10 UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA ELISA VIANNA ROSSI CALDAS UM OLHAR DA PSICANÁLISE SOBRE AS DIMENSÕES DO FRACASSO NA OBRA CARTAS A THEO DE VINCENT VAN GOGH Palhoça 2012 11 ELISA VIANNA ROSSI CALDAS UM OLHAR DA PSICANÁLISE SOBRE AS DIMENSÕES DO FRACASSO NA OBRA CARTAS A THEO DE VINCENT VAN GOGH Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de graduação em Psicologia, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Psicologia. Orientador: Prof. Dr. Maurício Eugênio Maliska Palhoça 2012 12 ELISA VIANNA ROSSI CALDAS UM OLHAR DA PSICANÁLISE SOBRE AS DIMENSÕES DO FRACASSO NA OBRA CARTAS A THEO DE VINCENT VAN GOGH Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao Curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de bacharel em Psicologia. Palhoça, 18 de junho de 2012 ____________________________________ Prof. e orientador Maurício Eugênio Maliska, Dr. Universidade do Sul de Santa Catarina _____________________________________ Profª Maria Ângela Giordani Machado, Msc. Universidade do Sul de Santa Catarina ____________________________________ Prof. Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares, Dr. Universidade de São Paulo Palhoça 2012 13 A todos aqueles que têm o dom de metamorfosear o que se vive. 14 AGRADECIMENTOS Muitas pessoas me ajudaram na trajetória do Curso de Psicologia, e em especial na realização deste trabalho. Gostaria neste momento, não só de agradecêlas o amor, o companheirismo e os incentivos que me dispensaram, mas também de prestá-las uma homenagem. Ao Prof. Dr. Maurício Eugênio Maliska, orientador deste trabalho, quero agradecer a atenção, a amizade e o estímulo constante, com os quais me conduziu durante esses dois últimos semestres. À Profª Maria Ângela Giordani Machado, por aceitar fazer parte da minha banca, pelos livros emprestados, pela sua atenção e incentivo. Agradeço, também, ao Prof. Dr. Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares, professor da Área de Alemão - Língua, Literatura e Tradução da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP. A minha família, que sempre esteve ao meu lado nos momentos de dificuldades e realizações. Agradeço, em especial, à jornalista Margareth Vianna Rossi Claussen, minha mãe, pela sua paciente tarefa de leitura, revisão e observações deste trabalho. À companheira de TCC Carmen Lucia dos Anjos que, com sua amizade e a constante troca de ideias, incentivou-me com estímulo e coragem para mais essa conquista. Aos amigos em geral que estiveram presentes – mesmo longe – e disponíveis para compartilhar suas ideias e opiniões acerca do assunto. A minha terapeuta, Celi Ghislandi, que esteve ao meu lado nestes últimos anos sendo testemunha dos meus fracassos e sucessos. Agradeço, ainda, a todas as pessoas que indiretamente contribuíram para a realização deste trabalho. 15 “Aquele que vive sinceramente e encontra aflições verdadeiras e desilusões, e que jamais se deixar abater por elas, vale mais que os que sempre vão de vento em popa, e que conheceriam uma prosperidade apenas relativa.” (VAN GOGH). 16 RESUMO O fracasso é um tema de grande importância para a literatura psicanalítica, uma vez que envolve diversos conceitos. Nesta pesquisa, a temática do fracasso foi ampliada no sentido de identificar e discutir as dimensões do mesmo na obra Cartas a Theo, de Vincent Van Gogh. Portanto, este estudo tem como objetivo propor uma análise discursiva sobre as dimensões do fracasso nesta obra literária, buscando: a) identificar passagens que remetem ao fracasso; b) investigar a importância do fracasso; e c) relacionar o fracasso nas Cartas com a teoria psicanalítica. Para que os objetivos da presente pesquisa fossem contemplados, adotou-se um caráter exploratório e qualitativo quanto à abordagem e classificação desta. Quanto ao delineamento adotado, foi o bibliográfico com base documental, visto que Cartas a Theo constitui a genuína correspondência trocada entre os irmãos Van Gogh. A análise apontou para uma problematização do nome próprio, já que Van Gogh herdou o nome de um irmão mais velho falecido com seis meses de idade. Com relação ao nome, foi discutido o fracasso do Nome-do-Pai, na medida em que aparece nas cartas certa precariedade de uma assunção do nome de família – este nome que não representava ou apresentava Van Gogh, uma vez que ele assinava, nas cartas e também nas suas obras, apenas o nome Vincent. Desta relação com o nome de família, destacou-se a intensa relação com o irmão Theo, destinatário absoluto das cartas (objeto desta pesquisa) que desempenhou um papel fundamental na organização da vida cotidiana do pintor, inclusive proporcionando determinado ajuste na psicose do artista. Este possível fracasso do Nome-do-Pai está articulado com o conceito lacaniano de forclusão, que está no cerne da constituição da estrutura psicótica. Por fim, foram discutidas características de um possível quadro de melancolia apresentadas por Van Gogh, por meio do seu discurso, nas Cartas. Palavras-chave: Fracasso. Cartas a Theo. Van Gogh. Psicanálise. 17 LISTA DE FIGURAS Figura 1 – Vincent Van Gogh aos 13 anos de idade.........................................10 Figura 2 – Theodore Van Gogh........................................................................11 Figura 3 – Vincent Van Gogh aos 19 anos de idade…......................................12 Figura 4 – Johanna Van Gogh-Bonger..............................................................13 Figura 5 – Kee Voos……...................................................................................20 Figura 6 – Dr. Gachet........................................................................................22 Figura 7 – Sien...................................................................................................24 Figura 8 – Quarto de Vincent no hospício de Saint-Rèmy.................................25 Figura 9 – “O Vinhedo Vermelho” - Primeiro e único quadro vendido, em vida, por Van Gogh............................................................................................................26 18 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO – PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA................................................................................................09 1.2 OBJETIVOS................................................................................................18 1.2.1 OBJETIVO GERAL..................................................................................18 1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS....................................................................18 2 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................19 2.1 AS CARTAS A THEO..................................................................................19 2.2 O FRACASSO NAS CARTAS.....................................................................22 2.3 O FRACASSO NA TEORIA PSICANALÍTICA.............................................27 3 MÉTODO........................................................................................................31 4 AS CARTAS E O FRACASSO.......................................................................35 4.1 UM E OUTRO VINCENT: LUTO E/OU MELANCOLIA?..............................35 4.2 ENTRE THEO E VINCENT: A TENTATIVA DE SUPLÊNCIA DO NOME-DOPAI......................................................................................................................38 4.3 DE VAN GOGH A VINCENT: O FRACASSO DO NOME-DO-PAI...............41 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................46 REFERÊNCIAS.................................................................................................48 9 1 INTRODUÇÃO Este estudo está vinculado ao Núcleo Orientado em Psicologia e Saúde e à disciplina Trabalho de Conclusão de Curso II, do curso de Psicologia da Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul. A presente pesquisa consiste em uma análise discursiva sobre o fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh. A ideia de realizá-la surgiu através de um antigo desejo da pesquisadora de unir a psicologia à arte e a partir da prévia leitura da correspondência dos irmãos Van Gogh, transformada nesta obra literária. O capítulo introdutório apresenta a formulação do problema de pesquisa, seguido da justificativa e dos objetivos. O capítulo seguinte apresenta o referencial teórico que trata de temas que foram divididos em três subtítulos: as cartas a Theo, o fracasso nas cartas e o fracasso na teoria psicanalítica. O terceiro capítulo trata do tipo de pesquisa, da abordagem e do delineamento da mesma, do contato com o material escolhido e dos instrumentos utilizados para coleta e análise do material. Por fim, serão apresentadas a análise e as considerações finais, com conclusões decorrentes do trabalho realizado e sugestões para novas pesquisas. 10 Figura 1 – Vincent Van Gogh aos 13 anos de idade Fonte: Van Gogh Museum (2011) Antes de iniciarmos a problemática da pesquisa, é importante uma breve apresentação do sujeito, cujo discurso será posteriormente analisado. Vincent Van Gogh nasceu em 30 de março de 1853 (exatamente um ano após da morte do seu primeiro irmão, também Vincent, que faleceu aos seis meses de vida), na aldeia de Groot Zundert – brabante holandês –, uma região situada entre a Bélgica e os Países Baixos. Seu pai, Theodorus Van Gogh era pastor e sua mãe, Anna Cornelia Carbentus, filha de um encadernador da corte. (TERRASSE, 1997). Vincent cresceu em uma família tradicional do século XIX, cujos valores cristãos, o trabalho e o esforço eram a base para uma vida virtuosa. Primogênito de uma família de seis filhos, seus cinco irmãos, em ordem, eram Anna, Theodore, Elisabeth, Willemien e Cor. (VAN GOGH MUSEUM, 2011, tradução nossa). Entre eles, Theodore, carinhosamente chamado de Theo, quatro anos mais novo e com 11 quem Vincent mantinha uma relação mais próxima, documentada por meio de cartas que ambos trocaram por toda a vida. Figura 2 – Theodore Van Gogh Fonte: Van Gogh Museum (2011) Theodore Van Gogh foi um negociante de artes dos Países Baixos, alguém que acreditou e apoiou financeiramente seu irmão para que este se dedicasse exclusivamente à pintura. A partir de uma carta na qual Vincent “abre-se profundamente a Theo [...] e descreve a horrível angústia em que se encontrava” Théo passa a dedicar-se inteiramente ao irmão. (TERRASE, 1997, p.10). A primeira carta escrita por Vincent a Théo foi num domingo, em 29 de setembro de 1872. A última, Vincent trazia consigo no momento em que deu um tiro no seu próprio peito, no dia 29 de julho de 1890. A correspondência entre os irmãos Van Gogh foi interrompida durante o período em que Vincent morou com Theo em Paris, sendo retomada no próprio dia da chegada do mesmo a Arles, uma cidade no sul da França. E, também, durante os 15 dias após a noite de Natal de 1880, quando Vincent chega à casa de seu amigo, e também pintor, Paul Gauguin e decepa um 12 pedaço de sua orelha. Após os dois episódios citados, as cartas escritas a Théo seguem quase que diariamente, contribuindo para a construção de “um verdadeiro testamento literário”. (TERRASSE, 1997, p.13). Figura 3: Vincent Van Gogh aos 19 anos de idade Fonte: Van Gogh Museum (2011) Já que o ponto central para a discussão da temática do fracasso será a obra Cartas a Theo, é imprescindível a apresentação da mesma. O livro consiste na reunião de aproximadamente 700 cartas de Vincent endereçadas a Theodore Van Gogh. A primeira edição de Cartas a Theo, um volume de mais de mil páginas, foi publicada em 1914 por meio da viúva de Théo, Johanna Van Gogh-Bonger, que reuniu as cartas, organizou-as cronologicamente e publicou-as na cidade de Amsterdam. Posteriormente, os manuscritos dos irmãos Van Gogh foram traduzidos para o inglês pela própria Johanna. 