IMPORTAÇÃO DE TECNOLOGIA TÊXTIL DA ALEMANHA PARA O BRASIL
Joseane Aparecida Nuss
RESUMO
Alguns segmentos do cenário econômico não deixam de crescer. Pode-se
citar dentre eles o alimentício, de tecnologia de informação e produção têxtil.
Este artigo, examinando a participação do Vale do Itajaí no mercado têxtil
brasileiro, traz informações de como as empresas locais se comportam ao notar a
necessidade de obter tecnologias necessárias para manter a competitividade no
mercado local e buscar um espaço no mercado têxtil mundial.
O Brasil é um país emergente, possui um mercado crescente, e isso faz com
que ainda haja, naturalmente, deficiências em alguns tipos de tecnologia. Este artigo
vem informar o cenário atual apontando as lacunas desse setor.
PALAVRAS-CHAVE: importação de tecnologia; importação têxtil da Alemanha.
1. INTRODUÇÃO
O fato de estar localizado em uma região pólo de têxteis não significa que a
região possui tecnologia altamente desenvolvida.
O setor gera lucros, empregos, mas quando há desenvolvimento, conquista
de mercado, existe a competitividade interna e externa. Institui-se a exigência da
indústria permanecer em constante processo de reciclagem, desenvolvimento e
atualização para o mercado.
A industrialização é recomendada como um meio de modernização política e
social (LEFF, 1968, p.4).
O Brasil obteve nos últimos anos, pouco aprimoramento de tecnologias.
Segundo entrevista efetuada com Sr. Carlos Matias Nuss, ex-técnico que trabalhou
cerca de dez ano na Schlafhorst, empresa alemã com sede em Ebersbach que
desenvolve máquinas de AUTOCORO1 que transformam algodão in natura em fio,
1
AUROCORO: máquina de fiar automática produzida pela empresa Schlafhorst.
2
cerca de 95% dos maquinários e suplementos como placas eletrônicas, cardas,
linhas de abertura e peças de substituição encontradas nas fábricas da região são
de origem estrangeira e isso se reflete em todo o país.
Em geral o maquinário que é projetado e desenvolvido no Brasil é de
qualidade inferior ao que é fornecido no mercado externo. A marca nacional tem
menos eficiência, dispõe de menos funções de regulagens para diferentes tipos de
fios, trabalha mais lenta e tem uma aceitação menor com relação ao algodão de
qualidade pouco inferior. A qualidade da produção do fio reflete também na
produção da malha e outros tecidos, inclusive em questões de finalização como
tinturaria e beneficiamento. Esse maquinário, além acarretar a produção de um
produto inferior para o mercado, chega a custar para a empresa quase o dobro do
valor de uma máquina modernizada proveniente do país europeu Alemanha.
De um lado questionamos como o governo não cria medidas para dificultar a
forte entrada dessa tecnologia oriunda do mercado externo quando poderia facilitar
as empresas nacionais produtoras desses maquinários a investirem em pesquisa e
desenvolvimento. Poderiam elas próprias produzirem os maquinários para abastecer
quem fabrica os produtos finais dentro do país gerando assim um lucro interno
maior.
Por outro lado, existe o paradigma do retrocesso e a falta da necessidade de
estudar e elaborar algo já criado e disponível no mercado. No sistema econômico
atual capitalista que se baseia em movimentação para geração de lucros, a
importação de tecnologia têxtil de alta qualidade foi a saída encontrada pelas
empresas locais suprir necessidade adequada para elaboração de um produto final
de qualidade para o seu mercado.
Segundo
Vazquez (2007,
p.7) afirma que
as
trocas
internacionais
representadas pelas exportações e importações podem favorecer o surgimento de
novas linhas de produção que seriam traduzidas em mais postos de trabalho.
A indústria têxtil tinha um alto grau de difusão técnica, o que permitia a
cópia com facilidade, não exigindo alto comando e vultuosos recursos
financeiros. Bastava trabalhar numa tecelagem inglesa, depois atravessar o
Atlântico e repassar todos os ensinamentos a um industrial para ter um
sistema fabril têxtil completo. Dada esta facilidade, os imigrantes trouxeram
para o Brasil habilidades técnicas, as quais foram transferidas às indústrias
têxteis que surgiram em algumas cidades (GOULARTI, 2007, p. 93 a 94).
3
Conforme Sr. Amilton José Erthal2 relata, o parque fabril brasileiro necessita
de renovação e ampliação, e que está inferior a outros países que possuem
produção têxtil em expansão.
