Concurso Nacional de Inovação BES Oito anos a distinguir os melhores em I&D Esta revista faz parte integrante do Diário Económico n.º 5518 SETEMBRO 2012 Foto: ©Digital Art/Corbis/VMI INESC PORTO Uma referência na relação universidade-indústria WS ENERGIA Energia solar “a dobrar” em Portugal e no mundo 4 8 10 12 14 Concurso Nacional de Inovação BES O Concurso Nacional de Inovação BES afirmou-se como um marco da agenda da inovação em Portugal. Distinguiu 38 projectos nos diversos sectores a concurso. Muitos são embaixadores da excelência nacional além-fronteiras. Entrevista José Mendonça, presidente do INESC Porto, explica de que forma a instituição se está a internacionalizar e comenta os motivos que fazem dela uma referência no modelo de relacionamento universidade-indústria. Curso para empreendedores O Programa Avançado de Gestão e Inovação para Empreendedores vai iniciar a sua segunda edição. Recordamos os factores que lhe deram origem e apresentamos os casos de sucesso da primeira edição. WS Energia Desenvolveu uma solução que veio revolucionar a produção de energia solar fotovoltaica. O investimento em I&D tem permitido à empresa desenvolver novos produtos e elevar o seu posicionamento à escala internacional. Insulina oral A equipa da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra tem vindo a introduzir desenvolvimentos à nova formulação de insulina oral. O próximo passo: procura de um parceiro para a fase de ensaios clínicos. Fotos: Bernardo S. Lobo CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES O CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES AFIRMOU-SE COMO UM MARCO DA AGENDA DA INOVAÇÃO EM PORTUGAL. DISTINGUIU 38 PROJECTOS NOS DIVERSOS SECTORES A CONCURSO. MUITOS SÃO EMBAIXADORES DA EXCELÊNCIA NACIONAL ALÉM-FRONTEIRAS. Os números falam por si. A iniciativa promovida pelo Banco Espírito Santo já envolveu, em sete edições, 1226 projectos concorrentes, 38 premiados – com a generalidade a traduzir-se em projectos concretos – e 2,405 milhões de euros em prémios. A oitava edição, que decorre este ano, encerrou a fase de candidaturas em Junho passado, sendo que os projectos vencedores deverão ser anunciados até ao final de 2012. A projecção e mobilização conquistada pelo Concurso Nacional de Inovação BES – uma iniciativa formulada para premiar e promover uma cultura orientada para a inovação – está também patente no crescente número de parceiros que a ele se associam. Entre instituições de ensino de todo o país, passando por empresas e parques tecnológicos, associações, fundações e outras entidades representativas do meio académico e empresarial português, ascendiam a 22 o número de parceiros envolvidos na última edição do concurso. O Concurso Nacional de Inovação BES tem como objectivos premiar a excelência na investigação, contribuir para uma economia mais competitiva e promover uma cultura empresarial orientada para a inovação. Em última instância, a iniciava representa também um contributo para o desígnio de aumentar as exportações nacionais. Muitas são também as entidades públicas e privadas que se têm feito representar nas cerimónias de entrega de prémios realizadas ao longo dos últimos anos, numa mostra de inequívoco apoio à iniciativa. Destaca-se a presença do Presidente da República, Aníbal Cavaco Silva, no culminar da sexta edição, em 2010, ano em que se registou o maior número de candidaturas de sempre. O Presidente da República destacou o “sucesso” da iniciativa, “comprovado pelo número crescente de candidaturas, pelo prestígio das instituições associadas e, sobretudo, pelos resultados obtidos no plano do impacto económico da inovação tecnológica”. Na ocasião, destacou ainda a “fórmula” do concurso, ao ter por base uma “filosofia que importa difundir na cultura de inovação nacional”, por “pri- vilegiar como critério mais importante na avaliação de um projecto o impacto potencial dos seus resultados na competitividade empresarial, em sectores com maiores potencialidades de crescimento global”. Na última cerimónia de entrega de prémios, realizada em 2011, Carlos Nuno Oliveira, Secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação, destacou também o “trabalho de promoção da inovação e competitividade” que o BES tem levado a cabo ao longo dos anos, “não só com o prémio, mas também com modelos de financiamento”. Lembrando que o empreendedorismo, a inovação e a sua valorização representam a solução para a crise, na medida em que permitem aumentar a competitividade