ALFA-GLUCOSIDASE E SEU PAPEL NA FORMAÇÃO DE HEMOZOÍNA EM Rhodnius prolixus Flávia Borges Mury UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE DARCY RIBEIRO – UENF CAMPOS DOS GOYTACAZES – RJ FEVEREIRO - 2010 ALFA-GLUCOSIDASE E SEU PAPEL NA FORMAÇÃO DE HEMOZOÍNA EM Rhodnius prolixus Flávia Borges Mury “Tese apresentada ao Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor em Biociências e Biotecnologia, área de concentração Biologia Celular". Orientadora: Prof.a Marílvia Dansa de Alencar Petretski Co-orientador: Prof. José Roberto da Silva CAMPOS DOS GOYTACAZES – RJ FEVEREIRO – 2010 ii ALFA-GLUCOSIDASE E SEU PAPEL NA FORMAÇÃO DE HEMOZOÍNA EM Rhodnius prolixus FLÁVIA BORGES MURY “Tese apresentada ao Centro de Biociências e Biotecnologia da Universidade Estadual do Norte Fluminense – Darcy Ribeiro como parte das exigências para a obtenção do título de Doutor em Biociências e Biotecnologia, área de concentração Biologia Celular". COMISSÃO EXAMINADORA: ________________________________________________________ Prof. Dr. Francisco José Alves Lemos – LBT / CBB / UENF ________________________________________________________ Prof. Dr. Pedro Lagerblad de Oliveira – IBqM / CCS / UFRJ ______________________________________________________ Prof. Dr. Jorge Luiz da Cunha Moraes – IBqM / Campus Macaé / UFRJ ______________________________________________________ Prof. Dr. José Roberto da Silva – IBqM / Campus Macaé / UFRJ (Co-orientadora) ________________________________________________________ Profa. Dra Marílvia Dansa de Alencar Petretski – LQFPP / CBB / UENF (Orientadora) iii “Dedico esta tese primeiramente a Deus, pela dádiva da vida. Aos meus pais, Mário e Maria Lúcia, por todo o sacrifício em prol do meu sucesso. Ao meu irmão Fábio, pelo incentivo. Ao meu esposo Williams, por todo o apoio e companheirismo.” iv “Só existem dois dias no ano que nada pode ser feito. Um se chama ontem e o outro se chama amanhã, portanto hoje é o dia certo para amar, acreditar, fazer e, principalmente, viver.” (Dalai Lama) v Agradecimentos À Prof.a Marílvia Dansa, pela minha orientação e toda a ajuda fornecida em todos os períodos que necessitei. Obrigada por todo ensinamento e incentivo, mesmo quando achava que não iria conseguir, ela estava sempre dizendo-me que sou capaz. Além disso, agradeço pela amizade e confiança. Ao amigo e co-orientador Dr. José Roberto da Silva, pois foi você quem começou toda esta história. Agradeço por sempre ser paciente em me ensinar e ajudar nos experimentos. Obrigada por ter me ajudado a conquistar tantos novos conhecimentos ao longo da minha formação. Você é um exemplo a ser seguido! Aos meus pais, Mário e Lúcia por todo o esforço destinado a minha formação profissional. Obrigada por tudo o que fizeram por mim, principalmente, por acreditarem no meu sonho e sempre me darem força para persistir. Ao meu irmão Fábio, por ser meu exemplo de vida e incentivo para continuar esta longa caminhada. Além disso, foi ele o “construtor” dos primers específicos de α-glucosidase utilizados nos experimentos de qPCR. Ao meu esposo Williams, por sempre estar ao meu lado em todos os momentos, difíceis ou de intensa alegria. Por ser esta pessoa alegre e extrovertida, me dando apoio e confortando sempre que necessário. Espero que possamos compartilhar infinitos momentos. Obrigada por ser compreensivo. À amiga Raquel, que durante 2 anos esteve no laboratório, sendo motivo de alegria para todos nós. Durante este período conquistou seu espaço no laboratório e desenvolveu sua dissertação de mestrado. Ao Wendel, obrigada pela oportunidade de poder trabalhar com você, ministrando cursos no CEDERJ. Nossa amizade, mesmo depois que você seguiu outro caminho, persistiu e acho até que aumentou. Você é demais. Aos alunos e amigos de iniciação científica: Swellen, Bruno, Gabriela, Magda e Leonardo por todos os momentos que compartilhamos tanto na parte científica como nas brincadeiras do dia-a-dia. Ao Dr. Paulo Ribolla e Dr. Jayme Souza-Neto, por terem auxiliado nos experimentos de RNAi. Sempre que necessário enviavam primers e dsRNA para a realização dos experimentos. vi Agradecimentos Ao Prof. Gonçalo por todos os ensinamentos na área de biologia molecular e pela colaboração durante esta tese. À Bia (Dr.a Beatriz dos Santos Ferreira), que colaborou para a execução deste projeto, tanto na parte prática quanto teórica. Além disso, foi uma amiga que conquistei. Ao Prof.o Carlos Peres, por sua colaboração. À amiga Elane: você foi extremamente importante, pois nos momentos difícies era meu ombro amigo. Além disso, mantivemos uma colaboração que rendeu frutos (um artigo submetido). Espero que nossa amizade continue. Você é uma pessoa muito especial. Aos estudantes do LQFPP: Evenilton, Leo, Helga, Thiago, Lucilene, Nathália. À Prof.a Kátia, pela utilização de alguns equipamentos em seu laboratório, pela revisão do manuscrito e também pela revisão desta tese. A Profª. Elenir, pelas várias vezes em que me cedeu a lupa e pela sua amizade. Ao Prof. Franzé, por me ceder o alimentador artificial para alimentar os Rhodnius. À Prof.a Olga e a Dra. Viviane pela colaboração na parte da análise da estrutura secundária da α-glucosidase. À Prof.a Marília pela ajuda fornecida na discussão dos resultados. Aos técnicos do laboratório, Cristóvão, Izabela. Ao Rodrigo, pela manutenção do biotério dos coelhos. Ao amigo de turma de graduação e de laboratório Fabinho (in memoriam), você sempre será lembrado por nós. Agradeço ao Márcio pelas ajudas fornecidas ao utilizar alguns equipamentos. À amiga Gleicy, por ter me dado força quando precisei. Estava pronta a solucionar qualquer problema. Conte comigo! A todas as pessoas que, direta ou indiretamente, contribuíram para o desenvolvimento deste trabalho. Agradeço a Deus pela vida. Por ter me dado força para prosseguir, estando ao meu lado, principalmente, nos momentos mais difíceis. vii Sumário ÍNDICE DE FIGURAS .................................................................................. xi ÍNDICE DE TABELAS ................................................................................. xix ABREVIATURAS ......................................................................................... xx RESUMO ...................................................................................................... xxi ABSTRACT .................................................................................................. xxiii 1 – INTRODUÇÃO 1.1 – Histórico e aspectos epidemiológicos da doença de Chagas ............ 1 1.2 – A Classe Insecta e a hematofagia ..................................................... 4 1.3 – A ordem Hemiptera ............................................................................. 6 1.3.1 – Rhodnius prolixus e a digestão sanguínea ...................................... 8 1.4 – Heme e mecanismos antioxidantes .................................................... 11 1.5 – Formação de hemozoína .................................................................... 16 1.6 – Mecanismo de formação de hemozoína in vivo .................................. 19 1.7 – As α-glucosidases (α-D-Glicosídeo glicohidrolase; EC 3.2.1.20 ........ 20 1.8 – Membranas perimicrovilares e α-glucosidase .................................... 23 2 – JUSTIFICATIVA DO TRABALHO ......................................................... 29 3 – OBJETIVOS ........................................................................................... 31 3.1 – Objetivos Específicos ....................................................................... 31 4 – MATERIAIS E MÉTODOS 4.1 – Colônia de insetos ............................................................................... 32 4.2 – Alimentação dos insetos ..................................................................... 32 4.3 – Obtenção de hemolinfa de Rhodnius prolixus .................................... 33 4.4 – Obtenção do epitélio intestinal dos insetos ......................................... 33 4.5 – Síntese de hemozoína in vitro ............................................................. 33 viii Sumário 4.5.1 – Extração de hemozoína ................................................................... 34 4.5.2 – Dosagens de heme .......................................................................... 34 4.6 – Extração de proteínas de epitélio intestinal ........................................ 34 4.7 – Dosagem de proteína .......................................................................... 35 4.8 – Ensaio de atividade da α-glucosidase ................................................. 35 4.9 – Cromatografia de troca iônica ............................................................. 36 4.10 – Eletroforese em gel de poliacrilamida ............................................... 36 4.11 – Ensaio de atividade de α-glucosidase in gel ................................... 37 4.12 – Análises por espectroscopia de FTIR ............................................... 37 4.13 – Ensaio de ligação a hemina-agarose ................................................ 37 4.14 – Silenciamento gênico 4.14.1 – Construção da dupla fita de RNA (dsRNA) .................................... 38 4.14.2 – Silenciamento da α-glucosidase por dsRNA .................................. 38 4.15 – Análise molecular 4.15.1 – Extração de RNA e RT-PCR .......................................................... 39 4.15.2 – Reação em cadeia da polimerase (PCR) semi-quantitativo .......... 39 4.15.3 – Expressão relativa do gene determinada por qPCR ...................... 40 4.15.4 – Purificação do fragmento amplificado ............................................ 41 4.15.5 – Quantificação do cDNA .................................................................. 41 4.15.6 – Clonagem do fragmento amplificado no vetor pTZ57R/T .............. 41 4.15.7 – Produção de células competentes de E. coli, linhagem DH 5α via cloreto de rubídio .......................................................................................... 42 4.15.8 – Transformação de células competentes de E. coli com o vetor ligado ao fragmento amplificado .................................................................. 43 4.15.9 – Identificação dos clones positivos, extração e digestão dos vetores .......................................................................................................... 44 4.15.10 – Sequenciamento dos fragmentos ................................................ 45 4.15.11 – Análise das sequências de nucleotídeos ..................................... 46 4.16 – Análise estatística ............................................................................. 46 5 – RESULTADOS 5.1 – Efeito da fração protéica do epitélio intestinal de R. prolixus e de lipídeos na formação de hemozoína ............................................................ 47 ix Sumário 5.2 – Capacidade de ligação de heme da α-glucosidase ............................. 48 5.3 – Efeito da cloroquina (CLQ) na atividade da α-glucosidase ................. 50 5.4 – Efeito dos inibidores da α-glucosidase na formação de hemozoína ... 51 5.5 – Efeito da maltose na formação de hemozoína .................................... 54 5.6 – Silenciamento da α-glucosidase na síntese de hemozoína ................ 55 5.7 – Impacto da ingestão de heme sobre a atividade de α-glucosidase .... 60 5.8 – Controle da expressão do gene da α-glucosidase pelo heme ............ 61 5.9 – Purificação e sequenciamento do fragmento gênico de αglucosidase .................................................................................................. 62 5.10 – Formação de Hz por α-glucosidases de espécies não-hematófagas 67 6 – DISCUSSÃO .......................................................................................... 69 7 – CONCLUSÕES ...................................................................................... 77 8 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ..................................................... 78 9 – ANEXO – ARTIGO PUBLICADO .......................................................... 99 x Índice de figuras Figura 1 – Doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi (a), sendo transmitida por insetos da família Reduviidae, sub-família Triatominae (b). Estes insetos, muitas vezes designados triatomíneos ou barbeiros, são comum em lares pobres nas Américas do Sul e Central (c). A doença afeta cerca de 12 milhões de pessoas, com um adicional de 90 milhões consideradas em áreas de risco. Em (d) cinza – regiões em que há existência da doença de Chagas como zoonoses (aves e mamíferos selvagens) e em vermelho são regiões em que ocorre transmissão ativa em humanos (Monteiro et al., 2001) ....................................................................... 3 FIGURA 2 – Ciclo de vida de R. prolixus, mostrando os estágios do ovo ao indivíduo adulto, passando pelos cinco estágios de ninfa. Adaptado de Buxton (1930) .................................................................................................... 9 FIGURA 3 – Desenho esquemático do trato digestório de R. prolixus, segundo Billingsley & Downe (1983). 1 - Glândula salivar; 2 - Intestino médio anterior; 3 - Intestino médio posterior; 4 - Porção anterior do intestino médio posterior; 5 - Porção posterior do intestino médio posterior; 6 - Túbulos de Malpighi; 7 - Reto (ampola retal) .................................................................. 10 Figura 4 – Adaptações contra a toxicidade do heme. As maiores defesas dos insetos hematófagos contra a toxicidade do heme estão concentradas no intestino médio. O controle de tal toxicidade é realizado pela combinação da formação de cristais de heme, degradação de heme, enzimas antioxidantes e moléculas de baixo peso molecular. A hemolinfa com antioxidantes de baixo peso molecular e proteínas de ligação de heme que previnem a geração de radicais livres contituem a segunda linha de defesa, resultando em um baixo nível de estresse oxidativo nos outros tecidos. Hb— hemoglobina; ROS – espécies reativas de oxigênio; O2- - anion superóxido; H2O2 – peróxido de hidrogênio; SOD – superóxido dismutase; TrxR – tioredoxina redutase; TrxPx – tioredoxina peroxidase; Trx red – tioredoxina reduzida; Trx ox – tioredoxina oxidada; GSH – glutationa reduzida; GSSG – glutationa oxidada; BPM – baixo peso molecular. Adaptado de Graça-Souza et al. (2006) ....................................................................................................... 15 xi Índice de figuras FIGURA 5 – Estrutura molecular do grupo heme ou ferro-protoporfirina IX (Fe(III)PPIX) (Egan, 2008a). Heme é um macrociclo, formado por 4 anéis pirrólicos unidos por pontes metênicas. O átomo de ferro no heme liga-se a 4 nitrogênios no centro do macrociclo ................................................................. 16 FIGURA 6 – Estrutura da hemozoína segundo Egan (2008a). Notar as ligação entre o ferro de uma molécula de heme com o radical carboxilato da molécula de heme adjacente. Diferentes cadeias são mantidas juntas por ligações de hidrogênio ...................................................................................... 18 FIGURA 7 – Esquema mostrando a estrutura em cristal da αglucosidase de Geobacillus (GSJ) – bactéria termófila. Os domínios Nterminal e C-terminal são mostrados em azul e laranja, respectivamente. O magenta representa regiões de loops (*A, resíduos 215–218; *B, 293–294; e *C, 388–400). Os resíduos catalíticos, Asp199, Glu256 e Asp326, são mostrados no interior do modelo (Pettersen et al., 2004) ................................. 23 FIGURA 8 – Modelo da origem das membranas associadas com o sistema lamelar apical (Cristofoletti et al., 2003). Cisternas do Golgi (a) que começam a se dirigir ao RER (b). Esses, após perder os ribossomos, formam vesículas envolvendo as membranas (c) que eventualmente fusionam com a base da lamela apical esvaziando o conteúdo da membrana para o espaço interlamelar (d). As membranas se movem ao longo do espaço interlamelar (e) e, finalmente começam a se associar com a superfície luminal da lamela, projetando-se para o interior do lúmen (f) ......................................................... 26 Figura 9 – Mapa do sítio de policlonagem do vetor pTZ57R/T (Fermentas Life Sciences), mostrando os sítios de enzimas de restrição. São mostradas as enzimas de restrição utilizadas para a digestão (caixa vermelha) ............... 42 FIGURA 10 – Participação de proteínas e lipídios polares na formação de cristais de heme. Ctl – controle somente hemina; Ptn – proteína extraída de epitélio intestinal de R. prolixus; PC – micela de xii Índice de figuras fosfatidilcolina; Ptn + PC - proteína extraída e adição posterior de micela de fosfatidilcolina; PC + Ptn – micela de fosfatidilcolina e adição posterior de proteína extraída; PE – micela de fosfatidiletanolamina; Ptn + PE - proteína extraída e adição posterior de micela fosfatidiletanolamina; PE + Ptn – micela de fosfatidiletanolamina de e adição posterior de proteína extraída ........................................................... 48 Figura 11 – Cromatografia de troca iônica em coluna DEAE (toyopearl) do extrato protéico do epitélio intestinal de R. prolixus. A coluna foi equilibrada com o tampão HEPES 20 mM, pH 7,4 e, em seguida, a eluição foi realizada em um gradiente de três passos com NaCl (0-0,5 M, 0,5-1 M e 1 M, respectivamente). O fluxo foi de 0,5 mL/minuto e foram coletadas 50 frações de 1 mL/tubo ........................................................................................ 49 FIGURA 12 – (A) Ensaio de identificação de proteínas de ligação de heme no epitélio intestinal de R. prolixus; (B) Atividade de αglucosidase in gel. 1) proteína extraída de epitélio intestinal de R. prolixus alimentados com plasma de coelho + hemina-agarose; 2) proteína extraída de epitélio intestinal de R. prolixus alimentados com plasma de coelho + hemina-agarose + hemina; 3) proteína extraída de epitélio intestinal de R. prolixus alimentados com plasma de coelho. 4) proteína extraída de epitélio intestinal de fêmeas de R. prolixus alimentadas com sangue de coelho. Ambos os géis são 12% em condições desnaturantes e não-redutoras (SDSPAGE). Em B o substrato utilizado foi o metilumbeliferil α-D-glucopiranosídeo 49 FIGURA 13 – (A) Atividade de α-glucosidase e (B) síntese de hemozoína in vitro: ▲ – controle; ■ – presença de CLQ; ● – amostra fervida. O ensaio de atividade de α-glucosidase foi determinado usando método colorimétrico. A atividade foi expressa como nmol de ρ-nitrofenolato liberado em 1 min. O ensaio de formação de hemozoína foi realizado por 24 h a 28 oC, como descrito em materiais e métodos. Atividade de formação de hemozoína foi expressa como nmol de cristal de heme, após 24 h, por 15 µg de proteína. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata ............................................................................................................. 51 xiii Índice de figuras FIGURA 14 – Atividades de α-glucosidase na presença ou ausência de inibidores in vitro. EP – extrato protéico de epitélio intestinal; EP + Eri extrato protéico + eritritol; EP + DEPC - extrato protéico + dietilpirocarbonato; EP + Cs - extrato protéico + castanoespermina; EP + AB - extrato protéico + anticorpo anti α-glucosidase de D. peruvianus. O ensaio de atividade de αglucosidase foi determinado usando método colorimétrico. A atividade foi expressa como nmol de ρ-nitrofenolato liberado em 1 min. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. Os experimentos com inibidores foram significativamente diferentes do extrato protéico sozinho *(P < 0,05) .............................................................................. 52 FIGURA 15 – Efeito dos inibidores da α-glucosidase na formação de hemozoína in vitro. Ctl - hemina; EP – extrato protéico de epitélio intestinal; EP + Eri - extrato protéico + eritritol; EP + DEPC - extrato protéico + dietilpirocarbonato; EP + Cs - extrato protéico + castanoespermina; EP + AB - extrato protéico + anticorpo anti α-glucosidase de D. peruvianus. Os ensaios de formação de hemozoína foram realizados a 28 oC como descrito em materiais e métodos. A atividade de formação de hemozoína foi expressa como nmol de cristal de heme, produzidos após 24 h, por 15 µg de proteína. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. Os experimentos com inibidores foram significativamente diferentes do extrato protéico sozinho *(P < 0,05) ............................................................. 53 FIGURA 16 – Efeito da adição tardia dos inibidores de α-glucosidase na formação de Hz in vitro. Ctl - hemina; Ctl + AB - hemina + anticorpo; EP – extrato protéico de epitélio intestinal; EP + AB - extrato protéico + anticorpo 10h anti α-glucosidase de D. peruvianus; EP → AB – extrato protéico + anticorpo 10 h após iniciar o ensaio; Ctl + DEPC - hemina + dietilpirocarbonato; Ctl + Cs - hemina + castanoespermina; EP + DEPC - extrato protéico + 10h dietilpirocarbonato; EP → DEPC – extrato protéico + dietilpirocarbonato 10 h após iniciar o ensaio; EP 100 0C – extrato protéico fervido por 10 min antes de iniciar o ensaio; EP → 100 0C – extrato protéico fervido 10 h após iniciar o 10h ensaio. Os ensaios de formação de Hz foram realizados por 24 h a 28 oC como descrito em materiais e métodos. Atividade de formação de Hz foi xiv Índice de figuras expressa como nmol de cristal de heme, após 24 h, por 15 µg de proteína. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. Os experimentos com inibidores foram significativamente diferentes do extrato protéico sozinho *(P < 0,05) ............................................................. 