questionários. Após a coleta de dados, os resultados obtidos foram tabulados e categorizados, bem como organizados em tabelas demonstrativas. Foram tratados por métodos estatísticos e analisados com procedimentos quantitativos e qualitativos. 3 Resultados e Discussão 57 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Apresentam-se prioritariamente os resultados das perguntas comuns a todos os participantes, em seguida, os das perguntas específicas a cada grupo juntamente com as descrições dos dados encontrados e as discussões que se fizeram necessárias. Em relação às perguntas comuns a todos os participantes, verifica-se que sobre a questão da Política de Cotas adotada pela Universidade Federal do Maranhão a partir do segundo semestre de 2007 (Resolução nº 499 – CONSEPE, de 31 de outubro de 2006), que favorece acesso a um maior número de alunos com deficiência na Educação Superior, os dados revelam que 60% dos alunos com deficiência (G1) são favoráveis à medida adotada pela Universidade e pelas cotas; dentre os alunos sem colegas com deficiência (G2), apenas 48% são favoráveis, assim como 58% dos colegas de alunos com deficiência (G3). Dentre os 3 grupos de alunos, percebe-se que o G1 é mais favorável a Política do que os G2 e G3, assim como o G3 é mais favorável do que G2. Entre os professores de alunos com deficiência (G4), apenas 37% concordam com a política adotada, bem como 40% dos professores sem alunos com deficiência (G5). Nessa questão, os professores sem alunos com deficiência (G5) são menos desfavoráveis à política do que os professores de alunos com deficiência (G4). Pode-se afirmar também que mais da metade dos professores não concordam com a Política de Cotas vigente. Neste caso, observa-se que os alunos têm opiniões mais favoráveis à Política de Cotas adotada pela Universidade do que os professores desta, e isso ocorre segundo Moreira (2004), pois ao receberem alunos com necessidades educacionais especiais na universidade, os professores com carência de formação adequada enfrentam situações desafiadoras que, na maioria das vezes, desconhecem as especificidades, as estruturas de apoio e os recursos que esses alunos precisam para terem acesso ao conhecimento acadêmico, podendo contribuir para o desenvolvimento de atitudes negativas acerca da deficiência por parte desses professores. Diante dessa questão, já era de se esperar que os alunos fossem mais favoráveis e, principalmente que, os alunos com deficiência fossem ainda mais favoráveis a essa Política, pois muitos desses não teriam tido acesso à Educação Superior sem a mediação de ações afirmativas. As respostas favoráveis foram relativas à ideia de que a política de cotas promove a inclusão desses alunos na educação superior e que proporciona oportunidades iguais às pessoas. 58 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 As respostas obtidas como desfavoráveis foram que a política de cotas não garante a inclusão desses alunos na Universidade; e que se trata de uma política assistencialista e preconceituosa. A respeito do ingresso de alunos com deficiência na Universidade. Dentre os alunos, 93% do G1 apresentam opiniões favoráveis, assim como 83% do G2 e 93% dos colegas de alunos com deficiência (G3). Com relação aos professores de alunos com deficiência (G4), 74% são favoráveis, assim como 85% dos professores sem alunos com deficiência (G5). Percebe-se nessa questão que a maioria dos participantes concorda com o ingresso de alunos com deficiência na Educação Superior. Os resultados também demonstram que os G1 e os G3 são mais favoráveis em relação ao G2. Os professores sem alunos com deficiência (G5) são mais favoráveis do que os professores de alunos com deficiência (G4). Apesar de na questão anterior a maioria dos professores se mostrarem contra a Política de Cotas na Educação Superior, verifica-se que em se tratando dos direitos desses alunos a alcançarem níveis mais elevados de ensino, os professores ideologicamente não discordam da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva (BRASIL, 2007), bem como da Legislação Federal vigente que visa ao acesso e a permanência com êxito aos alunos com deficiência em todos os níveis de ensino. As respostas favoráveis ressaltam que é um direito que deve ser respeitado. A respeito do atendimento especializado aos alunos com deficiência na Universidade, 100% dos alunos com deficiência apresentam opiniões favoráveis, assim como 97% dos alunos sem colegas com deficiência e 99% dos colegas de alunos com deficiência. Entre os professores de alunos com deficiência 96% apresentam opiniões favoráveis, assim como 94% dos professores sem alunos com deficiência. As respostas foram: “precisam de recursos materiais e humanos especializados”; “só precisam de recursos materiais especializados”; “só precisam de recursos humanos especializados”. Nessa questão verifica-se também o reconhecimento dos participantes em relação aos recursos materiais e humanos que os alunos com deficiência precisam para ter acesso ao conhecimento acadêmico. Nesse contexto, Drezza (2007) aponta alguns recursos materiais e humanos à garantia da permanência com êxito de aprendizado e, à conclusão dos cursos por esses alunos, dentre os quais: programa Virtual Visio (software sintetizador de voz e ledor de tela), materiais transcritos para o Braille, textos com fontes ampliadas, profissionais ledores, intérpretes de LIBRAS, 59 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 carteiras anatômicas, trilhas sensoriais (piso diferenciado para a autonomia de locomoção com segurança de alunos cegos), orientações de mobilidade na universidade aos alunos cegos, acervos de livros em Braille na biblioteca, bem como professores orientados ao atendimento de alunos com deficiência física e sensorial). Em relação ao atendimento às necessidades educacionais especiais dos alunos com deficiência pelos professores na Universidade, 67% do G1 apresentaram opiniões favoráveis, assim como 88% do G2 e 88% do G3. Dentre os docentes, 93% do G4 e 92% do G5 também têm opiniões favoráveis. Percebem-se nessa questão duas categorias de respostas; a primeira julga ter necessidade de tratamento diferenciado; a segunda categoria julga que esses alunos devem ser tratados com igualdade. Para tanto, recorre-se aos ensinamentos de Aristóteles, citado por Fávero (2007) ao dizer que se deve tratar desigualmente os desiguais. E a contra-argumentação de Mendes (2010) ao afirmar que a aplicação desse princípio na contemporaneidade é complicada, visto que é cheia de armadilhas, pois requer sensibilidade para perceber quais diferenças merecem um tratamento diferenciado. As respostas foram: “necessitam de maior atenção por parte dos professores”; “precisam de atendimento individualizado”; “devem ser tratados iguais aos demais para que não se sintam excluídos”; “dependendo da deficiência necessitam de maior atenção”. Em relação às condições de permanência dos alunos com deficiência na Universidade, 87% do G1, assim como 97% do G2 e 97% do G3 têm opiniões desfavoráveis. Na categoria docente, 96% dos professores de alunos com deficiência e 85% dos professores sem alunos com deficiência também apresentam opiniões desfavoráveis. Mais uma vez, não era de se esperar por outros resultados, pois de acordo com a Portaria nº 948/07 (BRASIL, 2007a), os sistemas de ensino universalizam o acesso, mas continuam excluindo indivíduos e grupos considerados fora dos padrões homogeneizadores. As respostas obtidas foram: “não se encontra preparada para garantir a permanência desses alunos”; “encontra-se parcialmente preparada”; “está tentando se preparar”. Nesse contexto, Manzini (2008) afirma que a falta de cultura de acessibilidade permeia o ensino de alunos com deficiência na universidade, que na maioria das vezes, não tem uma política institucional de identificação e atendimento às necessidades educacionais desses alunos. 60 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 De acordo com Bolonhini (2004) a acessibilidade deve ser o primeiro requisito a ser operacionalizado para a inclusão de alunos com deficiência no ensino superior. Ressalta-se também o Programa Incluir (BRASIL, 2007b) que implementa uma política de acessibilidade às pessoas com deficiência na Educação Superior, que visa à promoção de ações para a garantia do acesso pleno nas instituições de educação federais, no qual a UFMA se inseriu no ano de 2010 e, que certamente, em pesquisas posteriores, os resultados demonstrarão outra realidade. Ao se questionar o que poderia estar dificultando a permanência dos alunos com deficiência na Universidade, 93% do G1, 99% do G2 e 100% do G3 apresentaram opiniões desfavoráveis. O mesmo ocorreu com os 100% dos professores de alunos com deficiência, assim como 98% dos professores sem alunos com deficiência, também apresentaram opiniões desfavoráveis. As respostas foram: “falta de recursos materiais especializados”; “falta de recursos humanos especializados”; “falta de recursos materiais e humanos especializados”; “falta de Educação Básica de qualidade por parte desses alunos”; “falta de Políticas Públicas para a inclusão”. Diante dessa constatação, fica uma preocupação em relação ao aprendizado com êxito desses alunos, preocupação esta, também sinalizada por Momberger (2007) quando chama atenção para o fato de que algumas Instituições de Ensino Superior estejam apenas cumprindo com as exigências legais, visto que favorecem o acesso, mas não garantem a permanência desses alunos com êxito de aprendizado e conclusão de seus cursos, comprometendo com isso, a formação dessas pessoas que lutaram para chegar até a Educação Superior, trazendo consigo sonhos, esperanças e esforços desmedidos, construídos muitas vezes, em um percurso marcado por preconceitos, sofrimentos e de dedicação pela busca por maiores conhecimentos, bem como ascensão profissional e realização pessoal. Quanto à existência de recursos especializados para o atendimento das necessidades educacionais especiais dos alunos com deficiência na Universidade, 87% do G1, 96% do G2 e 95% do G3 têm opiniões desfavoráveis. No caso, 96% dos professores de alunos com deficiência, assim como 100% dos professores sem alunos com deficiência têm opiniões desfavoráveis. As respostas obtidas foram: “são regulares”; “são precários”; “não existem”. Percebe-se nesse caso, o não cumprimento da Portaria nº 3.284/03 (BRASIL, 61 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 2003), que dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas com deficiência, para instruir os processos de autorização e de reconhecimento de Cursos nas Instituições de Ensino Superior, visando à garantia da inclusão de alunos com deficiência na comunidade acadêmica. É interessante trazer Carvalho (1999) quando esclarece que o acesso corresponde à passagem pelo vestibular através dos recursos educacionais específicos para que a pessoa com necessidade educacional especial possa participar do processo seletivo. E a permanência é a continuação desse atendimento, visando acesso ao conhecimento e efetiva aprendizagem, bem como a participação desses alunos no processo acadêmico. Esta questão retrata a realidade atual, na qual as mudanças na Universidade em relação à acessibilidade de alunos com deficiência, ainda estão em processo de efetivação. Quanto à qualificação dos professores da Universidade para o trabalho pedagógico com os alunos com deficiência, 47% do G1 apresentaram opiniões desfavoráveis, assim como 80% do G2 e 85% do G3. Os dados indicam que a maioria dos alunos percebe que os professores da universidade não se sentem preparados para trabalhar com alunos com deficiência. Relembra-se a Lei nº 7.853/89 (BRASIL, 2004) que pontua a necessidade de formação e qualificação de recursos humanos em todos os níveis de ensino para o atendimento aos alunos com deficiência. A partir daqui apresentam-se as opiniões sobre as perguntas específicas apenas aos alunos com deficiência (G1) e aos colegas de sala de aula desses alunos (G3). Sobre a realização de adequações curriculares para o atendimento das necessidades educacionais especiais dos alunos com deficiência, 53% dos alunos com deficiência (G1), assim como 77% dos colegas desses alunos (G3) apresentaram opiniões desfavoráveis. As respostas indicaram que não foram realizadas, até o momento, nenhuma adequação curricular para os alunos com deficiência em sala de aula; e que ainda estão sendo providenciadas. Verifica-se nessa questão a ocorrência do mesmo fato anterior, isto é, em se tratando das questões mais operacionais, os alunos denunciam a ausência de práticas inclusivas por parte dos docentes e demais profissionais da Universidade. É necessário refletir sobre a importância da adequação curricular às reais necessidades educacionais especiais dos alunos com deficiência na Educação 62 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Superior, bem como a flexibilização do acesso ao currículo acadêmico a esses alunos. Na sequência, apresentam-se as opiniões acerca das perguntas específicas aos grupos dos professores de alunos com deficiência (G4) e aos professores sem alunos com deficiência (G5) da Universidade Federal do Maranhão. Em relação ao atendimento educacional especializado que os professores dispensam ou dispensarão aos alunos com deficiência na universidade, 67% dos professores de alunos com deficiência (G1) e 44% dos professores sem alunos com deficiência em sala de aula (G5) apresentaram opiniões desfavoráveis. As respostas foram que o atendimento é diferente dos demais alunos; é fragilizado. A maioria dos professores de alunos com deficiência é consciente de que não está disponibilizando atendimento especializado aos alunos com necessidades educacionais especiais, o que se levanta como hipótese, que isso pode estar dificultando o acesso ao conhecimento acadêmico a esses alunos. O fato de a maioria dos professores sem alunos com deficiência afirmar que se vier a ter alunos com deficiência, o atendimento a eles dispensado será especializado, acredita-se que isso ocorra por questões de conscientização dos direitos desses alunos ou justamente por ainda não terem experiências que os fizessem pensar ao contrário. Relembra-se Omote et al (2005) ao constatarem que muitos professores não vêm recebendo uma formação especializada que favoreça com que medeiem adequadamente o processo ensino-aprendizagem aos alunos com deficiência. Prieto (2005) também constatou que poucos professores vinculados às redes públicas de ensino têm formação ou mesmo informação sobre atendimento de alunos com necessidades educacionais especiais, visto que muitos destes professores ingressam nos sistemas de ensino por meio de concurso público, na maioria das vezes, sem ter o mínimo de contato com a temática da deficiência. Em relação às metodologias utilizadas com os alunos com deficiência na Universidade, 59% dos professores de alunos com deficiência (G4) e 73% dos professores sem alunos com deficiência em sala de aula (G5) apresentaram opiniões desfavoráveis. As respostas foram que não atendem às necessidades educacionais especiais desses alunos; precisam ser revistas; falta adaptar as metodologias de acordo com as deficiências; falta adaptar o 63 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 material didático e/ou recursos materiais utilizados em aula; é preciso ainda organizar o tempo e o espaço físico; é preciso rever o plano de aula. Nessa questão é importante destacar a conscientização demonstrada pelos docentes da Universidade de que precisam mudar suas metodologias para o processo ensino-aprendizagem dos alunos com deficiência. Bolonhini (2004) ressalta que ainda são poucas as instituições de ensino superior que tem se preocupado em fazer adaptações necessárias para o acesso ao conhecimento acadêmico e aprendizado com êxito dos alunos com deficiência. Quanto à operacionalização de adequação curricular em sala de aula visando ao atendimento das necessidades educacionais especiais dos alunos com deficiência na universidade, 81% dos professores de alunos com deficiência (G4) apresentaram opiniões desfavoráveis e 44% dos professores sem alunos com deficiência em sala de aula (G5) apresentaram opiniões desfavoráveis. É importante ressaltar mais uma vez a conscientização dos professores de alunos com deficiência de que não estão fazendo nenhuma adequação curricular no processo ensino-aprendizagem a esses alunos, o que sinaliza mais uma vez, que estes, não se encontram qualificados para o ensino de alunos com deficiência. As respostas dos professores de alunos com deficiência convergem com as dos alunos com deficiência e com as dos seus colegas de sala de aula. As respostas obtidas como desfavoráveis foram: que não fizeram nenhuma adequação curricular para esses alunos e que ainda serão providenciadas. As respostas obtidas como favoráveis foram: que se tiverem alunos com deficiência farão adequações curriculares para atender suas necessidades educacionais especiais Diante dessa realidade, Omote (2004) alerta para os equívocos que vêm ocorrendo em práticas pedagógicas que se dizem inclusivas dentro das instituições de ensino, pois inclusão não significa apenas colocar o aluno com deficiência em sala de aula. Em relação ao que os professores pensam sobre o que os alunos com deficiência acham do atendimento recebido por seus professores na Universidade, 59% dos professores de alunos com deficiência e 94% dos professores sem alunos com deficiência em sala de aula apresentaram opiniões desfavoráveis. As respostas revelaram que os alunos acham o atendimento dispensado a eles por seus professores: insatisfatório; indiferente; péssimo. 64 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Nessa questão aparece um fato interessante, pois a maioria dos professores de alunos com deficiência é consciente de que não está oferecendo um atendimento qualificado aos alunos com deficiência, isto é, estes docentes responderam se referindo ao atendimento especializado e esses dados convergem com os dos colegas de alunos com deficiência, mas divergem dos próprios alunos com deficiência. Levanta-se como hipótese o fato de que os alunos com deficiência tenham respondido anteriormente essa questão considerando o comportamento de seus professores para com eles, e em nenhum momento demonstraram que não tratam bem seus alunos. Ficando claro, portanto, que os alunos com deficiência, ao responderem levando em consideração a questão do relacionamento se sentem bem tratados por seus professores, mas quando respondem levando em consideração ao atendimento especializado por parte desses profissionais, sinalizam a falta de qualificação desses docentes para com o atendimento às suas necessidades educacionais especiais. Busca-se em Omote (2004) a constatação da existência de práticas pedagógicas autodeclaradas como inclusivas, que favorecem o acesso de alunos com deficiência nas instituições de ensino, mas não garantem a permanência destes com atendimento especializado. Os resultados obtidos com os professores da Universidade Federal do Maranhão, em relação à operacionalização de práticas pedagógicas inclusivas fazem lembrar os estudos de Pinheiro (2003) ao verificar que ideologicamente os professores apresentam atitudes sociais mais favoráveis à inclusão do que nos termos operacionais e, que isso pode ocorrer devido às muitas discussões que estão ocorrendo acerca do paradigma da inclusão, mas são as ações sociais que demonstram as atitudes, as crenças e os sentimentos das pessoas (KRECK; CRUTCHFIELD; BALLACHEY, 1969). Sabe-se que o processo de inclusão não depende somente de atitudes favoráveis, visto que existem várias implicações e dificuldades de ordens operacionais que impedem a operacionalização dos princípios da inclusão, mas sabe-se também que muitas dessas implicações e dificuldades derivam de atitudes desfavoráveis por parte de pessoas que poderiam favorecer a concretização de tais princípios. Verificou-se que os professores de alunos com deficiência não se sentem mais preparados para trabalhar com alunos com deficiência em relação aos professores sem alunos com deficiência em sala de aula, visto que ambos os grupos de professores têm consciência de que precisam se qualificar para o 65 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 processo ensino-aprendizagem de alunos com necessidades educacionais especiais. A maioria dos professores de alunos com deficiência demonstrou ter consciência de que, apesar de terem bom relacionamento com os alunos com deficiência e acharem que estão sabendo avaliar suas aprendizagens, não se encontram preparados para o atendimento educacional especializado a eles, visto que suas metodologias não estão adequadas às necessidades educacionais desses alunos, não fizeram nenhuma adequação curricular, bem como não se sentem preparados para a mediação necessária para o acesso ao conhecimento acadêmico aos alunos com deficiência na Universidade. A maioria dos professores sem alunos com deficiência em sala de aula, também demonstrou ter as mesmas opiniões dos professores de alunos com deficiência. Se vierem a ter alunos com deficiência em sala de aula na Universidade, não estarão preparados para o atendimento de suas necessidades educacionais especiais. 