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UNIVERSIDADE DO SUL DE SANTA CATARINA
ELISA VIANNA ROSSI CALDAS
UM OLHAR DA PSICANÁLISE SOBRE AS DIMENSÕES DO FRACASSO NA
OBRA CARTAS A THEO DE VINCENT VAN GOGH
Palhoça
2012
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ELISA VIANNA ROSSI CALDAS
UM OLHAR DA PSICANÁLISE SOBRE AS DIMENSÕES DO FRACASSO NA
OBRA CARTAS A THEO DE VINCENT VAN GOGH
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao
curso de graduação em Psicologia, da Universidade
do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para
obtenção do título de bacharel em Psicologia.
Orientador: Prof. Dr. Maurício Eugênio Maliska
Palhoça
2012
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ELISA VIANNA ROSSI CALDAS
UM OLHAR DA PSICANÁLISE SOBRE AS DIMENSÕES DO FRACASSO NA
OBRA CARTAS A THEO DE VINCENT VAN GOGH
Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao
Curso de Psicologia da Universidade do Sul de
Santa Catarina, como requisito parcial para
obtenção do título de bacharel em Psicologia.
Palhoça, 18 de junho de 2012
____________________________________
Prof. e orientador Maurício Eugênio Maliska, Dr.
Universidade do Sul de Santa Catarina
_____________________________________
Profª Maria Ângela Giordani Machado, Msc.
Universidade do Sul de Santa Catarina
____________________________________
Prof. Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares, Dr.
Universidade de São Paulo
Palhoça
2012
13
A todos aqueles que têm o dom de metamorfosear o que se vive.
14
AGRADECIMENTOS
Muitas pessoas me ajudaram na trajetória do Curso de Psicologia, e em
especial na realização deste trabalho. Gostaria neste momento, não só de agradecêlas o amor, o companheirismo e os incentivos que me dispensaram, mas também de
prestá-las uma homenagem.
Ao Prof. Dr. Maurício Eugênio Maliska, orientador deste trabalho, quero
agradecer a atenção, a amizade e o estímulo constante, com os quais me conduziu
durante esses dois últimos semestres.
À Profª Maria Ângela Giordani Machado, por aceitar fazer parte da minha
banca, pelos livros emprestados, pela sua atenção e incentivo. Agradeço, também,
ao Prof. Dr. Pedro Heliodoro de Moraes Branco Tavares, professor da Área de
Alemão - Língua, Literatura e Tradução da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências
Humanas da USP.
A minha família, que sempre esteve ao meu lado nos momentos de
dificuldades e realizações. Agradeço, em especial, à jornalista Margareth Vianna
Rossi Claussen, minha mãe, pela sua paciente tarefa de leitura, revisão e
observações deste trabalho.
À companheira de TCC Carmen Lucia dos Anjos que, com sua amizade e a
constante troca de ideias, incentivou-me com estímulo e coragem para mais essa
conquista.
Aos amigos em geral que estiveram presentes – mesmo longe – e disponíveis
para compartilhar suas ideias e opiniões acerca do assunto.
A minha terapeuta, Celi Ghislandi, que esteve ao meu lado nestes últimos
anos sendo testemunha dos meus fracassos e sucessos.
Agradeço, ainda, a todas as pessoas que indiretamente contribuíram para a
realização deste trabalho.
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“Aquele
que vive sinceramente e encontra aflições verdadeiras e desilusões, e que
jamais se deixar abater por elas, vale mais que os que sempre vão de vento em
popa, e que conheceriam uma prosperidade apenas relativa.” (VAN GOGH).
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RESUMO
O fracasso é um tema de grande importância para a literatura psicanalítica, uma vez
que envolve diversos conceitos. Nesta pesquisa, a temática do fracasso foi ampliada
no sentido de identificar e discutir as dimensões do mesmo na obra Cartas a Theo,
de Vincent Van Gogh. Portanto, este estudo tem como objetivo propor uma análise
discursiva sobre as dimensões do fracasso nesta obra literária, buscando: a)
identificar passagens que remetem ao fracasso; b) investigar a importância do
fracasso; e c) relacionar o fracasso nas Cartas com a teoria psicanalítica. Para que
os objetivos da presente pesquisa fossem contemplados, adotou-se um caráter
exploratório e qualitativo quanto à abordagem e classificação desta. Quanto ao
delineamento adotado, foi o bibliográfico com base documental, visto que Cartas a
Theo constitui a genuína correspondência trocada entre os irmãos Van Gogh. A
análise apontou para uma problematização do nome próprio, já que Van Gogh
herdou o nome de um irmão mais velho falecido com seis meses de idade. Com
relação ao nome, foi discutido o fracasso do Nome-do-Pai, na medida em que
aparece nas cartas certa precariedade de uma assunção do nome de família – este
nome que não representava ou apresentava Van Gogh, uma vez que ele assinava,
nas cartas e também nas suas obras, apenas o nome Vincent. Desta relação com o
nome de família, destacou-se a intensa relação com o irmão Theo, destinatário
absoluto das cartas (objeto desta pesquisa) que desempenhou um papel
fundamental na organização da vida cotidiana do pintor, inclusive proporcionando
determinado ajuste na psicose do artista. Este possível fracasso do Nome-do-Pai
está articulado com o conceito lacaniano de forclusão, que está no cerne da
constituição da estrutura psicótica. Por fim, foram discutidas características de um
possível quadro de melancolia apresentadas por Van Gogh, por meio do seu
discurso, nas Cartas.
Palavras-chave: Fracasso. Cartas a Theo. Van Gogh. Psicanálise.
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LISTA DE FIGURAS
Figura 1 – Vincent Van Gogh aos 13 anos de idade.........................................10
Figura 2 – Theodore Van Gogh........................................................................11
Figura 3 – Vincent Van Gogh aos 19 anos de idade…......................................12
Figura 4 – Johanna Van Gogh-Bonger..............................................................13
Figura 5 – Kee Voos……...................................................................................20
Figura 6 – Dr. Gachet........................................................................................22
Figura 7 – Sien...................................................................................................24
Figura 8 – Quarto de Vincent no hospício de Saint-Rèmy.................................25
Figura 9 – “O Vinhedo Vermelho” - Primeiro e único quadro vendido, em vida, por
Van Gogh............................................................................................................26
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SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO – PROBLEMÁTICA E
JUSTIFICATIVA................................................................................................09
1.2 OBJETIVOS................................................................................................18
1.2.1 OBJETIVO GERAL..................................................................................18
1.2.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS....................................................................18
2 REFERENCIAL TEÓRICO ............................................................................19
2.1 AS CARTAS A THEO..................................................................................19
2.2 O FRACASSO NAS CARTAS.....................................................................22
2.3 O FRACASSO NA TEORIA PSICANALÍTICA.............................................27
3 MÉTODO........................................................................................................31
4 AS CARTAS E O FRACASSO.......................................................................35
4.1 UM E OUTRO VINCENT: LUTO E/OU MELANCOLIA?..............................35
4.2 ENTRE THEO E VINCENT: A TENTATIVA DE SUPLÊNCIA DO NOME-DOPAI......................................................................................................................38
4.3 DE VAN GOGH A VINCENT: O FRACASSO DO NOME-DO-PAI...............41
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................................46
REFERÊNCIAS.................................................................................................48
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1 INTRODUÇÃO
Este estudo está vinculado ao Núcleo Orientado em Psicologia e Saúde e à
disciplina Trabalho de Conclusão de Curso II, do curso de Psicologia da
Universidade do Sul de Santa Catarina - Unisul.
A presente pesquisa consiste em uma análise discursiva sobre o fracasso na
obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh. A ideia de realizá-la surgiu através de um
antigo desejo da pesquisadora de unir a psicologia à arte e a partir da prévia leitura
da correspondência dos irmãos Van Gogh, transformada nesta obra literária.
O capítulo introdutório apresenta a formulação do problema de pesquisa,
seguido da justificativa e dos objetivos. O capítulo seguinte apresenta o referencial
teórico que trata de temas que foram divididos em três subtítulos: as cartas a Theo,
o fracasso nas cartas e o fracasso na teoria psicanalítica. O terceiro capítulo trata do
tipo de pesquisa, da abordagem e do delineamento da mesma, do contato com o
material escolhido e dos instrumentos utilizados para coleta e análise do material.
Por fim, serão apresentadas a análise e as considerações finais, com conclusões
decorrentes do trabalho realizado e sugestões para novas pesquisas.
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Figura 1 – Vincent Van Gogh aos 13 anos de idade
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
Antes de iniciarmos a problemática da pesquisa, é importante uma breve
apresentação do sujeito, cujo discurso será posteriormente analisado.
Vincent Van Gogh nasceu em 30 de março de 1853 (exatamente um ano
após da morte do seu primeiro irmão, também Vincent, que faleceu aos seis meses
de vida), na aldeia de Groot Zundert – brabante holandês –, uma região situada
entre a Bélgica e os Países Baixos. Seu pai, Theodorus Van Gogh era pastor e sua
mãe, Anna Cornelia Carbentus, filha de um encadernador da corte. (TERRASSE,
1997).
Vincent cresceu em uma família tradicional do século XIX, cujos valores
cristãos, o trabalho e o esforço eram a base para uma vida virtuosa. Primogênito de
uma família de seis filhos, seus cinco irmãos, em ordem, eram Anna, Theodore,
Elisabeth, Willemien e Cor. (VAN GOGH MUSEUM, 2011, tradução nossa). Entre
eles, Theodore, carinhosamente chamado de Theo, quatro anos mais novo e com
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quem Vincent mantinha uma relação mais próxima, documentada por meio de cartas
que ambos trocaram por toda a vida.
Figura 2 – Theodore Van Gogh
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
Theodore Van Gogh foi um negociante de artes dos Países Baixos, alguém
que acreditou e apoiou financeiramente seu irmão para que este se dedicasse
exclusivamente à pintura. A partir de uma carta na qual Vincent “abre-se
profundamente a Theo [...] e descreve a horrível angústia em que se encontrava”
Théo passa a dedicar-se inteiramente ao irmão. (TERRASE, 1997, p.10).
A primeira carta escrita por Vincent a Théo foi num domingo, em 29 de
setembro de 1872. A última, Vincent trazia consigo no momento em que deu um tiro
no seu próprio peito, no dia 29 de julho de 1890. A correspondência entre os irmãos
Van Gogh foi interrompida durante o período em que Vincent morou com Theo em
Paris, sendo retomada no próprio dia da chegada do mesmo a Arles, uma cidade no
sul da França. E, também, durante os 15 dias após a noite de Natal de 1880, quando
Vincent chega à casa de seu amigo, e também pintor, Paul Gauguin e decepa um
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pedaço de sua orelha. Após os dois episódios citados, as cartas escritas a Théo
seguem quase que diariamente, contribuindo para a construção de “um verdadeiro
testamento literário”. (TERRASSE, 1997, p.13).
