Prefácio “Conhecida como a maior floresta tropical do mundo, ameaçada por queimadas e desmatamentos, a Amazônia é, também, uma região com alto potencial para dinamização do que aqui denominaremos de negócios sustentáveis baseados em seus recursos naturais. (...) Nela está contida metade das espécies vegetais e animais do globo e um terço das espécies de árvores do planeta. Possui uma das principais reservas de água doce do mundo, representa mais de 60% do território nacional e nela encontram-se 12% da população do Brasil. No entanto, ainda representa apenas 7% do Produto Interno Bruto - PIB nacional.” Optei por iniciar com afirmação do próprio autor de Bio(Sócio)Diversidade e Empreendedorismo Ambiental na Amazônia, pois ela dá a devida dimensão da importância atribuída à floresta amazônica nas teses desenvolvidas neste livro. Joselito Santos Abrantes, ele próprio um amazônida, permite ao leitor entender muito do vigor e do elevado potencial de nossa floresta. É certo que muitos já a estudaram profundamente, mas aqui a simplicidade no trato de ‘questões científicas e tecnológicas’ parece facilitar a compreensão de uma Amazônia viável e quiçá ainda mais protetora e redentora de seu povo. A abrangência do estudo pode ser medida pelo conteúdo de seus capítulos, que vão desde as considerações preliminares das dimensões ambiental e empresarial da sustentabilidade (cap. 2), passando pelas políticas de ocupação e desenvolvimento da Amazônia (cap. 3), o entendimento do desenvolvimento sustentável sob a ótica do desafio de se identificar uma nova matriz de política pública para a Amazônia (cap. 4), um breve histórico da política ambiental brasileira (cap. 5), as potencialidades e oportunidades econômicas regionais a partir da biodiversidade e dos negócios sustentáveis (cap. 6), o ‘empreendedorismo ambiental’ como base para um novo paradigma de desenvolvimento para a Amazônia (cap. 7), até alcançar a idéia central da obra (cap. 8), ou seja, a geração de bioindústrias na Amazônia no contexto de arranjos e sistemas produtivos locais. O texto aborda aspectos da indústria da biotecnologia de produtos naturais na Amazônia, em particular nos Estados do Amazonas, Pará e Amapá, com especial ênfase nas empresas e cooperativas que vivenciam processos de incubação e atuação no segmento da biodiversidade. As bases conceituais do estudo se concentram nas dimensões ambiental e empresarial da sustentabilidade dos recursos naturais, as quais se contrapõem às premissas dos históricos modelos de ocupação e degradação ambiental da região. Ao analisar as principais características de um modelo de desenvolvimento local, que considera as potencialidades oriundas da biodiversidade e tem por estratégia uma expansão que passa pela bioindustrialização da cadeia produtiva de produtos naturais já pesquisados e amplamente demandados pelos mercados mundiais, o estudo demonstra que é possível imprimir nova dinâmica à matriz econômica regional. Joselito conclui que os desafios vislumbrados para a Amazônia residem em superar as limitações no campo científico, tecnológico e mercadológico para tornar os produtos da floresta um dos vetores do desenvolvimento sustentável regional, com geração de emprego e renda, traduzidos em melhor qualidade de vida e progresso socioeconômico. ii O que denominamos de etnosaber está por demais latente na obra, pois, ao explicitar a necessidade do “equilíbrio econômico e ecológico no uso dos recursos naturais”, o autor relaciona a sustentabilidade das atividades diretamente à capacidade de saber empreender e de gerar inovações no desenvolvimento de produtos mais diferenciados que assegurem a vantagem competitiva da Amazônia. Todavia, fica claro que este cenário somente faz sentido se o objetivo de agregar competitividade aos produtos da biodiversidade (fortemente vinculada à produção científica e à incorporação do fator tecnológico, ambas associados ao espírito empreendedor, proporcionando ambiente que capacita as empresas a melhorar e a inovar continuamente) acontecer com a inserção da população local no processo, valorizando, assim, tanto a bio quanto a sociodiversidade amazônica. Concordo inteiramente com o autor quando enfatiza o papel do trabalho na arena política para viabilizar as mudanças globais de cenário necessárias a que propostas de desenvolvimento com as características de sustentabilidade ambiental descritas nesse estudo sejam implementadas. Isso significa, como resultado desse embate político, populações organizadas e conscientizadas, aptas a conquistar, por meio da participação, o direito de gerir os rumos do seu próprio desenvolvimento. O mérito de Joselito Santos não está apenas em ter sido chamado, no dia da defesa de sua Tese de Mestrado, de ‘Primeiro Mestre em Desenvolvimento Sustentável Formado na Amazônia’ pelo Centro de Desenvolvimento Sustentável da Universidade de Brasília, mas no fato de destacar, ao final de seu livro, o seu esforço para se somar às inúmeras iniciativas para sair da retórica e viabilizar na prática esse conceito (desenvolvimento sustentável), que ainda se encontra em processo de construção por parte de milhares de comunidades espalhadas por todo o mundo. Assim, como diz o próprio Joselito, “o estudo une-se aos autores (e eu completaria: com os milhares de cidadãos não-autores) que defendem a linha dos bionegócios sustentáveis como uma alternativa de indução de um processo de desenvolvimento local, em um ambiente interinstitucional de cooperação e aprendizado capaz de transformar as vantagens comparativas da Amazônia em vantagens competitivas, contribuindo progressivamente para a sustentabilidade ambiental das riquezas e minimização dos níveis de pobreza ainda identificados nessa imensa e rica região.” Marina Silva, Ministra do Meio Ambiente (Senadora pelo Partido dos Trabalhadores do Acre) iii SUMÁRIO Página ______________________________________________________________________________ RESUMO v ABSTRACT vi LISTA DE GRÁFICOS x LISTA DE QUADROS xi LISTA DE SIGLAS xii ________________________________________________________________________________ CAPÍTULO 1 INTRODUÇÃO 01 1.1. OBJETIVOS DA DISSERTAÇÃO 06 1.2. CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS 07 1.3. METODOLOGIA 10 1.4. ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO 12 ______________________________________________________________________________ CAPÍTULO 2 REFERENCIAL TEÓRICO 15 2.1. DIMENSÃO AMBIENTAL DA SUSTENTABILIDADE 18 2.2. DIMENSÃO EMPRESARIAL DA SUSTENTABILIDADE 18 CAPÍTULO 3 POLÍTICAS DE OCUPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA 23 3.1. DA POLÍTICA DE CONQUISTA À POLÍTICA DE EXPLORAÇÃO – FASE 1 23 3.2. DA POLÍTICA DE EXPLORAÇÃO À POLÍTICA DE INTEGRAÇÃO 26 3.3. DA POLÍTICA DE INTEGRAÇÃO À POLÍTICA DE EXPLORAÇÃO – FASE 2 27 3.4. DA POLÍTICA DE OCUPAÇÃO À POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO 29 ______________________________________________________________________________ iv Página ______________________________________________________________________________ CAPÍTULO 4 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: OS DESAFIOS DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA MATRIZ DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A AMAZÔNIA 31 4.1. BREVE EXAME DOS RESULTADOS DO ESTUDO “DESENVOLVIMENTO E CONSERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: PESQUISA DE OPINIÃO COM LIDERANÇAS E A POPULAÇÃO DA AMAZÔNIA” 32 4.2. PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO AMAPÁ-PDSA 38 ______________________________________________________________________________ CAPÍTULO 5 A EVOLUÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL – BREVE HISTÓRICO 44 5.1. BIODIVERSIDADE, MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO 46 5.2. INSTRUMENTOS JURÍDICOS DE PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE NO BRASIL 48 CAPÍTULO 6 CONTEXTUALIZAÇÃO DA BIODIVERSIDADE: POTENCIALIDADES E OPORTUNIDADES ECONÔMICAS PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA 51 6.1. AS BASES CONCEITUAIS DA BIOTECNOLOGIA 51 6.2. MERCADO MUNDIAL DA BIODIVERSIDADE 52 6.3. MERCADO NACIONAL DA BIODIVERSIDADE 54 6.4. OS DESAFIOS PARA A GERAÇÃO DE NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS ORIUNDOS DA BIODIVERSIDADE AMAZÔNICA 56 6.4.1. PROBEM/AMAZÔNIA 58 ______________________________________________________________________________ CAPÍTULO 7 CIÊNCIA, TECNOLOGIA E EMPREENDEDORISMO AMBIENTAL: AS BASES DE UM NOVO PARADIGMA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA 61 7.1. USOS ECONÔMICOS DOS PRODUTOS NATURAIS DA AMAZÔNIA 61 v 7.1.1. Óleos Vegetais e suas principais aplicações 62 7.1.2. Óleos Essenciais e suas principais aplicações 64 7.1.3. Corantes naturais e suas principais aplicações 65 7.1.4. Produtos Fitoterápicos e Plantas Medicinais 66 7.2.VIABILIDADE TÉCNICO-ECONÔMICA DOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃO-MADEIREIROS 67 7.3. MERCADO E COMERCIALIZAÇÃO DOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃO-MADEIREIROS 69 7.4. AGREGAÇÃO DE VALOR AOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃO-MADEIREIROS 72 7.4.1. O Caso da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do rio Iratapuru 7.5. SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL DOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃO-MADEIREIROS 73 77 ______________________________________________________________________________ CAPÍTULO 8 ARRANJOS E SISTEMAS PRODUTIVOS LOCAIS: OS ESFORÇOS INSTITUCIONAIS INTEGRATIVOS PARA A GERAÇÃO DE BIOINDÚSTRIAS NA AMAZÔNIA 79 8.1. INCUBADORAS DE EMPRESAS: AGENTES DE INOVAÇÃO E DIFUSÃO TECNOLÓGICA 8.1.2. Seleção de Empreendimentos e Gestão das Incubadoras 8.2. EXPERIÊNCIAS COM EMPRESAS INCUBADAS NO SEGMENTO DA BIODIVERSIDADE AMAZÔNICA 81 84 87 8.2.1. Programa de Incubação de Empresas de Bases Tecnológicas da Universidade Federal do Pará – PIEBT/UFPA 8.2.2. Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial – CIDE/AM 92 95 8.2.3. Programa de Incubação de Empresas e Extensão Tecnológica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá – PIETEC/IEPA 97 CAPÍTULO 9 CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES 100 ______________________________________________________________________________ REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA 107 ______________________________________________________________________________ ANEXOS 116 ______________________________________________________________________________ vi LISTA DE GRÁFICOS GRÁFICO Descrição Página Nº 8.1 Incubadoras de Empresas nos EUA 83 8.2 Distribuição das Incubadoras no Brasil 83 8.3 Classificação das Incubadoras 84 vii LISTA DE QUADROS QUADRO Descrição Página Nº 7.1 Óleos vegetais da Amazônia e suas principais aplicações 62 7.2 Produtos naturais da Amazônia de interesse da indústria cosmética 63 7.3 Corantes da Amazônia e suas principais aplicações 65 8.4 Incubadoras da Região Norte do Brasil 88 viii LISTA DE SIGLAS ABIPTI ADA ALCMS ANPROTEC ASPLs BASA BCSD BID BNDES Bioamazônia BIRD CBA CCE CDB CEAP CEBDS CEE CENARGEN CESUPA CIDE CMMAD CNI CNPq CNPT CNS C&T CNUMAD COMAJA COMARU COMPAB CONAMA COOPAÇAÍ CPATU EDB EMBRAPA FADESP FHC FINEP FNO FUNBIO GEA GENAMAZ IBAMA Associação Brasileira das Instituições de Pesquisa Tecnológica Agência de Desenvolvimento da Amazônia Área de Livre Comércio de Macapá e Santana Associação Nacional das Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologia Avançada Arranjos e Sistemas Produtivos Locais Banco da Amazônia S.A Business Council for Sustainable Development Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável Banco Interamericano de Desenvolvimento Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social Associação Brasileira para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia Banco Interamericano para a Reconstrução e Desenvolvimento Centro de Biotecnologia da Amazônia Comissão das Comunidades Européias Convenção sobre Biodiversidade Centro de Ensino Superior do Amapá Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável Comunidade Econômica Européia Centro Nacional de Recursos Genéticos Centro de Ensino Superior do Pará Centro de Incubação e Desenvolvimento da Amazônia Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Confederação Nacional da Indústria Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico Centro Nacional de Desenvolvimento Sustentado das Populações Tradicionais Conselho Nacional dos Seringueiros Ciência e Tecnologia Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e Desenvolvimento Cooperativa Mista Extrativista Vegetal dos Agricultores de Laranjal do Jari Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru Cooperativa de Produtores do Arquipélago do Bailique Conselho Nacional do Meio Ambiente Cooperativa dos Produtores de Açaí do Estado do Amapá Centro de Pesquisa Agropecuária do Trópico Úmido/Embrapa Empresas Dedicadas à Biotecnologia Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa Fernando Henrique Cardoso Financiadora de Estudos e Projetos Fundo Constitucional de Financiamento do Norte Fundo Brasileiro para a Biodiversidade Governo do Estado do Amapá Rede para Conservação e Uso dos Recursos Genéticos Amazônicos Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis ix IBGE IEL IEPA INBio INCRA INPA ISER ISO MCT MMA MPEG NBIA OMS ONG´s ONU ONUDI OSCIP PADCT P&D PDI PDSA PDTA PIB PIEBT PIETEC PIN PND PNMA PNUD PPG-7 PROBEM PRONAB PROTERRA PT RAMI RDS RESEX RITU/UEPA SEBRAE SEICOM SEMA SESP SPVEA SISNAMA SUDAM SUFRAMA UA Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística Instituto Euvaldo Loudi Instituto de Pesquisa Científica e Tecnológica do Estado do Amapá Instituto de Biodiversidade da Costa Rica Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia Instituto de Estudos da Religião International Organization of Standardization Ministério da Ciência e Tecnologia Ministério do Meio Ambiente, Recursos Hídricos e da Amazônia Legal Museu Paraense Emílio Goeldi National Business Incubation Association Organização Mundial da Saúde Organizações Não-Governamentais Organização Nacional das Nações Unidas Organização Mundial do Desenvolvimento Industrial Organização Social Civil de Interesse Público Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico Pesquisa e Desenvolvimento Programa de Desenvolvimento Industrial Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá Programa de Desenvolvimento Tecnológico Agropecuário Produto Interno Bruto Programa de Incubação de Empresas de Bases Tecnológicas Programa de Incubação de Empresas e Extensão Tecnológica Plano de Integração Nacional Planos Nacionais de Desenvolvimento Programa Nacional do Meio Ambiente Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Programa Piloto de Proteção das Florestas Tropicais do Brasil Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade Amazônica Programa Nacional de Biotecnologia Programa de Redistribuição de Terras Partido dos Trabalhadores Rede Amazônica de Incubadoras de Empresas Reserva de Desenvolvimento Sustentável Reserva Extrativista Rede de Incubadoras Tecnológicas da Universidade Estadual do Pará Serviço Brasileiro de Apoio à Micro e Pequenas Empresas Secretaria Estadual de Indústria, Comércio e Mineração Secretaria Especial do Meio Ambiente Serviço Especial de Saúde Pública Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia Sistema Nacional do Meio Ambiente Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia Superintendência da Zona Franca de Manaus Universidade do Amazonas x UE UF UFPA UFRJ UNAMA UNICAMP WWF ZEE ZFM União Européia Unidade da Federação Universidade Federal do Pará Universidade Federal do Rio de Janeiro Universidade da Amazônia Universidade de Campinas World Wildlife Fund (Fundo Mundial para a Natureza) Zoneamento Econômico-Ecológico Zona Franca de Manaus xi CAPÍTULO 1 - INTRODUÇÃO Conhecida como a maior floresta tropical do mundo, ameaçada por queimadas e desmatamentos, a Amazônia é, também, uma região com alto potencial para dinamização do que aqui denominaremos de negócios sustentáveis baseados em seus recursos naturais. Turismo, indústria agroflorestal, biotecnologia e produtos naturais são as áreas mais atraentes em termos econômicos. Nela está contida metade das espécies vegetais e animais do globo e um terço das espécies de árvores do planeta. Possui uma das principais reservas de água doce do mundo, representa mais de 60% do território nacional e nela encontram-se 12% da população do Brasil. No entanto, ainda representa apenas 7% do Produto Interno Bruto - PIB nacional. A Amazônia abrange a maior biodiversidade do planeta. Os números exatos são controvertidos porque até hoje poucas espécies foram estudadas. As estimativas sobre as plantas na Amazônia divergem entre 5 e 30 milhões. Mas só as plantas identificadas somam 30.000 exemplares representando 10% das plantas de todo o planeta. E, segundo consta na página 33 da edição especial da revista VEJA sobre a Amazônia, publicada em dezembro de 1977, “com relação a peixe de rios, a Amazônia é insuperável. Ali nadam entre 2.500 e 3.000 espécies diferentes. Apenas no Rio Negro, já foram descritas 450 espécies. Em toda a Europa, as espécies de água doce não passam de 200” (Santos, 1998). Na Amazônia encontram-se inúmeras espécies animais e vegetais aptas ao aproveitamento no processo produtivo. É notório que somente se dispõe de informações com base científica em relação a uma pequena porcentagem dessas espécies, mas é igualmente certa a possibilidade de serem aproveitadas matérias-primas suficientemente conhecidas. Segundo Enriquez (2001), as dimensões da biodiversidade têm feito com que o crescimento da Amazônia encontre-se diretamente relacionado ao dinamismo das atividades vinculadas à exploração dos seus recursos naturais. Assim, a biodiversidade está constituindo-se em um fator verdadeiramente estratégico para a região, revelando a necessidade da criação de novos produtos e/ou processos, a partir da utilização de novos insumos, com base no surgimento de um novo paradigma técnico-econômico em curso. Assim, a criação do Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para Uso Sustentado da Biodiversidade (PROBEM/AMAZÔNIA), que se dispõe a multiplicar as pesquisas sobre os 1 produtos florestais e agregar valor aos mesmos, fazendo-os participarem de cadeias produtivas, abriu novos horizontes para a economia regional da Amazônia. São muitos os benefícios econômicos que podem ser auferidos a partir da utilização sustentável de produtos da natureza. Somente com a comercialização para fins medicinais e farmacêuticos de produtos extraídos das florestas tropicais mundiais são movimentados atualmente recursos em torno de 20 bilhões de dólares por ano, sem contar com outros benefícios ligados à agricultura e à indústria. Além disso, estima-se que menos de 1% das plantas tropicais tiveram os seus usos potenciais investigados. Nos países em desenvolvimento, segundo a Organização Mundial de Saúde - OMS, 80% da população se trata pela medicina tradicional, e 85% desta medicina incluem extratos de plantas medicinais (CIMA, 1991 e Manual Global de Ecologia, 1993). Segundo Lévêque (1999) estima-se que, na China, hoje em dia, 40% dos medicamentos são fármacos tradicionais, que utilizam plantas medicinais. Na própria Europa, aumenta o interesse pelo uso de plantas medicinais.A indústria farmacêutica mundial aufere uma parte não desprezível de seus negócios de medicamentos elaborados com base em princípios biologicamente ativos extraídos das plantas, ou cujas moléculas foram identificadas nas plantas antes de serem reproduzidas sinteticamente1. Com o avanço científico e tecnológico e os novos padrões de desenvolvimento, reduziu-se o peso do atual modelo de crescimento econômico apoiado nas vantagens comparativas, e afirma-se um novo cenário, com um modelo baseado, principalmente, nas vantagens competitivas. Isso significa que a incorporação de novas tecnologias, principalmente do segmento das biotecnologias, será de fundamental importância para um melhor aproveitamento dos abundantes recursos naturais da Amazônia e para alcançar melhores níveis de desenvolvimento daquela região, em benefício da população local. Para tanto, os avanços técnicos, tecnológicos e científicos, bem como sua permanente atualização e desenvolvimento são fundamentais para essa nova construção, o que exige cada vez mais eficiência, produtividade e qualidade em razão de uma economia globalizada, extremamente competitiva. 1 Citaremos, por exemplo, o taxol; a vimblastina e a vincristina (anticancerígenos); a aspirina, produto farmacêutico universal, provém do ácido salicílico, que foi descoberto na filipêndula; a penicilina, esse antibiótico que salvou milhões de pessoas, é oriunda dos fungos do gênero Penicillium (Lévêque, 1999). 2 Neste contexto de um mundo globalizado, o uso econômico sustentável da incalculável riqueza da biodiversidade da Amazônia se constitui num dos grandes desafios dessa imensa região, tanto no processo de aproveitamento da vocação regional com base na exploração sustentável dos recursos naturais por meio da incorporação de tecnologia, como na agregação de valor aos produtos. A questão que aflora é a seguinte: como fazer valer a riqueza da biodiversidade não só para a indústria da biotecnologia; mas também para as populações tradicionais que a conservam, utilizam e cultivam? Segundo Santos (1998), observa-se que os interesses e as estratégias da indústria biotecnológica mundial, de assegurar o controle e acesso a esses recursos muitas vezes se contrapõem às necessidades e objetivos daqueles que vivem em culturas tradicionais na Amazônia (povos indígenas, seringueiros, ribeirinhos, caiçaras, etc – que convivem com a biodiversidade há muito tempo e desenvolveram saberes e modos específicos de lidar com plantas, animais, solo, etc). Por outro lado, para Lévêque (1999) a verdadeira aposta econômica na gestão da biodiversidade é a de poder comparar os benefícios provenientes da exploração dos recursos pelos indivíduos ou pelas sociedades com os verdadeiros custos sociais resultantes da perda eventual da diversidade dos organismos e dos ecossistemas. O lucro a curto prazo pode ser importante para aqueles que exploram o meio natural em caráter privado, mas, de maneira indireta, pode custar globalmente muito mais caro, a longo prazo, para a sociedade. Observa-se que, freqüentemente, aqueles que exploram não fornecem compensações econômicas àqueles que são levados a sofrer as conseqüências das modificações causadas ao meio. Cabe ao Estado, com base na Convenção sobre Diversidade Biológica – CDB2, dirimir esses conflitos de interesses, por meio da implementação de políticas públicas coerentes de acesso aos recursos da biodiversidade, reconhecendo os direitos de povos indígenas e comunidades tradicionais aos recursos existentes em seu território, bem como aos conhecimentos que tais populações têm desenvolvido ao longo de séculos sobre eles, sem destruir a natureza. A convenção sobre a Diversidade Biológica foi assinada por 153 países, em junho de 1992, no Rio de Janeiro, no âmbito da ECO 92. A CDB priorizou alguns princípios importantes: a conservação e gestão sustentável da biodiversidade; o princípio da soberania sobre os recursos biológicos e o acesso a transferência de tecnologias (Lévêque, 1999) 2 3 É notório o retrocesso social e ambiental causado à Amazônia pelos impactos oriundos dos ciclos das drogas do sertão, da borracha, dos minérios, do petróleo e da madeira. Pesquisas médicas, estudos científicos e, fundamentalmente, a tendência mundial de revalorização dos produtos naturais para substituir produtos sintéticos, que por serem ecologicamente corretos, apontam que o próximo ciclo da Amazônia poderá vir a ser a exploração equilibrada da biodiversidade, capaz de proporcionar um desenvolvimento sustentável para esta região, na medida em que não requer a destruição definitiva do recurso utilizado e possibilite a inclusão da sociedade civil organizada nesse processo de desenvolvimento local. Assim, as potencialidades da Região Amazônica, ante um mercado internacional que retoma o consumo de bens naturais com conteúdo tecnológico, são cada vez mais promissoras e já se abrem perspectivas para uma melhor exploração racional e sustentável da abundante biodiversidade dessa região. Portanto, a Amazônia dispõe de potencialidades naturais capazes de se transformarem em realidades econômicas, em tempo menos longo do que se costuma afirmar. Além dos produtos naturais largamente conhecidos, muitos dos quais já bem situados no mercado, é necessário incluir uma grande variedade de outros produtos aptos à introdução no processo produtivo de fármacos, fitoterápicos, cosméticos, perfumes, corantes naturais, alimentos, etc. Recentemente, o projeto Cara Brasileira, desenvolvido pelo SEBRAE Nacional, com a consultoria da empresa S3 Studium, sob a coordenação do sociólogo Domenico de Masi apontou que ao contrário das jóias, os produtos naturais, principalmente os encontrados na floresta amazônica, já nascem com a cara brasileira. As possibilidades de exploração desses produtos são inúmeras e alguns setores já apresentam possibilidades viáveis para comercialização imediata.3 Segundo o documento, essa utilização “possibilitará às MPEs produzir com proveito, nos próximos anos, produtos farmacêuticos e cosméticos. Os produtos naturais originários das plantas medicinais irão trazer um valor incalculável, para a sociedade e a economia do país. Os remédios e os medicamentos extraídos das plantas brasileiras, de fato, poderão penetrar num mercado já existente e muito vasto. Por outro lado, deve-se dar mais atenção à fabricação de produtos como papel ecológico, novos polímeros e couro vegetal”. Nesse contexto, o Amapá, um dos Estados mais preservados da região amazônica, é rico em recursos naturais e a sua biodiversidade é o fator que lhe confere importância estratégica para futuros 3 São produtos naturais originários de plantas medicinais e dos cosméticos que utilizam óleos extraídos de plantas. 4 investimentos sustentáveis4. No entanto, ainda é uma Unidade da Federação – UF pobre em tecnologia, especialmente em relação às tecnologias voltadas para a valorização desses recursos. Nesse sentido, torna-se importante – a partir de um amplo debate sobre o novo papel dos recursos naturais para o seu desenvolvimento local integrado e sustentável – que se busque identificar, precisamente, quais são as novas e mais adequadas oportunidades oriundas das mudanças tecnológicas em curso. Essa é uma das intenções desse estudo. A localização do Estado do Amapá é estratégica para futuros investimentos. Situado na foz do rio Amazonas e sendo parte do Platô das Guianas – região geográfica que inclui a Guiana Francesa, o Suriname e a Guiana - faz fronteira com a Guiana Francesa, um pedaço da União Européia na América Latina. Com uma superfície de 143.454 km2, é banhado pelo oceano Atlântico, com uma longa e rica costa de mais de 690 km. O porto de Santana, no rio Amazonas, é o único de águas profundas da região. Todos os ecossistemas da Amazônia estão representados no Amapá. As florestas cobrem mais de dois terços do seu território, ao lado de áreas de cerrado, lagos e grandes extensões e várzeas, onde flora e fauna variam em função das inundações sazonais. O conjunto formado pelos parques nacionais, reservas biológicas e terras indígenas corresponde a 27%5 do Amapá que hoje estão protegidos.6 Trata-se de uma diversidade de ecossistemas em nível adequado de conservação, com baixa densidade populacional, alta potencialidade de utilização de recursos naturais renováveis, recursos minerais inexplorados, biodiversidade intacta, cenários de grande beleza natural e acesso estratégico aos mercados. Estas são as principais vantagens comparativas do Amapá frente a outras regiões da Amazônia e do País. A realização do Zoneamento Ecológico-Econômico -ZEE na maior parte do Amapá permitiu identificar, com clareza, as áreas de potencial para investimentos, aquelas que devem permanecer protegidas e as que dependem de pesquisas para serem exploradas com sustentabilidade. O potencial de utilização sustentável destes recursos, no futuro, será o resultado da combinação entre a sua localização estratégica e a decisão governamental sustentada nas aspirações e anseios da No âmbito desse estudo compreendem os investimentos naturais aqueles recursos que se destinam à geração de produtos que não geram destruição da floresta, nem tampouco contribuem para a sua gradual devastação, ao contrário, tais investimentos são aliados de mecanismos controladores da sobrevivência produtiva da floresta. 5 Por meio do Decreto s/n de 22/08/02 foi criado o Parque Nacional do Tumucumaque, o maior do mundo, totalizando 3.867.000 ha, abrangendo os municípios de Oiapoque, Laranjal do Jari, Calçoene, Pedra Branca do Amapari e Serra do Navio, ampliando as áreas protegidas do Estado do Amapá para cerca de 55% do seu território. 4 5 sociedade, de adotar uma política pública voltada para o uso racional do meio ambiente no rumo da construção de um arranjo institucional que viabilize o desenvolvimento local. As novas condições da economia mundial e o novo padrão de consumo da população são fatores que estão determinando uma nova concepção, na qual gestão de ciência e tecnologia constitui-se instrumento fundamental para a consecução de objetivos em matéria de competitividade industrial. Nesse contexto, já se observa que as incubadoras de empresas, ainda que emergentes em nosso país, têm apresentado resultados extremamente positivos para a área de ciência e tecnologia, com a geração de produtos e serviços de alto valor agregado e a criação de empresas, empregos e tributos. Segundo Medeiros (1998), uma incubadora de empresas é um arranjo interinstitucional, estruturado para promover a vinculação empresa-universidade, o fortalecimento de novas empresas e a elevação do setor produtivo com diversas instituições de apoio7. Este arranjo é definido como um ambiente flexível e encorajador onde são oferecidas umas séries de facilidades para o surgimento e o crescimento de novos empreendimentos. Além da assessoria na gestão técnica e empresarial das empresas, a incubadora oferece a possibilidade de serviços compartilhados como laboratórios, telefone, fax, xerox, correio, luz, água, segurança, aluguel de área física e outros. 1.1. OBJETIVOS DA DISSERTAÇÃO A partir desses pressupostos que embasarão a problemática do estudo, é importante a contextualização dos fatores socioeconômicos no planejamento tecnológico dentro de um cenário competitivo. Dessa forma, a tendência ao aumento do comércio internacional de produtos intensivos em tecnologia tem direcionado a construção de um modelo de organização em que as pequenas empresas precisam focalizar a sua atenção nas capacidades empreendedoras e tecnológicas que elas empregam para sustentar a sua estratégia, mesmo considerando que apenas 30% dos investimentos totais em tecnologias no país sejam feitos por empresas brasileiras. O objetivo deste estudo é avaliar o sistema de empresas de bases tecnológicas incubadas, considerando o aproveitamento econômico e racional dos produtos naturais potenciais da Entenda-se proteção legal, visto que as inúmeras dificuldades na vigilância dessas áreas ainda persistem. Em boa medida, a elevação aqui mencionada mantém relação direta com a ocupação destacada de determinadas empresas e seus produtos de um mercado cada vez mais competitivo e que, a cada dia, está a exigir posturas e ações próativas destas empresas, sob pena de virem a ser alijadas do mercado. 6 7 6 biodiversidade amazônica, de modo a sistematizar informações das suas cadeias produtivas, que possam orientar potenciais empreendedores para a linha de negócios da bioindústria como plantas medicinais, óleos naturais, óleos essenciais, oleaginosas, alimentos, fitoterápicos, fitocosméticos, perfumes e corantes naturais. Para isso, foram estabelecidos os seguintes objetivos específicos: • sistematizar os conhecimentos acumulados sobre algumas experiências empreendedoras existentes nos Estados do Amazonas, Pará e Amapá que evidenciem alternativas e modelo de desenvolvimento sustentável para a região amazônica; • descrever as possíveis contribuições da biotecnologia para o processo de inovação tecnológica e o aproveitamento racional dos produtos naturais potenciais da biodiversidade amazônica; • avaliar como as comunidades tradicionais, que já têm conseguido acumular experiências empreendedoras e conhecimentos associados à biodiversidade, poderiam ampliar a potencialidade de seus produtos por intermédio do desenvolvimento da bioindústria; • analisar a visibilidade da relação instituto de pesquisa e/ou universidade – empresa, como um mecanismo para a transferência de tecnologia8 e conhecimentos técnicos, estabelecendo um elo de ligação entre o setor produtivo e os centros de pesquisas da região, transformando idéias em negócios e as amostras de prateleiras (pesquisas experimentais) em mercadorias (produtos inovadores). 1.2. CONSIDERAÇÕES HISTÓRICAS Nas últimas décadas a preocupação com as questões ambientais globais tem se ampliado, e se encontra refletida numa vasta literatura técnica, em específico pela degradação do meio ambiente, pelas práticas não-sustentáveis de uso dos recursos naturais e, também, pela perda acelerada da “De maneira concisa, pode-se conceituar transferência de tecnologia como o processo de transmissão de conhecimentos técnico-científicos (...), como também, no sentido de difusão e adaptação de tecnologia”. Ver Guimarães (1997; p. 27 ). 