SOCIEDADE DE EDUCAÇÃO DO VALE DO IPOJUCA
FACULDADE DO VALE DO IPOJUCA - FAVIP
COORDENAÇÃO DE PSICOLOGIA
PATERNIDADE ADOTIVA: UM AFETO CON-SENTIDO
ELLEN FERNANDA GOMES DA SILVA
CARUARU/2011
ELLEN FERNANDA GOMES DA SILVA
PATERNIDADE ADOTIVA: UM AFETO CON-SENTIDO
Monografia apresentada ao Curso de Graduação em
Psicologia, da Faculdade do Vale do IpojucaFAVIP, como parte dos requisitos para a obtenção
do grau em Psicologia.
Orientadora: Ma. Suely Emilia de Barros Santos
CARUARU/PE, 2011
Catalogação na fonte Biblioteca da Faculdade do Vale do Ipojuca, Caruaru/PE
S729p
Silva,
Ellen
Fernanda
Gomes
da.
Paternidade adotiva: um afeto con-sentido / Ellen Fernanda
Gomes
da
Silva.
–
Caruaru:
FAVIP,
2011.
103 f.
Orientador(a) : Suely Emilia de Barros Santos.
Trabalho de Conclusão de Curso (Psicologia) -- Faculdade
do Vale do Ipojuca.
1. Adoção. 2. Família. 3. Gênero. 4. Paternidade. I. Título.
CDU
159.9[12.1]
Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário: Jadinilson Afonso CRB-4/1367
DEDICATÓRIA
Ao meu pai, pela filiação adotiva!
AGRADECIMENTOS
A Deus, pelo privilégio da filiação adotiva. Sou grata por sua paternidade incondicional,
cuidadora e afetuosa.
Ao meu Pai biológico e afetivo, o qual, em meio a seu silêncio verbal, me desejou, me
carregou nos braços e no coração. A ele, aplausos e honra pelos exemplos de vida, sua maior
herança.
À minha mãe, que me transportou do útero à adoção. Obrigada pelo carinho.
Aos meus familiares - irmãs, sobrinhos, tios, primos e avó - pessoas que compõem o palco
onde se desenrolam os mais significantes dramas da minha existência. Obrigada pelo apoio e
compreensão nos momentos de ausência.
Aos mais chegados, àqueles que dispensam formalidades: a Baby, Mércia, Relri, Cássia e
Rodrigo que ao meu lado sorriram sem moderação, choraram nas dificuldades e cantaram nos
dias de festa; que dobraram seus joelhos por mim, acreditaram, foram guarida e expressão de
amor.
Aos que não estão tão próximos, mas que, por muito tempo já estiveram e marcaram a minha
história.
A Suely pela relação construída ao longo de alguns anos. Obrigada por sua dedicada
supervisão, pela disponibilidade da adoção compartilhada deste projeto, assim como pelas
muitas construções e des-construções.
Aos narradores desta pesquisa, os quais, como uma clareira, desvelaram a experiência de ser
pai adotivo. Para mim, ouví-los se configurou em um momento de encontro emocionante e
construtor de sentidos.
À família GEAD pelo acolhimento e aprendizagem de que o afeto é o nutriente básico para os
relacionamentos.
A Luanda e Nelcito, pela amizade conquistada e cultivada ao longo de cinco anos do curso.
Sou grata pelo partilhar da fé, vocês foram promotores do meu crescimento.
A FAVIP pela colaboração com a minha formação. Aos mestres que fazem parte desta
Instituição, por lançar as luzes na caminhada da Psicologia, saibam que os ensinamentos por
vocês ofertados, serão eternizados. E aos colegas de curso, pela presença durante milhas e
milhas percorridas.
A todos que fazem a Vara da Infância e Juventude da comarca de Caruaru-PE, ambiente no
qual a prática psicológica foi possível nos meandros da adoção.
A Sr. Uziel, Humberto, Luana e Italo que, sem medidas, configuraram-se como rede de apoio
para realização desta pesquisa.
EPÍGRAFE
Os homens mais felizes do mundo estão longe dos holofotes, não
amealharam riquezas, nem frequentaram as altas rodas sociais, não
chegaram ao topo da notoriedade nem beberam todas as taças dos
prazeres. Os homens que fartaram a alma com os mais finos manjares
espirituais e alcançaram a mais encantadora das realizações são heróis
anônimos. São homens que não foram aplaudidos pelo mundo, mas
foram aprovados no recesso da família. Sua maior realização não é ser
grande aos olhos do mundo, mas ser honrado dentro do lar.
(Hernandes Dias Lopes)
RESUMO
Este trabalho objetiva compreender a experiência de ser pai adotivo. Ao percorrer os
meandros desta temática, foi possível verificar o expoente número de trabalhos acerca das
masculinidades e paternidades. Conquanto, esse crescimento não investe significativamente
na reflexão da paternidade adotiva. Deste modo, a escolha em realizar esta pesquisa,
articulando a paternidade e a adoção numa perspectiva fenomenológica existencial, apresentase como relevante para Psicologia, tanto quanto para outros saberes e sua significação na
contemporaneidade. No que se refere à compreensão de sentidos da presente
investigação/intervenção, recorremos à metodologia centrada na narrativa. Os depoimentos
foram colhidos via entrevistas com dois homens/pais adotivos que frequentam as reuniões do
Grupo de Estudo e Apoio à Adoção (GEAD), localizado na cidade de Recife-PE. A
interpretação/compreensão das narrativas foi realizada por meio da “Analítica do Sentido”.
Na composição de um mosaico de sentidos, a partir dos depoimentos dos sujeitos/narradores,
os novos arranjos familiares foram revelados enquanto desafios à lógica da primazia do
biológico sobre o social, tatuando, assim, a afetividade como marca para os relacionamentos
familiares. Tendo em vista a necessidade da problematização do fenômeno de ser pai adotivo,
esta pesquisa colabora para o exercício da paternidade como cuidado e desejo, bem como para
construção de Políticas Públicas relacionadas à adoção, em especial, às chamadas “adoções
necessárias”, as quais se referem às crianças maiores e adolescentes, bem como as que
possuem necessidades especiais.
Palavras-chave: Adoção; família; gênero; paternidade.
ABSTRACT
This study aims to understand the experience of being a foster parent. Going through the
intricacies of this issue, we found the exponent of the number of roles on masculinity and
fatherhood. Although this growth does not invest significantly in the reflection of adoptive
parenthood. Thus, the choice to conduct this research, paternity and adoption articulating an
existential phenomenological perspective, is presented as relevant to psychology, as well as
for other learning and its significance in contemporary society. With regard to the
understanding of meaning of this investigation/intervention, we use the methodology focused
on the narrative. Testimonials were conducted via interviews with two men/adoptive parents
who attend the meetings of the Study Group and Adoption Support (GSSA), located in the
city of Recife. The interpretation/understanding of the narratives was performed using the
"Analytic of Sense." In the composition of a mosaic of senses, from the testimony of subjects
/narrators, the new family arrangements were revealed as challenges to the logic of the
biological primacy over the social, tattooed, well, affection for the brand as family
relationships. Given the necessity of questioning the phenomenon of being adoptive father,
this research contributes to the exercise of parental care and desire as well as for construction
of public policies related to the adoption, in particular, the so-called “adoptions necessary”,
which refer for older children and teenagers, as well as those with special needs.
Key-words: Adoption; family; gender; paternity.
SUMÁRIO
1 APRESENTAÇÃO: A EXPERIÊNCIA NO PALCO REVELA A QUESTÃO .. 11
2 TRANSITANDO ENTRE GÊNERO, MASCULINIDADES E PATERNIDADES
.............. ...................................................................................................................... 17
2.1 As masculinidades numa perspectiva de gênero ............................................. 17
2.2 Novos tempos, novos pais? .............................................................................. 20
3 FAMÍLIAS: CENÁRIO PARA ADOÇÃO ........................................................... 27
3.1
Escolhas, laços, desafios: os arranjos familiares na contemporaneidade . 27
3.2
Adoção: um modo de ser família ................................................................ 32
4 MOVENDO-SE NO TERRITÓRIO DO AFETO CON-SENTIDO .................... 38
4.1 Escolhas e Procedimentos Metodológicos ....................................................... 38
4.2 A experiência de ser pai adotivo entre (vistas) ............................................... 42
4.2.1 Rui: conjugando afetos na adoção monoparental .....................................42
4.2.2 Davi: sentidos de ser pai consentidos diariamente ....................................66
5 TECENDO A PATERNIDADE ADOTIVA ......................................................... 84
REFERÊNCIAS ........................................................................................................ 93
11
1
APRESENTAÇÃO: A EXPERIÊNCIA NO PALCO REVELA A QUESTÃO
Dentre os diversos temas que perpassam a Psicologia, este Trabalho de Conclusão de
Curso (TCC), narra, acolhe e lança sua disponibilidade enquanto pesquisa sobre a paternidade
adotiva: uma questão complexa e inquietante, presente ao longo da História da Humanidade e
que se faz atual e crescente no contexto das produções científicas.
Na literatura em curso sobre a adoção, o foco, geralmente, está nas crianças ou no
casal adotante. O avanço da produção científica em torno do tema é explanado em muitas
produções acadêmicas, todavia, salientamos que o pai adotivo, especificamente, não tem
despertado interesses de estudos como está referenciado, logo abaixo, na relevância
acadêmica deste trabalho. Partindo dessa carência, esta pesquisa privilegia a vivência da
paternidade adotiva. Ao vislumbrar esse modo de paternidade deixo outros tantos, não
contemplando, por exemplo, a paternidade biológica e a paternidade de filhos concebidos por
reprodução assistida. Além disso, este olhar sobre o tema é um dentre tantos possíveis, se
configurando como um elo na produção do conhecimento.
Ao propor esta pesquisa, tem-se o humano enquanto foco, este é compreendido como
um ser em processo, com seus modos infindáveis, sendo transformado e transformando as
relações que estabelece com o outro no mundo. A partir de tal perspectiva é que encontrei, na
fenomenologia existencial, um modo de contemplar esse homem, longe das amarras impostas
pelo pensamento determinista, onde o mesmo é tão somente uma sucessão de fatos enredados
num nexo-causal desprovido de sentido existencial.
Dois grandes eixos de discussão nos chamam a atenção e serão condutores deste
trabalho, juntamente com as interrogações, incoerências e plasticidades que comportam: o
primeiro é a questão da paternidade – Quem quer ser pai, quem pode? Como é experienciar
este lugar? Qual o espaço do pai diante da permeabilidade das fronteiras familiares? O
segundo eixo diz respeito à adoção como uma via de acesso à paternidade – Quais são os
sentidos que levam um homem a adotar? Quais são os fantasmas e medos que rondam esta
temática?
Estas são questões que foram emudecidas por muito tempo e, pelos novos re-arranjos
sociais, culturais, econômicos e religiosos, as mesmas vêm transitando por outro lugar e sendo
alvo de cuidados e estudos na contemporaneidade. É significante marcar a dificuldade tida ao
12
analisar questões que perpassam a temática de família, o impasse, comumente, está vinculado
à proximidade que temos com tal realidade.
A partir de agora compartilho com o leitor um pouco da minha experiência no
momento em que a adoção se faz presente no palco das minhas vivências, me guiando a
escrita deste trabalho.
Ao longo do meu percurso acadêmico me identifiquei com várias temáticas. Dentre
elas, cito a velhice e a saúde mental. Com estas estudei, escrevi, questionei, me aproximei,
senti. No ano de 2009 participei do Projeto de Iniciação Científica (PIC): “Re-construindo o
ser masculino na convivência de abrigamento”, que me levou a olhar para as masculinidades,
bem como para as questões de gênero – experiência rica para mim – quantos
questionamentos, novos modos de pensar e estar nas relações, quebras de conservas culturais!
Em 2010 comecei a pesquisar sobre Paternidade, no Projeto “Ser pai adolescente em
situação de privação de liberdade”, que surgiu como desdobramento do PIC acima citado.
Paralelo a isso, como estagiária de Psicologia da Vara da Infância e Juventude da comarca de
Caruaru-PE, me deparei com uma demanda gritante de homens que desejam ser pais por
adoção, a maioria destes porque não conseguiram por meio da via biológica.
No meio do meu percurso acadêmico quando alguém questionava acerca da temática
do meu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC), dizia que seria em saúde mental, só não
sabia o tema específico. Estava envolvida com essa temática/realidade, estudando, fazendo
parte do projeto de Extensão Universitária “Fênix: um espaço para a produção de
subjetividade”, estagiando no Centro de Atenção Psicossocial (Caps). Com o término da
Extensão, fui me distanciando dessa realidade e me aproximando do estudo sobre
masculinidades.
Atualmente, estou vivendo outro momento: estudo paternidade no PIC, convivo,
rotineiramente, com o tema da adoção - questões que se cruzam e se encontram. E o que isso
tudo tem a ver comigo? Como se faz presente em minha vida? Primeiro, tenho um pai.
Segundo, o tema me provoca, gosto de ler e de escutar o que esses homens têm a dizer sobre
ser pai ou querer sê-lo.
Com relação ao meu pai... o considero um bom pai, ele é referência de homem para
mim, contudo gostaria que minha relação com ele fosse carregada de mais declarações de
afeto. Sim, ele o faz ao seu modo, contudo, sinto falta de um colinho, de uma conversa de
horas e horas.
Sobre a adoção, não tenho nenhum caso próximo no meu círculo de convivência. Vejo
a adoção como uma possibilidade de se estar em família, legitimando os laços afetivos – o que
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foge da norma que supervaloriza o biológico. Quem sabe eu não vise a adoção de um pai que
seja mais participativo afetivamente no processo de criação de seus filhos?
Esse tema tem raízes na minha história, ao voltar algumas folhas do meu “diário de
bordo”, recordo memórias enquanto filha, assim como me lembro de alguns casos, filmes,
desenhos e relatos em que a temática da adoção se fazia presente. A minha atenção recaía no
meu fascínio diante do “mistério” da adoção: quem abandonou, doou a criança? Por que
fizeram isso?
Rememoro que quando era criança sempre que meus caprichos não eram atendidos me
questionava se, de fato, pertencia a minha família. Fazia planos de fuga, comumente com um
questionamento: sou adotada (sou diferente dessas pessoas) ou desejo ser adotada (quero
conviver com outras pessoas, de preferência, melhores).
A adoção é um tema relegado até no meio profissional, repleto de estereótipos que
ainda estão arraigados na cultura e em nós. “Aquilo que não queriam” eu adotei, um ato que
demandou desejo, disponibilidade emocional, afetiva, psicológica. Considero que fiz uma boa
escolha, posso dizer que eu gostei e estou gostando de adotar essa causa. Ou será que fui
escolhida, adotada por ela?
Adotar um filho é uma oportunidade de tornar-se pai. Em atendimentos a homens
pretendentes à adoção vejo, na maioria das narrativas, que estes não se identificam apenas
como um mero provedor, ressaltando a quebra do modelo tradicional de paternidade. Este
posicionamento me chama a atenção e me inquieta no sentido de olhar para esse homem, suas
emoções, pensamentos, afetos; um homem que antes não era olhado nas relações parentais,
para mim passa a ter voz e ser foco de interesse de compreensão e pesquisa.
A adoção também se inscreve em mim enquanto filha de Deus, aquEle que me adotou
por amor, através do Seu filho Jesus. Assim, vivenciando a paternidade enquanto filha,
estudante e pesquisadora, posso afirmar que esta escolha está ligada a minha experiência
pessoal (meu pai faz parte da minha vida, é co-participante na minha história, desempenhando
um papel importante), bem como a relevância deste para o social e o meio acadêmico. Quero
olhar a paternidade em sua plasticidade, longe de um modelo único e ideal de ser pai e
compreender a experiência de ser homem, pai adotivo. O sentido é a direção para esse
trabalho chegar e tocar, primeiramente, a mim mesma, acreditando ser possível vivenciar a
paternidade de diversas formas e uma delas se apresenta clara e relevante – a paternidade
adotiva, para mim, afetiva.
Ao abrir das cortinas, me vejo no palco vivenciando o lugar de narradora dessa
experiência. Nesse espetáculo atuam, num encontro dialógico, eu, enquanto pesquisadora, os
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homens-pais adotivos, como sujeitos da pesquisa e você leitor, tomando as múltiplas formas
de ser platéia. Como co-participantes, somos atores dessa história. Desta feita, a condição de
narrar, por si, convida a co-participação, não sendo, portanto, um simples emaranhado de
palavras. Enquanto narro estou revelando sentidos, me afetando e me aproximando de você.
Sabendo disso, escolhi a narrativa como via de acesso a experiência de ser homem-pai
adotivo. Nesta, podemos perceber a dança do plural e do singular, do lembrado e do
esquecido, do familiar e do estranho.
Para tanto, chamei ao palco alguns autores que estiveram presentes na minha história,
outros também, que conheci e me identifiquei na caminhada acadêmica. Com estes, a fim de
clarear a questão provocadora, pude ler, questionar, ouvir e dizer. Os pensamentos, reflexões
e indagações dos mesmos me levaram a uma aproximação e conversação reflexiva acerca da
paternidade adotiva.
Tendo em vista que uma pesquisa norteada fenomenologicamente parte de uma
questão que explore sentido para o fenômeno do humano, apresento a vocês a minha
provocação: Como é a experiência de ser pai adotivo? Assim sendo, com esta investig-ação,
objetivou-se compreender a experiência de ser pai adotivo. Para tanto, buscou-se conhecer os
possíveis modos de ser pai adotivo, à luz da perspectiva fenomenológica existencial;
problematizou-se o lugar do homem no exercício da paternidade, atrelado as questões de
gênero; promoveu-se uma discussão teórica acerca da adoção; analisou-se as narrativas numa
perspectiva fenomenológica existencial e, por fim, articulou-se os depoimentos a partir de
conhecimentos prévios encontrados.
Um grande e significativo participante desta pesquisa foi o Grupo de Estudo e Apoio à
Adoção de Recife- GEAD. Ao me tornar uma “geadiana”, vesti, literalmente, a camisa cujo
tema é adoção como atitude. Nas reuniões do GEAD pude visualizar de perto a possibilidade
de êxito das adoções. A partir dos debates acerca da adoção e de temas que o atravessam, bem
como de troca de ideias e experiências, o grupo se configura enquanto rede de apoio, a fim de
assistir pais e filhos adotivos, pretendentes à adoção e interessados na temática. Sinto-me
privilegiada pela oportunidade de estar no GEAD, principalmente com relação à mudança de
mentalidade no que se refere à adoção como um modo possível de ser família.
Por falar em nova cultura de adoção, exponho aqui, com sorrisos no rosto, a inserção
da adoção no discurso das pessoas que me rodeiam. Como diria o Mestre Jesus, da
abundância do seu coração fala a boca, a partir do momento que a adoção me afetou, comecei
a falar sobre a mesma e os meus amigos e familiares atentaram para ela. Com isso, o que era
um assunto distante e não cogitado, hoje circula entre nós. Interessante também a ligação que
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fazem da adoção comigo, quando os mesmos vêem um livro, um programa televisivo que
abarque o tema prontamente os associam a mim, a minha pesquisa. Creio que tal repercussão
patenteia o grande valor social deste trabalho.
A adoção e construção de um projeto social apontam uma direção para essa pesquisa.
Objetivo, portanto, sair do setting psicoterapêutico e me voltar para o social. Neste contexto
onde a intervenção psicossocial tem crescido, embora durante um tempo, a Psicologia tenha
ocultado em seu discurso o plano social, no qual é imprescindível incluirmos o mundo
cultural na produção e na compreensão do mundo psicológico.
Desse modo, o tema dessa pesquisa se reveste de relevância social. Essa observação
vem a propósito de que no imaginário social o filho adotivo era e, ainda é visto como um
forasteiro em uma cultura que os laços consanguíneos são a norma. Em virtude das reconfigurações familiares, bem como das metamorfoses sociais, culturais e jurídicas, as
famílias adotivas vêm saindo da clandestinidade e ganhando o seu espaço enquanto modo de
ser família. Semelhantemente, o lugar do pai no contexto familiar também era forasteiro, com
a convicção do amor materno que legitimava os cuidados da prole à mãe, cabia a este o papel
de provedor do lar.
Advém dessa inclusão precária no meio social, a necessidade do fenômeno de ser pai
adotivo estar sendo problematizado. Logo, tornam-se importantes investigações que dêem voz
a esses pais, que apreendam sua experiência de adoção. É compromissado com o social que
este trabalho também se faz, pretendendo servir aos pais adotivos, filhos adotantes, mães
doadoras, aos pretendentes à adoção, aos interessados pelo tema. O mesmo também pode ser
utilizado como recurso para profissionais do judiciário que lidam, rotineiramente, com a
adoção e a paternidade. Bem como à elaboração de programas e projetos de políticas públicas
voltados para homens e seus direitos sexuais e reprodutivos, além de lançar um olhar para
situação de crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade social.
Narradas as considerações iniciais, apresento a relevância acadêmica deste estudo,
tendo em vista que o cenário da paternidade adotiva se apresenta como rico, devido sua
complexidade e presença na atualidade. Tomando como partida a visitação em sites como
Google Acadêmico, Portal de teses e dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de
Pessoal de Nível Superior (CAPES), levantamento deste último realizado entre os anos de
1987 a 2009, e a Base de Artigos Científico do Scientif Eletronic Library Online (SciELO),
foi identificado uma escassez de produções científicas que articulem o tema da paternidade
com a adoção, este trabalho justifica-se como relevante para a Psicologia e outros saberes. Ao
fazer pesquisas sobre a adoção, notamos que a literatura concentra-se na criança adotiva,
16
deixando à margem a compreensão dos pais adotivos. Com relação à paternidade, assim como
às masculinidades de um modo geral, esse tema foi pouco explorado pela Psicologia, se
comparado com a infância e a relação mãe-filho. Diante disso, com uma preocupação teórica
e política, a interlocução e construção de conhecimentos sobre homens, masculinidades e
paternidade adotiva revestem-se de estima na atualidade.
Por fim, faz-se significante pensar como uma pesquisa se configurou como necessária
para que eu doasse mais atenção e cuidado para a relação pai-filha que experiencio. O tema
deste trabalho habita em mim, com aproximações e distanciamentos da paternidade adotiva
existentes na minha história. É tomando primeiramente a minha experiência enquanto filha
que me aproximo da questão e me lanço na compreensão da experiência da paternidade
adotiva. Estes escritos apontam para um modo diferente de ver a paternidade e, sobretudo de
vivenciá-la, desejando que esta seja adotiva, atravessada pela expressão do afeto, do cuidado.
17
2 TRANSITANDO ENTRE GÊNERO, MASCULINIDADES E PATERNIDADES
2.1 As masculinidades numa perspectiva de gênero
Vigora no meio social a visão de uma masculinidade hegemônica, - branca,
heterossexual, dominante - auto-explicativa e universal (MEDRADO, 1997; NOLASCO,
1993). Esse padrão nos reporta a explicações biológicas e naturalistas de que o sexo
masculino é dotado de atributos universais e imutáveis como a virilidade, a força e o poder.
Sendo o homem esse ser tão “vertical”, caberia a mulher o posto de sexo frágil, doce,
submisso e conformado com esta condição natural.
Desde a gênese da humanidade, essa dicotomia, fez-se presente e visível, quando o
homem foi reconhecido na família como provedor material, tendo na caça e na pesca um meio
de sobrevivência, enquanto a mulher jazia em casa, com a obrigação de afazeres domésticos, e
a função cuidadora e educadora da prole. Corroboramos com a seguinte afirmativa:
Existe uma narrativa convencional sobre como as masculinidades são construídas.
Nessa narrativa, toda cultura tem uma definição da conduta e dos sentimentos
apropriados para os homens. Os rapazes são pressionados a agir e a sentir dessa
forma e a se distanciar do comportamento das mulheres, das garotas e das
feminilidades, compreendidas como o oposto. A pressão em favor da conformidade
vem das famílias, das escolas, dos grupos de colegas, da mídia e, finalmente, dos
empregadores (CONNEL, 1995, p. 189-190).
É na infância que a criança aprende que, culturalmente, existe coisa de menina e coisa
de menino. Sobre isso, Louro (2003, p.22, aspas da autora) comenta: “gostar de futebol, jogar
[bem], assistir aos jogos e falar de futebol são práticas que se impõem aos garotos desde
muito cedo, como uma espécie de “interesse masculino „obrigatório‟”. Estas separações põem
em destaque a fragmentação das identidades de gênero e a necessidade de:
ver não apenas diferenças entre os sexos, mas também a maneira como estas
trabalham para reprimir diferenças dentro dos grupos de gênero. A semelhança
(sameness) construída em cada lado da oposição binária esconde o múltiplo jogo de
diferenças e mantém sua irrelevância e invisibilidade (SCOTT, 1995, p. 46).
Em sua pesquisa sobre o exercício da paternidade nos dias atuais, Ramires (1997),
respaldada pelos estudos de gênero, levanta a ideia de que a educação sexista é a responsável
pelo fato da maternagem ser competência designada à mulher. Diante de tal constatação, a
18
autora propõe que sendo os cuidados infantis compartilhados por pai e mãe desde a tenra
idade, é possível a formação de modos relacionais não hierárquicos. Pensando mais adiante,
Ramires (1997) é porta-voz de que, para intervir nesse cenário onde, diante do monopólio
materno cabe ao pai uma parcela “insignificante” no processo de criação dos filhos, há
necessidade de mudanças nas organizações sociais, políticas, econômicas e, o que considera
indissociável, nas mentalidades.
Ainda com relação a essa separação dos mundos femininos e masculinos, é preciso
apreender, como afirma Butler (2003, p. 161), que a “nomeação é, ao mesmo tempo, o
estabelecimento de uma fronteira e também a inculcação repetida de uma norma”. A despeito
disto, Lyra (2004) ressalta que em nossa sociedade as tarefas associadas ao cuidado infantil
são comumente atribuídas às mulheres, “aparecendo quase como uma condição natural de ser
mulher” (LYRA, 2004, p.91). Raras vezes os homens são questionados acerca de desejos,
direitos e compromissos relativos ao exercício da paternidade.
Para o homem, a cobrança refere-se, sobretudo ao plano financeiro e econômico. Ele
deve „assumir‟ a paternidade e o lar, ou em outras palavras, „não deve deixar faltar
nada em casa‟. A mãe cuida, o pai sustenta. Assim, mesmo quando um pai quer
assumir um papel ativo no cuidado do seu filho, as instituições sociais tentam
recusar-lhe essa possibilidade (LYRA, 2004, p.92, aspas do autor).
Essa leitura estruturada, fixa, universal e dada como natural, desqualifica os
comportamentos masculinos e femininos que não se adaptam a este princípio. Ou seja, ser
homem e não ser “caba macho”1 é incompreensível, “desviante”; assim como ser mulher e
não demonstrar fragilidade e doçura é, no mínimo, estranho. A norma absoluta implica na
marginalização e dominação das outras formas de viver as masculinidades. Assim, homens e
mulheres são alocados, ou, em alguns casos, se deixam colocar, impotentes e incapazes de
resistir, interferir para a mudança. Para assegurar tais argumentos, Connel (1995, p.197)
comenta:
Os homens gays se tornam alvos sistemáticos do preconceito e da violência.
Homens afeminados e débeis são constantemente humilhados. Os homens negros,
nos Estados Unidos (como na África do Sul) sofrem, massivamente, de níveis mais
altos de violência letal do que os homens brancos.
Modelos como esses são questionáveis - a masculinidade, assim como a feminilidade
não são objetivas, mas construídas em uma teia de relações sociais, políticas, econômicas e
culturais e só podem ser compreendidas no espaço em que emergem, com os significados
próprios de ser homem e mulher de cada sociedade (LOURO, 2004).
1
Termo regional ligado a cultura machista na qual o homem é visto como forte, provedor.
19
Em uma pesquisa acerca das identidades masculinas, Barbosa, Bonomo e Trindade
(2008), realizaram um estudo com quinze homens residentes no estado do Espírito Santo;
estes foram identificados pelo seu grupo de relação em três categorias: homens tradicionais,
homens metrossexuais e homens homossexuais.
Além das peculiaridades vividas, os resultados mostraram aspectos em comum entre
cada categoria. O primeiro destes foi o conflito entre o modelo hegemônico, prescrito de ser
homem (atrelado a valores morais de responsabilidade e honestidade, por exemplo) e as
práticas masculinas efetivamente vividas. O segundo aspecto mostra a feminização como
contraste de construção identitária masculina. Como movimento de preservar a masculinidade
e manutenção de uma auto-imagem positiva, os entrevistados afastam de si o feminino, pois
acreditam, que quando presentes nos indivíduos os tornam menos homens.
O universo investigado reafirma e propaga a chamada “crise da masculinidade”
(MEDRADO, 1997; NOLASCO, 1993), cujo “contraste entre o efetivamente vivido e o
ideologicamente representado gera as ambiguidades expressas nas práticas e concepções do
universo masculino na atualidade” (BARBOSA; BONOMO; TRINDADE, 2008, p.20). Com
relação a isso, Olavarría, (2004, p.87) comenta:
Nos últimos anos começaram a aparecer indicações de que tanto a masculinidade
quanto a paternidade estariam em crise. Surgiram questionamentos e críticas sobre
os diversos aspectos da vida dos homens: o exercício que fazem da paternidade e a
distância que mantêm das crianças e suas companheiras, a pouca participação na
saúde sexual e reprodutiva de suas mulheres, o grau de violência que manifestam
nos espaços públicos, entre outras atitudes. Entre os próprios homens se escutam
vozes que pedem por mais tempo para estar com a família e que desejam participar
mais ativamente do acompanhamento de seus filhos, que reclamam das condições de
trabalho e da remuneração insuficiente para oferecer certa qualidade de vida para a
família.
A partir dessa compreensão, entende-se que os estudos sobre masculinidades devem
incorporar a perspectiva de gênero, analisando-os de um ponto de vista relacional e não
identitário. Segundo Louro (2004, p.23) “a ótica está dirigida para um processo, para uma
construção, e não para algo que exista a priori”.
Os estudos de gênero “fornecem um meio de decodificar o significado e de
compreender as complexas conexões entre várias formas de interação humana” (SCOTT,
1995, p. 89). Com tal ponto de vista, a historiadora Joan Scott marcou a história e tem sido,
no Brasil, evidenciada para estudos em diversos campos do conhecimento, inclusive na
Educação (LOURO, 2003, 2004). Segundo Scott (1995, p. 86),
20
o núcleo da definição [de gênero] repousa numa conexão integral entre duas
proposições: (1) o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseadas
nas diferenças percebidas entre os sexos e (2) o gênero é uma forma primária de dar
significado às relações de poder.
Para auxílio nas investigações, utilizamos o conceito de gênero, proposto por Louro
(2004, p.21) entendendo esse enquanto a forma como “características [sexuais] são
representadas ou valorizadas, aquilo que se diz ou se pensa [...] que vai constituir,
efetivamente, o que é feminino ou masculino em uma dada sociedade e em um dado momento
histórico”.
Assim, torna-se cabível observar como um homem aprende sobre o que significa ser
um “homem de verdade” ou a maneira de exercer “corretamente” sua masculinidade em
diferentes culturas. Pesquisar masculinidades em contextos culturais específicos se constitui
em uma tentativa de corroborar a não existência de um tipo único de masculinidade, bem
como apontar para a realidade de que um mesmo homem, pode viver suas masculinidades.
