BANCO DE DADOS EM PESQUISA QUALITATIVA
Laura Filomena Santos de Araújo1, Elen Petean2, Janderléia Valéria Dolina3, Cleciene dos
Anjos Musquim4, Roseney Bellato5
Entende-se por Banco de Dados (BD) uma coleção coerente de informações com um
determinado significado inerente, não sendo, portanto, um conjunto aleatório. Um BD é
projetado, construído e composto para um propósito específico, existindo um grupo de
usuários para o mesmo1. Objetivamos com este ensaio reflexivo expor sobre a organização e
uso de um Banco de dados em pesquisa qualitativa (BDPQ), elucidando seus limites e
potenciais nesse tipo de investigação. As reflexões aqui apresentadas são oriundas de nossa
experiência no Grupo de Pesquisa Enfermagem Saúde e Cidadania (GPESC) da Faculdade de
Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso, em torno de pesquisas de abordagem
compreensiva sobre experiências de adoecimento e cuidado de pessoas e suas famílias no
contexto do Sistema Único de Saúde. Para tanto, temos nos organizado em torno de grandes
pesquisas matriciais* com eixos temáticos comuns, das quais participam diversas células de
trabalho, cada qual com um docente orientador, um aluno de mestrado e alunos de iniciação
científica em estágios diferenciados da Graduação em Enfermagem. Essa organização coletiva
do trabalho tem nos possibilitado obter diversos olhares e apreensões, em diferentes graus de
complexidade e aprofundamento teórico-metodológico2. Além do olhar coletivo, utilizamos
diferentes estratégias metodológicas para o trabalho de recolha dos dados empíricos, o que
potencializa o trabalho de campo, de modo a enriquecer o conteúdo das informações obtidas.
A riqueza desse material é, portanto, inestimável, não sendo possível esgotarmos, em um
único estudo, suas inúmeras possibilidades de compreensão. Por vezes, inquietava-nos a
necessidade de fazermos “escolhas” e, em decorrência, a sensação de “desperdício” do
material empírico. Surgiu, então, a possibilidade de realizarmos estudos diversos com base em
uma mesma História de Vida (HV), a partir de novos olhares e perspectivas de compreensão,
na tentativa de aproveitar o máximo o que cada historia familiar de adoecimento e cuidado
tinha a oferecer. Para tanto, houve o armazenamento de dados e informações de forma
planejada, a possibilitar sua organização, adicionar novos dados ou consultá-los3. Idealizouse, desta forma, o BDPQ, relativo á cada pesquisa matricial, alimentado pelos seus integrantes
desde a primeira entrada em campo e mantido sob responsabilidade do coordenador da
pesquisa. Para nós, este banco é um acervo que contém uma coleção lógica de dados e
informações, cuja finalidade é organizar e manter os acervos dos elementos originados dos
nossos diversos estudos3. Ele contém, portanto, o acervo dos produtos gerados pela recolha de
informações no campo, realizada por diferentes membros do grupo, tais como narrativas de
sujeitos, observações, fotografias e filmagens, desenhos, descrições de imagem fílmica, etc.
Também dele constam os diversos produtos da pesquisa matricial, dentre eles, dissertações de
1
Doutora em Enfermagem, docente da Faculdade de Enfermagem da Universidade Federal de Mato Grosso
(FAEN/UFMT), líder do Grupo de Pesquisa Enfermagem Saúde e Cidadania (GPEC). End.: Cuiabá, Brasil. Av.
Fernando Corrêa da Costa, nº 2367 - Bairro Boa Esperança. Cuiabá – Mato Grosso - 78060-900. [email protected]. Telefone: 65 9621-1968.
2
Enfermeira, mestranda no PPGE da FAEN/UFMT, membro do GPESC.
3
Enfermeira, mestre pelo PPGE da FAEN/UFMT, membro do GPESC.
4
Enfermeira, mestre pelo PPGE da FAEN/UFMT, membro do GPESC.
5
Doutora em Enfermagem, docente da FAEN/UFMT, membro do GPESC.
* “Avaliação dos múltiplos custos em saúde na perspectiva dos itinerários terapêuticos de famílias e da produção
de cuidados em saúde em municípios de Mato Grosso”; e “A instituição jurídica como mediadora na efetivação
do direito pátrio em saúde: análise de itinerários terapêuticos de usuários/famílias no SUS/MT”.
