VIDAS MULTILADAS: REFLEXÕES SOBRE A DEGRADAÇÃO
AMBIENTAL DO PARQUE DO LAGO EM CAMPO MOURÃO/PR1
PAROLIN, Eloisa Silva de Paula
PAROLIN, Mauro
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RESUMO
O trabalho é resultado de observações das condições ambientais do Parque Estadual Joaquim
Teodoro de Oliveira (Parque do Lago de Campo Mourão). O levantamento foi realizado no
outono de 2011. As observações consistiram: a) na contagem do número de árvores riscadas
na pista de caminhada ou próximas a ela; b) na contagem das estruturas físicas (concreto,
madeira e metal) pichadas. Também foi processada a quantificação do conteúdo dos riscos e
pichações. Foi verificado um total de 49 árvores riscadas. Todas as instalações do Parque
possuem algum tipo de pichação. Os nomes de casais predominam nas árvores riscadas
(40,1%). Nas instalações predomina o nome isolado (36,1%). A presença de riscos em árvores
do Parque do Lago são evidências da falta da percepção de alguns visitantes sobre a vida e a
sensibilidade de outros seres vivos, que como o homem, também interagem com o meio,
sendo portanto, sensíveis a este. Já as manifestações em forma de pichações verificadas nas
instalações podem ser interpretadas como uma forma de vandalismo traduzida em uma das
formas mais elementares da condição animal, também presente na espécie humana, que é a
marcação de território.
Palavras-chave: árvores riscadas, meio ambiente; pichação; unidades de conservação
SOMMAIRE
Le travail est le résultat d'observations des conditions environnementales de Parc Joaquim
Teodoro Oliveira (Parque do Lago, Campo Mourão). L'enquête a réalisé à l'automne de 2011.
Les observations se composait de: a) compter le nombre d'arbres griffé sur le sentier de
randonnée pédestre ou à proximité, b) sur un nombre des structures physiques (béton, bois et
métal) graffitis. Il a également été traitée pour quantifier le contenu des risques et des graffitis.
Il a été vérifié un total de 49 arbres rayé. Toutes les installations du parc ont une sorte de
graffiti. Les noms des couples prédominent dans les arbres (40,1%). Prédomine sur les
installations le nom seul (36,15%). La présence de risques dans les arbres du Parque do Lago
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EIXO TEMÁTICO: Áreas verdes urbanas
Profª. Dra. Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (FECILCAM), Departamento
de Ciências Sociais, [email protected]
3
Prof. Dr. Faculdade Estadual de Ciências e Letras de Campo Mourão (FECILCAM), Departamento
de Ciências Sociais, [email protected]
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sont la preuve de l'absence de perception de certains visiteurs sur la vie et la sensibilité des
autres êtres vivants, ainsi avec l'homme, également interagissent avec l'environnement, étant
donc sensible à cela. Les manifestations sous la forme de graffitis trouvés sur les lieux peut
être interprété comme une forme de vandalisme traduits dans l'une des conditions les plus
élémentaires de l'animal, également présent chez les humains, qui est le marquage de
territoire.
Mots-clés: arbre gratter, de l'environnement, les graffitis, les aires protégées
1. INTRODUÇÃO
Segundo Bovo (2009), a justificativa para se manter as áreas verdes urbanas está
relacionada ao “seu potencial em proporcionar qualidade ambiental à população”. O mesmo
autor argumenta que essas áreas, em razão do denominou de “funções ecológico-ambiental,
estética, paisagística, climática, psicológica e também recreativa”, afetam a qualidade de vida
das pessoas que vivem em ambientes urbanos.
Diegues (2000) observou que a criação de parques e reservas naturais está relacionada
a concepções “preservacionistas” da natureza. O primeiro exemplo no qual estas concepções
foram cristalizadas ocorreu em 1872 nos Estados Unidos, quando o parque nacional de
Yellowstone foi criado. O conhecido Parque norte-americano fora concebido para ser um
espaço “preservado” da natureza que ainda não havia sido modificada pela ação antrópica, e
além de ter como principal finalidade o fato de constituir-se em um atrativo “estético”, o
Parque permitiria também a proteção das espécies nele contidas. Diegues apontou ainda que
este modelo de parque, que tornou incompatível a presença humana neste tipo de área de
preservação, seria mais tarde importado por países do chamado “Terceiro Mundo”.