8 7 diversidade biológica9. Em razão das graves conseqüências de tais atitudes para o Planeta, diversos documentos na área de meio ambiente foram elaborados e negociados na forma de protocolos de intenção entre diversos países, tendo como exemplos fundamentais para o debate ambiental o Protocolo de Montreal sobre Degradação da Camada Ozônio (1991); a Convenção sobre Diversidade Biológica (1992), a Convenção sobre Mudança do Clima (1992) e a Agenda 21 (1992). No Brasil foram adotadas algumas iniciativas de políticas públicas, tanto de caráter nacional como estadual, em relação à conservação da diversidade biológica. Ainda assim, são alarmantes as taxas de desmatamento, uso ilegal de recursos biológicos (biopirataria) e perda de conhecimentos tradicionais associados à biodiversidade. A título de exemplo, no Estado do Amapá foi sancionada a Lei nº 388/97, regulamentada pelo Decreto nº 1.624, de 25/06/99, que dispõe sobre o controle do acesso à biodiversidade estadual. Trata-se de um instrumento inovador no Brasil, que disciplina o uso da biodiversidade, estabelecendo regras claras sobre o emprego de biotecnologias e da bioprospecção, bem como a coleta de germoplasma, o acesso aos recursos genéticos, a conservação dos recursos, os direitos de propriedade intelectual, inclusive os direitos coletivos, entre outros. Deste modo, a referida lei além de ter sido fundamental para a proteção e clara definição dos limites de acesso à diversidade biológica e genética existente no Estado do Amapá, contribuiu bastante para a implementação do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá – PDSA, em construção conjunta com a sociedade, desde 1995. Cumpre lembrar, neste ponto, o esforço que vem sendo feito no âmbito do Poder Legislativo Federal, no qual se destaca o Projeto de Lei do Senado nº 306, de 1995, de autoria da Senadora Marina Silva (PT-AC), que dispõe sobre o acesso a recursos genéticos e seus produtos derivados, projeto atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados. A crescente demanda mundial por produtos naturais destinados às áreas farmacêutica, cosmética, agroquímica e alimentícia abre para a Amazônia um mercado no qual nenhuma outra região do mundo pode concorrer em pé de igualdade. Entretanto, a falta de iniciativa na criação de mecanismos para suprir o comércio mundial com produtos de alto valor agregado, não somente prejudica a região economicamente, como permite a destruição gradativa desse imenso acervo antes 9 O desmatamento, em vez do manejo sustentável, diminui significamente a biodiversidade (perda de 17.000 espécies por ano, um recurso crucial para a indústria farmacêutica e para a agricultura). Ver Spangenberg (1998). 8 que seja aproveitado. A literatura indica ser conveniente à economia local agregar o máximo de valor aos produtos naturais, de modo a implantar a produção e exportação de produtos acabados ou no mínimo beneficiados. Três critérios são essenciais ao produtor neste intuito: a qualidade assegurada, a disponibilidade do produto em escala adequada e a continuidade garantida e, ainda, um preço relativamente estável e competitivo. Para o meio ambiente é necessário assegurar que a atividade não seja predatória, isto é, devese aproveitar a potencialidade da biodiversidade sem promover a degradação. Um grande desafio é estabelecer uma rede de produção de matéria-prima, utilizando a floresta em pé, porque assim, conserva os princípios ativos da biodiversidade. Essa rede de matéria-prima pode abastecer uma bioindústria10, que ainda é incipiente na Amazônia, e esse segmento produtivo pode ser alimentado pelas novas descobertas da ciência, a partir dos centros de pesquisa e desenvolvimento da região, que deveriam estar conectados às expectativas do mercado, além da indução de políticas públicas concernentes a esse padrão de desenvolvimento local. Para cumprir o critério de escala, a atividade normalmente será agroflorestal e não, ou raramente, extrativista. É conveniente capacitar os pequenos produtores e organizá-los socialmente em associações e/ou cooperativas, de forma que possam alcançar uma distribuição mais eqüitativa dos rendimentos auferidos, melhorando a sua qualidade de vida. O extrativismo, portanto, terá que depender de produtos de pequeno mercado e alto valor, que não inclui a maioria dos produtos de extrativismo atual. De outra maneira, o extrativismo continuará a depender de subsídios, fato que não deixa de ser justificável quando se trata de comunidades que prestam um serviço ao País ao conservar o seu ambiente11. A biodiversidade deve ser utilizada como um bem para a sociedade e não causando prejuízos a ela. Com o manejo sustentável da biodiversidade observam-se as vantagens em se manter a originalidade das florestas para seu uso sustentável. Para a população regional se beneficiar da biodiversidade deve-se pensar em capacitá-la para absorver as demandas de emprego e ocupação decorrentes da exploração dessa atividade e conscientizá-la da importância do usufruto dos royalties advindos da mesma. A agregação de valor aos produtos naturais, sempre que possível, deve ocorrer dentro da região, procurando beneficiar a comunidade local. Fomentar a venda, a certificação de 10 11 Indústria que tem como matéria-prima produtos oriundos da biodiversidade. Para aprofundamento desse tema, ver (Mota, 2001). 9 origem e o beneficiamento na região, bem como a criação e disseminação do uso do selo verde12 são ações que se revertem de caráter extremamente positivo e que contribuem para o processo de reconhecimento internacional. O valor da biodiversidade está permitindo ao Brasil reorientar o desenvolvimento na Amazônia, até agora realizado com base em atividades depredadoras de seus recursos naturais, provenientes de políticas públicas implementadas de cima para baixo, que não levam em consideração os reais interesses e necessidades de sua população e da própria região, frustrando o potencial que apresenta para alavancar o seu desenvolvimento. Não se trata apenas de culpar os grandes investimentos que se explicitam nos megaprojetos mínero-metalúrgicos13 instalados na Região Amazônica, imperativos de um processo de desenvolvimento que impõe à Amazônia uma modelagem que dificulta a internalização das próprias riquezas regionais e, por conseguinte, a melhoria da qualidade de vida da população local. Os custos ambientais e sociais da maioria desses projetos foram e continuam sendo muito superiores aos benefícios gerados. Já existe um consenso regional de que não é justo que as riquezas da Amazônia continuem beneficiando, apenas, as sociedades de outras partes do Brasil e do mundo, em detrimento das populações locais, que permanecem alijadas de quase todas as etapas dos processos produtivos e, em específico, dos ganhos daí oriundos. Segundo Kitamura (1994), isso requer políticas públicas que permitam tanto o reordenamento das atividades econômicas nas áreas já ocupadas da Amazônia, objetivando preservar a sua sustentabilidade, como também políticas que garantam não só a diminuição da pressão migratória para a região, mas também um controle do acesso aos recursos naturais da região à população migrante, garantindo, assim, as condições mínimas para a sustentabilidade das florestas. 1.3. METODOLOGIA Este estudo reflete, de alguma maneira, a própria trajetória do autor, que nos últimos tempos tem se dedicado ao conhecimento da realidade amazônica, especialmente pela atividade laboral que atualmente desenvolve. Ela se vincula ao campo da ciência e da tecnologia, em particular na assistência e fomento de projetos técnico-econômicos que possam contribuir para incentivar e 12 O selo verde deve ser enriquecido de um componente que incorpore a sustentabilidade social. 10 viabilizar o empreendedorismo14 no Estado do Amapá, por meio da agregação de valor aos recursos naturais oriundos da biodiversidade amazônica. No decorrer do ano de 2001, para efeito de elaboração desse estudo foram feitas visitas técnicas às instalações das incubadoras que constam desta pesquisa: Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial da Amazônia – CIDE, situado em Manaus-AM; Parque de Incubação de Empresas de Bases Tecnológicas da Universidade Federal do Pará – PIEBT/UFPA; e a Incubadora de Empresas de Bases Tecnológicas do IEPA, em Macapá-AP. Foram mantidos inúmeros contatos pessoais com os gerentes das referidas incubadoras.15 Verificou-se in loco o processo produtivo de algumas empresas pesquisadas, além do contato pessoal mantido com os proprietários das empresas, que foi bastante útil no direcionamento deste estudo. A opção metodológica foi pela realização de estudo misto, do tipo analítico-bibliográfico, mas que se soma à aplicação de uma pesquisa de dados primários junto às empresas incubadas no CIDE/AM; PIEBT/UFPA; e PIETEC/IEPA, a qual teve por objetivo traçar um perfil dessas empresas, conforme suas especificidades e atuação na região amazônica16. A metodologia para esta pesquisa utilizou os seguintes elementos: - Seleção dos segmentos dos produtos naturais da biodiversidade amazônica: linha de negócios da indústria da biotecnologia e, principalmente de produtos naturais e agroindustriais na Amazônia, como plantas medicinais, ervas, óleos naturais, óleos essenciais, oleaginosas, alimentos, fitoterápicos, fitocosméticos, perfumes e corantes naturais; A título de exemplo podem ser destacados o Projeto Jari; o Projeto Ferro Carajás, complexo Albrás-Alunorte, entre outros. 14 Empreendedorismo é o estudo da criação e a administração de negócios novos, pequenos e familiares, e das características e problemas especiais dos empreendedores. Os principais tópicos incluem idéias e estratégias de novas empresas, influências ecológicas sobre a criação e o desaparecimento de novos negócios e de equipes criativas, autoemprego, gerentes-proprietários e o relacionamento entre empreendedorismo e desenvolvimento econômico. (Shane, 1997, p. 83). 15 Respectivamente os Srs. Manoel Montenegro; Gonzalo Enríquez, que atualmente é Diretor da ANPROTEC e Presidente da Rede Amazônica de Incubadoras de Empresas – RAMI e Nilson Sgarbiero, dirigentes que não mediram esforços em apoiar o desenvolvimento do presente estudo. 16Sem perda de conteúdo e mesmo dos objetivos básicos definidos para o estudo, mas considerando a abrangência do assunto e a multiplicidade de interpretações disponíveis, não foi possível, no âmbito desta pesquisa, abordar todas as linhas teóricas disponíveis na literatura, nem aprofundar a análise em alguns aspectos que mereceriam uma análise mais pormenorizada, cabendo explicitar que tal aspecto extrapolaria o escopo previamente definido para este estudo. 13 11 - Seleção das empresas: foram escolhidas as empresas e cooperativas de base tecnológica em regime de incubação direta ou indireta nas Incubadoras do PIEBT/UFPA, CIDE/AM e PIETEC/IEPA, que atuam no segmento da pesquisa; - Aplicação do roteiro de entrevista: um dos pontos mais importantes da pesquisa, do qual se obteve elevado nível de detalhamento nas informações, tendo em vista que, na própria dinâmica da entrevista, surgiram informações enriquecedoras para a análise do segmento estudado; e - Tratamento da pesquisa: análise e interpretação dos dados levantados nas entrevistas para a consolidação do perfil das empresas pesquisadas, que ensejaram o escopo do estudo. 1.4. ESTRUTURA DA DISSERTAÇÃO O Capítulo 1 apresenta um panorama geral do estudo, a sua contextualização histórica, os objetivos propostos, a metodologia utilizada e a sua estruturação. Aborda as potencialidades da biodiversidade amazônica e as possibilidades que se abrem para o seu aproveitamento socioeconômico, em benefício da população local, ante as inúmeras distorções nas áreas: econômica, ambiental, social e política provocadas pelos modelos históricos de ocupação e degradação da Amazônia. O Capítulo 2 aborda as bases conceituais do estudo, analisando a evolução da consciência global sobre meio ambiente e desenvolvimento. Discutem-se os rumos do desenvolvimento nas sociedades contemporâneas a partir das críticas às propostas reducionistas que não incorporam preocupações socioambientais em suas análises. O desenvolvimento sustentável busca conciliar crescimento econômico, prudência ecológica e justiça social, a partir de uma preocupação com as gerações futuras. As críticas a essa teoria vão desde o caráter extremamente genérico e ambíguo do ponto de vista conceitual, que permite uma infinidade de interpretações, servindo aos mais variados objetivos políticos-ideológicos às dificuldades de operacionalização das propostas que ela encerra. O Capítulo 3 analisa as políticas de ocupação da Amazônia ao longo de seu histórico processo de desenvolvimento e os impactos socioeconômicos e ambientais delas decorrentes. Discute esse modelo que acabou por estimular uma base produtiva pouco sustentável na Amazônia, excluindo a sua população da ativa e efetiva participação nos rumos de desenvolvimento dessa vasta região. 12 O Capítulo 4 analisa o redirecionamento de políticas públicas para a Amazônia, que na última década vêm incorporando questões ambientais e privilegiando ações que proporcionem a geração de trabalho e a distribuição de renda, resultados que têm base no desenvolvimento de grupos produtivos organizados que atuam em defesa da sustentabilidade. Tem este capítulo, também, o objetivo de avaliar o paradigma emergente do desenvolvimento sustentável, como uma alternativa de matriz de política pública para o desenvolvimento da Amazônia. Para tanto, utiliza-se o resultado de uma pesquisa recentemente realizada pelo WWF-Brasil, em parceria com o ISER - Instituto de Estudos da Religião, estudo este que demonstra a visão de líderes e do povo da Amazônia sobre o desenvolvimento e a conservação do meio ambiente amazônico. O Capítulo 5 apresenta a evolução da política ambiental no Brasil e a sua inserção na temática da biodiversidade, principalmente na fase posterior à década de 70, que foi o período onde se iniciaram a construção e a consolidação do arcabouço institucional e legal da política ambiental no País. O Capítulo 6 avalia o panorama da biodiversidade, em níveis internacional e nacional e o aproveitamento das suas potencialidades, ante os desafios das inovações tecnológicas em curso na região amazônica. Apresenta, ainda, uma visão geral sobre o PROBEM/Amazônia, programa instituído pelo Governo Federal para incentivar e dar suporte ao desenvolvimento de bioindústrias, viabilizando a pesquisa científica da biodiversidade da Amazônia. O Capítulo 7 trata do aproveitamento econômico dos produtos naturais da Amazônia, com ênfase nos óleos naturais e essenciais, cosméticos, corantes, produtos fitoterápicos e plantas medicinais. Analisa ainda, o tripé ciência-tecnologia-empreendedorismo, como as bases de um novo estilo de desenvolvimento local, o qual interage em rede para superar as limitações existentes na produção e comercialização dos produtos naturais e na viabilização da bioindústria na Amazônia. O Capítulo 8 apresenta os resultados da pesquisa de campo empreendida pelo autor e o alcance das experiências empreendedoras em curso na Amazônia, especificamente em relação às empresas e cooperativas de base tecnológica que atuam no segmento da biodiversidade amazônica, em regime de incubação no CIDE/AM, no PIEBT/UFPA e no PIETEC/IEPA. Analisa os arranjos institucionais que incentivam as parcerias entre os setores público e privado, como forma segura para garantir a transferência tecnológica para os pequenos empreendedores e como um poderoso 13 mecanismo de inclusão social. Revela ainda a importância e o papel das incubadoras de empresas para o desenvolvimento sustentável da Amazônia e de empresas inovadoras. No Capítulo 9, com base nos capítulos anteriores e nas entrevistas realizadas, são apresentadas algumas conclusões e recomendações acerca do presente estudo. Fica evidenciado, assim, que o potencial da Amazônia para a geração de riquezas não está apenas vinculado ao extrativismo, pura e simplesmente, podendo ir desde o acréscimo do valor agregado à produção extrativista, alcançando até mesmo a bioindustrialização de produtos, como medicamentos naturais, fitocosméticos, óleos naturais, óleos essenciais, oleaginosas, frutas tropicais, perfumes, corantes naturais e alimentos agroindustriais. Finalmente, o estudo enfatiza que um dos fatores chave para que a indústria de produtos naturais seja competitiva e deixe de ser apenas uma potencialidade é o investimento em pesquisa e desenvolvimento, em infra-estrutura de ciência e tecnologia que, ainda é extremamente pobre na Amazônia e, sobretudo na formação e capacitação de recursos humanos (capital social) bem como é imprescindível a ampliação da capacidade empreendedora instalada na região, assegurando o dinamismo dessa atividade produtiva. Isso significará um novo modelo de arranjo institucional que viabilize um ambiente que capacitam os micro e pequenos negócios instalados na região a melhorar e a inovar continuamente. Mas apesar das necessidades de novos investimentos, eles nunca serão tão altos como os que já foram feitos durante o perverso modelo de desenvolvimento da Amazônia, implantado em décadas passadas, trazendo um verdadeiro crescimento para a região e uma indústria biotecnológica competitiva e sustentável. 14 2 – REFERENCIAL TEÓRICO O presente capítulo apresenta as bases conceituais do estudo, cujo foco de suas análises se concentram nas dimensões ambiental e empresarial da sustentabilidade. A contextualização históricoteórica relativa ao desenvolvimento sustentável tem suas raízes nas discussões sobre o ambientalismo, em específico na busca de um conceito alternativo de desenvolvimento a partir dos debates sobre os riscos da degradação do meio ambiente em todo o planeta. Esses debates começaram ainda de forma esparsa nos anos 60, ganhando maior vigor com a publicação do estudo sobre os Limites do Crescimento encomendado pelo Clube de Roma, em 1968, e a Conferência de Estocolmo sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, realizada em 1972. O processo de crescimento econômico, que desconsiderava a contabilidade de seus custos socioambientais, começava a declinar ideologicamente, mesmo que na prática ele continuasse presente. Esse é um processo típico e como tal tem um ritmo próprio a partir do qual ele se desenvolve. O conceito de meio ambiente começaria, então, a se definir em três instâncias: a) como fornecedor de recursos naturais e receptor de dejetos oriundos das atividades humanas; b) como espaço onde se dão as interações entre processos naturais e sócioculturais; e c) como habitat, em sentido amplo, correspondendo à infra-estrutura física e institucional que influencia as condições gerais de vida das populações e a própria sustentabilidade ecológica dos sistemas sociais. A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano17, realizada em Estocolmo em 1972, é considerada por muitos como um marco nas discussões sobre desenvolvimento sustentável. Muito embora esse termo ainda não tivesse aflorado nos debates que ali se desenvolveram foi a partir dessa conferência que o caráter pluridimensional e interdisciplinar do tema e a estreita correlação entre desenvolvimento e qualidade de vida são reconhecidos (Vieira, 1992). A Conferência de Estocolmo, realizada entre 5 e 16 de junho de 1972, é considerada um marco no ambientalismo global. Representa o coroamento do movimento ambiental, que já vinha se estruturando desde o final dos anos 60, e é importante por causa da legitimidade que concedeu aos assuntos ambientais. (Mota, 2001, p.30). 17 15 A introdução do conceito de ecodesenvolvimento formulado por Maurice Strong18 em 1973 decorria de dois aspectos centrais: a) de ações em zonas rurais de países subdesenvolvidos; e b) na concepção antitecnocrática, propondo um planejamento oriundo das comunidades, para caracterizar uma proposta alternativa de desenvolvimento cujos princípios básicos foram posteriormente formulados por Ignacy Sachs, que começaram a ser delineadas as bases da noção de desenvolvimento sustentável (Bruseke, 1994). Essa idéia seria futuramente incorporada sob o conceito de desenvolvimento sustentável pelo Relatório Brundtland (1987)19. Nas formulações de Sachs, o ecodesenvolvimento deveria se integrar a outros aspectos não estritamente ambientais para definir um verdadeiro desenvolvimento. Os princípios desses aspectos eram a satisfação das necessidades humanas básicas, a solidariedade com as gerações futuras, a participação da população envolvida, a preservação dos recursos naturais e do meio ambiente em geral, a elaboração de um sistema social garantindo emprego, segurança social e o respeito a outras culturas. No campo das relações internacionais, o ecodesenvolvimento criticou o caráter das relações Norte-Sul, e no campo econômico-cultural criticou o progresso gerado pela modernização industrial (Leis, 1999). Portanto, a noção de ecodesenvolvimento buscava incorporar preocupações de cunho social e ambiental, ampliando as dimensões do desenvolvimento que tinha, até então, uma predominância da dimensão econômica. Em 1987, o Relatório Brundtland incorporou a idéia do ecodesenvolvimento sob o conceito de desenvolvimento sustentável, mais flexível, como “aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer a possibilidade de as gerações futuras atenderem as suas próprias necessidades.” (CMMAD, 1991). Estão aí implícitas uma série de noções como as de solidariedade, responsabilidade e éticas. Assim, este documento traz dois alertas: - para que o desenvolvimento sustentável ocorra é necessário “conservar e fortalecer a base de recursos, pois para haver sustentabilidade é indispensável que sejam conservados os recursos ambientais e que seja mantida a diversidade genética”; e Secretário Geral da Conferência de Estocolmo-72. Relatório Brundtland, denominado “Nosso Futuro Comum”, foi elaborado pela Comissão Mundial sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento – CMMAD e publicado em abril de 1987, no qual identificou problemas que se constituem em entraves para o desenvolvimento: o crescimento demográfico, a deterioração dos solos provocada pela criação de gado e pela agricultura, o desflorestamento, a destruição de espécies e as alterações climáticas globais. (Mota, 2001, p. 32) 18 19 16 - igualmente é necessário “integrar o meio ambiente e a economia nos processos decisórios para haver sustentabilidade. É preciso que mais gente assuma a responsabilidade pelos impactos das decisões políticas. É melhor que as autoridades se concentrem nas causas do que nos sintomas da deterioração ambiental”. Diante desses aspectos, o Relatório Bruntland destaca, entre as estratégias, que devem nortear a busca do desenvolvimento sustentável, a formação de um sistema: a) político que assegure a efetiva participação dos cidadãos no processo decisório; b) econômico capaz de gerar excedentes e know how técnicos em bases confiáveis e constantes; c) social que possa resolver as tensões causadas por um desenvolvimento não-equilibrado; d) de produção que respeite a obrigação de preservar a base ecológica do desenvolvimento; e) internacional que estimule padrões sustentáveis de comércio e financiamento; e f) administrativo flexível e capaz de autocorrigir-se. Neste contexto, é fundamental o entendimento da sustentabilidade em várias dimensões, conforme formulado por Sachs (2000): - sustentabilidade social: ancorada no princípio da eqüidade na distribuição de renda e dos bens, no princípio da igualdade de direitos à dignidade humana e no princípio da solidariedade dos laços sociais; - sustentabilidade ecológica: ancorada no princípio da solidariedade com o planeta e as suas riquezas e com a biosfera que o envolve, bem como na preservação do potencial do capital natural na sua produção de recursos renováveis e no limite do uso dos recursos nãorenováveis; - sustentabilidade ambiental: baseada no respeito e na capacidade da autodepuração dos ecossistemas naturais; - sustentabilidade econômica: avaliada a partir da sustentabilidade social propiciada pela organização da vida material, e está colocada como crescimento econômico contínuo sobre bases não predatórias, tanto para garantir a riqueza como para eliminar a pobreza e fazer os investimentos que permitam uma mudança do modelo produtivo para tecnologias mais sofisticadas e apropriadas; - sustentabilidade territorial: norteada pelo alcance de uma eqüanimidade nas relações interregionais e na distribuição populacional entre o rural/urbano e o urbano; - sustentabilidade político-institucional (nacional e internacional): representa um pré-requisito para continuidade de qualquer curso de ação no longo prazo; tem como base o desenvolvimento 17 da capacidade do Estado para implementar o projeto nacional, em parceria com todos os empreendedores; co-desenvolvimento dos países, baseado no princípio de igualdade; e - sustentabilidade cultural: modulada pelo respeito da afirmação do local, do regional e do nacional. Na concepção do planejamento do desenvolvimento, Barbieri (1997) descreve as seguintes condições para o alcance da sustentabilidade: a) redução da miséria e das desigualdades intra e internações, com a conseqüente satisfação das necessidades materiais e psicosociais dos segmentos populacionais afastados dos benefícios do modelo anterior; b) romper com a coexistência de um elevado índice de crescimento com desenvolvimento inadequado; c) ação da sociedade civil organizada, incluindo a canalização do potencial das comunidades; d) questionamento real das esferas de poder nas relações norte-sul; e) desenvolvimento científico e tecnológico, incluindo pesquisa de ponta; f) abandono de uma perspectiva economicista-predatória; e f) participação ativa do Estado e dos setores empresariais. 2.1. DIMENSÃO AMBIENTAL DA SUSTENTABILIDADE Observa-se que o conceito de sustentabilidade, com origem nas ciências biológicas, se refere à idéia central de respeito à capacidade de reprodução e renovação da base de recursos naturais, incluindo uma tentativa de conservação destes por meio de seus usos corretos, em específico por intermédio do uso de tecnologias apropriadas locais, avançadas ou alternativas. Neste sentido, a idéia de sustentabilidade é um avanço operacional em distintas dimensões: cultural, ecológica, econômica, social e política e, naturalmente, quanto ao ecodesenvolvimento e mesmo em relação ao desenvolvimento sustentável na sua versão inicial de 1987. Construir verdadeiramente a sustentabilidade, no âmbito de cada País, talvez seja também construir um novo paradigma dentro da economia do desenvolvimento e da ciência econômica de uma forma geral. 2.2. DIMENSÃO EMPRESARIAL DA SUSTENTABILIDADE Analisando esta dimensão, pode-se constatar que a concepção de desenvolvimento sustentável apresenta uma conotação positiva quanto à possibilidade de se aliar crescimento econômico, uso adequado dos recursos naturais e melhoria da qualidade de vida das pessoas. Sob a ótica do empreendedorismo ambiental, observa-se que o capitalismo tenta se apropriar da questão do ambientalismo, menos para pressupor uma resposta à pobreza e muito mais para manter a sua 18 própria sobrevivência como modelo de reprodução. No entanto, existem quatro entraves para estas pseudo-respostas: a) incerteza sobre o mercado da biodiversidade; b) dificuldades em trazer benefícios reais para as populações locais; c) dificuldade para controlar o acesso à biodiversidade; e d) falta de credibilidade internacional. Este novo conceito de desenvolvimento procura diferenciá-lo do processo de crescimento, que significa ‘ficar maior’, enquanto desenvolver expressa o ‘ficar melhor’. Porém, a própria expressão desenvolvimento sustentável, por si só, já é um pleonasmo, pois enquanto o crescimento econômico implica expansão da produção econômica, em termos quantitativos, o desenvolvimento exige sempre o atributo básico da qualidade: produção maior porém melhor, mais abundante, menos agressiva, gestão superior da produtividade incorporando valores extra-econômicos, como sociais, biológicos, físicos, políticos, sociais e éticos. Não se trata apenas de escolha entre o crescimento e o não-crescimento, mas que tipo de crescimento com desenvolvimento devemos escolher e onde (Benchimol, 2001). Apesar de suas tensões e ambigüidades, a força político-ideológica do conceito de desenvolvimento sustentável ficou evidenciada quando, nos anos 80 e 90, foi adotado como um estilo de gestão e atividade empresarial. Talvez o setor empresarial não tenha incorporado adequadamente os conteúdos éticos do conceito, mas também não pode evitar uma atração pragmática em função de seus próprios objetivos. Prova disso foi o Conselho Empresarial para o Desenvolvimento Sustentável (Business Council for Sustainable Development – BCSD)20, fundado em 1990 por várias dezenas de líderes empresariais, coordenados por Stephan Schmideheiny. Em curto período de tempo o BCSD organizou cerca de 50 conferências em mais de 20 países, incluindo uma participação ativa de empresários da África, Ásia e América Latina. Todas essas reuniões deram como resultado final o relatório Mudando o Rumo (Changing Course), no qual os empresários fixavam sua posição frente ao desenvolvimento sustentável (Leis, 1999). No Brasil, o Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS) foi criado em 1997. Representando grandes grupos empresariais instalados no país (hoje são 60), o CEBDS assumiu a missão de se tornar o interlocutor do setor empresarial junto ao governo e à sociedade civil organizada para disseminar o conceito de sustentabilidade. Segundo Fernando Almeida, presidente executivo do CEBDS, em junho último, uma reunião realizada a pedido do MMA deu forma ao pensamento do setor empresarial sobre a Agenda 21 (Jornal Valor, 31/07/2002). 20 19 Observa-se que embora esse relatório, que foi publicado em 1992, não espelhasse os valores de todo o empresariado mundial, ele contribuiu enormemente para fortalecer e respaldar as propostas do Relatório Bruntland. Dessa forma, a classe empresarial também buscava a sua inserção e participação nas discussões que eram travadas em torno dos pressupostos do conceito de desenvolvimento sustentável. Assim, as preocupações de se internalizar os aspectos da dimensão ambiental nos negócios e na economia visava uma mudança na dimensão empresarial, em que a priorização da relação com o meio ambiente passa a ser vista não apenas como um aspecto de competitividade e sobrevivência empresarial num mundo globalizado, e visto sob os ângulos econômico e ambiental. Passa-se a vislumbrar que o uso sustentável dos recursos do meio ambiente pode potencializar como gerar excelentes oportunidades, que podem ser viabilizadas economicamente. Portanto, sob a ótica da dimensão empresarial e do mercado, o meio ambiente não é apenas considerado como um fim em si mesmo, conforme a visão tradicional dos economistas liberais, mas como um meio de garantir a sustentabilidade da atividade empreendedora. Conforme Leis (1999), a partir de uma perspectiva da economia ecológica, o ambientalismo de mercado21 levantado pelos empresários do BCSD, não atende às necessidades de sustentabilidade reivindicadas em seu discurso. Em outras palavras, a chamada ampliação ecológica do mercado (por meio de uma suposta avaliação monetária das externalidades e, de modo geral, dos recursos naturais e serviços ambientais) é introduzida, no melhor dos casos, mediante técnicas de simulação de mercado. Por outro lado Georgescu-Roegen (1974), Daly (1977) e Martinez-Alier (1990) argumentam que não existe possibilidade de internalizar convincentemente as externalidades, dado que nos mercados atuais estão ausentes as gerações futuras (como mencionado anteriormente, o eixo principal do conceito de desenvolvimento sustentável). Os agentes econômicos atuais só poderiam, então, valorar de forma arbitrária, os efeitos irreversíveis e incertos de ações de hoje sobre as gerações do futuro (Martínez-Alier, 1992). Os chamados economistas ecológicos, embora aceitando qualquer medida ou instrumento capaz de reduzir os impactos da economia sobre o meio ambiente, argumentam que a fixação dos 21 Por ambientalismo de mercado entende-se a contabilização das externalidades, dos recursos naturais e dos serviços ambientais levados a efeito por uma atividade empresarial. Ver Leis (1999). 20 limites que tornam possível pensar num desenvolvimento realmente sustentável não é tarefa apenas para economistas e/ou empresários. Para Leis (1999) esses limites supõem uma revisão das relações entre a sociedade, a ciência e a política. Para Benchimol (2001) a complexidade do conceito de desenvolvimento sustentável exige, portanto, que o novo produto atue além da mentalidade econômica, alcançando a adequação ecológica, a correção política e a melhora dos padrões sociais. Estes são os quatros parâmetros fundamentais para o atendimento desse novo conceito, que promete ser uma nova e revolucionária maneira de produzir no novo milênio, sem destruir as bases da vida e assegurar a sobrevivência das forças naturais, sociais, humanas, biológicas e da biosfera em todos os quadrantes e situações. Isto exige um grande esforço que ultrapassa os limites da Agenda 2122, da Conferência do Rio de 1980, do Protocolo de Montreal, da Conferência de Kioto, no Japão, do Consenso de Washington, do PPG-7 (Programa Piloto de Proteção às Florestas Tropicais) e das centenas de organizações não-governamentais (ONG´s), que se propõem a lutar e implementar políticas de sobrevivência em inúmeros países do mundo. É consenso entre muitos estudiosos e pesquisadores que a Amazônia oferece uma infinidade de oportunidades para o desenvolvimento sustentável, ressaltando o potencial da região em termos de recursos minerais ainda explorados parcialmente, de geração de energia hidrelétrica, de biodiversidade (em grande parte, ainda desconhecido e inexplorado) e de solos para a agricultura, além de outros usos. Segundo Becker (1993) a Amazônia possui grandes problemas, mas também grandes trunfos para realizar um novo estilo de desenvolvimento, entre os quais destaca: a) a biodiversidade, fonte da biotecnologia que, juntamente com as jazidas minerais, as florestas, as águas, representa uma fabulosa e diversa base de recursos naturais; b) a sociodiversidade, significando a variedade de culturas, de atividades econômicas, de organizações sociais, de técnicas e saberes, isto é, de gêneros de vida que correspondem a diferentes modos de se relacionar com a natureza; e 22 Agenda 21 como ficou conhecido o documento final da Eco 92, estruturado em 40 capítulos, os principais compromissos dos mais de 170 governos signatários para a viabilização de um desenvolvimento sustentável global tendo como marco temporal o século 21. 