13 Figura 4 – Johanna Van Gogh-Bonger Fonte: Van Gogh Museum (2011) Na edição de 2002 foram acrescentadas mais de uma centena de cartas em relação à edição de 1997, organizada pelo francês Georges Philppart. Por se tratarem de correspondências autobiográficas, o autor da obra é considerado o próprio Vincent Van Gogh. No prefácio elaborado por Charles para a edição de 1997, o escritor francês descreve um pouco essa vida permeada pela amargura, pela solidão, pelo processo criativo de Vincent e, ainda, pela evolução de suas crises pessoais. De acordo com Terrasse (1997), Vincent deixa a casa paterna pela primeira vez ao completar 12 anos, ao ser internado no colégio de uma cidade vizinha, em Zevenbergen, sendo permitido ao mesmo retornar para casa somente nas férias de verão. Aos 16 anos uma profissão se fez urgente e Vincent saiu desta escola para iniciar um trabalho de negociante de artes, conseguido através de seu tio, também Vincent. Já inserido no comércio das artes, como alguns Van Gogh do passado, Vincent começa a viajar a trabalho e a se interessar cada vez mais pelas artes 14 plásticas, frequentando museus e lendo “tudo o que lhe cai nas mãos”. (TERRASSE, 1997, p. 4). Neste período, Vincent é enviado a Londres para trabalhar em uma filial da Casa Goupil – importante galeria de arte da Europa – e somente um ano depois ele retorna à casa paterna, “sombrio e atormentado”. (TERRASSE, 1997, p. 5). Este foi o primeiro de vários retornos que iriam acontecer. (BONGER, 2008). Na leitura das Cartas a Theo, percebe-se um Vincent solitário, humilhado, sacrificado e capaz de esquecer ele mesmo. O artista viveu a pobreza e a privação, e durante a maior parte de sua existência foi assistido financeiramente por seu irmão, Theo. Além disso, Van Gogh nunca foi reconhecido e compreendido em vida, e uma das primeiras vezes que seus quadros foram expostos – em uma Exposição Pós-Impressionista – foi uma “ocasião em que muitas pessoas ainda riram deles”. (BONGER, 2008, p.23). Antes de dedicar-se exclusivamente à pintura, Vincent experimentou várias atividades, entre elas um longo período a pregar o evangelho em diferentes cidades. Com a ilusão de levar conforto e alegria às vidas miseráveis, lecionou para crianças, visitou pobres e dirigiu estudos bíblicos. Apesar de praticar aquilo que acreditava, era triste, porém esperançoso. (BONGER, 2008). Em uma das cartas a Theo, Vincent escreveu: “A quem poderia eu ser útil de alguma maneira?”. (VAN GOGH, 2002, p.40). E, também: Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências. Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me com um homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não... Além disso, sabe-se que Vincent tentou suicídio no período durante o qual mais trabalhou e produziu em toda sua vida, chegando a pintar em média um quadro por dia, como se pode observar nesta carta a Theo escrita alguns meses antes de seu falecimento: Meu caro irmão – é sempre em meio ao trabalho que eu lhe escrevo –, estou trabalhando como um verdadeiro possesso, mais que nunca estou num furor surdo de trabalho. E creio que isto contribuirá para minha cura. Talvez me aconteça algo como o que fala Eugene Delacroix: “Encontrei a pintura quando não tinha mais nem paixão e nem ânimo”, no sentido de que minha triste doença me faz trabalhar com um furor surdo – muito lentamente, mas da manhã à noite sem parar – e provavelmente aí está o segredo: trabalhar muito tempo e lentamente. (VAN GOGH, 2002, p.372). 15 Na leitura da obra Cartas a Théo, o retorno de Vincent à casa paterna em Etten, na Holanda, aparece repetidamente. Estariam essas repetidas idas e vindas ligadas ao fracasso? O fracasso é um tema discutido pela psicanálise desde autores como Freud (1916), passando por Lacan (1985) e recentemente por Harari (2008) e Maliska (2010). É um assunto de grande importância para a literatura e para a psicanálise, visto que envolve conceitos como o desejo, o gozo, a angústia e o inconsciente. Estes autores trazem interessantes considerações acerca do fracasso que estarão presentes ao longo dessa pesquisa. Harari (2008, p.213) nos fala sobre a repetição do fracasso: [...] encontramos pessoas em que toda relação humana conduz a idêntico final, tal como benfeitores, cujos protegidos, pobrezinhos que são em outros aspectos, se mostram ingratos passado certo tempo; esses benfeitores então, parecem destinados a curar a amargura da ingratidão. Outros que em sua vida repetem muitas vezes o ato de elevar uma pessoa à condição de grande autoridade para si mesmo ou para o público e, depois de um tempo, a destroem para substituí-la por outra. Amantes cujo relacionamento amoroso com as mulheres tem o mesmo percurso, com as mesmas fases, que desembocam em final idêntico. Sobre o que o autor quis dizer anteriormente, acredita-se que o senso comum poderia entender esse acontecimento como um sinal de má sorte na vida, como se o sujeito estivesse fadado a viver um destino previamente traçado. (HARARI, 2008, p. 212). O interessante dessas “ocorrências trágicas” (FREUD, 1916) é que ao mesmo tempo em que elas podem ser entendidas como um sinal de má sorte na vida, também são compreendidas como um traço de um determinado tipo de caráter. Em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os arruinados pelo êxito, Freud (1916) cita um caso de uma mulher, exemplo típico de uma dessas ocorrências trágicas: Era bem nascida e bem educada; no entanto, ainda muito jovem, não pôde conter seu gosto de viver; fugiu de casa e perambulou pelo mundo em busca de aventuras, até travar conhecimento com um pintor, que não só pôde apreciar seus encantos femininos, mas também captar, apesar de sua degradação, as qualidades mais requintadas que ela possuía. Levou-a para viver com ele e ela provou ser uma companheira fiel, parecendo apenas carecer de reabilitação social para alcançar uma felicidade completa. Após muitos anos de vida em comum, o pintor conseguiu fazer com que a família dele se reconciliasse com ela; estava então preparado para torná-la sua esposa legítima. Foi nesse momento que ela começou a desmoronar. 16 Descuidou da casa da qual agora estava prestes a tornar-se dona por direito; imaginou-se perseguida pelos parentes dele, que desejavam fazê-la parte da família; proibiu ao amante, com seu ciúme insensato, todo contato social; prejudicou-o em seu trabalho artístico, e logo sucumbiu a uma doença mental incurável. (FREUD, 1916, p. 331). Outro caso encontrado na clínica psicanalítica é citado a seguir: [....] um respeitável senhor, professor universitário, que nutria havia muitos anos o desejo natural de ser o sucessor do mestre que o iniciara nos estudos. Quando esse professor mais antigo se aposentou e os colegas informaram ao pretendente que ele fora escolhido para substituí-lo, começou a hesitar, depreciou seus méritos, declarou-se indigno de preencher o cargo para o qual fora designado, e caiu numa melancolia que o deixou incapaz de toda e qualquer atividade durante vários anos. (FREUD, 1916, p. 332). Nos dois casos citados por Freud observa-se que existiu luta e esforço na tentativa de obter o êxito, mas em algum momento do caminho, quando esses sujeitos estavam prestes a atingir os seus objetivos, fracassaram. De alguma forma, a “doença” da qual a mulher e o professor são acometidos, acompanha a realização desse desejo e põe fim ao desfrute do mesmo. (FREUD, 1916). Diante do exposto até o momento constata-se certa reiteração do movimento de Vincent nas Cartas. Estaria isso ligado ao fracasso? Dessa forma, há o interesse em pesquisar Como se apresenta a dimensão do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh? Muitos estudos e análises sobre a vida e as produções artísticas de Van Gogh já foram realizados, sendo assim, esta pesquisa pretende um novo olhar, não um olhar sobre o artista, mas no valioso dado literário – o discurso – que se apresenta através das suas cartas a Theo. A fim de verificar e validar a relevância científica deste trabalho foi realizado um rastreamento em fontes bibliográficas e banco de dados on-line sobre o tema, como teses on-line da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), da Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), bem como em publicações nos sites da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro (SBPRJ), da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTB), da Scientific Electronic Library 17 On-line (Scielo) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp)1 . Nessas consultas não foram encontrados estudos específicos sobre a relação do fracasso e Van Gogh. As pesquisam encontrados abordam, por exemplo, o estilo único de Van Gogh à luz de suas ansiedades primitivas2, e o estabelecer relação para melhor entendimento da dualidade entre a vida e a obra do mesmo3. Não foi localizado nenhum artigo ou texto publicado que articulasse a dimensão do fracasso com o discurso de Van Gogh na obra Cartas a Theo. Portanto, esta pesquisa discorrerá sobre o fracasso, problemática presente no que tange às demandas da clínica psicanalítica. Além disso, visa adicionar conteúdo teórico e reflexões ao conhecimento dos profissionais envolvidos e contribuições à teoria psicanalítica, visto que a proposta desta pesquisa é de certa forma inovadora em relação às publicações já existentes. A