caderno do ensino médio a 1 - SÉRIE volume 2 - 2009 EDUCAçÃO FÍSICA PROFESSOR Coordenação do Desenvolvimento dos Conteúdos Programáticos e dos Cadernos dos Professores Ghisleine Trigo Silveira AUTORES Ciências Humanas e suas Tecnologias Filosofia: Paulo Miceli, Luiza Christov, Adilton Luís Martins e Renê José Trentin Silveira Geografia: Angela Corrêa da Silva, Jaime Tadeu Oliva, Raul Borges Guimarães, Regina Araujo, Regina Célia Bega dos Santos e Sérgio Adas Governador José Serra História: Paulo Miceli, Diego López Silva, Glaydson José da Silva, Mônica Lungov Bugelli e Raquel dos Santos Funari Vice-Governador Alberto Goldman Sociologia: Heloisa Helena Teixeira de Souza Martins, Marcelo Santos Masset Lacombe, Melissa de Mattos Pimenta e Stella Christina Schrijnemaekers Secretário da Educação Paulo Renato Souza Secretário-Adjunto Guilherme Bueno de Camargo Chefe de Gabinete Fernando Padula Coordenadora de Estudos e Normas Pedagógicas Valéria de Souza Coordenador de Ensino da Região Metropolitana da Grande São Paulo José Benedito de Oliveira Coordenador de Ensino do Interior Rubens Antonio Mandetta Presidente da Fundação para o Desenvolvimento da Educação – FDE Fábio Bonini Simões de Lima EXECUÇÃO Coordenação Geral Maria Inês Fini Concepção Guiomar Namo de Mello Lino de Macedo Luis Carlos de Menezes Maria Inês Fini Ruy Berger GESTÃO Fundação Carlos Alberto Vanzolini Presidente do Conselho Curador: Antonio Rafael Namur Muscat Presidente da Diretoria Executiva: Mauro Zilbovicius Diretor de Gestão de Tecnologias aplicadas à Educação: Guilherme Ary Plonski Coordenadoras Executivas de Projetos: Beatriz Scavazza e Angela Sprenger COORDENAÇÃO TÉCNICA CENP – Coordenadoria de Estudos e Normas Pedagógicas Ciências da Natureza e suas Tecnologias Biologia: Ghisleine Trigo Silveira, Fabíola Bovo Mendonça, Felipe Bandoni de Oliveira, Lucilene Aparecida Esperante Limp, Maria Augusta Querubim Rodrigues Pereira, Olga Aguilar Santana, Paulo Roberto da Cunha, Rodrigo Venturoso Mendes da Silveira e Solange Soares de Camargo Ciências: Ghisleine Trigo Silveira, Cristina Leite, João Carlos Miguel Tomaz Micheletti Neto, Julio Cézar Foschini Lisbôa, Lucilene Aparecida Esperante Limp, Maíra Batistoni e Silva, Maria Augusta Querubim Rodrigues Pereira, Paulo Rogério Miranda Correia, Renata Alves Ribeiro, Ricardo Rechi Aguiar, Rosana dos Santos Jordão, Simone Jaconetti Ydi e Yassuko Hosoume Física: Luis Carlos de Menezes, Sonia Salem, Estevam Rouxinol, Guilherme Brockington, Ivã Gurgel, Luís Paulo de Carvalho Piassi, Marcelo de Carvalho Bonetti, Maurício Pietrocola Pinto de Oliveira, Maxwell Roger da Purificação Siqueira e Yassuko Hosoume Química: Denilse Morais Zambom, Fabio Luiz de Souza, Hebe Ribeiro da Cruz Peixoto, Isis Valença de Sousa Santos, Luciane Hiromi Akahoshi, Maria Eunice Ribeiro Marcondes, Maria Fernanda Penteado Lamas e Yvone Mussa Esperidião Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Arte: Geraldo de Oliveira Suzigan, Gisa Picosque, Jéssica Mami Makino, Mirian Celeste Martins e Sayonara Pereira Educação Física: Adalberto dos Santos Souza, Jocimar Daolio, Luciana Venâncio, Luiz Sanches Neto, Mauro Betti e Sérgio Roberto Silveira LEM – Inglês: Adriana Ranelli Weigel Borges, Alzira da Silva Shimoura, Lívia de Araújo Donnini Rodrigues, Priscila Mayumi Hayama e Sueli Salles Fidalgo Língua Portuguesa: Alice Vieira, Débora Mallet Pezarim de Angelo, Eliane Aparecida de Aguiar, José Luís Marques López Landeira e João Henrique Nogueira Mateos Matemática Matemática: Nílson José Machado, Carlos Eduardo de Souza Campos Granja, José Luiz Pastore Mello, Roberto Perides Moisés, Rogério Ferreira da Fonseca, Ruy César Pietropaolo e Walter Spinelli Caderno do Gestor Lino de Macedo, Maria Eliza Fini e Zuleika de Felice Murrie Equipe de Produção Coordenação Executiva: Beatriz Scavazza Assessores: Alex Barros, Antonio Carlos de Carvalho, Beatriz Blay, Carla de Meira Leite, Eliane Yambanis, Heloisa Amaral Dias de Oliveira, José Carlos Augusto, Luiza Christov, Maria Eloisa Pires Tavares, Paulo Eduardo Mendes, Paulo Roberto da Cunha, Pepita Prata, Renata Elsa Stark, Ruy César Pietropaolo, Solange Wagner Locatelli e Vanessa Dias Moretti Equipe Editorial Coordenação Executiva: Angela Sprenger Assessores: Denise Blanes e Luis Márcio Barbosa Projeto Editorial: Zuleika de Felice Murrie Edição e Produção Editorial: Conexão Editorial, Verba Editorial e Occy Design (projeto gráfico) APOIO FDE – Fundação para o Desenvolvimento da Educação CTP, Impressão e Acabamento Esdeva Indústria Gráfica A Secretaria da Educação do Estado de São Paulo autoriza a reprodução do conteúdo do material de sua titularidade pelas demais secretarias de educação do país, desde que mantida a integridade da obra e dos créditos, ressaltando que direitos autorais protegidos* deverão ser diretamente negociados com seus próprios titulares, sob pena de infração aos artigos da Lei nº 9.610/98. * Constituem “direitos autorais protegidos” todas e quaisquer obras de terceiros reproduzidas no material da SEE-SP que não estejam em domínio público nos termos do artigo 41 da Lei de Direitos Autorais. Catalogação na Fonte: Centro de Referência em Educação Mario Covas S239c São Paulo (Estado) Secretaria da Educação. Caderno do professor: educação física, ensino médio - 1ª série, volume 2 / Secretaria da Educação; coordenação geral, Maria Inês Fini; equipe, Adalberto dos Santos Souza, Jocimar Daolio, Luciana Venâncio, Luiz Sanches Neto, Mauro Betti, Sérgio Roberto Silveira. – São Paulo : SEE, 2009. ISBN 978-85-7849-255-7 1. Educação Física 2. Ensino Médio 2. Estudo e ensino I. Fini, Maria Inês. II. Souza, Adalberto dos Santos. III. Daolio, Jocimar. IV. Venâncio, Luciana. V. Sanches Neto, Luiz. VI. Betti, Mauro. VII. Silveira, Sérgio Roberto. VIII. Título. CDU: 373.5:796 Prezado(a) professor(a), Vinte e cinco anos depois de haver aceito o convite do nosso saudoso e querido Governador Franco Montoro para gerir a Educação no Estado de São Paulo, novamente assumo a nossa Secretaria da Educação, convocado agora pelo Governador José Serra. Apesar da notória mudança na cor dos cabelos, que os vinte e cinco anos não negam, o que permanece imutável é o meu entusiasmo para abraçar novamente a causa da Educação no Estado de São Paulo. Entusiasmo alicerçado na visão de que a Educação é o único caminho para construirmos um país melhor e mais justo, com oportunidades para todos, e na convicção de que é possível realizar grandes mudanças nesta área a partir da ação do poder público. Nos anos 1980, o nosso maior desafio era criar oportunidades de educação para todas as crianças. No período, tivemos de construir uma escola nova por dia, uma sala de aula a cada três horas para dar conta da demanda. Aliás, até recentemente, todas as políticas recomendadas para melhorar a qualidade do ensino concentravam-se nas condições de ensino, com a expectativa de que viessem a produzir os efeitos desejados na aprendizagem dos alunos. No Brasil e em São Paulo, em particular, apesar de não termos atingido as condições ideais em relação aos meios para desenvolvermos um bom ensino, o fato é que estamos melhor do que há dez ou doze anos em todos esses quesitos. Entretanto, os indicadores de desempenho dos alunos não têm evoluído na mesma proporção. O grande desafio que hoje enfrentamos é justamente esse: melhorar a qualidade de nossa educação pública medida pelos indicadores de proficiência dos alunos. Não estamos sós neste particular. A maioria dos países, inclusive os mais desenvolvidos, estão lidando com o mesmo tipo de situação. O Presidente Barack Obama, dos Estados Unidos, dedicou um dos seus primeiros discursos após a posse para destacar exatamente esse mesmo desafio em relação à educação pública em seu país. Melhorar esses indicadores, porém, não é tarefa de presidentes, governadores ou secretários. É dos professores em sala de aula no trabalho diário com os seus alunos. Este material que hoje lhe oferecemos busca ajudá-lo nesta sua missão. Foi elaborado com a ajuda de especialistas e está organizado em bimestres. O Caderno do Professor oferece orientação completa para o desenvolvimento das Situações de Aprendizagem propostas para cada disciplina. Espero que este material lhe seja útil e que você leve em consideração as orientações didático-pedagógicas aqui contidas. Estaremos atentos e prontos para esclarecer suas dúvidas e acatar suas sugestões para melhorar a eficácia deste trabalho. Alcançarmos melhores indicadores de qualidade em nosso ensino é uma questão de honra para todos nós. Juntos, haveremos de conduzir nossas crianças e jovens a um mundo de melhores oportunidades por meio da educação. Paulo Renato Souza Secretário da Educação do Estado de São Paulo Sumário São Paulo faz escola – Uma Proposta Curricular para o Estado Ficha do Caderno 5 7 Orientação sobre os conteúdos do bimestre 8 Tema 1 – Atividade rítmica: o ritmo no esporte, na luta, na ginástica e na dança 10 Situação de Aprendizagem 1 – Do ritmo próprio ao ritmo nas manifestações da cultura de movimento 11 Atividade avaliadora 13 Proposta de Situações de Recuperação 14 Recursos para ampliar a perspectiva do professor e do aluno para a compreensão do tema 15 Tema 2 – Esporte Individual: Ginástica Rítmica 16 Situação de Aprendizagem 2 – Os aparelhos da Ginástica Rítmica (GR) 17 Situação de Aprendizagem 3 – Aprendendo a apreciar um espetáculo esportivo Atividade avaliadora 21 22 Proposta de Situações de Recuperação 22 Recursos para ampliar a perspectiva do professor e do aluno para a compreensão do tema 23 Tema 3 – Corpo, Saúde e Beleza 24 Situação de Aprendizagem 4 – A construção histórica e cultural dos padrões de beleza e a minha beleza 29 Situação de Aprendizagem 5 – Tribunal da beleza Atividade avaliadora 34 35 Proposta de Situações de Recuperação 36 Recursos para ampliar a perspectiva do professor e do aluno para a compreensão do tema 36 Considerações finais 38 Quadro de conteúdos – Ensino Médio 39 SãO PAUlO FAz ESCOlA – UMA PROPOSTA CURRICUlAR PARA O ESTAdO Prezado(a) Professor(a), É com muita satisfação que apresento a todos a versão revista dos Cadernos do Professor, parte integrante da Proposta Curricular de 5a a 8a séries do Ensino Fundamental – Ciclo II e do Ensino Médio do Estado de São Paulo. Esta nova versão também tem a sua autoria, uma vez que inclui suas sugestões e críticas, apresentadas durante a primeira fase de implantação da proposta. Os Cadernos foram lidos, analisados e aplicados, e a nova versão tem agora a medida das práticas de nossas salas de aula. Sabemos que o material causou excelente impacto na Rede Estadual de Ensino como um todo. Não houve discriminação. Críticas e sugestões surgiram, mas em nenhum momento se considerou que os Cadernos não deveriam ser produzidos. Ao contrário, as indicações vieram no sentido de aperfeiçoá-los. A Proposta Curricular não foi comunicada como dogma ou aceite sem restrição. Foi vivida nos Cadernos do Professor e compreendida como um texto repleto de significados, mas em construção. Isso provocou ajustes que incorporaram as práticas e consideraram os problemas da implantação, por meio de um intenso diálogo sobre o que estava sendo proposto. Os Cadernos dialogaram com seu público-alvo e geraram indicações preciosas para o processo de ensino-aprendizagem nas escolas e para a Secretaria, que gerencia esse processo. Esta nova versão considera o “tempo de discussão”, fundamental à implantação da Proposta Curricular. Esse “tempo” foi compreendido como um momento único, gerador de novos significados e de mudanças de ideias e atitudes. Os ajustes nos Cadernos levaram em conta o apoio a movimentos inovadores, no contexto das escolas, apostando na possibilidade de desenvolvimento da autonomia escolar, com indicações permanentes sobre a avaliação dos critérios de qualidade da aprendizagem e de seus resultados. 