Figura 3: Vincent Van Gogh aos 19 anos de idade
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
Já que o ponto central para a discussão da temática do fracasso será a obra
Cartas a Theo, é imprescindível a apresentação da mesma. O livro consiste na
reunião de aproximadamente 700 cartas de Vincent endereçadas a Theodore Van
Gogh. A primeira edição de Cartas a Theo, um volume de mais de mil páginas, foi
publicada em 1914 por meio da viúva de Théo, Johanna Van Gogh-Bonger, que
reuniu as cartas, organizou-as cronologicamente e publicou-as na cidade de
Amsterdam. Posteriormente, os manuscritos dos irmãos Van Gogh foram traduzidos
para o inglês pela própria Johanna.
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Figura 4 – Johanna Van Gogh-Bonger
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
Na edição de 2002 foram acrescentadas mais de uma centena de cartas em
relação à edição de 1997, organizada pelo francês Georges Philppart. Por se
tratarem de correspondências autobiográficas, o autor da obra é considerado o
próprio Vincent Van Gogh. No prefácio elaborado por Charles para a edição de
1997, o escritor francês descreve um pouco essa vida permeada pela amargura,
pela solidão, pelo processo criativo de Vincent e, ainda, pela evolução de suas
crises pessoais.
De acordo com Terrasse (1997), Vincent deixa a casa paterna pela primeira
vez ao completar 12 anos, ao ser internado no colégio de uma cidade vizinha, em
Zevenbergen, sendo permitido ao mesmo retornar para casa somente nas férias de
verão. Aos 16 anos uma profissão se fez urgente e Vincent saiu desta escola para
iniciar um trabalho de negociante de artes, conseguido através de seu tio, também
Vincent.
Já inserido no comércio das artes, como alguns Van Gogh do passado,
Vincent começa a viajar a trabalho e a se interessar cada vez mais pelas artes
14
plásticas, frequentando museus e lendo “tudo o que lhe cai nas mãos”. (TERRASSE,
1997, p. 4). Neste período, Vincent é enviado a Londres para trabalhar em uma filial
da Casa Goupil – importante galeria de arte da Europa – e somente um ano depois
ele retorna à casa paterna, “sombrio e atormentado”. (TERRASSE, 1997, p. 5). Este
foi o primeiro de vários retornos que iriam acontecer. (BONGER, 2008).
Na leitura das Cartas a Theo, percebe-se um Vincent solitário, humilhado,
sacrificado e capaz de esquecer ele mesmo. O artista viveu a pobreza e a privação,
e durante a maior parte de sua existência foi assistido financeiramente por seu
irmão, Theo. Além disso, Van Gogh nunca foi reconhecido e compreendido em vida,
e uma das primeiras vezes que seus quadros foram expostos – em uma Exposição
Pós-Impressionista – foi uma “ocasião em que muitas pessoas ainda riram deles”.
(BONGER, 2008, p.23).
Antes de dedicar-se exclusivamente à pintura, Vincent experimentou várias
atividades, entre elas um longo período a pregar o evangelho em diferentes cidades.
Com a ilusão de levar conforto e alegria às vidas miseráveis, lecionou para crianças,
visitou pobres e dirigiu estudos bíblicos. Apesar de praticar aquilo que acreditava,
era triste, porém esperançoso. (BONGER, 2008). Em uma das cartas a Theo,
Vincent escreveu: “A quem poderia eu ser útil de alguma maneira?”. (VAN GOGH,
2002, p.40). E, também:
Muitas vezes me ocorre falar ou agir um pouco depressa demais, quando
seria melhor esperar com um pouco mais de paciência. Acredito que outras
pessoas também possam às vezes cometer semelhantes imprudências.
Agora, sendo assim, o que se deve fazer, devo considerar-me com um
homem perigoso e incapaz de qualquer coisa? Penso que não...
Além disso, sabe-se que Vincent tentou suicídio no período durante o qual
mais trabalhou e produziu em toda sua vida, chegando a pintar em média um quadro
por dia, como se pode observar nesta carta a Theo escrita alguns meses antes de
seu falecimento:
Meu caro irmão – é sempre em meio ao trabalho que eu lhe escrevo –,
estou trabalhando como um verdadeiro possesso, mais que nunca estou
num furor surdo de trabalho. E creio que isto contribuirá para minha cura.
Talvez me aconteça algo como o que fala Eugene Delacroix: “Encontrei a
pintura quando não tinha mais nem paixão e nem ânimo”, no sentido de que
minha triste doença me faz trabalhar com um furor surdo – muito
lentamente, mas da manhã à noite sem parar – e provavelmente aí está o
segredo: trabalhar muito tempo e lentamente. (VAN GOGH, 2002, p.372).
15
Na leitura da obra Cartas a Théo, o retorno de Vincent à casa paterna em
Etten, na Holanda, aparece repetidamente. Estariam essas repetidas idas e vindas
ligadas ao fracasso?
O fracasso é um tema discutido pela psicanálise desde autores como Freud
(1916), passando por Lacan (1985) e recentemente por Harari (2008) e Maliska
(2010). É um assunto de grande importância para a literatura e para a psicanálise,
visto que envolve conceitos como o desejo, o gozo, a angústia e o inconsciente.
Estes autores trazem interessantes considerações acerca do fracasso que estarão
presentes ao longo dessa pesquisa.
Harari (2008, p.213) nos fala sobre a repetição do fracasso:
[...] encontramos pessoas em que toda relação humana conduz a idêntico
final, tal como benfeitores, cujos protegidos, pobrezinhos que são em outros
aspectos, se mostram ingratos passado certo tempo; esses benfeitores
então, parecem destinados a curar a amargura da ingratidão. Outros que
em sua vida repetem muitas vezes o ato de elevar uma pessoa à condição
de grande autoridade para si mesmo ou para o público e, depois de um
tempo, a destroem para substituí-la por outra. Amantes cujo relacionamento
amoroso com as mulheres tem o mesmo percurso, com as mesmas fases,
que desembocam em final idêntico.
Sobre o que o autor quis dizer anteriormente, acredita-se que o senso comum
poderia entender esse acontecimento como um sinal de má sorte na vida, como se o
sujeito estivesse fadado a viver um destino previamente traçado. (HARARI, 2008, p.
212).
O interessante dessas “ocorrências trágicas” (FREUD, 1916) é que ao mesmo
tempo em que elas podem ser entendidas como um sinal de má sorte na vida,
também são compreendidas como um traço de um determinado tipo de caráter.
Em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os
arruinados pelo êxito, Freud (1916) cita um caso de uma mulher, exemplo típico de
uma dessas ocorrências trágicas:
Era bem nascida e bem educada; no entanto, ainda muito jovem, não pôde
conter seu gosto de viver; fugiu de casa e perambulou pelo mundo em
busca de aventuras, até travar conhecimento com um pintor, que não só
pôde apreciar seus encantos femininos, mas também captar, apesar de sua
degradação, as qualidades mais requintadas que ela possuía. Levou-a para
viver com ele e ela provou ser uma companheira fiel, parecendo apenas
carecer de reabilitação social para alcançar uma felicidade completa. Após
muitos anos de vida em comum, o pintor conseguiu fazer com que a família
dele se reconciliasse com ela; estava então preparado para torná-la sua
esposa legítima. Foi nesse momento que ela começou a desmoronar.
16
Descuidou da casa da qual agora estava prestes a tornar-se dona por
direito; imaginou-se perseguida pelos parentes dele, que desejavam fazê-la
parte da família; proibiu ao amante, com seu ciúme insensato, todo contato
social; prejudicou-o em seu trabalho artístico, e logo sucumbiu a uma
doença mental incurável. (FREUD, 1916, p. 331).
Outro caso encontrado na clínica psicanalítica é citado a seguir:
[....] um respeitável senhor, professor universitário, que nutria havia muitos
anos o desejo natural de ser o sucessor do mestre que o iniciara nos
estudos. Quando esse professor mais antigo se aposentou e os colegas
informaram ao pretendente que ele fora escolhido para substituí-lo,
começou a hesitar, depreciou seus méritos, declarou-se indigno de
preencher o cargo para o qual fora designado, e caiu numa melancolia que
o deixou incapaz de toda e qualquer atividade durante vários anos.
(FREUD, 1916, p. 332).
Nos dois casos citados por Freud observa-se que existiu luta e esforço na
tentativa de obter o êxito, mas em algum momento do caminho, quando esses
sujeitos estavam prestes a atingir os seus objetivos, fracassaram. De alguma forma,
a “doença” da qual a mulher e o professor são acometidos, acompanha a realização
desse desejo e põe fim ao desfrute do mesmo. (FREUD, 1916).
Diante do exposto até o momento constata-se certa reiteração do movimento de
Vincent nas Cartas. Estaria isso ligado ao fracasso? Dessa forma, há o interesse em
pesquisar Como se apresenta a dimensão do fracasso na obra Cartas a Theo de
Vincent Van Gogh?
Muitos estudos e análises sobre a vida e as produções artísticas de Van Gogh
já foram realizados, sendo assim, esta pesquisa pretende um novo olhar, não um
olhar sobre o artista, mas no valioso dado literário – o discurso – que se apresenta
através das suas cartas a Theo.
A fim de verificar e validar a relevância científica deste trabalho foi realizado
um rastreamento em fontes bibliográficas e banco de dados on-line sobre o tema,
como teses on-line da Universidade do Sul de Santa Catarina (Unisul), da
Universidade de São Paulo (USP), da Universidade Estadual de Campinas
(Unicamp) e da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), bem como em
publicações nos sites da Sociedade Brasileira de Psicanálise do Rio de Janeiro
(SBPRJ), da Sociedade Brasileira de Psicanálise de São Paulo (SBPSP), da
Biblioteca Digital de Teses e Dissertações (BDTB), da Scientific Electronic Library
17
On-line (Scielo) e da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo
(Fapesp)1 .
Nessas consultas não foram encontrados estudos específicos sobre a relação
do fracasso e Van Gogh. As pesquisam encontrados abordam, por exemplo, o estilo
único de Van Gogh à luz de suas ansiedades primitivas2, e o estabelecer relação
para melhor entendimento da dualidade entre a vida e a obra do mesmo3. Não foi
localizado nenhum artigo ou texto publicado que articulasse a dimensão do fracasso
com o discurso de Van Gogh na obra Cartas a Theo.
Portanto, esta pesquisa discorrerá sobre o fracasso, problemática presente no
que tange às demandas da clínica psicanalítica. Além disso, visa adicionar conteúdo
teórico e reflexões ao conhecimento dos profissionais envolvidos e contribuições à
teoria psicanalítica, visto que a proposta desta pesquisa é de certa forma inovadora
em relação às publicações já existentes.
A relação entre a psicanálise e a literatura é antiga. Para Cottrell (2008),
“existem vários autores que se utilizaram de personagens de obras literárias para
ilustrar seus pensamentos e reflexões. O próprio Freud iniciou o casamento
duradouro entre psicanálise e literatura”.
Willian Shakespeare foi um dos principais autores que Freud estudou e citou
em seus trabalhos. Em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho
psicanalítico: os arruinados pelo êxito, Freud (1916) toma Lady MacBeth,
personagem principal de uma das peças mais conhecidas e aclamadas de
Shakespeare, “como exemplo de pessoa que sucumbe ao atingir o êxito”. (FREUD,
1916). No mesmo texto, Freud escreve sobre o sentimento de culpa e o complexo
de Édipo a partir de Rosmersholm, obra teatral escrita pelo dramaturgo norueguês
Henrik Ibsen, e estabelece concordância entre as duas obras.