4 Conclusão Imposições por Lei garantem o acesso de pessoas com deficiência nas instituições de ensino e no mercado de trabalho. Todavia, é importante verificar quais as condições de permanência oferecidas por essas instituições. Neste estudo analisaram-se em específico as opiniões de docentes e discentes da Universidade Federal do Maranhão em relação à inclusão de alunos com deficiência na Educação Superior. O acesso dos alunos com deficiência na Educação Superior não depende diretamente do querer ou não querer do professor. Mas, uma vez inserido em uma instituição de ensino, o desempenho educacional desse aluno, bem como seu comportamento diante do processo ensino-aprendizagem, podem depender de como será recebido em sala de aula por seus colegas e professores. Nas perguntas opinativas encontraram-se respostas mais favoráveis à inclusão por parte de todos os participantes, mas em relação às perguntas que dizem respeito às questões de natureza mais operacional como as de capacitação docente, de recursos especializados, acessibilidade, as respostas foram mais desfavoráveis. A chegada de aluno com deficiência em sala de aula provoca no docente, preocupações variadas, pois nem sempre ele se encontra preparado ou com 66 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 formação adequada para mediar o processo de ensino aos alunos com características de aprendizagem diferenciadas, suas metodologias podem não possuir adequações ao ensino do aluno com necessidade educacional especial e, cria uma situação do não saber como agir, diante dos direitos desse aluno, e de quais são os seus deveres de professor para com este. Enfim, muitos são os dilemas que carecem de solução, e as Instituições de Ensino Superior se encontram no meio de muitos desafios a serem superados nesse contexto histórico-social, dentre os quais, o acesso e a permanência temporária de alunos com deficiência na Educação Superior. Conclui-se que, os professores da Universidade Federal do Maranhão aceitam a inclusão dos alunos com deficiência na Educação Superior, no aspecto ideológico, mas quanto à operacionalização das práticas pedagógicas visando garantir a permanência com êxito desses alunos na instituição, suas atitudes já não são tão favoráveis. Referências BOLONHINI JUNIOR, Roberto. Portadores de necessidades especiais: as principais prerrogativas dos portadores de necessidades especiais e a legislação brasileira. São Paulo: ARX, 2004. BRASIL. Ministério da Educação. Portaria nº 3.284 de 7 de novembro de 2003. 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Trata-se do aprendizado de outra cultura, que emerge a partir do 24 Este ensaio é parte das discussões que estão sendo desenvolvidas pelo primeiro autor em sua pesquisa de 25 Aluno do Programa de Mestrado strictu senso em Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Londrina. mestrado. Desenvolve pesquisa na área de Formação de Professores de Língua Inglesa e Transtornos Globais do Desenvolvimento, com foco na Síndrome de Asperger. Email para contato: [email protected] 26 Doutora em Estudos da Linguagem pela Universidade Estadual de Londrina e Docente do Departamento de Letras Estrangeiras Modernas da Universidade Estadual de Londrina. Atua no programa de Mestrado em Estudos da Linguagem orientando pesquisas com foco em Formação de Professores e ensino de Língua Inglesa para Crianças e Formação de Professores e ensino de Língua Inglesa para Indivíduos com Necessidades Educacionais Especiais. Email para contato: [email protected] 27 Segundo Schlatter e Garcez (2009), o termo língua adicional vem sendo usado em lugar do termo língua estrangeira por enfatizar “o acréscimo que a disciplina traz a quem se ocupa dela, em adição a outras línguas que o educando já tenha em seu repertório” (p.127), sendo necessário desestrangeirizarmos o ensino de Língua Inglesa e ampliar nossos horizontes, pois esta língua adicional perpassa as múltiplas relações da sociedade. Para maiores detalhes sobre esta discussão conferir o texto SCHLATTER, M; GARCEZ, P. M. Línguas Adicionais (Espanhol e Inglês). In: Rio Grande do Sul, Secretaria de Estado da Educação, Língua inglesa como língua adicional: cultura e contextos 101 Departamento Pedagógico. (Org.). Referencias curriculares do Estado do Rio Grande do Sul: linguagem, códigos e suas tecnologias. Porto Alegre: Secretaria de Estado da Educação, Departamento Pedagógico, 2009, v. 1, p. 127-172. 70 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 momento em que se engaja na tarefa de aprender o novo idioma” (VIAN JR., 2012, p. 8). Devido a esse papel social que o aprendizado de uma língua adicional, neste caso, o da língua inglesa, representa para e na formação do indivíduo, Rocha e Tonelli (2013) apontam que: “Com o frequente e crescente processo de inclusão de alunos com necessidades educacionais especiais na rede estadual de ensino - o que contribui para um ambiente multifacetado de ensino - passamos a refletir sobre a atual formação dos alunos-professores de LI e também dos demais profissionais envolvidos na formação e educação destes aprendizes, em especial os alunos autistas, no contexto regular de ensino”. (ROCHA; TONELLI, 2013, p.5) Assim, pensar a formação de futuros professores, neste caso, futuros professores de língua inglesa (LI), para atender as demandas de nossa sociedade atual, como a inclusão e integração de alunos com Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD) no ensino público regular, se faz necessário. Tal medida se faz necessária, não apenas porque estes alunos agora estão incluídos no ensino regular de educação, mas sim porque estes merecem e necessitam de profissionais capacitados para que possa haver, efetivamente, um bom desenvolvimento no processo de ensino e de aprendizagem. Do nosso ponto de vista, a formação inicial e continuada de professores precisa contribuir para que estes alunos tenham acesso e participação no mundo globalizado em que vivemos e para que estes tenham plenas condições de exercer seu papel de aprendiz crítico durante todas as suas fases de aprendizado. Contudo, como fazer isto haja vista as inúmeras demandas sociais que a escola atual enfrenta e a falta de espaço para alocar todas as disciplinas necessárias para a formação de professores de LI que sejam reflexivos e aptos para atuar em diversos contextos, além da insuficiente estrutura escolar que os professores dispõem para desenvolver o seu trabalho? Esta indagação suscitou o nosso desejo de investigar como todos esses fatores, em especial, a formação e preparação de futuros professores de LI pode contribuir para a inclusão e integração efetiva de alunos com TGD em todos os níveis de ensino. 71 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Portanto, neste ensaio, procuramos discutir como o (re)pensar a formação curricular de professores de LI pode contribuir para aprimorar o ensinoaprendizagem de alunos com TGD, desde a educação infantil até a sua chegada ao ensino superior, suas contribuições para a inclusão destes alunos no mundo globalizado e a formação de cidadãos críticos. MÉTODO Este ensaio é parte da pesquisa, em desenvolvimento, de mestrado do primeiro autor. Assim, este artigo ancora-se em reflexões críticas sobre a literatura produzida na área. DISCUSSÃO Como é defendido em Tonelli (2012) o ensino e aprendizagem de línguas estrangeiras (LEs) e, mais especificamente o de LI, vem cada vez mais assumindo lugar de destaque nas práticas educacionais no contexto de ensino brasileiro. Apoiada em Gimenez (2005), Graddol, 2006; Rajagopalan, 2005, dentre outros, a pesquisadora ressalta que “(...) uma das justificativas para o fortalecimento desse quadro repousa no fato de que o poder econômico e a tecnologia cada vez mais acessível fazem dessa língua um instrumento fundamental para a participação social em nível global” (TONELLI, 2012, p. 21) Moita Lopes (2005) chama a atenção para o fato de que a aprendizagem da língua inglesa se transformou em um dos núcleos centrais da educação contemporânea e que o acesso a essa língua é também uma forma de ‘ampliação de oportunidades sociais’. Este mesmo autor (2005) aponta para o fato de que o ensino de LEs tem sido atualmente apontado como uma forma de inclusão social, o que, naturalmente, nos expõe aos mais diferentes tipos de aprendizes (SCHNEIDER; CROMBIE, 2003; NIJAKOWSKA, 2010). Rocha e Tonelli (2013) corroboram o pensamento deste autor e enfatizam que “Nesse contexto, profissionais da área de ensino de línguas se deparam com alguns desafios, dentre os quais, ensinar LEs para alunos com dificuldades de aprendizagem” (ROCHA; TONELLI, 2013, p. 2). Devido a isso, 72 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 ao ensino de língua inglesa, e aqui incluímos todas as demais línguas, é conferido um papel importante no ensino-aprendizagem, a saber, o de poder ampliar as oportunidades sociais do indivíduo. Contudo, como mostram Dall'Acqua e Vitaliano (2010): "Nos últimos anos temos visto, em termos numéricos, a ampliação da abrangência do atendimento escolar à maioria da população, especialmente no ensino fundamental, no entanto, este aumento substancial de alunos não veio acompanhado da possibilidade de lhes oferecer, efetivamente, uma educação de qualidade "(pág 19) Assim, a expansão da oferta de educação para a população, ocorrida com grande rapidez, além de impulsionar o processo de inclusão, fez com que, como é mencionado no trecho acima, a possibilidade de oferecer uma educação de qualidade aos alunos inseridos no contexto público de ensino ficasse a margem dos planos de muitos governos. Acreditamos que esta realidade não se concentra apenas no ensino inicial e básico de ensino, mas também no ensino superior, pois o tema inclusão ainda se faz novo no cotidiano de muitos professores, sejam eles da educação inicial, básica ou do ensino superior. A falta de qualidade no ensino oferecido aos alunos nos remete a um estudo realizado com professores por Beyer (2003). Este autor constatou que professores se julgam na maioria das vezes: “[...] despreparados para atender alunos com necessidades educacionais especiais: falta-lhes a compreensão da proposta, a formação conceitual correspondente, a maestria do ponto de vista das didáticas e metodologias e as condições apropriadas de trabalho[...]. Os professores já em experiência de educação inclusiva mostram níveis preocupantes de stress, [...] principalmente devido à inexistência de uma formação anterior visando à capacitação para o ensino desse alunado.” (pág 1-2) Tais constatações se justificam, pois, grande parte dos cursos de licenciatura, incluindo o de Letras/Inglês oferece pouco ou nenhum preparo para que os futuros professores possam atuar neste contexto. Isso se deve ao fato da expansão do acesso a educação, como já mencionado, ao processo de inclusão e a nova realidade causada pela junção destes três 73 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 processos que influenciam diretamente a prática dos professores de LI. Sendo assim, (re)pensar a formação oferecida aos futuros professores de LI precisa englobar a nova realidade, como a presença de alunos com necessidades educacionais especiais (NEE) na sala de aula regular, vivenciada por estes profissionais e a influência que todos estes fatores trazem a sua prática docente, pois como argumenta Cartolano (1998): [...] parte integrante da formação dos profissionais da educação em geral [...]”. E, dado nosso momento histórico, temos que formar “o professor qualificado, o profissional preparado para lidar com o aluno, seja ele ‘normal’ ou ‘deficiente’ (p.29-30) Sendo assim, é direito daquele que escolhe ser professor receber formação adequada e que o possibilite a atuar e transformar sua prática docente e sua realidade diária, independentemente do contexto em qual atue. Por isso, apontamos a necessidade dos cursos de formação de professores de LI (re)pensarem seus currículos para a formação de futuros profissionais formados de acordo, e para suprir, com as demandas da sociedade de sua época. Assim, apontamos que é necessário valorizar o professor reflexivo, que vê em sua prática e realidade motivos para transformar e se transformar. CONCLUSÃO Assim como apontado por Beyer (2003), Rocha e Tonelli (2013) também enfatizam a falta de preparo de professores e profissionais ligados ao ensino de LI à alunos com TGD. Mudar esta realidade pressupõe, entre outras ações, a reformulação das grades curriculares dos cursos de letras/LI, para que os futuros professores possam experenciar esta nova oportunidade de atuação profissional, a saber, o ensino de LI para alunos com TGD. Assim, (re)pensar a formação concedida aos futuros professores de LI não implica apenas na melhoria do ensino e aprendizagem de alunos com NEE ou a criação de novas metodologias para este ensino, mas implica também na oportunidade para tornar o ensino-aprendizagem, efetivamente, um meio para a transformação desta nova realidade vivenciada por estes profissionais e a integração destes aprendizes em todos os níveis de ensino. Tal oportunidade, a saber, (re)pensar a formação oferecida aos futuros professores de LI, “se revela como uma excelente opção para que os futuros 74 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 profissionais desta área estejam cada vez mais aptos a lidar com as variadas e complexas questões relativas à sua prática profissional” (ROCHA; TONELLI, 2013, p.5), como o é o ensino de LI a indivíduos com NEE, pois estas se apresentam como oportunidades para: 1) a inovação no ensinoaprendizagem de LI, 2) a construção de uma sociedade mais justa e 3) o crescimento profissional. Portanto, como apontam Vitaliano e Manzini (2010): “Um aspecto, que segundo nossa perspectiva, é essencial na formação do professor para promover a inclusão, é o desenvolvimento de uma análise crítica das condições de organização das escolas, de todos os níveis de ensino, sua estrutura, seu currículo, seu sistema de avaliação, critérios de aprovação e reprovação, valores e crenças presentes em seu cotidiano. Levando em conta que, em nosso país, a política educacional inclusiva foi imposta num contexto de escola organizado para promover a exclusão dos alunos com NEE. Desta forma, é fundamental que o processo de formação possibilite identificar os mecanismos escolares que geram a exclusão, bem como conhecer os processos que favorecem a organização de uma escola inclusiva, especialmente nos aspectos referentes à gestão escolar, à organização curricular e à avaliação de desempeno (VITALIANO; MANZINI, 2010, p.53) Mediante tais considerações, reiteramos a urgência de que os professores de LI tenham, já na formação inicial, a possibilidade de conhecerem com mais profundidade as principais características dos processos de ensino e aprendizagem de alunos com NEE incluindo os TGD para que possam atuar de forma consciente e promover uma aprendizagem mais significativa. O domínio de uma LA, no caso aqui exposto da LI, deixou de ser uma opção e passou a ser em um mundo altamente globalizado, uma necessidade. Não possibilitar a alunos com TGD o contato formal da LI como LA, em nossa concepção, é reforçar a exclusão que por muitos anos marcou a vida de nossos alunos, impedindo-os de atuarem no mundo. Por isto, reforçamos aqui a importância da formação de professores de LI para que o ensino desta língua atinja, efetivamente, seu objetivo maior: fazer uso desta língua para emancipar aqueles que dela se apropriam. 75 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BEYER, H. O. Inclusão e avaliação nas escolas: de alunos com necessidades educacionais especiais. 2 ed. Porto Alegre: Mediação, 2006, 128p. CARTOLANO, M. T. P. Formação do educador no curso de pedagogia. Cadernos Cedes, v.19, n.46, p.29-40, set., 1998 GIMENEZ, T. (Org.). Contribuições na área de línguas estrangeiras. Londrina: Moriá, 2005. GRADDOL, D. English Next. Plymouth: British Council. 2006. MOITA LOPES, L. P. 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As aproximações que englobam as instituições de ensino superior e ensino regular, sendo que esta última representa um campo de estágio supervisionado, requerem procedimentos desenvolvimentistas que consigam propiciar o crescimento de saberes dos professores, favorecendo, dessa maneira, a constituição da profissionalidade do novo educador, sustentada em estudos e pesquisas envolvendo os alunos da educação básica. A prática pedagógica não precisa, de modo obrigatório, ser entendida e desenvolvida pelo professor, como uma atividade isolada e fora de contexto. Ela precisa, sim, ser fundamentada em teorias e práticas ligadas à criação e construção da emancipação social das pessoas envolvidas no desenvolvimento do ensino. Neste capítulo serão apresentadas algumas acepções que envolvem a formação continuada do professor de Geografia, bem como algumas questões referentes aos Saberes Docentes, em função da prática da Educação Especial, com o objetivo de refletir acerca das necessidades Universidade Estadual de Londrina [email protected]/ [email protected] 28 [email protected] 78 e Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 educacionais especais – NEE dos alunos portadores de alguma deficiência, fazendo da Geografia Escolar parte essencial do processo de inclusão. Acepções conceituais: integração ou inclusão? De acordo com o Dicionário Eletrônico Houaiss da Língua Portuguesa, versão 3.0, 2009, integrar significa “[...] incluir(-se) [um elemento] num conjunto, formando um todo coerente; incorporar(-se), integralizar(-se)”, e incluir “[...] pôr dentro de; fazer constar de; juntar(-se) a; inserir(-se), introduzir(se)”; contudo, os sub-tópicos seguintes mostram que estes dois conceitos são mais amplos na questão da Educação Especial do que, inicialmente, se pensa. (Figura 1). Figura 1 – Modelos de Exclusão, Segregação, Integração e Inclusão Escolar Fonte: NOVAES, 2014. a) A Integração O fundamento da integração direcionou por muitos anos a vocação para a concretização da Educação Especial, sendo um desenvolvimento que visa, especialmente, a integração do aluno à escola, propiciando situações favoráveis para que o aluno com necessidades especiais seja admitido e atendido de acordo com as condições a ele oferecidas. Nessa situação, ao invés de a escola ter que se adaptar ao aluno, ele é que precisa se adequar à escola, isto é, seguir suas determinações. 79 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Até pouco tempo o modelo pedagógico desenvolvido e aplicado na educação de alunos com NEE era o Modelo Integracionista. Conforme opinião de Glat (1991, p. 26) a integração é “um processo espontâneo e subjetivo, que envolve direta e pessoalmente o relacionamento entre seres humanos”. Já Rodrigues (2006, p. 3), “a integração pressupõe uma ‘participação tutelada’, uma estrutura com valores próprios aos quais o aluno ‘integrado’ se tem que adaptar”. A verdadeira integração educativo-escolar está ligada diretamente ao processo de educar-ensinar, simultaneamente, em conjunto, crianças com e sem necessidades especiais durante uma parte ou integralmente o tempo que os alunos permanecerem na escola (BRASIL, 1994). Rodrigues (2006, p. 3) afirma, ainda, que “quando se fala de escola integrativa trata-se de uma escola em tudo semelhante a uma escola tradicional, em que os alunos com deficiência (os alunos com outros tipos de dificuldades eram ignorados) recebiam um tratamento especial”. A aplicação desse modelo ignora a questão da diferença, pelo fato de que o aluno especial é aceito no conjunto escolar como qualquer outro, não sendo levadas em consideração prováveis diferenças presentes para seu crescimento educativo. Conforme declaração de Pereira (1980, p. 3), integração “é fenômeno complexo que vai muito além de colocar ou manter excepcionais em classes regulares. É parte do atendimento que atinge todos os aspectos do processo educacional”. Atualmente, pode-se afirmar que a própria construção da humanidade reproduz diferenças. Esse processo tem uma grande importância para a convivência tão necessária entre as pessoas e para a inclusão dos alunos nas instituições escolares. É interessante desenvolver a capacidade de percepção e reconhecimento das diferenças e assim aprender a lidar com essas pessoas, já que sabemos que mesmo entre os alunos considerados “normais”, são percebidas diferenças no desenvolvimento de aprendizagem. Citando novamente Rodrigues (2006, p. 4) “o certo é que não só os alunos são diferentes, mas os professores são também diferentes, e ser diferente é uma característica humana comum, e não um atributo (negativo) de alguns”. Sassaki (1997, p. 32), destaca que no processo integrativo “a sociedade em geral ficava de braços cruzados e aceitava receber os portadores de deficiência desde que eles fossem capazes de moldar-se aos tipos de serviços que ela lhes oferecia; isso acontecia inclusive na escola”. 