5 Sempre é oportuno relembrar que os Cadernos espelharam-se, de forma objetiva, na Proposta Curricular, referência comum a todas as escolas da Rede Estadual, revelando uma maneira inédita de relacionar teoria e prática e integrando as disciplinas e as séries em um projeto interdisciplinar por meio de um enfoque filosófico de Educação que definiu conteúdos, competências e habilidades, metodologias, avaliação e recursos didáticos. Esta nova versão dá continuidade ao projeto político-educacional do Governo de São Paulo, para cumprir as 10 metas do Plano Estadual de Educação, e faz parte das ações propostas para a construção de uma escola melhor. O uso dos Cadernos em sala de aula foi um sucesso! Estão de parabéns todos os que acreditaram na possibilidade de mudar os rumos da escola pública, transformando-a em um espaço, por excelência, de aprendizagem. O objetivo dos Cadernos sempre será apoiar os professores em suas práticas de sala de aula. Posso dizer que esse objetivo foi alcançado, porque os docentes da Rede Pública do Estado de São Paulo fizeram dos Cadernos um instrumento pedagógico com vida e resultados. Conto mais uma vez com o entusiasmo e a dedicação de todos os professores, para que possamos marcar a História da Educação do Estado de São Paulo como sendo este um período em que buscamos e conseguimos, com sucesso, reverter o estigma que pesou sobre a escola pública nos últimos anos e oferecer educação básica de qualidade a todas as crianças e jovens de nossa Rede. Para nós, da Secretaria, já é possível antever esse sucesso, que também é de vocês. Bom ano letivo de trabalho a todos! Maria Inês Fini Coordenadora Geral Projeto São Paulo Faz Escola 6 FIChA dO CAdERnO Atividade rítmica; Esporte individual; Corpo, saúde e beleza nome da disciplina: área: Etapa da educação básica: Série: Período letivo: Temas e conteúdos: Educação Física Ciências da Natureza e suas Tecnologias Ensino Médio 1a série 2o bimestre de 2009 Atividade rítmica Esporte Corpo, saúde e beleza 7 ORIEnTAçãO SOBRE OS COnTEúdOS dO BIMESTRE Professor, este Caderno foi elaborado para servir de apoio ao seu trabalho pedagógico cotidiano com a 1-a série do Ensino Médio. Os temas deste 2o- bimestre serão enfocados a partir da concepção teórica da disciplina, já explicitada anteriormente, fundamentada nos conceitos de Cultura de Movimento e Se-Movimentar. Assim, as Situações de Aprendizagem aqui sugeridas para os temas Atividade rítmica, Esporte e Corpo, saúde e beleza possibilitarão aos alunos o confronto de suas experiências de Se-Movimentar com importantes dimensões do mundo contemporâneo, gerando conteúdos mais próximos de suas vidas cotidianas. Espera-se, desse modo, contribuir para a construção de uma autonomia crítica e autocrítica no âmbito da Cultura de Movimento. O tema Atividade rítmica partirá do entendimento de que o ritmo, entendido como organização do tempo e considerado em sua etimologia original (aquilo que flui, que se move), está presente em todos os outros conteúdos e, ao mesmo tempo, é bem visível nas manifestações da Cultura de Movimento, que se caracterizam pela intenção explícita de expressão por meio de movimentos e gestos coreografados na presença de sons, música e canções. Assim, a Situação de Aprendizagem proposta buscará fazer que os alunos percebam o ritmo como organização expressiva do movimento, exemplificando mais detalhadamente com o caso de algumas modalidades esportivas coletivas. É também o ritmo que estará em destaque no tema Esporte, quando a ginástica rítmica será tomada como exemplo de modalidade individual conhecida dos alunos, que já tenha sido abordada em suas aulas de Educação Física no Ensino Fundamental. O objetivo não é a simples repetição de um conteúdo já desenvolvido, mas evidenciar a importância das técnicas e táticas para o desempenho esportivo, como também para a apreciação do espetáculo esportivo. Pretende-se que os alunos possam, além de realizar os diferentes gestos e movimentos da ginástica rítmica, ser capazes de apreciar e analisar as suas técnicas e táticas em uma sequência de exercícios. Contudo, o projeto político-pedagógico da escola poderá optar pelo atletismo ou ginástica artística, com o mesmo enfoque, levando em conta os interesses dos alunos e o contexto local. No tema Corpo, saúde e beleza será dada continuidade à questão dos padrões e este- Por Cultura de Movimento entende-se o conjunto de significados/sentidos, símbolos e códigos que se produzem e reproduzem dinamicamente nos jogos, esportes, danças e atividades rítmicas, lutas, ginásticas etc., os quais influenciam, delimitam, dinamizam e/ou constrangem o Se-Movimentar dos sujeitos, base de nosso diálogo expressivo com o mundo e com os outros. O Se-Movimentar é a expressão individual e/ou grupal no âmbito de uma Cultura de Movimento; é a relação que o sujeito estabelece com essa cultura com base em seu repertório (informações/conhecimentos, movimentos, condutas etc.), em sua história de vida, em suas vinculações socioculturais e em seus desejos. 8 Educação Física - 1a série - Volume 2 reótipos de beleza corporal, agora abordando suas relações com os diferentes contextos histórico-culturais que os condicionam e com os interesses mercadológicos envolvidos. A finalidade é que os alunos percebam as representações da beleza em seu próprio grupo sociocultural, identifiquem e critiquem os recursos (exercícios físicos, produtos e práticas alimentares) voltados à busca de padrões de beleza, reconhecendo seus riscos e benefícios à saúde orgânica. elaboração e apresentação de situações táticas nos esportes, dramatizações, dentre outros recursos. As estratégias escolhidas incluem a realização de gestos e movimentos, a percepção e expressão das próprias sensações e do desempenho próprio e dos colegas, a busca de informações e a análise de vídeos. A quadra é o tradicional espaço da aula de Educação Física, mas algumas Situações de Aprendizagem aqui sugeridas podem ser desenvolvidas na sala de aula, no pátio externo ou em outro espaço da escola, como biblioteca, sala de informática ou de vídeo, desde que compatível com as atividades programadas. Também algumas etapas podem ser realizadas pelos alunos como atividade extraaula (pesquisas, produção de textos etc.). A avaliação é proposta de modo integrado ao processo de ensino e aprendizagem, sem restringir-se a procedimentos isolados e formais (como uma prova, por exemplo). Sugere-se privilegiar a proposição de Atividades Avaliadoras que, integradas ao percurso da aprendizagem, favoreçam a elaboração de sínteses relacionadas aos temas e conteúdos abordados e a aplicação, em situaçõesproblema, das habilidades e competências que se pretende que os alunos adquiram. As Atividades Avaliadoras devem favorecer a geração, por parte dos alunos, de informações ou indícios – qualitativos e quantitativos, verbais e não-verbais – que serão então interpretados pelo professor, nos termos das expectativas de aprendizagem em relação aos conteúdos. Nesse sentido, o professor pode valer-se de observações sistemáticas sobre interesse, participação e capacidade de cooperação do aluno, autoavaliação, trabalhos e provas escritas, resolução de situações-problema, Por fim, é importante lembrar que a avaliação não tem como finalidade primeira atribuir conceitos e notas aos alunos, mas conscientizá-los sobre suas aprendizagens, assim como problematizar e aperfeiçoar a prática pedagógica para que essas expectativas sejam atingidas. As orientações e sugestões a seguir têm a intenção de oferecer-lhe subsídios, no sentido de facilitar o desenvolvimento dos temas e conteúdos apresentados. Não pretendem definir as Situações de Aprendizagem como as únicas a serem realizadas, nem restringir sua criatividade para outras atividades ou variações de abordagem dos mesmos temas. As Situações de Aprendizagem aqui propostas também poderão ser enriquecidas com leitura de textos (adequados ao nível do Ensino Médio) e exibição de filmes relacionados aos temas. Sugestões nesse sentido serão apresentadas ao longo deste Caderno. Isto posto, professor, bom trabalho! 9 TEMA 1 – ATIvIdAdE RíTMICA: O RITMO nO ESPORTE, nA lUTA, nA GInáSTICA E nA dAnçA Se buscarmos a ideia de ritmo em alguns dicionários, encontraremos um termo derivado do grego rhytmos, e que mantém seu significado em alguns idiomas (como em espanhol, inglês e português), designando tudo aquilo que se move, que flui de modo sequencial ou que tem movimento regulado. O ritmo que envolve os movimentos corporais pode ser definido como a compreensão original do tempo que nós exercemos com o corpo, antes mesmo de representá-lo com o pensamento (HELLER, 2003 apud KUNZ, 2003). Por isso, consideramos que o ritmo está presente em todas as manifestações de nossa vida, abrange tudo o que conhecemos, incluindo nós mesmos e o modo como percebemos nossos movimentos no ambiente. Há bastante associação entre música e ritmo, pois ela provoca uma sensibilidade maior sobre nossos órgãos sensoriais, e, ao ampliarmos a intensidade da audição, aumentamos a concentração, e o processo de transformar o ritmo musical em movimento torna-se espontâneo. De acordo com essa concepção, os movimentos produzidos não tendem a seguir uma orientação determinada, fazendo a pessoa se libertar de movimentos corriqueiros e padronizados. E quando a sensibilidade estética e a concentração melhoram, seja para ouvir música ou se expressar, é possível desenvolver atividades rítmicas sem a participação da música. Para aprofundarmos a compreensão sobre o ritmo, dois conceitos apresentados por Laban (1978) são importantes: o tempo e o acento rítmicos. O tempo rítmico em uma série de movimentos pode ser percebido na combinação de durações iguais ou diferentes de 10 unidades de tempo. Como exemplos, no caso do esporte, há dois tempos rítmicos na bandeja do basquetebol e três tempos rítmicos para o deslocamento no handebol, ou para preparar uma cortada no voleibol. Quanto ao acento rítmico, ele consiste em uma ênfase que acentua a importância de um movimento, um tipo de tensão que pode