Outro ponto importante para a realização deste trabalho e que o torna
relevante para a literatura é o fato do mesmo ter como ponto central uma obra
literária de base documental. Dessa forma, pretende despertar o interesse daqueles
que nutrem o prazer pela literatura e, ainda, daqueles que apreciam a arte em todas
as suas formas de expressão: Van Gogh foi um grande artista e é referência no
1
http://inf.unisul.br/~psicologia, http://www.teses.usp.br/, http://cutter.unicamp.br/,
http://www.bdtd.ufu.br/, http://www.sbpsp.org.br/ide/ide46.asp, http://www.sbpsp.org.br/ide/,
http://bdtd.ibict.br/pt/index. php, http://www.scielo.br/, http://www.bv.fapesp.br/pt/
2
http://www.sbprj.org.br/site/admIN/upload/arquivos/Vera_Bulak_van_gogh_-_versao_congresso.pdf
3
http://www.bv.fapesp.br/pt/bolsas/72544/van-gogh-sua-obra-alem/
18
âmbito das artes plásticas. Neste contexto, é necessário analisar a dimensão do
fracasso na obra Cartas a Theo, possibilitando então hipóteses interpretativas a
partir do discurso do próprio Vincent Van Gogh.
Com o intuito de responder à pergunta da pesquisa, quatro objetivos foram
elaborados: um geral e três específicos.
1.1 OBJETIVOS
Nesta seção serão apresentados o objetivo geral e os objetivos específicos da
pesquisa.
1.1.1 OBJETIVO GERAL
Analisar as dimensões do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van
Gogh à luz da teoria psicanalítica.
1.1.2 OBJETIVOS ESPECÍFICOS
a) Identificar na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh passagens que remetem
ao fracasso;
b) Investigar a importância do fracasso na obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh;
c) Relacionar o fracasso encontrado na obra Cartas a Theo com a temática do
“fracasso” à luz da teoria psicanalítica
19
2 REFERENCIAL TEÓRICO
[...] Quanto mais fico dissipado, doente, alquebrado, mais também me torno
artista, criador, nesta grande renascença da arte da qual falávamos. (VAN
GOGH, 2002, p.241).
Neste capítulo será realizada a fundamentação teórica relacionada à
pesquisa, utilizando como referencial a teoria psicanalítica no sentido de favorecer a
posterior análise discursiva sobre a dimensão do fracasso na obra Cartas a Theo.
Ao
iniciar
esta
fundamentação
teórica
é
importante
destacar
uma
consideração sobre o foco deste trabalho. Em geral quando se escuta o nome “Van
Gogh” rapidamente o pensamento é remetido à psicose, quanto a isso, a proposta
desta pesquisa é transitar entre as possibilidades e hipóteses relacionadas ao
fracasso e interpretá-las por meio de dados literários presentes na obra Cartas a
Theo. Dessa forma, não se pretender afirmar ou influenciar a leitura e a reflexão do
leitor para que o mesmo entenda que o fracasso de Van Gogh possuía cunho
psicótico ou neurótico.
2.1 AS CARTAS A THEO
Cartas a Theo é uma obra que consiste na reunião da numerosa
correspondência de Vincent para seu irmão, amigo e confidente, Theo. Elas eram
escritas em pequenos intervalos de tempo e às vezes, diariamente. Esses
manuscritos reunidos em Cartas a Theo apresentam arranjo cronológico referente à
vida de Vincent. As Cartas foram escritas entre julho de 1873 e julho de 1890, e a
última foi encontrada junto ao corpo de Vincent no momento de sua morte.
As cartas revelam o que Vincent via, fazia e pensava. Nelas estão descritas
as suas experiências em Borinage4 com os operários das minas de carvão – quando
este ainda era um aspirante a missionário –, as características da região onde viveu
nesse momento, os hábitos das pessoas e até mesmo o sol local. O pintor escreveu
a Theo sobre seus passeios no campo, suas leituras e estudos de livros que
estiveram ao seu alcance, como a Bíblia e Revolução Francesa de Michelet, sobre
seus pintores franceses favoritos, como por exemplo, Scheffer; Delaroche; Hébert e
4
Região da Bélgica
20
Hamon e, ainda, do tipo de arte que o atraía. Destes livros e obras, contou ao irmão
sobre os ensinamentos e as reflexões que adquiriu a partir dos mesmos.
Através dessas cartas, Van Gogh mostrou-se um homem cheio de dúvidas e
de humor inconstante, mas capaz de amar. Em algumas cartas Vincent escreveu
sobre o amor que nutriu pela prima Kee Voos, e mesmo esse amor não tendo sido
retribuído pela mesma, conseguiu proferir belíssimas palavras sobre os seus
sentimentos:
Se continuarmos a amar sinceramente o que na verdade é digno de amor, e
não desperdiçarmos nosso amor em coisas insignificantes, nulas e
insípidas, obteremos pouco a pouco mais luz e nos tornaremos mais felizes.
(VAN GOGH, 2002, p. 28).
Figura 5 – Kee Voos
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
A Theo, Vincent descrevia com muita alegria, seu pequeno quarto alugado no
bairro de Montmartre, em Paris, França, e os quadros que pendurava nas paredes.
Relatou as exposições de arte que viu enquanto morou lá, as visitas ao museu do
Louvre, e os seus desenhos baseados na obra de grandes pintores que o
21
inspiraram, como Corot e Rembrandt, além dos primeiros trabalhos com modelos
vivos e do método que ele utilizou para retratá-los.
Van Gogh era um homem com sonhos, objetivos e devoção a Deus, e em
suas errantes idas e vindas reveladas nas Cartas a Theo, transpareceu seus
momentos de melancolia e desespero sobre a consciência de sua possível doença
mental:
Uma melhoria na minha vida – por acaso não a desejariam por acaso não
precisaria? Gostaria de melhorar bem mais. Mas precisamente porque o
desejo, tenho medo de “remédios piores que a doença”. (VAN GOGH, 2002,
p.39).
Uma das teorias sobre o episódio no qual Vincent cortou com uma navalha
um pedaço de sua própria orelha na noite de Natal de 1888, afirma que o
acontecimento foi motivado por um desentendimento com seu amigo, companheiro
de casa e pintor Paul Gauguin. Após este incidente, Vincent embalou o pedaço
cortado de sua orelha e o levou para uma prostituta do bordel que ele frequentava.
Considerado totalmente louco pelo amigo e pelo irmão foi levado a um hospital.
Quando retornou à sua casa, em vez de encontrar seu amigo, deparou-se com a
angústia e tomado por alucinações e sofrimento. (TERRASSE, 2002).
Através dos conselhos de Theo, Vincent decide se internar em um hospício
na cidade de Saint-Rémy, na França. Neste período escreveu cartas nas quais
descreveu os “incessantes berros de seus infelizes companheiros” (TERRASSE,
2002, p.17) e, ainda, a evolução da sua própria loucura. Vincent transformou seu
quarto em um estúdio e, embora suas crises fossem recorrentes, ele produziu cerca
de 150 pinturas durante o ano que esteve internado, 1889. (VAN GOGH MUSEUM,
2011, tradução nossa). Apesar de estar num hospício e consequentemente privado
de viver a liberdade, o regime de vida imposto em Saint-Rémy dava a Vincent uma
estabilidade dificilmente vivida antes, relatada em uma de suas Cartas a Theo:
Eu “me atrapalhei” na vida e meu estado mental não somente é como
também foi abstraído, de forma que independente do que fizessem por mim,
eu não posso pensar em equilibrar minha vida. Quando eu tenho que seguir
uma regra aqui no hospício, sinto-me tranquilo. (VAN GOGH, 2002, p. 354).
Depois de quase um ano internado no hospício de Saint-Rèmy Vincent decide
se mudar e volta para o norte, para uma cidadezinha próxima à Paris chamada
22
Auvers-sur-Oise, com o intuito de ficar mais próximo de Theo. Esta foi a última
cidade na qual Vincent residiu.
Figura 6: Dr. Gachet
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
Em suas últimas correspondências, escreveu ao irmão sobre a sua relação e
crescente afeição pelo doutor Paul Gachet, médico homeopata e, também, amante
das artes plásticas. O médico conviveu e cuidou de Vincent, num breve período,
durante os últimos três meses de vida que ele passou na cidade de Auvers-sur-Oise,
na França, após deixar o hospício:
[...] ele me pareceu na verdade tão doente e perturbado quanto você e eu, e
ele é mais velho e perdeu há poucos anos a sua mulher; mas é muito
médico e sua profissão e sua fé o sustentam contudo. Já somos muito
amigos... (VAN GOGH, 2002, p.378)
2.2 O FRACASSO NAS CARTAS
A partir da análise do discurso de Van Gogh na obra Cartas a Theo, pretendese identificar passagens que remetem ao fracasso e investigar sua importância. Por
isso, este capítulo tem como objetivo principal discorrer sobre como o mesmo se
apresenta nas Cartas a Theo.
23
Nos manuscritos se conhece um homem cuja vida foi permeada por objetivos
frustrados e muito sofrimento. Nas cartas a dimensão do fracasso aparece
exaustivamente no que diz respeito aos diferentes tipos de trabalho, que Vincent
experimentou em sua vida, antes de se dedicar exclusivamente à arte.
Quando Vincent deixou o colégio interno, no qual estudou até completar 16
anos, a família Van Gogh rapidamente tratou de inseri-lo nos negócios da arte. Por
meio de seu tio, também Vincent, Van Gogh foi contratado para trabalhar como
negociante de artes na Casa Goupil, uma importante e conceituada galeria da
Europa. Nela permaneceu por seis anos e, ao final deles, foi considerado um
péssimo empregado, chegando até a viajar sem avisar aos seus patrões – episódio
que lhe rendeu uma demissão.
Após esse período, retornou à casa paterna em Etten5 pela primeira vez e se
empregou como professor em uma escola anglicana6. Depois de três meses foi
despedido e iniciou um trabalho como ajudante do pregador de uma igreja. Poucos
meses depois Vincent abandonou o emprego e começou a trabalhar em uma livraria,
o que durou pouco, pois quatro meses depois voltou a Amsterdam para estudar a
bíblia e se formar pastor. Dois meses depois de iniciar esses estudos, Vincent
resolve abandoná-los e voltar, novamente, a casa dos pais. Após esta breve estada,
Vincent viaja a Bruxelas, na Bélgica, e entra para uma escola evangelista, com o
objetivo de se tornar um missionário. Não sendo nomeado para tal ocupação; partiu
por vontade própria para a região de Borinage, local onde realizou um trabalho com
os operários das minhas de carvão.
Ao final do ano de 1878, o Comitê de Evangelização surpreendeu-se com o
ânimo e o sacrifício de Vincent, retificando sua decisão de não nomeá-lo e enviandoo para uma missão de seis meses na Bélgica. Sua dedicação foi radical, pois neste
período Van Gogh abdicou da sua saúde para servir ao outro, alimentou-se pouco,
basicamente de pedaços de pães doados pelas pessoas por onde ele passava.