80 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Nesse processo pedagógico é fácil notar a separação dos alunos que não conseguem se ‘encaixar’ no ensino ofertado na escola regular. Esse tipo de instituição escolar não mede esforços no objetivo de adaptar o aluno com NEE à escola regular, sem, no entanto, criar situações que favoreçam para a questão da sua autonomia com o fim de emancipá-lo, sem provocar, positivamente, o seu senso crítico e trabalhar de modo construtivo uma ação reflexiva tanto dos alunos considerados sem deficiência quanto dos deficientes. Conforme afirmação de Mantoan (1997, p. 120) “a normalização visa tornar acessível às pessoas socialmente desvalorizadas as condições e os modelos de vida análogos aos que são disponíveis, de modo geral, ao conjunto de pessoas de um dado meio ou sociedade”. b) A Inclusão E Escola Inclusiva De acordo a opinião de Glat e Fernandes (2005, p. 8) “a educação de alunos com necessidades educativas especiais, que tradicionalmente se pautava num modelo de atendimento segregado, tem se voltado nas últimas duas décadas para a Educação Inclusiva”. Essa deve ser a nova proposta para a educação, e nela as instituições convencionais recebem alunos que compõem toda a diversidade de pessoas diferentes em nossa sociedade e, ainda, os possuidores de NEE. A Educação Inclusiva possui a capacitação necessária de identificar as exigências da espécie humana e isso favorece o desenvolvimento de seu trabalho dentro da escola, oferecendo aos alunos com NEE recursos importantíssimos e necessários na sala de aula regular. Nesse sentido, Stainback e Stainback (1999, p. 21) reconhecem que: A educação inclusiva pode ser definida como “a prática da inclusão de todos” – independente de seu talento, deficiência, origem socioeconômica ou cultural – em escolas e salas de aula provedoras, onde as necessidades desses alunos sejam satisfeitas. Sobre o mesmo assunto, Glat e Fernandes (2005, p. 9) afirmam que [...] no entanto, em que pese o crescente reconhecimento da Educação Inclusiva como norma 81 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 prioritária de atendimento a alunos com necessidades educativas especiais, na prática esse modelo ainda não se configura em nosso país como uma proposta educacional amplamente difundida e compartilhada. Embora nos últimos anos tenham sido desenvolvidas experiências promissoras, a grande maioria das redes de ensino carece das condições institucionais necessárias para sua viabilização. Numa análise mais profunda, é possível perceber que a escola regular esteve preparada para aceitar e receber a diversidade de alunos, mas para a padronização conseguir atingir os objetivos educativos daqueles reconhecidos como incluídos nos padrões de “normalidade” (IMBERNÓN, 2000). De conformidade com o pensamento de Mantoan (2002), as crianças dependem da escola para aprender e não para passar o tempo, sentindo-se perdida em salas especiais e atendimento diferenciado desenvolvido separadamente. Além disso, o autor afirma que priorizar a qualidade do ensino regular, representa um desafio a ser enfrentado e superado por todas as pessoas envolvidas no crescimento educativo. O autor defende, também, que a “a inclusão escolar remete a escola a questões de estrutura e de funcionamento que subvertem seus paradigmas e que implicam um redimensionamento de seu papel para um mundo que evolui a bytes”. (MANTOAN, 2002, p. 19). Faz-se importante entender que a inclusão não deve ser considerada como um processo que valoriza apenas um lado, mas que deve aproximar duas situações, trabalhando de maneira adequada junto à pessoa com NEE e ao mesmo tempo desenvolvendo atividades ligadas à sociedade, favorecendo a convivência com as diferenças no aprendizado das ligações interpessoais, qualidade essencialmente necessária na democracia e formação do cidadão. Por essas razões se faz importante discutir a relação entre os saberes docentes e a prática da formação continuada de professores de Geografia, como meio de direcionar a práxis pedagógica do educador em função dos conteúdos geográficos. Algumas considerações acerca dos saberes docentes 82 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Com referência aos professores, pode-se afirmar que o conhecimento deles está diretamente vinculado à sua identidade, sua prática vivida, suas atividades profissionais, ao seu envolvimento com os alunos nas atividades escolares e com todas as pessoas envolvidas no ambiente educacional. Nesse sentido, o conhecimento dos educadores pode ser considerado como um saber social, mesmo dependendo deles como profissionais individuais inteiramente focados numa determinada atividade. Pelo fato de ter sua ação compartilhada por um conjunto de agentes o seu conhecimento é social. Isso se confirma porque suas próprias finalidades são vistas como objetos sociais, ou seja, atividades sociais; demonstram a história das disciplinas, organizações das matérias, projetos, elaborações e próprias experiências educacionais, já que como se sabe, todo ensinamento transmitido pelos professores evolui com o tempo e as transformações sociais, e por ser reproduzido no conjunto de uma socialização profissional (TARDIF, 2002). Conforme afirmação de Tardif (2002), as ligações que se constituem por meio desses conhecimentos, são relações sustentadas numa confluência com saberes diversificados (pedagógicos, curriculares, práticos) e que são fundamentados tanto na sociedade, como na instituição escolar e dos demais profissionais ligados à educação. Desse modo, as relações originadas por meio das ligações existentes entre os professores e os diferentes conhecimentos são, portanto, relações com grupos sociais. Os trabalhos e pesquisas reproduzidos com referência docente, possibilitam entendê-la como sendo uma atividade social, complexa, compreendida numa vinculação sustentada entre a atividade que a pessoa está envolvida e os contextos dos quais está submetida. Esse pensamento voltado à atividade docente se fundamenta no pressuposto de que o currículo, demonstrado na atividade dos professores, não tem seu princípio numa ação única, mas na vinculação de experiências diversificadas. Isso é confirmado em pesquisa publicada por Sacristán (2000, p. 26): O currículo acaba numa prática pedagógica [...]. Sendo a condensação ou expressão da função social e cultural da instituição escolar, é lógico que, por sua vez, impregne todo tipo de prática escolar. O currículo é o cruzamento de práticas diferentes e se converte em configurador, por sua vez, de tudo o que podemos 83 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 denominar como prática pedagógica nas aulas e nas escolas. No entanto, compreender os conhecimentos dos educadores, demonstrados no desenvolvimento da concretização do entendimento escolar, exige muita atenção às experiências político-curriculares que se manifestam em seu crescimento, pois como se sabe, na atividade educacional, diferentes tipos de conhecimentos e atividades estão envolvidos, reproduzidos em ações, podendo ser de natureza política, administrativa, de revisão, de construção de recursos, de avaliação, enquanto subsistemas, podendo ser liberais ou dependentes, ocasionando diversas possibilidades envolvidas à ação educação. (SACRISTÁN, 2000). Tudo isso proporciona entender que os conhecimentos e a experiência pedagógica docente precisam ser compreendidas conjuntamente às situações que se apresentam. Como o objeto que está sendo estudado são os conhecimentos que capacitam os educadores envolvidos na organização do ensino/aprendizagem e sabendo que toda experiência pedagógica se desenvolve em torno de um currículo no qual se entrelaçam muitas atividades, isso possibilita entender que, na elaboração do currículo, professores, alunos, pais, enfim, todos os envolvidos nessa ação, podem ser considerados sujeitos. Contudo, o professor é um dos profissionais mais importantes, um dos agentes ativos nesse processo, podendo-se afirmar que “o currículo molda os docentes, mas é traduzido na prática por eles mesmos - a influência é recíproca” (SACRISTÁN, 2000, p. 164). Dessa maneira, admite-se nessa pesquisa ser o professor o mediador do currículo que se constrói, na atividade pedagógica, direcionado por uma rede de conhecimentos e experiências vivenciadas no dia a dia. Nesse sentido, corroboram-se neste espaço os estudos de Sacristán (2000) que aceita o professor como um árbitro que se coloca entre o aluno e o conteúdo, admitindo a importância de se valorizar nas pesquisas os conhecimentos dos professores, as situações legais, o grau de experiências que o professor possui, os valores atribuídos ao currículo em geral. Desse modo, principiando pelos papéis possíveis e conhecidos do professor mediante o desenvolvimento de um currículo determinado ou frente à constatação de uma ação inovadora, podem ser identificados, com base nos 84 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 pensamentos de Sacristán (2000) os papéis do professor, classificados em três posições, conforme o “nível de liberdade profissional”: a) De Imitação-manutenção. Nesse, os professores são fiéis seguidores dos livros-didáticos, como guia, acreditando-se que tenham aptidões para a realização das tarefas determinadas, sempre obedecendo a um padrão específico, isto é, uma função à serviço da prática estabelecida ou à criação de qualquer outro modelo; b) Mediador. O professor trabalha na adequação dos materiais, dos currículos e/ou das inovações nas possibilidades reais que se apresentam para a realização do seu trabalho; c) Criativo-gerador. Nesse nível, ele juntamente com seus colegas planeja sobre o que fazer, buscando identificar os problemas e desenvolvendo condições de trabalho, caracterizando, dessa maneira o professor que desenvolve seu ofício centrado no esquema de pesquisa na ação. Sacristán (2000), ao definir o professor como um mediador, indica que devemos analisar os conhecimentos docentes e a experiência pedagógica na vinculação com os conhecimentos escolares, tendo como princípio uma base triangular da práxis pedagógica, que pode ser esclarecida da seguinte forma: a) Valores: O professor possui valores assimilados exclusivamente no período de sua formação. Além desses, há também os adquiridos pelas suas experiências seguidas e diversificadas sobre diferentes aspectos, como conteúdos, habilidades, orientações metodológicas, pautas de avaliação etc., pelos quais qualquer ação inovadora que se apresenta pode modificar seu modo de percepção, os mecanismos de segurança pessoal e até mesmo o próprio auto-conceito dos professores; b) Experiência: A vinculação necessária entre os significados e aplicações práticas do professor (submetidos por sua formação e experiência); e, c) Ideias: As possibilidades da prática na qual desenvolve seu papel e as ideias inovadoras reproduzem um espaço-problema do qual se originam soluções ou atividades do professor, que são resultantes ou obrigações favoráveis a um extremo ou outro desse triângulo. Em decorrência dessa situação, na reprodução desse triângulo de investigação, situa-se em sua base o conhecimento escolar, já que esse saber resume, coordenando todo esse processo da atividade pedagógica que 85 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 se transforma numa realidade de uma situação de trabalho com suas leis, regras e fórmulas de realização. Os conhecimentos docentes e a experiência pedagógica devem estar especialmente vinculados, pois sabe-se que é no crescimento da experiência docente que uma ação especializada é elaborada, construída e reconstruída pelo professor, fundamentada numa atividade dinâmica ao ensinar. Ao apresentarem uma atividade docente, os professores conseguem desenvolver suas aptidões teóricas e práticas. Os conhecimentos assimilados pelos professores, tão importantes à sua atividade profissional, constroem um amplo conjunto de saberes decorrentes de várias situações, como as propiciadas pelos programas escolares, pelos livros didáticos e pelas matérias ministradas, por exemplo. Tardif (2002) reproduz esses conhecimentos em quatro categorias, definidas dessa maneira: saberes disciplinares, saberes curriculares, saberes profissionais e saberes experienciais. Essas explicações de Tardif (2002) são divididas e apoiadas por Borges (2004, p. 26). Ele defende que “os professores não se apóiam em um saber para ensinar, mas em vários”. Contudo, Tardif (2002) relembra uma interessante distinção envolvendo os conhecimentos adquiridos no campo da experiência docente e os demais – decorrentes das organizações formadoras ou dos programas curriculares – que são assimilados na prática. Referente ao assunto, Tardif (2002, p. 39) declara que: Os docentes, no exercício de suas funções e na prática de sua profissão, desenvolvem saberes específicos, baseados em seu trabalho cotidiano e no conhecimento de seu meio [...] os quais brotam da experiência e são por ela validados. Nesse mesmo estudo, o autor afirma, também, que os conhecimentos profissionais podem ser equiparados ao conjunto de conhecimentos proporcionados pelas instituições incumbidas do crescimento profissional dos professores, e que eles, durante o desenvolvimento do processo de formação acadêmica, se envolvem com as ciências da educação e os conhecimentos adquiridos, que se transformam nos conhecimentos que se reproduzem na capacitação científica dos professores. Quanto aos conhecimentos disciplinares, pode-se afirmar que são captados pela prática docente, com origem nas diversas disciplinas ofertadas pelas 86 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 universidades no período de formação de professores. Citando mais uma vez Tardif (2002, p. 38), ele esclarece que “os saberes das disciplinas emergem da tradição e dos grupos sociais produtores de saberes”. Acerca dos saberes curriculares, estes se baseiam nos programas escolares – objetivos, conteúdos, métodos – que os professores utilizam no período de sua formação e acabam aplicando nas suas atividades. Tardif (2002, p. 38) afirma, ainda, que “correspondem aos discursos, objetivos, conteúdos e métodos a partir dos quais a instituição escolar categoriza e apresenta os saberes sociais por ela definidos e selecionados como modelos da cultura erudita e de formação na cultura erudita”. Sendo assim, é importante que o professor tenha domínio do programa, favorecendo, assim, o controle de sua atividade e dessa forma atingir os objetivos almejados. Esse mesmo autor define como importantíssimo para a profissão, os conhecimentos adquiridos na experiência cotidiana. São práticas que os professores adquirem, ordenadamente, agrupando-as à sua atividade própria ou de maneira conjunto, facilitando a reprodução de habilidades de saber-fazer e de saber-ser. Tardif (2002, p. 39) considera, ainda, que são “saberes que brotam da experiência e são por ela validados”. Ele menciona que os saberes demonstrados pelos professores são plurais, heterogêneos, pois representam no próprio crescimento do trabalho, conhecimentos e manifestações do saber-fazer e do conhecimento que diferentes fontes proporcionam, envolvendo saberes, competências, aptidões e as atitudes dos docentes no campo profissional, que de alguma forma ocasionam transformações e, consequentemente, novas condutas e reorganizações, possibilitando classificar o conjunto de saberes. Considerando a formação continuada como ação e reflexão, é preciso esclarecer que a práxis pedagógica pode ser observada e definida com base na expectativa defendida por Marx, que vê a conduta humana, tanto teórica quanto prática, de compreensão e ação, como uma evolução da natureza e da sociedade, isto é, quando o raciocínio do homem consegue penetrar e atravessam as atividades verdadeiras, e assim se realiza a ligação definitiva que envolve a teoria e a prática. A formação continuada em educação especial para professores de geografia 87 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 A atividade docente deve ser desenvolvida, partindo da mediação recíproca, abrangendo a teoria e a prática, num contexto caracterizado pelo histórico político, social, econômico, cultural e pedagógico, já que o professor é também um cidadão, que deve estar envolvido e inteiramente sintonizado nos acontecimentos que movimentam a sociedade à qual pertence e se destaca pela sua participação ativa e efetiva. Assim, é possível entender que a formação continuada não é uma ação obrigatória somente ao professor, devendo ser entendida e desenvolvida num crescimento mais amplo, estimulado pelas instituições de ensino, como escola e universidade. A universidade deve empenhar uma função social, transferindo à sociedade o conhecimento nela reproduzido. Portanto, a abordagem da universidade com os professores e escola favorece a necessária troca de experiências, já que estes são promotores que estão envolvidos diuturnamente na vida escolar, podendo perceber e identificar com eficiência as falhas e as lutas da escola pública, devendo dessa forma colaborar com a universidade, orientando-a numa pesquisa que, possa, verdadeiramente, proporcionar uma realização social. Só assim será possível uma parceria na produção de conhecimentos. Faz-se necessário lembrar a importância do aprimoramento que o professor deverá adquirir na universidade, por meio das discussões contemporâneas que englobam novos ensinamentos e futuras aplicações desses saberes em suas atividades docentes, que certamente trarão benefícios à sua escola. Nesse sentido, vale destacar a questão liga a teoria e a prática, ou seja, da abordagem ininterrupta entre a realidade e a consciência entre o mundo e o entendimento do mundo, entre o agir e o pensar, entre a ação e a reflexão, enfim, do dinamismo da experiência humana (COUTO, 1998). Sabe-se que o professor, ao retornar à academia encontra-se diferentes e novos estudos envolvendo o conhecimento que está se realizando e pode se apropriar destes com maior capacidade, visto que os anos de docência proporcionaram a ele maior aptidão para entender o que está sendo estudado, podendo confrontar com aquilo que realmente pode ser adicionado em sala de aula e pela própria escola. Essa ação faz com que o professor, com mais experiência, conhecedor da atividade docente, possa dialogicizar com as instituições. Na opinião de Lastória e Moraes (2011), o homem vive hoje num envolvimento cultural demasiadamente complexo, e a escola, que até os anos de 1970/1980 era referência para aquisição de conhecimentos, hoje, 88 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 sozinha, não consegue atender a procura por informações, cada vez mais crescente. Outrora fontes de informações se juntaram às instituições escolares e hoje, revistas, jornais, emissoras de rádio, canais de televisão e, atualmente, de maneira muito mais ampla, a rede mundial de computadores – internet –, que consegue divulgar diariamente milhares de dados, e em muitas situações, até com maior capacidade que a própria escola. De modo geral, o papel da escola sofreu uma transformação importante e consequentemente envolveu também o Ensino da Geografia Escolar. Acervos e descrições já não são suficientes. Diante dessa situação é interessante investigar atentamente os dados informados acerca do espaço global, regional e local que são oportunizados e chegam às pessoas todos os dias, a todo o momento. É necessário lembrar, no entanto, que não basta saber verificar as informações. É importante que, de alguma maneira, o conhecimento adquirido referentemente ao espaço se traduza em um saber voltado à população, podendo ser aproveitado nas atividades cotidianas, ou seja, adaptada à capacitação do cidadão na busca por seus direitos e deveres. Essas invocações teóricas começaram a ser plantadas por volta dos anos de 1990, com novas ofertas de ensino que notabilizou-se pela necessidade de valorizar o conhecimento do aluno e a sua realidade, considerando-o como protagonista do desenvolvimento do ensino-aprendizagem, transferindo as informações científicas em assuntos didaticamente perceptíveis pelos alunos, sempre atentas à sua idade, seu nível de crescimento intelectual e situações socioeconômicas, podendo