2. INÍCIO HISTÓRICO DO COMÉRCIO INTERNACIONAL
O comércio exterior originou-se há muitos século, iniciou-se com a troca dos
excessos de mercadorias produzidas nas comunidades. Nessas trocas não eram
utilizadas nenhumas moedas, eram trocas de favores.
Na Idade Média com o feudalismo, onde havia os grandes senhores
proprietários de terras e de poder político que exploravam os trabalhadores e
camponeses, o comércio era bastante fechado. Os senhores impossibilitavam os
servos de ir e vir com suas mercadorias; além das péssimas condições das estradas
e forte presença de saqueadores.
A expansão comercial foi impulsionada apenas com a ação das Cruzadas,
que foram organizadas pelos cristãos da Europa Ocidental a fim de libertar
Jerusalém e outras regiões da Palestina. Foram oito cruzadas, na maioria delas com
fins religiosos com a exceção da quarta cruzada que aconteceu de 1202 a 1204
onde os fins foram comerciais. O resultado das cruzadas foi a expulsão dos
mulçumanos do mar mediterrâneo por parte dos europeus criando um elo entre a
Europa e o Oriente. Nessa altura os europeus já haviam se encantado com as
especiarias daquele lugar, criando assim um mercado para esses produtos como
afirma Hubermann:
Dezenas de milhares de europeus atravessavam o continente por terra e
mar para arrebatar a Terra Prometida aos muçulmanos. Necessitavam de
provisões durante o caminho e os mercadores os acompanhavam a fim de
fornece-lhes o que precisassem. Os cruzados que regressavam de suas
jornadas ao Oriente traziam com eles o gosto pelas comidas e roupas
requintadas que tinham visto e experimentado. Sua procura criou um
mercado para esses produtos (HUBERMAN, 1986, p. 86).
2
AMILTON JOSÉ ERTHAL: diretor da Erdeck Representações, representada oficial da GmbH Terrot
empresa alemã sediada em Chemnitz fundada em 1862, primeira fabricante de teares circulares do
mundo que transformam fios de algodão em tecido.
4
Com a expansão da Europa no século X, foi gerada uma grande demanda por
diferentes produtos. O comércio começou a evoluir e nessa época iniciaram-se as
grandes feiras onde eram negociados no atacado produtos de diversas partes do
mundo.
Nesse período da história o sistema feudal enfraqueceu perante os
comerciantes que então adquiriram auxílio dos Reis, fortalecendo-os. Toda essa
reviravolta aos poucos foi construindo o sistema do qual vivencia-se hoje, o
capitalismo.
Organização econômica em que as atividades de produção e distribuição,
obedecendo aos princípios da propriedade privada, da competição livre e do
lucro, produzem uma divisão da sociedade em duas classes antagônicas,
porém vinculadas pelo mecanismo do mercado: a dos possuidores dos
meios de produção e a do proletariado industrial e rural (MICHAELIS 2007).
Na metade do século XVIII, acontece a revolução industrial, quando alguns
países se destacaram economicamente, como a Inglaterra que cresceu a tal ponto
que começou a ver a necessidade de buscar matéria-prima no exterior. Com a
economia em forte crescimento, foi notada uma rápida urbanização, foi gerada uma
maior divisão de trabalho por linha de montagem e produção em série, e grande
desenvolvimento de transportes como a invenção do navio a vapor, a locomotiva, e
desenvolvimento de comunicação como a invenção do telégrafo.
4. PANORAMA DO MERCADO TÊXTIL NO BRASIL E NO MUNDO
Vivenciamos hoje um crescente mercado de produção têxtil nos países em
desenvolvimento e um forte declínio nos países desenvolvidos. Este fenômeno se dá
pela falta de mão de obra barata nos países desenvolvidos, e a escassez de matéria
prima.
Fato que o ex-técnico Sr. Carlos Matias Nuss vivenciou há cerca de oito anos,
quando desmontava máquinas usadas que seriam exportadas ao Brasil de uma
indústria alemã, que estava fechando as portas. Na ocasião foi feito por alto um
cálculo onde se pôde constatar que o operário alemão custava para sua empresa
cerca de onze vezes mais do que um operário brasileiro custava para sua empresa
brasileira.
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Todos estes custos para as indústrias alemãs juntamente com a forte e
inevitável competição com o mercado externo, principalmente proveniente dos
países em desenvolvimento que pagavam menos aos operários obtendo assim um
produto mais barato. Muitas empresas fecharam suas portas e o país se rendeu às
importações dos produtos prontos, na maioria das vezes produzidos com a sua
própria tecnologia importada.