relação entre a psicanálise e a literatura é antiga. Para Cottrell (2008), “existem vários autores que se utilizaram de personagens de obras literárias para ilustrar seus pensamentos e reflexões. O próprio Freud iniciou o casamento duradouro entre psicanálise e literatura”. Willian Shakespeare foi um dos principais autores que Freud estudou e citou em seus trabalhos. Em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os arruinados pelo êxito, Freud (1916) toma Lady MacBeth, personagem principal de uma das peças mais conhecidas e aclamadas de Shakespeare, “como exemplo de pessoa que sucumbe ao atingir o êxito”. (FREUD, 1916). No mesmo texto, Freud escreve sobre o sentimento de culpa e o complexo de Édipo a partir de Rosmersholm, obra teatral escrita pelo dramaturgo norueguês Henrik Ibsen, e estabelece concordância entre as duas obras. Outro ponto importante para a realização deste trabalho e que o torna relevante para a literatura é o fato do mesmo ter como ponto central uma obra literária de base documental. Dessa forma, pretende despertar o interesse daqueles que nutrem o prazer pela literatura e, ainda, daqueles que apreciam a arte em todas as suas formas de expressão: Van Gogh foi um grande artista e é referência no 1 http://inf.unisul.br/~psicologia, http://www.teses.usp.br/, http://cutter.unicamp.br/, http://www.bdtd.ufu.br/, http://www.sbpsp.org.br/ide/ide46.asp, http://www.sbpsp.org.br/ide/, http://bdtd.ibict.br/pt/index. php, http://www.scielo.br/, http://www.bv.fapesp.br/pt/ 2 http://www.sbprj.org.br/site/admIN/upload/arquivos/Vera_Bulak_van_gogh_-_versao_congresso.pdf 3 http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/72544/van-gogh-sua-obra-alem/ 18 âmbito das artes plásticas. Neste contexto, é necessário analisar a dimensão do fracasso na obra Cartas a Theo, possibilitando então hipóteses interpretativas a partir do discurso do próprio Vincent Van Gogh. Com o intuito de responder à pergunta da pesquisa, quatro objetivos foram elaborados: um geral e três específicos. 1.1 OBJETIVOS Nesta seção serão apresentados o objetivo geral e os objetivos específicos da pesquisa. 1.1.1 OBJETIVO GERAL Analisar as dimensões do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh à luz da teoria psicanalítica. 1.1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS a) Identificar na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh passagens que remetem ao fracasso; b) Investigar a importância do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh; c) Relacionar o fracasso encontrado na obra Cartas a Theo com a temática do “fracasso” à luz da teoria psicanalítica 19 2 REFERENCIAL TEÓRICO [...] Quanto mais fico dissipado, doente, alquebrado, mais também me torno artista, criador, nesta grande renascença da arte da qual falávamos. (VAN GOGH, 2002, p.241). Neste capítulo será realizada a fundamentação teórica relacionada à pesquisa, utilizando como referencial a teoria psicanalítica no sentido de favorecer a posterior análise discursiva sobre a dimensão do fracasso na obra Cartas a Theo. Ao iniciar esta fundamentação teórica é importante destacar uma consideração sobre o foco deste trabalho. Em geral quando se escuta o nome “Van Gogh” rapidamente o pensamento é remetido à psicose, quanto a isso, a proposta desta pesquisa é transitar entre as possibilidades e hipóteses relacionadas ao fracasso e interpretá-las por meio de dados literários presentes na obra Cartas a Theo. Dessa forma, não se pretender afirmar ou influenciar a leitura e a reflexão do leitor para que o mesmo entenda que o fracasso de Van Gogh possuía cunho psicótico ou neurótico. 2.1 AS CARTAS A THEO Cartas a Theo é uma obra que consiste na reunião da numerosa correspondência de Vincent para seu irmão, amigo e confidente, Theo. Elas eram escritas em pequenos intervalos de tempo e às vezes, diariamente. Esses manuscritos reunidos em Cartas a Theo apresentam arranjo cronológico referente à vida de Vincent. As Cartas foram escritas entre julho de 1873 e julho de 1890, e a última foi encontrada junto ao corpo de Vincent no momento de sua morte. As cartas revelam o que Vincent via, fazia e pensava. Nelas estão descritas as suas experiências em Borinage4 com os operários das minas de carvão – quando este ainda era um aspirante a missionário –, as características da região onde viveu nesse momento, os hábitos das pessoas e até mesmo o sol local. O pintor escreveu a Theo sobre seus passeios no campo, suas leituras e estudos de livros que estiveram ao seu alcance, como a Bíblia e Revolução Francesa de Michelet, sobre seus pintores franceses favoritos, como por exemplo, Scheffer; Delaroche; Hébert e 4 Região da Bélgica 20 Hamon e, ainda, do tipo de arte que o atraía. Destes livros e obras, contou ao irmão sobre os ensinamentos e as reflexões que adquiriu a partir dos mesmos. Através dessas cartas, Van Gogh mostrou-se um homem cheio de dúvidas e de humor inconstante, mas capaz de amar. Em algumas cartas Vincent escreveu sobre o amor que nutriu pela prima Kee Voos, e mesmo esse amor não tendo sido retribuído pela mesma, conseguiu proferir belíssimas palavras sobre os seus sentimentos: Se continuarmos a amar sinceramente o que na verdade é digno de amor, e não desperdiçarmos nosso amor em coisas insignificantes, nulas e insípidas, obteremos pouco a pouco mais luz e nos tornaremos mais felizes. (VAN GOGH, 2002, p. 28). Figura 5 – Kee Voos Fonte: Van Gogh Museum (2011) A Theo, Vincent descrevia com muita alegria, seu pequeno quarto alugado no bairro de Montmartre, em Paris, França, e os quadros que pendurava nas paredes. Relatou as exposições de arte que viu enquanto morou lá, as visitas ao museu do Louvre, e os seus desenhos baseados na obra de grandes pintores que o 21 inspiraram, como Corot e Rembrandt, além dos primeiros trabalhos com modelos vivos e do método que ele utilizou para retratá-los. Van Gogh era um homem com sonhos, objetivos e devoção a Deus, e em suas errantes idas e vindas reveladas nas Cartas a Theo, transpareceu seus momentos de melancolia e desespero sobre a consciência de sua possível doença mental: Uma melhoria na minha vida – por acaso não a desejariam por acaso não precisaria? Gostaria de melhorar bem mais. Mas precisamente porque o desejo, tenho medo de “remédios piores que a doença”. (VAN GOGH, 2002, p.39). Uma das teorias sobre o episódio no qual Vincent cortou com uma navalha um pedaço de sua própria orelha na noite de Natal de 1888, afirma que o acontecimento foi motivado por um desentendimento com seu amigo, companheiro de casa e pintor Paul Gauguin. Após este incidente, Vincent embalou o pedaço cortado de sua orelha e o levou para uma prostituta do bordel que ele frequentava. Considerado totalmente louco pelo amigo e pelo irmão foi levado a um hospital. Quando retornou à sua casa, em vez de encontrar seu amigo, deparou-se com a angústia e tomado por alucinações e sofrimento. (TERRASSE, 2002). Através dos conselhos de Theo, Vincent decide se internar em um hospício na cidade de Saint-Rémy, na França. Neste período escreveu cartas nas quais descreveu os “incessantes berros de seus infelizes companheiros” (TERRASSE, 2002, p.17) e, ainda, a evolução da sua própria loucura. Vincent transformou seu quarto em um estúdio e, embora suas crises fossem recorrentes, ele produziu cerca de 150 pinturas durante o ano que esteve internado, 1889. (VAN GOGH MUSEUM, 2011, tradução nossa). Apesar de estar num hospício e consequentemente privado de viver a liberdade, o regime de vida imposto em Saint-Rémy dava a Vincent uma estabilidade dificilmente vivida antes, relatada em uma de suas Cartas a Theo: Eu “me atrapalhei” na vida e meu estado mental não somente é como também foi abstraído, de forma que independente do que fizessem por mim, eu não posso pensar em equilibrar minha vida. Quando eu tenho que seguir uma regra aqui no hospício, sinto-me tranquilo. (VAN GOGH, 2002, p. 354). Depois de quase um ano internado no hospício de Saint-Rèmy Vincent decide se mudar e volta para o norte, para uma cidadezinha próxima à Paris chamada 22 Auvers-sur-Oise, com o intuito de ficar mais próximo de Theo. Esta foi a última cidade na qual Vincent residiu. Figura 6: Dr. Gachet Fonte: Van Gogh Museum (2011) Em suas últimas correspondências, escreveu ao irmão sobre a sua relação e crescente afeição pelo doutor Paul Gachet, médico homeopata e, também, amante das artes plásticas. O médico conviveu e cuidou de Vincent, num breve período, durante os últimos três meses de vida que ele passou na cidade de Auvers-sur-Oise, na França, após deixar o hospício: [...] ele me pareceu na verdade tão doente e perturbado quanto você e eu, e ele é mais velho e perdeu há poucos anos a sua mulher; mas é muito médico e sua profissão e sua fé o sustentam contudo. Já somos muito amigos... (VAN GOGH, 2002, p.378) 2.2 O FRACASSO NAS CARTAS A partir da análise do discurso de Van Gogh na obra Cartas a Theo, pretendese identificar passagens que remetem ao fracasso e investigar sua importância. Por isso, este capítulo tem como objetivo principal discorrer sobre como o mesmo se apresenta nas Cartas a Theo. 23 Nos manuscritos se conhece um homem cuja vida foi permeada por objetivos frustrados e muito sofrimento. Nas cartas a dimensão do fracasso aparece exaustivamente no que diz respeito aos diferentes tipos de trabalho, que Vincent experimentou em sua vida, antes de se dedicar exclusivamente à arte. Quando Vincent deixou o colégio interno, no qual estudou até completar 16 anos, a família Van Gogh rapidamente tratou de inseri-lo nos negócios da arte. Por meio de seu tio, também Vincent, Van Gogh foi contratado para trabalhar como negociante de artes na Casa Goupil, uma importante e conceituada galeria da Europa. Nela permaneceu por seis anos e, ao final deles, foi considerado um péssimo empregado, chegando até a viajar sem avisar aos seus patrões – episódio que lhe rendeu uma demissão. Após esse período, retornou à casa paterna em Etten5 pela primeira vez e se empregou como professor em uma escola anglicana6. Depois de três meses foi despedido e iniciou um trabalho como ajudante do pregador de uma igreja. Poucos meses depois Vincent abandonou o emprego e começou a trabalhar em uma livraria, o que durou pouco, pois quatro meses depois voltou a Amsterdam para estudar a bíblia e se formar pastor. Dois meses depois de iniciar esses estudos, Vincent resolve abandoná-los e voltar, novamente, a casa dos pais. Após esta breve estada, Vincent viaja a Bruxelas, na Bélgica, e entra para uma escola evangelista, com o objetivo de se tornar um missionário. Não sendo nomeado para tal ocupação; partiu por vontade própria para a região de Borinage, local onde realizou um trabalho com os operários das minhas de carvão. Ao final do ano de 1878, o Comitê de Evangelização surpreendeu-se com o ânimo e o sacrifício de Vincent, retificando sua decisão de não nomeá-lo e enviandoo para uma missão de seis meses na Bélgica. Sua dedicação foi radical, pois neste período Van Gogh abdicou da sua saúde para servir ao outro, alimentou-se pouco, basicamente de pedaços de pães doados pelas pessoas por onde ele passava. Chegou a dormir no chão e a andar de pés descalços. Em um novo retorno à casa paterna, Vincent encontrou com seu primo e também pintor Anton Mauve, que lhe deu alguns conselhos e o desencorajou sobre as ideias de cortejar novamente sua prima Kee. Este acontecimento resultou em uma discussão com seu pai e tornou tensa a relação com seu primo Mauve. 