surgir de forma abrupta ou gradual. No caso da luta, temos o exemplo de um golpe efetivo no boxe após uma sequência de movimentos de esquiva ou, no caso da ginástica, o momento de transferência de energia e peso em um salto realizado com o apoio das mãos. Laban também propôs uma organização do espaço para analisar o ritmo objetivamente, apresentando quatro elementos para a observação e descrição dos movimentos – direções, planos, extensões e caminhos. As direções podem ser para a frente, para trás, para a esquerda ou para a direita; os planos podem ser alto, médio ou baixo; as extensões podem ser perto, pequena, normal, grande ou longe; os caminhos podem ser direto, angular ou curvo. No caso do esporte, da luta, da ginástica e da dança, realizados formalmente em um espaço restrito (quadra com demarcações, tatame, ringue, solo demarcado ou tablado), os elementos citados podem ser relevantes para que sejam identificados e analisados como atividades rítmicas. No entanto, essas tentativas de classificação não são mais importantes do que as possibilidades de expressividade, criação e coeducação, que os alunos podem vivenciar nas aulas. Por exemplo, para Saraiva e Fiamoncini (1998), a coeducação em dança permite que alunos e alunas estejam juntos para elaborar seus pensamentos, sentimentos e movimentos Educação Física - 1a série - Volume 2 em um processo significativo e valorativo, sem ações estereotipadas e evitando a demarcação de movimentos masculinos e femininos. Na Situação de Aprendizagem sugerida a seguir propõe-se que os alunos se expressem ritmicamente em variados movimentos. Possibilidades Interdisciplinares Professor, o tema atividade rítmica: o ritmo no esporte, na luta, na ginástica e na dança poderá ser desenvolvido de modo integrado com a disciplina de Arte, na medida em que envolve conteúdos como a dança e sua apreciação estética. Converse com o professor responsável por essa disciplina em sua escola. Essa iniciativa facilitará a compreensão dos conteúdos de forma mais global e integrada pelos alunos. SITUAçãO DE APRENDIZAGEM 1 DO RITMO PRóPRIO AO RITMO NAS MANIFESTAçõES DA CULTURA DE MOVIMENTO Inicia-se essa Situação de Aprendizagem partindo-se da percepção do ritmo do próprio corpo e do corpo do colega, com e sem música. Em seguida, sugere-se uma atividade em que a percepção rítmica é solicitada visando à organização expressiva do movimento. Com isso, pretende-se que os alunos compreendam as noções de tempo rítmico e acento rítmico. Finalmente, trabalha-se a noção de ritmo em atividades características do esporte coletivo. Tempo previsto: 2 aulas. Conteúdo e temas: o ritmo vital; o ritmo como organização expressiva do movimento; tempo e acento rítmicos; o ritmo no esporte, na luta, na ginástica e na dança. Competências e habilidades: reconhecer a importância do ritmo no esporte, na luta, na ginástica e na dança; identificar o ritmo vital e perceber o ritmo como organização expressiva do movimento; perceber noções de tempo e acento rítmicos nas manifestações da Cultura de Movimento; identificar características do ritmo ao assistir ou vivenciar manifestações do esporte, da luta, da ginástica e da dança. Recursos: folhas de papel sulfite; caneta ou lápis; bolas de futebol; bolas de basquetebol ou de borracha. desenvolvimento da Situação de Aprendizagem 1 Etapa 1 – O ritmo vital Organize os alunos em um grande círculo e questione: O que é ritmo? Como o ritmo é percebido no próprio corpo? O ritmo está presente nas ativida- des do cotidiano? Na movimentação das pessoas? Na movimentação dos automóveis? Na movimentação dos animais? Nos elementos da natureza? O objetivo desta etapa, que não precisa exceder 15 minutos, é investigar o conhecimento prévio dos alunos sobre o assunto, possibilitando, ao final do percurso de aprendizagem, avaliar os avanços obtidos e as dificuldades surgidas com o tema proposto. 11 Em seguida, sugira aos alunos que percebam e identifiquem o ritmo presente no próprio corpo com e sem deslocamento – no piscar dos olhos, na respiração, nos batimentos cardíacos, na articulação das palavras etc. Sugira também que, organizados em duplas, percebam o ritmo do corpo do parceiro, com e sem deslocamento. Cada grupo deve expor suas conclusões e organizar uma nova sequência expressiva com características semelhantes ao que fizeram antes, representando outra manifestação da Cultura de Movimento. Por exemplo, quem se expressou em uma luta, como o boxe ou o judô, poderia se expressar com a capoeira. Posteriormente, peça aos alunos que se deitem no solo, formando um círculo, preferencialmente intercalando meninos e meninas, de modo que cada um possa colocar uma das mãos sobre o abdome dos dois colegas ao lado. Oriente cada aluno a perceber sua própria respiração e a respiração dos colegas, procurando notar se é possível alcançar um ritmo comum para todos. Ainda com os alunos deitados em círculo, utilize músicas de tipos variados (lenta ou rápida) para que eles verifiquem em si mesmos se há alterações no ritmo da respiração ou dos batimentos cardíacos. Etapa 3 – Tempo e acento rítmicos Etapa 2 – O ritmo como organização expressiva do movimento Escritos em pedaços de papel, apresente aos alunos os nomes de algumas manifestações da Cultura de Movimento referentes à dança, à ginástica, à luta, ao esporte e a atividades do cotidiano. Por exemplo: samba, frevo, ginástica aeróbica, alongamento, boxe, judô, futebol, basquetebol, varrer uma casa, subir e descer escadas, tomar banho etc. Cada aluno deve receber um papel contendo essa informação e representá-la por meio de movimentos. Incentive os alunos a perceberem quais são os colegas que estão fazendo movimentos semelhantes aos seus e peça para que se agrupem, sem que conversem entre si. Depois de se agruparem, eles devem dialogar e se organizar para identificar as características rítmicas dos movimentos que realizaram e perceber como foi possível identificá-las. 12 Solicite aos alunos que criem sequências de movimentos utilizando cada uma das articulações, movendo, por exemplo, primeiro os cotovelos, depois os ombros e os punhos, ou as articulações dos membros inferiores, como os joelhos, depois os tornozelos e o quadril. Os alunos podem usar as diversas articulações (ombro, cotovelo, punho, joelho, tornozelo, quadril) de forma simultânea ou sequencial. Proponha que, na sequência dos movimentos, estabeleçam um momento que deverá ser enfatizado e repetido ocasionalmente. Por exemplo, eles podem movimentar de forma diferente todas as demais articulações, mas repetirão sempre o movimento realizado com o cotovelo. Peça aos alunos que se organizem em grupos mistos, formados por meninos e meninas, para que os mesmos movimentos possam ser combinados entre os componentes de cada grupo, sem que conversem entre si. Os alunos poderão elaborar uma sequência comum contendo tempo e acento rítmicos para que todos os componentes do grupo realizem os mesmos movimentos, expressando-se ritmicamente sem poder usar a fala. Enquanto um grupo estabelece uma sequência de movimentos, os demais identificam o tempo rítmico (quantos movimentos são feitos até que o acento apareça) e o acento rítmico (qual movimento é constantemente repetido) estabelecido. Educação Física - 1a série - Volume 2 Etapa 4 – O ritmo no esporte Peças aos alunos que se organizem em grupos, utilizando pelo menos uma bola de futebol ou uma de basquetebol (ou bolas de borracha) em cada um dos grupos. Cada grupo deve realizar movimentos específicos das modalidades esportivas futebol ou basquetebol que evidenciem uma atividade rítmica, de modo que todos no grupo consigam realizar. Por exemplo, controlar o ritmo dos chutes em direção a uma parede ou trocar passes com os colegas em um mesmo ritmo, ou driblar com uma bola de basquetebol, alternando as mãos cada vez mais rapida- mente. As bolas devem ser trocadas entre os grupos para que todos possam vivenciar movimentos do futebol e do basquetebol. Sugira aos alunos que criem jogos de futebol callejero (futebol de rua) e de streetball (basquete de rua), em que algumas regras enfatizem a importância do ritmo nos movimentos. Por exemplo, quem estiver fazendo “embaixadinhas” no futebol ou driblando a bola alternadamente entre as pernas (cross-over) no basquetebol não pode ter a bola tirada por outros alunos. Assim o aluno tem a garantia de que permanecerá com a bola enquanto dominar nessas sequências rítmicas. Principais características do fútbol callejero e do streetball Fútbol callejero O jogo é organizado em três tempos. No primeiro tempo há a elaboração de regras pelos participantes; no segundo, ocorre a vivência com o jogo, de acordo com as regras estabelecidas inicialmente, e no terceiro, a análise do jogo e das condutas dos jogadores pelos próprios participantes, com a mediação do professor. Streetball As regras devem ser combinadas inicialmente pelos jogadores. A apreciação estética das jogadas, tanto no ataque quanto na defesa, é o principal aspecto enfatizado durante o jogo. A música rap acompanha as partidas de streetball e o envolvimento dos jogadores aumenta quando conseguem relacionar o ritmo musical com o ritmo das suas jogadas em quadra. ATIVIDADE AVALIADORA Solicite aos alunos que, em grupos compostos por oito membros, realizem uma coreografia construída com base em elementos rítmicos característicos dos esportes, das lutas ou de atividades do cotidiano. O importante não é avaliar a execução perfeita dos movimentos, mas, sim, a compreensão por parte dos alunos do tempo e acento rítmicos nas atividades selecionadas para apresentação. 13 © Mitch Diamond/Alamy-Otherimages Figura 1 – Streetball. PROPOSTA DE SITUAçõES DE RECUPERAçãO Durante o percurso pelas várias etapas da Situação de Aprendizagem, alguns alunos poderão não apreender os conteúdos da forma esperada. É necessário, então, professor, que outras Situações de Aprendizagem sejam propostas, permitindo ao aluno revisitar o processo de outra maneira. Tais situações podem ser desenvolvidas individualmente ou em pequenos grupos, durante as aulas ou em outros momentos, envolver todos os alunos ou apenas aqueles que apresentaram dificuldades. Por exemplo: f roteiro de estudos com perguntas norteadoras elaboradas pelo professor, para posterior apresentação das respostas em registro escrito; 14 f apreciação e registro por parte do aluno dos próprios movimentos e dos movimentos dos colegas; f elaboração e apresentação (pode-se optar pelo registro com uso de palavras, desenhos, audiovisual etc.) de atividades rítmicas com base em referenciais e elementos sugeridos pelo professor; f atividades que sintetizem determinado conteúdo, em que as várias atividades serão refeitas numa única aula e discutidas posteriormente (por exemplo, circuito que contemple diversas atividades rítmicas). Educação Física - 1a série - Volume 2 RECURSOS PARA AMPLIAR A PERSPECTIVA DO PROFESSOR E DO ALUNO PARA A COMPREENSãO DO TEMA livros KUNZ, Elenor. Os movimentos ritmados no futebol. In:______ (Org.). Didática da Educação Física 3: futebol. Ijuí: Unijuí, 2003. p. 13-40. No contexto da teoria do Se-Movimentar, apresenta considerações sobre a importância do ritmo no futebol, com exemplos práticos. LABAN, Rudolf. Domínio do movimento. São Paulo: Summus, 1978. Obra clássica no estudo do ser humano em movimento, levando em consideração as dimensões cultural, física e psíquica. Propõe exercícios, descreve e analisa ações corporais, com base nos quatro fatores de movimento (peso, espaço, tempo e fluência). SARAIVA, Maria do Carmo; FIAMONCINI, L. Dança na escola: a criação e a coeducação em pauta. In: KUNZ, Elenor (Org.). Didática da Educação Física 1. Ijuí: Unijuí, 1998. p. 95-120. Apresenta princípios educativos para o trabalho com a dança na escola, com destaque para o ritmo e o processo criativo. Sites Fútbol callejero – Futebol de rua latinoamericano. Disponível em: <http://www.futbolcallejero.org>. Acesso em: 18 nov. 2008. Streetfootball – Futebol de rua internacional. Disponível em: <http://streetfootballworld.org>. Acesso em: 18 nov. 2008. Fotografias, vídeos, regras, torneios e reportagens sobre o futebol de rua no Brasil e em outros países, enfatizando a integração da modalidade na América Latina. Filmes ATL: o som do gueto. Direção: Chris Robinson. EUA, 2006. 