54 FIGURA 17 – Atividade de formação de hemozoína na presença ou ausência de maltose in vitro. Ctl - hemina; Mal - Maltose; FC – fração 27; 4h FC + Mal → H - fração cromatografia + maltose e hemina adicionada 4 h 4h após o início do ensaio; FC + H → Mal - fração cromatografia + hemina e maltose adicionada 4h após o início do ensaio. Os ensaios de biomineralização forma realizados por 24 h a 28 oC, como descrito em materiais e métodos. Atividade de formação de hemozoína foi expressa como nmol de cristal de heme, após 24 h, por 8 µg de proteína. Os resultados são representativos de um experimento realizado em triplicata. O experimento em que a maltose foi adicionada antes foi significativamente diferente quando comparado com a proteína sozinha ou com a hemina adicionada primeiro *(P < 0,05) ........................................................................ 55 FIGURA 18 – Expressão relativa do gene da α-glucosidase por qPCR no intestino médio de R. prolixus por injeção de: (A) dsαglu ou (B) dsLacZ in vivo. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 (controle), dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea) ou dsLacZ (2 ou 10 µg/fêmea) e analisado 2 (2d) ou 4 (4d) dias após a alimentação com sangue. Foram realizados 4 experimentos independentes. Cada experimento consiste em um pool de 6 fêmeas adultas. Os insetos injetados com 10 µg de dsRNA 4 dias após alimentação foram significativamente diferentes dos insetos controle *(P<0,05) ........................................................................................................... 58 FIGURA 19 – A) Hemolinfa R. prolixus alimentados com sangue de coelho, na ausência de dsαGlu. B) Aspecto da Hemolinfa de R. prolixus, 4 dias após a injeção de 10 µg de dsαGlu .................................................... 59 FIGURA 20 – Atividade de α-glucosidase in vivo no intestino médio de R. prolixus injetados com: (A) dsαglu ou (B) dsLacZ. Os insetos foram xv Índice de figuras injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 (controle), dsLacZ (2 ou 10 µg/fêmea) ou dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea) e analisado 2 ou 4 dias após a alimentação com sangue. Foram realizados 4 experimentos independentes. Cada experimento consiste em um pool de 6 fêmeas adultas. Os insetos injetados com 10 µg de dsRNA 4 dias após alimentação foram significativamente diferentes dos insetos controle *(P<0,05) ........................... 59 FIGURA 21 – Hemozoína produzida por R. prolixus injetados com: (A) dsαglu ou (B) dsLacZ. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 (controle), dsLacZ (2 ou 10 µg/fêmea) ou dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea) e analisado 2 ou 4 dias após a alimentação com sangue. Foram realizados 4 experimentos independentes. Cada experimento consiste em um pool de 6 fêmeas adultas. Os insetos injetados com 10 µg de dsRNA 4 dias após alimentação foram significativamente diferentes dos insetos controle *(P<0,05) ............................................................................................. 60 FIGURA 22 – Influência do heme da alimentação na atividade de αglucosidase em intestino médio de R. prolixus. P – insetos controle alimentados com plasma; P + H – insetos alimentados com plasma enriquecido com hemina (500 µM). Insetos foram alimentados com plasma de coelho na ausência ou presença de hemina. Quatro dias após alimentação, epitélios intestinais (n = 20) foram dissecados em salina gelada (NaCl 100 mM). A atividade de α-glucosidase foi determinada pela medida da liberação de ρ-nitrofenolato α-D-glucopiranosídio. Resultados mostrados são representativos de três experimentos independentes realizados em triplicata. Plasma mais hemina é significativamente diferente de plasma *(P<0,05) ........................................................................................................... 61 FIGURA 23 – Influência do heme da alimentação na expressão da αglucosidase em intestino médio de R. prolixus. P – cDNA plasma; P + H – cDNA plasma + hemina (500 µM). Insetos foram alimentados com plasma de coelho na ausência ou presença de hemina. Quatro dias após alimentação, epitélios intestinais (n = 20) foram dissecados em PBS 100 mM. Foi realizado extração de RNA total usando Trizol e posterior síntese de xvi Índice de figuras cDNA. Resultados mostrados são representativos de dois experimentos independentes realizados em triplicata. Plasma mais hemina é significativamente diferente de plasma *(P<0,05) ............................................. 62 FIGURA 24 – Fragmentos purificados utilizando GFXTM PCR “DNA e Gel Band Purification Kit” e observados em gel de agarose 1%. M) Marcador de 1 kb; 1) Fragmento de 750 kb; 2) Fragmento de 250 kb; 3) 1 μL ks 50 ng; 4) 2 μL ks 50 ng ................................................................................. 63 FIGURA 25 – Sequência parcial de nucleotídeos do cDNA de αglucosidase de R. prolixus e sua sequência deduzida de aminoácidos. A sequência de nucleotídeos utilizada para o desenho de primers específicos para qPCR estão sublinhadas .......................................................................... 64 FIGURA 26 – Alinhamento da sequência de aminoácidos das α-glucosidases de R. prolixus (AgluRp), Culex quinquefasciatus (AGluCulex, AGluCulex2, AGluCulex3), α-amylase de Aedes aegypti (AmAeds), maltase-símile Agm2 de Anopheles gambiae (MaltaseAgm2), maltase 2 de Drosophila virilis (Maltase2Dv), α-glucosidase de Gsj (AgluGsj), Oligo-1,6-Glucosidase de Bacillus cereus (GluOligo) e α-glucosidase de Saccharomyces cerevisiae (AgluSc). Resíduos idênticos são indicados por ‘‘*’’; resíduos conservados e semi-conservados são indicados por ‘‘:’’ e ‘‘.’’, respectivamente. Resíduos de ácido aspártico e histidina presentes em AGluRp e também presentes em AGluSc são marcados em cinza. A predição da estrutura secundária usando JPred server é representada em vermelho (α-hélices), verde (folhas β) e azul (alças) ............................................................................................................... 66 FIGURA 27 – Árvore filogenética baseada no alinhamento das sequências protéicas de α-glucosidases usando ClustalW: Rhodnius prolixus, Aedes aegypti, Culex quinquefasciatus, Anopheles gambiae, Drosophila melanogaster, Tribolium castaneum, Thermus thermophilus, Nocardia farcinica, Homo sapiens, Rattus norvegicus, Mus musculus, Xenopus laevis, Danio rerio, Ixodes scapularis, Bos Taurus e Acyrthosiphon pisum. A numeração representa as distâncias entre as espécies .................... 67 xvii Índice de figuras FIGURA 28 – Atividade de síntese de hemozoína usando extrato protéico de epitélio intestinal de Dysdercus peruvianus (A e B) e Quesada gigas (C e D). Os epitélios intestinais foram coletados e submetidos a extração de proteínas. O ensaio de síntese de hemozoína foi realizado usando 12 μg de proteína do sobrenadante (S) ou do precipitado (P). A e C Æ ensaio de formação de cristais de heme; B e D Æ Espectro de FTIR do cristal produzido in vitro ...................................................................... 68 xviii Índice de tabelas TABELA 1 – Iniciadores utilizados nos experimentos de RT-PCR e qPCR ..... 40 TABELA 2 – Efeito fisiológico do silenciamento da α-glucosidase mediado por dsαGlu em Rhodnius prolixus. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 ou dsLacZ (controle) e dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea); mortalidade e ovoposição foram monitorados 4 dias após alimentação ....................................................................................................... 58 TABELA 3 – Análise comparativa dos genes de α-glucosidases de diferentes espécies usando Blastx .................................................................... 65 xviii Abreviaturas α-GLU..................................................... α-glucosidase BCA ........................................................ ácido bicinconínico CLQ ........................................................ cloroquina DEPC ...................................................... dietilpirocarbonato dsLacZ ................................................... dupla fita de RNA de βgalactosidase dsRNA .................................................... dupla fita de RNA dsαGlu ................................................... dupla fita de RNA de α-glucosidase Fe(III)PPIX .............................................. ferro protoporfirina IX FP ........................................................... ferroprotoporfirina FTIR ....................................................... espectrometria de infravermelho com transformada de Fourier HO .......................................................... heme oxigenase HRP II ..................................................... proteína rica em histidina II Hz ............................................,.............. hemozoína Kb ........................................................... quilo bases MPMV ..................................................... membrana perimicrovilar NEM ........................................................ N-etilalemida NP ........................................................... Nonidep PAGE ..................................................... eletroforese em gel de poliacrilamida PBS ........................................................ tampão fosfato de sódio PCR ....................................................... reação em cadeia da polimerase PMSF .................................................... fenilmetilsulfonil fluoreto qPCR ...................................................... PCR quantitativo RNAi ....................................................... RNA de interferência ROS ....................................................... espécies reativas de oxigênio RT .......................................................... transcrição reversa SDS ........................................................ dodecil sulfato de sódio WHO ....................................................... Organização Mundial da Saúde xix Resumo RESUMO Insetos hematófagos se alimentam do sangue de um vertebrado, digerem a hemoglobina e liberam heme no lúmen intestinal. Em Rhodnius prolixus, este heme é detoxificado por biomineralização, formando hemozoína (Hz). Resultados anteriores mostraram que uma fração protéica das membranas perimicrovilares (MPMV) presentes no lúmen intestinal é responsável pela formação de Hz neste inseto. O objetivo do presente trabalho é demonstrar que uma α-glucosidase, enzima marcadora das MPMV, é responsável pela síntese de Hz em R. prolixus. Para isso, foram utilizados inibidores clássicos da αglucosidase em ensaios de formação de Hz. Todos os inibidores testados inibiram a formação de Hz de forma similar à sua ação sobre a atividade primária da enzima. A atividade de formação de Hz foi sensível a DEPC, sugerindo uma função crítica dos resíduos de histidina neste processo. Adicionalmente, um anticorpo policlonal anti-α-glucosidase de um inseto fitófago, Dysdercus peruvianus, foi capaz de inibir a formação de Hz. Nenhum dos inibidores apresentou efeito quando adicionado 10h após o início da reação, sugerindo que a α-glucosidase deva agir em etapas iniciais do processo. A formação de Hz parece ser dependente do sítio de ligação do substrato à enzima, visto que maltose, substrato específico da enzima, bloqueou a atividade de formação de Hz. A associação entre a enzima e a formação de Hz foi confirmada, quando dsRNA, construído usando a sequência do gene da α-glucosidase, foi injetado na hemocele de fêmeas de R. prolixus. O silenciamento do gene causou a redução das atividades de formação de Hz e α-glucosidásica. Em contrapartida, o heme foi capaz de modular a expressão da enzima e atuar como regulador da atividade enzimática, já que insetos alimentados com hemina apresentaram níveis de expressão gênica e atividade maiores que insetos alimentados sem hemina. A sequência deduzida de aminoácidos da α-glucosidase de R. prolixus mostrou maior similaridade com α-glucosidases de insetos, com resíduos críticos de histidina e ácido aspártico conservados entre as enzimas. Tomados em conjunto, os resultados sugerem fortemente que a α-glucosidase das MPMV é responsável pelo processo de nucleação de heme no intestino médio de R. prolixus. Este importante passo adaptativo pode ter sido essencial para o surgimento da hematofagia entre os insetos hemimetábolos. xx Resumo Palavras-chaves: Rhodnius prolixus, hemozoína, cristais de heme, hematofagia, α-glucosidase xxi Abstract ABSTRACT Hematophagous insects digest large amounts of host hemoglobin and release heme inside their guts. In Rhodnius prolixus, hemoglobin-derived heme is detoxified by biomineralization, forming hemozoin (Hz). Recently, the involvement of the R. prolixus perimicrovillar membranes (PMVM) in Hz formation was demonstrated. Herein, the role of PMVM α-glucosidase in the Hz formation was investigated. Hz formation was inhibited by specfic α-glucosidase inhibitors. Moreover, heme aggregation into Hz was sensitive to inhibition by DEPC, suggesting a critical role of histidine residues in enzyme activity. Additionally, a polyclonal antibody raised against a phytophagous insect αglucosidase was able to inhibit Hz formation. The α-glucosidase inhibitors have had no effects when used 10h after the start of reaction, suggesting that αglucosidase should act in the nucleation step of Hz formation. Hz formation was seen to be dependent on the active site of the enzyme, in a way that maltose, an enzyme substrate, blocks such activity. The gene silencing by RNAi, through the injection of dsRNA, based on the sequence of α-glucosidase gene, confirmed the hypothesis and reduced both α-glucosidase and Hz formation activities. Addicionally, modulation of the enzyme expression by heme was demonstrated. Insects were fed on plasma or hemin-enriched plasma and gene expression and activity of α-glucosidase were higher in the plasma plus heminfed insects. The deduced amino acid sequence of α-glucosidase shows a high similarity to the insect α-glucosidases, with critical histidine and aspartic residues conserved among the enzymes. Usually, these enzymes catalyze the hydrolysis of glycosidic bond. The results strongly suggest that an αglucosidase is responsible for Hz nucleation in the R. prolixus midgut, indicating that the plasticity of this enzyme may play an important role in conferring fitness to hemipteran hematophagy, for instance. Keywords: Rhodnius prolixus, hemozoin, heme aggregation, hematophagy, αglucosidase xxii Introdução 1 – INTRODUÇÃO 1.1 – Histórico e aspectos epidemiológicos da doença de Chagas Desde a descoberta da tripanossomíase americana em 1909 por Carlos Chagas, uma doença que posteriormente recebeu o seu nome, o conhecimento sobre a epidemiologia da doença e seu controle tem evoluído em três fases bem definidas: a fase de descoberta, a fase de divulgação do conhecimento e a fase de aplicação deste conhecimento para o controle e vigilância de infecção humana. A fase de descoberta corresponde a estudos pioneiros de Chagas do Trypanosoma cruzi em Panstrongylus conorhinus (Panstrongylus megistus) e em animais de laboratório experimentalmente infectados e sua descrição dos primeiros casos agudos da doença (Chagas 1909, 1911). Carlos Chagas publicou suas descobertas em discursos no Brasil e no exterior, e em vários jornais publicados em português, espanhol, inglês, francês e alemão. Em 1912, Chagas descobriu que o tatu (Dasypus novencinctus) é um reservatório silvestre de T. cruzi. Concomitantemente, no mesmo hábitat, ele encontrou Triatoma megistus infectados com o parasita, definindo assim o ciclo silvestre da doença de Chagas. Chagas (1924) complementou este achado com a descrição de T. cruzi entre macacos naturalmente infectados no Estado do Pará. Em 1930 começou a expansão da doença para outros países. Nussenzweig et al. (1962, 1963) encontraram diferenças antigênicas em cepas de T. cruzi isoladas de humanos, morcegos, triatomíneos, e roedores silvestres, classificadas em pelo menos três tipos imunológicos. Durante este mesmo período, a análise das sete amostras de T. cruzi de diferentes origens permitiram Brener & Chiari (1963) agrupá-los em três padrões morfológicos, previamente descritos por Chagas (1909) como dimorfismo sexual. No entanto, Deane et al. (1963) não encontraram diferenças patogênicas e morfológicas entre as cepas de T. cruzi de animais silvestres. Posteriormente, Brener (1965) correlacionou algumas dessas variações morfológicas com as fases da infecção. Mais de 130 espécies foram consideradas potenciais vetores de T. cruzi. No Brasil, 52 espécies de triatomíneos foram descritas, mas cinco têm especial importância epidemiológica, pois possuem hábitos domésticos: T. infestans, P. 1 Introdução megistus, T. brasiliensis, T. pseudomaculata e T. sordida. As outras 47 espécies são selvagens e mantêm um ciclo natural apenas com mamíferos silvestres. T. infestans, espécie estritamente doméstica, foi eliminada no Brasil, Chile e Uruguai, e sua erradicação ou controle em outros países da América do Sul está em andamento (Lent & Wigodzinsky 1979, Forattini 1980, Dias & Coura 1997, WHO 2002, Dias & Macedo 2005, Coura & Dias 2009). Mais de 100 reservatórios silvestres de T. cruzi têm sido descritos entre marsupiais, morcegos, roedores e primatas não-humanos. Entre os reservatórios domésticos, é importante destacar cães, gatos, ratos e cobaias, nos países onde eles são criados em casas. Outros animais, como suínos e caprinos, foram encontrados infectados (Barretto 1964, Deane 1964, Dias & Macedo 2005; Coura & Dias 2009). A distribuição geográfica da infecção chagásica, incluindo os seus reservatórios e seus vetores, se estende desde o sul dos Estados Unidos para o sul da Argentina e Chile. Assim, abrange todas as Américas, e 90 milhões de pessoas nesta região estão expostas à infecção. Atualmente, estima-se que 15 milhões de pessoas estão infectadas por T. cruzi ou são capazes de transmitir a doença. A Figura 1 mostra a distribuição da infecção chagásica nas Américas, destacando as espécies endêmicas e zonas antropozoonóticas do Brasil (Monteiro et al., 2001). 2 Introdução Figura 1 – Doença de Chagas é causada pelo protozoário Trypanosoma cruzi (a), sendo transmitida por insetos da família Reduviidae, sub-família Triatominae (b). Estes insetos, muitas vezes designados triatomíneos ou barbeiros, são comum em lares pobres nas Américas do Sul e Central (c). A doença afeta cerca de 12 milhões de pessoas, com um adicional de 90 milhões consideradas em áreas de risco. Em (d) cinza – regiões em que há existência da doença de Chagas como zoonoses (aves e mamíferos selvagens) e em vermelho são regiões em que ocorre transmissão ativa em humanos (Monteiro et al., 2001). Espécies que são exclusivamente domésticas, como o T. infestans e R. prolixus, tendem a se tornarem eliminadas das suas áreas de dispersão, devido a um esforço contínuo dos órgãos responsáveis ou da população, em especial nas regiões em que tinham sido introduzidas. Espécies que estão presentes na natureza e que são capazes de se tornarem domésticas (T. brasiliensis, T. pseudomaculata, T. sordida, T. dimidiata e P. megistus) tendem a persistir. Como esporadicamente invadem habitações humanas exigem uma vigilância contínua. Consequentemente, será de enorme importância ter uma configuração técnica e político-administrativa que permita um sistema de vigilância epidemiológica permanente e sustentável, com uma organização descentralizada, constante supervisão e ampla participação da comunidade (Dias 1991, Dias & Schofield 2004). O controle por meio de inseticidas e as iniciativas de fiscalização relacionadas com a doença de Chagas no Cone Sul em 1991, nos países andinos em 1997, no México em 1998 e nos países amazônicos em 2004, criaram novas expectativas entre a comunidade latino-americana e em países não endêmicos a respeito da possibilidade de controle da doença de Chagas em todo o mundo nos próximos 20 anos. Dez anos de ações coordenadas de 3 Introdução controle tiveram um impacto fundamental na incidência da doença de Chagas, no âmbito do Cone Sul, que se refletiu numa redução de 94% (WHO, 2002). O reconhecimento veio algum tempo depois, em 2006, com a entrega de documento ao Ministro da Saúde certificando que o Brasil estava livre da transmissão vetorial por T. infestans, principal espécie vetora (o mesmo tendo acontecido com Chile e Uruguai) (Schofield et al., 2006). Apesar de eliminado no Brasil, excetuando-se alguns focos residuais no Rio Grande do Sul e no Nordeste, nos últimos anos começou a haver uma substituição do T. infestans por outras espécies antes consideradas de importância epidemiológica secundária (Vinhaes & Dias, 2000). O problema é que a maioria dessas espécies secundárias é nativa e, diferentemente de T. infestans, possui ecótopos silvestres extensos, o que faz com que a reinfestação de domicílios tratados, por insetos vindo do ambiente silvestre, seja frequente. Situações dessa natureza são mais complexas e seu controle irá requerer vigilância continuada das próprias comunidades e re-tratamento de qualquer novo foco doméstico que venha a ser detectado (Ramsey & Schofield, 2003). 1.2 – A classe Insecta e a hematofagia A classe Insecta possui uma enorme diversidade, como resultado não só de uma colonização bem sucedida, mas também devido a sua fácil adaptação aos diferentes ecossistemas. Distribui-se por todo o mundo, das regiões polares aos trópicos, e engloba espécies que vivem em terra firme, águas doces, salgadas e termais. Além disso, este sucesso adaptativo dos insetos é devido a outros fatores, dentre eles a capacidade reprodutiva e a capacidade de vôo (Hoy, 1994). O êxito dos insetos, que têm sobrevivido há aproximadamente 300 milhões de anos, se deve também a fatores como a presença de um exoesqueleto, tamanho reduzido, metamorfose e tipo especializado de reprodução. As asas permitiram aos insetos se dispersarem pela Terra, além de vantagens na fuga, reprodução e na procura de alimentos. O exoesqueleto protege contra choques e esmagamento além de conferir resistência à penetração de microorganismos patogênicos, gases tóxicos e água através de seu corpo, além de evitar a desidratação (Ruppert, 2005). 