o professor com sua capacidade investigativa adaptá-las ou conservá-las conforme a necessidade. Especialmente no conjunto que engloba a Geografia Escolar, na primeira década do século XXI, Cavalcanti, 2010, afirma que pesquisadores e professores brasileiros indicaram nove tipos de abordagens para a prática de ensino: 1) O lugar como referência no estudo dos conteúdos geográficos; 2) A multiescolaridade na abordagem dos fenômenos geográficos de ensino; 3) Efetivação de conceitos geográficos construtores do pensamento espacial; 4) Crescimento da capacidade de leitura e levantamento da realidade por meio da linguagem gráfica e cartográfica; 89 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 5) Desenvolvimento da capacidade de trabalhar com linguagens “alternativas” no estudo da Geografia; 6) Abordagem crítica dos assuntos físico-naturais; 7) Referências ao conceito de ambiente e estudo acerca da ética ambiental; 8) Discussão de temas socialmente importantes; e 9) Colaboração significativa na construção da cidadania. Apesar de mencionarem debates teóricos comuns no meio acadêmico, essas propostas continuam inexistindo na maior parte das salas de aulas das escolas brasileiras. Nelas o Ensino de Geografia acontece de maneira veiculada por meio de assuntos massificadores (inclusos nos livros didáticos) quase sempre de forma desarticulada em relação a outros conteúdos escolares, inclusive com referência ao contexto local. O papel do professor de Geografia, enquanto profissional principal no desenvolvimento do ensino, também, não é levado em consideração. Dessa forma é possível afirmar que ainda existe um longo caminho a ser percorrido rumo à realidade das atividades escolares em nosso país, já que persiste uma enorme diferença quanto às práticas “sugeridas” e as que de fato são “exercidas” (LASTÓRIA; MORAES, 2011). As propostas institucionais que propiciam uma vinculação necessária entre os profissionais da escola básica e das instituições formadoras de professores de Geografia contribuem na concretização do crescimento educacional. A capacitação na formação continuada do professor de Geografia se modela numa estratégia para promover possibilidades para os educadores desenvolverem as competências e habilidades que servirão de apoio para conduzir a ação educacional dos alunos com possuidores NEE. O currículo de Geografia exige uma atenção especial, uma vez que para os educandos que não precisam de um atendimento educacional especial as dificuldades que se apresentam, naturalmente, são de maiores proporções e complexidade para os estudantes com NEE. Logo, faz-se necessário a Geografia Escolar se impor como disciplina que consiga dar respostas às NEE dos alunos, em função dos conteúdos geográficos. Para isso, os professores de Geografia precisam constantemente ser capacitados, a partir de uma formação continuada de qualidade, para atender adequadamente às necessidades educacionais dos estudantes. Reflexões finais 90 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 As categorias geográficas que remetem ao lugar, paisagem, espaço, território, sociedade, natureza e rede, assim como o conhecimento, a análise, a exposição dos mesmos precisam ser esclarecidos, visto que essa ciência favorece um entendimento do universo social atualizado, independente de qualquer grau ou nível de análise. Dessa maneira, as abordagens relativas ao crescimento educacional, especialmente ao papel exercido pela Geografia, proporcionam uma melhora na qualidade do ensino, tão necessária na construção da verdadeira cidadania dentro da sociedade. Por fim, torna-se evidente que esse aprimoramento requer uma aproximação das diferentes modalidades de ensino. Notadamente no caso da Educação Especial, pela urgência de uma formação continuada para professores de Geografia, possibilitando desta forma que esta disciplina escolar dê subsídios para que os alunos portadores de NEE tenham condições de exercerem suas ações enquanto cidadãos cônscios e críticos na comunidade em que vivem e vivenciam cotidianamente. REFERÊNCIAS BORGES, C. M. F. O professor da educação básica e seus saberes profissionais. Araraquara: JM Editora, 2004. BRASIL. MEC. Política Nacional de Educação Especial. Brasília: SEESP, 1994. BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade. 1 – A Fundamentação Filosófica. Brasília, 2004. CAVALCANTI, L. S. de Concepções teórico-metodológicas da geografia escolar no mundo contemporâneo e abordagens no ensino. In: SANTOS, L. L. C. P. et al. Convergências e tensões no campo da formação e do trabalho docente. Belo Horizonte: Autêntica, 2010. p. 368- 391. (Coleção Didática e Prática de Ensino). COUTO, C. Professor: O Início da Prática Profissional. Lisboa: Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa. 1998. 91 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 GLAT, R. Inclusão total: mais uma utopia? Revista Integração. Brasília: MEC/SEESP, Ano 8, n. 20, 1991. (pp. 26 – 28). GLAT, R. FERNANDES, E. M. Da Educação Segregada à Educação Inclusiva: uma Breve Reflexão sobre os Paradigmas Educacionais no Contexto da Educação Especial Brasileira. Revista Inclusão, nº 1, MEC/ SEESP. 2005. HOUAISS. Dicionário Eletrônico. Versão Monousuário 3.0. 2009. IMBERNÓN, F. Formação docente e profissional: formar-se para a mudança e a incerteza. São Paulo: Cortez, 2000. LASTORIA, A. C.; MORAES, L. B. de. A produção de práticas de ensino inovadoras por meio da ressignificação da Cartografia Escolar. In: Anais... XI ENCONTRO NACIONAL DE PRÁTICA DE ENSINO DE GEOGRAFIA - ENPEG, GOIÂNIA – GO, 2011. MANTOAN, M. T. E. Ser ou estar: eis a questão. Explicando o déficit intelectual. Rio de Janeiro: WVA, 1997. MANTOAN, M. T. E. Ensinando à turma todas as diferenças na escola. Pátio – Revista Pedagógica. Ano V, n. 20, fev./abr. 2002, p.18-23. PEREIRA, O. Educação Interamericana, 1980. Especial: atuais desafios. Rio de Janeiro: RODRIGUES, D. Inclusão e Educação: doze olhares sobre a Educação Inclusiva. S. Paulo. Summus Editorial. 2006. SACRISTÁN, J. G. O Currículo: uma reflexão sobre a prática. 3. ed. Porto Alegre; Artmed, 2000. SASSAKI, R. K. Inclusão: construindo uma sociedade para todos. Rio de Janeiro: WVA, 1997. STAINBACK, S.; STAINBACK, W. Inclusão: um guia para educadores. 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Petrópolis: Vozes, 2002. 93 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 O ATENDIMENTO AO DEFICIENTE EM CURSO SUPERIOR DE TECNOLOGIA Paulo Osni Silverio29 Introdução Entende-se como curso superior de tecnologia aquele adquirido por meio da educação profissional na modalidade do Ensino Superior que, conforme decreto nº 5.154 de 23 de julho de 2004: Art. 1o A educação profissional, prevista no art. 39 da Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional), observadas as diretrizes curriculares nacionais definidas pelo Conselho Nacional de Educação, será desenvolvida por meio de cursos e programas de: I - qualificação profissional, inclusive formação inicial e continuada de trabalhadores; II - educação profissional técnica de nível médio; e III - educação profissional tecnológica de graduação e de pós-graduação. E, segundo Parecer CNE/CES Nº 436/2001: “Os cursos superiores de tecnologia parecem ressurgir como uma das principais respostas do setor educacional às necessidades e demandas da sociedade brasileira.” (CNE/CES, 2001). Já a educação especial, segundo a LDB, é uma modalidade de educação escolar, oferecida preferencialmente na rede regular de ensino, para alunos com necessidades especiais. Quando necessária conta serviços de apoio especializado, na escola regular, para atender às peculiaridades. O atendimento educacional pode ser feito em classes, escolas ou serviços especializados, sempre que, em função das condições específicas dos 29 Paulo Osni Silvério, Especialista em Educação Especial. Avenida Mogi das Cruzes,1501, Suzano SP. Instituto Federal de Educação Ciência e Tecnologia de São Paulo- campus Suzano Email: [email protected] 94 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 alunos, não for possível a sua integração nas classes comuns de ensino regular. (BRASIL, 1996). Alunos com necessidades especiais são aqueles que possuem alguma deficiência e, segundo a Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência “é um conceito em evolução e que a deficiência resulta da interação entre pessoas com deficiência e as barreiras devidas às atitudes e ao ambiente que impedem a plena e efetiva participação dessas pessoas na sociedade em igualdade de oportunidades com as demais pessoas” (BRASIL, 2008) De acordo com a lei n.º 7.853, de 24 de outubro de 1989 “Ao Poder Público (...) cabe assegurar às pessoas portadoras de deficiência o pleno exercício de seus direitos básicos, inclusive dos direitos à educação (...) e de outros que (...) propiciem seu bem-estar pessoal, (...) inclusão, no sistema educacional, da Educação Especial como modalidade educativa que abranja (...) a habilitação e reabilitação profissionais” (art. 2º), portanto prevê educação profissional como princípio para o adolescente com necessidades especiais, tema principal desta pesquisa. A educação profissional garante o exercício da cidadania por meio da educação e formação profissional, além de possibilitar a qualificação que gerará uma oportunidade no mercado de trabalho. Para o deficiente o ensino profissionalizante garante, além do já citado, a inclusão social e a integração com a sociedade, pois propicia uma interação com atividades relevantes para a sociedade e sua participação no processo de produção. Segundo Santos (SANTOS, 2001), integração significa a inserção da pessoa deficiente preparada para conviver na sociedade enquanto a inclusão é a modificação da sociedade como pré-requisito para a aceitação da pessoa com necessidades especiais buscar seu desenvolvimento e exercer a cidadania Garante a inclusão, pois o indivíduo passou por um período de preparação especifica para a profissão. E integração, pois a partir do momento que ela exerce uma profissão ela está convivendo em sociedade. A presente proposta visa estudar, à luz da atual legislação, e dentro das práticas que acontecem dentro do campus Suzano do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo (IFSP) como é feito o atendimento do aluno deficiente dentro do curso Superior de Tecnologia, conhecido como “Superior Tecnólogo”. O IFSP Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de São Paulo – IFSP – é uma autarquia federal de ensino. Fundada em 1909, como Escola de Aprendizes Artífices, também, os nomes de Escola Técnica Federal de São 95 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Paulo e Centro Federal de Educação Tecnológica de São Paulo. Com a transformação em Instituto, em dezembro de 2008, passou a ter status de universidade, destacando-se pela autonomia. Com a mudança, o Instituto Federal de São Paulo passou a destinar 50% das vagas para os cursos técnicos e, no mínimo, 20% das vagas para os cursos de licenciatura. E para complementar, oferta cursos de formação inicial e continuada, Superior de Tecnologias, Bacharelados e pós-graduação. O IFSP é organizado em estrutura multicampi e possui atualmente cerca de 24 mil alunos matriculados nos 38 campi. Há previsto dentro da estrutura do IFSP o Núcleo de Atendimento ao Aluno com Necessidades Específicas (NAPNE) que trata exclusivamente de questões ligadas à inclusão, que é uma exigência do Ministério da Educação (MEC), porém ainda não normatizado dentro do IFSP, além do Serviço Sócio Pedagógico (NSP) que é formado por uma equipe multidisciplinar com o objetivo de atender o aluno e integrá-lo dentro do contexto escolar, fazendo a ligação entre aluno x professor, aluno x escola e família x escola. Essa equipe multidisciplinar é formada por especialistas em Educação, Assistente Social e Psicólogo e professores, além da participação dos gestores do campus. O NSP, a exemplo do NAPNE, ainda necessita de uma regulamentação, embora ambos já estejam implantados em vários campi. O campus Suzano, objeto de pesquisa dentro desse estudo, atualmente conta com um curso superior de Tecnologia na área de Química e conta com dois alunos que buscaram atendimento dentro do NSP por apresentarem alguma deficiência, num total de 25 matriculados. Por ainda não possuir um NAPNE implantado as ações se deram dentro do NSP com o atendimento multidisciplinar disponível. Vale ressaltar que ainda existe resistência dentro da cultura do IFSP em receber alunos com deficiência dentro dos seus cursos superiores. O ingresso nos cursos superiores do IFSP se dão via Sistema Único de Seleção (SISU) a partir do Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), portanto o IFSP só identifica o aluno na hora da matrícula, não há nenhum contato anterior, pois todo o processo de seleção fica centralizado no SISU. Analisando o atendimento no IFSP Suzano Dentro do pôster apresentado constará o procedimento que foi adotado no atendimento aos alunos que buscaram apoio no NSP do campus Suzano. A dinâmica ocorreu de forma diferente em cada aluno. No caso do aluno 1: 96 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 O professor identificou que o aluno não correspondia à dinâmica proposta em sala de aula, demonstrava apatia e não se manifestava durante as aulas; Professor fez um relatório do aluno 1 e entregou à equipe do NSP para verificar o que acontecia com o aluno e prosseguir nas providencias necessárias; NSP convoca o aluno para uma primeira conversa com a Psicóloga do campus; A Psicóloga identifica a necessidade de maiores informações e convida os responsáveis pelo aluno 1; Em conversa com a mãe do aluno surge a informação que o aluno já possuía um histórico na Educação Básica de baixo rendimento escolar e o mesmo já havia sido diagnosticado como aluno com dificuldade de aprendizagem; No caso do aluno 2 a dinâmica foi diferente: Um parente do aluno 2, também aluno de outro curso no mesmo campus percebeu que este apresentava mudanças no comportamento; O mesmo, tendo ciência do serviço sócio pedagógico resolveu procurar o NSP e informar da situação do parente; Durante a conversa surgiram várias situações anteriores e inclusive que o aluno 2 deveria estar em tratamento e tomando remédios controlados, porém o mesmo se recusava. Em ambos os casos a questão chegou inicialmente ao NSP, que é o setor mais habilitado para tratar de questões inclusivas dos alunos. Também notase que em ambos os casos a presença da família foi essencial para um parecer inicial e quais medidas seriam necessárias posteriormente. Situação atual do aluno 1 e do aluno 2 Em relação ao aluno 1 verificou-se que a solução poderia ser mais pedagógica, uma vez que o aluno havia completado a Educação Básica e havia feito o ENEM com êxito. Portanto seria capaz de acompanhar o curso, 97 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 desde que houvesse um acompanhamento da equipe multidisciplinar e dos professores. Foi recomendado que o aluno participasse de todas as atividades de reforço e recuperação ofertados pelo campus,além de orientações pontuais para os professores tanto em relação à didática dentro de sala, como nos critérios e métodos de avaliação. Atualmente o aluno cursa o segundo semestre, paralelamente à dependência de duas disciplinas e acompanha o curso com algumas dificuldades. O NSP faz acompanhamento continuo com o aluno, porém a presença da família não tem sido solicitada com frequência. Em relação ao aluno 2 o procedimento foi diferente: Verificando que o mesmo deveria passar por tratamento tanto terapêutico como médico, foi feito encaminhamento externo, uma vez que o IFSP não oferece esses serviços. O aluno havia mencionado que gostaria de mudar os profissionais que o atendiam e através do encaminhamento foi possível a mudança. Atualmente o aluno está fazendo o acompanhamento externo, porém ainda notou-se dificuldades pedagógicas que necessitariam um acompanhamento semelhante ao que foi orientado ao aluno 1. O aluno passou a frequentar as aulas de reforço e recuperação e notou-se uma melhora significativa em seu rendimento escolar. Discussão Esta pesquisa pretende contribuir com estudos sobre Educação Inclusiva. Propõe-se como alternativa para evitar experiências de fracasso escolar no Curso Superior de Tecnologia. Segundo Palhano (2004, p.2) “No Brasil, a formação profissional da pessoa com deficiência vem sendo amplamente discutida no âmbito da Educação, a partir do pressuposto de que o trabalho constitui-se em uma via de inclusão social da população com deficiência e, consequentemente, em uma forma de minimizar os problemas que a afligem”. Documentos norteadores da prática e ações referentes à educação especial como a Declaração de Salamanca, Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência, Convenção Internacional sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência e Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes citam a educação profissionalizante como direito, porém na publicação oficial do Ministério da Educação sobre educação especial intitulada “Educação Inclusiva” nenhum capitulo menciona o Ensino Profissionalizante. Por outro lado a inclusão do deficiente no mercado de trabalho tem sido um assunto constante entre especialistas, como segue: Empregar pessoas com 98 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 deficiência era tido como uma forma de exploração que deveria ser condenada por lei. Tais crenças eram resultantes não só da ideologia protecionista em relação a pessoas com deficiência, mas também do fato de que a medicina, a tecnologia e as ciências sociais ainda não haviam descoberto as possibilidades laborativas das pessoas com deficiência. (SASSAKI, 1986, p.17) Como visto no texto acima, num passado recente empregar pessoas com necessidades especiais era visto como exploração de trabalho. O deficiente era visto como alguém incapaz de pensar por si próprio, logo incapaz de interagir com a sociedade, portanto qualquer tarefa remunerada não era bem vista pela sociedade. Nos últimos anos, com estudos avançados tanto no campo educacional como nas demais áreas como medicina, ciências sociais e o desenvolvimento de tecnologias abriu-se inúmeras possibilidades do desenvolvimento profissional para os deficientes em relação ao mercado de trabalho e formação profissional. Porém mesmo com este avanço ainda se faz necessário maiores investimentos em relação à integração no ensino superior do deficiente: Mais recentemente, as pessoas com deficiência têm sido excluídas do mercado de trabalho por outros motivos como, por exemplo: falta de reabilitação física e profissional, falta de escolaridade, falta de meios de transporte, falta de apoio das próprias famílias e falta de qualificação para o trabalho. Se a pessoa com deficiência não estiver profissionalmente qualificada, isto pode gerar uma importante barreira para ela obter um emprego, mas há um outro grave problema: a pessoa portadora de deficiência não logra resultados exitosos por estar distanciada das necessidades do mercado de trabalho, bem como dos novos processos de transformação do sistema produtivo. (SASSAKI 2004, p.3) Além da qualificação profissional problemas pontuais como apoio da família e acessibilidade ainda necessitam ser superadas. A presença e o acompanhamento da família são imprescindíveis durante todo o processo, pois, a afetividade que é essencial para o sucesso de qualquer intervenção, começa com a presença da mesma. 