106min. Grupo de estudantes do Ensino Médio que moram na periferia de Atlanta, Estados Unidos, dedica-se a elaborar coreografias em um ringue de patinação. A amizade entre eles é ameaçada quando surgem questões envolvendo lealdade, romance, permanência no emprego e comércio de drogas. Honey: no ritmo dos seus sonhos. Direção: Bille Woodruff. EUA, 2003. 94min. Dançarina trabalha como instrutora de streetdance (dança de rua) para jovens em um centro comunitário, utilizando movimentos de modalidades esportivas e do cotidiano em suas coreografias. Quando recebe convite para trabalhar na indústria do entretenimento com videoclipes musicais, surge o dilema quanto à continuidade de seu convívio com os jovens alunos. 15 TEMA 2 – ESPORTE IndIvIdUAl GInáSTICA RíTMICA O universo da Cultura de Movimento no qual estão inseridos os jovens adolescentes é caracterizado por diferentes elementos. Eles saltam e giram em uma coreografia de streetdance; pulam corda nas ruas com velocidades variadas; lançam e recuperam objetos com precisão; assumem posições invertidas nas rodas de capoeira; realizam rolamentos nas lutas; frequentam academias de ginástica em busca de força, resistência, saúde e beleza. Tais movimentos, além de tomarem parte no cotidiano dos jogos e de modalidades esportivas, podem e precisam ser identificados e contextualizados no universo gímnico. A ginástica rítmica (GR) requer do praticante uma combinação de movimentos variados, associados à manipulação de aparelhos como corda, arco, fita, bola e maças, com acompanhamento musical. A GR praticada no âmbito esportivo envolve características técnicas de alto grau de dificuldade atreladas à beleza artística, leveza e elegância na utilização dos aparelhos, capazes de desafiar os adolescentes em seus limites individuais e coletivos (SCHIAVON, 2003). Coordenar ritmicamente com harmonia e expressividade diferentes movimentos e objetos que constituirão uma sequência da coreografia individual ou em grupo permite aos alunos uma percepção melhor das possibilidades do Se-Movimentar. Ao mesmo tempo, também permite perceber com maior clareza a necessidade e a importância da repetição de gestos para obter melhor desempenho técnico e tático no esporte, o que facilita a compreensão e apreciação do espetáculo esportivo. É necessário redimensionar e ressignificar a maneira pela qual os temas esporte e ginástica são abordados nas aulas. Não é preciso “inventar”outros temas ou conteúdos, mas tratá-los pedagogicamente na intenção de tornar as aulas de Educação Física no Ensino Médio 16 um espaço de produção de cultura a partir das manifestações humanas que podem ser vivenciadas, apropriadas e reinventadas individual e coletivamente (PIRES; NEVES, 2005). Alguns alunos acreditam que as modalidades de ginásticas esportivas não podem ser aprendidas por qualquer pessoa. Tal entendimento pode fazer que não sejam incluídas nas aulas de Educação Física, principalmente no Ensino Médio. Movimentos muito difíceis e o apelo ao espetáculo esportivo (já que o contato com a GR para a maioria dos alunos só é possível por meio da televisão, por ocasião da transmissão de grandes eventos esportivos) devem ser desmistificados. Desse modo os alunos poderão compreender que a apropriação e a eficácia dos gestos técnicos dependem, em qualquer modalidade, de treino, e não podem ser vistos como fatores limitantes para a aprendizagem de novos esportes. Os alunos precisam compreender que, nas aulas de Educação Física a GR pode possuir códigos e regras menos rígidos do que aqueles observados no universo competitivo do esporte, mediante critérios elaborados e estabelecidos pelo professor e pelos próprios alunos, respeitando as características individuais e interpessoais. Assim, no decorrer das Situações de Aprendizagem da GR, caberá ao professor motivar os alunos para que percebam a necessidade das técnicas de manipulação dos diferentes implementos. Provavelmente, durante os anos do Ensino Fundamental, os alunos associaram a GR às modalidades de ginástica exclusivamente femininas. Contudo, embora ainda não reconhecidas oficialmente pela Federação Internacional de Ginástica (FIG), apresentações e competições de GR masculina são realizadas em vários países, fato pouco explorado pelas mídias e que deve ser destacado aos alunos do Ensino Médio. Educação Física - 1a série - Volume 2 SITUAçãO DE APRENDIZAGEM 2 OS APARELHOS DA GINáSTICA RÍTMICA (GR) Nessa Situação de Aprendizagem o objetivo é verificar o conhecimento prévio dos alunos, pois alguns movimentos característicos da GR podem não ser conhecidos ou já vivenciados pelos alunos: quicar a bola, saltitos com passagem da corda, rolar ou fazer rotações do arco, entre outros. Os alunos serão desafiados a realizar diferentes movimentos combinados utilizando os aparelhos característicos da GR: maças, corda, fita, bola e arco, com e sem acompanhamento musical. Os “movimentos obrigatórios” característicos da GR são movimentos associados às exigências competitivas para qualquer composição e constituem os fundamentos básicos de cada aparelho. Tempo previsto: 5 a 6 aulas. Conteúdo e temas: a importância das técnicas e táticas no desempenho esportivo. Competências e habilidades: reconhecer e analisar as técnicas da ginástica rítmica; realizar e combinar diferentes movimentos que constituem a ginástica rítmica. Recursos: aparelhos de GR (bolas, cordas, arcos, fitas e maças) ou material adaptado (sugerido neste Caderno). O quadro a seguir apresenta diferentes possibilidades de adaptação dos aparelhos utilizados na GR e, caso a escola não tenha os aparelhos considerados “oficiais”, cabe ao professor, juntamente com os alunos, analisar as possibilidades de adaptação e utilização dos mesmos, bem como os locais mais apropriados existentes na escola. Os materiais adaptados sugeridos no quadro serão utilizados nas etapas seguintes: MATERIAIS AdAPTAdOS PARA A GInáSTICA RíTMICA Material original Conexão Editorial Bola Material adaptado descrição da adaptação Jornal Fita adesiva Sacolas de plástico Bolas de borracha de iniciação esportiva As bolas serão feitas com o jornal; em seguida será colocada fita adesiva em torno do mesmo, deixando seu formato mais arredondado; por fim pode ser colocado um plástico para colorir e melhorar a estética do material. Bolas de borracha tamanho 10 ou 12, utilizadas para a iniciação esportiva, preenchem as necessidades da modalidade, podendo ser pintadas com tinta automotiva para alcançar o tão atrativo brilho e a variação de coloração. 17 Conexão Editorial Corda Conexão Editorial Arco Conexão Editorial Fita 18 Cordas de sisal, elástico ou outro material Tiras de tecido As tiras de tecido poderão ser entrelaçadas para aumentar o volume do material (trançar as tiras); fazer nó nas extremidades para que a trança não se desfaça durante o manuseio. Bambolê Conduíte Arame Fita isolante O professor irá moldar os conduítes no formato de um arco, colocar o arame pela parte interior e aplicar a fita isolante pela parte exterior; deverá inserir uma rolha ou uma cavilha na união das extremidades para fixação das mesmas. O bambolê não precisa de nenhum ajuste para maiores adaptações (entre 80 e 90 cm de diâmetro). Papel crepom, faixas de plás- a) O papel crepom será cortado em tico (mais resistentes) ou fifaixas de aproximadamente 3 m, tas (4-6 cm de largura) em seguida as faixas serão fixadas Barbante em folha de papel jornal dobrada e Cola ou durex amarrada com barbante. É imporPalitos (de churrasco ou sitante deixar um pedaço de barbante milar) ou bastões de madeira para facilitar o manuseio. (com aproximadamente 50 cm b) Tiras de 6 m de faixa ou fita, com de comprimento) de cabides fixação de um ilhós na extremidade ou comprados em agropecuápróximo ao estilete. Inserir o alfinete rias, utilizados como poleiros de pesca no ilhós. O rodízio de pesca de gaiolas de passarinhos (para evitar que a faixa ou fita enrole) Pitão, rodízio de pesca, alfiserá preso na outra extremidade do nete de pesca alfinete. A outra argola do rodízio da faixa ou fita será fixada no “pitão” (peça em forma de gancho, com uma rosca nas extremidades para ser parafusado e que é colocado em portas de armários ou outros objetos). O “pitão” deverá ser fixado em uma das extremidades do bastão. Educação Física - 1a série - Volume 2 Conexão Editorial Maça Pares de meia a) Deve-se colocar uma bola ou um Bola pequena de borracha saquinho de areia no interior dos Saquinhos de areia pares de meia, em seguida, amarrar Garrafas PET, garrafinhas as extremidades das meias. de iogurte b) Abrir um orifício na tampa da Bastãozinho de madeira garrafa PET, para inserir o bas(aproximadamente 50 cm) tãozinho. Fixá-lo na extremidaEVA de oposta com um parafuso. A Parafusos garrafa PET pode ser preenchida Colher de pau com retalhos de EVA, tecidos ou Fita adesiva ou durex colooutros, para aumentar ligeirarido mente o peso do material. c) No caso da utilização de colheres de pau, pode-se preencher a parte da colher com bola de jornal, encapada com fita crepe ou durex colorido. desenvolvimento da Situação de Aprendizagem 2 Etapa 1 – A bola na GR Divida a turma em cinco grupos e solicite que realizem diferentes movimentos utilizando bolas de diferentes tamanhos e pesos. Organize os alunos de maneira que possam vivenciar situações diversas: sozinhos, em duplas, trios, quartetos e assim por diante. Sugira alguns movimentos característicos da GR: lançar a bola com uma das mãos e receber e recuperar com a outra; lançar a bola a certa altura acima da cabeça e dar um giro; rolar a bola no solo e realizar um rolamento para a frente, recebendo-a com uma das mãos; quicar