Além disso, segundo Portella (2004), contribuir para quebrar o silêncio instalado acerca do
homem e das masculinidades.
2.2 Novos tempos, novos pais?
Jornais, revistas e blogs anunciam notícias, ao mundo, de que o homem brasileiro tem
voltado seu interesse para o exercício de paternidade. As leis pós Constituição Federal de
1988 refletem esse quadro: assuntos como pensão alimentícia, visitação em casos de
separação conjugal, aumento do tempo da licença paternidade, adoção e guarda compartilhada
concedem direitos e deveres, nunca cogitados, aos homens (PERUCCHI, 2008).
Organizações sociais também se levantam, continuamente, em defesa do direito e
compromisso de ser pai. A ONG Papai2, situada na cidade do Recife, é desbravadora nesse
sentido. Uma de suas campanhas intitulada “Dá licença, eu sou pai!” (2008-2010), teve como
objetivo estimular os homens a exercerem o direito de cuidar, solicitando a Licença
Paternidade em caso de nascimento ou adoção de um/a filho/a; bem como de promover
mobilização pública em prol da ampliação do período da licença: de cinco para, pelo menos,
trinta dias.
As demandas atuais da sociedade - transformações socioculturais, abarcando fatores
históricos, sócio-econômicos e modos filosófico-ideológicos que trazem implicações no
2
Disponível em: <http://www.papai.org.br/> Acesso em: 14 de março de 2011.
21
campo dos comportamentos e valores - ampliaram o foco de análise sobre as formas do viver
e, consequentemente, sobre a concepção de ser masculino. Tais transformações e re-arranjos
acerca das masculinidades exigiram o aumento de produções que dessem conta dos novos
projetos de vida. O tema da paternidade emerge como foco de pesquisa, ganhando assim um
exponencial crescimento, destaque, abrangência e especificidade no meio social e acadêmico.
Na história da produção científica, atrelada a temática da masculinidade, não raro,
surgiam assuntos como implicações da ausência paterna para o desenvolvimento infantil,
violência, esportes, trabalho, família, criminalidade e alcoolismo. O homem, na atualidade,
revela-se como fenômeno de estudo, pelos novos canais que foram abertos para pensar as
masculinidades. No Brasil, por exemplo, essa discussão é recente, vem tomando fôlego a
partir da segunda metade da década de 90, com uma rede de diálogo fomentada
principalmente por dissertações e teses voltadas ao tema (MEDRADO, 1997; OLIVEIRA,
2010). É nesse interesse para com o homem que o tema da paternidade garantiu seu lugar nas
produções acadêmicas e hoje se configura como um celeiro fértil de investigação de diversos
campos do saber – para citar alguns, Direito, Ciências Sociais, Enfermagem, Psicologia,
Teologia, Educação, Antropologia.
Esse cenário ganhou maior visibilidade com a Conferência Internacional de População
e Desenvolvimento (ICPD), realizada no Cairo (Egito), em 1994 e com IV Conferência
Mundial sobre a Mulher, realizada em 1995, em Beijim (China). Nesses espaços de discussão
foi ressaltada a necessidade de maior envolvimento dos homens na vida familiar, com o
intento de reequilibrar as relações de poder, para atingir maior igualdade de gênero, bem
como a participação masculina no campo da saúde sexual e reprodutiva. As indicações da
Conferência do Cairo (ICPD, 1994,§ 4.27) são bastante claras a esse respeito, quando se
propõe que:
esforços especiais devem ser feitos no sentido de enfatizar a co-responsabilidade
masculina e promover o efetivo envolvimento dos homens com relação à
paternidade responsável e ao comportamento sexual e reprodutivo, incluindo-se aí o
uso da anticoncepção.
Valente, Medrado e Lyra (2011) fizeram um levantamento do campo de produção
científica brasileira sobre a paternidade. A pesquisa foi realizada a partir do Banco de teses e
dissertações da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES). A
mesma evidencia um progressivo interesse de diversas áreas do saber em relação ao tema,
entre os anos de 1987-2009. Nas palavras de Perucchi (2008, p.28), “o número de
investigações sobre a paternidade encontra-se em larga escala e apresenta um diálogo inter e
multidisciplinar”. Com essa investigação, é alçada uma crítica com relação à ciência, esta na
22
qualidade de dispositivo de fabricação de modos de ser e de verdades. A respeito da
paternidade, a ciência a produz, autorizando-a ou não. E mais, com margem de certeza de até
99,9999%, abdicou as presunções e hoje tem em mãos a prova da paternidade (FONSECA,
2004).
Pensar a paternidade é avançar rumo a questões científicas e políticas da Psicologia,
levando em consideração o seu descaso para com esta população. Trindade (1999, p.34)
discorre que, até bem pouco tempo, “a Psicologia, que desde os seus primórdios tem nas
relações familiares uma fonte inesgotável de pesquisas, não demonstrava interesse direto pela
paternidade, reduzindo as relações familiares à interação mãe-filhos”.
A despeito das transformações, foram muitas e significativas. Concepções arcaicas
observam o pai como um homem forte, o provedor moral e econômico da família, atribuições
que o colocam diante do exercício de um “roteiro paterno”. Essa realidade atesta a máxima de
que “o filho é da mãe” e “o pai é aquele que abre a carteira”. O conceito de paternidade,
difundido pela mídia, e que se faz presente no imaginário social, está vinculado diretamente
ao suprimento das necessidades ligadas ao financeiro. A mãe, por sua vez, é incumbida de
cuidar dos filhos. Tanto que, apesar do Código Penal Brasileiro (2007), no capítulo III, Art.
244, não definir o sexo do cônjuge no que diz respeito à provisão da pensão alimentícia, 93%
dos casos de separação com ajuizamento de guarda, é dado à mãe a incumbida de cuidar dos
filhos, enquanto o pai fica responsável pelo prover. Lançado neste lugar, o pai silencia o
sofrer de estar distante do afeto pela “convenção social”, tendo por honra masculina o seu
trabalho e por mérito paterno o poder de fertilidade (LYRA; MEDRADO, 2000).
Essa concepção vem sendo colocada em cheque. Estudos como os de Oliveira (2010) e
Rodrigues (2009) relatam que, frente à pobreza, as mulheres de famílias de baixa renda se
inseriram no mercado de trabalho, passando a partilhar o prover com os homens, algo que
inquietou muitos pais pobres, que se viram impotentes em cumprir o papel social de
mantenedor financeiro da família. Na contemporaneidade, além dessa realidade, salta aos
olhos um pai participe nos serviços domésticos e no envolvimento afetivo dos filhos. Esta
compreensão da participação mais efetiva dos homens na família, particularmente no cuidado
para com a criança, vem sendo nomeada de “nova paternidade”, onde a mesma é vivenciada
como um desejo e não mais por obrigação (TRINDADE, 1999).
Adicionamos com relação a isso, que vivenciamos, cotidianamente, avanços e recuos:
os velhos caciques trazem à atualidade pensamentos e práticas de um passado não tão
distante, que está ancorado em um modelo tradicional de paternidade, assegurando, com isso,
a co-habitação do arcaico e do moderno, de demandas convergentes e antagônicas.
23
A tensão, advinda do encontro entre o arcaico e o novo, pode ser vista na pesquisa de
Rodrigues (2009), focada na paternidade adolescente. Os discursos dos jovens relataram
aspectos positivos da vivência paterna, concomitantemente às desvantagens e perdas advindas
da situação. A autora situa: “Os jovens pais enfrentam as contradições que o contexto sóciohistórico impõe tanto em relação à paternidade, quanto em relação à adolescência e à família”
(RODRIGUES, 2009, p.135). Somado a isto, vigora a representação social negativa do
exercício da paternidade adolescente, bem como sua tendência à patologização.
Esse estudo trouxe o sentido da paternidade enquanto maturação. Tal como nos aclara
Pompéia (2010, p.123), maturidade não é sinônimo de idade adulta, “é uma possibilidade
concreta também para crianças e adolescentes”. Autores, como Oliveira (2010), expõem que
existe um consenso de que a entrada no universo paterno acarreta um novo estágio de
evolução na vida do homem. Frente a este embate, o jovem, tido comumente por
irresponsável, é desacreditado de sua potencialidade enquanto pai. Entretanto, a pesquisa
referida mostra que adolescentes pobres da cidade de Recife-PE se colocam com
responsabilidade frente aos cuidados para com os filhos, levantando, assim, novas
possibilidades de ser pai.
Sabendo que as demandas da vida cotidiana se encontram em constante movimento,
Valente (2011, p.22), problematiza: “O que define o pai? Seria a pessoa portadora,
proprietária, dona do sangue, Gene XY, DNA, espermatozóide e/ou seria aquela que sustenta,
dá o nome, reconhece em cartório, cuida, zela, educa, se responsabiliza por?” Estaria o autor
se referindo a possibilidade de uma paternidade por atitude afetiva e de cuidado, ou seja, uma
paternidade adotiva?
Com relação a isso, recorremos também a Dias (2004, p. 65, aspas e grifos da autora),
quando a mesma, investigando a parentalidade, também questiona quem é o pai:
Para a Biologia, pai sempre foi unicamente quem, por meio de uma relação sexual,
fecunda uma mulher, a qual, levando a gestação a termo, dá à luz um filho. O
Direito, ao gerar presunções de paternidade e maternidade, afasta-se do fato natural
da procriação para referendar a hoje denominada „posse de estado de filho‟ ou
„filiação socioafetiva‟. Assim, a desbiologização da paternidade, embora pareça ser
um tema atual, já era consagrada há muito tempo, desde a época dos romanos, pelo
aforismo pater est is quem nuptiae demonstrant.
A autora supracitada assevera que os vínculos de parentalidade não são encontrados no
campo genético nem na verdade jurídica. E onde estariam? A resposta, segundo ela, só pode
ser uma: no reconhecimento da existência de um elo afetivo, que faz gerar um
comprometimento mútuo. Nesse enfoque, “nada mais autêntico do que reconhecer como pai
24
quem age como pai, dá afeto, assegura a proteção e garante a sobrevivência” (DIAS, 2004,
p.66).
Fazendo coro a essa constatação, Andrade, Costa e Rossetti-Ferreira (2006),
investigando as significações da paternidade adotiva de dois homens-pais de crianças recémnascidas, revelaram em sua pesquisa que estes assumem um papel de ajudantes nos cuidados
com a prole e voltam sua atenção, prioritariamente, para prover financeiramente a família. A
análise das entrevistas realizadas aponta para o sentido de paternidades múltiplas, onde o
modelo tradicional e o novo “convivem e se alteram na experiência de um mesmo pai”
(ANDRADE, COSTA; ROSSETTI-FERREIRA, 2006, p.250).
A adoção para esses pais é atravessada também por duas significações recorrentes na
literatura desta temática: a primeira delas é a infertilidade como motivação para adoção e a
segunda é a busca por uma criança recém-nascida com as características desejadas pela
família (WEBER, 2011). Com relação à experiência da paternidade, os entrevistados a
descreveram como muito boa e de valor imensurável, afirmando que, para ambos, a chegada
da criança acarretou mudanças na rotina familiar, tendo em vista que a mesma passou a ser
prioridade, inclusive em relação às esposas. Interessante mencionar o olhar de um dos
entrevistados, quando o mesmo expressou as dificuldades da adoção, colocando-a como uma
barreira a ser atravessada, sabendo que esta foi assumida após esgotar as possibilidades da
paternidade inicialmente desejada, a biológica (ANDRADE; COSTA; ROSSETTIFERREIRA, 2006). Pensando a adoção como forma incomum de ter filhos, Schettini (2008,
p.12), comenta que “para a maioria das pessoas, a idéia da adoção está baseada na existência
de um transtorno das expectativas biológicas [...] a adoção aparece, portanto, como uma
solução para uma falha biológica ou psicológica”.
Em sua tese de doutorado, Perucchi (2008) problematiza que a organização discursiva
instaurada na jurisprudência brasileira, nos seus diferentes jogos enunciativos, é produtora de
um regime de verdade sobre os sujeitos, fabricando, assim, a paternidade. Esse discurso está
relacionado às práticas institucionalizadas de poder, de controle e norma “definindo ao
indivíduo o que ele pode ou não fazer, definindo-o (ou não) como pai e controlando-o frente
às possibilidades de exercício da paternidade” (PERUCCHI, 2008, p. 218).
Dos acórdãos analisados, fica evidente que o judiciário reafirma o modelo de pai
provedor/biológico, cujo vínculo se dá pela procriação/genética, sem necessariamente precisar
de laços de afetividade e convivência (PERUCCHI, 2008), apontando, assim, a escassez de
acórdãos que estão embasados numa perspectiva sócio-afetiva. No entanto, a autora
argumenta que esta é uma realidade plural, permeada de construções e desconstruções. Dentre
25
elas, é possível mencionar as mudanças na legislação a respeito da família, do poder familiar e
da paternidade. A adoção, nesse contexto, toma formas e ganha legitimidade enquanto modo
de acesso à paternidade. A partir da máxima que a verdadeira filiação está cunhada no terreno
da afetividade, pelos fortes elos relacionais entre pais e filhos, pode-se assegurar que a
filiação afetiva independe da origem biológica.
No paper intitulado “A Certeza que Pariu a Dúvida”, Fonseca (2004) apresenta o
impacto da tecnologia do DNA nas relações familiares, sobretudo na paternidade. A autora
apresenta os resultados de sua pesquisa em órgãos jurídicos da cidade de Porto Alegre-RS, na
qual acompanhou pessoas envolvidas em disputas jurídicas em torno da identidade paterna.
Fonseca (2004, p.15, aspas da autora) comenta:
Certamente, na grande maioria de casos que são finalmente julgados na Vara de
Família, o jovem consegue colocar na certidão o nome de algum „pai‟. E, se é menor
de idade, o juiz mandará o pai pagar uma pensão modesta (em torno de 30% do
salário mínimo). Porém, ao que tudo indica, na ausência de uma mínima relação
anterior entre pai e filho, essa „identidade‟ oficial nem sempre traz conseqüências no
plano prático – no que diz respeito ao sustento material –, e muito menos no plano
afetivo. Nada garante que o homem declarado pela corte como o pai de certa criança
cumpra seu compromisso paterno.
Diante disso, questionamos: a aliança entre lei e ciência efetivam a paternidade? O que
cria e o que procria, quem é o verdadeiro pai? Os laços biológicos são condição sine qua non
da paternidade? O sangue simboliza aproximação ou distância entre os homens? Fonseca
(2004, p.31), ressalta que a certeza técnica/biológica do DNA, “99,9999%”, não sobrepõe o
aspecto afetivo e social da paternidade. Nessa perspectiva, Oliveira (2010, p.24) enfatiza:
Diante da constatação de que a paternidade é concebida não somente pelo seu
caráter biológico, mas também em uma dimensão psicológica e social, devem-se
levar em consideração as condições afetivas e sociais que compõem o cenário da
experiência de ser pai para, então, compreender, de forma mais ampla, os
significados, sentidos e valores da vivência paterna.
O lugar do pai nas famílias pobres, por exemplo, pressupõe a provisão de teto e
alimento. O homem é considerado o chefe da família e, “para constituir-se a „boa‟ autoridade,
digna da obediência que lhe corresponde, não basta ao homem pegar e botar comida dentro de
casa e falar que manda. Para mandar, tem que ter caráter, moral” (SARTI, 2009, p.63, aspas
da autora). Nos casos em que isso não acontece, desencadeiam-se algumas consequências,
dentre elas, os obstáculos para o exercício paterno. Referindo-se a isso, Oliveira (2010, p.23)
faz a seguinte observação: “Diante da impossibilidade de exercer a paternidade via o
provimento do lar, também chama atenção a fragilidade do vínculo conjugal das famílias
pobres, sendo esses dois elementos que implicam diretamente na experiência de ser pai”.
26
Pelo visto, ser pai em Tóquio ou no Nordeste brasileiro carrega em sua bagagem as
peculiaridades da cultura, da classe social a qual pertence, bem como dos valores e tradições.
Os novos arranjos familiares, presentes no mundo inteiro, esbarram na ideia de
pluriparenatalidade, trazida por Uziel (2000). Os divórcios, os recasamentos e as adoções
refletem a permeabilidade das fronteiras da família, apontando para a noção de rede que
amplia o espaço de circulação dos membros e incorpora os laços construídos com a
convivência e a partir do desejo. Essa perspectiva de pluralidade de laços “desafia a lógica da
primazia do biológico sobre o social” (UZIEL, 2000, p.07). Compactuar com isso é se fechar
diante de configurações familiares cujo eixo de construção não seja esse. A paternidade
adotiva, por exemplo, pode ser identificada como uma resistência a modelos tradicionais de
paternidade.
Almejando uma literatura sobre paternidade adotiva foi encontrado o livro
“Compreendendo os pais adotivos”, de Schettini (2008). Na obra, o autor reflete sobre a
vivência da adoção e aborda questões nas quais tanto o pai, quanto a mãe enfrentam –
motivações, medos, sentimentos, expectativas, dúvidas. Vemos, assim, que a obra não se
volta especificamente para a paternidade. Por outro lado, Silva (2010) em sua dissertação de
mestrado em Psicologia, trabalha, especificamente, a paternidade adotiva, propondo investigar
significados e motivações que levam os pais a assumi-la. Numa perspectiva psicanalítica, o
autor entrevistou quatro homens, que são pais adotivos, pertencentes à classe média de
Brasília-DF.
Os sentidos revelados pelos entrevistados, diante da paternidade adotiva, foram:
realização plena como pai, vivência insubstituível, vocação, paternidade enquanto um desafio
produtor de um elevado grau de satisfação, descoberta, opção de afeto. Nas narrativas destes
pais foi percebido que a motivação para adoção está, intimamente, relacionada à
impossibilidade de terem filhos biológicos. Os mesmos também ligam a adoção a um
complemento, realização e felicidade (SILVA, 2010).
Como inquietação final de seu trabalho, Silva (2010) enfatiza que a pesquisa foca uma
temática ainda não devidamente explorada e lança o desafio de investigar a paternidade
adotiva em outra região do país. Aceitando tal desafio, proponho experienciar a paternidade
adotiva de um outro lugar, comprometida com um re-pensar crítico e submergida no interjogo
estranho/familiar. Para tanto, convido o leitor a peregrinar comigo nessa estrada pouco
habitada, não linear, imprevisível e direcionada pelo afeto.
27
3
FAMÍLIAS: CENÁRIO PARA ADOÇÃO
3.1 Escolhas, laços, desafios: os arranjos familiares na contemporaneidade
Cada família tem uma história para contar... carrega na bagagem gostos, necessidades,
temores, crenças, mitos, heranças a serem perpetuadas e uma imensidão de sentimentos.
Embora esteja inserida no social, ela comporta sua singularidade; é segundo Sarti (2004), uma
realidade de ordem simbólica, um mundo de relações complementares, recíprocas e
assimétricas, onde o público e o privado, o nós e o outro coexistem.
Famílias grandes e pequenas em número de membros, família nuclear, extensa,
monoparental, unipessoal, homoafetiva. Todos esses arranjos, segundo Sarti (2003),
encontram nos dispositivos disciplinares - jurídicos, médicos, psicológicos, religiosos e
pedagógicos - modelos cristalizados do que é e de como deve ser uma família. Diante disso, o
questionamento a ser formulado é: em um terreno fértil que vigora um discurso normativo,
onde tudo o que foge do normal é tido como desvio, patológico, como pensar e intervir com
famílias?
Nessa linha de pensamento, é mister mencionar o papel da mídia como poderosa
ferramenta formuladora e criadora de opiniões, saberes, normas, valores e subjetividades. Sua
força é notória naquilo que divulga e no que silencia e conforme Guareschi (2004), a mídia
constitui um novo personagem dentro de casa, com quem interagimos diariamente, em intenso
contato e durante muitas horas por dia. Comungando da mesma linha de pensamento, Silva e
Santos (2009, p. 02) trazem:
Subliminarmente, através da televisão, das novelas, jornais e internet, é transmitido
um discurso ideológico, criando modelos a serem seguidos e homogeneizando
estilos de vida. Diante disso, surgem questões a se pensar: onde está o sujeito e sua
subjetividade? Será que em prateleiras midiáticas estão sendo ofertados modos de
ser, de pensar e agir?
Nesse sentido, a mídia, com seu “domínio carismático”, tem ocupado um lugar social
e a família tem sido atravessada e influenciada por esse poder. É perpassado nos meios de
comunicação um ideal de família, e é “comprado” até hoje a concepção de família sagrada,
quando, na verdade, ela se apresenta também enquanto campo de tensão, cujo conflito é
intrínseco. A mesma é tida por Losacco (2003, p.64) como o “locus nascendi das histórias
pessoais, lugar de pertencimento, de questionamentos”.
28
A família é pensada por Sarti (2004, p.17) como “o lugar de aquisição da linguagem, é
o filtro através do qual se começa a ver e a significar o mundo”; ela tem a função, até mesmo
para os adultos de, “ofertar sentido às relações entre os indivíduos e servir de espaço de
elaboração das experiências vividas”. Acrescentamos, a família como um objeto polimorfo
que, ao longo da história ganhou várias significações: enaltecida, porém tida também como
gênese de todos os males, lugar de alienação, servidão e opressão. Apregoaram sua extinção,
contudo as tentativas de combater sua força foram frustradas. A família continua sendo um
lugar de calor, porto seguro, ambiente propício para “tornar-se homem” e atualmente, está em
evidência nas Políticas Públicas (SAWAIA, 2003).
Refletir acerca da família é localizá-la no tempo, no decorrer do percurso histórico - a
família é e se faz complexa, singular e em constante transformação. Ao pensar assim, a
atenção recai para a visão histórica de Ariès (1981). Na célebre obra “História Social da
Criança e da Família”, o autor pontua que no Antigo Regime, a família não era uma escolha
afetiva, pairava pelo patrimônio. O sentimento de família tal como hoje o conhecemos, surgiu
a partir do século XV e XVI; foi também nesse período que a criança passou a ocupar um
lugar junto aos pais. Deste modo, transitando pela compreensão de Ariès (1981, p. 164),
pode-se perceber que: “os progressos do sentimento da família seguem os progressos da vida
privada, da intimidade doméstica. O sentimento da família não se desenvolve quando a casa
está muito aberta para o exterior: ele exige o mínimo de segredo”.
Durante muito tempo, o foco estava na representação da vida exterior e pública, a
educação das crianças era realizada pela sociedade no aprendizado diário. A vida privada, no
passado, acontecia em público; vemos que, a densidade social não deixava lugar para a
família; ela não existia como sentimento ou como valor, mas cumpria uma função:
“assegurava a transmissão da vida, dos bens e dos nomes – mas não penetrava muito longe na
sensibilidade” (ARIÈS, 1981, p.193).
O século XVIII é visto como o de maiores mudanças, onde ocorreu claramente a
separação entre o público e o privado, entre a família e a sociedade. Isto aparece também na
arquitetura da casa, que passa a ter cômodos nomeados e separados, no intuito de certificar a
privacidade dos indivíduos. Dando um salto na história, o século XX representa, de maneira
muito forte, a privatização da família. O fechamento do ciclo familiar cria uma ditadura da
intimidade, diretamente influenciada pelo modelo capitalista, pautado no individualismo
(ARIÈS, 1981).
A partir da segunda metade do século passado, o mundo progressivamente conheceu
intensas transformações. As mudanças sociais - o aumento da expectativa de vida, a entrada
29
da mulher no mercado de trabalho, mulheres como chefes de família, homens como
cuidadores dos filhos, rupturas e uniões sucessivas - adentram o âmago das relações
familiares e estas tomam roupagens diversas (SARTI, 2003).
Após a Revolução Industrial, mais precisamente, a tecnologia produziu a quebra da
identificação da família com a natureza, provocando uma reordenação simbólica, mudanças
nas práticas e nos valores familiares. A pílula anticoncepcional, ao separar a sexualidade da
reprodução, abala o valor sagrado da maternidade (SARTI, 2004, 2003), bem como o teste do
DNA que permite a comprovação da paternidade biológica (FONSECA, 2004), são exemplos
desses avanços tecnológicos.
O transitar da paternidade biológica à paternidade social, afetiva foi aberto por
influência dos novos arranjos familiares. Dorais (1994, apud RAMIRES, 1997) discute essa
questão ao ponderar que as diversas famílias que se apresentam na atualidade dão novas
roupagens às paternidades, alegando que os laços biológicos entre pais e filhos não afiançam a
ligação permanente entre eles, principalmente em casos de separação conjugal. Por outro lado,
diante de recasamentos, os homens são chamados a manterem relações parentais com os
filhos de sua companheira, mesmo sem ligações genéticas.
O cenário social no qual nos encontramos exige pensar e repensar a família. Falar dela
no século XXI implica considerar as mudanças internas e externas que a mesma vem
passando. A perda de referências flexibilizam as fronteiras desta instituição, e “com seus laços
esgarçados, torna-se cada vez mais difícil definir os contornos que a delimitam” (SARTI,
2003, p.21). Em concordância, Nicoleti (2011, p.04) pensando na Psicanálise da Família,
expõe que é preciso refletir sobre as novas formas de subjetivação em contextos diferentes
dos descritos por Freud: “os usos e costumes sociais que estruturavam a família nuclear estão
cada vez mais distantes e esse distanciamento enfraquece o poder explanatório das metáforas
de inspiração mítica grega, que serviram de chave para a descoberta freudiana”.
Vale ressaltar a singularidade de cada família, retirando desta um caráter biológico,
universal e a configurando como socialmente construída em contextos históricos específicos.
Nesse sentido, não há como não pronunciar a colaboração de Sarti (2003, p. 26, aspas da
autora), quando diz da família “como uma „categoria nativa‟, ou seja, de acordo com o sentido
a ela atribuído por quem a vive, considerando-o como um ponto de vista”. Em contrapartida,
no imaginário social, têm-se os laços consanguíneos como pedra angular da família. Ao
comentar sobre isso, Schettini, Amazonas e Dias (2006, p.286, aspas das autoras) apontam:
“A maioria das pessoas atribui a eles um grande poder, considerando-os indissolúveis, por
serem os „verdadeiros laços naturais‟. A mãe biológica é definida como „a verdadeira mãe‟ ou
30
„a mãe de sangue‟”. No entanto, Schettini (1998) comenta que os genitores não são,
necessariamente, o pai e a mãe. Para sê-lo é preciso exercitar suas potencialidades afetivas, ou
seja, adotar sua prole.
Dentro deste universo simbólico, o discurso social se refletirá nas famílias como um
espelho. Cada família traduzirá esse discurso de acordo com sua forma de significar baseado
nas suas experiências subjetivas e, consequentemente, devolverá para o mundo social a sua
elaboração final (SARTI, 2004, 2003). Munido de tal assertiva, o desafio está em buscar uma
abertura no sentido de aproximação ao outro, dialogando entre pontos de vistas e não ouvindo
o discurso das famílias como ignorância. Ademais, é preciso romper com os estatutos de
verdade, em busca de uma compreensão.
É possível observar que a família não é passível de conceituação, ela expressa modos
diferentes de vinculação de/entre pessoas. Pensar família é ver o homem em relação: a família
que somos, a que almejamos ser, a família que cuida, estabelecendo limites e abrigando as
diferenças; a que fere, abandona e abusa; a família que frutifica afeto e respeito; a que educa,
e aprende com outras famílias. No que se refere à adoção, nos contextos familiares a mesma
já foi vista como um desvio da norma, uma opção para aqueles que fracassaram por não
conseguirem ter filhos biológicos e como um ato de caridade. Todavia, vem se consolidando
uma nova cultura de adoção, fundamentada nos laços afetivos (SCHETTINI; AMAZONAS;
DIAS, 2006). As autoras são enfáticas ao certificar:
As famílias adotivas, aos poucos, vêm adquirindo visibilidade, saindo da
clandestinidade a que haviam sido relegadas, sufocadas que estavam pelo estigma
dos mitos e preconceitos arraigados no imaginário popular. Os esforços conjuntos da
sociedade em geral e os muitos exemplos de adoções bem-sucedidas de que se tem
notícia ultimamente têm contribuído neste sentido (SCHETTINI; AMAZONAS;
DIAS, 2006, p. 286).
A família possui, nas diversas camadas da população brasileira, um valor acoplado a
categoria social. Tal colocação se confirma no estudo sobre a moral dos pobres, realizado por
Sarti (2009). Para a autora, a importância conferida à casa, à família e ao trabalho é essencial
para embasar o modo como se posicionam no mundo. O sentido de família, para os pobres,
não está vinculado a um grupo genealógico, é conferido àqueles em quem se pode confiar,
contar, formando com isso, uma rede de mútua ajuda. No dizer de Sarti (2009, p.85), “a noção
de família defini-se, assim, em torno de um eixo moral, [...], a noção de obrigação torna-se
central à idéia de parentesco, sobrepondo-se aos laços de sangue”. Essa elasticidade
assinalada pela autora demonstra o quanto as famílias buscam recursos para sua manutenção,
31
adaptando-se ao contexto que estão inseridas. Nessa linha de pensamento, a adoção também
ultrapassa o grau de parentesco e se posiciona enquanto “possibilidade de se constituir
família, a qual pode trazer resultados tão satisfatórios quanto a filiação biológica”
(SCHETTINI; AMAZONAS; DIAS, 2006, p. 287).
Nesse cenário discursivo, onde impera a globalização, o “ter”, as paixões mesquinhas,
a manipulação do mercado, o enaltecimento da felicidade privada, Sawaia (2003) coloca a
afetividade como estratégia que permite o enfrentamento e resistência da desigualdade social.
Uma articulação que, sem dúvidas leva a ações transformadoras, a expansão da vida. Como a
autora pontua, “a afetividade é um meio de penetrar no que há de mais singular na vida
social” (SAWAIA, 2003, p.40). O afeto tramita entre a mente e o corpo, o social e o
psicológico, não há como negá-lo, ele se faz notório. Losacco (2003, p.64) acrescenta:
Na atualidade, a família deixa de ser aquela constituída unicamente por casamento
formal. [...] Essa nova concepção se constrói, atualmente, mais baseada no afeto do
que nas relações de consanguinidade, parentesco ou casamento. É construída por
uma constelação de pessoas interdependentes girando em torno de um eixo comum.
Tomando tal pensamento, é relevante assinalar o caso de crianças e adolescentes
institucionalizados. Você poderia questionar: como? E eles têm famílias? Pronuncio o óbvio,
de que toda criança, desde a sua concepção tem família; a questão é que estas não tiveram
garantia do convívio no contexto familiar de origem. Desse modo, como pensar essa situação
se os referidos estão acolhidos justamente pelo fato de não estarem com a família?
Com vistas a conhecer como meninos institucionalizados, de 7 a 16 anos, concebem
uma família, Silveira (2002) propõe um estudo, através da aplicação técnica projetiva gráfica
– desenho da família. Dentre os 30 participantes, 76% das imagens expressavam o modelo de
família nuclear: “o desejo de ter e pertencer a uma família dentro dos moldes tradicionais se
faz presente e acaba determinando a forma de composição dos desenhos realizados pela
maioria dos sujeitos” (SILVEIRA, 2002, p.68). Outro aspecto marcante foi o aparecimento
dos membros da instituição em apenas 10% dos desenhos. A autora conclui afirmando que em
sua pesquisa ficou perceptível que as crianças com melhores níveis de saúde mental são
aquelas que possuem senso de pertencimento, ou seja, sentem-se incluídas num grupo
familiar, onde, “às vezes, o vínculo pode ser somente uma pessoa significativa” (SILVEIRA,
2002, p.72).