21 c) um equipamento territorial constituído pelas redes de circulação e comunicação que dão suporte à produção e convergem nos núcleos urbanos. Na interface da bio-sócio-diversidade e das redes configuram-se níveis de complexidade territorial com tempos-velocidades igualmente diferenciados, que constituem a base para o desenvolvimento regional responsável (Becker, 1993), o qual situa-se, naturalmente, no âmbito da sustentabilidade, ou seja, a garantia dessa riqueza para as gerações futuras, com possibilidades de sobrevivência digna da atual geração. Para Sachs (2000) é urgente contrapor-se aos projetos tipo enclave na Amazônia, que são sempre insustentáveis do ponto de vista social, ambiental e político. Em contraposição a tais iniciativas, “o desafio consiste em acionar as suas imensas potencialidades de forma a transformá-la numa alavanca importante do desenvolvimento brasileiro e sul-americano, sem comprometer em nada as suas funções ambientas e climáticas absolutamente fundamentais”.23 Ressalta-se a importância da biodiversidade da Amazônia dentro de uma visão mais ampla, considerando-se os possíveis benefícios sociais, econômicos e ambientais resultantes do usufruto ou não - de parte dos potenciais bióticos da região, conforme os interesses da comunidade internacional, nacional e, particularmente das comunidades tradicionais locais: povos indígenas, caboclos, ribeirinhos, extrativistas, cujos valores24, atribuídos à biodiversidade, estão diretamente relacionado a sua própria subsistência25. Assim, no primeiro momento, aos olhares dos povos da floresta, esses valores estariam totalmente desvinculados da mão invisível do mercado. Sachs afirma, complementarmente, que o “desafio consiste em explorar o trinômio biodiversidade – biomassa – biotecnologias, de maneira a otimizar em sistemas agroindustriais integrados à produção agrícola, agroflorestal e aquática as diferentes biomassas e seu processamento, para obter produtos atendendo os sete usos seguintes: alimentos humanos, rações animais, bioenergias, fertilizantes, insumos industriais, materiais de construção, fármacos” . (Sachs, 2000) 24 Para aprofundar essa questão veja, entre outros, Pearce (1990) e Mota (2001). 25 Drummond (2001) questiona a tendência atual de igualar a riqueza de recursos naturais de uma região à prosperidade e ao bem-estar dos seus habitantes. 23 22 CAPÍTULO 3 - POLÍTICAS DE OCUPAÇÃO E DESENVOLVIMENTO DA AMAZÔNIA Este capítulo tem o objetivo de analisar sinteticamente o processo de ocupação e integração da Amazônia, implementada desde a década de 60, a partir das iniciativas governamentais, levando em consideração dois pressupostos que permitirão uma melhor avaliação. Primeiro, é imprescindível que se considerem os antecedentes históricos que permitirão perceber a articulação existente entre as políticas de desenvolvimento regional e a política econômica nacional norteadora das ações governamentais, que teve como alvo a ocupação e integração da região ao restante do país. Segundo, que as políticas desenvolvimentistas para a Amazônia, enquanto geradoras e/ou catalisadoras do agravamento de questões como a mineral, a fundiária e a florestal devem ser avaliadas como resultantes da articulação entre o modelo nacional de crescimento econômico com o processo internacional de acumulação capitalista. 3.1. DA POLÍTICA DE CONQUISTA À POLÍTICA DE EXPLORAÇÃO – FASE 1 Pandolfo (1994) define dois períodos, com base em critérios econômicos para explicar as transformações ocorridas no processo de desenvolvimento da Amazônia, diante da evolução orgânica do capitalismo brasileiro. O primeiro período que parte da ocupação em 1616, com a fundação da cidade de Belém, até meados do século XX, com a institucionalização do processo de valorização da Amazônia pela constituição brasileira de 1946. O segundo período que se estende do momento em referência, ganha contornos estruturais na década de 70 e se estende até os dias atuais com contornos ainda não bem definidos devido à atual discussão em torno dos paradigmas ecológicos e dos movimentos sociais, trazendo no seu bojo reavaliações da política de desenvolvimento para a região. Ainda, em relação ao primeiro período, dois ciclos de exploração foram dominantes: o ciclo das drogas do sertão e o ciclo da borracha, ambos ligados ao extrativismo vegetal26. Conforme (Souza, C., 2000), o ciclo das drogas do sertão desenvolveu-se sob a égide do processo de colonização. A relação entre a região amazônica e o espaço exterior próprio desse período, se dava a partir de uma lógica de capitalismo mercantil. 26 O ciclo pode ser definido como o período em que determinado produto, beneficiando-se da conjuntura favorável do momento, se constitui como centro dinâmico da economia, atraindo os investimentos de capital e mão-de-obra. 23 A Amazônia constituía-se como importante fonte de produtos florestais para exportação, tais como: madeira, resinas aromáticas, plantas medicinais, corantes para tecidos e tintas, cravo, canela etc e, para coletá-los, os colonizadores mobilizaram a mão-de-obra indígena, profunda conhecedora de todos os recantos regionais e detentora do saber em relação às riquezas da floresta. Essa conotação política, voltada para a exploração dos recursos naturais regionais, perdurou durante quase todo século XVIII e foi assumida pelas autoridades do Brasil já independente, no século XIX. O Brasil soberano não teve outra preocupação para com a região amazônica que não fosse a de garantir a sua conquista e maximizar a exploração de seus recursos naturais. Observa-se que Portugal buscou, principalmente a partir da segunda metade do século XVIII, aplicar na região a política colonial que se processava no restante do Brasil, porém a Amazônia não apresentou transformações significativas na fase colonial. Cabe destacar, ainda, que no período colonial a Amazônia estava subordinada à Corte Portuguesa, portanto, não seguindo as normas administrativas que se processavam no restante do Brasil. Esta situação perdurou até a independência em 1822. Neste sentido, mais de dois séculos da história da Amazônia se processou num regime de total isolamento entre aquela região e o Brasil. Observa-se que a maioria dos historiadores concorda que a política mercantil implementada na Amazônia limitou-se à exploração de produtos nativos de interesse comercial, com fraca articulação com o desenvolvimento nacional e reduzido crescimento demográfico e urbano.27 Em meados do século XIX, com o chamado ciclo da borracha, a Amazônia apresenta relativo crescimento econômico e urbano fazendo da borracha o elemento central do extrativismo naquele momento, propiciando a integração da região com a economia nacional e internacional, em razão desta ser uma matéria-prima importante para a expansão industrial que se processava na Europa e nos Estados Unidos. A importância assumida pela borracha provocou o fortalecimento do mercado exportador, e em 1866 o imperador Dom Pedro II abriu o rio Amazonas à navegação internacional ligando diretamente a região à economia mundial (Souza, C., 2000). Segundo (Souza, C., 2000) o período áureo da borracha amazônica perdurou por cerca de 20 anos, de 1890 a 1910. Posteriormente, sua produtividade declinou, motivada pela expansão contínua da produção originária dos seringais de cultivo do extremo oriente. Em 1912, o governo Hermes da 27 Ver Pandolfo (1994) e Hall (1991). 24 Fonseca instituiu algumas medidas que visavam restabelecer a competitividade da economia da borracha, como o Plano de Apoio à Borracha, na tentativa de fortalecer a posição do Brasil no comércio internacional do produto, porém não obteve êxito com essas medidas, relegando a Amazônia a um período de crises no seu processo de desenvolvimento. Com o esgotamento do ciclo da borracha grande parte da mão-de-obra liberada por essa atividade acabou fixando residência na região, ocupando terras marginais como posseiros e ribeirinhos. As atividades econômicas desses contingentes populacionais se assentavam na agricultura de subsistência, caça, pesca e coleta de produtos extrativos. Essa fixação favoreceu o surgimento de muitas aglomerações, vilas, freguesias, distritos e cidades, conforme os traços históricos do processo de ocupação da região. Na década de 40 foi selado o acordo de Washington, conseqüência da II Segunda Guerra Mundial, em que o Brasil se comprometia a fornecer aos países aliados as chamadas matérias-primas estratégicas, entre elas a borracha como insumo de operação de guerra. Essa reativação da produção gomífera na Amazônia possibilitou a adoção por parte do Estado de algumas medidas infraestruturais, que beneficiaram o processo posterior de ocupação da região. Entre as medidas adotadas destacam-se a criação do Banco de Crédito da Borracha, posteriormente chamado de Banco da Amazônia S.A., a criação do Serviço Especial de Saúde Pública – SESP e o auxílio às atividades de pesquisa, com a criação do Instituto Agronômico Norte, transformado posteriormente no Centro de Pesquisas Agroflorestais da Amazônia Oriental -CPATU, da Embrapa (Souza, C., 2000). Com o término da guerra e a liberação da borracha produzida no Oriente a Amazônia voltou novamente à situação de esquecimento e, apesar da Constituição de 1946 prever mecanismos de valorização regional e da criação da SPVEA28 em 1953, o interesse econômico pela Amazônia só vai ser evidenciado novamente nos inícios dos anos 60, com a descoberta e avaliação do potencial mineral e florestal e a posterior implantação dos chamados grandes projetos. Esta última fase é evidenciada como o momento de inserção profunda e definitiva da região com a dinâmica do capitalismo nacional e internacional (Pandolfo, 1994). 28 SPVEA – Superintendência da Política de Valorização Econômica da Amazônia. 25 3.2. DA POLÍTICA DE EXPLORAÇÃO À POLÍTICA DE INTEGRAÇÃO No intuito de acompanhar a nova dinâmica de expansão do capitalismo mundial, no início da década de 50, a Amazônia passa a modificar a sua estrutura produtiva interna para adequá-la ao papel assumido pela região no processo de divisão do trabalho, nacional e internacional. Observa-se que a matriz de desenvolvimento econômico regional passa a estar vinculada às potencialidades de recursos naturais existentes na biodiversidade amazônica, notadamente minerais de elevado valor estratégico no mercado mundial, que vão atrair o interesse de grandes grupos econômicos para a região. Para tanto, nas décadas de 60 e 70, o Estado assume um papel de fundamental importância visando conciliar os interesses do capital externo que almejava ocupar e expandir as fronteiras do capitalismo na Amazônia. Nessa direção, uma série de políticas públicas foi implementada, como estratégia da integração nacional, decorrendo daí a criação da Superintendência de Desenvolvimento da Amazônia – SUDAM e do Banco da Amazônia - BASA; as instituições de incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus, do PIN – Plano de Integração Nacional, do Programa de Redistribuição de Terras - PROTERRA, os Planos Nacionais de Desenvolvimento – PND I e II, a ação do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária - INCRA e outros organismos e programas governamentais. O mecanismo mais importante no desenvolvimento da região decorreu da presença dos grandes projetos econômicos implantados na Amazônia (agropecuários, madeireiros, minerais), provocando a aceleração do fluxo migratório, valorização e a integração definitiva da região à economia nacional e internacional. Nesse processo, também foi importante a abertura de imensas rodovias de penetração, tais como Belém-Brasília, Santarém-Cuiabá, Transamazônica, Perimetral Norte e outras que favoreceram a abertura da região para as frentes de expansão do capitalismo. Destaca-se ainda a construção da hidrelétrica de Tucuruí, bem como a implantação de vários núcleos de colonização dirigida, que foi um elemento fundamental na política de ocupação dirigida à Amazônia. Observa-se que o Estado pós-64, com o discurso de levar a cabo a integração nacional - que na realidade escondia o real interesse da expansão do capitalismo na Amazônia - atendia também outros objetivos, tais como: 26 a) Interesses geopolíticos – Uma preocupação do Estado estava na ameaça expansionista constituída por países limítrofes à Amazônia. Assim, foi lançado o programa de construção das estradas da integração nacional, tendo como base a ligação do Brasil central à foz do rio Amazonas, por meio da Belém – Brasília e ocupação da Amazônia ocidental, da Cuiabá – Porto Velho. Era o lema das Forças Armadas Integrar para não entregar, no processo de ocupação da fronteira amazônica, mecanismo ideológico que dava a sustentação geopolítica aos recursos despendidos com essas estradas; b) Novos mercados – A abertura econômica da Amazônia representava a criação de novos mercados para a expansão industrial que ocorria no sul e sudeste do Brasil; e c) Aliviar tensões sociais de outras áreas – Como na Amazônia existia uma grande disponibilidade de terras, com baixa densidade demográfica, e dentro da estratégia de valorização regional de uma área que precisava ser ocupada, a integração da região com o restante do Brasil também servia ao propósito de contornar o problema da reforma agrária no nordeste e no sul, minimizando tensões sociais dessas áreas por meio da transferência de populações para a Amazônia, atendendo a política governamental de ocupação regional e fornecendo mão-de-obra barata para os empreendimentos que se instalavam naquela região. Por outro lado, segundo Carvalho (1979), é necessário compreender esse processo como sendo a incorporação da Amazônia ao processo geral da expansão do capital a nível nacional, tendo sido decisivo o papel do Estado como promotor da expansão do capitalismo na região. Portanto, pode-se aduzir que a situação atual do setor primário amazônico reflete as conseqüências dessas políticas desenvolvimentistas do Governo Federal que objetivaram, principalmente a integração da região ao processo de acumulação capitalista que ocorria no restante do país, sem a menor preocupação com os interesses regionais. 3.3. DA POLÍTICA DE INTEGRAÇÃO À POLÍTICA DE EXPLORAÇÃO – FASE 2 Em apoio às estradas de integração surgiram os incentivos fiscais, ou sejam, as deduções tributárias para investimentos, pelas quais o Governo Federal concedia parcelas do imposto de renda para que fossem aplicadas na região. Uniram-se, assim, os interesses do poder público e da iniciativa privada com o objetivo de explorar os recursos naturais amazônicos. A integração nacional dava cobertura à política de exploração (Souza, C., 2000). 27 A política de integração nacional, que abriu estradas que penetraram até as mais longínquas paragens da região, atingiu o seu objetivo integracionista imediato, mas também revelou as reais dimensões do valor da Amazônia para o restante do País e para o mundo. Trouxe consigo os atuais contingentes populacionais que ocupam a região, criando as frentes pioneiras de ocupação e os conflitos socioambientais que hoje perduram no processo de desenvolvimento da região. Para Souza (1996) a Amazônia perdeu, assim, o seu ar de mistério, o critério mágico que transmitia aos seus primeiros ocupantes, o sentimento de respeito à floresta e aos rios, nas suas multifárias manifestações. No entanto, o seringueiro, o balateiro29, o pescador, o castanheiro e o mateiro mantinham com a região uma relação de equilíbrio que evitava qualquer prática predatória. As frentes pioneiras adotaram outra atitude, pois os seus integrantes não sentiam qualquer compromisso com o equilíbrio ecológico regional. O capitalista empreendedor, incentivado e subsidiado pelo Estado no processo de substituição de florestas por pastagens, agiu na região com todos os efeitos perversos inerentes a essa atividade. Desse modo, a política de integração teve a ambivalência de, por um lado, voltar-se para atender uma preocupação nacionalista e fazer da Amazônia co-participante da economia nacional; por outro, os efeitos perversos da devastação florestal, da agressão ambiental que hoje se constitui numa ameaça de proporções gigantescas ao equilíbrio ecológico do planeta. Nessa linha de raciocínio, situam-se também, os megaprojetos mínero-metalúrgicos, implantados na década de 70 na Amazônia, tais como Projeto Ferro Carajás, complexo ALBRÁSALUNORTE, Projeto Jari, Mineração Rio do Norte, aos quais deve ser acrescentada a Hidrelétrica de Tucuruí. Todos esses projetos assumiram três características adversas e importantes para a região: a) atraíram mão-de-obra não-qualificada de todo o país, formando bolsões de pobreza, até hoje não superados; b) provocaram graves impactos ambientais, até hoje não absorvidos; e c) constituíram-se caracteristicamente enclaves na região, sem provocar maiores efeitos benéficos, em nível econômico ou social, já que constituem-se empreendimentos voltados exclusivamente para o mercado externo. 29 Aquele que se ocupa da extração do látex da balata (designação de duas árvores de terra firme, das famílias das sapotáceas: Mimusopis Amazônica Mart. e M. Bidentada DC), que fornecem madeira útil de cor quase roxa, usada na construção civil e naval, e cujo látex é utilizado no preparo de balata. 28 Para Costa (1995), essa articulação permite distinguir os papéis reservados à Amazônia: a) funcionar como fonte supridora para a exportação de recursos naturais, renováveis ou não; b) servir de espaço geográfico apropriado para o movimento da fronteira agrícola brasileira; e, c) servir de espaço para a penetração das inversões industriais de conglomerados internacionais sob a forma de capital produtivo (enclaves industriais). Uma vez que toda a ação governamental privilegiou a esfera econômica, observa-se que os resultados obtidos têm sido satisfatórios do ponto de vista do capital. Assim sendo, cabe ressaltar a apropriação de grandes porções de terras como reservas de valor, as possibilidades de ganhos especulativos com a valorização das terras que contaram com as obras de infra-estrutura governamentais e os incentivos fiscais, assim como as possibilidades de exploração dos recursos naturais regionais. Tais resultados permitem perceber que os objetivos foram alcançados, ou seja, a Amazônia estava definitivamente integrada ao processo geral de acumulação capitalista em nível nacional e internacional. 3.4. DA POLÍTICA DE OCUPAÇÃO À POLÍTICA DE DESENVOLVIMENTO Com base nos pressupostos dos tópicos anteriores, observa-se que a decisão de desenvolver a Amazônia, de criar na região uma sociedade economicamente estável e progressista, nunca foi atitude dominante do poder público, que sempre adotou uma postura pautada no ideário utilitarista e imediatista da exploração dos recursos naturais regionais. Os planos de desenvolvimento regionais não passaram - até hoje - de formais declarações de intenção e, constritos pela falta de recursos financeiros, tornaram-se meros documentos de relações públicas e não de estratégias de ação a serem cumpridas pelas agências de desenvolvimento, seja em nível federal, seja em nível estadual. As estratégias de planejamento do desenvolvimento regional enfatizaram ora a integração nacional, ora a ocupação populacional da região, ora os incentivos à iniciativa privada para investir no aproveitamento das matérias-primas regionais. Essa visão sempre acentuou o sentido estratégico de utilização das vantagens comparativas que a Amazônia ostensivamente tem, mas na maioria das vezes com conseqüências danosas à própria região. Todavia, essas estratégias de ação, ou não se realizaram, ou a sua realização provocou efeitos adversos que vêm marcando a presença do homem na Amazônia de forma trágica e contundente. A reversão desse quadro é o grande desafio do nosso tempo, pois tem provocado grandes e 29 estonteantes questionamentos sobre o futuro da região. Evitar a ocupação da Amazônia é praticamente impossível e não desejável, se forem consideradas as reais potencialidades de um desenvolvimento sustentável. Como fazê-lo sem desencadear efeitos adversos? Os recursos naturais regionais são abundantes. Cabe perguntar como agir em relação aos produtos das florestas, suas águas, os minérios, como explorá-los sem causar efeitos perversos à sociedade amazônica? Esse é o desafio a enfrentar nesse milênio. 30 CAPÍTULO 4 - DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL: OS DESAFIOS DO PROCESSO DE CONSTRUÇÃO DE UMA NOVA MATRIZ DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA A AMAZÔNIA Este capítulo tem o objetivo de debater os desafios inerentes ao processo de construção de uma nova matriz de políticas públicas para a Amazônia com base na Agenda 21 Brasileira, sob a ótica do desenvolvimento sustentável. Historicamente verifica-se na Amazônia um grande distanciamento entre as políticas públicas de desenvolvimento econômico e as de proteção ambiental, fato que pode ter acarretado o elevado grau de degradação ambiental dos seus principais ecossistemas. Uma das dificuldades de orientar decisões políticas para que estas não comprometam o meio ambiente está na necessidade de democratizar as decisões e garantir a sua ampla disseminação. Isto porque, quando se trata de meio ambiente, a abrangência dos efeitos/custos relativos ao emprego de uma determinada técnica, ou política, é muito maior que a abrangência dos benefícios. É preocupante o fato de que as atuais leis e políticas públicas de meio ambiente não são suficientes para diminuir a perda da biodiversidade. As unidades de conservação, por exemplo, podem não cobrir áreas com alto índice de biodiversidade e podem falhar na tentativa de acomodar as necessidades biológicas das espécies existentes na área (Clark e Downes, 1995). Apesar de os problemas reais decorrentes da ocupação predatória a que foi submetida, a Amazônia tornou-se alvo de interesses internacionais conflitantes. De um lado, a consciência ecológica, legítima; de outro, pressões geopolíticas associadas à valorização da biodiversidade como fonte de ciência e tecnologia e fonte de poder, pressões que expressam as contradições entre as próprias potências dominantes quanto à definição de grandes mercados supranacionais. É neste contexto, das novas exigências geopolíticas mundiais, que emerge o novo paradigma de desenvolvimento sustentável e se valoriza a Amazônia (Becker, 1993)30. Apresenta-se a seguir os resultados mais significativos de uma ampla pesquisa de opinião realizada em 2001 pelo WWF-Brasil em parceria com o Programa de Meio Ambiente e Desenvolvimento do ISER – Instituto de Estudos da Religião, chamado Desenvolvimento e 30 Afirma Becker (1993, p. 139) que “A Amazônia não é mais a mesma dos anos 60. ..., uma de suas feições mais marcantes é a sua diversidade interna, seja no nível da biodiversidade, seja no nível da diversidade sociocultural, econômica, cujos problemas e potencialidades diferenciados são ainda em grande parte desconhecidos” 31 conservação do meio ambiente: pesquisa de opinião com lideranças e a população da Amazônia, sobre o desenvolvimento e o meio ambiente. 4.1. BREVE EXAME DOS RESULTADOS DO ESTUDO DESENVOLVIMENTO E CONSERVAÇÃO DO MEIO AMBIENTE: PESQUISA DE OPINIÃO COM LIDERANÇAS E A POPULAÇÃO DA AMAZÔNIA. Segundo Garo Batmanian, Secretário Geral do WWF-Brasil, o principal objetivo do estudo foi, de um lado, obter a opinião da população sobre a relação entre a conservação do meio ambiente e o desenvolvimento socioeconômico e, de outro, uma visão mais qualificada dessa discussão por parte de segmentos sociais relevantes da região, formadores de opinião e com grande influência na formulação das chamadas políticas de desenvolvimento. A pesquisa procurou verificar até que ponto o paradigma da sustentabilidade está presente, ou não, nas agendas e no elenco de prioridades que estes mesmos segmentos são capazes de constituir. As principais preocupações da pesquisa relacionam-se diretamente a dois eixos temáticos em voga na região, ou sejam: quais as concepções sobre desenvolvimento estão hoje em jogo e quais as bases sociais de apoio ao projeto de uma Amazônia sustentável e à conservação do meio ambiente? A pesquisa mostra que a preservação da floresta é uma das prioridades da população que vive na região, mas que há uma série de outros problemas afetando o seu desenvolvimento e a sua qualidade de vida. Para 34% da população a principal prioridade para a Amazônia é conservar a floresta. Em geral, os principais problemas citados são aqueles clássicos da falta de desenvolvimento: baixa oferta e baixa qualidade dos serviços de saúde, educação e infra-estrutura. Foram mencionadas, especificamente, a falta de estradas e transportes, a falta de saneamento básico e as más condições urbanas (ruas sem asfalto, enchentes, lixo). Foram ainda citadas a falta de segurança e a alta criminalidade. Houve destaque também para os problemas de energia, sobretudo nas áreas rurais, onde o serviço é escasso e ineficiente. O desemprego aparece apenas nas perguntas fechadas, em que as opções de resposta vinham previamente listadas. Em relação ao conceito de desenvolvimento sustentável, a pesquisa mostra que o mesmo já é manejado com desenvoltura pela elite amazônida, considerado todos os seus segmentos. Este conceito tornou-se o discurso de consenso para quem fala a respeito de meio ambiente e desenvolvimento, independente de credo e de opção partidária. Entre a população, a expressão desenvolvimento sustentável é pouco conhecida. No entanto, a maioria dos entrevistados declarou 32 que não considera o progresso mais importante do que conservar a natureza, discordando, da idéia de que o Brasil não pode dar-se ao luxo de se preocupar com problemas ecológicos e está consciente de que é preciso controlar o uso dos recursos naturais. Assim, é inevitável que os discursos acerca do desenvolvimento sustentável avancem mais do que a prática. Portanto, não adianta concentrar-se esforços na busca da sustentabilidade apenas nos campos da retórica. Urge que possamos exigir do Estado a adoção de políticas públicas concretas e transparentes de operacionalização da sustentabilidade, pois com certeza não será o mercado sozinho que resolverá os problemas ambientais e desenvolverá caminhos sustentáveis. As dimensões valorizadas da sustentabilidade variam conforme o grupo de interesse. Os empresários valorizam a dimensão econômica, os cientistas e ambientalistas tendem a enfatizar a dimensão ecológica. Os movimentos sociais tendem a colocar em relevo a dimensão cultural e também a econômica, enquanto as organizações religiosas insistem nos aspectos éticos. Quanto à vocação econômica da região observa-se que há um forte consenso em torno da necessidade de explorar de forma sustentável a floresta. Ela é tida pelos amazônidas como um dos grandes recursos da região e o principal vetor na definição da sua vocação econômica. Contudo, a visão predominante é a de que a Amazônia é mais do que a sua floresta, comportando vocações múltiplas, não se devendo priorizar uma única estratégia de desenvolvimento. Os atores usam diferentes parâmetros para falar do potencial econômico da região, como se observa a seguir: a) Os militares destacam a existência dos recursos minerais e o enorme potencial de energia renovável, representado pelos recursos hídricos abundantes na região; b) Os movimentos sociais e os ambientalistas enfatizam a importância da economia baseada na exploração sustentável da floresta e a necessidade de reforçar práticas de agricultura sustentável, baseada sobretudo na pequena produção e voltada para o mercado interno; c) Os empresários defendem a idéia de que a agricultura e a pecuária são necessárias e possíveis na região, sobretudo em áreas já desmatadas; e d) Há um consenso generalizado, de que a cultura da soja na Amazônia não deve ser ampliada. 33 Foram ainda feitas severas críticas ao Plano Brasil em Ação31 do Governo Federal, bem como aos eixos de desenvolvimento nos quais ele se baseia. Quanto ao futuro da Amazônia, para os otimistas a consciência ambiental aumenta no País e na região, e os próprios movimentos sociais incorporam a preservação do meio ambiente em suas lutas pela melhoria das condições de vida. Para eles, a importância estratégica da região tende a aumentar interna e externamente, e a impunidade que hoje impera nas agências de desenvolvimento, tem os dias contados. A crença de que a Amazônia não é uma prioridade na agenda pública nacional e de que faltam políticas coerentes para a região faz com que o futuro da Amazônia seja visto com pessimismo por expressiva parcela das lideranças ouvidas. Acreditam, ainda, que o desmatamento vem aumentando e que a pobreza da população na região tende a pressionar ainda mais os recursos ali existentes. Os mais catastrofistas acreditam que, no futuro, a Amazônia será um colar de cidades pobres entremeadas por unidades de conservação, remanescentes da floresta. Portanto, fica claro que os resultados apresentados pela referida pesquisa demonstram que faltam políticas públicas coerentes para o desenvolvimento da Amazônia. Entre os problemas de ordem geral, identificados pelos amazônidas, o primeiro lugar ficou com o par a incoerência das políticas voltadas para o desenvolvimento da Amazônia, e a falta de políticas ambientais adequadas. É possível inferir que as políticas ambientais existentes não levam em conta as especificidades da região, nem os aspectos da sustentabilidade apregoados no discurso de um desenvolvimento sustentável assumido pelas elites. Em resumo, o modelo de desenvolvimento adotado até hoje na região e as políticas de desenvolvimento que o acompanham, não têm sido coerentes com a idéia de utilizar racionalmente os recursos da Amazônia. Observa-se, ainda, que as políticas públicas equivocadas se encontram no conjunto dos maiores problemas da região. A Amazônia é vista como um fornecedor de matérias-primas para as regiões mais desenvolvidas do Brasil e não se pensa num desenvolvimento endógeno que traga benefícios para a população local. Em relação à reforma agrária, conforme indica a pesquisa aqui analisada muitos amazônidas sugerem que sejam privilegiadas as áreas já desmatadas na política de assentamentos, fornecendo-se assistência técnica aos assentados e aos pequenos produtores. O Programa Brasil em Ação foi lançado em agosto de 1996, agrupando 42 empreendimentos: 16 na área social e 26 na área de infra-estrutura, que fazem parte do Plano Plurianual do período 1996 a 1999, envolvendo investimentos da ordem de R$ 79 bilhões (Fonte : Ministério do Planejamento e Orçamento). 31 34 A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - Embrapa poderia dar apoio a esse segmento por meio da transferência de tecnologias já desenvolvidas e apropriadas para a região. No que se refere à dimensão econômica, os empresários do setor madeireiro argumentam que falta uma política ambiental para a Amazônia, pois todos, tanto os de fora, como os de origem local, querem a sua preservação. Mas falta a definição de políticas para estabelecer como seria feita a preservação. Para um subconjunto mais consciente não se faz preservação por meio de decretos. São necessários investimentos e incentivos por parte do governo para que seja feito o reflorestamento. O resultado da pesquisa também aponta que o Zoneamento Econômico-Ecológico – ZEE é um instrumento eficaz para orientar os investimentos possíveis de serem realizados, aplicando às realidades locais planos de desenvolvimento compatíveis, considerando as características de cada ecossistema presente na Amazônia. Além disso, o planejamento participativo poderá ser utilizado para diminuir conflitos, mobilizar os empreendedores e legitimar as políticas de desenvolvimento local. Com base nessa pesquisa, várias lideranças do movimento social e ambientalista da Amazônia advogam a necessidade de apoiar as discussões que estão ocorrendo em vários municípios da região sobre os planos de desenvolvimento local baseados na Agenda 21. Para essas lideranças, a Agenda 21 tem uma metodologia bastante interessante e capaz de mobilizar pessoas e recursos para projetos de desenvolvimento sustentável. Quanto à implementação das leis ambientais, é consenso entre os amazônidas que é preciso investir na fiscalização. A pesquisa indica que não adianta definir políticas e fazer leis sem os meios para torná-las plenamente aplicáveis. A maior parte dos depoimentos levantados pelo estudo sobre as denominadas políticas de papel consideram o Ministério do Meio Ambiente – MMA e o IBAMA aliados, porém fracos politicamente e com poucos recursos. Em particular no que diz respeito a esse Instituto, a imagem do órgão oscila tremendamente: acusado de ineficiente e corrupto por alguns, tem sua atuação valorizada por outros que o admiram, muito especialmente os técnicos que estariam agindo por pura convicção, sem dispor dos meios necessários para fazer cumprir as leis. Os Estados do Acre e do Amapá são atualmente reconhecidos nacional e até internacionalmente como exemplos de estados que estão desenvolvendo matriz de políticas públicas coerentes com o desenvolvimento sustentável. Muitos autores indicam o Governo da Floresta - 35 como é conhecida a administração de Jorge Viana no Acre – e o governo do Amapá, como uma vitória das lutas socioambientais e do crescente prestígio das alternativas de desenvolvimento na região. Há, contudo, críticas recorrentes de que essas políticas não repercutem. Essas novas experiências – as primeiras em grande escala estadual – devem ser avaliadas e replicadas para se conseguir uma escala regional. Os mais entusiastas dessas experiências estaduais são os movimentos sociais, os ambientalistas e os religiosos. Os demais setores se mostram céticos ou dizem desconhecê-las, conforme os resultados da pesquisa do WWF-Brasil. O estudo ainda revela as severas críticas que são feitas ao governo federal em virtude do projeto Avança Brasil, que estaria na contramão do desenvolvimento sustentável para a Amazônia. Os entrevistados advogam que o governo federal não tem uma proposta concreta de desenvolvimento sustentável para a Amazônia, principalmente porque os povos da floresta vivem da agricultura familiar e a proposta do Estado é tornar o Brasil um dos maiores produtores de grãos para exportação. Portanto, as políticas de governo não estão em sintonia com os anseios dos povos da Amazônia (índios, seringueiros, ribeirinhos, extrativistas, pequenos agricultores). No que diz respeito ao grupo anti-ambientalismo, identificável em certos membros do legislativo e até mesmo do governo federal, o estudo aponta que o problema estaria mais na falta de integração das políticas, o que gerariam políticas de desenvolvimento conflitantes para a Amazônia. A criação do Conselho Nacional dos Seringueiros - CNS, em 1985, é apontada pelos amazônidas como um marco na questão socioambiental na região, pois favoreceu uma intensa mobilização e organização da sociedade civil e uma pressão ambientalista muito grande, em nível regional, nacional e internacional. Posteriormente a esse momento ímpar, foram deflagrados os programas Nossa Natureza, o Programa Piloto para a Proteção das Florestas Tropicais Brasileiras PPG7, as políticas de zoneamento e a criação do Ministério do Meio Ambiente e da Amazônia Legal, que se revelaram importantes, pois proporcionaram uma série de ações do Governo Federal, no sentido da sustentabilidade da região e da proteção das florestas. Em relação ao programa Avança Brasil, alguns estudiosos amazônidas entrevistados argumentam que os Eixos Nacionais de Integração e Desenvolvimento, partes essenciais do programa para a Amazônia, não resultaram de grandes consultas regionais. Para eles, a maioria desses eixos melhora as estradas que já existem, mas o problema é que, ao melhorar a circulação, vai segmentar as massas florestais e desrespeitar, em muitos casos, as terras indígenas, assim como as 36 unidades de conservação. Esse é, portanto, um grande problema, porque os eixos foram pensados para a exportação, não para a integração interna da região. Entre as propostas referendadas pelo estudo do WWF-Brasil que podem ser aventadas para a melhor integração de políticas públicas, com vistas à melhoria da eficiência na implantação de uma política estadual/regional de conservação e uso sustentável da biodiversidade, na Amazônia, incluemse a(o): a) necessidade de revisão de incentivos fiscais e subsídios governamentais relacionados ao uso da terra; b) desenvolvimento de mecanismos econômicos de incentivo à conservação e uso sustentado dos recursos naturais; c) promoção da agricultura sustentável, o planejamento de uso e manejo de solo e áreas de conservação; d) construção de alianças entre os setores interessados nos recursos genéticos, no estabelecimento da regulamentação de acesso e em seu uso sustentável; e e) integração de valores ambientais à formulação de políticas públicas. Cumpre destacar, ainda, algumas ações concretas que foram sugeridas por algumas lideranças da Amazônia, por ocasião da mencionada pesquisa, como passos importantes e inadiáveis para mudar o paradigma atual de desenvolvimento da região: 1. Repensar o Programa Avança Brasil para a Amazônia; 2. Evitar a construção de estradas, sobretudo na Amazônia Ocidental; 3. Consolidar um Código Florestal específico para a região; 4. Melhorar a Lei de Acesso aos Recursos Genéticos; 5. Aplicar o Zoneamento Ecológico-Econômico em bases participativas e incentivar os processos de construção da Agenda 21 local; 6. Rever a política de assentamentos na Amazônia, sobretudo os da reforma agrária, priorizando as áreas já desmatadas; 7. Proteger as populações tradicionais e as populações indígenas; 8. Implementar programas de capacitação técnica para os produtores rurais; 9. Formular uma política de desenvolvimento urbano para a região; 37 10. Ampliar, por meio de campanhas, o reconhecimento da importância da Amazônia junto à opinião pública nacional e internacional; 11. Melhorar as estratégias e as coalizões das forças sustentabilistas existentes dentro e fora da Amazônia, que estão presentes em todos os setores, e desenvolver práticas de lobby a favor da conservação da floresta; e 12. Promover a renovação da classe política apoiando campanhas pelo voto responsável. Por fim, são necessários modelos mais criativos na formulação de políticas para a Amazônia. As políticas efetivas são adotadas quando os planejadores e os cidadãos têm uma base de informação em relação à estrutura e função do governo, bem como sobre as conseqüências das políticas públicas. 