4 Introdução Os insetos são a forma de vida animal mais abundante do planeta, com cerca de um milhão de espécies organizadas em, aproximadamente, 800 famílias e distribuídas em 32 ordens (Hoy, 1994). Estima-se que existam 14000 espécies de insetos dentro de 5 ordens que são hematófagas. No entanto, poucas, entre 300 a 400 espécies, apresentam grande importância para o homem, seja na transmissão de patógenos de relevância médica ou veterinária, seja pela perda sanguínea que acarreta baixa produtividade na pecuária (Lehane, 2005). A hematofagia surgiu várias vezes ao longo da evolução dos artrópodes (Ribeiro, 1995). Embora não se conheça o momento exato em que os primeiros insetos hematófagos surgiram, há uma tendência em ajustar a origem da maioria dos grupos no período Cretáceo (Mans & Neitz, 2004). A partir dessa hipótese tornou-se possível inferir que o aparecimento da hematofagia ocorreu paralelamente ao início da divisão de mamíferos e aves, acompanhados pela diversificação e expansão dos animais terrestres. Antecedentes de hematófagos modernos apresentam frequentemente várias características que são pré-condições para hematofagia. Algumas dessas préadaptações são de natureza ecológica e a proximidade com os vertebrados foi principalmente o que facilitou o desenvolvimento dessas características (Lehane, 2005). Os insetos hematófagos encontram-se agrupados em 4 principais ordens: Diptera, Hemiptera, Phithiraptera e Siphonaptera. A ordem Hemiptera abrange cerca de 60.000 espécies, constituindo-se no grupo dominante de insetos de metamorfose simples. Pertencem a esta ordem os conhecidos barbeiros, percevejos, pulgões, cigarras e outros (Lehane, 1991). Segundo Richards & Davies (1988), a ordem Hemiptera surgiu, provavelmente, no carbonífero, tendo sua maior diversificação no mesozóico, aliada à emergência das plantas com flores. As peças bucais destes insetos são altamente eficientes para a extração de fluidos vegetais, indicando a existência de partes bucais pré-adaptadas ao hábito picador-sugador (Lehane, 1991). A evolução das partes bucais foi de crucial importância para possibilitar o hábito de se alimentar de sangue (Lehane, 2005). Na família Reduviidae encontram-se alguns hemípteros hematófagos que são vetores de T. cruzi, o agente causador da doença de Chagas. Na maior parte destes insetos, a alimentação é caracterizada pela ingestão de 5 Introdução grande quantidade de sangue, feita de uma só vez. Este evento minimiza o número de visitas que um ectoparasito temporário precisa fazer ao hospedeiro, diminuindo, portanto, o risco que estas investidas representam para o inseto (Lehane, 2005). Esta peculiaridade representa, no entanto, desvantagem significativa para o inseto, uma vez que sua mobilidade é diminuída em função do aumento de massa corporal. Outra aparente desvantagem desta forma de alimentação é a grande quantidade de água ingerida, o que requer um sistema eficiente e rápido de remoção de água e concentração de material solúvel. Acredita-se que a capacidade de utilização do sódio para controlar a absorção de água, represente um dos grandes passos evolutivos para a adaptação destes insetos a hematofagia, visto que no sangue este se encontra em abundância e sua absorção se processa ativamente (Barret, 1982). Em insetos fitófagos, como o Dysdercus peruvianus (Hemiptera, sugador de sementes de algodão), por exemplo, o potássio é usado para controlar a obtenção de água, não dependendo da dieta de sódio (Silva et al., 1995). 1.3 – A ordem Hemiptera A ordem Hemiptera inclui os insetos conhecidos como percevejos verdadeiros. A maioria dos hemípteros é hematófaga ou sugadora de seiva de plantas, mas três famílias apresentam várias espécies de pequenos a grandes insetos hematófagos. A primeira destas famílias é a Cimicidae, em que todos os membros são hematófagos. A segunda família de percevejos hematófagos é a Polyctenidae. Todos os membros deste grupo são ectoparasitas permanentes e hematófagos obrigatórios. Finalmente, a terceira família de hemípteros que contém os percevejos hematófagos é a Reduviidae, em que está contida a subfamília Triatominae, na qual todas as 155 espécies são hematófagas obrigatórias (Lehane, 2005). Na família Reduviidae encontram-se várias espécies de vetores do T. cruzi, o agente causador da doença de Chagas. Estes percevejos se alimentam em uma variedade de vertebrados incluindo o homem e, muitos são intimamente associados com os sítios de repouso habitual ou com os ninhos de aves, mamíferos e outros animais (Lehane, 1991). 6 Introdução Os hemípteros são excepcionais no que diz respeito ao uso de enzimas catepsina-símile no seu processo digestivo. Isto é consistente com a hipótese de que os insetos hematófagos tenham surgido a partir de sugadores de seiva vegetal (Houseman & Downe, 1983; Billingsley & Downe, 1989; Terra et al., 1988). Os sugadores de seiva (por exemplo, D. peruvianus), não necessitando de proteases, podem ter perdido suas tripsinas. No entanto, ao se alimentar de uma dieta rica em sangue podem readquirir a atividade proteolítica no lúmen intestinal. Isto é possível pelo uso das catepsinas que estão contidas nos lisossomos de todas as células, redirecionando-as para a digestão extracelular (Lehane, 2005). Algumas destas espécies sugadoras de seiva foram utilizadas no desenvolvimento do trabalho, levando em consideração uma abordagem evolutiva (D. peruvianus e Quesada gigas). D. peruvianus é um hemíptera fitófago parasita de algodão. O intestino médio de D. peruvianus é basicamente dividido em quatro regiões distintas: V1, V2, V3 e V4. As células dessas regiões diferem significativamente quanto a suas formas. As porções V1 e V2 são compostas por células colunares com núcleos basais, envoltas por pouca membrana perimicrovilar, já as porções finais V3 e V4 são formadas por células alongadas cobertas por grande quantidade de membrana perimicrovilar (Silva et al., 1995). A cigarra Q. gigas (Hemiptera: Cicadellidae) tem uma ampla distribuição nas Américas, que vão desde o sul do Texas ao sul da Argentina. Esta espécie tem sido descrita como importante praga das plantações de café na América Central e América do Sul, particularmente no Brasil (Martinelli & Zucchi, 1987). Os cinco estágios ninfais alimentam-se do sistema radicular da planta hospedeira durante um período de 3-4 anos, antes de emergir como adultos. Na sequência de emergência, os adultos alimentam-se das partes aéreas da planta, obtendo nutrientes do xilema. A atividade alimentar das ninfas podem debilitar a planta e em caso de graves infestações, causar a morte da planta (Zanuncio et al., 2004). Outras espécies de cigarras foram mostradas como vetoras de doenças de plantas. Adultos da cigarra Diceroprocta apache, por exemplo, estão envolvidos na transmissão da bactéria Xylella fastidiosa, que causa a doença de Pierce em videiras (Krell et al., 2007). As cigarras dependem de bactérias simbiontes para sintetizar os aminoácidos essenciais necessários para os insetos, e ausentes em suas dietas. 7 Introdução 1.3.1 – Rhodnius prolixus e a digestão sanguínea R. prolixus é um Hemiptera hematófago obrigatório da família Reduviidae. Este inseto possui cinco estádios de ninfa, após os quais se torna adulto, provido de asas e maturidade sexual (Figura 2). Cada muda, assim como cada ciclo reprodutivo, é sincronizado por uma única alimentação, na qual o inseto ingere uma quantidade de sangue equivalente a até nove vezes seu próprio peso (Friend et al., 1965). Tanto a quantidade, quanto a qualidade do sangue ingerido afetam diretamente o desenvolvimento e a produção de ovos de R. prolixus (Friend et al., 1965; Valle et al., 1987). Por volta do terceiro dia após a alimentação, os ovários encontram-se repletos de ovócitos, sendo a postura realizada por volta do sexto dia e a eclosão das ninfas verificada no período de dez a vinte dias. Após a alimentação, o animal segue um período de jejum prolongado, que pode chegar a alguns meses (Buxton, 1930). Nos insetos hemimetábolos, o indivíduo pré-adulto é muito semelhante, morfologicamente, ao indivíduo adulto. Além disso, possuem o mesmo hábito alimentar em todos os estágios de vida, as formas imaturas têm igual potencial para transmitir a doença, o que torna esta espécie um vetor por excelência. Estas características, somadas à grande facilidade de reprodução e ao curto ciclo de vida, os posicionam como modelos ideais para o desenvolvimento de ensaios experimentais. 8 Introdução 5 o ovo s estádio 4 o estádio 3 o estádio 2 o estádio 1 o estádio FIGURA 2 – Ciclo de vida de R. prolixus, mostrando os estágios do ovo ao indivíduo adulto, passando pelos cinco estágios de ninfa. Adaptado de Buxton (1930). O aparelho digestório de R. prolixus é dividido em intestino anterior, intestino médio e intestino posterior. O intestino médio, por sua vez, é dividido em intestino médio anterior e posterior. O intestino médio posterior é ainda subdividido em porção anterior e porção posterior (Billingsley & Downe, 1983) (Figura 3). Após a ingestão, o sangue de hospedeiros vertebrados é estocado no intestino médio anterior, onde tem início uma intensa atividade de lise das hemácias (Billingsley, 1990). A digestão das proteínas sanguíneas se inicia na porção anterior do intestino médio posterior, onde as catepsinas B e D, aminopeptidases, carboxipeptidases, (Houseman & Downe, 1983) e outras enzimas hidrolíticas (Ferreira et al., 1988) são ativas. Uma característica marcante no intestino dos hemípteros é a presença de uma estrutura membranosa, que reveste as células epiteliais no lado luminal, conhecida como membrana perimicrovilar (MPMV). Estas membranas separam o conteúdo luminal das células epiteliais, durante o ciclo digestivo do inseto (Silva et al., 2004). No intestino médio anterior ocorrem outros processos além do armazenamento de sangue e hemólise, como diurese e regulação iônica, digestão de carboidratos e processamento de lipídeos (Bauer, 1981; Billingsley & Downe, 1989). As células do intestino médio anterior contêm numerosos 9 Introdução esferócitos, estruturas multilamelares envolvidas na regulação iônica (Pacheco & Ogura, 1966; Bauer, 1981; Billingsley & Downe, 1989). O transporte de água é dependente desta regulação iônica e, consequentemente, da funcionalidade destas estruturas. Em R. prolixus os esferócitos mantem-se enquanto estrutura individualizada até os vinte dias após a alimentação, quando então são absorvidos pelos lisossomos autofágicos. Os esferócitos têm sido considerados sítios de seqüestro de íons minerais, os quais podem ser mobilizados quando requeridos (Billingsley & Downe, 1989). 1 2 4 3 5 6 7 FIGURA 3 – Desenho esquemático do trato digestório de R. prolixus, segundo Billingsley & Downe (1983). 1 - Glândula salivar; 2 - Intestino médio anterior; 3 - Intestino médio posterior; 4 - Porção anterior do intestino médio posterior; 5 - Porção posterior do intestino médio posterior; 6 - Túbulos de Malpighi; 7 - Reto (ampola retal). A porção posterior do intestino médio posterior tem uma função mais relacionada à absorção. Billingsley (1990) mostrou que esta região apresenta uma maior densidade de mitocôndrias, possui uma área superficial maior e exibe uma separação das membranas do labirinto basal quando mais nutrientes estão disponíveis em etapas mais avançadas da digestão. De maneira geral, o intestino médio de insetos hematófagos mostra poucas variações. Por exemplo, em mosquitos, o sangue também é estocado e 10 Introdução digerido no intestino médio posterior, embora o principal grupo de proteinases seja, neste caso, tripsina-símile, diferente de hemípteras nos quais as proteinases digestivas são, principalmente, do tipo catepsinas (Terra, 1990). Estas diferenças não podem ser atribuídas à dieta, mas a uma adaptação relacionada à origem de diferentes ancestrais. Este fato reforça o dado de que a hematofagia não surgiu em um ancestral comum que deu origem a todas as espécies existentes até o momento, mas, provavelmente, tem origem polifilética, como resultado de um processo de convergência adaptativa. 1.4 – Heme e mecanismos antioxidantes Heme, ou ferro-protoporfirina IX (Fe(III)PPIX), é uma molécula versátil envolvida em muitos processos biológicos essenciais, incluindo transporte de oxigênio, transdução de sinais, respiração, fotossíntese e detoxificação de drogas (Ponka, 1999). No entanto, é bem conhecido que o átomo de ferro da molécula de heme é um potente pró-oxidante, capaz de gerar espécies reativas de oxigênio, como hidroxil e radicais peroxil (Ryter & Tyrrell, 2000). Por esta razão, as células regulam a homeostase do heme. Um componente importante deste controle é a heme oxigenase (HO). Frequentemente descrita como antioxidante, esta enzima é expressa por diversos organismos como bactérias e plantas (Tenhunen et al., 1969; Ortiz de Montellano, 2000). O catabolismo do heme pela heme oxigenase resulta na liberação de monóxido de carbono, biliverdina, e ferro (Figura 4). Esta via de degradação do heme tem sido extensivamente estudada na última década, não só pelo seu papel no processo de detoxificação do heme e reciclagem de ferro (Ryter & Tyrrel 2000), mas também porque os produtos de clivagem do anel porfirínico, biliverdina e CO, possuem importantes papéis fisiológicos (Maines, 1997). Nos mamíferos, CO, um mensageiro gasoso, tem propriedades antiinflamatórias (Otterbein et al., 2000) e anti-apoptóticas (Brouard et al., 2002). Biliverdina e bilirrubina (produto reduzido da biliverdina) podem funcionar como importantes antioxidantes (Stocker et al., 1987; Stocker, 2004). A ação destrutiva dos componentes do sangue para o sistema nervoso central, por exemplo, podem ser relacionadas a dois aspectos: inflamação e estresse oxidativo. O heme tem sido mostrado recentemente como uma molécula imuno-ativa, capaz de promover ativação de 11 Introdução neutrófilos e macrófagos e migração de ambos, in vitro e in vivo (Figueiredo et al., 2007; Porto et al, 2007; Graça-Souza et al., 2002). Organismos que têm, como fonte de nutrientes, proteínas sanguíneas, como a hemoglobina, apresentam mecanismos eficientes de digestão destas moléculas. Hemoglobina compreende 95% das proteínas citosólicas das células vermelhas do sangue (Ball et al., 1948). Em Plasmodium, a hemoglobina ingerida é degradada no interior do vacúolo digestório ácido (Yayon et al., 1984, Ollioro & Goldberg, 1995; Egan 2008a), por plasmepsinas e falcipaínas, produzindo pequenos peptídeos. Esses peptídeos translocam-se, subsequentemente, para o citosol do parasito onde, através de mecanismos ainda não conhecidos, exopeptidases citosólicas completam sua digestão, sendo aminoácidos resultantes assimilados pelo parasito para crescimento e maturação (Goldberg et al., 1992; Coombs et al., 2001). Devido a esta massiva degradação de hemoglobina, uma grande quantidade de heme livre é liberada como um sub-produto tóxico em Plasmodium (Orijih et al., 1993). Heme, o grupamento prostético da hemoglobina, é uma molécula envolvida com processos vitais, como a cadeia transportadora de elétrons (citocromos), a detoxificação de drogas (citocromo P450) e o transporte de oxigênio (hemoglobina e hemocianina) em um grande número de organismos vivos. Ácido úrico é considerado um eficiente mecanismo antioxidante associado à utilização do heme do hospedeiro no Rhodnius (Graça-Souza et al., 1997). O ácido úrico é um quelante de radicais livres, e sua concentração hemolinfática chega a 5 mM. Esta concentração aumenta em decorrência da alimentação ou à injeção de hemina na hemocele. Além disso, As proteínas de ligação de heme na hemolinfa de Rhodnius (RHBP) são capazes de interagir com o heme livre e formar complexos que não acarretam a geração de radicais livres (Atamna & Ginsburg 1995; Ryter & Tyrrel 2000; Dansa-Petretski et al., 1995) (Figura 4). Outros parasitas são candidatos a ter sistemas de degradação da hemoglobina. Entamoeba histolytica, o agente causador da amebíase, ingere eritrócitos, mas a degradação da hemoglobina não foi totalmente caracterizada (Langreth 1976). Quantidades maciças de hemoglobina são degradadas pelo gênero Schistosoma, os agentes causadores da esquistossomose (Dalton et al., 1996). 12 Introdução Em insetos hematófagos, o estudo da degradação de heme tem sido negligenciada, apesar do fato de que esses insetos, sem dúvida, têm que lidar com uma das mais elevadas concentrações de heme em suas dietas. Estes animais enfrentam uma intensa condição de estresse oxidativo devido a degradação da hemoglobina do hospedeiro durante a digestão. Assim, no curso da evolução, esses animais têm desenvolvido uma série de estratégias para neutralizar a citotoxicidade do heme para se adaptar com sucesso à alimentação de sangue (Dansa-Petretski et al., 1995; Oliveira et al., 1999; Oliveira et al., 2002; Graça-Souza et al., 2006). Nestes insetos, a utilização do heme ingerido poderia representar uma grande economia em termos metabólicos, uma vez que minimizaria a utilização da via de biossíntese de heme, também presente na maior parte dos seres vivos. Isto, de fato, parece ocorrer em R. prolixus, tendo sido demonstrado que parte do heme gerado no aparelho digestório é capaz de ser absorvido pelo inseto (Dansa-Petretski et al., 1995). A capacidade de utilização de heme do hospedeiro vertebrado já é conhecida no carrapato bovino Boophilus microplus (Braz et al., 1999). Em Rhodnius, o heme absorvido parece regular, de uma forma ainda pouco entendida, a ovogênese (Braz et al., 2001). Enquanto funções úteis do heme são demonstradas em diversas reações enzimáticas, um número de efeitos deletérios são direta e indiretamente atribuídos ao heme livre. O acúmulo de heme na sua forma monomérica, livre em solução aquosa, poderia promover a lise de células. Por ser um ânion anfifílico, o grupo heme é capaz de alterar a permeabilidade e seletividade da membrana (Schmitt et al., 1993). Além disso, o aparecimento de espécies reativas de oxigênio promovido pela presença de heme (Liu et al., 1985; Gutteridge & Smith, 1988) causa reações deletérias como peroxidação lipídica, “cross-linking” de proteínas e fragmentação de moléculas de DNA (Tappel, 1955; Aft & Muller, 1984; Vicent et al., 1988). A presença de grande quantidade de heme no trato intestinal de insetos hematófagos faz deste um ambiente altamente oxidante. Assim, a absorção e posterior utilização deste heme poderiam ser tóxicas para o inseto. Existem, no entanto, uma série de mecanismos antioxidantes associados à hematofagia já descritos. Um destes mecanismos é a síntese de uma proteína de ligação de heme, denominada RHBP (Oliveira et al., 1995) em R. prolixus. Esta proteína, 13 Introdução que está presente na hemolinfa, liga-se ao heme, inibindo a lipoperoxidação induzida por heme (Dansa-Petretski et al., 1995). Devenport et al. (2006) identificaram uma peritrofina de Ae. aegypti – um componente protéico da matriz peritrófica – como sendo uma proteína de ligação de heme. Hemeproteínas são uma super família de proteínas que catalisa uma variedade de reações bioquímicas em virtude da utilização de porfirinas como grupo prostético (Mense & Zhang 2006). Citocromo-c, isoformas do citocromo P-450, catalase, óxido nítrico sintase e peroxidases são exemplos representativos de hemeproteínas (Horie et al., 1975; Rydberg et al., 2004). Paes et al. (2001) demonstraram que catalase e glutationa cooperam para controlar a concentração de peróxido de hidrogênio nas células do intestino médio de R. prolixus e previnem a geração de radicais hidroxil pela reação de Fenton neste tecido. Paiva-Silva et al. (2006) demonstraram uma nova via de degradação de heme, tanto no epitélio do intestino médio, quanto no tecido pericardial. No mosquito Ae. aegypti a via de degradação de heme foi observada por ser amplamente distinta da demonstrada para o hemíptera hematófago R. prolixus (Pereira et al., 2007). Existem outros mecanismos antioxidantes hemolinfáticos descritos para R. prolixus, como a presença de altas concentrações de ácido úrico na hemolinfa (Souza et al., 1997). A biocristalização de heme (síntese de hemozoína) no intestino médio do inseto (Oliveira et al., 1999) representa outro importante mecanismo da diminuição da disponibilidade de heme livre. O epitélio do trato intestinal é um importante alvo de ação das espécies geradas pela ação catalítica do heme, já que este é o local onde se dá o processo enzimático que leva ao aparecimento do composto. Assim, a síntese de hemozoína representa uma primeira barreira contra os efeitos tóxicos do grupamento heme (Oliveira et al., 2000). No intestino do inseto R. prolixus, foi demonstrado que o heme gerado durante a degradação da hemoglobina pode se associar às membranas perimicrovilares (Oliveira et al., 2000; Silva, 2001; Silva et al., 2007; Stiebler et al., 2010). Em Ae. aegypti, na região da membrana peritrófica, existem pequenos agregados de heme que também parecem representar uma forma de defesa contra o heme (Pascoa et al., 2002). 