A partir das diversidades apontadas, no debate contemporâneo sobre o tema, o eixo
desse discurso deve ser famílias, em sua pluralidade (LOSACCO, 2003). Em meio a esses
32
entrelaçamentos, a adoção encontra habitat que não é derivado de vínculos biológicos, mas
sim de relações de escolha, proximidade e afeto.
3.2 Adoção: um modo de ser família
Adotar é um verbo conjugado e conhecido através dos tempos. O mesmo encontra
morada em pessoas que desejam ter filhos e naquelas que anseiam por pais. A experiência
clínica, como estagiária de Psicologia na Vara da Infância e Juventude, oportunizou o contato
com casos de adoção. Ao transitar nesse universo, mostrou-se congruente o pensamento de
que abordar o tema da adoção se faz pertinente, visto a realidade de abandono e violência que
vivem uma significativa parcela de crianças e adolescentes no país. Vale aludir que a adoção
foi e é colocada aqui como escolha, sem condição de obrigatoriedade; a mesma apresenta-se
como uma possibilidade de ser família, onde o afeto é o denominador comum.
A adoção está embasada numa realidade multideterminada, envolvendo diversas
concepções, crenças e valores. Para a Organização Mundial de Saúde (OMS) a adoção é uma
maneira apropriada e completa de recriar redes familiares para a criança que foi privada de
sua família (PAIVA, 2004). Segundo Siega e Maciel (2005, p.122), “a adoção consiste
basicamente no fato de uma pessoa assumir legalmente como filho(a) uma criança ou
adolescente nascido(a) de outra pessoa”. Na etimologia da palavra adoção, do latim, temos: ad
+ optare, onde ad = aproximação no tempo e no espaço e optare = opção. Nesse sentido, a
adoção entra em cena como uma opção por aproximação, escolha de estar próximo de
alguém. Consultando o Ferreira (2004), vemos que adotar, na língua portuguesa, é verbo
transitivo direto que denota, dentre outros, os significados de: acolher, aceitar, admitir,
assumir, escolher, optar e reconhecer.
Em um cenário complexo e subjetivo, falar de tipos de adoção pode soar como algo
pouco apropriado, tendo em vista que, juridicamente e afetivamente, a mesma não apresenta
distinções. Contudo, para fins didáticos queremos destacar algumas modalidades de adoção.
De início, ressaltamos que uma boa parte da demanda para adoção no Brasil ainda é
caracterizada como adoção clássica, a que dirige-se a solucionar conflitos e/ou a satisfações
dos adotantes. A chamada adoção moderna, por sua vez, tem como critério o melhor interesse
da criança, diretriz trazida pelo Estatuto da Criança e do Adolescente e reforçada pela Nova
Lei de Adoção (WEBER, 2011).
A adoção tardia é vista como aquela realizada com crianças acima de dois anos de
idade. Esta carrega peculiaridades, pelo fato de que quanto maior for a criança, as
33
possibilidades de adoção tornam-se mais complexas. Adoção inter-racial dá-se entre pessoas
de diferentes raças ou etnias. A internacional é aquela pleiteada por pessoa ou casal
domiciliado no exterior. Adoção à brasileira é conhecida como o ato de registrar um filho
alheio como próprio, burlando assim os trâmites legais. A homoafetiva é a possibilidade de
uma criança ser adotada por um casal homossexual. Adoção Intuitu Persone é também
conhecida como “adoção pronta”, acontece quando a mãe encaminha o filho para um casal
determinado, afirmando que deseja que este adote a criança. A monoparental é realizada por
apenas uma pessoa, sendo esta solteira, viúva ou divorciada. Por fim, tem-se a adoção
unilateral ou de afins, como atitude de um dos cônjuges ou conviventes de adotar o filho do
outro (SOUZA, 2008b).
A adoção é uma instituição com séculos de existência; o olhar para ela sofreu
variações, ganhando multiplicidade, ao longo da história. “Do conceito jurídico de „obtenção
de um filho através da Lei‟ até a „adoção com reais vantagens para a criança‟ do nosso
Estatuto da Criança e do Adolescente” (WEBER, 2004, p.99, aspas da autora). Conforme essa
mesma autora, fontes históricas tradicionais, mitos, lendas, filmes e novelas tratam do tema
adoção e como exemplos ela alude:
Hércules, um semideus, foi adotado por Anfitrião que o preparou para a vida como
seu filho de sangue; [...] a fundação de Roma também envolve uma história de
adoção dos gêmeos, Rômulo e Remo, que foram abandonados e adotados por uma
loba e, posteriormente, educados por pastores. [...] Na Bíblia encontramos a história
de nascimento e da vida de Moisés, filho das águas, retirado do rio pela filha de
faraó, que decidiu criá-lo. [...] Também existem inúmeros personagens infantis
contemporâneos que exploram o tema: Mogli, o „menino-lobo‟; Bambam é filho
adotivo de Beth e Barney no desenho Os Flinstones (WEBER, 2004, p. 100, 101,
aspas da autora).
Longe de standards religiosos, acrescento a esse pensamento a pessoa de Jesus Cristo
como filho adotivo de José. A passagem bíblica de Mateus 1: 18 (in BÍBLIA SAGRADA,
2008, p. 1230) assevera: “o nascimento de Jesus Cristo foi assim: estando Maria, sua mãe,
desposada com José, sem que estivessem antes coabitado, achou-se grávida pelo Espírito
Santo”. A história relata que a virgem Maria concebeu e deu à luz um filho do próprio Deus e
José, o carpinteiro, criou, cuidou e esteve com Jesus durante a sua vida.
Com tais relatos, percebemos que a adoção é um tema presente na experiência
humana: os seres humanos se adotam, ou não. Um esposo adota a esposa; um imigrante adota
uma pátria; adotamos filhos, amigos, animais, objetos, uma profissão, ideias, modos de ser,
atitudes de vida.
34
Para um melhor entendimento, a adoção carece ser contextualizada, levando em
consideração o momento histórico, social e político nos diversos períodos vividos pela
sociedade, sendo imperativo analisar e considerar a influência das diversas culturas e
diferentes concepções acerca da constituição familiar e sobre a adoção (PAIVA, 2004).
Na poesia épica grega, por exemplo, Homero faz menção de casos de adoção. Em
Ilíada, no Canto IX, temos que o ancião Félix, chefe da embaixada de Aquileu, rememora ao
filho de Peleu, que quando abandonado pelo pai, o adotou a seu cuidado:
Ah! Eu muito,
Até saíres da penosa infância,
Sofri contigo, e trabalhei bastante,
Na doce esperança de que um dia,
Já que todos os Deuses me negavam sucessão,
Adotando-te como filho,
Meu amparo e meu consolo tu serás (HOMERO, 2005, p.425).
Weber (2011) aponta que, foi no direito romano que a adoção foi difundida. Sob
ordem e disciplina jurídica, um chefe de família que não possuía herdeiros poderia adotar
como seu filho um menino de outra família, dando a este seu nome e o direito de herança.
Essa mesma autora afirma que a adoção que ganhou abertura no governo de Napoleão
Bonaparte representou um agudo progresso, uma vez que:
[...] podemos dizer que graças ao código de Napoleão, a adoção começava a
engatinhar para um novo rumo, no atendimento dos interesses do adotado, ou seja,
das crianças que não têm uma família. Nas palavras de Napoleão, a adoção é, antes
de tudo, uma instituição de beneficência, e o efeito mais feliz será dar crianças
àqueles que não as têm, de dar um pai a crianças órfãs, de lugar, enfim, a infância à
velhice e à idade viril. Para Napoleão, a adoção deveria imitar a natureza (WEBER,
2011, p.69).
A adoção, ao longo da história, ganhou várias significações: Na antiguidade, originouse do anseio de “eternizar” a família, assegurando sua continuidade. Era apreendida como um
direito das famílias nobres de perpetuar sua descendência. Na Idade Média, sob influência da
Igreja Católica, a adoção passa a não ser bem vista, tendo como justificativa, o fato de que
poderia influenciar o reconhecimento legal dos filhos incestuosos ou adulterinos.
Peregrinando na história, após a Primeira Guerra Mundial a adoção ganhou vestimentas legais
a fim de providenciar pais para o grande número de órfãos da guerra (WEBER, 2011).
Pensando a adoção através dos tempos, Souza (2008) salienta que a cultura da adoção
voltava-se para atender os interesses dos adultos. A mesma coloca que:
35
Nas diferentes culturas acontecem situações especiais. Na Oceania, as mães
oferecem seus bebês a uma parente estéril ou a uma idosa solitária. Entre os
indígenas, a criança órfã será cuidada por todos os elementos da tribo. Entre os
esquimós, a infertilidade era tratada pela troca de pares: os homens tinham que
fecundar o maior número de mulheres para assegurar a continuidade social do grupo
(SOUZA, 2008, p. 31).
Diferente disso, a adoção hoje é cogitada como um conjunto de recursos de uma
política integrada de proteção da infância e juventude, seu alvo é atender às reais necessidades
da criança, proporcionando-lhe uma família, que a abrigue, agasalhe, proteja e ame. Apoiada
nisso, Vargas (2006, p. 147) expressa: “o processo de adoção só se inicia quando se conjuga
afetos”. Desta feita, para que ocorra a possibilidade de formação de vínculos, é mister
observar de um lado, a legitimidade das motivações dos pretendentes à adoção e de outro, as
necessidades do adotado.
No caso do Brasil, “a adoção se fez presente de uma forma contrária aos processos
legais” (SIEGA; MARCIEL, 2005, p. 127), configurando o tipo de adoção versada como
“adoção à brasileira”. Tal realidade nos chama a pensar acerca dos preconceitos, temores,
excesso burocrático, falta de informação e resistência da população em procurar o judiciário.
Tais fatores, somados a tantos outros, direcionam para uma adoção sem preparação e com
grandes chances de ser mal sucedida. Atualmente, apesar das mudanças de enfoques e
avanços, o processo jurídico para a adoção é considerado lento e burocrático pela maioria dos
adotantes. Tais dificuldades passam a ser, de certa forma, um facilitador para que ocorram
ilegalidades na esfera da adoção. A realidade patenteia que há muito a ser feito para que os
direitos alcancem à vida real.
Existem diversos significados sociais e psicológicos que rondam essa temática. Várias
são as motivações que levam as pessoas à adoção: há quem a veja como um gesto
humanitário, um ato fraterno/de amor, caridade para com um órfão, uma opção para
solucionar o problema social de menores abandonados, companhia para a velhice, medo da
solidão, substituição de um filho que se foi ou ainda uma saída para resolver relacionamentos
conjugais conflituosos.
A adoção precisa nascer de dentro para fora, com clareza e segurança, a mesma “pede
uma vivência internalizada do projeto adotivo” (SCHETTINI, 2008, p.13), o que evita
prejuízo, principalmente no que se refere às relações entre pais e filhos. É uma decisão que
precisa ser pensada, gestada e esperada também pela família extensa, para que a criança possa
vir a ser aceita como membro, para melhor adaptação e constituição gradativa de laços
afetivos.
36
Schettini (1998) expõe que a relação parental apenas se inscreve quando ocorre a
adoção afetiva. Assim, não existem filhos verdadeiramente filhos, que não sejam adotivos e
aqueles pais que não o fazem, também abandonam. Em outras palavras, Dolto (1998),
comunga do mesmo pensamento e afirma que adotar é um ato inerente à paternidade
simbólica, somente por esse caminho se chega à parentalidade.
Contudo, um aspecto relevante e que merece destaque é o “peso do sangue” na
sociedade brasileira. Em uma cultura fundamentada na supervalorização da procriação,
hereditariedade e nos laços sanguíneos, “a adoção é vista como espúrio, paralelo, inautêntico
e artificial” (SCHETTINI, 2008, p. 29). Fica subjacente pensar que a ideia de criar um “filho
de outra pessoa”, na qual se desconhece os antecedentes psicológicos, morais, fisiológicos e
até criminais assume, muitas vezes, uma conotação patológica. O autor supracitado é mais
enfático ao afirmar:
Desse modo, pensar ou imaginar que, por não conhecermos a família anterior do
filho adotado, corremos sempre o risco de termos um filho doente, deficiente ou
perturbado, é tão inconsistente quanto garantir que um filho gerado por nós será,
necessariamente, saudável. O medo das deficiências decorrentes do passado familiar
biológico do filho adotado não é, em nada, diferente da mesma possibilidade em
relação aos filhos que geramos (SCHETTINI, 2008, p.33).
Nas relações adotivas o preconceito jaz, tendo em vista que a ligação afetiva, em nossa
cultura, fica aquém do biológico. Essa realidade impulsiona alguns pais a esconder e negar o
status de adotivo ao filho. Diante disso surgem questionamentos comuns: como, quando e em
que idade revelar a criança sua origem? É preciso fazê-lo? E se eu perder meu filho? Em
Paiva (2008, p.88) temos que “é importante que essa verdade faça parte do discurso da
família, que possa ser veiculada sempre que houver interesse ou necessidade”,
proporcionando à criança um espaço para fala, expressão de dúvidas e elaboração de afetos
relacionados a essa vivência. É sabido que, para constituir-se como sujeito, o homem
necessita de uma história real. No caso da adoção, a criança necessita estabelecer ligações
com sua origem, sua história pessoal, para poder crescer com bases seguras. Conforme
Schettini (1998, p. 171), “quando os pais não negam a história, passam a ser participantes
ativos da vida do filho. Tornam-se, verdadeiramente pais”.
O fantasma dos genitores ronda a relação entre pais e filhos, pelas dúvidas citadas
acima e também porque os pais sentem-se ameaçados por uma fantasia de perda ou de uma
mudança de comportamento do filho depois de descoberta a verdade biográfica. É devido a
esses olhares preconceituosos, biologizantes que é vedada a oportunidade de crianças e
adolescentes de terem uma família afetiva e efetiva.
37
Para lidar com questões como essas, a nova Lei de Adoção (BRASIL, 2009) prevê
uma preparação prévia dos futuros pais, e o acompanhamento familiar pós-acolhimento da
criança ou adolescente, com o desígnio de assegurar o direito à convivência familiar. Acerca
disso, Querioz (2009, p. 244) assinala: “[...] o jurídico não da conta da singularidade de cada
família, de cada casal, pois há sempre um modo de vida novo, uma nova forma de gozar que
requer uma escuta diferenciada”. Sendo a Psicologia estudiosa do terreno da singularidade
humana, esta é intimada a assistir essa clientela em suas angústias, limitações e estranhezas,
acolhê-la e acompanhá-la nos seus modos possíveis de serem mães e pais adotivos.
38
4
MOVENDO-SE NO TERRITÓRIO DO AFETO CON-SENTIDO
4.1
Escolhas e Procedimentos Metodológicos
“Dou uma pequena pista para quem quer escutar: não se trata de
ouvir uma série de frases que enumeram algo; o que importa é
acompanhar a marcha de um mostrar”. (Martin Heidegger)
Neste estudo, na direção de compreender a experiência de ser pai adotivo, adotou-se a
pesquisa qualitativa, cujo caráter descritivo ocupa lugar de destaque. A pretensão desta
concerne em compreender os fenômenos segundo a perspectiva dos sujeitos participantes da
pesquisa. Conforme Minayo (1994, p. 21-22),
A pesquisa qualitativa responde a questões muito particulares. Ela se preocupa [...]
com um nível de realidade que não pode ser quantificado. Ou seja, ela trabalha com
o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que
corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos
fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis.
A abordagem qualitativa tem o social como foco, este é observado por meio na
linguagem e na vida cotidiana. Para investigar esse mundo de significados, é imprescindível
valorizar a experiência do sujeito expressa via narrativa (BENJAMIN, 1985), já que esta
torna-se reveladora de valores, significados e tem a “magia” de transmitir experiências.
Nesse sentido, o locus da pesquisa torna-se, no dizer de Neto (1994, p.54), “um palco
de manifestações de intersubjetividades e interações entre pesquisador e grupos estudados,
propiciando a criação de novos conhecimentos”. Assinalamos que a pesquisa não está restrita
ao momento das entrevistas, ela é dinâmica; se faz e refaz a cada encontro, relação e
supervisão. Acrescentamos que, o nosso intuito não é chegar na população pesquisada para
confirmar teorias e saberes, a pesquisa aqui é vista como uma “possibilidade de novas
revelações” (NETO, 1994, p. 56).
Segundo Benjamin (1983), filósofo alemão, as pessoas estão perdendo cada vez mais a
faculdade de trocar experiências, e, consequentemente, a habilidade de narrar. A narrativa é
vista como forma artesanal de comunicação, que reflete a experiência humana. De acordo
com esse autor:
Cada manhã somos informados sobre o que acontece em todo o mundo. E, no
entanto, somos tão pobres em histórias maravilhosas! Isto, porque nenhum
acontecimento nos chega que não esteja impregnado de explicações. Por outras
39
palavras, quase nada do que acontece é favorável à narrativa e quase tudo o é a
informação (BENJAMIN, 1983, p.34).
Conforme Benjamin (1983) revela em sua obra, está em voga o conhecimento
representacional, moldado pelo que está em vigor e pelo bombardeio tecnológico. Nesse
cenário a informação é protagonista, apresentando-se como uma nova forma de comunicação.
Esta precisa ser plausível, comprovada de imediato; ela só é válida enquanto atualidade, só
vive no momento. Desta feita, assim que perde seu caráter de novidade, também perde o seu
valor. As características acima referidas são incompatíveis com o espírito da narrativa,
diferente da informação, que vive apenas no instante em que é nova, a narrativa não se exaure,
“conservando a sua força e sendo capaz de desdobramentos mesmo depois de muito tempo”
(BENJAMIN, 1983, p.62), burlando assim a finitude.
Para Benjamin (1983), o papel do narrador é de acolher aquilo que narra à experiência,
as falas que ficaram para história e as anônimas. Nesse sentido, esse autor assinala como
característica de muitos narradores a tendência para assuntos de interesse prático: “a
experiência que anda de boca em boca é a fonte onde todos os narradores vão beber”
(BENJAMIN, 1983, p.28). Com o desejo de trazer à tona a arte de narrar a própria vida, na
qual o narrador bebe da sua experiência e se implica, “como a mão do oleiro na argila do
vaso” (BENJAMIN, 1983, p. 205), é que recorremos à metodologia da narrativa proposta por
esse autor.
É visto que, a metodologia selecionada é condizente com a visão de homem e de
mundo que temos, apoiada na perspectiva da fenomenologia existencial. A modalidade de
intervenção/investigação escolhida para colher os depoimentos foi a entrevista, tomando
como base a “Entrevista Clínica de Pesquisa” (LÉVY, 2001, p.90), a qual está lastreada nas
narrativas evocadas pela questão provocadora. A mesma é tida como um transitar entre
(vistas), uma ponte onde duas pessoas se encontram (BENJAMIN, 2008).
No encontro entre (vistas), Dutra (2002, p. 371) salienta que, ao narrar sua experiência
a pessoa “nos introduz na sua vida, sensibiliza-nos e coloca-nos como participantes da sua
experiência, fazendo do pesquisador um sujeito dessa experiência”. Acompanhando esta
compreensão, Cardoso (2004, p.117), esclarece esta proposta dizendo que:
é através da narrativa, do dizer/escutar dos sujeitos da pesquisa, que se pode
aproximar do universo do tema, pois a narratividade representa um recorte singular
que contém e aponta para o plural e o universal, através do singular.
No intuito de apresentar as entrevistas, aponto, inicialmente, que as narrativas foram
explanadas na íntegra. Os depoimentos dos sujeitos/narradores estão entremeados com minhas
40
falas e afetações. Objetivando uma melhor clareza e compreensão na leitura do texto, utilizo
como recurso a cor vermelha para diferenciar a minha fala das demais.
O público participante deste estudo foi composto por homens pais adotivos que
frequentam as reuniões do Grupo de Estudo e Apoio à Adoção – GEAD/Recife. Para tanto,
inicialmente, foi feito um contato com a Instituição GEAD a fim de expor o objetivo deste
estudo, solicitar sua anuência para que os pais adotivos participassem da pesquisa, e agendar
datas e horários possíveis para a realização das entrevistas. Entrei em contato individualmente
com cada sujeito/narrador, no intuito de confirmar sua concordância em participar da mesma.
As entrevistas foram realizadas em horários convenientes para eles e em local previamente
determinado, a saber, a casa de Rui para a entrevista do mesmo e o espaço de realização das
reuniões do GEAD para a entrevista com Davi.
Em minha experiência como estagiária passei a me debruçar com as singularidades
que permeiam o universo da adoção. Inquietada com isso, escolhi entrevistar um homem pai
solteiro e outro casado, que compõem, respectivamente, uma família monoparental e nuclear.
É importante ressaltar que conheci Davi e um pouco de sua história nas reuniões do GEAD.
Rui, diferentemente, o vi apenas uma vez no grupo acima mencionado e lembro que me
chamou atenção aquele homem entrando com um filho com necessidades especiais no braço.
Em contatos mantidos com a coordenadora do GEAD, foi me indicado alguns nomes de
possíveis participantes desta pesquisa. Dentre as recomendações Davi e Rui adotaram o lugar
de co-autores deste estudo, narradores da experiência de ser pai adotivo.
Após terem lido e assinado o Termo de Consentimento Livre Esclarecido, os
depoimentos foram colhidos a partir da seguinte questão provocadora: “Como é, para você, a
experiência de ser pai adotivo?”. Destacamos que, mediante a aceitação dos participantes, as
entrevistas foram áudio-gravadas. Visando a garantia do anonimato, para todos os
personagens envolvidos na pesquisa foram utilizados nomes fictícios. A autenticação das
narrativas aconteceu um mês após a realização das entrevistas. Para tanto, as narrativas
literalizadas foram lidas pelos sujeitos/narradores para que acontecesse a autenticação da
mesma, condição para que fossem utilizadas neste trabalho.
Para melhor compreensão de sentido das narrativas colhidas, lançamos mão de um
procedimento técnico, utilizado por Santos (2005) e que está sendo construído em projetos de
mestrado e doutorado dos alunos do Laboratório de Psicologia Clínica Fenomenológica
Existencial - LACLIFE/UNICAP e do Laboratório de Estudos e Prática em Psicologia
Fenomenológica Existencial - LEFE/USP. Essa metodologia proposta para pesquisa de
prática psicológica nos dá suporte para realizar os seguintes passos: Após a colheita dos
41
depoimentos, as narrativas foram transcritas, eliminando indícios identificatórios, no intuito
de garantir o anonimato. A posteriori, os depoimentos foram literalizados, ou seja, colocados
no formato de texto, retirando os vícios de linguagem e procurando apreender o sentido da
realidade ali dito, revelado. As narrativas já lidas, literalizadas, foram apresentadas,
individualmente, aos narradores para que pudessem fazer o reconhecimento de sua fala,
legitimá-la, podendo fazer, caso desejem, as alterações necessárias para a autenticação. Por
fim, iniciei um diálogo com os depoimentos, como possibilidade de compreender a questão de
vivenciar a experiência de ser pai adotivo, articulando-os à luz da minha afetação e a partir de
conhecimentos prévios encontrados.
Para a interpretação/compreensão dos fenômenos desvelados, o método de análise das
narrativas foi a “Analítica do Sentido” de Critelli (2007). Orientada pelos pensamentos de
Martin Heidegger e de Hannah Arendt, a referida autora, apresenta a fenomenologia como um
novo chão possível que, ao dirigir-se para o real, investiga a compreensão do sentido do ser. O
sentido de ser, apontado por Critelli (2007, p. 146), é “um rumo que apela, uma solicitação
que se faz ouvir, um apelo obstinado que se insinua e persegue”. Deste modo, esta pesquisa
expõe a construção de sentidos da experiência de homens pais adotivos não como sinônimo
de significado, mas como destino, direção do existir para aquilo que se busca compreender.
Abaixo está uma explanação sumária das cinco etapas de “movimento de realização”,
conforme o olhar de Santos (2005, p.92 e 93):
a) Desvelamento – modo como serei afetada, enquanto pesquisadora, pelos
depoimentos dos sujeitos/narradores (o momento da afetabilidade, ou do sentido
sentido).
b) Revelação – vem do impacto que o desvelamento do fenômeno provoca. No
entanto, aqui, a questão já estará no nível de revelação porque já estarei, como
pesquisadora, na busca de um sentido (o momento da compreensibilidade, pelo qual
o sentido sentido se transforma em significado sentido).
c) Testemunho – é a literalização (dizer a partir das palavras dos sujeitos/narradores).
Neste momento, darei à mostra o que me será revelado; isto é, a partir do
depoimento, estarei dando o testemunho do que se revelou (o momento da
comunicabilidade, pelo qual ocorre a expressão do significado sentido).
d) Veracização – será o início da minha dissertação. Nesse momento, darei o meu
depoimento acerca desses passos anteriores, articulando-o com os conhecimentos
prévios encontrados durante essa produção. Propriamente se pode dizer que será o
momento da mostração da minha compreensão (mostração argumentativa na minha
pesquisa) ou, simplesmente, o início da mostração do sentido.
e) Autenticação – é o momento que, por fim, levarei a minha pesquisa a público,
autenticando-a.
Em meio a tudo isso, o lugar do pesquisador não é o da neutralidade, mas sim da
afetabilidade provocativa, condição inerente ao eu. Na pesquisa, “pesquisador(a) e sujeitos
42
são co-autores, uma vez que não é só o(a) sujeito/narrador(a) que se mostra em seus
depoimentos, mas também o(a) pesquisador(a) precisará mostrar-se” (SANTOS, 2005, p.93).
Por fim, e não menos importante, esta pesquisa se mostra também como interventiva,
configurando-se num estar-entre, uma relação entre teoria e prática, pesquisa e ação, com
vistas a construir um conhecimento científico e a ofertar um cuidado psicológico, este último
entendido enquanto atitude, reportando ao sentido de solicitude, atenção para com o outro.
4.2 A experiência de ser pai adotivo entre (vistas)
4.2.1 Rui: conjugando afetos na adoção monoparental
Ellen – Como é... para você... a experiência de ser pai adotivo?
Rui – Em primeiro plano eu não me sinto pai adotivo... eu me sinto pai mesmo!!! Eu nunca
tinha pensado em adotar... e muito menos uma criança especial! Não sei se com os outros pais
adotivos foi assim! No GEAD eu vi uma experiência dessa... quando um casal que estava em
busca de adotar e olhou a criança sentiram aquele fluxo... aquela energia!
O primeiro fenômeno que aparece é a não identificação de Rui com a paternidade adotiva.
Será um sintoma de uma crença socialmente apreendida que cerca a adoção, por todos os
lados, de preconceito? Por que baixar o tom de voz quando se fala a respeito da adoção?
Quais os motivos para que tal palavra seja ocultada do discurso? Quando Rui diz “eu não me
sinto pai adotivo... eu me sinto pai mesmo!!!”, será que estava querendo articular a
paternidade, pela via da adoção, como de segunda ordem? Esse tipo de posicionamento reflete
uma cultura que supervaloriza os genes como “verdadeiros”, em detrimento dos laços
afetivos. Em contraposição a essa norma, autores como Dolto (1998), Weber (2011) e Paiva
(2004) colocam a adoção afetiva em sobreposição à ligação biológica, de modo que é por
meio da afetividade que é possível ser família.
Rui – Eu fui visitar o abrigo onde conheci Caio... através do Centro Espírita que eu faço
parte! Fomos fazer uma festa lá e eu não sabia nem que era de crianças especiais! Quando
chego lá... me sinto muito interessado em continuar o trabalho... e o grupo todo foi convidado
a ser voluntário! Inclusive a fonoaudióloga disse que esperava que eu fosse voluntário por um
bom tempo, pois a outra pessoa que se prontificou para o voluntariado só ficou na Instituição
por dois dias! Eu senti que ia ser voluntário por muito tempo!
Rui – Eu sou enfermeiro... não sabia que tinha enfermaria no abrigo e lá... dei de cara com
meu filho e com mais quatro crianças! Na porta da enfermaria eu encontrei meu filho numa
cadeira do lado esquerdo... e outra criança na cadeira do lado direito... inclusive ela já morreu!
Quando eu cheguei só tive olhos pro meu filho... senti aquele impacto... senti que aquela
criança não era para estar ali! Achei que era só emoção porque ele era especial... aí visitei as
crianças... conversei com todas... mas quando fui saindo me deu vontade de pegar ele nos
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braços... abracei e ele deu uma risada... a coisa mais linda do mundo! Senti o coração
acelerado... uma coisa diferente! Eu disse as meninas que voltaria... sem nenhuma perspectiva
de nada... apenas a emoção que senti!
Rui – Voltei... fui continuando... continuando... como eu sou enfermeiro... dava um suporte lá
nas casas... dava banho nas crianças... e eu percebi que lentamente minha inclinação era para
cuidar mais do meu filho! Eu cuidava de todos com carinho... mas com ele eu demorava mais
no banho... eu conversava mais... ele se divertia muito comigo... botava na cadeira de roda...
colocava ele para tomar banho de sol!
Interessante o modo como se deu o encontro de Rui com a criança adotiva. Rui a todo tempo
sentiu-se direcionado para a criança, “senti que aquela criança não era para estar ali... senti o
coração acelerado...”. Rui, como enfermeiro voluntário, cuidava de todas as crianças, mas
tinha uma inclinação peculiar para Caio! Essa fala de Rui liga-se ao cuidado, no sentido de
estar à disposição das crianças do abrigo e de si mesmo. Esse inclinar-se para o outro abre
espaço para a intersubjetividade de cuidar-se cuidando. O cuidado é visto sob um viés
heideggeriano enquanto condição humana, dimensão ontológica, um modo-de-ser-no-mundo.
Desse modo, não existe humano sem o cuidado (HEIDEGGER, 2002). O cuidado assume
também o sentido de “atitude de ocupação, preocupação, de responsabilização e de
envolvimento afetivo com o outro” (BOFF, 2011, p.33).
Rui – Eu continuei sendo voluntário... fazendo o meu trabalho... e aquela coisa foi crescendo
dentro de mim... aquela coisa que eu nunca tinha sentido... sentimento de querê-lo... de cuidar
dele! Eu cheguei para menina da Instituição e perguntei se podia levá-lo para passar o final de
semana na minha casa... acho que já era prelúdio do que eu estava sentindo... queria saber
como seria ele fora do ambiente... como ele agiria... que tipo de trabalho eu teria... qual a
estrutura eu teria que ter para mantê-lo!
Será que nesse momento Rui desejava saber como a criança agiria fora do ambiente
institucional ou como seria ser pai cuidador e provedor dessa criança especial? Quais seriam
as reações de ambos diante desse novo modo de convivência? É sabido que a chegada de um
novo membro provoca modificações na constelação familiar, tendo em vista que a família é
um sistema aberto, que sofre interferências, trocas e passa por fases de adaptação (SARTI,
2004). Costa (2008) colaborou com essa ideia no sentido de que, como sistemas abertos, as
famílias permitem a entrada de membros por meio do nascimento, do casamento ou da adoção
de filhos. Ao estudar a dinâmica das famílias recasadas, a autora chega a compará-las,
conforme seus achados, a um longo processo de adoção entre duas famílias que exige
disponibilidade entre os membros, bem como maturidade e respeito às diferenças.