4.2. PROGRAMA DE DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DO AMAPÁ – PDSA Situado na Amazônia Oriental, o Estado do Amapá é uma das mais recentes unidades federativas do Brasil. Tem uma área de 143.453,7 km2, fazendo fronteiras com o Estado do Pará, o Suriname, a Guiana Francesa e o Oceano Atlântico. Atualmente, está subdividido politicamente em dezesseis municípios, situados em quatro micro-regiões e duas meso-regiões. O porto de Santana, no rio Amazonas, é o único de águas profundas na região. Possui grande parte de sua extensão territorial coberta com florestas tropicais, o que representa um enorme potencial de desenvolvimento. O potencial é representado pelas madeiras, produtos florestais não-madeireiros e outros bens e serviços que a floresta pode oferecer. Todo esse potencial é reconhecido pelo Governo do Estado, que por meio do Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá – PDSA32 busca encontrar a melhor estratégia para transformar esse potencial em bens e serviços, gerando riquezas para melhorar as condições de vida da população. Essa decisão transformou o conceito de desenvolvimento sustentável em matriz das políticas públicas do Estado do Amapá. Desde então, o Governo Estadual se empenha em implantar um modelo de desenvolvimento que atenda aos requisitos das dimensões econômica e socioambiental da sustentabilidade. Deste modo, a decisão pelo PDSA não se fez de maneira aleatória, mas levou em consideração as grandes oportunidades e perspectivas de um novo estilo de desenvolvimento, que incorpora os anseios contemporâneos em prol da eqüidade social e da conservação do meio 32 A partir de 1995, quando assumiu o governo estadual, o Governador João Alberto Capiberibe adotou o Programa de Desenvolvimento Sustentável do Amapá – PDSA, inspirado nos princípios da Agenda 21. 38 ambiente, tendo como objetivo central a melhoria da qualidade de vida de toda a população e sua plena incorporação no exercício dos direitos de cidadania. Naquela que se pode considerar como a fase de implantação desse arrojado programa (19951998), parcela substancial do primeiro mandato do Governador Capiberibe foi consumida no trabalho de organizar a estratégia de concepção, implantação e consolidação do PDSA, em conjunto com a sociedade, tendo como base o conceito de desenvolvimento sustentável. A recuperação das finanças públicas, a reforma da máquina administrativa, a descentralização das atividades governamentais e a transferência voluntária de recursos do governo para segmentos organizados da sociedade civil e de prefeituras municipais revelam o êxito do programa. Todo um trabalho foi feito para melhorar a situação socioeconômica de segmentos marginalizados da sociedade amapaense, com destaque para as populações indígenas, comunidades ribeirinhas e comunidades negras. Essas iniciativas completaram-se com ações específicas de inclusão no circuito econômico dos segmentos marginalizados, como os extrativistas da castanha e do açaí, os pescadores artesanais e os agricultores de subsistência, destacando-se a implantação de dez agroindústrias33, instaladas no meio rural e geridas por associações e cooperativas de pequenos produtores rurais, como o Distrito de São Joaquim do Pacuí, Arquipélago do Bailique, Assentamento do Carnot, RDS do Iratapuru e outros . Castro (1998) enumera as seguintes diretrizes norteadoras do PDSA: 1) a valorização da vantagens comparativas, tais como a grande diversidade dos ecossistemas em nível adequado de conservação, a baixa densidade populacional, a alta potencialidade dos recursos minerais e pesqueiros, vastas áreas com biodiversidade intacta, cenários de grande beleza natural e acesso estratégico aos mercados internacionais; 2) a sustentabilidade da economia, implicando no uso racional e sustentável dos recursos naturais, por meio da agregação de valor aos recursos potenciais, com a aplicação de tecnologias apropriadas, dinamizando a economia local e contribuindo para a melhor distribuição de renda e para o estabelecimento de um melhor equilíbrio cidade-campo no Estado; e 3) a busca da eqüidade social, como um dos redirecionamentos do novo modelo de No período trimestre de 2002 foram inauguradas dez agroindústrias, sendo três de farinha de mandioca, uma de mel de abelha, uma de biscoito de castanha-do-Brasil, uma de óleo da castanha-do-Brasil, uma de beneficiamento do açaí, uma de palmito, uma de pescado (beneficiamento de peixe e camarão) e uma de laticínios, com o apoio do Governo Estadual e de instituições ligadas ao setor produtivo, como o SEBRAE/AP, a EMBRAPA, e Associações de Produtores Rurais etc, beneficiando “os povos da floresta”, dentro da ótica do PDSA. 33 39 desenvolvimento colocando o bem-estar e a melhoria da qualidade de vida da maioria da população como objetivo central. Desde os tempos de Território, o Estado experimentou a falta de uma política global de desenvolvimento capaz de minimizar as grandes desigualdades entre a potencialidade dos recursos naturais existentes e a edificação da base produtiva local. Atualmente, o Governo do Estado está buscando reduzir esse hiato, por meio de ações que visem a integração social ao processo de desenvolvimento econômico. Assim, analisando o estudo do IBGE denominado “Indicadores de Desenvolvimento Sustentável” (2002)34, observa-se alguns indicadores que servem para corroborar que as políticas públicas de natureza econômica, social e ambiental ensejadas pelo PDSA, apesar de os problemas e dificuldades em sua operacionalização, apresentaram significativos avanços socioeconômicos, contribuindo para as importantes melhorias na dinâmica da economia, nos setores de saúde, de educação e de infra-estrutura, especialmente dos menos favorecidos. Esses indicadores comprovam ainda que apesar do elevado índice de crescimento econômico35 que o Estado do Amapá obteve na última década, ocorreu também uma desconcentração da renda, diminuindo, assim, as desigualdades sociais. Diferentemente do modelo econômico tradicional – neoliberal, implementado pelo Governo FHC, cujos indicadores comprovam o que esconde a sua teoria convencional, conclui-se que quanto maior o crescimento econômico maior o nível de concentração da riqueza. Na última década, a população amapaense teve a maior taxa média geométrica de crescimento anual do Brasil, de 5,77%, passando de 289.397 para 477.032 mil habitantes36, sendo que os municípios de Macapá e Santana concentram cerca de 77% da população total. Levantamentos sócio-demográficos do IBGE revelam, ainda, que mais da metade deste crescimento decorre da migração proveniente do Pará, Maranhão e Ceará. Na verdade, o Amapá constitui, atualmente, o mais novo pólo de migração da Amazônia. Com a criação do Estado do Amapá pela Constituição de O IBGE coloca à disposição da sociedade, pela primeira vez, a edição de Indicadores de Desenvolvimento Sustentável do Brasil com informações sobre a realidade brasileira, integrando as dimensões social, ambiental, econômica e institucional, dando um primeiro passo no sentido de fornecer ferramentas de trabalho para o tema do desenvolvimento sustentável. 35 É notório que o elevado crescimento econômico do Estado não é apenas fruto do PDSA. Tem muito a ver com a implantação da ALCMS e com a expressiva melhoria no sistema de arrecadação de tributos estaduais, proporcionado pela modernização da Secretaria Estadual de Fazenda - SEFAZ. 34 40 1988 e com a implantação da Área de Livre Comércio de Macapá e Santana - ALCMS esse processo se acelerou37. Apesar desse crescimento demográfico, em função dos aspectos físicos de clima, relevo, solo e vegetação, a densidade demográfica tem se mantido baixa (3,3 hab/km2 em 2000). Ao comparar-se os dados do IBGE, referentes ao Estado do Amapá com os apresentados pela Região Norte e com os dados do Brasil, apontam que o crescimento do Produto Interno Bruto PIB38 na década de 90 foi o seguinte: a) no país foi de 26,66%, b) na Região Norte, o PIB cresceu 54,85% e c) no Amapá, ocorreu o maior crescimento econômico, que foi de 56,04%. Em 1999 o PIB per capita39 do Amapá foi de 3.392, superior à média da Região Norte (3.380) e da Região Nordeste (2.671). O Amapá apresentou, entre 1990 e 1996, uma taxa média anual de crescimento econômico de 4,4%, sendo esta superior à média nacional, que girou em torno de 3,1%. Nos últimos anos, essa taxa de crescimento acelerou-se ainda mais, ficando acima de 5%. Em 2000, o Amapá apresentou o índice de esperança de vida ao nascer (anos de idade)40- 69,0, superior à média das regiões norte (68,5), nordeste (65,8) e do Brasil (68,5) bem como superando a todos os Estados dessas duas regiões. Rio Grande do Sul foi o Estado brasileiro que alcançou o melhor índice, obtendo 71,6. Em 1999, o Estado do Amapá apresentou o índice de escolaridade41 de 6,3 (média de anos de estudo da população de 25 anos ou mais de idade), superior às médias do Brasil (5,7), da Região Norte (6,0), da Região Nordeste (4,2), da Região Centro-Oeste (5,9) e da Região Sul (6,1), sendo que a Região Sudeste obteve a média de 6,4. Em relação à Taxa de Alfabetização42, o Amapá obteve o índice de 90,5 (IBGE, 2000), superior à media brasileira (86,7), do Norte (88,4), do Nordeste (73,4) e do Centro-Oeste (89,2). Fonte: IBGE – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável – Brasil 2002. A criação da Zona de Livre Comércio de Macapá, em 1993, parece ter gerado atratividade populacional em descompasso com as reais possibilidades associadas a ela em termos de geração de emprego e renda, levando a um forte crescimento demográfico do município da capital e ao longo do eixo Macapá/Santana. 38 Bens e serviços produzidos no País, descontadas as despesas com os insumos utilizados no processo de produção durante um ano. È a medida do total do valor adicionado bruto por todas as atividades econômicas. 39 É definido através da razão entre o valor do Produto Interno Bruto – PIB – e o total da população residente. O PIB per capita, resulta útil como sinalizador do estágio de desenvolvimento econômico de uma região, ainda que insuficiente para expressar, por si só, o grau de bem-estar da população, especialmente em circunstâncias nas quais esteja ocorrendo forte desigualdade na distribuição de renda. 40 Indica a longevidade média esperada para um determinado grupo populacional. A esperança de vida ao nascer está estreitamente relacionada às condições de mortalidade, de saúde e sanitárias de um país, expressando influências sociais, econômicas e ambientais. (IBGE – Indicadores de Desenvolvimento Sustentável – Brasil 2002). 41 Apresenta o nível educacional alcançado pela população que está fora da idade escolar 42 Expressa a relação entre as pessoas adultas capazes de ler e escrever e a população adulta total. 36 37 41 Analisando os valores das Receitas Tributárias do Estado do Amapá, nos anos de 1994 de R$ 37.189.555,84 e no ano de 2001 de R$ 141.792.235,8043, observa-se que mesma quase quadruplicou no referido período. Em relação ao índice de Gini44, que mede a concentração de renda, os dados do IBGE revelam que o Brasil apresentou em 1999 um índice de 0,567, indicando um maior nível de concentração de renda que o apresentado pela Região Norte, que foi de 0,547, e que, por sua vez, vem a ser maior que o índice do Estado do Amapá de concentração de renda, de 0,483, verificado no mesmo período. A partir desses dados é possível inferir que o modelo econômico que vigorou, em quase meio século de existência do Amapá como Território Federal, como nos demais estados da Região Amazônica, não foi orientado por qualquer política de desenvolvimento capaz de induzir o aproveitamento racional dos abundantes recursos naturais da área, de instalar uma infra-estrutura física e a rede de prestação de serviços públicos e, menos ainda, de mobilizar a participação da sociedade civil. A exploração do manganês da Serra do Navio, a partir dos anos 50, e a instalação do Projeto Jari, desde os anos 70, são exemplos expressivos deste tipo de economia de enclave: megaprojetos, visando a exploração intensiva de determinado recurso natural, sem preocupação com suas externalidades, ou sejam, o seu esgotamento e a não internalização de seus custos sociais e ambientais45. Com isso, segundo Castro (1998) faltaram à economia do Amapá condições básicas para a decolagem e consolidação de um processo de desenvolvimento econômico, ao mesmo tempo em que se mantinham e até se aprofundavam as desigualdades sociais entre as diversas camadas da sociedade amapaense46. Essa fragilidade da base econômica, além de provocar o desequilíbrio na ocupação do espaço físico, concentrando o grosso da população na capital do então Território, transformou o governo Valores corrigidos pelo IPCA/IBGE, para o período 31/12 do ano base a 28/02/02 – Fonte: Balanço Geral do Estado do Amapá – GEA/SEPLAN. 44 Índice de Gini é um medidor da distribuição das riquezas entre os componentes da sociedade. É expresso a partir de um valor que varia de zero (perfeita igualdade) a um (desigualdade máxima). As informações são fornecidas pelo IBGE, por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – PNAD. 45 A extração do minério de manganês pela ICOMI, na Serra do Navio, se caracterizou como atividade de importância ímpar no contexto estadual desde o início da sua exploração na década de cinqüenta até o esgotamento da jazida nos anos noventa. 46 As características da atividade mineradora a partir dos anos cinqüenta, com pouca utilização de mão de obra e efeitos interindustriais praticamente nulos, não permitiram que fossem gerados impactos multiplicadores importantes de renda e do emprego capazes de impulsionar o desenvolvimento econômico autônomo do Estado. 43 42 estadual no grande empregador. Por sua vez, a falta de autonomia política, em que os governadores eram nomeados diretamente pelo Presidente da República, e geralmente procediam de fora da região, dificultou e até mesmo impediu por anos a constituição de lideranças políticas locais, permitindo até mesmo se falar numa involução do processo político no Amapá. Em boa medida, foi assim que desde 1995, o Amapá deu início na construção de um modelo de desenvolvimento diversificado de atividades produtivas, fundamentado na agregação de valor ao produto local e no respeito aos princípios da sustentabilidade econômica, social e ambiental, conforme evidenciado pelos indicadores socioeconômicos explicitados anteriormente. As dificuldades reais em levar o PDSA à prática, dada a importância da parte técnica e científica se expressa na seguinte afirmação: “porque lidar, hoje, com recursos naturais, envolve a ciência, o peso do conhecimento científico no desenvolvimento sustentável é muito grande. Para qualquer atividade é preciso que se dimensione o impacto ambiental, social, tecnológico...” (Alegretti In Leonelli, 2000). Finalizando, cabe ressaltar que, nos últimos sete anos e meio, apesar de os avanços sociais apresentados pela implementação do PDSA e do grande desafio na concretização da sustentabilidade, um conceito atualmente ameaçado pela sua banalização, ainda resta muito a ser feito pelos futuros governantes deste Estado, na formulação de propostas concretas, apontando caminhos alternativos na geração de emprego, ocupação e renda, de forma a minimizar os efeitos drásticos dos altos índices de violência47 e pobreza48 que atualmente assolam o Amapá. Portanto, a solução não está centrada exclusivamente no papel do Estado. Os percalços no caminho do desenvolvimento sustentável indicam que a solução está em uma nova forma de atuação que faz da regulação e da cooperação uma nova matriz de políticas públicas que se originam das bases democráticas da sociedade civil organizada. Essas políticas fluem no cerne de um processo sistêmico de desenvolvimento local, desvinculado de ideais políticos-partidários, onde seja verdadeiramente democratizado o acesso a riqueza a todos indistintamente, mesmo que em bases modestas, mas que dignifique e assegure a cidadania a população em geral. 47 Conforme o IBGE ( 2002), o Coeficiente de mortalidade por homicídios que representa as mortes por causas violentas (por 100 000 hab.) – 1999 do Estado do Amapá é de 43,66, o sexto maior do Brasil. Assim, o planejamento e a implementação de uma política nacional de segurança pública, com medidas de curto, médio e longo prazo que integrem diferentes setores governamentais e da sociedade se impõem como condição de governabilidade e de um desenvolvimento sustentável. 48 A estimativa da Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios - PNAD para 1999 era de 41,5% de pobres na área urbana do Amapá, enquanto a proporção obtida a partir do Censo Demográfico de 2000 do IBGE foi de 40,9%, o que configura que a proporção de pobres no Amapá ainda é bastante elevada. 43 CAPÍTULO 5 - A EVOLUÇÃO DA POLÍTICA AMBIENTAL NO BRASIL – BREVE HISTÓRICO Este capítulo tem por objetivo apresentar resumidamente a evolução da política ambiental brasileira, do surgimento dos primeiros instrumentos de regulamentação, analisando, especificamente, a inserção da temática da biodiversidade nesse contexto. A evolução da política ambiental no Brasil , como em outros países, é marcada decisivamente pelos desdobramentos da Conferência de Estocolmo49, bem como pela intensa discussão sobre a questão ambiental ocorrida em toda a década de 70. As políticas ambientais brasileiras são mais antigas e mais consolidadas do que na maioria dos chamados países em desenvolvimento, mas ao mesmo tempo são posteriores às dos países desenvolvidos, cujas políticas influenciaram decisivamente o caminho da regulamentação ambiental no Brasil50. Segundo Bursztyn (1993) a primeira fase (anos 70) da reconstituição histórica das ações dos poderes públicos nos enfrentamentos dos problemas ambientais é voltada para a normatização. Na segunda fase (anos 80) das políticas ambientais os aparelhos de Estado passam a criar organismos públicos com funções específicas de gerenciar a implementar as diretrizes e legislações concernentes ao meio ambiente. A terceira fase (anos 90) representa um prolongamento da fase precedente, porém se destaca de configurar a internalização no âmbito das decisões públicas da consciência da globalização dos problemas ambientais. Segundo Ferreira (1998), há no Brasil uma grande diferença entre a realidade e a retórica em relação ao meio ambiente, situação traduzida numa legislação ambiental que acompanha a experiência internacional e possui novos instrumentos extremamente sofisticados. Entretanto, as condições de real aplicação são ainda extremamente restritas. O ponto de partida da política ambiental brasileira tem origem em 1934 com a adoção do Código das Águas e do Código Florestal (Souza, R., 2000). A Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento Humano, realizada em Estocolmo, em 1972, é considerada por muitos como um marco nas discussões sobre meio ambiente e desenvolvimento. 50 A utilização do licenciamento ambiental para empreendimentos produtivos, por exemplo, que é um dos principais instrumentos da política ambiental brasileira, data de 1969 nos Estados Unidos e de 1975 na França, ao passo que no Brasil foi regulamentado apenas em 1987 (embora a lei sobre política ambiental já o previsse desde 1981). Ver (Souza, 2000). 49 44 Como principal característica da legislação ambiental desse período observa-se o caráter específico e segmentado da política ambiental e a sua ênfase na proteção da flora, da fauna e dos recursos naturais. Na segunda metade dos anos 70, com o advento da Conferência de Estocolmo, a política ambiental passa a se preocupar com os chamados problemas ambientais do desenvolvimento e com os efeitos da concentração espacial do desenvolvimento, junto com a intensiva urbanização, sobre o bem estar e a saúde da população. Verificamos a aprovação da Lei 6.938, de 31/08/91, que dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente. Esta Lei estabelece os objetivos e a justificativa para uma ação integrada em matéria de meio ambiente no Brasil, bem como define os instrumentos a serem utilizados e cria o Sistema Nacional do Meio Ambiente – SISNAMA, que tem como órgão superior o Conselho Nacional do Meio Ambiente – CONAMA, e como órgão central de execução o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis – IBAMA, criado em 22/02/89 por meio da Lei nº 7.735. Já em 1987, o governo brasileiro com apoio do PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, iniciou a negociação do Programa Nacional do Meio Ambiente - PNMA voltado para resolução de deficiências nas áreas de capacitação institucional, conservação da biodiversidade e estratégias de desenvolvimento. O PNMA, efetivado em 1991, foi a maior operação de crédito firmada com agências multilaterais (BIRD, BID e KFW) na área de meio ambiente no Brasil, constituindo-se na principal fonte de financiamento de projetos nos anos 90, com recursos da ordem de US$ 127 milhões (MMA, 1997). O PNMA inovou ao buscar a integração da questão ambiental ao planejamento e ao desenvolvimento regional. A Constituição Federal de 1988 criou condições para a descentralização da formulação de políticas, permitindo que estados e municípios assumissem uma posição mais ativa nas questões ambientais locais e regionais. Portanto, a promulgação da nova Carta Magna no final da década de 80 é um marco na formulação de políticas e programas mais adaptados à realidade econômica e institucional de cada Estado, permitindo maior integração entre as diversas esferas governamentais e os agentes econômicos. Algumas Unidades da Federação se destacaram nessa tarefa ao demonstrarem consciência da necessidade de conservar seus recursos naturais remanescentes em 45 razão do agravamento de seus problemas ambientais, ou por terem melhor nível de informação. (Lopes et al., 1996) 5.1. BIODIVERSIDADE, SUSTENTÁVEL MEIO AMBIENTE E DESENVOLVIMENTO A Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Humano (Conferência de Estocolmo, 1972) incluiu em seu extenso temário o crescimento populacional, a necessidade de crescimento econômico, principalmente das nações em desenvolvimento, e a conservação do meio ambiente, trazendo uma nova percepção sobre os recursos naturais. Nos anos 70, os debates sobre meio ambiente encontravam-se ainda polarizados, de um lado pela abordagem neomalthusiana, centrada na explosão populacional e, de outro, pelas propostas de solução que convergiam para o nível das políticas domésticas individuais de cada país, estando os países industrializados preocupados apenas com seus próprios interesses (Kitamura, 1994). Em 1987 foi publicado o relatório “Nosso Futuro Comum”, também denominado Relatório Brundtland, que amplia as discussões sobre desenvolvimento e meio ambiente ao introduzir o conceito de desenvolvimento sustentável51, além de uma nova abordagem para o meio ambiente, deslocando o debate para uma abordagem mais sistêmica. Nesta perspectiva, o Relatório enfatiza, entre diversos aspectos inter-relacionados, a necessidade de reformulação do sistema político de participação entre nações e dentro de cada uma delas, como forma de facilitar o alcance do princípio de equidade: “Tal eqüidade seria facilitada por sistemas políticos que assegurassem a participação efetiva dos cidadãos na tomada de decisões e por processos mais democráticos na tomada de decisões em âmbito internacional”. A necessidade de efetuar esforços destinados à proteção, conservação e uso sustentável da diversidade biológica passou a ser definida como uma prioridade internacional, tornando-se fundamental a promoção de esforços no sentido de elaborar instrumentos legais que envolvessem todos os aspectos e componentes relacionados à preservação da biodiversidade. Em face das dimensões internacionais, às quais as questões ambientais encontram-se atualmente associadas, as nações industrializadas têm adotado políticas que envolvem vários tipos de condicionalidades ambientais aos países em desenvolvimento. Um exemplo de como se processa estas relações entre as Ao se falar em desenvolvimento sustentável não há como deixar de destacar o Professor Ignacy Sachs, diretor de pesquisa da École des Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris, um dos principais formuladores de tal conceito. Com sua extensa obra e atuação foi peça fundamental na formação e influência do pensamento ambiental de inúmeros profissionais brasileiros num contato extremamente profícuo tanto no Brasil quanto na França, onde muitos cursaram parte de sua pós-graduação sob a orientação do Prof. Sachs. 51 46 Nações está na forma de coibir a utilização de tecnologias danosas ao meio ambiente. Essas práticas penalizam duplamente os países em desenvolvimento, uma vez que estes são obrigados, de um lado, a desviar recursos para investimentos em tecnologias limpas em detrimento dos problemas sociais e, por outro lado, enfrentam as barreiras impostas aos produtos resultantes de tecnologias danosas ao meio ambiente, produzidos nos países em desenvolvimento, dificultando ainda mais a sua inserção no mercado internacional (Kitamura, 1994). Cabe destacar, todavia, que não se trata de defender os investimentos em tecnologias nocivas ao meio ambiente, mas sim o estabelecimento de um desenvolvimento em bases ambientalmente sustentáveis e com definição soberana de cada nação. Na prática, o resultado das políticas adotadas pelos países industrializados tem sido o alargamento do fosso econômico entre norte e sul, com o agravamento dos problemas sociais, ambientais e econômicos nos países em desenvolvimento, que vêem diminuídas as possibilidades de romperem as barreiras impostas ao desenvolvimento por causa da forma como as relações internacionais encontram-se constituídas. Uma agenda internacional de cooperação norte-sul, no atual contexto, deve incorporar iniciativas que busquem a partilha proporcional de responsabilidades entre nações pobres e ricas, focalizando o meio ambiente sob uma ótica global e associada às condições do processo de desenvolvimento (Kitamura, 1994). Sem prejuízo de tais iniciativas, é possível o estabelecimento de programas de cooperação norte-sul, mas principalmente sul-sul. Com os avanços tecnológicos conseguidos pelas sociedades modernas, particularmente na área da biotecnologia e da engenharia genética, a questão da soberania passa a adquirir uma nova conotação para os países em desenvolvimento. As preocupações voltam-se agora para as questões relativas à biodiversidade e ao domínio do conhecimento científico e tecnológico como uma nova faceta do confronto norte-sul. De um lado, encontram-se alguns países em desenvolvimento, detentores do maior potencial biológico do planeta, em especial o Brasil, todavia carentes de recursos e tecnologia para o aproveitamento desse potencial e, de outro, as nações industrializadas, que não detêm uma grande biodiversidade, mas dominam o conhecimento científico e tecnológico, além de deterem os recursos necessários para garantir a sua utilização. Tal aspecto é particularmente importante para os países em desenvolvimento, uma vez que os avanços da biotecnologia e da engenharia genética aliam conhecimento científico, manipulação tecnológica de material genético e a obtenção de patentes, envolvendo direitos a nichos monopólicos no mercado internacional, questão crucial para os países em desenvolvimento. Basta verificar que 47 somente nas regiões tropicais do planeta estão localizados cerca de dois terços de todas as espécies e mais de 50% da biodiversidade do globo (Manual Global de Ecologia, 1993). Ao Brasil, como país detentor de uma megadiversidade biológica e ao mesmo tempo de elevadas taxas de desmatamento, cabe um papel de liderança na elaboração de políticas públicas ligadas à biodiversidade. Estas podem ser apropriadas por países com características semelhantes, especialmente os países em desenvolvimento, onde está concentrada a maior parte da biodiversidade mundial. Em 1992, com a realização da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida como ‘Cúpula da Terra’ ou ECO 92, foram assinados cinco documentos direta ou indiretamente relacionados à proteção e conservação da biodiversidade em nível global. Destaca–se a Convenção sobre Biodiversidade -CDB, da qual consta a recomendação de que os países signatários preparem e implementem políticas nacionais sobre biodiversidade que sejam integradas às demais políticas públicas setoriais. Este novo enfoque das questões ambientais deve envolver ações voltadas à preservação, conservação, uso e manejo sustentável da diversidade biológica, assim como um arcabouço legal que regulamente o acesso aos recursos genéticos, à repartição dos benefícios, e às normas e procedimentos de biossegurança, entre outros (Assad & Pereira, 1998). Para seguir tais princípios, os países devem promover uma série de ajustes legais, implantar novos mecanismos de proteção e uso de sua biodiversidade, ampliar a base do conhecimento e financiar pesquisas na área de biodiversidade. O Brasil, signatário da CDB, mesmo considerando os graves problemas ambientais ainda existentes no País, tem procurado adotar medidas que viabilizem o cumprimento dos princípios estabelecidos nessa Convenção. A definição e implementação de políticas destinadas à conservação e ao uso da biodiversidade em nível federal e estadual tornam-se, assim, uma prioridade. 5.2. INSTRUMENTOS JURÍDICOS DE PROTEÇÃO DA BIODIVERSIDADE NO BRASIL Segundo Bursztyn (1993), a regulamentação da gestão ambiental apresenta dificuldades, pois representa uma nova atribuição para o Estado. A institucionalização da gestão ambiental no Brasil remonta ao início da década de 70, com a criação da SEMA - Secretaria Especial do Meio Ambiente, vinculada ao Ministério do Interior que amargou uma certa inoperância por cerca de uma década. 