Para proteger os mercados foi criado um instrumento que serve para impor
barreiras na importação de alguns produtos dos quais existe oferta no mercado
interno. Essa proteção faz com que a importação de produtos similares com preços
menores ou produtos melhores com preços acessíveis não acabe por prejudicar as
produções internas de um país. O declínio na produção de um país causa evasão de
divisas e desemprego. Estas proteções podem ser tarifárias ou não-tarifárias.
A existência de políticas protecionistas faz os fluxos comerciais serem
parcialmente manipulados pelas intervenções dos poderes públicos (RAINELLI,
2004, p. 35).
De acordo com BAUMANN (2004, p.61) a proteção tarifária é determinada
pela tarifa ad valorem onde o governo estabelece não o valor a ser pago pelo
produto importado, mas sim um percentual fixo de imposto sobre o produto. Os
instrumentos não-tarifários determinam-se na imposição cotas e também de
apresentação de certificados do tipo fitossanitários, ambientais ou de padrões de
segurança, por exemplo.
Essas barreiras opõem países de níveis de desenvolvimento muito diferentes.
Como é o caso da produção têxtil na Europa, que teve a necessidade de impor
algumas cotas para entrada de produtos prontos provenientes de países em
desenvolvimento na década de 80 freando a quebra das suas grandes fábricas e do
desemprego.
Entre diversos outros- ilustram decisões de adotar barreiras ao comércio:
dificuldades de arrecadação de outros tipos de impostos, interesse em
estimular a produção de alguns setores selecionados, o objetivo de
proteger determinados segmentos produtivos como parte de uma política
industrial, que possibilite o desenvolvimento tecnológico, ou mesmo uma
estratégia do tipo “política comercial estratégica” na qual as empresas
protegidas no mercado interno desenvolvem maior capacidade de
competição no mercado externo (BAUMANN, 2004, p. 78).
6
A questão do protecionismo no Brasil para maquinários modernos por um
lado cria a necessidade das indústrias brasileiras a procurarem a tecnologia
desenvolvida dentro do país, dando essa oportunidade para que a expansão desse
setor. Mas será que somos capazes de concorrer com as nações mais
desenvolvidas que estão extraordinariamente adiantadas? Criando barreiras que
impossibilitem a entrada de tecnologia já qualificada não faria com que o Brasil
perdesse tempo em pesquisas e desenvolvimento enquanto possui grande
quantidade de mão de obra?
Nos últimos cinco anos foi notada uma grande quantidade de maquinários de
fiação importada dos Estados Unidos. Este país possui característica de muito
consumo, mas pouca produção, fato que levou várias empresas americanas a
fecharem as portas. As máquinas de origem alemã importadas para os Estados
Unidos são reimportadas por empresas brasileiras. Uma máquina do tipo
AUTOCORO nova, importada da empresa alemã custa em média hoje para uma
indústria brasileira cerca de quinhentos e cinquenta mil euros, enquanto que a
mesma AUTOCORO com dez anos de uso chega a custar em média duzentos e
cinquenta mil dólares. Esta é uma maneira de renovar o parque fabril de forma mais
econômica.
6. BARREIRAS TARIFÁRIAS NA IMPORTAÇÃO DE TECNOLOGIA TÊXTIL
Tanto para maquinários novos quanto para maquinários usados que não
possuam nenhum tipo de benefício fiscal, o maquinário a ser importado recebe o
tratamento tributário com base na TEC – Tarifa Externa Comum, que foi criado a
partir o Sistema Harmonizado e Codificação de Mercadorias, aprovada pelo
Conselho de Cooperação Aduaneira. Na TEC encontra-se a classificação fiscal de
cada produto, deve-se localizar a nomenclatura que melhor se adequa ao produto a
ser importado para que possa obter a informação do percentual correto do imposto a
ser pago para retirada da mercadoria na aduana brasileira.
Exemplo de simulação de importação de teares circulares:
NCM: 8447.12.00 – TEARES CIRC.P/MALHAS C/CIL.DIÂM.SUP.165 MM
Alíquotas (%)
7
I.I
14%
IPI
0%
PIS
1,65%
COFINS
7,6%
ICMS
Percentual correspondente ao seu Estado.
Fonte:
http://www4.receita.fazenda.gov.br/simulador/
Quando o país necessita de algum tipo de tecnologia não produzida em seu
território ou quando existe um similar, mas que não possibilita trazer resultado de
produção satisfatório, é possível adquirir via importação a sugerida tecnologia com
redução ou até isenção de impostos. Informações sobre máquinas produzidas no
mercado nacional podem ser adquiridas no órgão competente ABIMAQ - Associação
Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos. Para obtenção dos benefícios
da importação, vários critérios são analisados, as máquinas não podem possuir
idade inferior ao limite de sua vida útil, por exemplo.