Rui – Ela disse que eu tinha que ser padrinho... isso fazia três meses que eu era voluntário lá!
Dei entrada no apadrinhamento... fiz entrevista... fui aprovado e comecei a levá-lo aos
sábados e domingos para casa! Um encanto!... adorei a experiência! Nas primeiras vezes eu o
levava numa boa para o abrigo! Achei que ia ser sempre assim... voluntário do abrigo...
padrinho dele! Me explicaram depois o que era o apadrinhamento... se for uma criança de
idade escolar você leva no domingo a tardinha porque na segunda a mesma vai para escola!
O envolvimento com a criança dentro da Instituição levou Rui ao apadrinhamento. Conforme
Souza (2008b, p.194), “o apadrinhamento afetivo é uma opção intermediária entre o
abrigamento e a destituição do poder familiar e a consequente disponibilização para a
adoção”. Essa atitude não demanda nenhum tipo de compromisso oficial, objetivando,
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portanto a convivência e trocas afetivas das crianças com os padrinhos. Seguindo essa linha
de pensamento, chama a atenção a motivação inicial de Rui, quando o mesmo afirma: “Nas
primeiras vezes eu o levava numa boa para o abrigo! Achei que ia ser sempre assim...
voluntário do abrigo... padrinho dele!”. Rui foi surpreendido com o crescimento do seu
interesse, expresso em afeto e necessidade de presença, de Caio.
Rui – Com três meses que ele estava vindo para cá eu mudei a estrutura da minha casa...
comprei tatame... berço! Eu notei que nesse tempo em que eu estava conhecendo o meu
filho... minha atenção estava se voltando toda para ele... em todos os sentidos!
Interessante que Rui teve que modificar alguns aspectos da sua vida para receber Caio. Do
encontro entre ambos veio o envolvimento como enfermeiro, depois como cuidador. Após
alguns meses passou a ser padrinho e teve que organizar e des-organizar o espaço físico de
sua casa para a chegada da criança, comprando berço e tatame. Em todo esse percurso Caio
estava sendo gestado e Rui mostrou-se disponível para ser-com essa criança. Souza (2008b,
p.136) refletindo acerca da chegada da criança na nova família, salienta: “nenhuma criança,
seja filha consanguínea ou afetiva, chega com um manual de instruções”. Diante disso,
questiono: quais são as mudanças com a chegada de alguém, do novo na vida dos humanos?
Ellen – Como assim?
Rui – Como se eu já estivesse vivenciado aquela situação!... é difícil explicar o sentimento!...
eu não sei!
Ellen – Como era que você se sentia?
Rui – Não era a sensação só de pai... era amor... o sentimento recíproco que existia entre eu e
ele! Ele tem uma ligação comigo enorme... pelo meu cheiro... minha voz... ele ri quando eu
digo que cheguei do hospital! Papai chegou!... aí ele começa a rir... modifica o
comportamento! Eu notei que ele foi se apegando... minha família foi gostando... não colocou
nenhum empecilho... e eu não tinha aberto para eles que seria pai adotivo! No quarto mês eu
senti falta dele aqui!
Durante o período de apadrinhamento, Rui já se sentia pai envolvido por laços de afeto. Ele
expõe que tal sentimento é recíproco e forte na pessoa de Caio! Acerca da ligação existente
entre pai e filho, Schettini (2008, p. 31) analisa: “O amor pelo filho adotivo é espontâneo e
decorrente de uma decisão pessoal [...] o filho adotivo é amado sem condição de
obrigatoriedade”.
Rui também afirma que o comportamento da criança é modificado com a sua presença, com o
afeto que ele expressa ao cuidar de Caio. Coloco a educação de um filho como uma atitude
adotiva e Schettini (2005, p.30) autentica essa ideia ao dizer que “nada prosperará
adequadamente no desenvolvimento humano sem que se fundamente no amor - amor a si
mesmo e ao outro”. Educação como atitude adotiva só é possível pela inserção do alimento
afetivo, indispensável para as trocas na entidade familiar, assim como para o crescimento dos
seus membros. Um aspecto relevante que Schettini (2007) sinaliza é o fato de que a literatura
mostra uma tendência a considerar as famílias adotivas “problemáticas” no que diz respeito à
educação dos filhos. A autora também expõe a incidência na clínica psicológica de pais que
procuram esse serviço a fim de “tratar” do filho adotivo. Seriam estes mais difíceis de educar
do que os filhos biológicos? A adoção provoca algum tipo de desajustamento no processo
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educativo? Quais os requisitos para uma educação satisfatória? Será que a adoção é
responsabilizada por mudanças que são próprias do humano? Seria a educação um canteiro de
obras que demanda constante revisitação de valores e práticas, por esse motivo não
apresentam diretrizes e cartilhas, mas sim perguntas, respostas e mais perguntas? Seria ela
algo da ordem do incompleto, afastando-se, com isso, do pai ideal, do filho ideal, do mestre
ideal?
Ellen – Durante a semana?
Rui – Sim... eu passava a semana inteira no hospital rezando para chegar a sexta-feira para
trazê-lo... e todo dia eu ia para lá... já que eu não podia trazer na semana!
Nesta fala percebemos que o projeto da paternidade para Rui passa a ser revelado. Após
alguns meses de convívio, Rui se percebe sentindo a falta da criança no dia-a-dia, tendo em
vista que o maior contato que tinha com esta ocorria nos finais de semana. Diante disso,
somos indagados a refletir acerca da necessidade de um dar-se conta, apropriar-se projeto
adotivo. Tal ponto de vista é assinalado por Schettini (2008, p.65) quando reflete: “só a
consciência do significado da maternidade-paternidade vai proporcionar o ambiente de
aprofundamento da relação filial adotiva”. O autor acima citado, aponta que nos encontros e
desencontros diários entre pais e filhos, muitas vezes, a apropriação da maternidadepaternidade são percebidas em sua fragilidade. Como exemplo ele cita a forma de nomear o
filho que alguns pais possuem. Ao usar a expressão “o filho, o menino” e não “meu filho”, os
pais o nomeiam de um modo, imparcial, indicando um distanciamento da relação parental.
Ellen – Você o visitava durante a semana... todos os dias?
Rui – Eu o visitava! Dava banho nas outras crianças... cuidava e o trazia na sexta-feira! E foi
ficando mais intenso... tão intenso... que com oito a dez meses de apadrinhamento... eu me
interessei a cuidar dele... ir à hospitais... à procura de médicos... facilitar o andamento das
coisas! Como resultado eu entrei com o processo de adoção... me deu essa vontade! Eu disse a
funcionária da Instituição... eu não consigo ficar longe de Caio... ela perguntou se eu tinha
certeza... respondi que sim... certeza absoluta! Eles me questionaram muito... disseram que era
um menino trabalhoso... eu disse que eu sabia o que é um menino trabalhoso! Ela disse... ele é
um menino trabalhoso!!... você se lembre que no apadrinhamento você está apenas nos finais
de semana preso em casa com ele... mas na adoção você não vai ter tempo para nada!
Com essa narrativa: “Eu disse a funcionária da Instituição... eu não consigo ficar longe de
Caio”, Rui traz à cena, a presença da falta de Caio. Seria esse um modo de mostrar-se da
paternidade para Rui? Estaria ele revelando as faces do processo adotivo?
Pensando nos desafios da paternidade, Lucado (2010, p.45) expressa: “Nenhum preço é alto
demais pela redenção de um filho. Não há energia grande demais, nem esforço intenso
demais. Um pai andará qualquer distância para achar seu filho”. A partir desse olhar, me
remeto à atitude de Rui que apesar de ser questionado mediante as dificuldades de Caio,
deixou clara a sua escolha de querê-lo por perto. Parece que Rui se mostra como a
exemplaridade desse “um pai” citado por Lucado (2010).
Rui – Eu viajei para a Timbaúba... para casa da avó dele... quando cheguei lá ao invés de
assistir os desfiles do meu antigo colégio... fiquei preso dentro de casa porque a babá não
pôde viajar! Então eu estou ciente de que perdi muita coisa... muitos amigos meus reclamam
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que eu não saiu mais! Eu não vou porque não tenho vontade de sair! Antigamente eu ficava
preocupado porque ele tem epilepsia também... crise noturna... eu tive que ir ao médico...
modificar a medicação... mas eu pensei que era por causa da limitação dele... das doenças...
mas não! Eu gosto de estar perto dele... não sinto vontade de sair sem ele e para estar indo
com ele é complicado... porque é um arsenal de coisas! Ele é gastromizado... não se alimenta
pela boca... então eu tenho que estar com a alimentação dele toda pronta... com frasquinho...
luva...gaze... com tudo! Eu posso ir ao shopping... dar um passeio de uma hora com ele... vou
na casa de um parente próximo... sempre respeitando ou alterando um pouquinho o horário
dele! Eu até sairia mais se ele se alimentasse pela boca!
Mediante as renúncias, Rui relata as dificuldades de uma adoção, pontuando perdas sociais e
relacionais que teve com a chegada de Caio. Souza (2008b) comenta que as chamadas
“adoções necessárias” são desafiantes, exigem cuidados constantes e investimentos de
naturezas diversas dos pais, além do preparo dos mesmos para proporcionar a ajuda que as
crianças necessitam. Rui vivencia essa realidade e coloca que as saídas com Caio são
complexas devido ao “arsenal de coisas” que é preciso para tirá-lo de casa.
Rui – Tudo isso eu vinha avaliando no apadrinhamento... você tem certeza se é isso que você
quer? Eu olhava para ele... conversava com ele... você gostaria de ficar aqui com... com...! Eu
não conseguia dizer titio... com seis a oito meses do apadrinhamento eu já dizia papai! As
vezes eu me esquecia e chamava na Instituição... as meninas escutavam e diziam para eu ter
cuidado! Eu não conseguia dizer titio!
Mesmo durante o apadrinhamento Rui reconhecia-se pai, contudo na seguinte narrativa: “você
tem certeza se é isso que você quer?” vejo o movimento de titubeio. Estaria ele questionandose a respeito de suas escolhas, do experienciar a paternidade adotiva? Inquietações como essa
são vistas como significantes para o processo de adoção. Em minha experiência, enquanto
estagiária de psicologia vi, por diversas vezes, homens e mulheres que não analisavam suas
motivações para a adoção. Desse modo, muitos chegavam às entrevistas psicológicas porque
o(a) cônjuge pediu, outros optavam pela adoção desejando diminuir a ansiedade frente às
dificuldades de reprodução, ou também chegavam com a demanda de “salvar” seu casamento.
Desse modo, é possível perguntar: as motivações expressas pelos pretendentes à adoção
repercutem na representação que eles terão do filho adotivo? Com relação a Rui, em meio a
dúvidas e possíveis ansiedades, estaria Rui passando pelo período da “gestação psicológica”,
de “fertilidade emocional e afetiva” (SCHETTINI, 1998)?
Ellen – Você se sentia titio?
Rui – Não! Durante o apadrinhamento eu já dizia papai... raras vezes eu disse titio... era
papai! E ele interage de uma forma que eu fico impressionado! Reage a minha voz! Quando
Caio faz uma traquinagem bota pra rir... eu digo... não faça isso Caio! Se ele ver que eu estou
falando... ele sente pelo meu tom de voz quando eu estou brincando... aí ele ri! Quando eu
falo sério... mas um sério que ele sabe que pode me pegar por ali... ele faz um bico desse
tamanho... funga... funga! Eu digo para ele não fazer isso... „papai está reclamando para você
não se machucar!‟ Eu o coloco no braço e ele cai na risada... porque sabe que eu não estou
brigando! Ele já sabe o meu limite... sabe que eu sou incapaz de fazer qualquer coisa com ele!
Rui – Não há nenhuma reclamação que eu faça que ele se sinta magoado... ele faz brincadeira
comigo... fica zonando como se dissesse eu sei que ele não vai fazer nada comigo! No
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banho.... eu tenho que parar as vezes porque ele rir tanto... se eu não parar... falta o fôlego
dele... fica azul de tanto rir!
A narrativa acima revela o modo como Rui educa Caio. As práticas educativas são aqui
entendidas como “ações contínuas e habituais realizadas pelas agências socializadoras, como
a escola e a família” (SZYMANSKI, 2003, p.56). A autora mencionada questiona a
responsabilidade do adulto para com a criança. Segundo ela, cabe aos pais humanos, ao
educarem sua prole, assumirem as responsabilidades tanto da vida dos seus filhos, em sua
potencialidade de talentos pessoais, quanto para com o mundo, tendo em vista que este está
em constante mudança e sofre os impactos das gerações. A partir disso, podemos refletir a
educação como reflexão sobre a realidade existencial. Em Freire (1975), temos a
compreensão da educação como alavanca de mudanças sociais, sabendo que a mesma traz um
coeficiente de esperança em meio a uma sociedade em constante modificação.
[...]
Ellen – Como foi o processo de habilitação para adoção?
Rui – Dei entrada na adoção... fiz de novo o protocolo... as entrevistas com psicólogo e
assistente social! E fui adaptando a casa...
Ellen – O que você precisou adaptar?
Rui – Coloquei esse tatame para ele brincar! Na casa tem que entrar descalço porque ele
coloca a boca no chão! Coloquei o berço dentro do meu quarto... não consigo deixar ele em
outro quarto... mesmo que eu coloque uma câmera ou uma babá eletrônica! Não sei se é
porque eu fiquei com trauma... deu uma crise convulsiva às duas horas da manhã! Aí ele fez
“hii”... só isso.. e eu acordei... e eu sou difícil de acordar! Eu percebi que meu comportamento
mudou todinho em prol dele! Se ele chorar ou fizer um movimento diferente... eu já sei
exatamente como ele age! O tipo de choro... de emissão de som que ele faz... eu sei se está
bem... se não está! Eu sinto tudo isso como se ele tivesse nascido nas minhas entranhas!
Na fala de Rui é revelado sua sensibilidade para com a criança. Mesmo tendo sono leve ele
acordou quando o seu filho estava “em apuros”. Do mesmo modo, ele assegura saber, com
precisão, o modo de ser do seu filho.
Quando Rui diz “eu sinto tudo isso como se ele tivesse nascido das minhas entranhas”, estaria
ele se aproximando da figura materna, onde a mesma, pela oportunidade de carregar o bebê
durante a gestação, é vista como tendo a habilidade de saber as necessidades de sua prole? É
válido trazer à tona que a filiação afetiva se dá em outra ordem, rompendo com o cogito
genético. Acerca disso são interessantes as palavras de Schettini (1998, p.66, aspas do autor):
“Na gestação fisiológica, o filho é formado dentro de um ambiente corporal; na „gestação
adotiva‟, o mesmo filho é plasmado no ambiente do psiquismo de seus pais”. Além desse
“amor incondicional” citado por Rui aparece também a questão de que o sentir não está
relacionado ao biológico, mas ele, por sua vez, faz conexão a questões biológicas: “nascido
nas minhas entranhas”. A comparação com a gravidez biológica me inquieta, posto que Rui
faz referência a essa experiência fisiológica para dizer acerca de seu sentimento diante do
exercício da paternidade. É como se a conexão com uma gestação biológica fosse a melhor
forma de expressar sua satisfação com a paternidade. Será que a paternidade torna-se mais
importante, se comparada a uma gestação?
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Tal pensamento coaduna com os achados de Vieira (2004), ao estudar a adoção em uma
população de classe média foi percebida a prevalência, na adoção, do desejo de imitar a
biologia. De acordo com a autora os adotantes desejam crianças menores e com características
físicas semelhantes às suas. A autora comenta que essa preferência está atrelada a uma
tentativa de reproduzir fielmente a experiência que teriam se houvessem concebido o filho.
Acerca disso afirma de maneira contundente: “entre aqueles em que esses temores acham-se
mais exacerbados, imitar a biologia é um artifício que os ajuda a conter as próprias
inseguranças” (VIEIRA, 2004, p. 117).
Rui – Eu acho que talvez eu seja pai e mãe! Essa experiência de pai solteiro significa isso...
que você consegue se desdobrar... ser pai e mãe ao mesmo tempo! O sentimento é dobrado!
Eu não sei como é a família composta de pai... mãe e filho adotado... eu frequento o GEAD...
escuto as experiências... mas em mim eu consigo identificar milhões de coisas no meu filho!
Consegui perceber várias coisas nele porque minha atenção é desdobrada para ele... não tem
ninguém por ele... só eu!
Nessa narrativa Rui apresenta-se enquanto pai solteiro, membro de uma família monoparental,
esta vista como um arranjo familiar composto por uma pessoa sem um cônjuge com um ou
vários filhos (SOUZA, 2008b). Nesse sentido, por ser pai solteiro e não ter a companhia de
alguém para partilhar as vivências e responsabilidades, Rui comenta que desdobra-se para o
seu filho. Esse movimento é pintado na figura de pai e mãe ao mesmo tempo. Será que
enquanto pai, apenas, Rui não daria conta das demandas do seu filho?
Ellen – E como é isso pra você?
Rui – Isso foi intensificado dentro de mim! Eu sou pai e mãe... sou a família! Eu consegui
estabelecer esse elo fortíssimo com ele! Se estou no hospital meu pensamento está nele! Eu
desenvolvo minhas ações normalmente... mas sempre estou ligando para saber como está.
Ellen – Quem fica com Caio no momento em que você está trabalhando?
Rui – São as duas babás! Fiquei com medo... porque um dia ele afrouxou o cinto da cadeira...
foi escorregando e quando eu vi... o cinto já estava preso no pescoço dele! Se deixar ele
arranca as coisinhas da cadeira!
[...]
Ellen – Você percebeu alguma mudança depois que Caio passou a morar contigo?
Rui – No abrigo eu o via fazendo apenas poucos movimentos... aqui ele cresceu... aumentou
de peso! O médico disse que ele não ia fazer nada disso! Ele vai para debaixo da mesa... se
embola todinho... entra no corredor... coisa que ele não fazia! Ele desenvolveu uma série de
coisas que não tinha antes no ambiente que ele estava!
Importante expor as mudanças de movimentos e crescimento físico que Caio passou. Schettini
(2007) narra que as trocas afetivas entre pais e filhos vão mudando o comportamento da
criança. O que o afeto con-sentido por Rui favoreceu para tal crescimento? Souza e Casanova
(2011) comentam a respeito da adoção de crianças especiais e narram que estas exigem
preparação dos pais adotivos. As autoras afirmam que os fatos evidenciam as admiráveis
49
mudanças ocorridas nestas crianças após serem afetadas pelo carinho. Diante disso questiono
o valor do afeto nas relações, seria ele um facilitador para mudanças? Acerca da peculiaridade
da adoção monoparental, as autoras acima referenciadas colaboram: “Os solteiros, por não
terem um relacionamento conjugal, terão grande disponibilidade afetiva. Em geral adotam
crianças maiores e estas correspondem satisfatoriamente a esse tipo de vivência se ajustando
muito bem à situação” (SOUZA; CASANOVA, 2011, p. 21). Esse pensamento reafirma o
posicionamento de Rui frente à adoção, ao ser membro de uma família monoparental,
revelando, com isso, a presença dos múltiplos arranjos familiares presentes na sociedade
brasileira.
Rui – Dia trinta e um de agosto desse ano saiu o registro dele! Olhei para ele pensativo e
disse... „mas meu filho... o que houve entre a gente... hem? Do nada você está na minha casa...
a gente formou uma família! Você lembra Caio quando eu cheguei lá no abrigo?‟... falei a
história todinha! Não sei se ele entendeu o que eu falei... mas simplesmente esse menino
começou a chorar!
Nessa narrativa, “Dia trinta e um de agosto desse ano saiu o registro dele! Olhei para ele
pensativo e disse... „mas meu filho... o que houve entre a gente... hem? Do nada você está na
minha casa... a gente formou uma família!‟” Rui patenteia o dito de Weber (2011, p.132): “os
laços de sangue perdem a importância e são construídos laços de ternura, laços de amor”. Por
esse prisma, é possível intuir que esse lugar implica a construção de um ethos familiar? E, por
conseguinte, não caberia perguntar, também, acerca do descompasso entre a realidade que se
apresenta sobre diversos arranjos familiares, que se dão no relacionar-se e a ainda presente
supervalorização da genética, da hereditariedade?
Rui – A mente humana é muito complexa... mas o nível de compreensão dele é
extraordinário! Ele estava entendendo o que eu estava falando! Eu continuei... vamos
agradecer a Deus por termos nos conhecido... você não está mais no abrigo! Vamos pedir
também a Papai do céu pelas crianças que estão ali... que provavelmente nunca serão
adotadas!
Ellen – Você pensa em adotar mais um filho?
Rui – Tem muitas crianças ali... são muitos casos! Se eu tivesse mais dinheiro eu adotava...
mas eles são muito caros e eu não tenho condições! Gosto de crianças... e gosto das de lá! As
pessoas dizem... isso é um menino trabalhoso! Eu respondo que não!... ele nunca me deu
trabalho! A ideia que as pessoas têm de adoção é errada... porque é filho de estranho!
Expressa o seu desejo de adotar mais crianças com necessidades especiais, contudo denuncia
o elevado custo financeiro, educacional, social de manter tais crianças. Outro aspecto exposto
por Rui e que merece destaque diz respeito à concepção de adoção como “filho de estranho”.
Para mim, o estranho anuncia a aproximação de algo que é assustador, que inquieta, dá a
sensação de insegurança e, por vezes, provoca medo. Estaria, pois, o filho adotivo, no lugar de
filho de estranho, lugar provocador de estranhamentos? Queiroz (2004) em seu artigo O
“estranho” filho adotivo, comenta que a origem do filho ocupa uma questão central na
sociedade e no imaginário dos pais adotivos. A conotação de estranho aparece na adoção e
derruba muralhas que foram erguidas sob o solo das garantias genéticas, hereditárias. Seria a
adoção um modo de entrar em contato com o estranho do outro e dentro de nós? Um chamado
a afirmação do múltiplo, a mostração das diferenças? Poderia ser compreendida como uma
configuração familiar onde a alteridade se faz familiar? Como lidamos com isso? Comumente
50
o estrangeiro é mantido longe para não incomodar. Pois, “o difícil é conservar-se na
proximidade do estranho, neste espaço potencial em que, acolhendo-o e hospedando-o
podemos nos fazer e refazer com base em uma experiência que é sempre mais ou mesmo
incômoda” (FIGUEIREDO, 1996, p. 74). Vemos a dificuldade de conviver com a alteridade
nos mais diversos âmbitos da vida humana, mesmo sabendo que a mesma é condição
fundante dos processos se subjetivação.
Olhando para a conjugalidade Costa (2005) reflete acerca do estranho outro nas relações
conjugais e destaca que a tensão entre ser si mesmo e ser-com o diferente. A autora expõe que
tal dificuldade de lidar com a incompletude reveste-se de complexidade por estarmos
inseridos em uma sociedade narcísica que resiste em aceitar suas faltas.
Ellen – E você... o que acha a respeito da adoção?
Rui – Para mim essa palavra não deveria existir! Quando eu entrei no cartório para fazer o
registro... para mim eu estava entrando numa maternidade... como se ele estivesse nascendo!
Então... se você tem esse sentimento... você consegue driblar uma série de problemas que as
vezes é discutido até no GEAD com relação às crianças que sabem que estão sendo adotadas!
São vários questionamentos que os pais fazem lá... meu filho não me questiona porque não
fala... mesmo que falasse tenho certeza que não me questionaria! Porque eu tenho certeza que
ele se sente filho!
Na narrativa: “Para mim essa palavra não deveria existir! Quando eu entrei no cartório para
fazer o registro... para mim eu estava entrando numa maternidade... como se ele estivesse
nascendo!” Mais uma vez aparece a ideia de adoção como forasteira. A maternidade citada
por Rui aponta para o local onde o filho nasce. Contudo, é oportuno apontar que o filho
adotivo “não vem de fora, vem de dentro” (SCHETTINI, 2008, p.17), advém de uma gestação
afetiva, do desejo de ser pai e ter filho. Comungando do mesmo pensamento, Lucado (2010,
p.15) ressalta: “a decisão de ser pai não é apenas de sala de parto. É uma decisão diária”. A
escolha diária de ser pai corrobora a diferença alocada entre genitor, como aquele que gera e
pai enquanto presença e investimento.
Na continuidade de seu depoimento comenta: “... meu filho não me questiona! Porque eu acho
que ele se sente filho!”. Para sentir-se filho é preciso não questionar? Será que Caio, nas suas
limitações, pode questionar seu pai? Parece que Rui está falando que ser pai se manifesta pela
afetividade, é na relação de sentir-se filho que se revela a presença do pai.
Ellen – Me fala mais a respeito desse sentimento de pertença que você diz que Caio tem...
enquanto filho!
Rui – Uma experiência que eu tive foi no aniversário dele... dia trinta e um! O irmão dele veio
para comemoração! Quando eu estava no apadrinhamento... o pai dele veio aqui em casa duas
vezes com o outro filho! O pai ia toda semana ao abrigo visitar!
Ellen – Então quer dizer que você conhece a família biológica de Caio!
Rui – Sim!... só não conheço a mãe!
Ellen – Você sabe dizer qual o motivo para Caio estar no abrigo?
51
Rui – Ele é especial... e os pais perderam a guarda por causa de alcoolismo e outras coisas...
foi uma denúncia! Quando o conheci... ele tinha apenas sete quilos!
Eles
não
têm
condições de criar a criança! Se eu gasto dois mil reais e cacetada por mês com ele... o pai que
trabalha de bico... jamais tem condições de sustentar o menino... como ele realmente precisa!
Nesse momento Rui denuncia a dificuldade de ter filho com necessidades especiais e não
possuir uma renda estável. A narrativa de Rui denuncia que as adoções de crianças com
deficiência são praticamente destinadas para famílias que possuem uma condição econômica
privilegiada, devido ao custo elevado dos tratamentos e medicações. Estaria aqui a revelação
da necessidade de Políticas Públicas voltadas para crianças com deficiências, favorecendo
com a ajuda do Estado que outras pessoas assumam a paternidade adotiva?
Rui – Na época do apadrinhamento o irmão dele vinha aqui... Caio ria com o irmão...
brincava! Já o pai não tinha contato com ele... só dizia „Caiozinho... papai está aqui!‟ Ele
colocava no colo... eu afirmava que ele podia descer com o filho... porque eu não era pai
ainda... mas a babá ia junto! Acho que no segundo encontro quando ele veio aqui e sentiu que
Caio estava muito bem... apesar de ser só um apadrinhamento... deixou de vim!
Ellen – E hoje você tem notícias... contato com essa família?
Rui – O irmão de Caio está em fase de adoção com outra família! No aniversário de Caio eu
os convidei para vim aqui! É mais fácil eles aqui... do que eu sair com Caio... porque é uma
série de coisas! E convidei o irmão dele para passar um fim de semana aqui... mas nunca veio!
Eles vierem no aniversário e eu senti que Caio estava na dele... é como se ele tivesse se
desligado da família! É como se ele dissesse... „o meu pai... o que me ama... é esse que eu
estou aqui!‟ Eu senti que ele ficou na dele... quietinho... não sorriu com o irmão... e nas fotos
ele está todo sério! Eu não sei o que ele sentiu ali... sei que ele agiu diferente com o irmão... já
que o pai não veio! Eu louco que o pai viesse para saber a reação! [...] As pessoas que me
acompanham desde o apadrinhamento... quando olham para Caio hoje dizem que eu fiz
milagre! Eu respondo que não fui eu... é o amor! Essa interação... esse equilíbrio... é como se
a gente nunca estivesse estado longe um do outro! É como se estivesse nascido de mim
mesmo... não sei como é isso... sei que ele se sente muito bem... tanto que se eu pegar ele...
botar na cadeirinha e levar para sua casa ele fica quietinho! Mas é ele chegar aqui... quando eu
abro a porta do apartamento... ele sente o cheiro da casa dele pronto!
Na narrativa “é como se estivesse nascido de mim mesmo”, novamente aparece a questão
biológica! Estaria Rui simplificando sua ligação de parentesco com Caio aos laços
sanguíneos? Torna-se pertinente perguntar sobre o peso do sangue na nossa sociedade que
ecoam e afetam os modos relacionais, em destaque, os familiares. Diferentemente desse olhar,
compreendo a família como um conceito unívoco, mas sim numa perspectiva sociocultural,
dinâmica que abranja os variados laços existentes, afirmando, assim, os modos de ser-família,
de vinculação entre as pessoas. Santos (2005, p.35) ao olhar, fenomenologicamente, para essa
realidade, afirma que é preciso atentar para “o que se mostra no fenômeno de ser-naconvivencialidade-entre (no ser-na-relação-familiar)”.
Ellen – Se sente a vontade em casa!
Rui – Fica aquela agonia! E esse comportamento agitado que você viu agora não é usual...
essa hora não! Ele acabou de tomar remédio... já estava abrindo a boquinha! Então... por quê?
52
Ele me ouviu dizendo que o pessoal que vai fazer a entrevista sobre adoção estava chegando!
Ele ouviu e acho que entendeu... então pensou... „vão falar de mim!‟... é isso que eu sinto!
Rui – Uma coisa que sou louco para ouvir... mas que só ouvi pela metade é papai! Ele não
diz... mas ele entende o que eu peço para ele tentar falar! Eu digo „Caiooo... fala papá!‟... ele
para... escuta... mexe os lábios como se quisesse falar e faz... „á á‟... mas não consegue emitir!
Nessa narrativa Rui revela a importância da expressão do afeto do filho para com ele... ele
gostaria de ouvir a palavra papai! Existe toda uma expectativa no meio familiar para a
chegada das primeiras palavras da criança, configurando-se em um momento marcante.
Comumente os pais investem na tarefa de estimular seus filhos à linguagem, assim como o fez
Rui. E como é para um pai querer escutar alguém o chamar assim e a palavra não é
verbalizada?
Ellen – Como você se sente ouvindo isso?
Rui – Para mim é um presente de Deus! Eu acredito que no íntimo dele... ele está dizendo
papai... só que ele não consegue expressar! Mas só o fato dele dizer „á á‟!
Ellen – Ele não consegue expressar verbalmente!
Rui – Isso!!... nem sempre verbalmente é preciso expressar... só o sorriso que ele dá! Ele tenta
mesmo dizer... se você vê o esforço que ele faz! Tem uma senhora que diz que meu filho
ainda vai falar! Toda vez que eu estimulo... ele faz „á á‟! Uma vez só ele conseguiu emitir pá!
Eu disse que fiquei muito orgulhoso dele!
Ellen – Como foi nesse momento?
Rui – Eu chorei nos braços dele... fico logo me derretendo! O povo diz que sou pai coruja!
O que é ser pai coruja? Seria, para Rui, compreender e reconhecer o esforço do filho?
Acreditar que é entendido por Caio? Chorar nos braços do filho?
Ellen – Você acha?
Rui – Sim!
[...]
Rui – Eu não sei o que os outros pais acham da palavra adoção... mas na minha mente não
existe!
A história revela que desde a gênese da humanidade a adoção se fazia presente, como por
exemplo, entre os indígenas, os esquimós, no Código de Hamurabi (SOUZA, 2008b). Qual o
sentido para disfarçar a adoção, para evitar colocá-la no discurso? Segundo Lucado (2010,
p.59): “Diga-me se isso não descreve o nosso mundo. Desde que Eva colheu folhas de
figueira para vestir Adão, nós temos ocultado nossas verdades”. Nesse sentido de ocultamento
da verdade acerca da adoção, Weber (2011) aponta que mesmo com a existência da adoção
desde o início dos tempos, ela foi sempre um tema obscuro, tratado geralmente na intimidade
53
das famílias. Desse modo, a autora afirma que, muitas vezes, a intenção dos pais é proteger a
si mesmo e a criança com relação à filiação adotiva.