48 Ao abordar o antagonismo evidenciado entre a economia e a ecologia e, remetendo sua análise ao contexto das políticas públicas, Bursztyn (1993) demonstra a sua preocupação com a preponderância do econômico sobre o ecológico, reforçando a tese da necessidade do equilíbrio e da harmonia na relação homem e natureza, uma das premissas fundamentais da concepção do desenvolvimento sustentável. Segundo (Souza, R.; 2000), em relação ao aspecto jurídico, merece destaque o fato de que desde a década de 60, e mais acentuadamente na década de 80, o Brasil vem formulando normas de proteção ambiental relacionadas à conservação da biodiversidade, entre as quais destacam-se: a) Lei nº 4.771/65: institui o Código Florestal; b) Lei nº 5.197/67: dispõe sobre a proteção à fauna; c) Lei nº 6.766/79: dispõe sobre o parcelamento do solo urbano; d) Lei nº 6.902/81: dispõe sobre a criação de estações ecológicas e áreas de proteção ambiental; e) Lei nº 6.938/81: dispõe sobre a Política Nacional do Meio Ambiente, seus fins e mecanismos de formulação e aplicação; f) Decreto nº 89.336/84: dispõe sobre Reservas Ecológicas e Áreas de Relevante Interesse Ecológico (ARIE); g) Lei nº 7.347/85: disciplina a ação civil pública de responsabilidade por danos causados ao meio ambiente, ao consumidor, a bens e direitos de valor artístico; estético; histórico; turístico e paisagístico; h) Lei nº 7.661/88: institui o Plano Nacional de Gerenciamento Costeiro; i) Lei nº 7.679/88: dispõe sobre a proibição da pesca de espécies em períodos de reprodução; j) Constituição Federal/88: Capítulo do Meio Ambiente (art. 225); l) Lei nº 7.754/89: estabelece medidas para proteção das florestas existentes nas nascentes dos rios; m) Lei nº 7.797/89: cria o Fundo Nacional do Meio Ambiente (FNMA); n) Decreto Legislativo nº 02/94: aprova o texto da Convenção sobre Diversidade Biológica; 49 o) Lei nº 8.974/95: estabelece normas para o uso das técnicas de engenharia genética e liberação no meio ambiente de organismos geneticamente modificados, autoriza o Poder Executivo a criar, no âmbito da Presidência da República, a Comissão Técnica Nacional de Biossegurança (CNTBio); e p) Lei nº 9.605/98: dispõe sobre as sanções penais e administrativas derivadas de condutas e atividades lesivas ao meio ambiente e dá outras providências (Lei de Crimes Ambientais). Não obstante as regulamentações ambientais brasileiras serem bastante abrangentes e relativamente bem consolidadas, a política ambiental não tem a efetividade preconizada em lei, ou seja, os governos nem sempre se esforçam em materializar em políticas públicas aquilo que consta das regulamentações como princípios e instrumentos. A posição dos governos brasileiros em relação às questões ambientais tem sido uma das principais causas desse relativo descompasso entre as regulamentações e as políticas para a sua implementação. Para Bursztyn (1993), atualmente, o nosso maior desafio no tocante à gestão ambiental consiste na legitimação do aparelho institucional e de seus instrumentos junto aos pares governamentais, ao setor produtivo e à população como um todo. E para enfrentar todas as adversidades e superação dos desafios, o autor reforça a necessidade de perenidade nas ações das instituições envolvidas no processo. Finalizando, observa-se que a maioria das políticas públicas relativas à proteção da biodiversidade e ao desenvolvimento sustentável não contou com a adesão das populações locais, tendo em vista que normalmente expressam interesses divergentes e contraditórios em relação aos desejos desses atores. Muitas vezes visam apenas aos interesses econômicos e políticos predominantemente hegemônicos. Assim, torna-se bastante difícil conciliar os pressupostos ensejados pela lógica exclusiva do mercado com o ideário da sustentabilidade por meio da proteção à biodiversidade. 50 CAPÍTULO 6 - CONTEXTUALIZAÇÃO DA BIODIVERSIDADE: POTENCIALIDADES E OPORTUNIDADES ECONÔMICAS PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA Neste capítulo, abordam-se as bases conceituais da biotecnologia e o panorama da biodiversidade no mundo. Apresenta uma visão geral sobre as potencialidades da biodiversidade existente, principalmente, na Amazônia Brasileira. Analisa os esforços empreendidos por instituições públicas e privadas no intuito de superar as limitações tecnológicas e mercadológicas visando viabilizar as oportunidades econômicas da biodiversidade amazônica. 6.1. AS BASES CONCEITUAIS DA BIOTECNOLOGIA A literatura sobre biotecnologia é abundante, apesar de a preocupação com o seu estudo ser recente. O conceito de biotecnologia tem sido utilizado em sentido amplo. Trata-se de um campo multidisciplinar para o qual convergem diversas disciplinas. O objetivo central consiste na transformação industrial de materiais por meio de microorganismos e outros agentes biológicos, para produzir bens e serviços (Casas e Chauvet, 1996). Biotecnologia é toda tecnologia de produção industrial que utiliza seres vivos, ou partes funcionais isoladas de seres vivos. A biotecnologia abrange dois níveis. O primeiro nível, conhecido como biotecnologia clássica ou convencional, trabalha com seres vivos encontrados na natureza e otimizados pela mão do homem para determinada função produtiva, mediante isolamento, seleção e cruzamento genéticos naturais (ainda que induzidos) entre espécies e variedades sexualmente compatíveis. As técnicas para essa otimização são geralmente práticas laboratoriais e de campo amplamente conhecidas, como também o são as tecnologias não biológicas necessárias à produção industrial na biotecnologia clássica. São partes desta classificação, vários processos biotecnológicos comuns, baseados em fermentação por microorganismos, tais como a produção de antibióticos, a de álcool combustível e a de vinho e cerveja. Enquadra-se, também, na biotecnologia clássica a produção industrial de sementes, inclusive as de híbridos de alta produtividade gerados por técnicas convencionais de melhoramento vegetal. Inclui-se nessa tipologia a produção de imuno-soros destinados à imunização de grandes animais e toda a produção convencional de vacinas. (Carvalho, 1993) O segundo nível é conhecido como biotecnologia moderna, que a partir de seres vivos naturais busca obter outros seres vivos não-encontráveis na natureza, gerados, portanto, pela 51 aplicação de técnicas não-naturais de seleção, transformação genética e otimização fisiológica. A modificação pode ser genética, utilizando-se a chamada “engenharia genética” (um conjunto de técnicas de biologia molecular) para introduzir nestes novos organismos características de interesse industrial cuja transferência seria impossível por métodos naturais. (Carvalho, 1993) 6.2. MERCADO MUNDIAL DA BIODIVERSIDADE O mercado mundial de produtos farmacêuticos52 apresenta um movimento anual de US$ 250 bilhões e o de cosméticos US$ 120 bilhões, totalizando US$ 370 bilhões. Estima-se que o consumo de matérias-primas representa 10% desse valor. O mercado de agroquímicos, de US$ 25 bilhões, praticamente não se distingue dos produtos finais, o que elevaria o total de matérias-primas para aproximadamente US$ 62 bilhões (Barata, 1995). O mercado mundial de fitofarmacêuticos alcança US$ 16 bilhões/ano (6,4 % do mercado total). Dados de Farnsworth de 1984, quando o mercado farmacêutico era de aproximadamente US$ 150 bilhões, apontavam US$ 20 bilhões como o mercado de produtos direta ou indiretamente derivados de plantas, o que representaria 13,3% do mercado total da época (Barata, 1995). Em 1994, metade das 250 principais empresas farmacêuticas do mundo desenvolviam projetos na área de produtos naturais53. Há quinze anos nenhuma delas tinha projetos nesta área. As aquisições, acordos, joint-ventures e outros tipos de associações praticadas no momento pelas empresas farmacêuticas demonstram a importância deste mercado. Em todo o mundo as grandes firmas estão adquirindo as pequenas e competentes firmas de fitofármacos, herbal drugs. Para Barata (1995), o futuro das empresas brasileiras de produtos naturais certamente será afetado por esse processo. Estima-se que o mercado mundial da biotecnologia gire em torno de US$ 50 bilhões, sendo mais de 50% somente no setor agrícola. Os Estados Unidos dominam este mercado, com maior número de produtos geneticamente modificados lançados comercialmente. Têm grande quantidade de instituições de pesquisa e desenvolvimento -P&D, com especialistas atuando na área, investindo maciçamente em biotecnologia, especialmente na área vegetal (Kubicek, 1998). A biotecnologia orientada ao setor agrícola encontra-se em um estágio mais avançado do que a orientada aos animais. Os produtos farmacêuticos podem ser divididos em: 50% sintéticos, 25% naturais ou derivados e 25% outros (Barata, 1993). 53 O Aché Laboratórios (maior grupo farmacêutico do Brasil e da América Latina) está promovendo uma pesquisa juntamente com a Escola Paulista de Medicina e os índios Kraôs (norte do Estado do Tocantins) para descoberta de novos medicamentos com base em ervas. Os investimentos nesta pesquisa devem chegar a US$ 1,5 milhão (Filho, 2002). 52 52 Com plantas, já há produtos sendo comercializados e com animais existem avançados testes que, no futuro, levarão também à sua exploração comercial. O Japão é considerado um dos concorrentes dos Estados Unidos na área de biotecnologia. Caracteriza-se por um forte investimento empresarial e do governo nos setores farmacêutico, químico, alimentos, energia e agricultura. Atualmente, existem mais de 500 EDBs54 e elas estão se concentrando em investir e em estabelecer intercâmbios tecnológicos com as melhores empresas americanas e européias de biotecnologia. A Comunidade Econômica Européia – CEE detém 6 das 10 principais companhias farmacêuticas do mundo e os diversos países da União Européia - UE estão investindo fortemente em aquisições e joint ventures no exterior, principalmente nos Estados Unidos. A indústria de capital de risco aumentou os seus investimentos em biotecnologia na Europa para cerca de US$ 100 milhões em 1990. A Comissão da Comunidade Européia planeja investir US$ 1,2 bilhões em pesquisa biotecnológica de ponta nos próximos dez anos. O mercado europeu de substâncias bioquímicas deve alcançar em 1993 a cifra de US$ 500 milhões. (Enríquez, 1997) Na América Latina, no início da década de 50, a biotecnologia se caracterizava, principalmente como tecnologia tradicional55. Ao final de década de 70, com experiência adquirida a partir dos estudos realizados em países desenvolvidos, foram implantados projetos de pesquisas relacionados com o manejo de material genético de organismos vivos e sua posterior aplicação. Essa atividade, inicialmente no âmbito acadêmico, incentivou a implantação de vários centros de investigação dedicados exclusivamente à biotecnologia e numerosos departamentos de pesquisa se especializaram em algumas áreas específicas de aplicação concreta (Lage, 1994). Apesar do impulso acadêmico, no setor produtivo o crescimento e expansão da biotecnologia têm sido modestos. Praticamente toda a biotecnologia industrial que se realiza na América Latina corresponde a produtos descobertos e comercializados na década de 70. Estima-se que na América Latina atualmente existam 278 empresas de biotecnologia, das quais 27% no Brasil, 13% na Argentina, 13% no México e 28% nos países do Pacto Andino (Enriques, 1997). Existem 5 empresas Empresas Dedicadas a Biotecnologia São consideradas como biotecnologia tradicional as leveduras, etanol, ácido cítrico, lisina, ácido glutamico, penicilina, bioinseticidas, proteasa e outras. 54 55 53 que atuam no setor de biotecnologia moderna56, localizadas na Argentina, Brasil, Cuba e México. Quatro empresas são dedicadas ao setor farmacêutico e uma ao setor alimentício. Outros grupos industriais, especialmente, no setor farmacêutico, estão desenvolvendo projetos de pesquisa para gerar novos sistemas de diagnósticos, baseados em anticorpos monoclonais e/ou sondas moleculares. A partir da experiência dos países industrializados, existem opiniões que advertem sobre as desvantagens da aplicação da biotecnologia nos países em desenvolvimento, principalmente por causa dos efeitos sócio-econômicos negativos. A maioria critica as repercussões no setor agrícola e no meio ambiente e os seus riscos para a conservação dos recursos naturais. Outros efeitos sócioeconômicos negativos estariam relacionados ao emprego, a renda, a propriedade agrícola e, em geral, sobre a maior dependência que geraria a aplicação da biotecnologia nesses países. Em contraste, outros opinam que a biotecnologia vai contribuir para o aumento da produtividade da agricultura. Os avanços proporcionados pelas modernas técnicas de biotecnologia serão similares aos observados há cerca de 50 anos com o advento de técnicas de fertilização das culturas agrícolas, ou então a outros mais recentes, por meio de métodos de melhoramento genético clássico (Prante, 1998). Quanto ao debate acerca do processo de patenteamento dos produtos oriundos da biotecnologia, que se iniciou nos Estados Unidos na década de 80, observa-se que o ritmo e o desenvolvimento da biotecnologia superam largamente o ritmo da atualização da normativa legal que deveria regulamentar seus diversos aspectos. À medida que as solicitações de patentes abarcam novos campos – primeiro vírus modificado e outros microorganismos, depois plantas, mais tarde animais e atualmente material genético humano – os problemas crescem. As instituições encarregadas da concessão de patentes estão ainda mal dotadas para abordar – na mesma velocidade com que as pesquisas vêm sendo realizadas - a problemática relacionada com questões econômicas, éticas e políticas que se estão debatendo. 6.3. MERCADO NACIONAL DA BIODIVERSIDADE Segundo Enríquez (1997), a base científica da biotecnologia moderna brasileira é pequena mas significativa, podendo apoiar um importante desenvolvimento futuro. Os efeitos da indústria de biotecnologia na economia são ainda pouco expressivos. No entanto, oferecem uma grande 56 Os produtos de biotecnologia modernos são dentre outros:eritropoeitina, hormônio humano de crescimento, insulina humana, Taxol, TPA, anticorpos monoclonais, Somatotropina. 54 variedade de ferramentas com diferentes complexidades técnicas, investimentos econômicos e esforços necessários para esperar efeitos positivos. Hoje não é suficiente contar com uma base de pesquisa biológica, cada vez mais se faz necessário contar também com um enfoque flexível para orientar o capital de maneira produtiva, transformar a pesquisa e desenvolvimento em inovações industriais rentáveis e melhorar as alternativas para os produtos agrícolas e matérias primas (Casas e Chauvet, 1996). Nesse aspecto, a biotecnologia desenvolvida no Brasil adquiriu maior importância a partir de 1981 quando foi criado, o Programa Nacional de Biotecnologia – PRONAB que começou a receber financiamento do governo federal e do Banco Mundial em 1984, por meio do Programa de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico – PADCT. O PRONAB tem sido responsável pela maioria das atividades relacionadas coma biotecnologia no Brasil. Em 1987, foi criado o Comitê Interministerial de Química Fina e Biotecnologia que preocupou-se em incentivar os estudos sobre o tema. O PRONAB foi responsável, por exemplo, pela administração do orçamento para executar o programa PROÁLCOOL, realizando pesquisas e capacitação na área de bioenergia e de saúde (antibióticos e vacinas) e iniciou as atividades na agricultura. No entanto, uma das instituições que maior impulso tem dado à biotecnologia no setor agrícola, tem sido a Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias – EMBRAPA que, em 1981, criou o Laboratório de Engenharia Genética de Plantas e posteriormente criou o Centro Nacional de Recursos Genéticos – CENARGEN. Atualmente, segundo previsões feitas pelo governo, os investimentos em ciência e tecnologia – C&T que no início da década de 90 eram de aproximadamente 0,7% do PIB, são hoje de aproximadamente 1% e devem aproximar-se no final da década a 1,5% do PIB (Vargas, 1998). O governo pretende criar incentivos fiscais e subsídios para que o setor empresarial passe a investir mais significativamente no desenvolvimento da biotecnologia. Uma prova disso é a promulgação das Leis 8.248/91 e 8.661/93, que estabelecem incentivos fiscais para a capacitação tecnológica da indústria. As empresas devem estar conscientes de que acabarão sendo superadas por suas rivais se não investirem em C&T (Maciel, 1998). Estima-se que por volta de 60% das empresas do setor privado têm intenção de investir recursos próprios em projetos de pesquisa e desenvolvimento (Maciel, 1998). Outras 30% já combinam recursos próprios com financiamentos públicos, sendo que os incentivos fiscais da lei 55 8.661/93 têm por objetivo a capacitação tecnológica das empresas industriais e agropecuárias, visando à geração de novos processos e produtos, mediante a realização de investimentos privados. Segundo o governo, está aumentando a competência em C&T, especialmente a formação de quadros para o setor público e privado, e está sendo criado um ambiente de estímulo aos investimentos privados em C&T, por meio de programas de incentivos e leis adequadas, dentre os que destacamos o Programa de Desenvolvimento Industrial – PDI, e o Programa de Desenvolvimento Tecnológico Agropecuário – PDTA (Maciel, 1998). O Brasil realizou um notável esforço na formação de recursos humanos. As agências de fomento à C&T federais e estaduais têm priorizado a biotecnologia nos últimos quinze anos, com investimentos entre cinco e dez por cento dos investimentos globais em C&T no Brasil. O PADCT, um dos programas do MCT, elegeu a biotecnologia como área prioritária, tendo financiado 158 grupos de pesquisa no Brasil, sendo 18,3% do total dos grupos registrados nesta área no CNPq (Vargas, 1998). Todo o esforço brasileiro destina-se a criar condições para se atingir um desenvolvimento sustentável. Isto implica não só em expandir os investimentos nos setores básicos, como também, redirecionar as funções do Estado para superarmos nossas enormes carências sociais, e alcançarmos, por meio do desenvolvimento científico e tecnológico, o progresso econômico. 6.4. OS DESAFIOS PARA A GERAÇÃO DE NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS ORIUNDOS DA BIODIVERSIDADE AMAZÔNICA A convergência de alguns fatores como o grande potencial da biodiversidade, investimentos maciços na Amazônia por parte das multinacionais em biotecnologia, bioindústrias, busca da sustentabilidade do parque industrial de Manaus, programas governamentais dos Estados do Amapá e do Acre (que incentivam a agregação de valor aos produtos da floresta), o crescimento do número de parques de incubação de empresas de base tecnológica na região, entre outros, tem concorrido para que nesta década a Amazônia se insira na pauta mundial da ciência e dos negócios da biotecnologia, entre os quais destacam-se nesse estudo os negócios sustentáveis. É nesse contexto que se desenvolveu, nos anos recentes, um importante debate a respeito de um novo potencial para o desenvolvimento da Amazônia, nessa oportunidade estabelecido na magnitude da sua biodiversidade e o respectivo aproveitamento racional e sustentável dessa biodiversidade por intermédio da moderna biotecnologia. O assunto ainda encontra-se restrito aos nichos científico e governamental, e em alguns segmentos do mundo empresarial, contudo, já tem 56 sido tratado como a mais nova possibilidade para o desenvolvimento regional sustentável. Diante dessa conjuntura norteadora do planejamento do desenvolvimento amazônico, busca-se analisar as reais possibilidades da proposta de aproveitamento sustentável dos recursos da biodiversidade, a partir das variáveis inerentes ao processo. Do rol das críticas mais consistentes feitas às políticas desenvolvimentistas até então adotadas na Amazônia, observa-se o absoluto esquecimento das potencialidades oferecidas pela floresta amazônica para dinamização de negócios sustentáveis. Ao invés de concentrar o esforço produtivo nas potencialidades naturais da Amazônia (ecoturismo, indústria agroflorestal, biotecnologia e produtos naturais), os modelos voltaram-se inteiramente para fora da região, seja pela oferta de privilégios a investidores capitalizados de outros países, seja pela atração de empresários nacionais estabelecidos em geral no sudeste ou sul do país ou, de alguma forma, associados a capitais internacionais. Encontram-se na Amazônia metade das espécies vegetais e animais do globo, sendo que uma parte apta ao aproveitamento econômico ainda é desconhecida. Segundo Enriquez (2001), calcula-se a existência de, aproximadamente, 55 mil espécies superiores de plantas passíveis de serem utilizadas como insumos da indústria farmacêutica e de cosméticos, identificando esses setores como extremamente promissores para o desenvolvimento da região. Esses cálculos são baseados na magnitude da diversidade biológica da região, o que demonstra a conveniência de estimular pesquisas e estudos complementares que, além de confirmar as previsões, permitam reconhecer o seu potencial e estimular a sua incorporação ao setor produtivo57. O termo biodiversidade, contração da diversidade biológica, foi introduzido, na metade dos anos 80, pelos naturalistas que se inquietavam pela rápida destruição dos ambientes naturais e de suas espécies e reclamavam que a sociedade tomasse medidas para proteger esse patrimônio. Foi popularizado, quando das discussões que tiveram lugar ao redor da assinatura da Convenção sobre a Diversidade Biológica – CDB, na época da Conferência do Rio de Janeiro, em 1992 (Lévêque, 1999). Consoante o Art. 2º do texto da CDB, a diversidade biológica é conceituada como “a variabilidade dos organismos vivos de toda origem, compreendendo, dentre outros, os ecossistemas terrestres, marinhos e outros ecossistemas aquáticos e os complexos ecológicos de que fazem parte; compreendendo ainda a diversidade dentro 57 Todo esse contexto é a biodiversidade amazônica, a qual insere-se no conceito adotado pela Convenção sobre Diversidade Biológica – CDB, da qual o Brasil é signatário. 57 de espécies, entre espécies e de ecossistemas” . Mais simplesmente, a biodiversidade está constituída pelo conjunto de seres vivos, pelo seu material genético e pelos complexos ecológicos dos quais eles fazem parte. É notório que o País só dispõe de informações com base científica em relação a uma pequena porcentagem dessa diversidade biológica mas é certo o aproveitamento de matérias-primas suficientemente conhecidas. Para tanto, os institutos de pesquisas científicas e tecnológicas da região, como o Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia – INPA, o Museu Paraense Emílio Goeldi - MPEG, os Laboratórios de Tecnologia de Alimentos e de Química da Universidade Federal do Pará - UFPA, a Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária - EMBRAPA e o Instituto de Pesquisa Científica e Tecnológica do Amapá – IEPA desenvolveram, nas últimas décadas, estudos que constituem importantes subsídios para a real compreensão e viabilização do potencial da biodiversidade da região. Mais recentemente, as atenções gerais – inclusive dos segmentos dirigentes públicos, federais e estaduais – voltaram-se para a biodiversidade. Num certo sentido, as preocupações ambientalistas reorientaram as decisões políticas de tal modo que as riquezas da floresta passaram a merecer tratamento jamais recebido. Além das instituições regionais de pesquisa, que já atuam na área de biologia molecular, foi criado em dezembro de 1997 um programa que abriu novos horizontes para a economia regional – PROBEM/AMAZÔNIA. 6.4.1. PROBEM/AMAZÔNIA Como parte da estratégia nacional para o aproveitamento dos recursos naturais, o governo brasileiro instituiu o PROBEM/AMAZÔNIA -Programa Brasileiro de Ecologia Molecular para o Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia, que tem o objetivo de propiciar o uso sustentável dos recursos naturais e a conservação da biodiversidade da Amazônia. O PROBEM se dispõe a multiplicar as pesquisas sobre os produtos florestais e a agregar valor aos mesmos, fazendo-os participarem de cadeias produtivas sediadas localmente. Para implantar o PROBEM/Amazônia o governo qualificou a Associação Brasileira para Uso Sustentável da Biodiversidade da Amazônia Bioamazônia58. 58 A Bioamazônia é uma organização social sem fins lucrativos formada pelo governo para implementar os projetos do PROBEM, entre eles o Centro de Biotecnologia da Amazônia – CBA. 58 O PROBEM/Amazônia é uma iniciativa conjunta da comunidade científica, do setor privado, do Governo Federal e dos governos estaduais da região amazônica, fazendo parte dos projetos estratégicos no âmbito do programa do Governo Federal Brasil em Ação. Tem como objetivo coordenar esforços de pesquisas básicas de alto nível, ao treinamento de mão-de-obra técnico-científica altamente qualificada e ao desenvolvimento de pesquisas aplicadas a fim de obter produtos químicos de interesse farmacêutico ou agroindustrial oriundos da biodiversidade da Amazônia. Espera-se que esses produtos naturais possam ser utilizados para promover o desenvolvimento sustentável da região, em particular, e contribuir para o desenvolvimento de bioindústrias no país e especialmente na Amazônia (PROBEM/Amazônia, 1998). Segundo Enríquez (2001), os principais objetivos e metas do PROBEM consistiram na modernização e reorientação da estrutura produtiva, para o aproveitamento dos recursos naturais da Amazônia, criando novos setores econômicos baseados, principalmente, em ciência e tecnologia, de acordo com a conservação do meio ambiente, a geração de empregos e contribuição com a melhoria das condições de vida da população, integrando as comunidades locais como sócias efetivas do programa. O PROBEM, inspirado no INBio - Instituto da Biodiversidade da Costa Rica, também realizará acordos com empresas nacionais e internacionais que estejam dispostas a investir no aproveitamento da extensa e rica biodiversidade da Amazônia. Utilizando as bases legais existentes no Brasil, poderão ser realizados acordos, joint ventures e outros modelos de convênios para atuar na exploração dos produtos naturais existentes, contribuindo para a conservação da Amazônia (Enríquez, 2001). Para implementá-lo, o Governo Federal está construindo um complexo de laboratórios em Manaus, o Centro de Biotecnologia da Amazônia – CBA59, que funcionará de forma associada com uma rede de laboratórios e equipes de pesquisa em todo o país, de onde deverão surgir matérias-primas e materiais de grande interesse para o setor industrial, em razão de sua ampla aplicabilidade. Na primeira fase, o CBA concentrará seus esforços em duas áreas prioritárias, fitoterápicos e cosméticos e na segunda fase, serão trabalhadas mais duas áreas, nutrição e insumos agrícolas (Simões, 2002). O CBA, maior complexo de laboratórios da América do Sul, deverá disponibilizar sua estrutura de pesquisa para um grupo de 60 empresas nacionais biotecnológicas e prevê um espaço para a instalação de uma incubadora de empresas do setor. Em face do atraso no seu cronograma, tem a previsão de iniciar o seu funcionamento no primeiro trimestre de 2003 e inicialmente serão priorizados implantação os laboratórios envolvidos com extratos vegetais, microorganismos, ensaios químicos, toxicológicos e farmacológicos, cultura de tecidos vegetais e a central analítica (Simões, 2002). 59 59 A Bioamazônia se empenha para que os produtos extraídos da floresta passem por um completo processo de pesquisa e desenvolvimento no CBA, chegando à forma industrializada com alto valor agregado e potencial para concorrer no mercado mundial de bioprodutos. Todavia, observa-se que, decorridos quase cinco anos de sua criação, o PROBEM ainda não foi plenamente implantado. Atualmente, encontra-se em fase de construção o CBA, em Manaus, um dos principais componentes do Programa, cujas obras tinham sido interrompidas por mandado judicial60. Conforme amplamente, divulgado pela imprensa, o recente acordo de cooperação que a Biomazônia tinha assinado com a empresa suíça Norvatis Pharma AG foi questionado por pesquisadores brasileiros e o convênio desautorizado pelo governo brasileiro, condicionando as futuras ações da Biomazônia à aprovação prévia pelo Conselho da entidade61. Segundo Enríquez (2001), atualmente, o PROBEM encontra-se na fase de assinar novos convênios com instituições financiadoras e órgãos que apóiem o empreendimento para retomar as suas ações, recuperando a confiança de pesquisadores e da sociedade, depois dos conflitos que aconteceram com a assinatura do convênio com a empresa suíça62. Entretanto, o PROBEM ainda depende da aprovação de uma legislação que regulamente o acesso aos recursos genéticos brasileiros. Atropelando o debate que vinha sendo feito no Congresso, o Executivo Federal apresentou em 29 de junho de 2000 uma Medida Provisória63 (MP no 2.186-16, republicada pela última vez em 23/08/2001) que, entre outras coisas, determina que qualquer bioprospecção64 feita por estrangeiros no Brasil precisa estar associada a um instituto de pesquisa nacional. Parte dessa MP foi regulamentada por meio do Decreto nº 3.94565, de 28/09/2001, portanto, diante desse vazio legal, vigora a Convenção Mundial sobre Diversidade Biológica, que submete o acesso à autorização do Estado Nacional66. 60 Houve atraso no cronograma da obra, em virtude da reestruturação do layout do CBA e da crise envolvendo o contrato entre a Bioamazônia e a empresa de biotecnologia Novartis (Simões, 2002). 61 Um dos pontos polêmicos era a exclusividade de patentes à Novartis de produtos obtidos por pesquisas em matériaprima amazônica (Simões, 2002). 62 Por conta do problema com a Novartis, a Biomazônia deverá procurar parceria principalmente com empresas nacionais no início das operações do CBA (Simões, 2002). 63 Como não está totalmente regulamentada, a aplicação dessa MP é insuficiente, pois não prevê sanções penais contra eventuais acessos irregulares (biopirataria). 64 Bioprospecção é a pesquisa para identificar componentes de recursos genéticos e informações sobre o conhecimento tradicional com potencial de uso comercial (Simões, 2002). 65 Cria um Conselho de Gestão do Patrimônio Genético, cujos membros são todos funcionários de ministérios federais, excluindo portanto representantes de comunidades indígenas ou locais, cientistas, agricultores, ambientalistas, empresários, etc. 66 Ver a respeito o PLS nº 306/95, de autoria da Senadora Maria Silva (PT-AC), o qual foi aprovado sem oposição no Senado e atualmente encontra-se em tramitação na Câmara dos Deputados, que pretende ocupar a lacuna jurídica citada. 60 7. CIÊNCIA, TECNOLOGIA E EMPREENDEDORISMO AMBIENTAL: AS BASES DE UM NOVO PARADIGMA PARA O DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL DA AMAZÔNIA Este capítulo aborda o aproveitamento econômico dos produtos naturais da Amazônia, com ênfase nos óleos naturais e essenciais, cosméticos, corantes, produtos fitoterápicos e plantas medicinais. Analisa ainda, o tripé ciência-tecnologia-empreendedorismo, como as bases de um novo estilo de desenvolvimento local, interagindo em rede para superar as limitações existentes na produção e comercialização dos produtos naturais e na viabilização da bioindústria na Amazônia. 7.1. USO ECONÔMICO DOS PRODUTOS NATURAIS DA AMAZÔNIA Na região amazônica a abundante biodiversidade existente representa uma das maiores potencialidades e patrimônios do Brasil neste novo milênio. A existência de mais de 90% da área florestal inexplorada na Amazônia, é um dos fatores estratégicos que explica a crescente preocupação de se concentrar os estudos científicos na região, motivados pelas grandes probabilidades de aproveitamento econômico dos recursos de modo sustentável. Por essa mesma razão importantes empresas farmacêuticas multinacionais estão planejando ampliar os seus investimentos na região (Barata, 1995). O aproveitamento econômico dos produtos naturais, conforme apontam inúmeros estudos efetuados na Amazônia67, será o ponto de partida para a inserção da economia da região na matriz de um novo modelo de desenvolvimento local. A agregação de valor a esses produtos, via incorporação do fator tecnológico e da capacidade empreendedora dinamizará alguns setores da economia e poderá impulsionar o desenvolvimento sustentável da Amazônia. A título de exemplo, a seguir encontram-se elencados alguns produtos naturais possíveis de exploração econômica dentro desse novo estilo de desenvolvimento que se vislumbra para a Amazônia, conforme inúmeros estudos produzidos por algumas instituições como: MMA, MCT, SEBRAE, SUFRAMA, BASA, UFPA, UA, INPA, Museu Emílio Goeldi, IEPA, etc . Biodiversidade Amazônica – Exemplos e Estratégias de Utilização. INPA/SEBRAE, 2000. Plantas da Amazônia – Oportunidades Econômicas e Sustentáveis. INPA/SEBRAE, 2000. MACROTEMPO – Consultoria Econômica. Programas Setoriais de Promoção da Competitividade do Norte e Centro Oeste. SACE/SEBRAE, 2000. PROBEM/Amazônia, 1997. 67 61 7.1.1. Óleos vegetais e suas principais aplicações Os óleos vegetais, animais ou de outra procedência natural constituem uma alternativa altamente promissora à substituição parcial ou total, em muitas indústrias, dos materiais derivados do petróleo e dos recursos fósseis e não-renováveis. As oleaginosas amazônicas apresentam vantagens em relação a outras fontes naturais de substâncias gordurosas por serem abundantes, renováveis e praticamente inesgotáveis, desde que processadas racionalmente; além do cultivo e a produção não serem poluentes, nem esgotarem o solo. As mais importantes e valiosas variedades de espécies oleaginosas silvestres do mundo se concentram na Amazônia, constituindo para a região uma fonte natural de riquezas. A maioria dos óleos tem inúmeras aplicações, sendo que as mais importantes são encontradas nos setores industriais de alimentos, produção de sabão, aditivos, corte de metais, pinturas, assim como combustíveis alternativos ao diesel e, também, na indústria de cosméticos. Na Amazônia são muitas as oleaginosas de grande potencialidade industrial (Quadro 7.1). Quadro 7.1 – Óleos vegetais da Amazônia e as suas principais aplicações Aplicações Óleo vegetal Andiroba (Carapa guianensis) Copaíba (Copaifera officialis) Ucuúba (Virola surinamensis) Murumuru (Astrorarium murumurú) Patuá (Oenoscarpus minor) Buriti (Mauritia vinifera) Cupuaçu (Matisia paraensis) Antiinflamatório externo. Poderoso antiinflamatório, antibacteriano e cicatrizante. Contém uma gordura com 30% de trimiristina, um éster usado em cosméticos. Contém uma gordura semi-sólida que elimina a operação industrial de hidrogenação na produção de margarinas. Contém um óleo com características do óleo de oliva, da pupunha e da castanha-doBrasil, com excelente qualidade nutricional. É um óleo adequado para frituras comerciais em fast foods. Apresenta as mesmas características botânicas e aplicações industriais do Cacau (Theobroma cação). É uma alternativa na indústria do chocolate. Fonte: Enríquez (2001) 62 No Quadro 7.2 apresentam-se os principais produtos naturais da Amazônia de interesse da indústria cosmética. Quadro 7.2 – Produtos naturais da Amazônia de interesse da indústria cosmética Nome comum Nome botânico Parte usada Aplic. real ou potenc. em cosméticos Açaí Euterpe oleracea Suco da polpa Pigmento roxo do suco (estabilidade incerta) Andiroba Carapa guianensis Óleo das sementes Cremes faciais, emolientes e analgésicos. Babaçu Orbignya martiana e O. speciosa 1- óleo do caroço; 2- mesocarpo 1- sabão, cremes; 2- medicinal Bacuri Platonia insignis Gordura do caroço Óleo e gordura para pomada e creme Breu branco Protium heptaphyllum Exsudato espesso do tronco2 (resina) Perfume tipo incenso (queima lentamente e afasta mosquitos) Carajuru Arrabidaea chica Folhas naturalmente fermentadas Pigmento vermelho para batom ou outro uso Castanha-do-brasil Bertholletia excelsa Óleo do caroço Óleo insaturado para cremes e pomadas Copaíba Copaíba duckei, C. reticulata, C. multijuga1 Óleo-resina do tronco Bálsamo aromático, cicatrizante3 Cumaru Dipteryx odorata Sementes (Tonka beans) Aromatizante com atividade protetora contra Câncer Cupuaçu Theobroma grandiflora Óleo da polpa e semente Gordura para cosméticos e fins farmacêuticos Jaborandi Pilocarpus jaborandi Folhas Promove o crescimento dos cabelos (combate alopecia) Jatobá, jutaí Hymenacea courbaril e outras espécies Exsudato fresco do tronco; extrato da casca Antibacteriano e anti-inflamatório usado em cistite e prostatite Mucajá Acrocomia sclerocarpa Gordura do caroço Sabonete Patauá Jessenia (Oenocarpus); bataua (palmeira) Óleo da polpa Parecido com o óleo de oliva Píquia Caryocar villosum Óleo da polpa Óleo vegetal rico em caroteno Pupunha Bactris gasipaes Óleo da polpa e gordura do caroço Bases para cremes e pomadas Puxuri Licaria puchuri major Óleo essencial das folhas por destilação Perfume Sacaca Cróton cajucara Óleo essencial das folhas por destilação Perfume Tucumã Astrocaryum vulgare 1- Óleo da polpa; 2- Gordura do caroço 1- rico em caroteno; 2- sabonete Ucuúba Virola surinamensis Gordura do caroço Base para batom, pomadas e sabonete. Fonte: Gilbert, (2000). Notas: (1) Além de outras espécies; (2) Exsudato causado pelo ataque de um inseto; e (3) O uso permite pele limpa de infecções e pode ser usado como fixador para perfumes. 