14 Introdução Derivados biliverdina Proteína de ligação de heme Processamento Figura 4 – Adaptações contra a toxicidade do heme. As maiores defesas dos insetos hematófagos contra a toxicidade do heme estão concentradas no intestino médio. O controle de tal toxicidade é realizado pela combinação da formação de cristais de heme, degradação de heme, enzimas antioxidantes e moléculas de baixo peso molecular. A hemolinfa com antioxidantes de baixo peso molecular e proteínas de ligação de heme que previnem a geração de radicais livres contituem a segunda linha de defesa, resultando em um baixo nível de estresse oxidativo nos outros tecidos. Hb—hemoglobina; ROS – espécies reativas de oxigênio; O2- - anion superóxido; H2O2 – peróxido de hidrogênio; SOD – superóxido dismutase; TrxR – tioredoxina redutase; TrxPx – tioredoxina peroxidase; Trx red – tioredoxina reduzida; Trx ox – tioredoxina oxidada; GSH – glutationa reduzida; GSSG – glutationa oxidada; BPM – baixo peso molecular. Adaptado de Graça-Souza et al. (2006). 15 Introdução 1.5 – Formação de hemozoína Porfirina é o nome dado para uma família de compostos intensamente coloridos, formados por um grande macro-ciclo de vinte átomos de carbono e quatro átomos de nitrogênio. O macro-ciclo é construído a partir de quatro pequenos anéis pirrólicos, cada anel formado por quatro átomos de carbono e um átomo de nitrogênio. Cada um desses anéis é unido ao seu vizinho por uma ponte de átomos de carbono (Milgron, 1997). O grupo heme, ou ferroprotoporfirina IX (Fe(III)PPIX), apresenta um átomo de ferro no centro desta estrutura (Figura 5). O ferro é essencial para muitos processos redox em todos os eucariotos e muitos procariotos (Kaplan & O’Halloran 1996). No entanto, o heme pode ser extremamente tóxico quando na presença de oxigênio, por gerar espécies reativas de oxigênio através das reações de Fenton. Uma série de mecanismos envolvidos na proteção de organismos contra os efeitos deletérios causados pelo heme já foram descritos, e alguns destes mecanismos estão relacionados à manutenção do heme em uma forma menos reativa, por exemplo por associação desta molécula a proteínas. Um mecanismo antioxidante bastante estudado na última década é a biocristalização do heme em uma forma menos reativa, conhecida como hemozoína (Hz) (Figura 6). FIGURA 5 – Estrutura molecular do grupo heme ou ferro-protoporfirina IX (Fe(III)PPIX) (Egan, 2008a). Heme é um macrociclo, formado por 4 anéis pirrólicos unidos por pontes metênicas. O átomo de ferro no heme liga-se a 4 nitrogênios no centro do macrociclo. 16 Introdução A hemozoína, originalmente descrita como o pigmento da malária, é uma molécula química e estruturalmente similar à beta-hematina (Slater et al., 1991). É insolúvel em tampão bicarbonato básico e solventes apróticos como dimetil sulfóxido e piridina (Slater et al., 1991). Em contraste, a hematina é solúvel em ambos os tipos de solventes, por solvatação das cadeias carboxilato ou por coordenação do solvente com o ferro em seu estado férrico (Brown & Lantzke, 1969). O mecanismo de síntese de Hz é pouco conhecido. Existem indícios de que as unidades de heme sejam primeiro dimerizadas através de ligações ferro-carboxilato recíprocas. Esta ligação ferro-carboxilato entre hemes adjacentes permite agregar dois ou mais dímeros para formar hemozoína, embora o número exato de unidades de heme em cada cadeia não possa ser determinado (Slater et al., 1991). Os dímeros são ainda estabilizados através de pontes de hidrogênio entre os grupamentos propionato não dissociados de moléculas de heme de diferentes cadeias (Bohle & Helms, 1993; Bohle et al., 1997). A complexa estrutura da hemozoína é mantida por interações iônicas entre as moléculas de heme e por pontes de hidrogênio entre as cadeias já formadas (Figura 6) (Egan, 2008a). Esta estrutura diferencia-se de outras formas, como o monômero de heme, apresentando distinta solubilidade, e distintos perfis em difração de raio-X e espectrometria de infravermelho (FTIR) (Pagola et al., 2000). Para a formação de Hz a partir de monômeros de heme, 50% dos grupamentos de ácido propiônico do heme devem estar desprotonados, o que ocorre em valores de pH iguais ao pKa dos propionatos, entre 4,8 – 5,0. Estes valores coincidem com a faixa de pH do vacúolo digestório de Plasmodium (Ridley et al., 1995), local em que esta estrutura foi descrita pela primeira vez, e do intestino médio de R. prolixus (Oliveira et al., 1999). 17 Introdução FIGURA 6 – Estrutura da hemozoína segundo Egan (2008a). Notar as ligação entre o ferro de uma molécula de heme com o radical carboxilato da molécula de heme adjacente. Diferentes cadeias são mantidas juntas por ligações de hidrogênio. No modelo Plasmodium, enquanto a formação de hemozoína dentro do vacúolo protege o parasita dos efeitos tóxicos do heme (Slater, 1992), o acúmulo de hemozoína no interior dos monócitos/macrófagos e neutrófilos pode causar efeitos deletérios ao hospedeiro. Estudos prévios mostraram que a ingestão de hemozoína por cultura de células mononucleares humanas pode acarretar a liberação de citocinas pro-inflamatórias (por exemplo: TNF-α e IL1b) (Pichyangkul et al., 1994) e anti-inflamatórias (por exemplo: IL-10) (Mordmuller et al., 1998), e prejudicar a função dos macrófagos causando uma explosão oxidativa (Schwarzer & Arese 1996). Estudos anteriores mostraram que os níveis plasmáticos de IL-12 são inversamente correlacionados com a quantidade de neutrófilos na circulação em crianças com malária grave, sugerindo que a aquisição de hemozoína de uma infecção natural altera a produção de citocinas (Luty et al., 2000). 18 Introdução 1.6 – Mecanismo de formação de hemozoína in vivo Antes dos estudos realizados por Fitch & Kanjananggulpan (1987) e Slater et al. (1991) foi amplamente assumido que hemozoína era simplesmente um produto de degradação, possivelmente constituído apenas de hemoglobina parcialmente degradada (Goldie et al., 1990). Alguns autores, entretanto, sugeriram que ela poderia consistir de Fe (III) PPIX associado com proteínas ricas em glicina (Ashong et al., 1989). Slater et al. (1991) assumiram que hemozoína era um polímero de heme. Em 1992, Slater & Cerami verificaram que o extrato de trofozoíto capaz de promover formação de hemozoína aparentemente era sensível ao calor e apresentava um pH ótimo em torno de 5, próximo ao pH do vacúolo digestivo. Isto os levou a propor a existência de uma enzima associada à formação de Hz, que foi denominada heme polimerase. Em 1995, Dorn et al. mostraram que existe uma taxa de formação espontânea de hemozoína, que ocorre em temperatura fisiológica. Entretanto, a autocatálise se mostrou lenta para explicar a formação de hemozoína in vivo. Bendrat et al. (1995) sugeriram que os lipídios promovem a formação de hematina e que tanto hemozoína como β-hematina são “contaminadas” com lipídios, o que justificaria o comportamento auto-catalítico. Dorn et al. (1998) investigaram o processo de formação de hemozoína in vitro e verificaram, inicialmente, que a formação de hematina ocorre espontaneamente mesmo na ausência de Hz pré-formada, após muitos dias de ensaio. No entanto, os mesmos autores verificaram que o processo é mais rápido quando foi adicionado um extrato acetonitrílico de trofozoítas de malária, resultado reproduzido quando lipídios eram utilizados no ensaio. Sullivan et al. (1996) mostraram que uma Proteína Rica em Histidina II (HRPII), abundante em P. falciparum, também é capaz de induzir a formação de hemozoína e sugerem que estas proteínas poderiam ser capazes de catalizar ou iniciar a formação de hemozoína in vivo. Por mais de uma década a estrutura da hemozoína foi proposta como sendo um polímero de heme e a terminologia polimerização tornou-se fortemente utilizada (Egan, 2008a). No entanto, Pagola et al. (2000) verificaram que a hemozoína não é um polímero, mas sim um dímero cíclico de 19 Introdução Fe(III)PPIX. Esta conclusão não é inteiramente surpreendente dado o fato de que hemozoína consiste de cristais com faces bem definidas, algo que não seria observado em um composto polimérico constituído por cadeias de comprimento variável (Egan, 2008a). Sendo assim, não há uma heme polimerase envolvida com o processo de síntese de hemozoína. No entanto, o processo de formação de Hz ainda é controverso. Provavelmente, o crescimento do cristal é de fato um processo autocatalítico, pois após ocorrer a nucleação (formação do primeiro dímero), outras moléculas aderem a este núcleo (Egan, 2008b). A contribuição de proteínas, em maior escala, bem como de lipídios neste processo ainda é pouco compreendida. Devido a existência de poucas evidências acerca da função das proteínas HRP na síntese de hemozoína, Jackson et al. (2004) investigaram a participação de lipídios neutros neste processo em P. falciparum. Um pouco depois, Pisciotta et al. (2007) alteraram a perspectiva do processo de formação de hemozoína, confirmando que o cristal é formado no interior dos corpos lipídicos dentro do vacúolo digestivo do parasita. A presença de proteína ou proteínas no processo de síntese de hemozoína havia sido totalmente excluída. No entanto, uma proteina presente em pequenas quantidades poderia agir como sítio de nucleação para a formação de hemozoína (Egan, 2008a). Em Plasmodium, tem sido sugerida a participação de HRP (Lynn et al., 1999) e em Schistosoma mansoni a influência de lipídios (Oliveira et al., 2005). Pandey et al. (2003) verificaram que a formação de Hz na presença de HRPII sozinha não é rápida o suficiente e também pode requerer a participação de lipídios. Em 2008, outro grupo de proteínas foi identificado como promotoras da síntese de Hz em Plasmodium (Jani et al., 2008). Esta proteína foi denominada HDP “heme detoxification protein”. 1.7 – As α-glucosidases (α-D-glicosídeo glicohidrolase; EC 3.2.1.20) Glicosídeo hidrolases ou glicosidases são enzimas implicadas em uma grande variedade de eventos biológicos por catalisarem a hidrólise de oligo e polissacarídeos. Esta reação pode estar envolvida em eventos de sinalização celular, invasão viral, estoque e utilização de alimento, biossíntese de glicoproteínas, entre outras. As glicosídeo hidrolases são as mais potentes 20 Introdução entre as enzimas catalíticas conhecidas. A ligação glicosídica é uma das ligações mais estáveis na natureza, com uma meia-vida para hidrólise espontânea de, aproximadamente, 5 milhões de anos (Zechel & Whiters, 2000). Sequências gênicas de milhares dessas importantes enzimas têm sido determinadas, sendo as enzimas correspondentes agrupadas em famílias (família 1 a família 106) com base na similaridade de suas sequências (Campbell et al., 1997; Cazy, 2006). As α-glucosidases são glicosidases encontradas, principalmente, nas famílias 13 e 31 e, em menor extensão, nas famílias 4 e 63 (Lovering et al., 2005). As α-glucosidases catalisam a exohidrólise de ligações glicosídicas do tipo α-1,4 das extremidades não redutoras de oligo ou polissacarídeos, com eficiência variada (NC-IUMBM, 2006). As α-glucosidases possuem especificidade por diversos substratos; algumas preferem di-, oligo-, e/ou poliglicanos, enquanto outras hidrolisam preferencialmente substratos heterogêneos como sacarose (Chiba, 1988). Estudos mais recentes realizados com α-glucosidase de Entamoeba histolitica mostraram indícios da existência de resíduos de histidina no sítio catalítico desta enzima (Bravo-Torres et al., 2004). Estas observações foram possíveis pela utilização de uma droga, dietilpirocarbonato (DEPC), capaz de modificar resíduos de histidina. DEPC é bem conhecido pela sua alta especificidade para átomos de nitrogênio não protonados como os do anel imidazol (Miles, 1977) e tem sido usado para análise de resíduos de histidina em várias proteínas, incluindo proteínas que contêm heme (Nakanishi et al., 2008). No entanto, o DEPC pode também agir sobre outros nucleófilos como alcoóis, aminas e tióis (Wu et al., 2009). Uma α-glucosidase purificada de C. elegans apresentou 40% de inibição ao ser tratada com DEPC (TorreBouscoulet et al., 2004). Além disso, esta também apresentou uma forte inibição quando submetida ao tratamento com N-etilalemida (NEM), uma droga capaz de modificar resíduos de cisteína. Conduritol B epoxide é um conhecido mecanismo baseado na inativação da α-glucosidase por ligar especificamente ao grupo β-carboxyl do resíduo de ácido aspártico do sítio ativo, que é um nucleófilo catalítico (-COO2) (Braun et 21 Introdução al., 1977; Kimura et al., 1997a). Análises de cinética e modificação química sugerem que os grupos carboxyl e carboxilato (-COO2 and -COOH) estão envolvidos diretamente nas reações enzimáticas das α-glucosidases (Kimura et al., 1997b). Dessa forma, resíduos de histidina e ácido aspártico são demonstrados como sendo importantes para o sítio catalítico das αglucosidases. A principal função fisiológica das α-glucosidases é produzir monossacarídeos, a partir de oligo ou polissacarídeos, que são utilizados como fonte de carbono e energia. No entanto, as atividades de transglicosilação do tipo exo-glicosidases, por vezes desempenham um papel fisiológico importante na regulação de genes envolvidos na utilização de carboidratos. Transglicosilação é um mecanismo para formação de ligações glicosídicas durante a síntese de polissacarídeos (Allaby, 1999). Um exemplo bem conhecido é a indução do operon lac em Escherichia coli. O indutor fisiológico do operon (6-O-β-D-galactopiranosil-D-glicose) é sintetizado a partir de lactose por atividade de transglicosilação (Miller & Reznikoff 1978). Outro exemplo da reação de transglicosilação refere-se à α-glucosidase de Aspergillus niger que catalisa a formação de ligações glicosídicas α-1-6, resultando na produção de isomaltose (6-O-α-D-glucopiranosil-D-glucopiranose) (Duan et al., 1995). Além disso, α-glucosidases de Bacillus stearothermophilus e levedura produzem oligossacarídeos consistindo de ligações α-1-3, α-1-4 e α-1-6 (Mala et al., 1999). Apesar da importância biológica das enzimas, apenas três estruturas completas de α-glucosidases são atualmente depositadas no Protein Data Bank (PDB), sendo uma de Sulfolobus solfataricus (PDB 2g3m) (Ernst et al., 2006), uma de Thermotoga maritima (1lwj e 1lwh) (Lodge et al., 2003) e outra de Bacteroides thetaiotaomicron (2d73) (Kitamura et al., 2008). Shirai et al. (2008) analisaram a estrutura em cristal da α-glucosidase de Geobacillus (GSJ). Esta consiste de 3 domínios, baseando-se em estruturas homólogas (Figura 7). O domínio N-terminal estendido (resíduos 2–102, 170–205 e 229– 471) possui uma volta β-pregueada que abriga o centro catalítico. O subdomínio (resíduos 103–169 e 206–228) está inserido no interior do domínio N-terminal. O papel funcional do domínio C-terminal não está claro. A estrutura GSJ tem três segmentos de peptídeos desordenados: 215-218, 293-294 e 38822 Introdução 400 (apresentado como A, B, e C na cor magenta na figura 7). As regiões desordenadas foram localizadas ao lado do centro catalítico do domínio Nterminal. FIGURA 7 – Esquema mostrando a estrutura em cristal da α-glucosidase de Geobacillus (GSJ) – bactéria termófila. Os domínios N-terminal e C-terminal são mostrados em azul e laranja, respectivamente. O magenta representa regiões de loops (*A, resíduos 215–218; *B, 293–294; e *C, 388–400). Os resíduos catalíticos, Asp199, Glu256 e Asp326, são mostrados no interior do modelo (Pettersen et al., 2004). 1.8 – Membranas perimicrovilares e α-glucosidase Como abordado anteriormente, a maioria dos insetos apresenta uma barreira entre o bolo alimentar e o epitélio intestinal denominada de membrana ou matriz peritrófica. Os mosquitos, por exemplo, apresentam uma matriz peritrófica formada basicamente por quitina, proteínas e proteoglicanos, criando espaços definidos onde enzimas distintas atuam. Esta membrana protege os 23 Introdução insetos contra patógenos e componentes tóxicos oriundos da dieta (Terra, 2001; Terra & Ferreira, 2005; Hegedus et al., 2009). A matriz peritrófica foi, provavelmente, perdida em ancestrais Hemiptera na adaptação ao ato de sugar o floema (Terra, 1990). Os hemipteras não possuem as membranas peritróficas, mas as membranas microvilares das células intestinais não estão em contato direto com o bolo alimentar, devido a existência de uma membrana plasmática extracelular, denominada membrana perimicrovilar (MPMV), que recebem este nome por recobrirem as microvilosidades de suas bases até o topo destas, se projetando em direção ao lúmen intestinal (Terra, 1988; Silva et al., 1995, 1996, 2004). MPMVs foram descritas tanto em Heteroptera (subordem de Hemiptera) quanto em Fulgoroidea (superfamília de Homoptera onde se encontram as cigarras, pulgões, cigarrinhas e colchonilhas) (Reger, 1971; Lane & Harrison, 1979; Andries e Torpier, 1982; Baerwald e Delcarpio, 1983). Outro grupo relacionado à ordem Hemiptera que também apresenta o sistema de MPMV é a ordem Thysanoptera, representada pelo trips, vulgarmente conhecido como "lacerdinha". Kitajima (1975) descreveu estruturas muito similares às membranas perimicrovilares nessa espécie, referindo-se a elas como um tipo especial de glicocálice. A membrana perimicrovilar é uma estrutura permanente, mas sua extensão parece depender de alimento (Billingsley & Downe, 1983). Silva et al. (2007) mostraram que as MPMV em R. prolixus são produzidas em resposta à alimentação e sua produção atinge o máximo no 7º dia. As α-glucosidases são proteínas majoritárias presentes nas membranas perimicrovilares e, por isso, têm sido utilizadas como marcadores moleculares destas membranas em Hemiptera (Silva et al., 1996; 2007). Em D. peruvianus as MPMV exercem um papel crucial na absorção dos aminoácidos e outros nutrientes diluídos na seiva vegetal (Terra et al., 1988). Segundo o modelo apresentado por esses autores, as membranas microvilares possuem portassomos, que contribuem para a densidade aumentada da estrutura destas membranas. Os portassomos são bombas que bombeiam o potássio ativamente do espaço perimicrovilar para as células do intestino médio, criando um gradiente de concentração de potássio entre o lúmen intestinal e o espaço perimicrovilar. Este gradiente é usado como uma força 24 Introdução motriz para a absorção ativa de aminoácidos, por meio de carreadores apropriados das membranas perimicrovilares. Outro papel fundamental das membranas perimicrovilares é o da compartimentalização de processos enzimáticos envolvidos nos eventos digestivos no intestino dos insetos que as possuem (Terra, 1990; Terra e Ferreira, 1994). Há evidências de que em R. prolixus e em D. peruvianus, a digestão de proteínas ocorre com a separação espacial da digestão inicial, que envolve a participação de proteinases catepsina-símile no lúmen ventricular, e a digestão intermediária, onde participa uma aminopeptidase confinada no espaço perimicrovilar (Billingsley e Downe 1985; Ferreira et al., 1988; Terra et al., 1988; Silva et al., 1996). Alguns hemípteras podem carregar parasitos em seus intestinos, principalmente Tripanosomatídeos. Em algumas destas interações parasita/inseto, a colonização do trato digestório por estes microorganismos parece envolver o ancoramento do parasito nas MPMV (Romeiro et al., 2000). Assim, estas membranas poderiam estar exercendo um papel de barreira contra a entrada destes parasitos na hemocele destes insetos, como é proposto para as membranas peritróficas (Devenport, 2004). A biogênese das membranas perimicrovilares ainda não está completamente elucidada. A primeira evidência de uma provável origem destas membranas foi detalhado por Silva et al. (1995) de acordo com observações de vesículas com dupla membrana nas células epiteliais do intestino médio de D. peruvianus. Posteriormente, Cristofoletti et al. (2003) confirmaram esta origem para o afídio Acyrthosiphon pisum (Figura 8). Neste último modelo, propõe-se que haja liberação de vesículas que migram do retículo endoplasmático em direção ao aparato de Golgi. A partir desta organela, as vesículas de dupla membrana, transportando proteínas secretoras, seriam liberadas dentro do lúmen intestinal, depois de fusionar as membranas externas com as membranas microvilares e as membranas internas com as membranas perimicrovilares. 25 Introdução FIGURA 8 – Modelo da origem das membranas associadas com o sistema lamelar apical (Cristofoletti et al., 2003). Cisternas do Golgi (a) que começam a se dirigir ao RER (b). Esses, após perder os ribossomos, formam vesículas envolvendo as membranas (c) que eventualmente fusionam com a base da lamela apical esvaziando o conteúdo da membrana para o espaço interlamelar (d). As membranas se movem ao longo do espaço interlamelar (e) e, finalmente começam a se associar com a superfície luminal da lamela, projetando-se para o interior do lúmen (f). No intestino médio dos insetos, α-glucosidases são encontradas na forma solúvel ou ligadas à membrana. Alfa-glucosidase solúvel pode ocorrer no lúmen do intestino médio, como observado em Coleoptera (Colepicolo-Neto et al., 1986; Baker, 1991), e Himenoptera (Schumaker et al., 1993) ou pode permanecer no interior do glicocálix, como encontrado em Lepidoptera (Ferreira 26 Introdução et al., 1993). Em Musca domestica (Diptera), uma α-glucosidase é encontrada no lúmen intestinal e uma outra permanece no glicocálix (Terra & Jordão, 1989). As α-glucosidases de membrana são proteínas integrais da membrana microvilar em células intestinais de Diptera (Espinoza-Fuentes & Terra, 1986; Terra e Jordão, 1989, 1991). A localização da α-glucosidase no intestino depende amplamente da posição filogenética do inseto, estando diretamente relacionado com o padrão geral de digestão (Terra 1988; 1990). Atividades de α-glucosidases foram detectadas em glândula salivar dos mosquitos Aedes albopictus (Marinotti et al., 1996) e Anopheles darlingi (Moreira-Ferro et al., 1999) e no intestino médio de mosquitos adultos da espécie Anopheles stephensi, antes e depois da alimentação sanguínea (Billingsley & Hecker, 1991). Em Hemiptera, a α-glucosidase é encontrada associada às membranas perimicrovilares, que envolvem as microvilosidades e se projetam para a luz do tubo digestório, algumas vezes formando camadas sobre as microvilosidades das células do intestino médio (Terra et al., 1988; Silva et al., 2004). Ainda em consideração às glucosidases e sua distribuição, foi observado que, em trofozoítas de ameba aproximadamente 70% da atividade total de αglucosidase estavam presentes sob a forma solúvel da enzima, enquanto o restante permanece associado com as membranas (Zamarripa-Morales et al., 1999). Phlebotomus langeroni são insetos hematófagos, mas também se alimentam frequentemente de uma dieta rica em carboidratos (Schlein & Warburg 1986). Um estudo preliminar revelou que as α-glucosidases foram as glicosidases mais ativas no intestino de flebotomíneos. Nestes insetos foi observado que a atividade desta enzima aumentou significativamente 1h após a alimentação com sangue (Dillon & Kordy, 1997). Glicosidases são as principais enzimas digetivas do inseto sugador de seiva Schistocerca gregaria (Strebler, 1977), mas a presença de altas atividades em flebotomíneos sugere que as glucosidases são também importantes para digestão nos insetos hematófagos. Billingsley & Hecker (1991) encontraram uma maior atividade de α-glucosidases alcalinas em homogenatos do intestino médio de Anopheles stephensi quando alimentados com sangue. No caso do hemíptera hematófago, R. prolixus, as MPMV são sintetizadas em resposta à alimentação 27 Introdução sanguínea. Consequentemente, a atividade da α-glucosidase aumenta significativamente nos dias após o repasto sanguíneo (Silva et al., 2007). Este aumento coincide com o aumento de hemozoína formada no lúmen intestinal desta espécie, sugerindo a participação dessas membranas na síntese de hemozoína. 