A necessidade de manutenção de áreas verdes nas proximidades ou inseridas nos
centros urbanos, por sua vez, também reflete uma mentalidade utilitarista em relação à
natureza. Os parques e áreas verdes urbanas, na maioria das vezes, cumprem um papel
meramente estético ou tornam-se uma espécie de parque de diversões “ecologicamente
correto”. Para Parolin e Bellini (2010), as reservas e parques naturais parecem também se
assemelhar a um imenso “zoológico de plantas”, neles muitas vezes as árvores não são
cercadas, mas recebem placas que identificam o seu nome científico. Uma demonstração clara
que, ao contrário das gerações mais antigas, nossas comunidades recentes muito pouco
recordam do nome “comum” que estas plantas possuem e raramente conseguem identificá-las
como seus pais e avós o faziam.
Diante do exposto, e em razão da área estudada ser considerada uma unidade de
conservação, o estudo realizado teve como foco de investigação a relação entre homem e
natureza a partir da análise dos riscos em árvores e pichações no Parque Estadual Joaquim
Teodoro de Oliveira (Parque do Lago).
2. CARACTERIZAÇÃO DA ÁREA ESTUDADA
A região é área ecotonal entre a Floresta Estacional Semidecidual Montana e Floresta
Ombrófila Mista Montana com enclave de Cerrado (PAROLIN et al., 2010). Em relação ao
cerrado, remanescentes ainda podem ser encontrados no perímetro urbano ; na Estação
Ecológica do Cerrado de Campo Mourão e terrenos baldios, bem como no Parque do Lago. O
Parque do Lago em Campo Mourão/PR (Figura 1), localizado na rua Santa Catarina s/n, é o
primeiro e mais antigo parque do Município, inaugurado em 1 de maio de 1971 (FERRO,
1971). Segundo Dias (2007), em 1987, área recebeu o nome de Parque Municipal Joaquim
Teodoro de Oliveira. Ainda segundo a autora, com uma área de 22,96ha, o Parque é
considerado “a mais importante unidade de conservação” do Município e da região, quando se
leva em consideração o quantitativo de pessoas que visitam este espaço. A estrutura do
Parque até 1995 era composta basicamente por um lago (resultado do represamento do rio do
Campo), uma lanchonete, pistas de caminhada em meio a vegetação ripária na margem
esquerda do lago e algumas churrasqueiras espalhadas no meio da mata. A partir de 1995,
concluído o plano de revitalização do Parque, implantou-se a sede administrativa, o centro de
visitantes, a pista de caminhada (agora contornando o lago) (Figura 2ABCD),
os
equipamentos para exercícios e os sanitários. Segundo Dias (2007), a Administração
municipal, em parceria com a Companhia de Saneamento do Paraná, implantou ainda no
início deste século um Ecomuseu com mirante, estrutura esta representada na figura 2E.
No ano de 2007 foram operadas obras de restauração da ponte. E, no ano de 2008,
novas restaurações foram implementadas em razão do rompimento da barragem ocorrido em
agosto (Figura 3). O lago só voltou a encher em meados de 2009.
Figura 1 - Mapa de localização do Parque do Joaquim Teodoro de Oliveira.
Figura 2 – Imagens do Parque Municipal Joaquim Teodoro de Oliveria: (A) visão
parcial do lago a partir da margem esquerda; (B) visão parcial da pista de caminhada (margem
esquerda; (C) Barragem do rio Do Campo; (D) ponte de madeira localizada à montante do
Lago e (E) Ecomuseu e mirante.
Fonte: acervo dos autores
.
Figura 3 – Parque Municipal Joaquim Teodoro de Oliveria após o rompimento
da barragem em 2008.
Fonte: MARCOTTI, A.R.
2. METODOLOGIA
O levantamento das condições ambientais do Parque Municipal Joaquim Teodoro de
Oliveira foi realizado no outono de 2011. As observações consistiram: a) na contagem do
número de árvores riscadas na pista de caminhada ou próximas a ela; b) na contagem das
estruturas físicas (concreto, madeira e metal) pichadas no Parque. Além das observações, foi
processada a quantificação do conteúdo dos riscos e pichações em aproximadamente 20%
(por sorteio) do total de árvores e em quatro instalações pichadas.
3. RESULTADOS
No levantamento realizado, foi detectado um total de 49 árvores riscadas, sendo 5 na
margem esquerda e 44 na margem direita (Tabela 1 e Figura 4). Em relação às pichações, foi
verificado que todas as instalações do Parque possuem algum tipo de inscrição.
Em relação ao conteúdo dos riscos das árvores, observou-se a predominância de
nomes de casais em 40,1% do total amostrado, em segundo lugar figura o nome isolado em
20,1% (Tabela 2) do total amostrado. Exemplos de riscos observados nos troncos podem ser
vistos na figura 5.