99 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Em um passado recente, quando se falava em educação profissional para deficientes, pensava-se em atividades mecânicas como as oficinas abrigadas onde era montada uma linha de produção dentro da própria escola especial e os alunos passavam todo o período executando atividades repetitivas em escala, como montagem de vassouras, empacotamento de produtos e outros. Se a formação profissional for efetivada levando-se em conta o contexto social e histórico da humanidade, rompendo-se com práticas assistencialistas e filantrópicas que limitam o trabalho à reprodução artesanal e manual, poder-se-á oferecer à pessoa com deficiência a possibilidade de mediar suas relações no e com o mundo, constituindo-se o trabalho em uma via de inclusão social e criando-se possibilidades concretas para a sua própria humanização, a sua cidadania, a sua omnilateralidade. (SILVA, 2004, p. 5) Numa visão inclusiva e integradora a educação profissional é ofertada de uma maneira diferente, onde ocorre uma humanização tanto na oferta do serviço como no ambiente de trabalho e as relações sociais onde ele ocorre. Reprodução manual e atividades mecanizadas são atividades que propiciam o condicionamento do sujeito, logo, não estabelece relações de trabalho e cidadania, apenas o serviço em si. Conclusões É importante ressaltar que a educação profissional é uma ação educacional como todas as outras práticas educacionais, e para o adolescente com necessidades especiais que enfrentou durante a infância a experiência do fracasso escolar é imprescindível que mantenha todas as suas características humanizadoras garantindo as interações sociais, a individualidade, participação de um grupo e todas as demais ações. Ao mesmo tempo em que me deparo com a exclusão dessas pessoas das práticas educacionais escolares, sou confrontada com a centralidade conferida à (e assumida pela) escola em suas vidas. Não há principalmente para a parte dessa população oriunda das classes sociais menos favorecidas, nenhuma outra ação de trabalho que ofereça a essas pessoas a oportunidade de inserção social, ou participar de um 100 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 grupo, constituindo vínculos, aprendizagens e produzindo de forma que lhes confira possibilidade de ser, de existir como pessoa. (CARVALHO, 2006, p.12) Propõe-se que o ensino superior aconteça em um espaço inclusivo de forma que as adaptações, tanto curriculares como arquitetônicas beneficiem a comunidade escolar como um todo e não apenas o deficiente. As adaptações compreendem principalmente a formação da equipe de apoio que assistiria ao programa. Pelas suas peculiaridades além da equipe pedagógica e de assistência social, é necessária a presença de uma equipe multidisciplinar que componha o NAPNE e o NSP que possa trabalhar na avaliação das potencialidades do aluno diagnosticando quais áreas podem ser trabalhadas dentro das características de sua deficiência e quais adaptações são necessárias no currículo e nos laboratórios. Referências bibliográficas: BRASIL, Constituição da República Federativa do Brasil. Departamento de Imprensa Nacional. Brasília, MEC, 1988. ____, Convenção de Guatemala. Convenção da Organização dos Estados Americanos. DECRETO Nº 3.956, de 8 de outubro de 2001 .Brasília, 2001. ____, Convenção ONU Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Protocolo Facultativo à Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência. Departamento de Imprensa Nacional. Brasília, 2007. ____, Declaração dos Direitos das Pessoas Deficientes. Departamento de Imprensa Nacional. Brasília, 1975. ___. 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Belo Horizonte: Armazém de Idéias, 2000. 102 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 _________ Construindo uma Sociedade para Todos, Rio de Janeiro: Editora WVA, 1999. __________ Preparação para o trabalho e determinação das condições adequadas para o exercício satisfatório das atividades. In: Anais do Seminário sobre Profissionalização da Pessoa Deficiente: Bolsas de Trabalho. São Paulo: APAE-SP, p. 1-18, 1986. SILVA, Adriane Giugni da. Formação Profissional: Uma Alternativa Inclusiva Para Pessoas Com Deficiência - UEPA/LEPED, 2001. 103 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 ALUNOS COM NECESSIDADES EDUCACIONAIS ESPECIAIS NO ENSINO SUPERIOR: CONSTRUINDO ESTRATÉGIAS INCLUSIVAS Beatriz Machado30 Eromi Izabel Hummel31 Larissa Maruiti32 Introdução Um dos objetivos traçados pela Politicas da Educação Especial na Perspectiva da Educação Especial (2008), é a “Transversalidade da educação especial desde a educação infantil até a educação superior” (p.08). Neste sentido, novos desafios são identificados nos espaços educacionais do ensino superior, no que se refere à acessibilidade urbanisticas, formação de professores, interação entre os próprios alunos, metodologias e estratégias educativas a fim de que o aluno público-alvo da educação especial possa sentir-se incluso e ter as mesmas oportunidades de aprendizagens que os demais alunos. Segundo Carvalho (2004), a presença de um aluno com necessidade educacional especial (NEE) nos ambiente educacional não garante que ele esteja realmente incluso, é necessário analisar se ele está aprendendo e participando de todas as atividades escolares e não apenas presente fisicamente. Propiciar estes espaços inclusivos requer, interação entre os setores políticos, o administrativo, o organizacional, o educacional e o pedagógico. No âmbito organizacional, é necessário a construção de uma rede de suportes que promova o atendimento às necessidades de formação de pessoal, os serviços da escola, comunidade ou região e o planejamento e avaliação das diretrizes políticas. O âmbito educacional, volta-se para o planejamento, implementação e avaliação, oferecendo-se um ensino cooperativo entre professores dos diversos segmentos. Já no âmbito 30 Mestre em Educação. Universidade Estadual do Paraná – Campus Apucarana. [email protected] 31 Doutora em Educação. Universidade Estadual do Paraná – Campus Apucarana. [email protected] 32 Mestre em Educação. Universidade Estadual do do Paraná – Campus Apucarana. [email protected] 104 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 pedagógico, a escola deve implantar classes inclusivas heterogêneas, com centralização dos apoios, tais como equipamentos, recursos materiais e humanos. No tocante às ações pedagógicas para efetivar a inclusão, a estratégia mais frequentemente citada na literatura especializada é denominada de adaptações curriculares, que tem como função oferecer condições adequadas para aprendizagem dos alunos com NEE dentro do contexto escolar inclusivo (COLL, MARCHESI; PALÁCIOS, 2004, BERAZA, 1998, BAUTISTA, 1997). Para Landívar (2002 apud PARANA 2006) as adaptações curriculares são modificações necessárias a serem realizada em diversos elementos do currículo básico para adequar a diversidade do público alvo da educação especial, ou seja, em situações, grupos e pessoas para as quais se aplica. [...] As adaptações curriculares são intrínsecas ao novo conceito de currículo. De fato, um currículo inclusivo deve contar com adaptações para atender à diversidade das salas de aula, dos alunos (LANDÍVAR, 2002, p. 53). Tais adaptações visam à promoção do desenvolvimento e à aprendizagem dos alunos com NEE, devendo ser contempladas na elaboração do projeto pedagógico e na implementação de práticas inclusivas no sistema escolar, quando necessárias para favorecer o processo de aprendizagem dos alunos com NEE levando em conta suas peculiaridades. Neste sentido, a Universidade Estadual do Paraná – Campus Apucarana – implantou no ano de 2013 a Divisão de Assistência Estudantil, dentre os serviços prestados aos acadêmicos, encontra-se o Núcleo de Acessibilidade da FECEA – UNESPAR, que tem como objetivo incluir o acadêmico no processo de aprendizagem e receber “apoio e orientação para se sentirem mais seguros, motivados, assumindo posicionamentos realistas perante as situações de conflito” (GANDINI apud HOIRISCH, 1993, p.43). A Universidade Estadual do Paraná conta com 7 Campus sendo o Campus de Apucarana a primeira que ofereceu e formalizou a proposta de atendimento aos alunos com NEE. Atualmente, o Campus de Apucarana oferta 12 cursos de graduação e 7 de pós-graduação e presta total atenção ao aluno com NEE, independente do curso que a ser freqüentado pelo mesmo. Ao adentrarem no ensino superior os alunos com NEE recebem apoio educativo especializado, a fim superar as barreiras existentes no processo educacional para obter a sua formação profissional no ensino superior, assegurando desta forma a sua inserção no mercado de trabalho e fortalecendo a cidadania. 105 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 O Núcleo de Acessibilidade da FECEA é composto atualmente por 1 coordenadora da Divisão de Assistência Estudantil, 1 Psicóloga e 1 Pedagoga Especializada, estes têem como função prestar atendimento educacional especializado (orientação sobre hábitos e estratégias de aprendizagem) à estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento (autismo, Síndrome de Rett e Síndrome de Asperger) e altas habilidades/superdotação, ou que, em razão de tratamentos médicos, já iniciados, demandam estratégias de ensino diferenciados (subsídio a ação docente desses estudantes). Apresenta-se a seguir a metodologia de trabalho aplicada no núcleo, ressaltando-se que encontra-se em fase de implantação. Método O Núcleo de Acessibilidade da FECEA – UNESPAR visa um bom ambiente de trabalho, atendimento e conforto ao aluno, e está alocada num espaço de 12 m², com duas linhas telefônicas, internet, ventilador, frigobar, 4 mesas de atendimento com computadores e aparelho de digitalização para transformar textos escritos em áudio. Hoje a sala atende dois acadêmicos portadores de necessidade educativa especial – deficiência visual, sendo alunos de cursos distintos. Um aluno freqüenta o curso de Pedagogia, e outro, o de Administração. Para o atendimento das pessoas com necessidades especiais educacionais a equipe convidou uma especialista na área de inclusão social para proferir uma palestra aos professores da instituição de ensino na Semana Pedagógica, com o intuito de esclarecer algumas dúvidas dos docentes e mostrar que existem técnicas e métodos para lidar com a realidade da inclusão. A partir de então o Núcleo de Acessibilidade da FECEA realizou visitas em instituições do ensino superior para conhecer o trabalho desenvolvido para esta modalidade de atendimento, coletaram materiais informativo e de apoio, foram ao Instituto do Cego para conhecer as ferramentas que eles possuem para dar apoio ao deficiente visual, e conversar com os profissionais. O Núcleo de Acessibilidade da FECEA tem como procedimento, para a condução dos seus trabalhos junto aos acadêmicos com necessidade educacionais especiais, a seguinte dinâmica de trabalho: primeiramente, os casos são encaminhados para o Núcleo de Acessibilidade da FECEA por meio 106 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 de protocolos preenchidos pelos coordenadores de curso, com informações a respeito da situação do acadêmico e de seu processo de aprendizagem. Com base nas informações prestadas, organizam-se reuniões com professores e coordenadores para estudo e analise dos casos. Neste momento, são levantadas estratégias pedagógicas e de acessibilidade, considerando as formas de atendimento especializado para o caso. Uma das estratégias aplicadas consistiu na elaboração de projetos de monitoria, para os cursos de Matemática e Pedagogia. Os projetos tiveram como objetivos prestar o atendimento individualizado dos alunos com deficiência visual em sala de aula. Foram selecionados acadêmicos dos respectivos cursos para prestar apoio durante o horário de aula exercendo auxílio através de: leitura oral, audiodescrição de imagens, cópias de conteúdos, gravação dos textos em áudio, apoio na realização de trabalhos. Outra parceira estabelecida pelo Núcleo de Acessibilidade da FECEA, foi o projeto de apoio via tecnologia assistiva, dessa forma acadêmicos do curso de Computação digitalizam os textos conforme as disciplinas da matriz curricular que são encaminhados antecipadamente pelos docentes, para leitura no programa Dosvox, pelo aluno deficiente visual. Além destas parcerias, realizou-se contato com a coordenação do Instituo de Cegos de Apucarana com o objetivo de apoiar e esclarecer as medidas e ajustes adequados as adaptações e atendimento educacional prestados aos alunos. Todo processo desenvolvido para o atendimento perpassa por a comunicação contínua com os coordenadores dos cursos e docentes, a fim conduzir os atendimento prestados aos alunos com NEE. Resultado e Discussão A educação especial no ensino superior é assegurada pela legislação brasileira, portanto quando se fala nos atendimentos especializados no núcleo de acessibilidade, é a expressão dos direitos assegurados para as pessoas com necessidades educacionais especiais (NEE) sendo manifestada por meio das ações realizadas pelos profissionais que nela atuam. Na educação superior, a educação especial se efetiva por meio de ações que promovam o acesso, a permanência e a participação dos alunos. Os atendimentos a serem realizados exigem: 107 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 (...) recursos educacionais e atenção específica. Podem ser necessários recursos de tecnologia assistiva (materiais e equipamentos destinados à acessibilidade de pessoas com deficiência), flexibilização curricular (metodologias diferenciadas para o processo de ensino e avaliação) e orientação docente para oferecer atendimento educacional adequado aos estudantes que necessitem de educação especial, o que, segundo Rocha (2009), evidenciam a necessidade de adaptações no ambiente educacional.(AUSEC, 2013,p.27). A adequação dos procedimentos educacionais no ensino superior, são preocupações principalmente visando o suporte para a formação profissional e da cidadania. Neste contexto, a UNESPAR – Campus Apucarana, decidiu aderir a estes procedimentos mesmo sem apresentar todas as técnicas, ferramentas e conhecimento para ofertar ao aluno NEE. O que importa para o Campus de Apucarana é sempre buscar informações e conhecimento para a realização de um serviço ou algo material que seja útil para a instituição com um todo e assim o objetivo do Núcleo de Acessibilidade da FECEA, é realizar atendimento psico-educacional especializado à estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação, ou que, em razão de tratamentos médicos, já iniciados, necessitam de estratégias de ensino diferenciados, considerando orientações para a família e docentes. Atualmente o núcleo vem atendendo e acompanhando acadêmicos que portam deficiência visual e frequentam cursos de graduação das áreas de Ciências Humanas e da Educação e Ciências Sociais Aplicadas, para possibilitar a inclusão dos mesmos no ensino superior através de planejamentos de ensino, projetos e parcerias institucionais que viessem assegurar o processo de inclusão. Foram utilizadas estratégias que trouxe como resultado a elaboração do Projeto de Apoio Especializado, cujo foco é auxiliar os acadêmicos com deficiência Visual que frequentam os cursos de graduação da UNESPAR – Campus de Apucarana. Destarte as ações desenvolvidas foram: o apoio em sala de aula com alunos da própria sala, para auxiliar no processo ensino-aprendizagem, utilizando estratégias 108 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 educacionais para fortalecer o processo de aprendizagem; o atendimento individualizado com o aluno portador de NEE, quando da necessidade para superar conflitos no seu cotidiano; elaboração de ferramentas de apoio e suporte para dar condições de aprendizado; utilização do desenvolvimento de Tecnologia Assistiva, com acadêmicos do curso de Computação para criar condições de acessibilidade ao programa Dosvox com a utilização dos documentos de estudo e também o aprimoramento do Moodle e sua utilização pelos acadêmicos; construção de um banco de dados dos documentos indicados para o estudo dos acadêmicos com NEE visual digitalizados; adequação da Monitoria para atender as defasagens de aprendizagem dos acadêmicos com NEE; parceria com o Instituto de Cegos de Apucarana, para manter diálogos contínuos sobre a adaptação e continuidade dos acadêmicos nos cursos, bem como, orientação na metodologia do ensino-aprendizagem. Foram realizadas reuniões com docentes e discentes para aprimorar as estratégias utilizadas no processo de inclusão dos acadêmicos com NEE e estímulos conquistando maior volume das ações do núcleo de acessibilidade, voltados para o fortalecimento da inclusão dos acadêmicos com NEE. Os resultados obtidos a partir da execução das propostas atuais são: a participação de 5 acadêmicos que desenvolvem ações voltadas para a questão pedagógica, com a participação de dois alunos do curso de Pedagogia, e Tecnologia Assistida envolvendo 3 alunos do curso de Ciências da Computação; atendimentos individualizados com a psicóloga do núcleo para orientar os acadêmicos quando em situações de conflitos interpessoais ou intrapessoal; a implantação do programa Dosvox nos computadores da sala dos professores, da biblioteca e nos laboratórios de ensino; o preparo de materiais bibliográficos para serem utilizados no dos vox; a construção de um banco de dados dos materiais bibliográficos já adaptados para o programa; o desenvolvimento do programa moodle para a utilização dos acadêmicos, para receberem os documentos digitalizados; o Projeto Institucional de Monitoria de Matemática que tem como proposta atender o acadêmico de Administração com deficiência de acordo com as suas necessidades; a Parceria com o Instituto de Cegos de Apucarana com a realização de reuniões com coordenadores de cursos, para discussão do atendimento dos acadêmicos com deficiência visual, agendamento de encontros com discentes e docentes para receberem orientações de como trabalhar com as necessidades dos alunos NEE, e por último, a aquisição de 109 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 um scanner de alta potência para digitalizar as bibliografias indicadas pelos docentes nas disciplinas. Conclusões A Divisão de Assistência Estudantil da UNESPAR_ Campus de Apucarana onde se desenvolve as ações do Núcleo de Acessibilidade da FECEA iniciou suas atividades no ano de 2013, considerando as bases legais da Política Nacional de Inclusão e ao mesmo tempo a adequação às condições do Campus. [...] a inclusão de pessoas com deficiência no ES diz respeito a tudo que envolve o sujeito em suas relações cotidianas e devem estar voltadas para as atitudes frente à pessoa com deficiência, às políticas de inclusão e aquisição de produtos e tecnologias assistivas.(SIQUEIRA & SANTANA, 2010, p.127) Diante desse contexto todas as ações voltam-se para atender aos acadêmicos que necessitem de adaptações educacionais para se manterem no processo educacional superando dessa forma as possíveis barreiras para a conclusão do curso. Os profissionais atentos as necessidades dos acadêmicos, procuraram realizar ações que permitam assegurar a aprendizagem e permanência do educando portador de NEE no campus. As ações quando implementadas, mostram a importância e urgência para garantir a permanência dos educandos no contexto do ensino superior, porém diante do contexto e das limitações que a instituição possui, tem-se procurado alternativas viáveis que possam neste momento atender as solicitações básicas e asseguradas por lei. A partir dos trabalhos desenvolvidos com os acadêmicos portadores, observa-se que os mesmos também se tornam co-autores nas ações e nas experiências, nos indicando que a inclusão é um processo com metas possíveis de serem alcançadas e o mais importante, que mesmo que cada processo seja único pode ser ampliado para novas circunstâncias que emergem. 110 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 O que se percebe é que ao caminhar surgem novos desafios que estão sendo superados através de trocas constantes de experiências com outras instituições e criatividade para elaborar projetos, que possam estar auxiliando na busca de estratégias que atendam ao objetivo da inclusão das pessoas NEE no ensino superior. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS AUSEC, Ingrid C.O. Capacitação comportamental informatizada para professores universitários: inclusão no ensino superior.Dissertação (Mestrado)Universidade Estadual de Londrina.Centro de Ciências Biológicas. Programa de Pós-Graduação em Análise do Comportamento. Londrina, 166f. BAUTISTA, R. Necessidades educativas especiais. Lisboa: Dinalivro, 1997. BERAZA, M. A. Z. Condiciones organizativa de la escuela ante la diversidad. In: JORNADAS NACIONALES DE UNIVERSIDAD Y EDUCACIÓN ESPECIAL, 15., 1998, Oviedo. Actas... Oviedo: Servicio de Publicaciones de la Universidad de Oviedo, 1998. v.1 Brasil (1994). Portaria 1793 de dezembro de 1994. Disponível no site www.mec.gov.br Acessado abril de 2012. BRASIL (1996). Ministério da Educação. Gabinete do Ministro. Aviso Circular nº 277. Brasília: MEC. BRASIL. Portaria MEC Nº 3284, de 7 de novembro de 2003. Dispõe sobre a exigência de garantia de acessibilidade aos alunos portadores de deficiência física e sensorial, para fins de reconhecimento de cursos de ensino superior. ______. Ministério da Educação. Secretaria de Educação Especial. Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva. Brasília, 2008ª. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/arquivos/pdf/politicaeducespecial.pdf>. Acesso em: 07 jul. 2014. 111 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 CARVALHO, E. R. Educação Inclusiva: com os pingos nos “is”. Porto Alegre: Mediação, 2004. COLL, C.; MARCHESI, A.; PALACIOS, J. Desenvolvimento psicológico e educação 3 – Transtornos do desenvolvimento e necessidades educativas especiais. 