Ellen – Você sabe o que significa adoção?
Rui – Adotar significa você trazer ao seu convívio e colocar um pedaço do seu coração
naquela pessoa que está vindo fazer parte da sua vida! Se você for casado... nas vidas como
filho querido e amado sem distinção de sangue!
Apoiada numa perspectiva fenomenológica existencial, concebo o homem enquanto um ser de
possibilidades. A existencialidade é o que torna possível os desdobramentos e transformações
constantes. Sendo assim, esse homem se constrói e desconstrói na intersubjetividade, a partir
de relações consigo, com os outros e com o mundo. A adoção, para Rui, aparece como uma
das possibilidades de ser pai, de se construir família. Desta feita, a decisão por tornar-se pai,
solteiro ou casado, ultrapassa a questão consanguínea. A partir de tal premissa, ser/tornar-se
pai vai além de uma consequência natural de procriação e passa para o âmbito das escolhas,
da vinculação afetiva. Esse pensamento tem ligação com a leitura acerca do fenômeno
família: Umas das máximas de Auguste Comte3, filósofo francês, sobre a família é: “Não
existe, como princípio, família sem sociedade, como sociedade sem família”. Registros de
diferentes épocas e culturas revelam seu valor indiscutível. A este respeito, Souza (1997,
p.20) assevera: “Embora com características específicas a cada momento de seu ciclo vital, a
família permanece com uma função básica, qual seja, a de preservar a integridade física e
emocional de seus membros e do próprio grupo”. Por outro lado Moreno, (1978, p.114) em
sua teoria sociopsicológica, apresenta como eixo fundamental o conceito de Matriz de
Identidade, ou seja, “[...] a placenta social da criança, o lócus em que mergulha suas raízes”.
Partindo desse olhar, Santos (2005) afirma que a família só pode ser compreendida em seu
contexto cultural, não se restringindo às noções de parentesco, uma vez que como “placenta
social”, se mostra como “família sociométrica”, isto é, “lugar de convivência afetiva baseado
nas próprias escolhas” (KAUFMANN, 1993, p. 46).
Ellen – A descrição que você acabou de fazer... ao meu ver... está bem próxima da tua
história!
Rui – Não sei se é a palavra... se eu tenho algum preconceito... eu não me sinto pai adotivo!
As pessoas que me conhecem quando perguntam se eu adotei uma criança eu digo que não... é
meu filho! Talvez eu nunca tenha gostado da palavra adoção!
Será que a palavra adoção afasta-o de ser pai? Ressalto como recorrente às falas de Rui uma
questão que me desperta a atenção: o preconceito com relação à palavra adoção. Inquieta-me
a presença desse preconceito pessoal, social. Diante disso, lembro-me das palavras de Albert
Einstein4 “é mais fácil quebrar um átomo que um preconceito”. Isso me faz pensar que,
embora a sociedade esteja permeada pela adoção, o olhar social para essa questão acontece de
modo preconceituoso. Não será por isso que Rui não se vê como pai adotivo, como se ao
reconhecer-se como tal não seria pai mesmo?
3
Disponível em: <http://www.coladaweb.com/biografias/auguste-comte>. Acesso em 25 de setembro de
2011.
4
Disponível em:
<http://pensador.uol.com.br/e_mais_facil_quebrar_um_atomo_do_que_um_preconceito>. Acesso em 11 de
outubro de 2011.
54
Ellen – De fato... a palavra adoção é carregada de preconceito no meio social!
Rui– Talvez seja por causa disso... eu não sei!
Nesse diálogo, Rui revela novamente seu receio quanto à palavra adoção. Ele afirma que a
palavra não existe em sua mente e, após a intervenção realizada, associa o seu posicionamento
ao preconceito existente no meio social. Em pesquisas realizadas por Weber (2004, 2011)
com pais e filhos adotivos, foi visto que preconceitos são causadores de mitos e fantasias
negativas sobre a adoção no Brasil. Dentre os achados, a autora menciona o preconceito
direcionado à adoção de crianças maiores, de cores diferentes dos pretendentes, dificuldade de
falar acerca da origem biográfica, temor de serem discriminados socialmente e medo de
psicopatologias hereditárias, maior procura pela adoção “à brasileira”, afirmando que o
Judiciário é demorado e burocrático. Com relação a isso, Schettini (2007, p.23) comenta: “a
escassez de estudos científicos no Brasil, principalmente quantitativos, determinou que a
adoção fosse tratada de forma preconceituosa, alimentando fantasias e mitos”. Nesse sentido,
esta pesquisa mostra-se relevante social e academicamente ao divulgar a cultura da adoção
como uma modalidade de arranjo familiar, em detrimento a preconceitos e crendices que
dificultam e impedem a adoção. É sabido que as sociedades, em geral, são tatuadas pela
diversidade, olhando para essa realidade, Louro (2004, p.51, aspas da autora) salienta: “as
sociedades da modernidade são caracterizadas pela diferença, elas são atravessadas por
diferentes divisões e antagonismos sociais que produzem uma variedade de diferentes
„posições de sujeito‟ – isto é, de identidades – para os indivíduos” (LOURO, 2004, p. 51,
aspas da autora). Mediante a isso, faltaria a noção de alteridade entre os indivíduos?
Questiono a noção de normalidade: afinal, quem/o que seria normal e quem/ o que seria
diferente?
Ellen – O significado dela nos dá a ideia de opção por aproximação...!
Rui – Exatamente!
Ellen – A todo tempo você me relatou que optou por se aproximar de Caio!
Rui – Mas é tão forte essa opção... essa aproximação... que eu não o consigo imaginar sem ser
filho amado... como se ele fosse meu mesmo!
Esta narrativa nos inquieta no sentido de parecer que ser filho para Rui aparece como posse.
Questionamos: o que permeia estas relações ditas “tão fortes” entre pais e filhos? Será que
esse sentimento de posse acentuasse em casos de adoção? Dolto (1998, p. 92) afirma que: “a
adoção não significa posse, como tampouco o filho genético é posse de seus genitores”.
Ellen – A via da adoção é um modo de se ter filho mesmo!!!
Rui – Não sei com outros pais... mas é uma sensação de pai mesmo! Eu disse a minha irmã...
quando ela foi comigo buscar o registro... estou me sentindo como se estivesse entrando na
maternidade... como se meu filho estivesse nascendo! Eu tive acesso ao processo... só li a
primeira parte... era terrível! Falava de como ele chegou ao hospital e depois no abrigo! Só li
a primeira página... parei ali! O passado dele está morto... o meu filho nasceu no dia trinta e
um de agosto de dois mil e onze!
55
“O passado dele está morto... o meu filho nasceu no dia trinta e um de agosto de dois mil e
onze!”, esse discurso nos chama a atenção: revela-se aqui a negação da história de Caio? Esse
posicionamento vai de encontro à importância de não negar a história pessoal da criança.
Visto que, para constituir-se como sujeito, o homem necessita de uma história que lhe seja
própria. Importante ressaltar que nessa tentativa de negação da história de Caio, Rui nem se
dá conta de que a existência de Caio é anterior a sua paternidade. No caso da adoção, a
criança carece estabelecer ligações com sua origem, sua história pessoal, para poder crescer
com bases seguras. Conforme Schettini (1998, p. 171), “quando os pais não negam a história,
passam a ser participantes ativos da vida do filho. Tornam-se, verdadeiramente pais”.
Contudo, não podemos deixar de lado que na história de pais e filhos por adoção ocorre o que
Levy (2005) chama de “novo nascimento”, o momento em que os pais festejam sua inserção
na história da criança, inaugurando, com isso, a nova filiação.
[...]
Rui – Eu me sinto assim... pai! Pai... paizão mesmo... até besta demais! Eu amo essa criança
com todas as minhas forças... como se fosse capaz de dar a minha vida por ele! E tem lugar
para mais! Tem mais duas crianças no abrigo que eu adoro... são crianças que eu sei que com
uma dose imensa de amor melhoraria muito!!... mas não posso!
Ellen – Então você continua frequentando o abrigo onde conheceu Caio?
Rui – Eu sou quase funcionário de lá! Inclusive a Assistente Social falou que eu não adotei
um filho... mas sim uma Instituição! O mesmo amor que eu tenho para com o meu filho...
tenho com todos lá!
Ao adotar uma Instituição, trabalhando enquanto voluntário, Rui mostra a amplitude da
adoção e patenteia o valor social desta. Ao prestar atendimento às crianças e adolescentes do
abrigo ele exerce uma atitude adotiva e coloca-se como agente social e de transformação
naquele contexto social, doando-se afetivamente, bem como ofertando seu tempo e
conhecimentos. Por atitude adotiva, entendo um fazer-acontecer de inclinação ao outro, de
acolhimento, de abertura, de respeito e ternura. Seria essa atitude que os homens precisariam
desenvolver em suas relações consigo e com o mundo? A escassez de tal atitude leva à
violência, ao descaso, a indiferença frente às demandas sociais?
Ellen – Caio vai até lá também?
Rui – Ele não gosta e isso me preocupou! Uma vez levei Caio numa festa lá... daí a médica
queria falar comigo a respeito de uma coisas... e eu o coloquei no antigo berço que ele ficava!
Quando ele parou de ouvir minha voz... a porta fechou... ele começou a ter uma crise de choro
mesmo! Agitou-se todinho... foi como se ele tivesse sido abandonado! Me chamaram dizendo
que ele estava agitado... quando eu cheguei ele estava berrando!
Ellen – Interessante! Ele estava no lugar que há tanto tempo esteve!
Rui – Ele sabia... ele não gosta de enfermaria! Ele pode está onde for... mas quando ele ouve
a minha voz dizendo... papai está aqui... ele se acalma! No abrigo... quando o levo para as
festinhas... ele bota para chorar... já em outras festas que não seja lá... ele não chora! É como
se ele guardasse reminiscência de que ali não tinha família... era mais uma criança! Eu acho o
nível de compreensão dele muito bom para ter o que tem!
56
Rui – Fora isso... não sei o que te dizer mais!
Ellen – E sua família como esteve em todo esse processo?
Rui – Fiquei com medo no começo! Cinquenta e três anos... sozinho! Quando eu pensei em
adotar me inscrevi escondido... eu comecei a pegar ele na quinta-feira e ficar até o domingo!
Fui testando a família... trouxe minha irmã mais velha... ela ficou louca por ele... viu o
desenvolvimento dele... conquistei uma! Trouxe também minha irmã lá de Carpina...
conquistei outra! Faltava a minha mãe!... ela disse... „menino do céu!... tu tem tempo para
cuidar dele?‟ Eu disse que sim!... tem também a babá que me ajuda! Eu não disse a palavra
adoção... disse... mamãe... eu estou com vontade de tirar ele de lá para vir morar comigo! Ela
perguntou se eu tinha certeza que era isso... respondi... „eu acho que eu tenho mamãe!... eu
estou avaliando!‟ „Mas você sabe que vai dar muito trabalho... não é? Vai ter que ter uma
pessoa direto... de noite!‟ Minha irmã pegou uma crise de Caio uma vez... ela foi comigo para
o hospital!
Ao afirmar, “Eu não disse a palavra adoção... disse... mamãe... eu estou com vontade de tirar
ele de lá para vim morar comigo!” - O que o impediu de dizer a palavra adoção a sua mãe?
Seria receio, preconceito de dizer que o filho será adotado? Souza e Casanova (2011, p.80,
aspas das autoras), afirmam que o preconceito com a adoção é sentido na linguagem popular:
Filho adotivo não é filho de verdade, não tem o sangue da família e ainda nasce do
coração! São conceitos que precisam mudar, pois esta criança ou jovem não é
„fantasma‟. Dizendo que o filho nasceu do coração já o torna um ser diferente.
Interessante que Rui faz uma visitação constante a esse tema da não revelação da adoção.
Desse modo, são trazidos mais uma vez à cena os tabus que rondam a adoção como algo fora
da norma decorrente dos vínculos sanguíneos. Isso confirma a importância da divulgação da
história de personagens da adoção, pais, filhos, familiares e profissionais envolvidos, com
vistas a uma nova perspectiva frente à adoção.
[...]
Rui – Depois que eu tinha falado com mamãe... chamei todo mundo e disse que eu ia adotar!
Aliás... eu os informei... „minto... eu já me inscrevi na adoção!‟ Ninguém disse nada! Ele foi
quem conquistou a minha família! O comportamento dele... o riso... é como se ele estivesse
dizendo assim... „eu estou vindo para ficar!... vocês gostem de mim ou não!‟ Todos são loucos
por ele!... quando minha família vem das cidades onde moram passam aqui para vê-lo! Minha
irmã vem todo dia aqui em casa dará um bom dia a ele... conversa com ele!
Na narrativa anterior a esta Rui nega a adoção, entretanto, aqui, assume ao dizer: “chamei
todo mundo e disse que ia adotar!” Sabe-se a importância da concordância entre os familiares
sobre a adoção, o que é tido de capital importância para o desenvolvimento psíquico e
emocional de uma criança. E, segundo a narrativa de Rui, Caio “conquistou” e tornou-se
membro da família! Esse fato enfraquece o mito dos laços biológicos como unicamente
verdadeiros, visto que não é o sangue que vai garantir o amor nem o bem-estar nas relações.
Segundo Badinter (1985, p.02) “o amor é conquistado”.
Ellen – Pelo que você fala... Caio foi aceito pela sua família!
57
Rui – Só os meus irmãos homens que são meio assim... é natural... não cuidam nem dos deles
direito! Mas gostam! Meus sobrinhos também gostam! Então... ele foi quem conquistou a
minha família! Eu já tinha feito o que tinha que fazer... só fiz trazê-lo! Todos ficaram felizes
quando o registro saiu! Minha mãe mesmo queria ver... ela disse... „meu nome está lá no
registro?‟ Eu disse que „sim... está lá como avó!‟ „É mesmo é?‟ Eu disse... „ele agora é neto
oficial!... se comprar presente para os outros netinhos... tem que comprar para ele!‟
Em sua narrativa Rui nos conta: “Só os meus irmãos homens que são meio assim... é natural...
não cuidam nem dos deles direito!”. Refletindo acerca dessa paternidade, estudos mostram
que muitos são os modos de ser pai, contudo as requisições de modelos hegemônicos,
situados em ordens de gênero, registram o masculino como provedor material e moral; o
feminino, por sua vez, é inscrito como provedor afetivo (OLIVEIRA, 2010; RODRIGUES,
2009). Seriam os pais adotivos rupturas desse “modelo tradicional” de paternidade? Estariam
os mesmos apontando para a emergência de novos e/ou outros modos de exercer a
paternidade?
Ao dizer: “Todos ficaram felizes com o registro... ele agora é neto oficial!”, é percebido que o
“filho, neto oficial” aparece com a chegada do registro e não pela via da adoção, do afeto.
Sendo a certidão de nascimento erigida como essencial ao exercício do direito à cidadania, vêse no Brasil a importância de se ter um nome, de possuir tal documento como modo de
registrar uma pessoa em uma filiação, grupo familiar e nacionalidade (FONSECA, 2004).
Conforme dispõe no Art. 27° do Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA: “O
reconhecimento do estado de filiação é direito personalíssimo, indisponível e imprescritível,
podendo ser exercitado contra os pais ou seus herdeiros, sem qualquer restrição” (BRASIL,
1990). Identificando a grande quantidade de pessoas que não possuem a paternidade declarada
na Certidão de Nascimento, o Projeto Pequeno Cidadão, desenvolvido pelo Poder Judiciário
de Mato Grosso objetiva possibilitar a crianças e adolescentes este direito. Para tanto, é
necessário a identificação desta demanda, a sensibilização das mães para tal importância e a
localização dos pais no intuito de estimular o reconhecimento voluntário da paternidade. Com
o mesmo foco de facilitar o reconhecimento da paternidade, o Governo do Estado de São
Paulo implantou o Projeto “Pai Legal” e a Corregedoria Geral de Justiça de Pernambuco
lançou no ano de 2011 a campanha “Seja o Herói do seu Filho” 5. Olhando para a paternidade,
Fonseca (2004) aponta como um procedimento comum a adoção à brasileira, onde o homem
registra como seu, de maneira ilegal, o filho da sua companheira. A autora comenta que estes
que, usualmente, são conhecidos como padrastos escolhem afetivamente a identidade de pai.
No caso de Caio, seria a emissão deste documento um modo de oficiar a pertença ao grupo
familiar monoparental de Rui, bem como no extenso, composto pela mãe do mesmo e seus
irmãos?
[...]
Ellen – Todo o processo demorou quanto tempo para que a adoção de fato... saísse?
Rui – Eu tive um choque muito grande... porque eu pedi para passar o mês de dezembro de
dois mil e dez com ele... eu pedi extra-oficial! A guardiã legal dele permitiu... que é a diretora
5
Estes
dados
acerca
dos
projetos
estão
disponíveis
nos
seguintes
sites:
<http://www.projetopailegal.org.br/index.asp>;<http://direito2.com/tjpe/2011/ago/8/campanha-dereconhecimento-de-filhos-comeca-hoje>; <http://www.tjmt.jus.br/cgj/Pagina.aspx?IDConteudo=3891>. Acesso
em: 10 de outubro de 2011.
58
da Instituição! Aí foi a minha prova de fogo!Eu já tinha entrado com o pedido de adoção...
mas estava passando pelo processo para a Habilitação com a equipe técnica! Aí chegou Natal
com mamãe... ano novo com a maior parte da família... viajando com ele! Ele passou o mês
inteiro comigo... dormindo e acordando! Eu olhei e pensei... „puxa vida!... é o que eu quero
mesmo!!... se eu tinha certeza... agora eu tenho mais ainda!‟
O mês de dezembro, chamado por Rui de “prova de fogo”, configurou-se como uma
preparação emocional para ele, no que diz respeito à adoção. Ele utilizou esse tempo para
abrir-se para acolher Caio, em meio às suas singularidades. A partir desse depoimento, olho
para a pluralidade, para o social no sentido de enfatizar a necessidade de preparação dos
pretendentes à adoção. A preparação e o acompanhamento no processo de adoção são visto
por Weber (2011) como imprescindível. Em casos de pessoas que adotam crianças com
necessidades especiais, a autora pontua que deve haver uma preparação peculiar, se possível
com a presença de cursos que falem acerca das particularidades e demandas da criança.
Weber (2011) ainda traz a importância dos pais adotivos serem engajados a Grupos de Apoio
à Adoção, tendo neste um espaço para se falar acerca de temores, sentimentos e expectativas
com profissionais e outros pais adotivos integrantes do grupo.
Rui – No dia cinco de janeiro a diretora me liga e diz... traga Caio imediatamente... que você
está sem cobertura legal! Quando eu ouvi essa frase... eu estava no hospital trabalhando e
perdi todo o controle!... eu disse... „meu Deus do céu!... vou levar Caio pro abrigo?‟ Eu não
entendia bem sobre a justiça... pensei que ele podia ficar aqui até sair a adoção... mas não
pode! Me deu uma agonia tão grande!!... como se eu estivesse perdendo um filho! Não
consegui mais trabalhar e fui embora! Quando eu chego nas escadas... a porta estava aberta e
escuto ele rindo aqui... me deu uma crise de choro! Pensei em não levar o menino... dei uma
de pai doido... fujo com ele... mas ele não volta pro abrigo!
Rui – Eu vinha notando que quando eu o buscava no abrigo era aquela alegria... mas minha
irmã percebeu... certa vez... que Caio estava chorando quando o levei ao abrigo! Quando eu
estou dirigindo... presto muita atenção no trânsito por causa dele... por isso não vejo muito as
coisas que ele está fazendo! Minha irmã disse.... „ele sabe que está voltando para o abrigo!‟
As meninas da enfermaria me diziam que quando eu deitava ele lá no berço e dizia ... papai
vem na próxima semana... ele ficava tão quieto e chorava as vezes! Quando o devolvi ao
abrigo foi como se eu estivesse perdendo o filho... como se ele estivesse morrendo!
É importante refletir acerca de questões que rondam o apadrinhamento afetivo. Sendo este um
possibilitador de vinculação afetiva por crianças abrigadas e um grupo familiar, quais são os
impactos após o seu desligamento? Será que a cada retorno à Instituição de Acolhimento será
reforçado o ciclo recursivo do abandono? Nestes casos, o que acarretam as intervenções
judiciais? Seriam sentimentos de perda da relação parental, assim como o foi para Rui?
Rui – Quando eu cheguei em casa eu disse... „o que é que eu faço? Se eu roubar o menino...
perco o emprego!‟ Aí... veio aquela luz na mente... „ligue para a assistente social!‟ Quando eu
abri a boca para falar com ela... cai no choro! Contei o que tinha acontecido... que tinha
passado um mês com ele.. mas que tive de levá-lo de volta! Disse que não queria me separar
dele! Ela disse... „espere!... acalme-se!... me dê dez minutos!‟ A assistente social falou com o
juiz responsável por ele... o juiz desceu pessoalmente no setor de adoção e concedeu a guarda
provisória! Ele pediu para bater toda a documentação... e disse que Caio não podia sair da
minha casa... inclusive ele tinha visto a melhora do menino no tempo em que ele estava
59
comigo! A assistente social me ligou para eu ir assinar os papéis e disse... „venha que Caio
não vai sair da sua casa!... seu filho amado não vai sair da sua casa!‟
A narrativa de Rui nos mostra que a adoção se faz em rede familiar, social, profissional. Nos
casos de adoção monoparental, verifica-se como imprescindível, a rede de apoio social
construída pelo adotante. Pois, a presença de pessoas significativas, como familiares e
vizinhos, mantém relações afetivas com a prole e contribuem para com o adotante (LEVY,
2005).
Ellen – Como você se sentiu nessa hora?
Rui – Eu tive uma crise de choro... não consegui falar com a assistente social! Tomei banho...
enxuguei as lágrimas e fui! Me deram uma papelada enorme para assinar... e eu não lembro de
nada que li! No meio das lágrimas... chorava... chorava! Eu sei que eu peguei a guarda
provisória dele... junto com o estágio de convivência de um mês! Depois eu falei com o juiz e
a promotora! Eu não me lembro bem o que aconteceu comigo nesse dia! Eu estava num
estado emocional extremamente alterado... feliz da vida! A emoção foi tanta que todo mundo
percebeu!
Rui – Quando eu cheguei em casa e mostrei o papel com o novo nome dele... dizendo que ele
era meu filho oficial... expliquei tudo a ele... disse que estávamos no estágio de convivência e
que tinha muita coisa pela frente ainda... „mas você!... daqui você não sai mais... meu filho!‟
Eu acho que ele entendeu... nos abraçamos e ele riu bastante! Foi o dia mais feliz da minha
vida... mais do que o dia que saiu o registro! O registro é um processo jurídico apenas! A
justiça está me dizendo que eu tenho um filho registrado no meu nome... mas ele já era filho
do meu coração e ele sentia isso também!
O dia da assinatura da guarda de Caio mostra-se, no caso da adoção, como um ritual familiar
de inserção de um novo membro. Segundo Souza (2008b), a chegada de uma criança na
cultura ocidental é grifada pelo chá de bebê ou de fraldas. Do mesmo modo, na adoção, esses
atos simbólicos devem ser adaptados a registrar a chegada da criança. Assim, quando Rui
mostra para a criança o papel que comprova a concessão da guarda, ele está marcando uma
linha tênue na história de Caio, uma transição de modos de ser família, do abrigo para a
família monoparental e família original de Rui, favorecendo, com isso, o sentimento de
pertença da criança como “filho oficial”.
Rui – O dia mais feliz foi quando o juiz me deu a guarda!
Ellen – Então... esse foi o dia em que você concretizou sua paternidade?!
Rui – Foi... dentro de mim mesmo! Essa experiência me serviu para uma coisa... até concordo
com essa metodologia da nova Lei de Adoção... porque é muito difícil depois do estágio de
apadrinhamento alguém... de repente... ligar para você e dizer que é para levar o menino
novamente para o abrigo!
Ellen – De fato... é difícil tanto para os chamados padrinhos... quanto para as crianças!
Rui – Agora imagine isso!... ele não se adaptaria mais lá e eu não conseguiria mais! Essa foi a
minha única experiência negativa! A parte de você ver a criança no estágio de convivência...
eu acho melhor emocionalmente... porque naquele mês você avalia a criança... a criança
60
avalia os pais também... vê que tipo de sentimento está nascendo... eu acho isso muito
importante! Agora se você apadrinhar... como aconteceu comigo... e depois dizerem traga o
menino de volta!... Se o juiz não tivesse me chamado para assinar os papéis eu nem sei o que
tinha acontecido comigo!
Ellen – No seu caso foi um longo período de convivência... um ano e três meses!
Rui – Direto... juntos... ou aqui em casa... ou no abrigo! Só que o mês de dezembro para mim
foi crucial!... mês que ele passou comigo direto! Era eu trabalhando e avaliando as
perspectivas... se era preciso modificar mais horários! Eu percebi que ele é uma criança como
outra qualquer... e não tiraria muita coisa de mim... de eu ter que renunciar mil coisas! Eu era
uma pessoa pacata por natureza... não gostava muito de sair... restaurante... uma coisa leve...
encontro com a família! O que eu posso fazer já faço... e mesmo que eu saísse... eu deixaria...
porque descobri que gosto de estar com ele! Toda hora que eu chego... vou para o tatame
brincar com ele!
Dá para conciliar a paternidade com outras coisas? Inquieta-me esse posicionamento, pareceme que Caio passou a ser o núcleo do mundo de Rui. Essa narrativa me lembra falas já ditas
por Rui sobre posse para com o filho. A saber, “mas é tão forte essa opção... essa
aproximação... que eu não consigo imaginar ele sem ser filho amado”. Certa feita o rei
Salomão, cuja sabedoria era sua característica marcante, afirmou que “os filhos são como
flechas nas mãos do guerreiro” (SALMO 127:4 in BÍBLIA SAGRADA, 2008, p. 648). Para
mim esta comparação é rica em significado, pois quando penso em tais palavras me vem à
mente a figura de um homem que possui sua aljava cheia de flechas e antes de usá-las
necessita carregá-las, cuidadosamente, em seu ombro. Da mesma forma, os pais transportam
sua prole nos braços, pois os mesmos carecem de proteção, cuidado e afeto. Um segundo
aspecto que se revela quando me deparo com o pensamento do rei Salomão descreve o
propósito do guerreiro ao guardar as suas flechas. Seria ledo engano pensar que ele as possui
apenas para satisfazer seus desejos, com o fim em si mesmo? Comumente o guerreiro carrega
suas flechas para lançá-las longe, em um alvo. E os pais criam os filhos para si ou os
preparam para a vida? Caberia a eles o papel de lançar as flechas para longe ou tê-las como
propriedade privada? Importante salientar que cada flecha, em sua singularidade, segue
direções peculiares. Competiria aos guerreiros-pais a educação dos filhos-flechas ou o
“sufoco” com suas preocupações, orientações, super-proteções, advertências? Caberia aqui o
que Freire (1975) propõe por práxis dialógica como favorecedora para a relação uma relação
de troca, de respeito e escuta entre educandos e educadores?
[...]
Rui – Antes tinha muita foto minha no orkut! Quando olhei... tinha mil e duzentas fotos só
dele!... aniversário... festa! Outra coisa que percebi é que ele... junto comigo... tem modificado
as atitudes de muitas pessoas ao meu redor com relação à adoção... a cuidar dos filhos
biológicos!
Ellen – Você se considera... junto com Caio... um exemplo de relação parental?
Rui – Muito! E ele é um exemplo!
Ellen – Exemplo de quê?
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Rui – Paciência!... tem um problema? Eu tenho um maior!... mas estou feliz! Você não o vê
chorando... ele brinca o tempo todo! Sorri... se diverte... vai para debaixo da cama... gosta de
fazer palhaçada!
De início, Rui salienta que a sua relação pai-filho é vista como exemplo para outras pessoas,
um elemento transformador para outras relações. Em seguida, Caio aparece, em seu discurso,
como um “problema”, divergindo com a narrativa anterior. Estaria Rui, nas dobras de sua
fala, apresentando-nos o titubeio do viver? O pôr em trânsito? A dualidade presente nas
relações parentais?
[...]
Rui – Jamais faria essa experiência com qualquer ser humano... muito menos com meu filho...
mas se eu o levasse de volta para o abrigo... no momento atual... ele morreria! Ele está ligado
mesmo!... gosta de estar comigo! Minha família percebe isso... minhas irmãs que são da área
de saúde percebem essa interatividade... esse calor humano entre eu e ele!
Ellen – É afeto?
Rui – Afeto e grande!!! Muito... muito... muito!
Nas narrativas acima, Rui expressa sua paternidade adotiva enquanto experiência afetiva. A
partir disso questiono: a atitude perante um filho, o sentir-se pai, mãe depende dos laços
sanguíneos? A relação parental de Rui e Caio legitima a ideia de Weber (2011, p.100) de que
“todo amor é construído; ele não nasce pronto porque as pessoas têm o mesmo tipo de
sangue”. Comungando do mesmo pensamento, Maldonado (2005) amplia esse olhar para
outros tipos de relação, ao narrar que o amor não surge apenas dos laços de sangue.
Conquanto, na adoção e no recasamento é possível desenvolver vínculos afetuosos.
Rui – Recomendaria as pessoas que não podem ter filhos ou àquelas que gostariam de ter
mais filhos... que a adoção é uma coisa maravilhosa... mas que você tem que amar mesmo!!!!
Os problemas que existem quando você adota uma criança maior... que ninguém tenha medo
não... porque onde o amor está presente as coisas se modificam para melhor!
Nessa narrativa percebo que Rui estende os seus braços de leste a oeste e nos faz um convite a
experienciar um afeto con-sentido, por meio da adoção de um filho! Na continuidade da sua
fala, Rui menciona que a adoção de crianças maiores aponta para alguns “problemas”. Quais
seriam essas dificuldades que, segundo ele, podem ser modificadas por meio do amor? Vê-se
como importante refletir em relação à adoção de crianças maiores. Um ponto que merece
menção afirma que, as representações sociais negativas que perpassam a cultura da adoção
brasileira, põem as ditas "crianças idosas" e adolescentes no final da fila de espera por uma
família. Desta feita, para inserção em uma família adotante, o fator idade é um aspecto
negativo, assim como as marcas de uma história de institucionalização e abandono.
Diferentemente destas, as crianças recém-nascidas são mais escolhidas para a adoção, criando
uma expectativa de que poderão ser melhores educadas no pressuposto de que ainda estão em
desenvolvimento (VARGAS, 1998). Pergunto então: não estariam as crianças maiores e os
adolescentes, também, em processo de desenvolvimento? Não seríamos os humanos um
constante devir?
Ellen – Foi isso que aconteceu no seu caso com Caio?
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Rui – Eu fiquei preocupado... „meu Deus!!... será que ele vai partir logo? Será que ele vai
piorar?‟ Eu ficava triste quando o médico dizia que meu filho não ia crescer! Quando eu vi
Caio se modificando... eu vi que a medicina não é nada diante do amor! Ele cresceu vinte e
cinco centímetros comigo!