a bola com uma das mãos e elevar a perna contrária etc. Solicite que os alunos rolem a bola sobre o próprio corpo, esse é um dos movimentos fundamentais utilizados na GR. Proponha que realizem os movimentos com mudança de direção, diferentes planos e níveis ao som de músicas com diferentes ritmos. Sem o acompanhamento musical, a percussão rít- mica pode ser feita com as “batidas” da própria bola; por exemplo, enquanto um grupo realiza os movimentos, os outros realizam a percussão rítmica com bolas ou palmas. Procure atender às necessidades dos alunos conforme elas aparecerem e aproveite para pedir a colaboração daqueles que possuem controle maior do aparelho para que auxiliem os demais colegas. Sugira que percebam e escolham o tamanho e o peso da bola mais adequados para as características de cada um. É importante chamar a atenção dos alunos para que utilizem as duas mãos, e não apenas a dominante. Essa orientação serve também para as outras etapas. Caso o professor não tenha a quantidade suficiente de bolas para todos os alunos, uma alternativa é sugerir aos mesmos, com antecedência, a confecção de bolas com folhas de jornal, revestidas por uma sacola plástica ou fita adesiva. Etapa 2 – A corda na GR Mantenha, se possível, a mesma organização dos grupos da etapa anterior. Solicite que 19 cada aluno pegue uma corda adequada à sua estatura (pisar no centro da corda com os dois pés e trazer as extremidades até a altura das axilas) e que cada grupo apresente diferentes possibilidades de movimentos, utilizando a corda individualmente, em duplas, trios, quartetos e assim por diante. Proponha alguns desafios (percepção do tempo e do espaço ao pular corda): Quantos passos você consegue dar entre uma passagem da corda e outra? É possível saltar ou pular corda e ao mesmo tempo realizar giros? Saltar ou pular corda com impulsão em um dos pés? E girar a corda fechada ao lado, realizando diferentes movimentos corporais: giros, saltitos, ondulações etc.? É possível girar a corda utilizando somente uma das mãos? É possível lançar a corda com uma das mãos e receber com a outra sem deixá-la cair no chão? Todos os grupos devem vivenciar os movimentos propostos pelos outros grupos. Proponha a combinação de dois dos movimentos realizados isoladamente. Amplie a proposta para três, quatro ou mais movimentos. Depois sugira que cada grupo elabore uma sequência de movimentos de 8, 16 ou 32 tempos, conforme as possibilidades de seus componentes, utilizando algumas das combinações expostas. Apresente uma música, com compasso binário ou quaternário, e solicite aos grupos que façam as suas sequências de movimentos dentro de seu ritmo. Pode-se solicitar que cada grupo traga a música considerada mais adequada para a sua sequência de movimentos. Etapa 3 – O arco na GR O arco permite uma variedade de combinações. Solicite aos grupos que identifiquem as diferentes possibilidades de lançar e recuperar um arco; rolar o arco no solo com diferentes formas de recuperação e movimentos corporais durante a trajetória do aparelho; girar o arco no solo ou não; rotações do arco ao redor de diferentes partes do corpo (mão, cintura, pé etc.), 20 entre outras. Depois apresente desafios: Que tipo de movimento pode ser feito enquanto o arco está no ar, durante o lançamento? E girando no solo? O arco pode ser lançado somente com as mãos? É possível transpor um arco em movimento? Solicite combinações de movimentos, como realizado nos aparelhos anteriores. Etapa 4 – A fita na GR Solicite aos alunos que manuseiem as fitas e identifiquem diferentes figuras geométricas durante a exploração. Sugira que, inicialmente, não se desloquem. Alguns exemplos: movimentar a fita de modo que a mesma “desenhe” uma circunferência no ar; o número oito, no solo, em formato de cobra ou serpentina etc. Após descobrirem uma maneira de manter a figura “sustentada” por certo tempo, proponha que tentem realizar movimentos como circunduções, serpentinas, espirais, ultrapassar, transpor ou saltar a mesma, individualmente, em duplas, trios, quartetos e assim por diante. Sugira que os alunos realizem a movimentação da fita em diferentes planos e níveis, com e sem deslocamento. Etapa 5 – As maças na GR O manuseio da maças é mais difícil, pois exige coordenar e combinar movimentos utilizando as duas mãos. No entanto, as etapas anteriores já permitem que os alunos ajustem os aparelhos às suas características. Solicite que façam um movimento de circundução do punho segurando a “cabeça” (ponta) da maça com os dedos, primeiro com a mão dominante e depois com a outra, realizando o movimento com as maças deitadas no solo e depois suspensas no ar. Desafie os alunos: É possível realizar esse mesmo movimento com as duas maças simultaneamente? Podemos variar o sentido das maças (mesmo sentido, Educação Física - 1a série - Volume 2 sentidos opostos, defasadas)? As maças, assim como a bola, o arco, a corda e a fita, podem ser lançadas? Elevando à frente uma das pernas é possível realizar que tipo de movimentos com as maças nas mãos? A necessidade de resolver situações-problema quando estiverem utilizando os objetos em ambas as mãos requer controle principalmente da mão não dominante. O lançamento das maças requer cuidados especiais sobretudo em relação à segurança dos alunos; outro cuidado a ser observado é a preservação do material, seja ele oficial ou adaptado. Etapa 6 – Fazendo as próprias escolhas e elaborando os códigos de pontuação Nas etapas anteriores, os alunos já adquiriram alguma experiência no manuseio dos aparelhos característicos da GR. Agora, cada grupo será responsável por apresentar uma lista de “movimentos obrigatórios” para cada aparelho, com base nos movimentos vivenciados nas etapas anteriores, que se constituirão como exercícios de dificuldade a serem realizados pelos grupos. Por exemplo: lançamento da bola ao alto, seguido de salto com giro de 180º, e recuperação da bola no plano baixo. Defina tais movimentos em conjunto com os alunos, por meio de um “código de regras” conhecido na GR como Código de Pontuação. Com base no Código de Pontuação elaborado, os alunos escolhem um determinado aparelho da GR e apresentam uma sequência de movimentos. Em função do número de alunos por turma, a apresentação pode ser feita em grupos, possibilidade existente nas competições de GR. Outra alternativa é propor a apresentação em um momento em que toda a comunidade escolar esteja reunida, através de um festival de GR. SITUAçãO DE APRENDIZAGEM 3 APRENDENDO A APRECIAR UM ESPETáCULO ESPORTIVO Os alunos assistirão a um vídeo com sequências de exercícios em vários aparelhos da GR e procurarão identificar e analisar as técnicas e as táticas utilizadas; as características pessoais e interpessoais dos ginastas; a influência do tipo da música; a combinação e coordenação de movimentos. Tempo previsto: 1 a 2 aulas. Conteúdo e temas: a importância da técnica e da tática na apreciação do espetáculo esportivo. Competências e habilidades: apreciar e analisar as técnicas e as táticas da GR em uma sequência de exercícios. Recursos: vídeos ou DVDs de GR; aparelho de DVD ou de vídeo. 21 desenvolvimento da Situação de Aprendizagem 3 Providenciar antecipadamente vídeos ou DVDs de GR que contenham apresentação do maior número possível de aparelhos. Espera-se que a Situação de Aprendizagem anterior tenha sensibilizado os alunos para que apreciem sequências de exercícios de GR exibidas em vídeo ou DVD. Em função da disponibilidade de tempo e de vídeos ou DVDs, pode-se também eleger, de acordo com a preferência dos alunos, apenas um ou dois aparelhos. Apresentar os vídeos ou DVDs aos alunos e propor que identifiquem e analisem as técnicas e as táticas utilizadas; as características pessoais e interpessoais dos ginastas; a influência do tipo de música; a combinação e coordenação de movimentos. Para encerrar, estimule os alunos a comentar os vídeos ou DVDs e associar aquilo que perceberam às próprias experiências na Situação de Aprendizagem proposta. ATIVIDADE AVALIADORA Solicite aos alunos que apresentem, por escrito, as dificuldades encontradas para realizar os movimentos nos diversos aparelhos, e peça para explicitarem os motivos pelos quais julgam que isso ocorreu. Uma “roda de conversa” também poderia servir para esse propósito, com a vantagem de trazer a reflexão coletiva sobre as possíveis razões das dificuldades. Avalie as respostas considerando se os alunos levam em conta, nos motivos explicitados, as características pessoais (preferência, coordenação, força etc.), as características dos aparelhos, o tipo e o nível de dificuldade dos movimentos e a necessidade de treino para melhorar o desempenho. PROPOSTA DE SITUAçõES DE RECUPERAçãO Durante o percurso pelas Situações de Aprendizagem, alguns alunos poderão não apreender os conteúdos da forma esperada. É necessário, então, professor, que outras Situações de Aprendizagem sejam propostas, permitindo ao aluno revisitar o processo de outra maneira. Tais estratégias podem ser desenvolvidas individualmente ou em pequenos grupos, durante as aulas ou em outros momentos, envolver todos os alunos ou apenas aqueles que apresentaram dificuldades. Por exemplo: 22 f elaboração e apresentação (pode-se optar pelo registro com uso de palavras, desenhos, audiovisual etc.) de sequências de movimentos, com base em referenciais e elementos sugeridos pelo professor; f reapresentação da Atividade Avaliadora desenvolvida em outra linguagem. Por exemplo: apresentá-la com imagens extraídas de diversas mídias, desenhos etc. Educação Física - 1a série - Volume 2 RECURSOS PARA AMPLIAR A PERSPECTIVA DO PROFESSOR E DO ALUNO PARA A COMPREENSãO DO TEMA livros SCHIAVON, Laurita M.; NISTAPICOLLO, Vilma L. Desafios da ginástica na escola. In: MOREIRA, E. C. (Org.). Educação Física escolar: desafios e propostas 2. Jundiaí: Fontoura, 2006, p. 35-60. Apresenta sugestões de como viabilizar estratégias de ensino e recursos materiais para as aulas de GR na Educação Física. Teses e dissertações SCHIAVON, Laurita M. O projeto crescendo com a ginástica: uma possibilidade na escola. 