Nos casos de solicitação de redução e ou insenção de impostos é solicitada a
LI – Licença de Importação para a SECEX – Secretaria de Comércio Exterior através
do Siscomex – Sistema Integrado de Comércio Exterior. Para esses casos deve ser
efetuado um laudo técnico de vistoria e avaliação de algum órgão creditado junto ao
governo brasileiro no país do exportador, juntamente com os demais documentos
usualmente exigidos para tais importações, com isso a SECEX irá analisar e irá
liberar ou não a importação sugerida com os benefícios oferecidos. Cabe ao
importador arcar com essas despesas, mas uma vez aprovada a importação gera
um lucro significativo para o importador.
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A empresa, para compreender o funcionamento do comércio internacional, e
poder caminhar junto com esta metamorfose é necessário que os integrantes
tenham a ciência de que tudo possui uma ligação. Nada é verdadeiramente novo.
Todas as partes do mundo interferem em um determinado segmento ou moda.
Sendo assim, é necessário estar conectado a essas informações, conectar-se ao
mundo, questioná-lo para obter as respostas certas.
8
Para pessoas que queiram atuar de alguma forma no mercado internacional,
é preciso ter conhecimentos básicos nesta área do conhecimento e mantê-los
atualizados. Importantíssimo para uma empresa é a participação em feiras,
adquirindo conhecimento de novas tecnologias em seu setor, criar novas parcerias.
Faz-se necessária uma visão interativa, participar de seminários, simpósios, feiras e
reciclar-se sempre.
Destaca-se a importância do conhecimento das regras de mercado, das
barreiras tarifárias e não-tarifárias a fim de otimizar as operações visando
antecipadamente o sucesso ou não de uma determinada negociação. O não
conhecimento das regras tarifárias de proteção acarretam em prejuízos financeiros
para os importadores. Nas barreiras não-tarifárias podem ocorrer incidências de
multas pela aplicação de sistemática equivocadas ou sua inobservância, também
são fatores que prejudicam a operação de importação.
Para o posicionamento de um país no mercado externo, faz-se necessária a
produção em maior escala e diversificar quantos aos critérios de qualidade. Pois
cada mercado alvo exige uma adaptação de produto.
O intuito de qualquer corporação é o crescimento. Nos dias de hoje não
desejamos ser reconhecidos apenas dentro de nossos limites territoriais. De uma
maneira geral, a tecnologia têxtil desenvolvida na Europa está anos avançada. Por
isso é viável o investimento em maquinários adquiridos de países europeus para
aumentar e modernizar os parques fabris brasileiros. A continuidade do crescimento
da produção brasileira nesse setor que hoje conquistou seu espaço no mercado
externo, ainda depende das importações dessas tecnologias.
8. REFERÊNCIAS
BAUMANN, Renato. Economia Internacional: teoria e experiência brasileira.
Renato Baumann, Otaviano Canuto, Reinaldo Gonçalves. Rio de Janeiro: Elsevier,
2004.
GOULARTI FILHO, Alcides. Formação econômica de Santa Catarina.
Florianópolis: Editora da UFSC, 2007.
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LEFF, Nathaniel H. Política Econômica e Desenvolvimento no Brasil. John Wiley
& Sons, Inc. 1968.
Tradução: Roberto Borges Martins. Revisão: José Bonifácio Caldas. Produção:
Plínio M. Filho. São Paulo: Editora Perspectiva, 1977.
MICHAELIS. Moderno Dicionário da Língua Portuguesa. São Paulo: Editora
Melhoramentos, 2007.
RAINELLI, Michel. Comércio Internacional. Barueri, SP: Manole, 2004
Tradução: Sonia Augusto, 2004.
VAZQUEZ, José Lopes. Comércio exterior brasileiro. São Paulo: Atlas, 2007
MDIC – Ministério Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Disponível
em < http://www.desenvolvimento.gov.br/arquivos/dwnl_1210166486.pdf >. Acesso
em 17 nov. 2009.
SRF – Secretaria da Receita Federal. Disponível em : <
http://www4.receita.fazenda.gov.br/simulador/Simulacao-tag.jsp > Acesso em 26
nov. 2009.
Schlafhorst - Disponível em : < www.schlafhorst.oerlikontextile.com > Acesso em 26
nov. 2009.
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A Importação de Tecnologia Têxtil da Alemanha para o Brasil