Rui aponta o amor como possibilidade para mudanças! Sendo a adoção um ato de amor, quais
seriam os receios, impedimentos quando se trata em adotar crianças com necessidades
especiais? O que levaria o Estado a se tornar omisso, algumas vezes, com esta demanda
social? Pensando esta situação, Fonsêca, Santos e Dias (2009, p.306, aspas das autoras)
afirmam: “adotar uma criança „com defeito‟ é dar a ela a oportunidade de se superar,
desenvolver o seu potencial, ressaltando-se, porém, que isso sempre ocorrerá dentro do seu
ritmo”. Seria requisito da paternidade afetiva o respeito à singularidade, a disponibilidade
para amar além das necessidades especiais, das barreiras sociais, dos preconceitos?
Ellen – Em quanto tempo?
Rui – Ele já está um tempão comigo... quase dois anos! Daqui... só a morte nos separa!
Adoção consciente é a certeza de que não há devolução de filho (PAIVA, 2004). Entra nesse
cenário o princípio da irrevogabilidade, que segundo Souza (2008b, p.175), tem por finalidade
garantir ao filho adotivo “os mesmos direitos do filho consanguíneo, inclusive os de nome e
herança”.
Rui – Um conselho que eu dou na sua pesquisa... é que todos possam ouvir ou ler bem claro...
ser pãe é maravilhoso! Porque você consegue vislumbrar um mundo de sentimentos que
quando você é só pai não consegue ver! Eu ainda vou conversar com uma mãe que tem filhos
adotados para ver o que ela sente... para ver se eu sinto a mesma coisa... porque é como se eu
fosse as duas coisas!
Para adentrar nesse mundo de sentimentos é preciso ser pai e mãe ao mesmo tempo? É
possível fazê-lo? Como conseguir tal intento? Pais e mães têm movimentos diversos e
distintos nas configurações familiares. As representações sociais da maternidade estão
acopladas a noções de cuidado, a mulher surge como figura responsável pelo mantimento do
vínculo familiar; já ao homem cabe provedor (TRINDADE, 1999). Inferimos, que a expressão
pãe, utilizada por Rui está conectada ao fato do mesmo exercer atributos ditos femininos,
como por exemplo, ser o cuidador do filho, responsável por sua educação. Debatendo
questões de gênero, Castañeda (2006), em sua obra O Machismo Invisível, menciona que
meninos e meninas são orientados para serem completamente diferentes. Há, portanto, uma
separação sexista, em que homens afirmam não saber muito acerca do universo feminino e
mulheres mostram-se impotentes diante do fazer “trabalho de homens”. A partir de tal
fenômeno, vemos que:
torna-se necessário estimular o debate sobre a importância da participação masculina
na criação de seus filhos, não apenas como algo que pode ser reivindicado pelas
mulheres ou pelos homens na Justiça (mesmo que não estejam vivendo juntos)
estabelecer relações mais igualitárias, a começar pela divisão das responsabilidades
relacionadas ao cuidado infantil. A maternidade e a paternidade devem ser vistas
como função social, por isso a luta por conquistas que protejam o direito de ser mãe
e pai tem que ser intensificada (LYRA, 2004, p. 91).
Ellen – Pai e mãe?
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Rui – É... sinto aquela família completa... tanto que ele desenvolveu desse jeito! Eu expliquei
a ele que era sozinho... „sou eu seu pai... mas você teve uma mãe biológica... ela não pôde
cuidar de você... era uma mãe pobrezinha... você foi para o abrigo ficar lá... porque era muito
difícil cuidar de você... pela sua doença... por alguns aspectos que você tem!‟ Ele fica parado
escutando... quando ele não quer escutar um assunto ele faz besouro... quando o assunto mexe
com ele... ele chora!
A fala de Rui me traz a reflexão: um arranjo familiar composto de pai e filho é incompleto?
Ressalta-se aqui a tentativa de aniquilar o estranho, aparar a estranheza da paternidade
monoparental? Amazonas e Braga (2006), discutindo as novas formas de parentalidade,
apontam que esse fenômeno se deu em consonância as diversas transformações sociais. As
autoras colocam que a entrada da mulher no mercado de trabalho trouxe como consequência a
inserção do homem nos cuidados da prole, função até então “maternalizante”. Esse
acontecimento abre espaço para o compartilhar de direitos e também de possíveis
reivindicações judiciais, no caso de pedido de guarda paterna ou compartilhada. Outra grande
repercussão sobre a instituição familiar foi a conquista da paternidade responsável e desejante,
pela via biológica ou adotiva, por homens solteiros. Na direção da família nuclear, esse lugar
de monoparentalidade ressoa como estrangeiro, ao passo que foge do controle da norma
vigente?
Na continuidade de sua narrativa, Rui me chama a atenção quando exclui o pai biológico, se
referindo apenas à mãe biológica – “„sou eu seu pai... mas você teve uma mãe biológica... ela
não pôde cuidar de você...‟”. Onde está o genitor de Caio no discurso de Rui? A ocultação
desse personagem estaria revelando um receio de ser rejeitado por Caio, enquanto pai
adotivo? Estaria aqui a mostração do poder atribuído aos laços de sangue que levam muitas
pessoas a considerarem os genitores como “verdadeiros” pais?
[...]
Rui – Disse a ele... „se sinta muito feliz porque provavelmente você não vai ter mãe... mas eu
vou procurar ser o melhor pai do mundo para você!‟
Estaria aqui presente o ideário de família nuclear burguesa, composta por pai, mãe e filhos?
Sarti (2003) confere essa idealização de um modelo familiar no imaginário coletivo ao fato de
que as experiências tanto vividas quanto simbolizadas na família são constituídas socialmente
por dispositivos disciplinares religiosos, psicológicos, médicos, jurídicos e pedagógicos.
Atrelado a isso, os avanços tecnológicos como a pílula anticoncepcional, a reprodução
assistida e o exame de DNA repercutem na família e revelam para a inexistência de um
modelo padrão, único, natural de ser família. Mediante a coexistência de diversos arranjos
familiares num mesmo contexto, a adoção aparece como um modo de ser/estar em família na
vida de Rui, sabendo que este integra um sistema familiar que foge do “padrão” tradicional
vigente de família formada por um casal heterossexual unido pelos laços do casamento e com
filhos.
Rui – A médica neurologista que eu consegui disse que Caio está muito bem... apesar de
possuir uma paralisia cerebral grave... modificou os remédios e conseguiu tratamentos novos
para ele!
64
Rui – Eu só tenho a agradecer a Deus pela oportunidade de conhecê-lo... maravilhosa...
riquíssima! Eu aconselho a todos... sejam eles solteiros ou casados... a adotar!
Rui – Eu li a reportagem que outro pai solteiro adotou uma criança... saiu até no jornal aqui
em Recife! Inclusive o próprio desembargador disse que ele não é um pai normal... é uma pãe
e concedeu a ele noventa dias de licença paternidade!
Mais uma vez aparece a mostração de ser pai e mãe ao mesmo tempo para aqueles que
exercem a paternidade monoparental. Estaria Rui associando a paternidade de um homem
solteiro como sinônimo de incompletude? Conseguiria este homem exercer a “paternagem”,
sem, necessariamente, fazer menção a „maternagem‟? O turbilhão de acontecimentos no
âmbito sócio-cultural engrena, dentre outras coisas, uma gradativa revisitação dos lugares no
seio familiar, expandindo suas atividades para além da provisão financeira e moral. Schettini
(2005, p.29) aborda: “o desejo faz eclodir as possibilidades; a vontade seleciona e identifica o
que queremos como projeto de vida”, desta feita, o despertar de paternidades onde o caráter
de obrigação é modificado pela vivência de relação paterno-filial pode oportunizar grandes
benefícios a ambos os envolvidos.
Faz-se oportuno levantar a questão da licença paternidade como direito dos pais de cuidar da
prole, seja o homem pai biológico ou adotivo. Uma campanha que vigora no meio social, na
atualidade, é a chamada “Dá Licença, Eu sou Pai!”, que objetiva ampliar o direito à licença
paternidade de 05 para 30 dias. Esta campanha tem o Instituto Papai6 como realizador e
parceria de outros órgãos. A iniciativa visa também promover uma equidade de gênero a
homens e mulheres, no campo reprodutivo.
Ellen – Você teve direito a licença paternidade?
Rui – Cinco dias só! Mas vou falar com meu advogado para abrir precedente... já pensou eu...
com noventa dias com ele? Noventa dias de pernas para o ar só brincando com ele... seria
bom demais!
É comumente circulado na mídia e no meio social os direitos a licença maternidade, contudo
pouco se sabe acerca dos direitos dos homens diante da paternidade. Notamos com isso uma
certa ligação com a representação da mulher como principal responsável pela criação da
prole. Pensando o exercício da paternidade, Jablonski (1999, p.66) faz nota a isso ao expor:
A palavra mais ouvida nos relatos de pais e mães é a de que os primeiros ajudam
tanto nas tarefas domésticas quanto em algumas áreas no âmbito da criação dos
filhos. Ora, o verbo ajudar significa que o homem não tem muito a ver com as coisas
que se passam intramuros de uma casa, mas como é um sujeito pós-moderno, ele se
dispõe a quebrar alguns galhos contribuindo para a execução de tarefas que, no
fundo, caberiam mesmo às mulheres.
Questionamos: e no caso de adoções monoparentais? Interessante fazer menção de que Guerra
(2011), em matéria veiculada no Diário de Pernambuco, afirma que, pela primeira vez foi
concedido uma licença de 90 dias para um pai adotivo cuidar do filho em tempo integral. Este
homem é pai solteiro de uma criança de 04 meses de idade e exerce o cargo de assessor
técnico judiciário. Tal decisão divulga a importância do homem na criação de sua prole e abre
precedentes para ocorrência de outros casos.
6
Disponível em: <http://www.papai.org.br/>. Acesso em: 15 de outubro de 2011.
65
[...]
Rui – Você tem mais alguma pergunta?
Ellen – Não!
[...]
Rui – É uma experiência que se alguém fizer por amor não tem chance de dar errado!... seja
quem for a criança!!! E eu gostaria muito que as pessoas olhassem mais para as crianças
acima de cinco anos!
Nessa narrativa se inscreve um chamado à adoção de crianças maiores! Acerca disso, Pinho
(2009) comenta que os dados estatísticos, no que se refere à adoção, demonstram que crianças
com menor idade cronológica possuem mais chances de adoção. Desse modo, a adoção de
crianças com mais de 04 anos de idade são menos praticadas. O que cerca esse debate?
Relevante mencionar que o termo “tardia”, utilizado para esse tipo de adoção, remete ao
sentido de uma adoção fora do tempo. Na minha experiência profissional com a adoção na
Vara da Infância e Juventude, é recorrente o desejo dos pretendentes em vivenciar todas as
etapas do desenvolvimento do filho adotivo, assim como o faria com um biológico. Esse
perfil idealizado de filho corresponde à realidade presente nas instituições de acolhimento?
Desta feita, as crianças maiores e os adolescentes que se encontram à espera de uma família
não estão incluídos nesse sonho. Posto esta problemática, faz-se necessário o desvelamento de
mitos que cercam a temática, tais como aqueles que assinalam que crianças maiores são
problemáticas.
Ellen – A chamada adoção tardia... que é rara de acontecer!
Rui – É difícil porque as pessoas têm medo e não amor! Onde tem amor o medo desaparece!
E eu acho que não há ser humano nenhum... por mais indisciplinado... que não se dobre diante
do amor verdadeiro!!! Não é esse amor cobrança... esse amor querendo modificar as pessoas...
é o amor aceitando o indivíduo como ele é... e tentando entrar no mundo dessas crianças com
seis... sete anos! Então... se você trabalhar isso com amor mesmo... você consegue criar um
filho maravilhoso!
Importante refletir acerca desta narrativa quando Rui revela sobre o medo de adoções de
crianças maiores. Quais seriam os desafios apresentados tanto na adoção de crianças maiores
quanto na de crianças com necessidades especiais? Contribuindo com uma crítica sobre essa
questão, Fonsêca, Santos e Dias (2009) denunciam a escassez de pesquisas sobre “adoções
necessárias” - de crianças maiores, de grupos de irmãos, afrodescendentes e com limitações
de saúde - e colocam como importante os estudos para desmistificação de preconceitos que
envolvem a temática. Desse modo, faz-se capital sensibilizar a sociedade quanto às
características das crianças e adolescentes que necessitam ser adotados e sobre a importância
do incentivo e contribuição familiar para os mesmos. Sabendo a importância da família na
esfera pública, quais seriam as ações possíveis do Estado frente às demandas acima
apresentadas? Caberia ao governo a execução de projetos e processos mais efetivos na
proteção social?
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É visto que o amor ganha habitat no discurso de Rui, apontando o mesmo como meio para
enfrentar os desafios. A narrativa de Rui “Onde tem amor o medo desaparece!”, faz uma
ligação direta com o versículo alocado em 1 João 4:18 (in BÍBLIA SAGRADA, 2008, p.
1319), “No amor não existe medo; antes, o perfeito amor lança fora o medo. Ora o medo
produz tormento; logo, aquele que teme (se apavora) não é aperfeiçoado no amor”. O amor
descrito por Rui, que vai além das cobranças, aceitando o outro como se mostra, ressoa como
um modo de ser da paternidade adotiva? Seria, pois, a quebra da conserva cultural, ou seja, “a
continuidade de uma herança cultural” (MORENO, 1978, p.159), situada em ordens de
gênero, produtora e reprodutora da dicotomia pai-provedor e mãe-cuidadora? Poderia o maior
envolvimento dos homens na arena dos cuidados para com seus filhos, dinamizar as relações
de gênero, ampliando, assim, seus repertórios quanto aos valores e preceitos tidos como
masculinos e femininos? Estaria Rui dando visibilidade a uma paternidade que vai além da
obrigação, que desenvolve contatos mais estritos com os filhos? Paternidade vinculada à
ordem do desejo, à dinâmica do direito, do compromisso pessoal e afetivo para com os seus?
4.2.2 Davi: sentidos de ser pai consentidos diariamente
Ellen – Como é para você a experiência de ser pai adotivo?
Davi – Está sendo maravilhoso... ser pai!... e ao mesmo tempo... tendo como primeira
experiência... ser pai adotivo de gêmeos!
Ellen – Vocês podem ter filhos biológicos?
Davi – Não!... eu não posso! Então assim... está sendo uma experiência magnífica! As
crianças são muito especiais!... no caso deles é o que chamam de adoção tardia! Quando os
adotamos eles tinham sete anos e meio... já tinham uma experiência bem... bem... forte no
sentido de traços de personalidades! Então... é uma experiência deles que exige bastante de
você... tanto no sentido dos limites que é preciso impor... quanto da reorganização de
desaprender o que aprendeu... para aprender o certo... então isso nos consome! Mas ao
mesmo tempo... a retribuição deles com amor e carinho é muito grande e essa é a maior
gratidão que eu posso ter!
De início, me chama atenção a rápida resposta de Davi acerca da pergunta sobre a
possibilidade de gerar filhos. Em uma sociedade machista, na qual vigora a virilidade e a
reprodução como é para um homem não corresponder a tal expectativa? Interessante apontar a
escassez de ações de atenção integral à saúde do homem. Conforme a Política Nacional de
Atenção Integral à saúde do homem (2008), é preciso mobilizar a população masculina
brasileira, frente a ações de atenção à saúde, na perspectiva de linhas de cuidado. Apesar de
tais diretrizes terem sido criadas no ano de 2008, assiste-se no cenário nacional uma tímida
atenção para os direitos sexuais e reprodutivos destes. No que tange à paternidade, por
exemplo, “é direito do homem participar de todo o processo desde a decisão de ter ou não
filhos, como e quando tê-los, bem como do acompanhamento da gravidez, do parto, do pós-
67
parto e da educação da criança” (POLÍTICA NACIONAL DE ATENÇÃO INTEGRAL À
SAÚDE DO HOMEM, 2008. p.20).
Na continuidade da sua narrativa, Davi apresenta a adoção dos seus filhos, mostrando as
peculiaridades de uma adoção de crianças maiores. Esta é uma das múltiplas facetas da
adoção. Conforme observa Vargas (1998), essas crianças, ou foram abandonadas tardiamente,
pelas famílias de origem, por diversas circunstâncias, ou foram retiradas dos pais pelo Poder
Judiciário e por vezes são esquecidas pelo Estado em Instituições de Acolhimento. Olhando
para esta realidade reflito: Quais são as exigências demandadas por essa configuração de
adoção? Se há, quais são as marcas que as crianças que passaram por um longo processo de
institucionalização ou que transitaram entre diferentes famílias possuem? Usando como
referencial teórico a Teoria das Representações Sociais, Camargo (2005) elegeu a “Adoção
tardia” como foco de sua pesquisa. A autora salientou que este tipo de adoção merece um
olhar específico, partindo do pressuposto de que a mesma é alvo recorrente de mitos negativos
que povoam o imaginário social e dão forma a uma cultura da adoção que privilegia o recémnascido e torna moroso e extinto à criança mais velha o direito à família. Camargo (2005), ao
discutir acerca da adoção de crianças maiores, enumera algumas barreiras para a realização da
mesma. Dentre elas estão: o desejo dos pretendentes à adoção de acompanhar os primeiros
passos do desenvolvimento físico e psicossocial das crianças; o medo de que a criança não se
adapte a nova família, tendo em vista os “vícios” e “falta de limites” advindos do longo
processo de acolhimento institucional; o pensamento de que a criança, pelo seu histórico de
rejeição, não estabelecerá facilmente vínculos afetivos; e o mito de que, ao longo do
desenvolvimento a criança intensifique seu desejo de procurar e conhecer sua família de
origem, comprometendo, com isso a relação com os adotantes.
Davi – Acredito que... como todos os filhos... eles dão o seu trabalho! Talvez em alguns
aspectos eles dão muito mais porque se tivessem desde cedo com uma pessoa... sejam pais
biológicos ou adotivos... talvez tivessem bons costumes... mas isso não é algo que assusta...
pelo contrário... é um desafio! [...] Eles têm sua experiência de vida... viveram uma quase
adoção! Eu e a minha esposa conversamos sobre o comportamento deles... então procuramos
ver o que eles pensam e toma muito cuidado para perceber certas coisas!
Freire (1975) tem a educação como reflexão sobre a realidade existencial. Este olhar tira o
humano do lugar de fixidez, exigindo-se, portanto, a consciência do inacabado. Ao tomar por
desafio alguns aspectos dos seus filhos como mais trabalhosos do que de outras pessoas,
estaria Davi colocando a educação como uma descoberta criadora, bem como abertura que
assusta? O que mais, na adoção, é considerado desafiador? Que certas coisas são essas que
Davi e sua esposa tomam cuidado para perceber?
Ellen – Como foi essa história da quase adoção?
Davi – Eles foram tirados da mãe com um ano e meio por maus tratos e abandono... depois
foram para a creche! Quando eles tinham três anos de idade um casal lá de Vitória de Santo
Antão resolveu pegá-los e levá-los para casa! Conseguiram a guarda provisória deles para
caminhar rumo à adoção... mas esse encaminhamento nunca foi dado! O casal passou quase
três anos com eles... e por conta de questões que desconhecemos... um belo dia pegaram o
advogado e disseram as crianças que elas iam tomar sorvete! Contudo... a bolsa deles já
estava pronta ... e os levaram para a creche sem dizer os motivos! Então isso mexeu com
eles... ao ponto de que nós sentimos tudo isso neles!
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Nesta narrativa, Davi denuncia as brechas de uma guarda “arrumadinha”, apontando que o
casal, apesar dos três anos de convivência com as crianças, pôde devolvê-las com a singeleza
de quem toma um sorvete. Essa atitude me remete a concepção vigente, por muito tempo, em
que as crianças não eram consideradas em sua singularidade, sendo, não raras vezes, tratadas
como meros brinquedos (SZYMANSKI, 2003). Neste prisma, indago: Quais as
responsabilidades dos adotantes para com os adotados? Quais são os impactos causados em
uma criança ou adolescente frente à devolução? Franzolin (2010) aponta que, diante de uma
devolução, a criança ou o adolescente sofrem danos existenciais, os quais provocam uma
espécie de ruptura de ordem pessoal e social. Segundo o autor, a criança não pode ser
compreendida como um objeto, no qual é desejado por um momento e, em seguida, é
rejeitado. A situação de rompimento do convívio familiar pode comprometer o psíquico, a
auto-estima, assim como dificultar as possibilidades de inserção em novo ambiente de
convivência familiar.
Franzolin (2010) também narra acerca do princípio da paternidade responsável. Este deve
voltar-se em benefício das crianças e dos adolescentes, almejando sua proteção integral (Art
1°, ECA). Na contramão deste princípio, podemos refletir: Quais as motivações que levam a
uma devolução? O peso do preconceito social? Seria a não adaptação da criança no novo
ambiente familiar ou não estabelecimento de vínculos filiais? O despreparo dos guardiões,
adotantes? Ou seria um abismo, que não foi possível ser atravessado, entre o comportamento
da criança e as expectativas dos pais adotivos? No que se refere ao sentido dado à palavra
“devolução”, pelo Aurélio, apresenta a conotação de um possível engano, algo que não lhe
pertence; significa também fazer voltar à origem (FERREIRA, 2004). Diante do confronto
com tal realidade, a exploração dessa demanda contribui, certamente, para o desenvolvimento
de políticas públicas voltadas às crianças maiores e adolescentes em situação de abandono e
acolhimento institucional.
Ellen – Eles ficaram sobre a guarda do casal por três anos?
Davi – Sim... e tanto que no início da adoção eles verbalizavam... „vão tirar a gente de vocês!‟
Acredito que isso acontecia pelo fato de como a história da outra adoção foi colocada para
eles! Eles tinham uma insegurança muito grande!... eles misturavam muito as histórias desses
pais que falei... com os pais biológicos... muitas vezes não sabiam diferenciar! Nós ficamos
tentando organizar isso!
Discorrer sobre adoção implica, segundo Vargas (1998), refletir, anteriormente, acerca de
abandono. Quais são os abandonos que crianças e adolescentes institucionalizados sofrem?
Seria o abandono da família biológica? Do Estado por meio de suas políticas públicas
limitadas? Da sociedade que, muitas vezes, volta às costas para essa realidade? Este cenário
reflete o que Martins (2009, p. 30) concebe como “inclusão precária, marginal e instável”? O
autor propõe uma análise da leitura sociológica-política. Segundo ele, não existe exclusão
social, mas sim uma contradição ocasionada pelos processos sociais, políticos e econômicos
excludentes que geram uma “inclusão precária, marginal e instável”. Nesse sistema, a
população pobre tem participação, mesmo que pequena, o que não configura uma
exclusão,um estar fora, mas um estar dentro de maneira marginalizada. Diante disso, existem
os conflitos, os quais “a vítima dos processos excludentes proclama seu inconformismo, seu
mal-estar, sua revolta, sua esperança, sua força reivindicativa e sua reivindicação corrosiva”
(MARTINS, 2009, p.14). Assim, seriam essas crianças vítimas dos processos sociais,
políticos e econômicos excludentes que os pobres, os loucos e os velhos são participantes?
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Numa sociedade que instituía a filiação consanguínea, criou-se, no século XVIII, um
dispositivo social para o abandono anônimo dos filhos não amados ou ilegítimos, a Roda dos
Expostos. A mortalidade era bastante alta entre as crianças rejeitadas, cerca de 30%. No
Brasil, esse mecanismo funcionou até a década de 1950, sendo aqui o último país do mundo
que extinguiu a “roda”. Contudo, esta invenção, que havia sido projetada com o intuito de
minimizar o índice de mortalidade, aumentou as estatísticas do abandono via roda (RIZINI,
1997). Narrando acerca do abandono à moda brasileira, Camargo (2005) expõe que um
número considerável de mães alegou pobreza como motivação para abandonarem seus filhos.
Além desse motivo, o autor registra outros: a morte de um dos pais, o nascimento de gêmeos,
a falta de leite, a criança como fruto de relações extra-conjugais e violência sexual, assim
como o êxodo rural e a entrada da mulher no mercado de trabalho. O abandono de crianças de
origem nobre também se fez presente na existência da Roda dos Expostos. Em nome de
proteger a “honra”, as mesmas eram abandonadas, principalmente, por serem filhos de jovens
e de adultos adúlteros. Como reflexo deste abandono e também pela pobreza das instalações
das instituições, houve taxas ascendentes de mortalidade ainda no período de amamentação
das crianças. Aconteceu também de muitas crianças serem vendidas para trabalho escravo,
algumas passaram a habitar nas ruas e outras cresceram sem vínculo familiar e afetivo. Assim,
é nesse contexto de abandono que a prática da adoção se faz presente como o outro lado da
moeda, possibilitando a crianças e adolescentes o direito do convívio familiar.
Ellen – Organizar?
Davi – Organizar uma história e outra! O pensamento deles só mudou quando o nosso
processo de adoção teve encerramento... pois tivemos acesso ao processo de destituição
familiar... e pegamos o fio da meada do início da história deles... estávamos perdidos nisso!
Não pegamos o processo do último casal que ficou com eles... mas queremos e temos o
direito... até para entender algumas reações que eles tinham!
Ellen – Como eram essas reações que eles tinham?
Davi – Questão de muita insegurança... eles se fechavam! Eles são gêmeos... mas não são
iguais! A diferença é que ele é mais passivo e ela não!... o que entendemos da relação deles
dois é que por terem ido muito cedo para creche Ana tomou a responsabilidade da questão
familiar! A referência de família de Pedro gira muito em torno de Ana... girava muito... pois
nós estamos cortando muito mais! Ela o protegia muito! Quando eles chegaram... Pedro
desenvolveu uma gagueira incrível!
É sabido que, nos diversos arranjos familiares, o processo de vinculação ocorre
paulatinamente e solicita investimentos. Com base nisto, Queiroz (2004) narra que a chegada
de um filho, seja ele adotivo ou não, provoca estranhamento nos pais. Deste modo, será que
em meio à adoção de crianças maiores esse estranho aparece deveras acentuado? Estudando
quarenta processos de Habilitação para Adoção na Comarca de Itaúna-MG, Moura (2008),
buscou conhecer os fatores associados ao perfil das crianças escolhidas pelos pretendentes à
adoção e que dificultam a prática da modalidade adoção tardia. O resultado da presente
pesquisa apontou um perfil seletivo e inflexível dos adotantes no tocante à idade da criança:
90% dos pretendentes manifestaram o desejo em adotar recém nascidos de até seis meses de
vida; 6% optaram por crianças com até dois anos de idade; cerca de 3% escolheram a adoção
de crianças na faixa etária compreendida entre dois e cinco anos e apenas 1% optaram pela
adoção de crianças com idade superior a de cinco anos. Esses dados nos levam a pensar nas
ideias de Vargas (1998) quando a mesma salienta que existem valores de ordem cultural que
70
inviabilizam a concretização de adoções de crianças maiores. Acredita-se que a adoção
convencional, ou seja, de crianças recém-nascidas ou menores, possibilita aos adotantes
“imitar” o vínculo biológico, dando a estes a oportunidade de protagonizar seus papéis de pai
e mãe desde os primeiros dias de vida da criança, ao passo que trocam fraldas, ninam,
escutam as primeiras palavras e ensinam a criança a andar. Moura (2008) e Weber (2011)
comungam do mesmo pensamento e ressaltam que, diante desta realidade, tornam-se
relevantes trabalhos de orientação e sensibilização dos pretendentes à adoção, com vistas a
incentivar, esclarecer mitos e preconceitos que revestem a adoção de crianças maiores.
Outro fenômeno a ser mencionado é o abandono. A despeito dos avanços constitucionais, o
abandono de crianças ainda é uma realidade na sociedade brasileira. Conforme Camargo
(2005), a pobreza é tida como um forte motivador para o abandono, este visto como uma
alternativa de sobrevivência às condições de vida precárias. Em seu estudo, Moura (2008)
apresenta dados de uma pesquisa realizada pelo Levantamento Nacional de Abrigos para
Crianças e Adolescentes da Rede de Serviços de Ação Continuada do Ministério de
Desenvolvimento Social. Nesta investigação foi evidenciado que, no ano de 2003, 24% dos
casos de institucionalização de crianças e adolescentes foram justificados por situações de
extrema pobreza, sendo esse o maior índice. Acerca disso questiono: O curso do processo da
adoção abre espaço para a insegurança? Quais as garantias que o encerramento do processo de
adoção suscitou? Estariam essas crianças e seu pai nos fazendo um convite a olhar a
fragilidade dos vínculos na contemporaneidade? Bauman (2001) centra suas discussões em
torno da fragilidade, superficialidade e liquidez nas relações contemporâneas. Segundo ele, os
relacionamentos, de um modo geral, são desmanchados facilmente, gerando e aumentando os
níveis de insegurança.
Ellen – Chegada deles aonde?
Davi – Na minha casa! [...] Era horrível a gagueira de Pedro!... muitas vezes não entendíamos
o que ele falava! No início da adoção ele foi acompanhado por um psicólogo e Ana por uma
psicóloga! Procuramos a fonoaudióloga... mas o psicólogo já tinha sinalizado que acreditava
que a gagueira era algo psicológico mesmo! [...] Na terapia eles foram mudando... Pedro foi
modificando a postura... aprendendo a ser mais ele! Foi um processo muito longo! Hoje posso
dizer que ele melhorou mil por cento para o que era... para você ter uma ideia... eu
perguntava... „Pedro você quer carne moída ou bife?‟ Ele perguntava o que a irmã tinha
escolhido... então queria a mesma coisa! Ele só fazia o que ela fazia... era algo muito forte!
Ele estava preocupado com o que Ana gostava... enxergando isso começamos a interferir na
situação!
[...]
Davi – Pedro cedia as coisas para ela... o lápis... a caneta! Nas brincadeiras ela era a
professora... a mãe! Uma vez na brincadeira Pedro era o filho especial dela... para você
perceber o grau de submissão dele para com a irmã! [...] Ela é exacerbada em tudo!... semana
passada... ela com nove anos de idade... queria botar algodão no sutiã! Eu nem me espanto!...
ela se acha uma mocinha! Ontem dei uma bronca nela porque quando foi tomar banho pegou
a toalha e a roupa de Pedro!
Nestas narrativas, é importante destacar dois aspectos: o primeiro diz respeito à interferência
dos pais, com a inserção de limites, frente ao movimento de seus filhos. Esse posicionamento
faz menção ao que Freire (1975) concebe de educação libertadora, que visa a transformação
71
da realidade conhecida? O segundo é a rede de apoio que Davi e sua esposa buscaram na
terapia, atitude vista como importante por Vargas (1998) em adoção de crianças maiores. Ao
afirmar: “Na terapia eles foram mudando... Pedro foi modificando a postura... aprendendo a
ser mais ele! Foi um processo muito longo! Hoje posso dizer que ele melhorou mil por cento
para o que era...”, Davi publica a psicoterapia como lugar onde a existência se abre para ser
compreendida, dando a possibilidade de “dirigir um olhar diferente para a própria existência
e, assim, reformular significados” (SAPIENZA, 2004, p.26).
