II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR A FOTOGRAFIA NO ROMANCE NOVE NOITES, DE BERNARDO CARVALHO Maria Siqueira Santos [email protected] 1 RESUMO: O texto apresentado é uma análise de uma fotografia reproduzida no livro Nove noites, de Bernardo Carvalho, publicado em 2002. O objetivo da análise é interpretar como a imagem fotográfica, enquanto produtora de discursos sobre realidades retratadas, afirma ou nega relações interpessoais estabelecidas entre as pessoas que nela figuram. Além disso, o texto aborda questões referentes à metaficção historiográfica, termo conceituado por Linda Hutcheon, no livro Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Esse debate se faz necessário uma vez que, ao narrar o passado, o autor do romance se apropria de documentos históricos para, ao mesmo tempo, legitimar sua história e mostrar a fragilidade da “autoridade e objetividade das fontes e das explicações históricas”. Palavras chaves: Metaficção historiográfica, história da antropologia, fotografia ABSTRACT: This text analyzes a photograpy that is reproduced in the novel Nine nights, of Bernardo Carvalho, published in 2002. The aim of the analysis is to interpreted how photography images, while producer of discourses about the reality, affirm or deny interpersonal relationships established between the persons that are figured. Beside, the text proposes the discussion about historiographic metafiction, term conceptualized by Linda Hutcheon, in the book A Poetics of postmodernism: history, theory fiction. This debate is necessary because, to narrate the past, the author of the novel uses some historiographic documents in order to legitimate his history and to show the fragility of “authority and objectivity of historical sources and explanations”. Keywords: Historiographic metafiction, history of anthropology, photography 1 Mestranda no curso de História Social da Universidade Estadual de Londrina. 1046 1152 II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR Fotografia tirada em 1939, no jardim do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. (Acervo da Seção de Arquivos do Museu Nacional/UFRJ, digitalizada do livro Nove noites, São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 27) Esta fotografia, produzida em 1939, tem como cenário o jardim do Museu Nacional, no Rio de Janeiro, e retrata um grupo de profissionais ligados a essa instituição. Como qualquer documento histórico, tal fotografia não é inócua, no entanto, deve ser lida e interpretada para ser utilizada como objeto de estudo da historiografia. Partindo do princípio exposto por Lucy Figueiredo em relação à análise fotográfica feita por Roland Barthes, “[...] toda leitura de uma obra é sempre uma releitura. A investigação em torno das imagens torna-se uma espécie de escavação, que traz à luz imagens esquecidas em livros científicos, vídeos, artigos de revistas e jornais que, resgatadas de sua natureza original e deslocadas para outro repertório, possibilitam o traslado desses significados e sua reintegração em outro sistema de codificação.” (FIGUEIREDO, 2007: p. 23). A fotografia em questão foi retirada do arquivo do Museu Nacional por Bernardo Carvalho e reproduzida em Nove noites (2002), livro que narra a história de Buell Quain, um antropólogo estadunidense que realizou um de seus trabalhos de campo no Brasil, entre os 1047 1153 II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR anos de 1938 e 1939. Ao fazer esse deslocamento da natureza original da imagem, a autor imprimiu na fonte uma transferência de significados que se integraram a outro sistema de codificação, no caso o de uma metaficção historiográfica. Qual é o sentido que essa fotografia adquire ao figurar em um texto literário? Aqui fica explícita a tentativa do autor em documentar sua história, em procurar a veracidade