2. ed. Porto Alegre: Artmed, 2004. PARANÁ. Secretaria de Estado da Educação/ Superintendência da Educação. Diretrizes Curriculares da Educação Especial para a Construção de Currículos Inclusivos. Curitiba, 2006 SIQUEIRA, Inajara M. & SANTANA, Carla S. Propostas de Acessibilidade para a Inclusão de Pessoas Com Deficiências no Ensino Superior.In: Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v.16, n.1, p.127-136, Jan.-Abr., 2010. SMITH, Deborah D. Introdução à Educação Especial: ensinar em tempos de inclusão.5ªed. Porto Alegre: Artmed, 2008. 112 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 PROPOSTA DE ATENDIMENTO EDUCACIONAL ESPECIALIZADO ESTUDANTES COM ALTAS HABILIDADES/ SUPERDOTAÇÃO NA UEL PARA Ingrid Caroline de Oliveira Ausec33, Eliane Fátima Guimarães de Oliveira34 Introdução Falar de educação especial não é necessariamente um tema novo. Há alguns anos, diversos artigos, dissertações e teses vêm sendo produzidos no sentido de pesquisar e discutir o público-alvo, as ações, a formação de professores e as políticas públicas para atendimento de pessoas com deficiência. O que é relativamente novo é discutir a educação especial dentro do contexto universitário. Muitos aspectos ainda precisam ser considerados ao falarmos da trajetória das universidades brasileiras na perspectiva inclusiva (LIMA, 2011). Embora a educação especial seja uma modalidade de ensino que perpasse todos os níveis educacionais, devendo estar presente da educação infantil ao ensino superior, MOREIRA (2005) destaca que estudos e pesquisas desenvolvidos no âmbito da educação especial destinam-se, em sua grande maioria, à inclusão do aluno com necessidades especiais na educação básica, evidenciando a necessidade de reflexões dessa natureza no ensino superior, de modo a garantir uma educação pautada em critérios inclusivos e democráticos em todas as etapas e modalidades da formação educacional. Em se tratando de ensino superior, AUSEC (2013) apresenta um levantamento de literatura sobre "educação especial AND ensino superior" e conclui que, apesar de existirem muitos estudos sobre educação especial, os estudos vão se tornando mais escassos à medida que trata de níveis mais avançados de escolarização. Desta forma, conforme apontado por LIMA (2011), a universidade tem se preocupado mais com a formação de profissionais para atuação na educação básica do que na formação de seus 33 Ingrid C. O. Ausec – Psicóloga. Coordenadora do Núcleo de Acessibilidade da UEL. Mestre em Análise do Comportamento. E-mail: [email protected] 34 Eliane F. G. Oliveira – Pedagoga. Membro do Núcleo de Acessibilidade da UEL. Especialização em Pedagogia. Universidade Estadual de Londrina. Pró-Reitoria de Graduação. Rodovia Celso Garcia Cid | Pr 445 Km 380 | Campus Universitário. Cx. Postal 10.011 | CEP 86.057-970 | Londrina - PR. Fone: (43) 3371-4148 | Fax: (43) 3371-5458. E-mail: [email protected] 113 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 mestres e doutores, com vistas ao atendimento de seus próprios alunos, ou seja, os universitários que apresentavam necessidades educacionais especiais (NEE). Se falar de inclusão de pessoas com NEE no ensino superior ainda é um assunto pouco discutido, identificar e atender adequadamente os estudantes considerados como altas habilidades ou superdotados parece ainda mais difícil. Apesar da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva (2008) ter esses estudantes como público-alvo o conhecimento sobre este tema ainda é incipiente, demandando investimento teórico bem como ampliação de espaço para projetos de pesquisa e extensão, com a finalidade de estimular atividades acadêmicas também no stricto sensu (LYRA e CIANCA, 2010). Apesar de Anjos (2011) afirmar que aproximadamente 3% a 5% da população apresenta capacidade notavelmente acima da média, Pérez (2003) afirma que as publicações na área de altas habilidades ainda são menores do que de outras vertentes – deficiência auditiva, visual, física neuromotora e intelectual. Em se tratando da Universidade Estadual de Londrina, CIANCA (2012) procurou investigar como a temática de altas habilidades/superdotação (AH/SD) tem sido vislumbrada pelos docentes do ensino superior, buscando conhecer, mais especificamente, qual é a percepção dos coordenadores dos colegiados dos cursos de licenciatura da referida universidade. Os resultados indicaram que a percepção dos docentes sobre a temática AH/SD é ainda elementar, utilizam-se do senso comum ao tratar da superdotação, não reconhecem seus estudantes com potencial de AH/SD; entretanto, apontam diversos indicadores, em alunos das licenciaturas em que atuam, que condizem com aqueles elencados na literatura como recorrentes em pessoas com AH/SD. A pesquisa apontou ainda que, em decorrência de um conhecimento pouco significativo sobre o tema, os docentes não são capazes de identificar os superdotados e não há oferta de atendimento especializado para tais estudantes e que suas concepções sobre as AH/SD estão repletas de mitos, especialmente, no que tange às capacidades acima da média em áreas isoladas; ao relacionamento interpessoal; ao desajustamento psicológico; entre outros. A autora conclui que é preciso que pesquisas nesta área continuem acontecendo e formações sejam ofertadas, para que os docentes do ensino superior possam se desvencilhar das ideias próprias do senso comum e dos mitos que envolvem a temática para possibilitar a oferta de um ensino com equidade para os alunos superdotados, também nas universidades. 114 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Considerando a ausência de estudantes cadastrados na condição de AH/SD na Universidade Estadual de Londrina (UEL) até 2013, este trabalho busca apresentar uma proposta de atendimento especializado aos estudantes com AH/SD na UEL por meio do Núcleo de Acessibilidade (NAC). O NAC é constituído por uma equipe multidisciplinar e, vinculado à Pró-Reitoria de Graduação, tem enfoque no apoio educacional especializado aos estudantes com deficiência, transtornos globais de desenvolvimento e altas habilidades, matriculados nos cursos de graduação e pós-graduação da UEL. Dentre os serviços oferecidos pelo Núcleo, há orientação aos docentes, realizada junto aos de Colegiados de Cursos, propondo adaptações metodológicas e curriculares, bem como recursos de acessibilidade aos estudantes acompanhados, buscando informar e promover a acessibilidade e inclusão dos estudantes com necessidades educacionais especiais nos processos educativos da instituição. Método Com o objetivo de identificar os estudantes com AH/SD da instituição, o Núcleo de Acessibilidade da UEL iniciou no primeiro semestre de 2014 contatos com o Núcleo de Atendimento de Altas Habilidades/ Superdotação (NAAHS) de Londrina e firmou uma parceria no sentido de ser informado por este órgão a respeito de quais estudantes acompanhados por ele são estudantes da UEL. Por ser o primeiro contato com estes alunos, a listagem continha a indicação de estudantes matriculados em diferentes séries dos cursos de graduação da UEL. Todos estes alunos foram cadastrados no NAC e foram contatados por e-mail no sentido de serem informados sobre nossa parceria com o NAAHS e da disponibilidade do Núcleo para atendê-los durante a graduação. Na sequência, os Colegiados de Curso correspondentes foram informados sobre a presença destes alunos por meio de ofícios informativos contendo o nome, série, condição do estudante e esclarecimentos sobre o atendimento educacional nesta área. Para o segundo semestre de 2014, foram realizadas 2 reuniões em grupo com os estudantes AH/S e proposto um Plano de Ação a ser implementado já no segundo semestre e início de 2015. Os resultados apresentados são parciais e apresentam a estruturação do atendimento educacional especializado para AH/S na UEL. Resultados e Discussão 115 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Pelo fato de não haver estudantes cadastrados na condição de AH/S na UEL, os contatos com o NAAHS no sentido de estabelecer uma parceria foram fundamentais para dar início à estruturação do atendimento especializado nesta área. Na listagem disponibilizada pelo NAAHS foram indicados 10 estudantes que haviam sido aprovados no vestibular da UEL nos últimos 5 anos, conforme Figura 01. Desta forma, esta listagem apresentava alunos que já estavam em seu último ano de graduação e ainda não haviam informado sua condição ao Núcleo de Acessibilidade. Figura 01: Listagem de alunos indicados pelo NAAHS/ Londrina nos cursos de graduação da UEL Curso CIÊNCIAS BIOLÓGICAS DIREITO FÍSICA LETRAS MEDICINA VETERINÁRIA PEDAGOGIA PSICOLOGIA QUÍMICA TOTAL Número de alunos AH/SD 1 estudante 3 estudantes 1 estudante 1 estudante 1 estudante 1 estudante 1 estudante 1 estudante 10 ESTUDANTES Série em 2014 1 2/ 2/ 1 2 1 5 1 5 4 Apesar do primeiro contato, por e-mail no início de 2014, para informar sobre o Núcleo e a possibilidade de apoio da UEL no que diz respeito à condição de AH/S durante a graduação, apenas uma aluna procurou o NAC, no final do semestre, com a queixa de ansiedade em situação de avaliação, pois se cobrava demais por ser AH e porque não se percebia mais como uma aluna habilidosa. A estudante foi atendida pela psicóloga do Núcleo e orientada em relação ao enfrentamento da ansiedade. Em relação aos Colegiados de Curso, os coordenadores foram informados, por meio de correspondência interna, sobre a presença dos estudantes com AH em seu curso e receberam orientações gerais sobre a possibilidade de atendimento dos mesmos. Em contatos posteriores com alguns destes coordenadores, o retorno relatado foi a reação de surpresa em relação à identificação de alguns estudantes, pois os mesmos " não se destacam academicamente". Buscando entender melhor a relação destes estudantes com a universidade e objetivando formas de atendê-los adequadamente, foram realizadas 2 reuniões em grupo para estes estudantes. A primeira reunião, no início do 116 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 segundo semestre de 2014, buscou ouvir a demanda dos estudantes AH/S e propor estratégias de atendimento especializado, mas apenas 1 estudante compareceu. A estudante estava no segundo ano e ficou satisfeita com o convite, pois gostaria de conversar com alguém sobre o fato de não estar se percebendo mais como AH. Relatava ter outros alunos melhores que ela em sala de aula e sentia-se muito focada só no curso de graduação, sem tempo para investir em outros interesses. Nesta reunião, ficou estabelecida a periodicidade dos encontros como mensais. Com o objetivo de identificar áreas de interesses do grupo e propor ações de complementação curricular; para segunda reunião a pedagoga fez contato telefônico convidando cada aluno cadastrado em razão de AH/S e houve uma adesão de 30% (3 estudantes). Com base nesta reunião, foi elaborado um Plano de Ação para ser efetivado a partir do segundo semestre de 2014 (Figura 02) e iniciou-se a organização de Oficinas Temáticas para atender os interesses dos estudantes conforme a demanda de cada um. A saber, os interesses foram: o que é ser um aluno com altas habilidades e assuntos relacionados à gramática. Figura 02 - Plano de Ação para atendimento educacional especializado em Altas Habilidades - UEL O QUÊ Atendimento ao estudante com altas habilidades e superdotação. PARA QUÊ Para melhor atender os alunos com altas habilidades e super dotação que frequentam a Universidade Estadual de Londrina. COMO Reunir os estudantes identificados com A/H e superdotação para uma conversa informal a respeito das necessidades educacionais especiais. QUANDO No início do segundo semestre de 2014. Atendimento e assessoria aos professores. Promover a devida atenção às necessidades educacionais especiais de alunos universitários com altas habilidades e superdotação. Averiguar se os procedimentos metodológicos utilizados pelos professores como estratégias de ensino atendem as necessidades Durante todo o segundo semestre. 117 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Planejamento e coordenação de reuniões pedagógicas e grupos de estudos. Promoção formação continuada . de educacionais apresentadas por esse alunado. Encontros, reuniões e grupos de estudo. Durante todo o segundo semestre. Identificar o grau de informação que o professor universitário tem em relação ao estudante com altas habilidades e superdotação. Melhor compreensão acerca do processo de inclusão do aluno com altas habilidades e superdotação. Por meio de encontros com os colegiados. Durante semestre. o Organizar sugestões para o enriquecimento curricular de alunos com altas habilidades e superdotação. Possibilitar maior desempenho dos alunos com altas habilidades e superdotação. Por meio de reuniões e grupos de estudo com o grupo de profissionais do NAC . Durante todo semestre. o Promover palestras com profissionais da área para os alunos com necessidades educacionais especiais. Maior entendimento dos estudantes a respeito das suas necessidades em condição de superdotação . Participação alunos. Bimestralmente. dos Apesar dos resultados parciais apresentados neste trabalho, alguns pontos podem e devem ser estudados e melhor compreendidos. 118 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Inicialmente, observou-se que os estudantes não buscaram se autodeclarar à universidade como sendo estudantes com necessidades educacionais especiais. Por quê? Não queriam ser identificados? Não tinham conhecimento da possibilidade de apoio por meio dos serviços do Núcleo de Acessibilidade da UEL? De acordo com CIANCA (2012), ao caracterizarmos uma pessoa com AH/SD estamos sujeitando esta pessoa a toda uma carga de representação, ou seja, identificar um estudante como superdotado significaria sujeitá-lo a préjulgamentos, dentre eles, "a expectativa imposta pelo prefixo ‘super’, que traria os benefícios vinculados ao mundo da fantasia, como um poder mágico da ‘capa’ dos ‘super’-heróis" (p. 13). Desta forma, restaria o oposto desta situação, restando ao superdotado a possibilidade de mascarar suas habilidades para se adequar à média e perder a chance de aprimorar seu talento (CIANCA, 2012). No entanto, também não podemos desconsiderar o fato de que os estudantes entrevistados relataram não ter conhecimento do serviço na UEL. O fato do atendimento especializado em altas habilidades na universidade não estar visível pode ter várias questões envolvidas. Pérez e Freitas (2011) analisam quatro aspectos que prejudicam a concretização deste serviço e sugerem medidas para que este direito seja alcançado. Embora suas considerações tratem da educação básica, podemos generalizar seus argumentos para o ensino superior: 1. Nos dados do Censo Escolar: a invisibilidade estatística. Para as autoras, tanto o INEP quanto o MEC coincidem em afirmar que uma das funções dos dados dos censos escolares é a de fornecer informações para a formulação de políticas públicas e programas. Talvez isso, somado à precariedade dos dados sobre as matrículas de alunos com AH/SD, justifique a insuficiência de ações para esses alunos e o seu “esquecimento” nas ações desenvolvidas para os alunos com necessidades educacionais especiais. Até 2013, a UEL nunca havia cadastrado estudantes com AH/S, pois não praticava sua identificação (por diversos motivos que não caberiam na discussão ora proposta, mas merecem ser analisadas oportunamente). 2. Nas ações e programas de Educação Inclusiva: a invisibilidade no atendimento. Apesar dos objetivos da Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva da Educação Inclusiva de incluir os alunos com AH/SD na sua população-alvo, não parece haver ações concretas para esses alunos. Considerando o item 1, sem os estudantes, não houve ofertas de serviços. 119 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 3. Nos cursos de formação docente: a invisibilidade no conhecimento. Embora a universidade disponha de diversas comissões, grupos de estudos ou eventos para formação de seus docentes, a temática de Educação Especial nunca foi prioridade, a não ser em eventos de pesquisadores e profissionais da área. Desta forma, observa-se que as discussões sobre educação especial ficam restritas a profissionais e pesquisadores da área e não a todo o corpo docente. 4. Os Núcleos de Atividades de Altas Habilidades/Superdotação (NAAH/S): a invisibilidade da ação. Na UEL, o atendimento educacional especializado concentra-se no Núcleo de Acessibilidade, mas que sem o estudante, sem discussão e ocupando-se com a maior demanda de problemas de aprendizagem e comportamento não dedica-se ao atendimento na área de altas habilidades. Segundo Maia-Pinto e Fleith (2004), ao contrário do que acontece com alunos que apresentam rendimento escolar abaixo da média, os quais são rapidamente identificados e desfrutam da concepção amplamente divulgada no ambiente escolar, de que necessitam de atendimento diferenciado voltado ao atendimento de suas peculiaridades, são oferecidas poucas oportunidades para que aqueles alunos que se destacam por suas potencialidades e para que possam desenvolver tais habilidades. Neste sentido, Cupertino (2008) ressalta que a educação desses alunos não pode ser deixada ao acaso, uma vez que deve ser condizente com suas características, além de exigir sistematização e coerência. “Sem estímulo, essa pessoa pode desprezar seu potencial elevado e apresentar frustração e inadequação ao meio” (CUPERTINO, 2008, p. 13). Conclusão Em vista dos argumentos apresentados neste trabalho, entendemos que em se tratando de atendimento educacional especializado voltado para estudantes com AH/SD, temos uma longa caminhada a percorrer no sentido de inclusão e principalmente no auxílio e acompanhamento desses estudantes durante sua permanência na universidade. Concluímos também que apesar de existirem vários estudos em relação à educação especial, a maioria está voltada para a educação básica e que quanto mais elevado o nível de escolarização menor é a quantidade de pesquisa sobre NEE; portanto, é imprescindível a necessidade de estudos e reflexões dessa natureza no ensino superior. Entendemos que a inclusão de pessoas com necessidades educacionais especiais no ensino superior ainda é muito pouco 120 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 discutida, e atender aqueles com altas habilidades fica ainda mais difícil. Percebemos que é indispensável que as universidades invistam mais na formação dos seus docentes para que tenham subsídios para atender e suprir as necessidades educacionais especiais de seus alunos universitários. Conforme apontado por LIMA (2011), "hoje em dia não basta para o professor ser conhecedor dos conteúdos de sua disciplina ou área de atuação. É preciso estudar e ampliar os conhecimentos sobre o desenvolvimento humano para reconhecer os comportamentos e identificar em seus alunos os que apresentam necessidades especificas de aprendizagem e, dentre eles, os com altas habilidades e superdotação" (pg 72). Em se tratando da Universidade Estadual de Londrina, observou-se iniciativas de investigar como a temática altas habilidades/ superdotação tem sido vista pelos docentes e coordenadores de colegiado dos cursos No entanto, os resultados obtidos mostraram que a percepção dos docentes em relação aos estudantes com AH/SD é ainda elementar, não identificando ainda esses estudantes. Em virtude dos fatos aqui mencionados, procuramos apresentar uma proposta de atendimento especializado para alunos com AH/SD por meio do Núcleo de Acessibilidade (NAC) da Universidade Estadual de Londrina constituído por uma equipe multidisciplinar que tem dado enfoque no apoio educacional especializado. Finalizamos apontando que os estudantes universitários com AH/SD precisam de atendimentos educacionais especializados que motivem seu desenvolvimento acadêmico; portanto, se faz necessário abrir portas para pesquisas que abordem a referida temática. Referências bibliográficas: ANJOS, Isa Regina Santos dos. Dotação e talento: concepções reveladas em dissertações e teses no Brasil. 2011. Tese (Doutorado em Educação) UFSCar, São Carlos. AUSEC, Ingrid Caroline de Oliveira. Capacitação Comportamental Informatizada para Professores Universitários: Inclusão no ensino superior. 2013. 166 páginas. Dissertação (Mestrado em Análise do Comportamento). Universidade Estadual de Londrina, Londrina. 121 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 BRASIL (2008). Política Nacional de Educação Especial na Perspectiva Inclusiva. Secretaria Nacional de Educação Especial. Brasília, DF. CIANCA, Fabiane Silva Chueire. 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MAIA-PINTO, Renata Rodrigues; FLEITH, Denise de Souza. Avaliação das práticas educacionais de um programa de atendimento a alunos superdotados e talentosos. Psicologia Escolar e Educacional, v. 8, n. 1, p. 55-66, jan./jun. 2004. MOREIRA, Geraldo Estáquio. Perfeccionismo em adolescentes superdotados atendidos em um programa para alunos com altas habilidades/talentosos. 