Chegou a dormir no chão e a andar de pés descalços.
Em um novo retorno à casa paterna, Vincent encontrou com seu primo e
também pintor Anton Mauve, que lhe deu alguns conselhos e o desencorajou sobre
as ideias de cortejar novamente sua prima Kee. Este acontecimento resultou em
uma discussão com seu pai e tornou tensa a relação com seu primo Mauve.
5
Cidade holandesa na qual seus pais viviam.
Instituição educacional na qual se ensina a doutrina bíblica.
6
24
Além disso, acolheu uma mulher grávida, pobre e doente que posava de
modelo para seus desenhos, Sien. Com isso Vincent recuperou-se e retomou as
pinturas. Trabalhou intensamente até que a relação com Sien tornou-se
irremediável. Muito doente em decorrência do abuso de álcool e tabaco e
completamente esgotado dessa relação com Sien, Vincent chegou a ponto de pedir
a Theo que o afastasse dela. Dessa forma Van Gogh, aliviado, voltou a pintar.
Figura 7 – Sien
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
No que diz respeito à relação com sua família, Vincent entrou em um
desacordo sem solução com o mundo e os valores de seus familiares quando fez
uma visita a sua mãe no momento em que ela fraturou a perna. Pouco tempo
depois, o pastor Van Gogh, seu pai, morre, selando a ruptura entre Vincent e sua
família, menos com Theo.
Esta foi a última das tantas vezes que Vincent retornou à casa de Etten.
Buscando a autonomia que até então não parecia experimentar, resolveu viver seu
próprio caminho. A esta altura ele acreditava que a Holanda estava sendo um
obstáculo ao seu processo criativo e, por não ter mais nada para aprender, Vincent
mudou-se para a Bélgica e se inscreveu na Academia de Belas Artes da cidade de
25
Antuérpia, uma grande cidade. Nela experenciou as cores em suas obras e pensou
em expor seus trabalhos.
A estada foi curta e logo depois partiu para Paris e estudou em uma escola de
arte. Nesta época frequentou exposições dos mestres impressionistas, como Brion e
Boughton, inspirando-se no âmbito das técnicas e dos procedimentos. Mas em
função de uma crise existencial, resolveu que Paris já não era mais a sua meta e
partiu para Arles, cidade medieval ao Sul da França, que o embriagou de felicidade.
Em Arles, Vincent dividiu um estúdio com seu amigo e também pintor
Gauguin. Seus temperamentos e tendências estéticas eram discrepantes e logo se
tornou evidente que a vida em comum entre esses dois homens era algo impossível.
A relação resultou em desentendimentos e no episódio em que Vincent decepou um
pedaço de sua orelha direita com uma navalha, sendo internado no hospício de
Saint-Rèmy, onde suas crises continuaram.
Figura 8: Quarto de Vincent no hospício de Saint-Rèmy
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
De certa forma Saint-Rèmy foi bom para o artista, pois ao transformar seu
quarto e um espaço de trabalho, um atelier, nesse período produziu a maior parte de
suas obras. O que soa um pouco irônico e, até mesmo, paradoxal, visto que na sua
fase de maior produção artística ele estava internado em um hospício.
26
Contrariado pelas suas esperanças de melhora, sua doença mental não o
abandona, fazendo-o mudar para uma cidade próxima a Paris chamada Auvers-surOise onde viveria os seus últimos meses de vida, no ano de 1890. Nesta época
Theo negociou o único quadro que Vincent vendeu em vida – O Vinhedo Vermelho.
Figura 9: “O vinhedo vermelho” - primeiro e único quadro vendido, em vida, por Van Gogh
Fonte: Van Gogh Museum (2011)
Atenta-se para o curioso acontecimento de Vincent ter cometido suicídio logo
quando começou a colher o primeiro fruto do seu esforço, do seu trabalho. No
momento do mesmo, estava com uma carta para Theo em seu bolso, na qual
aparentemente não se apresenta conteúdo indicativo de um possível suicídio:
Meu caro irmão, obrigado por sua gentil carta e pela nota de
cinquenta francos que ela continha. Já que as coisas vão bem, o que é o
principal, por que insistiria eu em coisas de menor importância? Por Deus!
Provavelmente se passará muito tempo antes que se possa conversar de
negócios com a cabeça mais descansada.
Os outros pintores, independente do que pensem, instintivamente mantêmse à distância das discussões sobre o comércio atual.
Pois é, realmente só podemos falar através de nossos quadros.
Contudo, meu caro irmão, existe isto que eu sempre lhe disse e novamente
voltarei a dizer com toda a gravidade resultante dos esforços de
pensamento assiduamente orientado a tentar fazer o bem tanto quanto
possível – volto a dizer-lhe novamente que sempre o considerarei como
alguém que é mais que um simples mercador de Corots, que por meu
intermédio participa da própria produção de certas telas, que mesmo na
derrocada conserva sua calma.
Pois assim é, e isto é tudo, ou pelo menos o principal que eu tenho a
lhe dizer num momento de crise relativa. Num momento em que as coisas
estão muito tensas entre marchands de quadros de artistas mortos e de
artistas vivos.
Pois bem, em meu próprio trabalho arrisco a vida e nele minha razão
arruinou-se em parte – bom -, mas pelo quanto eu saiba você não está
27
entre os mercadores de homens, e você pode tomar partido, eu acho,
agindo realmente com humanidade, mas, o que é que você quer? (VAN
GOGH, 2002, p. 386).
2.3 O FRACASSO NA TEORIA PSICANALITICA
Em Alguns tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os
arruinados pelo êxito, Freud (1916) afirma que no momento em que um médico
inicia o tratamento psicanalítico de um paciente neurótico, o que o psicanalista quer
saber consiste no que os sintomas alertam e “quais os impulsos instintuais ocultos
por detrás deles e por eles satisfeitos, e qual o curso seguido pelo caminho
misterioso que conduziu dos desejos instintuais aos sintomas” (FREUD, 1916,
p.325), não considerando o caráter do paciente. Porém, muitos destes chegam à
clínica por alguma insatisfação ou fracasso pessoal, não por seus sintomas.
Harari (2008) atenta para o fato de se fazer uma distinção entre uma neurose
e o caráter e, ainda, para os dois tipos de fracassos propostos por ele como ponto
fundamental de Por que nossos fracassos se repetem?. O primeiro diz respeito à
repetição do real, sendo o real “o que volta sempre ao mesmo lugar” (HARARI,
2008, p. 223) e o segundo, à repetição simbólica, ou seja, “a possibilidade de poder
se movimentar pela via do Simbólico lacaniano e poder fazer um deslocamento,
deslizar, poder sair desse enredamento que marca a repetição do Real”. (HARARI,
2008, p.223)
Na repetição simbólica citada por Harari (2008), ocorre ao sujeito agir de uma
maneira habitual, muitas vezes sem se dar conta desta. Diferente do que acontece
com o paciente que vem à clínica por um sintoma. Quanto a esses, o sujeito chega à
consulta e “diz: ‘eu não quero ter mais isto’; ‘não suporto mais viver assim’; ‘assim
não posso continuar, a minha vida não tem sentido suportando isso’ – aí está a
presença de um sintoma”. (HARARI, 2008, p.211)
Este paciente poderá chegar à clínica com queixas como, por exemplo: não
sei o que acontece comigo, toda vez que engato um relacionamento algo de errado
ocorre e tudo vai por água a baixo ou até mesmo, todo trabalho é a mesma coisa,
fico três meses e sou demitido, acho que as pessoas com cargo de chefia tem algum
tipo de perseguição contra mim. Nestes casos, percebe-se que o paciente chega à
clínica com um histórico, com uma queixa, mas não apresenta um sintoma físico. O
28
que é importante destacar, é que esse sintoma será construído em análise, a partir
dos elementos que esse analisando trouxer por meio de suas associações livres.
A associação livre consiste em uma regra técnica e num método da prática
psicanalítica que tem como propósito trabalhar o inconsciente, além de “trazer o
material recalcado para a consciência, revelando ao paciente a natureza do
conteúdo inconsciente, uma extensão do seu (des) conhecimento sobre si mesmo, e
para tanto vencer as resistências que se opõem”. (JORGE, 2007, p. 123).
Em Além do princípio do prazer, Freud (1920) escreveu sobre os sujeitos que
apresentam traços de caráter que os fazem repetir determinadas situações em suas
vidas, os chamados fracassos. Freud (1920) indica para o que acontece com os
sujeitos quando eles sofrem por essas situações de forma repetida, como se este
sujeito fosse detentor de um destino a ele preparado, ou como chamou em Alguns
tipos de caráter encontrados no trabalho psicanalítico: os arruinados pelo êxito, de
“ocorrências trágicas”. (FREUD, 1916, p. 331).
Hoffmann (2008) comenta sobre a experiência clínica do analista, quando
este percebe que repetição dos fracassos do analisando se fundamentam num
retorno do gozo, isto é, de uma satisfação inconsciente do sujeito. Harari (2008)
versa sobre a intervenção psicanalítica a ser feita nesse caso: “dizer qual é a
participação que o sujeito tem nisso, porque acontece isso com ele, que não se trata
de mera passividade” e nem “que é a vontade de Deus”. (HARARI, 2008, p.213). É
nesse momento que se inicia o trabalho analítico, desencadeando então a lógica da
cura.
Freud (1916) afirma que para o ego não é totalmente incomum tolerar um
desejo inofensivo ao passo que este só exista na dimensão da fantasia, o desejo
cuja realização não se aproxima; em vez disso, o ego se defende contra o desejo
quando o mesmo está para se realizar, na eminência de tornar-se realidade. Ou
seja, “o sujeito segue construindo as condições para tornar efetivo seu próprio
fracasso” (MALISKA, 2010, p. 5) e, ainda, ”da mesma forma, o único ‘sucesso’
possível é uma relação com falta, em parte, permeada pelo insucesso”. (MALISKA,
2010, p.3).
Harari aponta para o fato de o fracasso ter relação com “as satisfações
sociais e o posicionamento subjetivo do sujeito que sofre, e não com os êxitos no
mundo”. (HARARI, 1008, p.218). Maliska (2010) corrobora com a afirmação e
complementa:
29
No fracasso o sujeito encontra alento para se regozijar de sua condição de
rejeitado, de fracassado, de mal amado, de sofrido, enfim, encontra uma
brecha para gozar com seu sintoma e supor que um gozo pleno e absoluto
só é possível para o Outro, não para ele. No fracasso encontra uma
recompensa narcísica para ocupar um lugar de destaque, se colocando
como o pior dos piores, um ser abominável e, com isso, gozar dessa
condição (p.2).
Como se a satisfação desse sujeito estivesse nas suas repetidas falhas ou na
repetição do fracasso, o fracasso de cunho neurótico, aquele fracasso do além-doprincípio-do-prazer freudiano. (SAFOUAN, 2006 apud HOFFMANN, 2008).