28 Justificativa do Trabalho 2 – JUSTIFICATIVA DO TRABALHO Insetos são uma das principais causas de mortalidade e morbidade humanas, principalmente como resultado da transmissão de patógenos por espécies sugadoras de sangue. A transmissão de doenças vetoriadas por insetos é governada por interações complexas entre o parasita, o vetor e o hospedeiro vertebrado. O controle efetivo dessas doenças é, portanto, uma meta desafiadora que requer o conhecimento das ligações entre fatores biológicos, ambientais e sócio-econômicos. Hoje é consenso que os métodos convencionais usados para o controle de insetos vetores apresentam-se ineficientes, e novas estratégias de controle de doenças e vetores são requeridas. Particularmente importantes são duas iniciativas: o desenvolvimento de vacinas baseadas na imunidade bloqueadora da transmissão, e a produção de vetores geneticamente modificados, resistentes às infecções (Hurd, 1994). Abordagens racionais para essas estratégias se originam de estudos de fisiologia, bioquímica e biologia molecular de insetos vetores. R. prolixus é um hemiptero hematófago da família Reduviidae. Nesta família estão importantes espécies de insetos transmissores da doença de Chagas. Em R. prolixus vários mecanismos anti-oxidantes tem sido descritos como fundamentais para que o inseto sobreviva à hematofagia, já que a digestão do sangue gera grandes quantidades de heme, um produto extremamente tóxico (Oliveira et al., 1999). Na literatura existe uma grande controvérsia acerca dos fatores responsáveis pelo mecanismo de síntese de hemozoína. Há evidências da participação de lipídios como catalisadores na formação de Hz em P. falciparum (Ridley et al., 1995). Outra corrente aponta para a presença de proteínas ricas em resíduos de histidina com atividade heme polimerásica, também em P. falciparum (Sullivan et al., 1996). Silva et al. (2007) observaram que há atividade de síntese de hemozoína na fração protéica de epitélio intestinal de R. prolixus, mas sugeriram a ocorrência de um efeito sinergístico quando frações lipídica e protéica estão associadas. Certamente o mecanismo de síntese de hemozoína requer a colaboração de fatores e pode realmente não ser atribuída a um único fator. No entanto, dados na literatura mostram que 29 Justificativa do Trabalho drogas quinolinas, como a cloroquina, atuam no Plasmodium através da inibição da síntese de hemozoína (Sullivan et al., 1996; Meshnik, 1996; Ridley et al., 1997). As quinolinas parecem inibir a síntese de hemozoína in vitro em condições fisiológicas (Slater & Cerami, 1992). A ação eficaz do mesmo grupo de drogas anti-malária em S. mansoni (Corrêa-Soares et al., 2009), por idêntico mecanismo de inibição da síntese de Hz, abre a possibilidade de utilização do processo de formação de Hz como um alvo para o desenvolvimento de novos quimioterápicos para o tratamento de doenças causadas ou vetoriadas por agentes formadores de Hz. Ao mesmo tempo, a abordagem fisiológica e evolutiva do estudo do processo de formação de Hz pode ser a chave para entender as adaptações que ocorreram em insetos hematófagos em resposta à pressão seletiva. Conhecer como as diferentes espécies se adaptaram ao longo da evolução, pode indicar um caminho para o desenvolvimento de novas drogas com ação sobre a interação patógeno/vetor ou com ação inseticida direcionada a insetos transmissores de doenças. Consequentemente este estudo poderá fornecer subsídios para o desenvolvimento de novas estratégias de combate a doenças transmitidas por vetores. 30 Objetivos 3 – OBJETIVO GERAL Estudar o papel de uma α-glucosidase na formação de Hemozoína em Rhodnius prolixus in vivo e in vitro. 3.1 – Objetivos específicos ) Comparar a contribuição de lipídios e proteínas no processo de formação de cristais de heme in vitro; ) Investigar a ação da molécula de heme no controle da expressão e da atividade de α-glucosidase de R. prolixus; )Testar o efeito de inibidores de α-glucosidase na formação de Hemozoina em Rhodnius prolixus ) Verificar a influência do silenciamento mediado por RNA na síntese de hemozoína in vivo; ) Comparar as estruturas de α-glucosidases de diferentes espécies e relacioná-las com a atividade de síntese de hemozoína; ) Verificar se espécies não-hematófagas (Dysdercus peruvianus e Quesada gigas) são capazes de catalisar a formação de hemozoína. 31 Materiais e Métodos 4 – MATERIAIS E MÉTODOS 4.1 – Colônia de insetos A colônia de R. prolixus é mantida em uma estufa incubadora digital modelo FT 1020, Fluxo Tecnologia, no laboratório de Química e Função de Proteínas e Peptídeos a uma temperatura de 28ºC, e umidade relativa de aproximadamente 80%. A colônia de R. prolixus teve sua origem a partir de uma colônia mantida pelo Laboratório de Bioquímica de Insetos, do Instituto de Bioquímica Médica, UFRJ. A colônia de D. peruvianus é mantida em frascos de vidro, sob condições naturais de fotoperíodo, em uma umidade relativa de 50-70% a 24 ºC (+/- 2°C). O inseto tem acesso à água e às sementes de algodão (Gossypium hirsutum). Estas sementes são previamente desinfetadas por congelamento. Estes insetos foram cedidos pelo professor Dr. Carlos Peres Silva (UFSC). Espécimes de Q. gigas foram coletados no Horto Municipal de Campos dos Goytacazes durante o período de verão. 4.2 – Alimentação dos insetos R. prolixus são alimentados com uma periodicidade de 20 dias para adultos e 30 dias para os diferentes estágios, com sangue de coelho, diretamente na orelha dos animais imobilizados em caixas de contenção. No caso de dietas artificiais, utilizamos um alimentador artificial descrito por Garcia et al. (1975). Dietas artificiais com plasma de coelho são usadas para alimentar os insetos adultos, para que possamos eliminar o heme que fica impregnado no intestino. D. peruvianus, 48 horas antes dos ensaios, foram mantidos em uma dieta contendo sacarose 10%. Este procedimento é necessário para que não ocorra interferência da dieta natural nos experimentos. 32 Materiais e Métodos 4.3 – Obtenção de hemolinfa de Rhodnius prolixus A coleta de hemolinfa em adultos de R. prolixus é realizada cortando-se as pontas das patas anteriores deste inseto e efetuando uma leve pressão sobre o abdome do inseto. 4.4 – Obtenção do epitélio intestinal dos insetos Quatro dias após alimentação com sangue ou plasma de coelho, os intestinos de R. prolixus foram dissecados. Destes insetos foram retirados o epitélio intestinal o qual foi colocado em 1 mL de salina. Os epitélios intestinais foram centrifugados a 17000 x g, em centrífuga refrigerada (4oC), por 30 minutos. Os sobrenadantes foram descartados e as amostras foram ressuspensas em 200 μL de NaCl 0,1 M. Estes epitélios intestinais foram utilizados para extração de proteínas, RT-PCR e sequenciamento. 4.5 – Síntese de hemozoína in vitro O ensaio de síntese de Hz tem por base o método descrito para o P. falciparum “in vitro” (Slater & Cerami, 1992), com algumas alterações. A reação foi realizada para 1 mL de volume final do tampão acetato de sódio 0,5 M, pH 4,8. Para isso foi colocada uma quantidade suficiente das amostras (cerca de 15 μg de proteínas ou 15 μg de micela – fosfatidilcolina e fosfatidiletanolamina). Em seguida foram adicionados 10 µL da solução de hemina (SIGMA – USA) 10 mM em NaOH 0,1N. Posteriormente os tubos foram mantidos sob agitação por 24h em uma estufa a 28ºC. Os lipídios fosfatidilcolina e fosfatidiletanolamina foram obtidos comercialmente (SIGMA – USA). 33 Materiais e Métodos 4.5.1 – Extração de hemozoína Este procedimento está baseado nos métodos de extração de Hz do plasmódio descritos por Sullivan et al. (1996), com pequenas modificações. Após 24 h de incubação as amostras foram centrifugadas por 10 min a 15300 x g. O sobrenadante foi descartado e o precipitado (Hz) ressuspenso em 1 mL de tampão carbonato-bicarbonato 0,1 M (pH 9,2) + SDS 2,5 %. Posteriormente os tubos permaneceram sob agitação por 15 min a temperatura ambiente seguido de uma centrifugação a 15300 x g por 15 min. Novamente o sobrenadante obtido foi descartado e o processo de lavagem com o tampão carbonatobicarbonato foi repetido por mais duas vezes. Após a última etapa de extração, procedem-se duas lavagens, agitando e centrifugando a 15300 x g com água destilada, pelo mesmo período utilizado com tampão. Após este procedimento, a Hz resultante foi sedimentada por centrifugação na mesma velocidade e ressuspensa em 1 mL de NaOH 0,1 N e agitada por 20 min a temperatura ambiente. A leitura das amostras foi realizada em um espectrofotômetro SHIMADSU UVmini-1240, utilizando um filtro com comprimento de onda de 400nm. 4.5.2 – Dosagens de heme As dosagens de heme foram realizadas utilizando-se uma curva padrão com hemina bovina comercial (SIGMA) diluída em NaOH 100mM. A curva padrão foi construída a partir de uma solução estoque de hemina na concentração de 1 mM. As leituras foram obtidas a 400 nm, utilizando-se um espectrofotômetro Zeiss modelo SPEKOL. 4.6 – Extração de proteínas de epitélio intestinal Os insetos tiveram seus epitélios dissecados como determinado no item 4.3 e extraídos em tampão de extração (fosfato de sódio 20 mM pH 7,4, NP-40 0,1%, imidazol 5 mM, PMSF 1 mM e benzamidina 1 mM). Os epitélios foram homogeneizados com o auxílio de um homogeneizador do tipo “Potter” e submetidos a repetidas sessões de congelamento e descongelamento das amostras em nitrogênio liquido (3 vezes). Posteriormente as amostras foram 34 Materiais e Métodos incubadas por 12 horas sob agitação a 4°C. As amostras foram centrifugadas a 17000 x g por 30 min, aproveitando-se somente o sobrenadante. As amostras foram analisadas em SDS-PAGE 12% e utilizadas nos demais procedimentos experimentais. 4.7 – Dosagem de proteína A concentração de proteínas nas amostras do conteúdo intestinal foi determinada pelo método de Bradford (1976). No caso de amostras contendo NP-40 foi utilizado o método de dosagem de proteína por BCA (Smith, et al.,1985). A curva padrão foi realizada utilizando ovoalbumina (SIGMA – USA). 4.8 – Ensaio de atividade da α-glucosidase Os intestinos foram dissecados, homogeneizados em “potter Elvehjem” e lavados em água destilada gelada, seguindo-se de, aproximadamente 5 centrifugações a 17.000 x g por 30 minutos. As lavagens foram efetuadas até que a atividade da α-glucosidase fosse extinta do sobrenadante. Após a última centrifugação, o sobrenadante foi eliminado e o sedimento final foi ressuspendido em água destilada gelada e imediatamente ensaiado. As atividades da α-glucosidase, na presença ou ausência dos inibidores, foram medidas pela determinação do aparecimento de ρ-nitrofenolato (Terra et al., 1979) a partir de ρ-nitrofenil αD-glicosídeo 5 mM em tampão citrato-fosfato 50 mM pH 5,5. O ρ-nitrofenolato absorve em 410 nm. Esta também é a faixa de absorção do grupamento heme. Logo, não poderemos utilizá-lo como parâmetro para medida de atividade da enzima em insetos alimentados com sangue, ou plasma enriquecido com hemina. Sendo assim, este método foi utilizado para insetos alimentados com plasma de coelho ou sacarose. No caso de insetos alimentados com plasma enriquecido com hemina foi utilizado um protocolo que determina glicose pela ação de glicose oxidase (Dahlqvist, 1968). Foi utilizado maltose 25 mM em tampão citrato-fosfato como substrato, visto que a enzima cliva glicose pela extremidade não-redutora. O protocolo foi realizado com modificações propostas pelo autor, onde o produto de reação foi 35 Materiais e Métodos revelado em condições ácidas, com adição de ácido sulfúrico 50%. O produto da reação foi lido em espectrofotômetro a 540 nm. 4.9 – Cromatografia de troca iônica Todas as amostras de extrato protéico de epitélio intestinal de insetos alimentados com sangue foram submetidas a uma cromatografia de troca iônica em coluna Mono Q HR 5/5 instalada em um equipamento FPLC PerkinElmer e equilibrada com tampão HEPES contendo NP-40 0.1%, segundo Bravo-Torres et al. (2004), com algumas modificações. A coluna foi lavada com o mesmo tampão e a enzima foi eluída com um gradiente linear de 0-0,5 M NaCl em tampão HEPES em uma razão de 0,5 mL/min. As frações foram coletadas e parte do seu conteúdo foi utilizada para determinar atividade enzimática por método fluorométrico, descrito anteriormente. 4.10 – Eletroforese em gel de poliacrilamida Extrato protéico de epitélio intestinal de R. prolixus ou fração 27 da crmatografia de troca iônica foram submetidas ao processo de eletroforese em gel de poliacrilamida (12 %), na presença de SDS (Laemmli, 1970). O gel principal (gel de separação) foi montado em placas de vidro de 10 X 13,5 cm, misturando-se: 3,3 mL de água destilada; 4,0 mL de uma solução de aclilamida/bis-acrilamida 30 %; 2,5 mL de tampão Tris 1,5 M pH 8,8; 0,1 mL de SDS 10 %; 0,1 mL de persulfato de amônia 10 % e 0,004 mL de TEMED. O gel de empacotamento foi preparado misturando-se: 1,4 mL de água destilada; 0,33 mL de uma solução de acrilamida/bis-acrilamida 30 %; 0,25 mL de tampão Tris 1,0 M pH 6,8; 0,02 mL de SDS 10 % ; 0,02 mL de persulfato 10 % e 0,002 mL de TEMED. O tampão utilizado na cuba de eletroforese foi Tris 25 mM, glicina 192 mM, SDS 0,1 %, pH 8,3 (tampão de corrida). A eletroforese ocorreu por aproximadamente 2 horas com uma corrente constante de 20 mA. As amostras foram dissolvidas em tampão de amostra (Tris-HCl 0,5 M, glicerol 10 %, SDS 10 %, Azul de bromofenol 1 %, pH 6,8), e aplicados 15 µg de proteína no poço. O gel foi corado com nitrato de prata segundo Dunn et al. (1994) ou utilizado para verificar atividade de α-glucosidase. 36 Materiais e Métodos 4.11 – Ensaio de atividade de α-glucosidase in gel Foram aplicados 15 µg de extrato protéico de epitélio intestinal em gel de poliacrilamida 12% sob condições desnaturantes e não redutoras. O gel foi lavado duas vezes em Triton X-100 (2,5%) e, posteriormente, incubado com o substrato fluorogênico 3-metil – umbeliferil-αD-glicopiranosídeo em tampão citrato-fosfato 50 mM, pH 5,5, por 10 min a 30ºC. A atividade de α-glucosidase foi revelada pela formação de metil-glicosídeo cuja florescência é observada pela exposição do gel à luz ultravioleta (Silva et al., 1996). 4.12 – Análises por espectroscopia de FTIR Para verificar se o sedimento obtido com o processo de extração de heme (descrito anteriormente) é característico do espectro de hemozoína, a amostra foi submetida à espectrometria de infravermelho. A amostra foi seca em dissecador do tipo SpeedVac. Em seguida adicionou-se uma pequena quantidade de KBr agitando-se a suspenção por alguns segundos. O conteúdo desta mistura é submetido a uma pressão de 10 toneladas para a formação das pastilhas em KBr. A amostra foi analisada sob vácuo no espectrômetro Magna 550 Nicolet (espectroscopia de FTIR – “Fourier Transformed Infrared”). 4.13 – Ensaio de ligação a hemina-agarose A identificação de proteínas de ligação de heme foi efetuada através do uso de uma resina de hemina-agarose (TsuiTsui & Mueller, 1982). A fração 27 da coluna Mono Q HR 5/5 (15 µL) foi adicionada a 500 µL de tampão fosfato de sódio 50 mM, pH 7,0, NP-40 e NaCl 0,15 M, com ou sem 10 nmol de hemina e a mistura foi incubada por 30 min com 10 µL de hemina-agarose. Após a incubação, as amostras foram lavadas por 10 vezes com 0,5 mL do mesmo tampão. Em seguida adicionou-se tampão de amostra com SDS (4%) e βmercaptoetanol. As amostras foram fervidas por 2 min e submetidas a corrida eletroforética em SDS-PAGE (12%). 37 Materiais e Métodos 4.14 – Silenciamento gênico 4.14.1 – Construção da dupla fita de RNA (dsRNA) A síntese de dsRNA foi realizada com o Kit MEGAscript® RNAi Kit (Ambion) de acordo com as especificações do fabricante. Em um microtubo (1,5 ml) foi colocado 1 μg de cada plasmídeo contendo os insertos sense ou antisense específicos de cada gene, os nucleotídeos (ATP, CTP, GTP, UTP) e a enzima T7 polimerase. O material foi homogeneizado gentilmente e incubado por 16h a 37 ºC. Após a transcrição dos fragmentos em ambas orientações, duas fitas complementares foram geradas no mesmo tubo. Desta forma, foi necessário anelar estas duas fitas para a formação do dsRNA. Para isso, as amostras foram incubadas a 75 ºC por 5 min e em seguida resfriadas naturalmente em temperatura ambiente. Após a formação do dsRNA, o material passou por um tratamento com DNase/RNase, realizado a 37 ºC por 1h. Este passo é necessário para a digestão das demais fitas de ácidos nucléicos, tais quais os moldes de DNA e qualquer RNA simples-fita que não tenha se anelado a outra molécula complementar. Em seguida, o dsRNa foi purificado com um sistema de cartuchos com filtros (fornecido pelo kit), para que traços de proteínas, ácidos nucléicos livres e produtos de degradação, pudessem ser removidos do material. O dsRNA foi recuperado dos filtros em tampão Tris-HCl 10 mM pH 7, EDTA 1mM, que é compatível com a injeção. Alíquotas de 1:400 (v/v) de RNA foram visualizadas em gel de agarose a 1%. 4.14.2 – Silenciamento da α-glucosidase por dsRNA Um volume de 2 µL de dsRNA em diferentes diluições (2 ou 10 µg) foram injetados intratoracicamente na hemocele de fêmeas adultas de R. prolixus usando uma seringa Hamilton. Os insetos usados nos experimentos foram de segunda alimentação com sangue de coelho, sendo alimentados 2 h após a injeção. Após 4 dias a 28 ºC e umidade de 80%, o intestino médio, hemolinfa e conteúdo intestinal foram dissecados em tampão fosfato de sódio 0,1 M (PBS) pH 7,4. Insetos controle foram injetados com PBS (4 0C), pH 7,4. Os insetos 38 Materiais e Métodos controle foram injetados com PBS ou dsRNA β-galactosidase de Escherichia coli (dsLacZ) (Brandt et al., 2008). 4.15 – Análise molecular 4.15.1 – Extração de RNA e RT-PCR O RNA total foi extraído de, aproximadamente, 6 epitélios intestinais usando Trizol (Invitrogen, Carlsbad, CA) de acordo com as instruções do fabricante. O RNA foi quantificado por determinação da sua absorbância a 260 e 280 nm usando espectrofotômetro. Uma porção do RNA total extraído foi submetida à eletroforese em gel de agarose 1% para análise da qualidade do mesmo. A primeira fita do cDNA foi sintetizada com 3 µg de RNA total usando Superscript III system (Invitrogen). 4.15.2 – Reação em cadeia da polimerase (PCR) semi-quantitativo Para obtenção da sequência da α-glucosidase e análise da expressão na presença ou ausência de hemina foi realizado PCR semi-quantitativo de acordo com Blandin et al. (2002) e Hoa et al. (2003), com algumas modificações. As reações foram realizadas em tampão para enzima Taq DNA Polimerase (1x concentrado) (Fermentas); 1,5 mM de cloreto de magnésio; 0,2 mM de dNTP, 10 pmoles de cada iniciador, 1 U de Taq DNA polimerase (Fermentas) e água ultra pura q.s.p 20 µL. Os iniciadores Aglu F e Aglu R são degenerados (Tabela 1) desenhados com base nas sequências gênicas da α-glucosidase de Aedes aegypti, Drosophila melanogaster e Anopheles aquasalis. O controle endógeno foi o UGALT (Tabela 1) (Ribeiro et al., 2004). Todas as reações foram realizadas em termociclador Whatman Biometra® (T Gradient) com os ciclos de temperatura programados para: 94°C por 3 min, 34 ciclos de 94°C por 1 min, 49°C por 1 min e 72°C por 1 min, e uma etapa final a 72°C por 5 min. Os produtos da PCR foram revelados em gel de agarose 1.0%, corado com brometo de etídio e as imagens registradas em fotodocumentador Mini Bis pro (Bioamerica). Os dados de densitometria obtidos foram adquiridos usando TotalLab TL100 software (Nonlinear Dynamics). 