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mestrado, relatórios de iniciação científica, resumos publicados em anais, artigos, capítulos de
livros e documentos éticos em pesquisa3. Os potenciais de uso do BDPQ advém da qualidade
do acervo construído e este, por sua vez, da concepção e condução da própria pesquisa em
termos de estratégias metodológicas e instrumentos utilizados. Dentre as estratégias, a HV
apresenta-se como uma abordagem privilegiada para compreender a vivência da situação
crônica, podendo abarcar a pessoa adoecida e os vários entes familiares; além disso, permitenos não ter um foco temático prévio, mas, sim, abranger a experiência da família de modo
aberto, utilizando um delineamento amplo que pode comportar diferentes planos de estudo, o
que também permite abertura para outras aproximações futuras, a partir do acervo construído.
Para a qualidade do acervo também concorre a sensibilidade e o registro minucioso de recolha
em trabalho de campo, bem como a análise que o acompanha e os desdobramentos que se
seguem - todos registrados no Diário da Pesquisa. Ainda, há a possibilidade de lançar mão
dos acervos físicos, ou materiais “brutos”, tais como fitas que contém as narrativas das
pessoas. O cuidado na constituição do acervo da pesquisa matricial permite a quem realiza a
(re)vista ao BDPQ, num momento futuro, mergulhar nas histórias das pessoas, evocar suas
diferentes “linguagens”, ou seja, falas, gestos e tons das narrativas, por meio de uma
transcrição cuidadosa dos encontros de entrevista; bem como, os elementos de contexto em
que vivem, em cenas e cenários obtidos do trabalho de observação de campo. Tal
aproximação do contexto em que se desenvolveu a recolha do material e, consequentemente,
das experiências familiares investigadas, confere a possibilidade de uma "vivência
secundária" do trabalho de campo. Outro potencial do uso do BDPQ, especialmente na
abordagem qualitativa, é a economia de tempo, pois, o que seria consumido para entrada,
permanência e saída do campo pode ser empregado na interpretação e compreensão do
material empírico, já coletado e organizado em seus diferentes acervos. Decorre, ainda, ser
possível abarcar, em profundidade, mais de uma HV, com peculiaridades diferentes, no curto
espaço de tempo atual para o desenvolvimento das pesquisas. Diversas histórias contêm
quantidade substancial de material empírico a ser analisado, o que potencializa o
aprofundamento de temas de estudo, maximizando os resultados da investigação. As
diferentes estratégias metodológicas em pesquisa e a qualidade dos acervos constituídos
permitem, de certa forma, o persquisador suplantar possíveis limitações advindas da ausência
de interação com os sujeitos do estudo; bem como, de não poder seguir certos fios narrativos
que considere importante aprofundar, uma vez que trabalha com dados de segunda mão, e não
com os sujeitos que narram suas histórias. No entanto, tais obstáculos não comprometem as
possibilidades de organizar um BDPQ e utilizá-lo explorando suas potencialidades,
empregando seus diferentes acervos. Diante o exposto, consideramos o uso do BDPQ uma
inovação, frente às possibilidades e potencialidades oferecidas por ele na pesquisa de
abordagem qualitativa, muito utilizada e valorizada no campo saúde e enfermagem.
Ressaltarmos, ainda, a pertinência deste ensaio, visto que não encontrarmos na literatura
estudos que retratassem a organização de um banco de dados qualitativo, sendo, portanto,
inédito seu uso, como o apresentado nessas reflexões.
Descritores: Pesquisa Qualitativa; Pesquisa em Enfermagem; Pesquisa Metodológica em
Enfermagem.
Eixo: O que e para que pesquisar: limites e possibilidades das linhas e grupos de pesquisa em
enfermagem
Área temática 11: Informação/comunicação em Saúde e Enfermagem
Referências:
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1. Camolesi Junior L. Sistemas de Banco de Dados: notas didáticas pós-graduação.
Universidade Metodista de Piracicaba, 2003.
2. Costa ALRC et al. O percurso na construção dos itinerários terapêuticos de
famílias e redes para o cuidado. In: Pinheiro R; Martins PH, (orgs). Avaliação em
saúde na perspectiva do usuário: abordagem multicêntrica. Rio de Janeiro: UFPE;
CEPESC/IMS-UERJ; Recife: UFPE, São Paulo: ABRASCO, 2009. p.195-202.
3. Musquim CA. Experiência de cuidado pelo homem na vivência familiar do
adoecimento crônico. 2012, 99f. Dissertação (Mestrado em Enfermagem) –
Faculdade de Enfermagem, Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá, 2013.
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