2003. Dissertação (Mestrado em Educação Física) − Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003. Disponível em: <http://libdigi. unicamp.br/document/?code=vtls000300852>. Acesso em: 18 nov. 2008. modalidades de ginástica artística e ginástica rítmica nas aulas de Educação Física, em termos de infraestrutura, materiais e estratégias de ensino. Sites Ginástica.com. Disponível em: <http://www. ginasticas.com/ginasticas/gin_ritmica.html>. Acesso em: 18 nov. 2008. Apresenta informações gerais sobre a ginástica rítmica: histórico, provas, aspectos técnico-táticos, regras e eventos. Confederação Brasileira de Ginástica. Disponível em: <http://www.cbginastica.com.br/ web/>. Acesso em: 18 nov. 2008 Apresenta informações sobre histórico e regras da ginástica rítmica. Aponta alternativas para as dificuldades encontradas no desenvolvimento das 23 TEMA 3 – CORPO, SAúdE E BElEzA A Grécia Antiga foi o berço das reflexões filosóficas mais reconhecidas sobre estética e beleza que passaram a nortear a nossa civilização. O tema da beleza foi associado aos conceitos de harmonia, proporção, simetria e esplendor. Relacionava-se também à ideia de justiça e de conhecimento. As formas perfeitas e as medidas simétricas solidificaram um modo “matemático” de ver a beleza. Na mitologia grega, o deus que representa a beleza masculina é Apolo, considerado o mais belo do Olimpo e também o deus protetor das artes (poesia, música, dança etc.) e da medicina. Outro mito greco-romano também muito conhecido é Narciso, jovem de singular beleza, cuja vida seria longa desde que não contemplasse, jamais, a própria imagem. Conta o mito, porém, que, no dia em que viu seu rosto refletido nas águas de uma fonte, Narciso se apaixonou tão perdidamente por sua própria imagem que, de tanto contemplála, morreu afogado. A civilização grega também difundiu a ginástica como o elemento da formação integral do indivíduo, cultuando a harmonia da forma física e o desenvolvimento do espírito. A educação, segundo o filósofo Platão, deveria proporcionar ao corpo e à alma toda a perfeição e a beleza de que são capazes. Ao lado da preparação física, os poemas homéricos eram a base dessa educação que se pautava em heróis e na virilidade guerreira. Entretanto, ao final do século IV a.C., as manifestações religiosas do politeísmo grego (inclusive os Jogos Olímpicos) foram proibidas. Gradativamente, a cultura religiosa e a ideia de transitoriedade do corpo mudaram o foco da beleza mundana para a celestial. Com o avanço 24 da religião cristã evidenciou-se a compreensão do corpo feminino como aquele da beleza contemplativa e inalcançável, ao passo que o corpo masculino trazia a marca da força e da invencibilidade. Os homens eram os defensores dos princípios e das virtudes, responsáveis pelo trabalho na terra e pelo sustento das famílias. Na Idade Média, o corpo passou a identificar-se como o lugar de encarceramento do espírito. Como as formas físicas eram consideradas passageiras, cuidar do corpo era considerado pecado. Esse moralismo medieval fortaleceu o dualismo da beleza entre interna e externa, entre espiritual e física. No século XI, a beleza feminina foi espiritualizada. Houve uma respeitosa adoração à mulher, idolatrada num amor platônico e inatingível, pela voz dos trovadores e dos romances cavalheirescos. Enaltecia-se a beleza da mulher angelical, de traços delicados, pele clara e cabelos em requintados penteados. Com o cristianismo alteraram-se os princípios que norteavam o sentido de beleza. As coisas belas se revelavam na alma e não fora dela. Os exercícios físicos, que antes eram difundidos para expressar a beleza interior, passaram a ter a conotação de desviar o homem do encontro com Deus. O Renascimento, movimento intelectual, estético e social ocorrido nos séculos XIV e XV, retomou a cultura física, as artes, a música, a ciência e a literatura tão valorizadas na Antiguidade ocidental. Houve mais investimentos na educação e na saúde. A mulher, antes inspirada na imagem de “Maria”, virgem, pura, angelical e inalcançável, passou a ser adorada por suas formas físicas. A beleza do corpo foi novamente explorada. Educação Física - 1a série - Volume 2 © Bettmann/Corbis-Latinstock O corpo passou a ser dissecado, dividido e analisado em sua composição biológica para ser compreendido pela ciência. Destaca-se o trabalho de Leonardo da Vinci (1452-1519), que estudou os movimentos dos músculos e das articulações, criou as regras de proporção do corpo humano e produziu um dos primeiros tratados de biomecânica. Seu “homem vitruviano” simbolizava as proporções corporais ideais: face medindo 1/10 do comprimento total do corpo, a cabeça 1/8 e o tórax 1/4. A chamada proporção áurea definiu os cânones para que a beleza fosse revelada pela simetria. Havia, por exemplo, uma medida-padrão entre as duas orelhas ou os dois olhos. Quanto mais igual, perfeita, simétrica e equilibrada a forma, maior a contemplação da beleza. Figura 2 – O homem vitruviano, desenho de Leonardo da Vinci, de 1492. No século XVIII, marcado pela Revolução Industrial, estabeleceu-se uma nova concepção de beleza. A ciência difundiu a ideia de modelagem e adestramento do corpo, por meio dos aparelhos que ajudavam a corrigir e melhorar posturas consideradas inadequadas do ponto de vista médico, ortopédico e estético. Surgiram as “séries de exercícios físicos” para trabalhar grupos musculares específicos. A ginástica, prática “comprovadamente cien- tífica”, anunciada como meio de potencializar as ações e os gestos, estava relacionada ainda à noção de economia de tempo, de gasto de energia e de cultivo à saúde. A partir do século XIX a ideia de beleza se modificou. O corpo humano foi explorado em seu caráter terreno, tátil, sensual, sede do pecado e do prazer. Nos anos 1920 e início da década de 1930, evidenciou-se mais a beleza do corpo feminino que do masculino. Houve mais liberdade para mostrar os seios em decotes, vestir saias curtas e expor a sensualidade. No final dos anos de 1930 até 1950, o puritanismo vulgarizou a mulher que demonstrava sua sensualidade: a beleza do corpo precisava ser discretamente revelada, ao invés de escandalosamente exibida. Na década de 1960 vários movimentos pregaram a liberdade sexual e a emancipação da mulher. Muitas protestaram contra sua histórica submissão. O corpo, antes modelado e preso no espartilho, ganhou liberdade. Até mesmo as mulheres grávidas começaram a mostrar a barriga em público. A exibição do corpo belo passou a ter cada vez mais valor comercial. A nova beleza do século XX unia, ainda mais, as forças da ciência, da indústria e do comércio. A beleza, agora exibida nos meios de comunicação de massa, passou a ser “produto” de consumo, vendido como imagem e como bem. Cresceu a venda de roupas curtas, sensuais e exóticas. Maquiagens, sutiãs, lentes de contato; além disso, maneiras de andar e sentar ditaram regras da postura feminina. Investiu-se numa nova cultura estética, que instaurou a “ditadura da beleza”. Os estereótipos foram definidos para cada detalhe: cabelos (surgiu uma variedade de cosméticos e aumentou o número de pessoas que mudavam a cor e os cachos), olhos (coloridos, fortes, marcados pelo delineador e pelo rimel), pele (sem 25 © Private Collection / The Stapleton Collection / The Bridgeman Art Library International-Keystone Figura 3 – Aparelhos de ortopedia, 1868. manchas, sem estrias, sem celulite), roupas (justas, com decotes e na moda) e seios (com silicone, ficando muito à mostra). A indústria químico-farmacêutica produz cremes e remédios que prometem modificar tudo: pele, contornos e pesos. Se nos últimos anos o investimento mercadológico na beleza expandiu seu foco, a exigência da beleza deixou de ser apenas sonho para modelos e manequins e tornou-se um atributo essencial a pessoas de todas as idades. Ser belo e aparentar juventude tornou-se um dever, uma busca a qualquer preço e risco. Na modernidade o corpo foi redescoberto, despido e modelado pelos exercícios físicos. Novos espaços e práticas ginásticas/esportivas passaram a convocar as pessoas para modelar o corpo. Multiplicaram-se os locais públicos e privados para práticas físicas: academias de ginástica, salas de musculação, praças, parques e clínicas estéticas. A ciência aperfeiçoou ainda mais suas técnicas para inovar no visual. Tornou-se possível alterar a cor da pele, mudar de rosto, aumentar os seios ou as nádegas, conquistando assim o padrão de beleza vigente, construído com botox, silicone, tintas, 26 cirurgias plásticas, dietas arriscadas e muita maquiagem. Com a crescente mercantilização do corpo feminino, a beleza natural foi desaparecendo, naturalizando-se a beleza produzida artificialmente. Se inicialmente a principal referência de beleza eram as mulheres europeias e nórdicas, este conceito foi se alargando. Ao longo da história, ora o corpo belo tem seios grandes, cabelos longos e cacheados, cinturinha desenhada com espartilho e quadril largo, ora o corpo belo tem cabelos lisos, seios delineados, quadril estreito, pernas longas, braços finos, com medidas quase anoréxicas. Todavia, é preciso ressaltar que os diferentes grupos culturais podem ver a beleza de maneira diferente − por exemplo, os grupos indígenas ou afro-descendentes –, tanto a sua própria como a dos outros grupos. Embora a exploração da beleza feminina seja mais enfatizada, também os padrões de beleza para os homens têm sofrido transformações. Muitos homens também começaram a dedicar-se aos cuidados estéticos. Chamados de “metrossexuais”, eles passaram a frequentar salões de beleza, fazer as unhas, pintar os cabelos e/ou depilar os pelos do peito. Educação Física - 1a série - Volume 2 Em todos os canais de comunicação e também nos espaços públicos, ditam-se as regras de cultivo do corpo. Dentre os exercícios físicos, difundiram-se a musculação, o fisiculturismo, as atividades de fitness. O corpo belo é aquele sempre “superdefinido”, “durinho”, sem celulite ou estrias. Além da “boa forma”, valorizam-se o tipo de pele, o bronzeado, mesmo que artificial, e as medidas corporais − alteradas tanto com os recursos das roupas íntimas com enchimentos, quanto com as cirurgias. Os salões de beleza prometem alisamentos progressivos e permanentes. Os cabelos modificados (com escovas “revolucionárias” de formol, chocolate etc.) deixaram até de ser uma característica para identificar alguém. A beleza vem sendo tão artificializada, que os cabelos naturais são apontados como falsos. Como você ainda não pintou? Fez chapinha hoje? As perguntas cotidianas declaram: não sabemos mais o que foi alterado com recursos da beleza. A doentia busca pela beleza deve ser um assunto discutido também na escola, inclusive nas aulas de Educação Física. Deve-se alertar os alunos que a “beleza” é um tema complexo, influenciado por interesses religiosos, políticos, ideológicos e comerciais que direcionam nosso modo de vê-la e buscá-la. Por isso, é primordial compreender que a “beleza” depende do contexto histórico em que estamos inseridos ou de quais referenciais nos valemos para interpretar a realidade. Vale destacar que, apesar de identificarmos alguns padrões em determinadas épocas históricas, vários padrões coexistem numa mesma época. Apesar dos avanços na compreensão dos mecanismos pelos quais a alimentação e o exercício físico podem contribuir para aquisição e manutenção de níveis adequados de saúde, a busca de um determinado padrão de perfectibilidade da beleza impulsiona o consumo de produtos, práticas e recursos nem sempre compatíveis com esse propósito. Comumente nos deparamos com a divulgação de dietas milagrosas (receitas de sopas, saladas etc., associadas, às vezes, a laxantes e diuréticos) que permitem redução acentuada de peso corporal em poucos dias ou semanas, sem, contudo, haver maiores esclarecimentos a respeito dos efeitos sobre a saúde em geral ou acerca da eficácia na manutenção dessa perda a longo prazo. A perda de peso por meio de dietas que preconizam a ingestão excessiva ou restrita de um ou mais macronutrientes (carboidratos, gorduras ou proteínas) pode ser prejudicial à saúde humana, uma vez que promove sobrecarga das estruturas orgânicas durante a absorção e/ou excreção dos nutrientes ou carência de determinados nutrientes. Uma ampla variedade de suplementos alimentares encontra-se disponível no mercado do “corpo perfeito”, dentre estes os lipolíticos ou fat burners (queimadores de gorduras); os energéticos; os anabolizantes (aminoácidos e precursores); os complementos vitamínicos e minerais e os famosos sports drinks (bebidas esportivas). Entretanto, seu uso indiscriminado, em detrimento de uma alimentação convencional adequada, pode expor o organismo a situações de risco, visto que muitos produtos comercializados como suplementos, incluindo alguns precursores hormonais (DHEA – deidroepiandrosterona), não possuem comprovação científica quanto ao uso seguro e eficaz. Por vezes, a suplementação de alguns nutrientes e substâncias já presentes no organismo em quantidades normais ou próximas do normal eleva sua proporção em relação a outros nutrientes e substâncias, deixando o organismo suscetível a distúrbios diversos, incluindo doenças como diabetes. 