39 Materiais e Métodos 4.15.3 – Expressão relativa do gene determinada por qPCR O PCR em Tempo Real foi utilizado para avaliar a expressão do gene da α-glucosidase após silenciamento por dsRNA em diferentes situações experimentais. Inicialmente realizou-se a extração de RNA e síntese do cDNA, como descrito no item 4.15.1. O cDNA obtido foi submetido a reação de qPCR utilizando o Kit SYBR Green PCR Mix (Roche), com a utilização de primers específicos desenhados usando o Programa Primer 3 versão 4.0 (Rozen & Skaletsky, 2000) (Tabela 1). O aparelho utilizado foi o LightCycler 2.0 (Roche Diagnostics). A expressão do gene da α-glucosidase foi normalizado usando o 18S RNAr (Tabela 1) (Whitten et al., 2007). Expressões relativas do gene foram obtidas baseadas na curva padrão construída utilizando 5 diluições seriadas da amostra. O número de cópias analisadas do gene foram expressas pela fórmula R = (Ealvo)ΔCPalvo (controle – amostra ) / (Eref ) ΔCPref (controle – amostra) . Os resultados, tanto para dsα-Glu como para dsLacZ, foram normalizados levando em consideração insetos de segunda alimentação que estavam 21 dias em jejum. Tabela 1 – Iniciadores utilizados nos experimentos de RT-PCR e qPCR. Gene 18S UGALT α-Glu Deg1 α-Glu esp2 1 Sequência (5’ – 3’) Tm pb %CG GTTGGTATTGATGTACGCTGGA 60.0 22 60.00 CCTACGGAAACCTTGTTACGA 59.0 21 48.00 ATGGCACTCCAGTGGGTTAG 59.4 20 45.00 AAGAAAGGCGAGGCATTGTA 55.3 20 55.00 ATA/C/TT/CTNGAC/TTTT/CGTNCCNAAC/TCAC/T 60.0 31 49.00 G/ATCG/ATGG/ATTNCCNAA/GNACCCAG/ATT 59.7 29 49.00 TCGCTTGGGATCGCACAT 64.0 18 56.00 GCCGGGACGATGCTCAT 63.0 17 65.56 Amplicon 145 pb 390 pb 750 pb 114 pb Iniciador degenerado baseado na sequência de gênica da α-glucosidase de Ae. aegypti, D. melanogaster e An. aquasalis. 2 Iniciador específico desenhado com base na sequência gênica da α-glucosidase de R. prolixus. 40 Materiais e Métodos 4.15.4 – Purificação do fragmento amplificado Foram realizadas 50 reações de PCR com volume final de 20 μL cada, como descrito no item 4.15.2. Em seguida estas amostras foram liofilizadas, reduzindo o seu volume para 70 μL. Este volume foi aplicado em gel de agarose 1%. As bandas correspondentes aos fragmentos de 0.75 e 0.25 kb foram purificadas utilizando GFXTM PCR “DNA e Gel Band Purification Kit”, de acordo com as especificações do fabricante, com algumas modificações. Este material foi utilizado para clonagem e sequenciamento. 4.15.5 – Quantificação do cDNA Com a finalidade de determinar a concentração final do cDNA obtido após processo de purificação, a amostra foi aplicada em um gel de agarose 1% juntamente com concentrações conhecidas de um marcador (vetor SuperScript KS) fabricado pela Invitrogen. Por comparação da intensidade do sinal da amostra e das bandas do marcador, estimou-se a concentração aproximada do cDNA. 4.15.6 – Clonagem do fragmento amplificado no vetor pTZ57R/T O fragmento amplificado de 0.75 kb, obtido com os primers degenerados, foi ligado em plasmídeo já preparado para receber produtos de PCR, com o uso do kit InsT/AcloneTM PCR Product Cloning Kit (Fermentas Life Sciences). As reações continham 5 μL do produto de PCR, 1 μl de tampão 10X, 1 μL de plasmídeo pTZ57R/T (Figura 9), 0,5 μL da enzima T4 DNA ligase e água para um volume final de 29 μL. Os tubos contendo as reações foram mantidos a 16 ºC durante a noite. Os vetores ligados ao fragmento foram utilizados posteriormente para ensaio de transformação de células competentes. 41 Materiais e Métodos Figura 9 – Mapa do sítio de policlonagem do vetor pTZ57R/T (Fermentas Life Sciences), mostrando os sítios de enzimas de restrição. São mostradas as enzimas de restrição utilizadas para a digestão (caixa vermelha). 4.15.7 – Produção de células competentes de E. coli, linhagem DH 5α via cloreto de rubídio Para a produção de células competentes foi produzido inicialmente um pré-inóculo constituído por uma colônia fresca de E. coli linhagem DH 5α; esta foi inoculada em um tubo contendo 10 mL de meio SOB, o qual foi incubado a 37oC por 16 horas sob agitação moderada de 250 rpm. Posteriormente, foi retirado uma alíquota de 1 mL do pré-inóculo e adicionado a um erlenmeyer contendo 100 mL de meio SOB. O erlenmeyer foi mantido sob agitação de 250 rpm a uma temperatura de 37oC até atingir densidade ótica de aproximadamente 0,4, as leituras foram efetuadas em espectrofotômetro a 600 nm. Ao atingir a densidade desejada a cultura foi transferida para banho de gelo por 10 minutos e centrifugada a 2.500 g por 10 minutos a 4oC. O sobrenadante foi descartado e o sedimento de células foi ressuspenso em 1/3 do volume inicial da cultura em solução RF1 composta de acetato de potássio 30 mM pH 7,5; RbCl 100 mM; MnCl2 50 mM; CaCl2 10 mM; e glicerol 15%; sendo mantido em banho de gelo por 15 minutos. Em seguida, a ressuspensão foi centrifugada nas mesmas condições descritas anteriormente. O sobrenadante foi mais uma vez descartado e o sedimento de células foi 42 Materiais e Métodos ressuspenso em tampão RF2 (MOPS 10 mM, RbCl 10 mM, CaCl2 75 mM, glicerol 15%), na proporção 1/125 do volume original da cultura. As células foram homogeneizadas gentilmente e incubadas em banho de gelo por 15 minutos. Em seguida, alíquotas de 200 µL da solução foram transferidas para tubos de microcentrífugas previamente autoclavados e resfriados. As amostras foram imediatamente congeladas em nitrogênio líquido e, posteriormente, armazenados a - 70oC. 4.15.8 – Transformação de células competentes de E. coli com o vetor ligado ao fragmento amplificado Como passo inicial para a transformação das células competentes, 200 µL das células armazenadas a – 70oC foram descongeladas em banho de gelo. Posteriormente, foram adicionados 5 µL da reação de clonagem descrita no item 4.15.6; em seguida, a mistura foi homogeneizada gentilmente e então o tubo foi incubado por 15 minutos em banho de gelo. O tubo contendo as células e o vetor foi transferido do gelo para uma temperatura de 42oC por um período de 90 segundos e posteriormente foi retornado ao banho de gelo por mais 10 minutos. Após o choque térmico, foram adicionados 800 µL de meio SOB e 16 µL de glicose estéril às células e, então, essas foram incubadas a 37oC por 50 minutos. Quantidades específicas das células (50 µL, 100 µL e 150 µL) foram plaqueadas em três placas de Petri contendo meio LB acrescido de ampicilina (100 µg/mL-1) e recobertas com X-gal (2µg). Ao final do plaqueamento as três placas foram incubadas a 37oC por 16 horas. Foram obtidas colônias que receberam apenas o vetor sem o fragmento amplificado, estas apresentavam coloração azul; e colônias que receberam o vetor pTZ57R/T ligado ao fragmento de interesse, que apresentavam coloração branca. Para a análise das colônias foram utilizadas todas as colônias brancas e uma colônia azul foi utilizada como controle negativo. 43 Materiais e Métodos 4.15.9 – Identificação dos clones positivos, extração e digestão dos vetores Os vetores pTZ57R/T foram extraídos das células bacterianas e submetidos a uma digestão com enzimas de restrição para que ao final do processo fosse liberado o fragmento de interesse. O procedimento teve início com a transferência de uma alíquota de cada um dos inóculos provenientes das colônias positivas (brancas) e uma negativa (azul) para tubos de microcentrífugas distintos, sendo centrifugados, em seguida, a 9 000 g por 2 minutos. Os sobrenadantes foram descartados e aos sedimentos celulares foram adicionados 300 µL de TENS (Tris-HCl 0,01 M, pH 8,0; EDTA 1 mM; NaOH 0,1 M e SDS 25 mM) e as amostras foram agitadas por 10 segundos para que ocorresse a lise das células. Após a lise celular, 150 µL de acetato de sódio 3 M pH 5,2 foram adicionados e novamente as amostras foram agitadas por mais 10 segundos, em seguida as mesmas foram centrifugadas a 13.200 g por 4 minutos. Os sobrenadantes foram transferidos para um novo tubo, e os precipitados foram descartados. Ao sobrenadante foi adicionado etanol 100% gelado. As amostras foram homogeneizadas gentilmente e incubadas por 1 minuto a temperatura ambiente, sendo centrifugadas posteriormente, seguindo as mesmas condições já descritas acima. Os sobrenadantes foram descartados e os precipitados, lavados com 1 mL de etanol 70%. As amostras foram centrifugadas nas mesmas condições, os sobrenadantes foram descartados e os preciptados secos em banho seco a 37oC por um período aproximado de 10 minutos. Após secagem, os preciptados foram ressuspensos em 40 µL de TE contendo RNase A (Tris-HCl 0,01 M, pH 8,0; EDTA 1 mM e RNase A 20 µg.mL-1) e incubados nesse tampão por 1 hora a 37oC. Ao final deste procedimento, alíquotas dos preciptados ressuspensos foram submetidas a uma digestão com enzimas de restrição EcoRI e BamHI para que o fragmento de interesse fosse liberado do vetor. O procedimento da digestão consistiu na adição de 5 µL da solução contendo os preciptados ressuspensos a qual continha os vetores pTZ57R/T contendo o fragmento inserido, 2 µL de tampão da enzima 10X (Tris-HCl 660 mM, pH 7,6; MgCl2 66 mM; DTT 100 mM e ATP 660 µM), 1 µL de EcoRI (5u), 1 µL de BamHI (5u) e água ultrapura q.s.p. 20 µL. As amostras foram homogeneizadas e então 44 Materiais e Métodos incubadas a 37oC por 2 horas. Após esse processo, as mesmas foram analisadas em gel de agarose 1%. 4.15.10 – Sequenciamento dos fragmentos Para o preparo dos clones para sequenciamento, três clones positivos foram submetidos a procedimentos descritos no item 4.15.9. Posteriormente, a concentração do DNA extraído foi estimada como descrito no item 4.15.5. Para o sequenciamento foram montadas duas reações, uma composta de 10 ng dos vetores e 3,2 pmol do iniciador reverse (5´CAGGAAACAGCTATGAC 3´) para o sítio M13 reverse do vetor e outra contendo 10 ng dos mesmos vetores e 3,2 pmol do iniciador forward (5` GTAAAACGACGGCCAG 3´) para o sítio M13 forward do vetor, para que as fitas pudessem ser sequenciadas separadamente. A reação de amplificação foi preparada com o kit Big Dye Terminator (Applied Biosystems) segundo informações fornecidas pelo fabricante. A reação procedeu-se em termociclador, com um aquecimento inicial de 92oC por 3 minutos e, então, foi submetido a 35 ciclos, baseados na seguinte programação: 92oC por 30 segundos, 49oC por 1 minuto, 72oC por 1 minuto. Ao final dos 35 ciclos programados, as amostras passaram por um período de extensão de 72oC por 30 minutos e, em seguida, foram resfriadas a 4oC, ainda no termociclador. Após realizada a reação de amplificação, a amostra foi transferida para um tubo de microcentrífuga novo, onde foi adicionado 40 µL de isopropanol 65%, solução foi homogeneizada e mantida por 30 minutos em temperatura ambiente com o intuito de precipitar o DNA. Os tubos contendo as amostras foram então centrifugados por 25 minutos a 12 000 rpm. Ao final deste processo, os sobrenadantes foram descartados e os tubos foram vertidos em papel para eliminar o restante do sobrenadante. Em seguida, os precipitados foram lavados com 200 µL de etanol 60% gelado e centrifugados por 5 minutos a 12 000 rpm. Os sobrenadantes foram descartados e o etanol restante foi eliminado pela inversão do tubo em papel, seguido de secagem em banho seco 60oC por 10 minutos. Os precipitados foram ressuspensos em 10 µL de formamida, sendo agitados vigorosamente. Após esta etapa, a solução foi 45 Materiais e Métodos transferida para a placa do sequenciador automático ABI 3130 (Applied Biosystems), para a determinação da sequência de nucleotídeos. 4.15.11 – Análise das sequências de nucleotídeos As sequências de nucleotídeos obtidas foram alinhadas utilizando a ferramenta do algorítimo do BLAST (http://www.ncbi.nlm.nih.org/Blast) e do ClustalW (http://www.ebi.ac.uk/Tools/clustalw/). 4.16 – Análise estatística Comparações entre os grupos foram feitas pelo Teste t de Student com organização não-pareada de dados, usando GraphPad Prism. Para todos os testes, uma diferença de P<0,05 foi considerada significativa. 46 Resultados 5 – RESULTADOS 5.1 – Efeito da fração protéica do epitélio intestinal de R. prolixus e de lipídeos na formação de hemozoína Existe um grande debate acerca de como exatamente o heme livre encontrado no vacúolo digestivo de P. falciparum é convertido em uma molécula não tóxica (hemozoína), a fim de evitar a lise da membrana, peroxidação lipídica, e outros efeitos do heme livre (Sullivan, 2002; Egan, 2002). Recentemente as evidências deslocaram-se das proteínas ricas em histidina HRP II ou III (Schneider & Marletta 2005) para os lipídios (Oliveira et al., 2005; Pisciotta et al., 2007). Uma evidência que mostra a importancia dos lipídeos adicionalmente ao papel das proteínas é o fato de que um clone de P. falciparum “knockout”, que não possui HRP II ou III, ainda apresenta capacidade de sintetizar hemozoína (Sullivan, 2002). No entanto, Tripathi et al. (2002) sugerem uma combinação entre proteínas e lipídios na formação eficiente de Hz. Vielemeyer et al. (2004) verificaram a associação de corpos lipídicos tanto no interior como no exterior de vacúolos digestivos em Plasmodium. Além disso, em S. mansoni e R. prolixus a formação de hemozoína foi vista como localizada em gotículas lipídicas e nas membranas perimicrovilares, respectivamente (Oliveira et al., 2005; Silva et al., 2007). De posse destas informações, investigamos a participação de lipídios e proteínas na formação de cristais de heme em R. prolixus. Primeiramente buscamos avaliar a função das proteínas e, em seguida, a contribuição dos lipídios polares (fosfatidilcolina e fosfatidiletanolamina) no processo de síntese de hemozoína. Tanto fosfatidilcolina como fosfatidiletanolamina, 15 µg de cada, são capazes de promover a síntese de hemozoína. Entretanto a atividade no ensaio que contem o extrato protéico é sempre maior que a atividade na presença dos lipídeos (Figura 10). Não foi observado o efeito sinergístico quando os lipídios são combinados ao extrato protéico. Além disso, a inversão da ordem de adição das moléculas (proteínas antes + lipídios ou lipídios antes + proteínas) não alterou o efeito na síntese de hemozoína (Figura 10). 47 Resultados Formação Hemozoína (nmols heme) 15 10 5 Pt n + PE + PE PE Pt n Pt n + PC + Pt n PC PC Pt n C tl 0 FIGURA 10 – Participação de proteínas e lipídios polares na formação de cristais de heme. Ctl – controle somente hemina; Ptn – proteína extraída de epitélio intestinal de R. prolixus; PC – micela de fosfatidilcolina; Ptn + PC - proteína extraída e adição posterior de micela de fosfatidilcolina; PC + Ptn – micela de fosfatidilcolina e adição posterior de proteína extraída; PE – micela de fosfatidiletanolamina; Ptn + PE - proteína extraída e adição posterior de micela de fosfatidiletanolamina; PE + Ptn – micela de fosfatidiletanolamina e adição posterior de proteína extraída. 5.2 – Capacidade de ligação de heme da α-glucosidase Silva et al. (2007) verificaram que a produção de MPMV tem um pico máximo de formação entre o 70 e 90 dias após alimentação em sangue, coincidindo com o período em que se observa o máximo de formação de Hz no lúmen intestinal de R. prolixus. Assim, o próximo experimento mostra o perfil de proteínas de ligação de heme no extrato protéico do epitélio intestinal de R. prolixus, através do ensaio da hemina agarose (Figura 12A). A seta em vermelho na figura destaca uma proteína com capacidade de ligação de heme usando a fração 27 da cromatografia de troca iônica, que possui atividade de αglucosidase. No mesmo gel foi aplicado 15 µg de extrato total de proteínas de epitélio intestinal de insetos alimentados com sangue de coelho. No entanto, esta parte do gel foi destinada a um ensaio de atividade da α-glucosidase, com intuito de detectar se esta enzima poderia ser uma candidata a proteína de ligação de heme (Figura 12B). A partir do gel de atividade podemos sugerir a capacidade de ligação de heme da α-glucosidase. A Figura 11 mostra o perfil cromatográfico obtido na troca iônica, sendo observado o aparecimento de um 48 Resultados pico na fração não retida, bem como 3 picos majoritários nas frações eluídas com o sal. 0.50 0.25 0.00 0 10 20 30 40 1.0 0.9 0.8 0.7 0.6 0.5 0.4 0.3 0.2 0.1 0.0 50 NaCl (M) Abs (280 nm) 0.75 Frações (mL) Figura 11 – Cromatografia de troca iônica em coluna DEAE (toyopearl) do extrato protéico do epitélio intestinal de R. prolixus. A coluna foi equilibrada com o tampão HEPES 20 mM, pH 7,4 e, em seguida, a eluição foi realizada em um gradiente de três passos com NaCl (0-0,5 M, 0,51 M e 1 M, respectivamente). O fluxo foi de 0,5 mL/minuto e foram coletadas 50 frações de 1 mL/tubo. 1 2 3 A 4 B FIGURA 12 – (A) Ensaio de identificação de proteínas de ligação de heme no epitélio intestinal de R. prolixus; (B) Atividade de α-glucosidase in gel. 1) fração 27 + heminaagarose; 2) fração 27 + hemina-agarose + hemina; 3) fração 27 e 4) proteína extraída de epitélio intestinal de fêmeas de R. prolixus alimentadas com sangue de coelho. Ambos os géis são 12% em condições desnaturantes e não-redutoras (SDS-PAGE). Em B o substrato utilizado foi o metilumbeliferil α-D-glucopiranosídeo. 49 Resultados 5.3 – Efeito da cloroquina (CLQ) na atividade da α-glucosidase Os efeitos terapêuticos de drogas quinolinas são bem descritos no tratamento da malária. No entanto, o mecanismo exato de ação não está completamente entendido (O’Neill et al., 1998). É sabido que as quinolinas afetam os mecanismos de detoxificação de heme aumentando a interação do heme com a membrana e, consequentemente, aumentam seus efeitos tóxicos tanto em P. falciparum como em R. prolixus (Slater et al., 1991; Oliveira et al., 2000). Outra explicação para efeito da CLQ é que sua interação com o heme impediria a formação do dímero que inicia a formação do cristal de hemozoína (Goldberg et al., 1990). Com base nos dados da literatura e nos resultados mostrados acima (tópico 5.2), a próxima abordagem foi analisar a relação entre as atividades de α-glucosidase e formação de hemozoína. Para isso analisamos os efeitos da presença de CLQ e variações de temperatura sobre as atividades da α-glucosidase e de síntese de hemozoína. A figura 11A revelou que na presença de CLQ, em diferentes concentrações do substrato, há uma redução na atividade da α-glucosidase. O mesmo perfil de alteração foi observado em relação à síntese de Hz, também utilizando diferentes concentrações de hemina, só que o efeito aqui foi ainda mais drástico (Figura 13B). Quando relacionamos a temperatura (100 0C por 10 min) verificamos que a estabilidade da α-glucosidase foi alterada e sua atividade foi basal, o mesmo ocorrendo com a síntese de Hz (Figuras 13A e 13B, respectivamente) . 50 Resultados B 1500 15 Formação Hemozoína (nmol Heme) Atividade α-glicosidase (mU/mL) A 1000 500 0 10 5 0 0 10 20 30 40 50 60 0 [S] 20 40 60 80 100 140 [μM Hemina] FIGURA 13 – (A) Atividade de α-glucosidase e (B) síntese de hemozoína in vitro: ▲ – controle; ■ – presença de CLQ; ● – amostra fervida. O ensaio de atividade de α-glucosidase foi determinado usando método colorimétrico. A atividade foi expressa como nmol de ρnitrofenolato liberado em 1 min. O ensaio de formação de hemozoína foi realizado por 24 h a 28 oC, como descrito em materiais e métodos. Atividade de formação de hemozoína foi expressa como nmol de cristal de heme, após 24 h, por 15 µg de proteína. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. 5.4 – Efeito dos inibidores da α-glucosidase na formação de hemozoína Eritritol (100 mM) e castanoespermina (30 mM), inibidores específicos de α-glucosidases, dietilpirocarbonato (DEPC) (10 mM), que reage com e modifica resíduos de histidina, e um anticorpo policlonal obtido contra α-glucosidase de D. peruvianus (1:2500) foram usados para investigar a correlação entre as atividades de α-glucosidase e formação de hemozoína (Figuras 14 e 15, respectivamente). Os efeitos de eritritol e castanoespermina foram inibitórios das atividades de α-glucosidase e formação de hemozoína. Os resultados mostram que ambas as atividades foram bastante sensíveis a esses agentes. DEPC é usado para revelar diferenças mecanísticas entre as α-glucosidases de mamíferos, plantas e levedura (Romaniouk & Vijay, 1997; Zeng & Elbein, 1998; Dhanawansa et al., 2002). Com relação a α-glucosidase de R. prolixus, DEPC inibiu 75% a atividade desta enzima bem como a formação de hemozoína (85%), sugerindo que resíduo(s) de histidina, dentro ou próximo ao sítio de ligação ao substrato da enzima, podem ser importantes para ambas as atividades. Um anticorpo contra α-glucosidase de um hemíptera fitófago D. 51 Resultados peruvianus, que é capaz de reconhecer eficientemente a enzima nas membranas perimicrovilares de R. prolixus (Silva et al., 2004), foi capaz de inibir drasticamente as atividades de α-glucosidase (83%) e formação de 500 400 300 200 * * 100 * * EP + A B C s EP + + EP EP + Er D EP C i 0 EP Atividade α-glucosidase (mU/mL) hemozoína (85%) in vitro (Figuras 14 e 15, respectivamente). FIGURA 14 – Atividades de α-glucosidase na presença ou ausência de inibidores in vitro. EP – extrato protéico de epitélio intestinal; EP + Eri - extrato protéico + eritritol; EP + DEPC extrato protéico + dietilpirocarbonato; EP + Cs - extrato protéico + castanoespermina; EP + AB extrato protéico + anticorpo anti α-glucosidase de D. peruvianus. O ensaio de atividade de αglucosidase foi determinado usando método colorimétrico. A atividade foi expressa como nmol de ρ-nitrofenolato liberado em 1 min. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. Os experimentos com inibidores foram significativamente diferentes do extrato protéico sozinho *(P < 0,05). O próximo conjunto de experimentos foi desenhado para avaliar se αglucosidase age apenas como iniciadora do processo de formação Hz ou se todo o processo é dependente da enzima. Para isso, o teste de formação de Hz foi realizado com extrato protéico do intestino médio de insetos previamente alimentados com sangue, na presença de DEPC (Figura 16A) ou do anticorpo anti-α-glucosidase de D. peruvianus (Figura 16B), adicionado inicialmente ou 10 horas após o início do experimento. Os resultados mostram que no último caso os inibidores não foram capazes de bloquear a formação de hemozoína. Isto indica que a enzima atua especificamente nas etapas iniciais do processo, 52 Resultados provavelmente na etapa de nucleação. Como forma de reforçar este dado, o efeito da desnaturação térmica da enzima foi testado da mesma maneira. O extrato protéico foi fervido por 10 min antes de iniciar o processo de síntese de hemozoína sendo capaz de reduzir sua capacidade de iniciar a nucleação. No entanto, quando a amostra foi fervida 10 horas após o início do ensaio não interferiu na ocorrência contínua do processo de formação Hz. Estes resultados sugerem que a enzima está implicada no processo de formação de Hz, particularmente na etapa de nucleação, uma vez que os inibidores específicos da α-glucosidase foram capazes de interferir na formação de hemozoína. 