5 Cidade holandesa na qual seus pais viviam. Instituição educacional na qual se ensina a doutrina bíblica. 6 24 Além disso, acolheu uma mulher grávida, pobre e doente que posava de modelo para seus desenhos, Sien. Com isso Vincent recuperou-se e retomou as pinturas. Trabalhou intensamente até que a relação com Sien tornou-se irremediável. Muito doente em decorrência do abuso de álcool e tabaco e completamente esgotado dessa relação com Sien, Vincent chegou a ponto de pedir a Theo que o afastasse dela. Dessa forma Van Gogh, aliviado, voltou a pintar. Figura 7 – Sien Fonte: Van Gogh Museum (2011) No que diz respeito à relação com sua família, Vincent entrou em um desacordo sem solução com o mundo e os valores de seus familiares quando fez uma visita a sua mãe no momento em que ela fraturou a perna. Pouco tempo depois, o pastor Van Gogh, seu pai, morre, selando a ruptura entre Vincent e sua família, menos com Theo. Esta foi a última das tantas vezes que Vincent retornou à casa de Etten. Buscando a autonomia que até então não parecia experimentar, resolveu viver seu próprio caminho. A esta altura ele acreditava que a Holanda estava sendo um obstáculo ao seu processo criativo e, por não ter mais nada para aprender, Vincent mudou-se para a Bélgica e se inscreveu na Academia de Belas Artes da cidade de 25 Antuérpia, uma grande cidade. Nela experenciou as cores em suas obras e pensou em expor seus trabalhos. A estada foi curta e logo depois partiu para Paris e estudou em uma escola de arte. Nesta época frequentou exposições dos mestres impressionistas, como Brion e Boughton, inspirando-se no âmbito das técnicas e dos procedimentos. Mas em função de uma crise existencial, resolveu que Paris já não era mais a sua meta e partiu para Arles, cidade medieval ao Sul da França, que o embriagou de felicidade. Em Arles, Vincent dividiu um estúdio com seu amigo e também pintor Gauguin. Seus temperamentos e tendências estéticas eram discrepantes e logo se tornou evidente que a vida em comum entre esses dois homens era algo impossível. A relação resultou em desentendimentos e no episódio em que Vincent decepou um pedaço de sua orelha direita com uma navalha, sendo internado no hospício de Saint-Rèmy, onde suas crises continuaram. Figura 8: Quarto de Vincent no hospício de Saint-Rèmy Fonte: Van Gogh Museum (2011) De certa forma Saint-Rèmy foi bom para o artista, pois ao transformar seu quarto e um espaço de trabalho, um atelier, nesse período produziu a maior parte de suas obras. O que soa um pouco irônico e, até mesmo, paradoxal, visto que na sua fase de maior produção artística ele estava internado em um hospício. 26 Contrariado pelas suas esperanças de melhora, sua doença mental não o abandona, fazendo-o mudar para uma cidade próxima a Paris chamada Auvers-surOise onde viveria os seus últimos meses de vida, no ano de 1890. Nesta época Theo negociou o único quadro que Vincent vendeu em vida – O Vinhedo Vermelho. Figura 9: “O vinhedo vermelho” - primeiro e único quadro vendido, em vida, por Van Gogh Fonte: Van Gogh Museum (2011) Atenta-se para o curioso acontecimento de Vincent ter cometido suicídio logo quando começou a colher o primeiro fruto do seu esforço, do seu trabalho. No momento do mesmo, estava com uma carta para Theo em seu bolso, na qual aparentemente não se apresenta conteúdo indicativo de um possível suicídio: Meu caro irmão, obrigado por sua gentil carta e pela nota de cinquenta francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o principal, por que insistiria eu em coisas de menor importância? Por Deus! Provavelmente se passará muito tempo antes que se possa conversar de negócios com a cabeça mais descansada. Os outros pintores, independente do que pensem, instintivamente mantêmse à distância das discussões sobre o comércio atual. Pois é, realmente só podemos falar através de nossos quadros. Contudo, meu caro irmão, existe isto que eu sempre lhe disse e novamente voltarei a dizer com toda a gravidade resultante dos esforços de pensamento assiduamente orientado a tentar fazer o bem tanto quanto possível – volto a dizer-lhe novamente que sempre o considerarei como alguém que é mais que um simples mercador de Corots, que por meu intermédio participa da própria produção de certas telas, que mesmo na derrocada conserva sua calma. Pois assim é, e isto é tudo, ou pelo menos o principal que eu tenho a lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento em que as coisas estão muito tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e de artistas vivos. Pois bem, em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão arruinou-se em parte – bom -, mas pelo quanto eu saiba você não está 27 entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho, agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer? (VAN GOGH, 2002, p. 386). 2.3 O FRACASSO NA TEORIA PSICANALITICA Em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os arruinados pelo êxito, Freud (1916) afirma que no momento em que um médico inicia o tratamento psicanalítico de um paciente neurótico, o que o psicanalista quer saber consiste no que os sintomas alertam e “quais os impulsos instintuais ocultos por detrás deles e por eles satisfeitos, e qual o curso seguido pelo caminho misterioso que conduziu dos desejos instintuais aos sintomas” (FREUD, 1916, p.325), não considerando o caráter do paciente. Porém, muitos destes chegam à clínica por alguma insatisfação ou fracasso pessoal, não por seus sintomas. Harari (2008) atenta para o fato de se fazer uma distinção entre uma neurose e o caráter e, ainda, para os dois tipos de fracassos propostos por ele como ponto fundamental de Por que nossos fracassos se repetem?. O primeiro diz respeito à repetição do real, sendo o real “o que volta sempre ao mesmo lugar” (HARARI, 2008, p. 223) e o segundo, à repetição simbólica, ou seja, “a possibilidade de poder se movimentar pela via do Simbólico lacaniano e poder fazer um deslocamento, deslizar, poder sair desse enredamento que marca a repetição do Real”. (HARARI, 2008, p.223) Na repetição simbólica citada por Harari (2008), ocorre ao sujeito agir de uma maneira habitual, muitas vezes sem se dar conta desta. Diferente do que acontece com o paciente que vem à clínica por um sintoma. Quanto a esses, o sujeito chega à consulta e “diz: ‘eu não quero ter mais isto’; ‘não suporto mais viver assim’; ‘assim não posso continuar, a minha vida não tem sentido suportando isso’ – aí está a presença de um sintoma”. (HARARI, 2008, p.211) Este paciente poderá chegar à clínica com queixas como, por exemplo: não sei o que acontece comigo, toda vez que engato um relacionamento algo de errado ocorre e tudo vai por água a baixo ou até mesmo, todo trabalho é a mesma coisa, fico três meses e sou demitido, acho que as pessoas com cargo de chefia tem algum tipo de perseguição contra mim. Nestes casos, percebe-se que o paciente chega à clínica com um histórico, com uma queixa, mas não apresenta um sintoma físico. O 28 que é importante destacar, é que esse sintoma será construído em análise, a partir dos elementos que esse analisando trouxer por meio de suas associações livres. A associação livre consiste em uma regra técnica e num método da prática psicanalítica que tem como propósito trabalhar o inconsciente, além de “trazer o material recalcado para a consciência, revelando ao paciente a natureza do conteúdo inconsciente, uma extensão do seu (des) conhecimento sobre si mesmo, e para tanto vencer as resistências que se opõem”. (JORGE, 2007, p. 123). Em Além do princípio do prazer, Freud (1920) escreveu sobre os sujeitos que apresentam traços de caráter que os fazem repetir determinadas situações em suas vidas, os chamados fracassos. Freud (1920) indica para o que acontece com os sujeitos quando eles sofrem por essas situações de forma repetida, como se este sujeito fosse detentor de um destino a ele preparado, ou como chamou em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os arruinados pelo êxito, de “ocorrências trágicas”. (FREUD, 1916, p. 331). Hoffmann (2008) comenta sobre a experiência clínica do analista, quando este percebe que repetição dos fracassos do analisando se fundamentam num retorno do gozo, isto é, de uma satisfação inconsciente do sujeito. Harari (2008) versa sobre a intervenção psicanalítica a ser feita nesse caso: “dizer qual é a participação que o sujeito tem nisso, porque acontece isso com ele, que não se trata de mera passividade” e nem “que é a vontade de Deus”. (HARARI, 2008, p.213). É nesse momento que se inicia o trabalho analítico, desencadeando então a lógica da cura. Freud (1916) afirma que para o ego não é totalmente incomum tolerar um desejo inofensivo ao passo que este só exista na dimensão da fantasia, o desejo cuja realização não se aproxima; em vez disso, o ego se defende contra o desejo quando o mesmo está para se realizar, na eminência de tornar-se realidade. Ou seja, “o sujeito segue construindo as condições para tornar efetivo seu próprio fracasso” (MALISKA, 2010, p. 5) e, ainda, ”da mesma forma, o único ‘sucesso’ possível é uma relação com falta, em parte, permeada pelo insucesso”. (MALISKA, 2010, p.3). Harari aponta para o fato de o fracasso ter relação com “as satisfações sociais e o posicionamento subjetivo do sujeito que sofre, e não com os êxitos no mundo”. (HARARI, 1008, p.218). Maliska (2010) corrobora com a afirmação e complementa: 29 No fracasso o sujeito encontra alento para se regozijar de sua condição de rejeitado, de fracassado, de mal amado, de sofrido, enfim, encontra uma brecha para gozar com seu sintoma e supor que um gozo pleno e absoluto só é possível para o Outro, não para ele. No fracasso encontra uma recompensa narcísica para ocupar um lugar