e mudar o paradigma da economia portuguesa, o Secretário de Estado classificou a iniciativa como “um importante estímulo” nesse sentido. Em sete edições, muitos foram os investigadores e os projectos que passaram pelo Concurso Nacional de Inovação BES. Em 2011, foi da área de Clean Tech que saiu o grande vencedor. MECÂNICA DO CONCURSO Dirigido a pequenas e microempresas, investigadores e inventores independentes, o concurso tem como principais factores de diferenciação, face a outras iniciativas em Portugal, a existência de categorias sectoriais, implicando uma aplicação concreta a um sector empresarial, a que se soma um alargado leque de parcerias e a elevada representatividade do meio científico português. As candidaturas são sujeitas a um processo de avaliação e selecção que envolve critérios como a excelência científica, o carácter inovador do projecto, o impacto potencial dos resultados na competitividade empresarial e a credibilidade da empresa, instituição de I&D, ou inventor. A estrutura de prémios reflecte a visão aprofundada da inovação que o concurso pretende transmitir, ao envolver 25 mil euros em dinheiro, financiamento de patente no valor de dez mil euros e business plan no valor de 25 mil euros, a que acresce um prémio pecuniário complementar de 25 mil euros para o grande vencedor absoluto. No total, o concurso envolveu em cada edição 325 mil euros em prémios. Impulsionar a inovação Convidado de honra. Na edição de 2010, o Presidente da República entregou o prémio de grande vencedor ao investigador João Mano. ROAD SHOWS DE INOVAÇÃO O Banco Espírito Santo promove anualmente um conjunto de Road Shows de Inovação em cidades fora dos grandes centros urbanos. Estes eventos têm como objectivo divulgar casos de inovação e de investimento em inovação por parte de universidades e parques de incubadoras, bem como casos de internacionalização e exportação. Carlos Nuno Oliveira, Secretário de Estado do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação APOIO TRANSVERSAL À INOVAÇÃO O apoio do BES ao empreendedorismo e à inovação materializa-se também através da actividade da Espírito Santo Ventures, a capital de risco do Grupo, que soma já investimentos na ordem dos 238 milhões de euros. CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES EM NÚMEROS 7 edições • 1226 projectos concorrentes • 38 prémios • 2,405 milhões de euros em prémios • António Murta, Managing Director da Pathena, Sociedade de Investimentos O valor de prémios já atribuído representa uma inegável aposta no desenvolvimento de novas tecnologias de elevada qualidade e de grande potencial. ANÍBAL CAVACO SILVA | Presidente da República É fundamental dar visibilidade ao que de melhor se faz no país e estas iniciativas são essenciais para isso. do Empreendedorismo, Competitividade e Inovação O Concurso Nacional de Inovação BES marca a realidade portuguesa dos últimos anos e muito bem. ANTÓNIO MURTA | Managing Director da Pathena, Sociedade de Investimentos 5 em Portugal SET 12 CARLOS NUNO OLIVEIRA | Secretário de Estado Neves António CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES Na mesa do Júri. A cada edição do concurso, a selecção dos projectos vencedores fica a cargo de quem melhor conhece o meio científico, académico e empresarial nacional. Palavras de quem elege os melhores 6 SET 12 O IMPACTO DO CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES ESTÁ PATENTE NO CRESCENTE E ALARGADO LEQUE DE REPRESENTANTES MÁXIMOS DO MEIO CIENTÍFICO, ACADÉMICO E EMPRESARIAL PORTUGUÊS QUE, A CADA EDIÇÃO, SE ASSOCIA À INICIATIVA. O TESTEMUNHO DE QUEM ELEGE OS MELHORES. Instituições de ensino de Norte a Sul do país, empresas, parques tecnológicos, associações, fundações e outras entidades representativas do meio académico e empresarial português. São os parceiros do Concurso Nacional de Inovação BES que integram o Júri responsável por eleger, a cada edição, os melhores projectos em cada sector e o grande vencedor absoluto do concurso. Os seus testemunhos não deixam margem para dúvida: o concurso que o Banco Espírito Santo promove há oito anos consecutivos é uma iniciativa meritória no actual contexto económico e social. Manuel Barata Marques, director da Faculdade de Engenharia da Universidade Católica, recorda a “elevada qualidade científica” dos projectos apresentados na última edição, bem com “a capacidade de inovação e o sentido empreendedor dos concorrentes”. O concurso tem também demonstrado que vai ficando para trás o