6 4 2 * * * * + A B C s EP + EP EP C D + EP EP + Er tl C i * 0 EP Formação Hemozoína (nmols Heme) 8 FIGURA 15 – Efeito dos inibidores da α-glucosidase na formação de hemozoína in vitro. Ctl - hemina; EP – extrato protéico de epitélio intestinal; EP + Eri - extrato protéico + eritritol; EP + DEPC - extrato protéico + dietilpirocarbonato; EP + Cs - extrato protéico + castanoespermina; EP + AB - extrato protéico + anticorpo anti α-glucosidase de D. peruvianus. Os ensaios de formação de hemozoína foram realizados a 28 oC como descrito em materiais e métodos. A atividade de formação de hemozoína foi expressa como nmol de cristal de heme, produzidos após 24 h, por 15 µg de proteína. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. Os experimentos com inibidores foram significativamente diferentes do extrato protéico sozinho *(P < 0,05). 53 Resultados A B 20 8 15 6 10 * 5 1 →0h A B + EP C tl + A B * C tl EP D 1 E →0h PC D EP EP C EP 10 10 0 → h °C 10 0 °C EP C tl + * 0 EP * + * C t D l EP C C tl + C s * A B * 2 0 * EP 4 EP Formação Hemozoína (nmols heme) 10 FIGURA 16 – Efeito da adição tardia dos inibidores de α-glucosidase na formação de Hz in vitro. Ctl - hemina; Ctl + AB - hemina + anticorpo; EP – extrato protéico de epitélio intestinal; 10h EP + AB - extrato protéico + anticorpo anti α-glucosidase de D. peruvianus; EP → AB – extrato protéico + anticorpo 10 h após iniciar o ensaio; Ctl + DEPC - hemina + dietilpirocarbonato; Ctl + 10h Cs - hemina + castanoespermina; EP + DEPC - extrato protéico + dietilpirocarbonato; EP → DEPC – extrato protéico + dietilpirocarbonato 10 h após iniciar o ensaio; EP 100 0C – extrato 10h protéico fervido por 10 min antes de iniciar o ensaio; EP → 100 0C – extrato protéico fervido 10 h após iniciar o ensaio. Os ensaios de formação de Hz foram realizados por 24 h a 28 oC como descrito em materiais e métodos. Atividade de formação de Hz foi expressa como nmol de cristal de heme, após 24 h, por 15 µg de proteína. Os resultados são representativos de dois experimentos realizados em triplicata. Os experimentos com inibidores foram significativamente diferentes do extrato protéico sozinho *(P < 0,05). 5.5 – Efeito da maltose na formação de hemozoína O efeito negativo dos inibidores da α-glucosidase (DEPC, castanospermina e eritritol) na formação de hemozoína sugere que uma mesma região da enzima possa estar envolvida em ambas as atividades. A fim de contribuir com dados que possam ajudar a elucidar essa questão, a atividade de formação de hemozoína foi realizada na presença de ambos maltose (30 mM), um substrato da α-glucosidase, e hemina , o substrato da atividade de formação de Hz. A fração 27 da cromatografia, contendo atividade de α-glucosidase, foi primeiramente incubada com maltose por 4 horas. Após este tempo, foi adicionada a hemina mas a síntese de hemozoína não ocorreu (Figura 17). No entanto, quando a hemina foi colocada no início do ensaio e, 54 Resultados somente após 4 horas a maltose foi adicionada, a formação de hemozoína ocorreu normalmente (Figura 17). Os resultados mostram que a ligação de maltose à enzima bloqueou a atividade de formação de hemozoína. Visto que a ligação de maltose e hemina são processos independentes, a explicação mais simples é que ambas as partes compartilhem o mesmo sítio de ligação. 2 1 * al M H + FC FC + M →4h al 4 →h FC al H * * C tl 0 M Formação Hemozoína (nmols heme) 3 FIGURA 17 – Atividade de formação de hemozoína na presença ou ausência de maltose 4h in vitro. Ctl - hemina; Mal - Maltose; FC – fração 27; FC + Mal → H - fração cromatografia + 4h maltose e hemina adicionada 4 h após o início do ensaio; FC + H → Mal - fração cromatografia + hemina e maltose adicionada 4h após o início do ensaio. Os ensaios de biomineralização forma realizados por 24 h a 28 oC, como descrito em materiais e métodos. Atividade de formação de hemozoína foi expressa como nmol de cristal de heme, após 24 h, por 8 µg de proteína. Os resultados são representativos de um experimento realizado em triplicata. O experimento em que a maltose foi adicionada antes foi significativamente diferente quando comparado com a proteína sozinha ou com a hemina adicionada primeiro *(P < 0,05). 5.6 – Silenciamento da α-glucosidase na síntese de hemozoína Silenciamento gênico pela utilização de RNA de interferência (RNAi), um fenômeno evolutivamente conservado, disparado pela presença de dsRNAs, é uma poderosa ferramenta para o estudo da função de genes em diferentes organismos (Fire et al., 1998). A introdução de dsRNA induz silenciamento gênico específico em organismos vivos produzindo um bloqueio na produção 55 Resultados da proteína correspondente (Hammond et al., 2001). Como conseqüência, RNAi mediado por dsRNA tem emergido como uma das técnicas mais promissoras para estudo da função gênica em diversos sistemas experimentais, particularmente em organismos não-modelos onde outros métodos de investigação são freqüentemente limitados (Fraser et al., 2000; Gonczy et al., 2000). Muito deste sucesso deriva do fato da técnica constituirse em um método simples, conveniente e barato de produzir e introduzir dsRNA dentro dos organismos. RNAi tem subsequentemente sido adaptado para uso em insetos, incluindo Anopheles gambiae, Drosophila melanogaster, Manduca sexta, Periplaneta americana, Oncopeltus fasciatus (Blandin et al., 2002; Hughes & Kaufman, 2000; Kennerdell & Carthew, 1998; Marie et al., 2000; St. Johnston, 2002; Vermehren et al., 2001; Zhou et al., 2002). O sequenciamento de bibliotecas de cDNA da glândula salivar de Rhodnius prolixus tem identificado muitos novos genes com funções desconhecidas (Ribeiro et al., 2004). A ferramenta funcional do RNAi forneceria meios potencialmente poderosos de investigar a função de muitas moléculas novas não caracterizadas em triatomineos. Apesar de RNAi ter sido demonstrado em muitas espécies, incluindo insetos hemípteras (Hughes & Kaufman, 2000), somente Araújo et al. (2006) utilizaram esta ferramenta em triatomíneos. Em R. prolixus a função da α-glucosidase na síntese de Hz foi investigada pela injeção de dsRNA de α-glucosidase (dsαGlu), construído com base na sequência gênica da α-glucosidase de Anopheles aquasalis. Dessa forma, dois experimentos foram realizados. No experimento 1 primers degenerados, baseado na sequência gênica de α-glucosidase de Ae. aegypti, D. melanogaster e A. aquasalis, foram usados como molde para síntese de dsαGlu. Injeções de dsαGlu foram realizadas diretamente na hemocele de fêmeas de R. prolixus e, posteriormente, foram alimentadas com sangue de coelho. Quatro dias após a alimentação os insetos foram analisados quanto a expressão gênica, atividade da enzima e formação de Hz. Animais tratados com dsαGlu apresentaram uma redução na expressão do gene, como revelado por análise de qPCR (Figura 18). Este efeito foi mais pronunciado em insetos injetados com 10 µg de dsαGlu quando comparado com insetos que receberam apenas 2 µg. Além disso, o efeito foi mais pronunciado em insetos injetados no quarto dia, quando comparado com insetos injetados no segundo dia após a 56 Resultados alimentação sanguínea. Isto pode ser resultado da diferença na atividade da αglucosidase: no quarto dia, a atividade da enzima é normalmente bem superior à de segundo dia, quando as membranas perimicrovilares são também muito mais abundantes (Silva et al., 2007). Após checar a eficiência do silenciamento por qPCR, nós investigamos se a injeção da dsαGlu poderia conferir um efeito detectável fenotipicamente. Para isso, tanto ovoposição quanto a mortalidade destes insetos foram acompanhadas durante os quatro dias. Os insetos injetados com 10 µg de dsαGlu apresentaram 44% de insetos mortos e uma redução de 40% na ovoposição (Tabela 2). Além disso, a hemolinfa destes insetos apresentou um aspecto avermelhado (Figura 19). Estes resultados estão de acordo com o fato de que a atividade da enzima no intestino médio de R. prolixus após injeção de dsαGlu diminui (Figura 20). Este efeito foi mais evidente no quarto dia após a alimentação sanguínea quando os insetos foram injetados com 10 µg de dsαGlu antes da alimentação. No segundo dia após alimentação em sangue, a diminuição na atividade de formação de Hz não foi significativamente diferente quando os insetos foram injetados com 2 ou 10 µg de dsαGlu. A diminuição da expressão do gene da α-glucosidase e da atividade enzimática foram acompanhadas pela inibição da formação de Hz (Figura 21). Esta inibição foi observada com 10 µg de dsαGlu, mas não com 2 µg de dsαGlu. Esses resultados demonstraram que o silenciamento foram mais evidente no quarto dia após alimentação, quando ambas as atividades desta enzima foi claramente comprometidas. Esses resultados evidenciam que a formação de Hz é dependente da α-glucosidase. No experimento 2, dupla fita de β-galactosidase de Escherichia coli (dsLacZ), em vez de dsαGlu, foi injetada usando o mesmo procedimento. Os resultados mostram que a expressão do gene da α-glucosidase, como revelado pela análise por qPCR (Figura 18B), não foi reduzida. A análise da atividade da α-glucosidase e da síntese de Hz demonstraram que injeções de dsLacZ não causaram reduções nos parâmetros em comparação aos insetos controle (Figuras 20B e 21B). 57 Resultados A B Expressão Relativa α-glucosidase 150000 PBS ____ 120000 ____ 125000 ____ dsRNA 10µg 95000 100000 dsRNA 2µg 75000 ____ dsRNA 2µg 70000 10000 10000 ____ dsRNA 10µg 5000 0 * C 2d C 4d * 2d 5000 * 4d 2d 0 4d 2d 4d 2d 4d FIGURA 18 – Expressão relativa do gene da α-glucosidase por qPCR no intestino médio de R. prolixus por injeção de: (A) dsαglu ou (B) dsLacZ in vivo. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 (controle), dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea) ou dsLacZ (2 ou 10 µg/fêmea) e analisado 2 (2d) ou 4 (4d) dias após a alimentação com sangue. Foram realizados 4 experimentos independentes. Cada experimento consiste em um pool de 6 fêmeas adultas. Os insetos injetados com 10 µg de dsRNA 4 dias após alimentação foram significativamente diferentes dos insetos controle *(P<0,05). TABELA 2 – Efeito fisiológico do silenciamento da α-glucosidase mediado por dsαGlu em Rhodnius prolixus. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 ou dsLacZ (controle) e dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea); mortalidade e ovoposição foram monitorados 4 dias após alimentação. PBS 4 dias dsLacZ 10µg dsαGlu 2µg dsαGlu 10µg Mortalidade (%) 10 20 25 44 * Ovoposição (ovos /fêmea) 25 22 16 10 * 58 Resultados B A FIGURA 19 – A) Hemolinfa R. prolixus alimentados com sangue de coelho, na ausência de dsαGlu. B) Aspecto da Hemolinfa de R. prolixus, 4 dias após a injeção de 10 µg de dsαGlu. 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 B PBS ____ ____ dsRNA 2µg ____ dsRNA 10µg * C 2d C 4d 2d 4d 2d 4d Atividade α-glucosidase (mU/epitélio) Atividade α-glucosidase (mU/epitélio) A 60 ____ dsRNA 2µg ____ 50 dsRNA 10µg 40 30 20 10 0 2d 4d 2d 4d FIGURA 20 – Atividade de α-glucosidase in vivo no intestino médio de R. prolixus injetados com: (A) dsαglu ou (B) dsLacZ. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 (controle), dsLacZ (2 ou 10 µg/fêmea) ou dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea) e analisado 2 ou 4 dias após a alimentação com sangue. Foram realizados 4 experimentos independentes. Cada experimento consiste em um pool de 6 fêmeas adultas. Os insetos injetados com 10 µg de dsRNA 4 dias após alimentação foram significativamente diferentes dos insetos controle *(P<0,05). 59 Resultados A B PBS ____ 700 600 500 400 ____ dsRNA 2µg 300 ____ dsRNA 10µg 200 * 100 0 C 2d C 4d 2d 4d 2d 4d Formação Hemozoína (nmols heme) Formação Hemozoína (nmols heme) 700 ____ dsRNA 2µg ____ dsRNA 10µg 600 500 400 300 200 100 0 2d 4d 2d 4d FIGURA 21 – Hemozoína produzida por R. prolixus injetados com: (A) dsαglu ou (B) dsLacZ. Os insetos foram injetados com 2 µL de PBS 100 mM pH 7,4 (controle), dsLacZ (2 ou 10 µg/fêmea) ou dsα-glu (2 ou 10 µg/fêmea) e analisado 2 ou 4 dias após a alimentação com sangue. Foram realizados 4 experimentos independentes. Cada experimento consiste em um pool de 6 fêmeas adultas. Os insetos injetados com 10 µg de dsRNA 4 dias após alimentação foram significativamente diferentes dos insetos controle *(P<0,05). 5.7 – Impacto da ingestão de heme sobre a atividade de α-glucosidase Glucosidases são enzimas importantes na digestão de carboidratos. Provavelmente, a pressão evolutiva determinou uma função diferente para esta enzima nos insetos hematófagos, visto que, proteínas, e não carboidratos, são nutrientes majoritários presentes nas dietas de insetos sugadores de sangue. Isto parece ser verdadeiro, porque α-glucosidases de levedura, ao contrário das α-glucosidases de R. prolixus, não apresentam atividade de síntese de hemozoína (dados não mostrados). Em mosquitos, Sessions et al., (2009) verificaram que a inibição da α-glucosidase acarreta uma diminuição da infecção do vírus da dengue (DENV-2). Em outros organismos hematófagos como, por exemplo, Lutzomyia longipalpis, há um aumento na atividade da αglucosidase quando na presença de dieta rica em sangue (Gontijo et al., 1998). O mesmo resultado já havia sido mostrado por Dillon & Kordy (1997) quando compararam a atividade de α-glucosidase em flebótomos alimentados com sangue ou sacarose. No presente trabalho, o efeito da ingestão de heme na atividade da α-glucosidase foi examinado in vivo (Figura 22). A atividade absoluta da α-glucosidase derivada do intestino médio de insetos alimentados 60 Resultados com plasma foi comparada com insetos alimentados com plasma na presença de hemina. A atividade no lúmen intestinal de insetos alimentados sem hemina foi menor quando comparada com insetos que se alimentaram com plasma suplementado com hemina, onde a atividade da α-glucosidase foi claramente aumentada, sugerindo uma função deste componente na regulação da 70 * 60 50 40 30 20 10 H 0 P + P Atividade α-glucosidase (mU/epitélio) atividade da enzima. FIGURA 22 – Influência do heme da alimentação na atividade de α-glucosidase em intestino médio de R. prolixus. P – insetos controle alimentados com plasma; P + H – insetos alimentados com plasma enriquecido com hemina (500 µM). Insetos foram alimentados com plasma de coelho na ausência ou presença de hemina. Quatro dias após alimentação, epitélios intestinais (n = 20) foram dissecados em salina gelada (NaCl 100 mM). A atividade de αglucosidase foi determinada pela medida da liberação de ρ-nitrofenolato α-D-glucopiranosídio. Resultados mostrados são representativos de três experimentos independentes realizados em triplicata. Plasma mais hemina é significativamente diferente de plasma *(P<0,05). 5.8 – Controle da expressão do gene da α-glucosidase pelo heme Heme é conhecido pela sua ação como um modulador da expressão gênica em muitos sistemas, como na regulação dos níveis de RNAm de citocromo P-450 e apoproteínas (Dwarki et al., 1987). O heme é uma molécula regulatória versátil e conhecida por regular processos celulares diversos, como diferenciação, transcrição e processamento pós-traducional em diferentes sistemas (Thomas et al., 1984). Assim, o próximo passo foi investigar se, além da sua ação sobre a atividade de formação de Hz, esta molécula atuaria como modulador da expressão gênica. Para isso foram utilizados insetos alimentados 61 Resultados com plasma de coelho na presença ou ausência de hemina. O RNA foi extraído e por RT-PCR foi analisada a expressão do gene da α-glucosidase, utilizando primers degenerados, como descrito em materiais e métodos. Como observado na figura 23, foi possível verificar um aumento do nível de transcrito de αglucosidase (fragmento de 750 kb) de insetos que foram alimentados com plasma na presença de hemina em relação a insetos alimentados apenas com plasma. Nível de expressão 4 3,7 * 3 2 1 0 1,0 P P+H FIGURA 23 – Influência do heme da alimentação na expressão da α-glucosidase em intestino médio de R. prolixus. P – cDNA plasma; P + H – cDNA plasma + hemina (500 µM). Insetos foram alimentados com plasma de coelho na ausência ou presença de hemina. Quatro dias após alimentação, epitélios intestinais (n = 20) foram dissecados em PBS 100 mM. Foi realizado extração de RNA total usando Trizol e posterior síntese de cDNA. Resultados mostrados são representativos de dois experimentos independentes realizados em triplicata. Plasma mais hemina é significativamente diferente de plasma *(P<0,05). 5.9 – Purificação e sequenciamento do fragmento gênico de αglucosidase A próxima etapa foi promover a purificação dos fragmentos de 750 e 250 kb do gel de agarose conforme descrito em materiais e métodos (Item 4.15) para posterior realização do sequenciamento. O fragmento gênico da αglucosidase possui um tamanho de 750 kb, sendo este fragmento visualizado em gel de agarose 1% (Figura 24). O ks foi utilizado com o intuito quantificar o fragmento a ser sequenciado. Como observado na figura 23, os fragmentos 62 Resultados foram totalmente purificados apresentando, aproximadamente, 30 ng/μL em comparação ao controle Ks (50 ng/μL). Com intuito de caracterizar a estrutura da enzima o cDNA da αglucosidase foi clonado e sequenciado. A figura 25 mostra a sequência de nucleotídeos e a sequência deduzida de aminoácidos da α-glucosidase de R. prolixus (GenBank FJ236283). O alinhamento das sequências de αglucosidases de Culex pipiens, Ae. aegypti, D. melanogaster, A. gambie, Geobacillus sp., Bacillus cereus e Saccharomyces cerevisae mostrou que a αglucosidase de R. prolixus possui 70% de identidade com Culex, 69% de identidade com a enzima de Aedes, 59% com a de Anopheles e 24% de identidade com a de Saccharomyces (Tabela 3). As diferenças e similaridades entre as enzimas de insetos, bactéria e levedura mostraram que a αglucosidase de R. prolixus é mais amplamente relacionada com as de insetos do que com enzimas de microrganismos (Tabela 3 e Figura 26). A sequência parcial da α-glucosidase de R. prolixus foi usada em um alinhamento mais detalhado utilizando o Clustal W para obtenção de um cladograma. Foram utilizadas sequências de α-glucosidases de insetos hematófagos, não hematófagos, mamíferos, leveduras, bactérias, peixes e roedores (Figura 27). Neste contexto, α-glucosidase de R. prolixus é mais amplamente relacionada com α-glucosidase de outros insetos hematófagos como Culex e Aedes. Essas enzimas (glucosidases) são encontradas em uma ampla variedade de organismos e seus loci gênicos são altamente conservados para diferentes espécies (Jacobson et al., 2001). M 1 2 3 4 750 kb 250 kb FIGURA 24 – Fragmentos purificados utilizando GFXTM PCR “DNA e Gel Band Purification Kit” e observados em gel de agarose 1%. M) Marcador de 1 kb; 1) Fragmento de 750 kb; 2) Fragmento de 250 kb; 3) 1 μL ks 50 ng; 4) 2 μL ks 50 ng. 63 Resultados FIGURA 25 – Sequência parcial de nucleotídeos do cDNA de α-glucosidase de R. prolixus e sua sequência deduzida de aminoácidos. A sequência de nucleotídeos utilizada para o desenho de primers específicos para qPCR estão sublinhadas. 64 Resultados TABELA 3 – Análise comparativa dos genes de α-glucosidases de diferentes espécies usando Blastx. Acessoa Função b E-value Organismos Similares Identidadec α-glucosidase 3e-145 Rhodnius prolixus 100 Insectos FJ236283 XP_001851486 α-glucosidase 8e-102 Culex quinquefasciatus 70 XP_001869889 α-amylase 4e-93 Culex quinquefasciatus 64 XP_001847532 α-glucosidase 5e-90 Culex quinquefasciatus 64 XP_001656785 α-amylase 7e-101 Aedes aegypti 69 4e-86 Anopheles gambie 59 Maltase 2 1e-71 Drosophila virilis 52 PDBd ZEO_A α-glucosidase 6e-47 Geobacillus sp. 27 PDB 1UOK_A Oligo-1,6-Glucosidase 1e-25 Bacillus cereus 27 α-glucosidase 2e-22 CAA60858 AAB82328 Maltase-símile Agm2 Bactéria Levedura CAA87020 Saccharomyces cerevisiae 24 a Número de acesso no GenBank database b Função de acordo com o BLASTx c Identidades (%). d Protein Data Bank Estudos prévios indicaram que proteínas ricas em histidina de Plasmodium falciparum (PfHRP2) têm capacidade de ligarem-se a heme (Choi et al., 1999) e têm sido implicadas na formação de hemozoína (Schneider & Marletta, 2005). O sítio ativo de α-glucosidases possui resíduos de histidina e ácido aspártico altamente conservados (Shirai et al., 2008). Aqui a análise da α-glucosidase de Rhodnius prolixus (AGluRp) mostrou resíduos conservados de histidina e ácido aspártico no sítio de ligação ao substrato da enzima. No entanto, um significativo desvio na posição desses resíduos-chave foi observado quando se compararam as sequências de R. prolixus e de S. cerevisae (AGluSc) (Figura 26). Através de um alinhamento com αglucosidases de insetos, bactérias e leveduras, descobrimos que os resíduos His69, Asp132 e Asp159 não são conservadas em AGluSc. Este resultado somado ao fato de que α-glucosidase de levedura não possui atividade de 65 Resultados síntese de Hz (dados não mostrados) pode ser um indício do envolvimento desses resíduos no processo de biomineralização do heme. FIGURA 26 – Alinhamento da sequência de aminoácidos das α-glucosidases de R. prolixus (AgluRp), Culex quinquefasciatus (AGluCulex, AGluCulex2, AGluCulex3), α-amylase de Aedes aegypti (AmAeds), maltase-símile Agm2 de Anopheles gambiae (MaltaseAgm2), maltase 2 de Drosophila virilis (Maltase2Dv), α-glucosidase de Gsj (AgluGsj), Oligo-1,6-Glucosidase de Bacillus cereus (GluOligo) e α-glucosidase de Saccharomyces cerevisiae (AgluSc). Resíduos idênticos são indicados por ‘‘*’’; resíduos conservados e semi-conservados são indicados por ‘‘:’’ e ‘‘.’’, respectivamente. Resíduos de ácido aspártico e histidina presentes em AGluRp e também presentes em AGluSc são marcados em cinza. A predição da estrutura secundária usando JPred server é representada em vermelho (α-hélices), verde (folhas β) e azul (alças). 