Nas pichações presentes nas instalações, verificou-se a predominância do nome
isolado em 36,1% do total amostrado, e em segundo lugar, predominou a pichação de siglas,
correspondendo a 28,9% do total amostrado. Exemplos das pichações observadas nas
instalações podem ser vistos na figura 6. Com relação às pichações nas instalações do
Parque, é interessante notar a situação em que se encontra a placa relativa à reforma da ponte
que ocorreu em 2007 (Figura 7).
Tabela 1 – Resultado número de árvores riscadas
e pichações nas instalações no Parque do Lago
Tipo de dano
Número de
ocorrências
Árvores riscadas próximo a pista de caminhada
5
(margem esquerda)
Árvores riscadas na pista de caminhada (margem
44
direita)
Total de árvores riscadas
49
Pichações nas instalações
10
Total
59
Tabela 2 – Ttipo de inscrição, número de ocorrência e percentual, presentes em troncos de
árvores e instalações no Parque do Lago
Inscrição presente
Número de
Tipo de inscrição
%
em
ocorrências
Datas
50
13,9
Desenhos
14
3,9
Frases
7
1,9
Nome (isolado)
72
20,1
Árvores
Nome (casais)
144
40,1
(20 indivíduos
analisados)
Palavras
14
3,9
Siglas
25
7,0
Sem identificação
33
9,2
Total
359
100
Datas
5
1,9
Desenhos
29
11,0
Frases
5
1,9
Instalações
Nome (isolado)
95
36,1
(4 locais analisados)
Nome (casais)
11
4,2
Palavras
21
8,0
Siglas
76
28,9
Sem identificação
21
8,0
Total
263
100
Figura 4 – Imagem de satélite indicando: área aproximada do Parque do Lago
(adaptado de Dias, 2007); pista de caminhada pricipal e secundárias
e localização aproximada das árvores riscadas.
Fonte: Image© GeoEye - Google Earth® 2011.
Figura 5 – Alguns exemplos de riscos em troncos de árvores verificados no Parque do Lago.
Fonte: acervo dos autores
Figura 6 - Alguns exemplos de pichações nas instalações verificados no Parque do Lago.
Fonte: acervo dos autores
Figura 7 – Placa de relativa à reforma da ponte ocorrida em 2007: (A) Foto tirada em 2008
(Marcotti, A.R.). e (B ) Foto tirada em junho de 2011 pelos autores.
4. DISCUSSÃO
O filósofo François Dagognet (2000) observou bem que a ideia de natureza em sua
raiz etimológica é indissociável das idéias de “vida” e de “força”. A palavra natureza é
originada do grego phýsis que possui três significados “principais”: em primeiro lugar pode
ser traduzida como a “força” que permite o nascimento e o desenvolvimento constante de
todas as coisas; caracteriza, em segundo lugar, um ser em si mesmo, ou seja, a sua “natureza”
ou o seu “caráter espontâneo”; e, por último, a phýsis pode ser traduzida como aquilo que
constitui todos os seres, a “manifestação visível da “arkhé” (origem), o “princípio absoluto
(primeiro e último) de tudo o que existe” (CHAUÍ, 2002).
Contudo, a despeito desta multiplicidade de sentidos apontados por Chauí, a natureza
passou a ser identificada como algo distinto do homem. A este respeito, o historiador inglês
Keith Thomas (1996) observou que na concepção dominante de natureza no período que se
estende entre o século XV e o século XVIII, em especial na Inglaterra, o homem não era
considerado como parte da natureza. Em sua análise, o autor mostrou que o domínio do
homem sobre a natureza se baseava na ideologia religiosa cristã, em cujo dogma Deus havia
criado os animais e as plantas para que fossem submetidos ao homem; e em teorias científicas
ou filosóficas profundamente utilitaristas, como a exemplo de Francis Bacon e René
Descartes.