dos fatos narrados, inserindo em sua obra fontes e explicações históricas. Obviamente, a escolha dessa fotografia não foi ocasional. Primeiramente, todas as pessoas retratadas conheceram Buell Quain, além disso, assim como ele, desenvolviam estudos antropológicos no Brasil, elaborando, cada uma a sua maneira, explicações científicas a respeito de culturas existentes dentro das fronteiras territoriais do país. Nessa imagem estão retratados, da esquerda para a direita, Edson Carneiro, que estudou manifestações da cultura popular brasileira, produzindo importantes trabalhos sobre folclore nacional; Raimundo Lopes, antropólogo brasileiro que publicou trabalhos relacionados à antropogeografia; Charles Wagley, da Universidade de Columbia, que esteve no Brasil entre os anos de 1939 e 1942 e, nesse tempo, realizou pesquisas de campo junto aos tapinarés; Heloísa Alberto Torres, responsável pelo intercâmbio de antropólogos estrangeiros no Brasil, pela Divisão de Antropologia e Etnologia do Museu Nacional e pela vice-diretoria do Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e Científicas; Claude Lévi-Strauss, antropólogo francês que veio para o Brasil em 1935, para trabalhar na recém inaugurada Universidade de São Paulo e, em 1938, realizou uma expedição iniciada em Cuiabá, no Mato Grosso, e finalizada em Porto Velho, Rondônia; Ruth Landes, também da Universidade de Columbia, que veio estudar comunidades negras em Salvador e no Rio de Janeiro; e Luís de Castro Faria, funcionário do Museu Nacional que, em 1938, viajou com Lévi-Strauss à Serra do Norte a fim de fiscalizar à expedição do antropólogo. Castro Faria deu continuidade a sua carreira, produzindo trabalhos de referência para a antropologia brasileira. A ausência de Buell Quain nessa fotografia se deve ao fato de que, naquele momento, ele se encontrava entre os kraôs. A imagem analisada é um retrato fotográfico que fornece assuntos para a interpretação da memória coletiva ao retratar um determinado grupo de intelectuais que teve destacado papel na elaboração de teorias sobre aspectos culturais de diferentes grupos étnicos do Brasil. A linha de fuga, que faz referência ao foco, posicionamento e luminosidade da imagem, recai sobre Heloísa Alberto Torres, localizada exatamente no centro do grupo. Esse posicionamento denota o papel central que d. Heloísa exercia nas relações entre os antropólogos, o Museu Nacional, o Conselho de Fiscalização e o Serviço de Proteção ao Índio (SPI). De acordo com Castro Faria, em entrevista a Ângela de Castro Gomes e Gizlene Neder, d. Heloísa “tinha um 1048 1154 II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR certo pendor autoritário. Ela usou muito bem o prestígio que tinha, o nome, a posição intelectual, e teve realmente um grande poder naquele período.” (CASTRO FARIA apud GOMES: 1997, p. 178). Ela era responsável pelas pesquisas de campo e era considerada pelos próprios estrangeiros como alguém que poderia estabelecer alianças com eles, em caso de necessidade. É o que demonstra uma carta que Buell Quain enviou a Ruth Landes, em março de 1939. Nessa carta, ele diz: “[...] É claro que daria para você passar despercebida no Rio de Janeiro e dar andamento ao seu trabalho sem prestar contas a ninguém. Mas uma vez que dona Heloísa já a conhece, ela vai continuar curiosa em relação a você. E se você vier a ter mais problemas, ela pode ser útil. Ela realmente tem influência.” (Carvalho: 2006, p. 39) De fato, no final do mês de março, Landes enviou novo pedido de licença ao Conselho, pois afirmava que havia acabado sua pesquisa na Bahia e gostaria de continuá-la no Rio de Janeiro. Segundo Luís Donisete Benzi Grupioni, o pedido foi enviado a Heloísa Alberto Torres, que o aprovou. (GRUPIONI: 1998, p. 79) O posicionamento dos demais retratados na fotografia denota, de certa forma, a relação