de destaque, se colocando como o pior dos piores, um ser abominável e, com isso, gozar dessa condição (p.2). Como se a satisfação desse sujeito estivesse nas suas repetidas falhas ou na repetição do fracasso, o fracasso de cunho neurótico, aquele fracasso do além-doprincípio-do-prazer freudiano. (SAFOUAN, 2006 apud HOFFMANN, 2008). Os insucessos também podem ser lidos pela teoria psicanalítica através de uma perspectiva ligada à psicose. Em sua obra O Pai e sua Função em Psicanálise, Dor (1991) versa sobre o fracasso da função paterna a partir da metáfora do Nomedo-Pai e afirma: O processo da metáfora Nome-do-Pai só assegura sua função estruturante com relação ao desenvolvimento psíquico da criança na medida em que puder se desenvolver sobre a base do recalque originário do significante do desejo da mãe. Se esse recalque originário não se dá, todo o processo da metáfora do nome do pai é comprometido, até mesmo fracassado. (DOR, 1991, p.101). De acordo com o autor, a condição essencial que diferencia, de fato, a psicose da neurose é esta abolição do significante Nome-do-Pai, consistindo desta forma em uma função determinante na consituição das psicoses. (DOR, 1991). Esta metáfora do Nome-do-Pai distingue os processos da psicose do mecanismo que opera nas neuroses e está diretamente relacionada ao conceito lacaniano de forclusão. A forclusão é um termo extraído por Lacan do campo jurídico e que significa a rejeição de algo que não foi realizado a tempo, no prazo. É desta terminologia jurídica que Lacan se apropria do termo forclusão e utiliza-o para determinar e nomear a abolição de um significante (DOR, 1991), o significante Nome-do-Pai. Segundo Dor (1991, p.104): O Nome-do-Pai não é um significante particular. Ele só é significante primordial na medida em que, num dado momento, vem ocupar um lugar de destaque. Enquanto tal, ele nunca é predeterminado antecipadamente. Como só o lugar aberto à substituição metafórica é predeterminado, o significante Nome-do-Pai é um significante qualquer que virá ocupar este lugar decisivo. 30 É justamente quando não há um significante que a forclusão opera, ocupando o lugar e substituindo-o na lógica simbólica e no psiquismo de um sujeito. Em outras palavras, dizer que a forclusão do Nome-do-Pai é o processo no qual se origina uma psicose, é dar ênfase ao fato “da impossibilidade em que se encontra a criança de poder se referir ao Pai simbólico”. (DOR, 1991, p.106). Voltando à questão do fracasso, pode-se fazer uma associação do mesmo com as características do sujeito melancólico. Recentemente se observou um movimento por parte de alguns psicanalistas para a produção de artigos e livros que tratassem da melancolia e o cuidado da diferenciação da mesma com a depressão. Em O Tempo e o Cão (2009) a psicanalista Maria Rita Kehl escreve sobre a melancolia e propõe uma discussão acerca das características do tipo de homem que vive no mundo atual, na contemporaneidade. De acordo com a autora, este sujeito esta posto: Em um mundo que nos propõe uma vida de automatismos de toda espécie, ignorância, ingenuidade, inércia, fraqueza, velocidade, repetição (e sua isidiosa intoxicação do mesmo), um estilo de vida que suprime ou deforma outros mundos possíveis. (KEHL, 2009) Kehl (2009) escreve, ainda, sobre as características do homem que habita este mundo: Um homem ao mesmo tempo obscuro e brilhante, ativo e miserável, que lida todo o tempo com o esperado e o inesperado e que, por sua condição incerta, incorpora todas as contradições: potencia e impotência, resignação e revolta, ordem e desordem [...] um homem de voz velada, silenciosa, dirigindo-se a si mesmo – aparentemente sem interlocutor –, que age como se estivesse fora da vida e do mundo porque seu mundo está além do possível. Consciente, ele encarna a reação contra a vulgaridade da existência, em oposição ao outro que não se sente fora de sua época e que, ao contrário, não cessa de assumir com ela um compromisso vergonhoso. (KEHL, 2009). Curiosamente, as características apresentadas pela autora podem ser transpostas para o tempo e vida de Van Gogh, como se observa no seu discurso relatado nas Cartas a Theo. Exprimindo, possivelmente, os indícios de uma estrutura de personalidade na qual a melancolia se fazia presente. 31 3 MÉTODO De acordo com Motta e Leonel (2011, p. 64, grifo do autor), a palavra método vem do grego methodos e é composta de metá (através de, por meio de) e de hodós (via, caminho). Segundo os mesmos autores, todas as atividades da vida humana necessitam a escolha do melhor caminho, isto é, a escolha de um método. Na ciência isto não se apresenta de maneira diferente, pois: [...] se o pesquisador lança um problema de pesquisa, se deseja investigar um determinado fenômeno, precisa, antes de tudo, determinar o caminho a ser seguido para encontrar respostas para o seu problema. Assim, o método consiste no ponto de ligação entre a dúvida e o conhecimento. (p. 64). O método inclui, ainda, “as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de técnicas que possibilitam a construção da realidade e o sopro divino do potencial criativo do investigador”. (MINAYO et al, 1994, p.16). Pesquisar sobre como se apresentam as dimensões do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh consistiu no objetivo geral deste trabalho. O primeiro contato com a obra ocorreu através de uma leitura prévia realizada fora do contexto da universidade e, a partir disto, surgiu o interesse de utilizá-la na construção deste trabalho de conclusão de curso. Duas edições de Cartas a Theo foram publicadas até o momento; 1997 e 2002. Foi realizada a leitura de ambas as edições, mas para esta pesquisa se utilizou a edição de 2002, publicada pela editora L&PM POCKET, pois à mesma, foram acrescentadas mais de uma centena de cartas, em relação à edição anterior, além de um glossário, identificando os quase 200 nomes citados por Vincent em suas correspondências, várias ilustrações e, ainda, um texto do pintor Paul Gauguin no qual é descrito o episódio em que Van Gogh, numa crise, cortou a própria orelha. Com base em seus objetivos, esta pesquisa é classificada como exploratória. De acordo com Gil (2002, p.41), as pesquisas exploratórias: [...] têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema, com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Pode-se dizer que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de idéias ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante 32 flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos relativos ao fato estudado. (GIL, 2002, p. 41). Quanto à abordagem, as pesquisas podem ser quantitativas ou qualitativas. Esta pesquisa tem abordagem qualitativa, a qual, conforme Minayo et al (1994, p.21): [...] trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças, valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à operacionalização de variáveis. Para a classificação das pesquisas com base nos procedimentos técnicos utilizados faz-se necessário “traçar um modelo conceitual e operativo da pesquisa” (GIL, 2002, p. 43). Tal modelo é chamado de delineamento de pesquisa, e este “refere-se ao planejamento da pesquisa em sua dimensão mais ampla, que envolve tanto a diagramação quanto à previsão e análise e interpretação de coleta de dados” (p. 43). Além disso, “o delineamento expressa em linhas gerais o desenvolvimento da pesquisa, com ênfase nos procedimentos técnicos de coleta e análise de dados” (p. 43). O delineamento adotado para esta pesquisa foi bibliográfico com base documental. Cabe ressaltar que “a pesquisa documental apresenta uma série de vantagens” (GIL, 2002, p. 46) e “há que se considerar que os documentos constituem fonte rica e estável de dados”, acrescentando importância a esta pesquisa, uma vez que as Cartas a Theo, apresentadas como obra literária, constituem na genuína correspondência trocada entre os irmãos Van Gogh. Segundo Gil (2002), a pesquisa bibliográfica atém-se em materiais previamente elaborados como, por exemplo, obras literárias e artigos científicos. Desta forma, esta pesquisa foi desenvolvida com base no livro Cartas a Theo – principal fonte – e na leitura de demais materiais que contemplam a temática do fracasso. É importante destacar que o fracasso não é tratado na obra psicanalítica e nem na obra Cartas a Theo por esse termo. Na teoria psicanalítica freudiana não se encontra o fracasso como um conceito, pois para explicá-lo Freud (1916) utilizou-se do termo “os arruinados pelo êxito”. Para tratar do fracasso, Maliska (2010) usa a expressão “A angústia diante do sucesso”, mas alguns psicanalistas, como o argentino Harari (2001), publicou um artigo denominado Pourquoi nos échecs se 33 répètent-ils? (Por que nossos fracassos se repetem?) no qual escreve sobre repetição e fracasso, apropriando-se deste termo. Assim como na teoria, na obra Cartas a Theo o fracasso também não se apresenta com essas palavras, mas sim nos momentos em que este aparece por meio da fala do artista, a partir da interpretação realizada pela pesquisadora, como no exemplo a seguir: É verdade que ora ganhei um pedaço de pão, ora ele me foi dado por bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que só para ganhar meu pão eu perdi tempo; é verdade que meus próprios estudos estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais, infinitamente mais do que o tenho (VAN GOGH, 2002, p. 42). Acredita-se que através deste fragmento de carta apresentado anteriormente, interpretou-se estar presente o fracasso em questão. A partir de uma “leitura flutuante” das cartas, a pesquisadora não se ateve a nenhum momento específico. Dessa forma faz-se conveniente e necessária uma analogia entre a forma de leitura da obra Cartas a Theo e a escuta flutuante, importante instrumento de análise da teoria psicanalítica, para que se entenda o que foi feito na fase de tratamento e análise de dados deste trabalho. Em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, Freud (1912) escreveu sobre algumas recomendações que auxiliariam o trabalho do analista e consequentemente sua relação com o paciente. Sobre estas recomendações, a primeira delas trata-se de uma forma de escutar o analisando que consistia em não dirigir o pensamento para algum conteúdo específico, mas sim manter a “atenção uniformemente suspensa em face de tudo” aquilo que este lhe relatava (p. 149). Em suas palavras: Consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em manter a mesma “atenção uniformemente suspensa” [...] Em face de tudo o que se escuta. Dessa maneira, poupamos de esforço violento nossa atenção, a qual, de qualquer modo, não poderia ser mantida por várias horas diariamente, e evitamos um perigo que é inseparável do exercício da atenção deliberada. (FREUD, 1912, p. 149-150). Nestes escritos o autor denominou este tipo de escuta de “atenção uniformemente suspensa”, mais tarde chamada de atenção ou escuta flutuante. 