66 Resultados FIGURA 27 – Árvore filogenética baseada no alinhamento das sequências protéicas de αglucosidases usando ClustalW: Rhodnius prolixus, Aedes aegypti, Culex quinquefasciatus, Anopheles gambiae, Drosophila melanogaster, Tribolium castaneum, Thermus thermophilus, Nocardia farcinica, Homo sapiens, Rattus norvegicus, Mus musculus, Xenopus laevis, Danio rerio, Ixodes scapularis, Bos Taurus e Acyrthosiphon pisum. A numeração representa as distâncias entre as espécies. 5.10 – Formação de Hz por α-glucosidases de espécies não-hematófagas Alfa-glucosidases têm sido descritas em diferentes grupos de insetos geralmente associadas ao processo digestivo. Entretanto, alguns trabalhos em hemípteras mostram o envolvimento dessas enzimas em diferentes funções que não a digestão. Em pulgões, por exemplo, α-glucosidases parecem ser essenciais no controle da osmolaridade em dietas contendo sacarose (Ashford et al., 2000; Salvucci, 2000). Dessa forma, a próxima etapa foi testar a hipótese de que αglucosidases de insetos não hematófagos têm a capacidade de formar hemozoína in vitro como uma pré-adaptação que permitiu o surgimento da hematofagia neste grupo de insetos. Esta hipótese foi testada usando-se epitélio de Dysdercus peruvianus (Figura 28A), um sugador de sementes de algodão, e Quesada gigas (Figura 28C), a cigarra, em ensaios de formação de Hz. Os resultados mostram que a incubação do extrato protéico desses epitélios com hemina promoveu a formação de cristais de heme, insolúveis em tampão carbonato-bicarbonato:SDS, pH 9,1, no qual o heme monomérico é solúvel. Para determinar se os cristais de heme têm a mesma estrutura química da Hz, o material formado pelo ensaio foi submetido ao espectro de FTIR. A espectroscopia de FTIR detecta a ligação carbono-oxigênio do grupo carbonila 67 Resultados ao átomo de ferro com a formação do cristal nos picos de 1207 e 1660 cm-1. Tanto para D. peruvianus (Figura 28B) quanto para Q. gigas (Figura 28D), esses picos estão presentes e são idênticos ao já descrito para R. prolixus (Oliveira et al., 1999) e a β-hematina sintética (Chen et al., 2001). B A Formação Hemozoína (nmols Heme) 2.0 1.5 1.0 0.5 0.0 S P D C Formação Hemozoína (nmols Heme) 7.5 5.0 2.5 0.0 S P FIGURA 28 – Atividade de síntese de hemozoína usando extrato protéico de epitélio intestinal de Dysdercus peruvianus (A e B) e Quesada gigas (C e D). Os epitélios intestinais foram coletados e submetidos a extração de proteínas. O ensaio de síntese de hemozoína foi realizado usando 12 μg de proteína do sobrenadante (S) ou do precipitado (P). A e C Æ ensaio de formação de cristais de heme; B e D Æ Espectro de FTIR do cristal produzido in vitro. 68 Discussão 6 – DISCUSSÃO A formação de hemozoína, em adição a outras estratégias para superar a toxicidade do heme (Graça-Souza et al., 2006), é um mecanismo eficiente para reduzir a disponibilidade de heme no intestino médio de certos organismos hematófagos, como o Dipetalogaster maxima (Oliveira et al., 2007) e o R. prolixus (Oliveira et al., 2000; Oliveira et al., 1999). A primeira evidência que nos levou a sugerir a participação de uma αglucosidase no processo de formação de hemozoína foi a forte correlação observada entre a atividade da enzima e a quantidade de hemozoína formada no intestino médio de R. prolixus (Silva et al., 2007). Esta atividade foi associada à fração protéica do epitélio intestinal deste inseto. Isto levou à conclusão de que o intestino tem um componente protéico que promove a formação de hemozoína. É provável que o ambiente hidrofóbico da membrana favoreça esta atividade, pois quando os dois componentes (lipídios e proteínas) foram colocados juntos no ensaio de formação de hemozoína, foi observado um efeito sinergístico (Silva et al., 2007). Este fato é interessante, pois apesar dos lipídios apresentarem uma menor participação é possível que eles criem um ambiente favorável para a formação de hemozoína. Pisciotta & Sullivan (2008) propõem que as gotas de lipídeos catalisem a formação de Hz concentrando o heme lipofílico no ambiente aquoso em que a degradação de hemoglobina ocorre no Plasmodium. A exclusão da água facilitaria a transição do dímero aquoso para o que chamaram de dímero cristalino de heme formado pela ligação Fe (III) – carboxilato. No vacúolo digestivo de Plasmodium existem corpos lipídicos compostos de lipídios neutros e polares sugerindo que alguns lipídios polares podem estar na superfície com o interior composto de lipídios neutros (Pisciotta et al., 2007). No entanto, no presente trabalho foi mostrado que a contribuição de lipídios polares no processo de síntese de Hz é muito menor, quando comparada a das proteínas (Figura 10), nas condições analisadas. Provavelmente a interface entre a membrana perimicrovilar e a fase aquosa no lúmen intestinal é um requisito importante para promover a formação do dímero cristalino neste inseto. Esta teoria está de acordo com as micrografias eletrônicas de transmissão observadas por Oliveira et al. (2005), 69 Discussão que descobriu a formação de hemozoína no interior de vesículas delimitadas por uma bicamada. Silva et al. (2004) mostraram uma forte e pontual marcação quando a MPMV era incubada na presença de diaminobenzidina, numa condição que detecta a atividade peroxidásica associada à presença de heme, indicando uma associação específica do heme às membranas. A soma desses resultados reforça a idéia de que o ambiente lipofílico da membrana pode ser essencial para a síntese de Hz. Embora a literatura apresente fortes evidências que sugerem que lipídios são importantes fatores na formação de hemozoína, Egan (2008b) verificou que o estudo da função de proteínas pode ser visto como um futuro importante nesta área. O autor sugere que o crescimento da estrutura cristalina é um processo auto-catalítico, mas a nucleação para formação de hemozoína depende de um ambiente lipídico. No entanto, ainda não está claro como esta nucleação ocorre (Egan 2008b). A partir dos resultados obtidos no presente trabalho, é razoável supor que a α-glucosidase desempenhe a função de heme nuclease para formação de hemozoína no intestino médio de R. prolixus. Visto que esta é uma enzima presente nas membranas perimicrovilares, é possível que a α-glucosidase inicie a ligação do heme (Figura 12) liberado a partir da degradação da hemoglobina do hospedeiro vertebrado e, assim, promova a formação do dímero inicial. A habilidade para catalisar reações de transglicosilação é uma característica das α-glucosidases (Ferrer et al., 2005). Na reação de transglicosilação, a enzima transfere unidades glicosídicas de uma molécula doadora ativa para aceptores específicos, formando ligações glicosídicas específicas. Estas reações são essenciais para formação de glicoconjugados envolvidos principalmente em eventos de reconhecimento celular (Lovering et al., 2007). Assim, a habilidade das α-glucosidases de formarem uma ligação glicosídica pode ajudar a explicar sua ação na formação da ligação ferro-carboxilato, etapa chave na formação de hemozoína. Esforços têm sido empreendidos para se caracterizar o mecanismo de formação de hemozoína no parasita da malária, Plasmodium, e em outros modelos, mas esta ainda é uma questão controversa, pois diferentes fatores têm sido sugeridos como determinantes no processo de formação de hemozoína. A consequência destas muitas visões é que ainda não há um consenso sobre o mecanismo de formação de hemozoína in vivo (Egan, 70 Discussão 2008a). No Plasmodium, a presença de uma enzima foi implicada no processo, quando o extrato bruto de trofozoítos foi capaz de promover a formação de hemozoína in vitro, sendo aparentemente sensível ao aquecimento, já que tal atividade foi extinta quando a amostra foi fervida (Slater & Cerami 1992). Depois disso, uma nova proteína, HDP (“heme detoxification protein”) foi associada à síntese de Hz no Plasmodium (Jani et al., 2008). O presente trabalho mostra que uma α-glucosidase promove a formação de hemozoína no intestino médio de R. prolixus. Oliveira et al. 2000 mostraram que a formação de hemozoína in vitro induzida por uma fração particulada de epitélio intestinal de R. prolixus foi fortemente inibida por cloroquina (CLQ). In vivo, quando os insetos foram alimentados com sangue na presença de CLQ, a síntese de Hz também foi inibida. Estes resultados foram confirmados em nosso trabalho e, além disso, observamos que a CLQ foi capaz de inibir a atividade da α-glucosidase in vitro (Figura 13). Entretanto, o mecanismo de inibição da CLQ sobre a atividade primária da enzima ainda não é compreendido. Adicionalmente, quando um anticorpo anti α-glucosidase de D. peruvianus foi usado no ensaio de síntese de hemozoína, verificou-se uma diminuição no processo de síntese (Figura 14 e 15). Estes ensaios confirmaram a relação direta entre uma carboidrase e a atividade de formação de cristais de heme, assim como a reciprocidade de ação dos inibidores das duas atividades da enzima.. DEPC é um inibidor de várias enzimas por modificação de resíduos de histidina, formando N-carbetoxihistidil (Coan & DiCarlo, 1990) ou por condensação dos ε-amino grupos dos resíduos de lisina com os grupos carboxílicos dos resíduos de ácido glutâmico e ácido aspártico (Wolf et al., 1970). Lynn et al. (1999) têm sugerido que ácido aspártico é mais importante para o pH necessário à formação de hemozoína. Nakanishi et al., (2008) verificaram que o uso do DEPC pode ser um método eficaz para caracterizar o estado de protonação de resíduos de histidina no sítio ativo de heme proteínas. De acordo com nossos dados, e com os requerimentos físico-químicos para a formação de hemozoína (Egan 2008a), proteínas devem representar uma importante função como sítio de nucleação para o crescimento do cristal de heme. Esta hipótese tem sustentação nas figuras 16A e B que mostram que a adição de inibidores de α-glucosidase, após o ensaio ter sido iniciado, 71 Discussão interferem negativamente na atividade de síntese de hemozoína. Estes resultados mostram que o DEPC tem uma ação inibitória sobre a atividade de formação de Hz, o que indica que resíduos de histidina estão provavelmente envolvidos neste processo. Entretanto se a adição dos inibidores for feita 10 h após o início do ensaio o efeito inibitório na síntese de hemozoína não é mais observado. O mesmo resultado foi obtido a partir da desnaturação térmica da enzima. Se a enzima for desnaturada termicamente 10 horas após o início da incubação, a formação de Hz não pode mais ser interrompida. Assim, sugerimos que esta enzima age como sítio de nucleação, iniciando o processo de formação de hemozoína. Uma vez iniciada, a formação de hemozoína pode continuar, provavelmente por autocatálise, na ausência da enzima. Portanto, se a nucleação ocorrer de maneira eficiente, o crescimento do cristal ocorre de maneira espontânea (Egan 2008a). O sequenciamento do cDNA da α-glucosidase de R. prolixus mostrou que sua sequência deduzida de aminoácidos apresenta alta identidade com αglucosidases de outros insetos hematófagos (Figura 27 e Tabela 3). Outro fato importante na análise das sequências é a presença de alguns importantes resíduos de aminoácidos conservados no sítio ativo das α-glucosidases de insetos, como histidina, ácido aspártico e ácido glutâmico. No entanto, alguns desses resíduos chaves não foram observados em α-glucosidase de levedura. Esta diferença estrutural pode ocasionar com mudanças na geometria do sítio ativo e especificidade do substrato, bem como na eficiência catalítica. A alta proporção de ácido aspártico é sugestiva da função deste aminoácido no processo de ligação de heme nos pHs menores que 6.0 (Lynn et al., 1999). Em um primeiro momento, isto sugere que o sítio da enzima que acomoda o heme poderia conter resíduos carboxilato. Propriedades de ligação a metais estão associadas com aminoácidos contendo cadeias laterais carboxilato, imidazol e hidroxil (Tainer et al., 1992). Em R. prolixus a ligação de heme na enzima poderia envolver tanto resíduos de histidina como de ácido aspártico no sítio de ligação ao substrato. Assim, a inibição por DEPC (Figura 15 e 16A), somada aos dados obtidos por comparação das sequências (Figura 26), nos permite propor o envolvimento dos resíduos His69, Asp132 e Asp159 no sítio enzimático envolvido com a atividade de síntese de Hz. 72 Discussão A atividade primária da enzima α-glucosidase é catalisar a reação de clivagem específica de oligossacarídeos como a maltose, em glicose (Dixon & Webb, 1979). A figura 17 mostrou que a pré-incubação deste substrato no meio de reação inibe a formação de Hz. Assim, é razoável supor que o heme poderia ligar-se à α-glucosidase no mesmo sítio que a maltose. Portanto, do ponto de vista da atividade de formação de Hz, a maltose parece se comportar como um inibidor competitivo, impedindo o acesso da hemina sobre o sítio de ligação ao substrato, já que a concentração de maltose (500 mM) testada foi suficientemente maior do que a concentração de hemina (100 mM). O silenciamento do gene da α-glucosidase por injeção de dsαGlu resultou em uma redução das atividades de α-glucosidase e de formação de hemozoína em um padrão muito similar (Figuras 20 e 21). Os fenótipos foram analisados 2 e 4 dias após a alimentação sanguínea. No entanto, o efeito do RNAi foi evidente somente no 40 dia após a alimentação. A atividade de αglucosidase é baixa nos primeiros estágios da digestão sanguínea no intestino médio de R. prolixus (Silva et al., 2007). Similarmente, a formação de hemozoína no lúmen intestinal é também baixa neste período. No 20 dia após alimentação, é provável que o nível de RNA mensageiro de α-glucosidase seja baixo, o que explica o efeito discreto do RNAi. No entanto, no dia 4 após alimentação, o nível de RNAm de α-glucosidase é maior, o que reflete uma alta atividade de α-glucosidase. Em consequência o efeito do silenciamento é mais evidente. Concomitantemente com a redução na atividade de α-glucosidase, é possível detectar também uma redução na quantidade de hemozoína formada no intestino médio de R. prolixus 4 dias após alimentação, demonstrando que o silenciamento da enzima comprometeu a habilidade de formação de hemozoína no intestino médio deste inseto. Esta é a primeira demonstração de uma carboidrase envolvida em processos de detoxificação de heme. As consequências da inibição da formação de hemozoína são bem conhecidas (Graça-Souza et al., 2006; Kumar et al., 2007). A alteração dos níveis de heme livre no intestino médio poderia resultar na sua passagem para a hemocele, aumentando o potencial pró-oxidante deste ambiente, o que poderia levar a um aumento do risco de danos fisiológicos (Oliveira et al., 2000). Além da diminuição da atividade de formação de Hz, em insetos injetados com dsα-Glu, a hemolinfa apresentou uma coloração vermelha 73 Discussão intensa. Isto sugere lise das membranas celulares e extravazamento para a hemocele de parte do sangue ainda não digerido, presente no trato digestivo (Figura 19). Interessantemente, durante os experimentos de RNAi, 44% dos insetos morreram (Tabela 2), sugerindo uma forte ação do silenciamento da αglucosidase em processos fisiológicos vitais. Estes resultados mostram o impacto da inibição dos processos de detoxificação de heme e o papel crucial da enzima α-glucosidase nesta atividade essencial. Insetos hematófagos como Phlebotomus papatasi (Jacobson & Schlein, 2001) e Aedes aegypti (Whitby et al., 2005), apesar de possuírem uma dieta pobre em carboidratos, possuem uma alta atividade de α-glucosidase quando alimentados com sangue. Em R. prolixus, a hemina ingerida na alimentação foi capaz de aumentar tanto a expressão do gene da α-glucosidase quanto a atividade da enzima, sugerindo que o heme pode ser um importante regulador da síntese da α-glucosidase (Figuras 22 e 23). Esta característica poderia representar um mecanismo adaptativo como um forma de lidar com o alto conteúdo de heme durante a digestão de sangue. Dillon & Kordy (1997) compararam as atividades de α-glucosidase do intestino médio de flebótomos que se alimentaram de sangue com aqueles que se alimentaram com sacarose. Os resultados revelaram uma maior atividade específica no intestino médio dos insetos que se alimentaram de sangue. É possível que esta enzima desempenhe uma função na detoxificação de heme também neste modelo. Para melhor compreensão do processo de formação de hemozoína no lúmen intestinal de R. prolixus, o presente estudo forneceu dados importantes para complementar os pontos discutidos na revisão realizada por Egan (2008a). Deve ser lembrado que enzimas proteolíticas como catepsina B símile, catepsina D símile e carboxipeptidades A e B são secretadas com atividade máxima entre 6 e 7 dias após alimentação (Terra, 1988), agindo na hemoglobina do espaço luminal. Durante o mesmo período, a α-glucosidase apresenta uma elevada atividade com um aumento na produção de membranas perimicrovilares (Silva et al., 2007; Billingsley &Downe 1983). Neste contexto, α-glucosidase pode iniciar a ligação de heme durante sua lenta liberação pela degradação da hemoglobina, permitindo a precipitação do heme livre em um ambiente com pH ácido do intestino médio de R. prolixus. Stiebler et al., (2010) mostraram que a degradação da hemoglobina, e consequente 74 Discussão liberação de heme, é rapidamente acoplada à síntese de Hz nas membranas perimicrovilares de R. prolixus. É possível que este acoplamento se dê através da nucleação da Hz pela α-glucosidase nas membranas perimicrovilares, em que o processo de crescimento do cristal é sustentado em um ambiente não tamponante. A investigação do mecanismo de ação da α-glucosidase neste processo pode fornecer resultados importantes para o desenvolvimento de novas drogas ou novas estratégias de controle do vetor. A principal meta do estudo da evolução molecular é entender a dinâmica e os mecanismos através dos quais mudanças nas sequências gênicas mudam a função e consequentemente o fenótipo (Golding & Dean, 1998). O completo entendimento deste processo requer análises de como mudanças na estrutura da proteína mediam o efeito de mutações na sua função (Vatzaki et al., 1999). Além disso, o estudo das construções de proteínas tem elucidado as relações entre estrutura e função que determinam o processo evolutivo (Turner et al., 2005). Para identificar diretamente o mecanismo pelo qual mutações geraram novas funções, no entanto, é necessário comparar proteínas através do tempo. No curso da evolução, organismos que selecionaram o sangue como fonte de nutrientes, consequentemente adotaram um conjunto de estratégias para superar a toxicidade do heme e adaptá-las a este hábito alimentar (GraçaSouza et al., 2006). A hematofagia tem aparecido independentemente muitas vezes durante a evolução dos artrópodes (Ribeiro, 1995) e diferentes grupos de organismos hematófagos, nos dias atuais, são derivados de ancestrais nãohematófagos. Para o sucesso destes organismos, algumas adaptações préexistentes foram determinantes, como o desenvolvimento de partes bucais com características perfuro-cortantes (Lehane, 2005). Adicionalmente algumas características fisiológicas também foram essenciais no sucesso do hábito de se alimentar de sangue (Ribeiro & Francischetti 2003). Neste caso, se alguns insetos hematófagos são derivados dos insetos fitófagos, pré-adaptados a sugar seiva, a conservação de enzimas como as α-glucosidases poderia representar uma das mais importantes pre-adaptações que resultaram na aptidão à hematofagia. Na presente tese, foi possível observar que D. peruvianus e Q. gigas são capazes de formar cristais de heme in vitro (Figura 28). Assim, nossos resultados corroboram esta idéia, mostrando que a 75 Discussão estrutura da α-glucosidase pode ter sido uma pré-condição importante para a hematofagia em alguns grupos de insetos com digestão ácida. 76 Conclusões 7 – CONCLUSÕES ► Nas condições aqui utilizadas, a fração protéica do intestino médio de R. prolixus apresenta uma maior capacidade de síntese de hemozoína quando comparada à ação de lipídios polares; ► Cloroquina, droga antimalária, foi capaz de inibir a atividade da αglucosidase e os inibidores específicos da α-glucosidase apresentaram efeito inibitório sobre a síntese de hemozoína, indicando que esta é a enzima responsável pela formação de cristais de heme em R. prolixus; ► O silenciamento do gene da α-glucosidase por RNAi foi capaz de reduzir a atividade de síntese de hemozoina, confirmando o envolvimento desta enzima neste processo. Além disso, foi observada uma alteração nos padrões fisiológicos vitais como redução na ovoposição e aumento da mortalidade neste grupo de insetos; ► A atividade e a expressão de α-glucosidase no intestino de insetos alimentados com plasma enriquecido com hemina são maiores quando comparadas as de intestino de insetos alimentados com plasma na ausência de hemina, sugerindo uma regulação desta enzima pelo heme; ► Os resíduos conservados His69, Asp132 e Asp159 presentes no sítio de ligação ao substrato provavelmente são relevantes na atividade de síntese de hemozoína; ► Nossos resultados indicam claramente que a α-glucosidase do epitélio intestinal de Rhodnius prolixus é responsável pela etapa de nucleação no processo de formação de hemozoína. 77 Referências Bibliográficas 8 – REFERÊNCIAS BIBLIOGRÀFICAS Aft, RL & Muller, GC (1984). Heme-mediated DNA strand scission. J. Biol. Chem. 258: 12069-12072. Allaby, M (1999). Transglycosylation. A Dictionary of Zoology. 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