Os insucessos também podem ser lidos pela teoria psicanalítica através de
uma perspectiva ligada à psicose. Em sua obra O Pai e sua Função em Psicanálise,
Dor (1991) versa sobre o fracasso da função paterna a partir da metáfora do Nomedo-Pai e afirma:
O processo da metáfora Nome-do-Pai só assegura sua função estruturante
com relação ao desenvolvimento psíquico da criança na medida em que
puder se desenvolver sobre a base do recalque originário do significante do
desejo da mãe. Se esse recalque originário não se dá, todo o processo da
metáfora do nome do pai é comprometido, até mesmo fracassado. (DOR,
1991, p.101).
De acordo com o autor, a condição essencial que diferencia, de fato, a
psicose da neurose é esta abolição do significante Nome-do-Pai, consistindo desta
forma em uma função determinante na consituição das psicoses. (DOR, 1991). Esta
metáfora do Nome-do-Pai distingue os processos da psicose do mecanismo que
opera nas neuroses e está diretamente relacionada ao conceito lacaniano de
forclusão.
A forclusão é um termo extraído por Lacan do campo jurídico e que significa a
rejeição de algo que não foi realizado a tempo, no prazo. É desta terminologia
jurídica que Lacan se apropria do termo forclusão e utiliza-o para determinar e
nomear a abolição de um significante (DOR, 1991), o significante Nome-do-Pai.
Segundo Dor (1991, p.104):
O Nome-do-Pai não é um significante particular. Ele só é significante
primordial na medida em que, num dado momento, vem ocupar um lugar de
destaque. Enquanto tal, ele nunca é predeterminado antecipadamente.
Como só o lugar aberto à substituição metafórica é predeterminado, o
significante Nome-do-Pai é um significante qualquer que virá ocupar este
lugar decisivo.
30
É justamente quando não há um significante que a forclusão opera, ocupando
o lugar e substituindo-o na lógica simbólica e no psiquismo de um sujeito. Em outras
palavras, dizer que a forclusão do Nome-do-Pai é o processo no qual se origina uma
psicose, é dar ênfase ao fato “da impossibilidade em que se encontra a criança de
poder se referir ao Pai simbólico”. (DOR, 1991, p.106).
Voltando à questão do fracasso, pode-se fazer uma associação do mesmo
com as características do sujeito melancólico. Recentemente se observou um
movimento por parte de alguns psicanalistas para a produção de artigos e livros que
tratassem da melancolia e o cuidado da diferenciação da mesma com a depressão.
Em O Tempo e o Cão (2009) a psicanalista Maria Rita Kehl escreve sobre a
melancolia e propõe uma discussão acerca das características do tipo de homem
que vive no mundo atual, na contemporaneidade. De acordo com a autora, este
sujeito esta posto:
Em um mundo que nos propõe uma vida de automatismos de toda espécie,
ignorância, ingenuidade, inércia, fraqueza, velocidade, repetição (e sua
isidiosa intoxicação do mesmo), um estilo de vida que suprime ou deforma
outros mundos possíveis. (KEHL, 2009)
Kehl (2009) escreve, ainda, sobre as características do homem que habita
este mundo:
Um homem ao mesmo tempo obscuro e brilhante, ativo e miserável, que
lida todo o tempo com o esperado e o inesperado e que, por sua condição
incerta, incorpora todas as contradições: potencia e impotência, resignação
e revolta, ordem e desordem [...] um homem de voz velada, silenciosa,
dirigindo-se a si mesmo – aparentemente sem interlocutor –, que age como
se estivesse fora da vida e do mundo porque seu mundo está além do
possível. Consciente, ele encarna a reação contra a vulgaridade da
existência, em oposição ao outro que não se sente fora de sua época e que,
ao contrário, não cessa de assumir com ela um compromisso vergonhoso.
(KEHL, 2009).
Curiosamente, as características apresentadas pela autora podem ser
transpostas para o tempo e vida de Van Gogh, como se observa no seu discurso
relatado nas Cartas a Theo. Exprimindo, possivelmente, os indícios de uma estrutura
de personalidade na qual a melancolia se fazia presente.
31
3 MÉTODO
De acordo com Motta e Leonel (2011, p. 64, grifo do autor), a palavra método
vem do grego methodos e é composta de metá (através de, por meio de) e de hodós
(via, caminho). Segundo os mesmos autores, todas as atividades da vida humana
necessitam a escolha do melhor caminho, isto é, a escolha de um método. Na
ciência isto não se apresenta de maneira diferente, pois:
[...] se o pesquisador lança um problema de pesquisa, se deseja investigar
um determinado fenômeno, precisa, antes de tudo, determinar o caminho a
ser seguido para encontrar respostas para o seu problema. Assim, o
método consiste no ponto de ligação entre a dúvida e o conhecimento. (p.
64).
O método inclui, ainda, “as concepções teóricas de abordagem, o conjunto de
técnicas que possibilitam a construção da realidade e o sopro divino do potencial
criativo do investigador”. (MINAYO et al, 1994, p.16).
Pesquisar sobre como se apresentam as dimensões do fracasso na obra
Cartas a Theo de Vincent Van Gogh consistiu no objetivo geral deste trabalho. O
primeiro contato com a obra ocorreu através de uma leitura prévia realizada fora do
contexto da universidade e, a partir disto, surgiu o interesse de utilizá-la na
construção deste trabalho de conclusão de curso.
Duas edições de Cartas a Theo foram publicadas até o momento; 1997 e
2002. Foi realizada a leitura de ambas as edições, mas para esta pesquisa se
utilizou a edição de 2002, publicada pela editora L&PM POCKET, pois à mesma,
foram acrescentadas mais de uma centena de cartas, em relação à edição anterior,
além de um glossário, identificando os quase 200 nomes citados por Vincent em
suas correspondências, várias ilustrações e, ainda, um texto do pintor Paul Gauguin
no qual é descrito o episódio em que Van Gogh, numa crise, cortou a própria orelha.
Com base em seus objetivos, esta pesquisa é classificada como exploratória.
De acordo com Gil (2002, p.41), as pesquisas exploratórias:
[...] têm como objetivo proporcionar maior familiaridade com o problema,
com vistas a torná-lo mais explícito ou a constituir hipóteses. Pode-se dizer
que estas pesquisas têm como objetivo principal o aprimoramento de idéias
ou a descoberta de intuições. Seu planejamento é, portanto, bastante
32
flexível, de modo que possibilite a consideração dos mais variados aspectos
relativos ao fato estudado. (GIL, 2002, p. 41).
Quanto à abordagem, as pesquisas podem ser quantitativas ou qualitativas.
Esta pesquisa tem abordagem qualitativa, a qual, conforme Minayo et al (1994,
p.21):
[...] trabalha com o universo de significados, motivos, aspirações, crenças,
valores e atitudes, o que corresponde a um espaço mais profundo das
relações, dos processos e dos fenômenos que não podem ser reduzidos à
operacionalização de variáveis.
Para a classificação das pesquisas com base nos procedimentos técnicos
utilizados faz-se necessário “traçar um modelo conceitual e operativo da pesquisa”
(GIL, 2002, p. 43). Tal modelo é chamado de delineamento de pesquisa, e este
“refere-se ao planejamento da pesquisa em sua dimensão mais ampla, que envolve
tanto a diagramação quanto à previsão e análise e interpretação de coleta de dados”
(p. 43). Além disso, “o delineamento expressa em linhas gerais o desenvolvimento
da pesquisa, com ênfase nos procedimentos técnicos de coleta e análise de dados”
(p. 43).
O delineamento adotado para esta pesquisa foi bibliográfico com base
documental. Cabe ressaltar que “a pesquisa documental apresenta uma série de
vantagens” (GIL, 2002, p. 46) e “há que se considerar que os documentos
constituem fonte rica e estável de dados”, acrescentando importância a esta
pesquisa, uma vez que as Cartas a Theo, apresentadas como obra literária,
constituem na genuína correspondência trocada entre os irmãos Van Gogh.
Segundo Gil (2002), a pesquisa bibliográfica atém-se em materiais
previamente elaborados como, por exemplo, obras literárias e artigos científicos.
Desta forma, esta pesquisa foi desenvolvida com base no livro Cartas a Theo –
principal fonte – e na leitura de demais materiais que contemplam a temática do
fracasso.
É importante destacar que o fracasso não é tratado na obra psicanalítica e
nem na obra Cartas a Theo por esse termo. Na teoria psicanalítica freudiana não se
encontra o fracasso como um conceito, pois para explicá-lo Freud (1916) utilizou-se
do termo “os arruinados pelo êxito”. Para tratar do fracasso, Maliska (2010) usa a
expressão “A angústia diante do sucesso”, mas alguns psicanalistas, como o
argentino Harari (2001), publicou um artigo denominado Pourquoi nos échecs se
33
répètent-ils? (Por que nossos fracassos se repetem?) no qual escreve sobre
repetição e fracasso, apropriando-se deste termo.
Assim como na teoria, na obra Cartas a Theo o fracasso também não se
apresenta com essas palavras, mas sim nos momentos em que este aparece por
meio da fala do artista, a partir da interpretação realizada pela pesquisadora, como
no exemplo a seguir:
É verdade que ora ganhei um pedaço de pão, ora ele me foi dado por
bondade de um amigo; vivi como pude, nem bem nem mal, como dava; é
verdade que perdi a confiança de muitos; é verdade que minha situação
pecuniária está num triste estado; é verdade que o futuro me é bem
sombrio; é verdade que eu poderia ter feito melhor; é verdade que só para
ganhar meu pão eu perdi tempo; é verdade que meus próprios estudos
estão num estado lamentável e desesperador, e que me falta mais,
infinitamente mais do que o tenho (VAN GOGH, 2002, p. 42).
Acredita-se que através deste fragmento de carta apresentado anteriormente,
interpretou-se estar presente o fracasso em questão. A partir de uma “leitura
flutuante” das cartas, a pesquisadora não se ateve a nenhum momento específico.
Dessa forma faz-se conveniente e necessária uma analogia entre a forma de leitura
da obra Cartas a Theo e a escuta flutuante, importante instrumento de análise da
teoria psicanalítica, para que se entenda o que foi feito na fase de tratamento e
análise de dados deste trabalho.
Em Recomendações aos médicos que exercem a psicanálise, Freud (1912)
escreveu sobre algumas recomendações que auxiliariam o trabalho do analista e
consequentemente sua relação com o paciente. Sobre estas recomendações, a
primeira delas trata-se de uma forma de escutar o analisando que consistia em não
dirigir o pensamento para algum conteúdo específico, mas sim manter a “atenção
uniformemente suspensa em face de tudo” aquilo que este lhe relatava (p. 149). Em
suas palavras:
Consiste simplesmente em não dirigir o reparo para algo específico e em
manter a mesma “atenção uniformemente suspensa” [...] Em face de tudo o
que se escuta. Dessa maneira, poupamos de esforço violento nossa
atenção, a qual, de qualquer modo, não poderia ser mantida por várias
horas diariamente, e evitamos um perigo que é inseparável do exercício da
atenção deliberada. (FREUD, 1912, p. 149-150).