Apesar dos séculos que nos separam dos homens do Período Moderno, o número
considerável de árvores que tiveram seus troncos mutilados revela um traço significativo da
mentalidade de alguns homens em relação à natureza que ainda permanece no século XXI,
traço que se caracteriza pela percepção de que o homem e a natureza são dois elementos
distintos. A árvore tomada como pano de fundo para expressar o sentimento entre duas
pessoas, ou simplesmente para guardar o registro da identidade de um indivíduo em especial,
torna-se um simples objeto que pode ser manipulado, um objeto sem vida e incapaz de
expressar alguma forma de sensibilidade. O fato de prevalecerem as inscrições de nomes e
datas nos troncos das árvores (Tabela 2) revela também a concepção de que as árvores
compartilhariam de uma suposta eternidade semelhante a que se imagina para as estruturas
criadas pelo homem, daí a aparente necessidade de se deixar um registro pessoal em uma
forma de vida, tomada agora como se fosse constituída de cimento, argila e ferro. A
dificuldade de perceber as árvores como formas de vida, e, portanto, como seres vivos
sensíveis às ações do meio, pode ser verificada em um dos dias no qual fora realizada a coleta
de dados. Enquanto andavam pela trilha na margem direita do lago, os autores foram
indagados por um visitante sobre o trabalho que realizavam. Ao esclarecerem que se tratava
de uma avaliação dos riscos no tronco das árvores, o visitante afirmou que não havia nenhum
problema em riscar os troncos das árvores, pois com os riscos as árvores morriam e com o
tempo estes cicatrizavam. Desta forma, avalia-se que o visitante, a exemplo daqueles que
deixaram suas marcas no tronco, não compreende que árvores, pássaros, flores, peixes, assim
como o homem surgiram e evoluíram neste Planeta em um processo de interação ainda
estudado e não completamente elucidado. O que suscita ainda a tese de que tal
comportamento também está relacionado à completa ignorância de algumas pessoas em
relação ao conhecimento produzido em áreas como a Biologia, a Geografia e a Ecologia,
tornando-as reféns de uma concepção dominante de natureza que as impedem de perceber a
dinâmica e a relevância da vida no interior de um ecossistema, ecossistema ao qual o homem
também está integrado.
Quanto às pichações nas instalações, tal prática pode ser traduzida como uma forma de
identificação e marcação de território, principalmente quando se verifica a predominância de
nomes isolados, siglas e desenhos, e a completa ausência de discursos de contestação ou a
tentativa de expressar alguma forma de arte alternativa.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A presença de riscos em árvores do Parque do Lago são evidências da falta da
percepção de alguns visitantes sobre a vida e a sensibilidade de outros seres vivos, que como
o homem, também interagem com o meio, sendo portanto, sensíveis a este. Já as
manifestações em forma de pichações verificadas nas instalações podem ser interpretadas
como uma forma de vandalismo traduzida em uma das formas mais elementares da condição
animal, também presente na espécie humana, que é a marcação de território.
REFERÊNCIAS
BOVO, M. C. Áreas verdes urbanas, imagem e uso: um estudo geográfico sobre a cidade
de Maringá – PR. 324f, Tese (doutorado em Geografia) – Universidade Estadual Paulista,
Faculdade de Ciências e tecnologia. Presidente Prudente. 2009.
CHAUI, M. Introdução à história da filosofia: dos pré-socráticos a Aristóteles. São Paulo:
Companhia das Letras, 2002. v.1.
DAGOGNET, F. Considérations sur l’ idée de nature. Paris: Vrin, 2000.
DIAS, R. O ICMS ecológico no contexto das unidades de conservação no município de
Campo Mourão – PR. Curitiba, 2007. 218f. Dissertação (Mestrado em Gestão Urbana)
Programa de Pós-Graduação em Gestão Urbana da Pontifícia Universidade Católica do
Parana. Curitiba, 2007.
DIEGUES, A. C. O mito moderno da natureza intocada. São Paulo: Hucitec, 2000.
FERRO, B.M. Parque Municipal Joaquim Teodoro de Oliveira e a demanda do público
jovem por atrativos. Disponível em: <http://www.webartigos.com/articles/12102/1/ParqueMunicpal-Joaquim-Teodoro-de-Oliveira-e-a-Demanda-do-Publico-Jovem-Por-Atrativos /Pági
na 1.html.
PAROLIN, E. S. P.; BELLINI, L. M.. O silêncio das araucárias: memória e esquecimento da
natureza em um grupo de moradores da microbacia hidrográfica do rio do Campo. Boletim
de Geografia. Universidade Estadual de Maringá - UEM, Departamento de Geografia, vol
28, n. 02, 2010.
PAROLIN, M.; GUERREIRO, R. L.; KUERTEN, S.; MENEZES, H. R. Bacias hidrográficas
paranaenses. In: PAROLIN, M; VOLKMER-RIBEIRO; LEANDRINI, J. A. Abordagem
ambiental interdisciplinar em bacias hidrográficas paranaenses. Campo Mourão: Editora
da Fecilcam, 2010. p.59-103.
THOMAS, K. O homem e o mundo natural. São Paulo: Companhia das Letras, 1996.
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reflexões sobre a degradação ambiental do parque