27 Possibilidades Interdisciplinares O tema Corpo e beleza em diferentes períodos históricos poderá ser desenvolvido de modo integrado com as disciplinas de História, Filosofia e Arte, na medida em que envolvem conteúdos afins. Outra prática comum no mercado da beleza é a difusão de propagandas relacionadas a programas e/ou produtos envolvendo exercícios físicos. Em geral, propõem modificações nas formas corporais (hipertrofia ou definição muscular, redução de medidas) em curto espaço de tempo, metas difíceis de serem atingidas quando o exercício é utilizado isoladamente. Notadamente a região abdominal constitui um dos principais alvos desse mercado, cujo propósito − definição muscular − impulsiona o lançamento de vários modelos de equipamentos e rotinas de exercícios direcionados à aquisição de um abdome bem definido. Entretanto, o que a grande maioria dos anúncios não informa é que, sendo essa região um dos principais sítios de acúmulo de gordura corporal, a obtenção de resultados semelhantes àqueles mostrados pelos modelos utilizados em propagandas só se torna possível mediante a adoção, simultaneamente, de dietas que favoreçam a redução da gordura corporal total e a utilização dos equipamentos e exercícios propostos. Mediante uma restrição calórica induzida pela dieta, a realização de exercícios aeróbicos vinculados ao treinamento de força resulta na manutenção do peso corporal magro ou mesmo num pequeno aumento deste, de tal forma que o nível de metabolismo basal é mantido ou ainda aumentado, reduzindo a tendência orgânica para acumular calorias. É importante destacar que tais processos também exigem um fornecimento adequado de nutrientes mediante uma dieta equilibrada. Vale dizer, também, que estes não são os únicos determinantes do gasto energético. Se uma pessoa gasta em repouso “x” kcal durante um dia inteiro, deve ingerir um mínimo de “x” kcal diárias, mais as kcal gastas com os demais componentes do gasto energético diário, conforme quadro abaixo. determinantes do gasto energético diário Metabolismo basal: a taxa metabólica basal (TMB) ou de repouso (TMR) representa o gasto mínimo de energia necessário à manutenção das funções corporais no estado de jejum ou de repouso. Representa o principal determinante do gasto energético diário, correspondendo a 60%-75% do gasto total humano. Termogêneses: Induzida pela dieta: representa o gasto de energia que acompanha a ingestão alimentar, decorrente das reações sofridas durante a digestão, absorção e conversão de nutrientes. Facultativa: conhecida como termogênese sem calafrio, manifesta-se mediante a redução da temperatura ambiente quando precisamos gastar energia especificamente para produzir calor. 28 Educação Física - 1a série - Volume 2 Atividade física: é responsável por aproximadamente 15% (para indivíduos sedentários) e 30% (para pessoas que se exercitam regularmente) do gasto diário total, distribuído entre gastos com: (1) a atividade física espontânea, relacionada ao gasto com movimentos irrequietos e nervosos, normalmente inconscientes e sem propósitos; e (2) a atividade física intencional, relacionada ao gasto no trabalho ocupacional ou exercícios físicos intencionais. SITUAçãO DE APRENDIZAGEM 4 A CONSTRUçãO HISTóRICA E CULTURAL DOS PADRõES DE BELEZA E A MINHA BELEZA Os alunos coletarão imagens de atletas em vários períodos históricos para estabelecer comparações com obras de arte ou fotos de atores e atrizes que ilustram, ao longo do tempo, padrões de beleza predominantes, buscando identificar quais categorias (formas corporais, tipos e penteados dos cabelos etc.) contribuem para estabelecer tais padrões. Com base nisso, propõe-se a elaboração de cartazes sobre o tema e uma vivência para que os alunos atentem para a própria imagem corporal e beleza, nas suas relações com o contexto sociocultural. Tempo previsto: 2 a 3 aulas. Conteúdos e temas: padrões de beleza em diferentes períodos históricos. Competências e habilidades: identificar padrões e estereótipos de beleza nos diferentes contextos históricos e culturais; perceber as representações da beleza em seu grupo sociocultural. Recursos: papel e cartolinas de cores variadas, pincel atômico, corda ou barbante. desenvolvimento da Situação de Aprendizagem 4 Etapa 1 – A beleza ao longo do tempo Previamente, solicite aos alunos que, em grupos e em horário extra-aula, procurem fotos de atletas olímpicos em situações de competição. Para ilustrar padrões de beleza de diferentes épocas históricas sugira a pesquisa sobre as obras de arte, fotos de mode- los e atrizes. Os grupos podem ser divididos entre os dois assuntos. Nas páginas que se seguem apresentamos os padrões de beleza, representados pelas obras de arte, até o século XIX. O mesmo pode ser feito em relação aos modelos de beleza masculina. 29 Época nome da obra de arte e imagens de mulheres © Wikipedia Século IV a.C. Vênus de Cnido © Marie-Lan Nguyen/Wikipedia Século II a.C. Vênus de Milo 30 Educação Física - 1a série - Volume 2 1503-1506 nome da obra de arte e imagens de mulheres © Gianni Dagli Orti/Corbis - Latinstock Época Mona Lisa, obra de Leonardo da Vinci © The Bridgeman Art Library International-Keystone 1509 Vênus adormecida, obra de Giorgione © The Bridgeman Art Library International-Keystone 1540 A Bela, obra de Ticiano Vecellio 31 © Erich Lessing/Album-Latinstock 1650 Vênus no espelho, obra de Diego Velásquez © The Bridgeman Art Library International-Keystone 1797-1800 Maja desnuda, obra de Francisco Goya y Lucientes © Wikipedia 1833 Madalena penitente, obra de Francesco Hayez 32 Educação Física - 1a série - Volume 2 Época nome da obra de arte e imagens de homens © Pirozzi/Album/akg-images-Latinstock 460-450 a.C. Discóbolo, obra de Miron © Jastrow/Wikipedia Século I d.C. 1842 © The Bridgeman Art Library International-Keystone Apolo de Belvedere Sansão e o leão, obra de Francesco Hayez 33 Peça aos alunos que organizem as imagens pesquisadas e estimule-os a identificar algumas categorias que estabelecem padrões de beleza (formas corporais, definição muscular, cabelos, roupas etc) Relacionando-as ao contexto histórico. o colega é mais gordo ou mais magro, mais alto ou mais baixo do que achamos ou do que aparenta? Por que será que o “enxergamos” assim? Depois tentam “arrumar” o molde com o colega dentro dele. Quando conseguirem, o colega se levanta, evitando, ao máximo, desmanchá-lo. Etapa 2 – A história da própria beleza A seguir, os grupos sentam em redor do molde, e cada aluno apresenta as palavras que escreveu no início da aula. Convide os grupos a identificar se escreveram sobre temas semelhantes ou diferentes, se apareceram mais referências ao formato do corpo, tipo de cabelo, cor da pele, biotipo ou sobre as partes do corpo de que mais gostam ou que queriam que fossem diferentes. Estimule-os a relacionar as maneiras como olharam para a própria beleza com os contextos histórico-culturais explicitados na etapa anterior. Em seguida, solicite a cada grupo a distribuição destas palavras no molde. Por exemplo, as palavras referentes aos tipos de cabelo poderão ser colocadas na região da cabeça, e assim por diante. Distribua pedaços de papel de cores e formatos variados (medida aproximada de 5 × 10 cm). Peça aos alunos para escrever as palavras que melhor representam seus sentimentos sobre a própria beleza. Por enquanto, cada aluno guarda suas palavras e é convidado para a fase seguinte da Situação de Aprendizagem. Peça aos alunos para que se dividam em pequenos grupos (de quatro a seis alunos em cada). Cada grupo recebe uma corda ou barbante (com 6 metros de comprimento, no mínimo). Os integrantes do grupo definem uma pose e escolhem alguém para representála, isto é, para ser a “estátua”. Com a corda ou barbante, o grupo deve desenhar no chão o contorno do corpo da “estátua” apenas pela observação (não é permitido deitar no chão para servir de “molde”). Quando terminarem, o aluno que serviu de “estátua” deita-se sobre o molde. Todos analisam se as partes do corpo ficaram proporcionais ou muito diferentes do modelo. Se houve diferenças, discutem os motivos. Por exemplo: Quando todos os grupos terminarem, devem formar um grande círculo em torno dos moldes e analisar os diferentes sentimentos sobre a beleza, expressos pelas palavras escolhidas e distribuídas nos diferentes moldes. Estimule os alunos a pensar nos possíveis significados das palavras, estabelecer relações, fazer comparações, refletir sobre causas desses sentimentos etc., sempre considerando os contextos histórico-culturais vistos na etapa anterior. SITUAçãO DE APRENDIZAGEM 5 TRIBUNAL DA BELEZA Os alunos farão um levantamento dos produtos, práticas alimentares e programas de exercícios com finalidades estéticas presentes 34 em diferentes mídias (revistas, internet etc.) e discutirão os riscos e benefícios à saúde associados à utilização desses recursos. Educação Física - 1a série - Volume 2 Tempo previsto: 2 aulas. Conteúdo e temas: produtos, práticas alimentares e programas de exercícios associados à busca de padrões de beleza. Competências e habilidades: identificar recursos voltados à obtenção de padrões de beleza corporal; reconhecer e criticar o impacto dos estereótipos de beleza corporal na opção por exercícios físicos, produtos e práticas alimentares; reconhecer riscos e benefícios que a utilização de produtos, práticas alimentares e programas de exercícios podem trazer à saúde orgânica. Recursos: matérias de jornais, revistas, sites e propagandas. desenvolvimento da Situação de Aprendizagem 5 Etapa 1 – Coletando provas Previamente solicite aos alunos que, divididos em