que se estabeleceu entre eles. Nas pontas, esquerda e direita, respectivamente, se encontram Edson Carneiro e Luís de Castro Faria, brasileiros, alunos diletos de d. Heloísa, que herdariam sua função na chefia do Museu e, por isso, deveriam ser capacitados pelos antropólogos estrangeiros. Charles Wagley e Lévi Strauss, que no futuro produziriam obras fundamentais para o pensamento antropológico, figuram ao lado de d. Heloísa, em uma perspectiva paralela. Esse posicionamento sugere que, já naquele momento, esses dois estudiosos se destacavam como professores e pesquisadores das culturas, pois, ao mesmo tempo em que estão subordinados à representante do Estado brasileiro no Museu Nacional, estabelecem com ela uma relação de igualdade no que se refere à produção de conhecimento científico. O romance Nove noites, de Bernardo Carvalho, narra a história de Buell Quain. Ele veio ao Brasil realizar uma pesquisa de campo junto aos índios karajás. No entanto, não chegou a viajar para a aldeia, pois decidiu realizar sua pesquisa com os trumais, indígenas isolados que estavam em vias de extinção. Nessa época, os trumais viviam na região do Alto Xingu, entre os rios Culuene e Coliseu, área de difícil acesso. Quain permaneceu na aldeia de agosto a novembro de 1938, quando recebeu uma intimação do SPI para que a deixasse imediatamente o local e retornasse ao Rio de Janeiro para regularizar seu pedido de licença. De acordo com Grupioni (1998, p. 94-102), a expedição de Quain para a aldeia trumai não havia sido aprovada 1049 1155 II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR pelo SPI, mesmo depois de Ruth Benedict e de Heloísa Alberto Torres terem intercedido a favor dele junto ao órgão. Mesmo assim, desobedecendo as regras do Estado brasileiro, Quain partiu pelo rio Coliseu e chegou à aldeia, permanecendo ali até receber a referida intimação. Durante o tempo que esteve entre os trumais, Quain recolheu informações e observou o cotidiano desses índios. Posteriormente, em 1955, Robert Francis Murphy, professor de antropologia cultural na Universidade de Columbia, Nova Iorque, analisou e estudou a pesquisa etnológica de Quain e publicou um livro intitulado The Trumai Indians of Central Brazil que, segundo Pierre Clastres, contribuiu para o entendimento de que “[...] As sociedades primitivas, tal como as sociedades ocidentais, sabem perfeitamente preservar a possibilidade da diferença na identidade, da alteridade no homogêneo; e nessa recusa do mecanismo pode-se ler o signo de sua criatividade.” (CLASTRES: 2003, p. 77-8) De volta ao Rio de Janeiro, Quain permaneceu na cidade desde agosto de 1938 a março de 1939, quando viajou para a aldeia Cabeceira Grossa, onde viviam os krahôs. Essa aldeia localizava-se próximo à cidade de Carolina, no estado do Maranhão. De março a agosto desse ano, Quain viveu na aldeia, retornando apenas algumas vezes para Carolina. Em dois de agosto de 1939, no entanto, o antropólogo, que estava acompanhado por dois índios contratados para guiá-lo até Carolina, suicidou-se. O romance de Bernardo Carvalho proporciona uma discussão atualizada do diálogo entre literatura e historiografia contemporâneas. Nove noites se enquadra na categoria de metaficção historiográfica, termo debatido por Linda Hutcheon em seu livro Poética do pósmodernismo: história, teoria e ficção, pois segue o “modelo da historiografia até o ponto em que é motivado e posto em funcionamento por uma noção de história como força modeladora (na narrativa e no gênero humano)”. (HUTCHEON: 1991, p. 151). Ou seja, uma metaficção historiográfica, assim como a historiografia, se utiliza de fatos históricos para dar sentido àquilo que é narrado, para explicar as atitudes humanas no tempo e no espaço. A autora vai além, e diferencia fato de acontecimento, afirmando que o acontecimento se torna um fato a partir do momento em que é imbuído de sentidos, que são dados tanto pelo historiador quanto pelo literato. “[...] O que a escrita pós-moderna da história e da literatura nos ensinou é que a ficção e a história são discursos, que ambas constituem sistemas de significação pelos quais damos sentido ao passado [...]