Nestes escritos o autor denominou este tipo de escuta de “atenção
uniformemente suspensa”, mais tarde chamada de atenção ou escuta flutuante.
34
Visto isso, pode-se fazer uma relação entre o discurso de Vincent presente
nas cartas e a fala do analisando dirigida ao analista, podendo ou não ser articulado
com a dimensão do fracasso.
O primeiro contato com o material pesquisado, a obra Cartas a Theo, ocorreu
a partir de uma prévia leitura fora do contexto da pesquisa e da universidade, como
foi citado anteriormente. Pode-se afirmar que esta primeira leitura, livre, foi
considerada bem diferente das outras que se sucederam.
Num segundo momento, foi feita uma leitura exploratória deste material, tendo
em vista verificar se o mesmo seria, de fato, interessante para a realização deste
trabalho de conclusão de curso.
Em um terceiro momento, foi adotada uma leitura mais profunda, quando o
fracasso emergiu como principal “conceito” a ser tratado na pesquisa. Atenta-se para
o fato de que nesse momento o material já havia sido escolhido como fonte principal
do trabalho. A partir desta leitura pôde-se investigar a importância do fracasso na
obra Cartas a Theo.
Em um quarto momento, e não por último – visto que ao decorrer do trabalho
voltou-se ao mesmo material – foi realizada uma leitura crítica com o objetivo de
confeccionar fichas de leitura para; registrar fragmentos considerados importantes,
registrar as principais informações contidas na obra, organizar as reflexões da
pesquisadora sobre o material lido e, ainda, auxiliar na etapa de tratamento e análise
de dados. Desta forma, o instrumento de “coleta de dados” desta pesquisa
bibliográfica são as próprias fichas de leitura, as quais auxiliaram na identificação
das passagens que remetem ao fracasso na obra Cartas a Theo. As fichas de leitura
foram confeccionadas através de recursos digitais, registradas diretamente no
computador e depois impressas em papel A4.
Por fim, foi realizada uma “última” leitura da obra Cartas a Theo, com o intuito
de relacionar o fracasso encontrado na obra Cartas a Theo com o fracasso à luz da
teoria psicanalítica.
Quanto aos materiais utilizados para a realização da monografia, foram
necessárias ferramentas básicas como, por exemplo: material bibliográfico (teses,
artigos e livros), acesso à internet, computador, impressora, papel A4, caneta e
roteiro de leitura.
35
Em relação à situação e ao ambiente para coleta de dados da pesquisa, será
utilizada a biblioteca da Unisul, bem como uma sala com mesa, cadeira, boas
condições de iluminação e ausência de ruídos.
4 AS CARTAS E O FRACASSO
Com o intuito de serem atingidos o objetivo geral e os objetivos específicos,
este capítulo trata de uma análise sobre as dimensões do fracasso na obra Cartas a
Theo. Foram trazidos alguns fragmentos da teoria psicanalítica, anteriormente
apresentados na fundamentação teórica, para analisar as cartas.
4.1 UM E OUTRO VINCENT: LUTO E/OU MELANCOLIA?
Vincent. Um nome de grande importância para a família Van Gogh, cujo lugar,
a história e o destino já estavam previamente estabelecidos. O primeiro Vincent de
quem se tem notícias nos Van Gogh nasceu no ano de 1729, na pequena cidade de
Gogh, situada na fronteira da Holanda com a Alemanha. Foi por meio dele que a
arte adentra na família, pois o mesmo era escultor. Um século se passou e na data
de 30 de março de 1853, nasceu Vincent Willem Van Gogh, exatamente um ano
após o nascimento de um irmão com o mesmo nome que morreu aos seis meses de
vida7, cujo túmulo se localizava a poucos passos da igreja na qual o pai de Vincent
era pastor. “Assim, tão logo aprendeu a ler, o pequeno Vincent pode ver seu nome
como em seu próprio túmulo”. (HAZIOT, 2010, p.7).
Através da história, sabe-se que a mortalidade infantil na metade do século
XIX era alta e a situação que ocorreu na família Van Gogh era frequente; ou seja,
era habitual, nesta época, dar o nome do falecido filho ao que vinha ao mundo logo
após. Dessa forma, a morte prematura de seu irmão permearia a historia do pintor
por toda a sua existência, fazendo-o se sentir o eterno substituto daquela criança
7
Geralmente mencionado em artigos e biografias sobre Van Gogh como um irmão natimorto. Porém,
de acordo com informações encontradas na cronologia disponibilizada na edição de 2002 de Cartas a
Theo, o irmão mais velho de Vincent viveu até os seis meses de idade.
36
que morreu (HAZIOT, 2010, p.7), como se vivesse a vida de outro alguém ou como
se estivesse morto de alguma forma.
Por meio das cartas, percebe-se que Vincent carregou um peso, algo
semelhante ao sentimento de culpa, uma grande culpa em relação à morte desse
irmão mais velho. Sentia-se culpado por existir, por estar vivo, como se aquele lugar
que ocupava não pertencesse a ele, como se percebe em suas próprias palavras:
Nem sempre sabemos dizer o que é que nos encerra, o que é que nos
cerca, o que é que parece nos enterrar, mas no entanto sentimos não sei
que barras, que grades, que muros. Será isto tudo imaginação, fantasia?
Não creio; e então perguntamos: meu Deus, será por muito tempo, será
para sempre, será para a eternidade? (VAN GOGH, 2002, p.50)
Estaria
essa
culpa
sentida
por
Vincent
relacionada
aos
sintomas
melancólicos? Em 1915, em seguida aos seus escritos sobre o narcisismo, Freud
ocupou-se em escrever sobre Luto e Melancolia. Nesta obra, o autor aborda estes
dois estados, comparando-os e afirmando que em algumas pessoas “as mesmas
influências, tais como a perda de um ente querido ou de algo que ocupe um lugar
tão importante para um sujeito (como um país, a liberdade ou um ideal), podem
ocasionar um estado de luto ou de melancolia”. Dado ao fato das causas excitantes
e as influências ambientais serem as mesmas para o luto e a melancolia. (FREUD,
1915, p.249). É importante ressaltar que a perda aqui referida não é
necessariamente a morte, mas sim uma perda de natureza mais ideal, como
exemplo “uma noiva que tenha levado o fora”. (p. 251).
Ambos estados, luto e melancolia, apresentam os mesmos traços, com
exceção da diminuição da autoestima, ausente no estado de luto, no qual o sujeito
vê o mundo como algo pobre e vazio. Já na melancolia este pobre e vazio é o
próprio sujeito (FREUD, 1915, p. 251), representando seu eu como algo desprovido
de valor, incapaz de realizar qualquer ação, e moralmente desprezível. Os sintomas
experimentados pelo sujeito melancólico são:
Um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo
externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer
atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de
encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento,
culminando numa expectativa delirante de punição. (FREUD, 1915, p. 250).
37
Sendo assim, na melancolia a insatisfação e o descontentamento destinados
ao objeto externo são deslocados para o próprio eu do sujeito, tornando a pessoa
monótona e sempre com a impressão de que foi tratada com grande injustiça
(FREUD, 1915, p. 254), justamente o que parecia estar acontecendo com Vincent:
Agora, no momento, ao que parece todos os meus negócios vão mal, e isto
já está assim há um tempo bastante considerável, e assim pode ficar
durante um futuro mais ou menos longo. Mas pode ser que, depois que tudo
pareça ter dado errado, de repente tudo comece a melhorar. Não conto com
isto, talvez isto nunca aconteça [...] (VAN GOGH, 2002, p.47).
No quadro clínico da melancolia, o paciente descreve-se como “mesquinho,
egoísta, desonesto, carente de independência, alguém cujo único objetivo tem sido
ocultar as fraquezas de sua própria natureza” (FREUD, 1915, p. 252).
Frequentemente este sujeito se preocupa pouco com o corpo, o autocuidado, com
feiura e fraqueza, como o artista relata em uma de suas cartas, na qual fala de si
através de uma analogia com um pássaro:
Um pássaro na gaiola durante a primavera sabe muito bem que existe algo
em que ele pode ser bom, sente muito bem que há algo a fazer, mas não
pode fazê-lo. O que será? Ele não lembra muito bem. Tem então vagas
lembranças e diz para si mesmo: “Os outros fazem seus ninhos, têm seus
filhotes e criam a ninhada”, e então bate com a cabeça nas grades da
gaiola. E a gaiola continua ali, e o pássaro fica louco de dor.
‘Vejam que vagabundo’, diz um outro pássaro que passa, ‘esse aí é um tipo
de aposentado’. No entanto, o prisioneiro vive, e não morre, nada
exteriormente revela o que se passa em seu íntimo, ele está bem, está mais
ou menos feliz sob os raios do sol. Mas vem a época da migração. Acesso
de melancolia – ‘mas’ dizem as crianças que o criam na gaiola, ‘afinal ele
tem tudo o que precisa’. E ele olha lá fora o céu cheio, carregado de
tempestade, e sente em si a revolta contra a fatalidade. ‘Estou preso, estou
preso e não me falta nada, imbecis. Tenho tudo o que preciso. Ah! por
bondade, liberdade! ser um pássaro como outros. (VAN GOGH, p. 49-50).
Outra interessante teoria sobre a melancolia foi escrita pelo filósofo e
sociólogo judeu alemão Walter Benjamin e analisada em O tempo e o cão (2009),
pela psicanalista e crítica literária Maria Rita Kehl, que aponta importantes
discussões à concepção benjaminiana. De forma geral, para Benjamin, o que resulta
na melancolia é “o desacordo entre o sujeito e o seu bem”. (KEHL, 2009, p.81). Este
desacordo é gerado por uma falta de perspectiva futura de vida e o sujeito
melancólico de Benjamin sente-se “desadaptado, ou excluído, das crenças que
sustentam a vida social de seu tempo” [...] “sente-se abatido pelo sentimento da
38
inutilidade de suas ações, daí a relação entre a melancolia e o fatalismo” (p. 81),
sentimentos partilhados por Vincent e recorrentemente exposto em suas Cartas a
Theo, como se pode observar a seguir:
Involuntariamente, tornei-me na família uma espécie de personagem
impossível e suspeito, seja como for, alguém que não merece confiança. A
quem poderia eu ser útil de alguma maneira? É por isto que antes de mais
nada, sou levado a crer, seja vantajoso, e melhor resolução a tomar, e o
mais razoável, que eu vá embora e me mantenha a uma distância
conveniente, que eu faça como se não existisse. (VAN GOGH, 2002, p.40).
Seria o sujeito melancólico mais vulnerável ao fracasso? Ao se pensar em
Van Gogh como um sujeito de características melancólicas, pode-se afirmar que a
melancolia se apresenta como uma dimensão do fracasso, percebida através do
discurso de Vincent em suas Cartas a Theo.
Em sua obra literária Ressentimento (2004), Maria Rita Kehl traz discussões
sobre o ressentimento, narcisismo e melancolia. A psicanalista relembra o caso Dora
de Freud e a partir dele reflete sobre a realidade social a que pertence o sujeito
ressentido e sobre o lugar de vítima no qual este sujeito coloca-se. Nesta pesquisa
não daremos ênfase a esta temática, mas a relação entre o sujeito ressentido e sua
realidade social poderá ser um possível ponto para futuras pesquisas.