grupos, pesquisem − em revistas, jornais e sites (indicados ou não pelo professor) − textos, matérias jornalísticas, imagens e propagandas sobre produtos (cosméticos, remédios, equipamentos de ginástica etc.), práticas alimentares e/ou programas de exercícios físicos voltados à obtenção de padrões de beleza corporal. Opcionalmente, o próprio professor poderá trazer material sobre a temática, incluindo propagandas e matérias jornalísticas gravadas da programação televisiva. Auxilie os alunos, ainda em grupos, a analisar e dividir o material coletado em termos dos produtos e práticas tratados e das respectivas abordagens em relação a benefícios e/ou riscos à saúde. Por exemplo, se uma matéria jornalística sobre determinado programa de exercícios ou prática alimentar enfatiza apenas os benefícios dele decorrentes ou também alerta para riscos à saúde e/ou limitações nos resultados em função da individualidade do usuário. Etapa 2 – Culpado ou inocente? Divida os alunos em três grupos, sendo que o maior grupo (cerca de metade da turma) será o júri e os outros dois grupos, os advogados de acusação e defesa, respectivamente. O réu é o “Mercado do corpo e dos padrões de beleza”. Um aluno fará o papel de juiz, organizando os trabalhos. Os grupos de acusação e de defesa deverão, com base no material coletado e com a assistência do professor, encontrar argumentos para atacar ou defender o réu. Cada grupo terá um tempo estipulado para expor seus argumentos, e o outro grupo terá um tempo para a réplica. Ao final, o júri dará seu veredicto. Na conclusão, procure evidenciar como há argumentos divergentes em relação aos produtos e práticas e os interesses econômicos envolvidos na venda desses produtos e serviços, além da indução ao consumo estimulada pelas propagandas. Apresente informações mais aprofundadas em relação aos produtos, práticas e exercícios físicos citados, de modo a fundamentar seus possíveis riscos e benefícios à saúde. ATIVIDADE AVALIADORA Com base nos conteúdos desenvolvidos nesta Situação de Aprendizagem, proponha que, em grupos, os alunos elaborem cartazes com base nas identificações e relações que estabeleceram sobre os diferentes padrões de beleza ao longo da história. Além de 35 imagens, os cartazes podem conter pequenos textos buscando chamar atenção sobre os aspectos mais importantes relativos ao tema, segundo a opinião dos próprios alunos. O material elaborado poderá ser exposto para toda a escola. PROPOSTA DE SITUAçõES DE RECUPERAçãO Durante o percurso pelas Situações de Aprendizagem, alguns alunos poderão não apreender os conteúdos da forma esperada. É necessário, então, que outras Situações de Aprendizagem sejam propostas, permitindo ao aluno revisitar de outra maneira o processo. Tais estratégias podem ser desenvolvidas durante as aulas ou em outros momentos, envolvendo todos os alunos ou apenas aqueles que apresentaram dificuldades. Por exemplo, o professor pode propor: f roteiro de estudos com perguntas norteadoras para posterior apresentação em registro escrito ou outra forma; f criação de história em quadrinhos ou colagem com imagens de revistas; f produção de um texto autobiográfico sobre a construção da própria beleza, relacionada com o contexto históricocultural. RECURSOS PARA AMPLIAR A PERSPECTIVA DO PROFESSOR E DO ALUNO PARA A COMPREENSãO DO TEMA livros CURY, Augusto. A ditadura da beleza e a revolução das mulheres. Rio de Janeiro: Sextante, 2005. Alerta para um problema do mundo moderno − a ditadura da beleza − que mantém crianças, adolescentes e adultos tristes e frustrados. Parte da história de uma famosa modelo de 16 anos que, obcecada pela aparência física perfeita, tornou-se amarga e depressiva e tem de se submeter a tratamento psiquiátrico. 36 ilustrado, o livro facilita a compreensão sobre os padrões de beleza que ditaram modos de ver as pessoas e o mundo. QUEIROZ, Renato da Silva. O corpo do brasileiro: estudo de estética e beleza. São Paulo: Senac, 2000. ECO, Umberto. História da beleza. Rio de Janeiro: Record, 2004. Coletânea de textos que abordam o fato de que a diversidade racial e cultural é pressionada pela padronização de beleza vigente nos meios de comunicação de massa. Os autores discutem os diferentes atributos da beleza, os riscos da exaltação de um tipo de beleza, a questão do corpo europeu e o corpo nacional. Retrata por meio de imagens de obras de arte a construção das ideias de beleza desde a Grécia Antiga até os dias atuais. Ricamente SILVA, Ana B. B. Mentes insaciáveis: anorexia, bulimia e compulsão alimentar. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005. Educação Física - 1a série - Volume 2 Trata das dificuldades das celebridades e anônimos com os transtornos alimentares, apresentando uma abordagem multidisciplinar e prática sobre o tema. TAVARES, Maria da Consolação F. Imagem corporal: conceito e desenvolvimento. Barueri: Manole, 2003. Apresenta conceitos básicos e aborda o processo de formação e desenvolvimento da imagem corporal. Teses e dissertações BARROS, Daniela Dias. Estudo da imagem corporal da mulher: corpo (ir)real x corpo ideal. 2001. Dissertação de Mestrado − Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2001. Disponível em: <http://libdigi.unicamp.br/ document/?code=vtls000228730>. Acesso em: 11 fev. 2008. Artigos ESTEVãO, Adriana; BAGRICHEVSKY, Marcos. Cultura da “corpolatria” e bodybuilding: notas para reflexão. Revista Mackenzie de Educação Física e Esporte, São Paulo, v. 3, n. 3, p. 15-27, 2004. Disponível em: <http://www4.mackenzie.com.br/fileadmin/ Graduacao/CCBS/Cursos/Educacao_Fisica/ REMEFE-3-3-2004/art1_edfis3n3.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2008. Discorre sobre a cultura da “malhação”, em especial o fisiculturismo, cujo objetivo é desenvolver grande volume muscular, com padrão estético peculiar, mesmo às custas de ultrapassar limites fisiológicos humanos. Para tal, analisa subjetividades e engendramentos que a perpassam, buscando identificar a contextualização de alguns paradoxos. Filme O preço da perfeição. Direção: Jan Egleson. EUA, 1997. 100min., drama. História verídica, narra a vida de uma ex-corredora norte-americana que, pressionada desde cedo a vencer, precisou emagrecer para obter melhor desempenho e conseguir classificação para os Jogos Olímpicos e quase morreu ao atingir um estado crítico de bulimia. 37 COnSIdERAçõES FInAIS Professor, com as orientações contidas neste Caderno da 1a série do Ensino Médio, esperamos ter contribuído para o seu trabalho pedagógico cotidiano nas aulas de Educação Física, na perspectiva de ampliar as possibilidades e significados do Se-Movimentar dos alunos no âmbito da Cultura de Movimento. As Situações de Aprendizagem aqui propostas para os temas Atividade rítmica, Esporte e Corpo, saúde e beleza permitem as mais diferentes adaptações em virtude das características específicas de cada escola, assim como uma análise crítica 38 de sua parte, a fim de aperfeiçoar a Proposta Curricular da disciplina de Educação Física. É preciso também lembrar que os temas e conteúdos propostos para o Ensino Médio constroem uma continuidade ao longo das diversas séries e bimestres. Portanto, as Situações de Aprendizagem propostas neste 2o bimestre, assim como as competências e habilidades nelas trabalhadas, não devem ser tomadas de modo isolado, mas em relação ao bimestre anterior e aos seguintes. Educação Física - 1a série - Volume 2 4º bimestre 3º bimestre 2º bimestre 1º bimestre QUAdRO dE COnTEúdOS – EnSInO MÉdIO 1ª série 2ª série 3ª série Esporte – Sistemas de jogo e táticas em uma modalidade coletiva já conhecida dos alunos. Corpo, Saúde e Beleza – Padrões e estereótipos de beleza corporal. – Consumo e gasto calórico: alimentação, exercício físico e obesidade. Ginástica – Práticas contemporâneas: ginástica aeróbica, ginástica localizada e/ou outras. Corpo, Saúde e Beleza – Capacidades físicas: conceitos e avaliação. Mídias – Significados/sentidos no discurso das mídias sobre a ginástica e o exercício físico. – O papel das mídias na definição de modelos hegemônicos de beleza corporal. luta – Modalidade de luta já conhecida dos alunos: capoeira, caratê, judô, taekwondo, boxe ou outra. Corpo, Saúde e Beleza – Princípios do treinamento físico: individualidade biológica, sobrecarga e reversibilidade. Contemporaneidade – Corpo, cultura de movimento, diferença e preconceito. Atividade Rítmica – Ritmo vital e ritmo como organização expressiva do movimento. – Tempo e acento rítmicos. Esporte – Modalidade individual: atletismo, ginástica artística ou ginástica rítmica. Corpo, Saúde e Beleza – Corpo e beleza em diferentes períodos históricos. Esporte – Modalidade individual ainda não conhecida dos alunos. Corpo, Saúde e Beleza – Efeitos do treinamento físico: fisiológicos, morfológicos e psicossociais. – Exercícios resistidos (musculação): benefícios e riscos à saúde nas várias faixas etárias. Contemporaneidade – Corpo, cultura de movimento, diferença e preconceito. Atividade rítmica – Manifestações rítmicas ligadas à cultura jovem: hip-hop, streetdance e/ou outras. lazer e Trabalho – Saúde e trabalho. Contemporaneidade – Esporte e cultura de movimento na contemporaneidade. Esporte – Sistemas de jogo e táticas em uma modalidade coletiva ainda não conhecida dos alunos. Corpo, Saúde e Beleza – Conceitos: atividade física, exercício físico e saúde. Esporte – Modalidade “alternativa” ou popular em outros países: beisebol, badminton, frisbee ou outra. Corpo, Saúde e Beleza Fatores de risco à saúde: sedentarismo, alimentação, dietas e suplementos alimentares, fumo, álcool, drogas, doping e anabolizantes, estresse e repouso Doenças hipocinéticas e relação com a atividade física e o exercício físico: obesidade, hipertensão e outras. Mídias – A transformação do esporte em espetáculo televisivo e suas consequências. Atividade rítmica – Manifestações e representações da cultura rítmica nacional ou de outros países. lazer e trabalho – O lazer como direito do cidadão e dever do Estado. Contemporaneidade – A virtualização do corpo na contemporaneidade. Ginástica – Práticas contemporâneas: ginástica aeróbica, ginástica localizada e/ou outras. luta – Princípios orientadores, regras e técnicas de uma luta ainda não conhecida dos alunos. Ginástica – Ginástica alternativa: alongamento, relaxamento ou outra. Corpo, Saúde e Beleza – Atividade física/exercício físico e prática esportiva em níveis e condições adequadas. Contemporaneidade – Corpo, cultura de movimento, diferença e preconceito. Esporte, Ginástica, luta e Atividade Rítmica – Organização de eventos esportivos e/ou festivais (apresentações) de ginástica, luta e/ou dança. lazer e trabalho – Espaços, equipamentos e políticas públicas de lazer. – O lazer na comunidade escolar e em seu entorno: espaços, tempos, interesses e estratégias de intervenção. Corpo, Saúde e Beleza – Estratégias de intervenção para promoção da atividade física e do exercício físico na comunidade escolar. 39