tempo em que as universidades produziam inovação que não chegava aos mercados. Os projectos premiados apresentam, “a par de uma elevada componente tecnológica”, um “elevado potencial para a criação de um negócio sustentável”, comenta, por seu lado, Flávio Martins, vice-reitor da Universidade do Algarve, que considera este tipo de iniciativas “vitais” no sentido da promoção de um clima de empreendedorismo baseado na transferência tecnológica. Opinião partilhada por Gualter Couto, director do Centro de Empreendedorismo da Universidade dos Açores, para quem o Concurso Nacional de Inovação BES tem o mérito de ajudar a implementar “novas ideias e negócios”, atitudes que devem ser “cada vez mais incentivadas”. Um “estímulo exemplar à cooperação universidade-empresa e à valorização económica do conhecimento”. É assim que Carlos de Pascoal Neto, vice-reitor da Universidade de Aveiro, classifica o Concurso Nacional de Inovação BES, uma opinião partilhada por Fernando Neves dos Santos, vice-presidente do Instituto Politécnico da Guarda, que considera a iniciativa “muito assertiva para motivar atitudes de inovação na sociedade portuguesa” e um “investimento altruísta no empreendedorismo associado à inovação e à ciência”. O Concurso Nacional de Inovação BES funciona também como uma montra que permite “dar visibilidade a alguns trabalhos de excelente qualidade de I&D realizados em Portugal”, considera Manuel d’Orey Cancela d’Abreu, vice-reitor da Universidade de Évora, que integrou também o Júri da última edição do concurso. A mesma consideração é tecida por José Mendes, vice-reitor da Universidade do Minho, que recorda “um conjunto muito interessante de propostas, reveladoras do espírito inventivo que reside no país”, e reforçada por Carlos Manuel Leitão Maia, presidente do Instituto Politécnico de Castelo Branco, que destaca a “consistência, solidez científica e indispensável inovação” de alguns projectos. Apesar do contexto difícil que Portugal e a Europa atravessam, “a receita básica do sucesso ainda não mudou: trabalho, criatividade, inovação, foco no cliente”, recorda, por seu lado, Pedro Carvalho, administrador da Lena Inovação. E nesse contexto “de crise social e económica”, a iniciativa traz também uma palavra de esperança, ao assumir “um papel decisivo na promoção do empreendedorismo e da ligação empresas/universidades”, afirma António Tavares, CEO do Tecmaia. O Concurso Nacional de Inovação BES não só premeia e revela o que de mais inovador se vai fazendo em Portugal, como contribui para que “alguns destes projectos possam mesmo vir a transformar-se em empresas de elevado crescimento”, salienta João Trigo da Roza, presidente da Associação Portuguesa de Business Angels (APBA). Em causa está, de acordo com Pedro Vilarinho, director da Área de Valorização de Conhecimento da COTEC Portugal, “a mais importante competição realizada no nosso país com impacto no fomento do empreendedorismo”. E a sua continuidade apresenta-se como “um factor positivo e motivador nestes tempos, agora ditos de ‘emergência nacional’”, conclui Emídio Gomes, pró-reitor da Universidade do Porto. REVOLUÇÃO NO TINGIMENTO TÊXTIL A Ecoticket foi a grande vencedora da última edição do Concurso Nacional de Inovação BES. A empresa resultou de um spin-off da Universidade do Minho e é responsável pelo desenvolvimento da Nanocor, uma tecnologia à base de nanopartículas de sílica que vem revolucionar o tingimento têxtil. A Nanocor permite tingir fibras celulósicas como o algodão, mantendo a sua cor durante mais tempo, sem a problemática ambiental associada aos corantes tradicionais. Com recurso à nova tecnologia, basta apenas um enxaguamento para eliminar o corante excedentário que não está fixo às fibras – o que representa uma poupança de água na ordem dos 70% face aos corantes reactivos –, não sendo necessário o sal utilizado no processo de tingimento convencional. A equipa liderada por Jaime Rocha Gomes, professor da Universidade do Minho, veio provar que se pode inovar num sector tradicional, tornando-o mais competitivo, sem virar costas ao ambiente. 5.ª EDIÇÃO | NOVOS MATERIAIS E PROCESSOS INDUSTRIAIS SOLUÇÃO PARA TORRES EÓLICAS Bernardo S. Lobo Bruno Barbosa 7.