2005. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade Católica de Brasília. PÉREZ, Susana Graciela Pérez. Mitos e crenças sobre as pessoas com altas habilidades: alguns aspectos que dificultam o seu atendimento. Cadernos de Educação Especial, Santa Maria, v. 2, n. 22, p. 45-59, 2003. PÉREZ, S. G. P. Gasparzinho vai à Escola: um estudo sobre as características do aluno com altas habilidades produtivo-criativo. 2004. Dissertação 122 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 (Mestrado em Educação) - Pontifícia Universidade Católica de Porto Alegre, Porto Alegre. PÉREZ, S. G. P.B. & FREITAS, S. N. Encaminhamentos pedagógicos com alunos com Altas Habilidades/ Superdotação na Educação Básica: o cenário brasileiro. Educar em Revista, Curitiba, Brasil, n. 41, p. 109-124, jul./set. 2011. Editora UFPR. 123 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 DA ORALIZAÇÃO OBRIGATÓRIA À ACEITAÇÃO DO SER SURDO Terezinha Teixeira Joca35 Francisco Silva Cavalcante Júnior36 Introdução Os sujeitos surdos têm percorrido uma longa estrada e enfrentado muitas lutas em prol do direito de uso de sua língua primeira além do desejo de assegurarem que a língua de sinais possui estrutura e regras como as outras línguas. Os Surdos ainda defendem que a sua condição trata-se de uma diferença e não de uma diferença. A partir da percepção da conquista desse povo surdo, pois assim se denominam, foi desenvolvido um estudo enveredou no mundo de estudantes surdos que galgaram o Ensino Superior. Este estudo é um recorte da tese de doutorado da primeira autora, elaborado a partir de uma pesquisa etnográfica realizada em uma Instituição de Ensino Superior (IES) particular, em uma cidade do nordeste brasileiro, objetivando averiguar que influência a família tem na constituição do sujeito na cultura surda. O foco a ser apresentado nesse recorte é o percurso do aluno surdo através da oralização até a chegada ao Ensino Superior. Os dados expostos e as indagações que nortearam este estudo traduzem a relevância de uma pesquisa que busca compreender a dinâmica familiar, sua relação com a cultura surda e o percurso acadêmico do sujeito surdo, o qual poderá suscitar a procura pelo conhecimento da cultura e pela aprendizagem da Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS). Como, também, poderá instigar novos pesquisadores a investigarem o tema e lançarem literatura que abranja o aluno surdo em IES. 35 Professora do Curso de Psicologia e Coordenadora do Programa de Apoio Psicopedagógico da Universidade de Fortaleza (UNIFOR). Psicóloga formada pela Faculdade de Filosofia do Recife (FAFIRE), Mestre em Psicologia pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Doutoranda de Psicologia na Universidade Autónoma de Lisboa (UAL). Endereço: Rua João Carvalho 800, sala 704, Aldeota, CEP 60140-140 Fortaleza – CE. Email: [email protected] 36 Professor Adjunto de Psicologia e Antropologia no Instituto de Educação Física e Esportes (IEFES) da Universidade Federal do Ceará (UFC). Psicólogo graduado pela Universidade de Fortaleza (UNIFOR), Mestre em Educação Especial e Ph.D. em Leitura e Escrita, ambos pela University of New Hampshire, EUA. Email: [email protected] 124 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 O embasamento teórico pautou-se em Cavalcante Junior (2008), Gaylin (1993, 2001), Lane (1992), Minuchin (1990), Rogers (1986), Sacks (1998, 2010), Skliar (1998, 2005) e Wilcox (2005), além dos autores nativos e conhecedores dessa cultura representados por Laborit (1994), Machado (2008), Perlin (2004, 2010), Strobel (2007, 2008), Stumpf (2008) e Thoma (2004). Conhecendo o sujeito surdo De acordo com os dados do Censo de 2000, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE), a população do Brasil correspondia a 169.799.170 pessoas. Deste total geral 14,5% da população são de pessoas com deficiência, o que corresponde a 24,6 milhões de pessoas e dentre essa quantia encontram-se 5,7 milhões de brasileiros com algum grau de deficiência auditiva, onde 170 mil pessoas declararam ser surda. Após dez anos, o IBGE realizou nova pesquisa, Censo 2010 denotando forte crescimento nos dados populacionais, o qual indicava 190.755.799 de pessoas em toda extensão do país, com um aumento do índice de pessoas com deficiência que passou a ser de 23,9% dessa população, o correspondente a 45,6 milhões de pessoas. Em meio a essas deficiências encontram-se 9,7 milhões de brasileiros que indicam algum grau de deficiência auditiva e dentre eles, 347.481 são surdos. A partir da análise dos dados percebe-se que em dez anos a quantidade de surdos no Brasil cresceu o correspondente a 100%. Faz-se necessário informar que entre essa população, 35 mil pessoas encontram-se em idade escolar, mas só existem duas escolas para surdos no Estado do Ceará. Na principal escola de referência para os surdos, Instituto Cearense de Educação de Surdos (ICES), com mais de 50 anos de atuação, a qual atende ao ensino fundamental e médio, nos dias atuais existem aproximadamente 550 surdos inscritos. E de acordo com os dados obtidos na Federação Nacional de Educação e Integração dos Surdos (FENEIS), núcleo Ceará, o índice de alunos surdos e com deficiência auditiva que transpõem o Ensino Superior é baixo e não existem registros oficiais deste cômputo. Sabe-se que a criança quando nasce vem cheia de expectativas por parte dos pais e da sociedade. O que pode gerar estresse maior quando se trata de uma criança com deficiência, uma criança surda. Rocha, Caporali e Lacerda (2003) assinalam que “cada família faz um percurso na aceitação da surdez de seus filhos, mas, sem dúvida, o sentimento de perda e de luto é compartilhado por todas elas” (pp. 15-16). Tal impacto pode vir a ocorrer nas famílias naturais como nas famílias adotivas que descobrem que o “escolhido” não corresponde às suas expectativas de filho “perfeito”. Ao se identificar que o filho ou a filha é surdo, os pais passam a compreender a partir da perspectiva de que lhe falta algo e na procura de preencher essa 125 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 falta no surdo, a família sai em busca de profissionais e tecnologias que possam fazer o seu filho falar na tentativa de ofertar a “normalidade”. Strobel (2008), estudiosa surda, elucida essa procura por conseguir fazer o surdo falar, assegurando: “segundo o discurso ouvintista, o sujeito surdo para estar bem integrado à sociedade, deveria se adaptar à cultura ouvinte, porque somente assim poderia viver ‘normalmente’. Se não conseguir, é considerado desviante” (p. 23). Como a tentativa primeira é da oralização do surdo, os pais retardam o contato de seus filhos com outros surdos. Teske (2010) constata essa prática quando aponta que Muitos surdos só encontram outros quando já estão entrando na adolescência ou na vida adulta. Só então começam a frequentar os clubes e escolas surdas, ou vão se aproximando de ‘grupos espontâneos de surdos’, fora dos lugares institucionalizados, na rua, nos shoppings centers, etc., onde discutem livremente suas idéias e opiniões (p. 145). O problema maior na relação entre pais e filhos surdos é a comunicação. Como afirma Rodrigues e Pires (2002) “os pais referem-nos as dificuldades que as crianças e eles têm em fazerem-se compreender, em conseguirem comunicar o que querem e, assim, a comunicação entre pais e filhos é interrompida facilmente e frequentemente” (p. 392). O que é estendido na relação com os professores e os outros ouvintes na sociedade e que leva o surdo a se tornar alheio ao que ocorre em seu meio porque a comunicação não o alcança. Familiares e professores evitam dar informações por não saberem a língua de sinais e desse modo põem o surdo às margens em conversas familiares, nas explicações das atividades e em tantas outras situações que os ouvintes conversam sem que a criança ou jovem esteja envolvido diretamente, mas que a criança ouvinte capta, mas que não chega à criança surda. À proporção que o filho cresce o hiato, entre o membro surdo e seus familiares, aumenta por não haver a possibilidade de uma comunicação direta e compreensível. Além disso, evidencia-se a representação social que se tem sobre o surdo, como aquela pessoa que não fala, como aquela que não sabe se comunicar, que sempre dependerá de outra pessoa e que terá dificuldades na escola e no trabalho por ter uma deficiência. Essa representação é introjetada pelo sujeito surdo, e pode levar a uma percepção negativa de si e um descrédito em seus potenciais. O grande perigo das representações sociais é que elas possuem a capacidade de deturpar a realidade e apresentar-se como a percepção real, levando, neste caso, a pessoa surda a perceber-se através de uma menor valia. 126 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Os ouvintes insistem em uma perspectiva de deficiência e querem levar o surdo a falar através da obrigatoriedade da oralização. Essa falta de comunicação por não ocorrer uma compreensão entre as duas línguas levam a angústia. Como afirma a artista francesa, surda Laborit, em sua autobiografia,que vivia forte angústia por não compreender que era surda e nem seus familiares saberem lidar com tal situação. “Muitas vezes o silêncio foi rompido através de gritos, em uma ânsia de se dizer o que sente ou silenciar suas dores da incompreensão, do sentimento da diferença e impotência (LABORIT, 1994, p. 12). Esse sentimento de inadequação, por se sentir diferente e não conseguir se fazer compreendido(a) gera baixa autoestima no surdo. Na visão biológica a surdez é uma deficiência auditiva, está relacionada à falta e a indicação é a terapia da palavra, na busca de fazer o surdo falar. Por várias décadas os surdos chegaram a ser ignorados em suas capacidades e, em sua forma de comunicação, tornavam-se invisíveis para os ouvintes (JOCA, 2014, p.33). Até o início do séc. XXI os surdos eram pouco vistos em suas capacidades e as escolas obrigavam a oralização, chegando a amarrar mão para traz e até batendo nas crianças surdas para não fazerem uso de sinalização. Os pais e as escolas seguiam a orientação da oralização e negavam o uso da língua de sinais, porque os manuais de saúde indicam a surdez como a incapacidade total ou parcial da capacidade de ouvir. “Os surdos são definidos somente a partir de supostos traços negativos, percebidos como exemplos de um desvio de normalidade, no pior dos casos, ou de certa diversidade, no melhor dos casos” (SKLIAR, 2005, pp. 12-13). Através dos movimentos surdos tem-se conquistado o espaço do sujeito surdo, na busca incessante para sair da posição de oprimido e das imposições da sociedade ouvintista dominante que insiste em mantê-lo como deficiente, enquanto que lutam pelo direito de serem percebidos na perspectiva de uma diferença linguística. Nas escolas, que a bem pouco tempo insistiam na prática da oralização, revelava-se a busca pela “normalidade” com o intuito de fazer o surdo falar e não consideravam a comunicação premente do surdo através da sinalização, colocando desse modo os alunos surdos às margens, a espera de um tempo que sobraria do professor para lhe dar atenção e gerava assim um ambiente de (des)aprendizagem para o surdo. Com isso “durante muito tempo, a educação de surdos foi prejudicada em razão da insistência em se considerar a aprendizagem da fala como pré-requisito para o aprendizado das demais habilidades necessárias à escolarização” (KELMAN, 2011, p.186). 127 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Nos dias de hoje o reconhecimento da língua de sinais é universal e no Brasil “a língua de sinais assume uma grande visibilidade nas atuais propostas do MEC/SEESP37, onde o que está em jogo é marcar a diferença dos sujeitos surdos por essa língua” (LUNARDI, 2003, p. 175). Com a conquista de seus direitos, os surdos teem chegado ao Curso Superior e fazendo valer o uso da língua de sinais e através da inclusão, que segue a proposta de Educação para Todos, passam a contar com os serviços de Tradutores e Intérpretes de Língua de Sinais (TILS) como ferramenta promotora de sua acessibilidade na aquisição de aprendizagem e conhecimento. Método Trata-se de uma pesquisa qualitativa, através do método etnográfico devido à especificidade do tema e a necessidade de aproximação de uma cultura desconhecida para pesquisadora. Além de levar em consideração que a pesquisa qualitativa toma como base os “significados que as pessoas atribuem às suas experiências do mundo social e como as pessoas compreendem esse mundo” (MAY & POPE, 2005, p.13). Seguindo o objetivo da pesquisa: Averiguar que influência a família tem na constituição do sujeito na cultura surda. Houve a imersão no campo, em uma Universidade da capital cearense, com o maior número de surdos (na época) que galgaram o curso superior. A permanência no campo ocorreu do mês de maio de 2010 a maio de 2012, em diversos ambientes para conviver de perto com pessoas surdas como se fosse uma participante da comunidade durante o período de 02 anos, que gerou 05 diários de campo em cadernos de 150 páginas, perfazendo um total de 750 páginas de descrição densa registradas. O estudo etnográfico foi realizado através da exploração do fenômeno de forma livre, a partir de dados não estruturados e a cada novo contato com aquela cultura diversa havia um estranhamento sobre aquela nova modalidade de linguagem. E a partir de então ocorriam as descrições de forma densa com o intuito de gerar material para análise. Contudo, fez-se uso de técnica complementar para aquisição de dados a pesquisadora recorreu ao Grupo Focal com a formação de dois grupos, representados por 11 alunos 37 Ministério da Educação – MEC, do Brasil e Secretaria de Educação do Estado de São Paulo – SEESP. 128 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 universitários surdos (da Universidade indicada), que faziam uso da língua de sinais e do serviço de intérpretes no Campus, e o outro grupo formado pelos pais desses alunos surdos. Os Grupos Focais ocorriam a partir dos planejamentos das sessões, o guia de tópico, garantia da comunicação do surdo em sua língua primeira através da colaboração dos intérpretes de LIBRAS. Os grupos ocorriam com periodicidade quinzenal, de setembro a novembro de 2010, com duração de cem minutos, cada encontro. Desse modo, computou-se quinhentos minutos para cada grupo. Os encontros eram coordenados de forma flexível de modo que os participantes sentiam-se a vontade para partilhar suas experiências e ponto de vista. Por acreditar que “pessoas podem reconhecer, nos outros, partes de si mesmas previamente ocultas. Também podem reconstruir suas próprias narrativas de vida e a partir das histórias dos outros” (CRABTREE e col., apud BARBOUR, 2009, p. 50). Os encontros no grupo de pais foram gravados em audio MP3 por ter sido realizado na língua portuguesa, enquanto que, com o grupo de surdos os registros foram através de filmagem por se tratar de uma linguagem visual. Isso porque “existem vantagens óbvias ao se usar grupos focais na língua nativa dos participantes. [...] usar suas línguas maternas pode encorajá-los a serem mais espontâneos e abertos à discussão” (BARBOUR, 2008, p.131). Para análise dos dados recorremos as categorias elencadas manualmente e ao recurso do software NVivo, afim de apresentar essas categorias através de gráficos. Resultado Como este estudo ora apresentado trata-se de um recorte da pesquisa será apresentado apenas duas categorias principais (Oralização Obrigatória e Escolarização inadequada) e suas subcategorias, como pode ser visto nos gráficos a seguir. Todos os participantes da pesquisa referiram-se à oralização obrigatória, entretanto as perspectivas eram diversas. Os surdos com veemência reclamaram dessa prática enquanto os pais referiam-se como de extrema necessidade o exercício e uso da oralização. As categorias apontadas por surdos e seus pais tomam proporções antagônicas: os surdos como algo negativo e os pais como algo necessário. 129 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Surdos e ouvintes, neste estudo, percebiam a língua de sinais como uma forma natural de comunicação dos surdos, mas foi compreendido o forte estímulo à oralização por parte dos pais e educadores e a postergação do contato da criança e jovem com a língua de sinais. Enquanto os surdos revelaram que havia uma grande dificuldade para aprender a língua portuguesa, tanto para articular as palavras como para escrever e segundo eles os professores não entendiam, mas seguiam as aulas na tentativa de que os alunos surdos aprendessem a se expressarem em Português, os educadores ignoravam a língua materna dos surdos, a língua de sinais. Observando o gráfico acresce-se que a maior referência do surdo decorre do mal-estar que sentia com a imposição ao oralismo, o que também se vincula ao atraso do contato com sua língua materna e refere-se ao tratamento fonoaudiológico como algo que o torturava, como pode ser percebido no comentário de um surdo, participante do estudo: “Tudo aquilo era muito chato, repetir, repetir e repetir além daquele aparelho que só fazia barulho, então joguei fora” (D.A) Em relação a categoria referente a escolarização há uma discrepância gritante entre a forma de perceber dos surdos e dos pais em relação a metodologia da escola e o conhecimento sobre as relações vividas por seu filho durante o período escola. 130 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Esta categoria surgiu de forma clara durante as exposições dos discursos dos participantes surdos em contrapartida houve uma expressão de tristeza e dor dos pais, em relação as escolas, mas a partir da geração de gráfico com os dados percebeu-se que não tinha conhecimento do real sofrimento vivido por seus filhos na escola. O gráfico revela a insatisfação maior dos surdos em relação à escola por terem vivido essa dificuldade de uma metodologia que não percebia a sua singularidade e que provocava a exclusão. Como relata uma colaboradora surda: “Na escola os ouvintes conseguiam aprender e os surdos não. Foi um tempo sofrido” (A.D). Os pais ao escolher escolas de ouvintes que se diziam inclusivas acreditavam ser as melhores escolas, mas não tinham consciência do que se passava com seu filho Como a mãe comenta: “A escola foi a melhor na época. Foi escolhida por nós mesmos dentre as opções e acreditávamos também [tosse] que eles iam aprender a falar” (D.C). Essa mãe em outro momento complementa: “Ele apanhava pra não falar com LIBRAS na escola só falar”. Discussão e Conclusões Através da colaboração do surdo neste estudo percebeu-se que as condições que a sociedade ouvintista impõe para que ele siga a trilha da oralização e o faz repetir sons que ele não entende e nem sabe porque repete é geradora de angústia e sofrimento. E a partir dessa imposição percebe-se que, por um longo período na história, foi a perspectiva médica que prevaleceu na determinação da imagem a ser assumida pelo surdo e consequentemente 131 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 havia a indicação das práticas e tratamentos a serem realizados por pais e familiares, que trazia como objetivo maior fazer o surdo falar. Divergindo desta perspectiva de deficiência este estudo conheceu o surdo “como constituinte de um povo rico de conhecimento e que a não escuta das mãos transformava o mundo deles silencioso. E ao seguir o modelo médico a sociedade insistia na perspectiva da deficiência e contrariamente através de uma percepção cultural seria possível percebê-los como um povo com língua e cultura própria (JOCA, 2014, p. 177). Durante todo percurso a pesquisa alcançou o entendimento que o surdo percorreu um longo caminho até o início deste século, onde ainda amarravam suas mãos nas escolas para não sinalizar a conquistar espaços nas IES com a presença de intérpretes e a conquista de escola bilingue da Educação Infantil ao Ensino Médio. Porque pensando essas mudanças através das conquistas na atualidade pode-se afirmar que “a educação multicultural seria um veículo eficaz para as trocas sociais emancipatórias” (TESKE, 2010, p. 142). A partir do que foi apresentado, pode-se afirmar que este estudo mostrou-se relevante como reflexão para área da saúde, educacional e social, para pensar em políticas públicas mais adequadas às pessoas surdas e de forma mais global às Pessoas com Deficiência com suas particularidades e não de forma massificada. Referências Bibliográficas BARBOUR, R. (2009). Grupos focais. (M. F. Duarte, Trad.). Porto Alegre – RS: ArtMed. INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA ESTATÍSTICA (IBGE). Censo Demográfico Brasileiro de 2010. Visitado em 17/12/2011 e 02/03/2014 from http://www.ibge.gov.br JOCA, T. T. Um estrangeiro em família. Lisboa: UAL, 2014, 208 Tese (Doutorado em Psicologia) – Programa de Pós-Graduação em Psicologia. Universidade Autónoma de Lisboa, Portugal, 2014 (não publicada). KELMAN, C. A. Significação e aprendizagem do aluno surdo. In A. M. Martizez, & M. C. V. R. Tacca, M. C. V. R. 