34 Visto isso, pode-se fazer uma relação entre o discurso de Vincent presente nas cartas e a fala do analisando dirigida ao analista, podendo ou não ser articulado com a dimensão do fracasso. O primeiro contato com o material pesquisado, a obra Cartas a Theo, ocorreu a partir de uma prévia leitura fora do contexto da pesquisa e da universidade, como foi citado anteriormente. Pode-se afirmar que esta primeira leitura, livre, foi considerada bem diferente das outras que se sucederam. Num segundo momento, foi feita uma leitura exploratória deste material, tendo em vista verificar se o mesmo seria, de fato, interessante para a realização deste trabalho de conclusão de curso. Em um terceiro momento, foi adotada uma leitura mais profunda, quando o fracasso emergiu como principal “conceito” a ser tratado na pesquisa. Atenta-se para o fato de que nesse momento o material já havia sido escolhido como fonte principal do trabalho. A partir desta leitura pôde-se investigar a importância do fracasso na obra Cartas a Theo. Em um quarto momento, e não por último – visto que ao decorrer do trabalho voltou-se ao mesmo material – foi realizada uma leitura crítica com o objetivo de confeccionar fichas de leitura para; registrar fragmentos considerados importantes, registrar as principais informações contidas na obra, organizar as reflexões da pesquisadora sobre o material lido e, ainda, auxiliar na etapa de tratamento e análise de dados. Desta forma, o instrumento de “coleta de dados” desta pesquisa bibliográfica são as próprias fichas de leitura, as quais auxiliaram na identificação das passagens que remetem ao fracasso na obra Cartas a Theo. As fichas de leitura foram confeccionadas através de recursos digitais, registradas diretamente no computador e depois impressas em papel A4. Por fim, foi realizada uma “última” leitura da obra Cartas a Theo, com o intuito de relacionar o fracasso encontrado na obra Cartas a Theo com o fracasso à luz da teoria psicanalítica. Quanto aos materiais utilizados para a realização da monografia, foram necessárias ferramentas básicas como, por exemplo: material bibliográfico (teses, artigos e livros), acesso à internet, computador, impressora, papel A4, caneta e roteiro de leitura. 35 Em relação à situação e ao ambiente para coleta de dados da pesquisa, será utilizada a biblioteca da Unisul, bem como uma sala com mesa, cadeira, boas condições de iluminação e ausência de ruídos. 4 AS CARTAS E O FRACASSO Com o intuito de serem atingidos o objetivo geral e os objetivos específicos, este capítulo trata de uma análise sobre as dimensões do fracasso na obra Cartas a Theo. Foram trazidos alguns fragmentos da teoria psicanalítica, anteriormente apresentados na fundamentação teórica, para analisar as cartas. 4.1 UM E OUTRO VINCENT: LUTO E/OU MELANCOLIA? Vincent. Um nome de grande importância para a família Van Gogh, cujo lugar, a história e o destino já estavam previamente estabelecidos. O primeiro Vincent de quem se tem notícias nos Van Gogh nasceu no ano de 1729, na pequena cidade de Gogh, situada na fronteira da Holanda com a Alemanha. Foi por meio dele que a arte adentra na família, pois o mesmo era escultor. Um século se passou e na data de 30 de março de 1853, nasceu Vincent Willem Van Gogh, exatamente um ano após o nascimento de um irmão com o mesmo nome que morreu aos seis meses de vida7, cujo túmulo se localizava a poucos passos da igreja na qual o pai de Vincent era pastor. “Assim, tão logo aprendeu a ler, o pequeno Vincent pode ver seu nome como em seu próprio túmulo”. (HAZIOT, 2010, p.7). Através da história, sabe-se que a mortalidade infantil na metade do século XIX era alta e a situação que ocorreu na família Van Gogh era frequente; ou seja, era habitual, nesta época, dar o nome do falecido filho ao que vinha ao mundo logo após. Dessa forma, a morte prematura de seu irmão permearia a historia do pintor por toda a sua existência, fazendo-o se sentir o eterno substituto daquela criança 7 Geralmente mencionado em artigos e biografias sobre Van Gogh como um irmão natimorto. Porém, de acordo com informações encontradas na cronologia disponibilizada na edição de 2002 de Cartas a Theo, o irmão mais velho de Vincent viveu até os seis meses de idade. 36 que morreu (HAZIOT, 2010, p.7), como se vivesse a vida de outro alguém ou como se estivesse morto de alguma forma. Por meio das cartas, percebe-se que Vincent carregou um peso, algo semelhante ao sentimento de culpa, uma grande culpa em relação à morte desse irmão mais velho. Sentia-se culpado por existir, por estar vivo, como se aquele lugar que ocupava não pertencesse a ele, como se percebe em suas próprias palavras: Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei que barras, que grades, que muros. Será isto tudo imaginação, fantasia? Não creio; e então perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será para sempre, será para a eternidade? (VAN GOGH, 2002, p.50) Estaria essa culpa sentida por Vincent relacionada aos sintomas melancólicos? Em 1915, em seguida aos seus escritos sobre o narcisismo, Freud ocupou-se em escrever sobre Luto e Melancolia. Nesta obra, o autor aborda estes dois estados, comparando-os e afirmando que em algumas pessoas “as mesmas influências, tais como a perda de um ente querido ou de algo que ocupe um lugar tão importante para um sujeito (como um país, a liberdade ou um ideal), podem ocasionar um estado de luto ou de melancolia”. Dado ao fato das causas excitantes e as influências ambientais serem as mesmas para o luto e a melancolia. (FREUD, 1915, p.249). É importante ressaltar que a perda aqui referida não é necessariamente a morte, mas sim uma perda de natureza mais ideal, como exemplo “uma noiva que tenha levado o fora”. (p. 251). Ambos estados, luto e melancolia, apresentam os mesmos traços, com exceção da diminuição da autoestima, ausente no estado de luto, no qual o sujeito vê o mundo como algo pobre e vazio. Já na melancolia este pobre e vazio é o próprio sujeito (FREUD, 1915, p. 251), representando seu eu como algo desprovido de valor, incapaz de realizar qualquer ação, e moralmente desprezível. Os sintomas experimentados pelo sujeito melancólico são: Um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando numa expectativa delirante de punição. (FREUD, 1915, p. 250). 37 Sendo assim, na melancolia a insatisfação e o descontentamento destinados ao objeto externo são deslocados para o próprio eu do sujeito, tornando a pessoa monótona e sempre com a impressão de que foi tratada com grande injustiça (FREUD, 1915, p. 254), justamente o que parecia estar acontecendo com Vincent: Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com isto, talvez isto nunca aconteça [...] (VAN GOGH, 2002, p.47). No quadro clínico da melancolia, o paciente descreve-se como “mesquinho, egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido ocultar as fraquezas de sua própria natureza” (FREUD, 1915, p. 252). Frequentemente este sujeito se preocupa pouco com o corpo, o autocuidado, com feiura e fraqueza, como o artista relata em uma de suas cartas, na qual fala de si através de uma analogia com um pássaro: Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não pode fazê-lo. O que será? Ele não lembra muito bem. Tem então vagas lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor. ‘Vejam que vagabundo’, diz um outro pássaro que passa, ‘esse aí é um tipo de aposentado’. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais ou menos feliz sob os raios do sol. Mas vem a época da migração. Acesso de melancolia – ‘mas’ dizem as crianças que o criam na gaiola, ‘afinal ele tem tudo o que precisa’. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. ‘Estou preso, estou preso e não me falta nada, imbecis. Tenho tudo o que preciso. Ah! por bondade, liberdade! ser um pássaro como outros. (VAN GOGH, p. 49-50). Outra interessante teoria sobre a melancolia foi escrita pelo filósofo e sociólogo judeu alemão Walter Benjamin e analisada em O tempo e o cão (2009), pela psicanalista e crítica literária Maria Rita Kehl, que aponta importantes discussões à concepção benjaminiana. De forma geral, para Benjamin, o que resulta na melancolia é “o desacordo entre o sujeito e o seu bem”. (KEHL, 2009, p.81). Este desacordo é gerado por uma falta de perspectiva futura de vida e o sujeito melancólico de Benjamin sente-se “desadaptado, ou excluído, das crenças que sustentam a vida social de seu tempo” [...] “sente-se abatido pelo sentimento da 38 inutilidade de suas ações, daí a relação entre a melancolia e o fatalismo” (p. 81), sentimentos partilhados por Vincent e recorrentemente exposto em suas Cartas a Theo, como se pode observar a seguir: Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A quem poderia eu ser útil de alguma maneira? É por isto que antes de mais nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância conveniente, que eu faça como se não existisse. (VAN GOGH, 2002, p.40). Seria o sujeito melancólico mais vulnerável ao fracasso? Ao se pensar em Van Gogh como um sujeito de características melancólicas, pode-se afirmar que a melancolia se apresenta como uma dimensão do fracasso, percebida através do discurso de Vincent em suas Cartas a Theo. Em sua obra literária Ressentimento (2004), Maria Rita Kehl traz discussões sobre o ressentimento, narcisismo e melancolia. A psicanalista relembra o caso Dora de Freud e a partir dele reflete sobre a realidade social a que pertence o sujeito ressentido e sobre o lugar de vítima no qual este sujeito coloca-se. Nesta pesquisa não daremos ênfase a esta temática, mas a relação entre o sujeito ressentido e sua realidade social poderá ser um possível ponto para futuras pesquisas. 