. Em outras palavras, o sentido e a forma não estão nos acontecimentos, mas nos sistemas que transformam esses “acontecimentos” passados em “fatos” históricos 1050 1156 II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR presentes. Isso não é um “desonesto refúgio para escapar à verdade”, mas um reconhecimento da função de produção de sentido dos construtos humanos.” (HUTCHEON: 1991, p. 122) Em seu romance, Carvalho transforma os acontecimentos em fatos históricos a partir da manipulação de fontes históricas, que ele reproduz em sua obra. Ao longo do texto, há trechos de correspondências entre Buell Quain, Ruth Benedict e Margaret Mead, professoras do departamento de antropologia da Universidade de Columbia e orientadoras dos trabalhados etnológicos de Quain; Heloísa Alberto Torres; Ruth Landes; relatos de entrevistas feitas com Luís de Castro Faria e Mariza Corrêa, ambos professores de antropologia em universidades brasileiras; além de três fotografias, duas delas retratam Buell Quain e, a terceira, um grupo de profissionais ligados ao Museu Nacional (imagem reproduzida acima, que é objeto de análise desse texto). A análise dessa fotografia, localizada como documento em uma metaficção historiográfica, possibilita perceber “a autoridade e a objetividade das fontes e das explicações históricas”, ao mesmo tempo em que demonstra a fragilidade dessas fontes, já que elas podem ser utilizadas por um literato para dar status de verdade à sua narrativa. (HUTCHEON: 1991, p. 162). Além disso, afirma Maria Elza Linhares Borges que “Longe de ser um documento neutro, a fotografia cria novas formas de documentar a vida em sociedade. Mais que a palavra escrita, o desenho e a pintura, a pretensa objetividade da imagem fotográfica [...] não apenas informa o leitor — sobre datas, localização, nome de pessoas envolvidas nos acontecimento — sobre as transformações de tempo curto, como também cria verdades a partir de fantasias do imaginário [...].” (BORGES: 2008, p. 69) BIBLIOGRAFIA BORGES, Maria Eliza Linhares. História e fotografia. 2 ed. Belo Horizonte: Autêntica, 2008 (Coleção História &... Reflexões) CARVALHO, Bernardo. Nove noites. São Paulo: Companhia das Letras, 2006. CLASTRES, Pierre. A sociedade contra o Estado. Trad. Theo Santiago, São Paulo: Cosac & Naify, 2003. CORRÊA, Maiza. “Dona Heloísa e a pesquisa de campo”. In: Revista de Antropologia, vol 4, n. 1. São Paulo: USP, 1997, p. 11-54. Obtido em: http://www.scielo.br/pdf/ra/v40n1/3240.pdf. Acessado em 05/04/2009. 1157 1051 II Encontro Nacional de Estudos da Imagem Anais 12, 13 e 14 de maio de 2009 • Londrina-PR FIGUEIREDO, Lucy. Imagens polifônicas: corpo e fotografia. São Paulo: Annablume; FAPESP, 2007. GOMES, Ângela de Castro; NEDER, Gizlene. “Antropologia no Brasil: trajetória intelectual do professor Luís de Castro Faria”. In: Tempo, vol 2, n. 4. Rio de Janeiro: Universidade Federal Fluminense, 1997, p. 175-195. (Entrevista realizada em 6 de abril de 1997). Obtido em: http://www.historia.uff.br/tempo/entrevistas/entres4-1.PDF. Acessado em 05/04/2009. GRUPIONI, Luís Donisete Benzi. Coleções e expedições vigiadas: os etnólogos no Conselho de Fiscalização das Expedições Artísticas e científicas no Brasil. São Paulo: HUCITEC/ANPOCS, 1998. HUTCHEON, Linda. Poética do pós-modernismo: história, teoria e ficção. Trad. de Ricardo Cruz. Rio de Janeiro: Imago, 1991. LE GOFF, Jacques. “Documento/Monumento”. In: História e memória. 4 ed. Trad. Bernardo Leitão et al. 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