4.2 ENTRE THEO E VINCENT: A TENTATIVA DE SUPLÊNCIA DO NOME-DO-PAI
Em Totem e Tabu (1913), Freud ocupou-se de escrever sobre as bases a
partir das quais Lacan iria desenvolver a metáfora paterna a partir de um mito
primitivo da civilização. De acordo com Vanier (2005, p.69), desta metáfora do pai,
fundamentalmente baseada no Édipo, Lacan escreveu sobre a formação das
estruturas. Quando esta metáfora paterna não se inscreve, há a forclusão8, o
determinante da psicose. “O psicótico fica preso, desde então, no cativeiro da
relação com o outro, o cativeiro amoroso, ou até mesmo o cativeiro agressivo”.
(VANIER, 2005, p. 69). Pode-se fazer uma analogia deste “cativeiro” com a relação
8
“Mecanismo psíquico de rejeição das representações insuportáveis, antes mesmo de se integrarem
ao inconsciente do indivíduo, o que seria, segundo Jacques Lacan (1901-1981) a origem da psicose”
(VANIER, 2005, p.69)
39
estabelecida entre Vincent e Theo, relação esta tão intensa e presente por toda a
vida de Van Gogh, capaz até de permear algumas de suas obras.
Ao longo da leitura das Cartas a Theo percebe-se que Theo foi quem mais
incentivou e apostou em Vincent para que continuasse a seguir seus objetivos
relacionados às artes plásticas. Para Theo, o irmão tinha algo de único e, assim,
dedicou o seu amor e disposição para ajudá-lo, durante toda a sua vida.
Ao longo desta pesquisa, foram adquiridos livros que tratavam da biografia do
pintor. Um desses livros, Biografia de Vincent Van Gogh por sua cunhada (2008)
contém algumas cartas de Theo endereçadas a Vincent. Nessas cartas, Theo se
coloca responsável e muito preocupado com o irmão, assumindo um papel
fundamental e organizador na vida de Vincent, como se observa nos fragmentos de
cartas a seguir:
Fiquei muito perturbado ao saber que você não está se sentindo bem de
saúde. Devo supor que tem trabalhado demais e, consequentemente,
esqueceu-se de tomar os devidos cuidados com seu próprio corpo. Fiquei
contente por sua carta ter chegado hoje, porque, em pouco tempo, devo
partir para Bruxelas, e, nesse caso, você teria de esperar pelo menos por
mais dois dias. Mas que belo financista você me saiu! O que me causa
tristeza é saber que, apesar disso, você está sempre tão miseravelmente
apertado, já que não consegue deixar de fazer todo o tipo de coisas para
ajudar os outros. Na verdade, eu gostaria que você fosse um pouco mais
egoísta, pelo menos até o seu orçamento ficar mais bem equilibrado.
(THEODORE VAN GOGH, 1888, p. 119).
Já que é certo que o problema do dinheiro não vai desaparecer antes de
uma formidável revolução ou, provavelmente, que uma série de revoluções
se tenham realizado, é necessário tratá-lo como uma doença. Quer dizer,
você deve tomar as precauções necessárias contra acidentes e
complicações que possam resultar dela, mas não há razão para ficar com a
cabeça cheia de preocupações por causa disso. Você vem pensando
demais em dinheiro ultimamente e, embora possa não estar percebendo os
sintomas, está sofrendo por causa deles. Por acidentes, eu quero dizer
miséria e, a fim de evitar chegar a esse ponto, é necessário levar as coisas
com mais calma, não fazer excessos e tentar escapar de outras doenças
tanto quanto for possível. Você passa falando sobre o dinheiro que me deve
e que pretende me devolver. Eu não quero ouvir falar desse assunto. Tudo
o que eu quero é que você não se preocupe com coisa alguma.
(THEODORE VAN GOGH, 1888, p.121).
As citações acima mostram o grande papel organizador que Theo assumiu na
vida de Vincent, apostando no sujeito ali existente. Seria este irmão o responsável
por conter o sofrimento de Vincent a ponto que o mesmo não se desorganizasse?
40
Seria Theo o responsável por manter o pintor na dimensão da realidade? Qual seria
o papel de Theo na vida de Vincent?
Faria (2011) refere-se ao trabalho do analista na clínica da psicose como uma
espécie de “ortopedia imaginária” do eu que se faz necessária “para organizar e dar
contorno ao real delimitando as bordas que separam o eu do não-eu e,
consequentemente, modificando a relação do sujeito com o mundo que o cerca” (p.
137). Tais efeitos só se produziriam em casos que houvesse fragilidade na
organização do sujeito, possivelmente a fragilidade presente em Van Gogh, durante
a maior parte de sua existência, o que o levou a essa dimensão de fracasso tratada
nesse trabalho sob algumas perspectivas.
A expressão, “ortopedia imaginária”, consiste em uma posição que não
pressupõe um saber absoluto, mas sim uma posição que possibilita a escuta e a
criação de novas possibilidades frente à ausência da inscrição do Nome-do-Pai.
(FARIA, 2011). Desta forma, apostar no sujeito é investi-lo de desejo, tirá-lo da
alienação e possibilitar ao mesmo a reinvenção de novas saídas frente ao
impossível.
Antonio Quinet (1997, p. IX) descreve o trabalho do psicanalista na clínica da
psicose como uma introdução, uma aposta no sujeito. Este autor afirma que:
Introduzir o sujeito lá onde está o homem, o cidadão, o mental, o indivíduo,
é fazer com que o paciente, ou seja, aquele que sofre os efeitos da
estrutura, possa desfiar os fios de sua patologia. Tratá-lo como sujeito é
fazê-lo responsável, sujeito de direito – o que se opõe a tratá-lo como objeto
de observação, cuidados. É, pois, uma questão ética.
Theo amava Vincent incondicionalmente, sendo a primeira pessoa a apreciar
suas obras, aquele que de fato acreditou em Van Gogh. Ao estar disposto a apoiálo, Theo organizava-o, assumindo uma postura que resultava em minimizar o
fracasso do irmão e, possivelmente, mantendo-o dentro de um imaginário mais ou
menos organizado. Postura que teve grande importância até mesmo após a morte
do pintor, pois através da mulher de Theo a obra de Vincent e as Cartas a Theo não
caíram no esquecimento e puderam ser organizadas, defendidas, difundidas e
eternizadas, conquistando apreciadores e amantes do artista impressionista em todo
o mundo.
A relação de dependência entre Theo e Vincent era mútua. Theo deu o nome
do irmão ao seu primeiro e único filho, isto se tornou ainda mais evidente e
41
acentuado quando Vincent faleceu. Cartas a Theo e várias biografias publicadas
sobre Van Gogh, deixam claro que Theo perdeu o gosto pelo viver, morrendo
apenas seis meses depois do óbito do pintor. Curiosamente, nem mesmo a morte foi
capaz de separar os irmãos Van Gogh, visto que ambos foram enterrados lado a
lado no cemitério da pequena cidade francesa na qual Vincent faleceu, Auvers-surOise, pouco tempo após o nascimento de um novo Vincent – o filho de Theo.
4.3 DE VAN GOGH A VINCENT: O FRACASSO DO NOME-DO-PAI
Estaria o nascimento de um novo Vincent relacionado à partida de outro?
Será que a chegada de seu sobrinho fez Van Gogh conceber que o seu ciclo deveria
terminar para que outro Vicent assumisse o seu próprio lugar?
Van Gogh foi o quinto Vincent de uma família em que este nome representava
tradição e herança. E foi ele, este quinto Vincent que mudou com a sua própria
história o destino de seus futuros homônimos. Historia a qual teve início antes
mesmo de seu nascimento, antes da morte de seu irmão, também, Vincent, mas
alguns séculos antes a partir do primeiro Vincent.
Antes mesmo que uma criança nasça, fantasias e expectativas são criadas
em torno de como essa criança poderá vir a ser. Em Sobre o Narcisismo: uma
introdução (1914), Freud chama atenção para a atitude dos pais para com os filhos,
afirmando que esta é “uma revivescência e reprodução de seu próprio narcisismo”
(p. 97). Dessa forma, “os pais têm o costume de atribuir todas as perfeições ao filho”
“[...] e de ocultar e esquecer todas as deficiências dele”. O que ela se tornará?
Concretizará os sonhos de seus pais ou aqueles que ela mesma imaginara? Ficará
sujeita ao desejo dos pais?
Na leitura das Cartas a Theo, observa-se que durante a maior parte da vida
de Vincent ele procurou corresponder às expectativas parentais, em uma tentativa,
inconsciente, de reviver o narcisismo de seu pai, o pastor Van Gogh, visto que
durante um período se entregou aos estudos bíblicos e decidiu se tornar um
missionário: “Não estou só, pois Deus está comigo. Quero ser pastor. Pastor como o
meu pai!”. (VAN GOGH, 2002, p.10).
Por meio das Cartas a Theo, constatou-se que após o falecimento do pastor
Van Gogh, Vincent sela a ruptura não só com a sua família, mas também com a
42
Holanda, sua pátria. Em uma de suas Cartas ao irmão ele afirma que a Holanda já
não tinha mais nada a lhe ensinar. Ao passo que estas mudanças aconteciam, ele
trabalhava em um de seus quadros mais conhecidos, Comedores de Batatas e,
ainda concomitante a esses acontecimentos, Vincent revelou a Theo através de uma
carta que naquele momento ele descobrira as cores, a luz e o movimento, definindo
um estilo próprio e inovador de pintar, que iria marcar suas obras e fazer escola:
“Como é correto e verdadeiro. E como é importante poder fazer em sua palheta
essas cores que não sabemos como chamar e que formam a base de tudo”. (VAN
GOGH, 2002, p.140).
Por meio de seus quadros e das Cartas a Theo, observou-se que Van Gogh
assinava simplesmente como Vincent e, não, Van Gogh. O que é paradoxalmente
estranho, visto que Van Gogh era um sobrenome de prestígio no universo e
comércio das artes. O que existiu por trás da não assinatura de seu sobrenome
paterno? O que Vincent afirmava ou não afirmava ao assinar o seu nome próprio em
vez de seu tradicional e conhecido sobrenome: Van Gogh? Existiu nessa assinatura
uma recusa ao sobrenome paterno? Isso pode ser lido como uma exclusão
(forclusão) do Nome-do-Pai e do pai do nome?