4.2 ENTRE THEO E VINCENT: A TENTATIVA DE SUPLÊNCIA DO NOME-DO-PAI Em Totem e Tabu (1913), Freud ocupou-se de escrever sobre as bases a partir das quais Lacan iria desenvolver a metáfora paterna a partir de um mito primitivo da civilização. De acordo com Vanier (2005, p.69), desta metáfora do pai, fundamentalmente baseada no Édipo, Lacan escreveu sobre a formação das estruturas. Quando esta metáfora paterna não se inscreve, há a forclusão8, o determinante da psicose. “O psicótico fica preso, desde então, no cativeiro da relação com o outro, o cativeiro amoroso, ou até mesmo o cativeiro agressivo”. (VANIER, 2005, p. 69). Pode-se fazer uma analogia deste “cativeiro” com a relação 8 “Mecanismo psíquico de rejeição das representações insuportáveis, antes mesmo de se integrarem ao inconsciente do indivíduo, o que seria, segundo Jacques Lacan (1901-1981) a origem da psicose” (VANIER, 2005, p.69) 39 estabelecida entre Vincent e Theo, relação esta tão intensa e presente por toda a vida de Van Gogh, capaz até de permear algumas de suas obras. Ao longo da leitura das Cartas a Theo percebe-se que Theo foi quem mais incentivou e apostou em Vincent para que continuasse a seguir seus objetivos relacionados às artes plásticas. Para Theo, o irmão tinha algo de único e, assim, dedicou o seu amor e disposição para ajudá-lo, durante toda a sua vida. Ao longo desta pesquisa, foram adquiridos livros que tratavam da biografia do pintor. Um desses livros, Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada (2008) contém algumas cartas de Theo endereçadas a Vincent. Nessas cartas, Theo se coloca responsável e muito preocupado com o irmão, assumindo um papel fundamental e organizador na vida de Vincent, como se observa nos fragmentos de cartas a seguir: Fiquei muito perturbado ao saber que você não está se sentindo bem de saúde. Devo supor que tem trabalhado demais e, consequentemente, esqueceu-se de tomar os devidos cuidados com seu próprio corpo. Fiquei contente por sua carta ter chegado hoje, porque, em pouco tempo, devo partir para Bruxelas, e, nesse caso, você teria de esperar pelo menos por mais dois dias. Mas que belo financista você me saiu! O que me causa tristeza é saber que, apesar disso, você está sempre tão miseravelmente apertado, já que não consegue deixar de fazer todo o tipo de coisas para ajudar os outros. Na verdade, eu gostaria que você fosse um pouco mais egoísta, pelo menos até o seu orçamento ficar mais bem equilibrado. (THEODORE VAN GOGH, 1888, p. 119). Já que é certo que o problema do dinheiro não vai desaparecer antes de uma formidável revolução ou, provavelmente, que uma série de revoluções se tenham realizado, é necessário tratá-lo como uma doença. Quer dizer, você deve tomar as precauções necessárias contra acidentes e complicações que possam resultar dela, mas não há razão para ficar com a cabeça cheia de preocupações por causa disso. Você vem pensando demais em dinheiro ultimamente e, embora possa não estar percebendo os sintomas, está sofrendo por causa deles. Por acidentes, eu quero dizer miséria e, a fim de evitar chegar a esse ponto, é necessário levar as coisas com mais calma, não fazer excessos e tentar escapar de outras doenças tanto quanto for possível. Você passa falando sobre o dinheiro que me deve e que pretende me devolver. Eu não quero ouvir falar desse assunto. Tudo o que eu quero é que você não se preocupe com coisa alguma. (THEODORE VAN GOGH, 1888, p.121). As citações acima mostram o grande papel organizador que Theo assumiu na vida de Vincent, apostando no sujeito ali existente. Seria este irmão o responsável por conter o sofrimento de Vincent a ponto que o mesmo não se desorganizasse? 40 Seria Theo o responsável por manter o pintor na dimensão da realidade? Qual seria o papel de Theo na vida de Vincent? Faria (2011) refere-se ao trabalho do analista na clínica da psicose como uma espécie de “ortopedia imaginária” do eu que se faz necessária “para organizar e dar contorno ao real delimitando as bordas que separam o eu do não-eu e, consequentemente, modificando a relação do sujeito com o mundo que o cerca” (p. 137). Tais efeitos só se produziriam em casos que houvesse fragilidade na organização do sujeito, possivelmente a fragilidade presente em Van Gogh, durante a maior parte de sua existência, o que o levou a essa dimensão de fracasso tratada nesse trabalho sob algumas perspectivas. A expressão, “ortopedia imaginária”, consiste em uma posição que não pressupõe um saber absoluto, mas sim uma posição que possibilita a escuta e a criação de novas possibilidades frente à ausência da inscrição do Nome-do-Pai. (FARIA, 2011). Desta forma, apostar no sujeito é investi-lo de desejo, tirá-lo da alienação e possibilitar ao mesmo a reinvenção de novas saídas frente ao impossível. Antonio Quinet (1997, p. IX) descreve o trabalho do psicanalista na clínica da psicose como uma introdução, uma aposta no sujeito. Este autor afirma que: Introduzir o sujeito lá onde está o homem, o cidadão, o mental, o indivíduo, é fazer com que o paciente, ou seja, aquele que sofre os efeitos da estrutura, possa desfiar os fios de sua patologia. Tratá-lo como sujeito é fazê-lo responsável, sujeito de direito – o que se opõe a tratá-lo como objeto de observação, cuidados. É, pois, uma questão ética. Theo amava Vincent incondicionalmente, sendo a primeira pessoa a apreciar suas obras, aquele que de fato acreditou em Van Gogh. Ao estar disposto a apoiálo, Theo organizava-o, assumindo uma postura que resultava em minimizar o fracasso do irmão e, possivelmente, mantendo-o dentro de um imaginário mais ou menos organizado. Postura que teve grande importância até mesmo após a morte do pintor, pois através da mulher de Theo a obra de Vincent e as Cartas a Theo não caíram no esquecimento e puderam ser organizadas, defendidas, difundidas e eternizadas, conquistando apreciadores e amantes do artista impressionista em todo o mundo. A relação de dependência entre Theo e Vincent era mútua. Theo deu o nome do irmão ao seu primeiro e único filho, isto se tornou ainda mais evidente e 41 acentuado quando Vincent faleceu. Cartas a Theo e várias biografias publicadas sobre Van Gogh, deixam claro que Theo perdeu o gosto pelo viver, morrendo apenas seis meses depois do óbito do pintor. Curiosamente, nem mesmo a morte foi capaz de separar os irmãos Van Gogh, visto que ambos foram enterrados lado a lado no cemitério da pequena cidade francesa na qual Vincent faleceu, Auvers-surOise, pouco tempo após o nascimento de um novo Vincent – o filho de Theo. 4.3 DE VAN GOGH A VINCENT: O FRACASSO DO NOME-DO-PAI Estaria o nascimento de um novo Vincent relacionado à partida de outro? Será que a chegada de seu sobrinho fez Van Gogh conceber que o seu ciclo deveria terminar para que outro Vicent assumisse o seu próprio lugar? Van Gogh foi o quinto Vincent de uma família em que este nome representava tradição e herança. E foi ele, este quinto Vincent que mudou com a sua própria história o destino de seus futuros homônimos. Historia a qual teve início antes mesmo de seu nascimento, antes da morte de seu irmão, também, Vincent, mas alguns séculos antes a partir do primeiro Vincent. Antes mesmo que uma criança nasça, fantasias e expectativas são criadas em torno de como essa criança poderá vir a ser. Em Sobre o Narcisismo: uma introdução (1914), Freud chama atenção para a atitude dos pais para com os filhos, afirmando que esta é “uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo” (p. 97). Dessa forma, “os pais têm o costume de atribuir todas as perfeições ao filho” “[...] e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele”. O que ela se tornará? Concretizará os sonhos de seus pais ou aqueles que ela mesma imaginara? Ficará sujeita ao desejo dos pais? Na leitura das Cartas a Theo, observa-se que durante a maior parte da vida de Vincent ele procurou corresponder às expectativas parentais, em uma tentativa, inconsciente, de reviver o narcisismo de seu pai, o pastor Van Gogh, visto que durante um período se entregou aos estudos bíblicos e decidiu se tornar um missionário: “Não estou só, pois Deus está comigo. Quero ser pastor. Pastor como o meu pai!”. (VAN GOGH, 2002, p.10). Por meio das Cartas a Theo, constatou-se que após o falecimento do pastor Van Gogh, Vincent sela a ruptura não só com a sua família, mas também com a 42 Holanda, sua pátria. Em uma de suas Cartas ao irmão ele afirma que a Holanda já não tinha mais nada a lhe ensinar. Ao passo que estas mudanças aconteciam, ele trabalhava em um de seus quadros mais conhecidos, Comedores de Batatas e, ainda concomitante a esses acontecimentos, Vincent revelou a Theo através de uma carta que naquele momento ele descobrira as cores, a luz e o movimento, definindo um estilo próprio e inovador de pintar, que iria marcar suas obras e fazer escola: “Como é correto e verdadeiro. E como é importante poder fazer em sua palheta essas cores que não sabemos como chamar e que formam a base de tudo”. (VAN GOGH, 2002, p.140). Por meio de seus quadros e das Cartas a Theo, observou-se que Van Gogh assinava simplesmente como Vincent e, não, Van Gogh. O que é paradoxalmente estranho, visto que Van Gogh era um sobrenome de prestígio no universo e comércio das artes. O que existiu por trás da não assinatura de seu sobrenome paterno? O que Vincent afirmava ou não afirmava ao assinar o seu nome próprio em vez de seu tradicional e conhecido sobrenome: Van Gogh? Existiu nessa assinatura uma recusa ao sobrenome paterno? Isso pode ser lido como uma exclusão (forclusão) do Nome-do-Pai e do pai do nome? A análise desta pesquisa teve base na teoria psicanalítica, o que levou a pesquisadora a ler sobre um dos mais importantes escritos de Lacan no qual foi encontrado o conceito Nome-do-Pai, conceito chave e fundamental para o entendimento da teoria psicanalítica. O Nome-do-Pai é um conceito proposto por Lacan a partir de seu trabalho sobre a psicose, mais precisamente: D'une question préliminaire à tout traitement possible de la psychose. Este conceito diz respeito à função paterna, função que opera como uma metáfora substituinte de um significante. Neste caso, o significante a ser substituído é o desejo da criança pela própria mãe, substituído pelo Nome-do-Pai, “como representante de um desejo materno, outro, que não o voltado para a própria criança”. (VANIER, 2005, p.67). E, ainda, como define Chemama (1995, p.148): Produto da metáfora paterna que, designando primeiramente o que a religião nos ensinou a evocar, atribui a função paterna ao efeito simbólico de um puro significante e que, em um segundo momento, designa aquilo que rege toda a dinâmica subjetiva, ao inscrever o desejo no registro da dívida simbólica. O pai é uma verdade sagrada, da qual, no entanto, nada, na realidade vivida, indica a função, nem a dominância, pois continua sendo em primeiro lugar, uma verdade inconsciente. 