Em sua narrativa Davi também revela sobre a relação entre Pedro e Ana poder ser a referência
de família para eles, já que os mesmos estavam sempre juntos apesar das mudanças. Eles
passaram por quatro contextos familiares: família biológica, a creche e as duas famílias
adotivas. Diante disso, vemos a importância, nos casos de adoção, de priorizar a não
separação entre os irmãos. A Nova Lei de Adoção (BRASIL, 2009) coloca de forma explícita,
a necessidade de manter os irmãos unidos, tanto no acolhimento quanto na adoção, no intuito
de preservar os vínculos fraternais:
Art. 28, § 4º- Os grupos de irmãos serão colocados sob adoção, tutela ou guarda da
mesma família substituta, ressalvada a comprovada existência de risco de abuso ou
outra situação que justifique plenamente a excepcionalidade de solução diversa,
procurando-se, em qualquer caso, evitar o rompimento definitivo dos vínculos
fraternais.
Como é possível observar no artigo transcrito acima há exceções legais à regra do não
desmembramento de grupo de irmãos. A separação deve existir apenas em casos
comprovados de risco de abuso entre eles ou outra situação que justifique plenamente a
excepcionalidade do afastamento entre eles.
[...]
Davi – Com relação à resistência... dá para perceber... de quem é essa resistência? Ana! Pedro
não resistiu! Nessa época era terrível porque Pedro não expressava nada em termos orais...
porém ele expressou de outra forma! Logo na primeira semana da adoção ele chorava todas as
noites... sabe quando uma pessoa está uivando de dor? Aquela coisa lá dentro... e ele se
contorcia de um lado para outro! Eu o colocava na cama e dizia „o que é filho... o que você
está sentindo?‟ Ele falava algumas coisas misturadas! Nas duas primeiras semanas foram
algumas noites de serão!
Ellen – Como foi para você vivenciar essas situações?
Davi – Pois é... era o início! Eu não posso dizer que estávamos preparados... mas sabíamos
que íamos encontrar situações inusitadas e particularmente com a história deles!
Com o que Davi chama de resistência, estaria Ana se apropriando do ser-filha, do sentir-se
pertencente ao grupo familiar? Ou poderíamos pensar em um teste dessa nova relação, um
recurso utilizado por ela frente à adaptação a essa nova realidade, a esse estranho? O que
Pedro estava expressando ao chorar copiosamente todas as noites seria uma espécie de
resistência? Estariam eles sendo tomados pelo medo de investir afetivamente na relação pais e
filhos? Temerosos em não atender às expectativas dos pais e serem mais uma vez devolvidos?
Conforme Vargas (1998), é cabível mencionar que, tanto na adoção tardia, quanto na vida
como um todo, as possibilidades de sucesso e/ou fracasso das relações, dependem de
inúmeros fatores entre os protagonistas, como, por exemplo, o respeito, o amor, a entrega,
72
trocas afetivas, confiança, companheirismo, amizade. No que se refere à adoção de crianças
maiores e adolescentes, a autora supracitada afirma que os mesmos precisarão de um
investimento afetivo intenso da família, a fim de que se sintam acolhidos e aceitos. Em
Schettini (1998), temos que, para se efetivar a paternidade e a maternidade, é preciso refletir
acerca de sua escolha e estar ciente das dificuldades e dos conflitos que possam emergir.
Enquanto pais, Davi pronuncia que ele e sua esposa, sabiam das situações inusitadas que
poderiam vir a existir a despeito da história de Ana e Pedro. Neste sentido, estaria essa
família, em meio a resistências e encontros, abrindo acervo à relação parental?
Ellen – Vocês passaram pelo processo de apadrinhamento afetivo?
Davi – Sim!... já tínhamos o acompanhamento com eles! Eu acredito que ajudou muito o fato
da minha esposa ser psicóloga e da minha formação ser em filosofia... temos uma atenção
maior do que a média! Quando a minha esposa voltou das férias eu fiquei mais com eles
durante o dia! Por eu trabalhar com representação... tenho uma flexibilidade grande no
horário... então era eu quem os pegava na escola... dava banho... botava para jantar! A carga
foi grande em cima de mim no início!... eu tive que acompanhar de perto tudo isso!
Autores como Paiva (2004, p.59), ao debruçarem-se na experiência da adoção, ressaltam a
importância de um período de convivência antes da efetivação da mesma,
para que os pais adotivos possam elaborar a nova condição e se adaptar às mudanças
que advém com a chegada de uma criança, principalmente quando se trata de uma
adoção tardia; tempo igualmente necessário aos pais biológicos.
Tal oportunidade seria um facilitador para minimizar dificuldades relacionais e dúvidas
existentes? Será que conflitos de adaptação ou dificuldades de outra ordem revelam-se nesse
período?
Na continuidade da sua fala, Davi relata a sua experiência com os filhos como cuidador.
Poderíamos dizer que este lugar reflete a mudança da divisão sexista do cuidado com a prole
que perdura/perdurou em nossa sociedade? Como destaca Portella (2004), a cultura ocidental
contemporânea evidencia que os papéis parentais ainda possuem uma nítida divisão: os
cuidados com a prole são atributos femininos; ao pai, compete a responsabilidade pela
sustentação econômica do lar e a moral da família. Neste ínterim, é visto que o homem ocupa
uma posição de figurante na relação da mãe com sua prole, “coadjuvante na criação do filho”
(SCHETTINI, 1998, p.92). A este, muitas vezes, é reservado apenas tarefas de ajuda, sem
uma participação efetiva. Partindo de sua experiência clínica com pais e filhos adotivos, o
autor supracitado evidencia que os pais adotivos se mostram, em sua maioria, mais
participantes no processo de criação do que o pai que gera o próprio filho. Aqui, questões de
gênero entram em cena, afirmando que a educação sexista aponta ao homem o lugar de mero
provedor, cabendo a mãe os cuidados e a expressão do afeto. Sobre isso, Castañeda (2006)
nos diz que a sociedade tende a reproduzir modelos estereotipados que não consentem aos
homens expressarem sentimentos. Ela aponta tal realidade como uma questão de educação, de
formação familiar que, para ser revertido, é preciso que decisões e responsabilidades sejam
compartilhadas, assim como acordos entre homens e mulheres estabeleçam padrões de
comunicação e relacionamentos mais igualitários.
Nesta linha de pensamento, Fein (1978 apud RAMIRES, 1997) apresenta três perspectivas da
paternidade: a tradicional, a moderna e a emergente. Na tradicional, o pai desempenha a
função de provedor, que oferece suporte emocional à esposa, contudo não se envolve
73
diretamente com a prole, exercendo o modelo de poder e autoridade. A moderna enfatiza a
importância de seu papel no desenvolvimento moral, escolar e emocional e alerta para as
consequências da ausência paterna na vida dos filhos. Já a emergente é respaldada na ideia de
que os homens são, psicologicamente, aptos a participar ativamente dos cuidados e criação
das crianças e que esses contatos podem ser facilitadores para o desenvolvimento de laços
entre ambos. Refletindo acerca da passagem notável na atualidade de uma paternidade
estritamente biológica para paternidades afetivas/sociais, Ramires (1997, p.32) afirma: “essa
nova perspectiva acerca da paternidade conduz necessariamente a uma mudança na política
social que possa dar suporte às novas formas de exercício da paternidade”. Deste modo, a
adoção se revelaria enquanto um facilitador para que o homem experiencie a paternidade de
um modo mais afetivo, distanciando-se, assim, do homem-pai-provedor?
[...]
Davi – Em dezembro fomos à Natal-RN para eles conhecerem os avós! Quando Ana entrou
no carro ficou dizendo que queria vomitar... não deu um minuto que Pedro também falou que
ia vomitar também! Acho que ele forçou tanto que vomitou! É assim que eles funcionam...
não tanto com uma questão biológica... mas emocional! Se um está doente o outro diz que
está também para receber a atenção... e isso acontece até hoje!
Nesta narrativa, Davi coloca a sua família como participante do processo adotivo dos seus
filhos. Tal atitude é tida como importante ao saber que a adoção necessita ser vivida não
apenas pelos pais, mas também pela família extensa. Compreendendo o significado das
interações sociais, responsabilidades interpessoais desta para com os adotantes, bem como a
sua contribuição para o desenvolvimento das crianças em tela enquanto sujeitos, Schettini
(1998) pronuncia que é na rede de parentesco que a convivência afetiva é vivenciada e se
constrói a parentalidade.
Ao relatar “é assim que eles funcionam”, estaria Davi restringindo o modo de ser de Ana e
Pedro? Essa narrativa contradiz as mudanças, acima referidas, vivenciadas pelas crianças.
Atento também para o apego entre Ana e Pedro. Quais os sentidos dados pelos mesmos para
isso? Essa disputa pela atenção seria um sinal de insegurança? Uma evidência de arranjos da
sua história frente à chegada de outros personagens, de uma nova realidade familiar?
[...]
Davi – No início da adoção Ana chorou também... mas eu percebi que era um choro
diferente... para chamar a atenção! Passaram-se esses dias aí fomos conversar com ela! Eu
disse... „você não precisa nos chamar de pai... mas nós vamos chamar vocês de filhos!‟ Ele
procurava nos chamar de pai e mãe... mas ela não! A figura que ela encarnou foi comigo! Nós
começamos a fazer uma releitura... o pai foi a figura mais ausente para ela... e agora ter um
pai o tempo inteiro... como é que é isso? E não é fácil se entregar de corpo e alma para isso...
ela resistia! Verbalizava isso... eu a chamava de filha e ela respondia brava que não era minha
filha!
Ellen – E como era para você escutar isso?
Davi – No início era tranquilo porque tínhamos realmente essa noção! Ana não me chamava
de pai... mas eu a chamava de filha! [...] Ela começava com as birras de não querer tomar
banho... uma vez eu a coloquei no chuveiro... ela me chutou umas vezes.. na terceira eu dei
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dois tapas bem fortes! Ela disse... você não vai bater em mim!... você não é meu pai! [...]
Pedro disse... eu não sei porque Ana não quer chamar vocês de pai e mãe... para mim vocês
são meu pai e minha mãe! Essa postura perdurou... passou um tempo!
Pensando a adoção de crianças maiores, Pinho (2009) expõe que os períodos da infância
destas crianças foram provavelmente marcados por dores e sofrimentos. Segundo a autora
mencionada é possível surgir atitudes que são esperadas no período da infância, as quais
simbolizam a chegada, o renascimento de uma nova vida, a fim de “pertencer” a nova família.
Nestas narrativas podemos perceber o investimento na paternidade por Davi. Este, apesar das
recusas de Ana, persiste em chamá-la de filha. Neste movimento, ambos estariam caminhando
rumo a vivenciar uma adoção recíproca, por meio da qual “a criança escolhe os seus pais tanto
quanto é escolhida por eles?” (DOLTO, 1998, p.97). As atitudes de Davi revelam sua
disponibilidade em ser adotado pelos filhos, assim como, em estar com eles diante das
dificuldades que emergem.
[...]
Davi – Você acredita que uma vez Ana foi falar algo e disse... „papai!‟ Eu respondi... „papai
não! Você não disse que eu não sou seu pai? Eu fui chamar você de filha e você disse que não
queria ser minha filha!‟ Isso passou... depois ela começou a chorar e dizer... „o senhor é meu
pai!... o senhor é meu pai!‟ Nesse dia ela sentiu a coisa mais... mais forte! O temperamento
dela era muito autoritário... ela é muito independente e quer fazer a coisa dela e acabou-se!
A adoção perpassa por uma troca afetiva que, segundo Weber (2011), é conquistada no
cotidiano. Diante disso, habitaria na narrativa acima a tensão entre ser ou não adotado como
pai? Como foi para Davi escutar, da filha que ele adotou, que não gostaria de chamá-lo de pai,
tendo em vista que não o reconhecia como tal? Interessante que Davi mostra, muitas vezes,
atitudes compreensivas diante do comportamento dos seus filhos, sabendo que os mesmos
estavam passando pela adaptação no novo lar. Adiante, ele nos releva que foi preciso realizar
um chamamento, de modo incisivo, para que Ana desse conta da sua filiação.
A vivência da primeira adoção e a convivência de abrigamento pode ser percebida como um
dificultador da possibilidade de inserção de Ana em outro contexto familiar? Essa realidade,
segundo Camargo (2005), materializa-se sob a forma de recusa à prática da adoção de
crianças maiores e adolescentes. O autor faz uma relação entre este modo de adoção e a
representação social vigente a respeito da mesma. Traçando um paralelo, ele apresenta o
ditado popular “pau que nasce torto morre torto”. Ao afirmar isso, ressalta-se o fato de que
um processo de desenvolvimento mal conduzido implica em um pau, ou seja, uma pessoa,
“torta”, fora do “padrão de normalidade”. Camargo (2005) denuncia que a representação
social da adoção tardia está ancorada em uma série de mitos que colocam sua vivência de
abandono e acolhimento como fundantes da subjetividade, retirando do sujeito sua capacidade
de vir-a-ser. Assim, o autor supracitado menciona a importância de estudos acadêmicos que se
debrucem na experiência de adoção de crianças maiores e adolescentes. Segundo Camargo
(2005), a veiculação midiática desta realidade, pode contribuir para separar o joio do trigo,
mitos e realidades que rondam este tipo de adoção.
Ellen – Seria um movimento de querer tomar a frente das situações?
Davi – O tempo todo! Interessante a forma que ela falava „eu não quero comer!!!‟ E eu
dizia... „filha você pode até não querer comer... mas é a forma como você está falando!‟ Teve
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uma vez que ficamos de dezoito horas e trinta minutos até as vinte e uma horas e trinta
minutos esperado ela tomar a sopa! Foi somente por uma questão de mostrar quem tem poder!
Se você cede uma única vez... você se ferrou!
Vargas (1998) salienta que a construção de vínculos na adoção é gradual. Desta feita, com sua
provocação, estaria Ana solicitando uma ação de acolhimento de sua singularidade? Estaria
ela testando o afeto dos seus pais? Seria um pedido de cortejo, de conquista? Um ajuda para
distanciar-se de uma história de dor e abandono?
Davi também narra a respeito de mostrar poder . Este posicionamento remonta a questão da
hierarquia de gênero exposta por Castañeda (2006), na qual as relações de gênero são
demarcadas pelo poder associado ao homem. O poder no sentido foucaultiano não deve ser
compreendido enquanto força e violência, mas como força produtiva aos diversos modos de
relações. Nas palavras de Foucault (2008), o poder reprime e é produz efeitos de saber e
verdade; poder só existe em ação, ou seja, se exerce em rede, se esparrama pelo tecido social
e atua sobre o campo de possibilidade onde se inscreve o comportamento dos sujeitos ativos.
Diante disso, vemos a importância da reflexão sobre as relações de poder entre pais e filhos.
Franzolin (2010) ressalta que o afeto é reconhecido como valor jurídico (Art. 1583, § 2º, I, do
Código Civil - CC), substituindo, assim, a submissão da criança baseada no pátrio poder, que
compreendia o pai como autoridade superior, chefe. Com o paradigma do afeto, o poder
familiar é fundado em relações horizontais, na igualdade de condições do homem e da mulher
voltados para o melhor interesse dos filhos.
[...]
Davi – Na escola mesmo... ela é muito preguiçosa para estudar!... ela é desenrolada... muito
inteligente... muito ligada... mas preguiçosa! Ana já arrancou folhas da agenda da escola e por
causa disso tivemos que enumerar a agenda todinha! O diretor mandava o recado e ela
arrancava a folha!... cComo é que ela aprendeu? O que ela aprendeu foi se safar de certas
situações que a vida impôs para ela... e ela tenta se safar disso também!
[...]
Davi – Ela é assim... uma líder nata... muito independente! Se deseja uma coisa ela vai...
pega... desenrola! Só que às vezes é demais... ela não sabe o limite das coisas e nós é que
vamos ter que colocar!
Ao olhar para as narrativas de Davi soa como interessante que, ao ser solicitado a narrar
acerca da sua experiência de ser pai adotivo, ele traz mais à tona as experiências dos seus
filhos. Parece que a paternidade para Davi demanda olhar mais para os filhos e não para ele
próprio.
A partir disto me vem alguns questionamentos: Tal atitude de Davi é comum com crianças
tidas como “idosas” para adoção? Seria a questão da educação, atrelada a crenças negativas,
um forte obstáculo que levaria a maioria dos candidatos a optarem por crianças menores
“passíveis” de serem educadas? A compreensão de homem e de mundo da fenomenologia
existencial abre espaço para se pensar a família enquanto sistema em permanente interação,
na qual os membros do mesmo afetam uns aos outros (AGUIAR, 2005). Assim, o contínuo
desenvolvimento humano ocorre em um espaço dialógico, contexto cujas relações são
76
significativas e possibilitadoras de construção de sentidos, demarcando assim, o cotidiano do
universo familiar. Na compreensão de dizer da poetiza Cora Coralina7:
[...] muitas vezes basta ser: colo que acolhe, braço que envolve, palavra que
conforta, silêncio que respeita, alegria que contagia, lágrima que corre, olhar que
acaricia, desejo que sacia, amor que promove. E isso não é coisa de outro mundo, é
o que dá sentido à vida. É o que faz com que ela não seja nem curta, nem longa
demais, mas que seja intensa, verdadeira, pura... enquanto durar.
Caminhando nesta direção, o ambiente acolhedor favorece com que as pessoas se
identifiquem, construam laços de amor e estabeleçam vínculos de confiança? Seria esse um
terreno propício para florescer um projeto de vida no qual adotados se sintam filhos e
adotantes pais? Para Sarti (2004) a família é compreendida como um mundo de relações que
suplanta os laços biológicos e mostra-se como ordem simbólica. Segundo a autora, a família
possibilita um sentido aos relacionamentos entre os indivíduos e serve de espaço para
elaboração de experiências. A propósito da adoção de crianças maiores, será que estas exigem
dos pais mais disponibilidade de reconhecimento das singularidades, do acolher das
diversidades para que os adotados possam dar continuidade a sua história?
[...]
Davi – Aí foi engraçado que no Carnaval desse ano fomos brincar em Olinda... fantasiados...
ele foi de super homem e ela de fada! No carro ela dizia... „vamos transformar papai em bruxo
e mamãe na princesa!‟ Por que eu o bruxo? Porque eu era o alvo... a pessoa quem tomava
mais conta... quem dava a bronca... os limites! Era a figura paterna que para ela era a pedra no
seu sapato!
Essa fala se mostra curiosa para mim! Será que é “engraçado” para um pai ser chamado de
bruxo, ser a pedra no sapato do filho? Maldonado (2001) relata que a adoção muitas vezes é
vista como um encontro de dores - dos adotantes e suas dificuldades de procriação, assim
como dos adotados frente à necessidade de se constituir em família. Estariam Davi e Ana
titubeando em um movimento de encontro/confronto?
Davi também se mostra como pai enquanto aquele responsável por dar limites e broncas. Ele
se coloca nesse lugar de dar ordens o que parece reforçar a construção de gênero de homem
como provedor moral, representante da lei. A ideia de paternidade afetiva foi pouco
problematizada e incentivada, afirmando o controle e correção da prole como prevalentes.
Pensando nisso, Sarti (2009) salienta, em sua pesquisa sobre famílias pobres, que cabe ao
homem, além do provimento econômico, ser o chefe da família, pessoa responsável pela
“boa” autoridade que deve ser obedecida. A autora nos fala que esta responsabilidade
masculina é digna de honra.
Ellen – Pessoa que não deixava exercer o papel que ela sempre exercia?
Davi – Sim!... ela tinha um pai para ela... um pai todo tempo... mas ela não aceitava o pai que
tirava a autoridade!
7
Disponível em: <http://www.pensador.info/autor/Cora_Coralina/>. Acesso em: 17 de outubro de 2011.
77
Ellen – Como era a relação dela com a sua esposa?
Davi – Só para dizer... eu passei a ser o príncipe de diamantes dela... veja a diferença! Para
conquistar isso não foi fácil... acho que foram uns oito meses para ouvir esse príncipe de
diamantes!
No acompanhamento destas narrativas é aqui revelado o jogo da paternidade entre o ser bruxo
e príncipe de diamantes. Diante disso questiono: a chegada do príncipe de diamantes trouxe o
reconhecimento da paternidade? Pesquisas como as de Perucchi (2008) e Fonseca (2004)
salientam que é crescente o número de ações de investigações acerca da paternidade. Diante
desse contexto, vê-se o impacto da tecnologia do DNA, com sua precisão científica, nas
relações familiares e, sobretudo na paternidade. A sentença de se reconhecer a origem
biológica da criança aponta para a naturalização da paternidade. Conquanto, trazemos o
aspecto social e afetivo como importante para a vivência paterna.
Ellen – Você lembra como foi esse momento?
Davi – Ela disse „Eu sou a princesa e o senhor é o príncipe de diamantes!‟ Então sair do bruxo
para o príncipe de diamante foi uma conquista! Uma conquista que não foi muito minha...
mas muito mais dela!
[Lágrimas]
O que afetou Davi ao narrar que a chegada do príncipe de diamantes foi uma conquista não
tanto sua, mas de Ana? Será que a chegada do príncipe trouxe consigo o sentimento de
pertença, para Ana, no nicho familiar, afetivo? Diante disso, estaria Davi falando do dar-se
conta da possibilidade de exercício da paternidade para com Ana?
Em seu estudo, Camargo (2005) expõe que, ao longo do tempo, o pai foi compreendido como
quem colabora espermática e financeiramente para o surgimento e manutenção da vida dos
filhos. Estes, assim como as mulheres, possuem responsabilidades que são filogenéticas, ou
seja, é do curso natural que a mulher seja mãe o homem ser pai. Dias (2004), por sua vez,
problematiza a ideia de que as paternidades não mais estão ancoradas na verdade biológica e
na realidade jurídica. Assim, o pai não pode ser identificado como apenas o doador do
espermatozóide. Mediante tal contexto, a autora indaga acerca de como estabelecer vínculos
de parentalidade e pronuncia que o reconhecimento da existência de um elo afetivo seria o
ponto de identificação entre pais e filhos. Segundo ela, “a presença de um vínculo de afeto
leva ao comprometimento mútuo, e o enlaçamento de vidas de forma assumida configura uma
entidade familiar” (DIAS, 2004, p.66).
Ellen – Como você se sente narrando essas experiências?
Davi – É muita emoção! Fico pensando como estão as coisas dentro da cabeça deles... como é
desejar ter um lar? Você meio que na espera de alguém que lhe escolha... acho que eles dois
são mais que vencedores! Na verdade como a adoção é uma mão dupla!... nós temos mais que
agradecer por eles terem nos adotado... nos dado essa oportunidade! Sem eles na verdade isso
não aconteceria!
78
Na narrativa acima ao falar sobre os filhos, estaria Davi falando de si? Como se revela para
ele o desejo de ter filhos? Como se dá a experiência de ser escolhido por duas crianças
enquanto pai? Seria ele um vencedor em meio a sua história?
Ao referir-se a adoção como via de mão dupla, Davi patenteia a conjunção entre adotados e
adotantes. Pensando nisto, reflito: é possível sentir-se pai sem a aceitação do filho?
Problematizando a paternidade, Schettini (1998, p.48) destaca que o filho afirma-se como tal
por meio da adoção afetiva: “é o afeto dedicado a uma criança que faz dela um filho e
constrói em nós a postura de pai”. Tomando este pensamento como norte, a adoção afetiva
pode ser vista como caminho para a relação parental. Assim, este afeto não é da ordem da
genética, mas sim é con-sentido nas relações interpessoais, ao longo da con-vivência.
Davi – Essa confiança que eles nos dão!... Eu lembro que certa vez... Ana estava tendo uma
irritação vaginal... ela disse a minha esposa „mamãe... eu tenho vergonha de qualquer pessoa
que venha mexer comigo... menos de papai!‟ Então é uma confiança que vem sendo
conquistada... o carinho... o respeito... cuidado!
Ao mencionar: „mamãe... eu tenho vergonha de qualquer pessoa que venha mexer comigo
menos de papai!‟, estaria Ana expressando a si e a Davi, por meio de uma abertura tão íntima,
caminhos possíveis para a construção de uma história parental, adotiva? Ana também coloca a
expressão de afeto como uma via possível de exercício da paternidade (OLIVEIRA, 2010),
afirmando, com sua permissão, que a representação da paternidade também circula pelas
esferas do cuidado.
O cuidado é ponto proeminente na fenomenologia existencial, fundamentado no pensamento
de Heidegger (2002). Segundo este autor, o homem existe cuidando de ser, o que provoca
uma ininterrupta construção de sentidos para estar/ser no mundo. Sabendo que cada humano
está inevitavelmente lançado nesta trama, como cuidar de ser? É cuidando que o vir-a-ser do
homem acontecerá? Assim, será que teríamos outros modos de cuidado à infância e juventude
abandonadas? Indo além, a adoção precede o adotar-se?
[...]
Davi – Quando eles estão juntos perturbam muito nas brincadeiras! Eles estudam na mesma
escola... porém em séries diferentes! No início Ana atrapalhava muito Pedro!... tivemos que
dar uma bronca neles! Hoje Pedro já fala tudo... ele veio dizer que entende porque brigarmos
com eles... que é no intuito de educar! Embora... nessa noite ele disse que não queria voltar
mais para creche! Ouvindo isso eu disse „filho... vocês não vão voltar mais para a creche!
Você lembra daquele documento que o juiz fez?‟ É incrível esse fantasma!... eu sabia que isso
ia acompanhá-lo por um tempo... mas eu pensei que já não havia! Já tem quase um ano do
documento final! No dia da ida ao juiz foi interessante... porque Ana é a que fala... mas na
ocasião não falou nada! Quando o juiz perguntou... Pedro levantou a mão e disse „eu quero
falar... eu quero ficar com essa família porque eu sou muito feliz!‟ Ficou todo mundo surpreso
e chorando com o que ele verbalizou... confirmou na frente do juiz!
[...]
Davi – Então é algo muito forte para eles... no início da adoção eles tocavam muito na
questão da creche! Eles foram lá umas seis ou sete vezes! É a questão do luto que eles tinham
que vivenciar... e não é algo muito rápido!
79
Em sua narrativa Davi revela a existência de um fantasma que ronda Pedro, mas será que essa
“coisa” que deveria estar “morta”, longe da vivência humana e insiste em permanecer,
assombra apenas os adotados? Na sua vivência, enquanto pai adotivo, o que personifica o
fantasma? Seria a angústia, ante a incerteza de não ser benquisto pelos filhos, que resistem em
lhe chamar de pai? Ou quem sabe a impossibilidade de garantias de uma constituição familiar
adotiva? Carregaria esse fantasma a marca da outridade da adoção, da abertura de ser família?
Estaria ele mostrando a acolhida de chegada do outro, da alteridade, do estrangeiro que vem
de fora e que habita dentro? Transitando entre o espaço da estranheza e da familiaridade?
(FIGUEIREDO, 1996).
[...]
Davi – Inclusive no início do ano passado eles dormiam no mesmo quarto... até que
percebemos que era importante principalmente para Pedro ter o quarto dele!... então o quarto
que tínhamos para leitura foi desocupado! E ali eu guardava na gavetinha moedas do troco!
Descobrimos o que estava acontecendo porque eles voltaram com o lanche da escola...
perguntamos o porquê deles não estarem comendo... e eles acabaram soltando... quem contou
foi Pedro! Perguntei... „de onde vocês pegaram dinheiro?‟ Eles disseram... „Pegamos dali!‟...
se referindo a gaveta! Eu perguntei... „de quem foi a ideia?‟ „Ana!‟... respondeu Pedro!
„Certo... Ana deu a ideia e você pegou por quê?‟ Pedro continuou... „porque ela pediu pra eu
pegar!‟ Então chamamos os dois e tivemos uma conversa muito séria para colocar que o que
eles estavam fazendo era errado! Quem pega as coisas escondido que não nos pertence?
Quem faz isso é o ladrão! Eles estavam em pé... e Pedro se quebrou no choro! No dia seguinte
Ana estava chorando muito também! No terceiro dia Pedro chegou e disse... „papai... não
estou fazendo mais aquilo!‟ Aí percebemos o quanto eles estavam emocionalmente mexidos!
Depois disso eu conversei com a minha esposa e falei que eles estavam com muito medo... e o
medo só podia ser um... da volta para o abrigo! Ela tremia! Entendemos que era preciso dar
uma recuada! [...] Eu não tirei o dinheiro da gaveta e disse isso para eles... e nunca mais
tiraram!
Olhando para o pai Davi, vemos sua atitude em cuidar dos filhos. Ao passo que percebe Ana e
Pedro com atitudes que, para ele, não são vistas como adequadas, aponta outras direções para
os mesmos. Freire (1975) assinala que a educação trás consigo um coeficiente de esperança,
no sentido de mudanças. Assim, educar, para este autor, é habilitar para os humanos a
possibilidade de que estes “leiam” o mundo e, se possível, o modifiquem. Esse ponto de vista
implica a concepção de seres inacabados, históricos e, consequentemente, aprendizes.
Interessante que a paternidade aqui é, mais uma vez, revelada enquanto cuidado, dissolvendo,
com isso, o mito que propaga que a inabilidade biológica do homem para com os cuidados
infantis. Este fato que pode ser evidenciado quando Davi recua ao perceber que as crianças,
diante da situação-limite que vivenciaram, estavam amedrontadas com a possibilidade de
outra devolução. Esta atitude de Davi me leva a pensar, de modo mais amplo, em discussões
no âmbito da defesa de direitos dos/as cidadãos/ãs. A respeito da paternidade, poucas são as
perguntas realizadas aos homens com relação ao exercício parental. Muitos homens não
participam do cuidado para com seus filhos e mesmo que muitos deles o queiram,
aparentemente, instituições sociais como a família, a escola e o judiciário, são acanhadas em
ofertar esta possibilidade. A licença parental, cujos dias são poucos, está posta como reflexo
dessa cultura.
80
[...]
Davi – Nesse dia nós os sentimos com muito medo... e bateu a angústia! Prova que é isso... o
medo está lá! Isso pode acontecer a qualquer momento! Ela dizia antes muita coisa a minha
esposa... se referindo ao outro casal que obteve a guarda deles... „minha mãe Vilma vai me
pegar... não adianta a senhora dizer que não vai ter problema porque a polícia vai tirar a gente
da casa da senhora para levar para creche!‟ Ela reproduziu isso porque para ela foi a história
que aconteceu... a que foi contada! Teve vezes que a minha esposa entrava em crise e chegava
a dizer „Oh meu Deus!... quando é que isso vai mudar?!‟ Nos ajudou muito a psicoterapia!
Assim como as conversas com o pessoal do abrigo para saber como era a história... porque a
cópia do processo só lá na frente é que fomos pegar! A própria secretária do juiz nos deu
muitas dicas... disse qual foi o contexto... que família foi essa que tinha a guarda antes! [...]
Pedro conta que uma vez eles ouviram os dois conversando a respeito de levá-los de volta
para o abrigo por conta do comportamento de Ana! Disse também que apanhou de cinto... que
ficou em um quarto escuro! Então... são coisas que fomos percebendo aos poucos... que na
convivência foram sendo expressadas! Interessante que foi ele quem falou!... hoje ele fala
muito!... até entrega a irmã!