A análise desta pesquisa teve base na teoria psicanalítica, o que levou a
pesquisadora a ler sobre um dos mais importantes escritos de Lacan no qual foi
encontrado o conceito Nome-do-Pai, conceito chave e fundamental para o
entendimento da teoria psicanalítica. O Nome-do-Pai é um conceito proposto por
Lacan a partir de seu trabalho sobre a psicose, mais precisamente: D'une question
préliminaire à tout traitement possible de la psychose. Este conceito diz respeito à
função paterna, função que opera como uma metáfora substituinte de um
significante. Neste caso, o significante a ser substituído é o desejo da criança pela
própria mãe, substituído pelo Nome-do-Pai, “como representante de um desejo
materno, outro, que não o voltado para a própria criança”. (VANIER, 2005, p.67). E,
ainda, como define Chemama (1995, p.148):
Produto da metáfora paterna que, designando primeiramente o que a
religião nos ensinou a evocar, atribui a função paterna ao efeito simbólico
de um puro significante e que, em um segundo momento, designa aquilo
que rege toda a dinâmica subjetiva, ao inscrever o desejo no registro da
dívida simbólica. O pai é uma verdade sagrada, da qual, no entanto, nada,
na realidade vivida, indica a função, nem a dominância, pois continua sendo
em primeiro lugar, uma verdade inconsciente.
43
O entrar em contato com este conceito lacaniano trouxe à pesquisadora uma
inquietação, pois ao dar-se conta que Van Gogh adotou Vincent como assinatura,
pôs-se a pensar que aí está posta a forclusão, o fracasso do Nome-do-Pai.
A forclusão é um conceito essencial para se entender o mecanismo psíquico
que origina a estrutura da psicose e seus fenômenos elementares. Para a
psicanálise, a forclusão corresponde à falta de inscrição, no inconsciente, da
castração. Esta experiência é crucial, visto que à medida que é simbolizada,
possibilita a criança assumir seu próprio sexo e a reconhecer seus limites. Dessa
forma, a falta dessa simbolização no sujeito psicótico, produzirá uma incerteza em
relação a sua identificação sexual, além de uma perda no sentido da realidade.
(NASIO, 1995).
De acordo com este autor, a forclusão é um termo jurídico, proposto por
Lacan para traduzir a palavra alemã Verwerfung. Palavra esta que nas versões
francesas da obra de Freud era transcrito por rejet, cujo significado é rejeição,
repúdio. Ou seja, a forclusão corresponde a um conceito introduzido na teoria
psicanalítica por Jacques Lacan para designar um “mecanismo específico que
estaria na origem do fato psicótico; consistiria numa rejeição primordial de um
‘significante’ fundamental”, como por exemplo, “o falo enquanto significante do
complexo de castração) para fora do universo simbólico do sujeito”. (LAPLANCHE E
PONTALIS, 1994, p. 194-195).
A forclusão ou foraclusão, como também o termo pode ser encontrado, é
definida por Nasio (1995, p.149) como “uma construção teórica que procura explicar
o mecanismo psíquico na origem da psicose [...] é o nome que a psicanálise dá à
falta de inscrição, no inconsciente, da experiência normativa da castração”.
Para entender a forclusão do Nome-do-Pai, é necessário que se fale em
algumas condições: em primeiro lugar, o significante Nome-do-Pai indica a função
paterna tal como é internalizada e assumida pela criança - é qualquer expressão
simbólica produzida pela mãe ou pelo filho, que represente a terceira instância,
paterna, a lei da proibição do incesto. Portanto, para situar o significante Nome-doPai é preciso verificar como a mãe situa-se em relação à lei simbólica da proibição,
ou como o filho integrou em si essa proibição. (NASIO, 1995).
Em segundo lugar, o autor expõe que “o Nome-do-Pai, entendido como
expressão do desejo da mãe ou do desejo do filho, é qualificado por Lacan de
44
metáfora paterna, ou seja, metáfora do desejo da criança perpassada pelo desejo da
mãe”. (NASIO, 1995, p. 158).
Por fim, Nasio (1995) coloca que o Nome-do-Pai não é algo objetivo, que
possa se nomear ou localizar, mas qualquer significante que venha ocupar o lugar
da metáfora do desejo da criança ou do desejo materno, como por exemplo, um
sintoma, um gesto, uma palavra, etc., que representa uma expressão singular do
desejo.
Ainda de acordo o mesmo autor (1995), para se compreender o conceito
lacaniano de forclusão, é necessário saber o que define o Nome-do-Pai. Neste caso,
este significante será sempre uma resposta renovada a um apelo feito por um outro,
e uma referência a esse terceiro que é o pai. É justamente com esse terceiro que
Vincent rompe. É o pai que fica excluído na (não) inscrição da lei.
Lacan deu ênfase ao problema fundamental da psicose, a forclusão do Nomedo-Pai no lugar do outro, tal como afirma Quinet (1997, p.30):
O Nome-do-Pai não se acha aí, há um buraco na ordem simbólica do sujeito
psicótico. O fenômeno psicótico é o efeito da emergência na realidade de
um chamado a uma significação à qual o suejito não pode responder na
medida em que esta jamais fez parte da sua estrutura.
Diante do exposto até o momento, pode-se afirmar que Van Gogh ao assinar
o seu nome próprio, estaria legitimando sua psicose? Estaria Vincent em um
momento de surto psicótico no episódio no qual decepa um pedaço de sua orelha e
o entrega a uma prostituta? O que estava acontecendo naquele momento que
contribuiu para que o pintor se desorganizasse a ponto de cortar um pedaço do seu
corpo? Por que cortar um pedaço da orelha?
Em
sua
mais
recente
entrada
no
hospital
psiquiátrico
Van
Gogh
impressionou-se com as reações de outros internos, ouvindo sons e vozes
assustadores. Teria ele, em um momento de surto, concluído que o problema estava
em seus órgãos auditivos e desta forma resolveu silenciá-los? De forma concreta, ao
pé-da-letra, sem metáforas, ele teria cortado a orelha como forma de cortas as
vozes? Estaria operando no real, um silêncio (ausência/falta) que fracassou no
simbólico? As perguntas seguirão sem respostas, mas problematizá-las, questionálas, pode ser uma forma de avançar frente aos fracassos.
45
Na última carta a Theo antes do fatídico episódio da orelha, Vincent escreveu:
“um aperto de mão, tenho de voltar novamente ao hospital, mas dentro em pouco
sairei de vez. Sempre seu, Vincent. Escreva também uma palavra de minha parte à
mãe: que ninguém se inquiete” (VAN GOGH, 2002, p.308) e, ainda: “mas sem
brincadeira, o medo da loucura diminui consideravelmente ao ver de perto as
pessoas por ela afetadas, como eu facilmente poderia ficar a seguir”. (VAN GOGH,
2002, p.362).
Por fim, neste último trecho, Van Gogh parece restabelecer um contato com a
realidade, reorganizando seu imaginário através da escrita para o irmão Theo. Nesta
escrita ele coloca a sua loucura em significantes endereçados a este Theo (Teo) que
sempre apostou que ali poderia haver um sujeito, um brilhante pintor. A aposta de
Theo sobre Vincent e a escrita deste destinada a Theo pode ter operado de modo
significativo
para
que
essa
“loucura”
ganhasse
um
terreno
simbólico,
representacional, e isso diminuísse, ainda que de forma precária e em partes, o
fracasso do Nome-do-Pai, fazendo certo controle da psicose de Vincent.
46
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Essa pesquisa teve como objetivo geral analisar as dimensões do fracasso na
obra Cartas a Theo de Vincent Van Gogh à luz da teoria psicanalítica. Acredita-se
que a realização deste trabalho cumpriu com o objetivo geral e os objetivos
específicos nos quais a pesquisa se propôs: identificar passagens que remetem ao
fracasso; investigar a importância do fracasso e relacionar o fracasso nas Cartas
com a teoria psicanalítica.
Durante o processo de análise desta pesquisa, percebeu-se a dificuldade do
pintor em assumir o seu sobrenome de família, visto que o mesmo assinava em suas
Cartas a Theo e em seus quadros, apenas seu primeiro nome – Vincent. Esta não
assunção deste sobrenome de família foi problematizada e discutida a partir do
conceito lacaniano Nome-do-Pai.
A temática do nome próprio envolveu questões relacionadas à herança
familiar, sendo esta diretamente relacionada ao narcisismo parental e às
expectativas criadas pelos pais em relação aos filhos. Envolveu, ainda, reflexões
acerca do lugar que Van Gogh ocupava em sua família e, até mesmo, em sua vida,
visto que um ano antes do nascimento do pintor a família Van Gogh passou por uma
grande perda – a morte de um filho, com seis meses de vida, também chamado
Vincent.
No final da análise destacou-se a intensa relação que existiu entre Van Gogh
e seu irmão Theo, a quem o artista endereçou as cartas que constituíram a obra que
serviu de base para esta pesquisa. À análise da relação dos irmãos Van Gogh, foi
atribuído o conceito lacaniano de forclusão – imprescindível para o entendimento da
constituição da estrutura de personalidade psicótica –, visto que em diversos
momentos da vida de Vincent, Theo desempenhou um papel fundamental e
organizador, sendo este capaz de proporcionar ao irmão não só a realização de um
grande desejo – pintar –, mas o ajuste de sua própria psicose.
Esse olhar da psicanálise sobre as dimensões do fracasso presentes em cada
ponto escolhido para análise desta pesquisa justificou a mesma, uma vez que não
foi encontrado em livros, artigos e pesquisas anteriores, através das consultas às
bases de dados, estudos que especificassem a relação entre Van Gogh e o
fracasso. Além disso, buscou-se acrescentar conteúdo teórico e contribuições a
partir das reflexões aqui apresentadas, aos profissionais atuantes na clínica
47
psicanalítica. Espera-se, ainda, que este estudo possa contribuir de algum modo,
com os apreciadores deste artista mundialmente conhecido e em futuros estudos.
Durante a realização desta pesquisa, verificou-se que outros aspectos
envolvendo Van Gogh, a teoria psicanalítica e, mesmo o fracasso, poderiam ser
enfatizados em futuros trabalhos. No entanto, como em toda pesquisa, existem
certas generalidades e hipóteses que conduziram a pesquisadora a particularizar
alguns pontos para este trabalho de conclusão de curso.
Dessa forma, compreende-se a necessidade de novas pesquisas que
abordem novos temas e reflexões. Uma interessante problematização relacionada a
Van Gogh seria o porquê do mesmo durante sua breve vida pintar incontáveis autoretratos. Sabe-se que um auto-retrato tem relação com a imagem que o sujeito tem
de si mesmo. Ao criar esses auto-retratos, do que estaria o pintor tentando se
autorretratar? Estaria o artista, através da arte, na tentativa de reconstituir sua
própria imagem corporal?
Outra interessante pesquisa a ser realizada com relação a Van Gogh seria a
relação existe entre a vida e a obra do pintor. Estariam as cores utilizadas em seus
quadros diretamente relacionadas a evolução de suas crises?
Em relação às facilidades e dificuldades encontradas para a realização desta
pesquisa, é importante ressaltar, que o senso de escolha para os pontos analisados
baseou-se sempre na tentativa de “dar conta” dos mesmos e, à medida que a
pesquisa avançou e foram sendo escolhidos estes importantes pontos para reflexão
e análise, muito aprendizado foi proporcionado à pesquisadora, uma vez que novas
percepções e conceitos foram apreendidos por meio das leituras realizadas. Nesse
sentido, acredita-se que esta pesquisa não alcançou somente os objetivos
propostos, pois, além disso, favoreceu novas interpretações, experiências e
conquistas.
48
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1 INTRODUÇÃO