63 Observa-se que o volume de produção e vendas de cosméticos baseados em produtos naturais da Amazônia ainda é modesto em relação ao seu potencial. Uma das dificuldades é a confiabilidade na qualidade constante dos produtos, no volume suficiente e na estabilidade dos preços.68Cabe destacar que aqui reside a sustentabilidade dessa atividade que se vincula muito mais a capacidade de saber empreender do que na abundância dos recursos naturais e na vocação natural dessa região. 7.1.2. Óleos essenciais e suas principais aplicações Na pauta de comércio e exportação da Amazônia, as espécies que são mais efetivamente demandadas originárias da flora odorífera são: o óleo essencial do pau-rosa69 (Aniba rosaeodora L.), os óleos e resinas de copaíba (Copaifera ssp C.) e a semente de cumaru (Dipteryx odorata F.). O comércio do óleo essencial do pau-rosa (essência do perfume Chanel nº 5) teve uma acentuada redução, em decorrência da proibição, por parte do IBAMA, do corte de árvores nativas e sua exploração extrativista, devido à ameaça de extinção das espécies. Ressalta-se, ainda, que os óleos essenciais, matéria-prima básica na indústria de aromas, igualmente encontram aplicações em setores de primeira necessidade, como as indústrias alimentares e farmacêuticas. Observa-se, hoje, que os países em desenvolvimento são os principais produtores de óleos essenciais, devido à menor exigência da agricultura primária. Guatemala, Índia, China, Egito, Indonésia, Sri Lanka, Turquia e Brasil, entre outros, são grandes exportadores de óleos essenciais. Os maiores compradores do Brasil são os Estados Unidos, Holanda, Japão, Argentina, Bélgica e Inglaterra. Segundo Maia (1998), existem inúmeras plantas aromáticas com potencial comercial identificadas em pesquisas realizadas na região amazônica. Em trabalho de campo foram catalogadas cerca de 600 plantas em estados da região amazônica, que permitem produzir 300 diferentes tipos de óleos vegetais. Além do conteúdo aromático Maia (1998) descreve que espécies como a Ambrósia, Ichthyothere e Artemísia são usadas como repelentes de insetos por índios e nativos da região. O Para assegurar o volume e a constância de qualidade que o mercado exige, a produção necessariamente terá que se basear em cultivo, com tecnologias de manejo sustentável e não apenas em extrativismo. A certificação dos produtos será de fundamental importância para a ampliação dos mercados e para a sustentabilidade dos empreendimentos. 69 Pesquisa ainda não conclusiva, conduzida pelo Dr. Lauro Barata – UNICAMP, evidencia a possibilidade da alternativa de extração do óleo essencial das folhas do pau rosa, o que seria de fundamental importância, já que o arbusto está quase extinto. 68 64 maior descobrimento, no entanto, foi o alto teor de safrol encontrado na pimenta larga, no Acre. Seus compostos químicos são usados como fixador, nas indústrias de cosméticos e fragrâncias, como aí está o mais importante agente sinergístico junto ao piretrium, constituindo-se no único inseticida natural de “conotação verde” e biodegradável autorizado na Europa, EUA e Japão, para o controle de pragas no armazenamento, processamento de alimentos e no uso doméstico. O consumo mundial de óleo de safrol é de, aproximadamente, 2 mil ton/ano (duas mil toneladas por ano), com preço no mercado internacional de, aproximadamente, US$ 5 o quilo. Cabe destacar que quase a totalidade das plantas produtoras de óleos essenciais possui, além do potencial odorífero, usos medicinais. 7.1.3. Corantes naturais e suas principais aplicações A tendência mundial crescente de busca por alimentos naturais é praticamente irreversível e tem proporcionado um aumento considerável no consumo de corantes naturais. Algumas plantas das quais se extraem os corantes mais utilizados e estudados no mundo estão no Quadro 7.3 abaixo. Quadro 7.3 - Corantes da Amazônia e as suas principais aplicações Planta Urucum (Bixa orellana L.) Cúrcuma (Curcuma longa L) Dendê (Elaes guineensis) Cacau (Theobroma Cação L) Açaí (Euterpe oleácea L) Jenipapo (Genipa americana) Aplicações É utilizado largamente nas indústrias de alimentos da Inglaterra, Estados Unidos, Nova Zelândia, entre outros. O Brasil é o maior produtor mundial de Urucum, com uma produção estimada em 6 mil ton/ano. Seus corantes podem ter aplicações industriais não-alimentícias, tais como remédios (líquidos e sólidos), corantes, vernizes e ceras para madeiras, tingimento de tecidos, couros e fibras em geral, coloração de carnes, cromatografia de tela, filmes e fotos, cosméticos, óleos vegetais hidrogenados e ceras para calçados. Nativa da Amazônia, que pode ser utilizada na fabricação de produtos alimentícios, em geral, como conservas, bebidas, manteigas, sorvetes, queijo, doces, mostardas, sopas desidratadas, misturas para tortas e recheios de biscoitos. A polpa de seus frutos contém um óleo com grande porcentagem de ácidos graxos insaturados e de alto teor de pigmentos carotenóides, destacando-se o betacaroteno com características pró-vitamina A. Do cacaueiro produz-se, industrialmente, o chocolate, usado em pequena escala como corante alimentício em produtos de confeitaria. Nativa da Amazônia, produz pigmentos em cores púrpura e verde-escuro. Sua ocorrência na região é grande, sendo a base da alimentação nativa há séculos. Frutífera de ocorrência na flora amazônica, produz um corante azul-escuro e amarelo-cristalino. Fonte: Enríquez, 2001. 65 7.1.4. Produtos Fitoterápicos e Plantas Medicinais A arte da cura acompanha a humanidade desde os primórdios e sua evolução ocorreu de forma empírica, em processos de descobrimentos por tentativa, erros e acertos (Mors, 1982). Neste processo, os povos primitivos propiciaram a identificação de espécies e de gêneros vegetais, assim como as partes dos vegetais adequadas ao uso medicinal e, ainda, o reconhecimento do habitat e da época da colheita (Scenkel, 1985). Posteriormente, surgiram as técnicas de manipulação e de conservação das espécies identificadas, que iriam iniciar a configuração de um corpo teórico e prático de conhecimentos que constituíram a medicina do homem primitivo. Esse lento processo, durante o qual a intuição, aliada ao ensaio, lentamente converteu a experiência do saber em memória coletiva, foi o que permitiu transmitir às gerações futuras o conhecimento acumulado e, desta forma, preservá-lo (Enríquez, 2001). Os produtos de origem vegetal chamados fitoterápicos, aqui compreendidos em toda sua amplitude, estão relacionados com qualquer exploração tecnológica e econômica de vegetais utilizados na preservação, tratamento, cura de distúrbios, disfunções ou doenças do homem e dos animais. Os fitoterápicos incluem, principalmente, fitofármacos, venenos, toxinas e cosméticos.70 Na Europa, aumenta o interesse pelo uso de plantas medicinais. Dessa forma, poderíamos enumerar uma longa lista de princípios ativos oriundos de plantas e que estão na origem de produtos farmacêuticos largamente utilizados (morfina, quinino, cânfora, atropina, entre outros) (Lévêque, 1999). Na Amazônia, dados etnobotânicos de plantas medicinais indicam a existência de mais de 300 espécies fitoterápicas catalogadas e sendo usadas contra inúmeras doenças. A cultura, o conhecimento popular acumulados ao longo de anos de uso das plantas medicinais existentes na Amazônia além da capacidade científica instalada e o conhecimento científico da biodiversidade encontrados nas universidades e os centros de pesquisa da região, representam fatores importantes para a potencialidade da região e poderão contribuir para ampliar a 70 Os fitoterápicos são classificados de maneira diferente, tanto pela União Européia (UE) como pelos Estados Unidos (EUA). Na UE herbal medicinal products (fitoterápicos) são considerados produtos medicinais (exceção de Portugal) se tiverem indicações profiláticas ou terapêuticas e são regidos pelas leis nacionais. Produtos não classificados como medicinais geralmente são alimentos ou cosméticos. Nos EUA, herbal medicinal products são considerados medicamentos e herbal products podem ser definidos como alimento, suplementos nutricionais (dietary supplement), cosmético ou droga, dependendo do tipo de uso. Ver SUDAM/PNUD/GENAMAZ (2000). 66 exploração econômica dos recursos naturais existentes e identificados, com base em políticas públicas coerentes e consistentes voltadas para o desenvolvimento regional. Essas novas possibilidades para o aproveitamento dos recursos naturais dessa região apresentam-se no contexto das chamadas janelas de oportunidades71 que se abrem para a Amazônia. É possível inferir, a partir dos dados acima, que para a Amazônia se desenvolver adequadamente é preciso romper com o modelo dominante de exploração predatória dos recursos naturais da região, o qual não leva em conta seus elevados custos sociais e ecológicos. A continuação de um crescimento desenfreado é tão inaceitável quanto o não-desenvolvimento. Nesse contexto, afirma-se que para a Amazônia estão abertas essas janelas de oportunidades e sabendo utilizar e desenvolver adequadamente os fatores chaves de um modelo de desenvolvimento endógeno (investimentos na capacidade inovativa, capacitação de recursos humanos, fortalecimento da capacidade empreendedora e tecnológica, estímulo a um ambiente de cooperação e aprendizado que assegure a qualidade dos produtos) as possibilidades para melhorar a competitividade dessa região são enormes. 7.2. VIABILIDADE TÉCNICO-ECONÔMICA DOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃOMADEIREIROS Recursos florestais não-madeireiros compreendem os produtos que podem ser extraídos da floresta com possibilidade de manejo sustentado. Entre eles encontram-se: óleos, resinas, bambus, fibras, plantas medicinais, látex, frutas etc. Podem incluir o recurso animal e ainda os benefícios ou serviços indiretos advindos da manutenção da cobertura florestal: água, conservação dos solos e condições climáticas (atrativos para o turismo). Braz (1997) define como bens e serviços da floresta: gomas, resinas, látex, vegetais, frutas e amêndoas comestíveis, fungos, alimentos e subpodutos da caça e pesca, animais para futura criação doméstica, visitas turísticas e plantas bioquimicamente ativas para usos medicinais e farmacêuticos diversos. Pearce (1990), em análise de frutas e látex em um hectare de floresta tropical úmida (Peru) afirma que a renda dos produtos não-madeireiros pode igualar-se, ou até mesmo, superar a da madeira, sendo a lucratividade financeira um forte argumento para a manutenção da cobertura 71 Janela de oportunidade pode ser entendida como a possibilidade aberta às diversas nações, em particular aos países em desenvolvimento, de inserir-se na nova onda tecnológica, dado que “o campo para efetuar uma mudança positiva em termos de desenvolvimento, em vez de reduzir se amplia” (Perez, 1985). 67 florestal, já que provavelmente grande parte da floresta tropical é danificada devido à falta de regimes alternativos de manejo para safras alternativas. Um exemplo de sucesso da economia extrativista é visto na Indonésia, que presenciou um salto nas exportações de produtos não-madeireiros, de US$ 17 milhões em 1973, para US$ 154 milhões em 1985 e US$ 238 milhões em 1987 (Pearce, 1990). Os produtos não-madeireiros são geralmente a base para a produção artesanal e industrial em pequena escala. Há poucos anos estes produtos eram considerados com desinteresse, manifestado inclusive na definição minor forest outputs72. Entretanto, estes produtos podem gerar retornos consideráveis na manutenção de populações de países em desenvolvimento e a sua produção e uso pode se constituir numa das principais demandas colocadas sobre as florestas (Arnold & Perez, 1995). Geram empregos para praticamente todos os níveis de população, mesmo emprego próprio73, uma vez que a exploração requer intensa mão-de-obra. Podem suprir, ainda, as necessidades inerentes ao próprio habitante da floresta (ITTO, 1988). Nas políticas de manejo florestal e uso do solo, os produtos não-madeireiros freqüentemente são esquecidos ou marginalizados na contabilidade da renda florestal. Segundo Braz (1997), isso se deve aos seguintes pontos: • ausência de informação adequada, principalmente dados estatísticos e econômicos; • mercado mundial ainda não estabelecido, exceto para poucos produtos; • oferta irregular de tais produtos e faltam a eles padrões de qualidade adequados; • substitutos artificiais e/ou economia de escala alcançada por plantios; • falta de tecnologia de processamento e estocagem para muitos dos produtos perecíveis; • inadequado processo de promoção e incentivo devido à falta de informação quanto aos potenciais mercados; e • baixos retornos econômicos devido ao baixo volume de comércio desses produtos. Durante os últimos anos, porém, houve um aumento no interesse por estes produtos, principalmente devido à questão ambiental. Entretanto, uma revisão inicial do estado-da-arte do Produtos florestais de menor valor. A idéia de ‘emprego próprio’ é aqui utilizada no sentido de geração de renda pelo próprio empreendedor, sem vínculo empregatício formal a terceiros, atravessadores ou mesmo empresas. 72 73 68 conhecimento nesta área mostra que enquanto muitas pesquisas vêm sendo feitas, a maior parte tem enfoque específico e setorial, e as análises têm sido realizadas em um ponto particular do tempo74. 7.3. MERCADO E COMERCIALIZAÇÃO DOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃOMADEIREIROS Antes de se considerar a questão das possibilidades de mercado para os produtos nãomadeireiros, apresenta-se, a seguir, uma breve caracterização do processo de comercialização em áreas distantes, ou mais especificamente, no interior da floresta, onde estão os atores que darão início à cadeia de comercialização desses produtos: os extratores. O comércio de produtos não-madeireiros na Amazônia passa por questões históricas que se referem às relações entre os extrativistas, os intermediários, os exportadores e os clientes nacionais e internacionais. O sistema de aviamento (fornecimento de mercadorias a crédito que serão pagas com o produto final da safra) continua vivo e predominante em áreas de acesso fluvial. Nesse sistema o extrativista recebe preço baixo pela mercadoria que fornece e paga caro aos bens do patrão75. Normalmente o extrativista fica preso a um comerciante ou patrão, pelo constante endividamento (Rocha, 1996). Entretanto, a participação do chamado marreteiro76 na cadeia produtiva vem sendo a única oportunidade de negócio para famílias que vivem e produzem em áreas distantes dos centros urbanos. Outro elemento dessa cadeia é o regatão ou proprietário de barco que faz a comercialização a longas distâncias e age na logística da maximização do lucro por unidade de capital, e de tempo (McGrath, 1997, apud Rocha, 1996). Este repassa os produtos trazidos do interior da floresta para o exportador, que normalmente está sediado em áreas de grandes portos (Manaus e Belém) e tem capital suficiente para especular com qualquer produto, como também criar vínculos de crédito com muitos regatões. O regatão negocia o preço dos produtos antes da viagem às áreas de produção e em muitos casos já recebe o pagamento pelas encomendas. Com este dinheiro compram mercadorias para vender ou usar como moeda, junto aos extrativistas e/ou marreteiros locais (Rocha, 1996). 74 As diferenças no escopo, metodologia e objetivos dificultam comparar resultados de estudos individuais e, por conseguinte, dificulta a definição de propostas políticas válidas para o setor (Arnold & Perez, 1995). Percebe-se, então, que a ciência florestal pouco caminhou neste setor. 75 Por ‘baixo’ e ‘caro’ entenda-se uma tentativa de gradação comparativa, em que na ausência de pesquisas específicas que aqui pudessem servir de base de análise financeira, optou-se pela utilização da dicotomia como um meio para demonstrar que pagar ‘baixo’ ao extrator e vender ‘caro’ ao atravessador, ao comércio ou mesmo à indústria transformou-se, ao longo do tempo, num pilar fundamental de dominação no interior da floresta. 76 Participante da cadeia produtiva que atua como intermediário. 69 Alguns outros problemas limitam a comercialização dos produtos extrativistas: as más condições sanitárias da produção, a instabilidade da demanda de mercado, inconstância da produção e falta de organização dos produtores para alcançar uma certa escala de produção. Para alguns produtos seria necessário atingir padrões de acordo com normas de higiene e qualidade, como é o caso dos óleos de andiroba, copaíba, bacaba e castanha, que necessitam de equipamentos sofisticados e métodos de estabilização (CNPT, 1997). Segundo ITTO (1988), os esforços requeridos para viabilizar e se obter sucesso na comercialização de produtos não-madeireiros seriam: a) dispor de maiores informações econômicas e estatísticas; b) conquistar os mercados nacional e internacional; c) identificar potencial de suprimento e padrão de qualidade destes produtos; d) desenvolver tecnologias de estocagem e transformação (agregação de valores); e) desenvolver regulamentos de manejo e estudos de custos para esses produtos; f) realizar marketing adequado (explorar a marca ‘Amazônia’); e g) criar o conceito de comercialização conjunta de vários produtos ao mesmo tempo, buscando o mesmo canal de comercialização. Com relação ao mercado para os produtos não-madeireiros, diversas pesquisas revelam ser crescente o interesse dos consumidores por produtos não-madeireiros e ambientalmente corretos. No mercado de óleos naturais, estudos mostram que os óleos de copaíba, andiroba, pequi, ucuúba, patauá e castanha são utilizados por indústrias farmacêuticas e cosméticas. Porém, apenas os óleos de copaíba e andiroba estão sendo comercializados numa maior escala. No atacado, o óleo de copaíba é vendido a preços que variam de R$ 5,00 a R$ 10,00 o litro. No varejo se paga entre R$ 8,00 e R$ 20,00 por pequenas quantidades (20 a 100 ml). Já o óleo de andiroba custa de R$ 10,00 a R$ 15,00 no atacado. (CNPT, 1997). No Estado do Amapá, com o apoio do Governo do Estado as diversas cooperativas de produção que beneficiam os produtos florestais não-madeireiros, constituíram uma cooperativa central de comercialização para esses produtos. Trata-se da Cooperativa Central dos Produtos da Floresta – FLORA. Com uma única marca comercial e forte a FLORA pretende abastecer o mercado local e nacional com os produtos das cooperativas que produzem alimentos como óleo virgem da castanha-do-brasil, biscoito de castanha, mel de abelhas, camarão, farinha de mandioca, polpa de açaí, palmito e outros produtos cooperativistas que fazem a economia da biodiversidade do Amapá. 70 As vantagens da centralização da comercialização são várias, porém entre elas, pode-se destacar: a) criação de uma marca forte e única para concorrer com médias e grandes empresas; b) canalização da produção de várias cooperativas solucionando o problema de escala para atendimento de contratos; c) fortalecimento de uma única estrutura para transporte, armazenagem, vendas e distribuição; d) criação de um corpo de vendas profissional capaz de cobrir os mercados atacadistas e varejistas de pequeno, médio e grande porte, permitindo que os produtores se dediquem exclusivamente à produção; e e) ganho de economia de escala na aquisição de matérias-primas, insumos, embalagens e fretes. Apesar do imenso potencial revelado por esses e tanto outros recursos não-madeireiros, deve-se atentar que a criação de uma demanda pode gerar a intensificação das colheitas, afetando a regeneração natural das espécies (sustentabilidade) ou forçar uma tendência a plantios (o que vem acontecendo com o açaí e a pupunha), que pode demandar o uso de agrotóxicos e ainda estimular o desmate de áreas da floresta de forma predatória77. Este é o grande desafio que o processo de crescimento do mercado de produtos não-madeireiros terá que enfrentar. Pendelton (1992), recomenda que o desenvolvimento de mercados para produtos nãomadeireiros deve considerar que: 1. A dinâmica de seus mercados não é bem conhecida. Devido à perecibilidade de muitos produtos, como frutas, por exemplo, o limite de mercado é local e pouco passível de incremento; 2. Uma maior demanda pode ser estímulo à imediata domesticação deste produto, eliminando o seu potencial econômico dentro da floresta; e 3. O mercado internacional garantido para esses produtos foi estabelecido apenas para poucos bens. Ocorrem muitas vezes mudanças no gosto inicial do consumidor, uma vez que o mercado é baseado em novidades, dificultando sua estabilidade. É bem verdade que, no caso da fruticultura tropical para exportação, já existe tecnologia de conservação e transporte apropriados, o que poderia viabilizar a sua ampliação na Amazônia como alternativa de negócio rentável. 77 Ao contrário, há experiências que mostram que é possível explorar a região sem agredir o meio ambiente. Em Iratapuru, no Amapá, os moradores formaram cooperativas há cerca de cinco anos, que permitem a exploração da castanha de forma sustentável. Usam o produto para fabricar biscoitos, fonte de renda e desenvolvimento da população. 71 Também devem ser consideradas quedas nos preços pela introdução de novas fontes de matériasprimas no mercado internacional. Todos estes fatores devem ser considerados nas estratégias a serem desenvolvidas para o manejo dos produtos não-madeireiros. 7.4. AGREGAÇÃO DE VALOR AOS PRODUTOS FLORESTAIS NÃO-MADEIREIROS Para o beneficiamento da matéria-prima, as análises e decisões devem considerar as questões apresentadas no item anterior, principalmente com relação à realidade do sistema de comercialização presente nas áreas mais distantes. As possibilidades de beneficiamento podem ser influenciadas pela capacitação da mão-de-obra, pela distância das vias de acesso, disponibilidade de energia, máquinas e equipamentos. Ainda, em função do mercado pretendido, devem ser avaliadas as preferências do consumidor, as tendências de consumo por tipo de produto, as normas e padrões de qualidade exigidos pela indústria de transformação ou o consumidor final, os volumes requeridos pelos diferentes mercados, e outras características que irão apoiar a definição de estratégias de produção e beneficiamento. Na questão do beneficiamento é importante se analisar qual o maior grau de beneficiamento possível e viável ser realizado pelas comunidades no interior da floresta, considerando que o ideal seria agregar o máximo valor possível na origem do produto, abreviando a cadeia produtiva e remunerando melhor o extrativista. Sob esse ponto cabe um exemplo: os castanheiros, geralmente organizados socialmente em cooperativa78, colhem a castanha e vendem para uma outra cooperativa de produção, constituída na própria comunidade, que continua o processo de beneficiamento do produto e subprodutos, até a sua comercialização direta ou por meio de uma outra cooperativa, que nesse caso pode ser uma central de comercialização dos produtos da floresta. Ele poderia vender a castanha com casca (bruta) ou sem casca e, ainda, torrada, ou até mesmo cristalizada e embalada. Essas variações poderão ocorrer em função das possibilidades de cada local. Para tanto, é necessário capacitar a mão-de-obra e possivelmente desenvolver produtos bem como a capacidade empreendedora dessa população, visando o atendimento a uma determinada tendência do mercado aliado, também, ao padrão de qualidade exigido. Pode-se denominar os castanheiros e os demais povos da floresta envolvidos nesse processo de coopreneurs (empreendedores em negócios cooperativos), um empreendimento cooperativo proporciona um caminho alternativo para a criação, gerenciamento e desenvolvimento de uma organização (Revista SEBRAE, 2001). 78 72 7.4.1. O Caso da Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru no Amapá O Governo do Estado do Amapá - GEA, em parceria com instituições do setor produtivo e de pesquisas, especialmente com o apoio da Incubadora de Empresas de Bases Tecnológicas do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá – IEPA, do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas – SEBRAE e do Programa Piloto para a Preservação das Florestas Tropicais – PPG7, vem incentivando a agregação de valor à castanha-do-Brasil na Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru – RDS Iratapuru, transferindo tecnologia à Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru – COMARU, culminando com a recente inauguração de uma agroindústria naquela reserva para produção de biscoitos de castanhado-brasil,79 que está sendo comercializado para todas as escolas da rede pública como integrante da merenda escolar e nos principais supermercados amapaenses. A fábrica é gerenciada pela COMARU, foi construída bem no meio da floresta, às margens do rio Iratapuru, a duas horas de Laranjal do Jarí e tem a capacidade de produzir até 70 toneladas de biscoito no mês e 840 toneladas no ano. Observa-se que, antes da organização dos extrativistas e da agregação de valor ao produto coletado na floresta, 100 litros de castanha eram comercializados a R$ 8,00 e agora com o beneficiamento o mesmo volume é vendido a R$ 65,00. A Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Rio Iratapuru80 tem um espaço com características naturais relevantes, e objetiva manter a diversidade biológica, conservar os recursos genéticos, favorecer a pesquisa científica, conservar os recursos hídricos, manter e produzir fauna silvestre, manejar os recursos florestais, assegurar a qualidade ambiental, conservar a beleza cênica, proporcionar a educação ambiental e a recreação e assegurar o desenvolvimento econômico sustentável das populações residentes. A vegetação característica da Reserva do rio Iratapuru faz parte do domínio da floresta de terra firme81. A transição do extrativismo para a produção industrial representada pelo fabrico do biscoito, a perspectiva de produção de sabão de castanha, copaíba e andiroba, atribuem à COMARU uma estrutura produtiva sem os riscos do tradicional aviamento (Sampaio, 2000). 80 Criada pela Lei Estadual nº 0392, de 11 de dezembro de 1997 e consiste na maior área protegida do Amapá. Sua área de 806.184 há abrangem os municípios de Laranjal do Jarí, Mazagão e Amaparí. 81 Trata-se de ecossistema rico em biodiversidade com formação estrutural de alto porte e com espécies de grande valor econômico, destacando-se, além da castanha-do-brasil (Bertholletia excelsa H&B Lecythidaceae), a copaíba (Copaifera reticulata ducke), a andiroba (Carapa guianensis aubl), o cipó titica (Heteropsis jemniane) e na área de várzea, o camucamu (Myrciaria Dubia (HBM) Mc Vough). 79 73 Seis comunidades fazem parte da Reserva e do seu entorno: Iratapuru, Cachoeira de Santo Antônio, Retiro, São Militão, São José e Padaria, com uma população de aproximadamente 150 famílias. Seu manejo e gerenciamento são de responsabilidade de “todos os agentes sociais envolvidos direta e indiretamente no processo de criação e implantação da reserva” (Capiberibe, 1997). A ocupação humana da Reserva do Rio Iratapuru está ligada à exploração e comercialização da castanha-do-brasil. Embora exploram um recurso com grande potencial econômico, as comunidades não conseguiram, até meados da década de 90, desenvolver-se em níveis satisfatórios, enfrentando grandes dificuldades na área de saúde, sendo a malária a principal doença, que chegava a molestar quase 100% da população em um único período, dado que a prevenção era inexistente e o tratamento vinha sendo realizado fora da área, prejudicando as atividades econômicas. Naquela área cerca de 90% dos adultos eram analfabetos. Os jovens que queriam continuar estudando, além do ensino básico, tinham que se deslocar para a sede do município de Laranjal do Jarí ou para Macapá. As crianças rotineiramente enfrentavam a carência de professores e de material escolar na comunidade. Com a criação da RDS e implementação das atividades econômicas da Cooperativa Mista dos Produtores Extrativistas do Rio Iratapuru - COMARU82, vem ocorrendo uma significativa melhoria na qualidade de vida dos moradores daquela comunidade, em específico nas ações de educação e saúde, com efeito positivo. A principal atividade econômica da Reserva é a extração, beneficiamento e comercialização do fruto da castanheira, a castanha-do-brasil, que tem como característica principal: o alto porte (40 a 50 metros de altura), e o tempo de vida que varia entre 800 e 1.200 anos. Porém, as atividades de agricultura e pecuária são praticadas como alternativas para suprir as necessidades de subsistência da comunidade. O fruto da castanheira pesa entre 500 gramas a 1,2 quilo e possui grande valor protéico, com uso na alimentação humana e de animais domésticos pequenos. Além da culinária, o óleo da castanha pode ser usado na produção de cosméticos e o subproduto utilizado na geração de energia, dentre outros usos. 82 Entidade de extrativistas do Iratapuru que se organizou em 1990/91 e atualmente administra a RDS. 74 O IEPA, por meio do Programa de Incubação de Empresas e Cooperativas de Base Tecnológica – PIETEC, vem desenvolvendo um trabalho que tem por objetivo adequar a produção de biscoito e óleo da castanha e fazer com que a produção possa trazer resultados sociais significativos para a RDS Iratapuru. Os efeitos destas possíveis realizações podem alcançar todas as fronteiras do Estado do Amapá e do mundo, pois além de contribuir para a preservação da floresta amazônica, lança a outras micros e macros regiões amazônicas um modelo de desenvolvimento sustentável. Esse modelo de ocupação da floresta que mostra que é possível explorar a Amazônia, sem provocar danos irreparáveis ao meio ambiente já foi destacado pela Organização das Nações Unidas – ONU e chama a atenção da comunidade internacional (Revista ISTOÉ -Edição nº 1711, 12/07/2002). O óleo da castanha-do-brasil tem aplicação tanto na culinária como nos cosméticos, sendo que esse subproduto da castanha produzido pela COMARU já vem sendo fornecido a uma grande empresa deste segmento. A ampliação, em termos qualitativos e quantitativos, vincula-se à sua estrutura, que ainda não é condizente com o potencial produtivo e de mercado. O óleo é muito procurado pelas indústrias de cosméticos no exterior. A empresa The Body Shop compra 6 toneladas anuais dos índios Kaiapós, do Estado do Pará, ao preço de US$ 30/kg. Já existe demanda do mercado internacional para o óleo de castanha-dobrasil para ser usado nas indústrias de cosméticos, deixando a torta da castanha como subproduto. O processamento industrial é muito simples e viável. A produção de um óleo virgem não demanda fábricas complexas. Apenas 1,5% da matéria-prima disponível no Amapá seria suficiente para o bom funcionamento de uma fábrica. Esse óleo pode ser facilmente extraído com prensas tipo expeller, gerando como subproduto uma torta enriquecida em até 50% de proteínas, guardando um teor de gordura da ordem de 10%. Esta torta é uma excelente fonte alimentar e ainda pode substituir produtos nobres importados pelo Brasil, como nozes, amêndoas, avelãs e macadâmia. Com o intermédio do Governo do Estado do Amapá, por meio da Secretaria Estadual de Ciência e Tecnologia - SETEC, do PIETEC/IEPA e da Secretaria Estadual de Indústria, Comércio e Mineração - SEICOM, a empresa Natura, indústria paulista de cosméticos, contratou a JGP Consultoria para certificar a Reserva de Desenvolvimento Sustentável do Iratapuru, em Laranjal do 75 Jarí83. A COMARU, é uma das fornecedoras de óleo de castanha para a Natura que o utiliza em sua linha de cosméticos Ecos. Até julho de 2003 a empresa pretende adquirir somente produtos florestais certificados. A reserva já foi visitada por agrônomos e biólogos da empresa contratada, demarcando áreas que serão certificadas nessa primeira fase. Com a notícia de que a reserva estava em processo de certificação, vários contatos e alguns negócios já foram concretizados. Uma empresa de óleos do sul do País já encomendou à COMARU 3 toneladas por mês de óleo de copaíba o que significa um negócio anual de R$ 324 mil reais. A própria Natura intermediou com outra empresa paulista um fornecimento de biscoito de castanha em embalagens artesanais para presentear seus clientes no final deste ano. As embalagens são cestas e paneiros em cipó produzidas pela própria comunidade. Estas informações foram repassadas pelo Gerente de Marketing do PIETEC/IEPA – Antonio Carlos Lima Júnior e veiculadas nos meios de comunicação locais. Segundo Luiz Freitas, atual Presidente da COMARU, em entrevista concedida para a Agência Sebrae de Notícias, em maio de 2002 “teremos condições de abastecer o mercado interno e ainda exportar os nossos produtos, tanto para o mercado nacional como para o internacional”. Por fim, o modelo de produção adotado na RDS Iratapuru se distancia do mero extrativismo e se associa a alternativas econômicas e sociais que inibem a migração para os centros urbanos. O PDSA já reconhece a necessidade destas medidas, porém, com o modelo de reservas extrativistas, tais alternativas se constituíam como paliativas, ineficientes e dispendiosas para o Estado, além de virtualmente inutilizar as áreas da reserva para formas de exploração menos ‘limitadas’ que o extrativismo (Homma, 1989, 1995; Serrão, 1992). 