ª EDIÇÃO | CLEAN TECH Carlos Chastre Rodrigues e Válter Lúcio, doutorados em Engenharia Civil e professores da Universidade Nova de Lisboa, aplicaram o know-how na área da pré-fabricação em betão ao desenvolvimento de uma nova solução para torres eólicas e postes de grande dimensão. Trata-se de uma solução de torre assente em diversos pilares, em vez de um único fuste, que se montam por fases, tipo lego, tornando a estrutura mais ligeira, económica e fácil de transportar. O sistema estrutural treliçado traduz-se ainda numa grande liberdade de escolha da geometria da torre, no sentido da sua optimização, tanto ao nível da resistência, como do controlo da sua oscilação natural. Ao permitir ter torres mais altas, com maior dimensão das pás, a nova solução implica menos estruturas para atingir a capacidade pretendida de captação de energia num parque eólico. Algumas faces da inovação 4.ª EDIÇÃO | ENERGIA TRANSPLANTES DE FÍGADO SEM RISCO DE REJEIÇÃO PILHA QUE SE IMPRIME NAS EMBALAGENS A investigação levada a cabo por Luís Graça e Marta Monteiro, investigadores do Instituto de Medicina Molecular, e David Cristina, investigador do Instituto Gulbenkian de Ciência, vem responder ao problema da rejeição dos transplantes de fígado, que obriga os pacientes à toma contínua de imunossupressores, que baixam os sistemas de defesa do organismo, conduzindo ao surgimento de outras doenças e infecções. Em causa está a descoberta de um novo tipo de células do sistema imune – ACE-1 – que em vez de atacarem os agentes externos, lhes induzem tolerância, de forma localizada, ao nível do fígado, e não em todo o organismo, como acontece com os imunosupressores actuais. Estas células não só impedem a rejeição do órgão transplantado, como dispensam a toma de drogas imunossupressoras, evitando assim os efeitos adversos a elas associados. Imagine que entra no supermercado, pega num pacote de leite e a embalagem lhe diz por onde andou, a que temperaturas esteve exposta e se continua própria para consumo. Este é o campo de aplicação das pilhas em gel ultra-flexíveis, desenvolvidas por Tânia Carvalho (FCT-UNL), Susana Barreiros (FCT-UNL), Pedro Vidinha (FCT-UNL), Nuno Lourenço (IST-UTL), Luís Fonseca, (IST-UTL), Carlos Afonso (IST-UTL), Emilie Gaudet (MBA Católica/Nova) e João Nascimento (MBA Católica/Nova). A equipa é responsável pelo ION JELLY®, um electrólito (um dos três componentes das pilhas) por excelência, que é tão bom condutor como os outros, mas mais fácil e mais barato de produzir, além de ser flexível e biodegradável. O ION JELLY® permite o desenvolvimento de pilhas em gel ultra-finas, que podem ser impressas em superfícies como metal, plástico, vidro e até papel. O desenvolvimento de um electrólito que se consegue imprimir representa, de resto, a grande inovação deste projecto. SET 12 6.ª EDIÇÃO | TECNOLOGIAS DA SAÚDE 7 Bernardo S. Lobo Bernardo S. Lobo O CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES DISTINGUIU 38 PROJECTOS, DISTRIBUÍDOS PELOS DIVERSOS SECTORES A CONCURSO EM CADA UMA DAS SETE EDIÇÕES. RELEMBRAMOS AS FACES E A TÓNICA DE ALGUNS DOS EXPOENTES MÁXIMOS DA INOVAÇÃO EM PORTUGAL. ENTREVISTA A JOSÉ MENDONÇA | Presidente do INESC Porto “Não há produção de ciência de qualidade que não seja num quadro internacional” O INESC PORTO TEM-SE AFIRMADO INTERNACIONALMENTE, CONTANDO JÁ COM UMA REPRESENTAÇÃO EM TERRAS DE VERA CRUZ, ATRAVÉS DO INESC P&D BRASIL. Está na presidência do INESC Porto desde 2005. Quais os maiores desafios com que se tem deparado ao longo destes anos, face às funções que desempenhou anteriormente Ao competir internacionalmente fazendo ciência, o nosso compromisso é ter sempre presente a relevância social e o potencial impacto económico dos resultados dos projectos de investigação. É crucial dar sentido de utilidade, de aplicação, ao que fazemos, para devolver à sociedade aquilo que ela investe na ciência. O posicionamento de charneira, como instrumento da Universidade e do Po- 8 SET 12 ‘ competição internacional. Mas, a jusante das actividades de I&D, sempre desenvolvemos projectos de investigação aplicada e de transferência de tecnologia, em parceria com empresas e outras instituições que pretendiam absorver conhecimento avançado para inovar nos seus produtos, processos, serviços ou modelos de negócio. Desenvolvemos já projectos de I&D por contrato com muitas das melhores empresas nacionais, em áreas como a energia, telecomunicações, indústria transformadora, sistemas de informação, saúde, automação, transportes, para além de autarquias, co- O INESC Porto lançou, nos últimos dez anos, dez empresas spin-off de base tecnológica que são, inevitavelmente, “born globals”, isto é, orientadas, desde o instante em que nascem, para competir nos mercados internacionais. litécnico