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Como resultados encontramos um número reduzido de pessoas com NEE com acesso a esta instituição, apesar do crescente aumento de matrículas respaldados pela legislação brasileira, matriculados principalmente nos cursos das áreas de humanas. Além disso, nota-se que entre as NEE, o maior número de matrícula é a baixa visão, seguida de deficiência física, deficiência auditiva e cegueira. Investigações futuras sobre a trajetória acadêmica das jovens podem oferecer pistas para a compreensão das facilidades e dificuldades enfrentadas no acesso e permanência na universidade em questão. PALAVRAS-CHAVE Ensino superior, Inclusão, Necessidades Educacionais Especiais, Deficiência. Atualmente, existe um aparato legal e normativo que busca garantir o direito ao acesso e permanência da pessoa com necessidades educacionais especiais (NEE) no Ensino Superior. Dentre a legislação existente, podemos destacar: Portaria 1.678/1999 que indica alguns critérios de acessibilidade arquitetônica para a concessão de autorização e reconhecimentos de cursos de nível superior (BRASIL, 1999); Decreto 3.298/1999 que dispõe sobre o compromisso das instituições de ensino superior perante as 38 Mestranda em Educação, Universidade Estadual de Londrina. Psicóloga Educacional e Coordenadora do Núcleo de Atendimento às Pessoas com Necessidades Educacionais Específicas (NAPNE) do IFPR-Telêmaco Borba – [email protected] 39 Docente do Departamento de Educação – Universidade Estadual de Londrina – [email protected] 40 Docente do Departamento de Educação – Universidade Estadual de Londrina – [email protected] 135 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 adaptações necessárias às pessoas com deficiências (BRASIL, 1999b); Decreto 5.626/2005 que reconhece a Língua Brasileira de Sinais (LIBRAS) como língua e a obrigatoriedade da inserção de disciplina que trabalhe LIBRAS nos cursos de licenciatura e fonoaudiologia (BRASIL, 2005). Programa INCLUIR do governo federal, criado em 2005, que propõe um conjunto de ações com vistas a garantir o acesso às pessoas com deficiência nas instituições federais de ensino superior (BRASIL, 2014). No entanto, apesar de legalmente prevista, as discussões e pesquisas acerca da inclusão no Ensino Superior ainda são pouco expressivas. Ao realizar uma busca na base de dados Scientific Electronic Library Online (Scielo), articulando as palavras-chave “Inclusão e Ensino Superior” e “Deficiência e Ensino Superior”, encontramos oito artigos que abordam esta temática, conforme descrito no quadro abaixo: Título do Trabalho Educação Inclusiva no Ensino Superior: um novo desafio Deficientes auditivos e escolaridade: fatores diferenciais que possibilitam o acesso ao ensino superior Acessibilidade em ambiente universitário: identificação de barreiras arquitetônicas no campus da USP de Bauru Estudantes surdos no Ensino Superior: reflexões sobre a inclusão Ingresso e permanência na Universidade: alunos com deficiências em foco Estudo de Caso Sobre a Inclusão de Alunos com Temática Referência Preconceito e inclusão FERRARI; SEKKEL (2007) Ingresso e permanência MANENTE;RODRI no Ensino Superior GUES;PALAMIN (2007) Acessibilidade/ Barreiras arquitetônicas LAMÔNICA et. al (2008) Acessibilidade/Barreira BISOL s de comunicação (2010) et. al Ingresso e permanência MOREIRA; no Ensino Superior BOLSANELLO; SEGER (2011) Ingresso Superior 136 no Ensino DUARTE (2013) et. al Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Deficiência no Ensino Superior Inclusão de uma aluna cega em um curso de licenciatura em química Avaliação da satisfação do aluno com deficiência no ensino superior Ingresso e permanência REGIANI; no Ensino Superior (2013) MOL Ingresso e permanência GUERREIRO; no Ensino Superior ALMEIDA; SILVA FILHO (2014) Quadro 1 – Estudos encontrados no SCIELO e que abordam a articulação dos temas inclusão, deficiência e Ensino Superior. Os estudos acima citados puderam ser categorizados de acordo com a temática principal que os norteiam. Acessibilidade (arquitetônica e de comunicação), preconceito e análise do ingresso e/ou permanência de alunos com NEE no Ensino Superior, mediante a realização de estudos de caso ou análises mais amplas, foram as categorias que tais pesquisas puderam ser agrupadas. O estudo de Ferrari e Sekkel (2007) procura discutir os desafios da inclusão no Ensino Superior, ressaltando a questão do preconceito nas relações com a deficiência e identificando três desafios para que a inclusão ocorra com maior efetividade: necessidade de tomada de posição das instituições sobre os objetivos e elegibilidade dos alunos para seus cursos, a formação do professor de Ensino Superior para Educação Inclusiva e o desenvolvimento de práticas educativas, com participação ativa de professores e alunos para o reconhecimento das diferenças e estratégias de superação das dificuldades. Em relação às questões de acessibilidade temos os estudos de Lamônica et al (2008) e Bisol et al. (2010). Lamônica et al. (2008), mediante a análise de condições de estrutura física de uma instituição em particular, identifica os pontos de acesso já existentes e aqueles que precisam ser readequados, tecendo considerações sobre a acessibilidade arquitetônica e a sua relação para a promoção da integração da pessoa com deficiência em todos os espaços da instituição. A pesquisa de Bisol et al. (2010) abordam a mesma temática acessibilidade, porém focando a questão da comunicação, em especial as dificuldades que o aluno surdo - que frequentou escolas bilíngues e se identifica com a comunidade surda - encontra no Ensino Superior. Como resultado de seu estudo, Bisol et al. (2010) identificou a dificuldade do aluno em transitar entre língua de sinais e língua portuguesa, necessidade do aluno ter que se adequar aos padrões identitários valorizados pelos ouvintes para sentir-se pertencente ao grupo, e importância de reavaliação das estratégias de ensino 137 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 utilizadas, bem como do papel e participação do intérprete de língua de sinais neste processo. Diferentes estudos (DUARTE et al, 2013; REGIANE; MOL, 2013; MOREIRA; BOLSANELLO; SEGER, 2011; MANENTE; RODRIGUES; PALAMIN, 2007) abordam aspectos do ingresso e permanência dos alunos com deficiência no Ensino Superior. Duarte et. al (2013) focaram apenas as questões de ingresso, investigando o número de matrículas de alunos com deficiência no Ensino Superior no Município de Juiz de Fora. Os pesquisadores ressaltam a dificuldade encontrada para encontrar os dados oficiais de matrículas e o quanto as próprias instituições não possuem tal levantamento. O estudo proposto revelou a necessidade de ampliação das informações sobre a inclusão no Ensino Superior. Já os autores Manente, Rodrigues e Palamin (2007), Moreira, Bolsanello e Seger (2011), Regiani e Mol (2013) abordam tanto aspectos relativos ao ingresso quanto à permanência dos alunos. Manente, Rodrigues e Palamin (2007), com uma investigação diferenciada dos demais estudos - por ter como sujeitos de pesquisa, pessoas com deficiência auditiva de vários pontos do Brasil - investigaram o acesso e permanência no Ensino Superior considerando três grupos: o primeiro de pessoas que já estão no Ensino Superior em diferentes instituições, o segundo de pessoas que concluíram o Ensino Médio e por último de pessoas com escolaridades diversas, que ainda não tenham chegado a conclusão do Ensino Médio. Os resultados indicaram que aqueles que já se encontram no Ensino Superior atribuem dificuldades para sua permanência: o insucesso na vida escolar anterior, a falta de apoio dos professores/colegas e a falta de orientação. Os que concluíram o Ensino Médio ou possuem outro nível de escolaridade acreditam ser difícil ingressar no Ensino Superior devido as dificuldades financeiras, medo de reprovação e por acreditarem que não conseguirão acompanhar o curso superior pelo histórico de formação escolar deficitária. Moreira, Bolsanello e Seger (2011) estudaram as políticas públicas para inclusão no Ensino Superior, tendo como referência a trajetória de alunos com deficiência da Universidade Federal do Paraná e puderam concluir que é necessária a implantação de políticas mais efetivas e que a Universidade assuma seu papel na proposição dos direitos aos alunos com deficiência. Regiani e Mol (2013) avaliaram a inclusão de uma aluna cega no Ensino Superior, e encontraram aspectos convergentes à pesquisa de Moreira, Bolsanello e Seger (2011), revelando a necessidade da reconstrução do sistema de ensino, superação de “barreiras pedagógicas” (p. 131) e a elaboração de materiais didáticos e formação apropriada ao professor para conduzir o processo de inclusão. Por fim, Guerreiro, Almeida e Silva Filho (2014) propõem um instrumento de avaliação da satisfação do aluno, que possa avaliar as condições físicas e 138 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 atitudinais da instituição e que possam contribuir para ações de permanência do aluno. Dos estudos citados, apenas quatro deles (BISOL et al.,2010; MOREIRA, BOLSANELLO e SEGER, 2011; DUARTE et al., 2013; GUERREIRO, ALMEIDA e SILVA FILHO, 2014) fazem referência a dados oficiais de matrículas de alunos com deficiência no Ensino Superior, muitas vezes com dados conflitantes referente a um mesmo ano. Moreira, Bolsanello e Seger (2011) afirmam existir 2155 alunos com deficiência em 2000, enquanto Guerreiro, Almeida e Silva Filho (2014) em seus estudos, afirmam ser 2173 alunos. Dado o panorama de escassez de estudos, principalmente em relação àqueles que consigam apresentar dados de alunos efetivamente matriculados nesta modalidade de ensino, utilizando os indicadores educacionais da Educação Superior brasileira, neste artigo, buscamos analisar os índices de matrículas de alunos NEE no Ensino Superior no período compreendido de 2009 a 2012. Tomamos ainda, as matrículas de alunos com NEE em uma instituição pública de Educação Superior do Paraná para caracterizar o público com NEE que ingressa nesta modalidade de ensino. PROCEDIMENTO METODOLÓGICO O Censo da Educação Superior começou a ser realizado a partir de 1995, pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais – Anísio Teixeira (INEP). O censo é realizado anualmente e contempla informações sobre as instituições, cursos de graduação presencial e à distância, vagas ofertadas, matrículas, ingressantes e concluintes e informações sobre docentes e alunos. O banco de dados de cada ano é público e disponibilizado no site do INEP. Para o presente estudo, investigamos uma instituição pública de ensino superior do estado do Paraná, nos anos de 2009-2012. O recorte temporal escolhido para esta pesquisa foi de 2009-2012, pois em 2009, o censo assumiu uma configuração que se manteve nos anos posteriores, o que passou a permitir a comparação e análise entre os dados de cada ano. O ano 2012 é a última base disponibilizada pelo INEP. Para tratamento dos dados disponibilizados pelo INEP, foi utilizado o software estatístico Statistical Package for the Social Scienses (SPSS), que permitiu o cruzamento das variáveis como presença de NEE e tipo de NEE, código da instituição e código do curso. Para obter as matrículas específicas da instituição pública do Paraná, foi necessário descobrir o código da instituição no banco de dados de instituições do Censo, depois isolar as matrículas referentes a esta instituição e identificar cada aluno com NEE no período 2009-2012, mediante o código do aluno. 139 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 RESULTADOS E DISCUSSÃO O levantamento dos dados do Censo da Educação Superior permitiu a identificação de 75 matrículas de alunos com NEE no período de 2009-2012. Serão apresentadas as matrículas por ano, por tipo de necessidade especial e por curso da instituição investigada. Na Tabela 01 apresentamos as matrículas de alunos com e sem NEE na instituição investigada, por ano, no período de 2009-2012. Tabela 01 - Número total de matrículas de alunos com e sem NEE, em uma instituição de ensino pública paranaense, no período de 2009-2012. 2009 2010 2011 2012 Total de matríc ulas NEE Total de matríc ulas NEE Total de matrícul NEE as Total de matríc NEE ulas 11 19042 16 19156 18773 25 Instituição de Ensino 18194 PR Porcentage m 0,06 % 0,08 % 23 0,12 % 0,13% Fonte: Elaboração própria a partir dos microdados Censo Educação Superior (MEC/INEP 2009, 2010, 2011 e 2012) Na instituição pública do Paraná, em 2009, temos 18.194 matrículas contra 18.773 matrículas no ano de 2013, representando um aumento de 579 matrículas (3,18%). Ao analisar o período, identificamos que o número de matrículas aumenta gradativamente, até o ano de 2011, e em 2012 sofre uma redução. Quanto aos dados de matrículas de alunos com NEE, há um baixo número de matrículas em todo o período analisado. Em 2009 temos 11 matrículas e ao final do período (2012) temos 25 matrículas, representando um aumento de 14 matrículas. Em comparação aos dados totais de matrículas da mesma instituição, a inserção de alunos com NEE representa no máximo 0,13% das matrículas totais. O índice encontrado neste estudo, mostra-se inferior ao apresentado por Cruz e Gonçalves (2013). Em um estudo sobre a inserção de pessoas com NEE no ensino superior no Brasil e no estado de São Paulo, no período de 2007-2010, as pesquisadoras concluíram que as matrículas de alunos com NEE no Ensino 140 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Superior brasileiro representam em média 0,2% do total de matrículas totais desta modalidade de ensino. A baixa incidência de matrículas na Educação Superior, bem como a ausência de matrículas de algumas necessidades especiais, dentre elas a deficiência intelectual, denuncia que existe um afunilamento das matrículas de alunos com NEE do ensino fundamental para o ensino superior. Bueno e Meletti (2011) reconhecem em seus estudos que o afunilamento maior encontra-se na passagem do Ensino Fundamental para o Ensino Médio, já que muitos jovens com NEE não concluem esta etapa de ensino. Este afunilamento indica que, se apenas uma pequena parcela da população brasileira atinge a Educação Superior, este acesso é ainda mais restrito à população com NEE. Na Tabela 02 são apresentados os números de matrículas de alunos por tipo de necessidade especial. Tabela 02 - Número de matrículas de alunos por NEE, na instituição de ensino pública paranaense, no período de 2009- 2012 2009 2010 2011 2012 NEE NEE NEE NEE Cegueira Baixa Visão Surdez Deficiência Auditiva Deficiência Física Surdocegueira Deficiência Múltipla 1 0 1 3 0 0 1 8 0 1 6 0 0 0 11 0 1 11 0 0 0 10 0 2 13 0 0 Deficiência Intelectual Autismo Infantil Síndrome de Asperger Síndrome de Rett Transt. Desint. da Infância Superdotação 0 0 0 0 N.D. N.D. N.D. N.D. N.D. N.D. N.D. N.D. 0 0 0 0 0 0 0 0 N.D. N.D. 0 0 6 TOTAL 11 16 23 25 Fonte: Elaboração própria a partir dos microdados Censo Educação Superior (MEC/INEP 2009-2012) * N.D. - Não declarada tal informação neste Censo. Dentre todas as NEE identificadas no Censo da Educação Superior, verificamos que apenas quatro delas possuem matrículas na instituição investigada. A NEE 141 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 mais presente é baixa visão, com matrículas em todos os anos, totalizando 35 matrículas. A segunda necessidade especial com maior representatividade é a deficiência física, que teve matrículas de alunos em todos os anos analisados, em um total de 33 matrículas. Durante todos os anos, houve ainda matrículas de alunos com deficiência auditiva (5 matrículas) e cegueira (2 matrículas). As necessidades especiais Surdez, Deficiência Múltipla, Surdocegueira, Deficiência Intelectual, Autismo Infantil, Síndrome de Asperger, Síndrome de Rett, Transtorno Desintegrativo da Infância e Superdotação não tiveram nenhuma matrícula no período analisado. Os dados encontrados em relação ao tipo de NEE, com predomínio de matrículas de alunos com baixa visão e deficiência física, divergem dos dados por tipo de NEE encontrados no Ensino Fundamental e Médio, onde há o predomínio de matrículas de alunos com Deficiência Intelectual. De acordo com Cruz e Gonçalves (2013), em 2010 haviam 20.849 alunos com Deficiência Intelectual matriculados nas séries finais do Ensino Fundamental, representando 65,9% do total de matrículas de alunos com NEE do Estado de São Paulo. Em relação ao Ensino Médio paulista, as pesquisadoras encontraram 2.969 matrículas de alunos com deficiência intelectual, 38,3% de um total de 7.741 matrículas de alunos com NEE. As quatro NEE mencionadas são apresentadas no Quadro 02, conforme sua distribuição por curso. 2009 2010 2011 2012 Cegueira Direito (1) Direito (1) Baixa Ciências Ciências Geografia (1) Geografia (1) Visão Econômicas Econômicas (2) Ciências Ciências (1) Geografia (1) Econômicas Econômicas (1) Geografia (1) Ciências (2) História (2) Ciência Contábeis (1) História (1) Ciências Contábeis (1) História (1) Ciências Contábeis (1) Ciências Pedagogia (1) Contábeis (1) Ciências Sociais Sociais (1) Engenharia Serviço Social (1) Pedagogia (1) Elétrica (1) (1) Serviço Social (1) Educação Física Física (1) Física (1) (1) Pedagogia (1) Pedagogia (1) Engenharia Engenharia (1) Elétrica (1) Educação Física (2) Deficiênc Agronomia (1) Ciências sociais Ciências ia Física Ciências (3) Sociais (5) Sociais (1) Psicologia (2) Secretaria 142 Psicologia (2) Ciências Sociais (4) Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 Design Moda (1) de História (1) Executivo (1) Matemática (2) Psicologia (2) História (1) Secretaria Executivo (1) Matemática (2) Fisioterapia (1) Química (1) Administração (1) História (1) Deficiênc Pedagogia (1) Agronomia (1) ia Auditiva Agronomia (1) Agronomia (1) Ciências Biológicas (1) Total 23 matrículas 25 matrículas 11 matrículas 16 matrículas Quadro 2. Matrículas de alunos com NEE, por tipo de NEE e por curso, no período 2009-2012. *As demais NEE não foram citadas, por não apresentarem matrículas no período. Em relação ao número de matrículas nos cursos apresentados, nota-se um crescimento gradual do número de matrículas, de 11 matriculas em 2009 para 25 matrículas em 2012. Sobre as áreas de conhecimento contempladas, observa-se que em 2009 os cursos contemplados são das áreas de humanas e agrárias. Em 2010 acrescenta-se as exatas, em 2011 as áreas biológicas são contempladas. Outro dado que chama atenção é o desaparecimento de matrículas em determinados cursos por NEE. A matrícula de estudante com cegueira não se mantém no curso de direito em 2011 e 2012. Na baixa visão isso ocorre no curso de ciências econômicas em 2011 e 2012, e no curso de ciências sociais em 2010, 2011 e 2012. Na deficiência física observa-se o mesmo no curso de agronomia e design de moda em 2010, 2011 e 2012. Na deficiência auditiva a ausência de matrícula no curso de pedagogia é 2010, 2011 e 2012. Os dados mostram que estudos sobre as trajetórias acadêmicas dos estudantes com NEE poderão esclarecer os motivos que levam a não permanência por um ou dois anos na instituição. Algumas hipóteses a serem consideradas são trancamento e abandono do curso. 143 Anais IV Seminário sobre Inclusão no Ensino Superior Londrina, 18 e 19 de setembro de 2014 ISBN 978-85-7846-313-7 CONSIDERAÇÕES FINAIS A análise dos dados oficiais de matrícula no ensino superior torna-se relevante a medida em que define a política educacional do país e em última instância da universidade em questão. Este estudo preliminar possibilitou identificar aspectos relacionadas ao acesso da pessoa com NEE no ensino superior como o público atendido pela universidade e os cursos escolhidos. Neste sentido, estudos futuros poderão pesquisar trajetórias acadêmicas de jovens para verificar as condições de acessibilidade da universidade, processos de ensino-aprendizagem, processo de escolha do curso, índices de permanência e evasão nos cursos, e condições de seleção no vestibular entre outros. REFERÊNCIAS BISOL , C. A.; VALENTINI, C. B.; SIMIONI, J. L.; ZANCHIN, J. Estudantes surdos no Ensino Superior: reflexões sobre a inclusão. Cadernos de Pesquisa, v. 40, n. 139, p.147-172, jan./abr. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/cp/v40n139/v40n-139a08.pdf>. Acesso em: 10 Abr. 2014 BRASIL. Decreto n. 5.626, de 22 de dezembro de 2005. Dispõe sobre a Língua Brasileira de Sinais - Libras. Diário Oficial da República Federativa do Brasil. Brasília, 23 dez. 2005. ______. Ministério da Educação. 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