7.5. SUSTENTABILIDADE AMBIENTAL PARA OS PRODUTOS FLORESTAIS NÃOMADEIREIROS Peters (1996) relaciona as seguintes questões para o correto planejamento do manejo dos produtos florestais não-madeireiros: a) Qual o impacto ecológico atual da exploração de quantidade comerciais de produtos não-madeireiros da floresta tropical? b) Algumas espécies ou recursos são mais resilientes à exploração contínua do que outros? A certificação consiste em garantir que a floresta não está sendo desmatada, que não utiliza agrotóxicos e fertilizantes e que não emprega mão de obra infantil. 83 76 c) O que pode ser feito para minimizar esses impactos? d) Que tipo de atividades de monitoramento, práticas de manejo e técnicas silviculturais podem ser utilizadas para assegurar que os recursos não sejam aniquilados? Estas questões não são comumente mencionadas, segundo o autor, por serem menos visíveis ao longo do tempo, mas evidentemente são pertinentes. Ele dá como exemplo a coleta comercial de frutos e sementes, que pode tornar problemático o recrutamento de novas mudas na floresta, como já vem ocorrendo com as castanheiras, prejudicando a sustentabilidade tanto ecológica, quanto da produção, a longo-prazo. Existe, portanto, a necessidade de se definir pouco a pouco as técnicas e os sistemas de manejo também para os produtos não-madeireiros. Portanto, considera cinco passos básicos para o manejo dos produtos não madeireiros: 1) Planejamento inicial: coleta de toda a informação básica e bibliográfica possível da área, como mapas, mapas de solo, dados climatológicos, tipologia preliminar florestal e outros levantamentos; 2) Inventários florestais detalhados: considerando distribuição, abundância dos diferentes recursos e tipologia florestal; 3) Seleção das espécies a serem manejadas: considerando fatores econômicos e sociais e potencial de manejo. Esta avaliação do potencial será baseada nas características do ciclo de vida da planta, tipos de recursos produzidos, abundância nas diferentes tipologias florestais e estrutura da população; 4) Rendimento do manejo: tem o objetivo de estimar a quantidade de recurso que pode ser produzida sob bases sustentáveis em um habitat particular. Neste caso, deverão ser selecionados amostras e métodos de análise adequados; 5) Definição final do método de manejo a ser utilizado: subseqüentemente às “aproximações”, ajustes e monitoramentos quando será definido o método de manejo mais correto dos produtos. 77 Por fim, considerando que se obtenha, por meio de pesquisas, um número considerável de normas de manejo e beneficiamento de produtos oriundos da floresta e de origem não-madeireira, muitos estudiosos recomendam como a metodologia adequada para o repasse destas informações aos extrativistas, ou seja, uma alternativa promissora, seria o desenvolvimento de modelos de manejo de uso múltiplo84 de acordo com as condições específicas de cada área extrativista, o que permite concluir que deveria haver uma política de incentivo específica para promover esse desenvolvimento, tendo como suporte o apoio de instituições de pesquisas, pois este desafio exige a necessidade de forte sistema e critérios de gerenciamento dos produtos. Hall (1972) define manejo de uso múltiplo como o manejo dos vários recursos da superfície das florestas (nacionais no caso dos Estados Unidos) de modo que elas sejam utilizadas em uma combinação que melhor atenda às necessidades das populações, fazendo o mais sensato uso da terra. 84 78 CAPÍTULO 8 – ARRANJOS E SISTEMAS PRODUTIVOS E INOVATIVOS LOCAIS: OS ESFORÇOS INTEGRATIVOS PARA A GERAÇÃO DE BIOINDÚSTRIAS COMPETITIVAS NA AMAZÔNIA Este capítulo tem por objetivo descrever a trajetória das empresas e cooperativas que industrializam produtos naturais da biodiversidade amazônica que fizeram parte do universo da pesquisa de campo efetuada pelo autor no desenvolvimento deste estudo. Elas contam com o apoio das incubadoras de empresas de bases tecnológicas e dos arranjos institucionais existentes na região, especificamente do Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial da Amazônia CIDE/AM, do Parque de Incubação de Empresas de Bases Tecnológicas da Universidade Federal do Pará - PIEBT/UFPA e do Programa de Incubação e Extensão Tecnológica do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá - PIETEC/IEPA85. Os dirigentes dessas instituições também foram entrevistados pelo autor e o conteúdo das entrevistas encontra-se distribuído ao longo desse capítulo86. A maioria dos analistas da evolução da economia moderna e da globalização afirma que a tecnologia, mais especificamente a inovação tecnológica, constitui o fator determinante para a competitividade e o desenvolvimento de nações, regiões e empresas, e a globalização é considerada o principal fator para o aumento da concorrência entre estes segmentos. Procurar-se-á discutir este posicionamento ao longo deste capítulo. A geração de competitividade e a inovação tecnológica estão, cada vez mais, baseadas no conhecimento e na organização do aprendizado, daí o papel central desempenhado pela capacitação tecnológica e pelo conhecimento para o aumento da competitividade das empresas (Cassiolato e Lastres, 2000). Portanto, a estratégia fundamental para ganhar competitividade está na capacidade de inovar. Segundo os mesmos autores, nos últimos anos já se alcançaram alguns consensos em torno do processo de inovação, dentre os quais: • A inovação constitui-se em processo de busca e aprendizado e, na medida em que depende de interações, é socialmente determinada e fortemente influenciada por formatos Tais incubadoras são os elos de ligação na relação universidade/centro de pesquisa – empreendedor, interagindo como um instrumento de transferência de tecnologia e consolidação de bioindústrias, sob a ótica da sustentabilidade socioambiental. 85 86 Srs. Manoel Montenegro – CIDE/AM; Sr. Gonzalo Enríquez – PIEBT/UFPA e Nilson Sgarbiero – PIETEC/IEPA. 79 institucionais e organizacionais específicos, tais como: diversidade regional, especificidades locais etc; • Nem todos os agentes ou atores da inovação tecnológica têm a mesma capacidade de transferir, incorporar ou apreender tecnologicamente, já que dependem de aprendizados anteriores, assim como da própria capacidade de esquecer e reaprender tecnologias; e • Existem importantes diferenças entre sistemas de inovação de países, regiões, organizações, em função de cada contexto social, político e institucional. As próprias diferenças regionais do Brasil são um exemplo. O processo de inovação tecnológica assume, todavia, características específicas, dependendo da região, do nível das instituições que o comportam e do próprio processo de articulação entre os atores da inovação que são as empresas, universidades, centros de pesquisas, órgãos de C&T da região, incubadoras de empresas, condomínios empresariais, parques tecnológicos, organizações nãogovernamentais etc. Para os sistemas nacionais de inovação, os atores econômicos, sociais e as relações entre eles determinam, em grande medida, a capacidade de aprendizado de um país ou região, assim como a experiência histórica e cultural, educacional etc. que poderão criar um ambiente favorável para o desenvolvimento de pequenas e microempresas e favorecer o desenvolvimento socioeconômico local. Os Arranjos e Sistemas Produtivos Locais – ASPLs referem-se a aglomerados de agentes econômicos, políticos e sociais, localizados em um mesmo território, que apresentam vínculos consistentes de articulação, interação, cooperação e aprendizagem. O Arranjo Produtivo Local, por sua vez, é utilizado para referenciar aquelas aglomerações, cuja articulação entre os agentes locais não é suficientemente desenvolvida para caracterizá-las como sistemas (RedeSist, 2002)87. Arranjos são, portanto, aglomerações de empresas de um mesmo setor em um mesmo território, que apresentam vínculos de articulação, interação, cooperação e aprendizagem entre si e com outros agentes locais tais como governo, entidades de classe, instituições de crédito, ensino e pesquisa. 87 Rede de Pesquisa em Sistema e Arranjos Produtivos e Inovativos Locais sob a coordenação da UFRJ. 80 Dessa forma, o processo de inovação é interativo e dependente dos atores envolvidos e da capacidade de apreender, gerar e absorver conhecimentos, bem como da articulação dos agentes e fontes de inovação e do nível de conhecimento alcançado no ambiente específico. A transferência para o setor produtivo de tecnologias geradas em centros de pesquisa, universidades, institutos e em outras empresas é de fundamental importância para o aumento da competitividade nas indústrias que buscam novos mercados e para a sua própria sobrevivência no mercado nacional e internacional. Assim, a transferência de tecnologia é a etapa da interação entre o desenvolvimento tecnológico de um novo produto à sua produção comercial, concebida sob a forma de inovação. 8.1. INCUBADORAS DE EMPRESAS: AGENTES DE INOVAÇÃO E DIFUSÃO TECNOLÓGICA Segundo Medeiros (1992), uma incubadora tecnológica é um núcleo que abriga, num espaço comum, empresas e cooperativas de base tecnológica, que têm no conhecimento o seu principal insumo de produção. A maioria das incubadoras está localizada junto às universidades ou aos institutos de pesquisas, para que possam ter acesso aos laboratórios, projetos e recursos humanos dessas instituições. É um espaço físico destinado a estimular o potencial empreendedor capaz de transformar idéias em negócios. As incubadoras oferecem serviços especializados, orientação, espaço físico e infra-estrutura técnica, administrativa e operacional. Autores como Furtado (1995) compreendem que incubadoras dentro do processo de geração de vantagens competitivas podem se transformar em locus de modernidade, a partir da consolidação de novos segmentos e engajamento dos atores diretamente envolvidos no processo de inserção de conhecimento na localidade. O fundamental no processo é o direcionamento para incorporar os novos paradigmas, decorrentes da mudança tecnológica e dos processos de produção integrados e flexíveis. Lalkaka e Shafer (1999) definem os Business Incubators (incubadoras de empresas) por meio de pólos que oferecem espaço físico, serviços de escritório e treinamento gerencial às empresas nos seus estágios iniciais de desenvolvimento. O número de incubadoras no mundo aumentou de cerca de 200 para 2.500 nos últimos dez anos. Algumas incubadoras são especializadas em determinado setor, como, por exemplo, biotecnologia e informática atuando na geração de programas de computador, porém a maioria delas abriga empresas de diferentes setores. 81 Nos Estados Unidos, de um total de apenas 12 programas de Business Incubators, em 1980, existiam 587 ao final de 1998. De acordo com o National Business Incubation Association – NBIA (1998), as incubadoras americanas foram responsáveis pela criação de 19 mil empresas que continuam em atividades e ofertam mais de 245 mil empregos. A NBIA (1999) salienta que cerca de 87% das empresas que preencheram os requisitos para se graduarem continuam em atividade. A maioria delas estava funcionando por pelo menos cinco anos. Cerca de 51% das incubadoras são patrocinadas por entidades não lucrativas públicas ou privadas; 27% são afiliadas a entidades de ensino; 16% são patrocinados, em conjunto, pelo governo, agências não lucrativas e setor privado; 8%, pelo setor privado com fins lucrativos (neste caso, o principal interesse são as recompensas por investir nas empresas inquilinas, obtenção de novas tecnologias e outras transferências de tecnologia); 5% são patrocinados por fontes, tais como, grupos religiosos, organizações culturais, câmaras de comércio etc. Em um estudo realizado em 50 incubadoras pela NBIA, cerca de 80% dos programas receberam alguma espécie de subsídio do governo (Lalkaka e Shafer, 1999). Os principais conglomerados de incubadoras aconteceram nos Estados Unidos, na década de cinqüenta, no Vale do Silício, na Califórnia. Aí foram constatadas as primeiras incubadoras de empresas, geralmente em parceria com as universidades e centros de pesquisa da região. A partir desses acontecimentos, que marcaram o surgimento dos mecanismos mais visíveis de colaboração Universidade/Indústria, os processos de incubação espalharam-se pelo mundo de forma quase permanente. Segundo dados da NBIA (Gráfico 8.1), em 1997 existiam nos Estados Unidos aproximadamente 550 incubadoras, a maioria delas de base tecnológica e quase sempre fortemente apoiada pelas universidades, centros de pesquisa e pelo próprio governo. 82 INCUBADORAS DE EM PRESAS NOS EUA 600 500 400 300 200 100 0 1980 1981 1983 1985 1987 1989 1991 1993 1995 1997 Fonte: NBIA - National Business Incubation Association Gráfico 8.1. Incubadoras de Empresas nos Estados Unidos – International Association of Science Parks - IASP Segundo Medeiros (1998) os modelos atuais de incubadora no Brasil são, em grande parte, inspirados no processo de formação de pequenas e microempresas que ocorreu, principalmente na década de 70, no Vale do Silício, na Califórnia (EUA). As primeiras incubadoras brasileiras implantaram-se nos anos 1988-89. Segundo dados da Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos de Tecnologias Avançadas - ANPROTEC88, existem no Brasil 135 incubadoras (dados de 2000) nas regiões Sul e Sudeste (Gráfico 8.2). INCUBADORAS NO BRASIL NORTE PA 05 AM 01 AP 01 NORDESTE AL 02 BA 07 CE 04 PB 02 RN 02 PE 02 TOTAL 19 TOTAL 07 CENTRO-OESTE DF 01 TOTAL 01 SUL PR 08 SC 07 RS 35 TOTAL 50 SUDESTE SP 36 MG 16 RJ 09 ES 01 TOTAL 62 Total Brasil - 135 Incubadoras Gráfico 8.2 - Distribuição das Incubadoras no Brasil - Anprotec (2000) 88 Pesquisa Anual da ANPROTEC executada em parceria com o SEBRAE (2000) 83 Os mesmos dados revelam que, no ano 2000, 59% das incubadoras eram de base tecnológica, 23% tradicionais e 18% incubadoras mistas. Segundo a ANPROTEC, as incubadoras tradicionais apresentaram um crescimento em relação às de base tecnológica. Em 1998 72% das incubadoras eram de base tecnológica e 18% tradicionais (Gráfico 8.3). ANÁLISE DE EVOLUÇÃO D AS INCUBADOR AS CLASSIFICAÇÃO DA INCUBADORA 59% 64% T e cno ló g ic a 72% 23 % 22% T ra d icio na l 18% 1 8% 1 997 1 999 14% M is ta 2 000 10% 0% 10 % 20% 30% 40% 50 % 60% 70 % 80% Gráfico 8.3 – Classificação das Incubadoras - Anprotec (2000) Para se ter uma idéia da importância atual do processo de incubação basta que se analisem os dados da Organização Mundial do Desenvolvimento Industrial – ONUDI, que estimam um faturamento global das empresas que foram ou estão incubadas em torno de US$ 24 bilhões, garantindo 270 mil empregos altamente especializados no ano 2000, apenas nos Estados Unidos. 8.1.2. Seleção dos empreendimentos e gestão das Incubadoras Para o ingresso em uma incubadora de base tecnológica, os empreendedores postulantes devem participar de um processo de seleção com normas previamente estabelecidas e, em muitos casos, por meio de um mecanismo de publicação de editais em jornais e revistas especializadas e, em outros casos, por chamada contínua de projetos. Esses mecanismos têm como propósito selecionar os melhores projetos identificados com as reais potencialidades da região ou localidade onde atuará a empresa e, também, selecionar empreendimentos que tenham capacidade para aumentar a interação da universidade e centros de pesquisa com o setor produtivo e contribuir com o desenvolvimento tecnológico do País. 84 Dados da ANPROTEC mostram que os critérios para a seleção dos empreendimentos procuram mostrar as reais possibilidades das empresas de conseguir sucesso no mercado, além de revelar qual a capacidade de inovar dos empreendedores. Por outro lado, também é importante o critério que identifica as potencialidades do empreendedor interagir com centros de pesquisa e universidades. Pela ordem de importância a pesquisa agrupou os seguintes critérios: 1) viabilidade econômica; 2) perfil dos empreendedores; 3) potencial interação com universidade e centros de pesquisa; 4) aplicação de novas tecnologias; 5) número de empregos criados; e 6) potencial para rápido crescimento. Os objetivos de uma incubadora encontram-se fortemente relacionados com a missão da própria incubadora que, em geral, no Brasil foram identificados como sendo os mais importantes: a) incentivo ao empreendedorismo; b) desenvolvimento econômico regional; c) desenvolvimento tecnológico; d) diversificação da economia regional; e) geração de empregos; e f) lucro para a incubadora. Segundo a pesquisa anual da ANPROTEC (2000) a maioria das pessoas que administra uma incubadora é de graduados ou pós-graduados: 49% possuem terceiro grau, 17% especialização em nível de pós-graduação e 16% são mestres e doutores. O restante dos funcionários conta com segundo grau (16%) e apenas 1% o primeiro grau. Em muitos casos são selecionados alunos bolsistas, financiados pelo CNPq, que fazem estágios nas empresas incubadas. Conforme o planejamento do tempo de incubação, as incubadoras são organizações que abrigam empreendimentos nascentes, geralmente até três anos de existência, oriundos de pesquisa científica, cujo projeto implica inovações. Tais organizações oferecem espaço, infra-estrutura compartilhada e serviços subsidiados que favorecem o desenvolvimento de empresas e de produtos ou processos de alto conteúdo científico-tecnológico. Para Puga (2000), no Brasil, bem como na maior parte dos países, as pequenas e microempresas respondem pela grande maioria das unidades produtivas que nascem anualmente. A criação de estabelecimentos é, em geral, uma dinâmica desejável, na medida em que permite a geração de novos empregos e de oportunidades para a mobilidade social, além de contribuir para redução do modelo industrial de grande indústria que impõe gargalos sociais, bem como para o aumento da competitividade e a eficiência econômica nas diversas regiões. 85 Estudos realizados pelo Sebrae Nacional, em 1998a, indicam que cerca de 80% das pequenas e microempresas que nascem no País vão à falência antes de completar dois anos de idade. Nestas condições, apenas 5% conseguem sobreviver ao 5º ano de atividade. Por outro lado, uma pesquisa do Sebrae Nacional (1998b) aponta que mais de 80% das empresas que são criadas sob as premissas de uma incubadora sobrevivem ao período de 5 anos, atingindo faturamento acima da média do segmento e superiores a US$ 200 mil anuais nos dois primeiros anos de atividade. Os indicadores de incubadoras indicam que 70% das empresas conseguem alcançar níveis de competitividade. Alguns dos fatores mais importantes para o fracasso empresarial prematuro das pequenas empresas, assentam-se na falta de visão empreendedora dos empresários, na falta de planejamento da preparação de um plano de negócios que identifique os fatores de sucesso do futuro empreendimento e principalmente na falta de inovação tecnológica em produtos e/ou processos dos produtos que são colocados no mercado. Nas incubadoras estes aspectos são constantemente trabalhados junto às empresas, de forma a se reverter essa situação. O capital de risco é outro elemento fundamental para que a parceria em incubadoras possa se desenvolver. Nas empresas de base tecnológica, como os riscos tendem a ser alto, o capital se torna, em geral, um dos pontos críticos (Meirelles, 2000). Uma parceria bem sucedida depende da disposição dos organismos envolvidos em dividir e cumprir as metas programadas. Não há um padrão de comportamento entre as organizações parceiras. O fato de a parceria envolver organizações tão diferentes constitui uma questão determinante na análise da experiência. A título de exemplo, podem ser citados: a Prefeitura, com seus diferentes níveis organizacionais e interesses políticos locais; o Estado, com interesse político mais abrangente, em termos regionais, temáticos, e processos decisórios mais complexos; e as entidades privadas, com processos decisórios simples e interesses políticos e econômicos específicos. Com base nas idéias expostas é possível inferir que para se garantir o sucesso das incubadoras, os governos devem formular políticas de apoio não apenas a elas, mas à formação educacional e ao desenvolvimento de pequenas e microempresas. As incubadoras têm um lugar específico num contexto de capacitação empreendedora e tecnológica, que resulta de diversas medidas políticas e por isso desempenham um papel complementar ao desenvolvimento sustentável. 86 O papel das incubadoras, como instrumento de política integradora, responde a um ambiente caracterizado por um amplo conjunto de programas de suporte às pequenas e microempresas. As incubadoras se propõem a assegurar um mecanismo de rápido diagnóstico e controle para gerar um decréscimo da taxa de falências das empresas residentes, o que fortalece o desenvolvimento regional. Assim, a estrutura de parceria tem exigido das universidades, dos centros tecnológicos de pesquisa, das agências de desenvolvimento e das empresas um esforço para ultrapassar as fronteiras tradicionais, desenvolvendo redes de comunicação que acabam por compatibilizar a pesquisa, o ensino, a capacidade empreendedora e o desenvolvimento econômico. 8.2. EXPERIÊNCIAS DE EMPRESAS BIODIVERSIDADE AMAZÔNICA INCUBADAS NO SEGMENTO DA Dados de 2001 demonstram que existem sete incubadoras já implantadas (Quadro 1) e oito em processo de implantação na Região Amazônica. Há dois anos atrás existia, apenas, uma incubadora no Estado do Pará. A região também já conta com a Rede Amazônica de Incubadoras RAMI, com representantes dos Estados do Acre, Amazonas, Amapá, Pará, Rondônia e Tocantins. Seguindo a tendência das outras incubadoras brasileiras, as incubadoras da Amazônia atuam nas áreas de software, informática, eletroeletrônica, telecomunicações, agroindústria, biotecnologia e, nos últimos três anos, em novos nichos representados pelas áreas de produtos naturais, cosméticos, óleos essenciais e naturais, corantes naturais, fitofármacos ou fitoterápicos, design e móveis. As parcerias estratégicas com Sebrae, FINEP, CNPq, CNI/IEL, Ministério da C&T, órgãos estaduais de C&T e entidades privadas de ações empreendedoras capacitadas para o desenvolvimento de tecnologias avançadas formam o substrato para se pensar num crescimento ainda maior desse movimento, nos próximos anos. 87 Quadro 8.1 – Incubadoras da Região Norte do Brasil NOME CIDADE ÁREA DE ATUAÇÃO CESUPA CIDE Belém-PA Manaus-AM PIETEC/IEPA Macapá-AP PIEBT/UFPA Belém-PA RITU/UEPA Belém-PA Informática Informática, cosméticos, química e produtos naturais Alimentos, cosméticos, óleos e produtos naturais Química fina, informática/ software, cosméticos, óleos essenciais, fitoterápicos e biotecnologia Tecnologia de alimentos e design RITU/UEPA UNAMA Santarém-PA Belém-PA Design de móveis Incubadora de Negócios ANO DE IMPLANTAÇAO 2000 NÚMERO DE EMPRESAS INCUBADAS 5 1999 10 1996 5 1995 10 2000 2001 2001 2 2 6 Fonte: RAMI, 2001. Com a implantação de novas incubadoras na região amazônica estão se abrindo novos nichos para produtos que, até então, eram pouco conhecidos e difundidos como produtos da amazônia brasileira. Constata-se que a pauta de exportações da região já elenca os seguintes produtos: cosméticos, perfumes, óleos naturais, chocolates com recheios de açaí, cupuaçu, castanha do Pará e flocos torrados, ou produtos de fronteira como são os óleos bifásicos, e óleos em pó de andiroba, destinados ao mercado internacional89, oriundos das empresas atualmente incubadas na Amazônia. Há pouco tempo estes produtos eram considerandos apenas potencialidades da Amazônia e poucos acreditavam que eles pudessem estar presentes em praticamente todos os aeroportos do Brasil ou em shoppings das principais cidades brasileiras, por intermédio das franquias implantadas por uma empresa incubada no PIEBT/UFPA. Estas incubadoras, como parte dos chamados arranjos e sistemas produtivos e inovativos locais, não teriam sido viáveis se não contassem com as entidades parceiras, aliadas a um intenso trabalho de articulação e difusão do movimento das incubadoras apoiadas pela ANPROTEC e SEBRAE. Além de gerar empregos e aumentar a distribuição da renda, as incubadoras geram um importante efeito demonstração de que é possível consolidar um novo perfil de produtos chamados não tradicionais. Apesar de ainda pouco expressivos na economia local, os produtos naturais mostram uma tendência crescente, processo que é similar ao da maioria dos países que contam com uma biodiversidade abundante, como é o caso do Brasil, em particular pelo potencial existente na 89 Duas empresas de uma Incubadora paraense já estão exportando para Estados Unidos, Europa e os mercados da Ásia, os produtos são: óleos naturais e insumos para as indústrias de cosméticos e produtos finais óleo em pó de andiroba e chocolates recheios. 88 Amazônia. Nesses países os produtos naturais já representam uma parcela importante das suas exportações e, no caso local, podem ser um diferencial para o desenvolvimento da região. Muito se discute sobre a importância das cadeias produtivas para atingir maior desenvolvimento e melhorar a competitividade das empresas, bem como conseguir maior retorno social (emprego e distribuição de renda). Nas incubadoras esse processo se dá desde a origem da empresa incubada e a geração de sua respectiva inovação, principalmente pelo valor agregado na inovação tecnológica que elas aportam. Como exemplo da idéia explicitada acima, verifica-se que os produtos extraídos da biodiversidade e produzidos nas incubadoras reúnem as condições de uma cadeia produtiva completa, que vai desde as comunidades onde são extraídas as matérias-primas até o consumidor final, no mercado nacional ou internacional - que utilizam óleos bifásicos ou óleos em pó de sementes naturais. Quando se fecha o círculo que viabiliza a geração de empregos e a distribuição da renda, e melhores condições de vida para a sociedade, agregando-se conhecimento científicos aos produtos, atesta-se o importante papel das incubadoras, ou seja: transferência de tecnologia. Empresas incubadas são capazes de gerar inovações em cada uma de suas etapas, já que a chave de uma cadeia produtiva – nessas condições – está no conhecimento tecnológico que possa ser incorporado aos produtos. Esse é, precisamente, um dos mais importantes papéis das incubadoras de empresas de base tecnológica. O movimento do empreendedorismo como proposta de desenvolvimento é uma realidade facilmente constada nos estados da região sul e sudeste do Brasil, superando nos resultados muitas das ações decorrentes das políticas de governo que são amplas porém dispersivas, pois os recursos aplicados, via de regra, resultam em custos, não se consolidando como benefícios permanentes, pois seu caráter é nitidamente de despesa e não de investimento, gerando em conseqüência avaliações essencialmente quantitativas sem perspectiva qualitativa que viabilize a continuidade do processo. Um exemplo é o dos programas de capacitação profissional que treina o indivíduo não o fixando na atividade produtiva, gerando grandes estatísticas de indivíduos treinados, todavia desempregados ou sem os meios de viabilizar de forma sistemática ações que os conduzam a implantar um empreendimento sustentável, daí a importância do processo de incubação de empresas. 89 Os dados e informações a respeito das empresas graduadas nas incubadoras de empresas, e que já se encontram competindo no mercado, confirmam que o processo de incubação é muito mais eficaz do que aqueles que prescindem de uma orientação sistematizada para consolidar-se no mercado. Segundo o relatório da ANPROTEC - Panorama 2000 “aproximadamente 70% das incubadoras apresentam taxas de mortalidade inferiores a 21%”. Os números são de extrema importância para a avaliação desse movimento, visto que eles devem ser discutidos e aprofundados em estudo específico por todas as instituições envolvidas nas ações de criação de novos empreendimentos. Em contrapartida, a pesquisa do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística - IBGE, divulgada em fevereiro de 2000, constatou que o surgimento de pequenas empresas (fora do movimento de incubação) entre 96 e 98 ajudou a elevar em 12% o número de empresas formalmente constituída no país. Regionalmente o impulso na abertura de empresas veio com mais força do Norte (25%) e do Nordeste (18,91%). O menor crescimento foi o do Sudeste (8,6%), onde já está mais da metade do número de empresas de todo o país, sendo 30% em São Paulo. Por área de atuação, a variação no número de empresas do setor serviços (21,71%) é bem mais representativa que nas demais áreas. De acordo com o instituto, a mortalidade das empresas tem girado em torno de 50% aproximadamente. Das novas empresas 99% tinham até 20 pessoas empregadas, o que comprova que pequenas empresas são as que mais surgem no país. O IBGE constatou, ainda, que apesar da redução no número de empregados da indústria – tendência dos anos 90 que começou a ser invertida no ano 2000 - o número de indústrias cresceu entre 96 e 98 (5,75%). Diante desse cenário, depreende-se que o Brasil, em especial a Amazônia, precisa renovar suas estratégias em relação às formas de geração de trabalho, emprego e renda. As fontes de apoio ao desenvolvimento começam a reconhecer o imenso potencial criativo e empreendedor instalado em nossas pequenas empresas, que sobrevivem com grandes dificuldades em face do contexto tributário e creditício brasileiro, que limitam suas ações empreendedoras e geralmente as conduz à insolvência. A estratégia inovadora é tornar grandes os pequenos, por meio de mecanismos de parceria, cooperação e alianças, transformando suas aparentes fragilidades em potenciais forças empreendedoras capazes de determinar resultados surpreendentes no segmento social e econômico dos países. É uma forma inteligente de canalizar e gerir recursos para um mesmo objetivo, evitando 90 dispersão de esforços tão comuns nas políticas de apoio ao desenvolvimento. Neste particular a literatura aponta exemplos de sucesso centrados em processos de parcerias90. Os processos de parcerias são múltiplos, dentre os quais pode-se mencionar o da criação de redes empresariais e de redes de incubadoras de empresas, que se encontram praticamente instaladas regionalmente em todo o Brasil. Para tipificar as ações estratégicas decorrentes das redes empresariais basta que se analisem as experiências ocorridas no norte da Itália, sobre o movimento iniciado na região de Emilia-Romagna91. Durante os anos 70 aquela região estava na 18a colocação em termos de renda entre as 21 regiões administrativas da Itália. Uma década depois, impulsionada pelo crescimento consciente de suas pequenas empresas, tornou-se a segunda região mais rica do país. Sua taxa de desemprego caiu efetivamente de 20% para zero ao longo do referido período. Certamente devemos reconhecer as diferenças culturais da Itália em relação ao Brasil, mas não podemos ignorar os exemplos. Daí a importância de o Brasil desenvolver um programa de empreendedorismo com responsabilidade social, pois só dessa forma se justifica o desenvolvimento econômico de um país. A questão que se coloca não é só de inteligência, mas fundamentalmente da ação para fazer acontecer. Não restam dúvidas que deve haver a necessária articulação entre o objetivo e os resultados do empreendimento, fazendo constar em todas as suas etapas ações de responsabilidade social, que projetem positivamente a imagem institucional das empresas. Acredita-se que investir na criação de redes de pequenos empreendimentos traz retorno seguro com a geração de postos de trabalho, aumento da renda e melhoria da qualidade de vida das pessoas. Portanto, estruturar e organizar pequenas empresas em alianças cooperativas por meio de parcerias cria sinergia econômica e social. Nesse sentido, o modelo de incubadoras de empresas apresenta o perfil adequado, pois se trata de um empreendimento em regime de condomínio com estrutura reduzida, baixo custo e ampla capacidade de alavancagem de novos negócios. Em razão dessas possibilidades é hora das forças decisórias da Amazônia – governo estadual, governos municipais, Federações de Indústrias, Entidades Empresariais, SEBRAE, IEL, associações e sindicatos, em conjunto com as Instituições de Ensino Superior e centros tecnológicos de pesquisas 90 Ver, entre outros (Lemos, C. e Palhano, A , 2000); (Villaschi, A e Santos, E., 2000) e (Urani, A; Cocco, G.; G., A P., 2002) . 91 Outros relatos sobre a Itália assinalaram a importância que teve, no passado, a atuação das grandes empresas na introdução e difusão de novas aptidões (Urani, A.; Cocco, G.; G., A. P. , 2002). 91 e desenvolvimento da região, definirem ações de cooperação e aprendizado integrando, definitivamente, os programas de empreendedorismo às políticas de governo. 8.2.1. Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica da Universidade Federal do Pará – PIEBT/UFPA A Universidade Federal do Pará - UFPA e a Fundação de Amparo e Desenvolvimento da Pesquisa – FADESP, em parceria com outras instituições de apoio à pesquisa e ao desenvolvimento regional, implantaram o Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica – PIEBT, em meados de 1995, atuando como um embrião do Programa de Parques Tecnológicos da Amazônia. O PIEBT é um programa da UFPA, gerenciado pela FADESP, que atua nas áreas de química de alimentos, produtos naturais (cosméticos, perfumes, óleos naturais, essências), fármacos e informática. Recentemente o Programa voltou-se para a implantação da área de biotecnologia. Atualmente, o PIEBT conta com quatro empresas incubadas no segmento da biodiversidade, conforme dados da pesquisa de campo empreendida pelo autor. Empresas Residentes92 1. Brasmazon Indústria e Produtos da Amazônia Ltda. A Brasmazon iniciou o sistema de incubação direta no PIEBT/UFPA no início de 2000. Conta com os seguintes produtos em sua linha de produção: velas repelentes de andiroba; óleos vegetais em bruto de maracujá, muru-muru, ucuúba, copaíba, cupuaçu, castanha-do-Brasil, e buriti; shampoos e condicionadores de andiroba; óleos para banho de andiroba, castanha-do-Brasil, maracujá e buriti; sabonetes de maracujá, copaíba, cupuaçu, andiroba, castanha-do-Brasil e buriti. A Brasmazon acaba de colocar no mercado93 um produto inovador na área de cosméticos. Integrando a linha Sementes Amazônicas, o óleo de andiroba em pó para banho é uma inovação tecnológica que a empresa desenvolveu com o apoio do PIEBT/UFPA (Gazeta Mercantil, 2001). A empresa, que vem trabalhando há seis anos basicamente com o fornecimento de matéria-prima para a indústria de cosméticos, deve entrar vigorosamente no comércio direto ao consumidor final. A Brasmazon tem toda sua matéria-prima coletada por 1,5 mil famílias de 156 comunidades ribeirinhas 92 93 Empresa instalada fisicamente na Incubadora, recebendo todos os benefícios oferecidos pela Incubadora. A Brasmazon vende tanto no mercado nacional, como no mercado internacional. 92 no Estado do Pará. O parque industrial da empresa fica no Distrito Industrial de Ananindeua e tem uma área de 3,2 mil metros quadrados, englobando 18 funcionários no processo produtivo. A linha Sementes Amazônicas é o primeiro produto da Brasmazon no mercado de cosméticos. Abrange produtos para massagem corporal e para banhos (sabonetes, óleos bifásicos, auto-emulsificantes e em pó). Além da andiroba, a empresa fornece a versão em pó dos óleos para banho a base de castanha-do-Brasil e buriti. Em entrevista concedida para o Jornal Gazeta Mercantil, em 2001, o presidente da Brasmazon, Max Yamaguchi, afirmou que “a fase é de testes de mercado, mas a expectativa é de que a linha dos produtos cosméticos corresponda a 40% de todo o faturamento da empresa até o final de 2002”. O escopo da empresa é direcionar toda a produção para a fabricação de produtos intermediários, que servem de matéria-prima para cosméticos da Natura e da francesa Yves Rocher. (”) 2. Gota de Mel Encontra-se sediada provisoriamente nas instalações do PIEBT/UFPA, onde iniciou o período de incubação em novembro de 1997. Concentra as suas vendas no mercado local (cerca de 30%), no mercado nacional (60%) e no mercado regional (10%), atuando nos Estados do Pará, Amapá, Amazonas, Tocantins, Maranhão, Bahia, São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Apresenta três linhas de produtos a base de mel: in natura, xarope e composto, este último associado à própolis, limão bravo, copaíba e andiroba. Esta empresa também produz mel com aroma de cupuaçu e sachet de mel in natura e composto. Para a Gota de Mel, desenvolvimento sustentável é “desenvolvimento colhendo a matéria-prima do ambiente, mas sem a degradação (nossa atividade é assim)”, conforme relato do seu proprietário na entrevista concedida durante a pesquisa empreendida por este autor. 3. D’Amazônia Chocolates Iniciou o período de incubação no PIEBT/UFPA em outubro de 1999, estando sediada provisoriamente nas suas instalações. Suas vendas concentram-se cerca de 90% no mercado nacional e 10% no mercado local. Já atua em escala industrial, ofertando produtos à base de chocolate ao leite ou branco, com recheio de frutas da Amazônia, como cupuaçu, açaí, castanha-do-Brasil, bacuri, maracujá e outros, sem a utilização de conservantes químicos, apresentadas em vinte embalagens diferenciadas. A partir de julho de 2002 pretende desenvolver com o apoio do PIEBT/UFPA geléias 93 diet e licores. A respeito da relação da empresa com o meio ambiente, o seu proprietário na entrevista concedida a este autor afirma que “considera muito boa relação, uma vez que utilizamos frutas da Amazônia, sem causar prejuízo à natureza e agregamos valor as nossas matérias-primas, sem causar danos ambientais”. 4. Extratos Vegetais Ativos Ltda. Sediada provisoriamente nas instalações do PIEBT/UFPA, onde iniciou o seu período de incubação em abril de 2001. Desenvolve atualmente os seguintes produtos com o apoio da incubadora: extrato de guaraná, corante de açaí, extrato de pau d´arco, óleos essenciais (pripioca) e extrato de jatobá, ainda está em fase de prospecção de mercado. Conforme expresso pelo seu proprietário na entrevista fornecida para o autor, a empresa entende por desenvolvimento sustentável “produção de bem de valor econômico, por longo período sem prejudicar o ambiente e valorizando o homem”. Empresa liberada (pós-incubada ou graduada)94 1. Fluídos da Amazônia A empresa ingressou no PIEBT em 1996, sendo a primeira empresa residente no Programa. A empresa responsável pelas marcas Chamma da Amazônia e Fluídos da Amazônia terminou o seu período de incubação e, desde meados de maio de 2001, encontra-se no mercado. Atualmente, a Fluídos da Amazônia é reconhecidamente uma das empresas que mais tem crescido na região Amazônica no setor de cosmética e perfumaria e tem conquistado mais consumidores, o que a qualifica como uma das experiências mais bem sucedidas de aproveitamento dos produtos naturais extraídos da floresta amazônica, como: sabonete glicerinado de andiroba, copaíba, erva-doce e patichuli; perfumes e deo-colônias; óleos de andiroba, castanha e copaíba; xampus e condicionadores de açaí, andiroba, castanha-do-Brasil, copaíba e cupuaçu; sachet de caroço do açaí; envelope de raízes e ervas; patichuli com cedro e raízes moídas; batons à base de mel e cera de carnaúba. Segundo o economista e especialista em franquias, José Carlos Shuwartz (Revista SEBRAE, 2002), “a Chamma é o único exemplo de empresa pequena que, ainda em desenvolvimento no laboratório de uma incubadora, conseguiu montar um sistema de franquia sólido e um crescimento surpreendente”. Empresa que tenha atendido ao requisito de graduação e que não usufrui mais dos serviços e benefícios enquanto incubada. 94 94 Em 1999 a Fluídos tinha apenas três lojas. Em 2000 esse número passou para 20 franquias distribuídas em cidades como Manaus, Teresina, Fortaleza, Brasília, Florianópolis, Salvador, Belo Horizonte, Recife, Rio de Janeiro, Belém (onde a empresa nasceu) e outras capitais, obtendo um faturamento em torno de 750 mil reais por mês. Todos os 160 funcionários são treinados para transmitir ao cliente um pouco da cultura da região amazônica e informações sobre as matériasprimas dos produtos (Revista SEBRAE, 2002). A Perfumaria Chamma da Amazônia está ciente de seu compromisso com a natureza e com as pessoas da região da qual faz parte. Baseada na filosofia de valorizar os produtos naturais da região, fato que se comprova quando a empresa começa a apostar na defesa do desenvolvimento sustentável, efetuando o manejo ambiental de árvores cujos insumos são utilizados nos seus processos produtivos95. A maioria das embalagens é feita de material reciclado, como sacos de juta, lascas de madeiras que se transformam em tampas para perfumes e caroço de açaí que viram cheirinho de roupa. 8.2..2. Centro de Incubação e Desenvolvimento Empresarial – CIDE/AM O CIDE foi constituído em 1999 como uma sociedade civil, sem fins lucrativos, de caráter técnico-científico, e congrega 15 instituições de ensino, pesquisa, fomento, suporte gerencial e tecnológico que compõem o seu Conselho de Administração e outros apoiadores, preocupados com o desenvolvimento sustentável da Amazônia. Com personalidade jurídica própria, tem por finalidade, por meio do mecanismo de incubação de empresas, promover o desenvolvimento e a transferência de tecnologias inovadoras que contribuam para o avanço tecnológico regional, com ênfase em biotecnologia, química fina, agroindústria, informática e outras áreas. Instalado numa área de 12.000 m2 do Distrito Industrial de Manaus, o CIDE abriga unidades onde funcionarão empresas que se propõem a desenvolver – em um determinado período – projetos, pesquisas e atividades que venham resultar em processos ou produtos de base tecnológica e com perspectivas de serem produzidos em escala industrial ampliada96 (Neto, 2001). 95 Preocupada com a preservação das espécies, a empresa planta uma árvore de andiroba, copaíba ou castanha-do-Brasil para cada 100 produtos vendidos (Revista SEBRAE, 2002). 96 O diretor do CIDE, Manoel Montenegro, prevê que o selo verde será o diferencial que abrirá mercados mundiais para o produto amazônico. A certificação a ser regulamentada em breve deverá funcionar como uma garantia similar à da série ISO-14000, de que toda a cadeia produtiva, desde a extração dos insumos até a disposição dos dejetos, foi realizada dentro de normas rigorosas de conservação do meio ambiente (Revista SEBRAE, 2002). 95 O CIDE tem como missão estimular a criação de empresas locais, inovadoras, de base tecnológica, promovendo a cultura do empreendedorismo e contribuindo para o desenvolvimento socioeconômico da região amazônica. Atualmente, as empresas incubadas no CIDE que atuam no segmento da biodiversidade são: a Phytofarma do Amazonas, a Pronatus do Amazonas e a Essencial – Arte em Perfumaria Ltda. . 1. S.A. Fármacos e Cosméticos Ltda. (Phytofarma do Amazonas) Iniciou o processo de incubação direta no CIDE no final de 2001, trazendo no seu portifólio fórmulas de 16 produtos e a proposta de desenvolver o 17º na incubadora. O seu capital inicial era de apenas R$ 12 mil, investido na preparação de um galpão de 125 m2 e na compra de alguns equipamentos oficinais. Atualmente a empresa já expandiu a sua produção para um galpão vizinho. Atualmente concentra as suas vendas no mercado local. Dentre os produtos desenvolvidos com o apoio do CIDE que estão disponíveis no mercado, encontram-se: bronzeador de urucum, condicionador de amor crescido, condicionador de jaborandi, gel redutor, loção anti-caspa, óvulos vaginais de copaíba, óvulos vaginais de crajirú, reumatgel, sabonete de crajirú, sabonete intimudermes, xampu de amor crescido, xampu de jaborandi, xarope de mangarataia com limão. Em relação às principais dificuldades para o funcionamento da empresa foram relatadas: o registro na Agência Nacional de Vigilância de Sanitária, recursos para a promoção dos produtos da empresa na mídia (marketing), dificuldades no acesso ao crédito para investir na melhoria da apresentação dos produtos (design) das embalagens, rótulos e equipamentos. O proprietário afirmou na entrevista ao autor que desenvolvimento sustentável significa a “utilização dos recursos naturais da floresta com controle florístico adequado e com manejo controla (coleta) oriunda sem depredação do ecossistema”. 2. Essencial – Arte em Perfumaria Ltda (Mysteres D’Amazonie) A Mysteres D’Amazonie iniciou em janeiro de 2001 o regime de incubação no CIDE. A empresa desenvolve produtos de perfumaria com essências naturais da Amazônia e usa embalagens artesanais feitas na região. Suas vendas, atualmente, se distribuem assim: 59% no mercado local, 40% no mercado internacional e apenas 1% no mercado regional. Os seguintes produtos desenvolvidos pela empresa, no CIDE, estão em comercialização: duas colônias, quatro aromatizadores de ambiente, shampoos, condicionador e emulsão para o corpo. As principais dificuldades para o funcionamento desta empresa são: mão-de-obra qualificada, registros e licenciamentos e acesso a crédito. 96 O conceito de desenvolvimento sustentável para o proprietário entrevistado é “aquele que se faz sem que o aproveitamento dos bens da natureza comprometa o equilíbrio ecológico e que resulte em distribuição de renda”. 3. Pronatus do Amazonas Indústria e Comércio de Produtos Fármaco Cosméticos Ltda. A Pronatus iniciou o período de incubação em maio de 2000 no CIDE. É uma das empresas incubadas mais bem estruturadas, ocupa um galpão de 500 m2, tem 40 funcionários, investiu R$ 250 mil em equipamentos e produz mensalmente cinco mil potes de cremes e dez mil frascos de shampoos, numa linha que tem 22 produtos, entre os quais se destacam: creme de mulateiro, sabonete de crajiru, shampoo de amor crescido, óleo de cupuaçu, shampoo anti-caspa, creme de crajiru, sabonete de crajiru, sabonete de andiroba e copaíba. Já tem uma estrutura de comercialização e sua venda está concentrada: 70% no mercado regional, 15% no mercado nacional e 15% no mercado internacional. Dentre as dificuldades encontradas para o seu funcionamento encontram-se: dificuldades em desenvolvimento e fornecimento de embalagens, registro dos produtos junto ao Ministério da Saúde e Ministério da Agricultura e acesso ao crédito. No tocante à sustentabilidade ambiental, segundo o proprietário entrevistado pelo autor “até mesmo por questão de marketing, escolhemos sempre fornecedores que se preocupem com o meio ambiente, inclusive orientamos os ribeirinhos”. 8.2.3. Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica do Estado do Amapá do Instituto de Pesquisas Científicas e Tecnológicas do Amapá – PIETEC/IEPA O Programa de Incubação de Empresas de Base Tecnológica do Estado do Amapá – PIETEC é uma ação do Governo do Estado do Amapá gerenciado pelo IEPA. A Incubadora de Empresas do IEPA foi instalada em 1996 no Laboratório de Tecnologia de Alimentos, dando suporte ao PDSA. O objetivo principal do trabalho de incubação é estimular a criação e a modernização de pequenas empresas e cooperativas de produção, capacitando-as a competir no mercado local, nacional e internacional. A Incubadora do IEPA atende, atualmente, quatro cooperativas de produção, em regime de incubação indireta e a uma empresa individual, em regime de incubação direta. Ao longo do ano de 2002, com a implementação da segunda fase do programa, a incubadora estará capacitada a atender duas incubações em regime de residência (incubação direta) e seis em regime de não-residência (incubação indireta ou associada). 97 Nessa etapa do programa, as primeiras cinco incubações foram a Cooperativa Mista Extrativista Vegetal dos Agricultores do Laranjal do Jari – COMAJA; a Cooperativa Mista dos Produtores e Extrativistas do Rio Iratapuru – COMARU; a Cooperativa de Produtores do Arquipélago do Bailique – COMPAB; a Cooperativa de Produtores de Açaí – COOPAÇAÍ; e a HOMEOFARMA. Com ações adequadas à política de preservação ambiental do Estado, estas cooperativas industrializam produtos naturais como a castanha-do-Brasil, biscoitos, azeite, mel de abelhas silvestres, óleo de copaíba e andiroba, polpa de açaí, camarão em salmoura, peixes e óleos vegetais, inspirando um modelo de desenvolvimento sustentável no Amapá, cujas experiências podem ser replicadas para outras regiões da Amazônia97. A farmácia de manipulação Homeopharma faz parte da empresa Farmacêutica Indústria e Comércio de Fitocosméticos Ltda., que produz sabonetes, shampoos, condicionadores, cremes, hidratantes, batons e protetores solar, fazendo uso de matérias-primas da biodiversidade da floresta amazônica como: óleos vegetais, fixos e essenciais, essências naturais, extratos e ativos isolados para a composição dos produtos. A empresa desenvolveu com o apoio do PIETEC a sua marca Nativa da Amazônia, as suas embalagens atuais, e a regularização dos documentos da empresa junto aos órgãos estaduais, municipais e federais. Os produtos Nativa da Amazônia estão sendo comercializados no Mercado dos Produtos da Floresta98 e na Homeopharma (loja que se transformará futuramente em rede de distribuição dos produtos). Segundo o Gerente do PIETEC – Sr. Nilson Sgarbiero99 , o PIETEC sofre a demanda política do Governo do Estado (principal financiador), em participar ativamente junto a todas as ações do setor produtivo. No entanto, ela não tem técnicos suficientes para o atendimento dessas demandas, ficando em segundo plano a incubação residente de base tecnológica. Nos últimos cinco anos o PIETEC desenvolveu uma série de ações na vertente de uma incubadora de cooperativas, instaladas em regiões muito distantes umas das outras, com uma série de problemas de gestão e de identidade com as atividades-fim e ainda com um número bastante limitado de técnicos especializados para fornecer assistência técnica a elas. Em virtude do PIETEC ser, oficialmente, uma gerência subordinada ao IEPA, as suas ações ficam um pouco prejudicadas, pois não dispõe de autonomia suficiente para buscar parcerias, A esse respeito, ver Revista ISTOÉ (Edição nº 1711, 12/07/2002). Central de comercialização das cooperativas de produção incubadas no PIETEC/IEPA. 99 Entrevista concedida em março/2002 ao mestrando Joselito Santos Abrantes 97 98 98 contratar uma equipe de consultores especializados, atuar na flexibilização administrativa e financeira, nem para captação de recursos externos. Apesar dessas dificuldades, segundo posicionamento assumido na entrevista ao autor por parte do Gerente Nilson Sgarbiero houve um considerável crescimento e importantes avanços na consolidação do sistema das cooperativas incubadas, tendo revelado que existe uma proposta de transformar o PIETEC em uma OSCIP – Organização Social Civil de Interesse Público, para facilitação do desenvolvimento de suas atividades. 99 CAPÍTULO 9 – CONCLUSÕES E RECOMENDAÇÕES O presente estudo permitiu confirmar grande parte das afirmações já difundidas sobre as verdadeiras potencialidades da Amazônia, que se apresenta como uma espécie de laboratório natural do mundo e uma opção inequívoca para negócios sustentáveis. O resgate histórico de sua ocupação socioeconômica permite vislumbrar que o uso da biodiversidade amazônica funcionou e continua a funcionar como variável fundamental nos processos econômicos aqui empreendidos, desde as drogas do sertão, nos séculos XVII e XVIII, até o presente, com o extrativismo madeireiro e os produtos florestais não-madeireiros. O que preocupa hoje as autoridades e os cientistas é que nesse longo período tal riqueza não tem sido direcionada para um desenvolvimento sustentável. Pelo contrário, tem sido base de um modelo concentrador e gerador de graves externalidades socioambientais100. Observa-se que ainda é muito pouco o que está sendo feito para alterar a matriz produtiva da Amazônia. Um aspecto a ressaltar diz respeito ao potencial representado pelo conjunto das imensas riquezas naturais da Amazônia a ser aproveitado, em razão da valorização que está sendo dada aos produtos da flora brasileira, muito em particular no exterior e, então, colocar em discussão o novo papel que deveria ter a SUFRAMA e a nova Agência de Desenvolvimento da Amazônia - ADA101 que substituiu a SUDAM para, em princípio, implementar uma nova política industrial para a região. Deve-se considerar em relação aos produtos da flora brasileira e isto vale, também, para o artesanato, o percentual de emprego que poderia estar sendo gerado em torno de novos negócios sustentáveis, em específico para a população de baixa renda ou o quanto de emprego poderia estar sendo gerado a partir não apenas do conceito, mas da efetiva aplicação do desperdício zero (upsizing), que apresenta fortes vínculos com formas de preservação do meio ambiente. Fica a questão: quantos produtos são sub-aproveitados ou por que são aproveitados apenas alguns sub-produtos entre um número considerável de opções que poderiam constituir-se em alternativas concretas para a geração de renda para essas populações? As dimensões da biodiversidade da Amazônia criam condições extremamente propícias para, a partir de uma política explícita de desenvolvimento local, determinar que recursos naturais explorar e como racionalizá-los, para o seu melhor aproveitamento, em favor da economia regional. Por outro lado, nem sempre a prosperidade e o bem-estar social de um determinado país ou região dependem da riqueza local de recursos naturais. Para aprofundamento dessa temática, ver Porter, 1990; e Drummond, 2001. 101 A ADA foi criada pela MP 2.145, de 02/05/2001, e instalada em 06/08/02. 100 100 Cabe destacar, no entanto, que a dinâmica pretendida com essa política deve também ser analisada sob o prisma da demand pull, aqui entendida como a atração exercida pelo mercado, num típico processo de inovação (inovação induzida pelo mercado)102. Assim, a dinamização do aproveitamento econômico dessas potencialidades da biodiversidade amazônica poderá impulsionar o surgimento de uma nova matriz econômica regional bem como fomentar alternativas que levem a Amazônia a conseguir melhores índices de crescimento no âmbito de uma política de desenvolvimento sustentável. Porém, vale ressaltar que nessa nova proposta de desenvolvimento, apesar do seu grande potencial biótico, problemas relevantes terão que ser equacionados por meio de políticas públicas coerentes e consistentes, em razão da sociodiversidade da região. Em busca do estabelecimento de um desenvolvimento sustentável para a Amazônia, as políticas públicas regionais deverão contemplar, conforme identificado no presente estudo e corroborado por diversos estudiosos ao indicarem103: 1) o estabelecimento de infra-estrutura científica e qualificação de pessoal, na região, para atender à demanda oriunda da pesquisa biotecnológica; 2) a obtenção de financiamento para criação das condições compatíveis com a dimensão das cadeias produtivas a serem instaladas; e 3) a regulamentação do acesso e proteção à biodiversidade amazônica, de forma a dar sustentação ao desenvolvimento da biotecnologia em escala industrial na Amazônia. Nesse sentido, o estudo permitiu constatar que a biodiversidade se apresenta como um fator estratégico para o desenvolvimento da Amazônia, em face da tendência crescente da demanda mundial por produtos naturais com alto valor agregado. Assim, o desenvolvimento do empreendedorismo e a incorporação de tecnologias adequadas aos processos produtivos desse segmento poderá viabilizar um salto na geração de riquezas locais, fazendo com que a região não mais se apresente apenas como uma fonte geográfica de fornecimento desses insumos. Ver entre outros Guimarães, 1997. Carvalho, 2000; Enriquez, 2001; Benchimol, 2001; Gilbert, 2000; Guimarães, 2001; Mendes, 2001; PROBEM/Amazônia, 1998. 102 103 101 Ao Estado cabe fomentar políticas de desenvolvimento científico e tecnológico de longo e médio alcance que façam uso efetivo da competência que as universidades e os centros de pesquisas devem manter e aperfeiçoar. Nesse aspecto, é imprescindível notar que o estabelecimento de metas de desenvolvimento científico e tecnológico requer a identificação de espaços, nichos e oportunidades que só são perceptíveis por pessoas que vivem o dia-a-dia da atividade de pesquisa e do desenvolvimento industrial, e que quase por definição não ocupam posição hierárquica para as decisões de política de ciência e tecnologia. Uma vez identificados os nichos, visto que estes são o verdadeiro objeto de uma estruturação que vincule de maneira efetiva recursos e competências, devese buscar garantir que a ação desenvolvida contemple todo o ciclo produtivo, da pesquisa e desenvolvimento tecnológico à comercialização, ciclo no qual inegavelmente há um papel relevante aos empreendedores, ou seja, aos investimentos privados. O potencial econômico da região amazônica é inestimável. Entre outros aspectos este potencial passa a ser medido em função dos inúmeros projetos de sucesso já implantados, e mesmo em fase de implantação, nos mais diversos segmentos empresariais. Para que o desenvolvimento da região seja realizado em harmonia com a conservação da sua biodiversidade e da cultura do seu povo, é necessário o investimento em estudos e pesquisas que busquem a expansão empresarial com responsabilidade social e sustentabilidade ambiental. O grande desafio é aproveitar a vocação regional na exploração sustentável dos recursos naturais, incorporando tecnologia e agregando valor aos produtos da biodiversidade, pois caso contrário se estará apenas reproduzindo o tradicional modelo extrativo-predador que leva à exaustão de recursos sem a contrapartida do desenvolvimento local e regional. No tocante ao crédito, observa-se que atualmente existe uma grande disponibilidade de recursos financeiros para investimentos na Amazônia. Só para citar um exemplo, o Fundo Constitucional do Norte - FNO, operado pelo Banco da Amazônia - BASA, dispõe de cerca de 600 milhões de reais anualmente para empreendimentos na região. Destes, cerca de 70% a 80% não são aplicados, em razão de o BASA ter aumentado o rigor na análise das dimensões ambiental e financeira para a seleção dos projetos financiáveis104. 104 A maior dificuldade para empreendedores da região é o acesso a esses recursos financeiros, que exigem a elaboração de um bom plano de negócios que contemple o retorno do investimento a longo prazo, pesquisas de mercado etc. Faltalhes capacidade de comprovar que sua idéia pode gerar lucros e benefícios para o órgão financiador e a sociedade em geral (Funbio, 1998) 102 Além do FNO, existem recursos, a fundo perdido, em fundações, no PPG7, em diversas ONGs nacionais e internacionais e mesmo em instituições federais como o MMA e o BNDES (FUNBIO, 1998). A diretora-geral da ADA, Teresa Cativo, anunciou ao tomar posse que a instituição tem para este ano, no seu orçamento, uma verba de R$ 440 milhões105 para investimentos no setor produtivo da Amazônia. Portanto, observa-se que a dificuldade de acesso ao crédito pelos empreendimentos amazônicos, principalmente aqueles promovidos por pequenos produtores, está relacionada à falta de capacidade gerencial para negócios. As cooperativas, os pequenos produtores individuais e os extrativistas necessitam urgentemente de capacitação para gerir negócios. Isso significa o aprendizado básico em: contabilidade; na área fiscal (pagamento correto de taxas e impostos); programação de reinvestimentos; distribuição eficientemente de dividendos, melhoria da qualidade do produto; e a busca de bons fornecedores e distribuidores.106 A pesquisa de campo efetivada pelo autor, além de outros aspectos a serem considerados em relação à produção regional e ao acesso aos mercados, demonstrou a necessidade de melhorias nas áreas de infra-estrutura, como energia, transporte e telecomunicações, principalmente nas comunidades ribeirinhas mais distantes dos grandes centros urbanos. As questões colocadas acima para discussão não excluem a necessidade de se encontrar soluções para muitos outros gargalos e podem impedir que se aprimore o modelo produtivo da Amazônia e, principalmente, para se fazer bom uso das grandes potencialidades de negócios que a região oferece. Há muitas outras limitações, como as diferenças culturais, o analfabetismo, a ausência de organização social, a capacidade empreendedora limitada e a falta de vontade política, que acabam por dificultar o desenvolvimento sustentável da região. Observa-se que compete às instituições do setor público e privado, em conjunto com a sociedade civil organizada, construir um arranjo institucional numa linha de atuação sustentável, que se estruture em redes de cooperação e aprendizado, de forma a se catalisar os esforços e os dispêndios em recursos financeiros e humanos, integrando-se programas e projetos afins. O Liberal, 26/07/2002, Belém-PA. Esses dados foram diagnosticados na pesquisa de campo empreendida por este autor, especialmente, quanto aos empreendimentos cooperativos analisados no Estado do Amapá. 105 106 103 Tal construção poderá explicitar uma identidade própria do sistema de produção que assegure um padrão de qualidade dos produtos, num modelo em que as pequenas e microempresas passem a ser o foco de convergências das ações demandadas no âmbito dos territórios em que estão instaladas. Por outro lado, estes arranjos devem centrar-se nas inovações tecnológicas seguindo a lógica de cooperar para competir, ou seja assegurar a competitividade sistêmica dos empreendimentos, rumo ao desenvolvimento local. Portanto, os pequenos produtores devem começar a agir como pequenas empresas e o empreendedorismo deve ser difundido na região com o objetivo de formar bons empreendedores, que possam explorar a marca ‘Amazônia’, em razão do forte apelo ao desenvolvimento sustentável que cada vez mais o nome da região passa a sugerir aos consumidores, tanto dos mercados local, regional e nacional, mas particularmente aqueles do mercado internacional. Neste contexto, o desafio para o Estado do Amapá é criar as políticas capazes de absorverem os efeitos e os avanços tecnológicos de certa maneira disponíveis, aliando-os à capacidade de empreender da população local na construção dos meios para o atendimento de tais mercados, em todas as suas dimensões. A adoção de políticas públicas adequadas a esse processo de desenvolvimento, que objetivem a transformação das vantagens comparativas locais em vantagens competitivas regionais/nacionais/globais, pode ser uma das alternativas para que o Estado com a ampliação e instalação de novos empreendimentos, em bases sustentáveis, possa gerar ocupação, emprego e renda para sua população. É verdade que nesta tarefa os próprios empreendedores têm sua parcela fundamental de co-responsabilidade, participando e influenciando positivamente nas decisões governamentais, mas segundo nosso ponto de vista sempre a partir de políticas explícitas e efetivamente indutoras do desenvolvimento local e, sempre que possível, duradouras. O estudo permitiu constatar também que a agregação de valor aos produtos naturais da Amazônia, por meio da inovação tecnológica em produtos e processos é uma alternativa viável para o desenvolvimento econômico, social e ambiental da região, em particular para o Estado do Amapá. A principal alternativa para superar o conjunto de entraves anteriormente citado é a capacitação de pequenas e microempresas107 de bases tecnológicas, com o apoio dos centros de pesquisa, das universidades, das entidades empresariais, do SEBRAE etc. 107 Segundo Sérgio Moreira, diretor-presidente do Sebrae Nacional “nos últimos sete anos, 96% dos empregos criados no Brasil foram gerados em pequenas empresas, com menos de cem empregados. Somente 4% foram criados na grande e média empresa. Essa é hoje a realidade em quase todos os países do mundo (Revista SEBRAE, 2002). 104 Esta é uma forma possível de introduzir conteúdos tecnológicos, design ambiental e marketing nos processos e produtos desse segmento produtivo, bem como abrir os canais de comercialização e fazer com que o produto alcance seu destino com menor tempo e custo, com regularidade, qualidade e preço competitivo. O estudo revelou o papel fundamental das incubadoras de empresas que, além de contribuírem para a criação e desenvolvimento tecnológico, formam e elevam a massa crítica de empreendedores. As incubadoras de empresas apresentam vínculos consistentes com o sistema produtivo local de inovação e difusão tecnológica. Elas atuam como mecanismos de interação e transferência de tecnologia das universidades e centros de pesquisa para o setor produtivo e constituem-se num ambiente especialmente planejado para acolher pequenas e microempresas nascentes e em operação, que buscam a modernização de suas atividades, de forma a transformar idéias em produtos, processos e serviços. A pesquisa realizada permitiu verificar que as incubadoras de empresas são um instrumento fundamental para o desenvolvimento de um arranjo produtivo local, agregando valor às cadeias produtivas de muitos produtos extraídos da biodiversidade e, dessa maneira gerar empregos, ocupação e renda nos diversos segmentos da economia regional, trazendo benefícios não apenas aos empreendedores capitalistas ou ao consumidor final no mercado nacional ou internacional, mas também e principalmente às comunidades tradicionais onde são extraídas as matérias-primas. Portanto, apesar de ser na área de políticas públicas que a sustentabilidade se reveste de um caráter de concretude, é exatamente nesta área que se encontra sua fragilidade em decorrência dos próprios pré-requisitos necessários à gestão ambiental: a) política científica e tecnológica objetiva e democraticamente definida; b) integração de ações; c) avaliação de impactos causados; d) descentralização de poder; e e) fundamentalmente, autonomia local, mesmo diante de uma economia global. 105 Em conclusão, é possível afirmar que as propostas em direção ao desenvolvimento sustentável, principalmente aquelas que impliquem na transformação da ordem mundial estabelecida, poderão vir a ser superadas na arena política, na qual se confrontam interesses distintos e conflitantes de grupos e países, em um mundo globalizado, no qual predomina a lógica da acumulação do capital, dos lucros crescentes, e todas as conseqüências daí resultantes. Propostas de desenvolvimento com as características de sustentabilidade ambiental descritas nesse estudo somente serão implementadas quando resultarem desse embate político, em que populações organizadas e conscientizadas vierem a conquistar, por meio da participação, o direito de gerir os rumos do seu próprio desenvolvimento. Finalizando, deve-se explicitar que este estudo não pretende esgotar o debate que vem sendo travado na literatura técnica e nos mais diversos eventos que tratam das controvérsias e utopias que perpassam o conceito de desenvolvimento sustentável. Por outro lado, o esforço aqui empreendido se soma aos desafios de se sair da retórica e viabilizar na prática esse conceito, que ainda se encontra em processo de construção por parte de milhares de comunidades espalhadas por todo o mundo. Nesses termos, o estudo une-se aos autores que defendem a linha dos bionegócios sustentáveis como uma alternativa de indução de um processo de desenvolvimento local, em um ambiente interinstitucional de cooperação e aprendizado capaz de transformar as vantagens comparativas da Amazônia em vantagens competitivas, contribuindo progressivamente para a sustentabilidade ambiental das riquezas e minimização dos níveis de pobreza ainda identificados nessa imensa e rica região. 106 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALLEGRETI, M. H. Reservas Extrativistas: parâmetros para uma política de desenvolvimento sustentável na Amazônia. In: ARNT, R. et al. (Org.). O Destino da Floresta. Rio de Janeiro: Relume Dumará, 1994. ALKAKA, R. Overall Planning of Minas Gerais Biotechnology Incubator. In: Report for Fundação Biominas, Belo Horizonte, 1990. AMAPÁ. Centro de Formação e Desenvolvimento de Recursos Humanos e Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento em Administração Pública. 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