Mais uma vez, Ana aparece como que testando a relação com o casal adotante. Estaria ela
dizendo “até que ponto serei aceita?” Interessante que a esposa de Davi aparece na narrativa
como aquela que, por vezes, esteve em crise por conta da situação acima citada. Inquieta-me o
silêncio de Davi! E ele onde estaria? Será que em crise também, desejando ver mudanças no
comportamento provocador de Ana? Vargas (1998) observa esse processo como um
engatinhar, cujos passos são dados em direção à parentalidade adotiva. É cabível mencionar
que para o enfrentamento desses momentos de crise, Davi e sua esposa buscaram uma rede de
apoio: na terapia, nas idas rumo ao Judiciário e ao abrigo para colher informações acerca da
história das crianças em tela. Sobre isto, reflito: o que Davi e sua esposa gostariam de
perceber na história de Ana e Pedro? Estariam eles sendo ameaçados pelo desconhecido? O
que fazer com a história revelada na/pela documentação? Tomando conhecimento é possível
dominar os fatos, desviar possíveis malefícios?
Davi prossegue narrando que Pedro ouviu uma conversa dos primeiros pais adotivos, e nesta
os mesmos colocaram o comportamento de Ana como causador da devolução. Aqui é cabível
problematizar a questão do abandono trazida por Weber (2011). Esta autora fez um paralelo
entre a história de João e Maria e o abandono de crianças no Brasil. Conta-se que às margens
de uma floresta vivia um lenhador, seus dois filhos e a madrasta destes. Em uma época de
crise financeira, a madrasta teve a ideia de abandonar João e Maria na floresta e o pai
consentiu. Segundo Weber (2011), muitas crianças como essas são vítimas de abandonos e
não possuem um enredo feliz na história da vida. Sabendo disso, o ECA (BRASIL, 1990)
coloca o abrigo entre as medidas de proteção, de curto prazo, para crianças e adolescentes que
tiverem os direitos ameaçados. Conquanto, vemos que no Brasil a institucionalização de
crianças e adolescentes teve, por muito tempo, e ainda possui um caráter carcerário e
repressivo. Neste cenário paradoxal, vemos de um lado, o objetivo de remover da sociedade
as crianças e adolescentes que “incomodam”, e de outro, uma perspectiva de garantia de
direitos, com desígnio de proporcionar proteção integral a todas as crianças e adolescentes,
como previsto no ECA. “De acordo com a estimativa da Secretaria de Assistência Social,
existem no Brasil cerca de 200.000 crianças abandonadas, das quais 195.000 estão em
instituições” (WEBER, 2011, p.36). Seria Ana e Pedro o exemplo de muitas destas crianças à
espera de uma adoção? Uma vez sendo a “causadora” do retorno a instituição de acolhimento
como ficou Ana? Seria esse um dos motivos das agressões da criança dirigidas as mesmas
81
figuras parentais que a abandonaram? A devolução simbolizou, para Ana, o fracasso da
adoção? E, atualmente, está sendo oferecido à criança um terreno propício para expressão do
luto diante das perdas sofridas?
[...]
Davi – Então essa adoção tardia tem também esses detalhes... esse fantasma que vai
acompanhando! Mas é botar para frente!
Ellen – Vocês estão juntos há quanto tempo?
Davi – Vai fazer dois anos... foi no dia vinte e três de dezembro de dois mil e nove!
Ellen – Você quer dizer mais alguma coisa a respeito da sua experiência?
Davi – Quero falar da satisfação... até mesmo para a nossa vida enquanto casal... o que faltava
eram os filhos! Entra também a questão da história de cada um... e eu que sou também filho
adotivo... fui tomado da minha mãe... enfim... uma história bem complicada!... Meu pai
biológico só me assumiu quando eu já estava rapaz e eu sempre tive muito problema por
causa disso... ele estava ausente e podia estar presente! Mas o que eu quero dizer é que eu fui
muito amado e eu tento fazer com eles a mesma coisa que eu aprendi... desde costumes
pequenos a outras coisas maiores! Papai me ensinou a fazer xixi sentado em casa para não
sujar... então eu ensinei a Pedro o mesmo! Outra coisa... toda madrugada eu acordo e faço o
mesmo que papai fazia... ele ia no nosso quarto ver como estavam! Isso é legal porque eu os
cubro... para colocar o ventilador de um jeito diferente também!... Ana sempre derruba a
boneca e Pedro se enrola todo no meio de três travesseiros!
Quais seriam essas “satisfações”, ditas por Davi, que a adoção proporcionou a ele e sua
esposa? Seria a expressão da adoção enquanto afeto con-sentido? No tocante à relação
conjugal, como foi para o casal conviver com a impossibilidade de terem filhos biológicos?
Neste momento Davi revela também sua vivência enquanto filho, remetendo-se a
aprendizados de sua tenra infância. Surpreende-me o fato da mostração de Davi enquanto
filho adotivo que não foi, inicialmente, assumido pelo seu genitor. Estaria ele contando do seu
abandono? Me chama também a atenção o trânsito de Davi, do filho adotivo para o pai
adotivo. Conforme Maldonado (1989, p. 27):
Os filhos se inscrevem na biografia dos pais de maneira profunda e extensa: ao
acompanhar o desenvolvimento de cada filho - seja ele biológico ou adotivo - pai e
mãe revivem passagens de sua própria evolução, repetem como pais muito do que
viveram como filhos e criam, em si mesmos e no vínculo, novos aspectos de ser.
Assim, estaria Davi lançando mão do vivido com seu pai para reconhecer-se na experiência de
ser pai de Ana e Pedro?
Davi – O engraçado é que essa preocupação parece que vem já tão fixada que não há uma
noite que eu não acorde para olhar como eles estão! É gostoso de cuidar... de ver! Só tem sido
felicidade! Ah... dá trabalho? Todo filho dá trabalho! Eles mais em alguns aspectos porque
estão dentro dessa história... mas a alegria é muito grande... eles são muito carinhosos! Pedro
é aquele beijoqueiro... muito carinhoso e conquista todo mundo! Ana é aquela assim... muito
carinhosa... mas se pisa no calo... muito braba! Um doce azedo! Cabe a você experimentar
82
qual dos dois de acordo com o momento! Mas ela é muito graciosa... ela conquista muito pela
graciosidade dela! Sedutora nesse sentido! Ela cativa... essa é a palavra!
Ao narrar, “É gostoso de cuidar... de ver”, Davi se refere a sua participação diária na vida dos
filhos. Esta pode ser vista no conhecimento da singularidade dos mesmos, na preocupação
com o bem-estar, na renuncia ao acordar todas as noites para ver como eles se encontram.
Davi, ao longo desta narrativa, expressa sua felicidade enquanto pai, mesmo em meio ao
“trabalho” que sua prole oferta. Ademais, seria o carinho recebido dos filhos uma retribuição
do afeto con-sentido por Davi? Olhando para os modos de ser pai na contemporaneidade, será
que a adoção flexibiliza um modelo tradicional de pai-provedor? Estudos são cada vez mais
enfáticos ao afirmar a participação paterna na criação dos filhos para além do provimento.
Sobre este prisma, Lyra (2004, p.91) salienta:
Devemos ter em mente que a paternidade não é apenas um dever, uma obrigação.
Ser pai é um direito de todo homem. Ter um pai é um direito de toda criança. A
participação do homem na criação dos filhos pode ser uma experiência positiva para
a criança e, principalmente, para o homem.
Olhando para esta demanda, Oliveira (2010), ao estudar as representações sociais do pai pobre
e separado, verificou a avaliação negativa que os sujeitos da pesquisa fizeram acerca da sua
vivência da paternidade após a ruptura conjugal. O sofrimento experimentado pelos homenspais advém de não possuírem a guarda dos seus filhos e, em decorrência disso, se depararem
com o distanciamento dos mesmos. Nesta mesma ótica, inclinando-se para a adoção, será que
a mesma, enquanto modo de ser família, abre espaço para se perceber a paternidade numa
perspectiva polissêmica, coligando múltiplos olhares e sendo atravessada por outros campos?
Assim, possivelmente a paternidade pela via adotiva rompe com a lógica normativa que
adjetiva o pai de provedor, disciplinador e modelo moral (TONELLI, 2004).
Davi – Ser pai de dois filhos gêmeos... um casal... então fechou assim! Há três meses foi o
batizado deles na Igreja Anglicana que eu faço parte... eu fiz a frase do cartão que dizia
assim... Um dia pedimos a Deus dois filhos... mas ele nos deu dois anjos! [lágrimas]
A narrativa de Davi me convida a olhar na direção de Weber (2011, p.122), ao pronunciar
que: “a capacidade de qualquer relacionamento familiar, de fato, parece não depender da
história anterior dos protagonistas, da aparência física ou da idade, mas da verdadeira
capacidade de construir o afeto, com base em trocas e doações”.
Este pensamento legitima a paternidade adotiva pela via afetiva, apontando para a
compreensão de que a ligação afetiva entre os humanos não tem como base a vinculação
biológica.
Contemplando o dizer de Davi, o que os anjos, enviados por Deus, trouxeram em suas asas?
Seria, para Davi, a possibilidade de exercício da paternidade? Uma nova roupagem à sua
família? A possibilidade de vinculação afetiva e ligação parental? Desafios e estranhezas?
Trocas, doações? Aprendizagem e mudança? Responsabilidade e maturidade? Laços de
ternura, de amor?
Ellen – São dois anjos na vida de vocês?
Davi – São... em vários aspectos! Até mesmo no comportamento humano... temos que nos
policiar mais nas discussões... nas brigas... no que conversa e no que faz! [...] Eles dizem...
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„Mamãe... papai fez isso assim... disse aquilo bem feio... andou rápido no trânsito!‟Então você
começa a pensar que tem família... pensar na postura pelo fato da maneira que eles me vêem!
Possivelmente tornar-se pai para Davi demandou uma mudança de atitude. Parece-me que ele
está fazendo coro com os achados de pesquisas de Rodrigues (2009) e Oliveira (2010), nas
quais as autoras mostram a vivência paterna enquanto produtora de maturidade, favorecedora
do senso de responsabilidade frente aos filhos, fomentando, assim, um novo estágio na vida
do homem, que ecoa com o sentido de crescimento e de co-autoria de uma relação familiar
afetiva.
Davi – E a maneira como eles interagem... é muito gostoso... muita satisfação! Não
esperávamos que fosse tão bom como tem sido! É disso aí pra frente... muito trabalho...
preocupação e muita satisfação! Temos muito a agradecer!
Estaria Davi, ao finalizar sua narrativa, lançando significações na teia social acerca de uma
nova cultura da adoção? É notório que a nossa sociedade compactua e reforça a primazia dos
laços sanguíneos. Na contramão desta lógica hierarquizante, Uziel (2000) traz a ideia de
pluriparentalidade como constitutiva dos novos arranjos familiares, propondo a adição e não a
substituição de um vínculo. Para melhor compreender o que cerca este debate, a autora
apresenta a adoção como uma adição, sem necessitar apagar da história da criança qualquer
vínculo com os genitores e os substituir por novas relações parentais. Assim, a criança teria
direito a conhecer suas origens e, caso deseje, conviver com as mesmas.
A paternidade adotiva, para Davi, se insere num universo repleto de ambiguidades e
paradoxos- ao passo que é satisfação, concomitantemente, é trabalho; à medida que gera
preocupação convida ao agradecimento pela oportunidade de exercício paterno.
84
5 TECENDO A PATERNIDADE ADOTIVA
Quem os vê ao longe, caminhando lado a lado,/ Crê, por tal estado que se trata de
um casal./ Ela, moça fina, mais mulher do que menina;/ Ele, já grisalho, de agasalho,
coisa e tal./ E aos passos lentos, desatentos as pessoas,/ Como se nesse tempo fosse
feito só pra os dois./ Ricos os momentos, relembrando coisas boas./ E o que vem
depois, depois.../ Eu, que já os conheço, sei a história por outro lado/Ela é sua filha;
ele, o pai que adotou./ Lá nos tempos idos, que chamamos de passado,/ Ela,
abandonada, teve um lar que abraçou./ E pra quem não tinha, nem futuro, nem
presente,/ Deu-se, de repente, nova chance de viver./ Ele e sua esposa, mesmo
sacrificialmente,/ Deram pra menina teto e pão, razão de ser,/ Como o Deus, o Pai, a
nós tem feito cada dia./ Nós, que desgarrados, mal sabemos caminhar,/ Deu-nos o
Seu nome e adotou-nos na família,/ E nos fez pra sempre um lar.
(NETO, disco sonoro, 1990)
A intimidade expressa pela menina-mulher e pelo homem grisalho, à primeira vista,
remete à ideia de um casal. Ambos andam vagarosamente e entre conversas, relembram os
momentos vivenciados, como se o tempo, diante da singeleza daquele momento, não fosse de
tanta valia. Munido de outras lentes, o poeta os reconhece, nesta relação afetuosa, enquanto
pai e filha, pois já tinha se apropriado da história da adoção compartilhada entre ambos. A
menina, que, no passado, habitava em um mundo de incertezas ante ao abandono, foi acolhida
nos braços de uma família. Assim o fizeram, semelhantemente, ao que Deus Pai realizou ao
criar o mundo, a natureza e ao adotar o humano como filho, coroa da criação.
É bem verdade que às masculinidades, por muito tempo, coube a identificação de
forte, provedor, viril. Esta representação social se expande em todos os seguimentos da vida,
conquanto, no que se refere à paternidade, aos homens, comumente são atribuídas a
autoridade, moral e capitania econômica da família. A participação mais efetiva do homem no
contexto familiar, assim como foi descrito na canção acima, causa alguns estranhamentos e,
num primeiro olhar, pode não ser reconhecido como um modo de exercer a paternidade,
baseado no cuidado e expressão de afeto.
Vislumbrando a paternidade adotiva, focando, em especial, nos pais citados neste
estudo, foi possível perceber a presença significante do afeto nas suas relações parentais.
Constata-se que muitos homens, sejam eles pais adotivos ou não, vêm transitando por este
lugar, o que ressalta a quebra de conservas culturais outrora mencionadas e a abertura de
multiplicidades de paternidades, vivenciadas, escolhidas, desejadas e con-sentidas.
Experienciar esta pesquisa me possibilitou o encontro com a questão, me levou ao
palco como acompanhante de experiências vividas pelos protagonistas aqui apresentados, me
85
fez colocar em cena estudiosos que se debruçam nas temáticas abordadas e, sobretudo, coube
a mim o papel de narradora-ouvinte desta história, assim como, de encontros e desencontros
que me trouxeram até aqui! Após a revelação de muitas cenas, eis o momento de fechar as
cortinas. Com aplausos pelos dramas e comédias, me reporto ao pensamento de Lispector
(1984, p.25): “não, não é fácil escrever. É duro como quebrar rochas. Mas voam faíscas como
aços espelhados”. Com tais palavras, a autora aludida, propõe uma espécie de denúncia acerca
de uma escrita descomprometida socialmente. Em direções contrárias, lançando mão da
narrativa como modo de expressar a experiência, me distancio de uma ciência “neutra”, ávida
por informação.
Em nossos dias, perante as muitas transformações, as experiências escapam pelas
mãos e a narrativa, neste cenário, ausenta-se assiduamente. É sabido que a narrativa carrega as
marcas do narrador, suas inquietações e afetações e, assim, registra a história, o acontecer
humano. Destarte, ao objetivar compreender a experiência de ser pai adotivo, me vejo diante
de uma circulação de palavras e vivências que se revelam, dizem sobre, criam sentidos e
estabelecem um debate político.
Partindo nesta direção, o movimento de realização das discussões propostas neste
estudo são tecidas sob o viés de que a possibilidade de produção e conhecimento se dá na
coexistência dos saberes, assim, a Psicologia exclusivamente não responde às questões postas
na sociedade. Pombo (2005) fundamenta e nutre essa questão ao
abalizar a
interdisciplinaridade como um interesse real por aquilo que o outro tem a dizer sobre
determinado fenômeno, a mesma só existe se:
somos capazes de partilhar o nosso pequeno domínio do saber, se temos a coragem
necessária para abandonar o conforto da nossa linguagem técnica e para nos
aventurarmos num domínio que é de todos e de que ninguém é proprietário
exclusivo (POMBO, 2005, p.11).
Somado a tal olhar, Bock (2003) assinala que no Brasil, a Psicologia é fortemente
marcada por uma história de serviço aos interesses das elites, como parte disso está o controle
e a patologização de comportamentos que não eram compatíveis com quem detinha o poder.
Esse quadro desvela uma Psicologia distante do âmbito ético-político, com pouca inserção
social e de difícil acesso à população pobre do país. Segundo a autora supracitada, “os
psicólogos se puseram de costas para a realidade social, acreditando poder entender o
fenômeno psicológico a partir do próprio homem” (BOCK, 2003, p.26).
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Em cena, o presente capítulo pode ser visto como um convite, no qual como
pesquisadora, fui solicitada a tecer compreensões e sentidos acerca do modo como as
entrevistas se apresentaram a mim. Ressalta-se que o olhar, a seguir, configura-se como uma
revelação dentre ocultamentos, ou seja, uma possibilidade mediante outras que poderiam ser
apontadas. Faz-se importante mencionar que Rui e Davi, sujeitos/narradores desta pesquisa,
possuem um traço de pertencimento, o ser pai adotivo. Conquanto, suas singularidades,
conferem um caráter plural às suas experiências.
Ao passo que as narrativas foram sendo expressas, a questão norteadora deste estudo
foi se mostrando e se relevando enquanto fenômeno. Assim, trago inicialmente, que o cuidado
faz-se presença significante no exercício da paternidade adotiva. Isso pode ser evidenciado
nas seguintes narrativas:
Davi – Quando a minha esposa voltou das férias eu fiquei mais com eles durante o dia!
Por eu trabalhar com representação... tenho uma flexibilidade grande no horário... então
era eu quem os pegava na escola... dava banho... botava para jantar!
Davi – [...] toda madrugada eu acordo e faço o mesmo que papai fazia... ele ia no nosso
quarto ver como estavam! Isso é legal porque eu os cubro... para colocar o ventilador de
um jeito diferente também!
É perceptível que os pais adotivos se mostram como ruptura do modelo hegemônico
de masculinidade, o qual coloca o homem à distância do cuidado com os filhos e diretamente
ligado à esfera pública, ao trabalho. Entretanto no diálogo, alocado abaixo, Rui problematiza a
importância da licença paternidade e abre caminhos para falar nos direitos sexuais e
reprodutivos do homem. Diante disso, vê-se como imprescindível, estudos que reflitam como
as questões de gênero têm configurado formas relacionais entre homens e mulheres; à
semelhança, é preciso salientar a necessidade de ações, a exemplo da criação e efetivação de
políticas públicas, voltadas para o homem (PORTELLA, 2004).
Ellen – Você teve direito a licença paternidade?
Rui – Cinco dias só! Mas vou falar com meu advogado para abrir precedente... já
pensou eu... com noventa dias com ele? Noventa dias de pernas para o ar só brincando
com ele... seria bom demais!
Atrelado às questões anteriormente referidas, o afeto ganha um vasto lugar no território
da paternidade adotiva, como pode ser percebido no diálogo que segue:
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Rui – Ele está ligado mesmo!... gosta de estar comigo! Minha família percebe isso...
minhas irmãs que são da área de saúde percebem essa interatividade... esse calor
humano entre eu e ele!
Ellen – É afeto?
Rui – Afeto e grande!!! Muito... muito... muito!
O afeto, tanto para Rui quanto para Davi possui um caráter transformador na relação
com seus filhos, permitindo que estes elaborem experiências de abandono, outrora
vivenciadas, e possam estabelecer vínculos de parentesco e modos outros de ser-no-mundo.
De maneira intensa Rui declarou:
Rui – Onde tem amor o medo desaparece! E eu acho que não há ser humano nenhum...
por mais indisciplinado... que não se dobre diante do amor verdadeiro!!! Não é esse
amor cobrança... esse amor querendo modificar as pessoas... é o amor aceitando o
indivíduo como ele é!
O afeto con-sentido conjugado pelos narradores também aponta na direção da adoção
como um modo de ser família:
Davi – Ser pai de dois filhos gêmeos... um casal... então fechou assim! Há três meses
foi o batizado deles na Igreja Anglicana que eu faço parte... eu fiz a frase do cartão que
dizia assim... Um dia pedimos a Deus dois filhos... mas ele nos deu dois anjos!
Assim, estes pais rompem com a indissolubilidade dos laços biológicos e apresentam
paternidades derivadas de relações de escolhas e proximidade, fato que contribui,
significativamente, para uma nova cultura de adoção, fundamentada na afetividade
(SCHETTINI; AMAZONAS; DIAS, 2006). Este olhar é demonstrado nas palavras de Cecília
Meireles (s/a apud WEBER 2011, p.95):
Não digas: Este que me deu corpo é meu Pai.
Esta que me deu corpo é minha Mãe.
Muito mais teu Pai e tua Mãe são os que te fizeram
Em espírito.
E esses foram sem número.
Sem nome
De todos os tempos
Deixaram o rastro pelos caminhos de hoje.
Todos os que já viveram
E andam fazendo-te dia a dia
Os de hoje, os de amanhã.
E os homens, e as coisas todas silenciosas.
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A tua extensão prolonga-se em todos os sentidos.
O teu mundo não tem pólos.
E tu és o próprio mundo.
No horizonte de problematização da pesquisa, a questão do preconceito invadiu, com
seus tentáculos, a adoção, o que se apresenta a seguir:
Rui – Em primeiro plano eu não me sinto pai adotivo... eu me sinto pai mesmo!!!
Rui – Eu não sei o que os outros pais acham da palavra adoção... mas na minha mente
não existe!
Este fenômeno revela a existência do preconceito não apenas na vivência social, mas
também no âmbito familiar e pessoal. Tal posicionamento traz a conotação da adoção como
forasteira, espúrio (SCHETTINI, 2008) e, concomitantemente, a paternidade adotiva associase a algo de segunda categoria, tendo em vista que o adotado, por vezes, é percebido como
“filho de estranho” (QUEIROZ, 2004).
No que se refere a Rui, sua visão acerca da adoção, o levou à tentativa de reprodução
biológica de um filho. Isso pode ser evidenciado nas seguintes narrativas: “Quando eu entrei
no cartório para fazer o registro... para mim eu estava entrando numa maternidade... como se
ele estivesse nascendo!” [...] “É como se estivesse nascido de mim!”. Outro aspecto relevante
apontado por Rui faz menção à importância do registro como modo de patentear a paternidade
e a inserção em sua família extensa, o que é possível ser observado no depoimento abaixo, o
qual confere a Caio o posto de “filho/neto oficial”:
Rui – Todos ficaram felizes quando o registro saiu! Minha mãe mesmo queria ver... ela
disse... „meu nome está lá no registro?‟ Eu disse que „sim... está lá como avó!‟ „É
mesmo é?‟ Eu disse... „ele agora é neto oficial!
De outro passo, o registro vincula-se à questão do reconhecimento da paternidade,
chamando o homem ao compromisso que engloba o seu exercício parental. Ao refletir a
respeito dos direitos e proteção integral da criança e do adolescente, Franzolin (2010) chama
atenção para o princípio da paternidade responsável.
Como sentido acerca da questão norteadora desta pesquisa, o titubeio do viver, comum
no interjogo de humanos, evidencia-se. Em Rui pode ser percebido quando o mesmo narra
sua relação pai-filho e cita Caio como exemplo, ao mesmo tempo em que aparece como um
“problema”:
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Rui – Outra coisa que percebi é que ele... junto comigo... tem modificado as atitudes de
muitas pessoas ao meu redor com relação à adoção... a cuidar dos filhos biológicos!
Ellen – Você se considera... junto com Caio... um exemplo de relação parental?
Rui – Muito! E ele é um exemplo!
Ellen – Exemplo de quê?
Rui – Paciência!... tem um problema? Eu tenho um maior!... mas estou feliz! Você não
o vê chorando... ele brinca o tempo todo! Sorri... se diverte... vai para debaixo da
cama... gosta de fazer palhaçada!
Com relação a esta dualidade, a mesma revela-se também na postura de Rui, quando se
questiona, durante o processo de apadrinhamento, a respeito de uma possível adoção:
Rui – Tudo isso eu vinha avaliando no apadrinhamento... você tem certeza se é isso que
você quer? Eu olhava para ele... conversava com ele... você gostaria de ficar aqui com...
com!... Eu não conseguia dizer titio... com seis a oito meses do apadrinhamento eu já
dizia papai!
Partindo da dimensão afetiva da adoção, Schettini (1998) expõe que é necessário
ocorrer, por parte dos adotantes, o que ele nomeia de gestação psicológica do filho adotivo
que, analogicamente à gestação biológica, envolve um misto de sentimentos com relação à
paternidade/maternidade.
No que se refere a Davi, a ambivalência presente na paternidade adotiva personifica-se
por meio do que ele denomina de “fantasma”, ou seja, do receio que os filhos possuíam de
outro abandono, bem como da dificuldade de adaptação dos mesmos frente a uma nova
configuração familiar. Esta característica é, conforme Camargo (2005), fortemente presente
em crianças e adolescentes que passaram por um período extenso de institucionalização e
foram acometidos por múltiplos abandonos. Conquanto, aponto que, possivelmente, este
fantasma rondou a paternidade adotiva de Davi provocando estranhezas e familiaridades,
trazendo a marca da outridade da adoção como modo de ser família, cuja
diversidade/alteridade é significativa (FIGUEIREDO, 1996).
Outro ponto interessante de ser mencionado, ao olhar para as narrativas de Davi, é o
seu lugar frente às atitudes de Ana, as quais o colocavam mediante as vicissitudes do bruxo e
do príncipe de diamantes. O depoimento abaixo expressa um sentimento de insegurança, que,
provavelmente, habitava em Davi ao desejar saber se seria ou não adotado enquanto pai.
90
Davi – Aí foi engraçado que no Carnaval desse ano fomos brincar em Olinda...
fantasiados... ele foi de super homem e ela de fada! No carro ela dizia... „vamos
transformar papai em bruxo e mamãe na princesa!‟[...] Eu passei a ser o príncipe de
diamantes dela... veja a diferença! Para conquistar isso não foi fácil... acho que foram
uns oito meses para ouvir esse príncipe de diamantes!
Decerto, nas paternidades experienciadas por Davi e Rui a família extensa de ambos
aparece como participante do projeto adotivo, conferindo à adoção um caráter social, que
transpõe os limites de quem, inicialmente, motiva-se a buscar a parentalidade. Desta feita,
conforme expõe Schettini (1998) e Levy (2005), a adoção se processa nas diversas redes
sociais, em meio à convivência afetiva. Outro fenômeno comum aos dois pais foi a procura
dos mesmos por uma rede de apoio, atitude tida como importante, principalmente, em casos
de adoções de crianças maiores ou com necessidades especiais.
Olhando a história da criança e do adolescente no Brasil, bem como para as políticas
públicas sociais voltadas para o atendimento desta população, observa-se, apesar da
promulgação do Estatuto da Criança e do Adolescente, serviços e programas de cunho
assistencialista. Diante desta realidade, salienta-se a necessidade de implementação e
efetivação de políticas públicas destinadas às infâncias e juventudes. Uma vez garantidas
políticas de saúde, educação, habitação, os direitos previstos na legislação podem, numa
perspectiva ética, ser assegurados.
Com relação ao direito à convivência familiar, como fundamental à criança e ao
adolescente, observa-se uma certa invisibilidade das crianças maiores, adolescentes e das que
possuem necessidades especiais. Assim, esta realidade postula a carência da promoção de
políticas públicas referentes a este tipo de adoção e a precisão de divulgar, tanto para a
sociedade, como aos entes públicos e civis, uma nova cultura da adoção, que acolha
afetivamente as crianças e os adolescentes em suas especificidades.
A paternidade adotiva dos sujeitos/narradores pode ser compreendida como uma
mostração dos diversos arranjos familiares da contemporaneidade. Ambos tiveram a adoção
de crianças maiores como via para a parentalidade, conquanto, Davi é membro de uma família
nuclear e Rui de uma família monoparental. Essas configurações familiares são reflexos das
mudanças ocorridas na sociedade ao longo dos tempos e expõem a dificuldade existente de se
definir o que é família na atualidade (SARTI, 2003), revelando, assim, o caráter simbólico e
plural da mesma. Tendo isso, é possível ressaltar que as paternidades não estão afiançadas à
genética, mas sim, ao exercício de possibilidades afetivas.
91
Em meio à multiplicidade de famílias, Rui apresenta a sua paternidade solteira atrelada
à maternidade. Essa associação pode ser percebida nas narrativas que seguem:
Rui – Eu acho que talvez eu seja pai e mãe! Essa experiência de pai solteiro significa
isso... que você consegue se desdobrar... ser pai e mãe ao mesmo tempo! O sentimento é
dobrado!
Rui – Um conselho que eu dou na sua pesquisa... é que todos possam ouvir ou ler bem
claro... ser pãe é maravilhoso! Porque você consegue vislumbrar um mundo de
sentimentos que quando você é só pai não consegue ver!
Ao utilizar a expressão “pãe” me vem à mente a questão: estaria aqui, no depoimento
de Rui a paternidade monoparental sendo vista enquanto um arranjo incompleto, no qual seja
necessária a associação da maternagem? Se voltarmos o olhar para a família nuclear burguesa,
a paternidade exercida por Rui foge da norma vigente, afirmando as diferenças. Assim, a
mesma poderia ser vista com as lentes de Figueiredo (1996), quando o autor comenta acerca
do estrangeiro em nós e no outro que é causador de incômodo e estranheza. Nesta perspectiva,
Rui revela a tensão de ser-si-mesmo, enquanto pai solteiro e o habitar em meio a esse
diferente, o qual a alteridade se faz familiar. Esta representação social também reflete o
encontro entre o arcaico e o novo no que se refere às paternidades e nos convidam a refletir e
divulgar as conquistas alcançadas no campo das masculinidades, em especial, às paternidades
cuidadoras, desejadas, comprometidas e responsáveis (PORTELLA, 2004).
Na compreensão de Critelli (2007, p.27), “investigar é sempre colocar em andamento
uma interrogação” e comprometida com esse querer saber que interroga, gestei afetivamente
esta pesquisa. Conduzida pela locomoção da paternidade adotiva, hoje, ao escrever estas
últimas palavras, emerge em mim um misto de sentimentos. Entre cansaços, angústias
vivenciadas, renúncias, responsabilidades diversas e muito prazer na arte da escrita, me vem à
mente o pensamento de que adotaria “este filho” de novo, com seu caráter de novidade, e não
meramente outra vez, que, conforme Pompéia (2010) é repetição.
Para mim, viver a adoção é tecer uma infinidade de fios, os quais possibilitam a
elaboração de sentidos impregnados de problematizações, denúncias, revelações, silêncios,
paradoxos, metáforas. Neste tecer, de forma artesanal, o afeto surge como aquilo que nutre
e/ou constitui o vínculo familiar. Desta feita, a paternidade adotiva distancia-se de um rótulo
pejorativo e afirma-se enquanto relação, cuja via é afetiva.
Compreender o ser homem, pai por adoção é uma tentativa de aproximação dos modos
de ser infinito do humano, desta feita, é possível falar de uma construção de um projeto
92
interminável de ser pai, em seu caráter circundante, histórico, no qual presente passado e
futuro se entrelaçam.
Tecendo a paternidade adotiva, numa perspectiva fenomenológica existencial, as
possibilidades mostram-se ilimitadas e, após aprendizados, narrativas de experiências,
combinações de cores, pontos e formas, uma nova inquietação surge como abertura para
dirigir-se adiante: Como a práxis psicológica pode contribuir para a efetivação de
Políticas Públicas relacionadas à adoção, particularmente, às chamadas “adoções
necessárias” de crianças maiores, de adolescentes e das que possuem necessidades
especiais?
93
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