43 O entrar em contato com este conceito lacaniano trouxe à pesquisadora uma inquietação, pois ao dar-se conta que Van Gogh adotou Vincent como assinatura, pôs-se a pensar que aí está posta a forclusão, o fracasso do Nome-do-Pai. A forclusão é um conceito essencial para se entender o mecanismo psíquico que origina a estrutura da psicose e seus fenômenos elementares. Para a psicanálise, a forclusão corresponde à falta de inscrição, no inconsciente, da castração. Esta experiência é crucial, visto que à medida que é simbolizada, possibilita a criança assumir seu próprio sexo e a reconhecer seus limites. Dessa forma, a falta dessa simbolização no sujeito psicótico, produzirá uma incerteza em relação a sua identificação sexual, além de uma perda no sentido da realidade. (NASIO, 1995). De acordo com este autor, a forclusão é um termo jurídico, proposto por Lacan para traduzir a palavra alemã Verwerfung. Palavra esta que nas versões francesas da obra de Freud era transcrito por rejet, cujo significado é rejeição, repúdio. Ou seja, a forclusão corresponde a um conceito introduzido na teoria psicanalítica por Jacques Lacan para designar um “mecanismo específico que estaria na origem do fato psicótico; consistiria numa rejeição primordial de um ‘significante’ fundamental”, como por exemplo, “o falo enquanto significante do complexo de castração) para fora do universo simbólico do sujeito”. (LAPLANCHE E PONTALIS, 1994, p. 194-195). A forclusão ou foraclusão, como também o termo pode ser encontrado, é definida por Nasio (1995, p.149) como “uma construção teórica que procura explicar o mecanismo psíquico na origem da psicose [...] é o nome que a psicanálise dá à falta de inscrição, no inconsciente, da experiência normativa da castração”. Para entender a forclusão do Nome-do-Pai, é necessário que se fale em algumas condições: em primeiro lugar, o significante Nome-do-Pai indica a função paterna tal como é internalizada e assumida pela criança - é qualquer expressão simbólica produzida pela mãe ou pelo filho, que represente a terceira instância, paterna, a lei da proibição do incesto. Portanto, para situar o significante Nome-doPai é preciso verificar como a mãe situa-se em relação à lei simbólica da proibição, ou como o filho integrou em si essa proibição. (NASIO, 1995). Em segundo lugar, o autor expõe que “o Nome-do-Pai, entendido como expressão do desejo da mãe ou do desejo do filho, é qualificado por Lacan de 44 metáfora paterna, ou seja, metáfora do desejo da criança perpassada pelo desejo da mãe”. (NASIO, 1995, p. 158). Por fim, Nasio (1995) coloca que o Nome-do-Pai não é algo objetivo, que possa se nomear ou localizar, mas qualquer significante que venha ocupar o lugar da metáfora do desejo da criança ou do desejo materno, como por exemplo, um sintoma, um gesto, uma palavra, etc., que representa uma expressão singular do desejo. Ainda de acordo o mesmo autor (1995), para se compreender o conceito lacaniano de forclusão, é necessário saber o que define o Nome-do-Pai. Neste caso, este significante será sempre uma resposta renovada a um apelo feito por um outro, e uma referência a esse terceiro que é o pai. É justamente com esse terceiro que Vincent rompe. É o pai que fica excluído na (não) inscrição da lei. Lacan deu ênfase ao problema fundamental da psicose, a forclusão do Nomedo-Pai no lugar do outro, tal como afirma Quinet (1997, p.30): O Nome-do-Pai não se acha aí, há um buraco na ordem simbólica do sujeito psicótico. O fenômeno psicótico é o efeito da emergência na realidade de um chamado a uma significação à qual o suejito não pode responder na medida em que esta jamais fez parte da sua estrutura. Diante do exposto até o momento, pode-se afirmar que Van Gogh ao assinar o seu nome próprio, estaria legitimando sua psicose? Estaria Vincent em um momento de surto psicótico no episódio no qual decepa um pedaço de sua orelha e o entrega a uma prostituta? O que estava acontecendo naquele momento que contribuiu para que o pintor se desorganizasse a ponto de cortar um pedaço do seu corpo? Por que cortar um pedaço da orelha? Em sua mais recente entrada no hospital psiquiátrico Van Gogh impressionou-se com as reações de outros internos, ouvindo sons e vozes assustadores. Teria ele, em um momento de surto, concluído que o problema estava em seus órgãos auditivos e desta forma resolveu silenciá-los? De forma concreta, ao pé-da-letra, sem metáforas, ele teria cortado a orelha como forma de cortas as vozes? Estaria operando no real, um silêncio (ausência/falta) que fracassou no simbólico? As perguntas seguirão sem respostas, mas problematizá-las, questionálas, pode ser uma forma de avançar frente aos fracassos. 45 Na última carta a Theo antes do fatídico episódio da orelha, Vincent escreveu: “um aperto de mão, tenho de voltar novamente ao hospital, mas dentro em pouco sairei de vez. Sempre seu, Vincent. Escreva também uma palavra de minha parte à mãe: que ninguém se inquiete” (VAN GOGH, 2002, p.308) e, ainda: “mas sem brincadeira, o medo da loucura diminui consideravelmente ao ver de perto as pessoas por ela afetadas, como eu facilmente poderia ficar a seguir”. (VAN GOGH, 2002, p.362). Por fim, neste último trecho, Van Gogh parece restabelecer um contato com a realidade, reorganizando seu imaginário através da escrita para o irmão Theo. Nesta escrita ele coloca a sua loucura em significantes endereçados a este Theo (Teo) que sempre apostou que ali poderia haver um sujeito, um brilhante pintor. A aposta de Theo sobre Vincent e a escrita deste destinada a Theo pode ter operado de modo significativo para que essa “loucura” ganhasse um terreno simbólico, representacional, e isso diminuísse, ainda que de forma precária e em partes, o fracasso do Nome-do-Pai, fazendo certo controle da psicose de Vincent. 46 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS Essa pesquisa teve como objetivo geral analisar as dimensões do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh à luz da teoria psicanalítica. Acredita-se que a realização deste trabalho cumpriu com o objetivo geral e os objetivos específicos nos quais a pesquisa se propôs: identificar passagens que remetem ao fracasso; investigar a importância do fracasso e relacionar o fracasso nas Cartas com a teoria psicanalítica. Durante o processo de análise desta pesquisa, percebeu-se a dificuldade do pintor em assumir o seu sobrenome de família, visto que o mesmo assinava em suas Cartas a Theo e em seus quadros, apenas seu primeiro nome – Vincent. Esta não assunção deste sobrenome de família foi problematizada e discutida a partir do conceito lacaniano Nome-do-Pai. A temática do nome próprio envolveu questões relacionadas à herança familiar, sendo esta diretamente relacionada ao narcisismo parental e às expectativas criadas pelos pais em relação aos filhos. Envolveu, ainda, reflexões acerca do lugar que Van Gogh ocupava em sua família e, até mesmo, em sua vida, visto que um ano antes do nascimento do pintor a família Van Gogh passou por uma grande perda – a morte de um filho, com seis meses de vida, também chamado Vincent. No final da análise destacou-se a intensa relação que existiu entre Van Gogh e seu irmão Theo, a quem o artista endereçou as cartas que constituíram a obra que serviu de base para esta pesquisa. À análise da relação dos irmãos Van Gogh, foi atribuído o conceito lacaniano de forclusão – imprescindível para o entendimento da constituição da estrutura de personalidade psicótica –, visto que em diversos momentos da vida de Vincent, Theo desempenhou um papel fundamental e organizador, sendo este capaz de proporcionar ao irmão não só a realização de um grande desejo – pintar –, mas o ajuste de sua própria psicose. Esse olhar da psicanálise sobre as dimensões do fracasso presentes em cada ponto escolhido para análise desta pesquisa justificou a mesma, uma vez que não foi encontrado em livros, artigos e pesquisas anteriores, através das consultas às bases de dados, estudos que especificassem a relação entre Van Gogh e o fracasso. Além disso, buscou-se acrescentar conteúdo teórico e contribuições a partir das reflexões aqui apresentadas, aos profissionais atuantes na clínica 47 psicanalítica. Espera-se, ainda, que este estudo possa contribuir de algum modo, com os apreciadores deste artista mundialmente conhecido e em futuros estudos. Durante a realização desta pesquisa, verificou-se que outros aspectos envolvendo Van Gogh, a teoria psicanalítica e, mesmo o fracasso, poderiam ser enfatizados em futuros trabalhos. No entanto, como em toda pesquisa, existem certas generalidades e hipóteses que conduziram a pesquisadora a particularizar alguns pontos para este trabalho de conclusão de curso. Dessa forma, compreende-se a necessidade de novas pesquisas que abordem novos temas e reflexões. Uma interessante problematização relacionada a Van Gogh seria o porquê do mesmo durante sua breve vida pintar incontáveis autoretratos. Sabe-se que um auto-retrato tem relação com a imagem que o sujeito tem de si mesmo. Ao criar esses auto-retratos, do que estaria o pintor tentando se autorretratar? Estaria o artista, através da arte, na tentativa de reconstituir sua própria imagem corporal? Outra interessante pesquisa a ser realizada com relação a Van Gogh seria a relação existe entre a vida e a obra do pintor. Estariam as cores utilizadas em seus quadros diretamente relacionadas a evolução de suas crises? Em relação às facilidades e dificuldades encontradas para a realização desta pesquisa, é importante ressaltar, que o senso de escolha para os pontos analisados baseou-se sempre na tentativa de “dar conta” dos mesmos e, à medida que a pesquisa avançou e foram sendo escolhidos estes importantes pontos para reflexão e análise, muito aprendizado foi proporcionado à pesquisadora, uma vez que novas percepções e conceitos foram apreendidos por meio das leituras realizadas. Nesse sentido, acredita-se que esta pesquisa não alcançou somente os objetivos propostos, pois, além disso, favoreceu novas interpretações, experiências e conquistas. 48 REFERÊNCIAS BONGER, Johanna. Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada; tradução de William Lagos --Porto Alegre: L&PM, 2008. CHEMAMA, Roland (org.). Dicionário de Psicanálise. PA: Artes Médicas – Larousse, 1995, p. 148, COTTRELL, Ian Andrew. A Temática do Narcisismo e a Saúde Mental do Sujeito. 2008. Monografia (Graduação) – Universidade do Sul de Santa Catarina, Palhoça, 2008. Disponível em < http://inf.unisul.br/~psicologia/wpcontent/uploads/2008/07/Ian.pdf> Acesso em: 07 out. 2011. DOR, Joel. O Pai e Sua Função em Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed, 1991. FREUD, Sigmund. Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico. (1916). In: Obras completas de Sigmund Freud. 3. ed. Rio de Janeiro: Imago, 1996. ______. Sobre o Início do Tratamento (1913), op. cit. ______. 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