do Porto na sua “terceira missão”, traz-nos um mundo de desafios e oportunidades, mas exige trabalho, criatividade e até sentido de risco, porque é necessário criar novos trilhos onde eles não existem. Não tenho dúvida que esta é a responsabilidade mais pesada e difícil que assumi em toda a minha carreira, mas também aquela que mais excitação e recompensa pessoal me trouxe, pelo facto de ser evidente o impacto do que fazemos e a nossa capacidade em contribuir para transformar o tecido social e económico do país. Quando tomou posse, apontou como um dos objectivos “o reforço da vertente de internacionalização do INESC Porto”. Onde localiza as principais oportunidades de internacionalização, quer para o Instituto, quer para as empresas dos sectores em que actua? Não há produção de ciência de qualidade que não seja num quadro de missões de coordenação, hospitais e muitas outras instituições. Os resultados obtidos e a experiência adquirida em projectos com instituições de I&D e empresas europeias abriram entretanto caminho para a prestação de serviços de I&D e consultoria avançada de âmbito internacional, em diversos países europeus e ainda no Brasil, Estados Unidos e outros. No Brasil, desenvolveram-se parcerias contratuais e institucionais com as melhores universidades e com empresas importantes nas áreas da energia, robótica submarina e indústria. Isto criou condições para avançar para a constituição, em parceria com universidades de referência, do INESC P&D Brasil (de Pesquisa e Desenvolvimento), alavancando o nosso processo de internacionalização. O INESC Porto instituiu-se como um modelo de referência na forma de relação universidade-indústria. Quais os principais factores que contribuíram para esse posicionamento? Desde logo, a missão e o posicionamento já referidos e o facto de a instituição acolher actividades que integram a cadeia de valor completa. Além disso, as equipas de projecto incluem investigadores e engenheiros contratados, sendo a gestão entregue a seniores com muita experiência na área científica e no sector de aplicação. Um projecto de investigação por contrato, sem deixar de ser uma actividade sofisticada e de risco, implica entrega de soluções concretas, respondendo a especificações funcionais, prazos e custos bem parametrizados. Finalmente, no nosso modelo organizacional e de governação, os recursos são organizados em Unidades com dimensão e massa crítica, que agregam competências em áreas científicas complementares. Isto facilita a constituição de equipas de projecto multidisciplinares, requisito fundamental para abordar os problemas complexos do mundo real. Em 2005, o INESC Porto tinha também no horizonte “a aposta em novas áreas do saber e na sua aplicação tecnológica”. Pode concretizar algumas das apostas entretanto realizadas? O objectivo era apostar em novas áreas do saber que pudessem vir a ser importantes na resolução de grandes desafios das sociedades no futuro. Exemplos de apostas com sucesso encontram-se em diferentes áreas – micro-redes de energia, robôs para inspecção ambiental ou vigilância, dispositivos médicos de auxílio ao diagnóstico ou sistemas de optimização da produção industrial –, em resultado de competências avançadas em ciências da computação, novos materiais sensores, algoritmos de decisão, etc. Entre as áreas de competência do INESC Porto, quais se revelam mais prometedoras e estratégicas para José Mendonça, presidente do INESC Porto Bruno Barbosa O empreendedorismo é apontado como uma das soluções para os crescentes níveis de desemprego e o INESC Porto tem também objectivos relacionados com o empreendedorismo de base tecnológica. Pode sintetizar o contributo da instituição a esse nível? Nos casos em que emergem das actividades de investigação resultados relevantes e com potencial de utilização, mas não há no mercado empresas interessadas em fazer a adopção dessa tecnologia e a sua valorização económica, a alternativa é desenvolver um O que ambiciona conquistar para o INESC Porto ainda no âmbito da sua presidência? A consolidação, após duplicar de dimensão em cinco anos. Consolidação do novo modelo de governação do Laboratório Associado que coordenamos, o INESC TEC, com mais de 600 investigadores, e que se alarga à Universidade do Minho e à UTAD, e consolidação do processo de internacionalização, crucial para assegurar a sustentabilidade futura da instituição. E ainda a ambição da cabal demonstração, através do exemplo, de que o papel das instituições é crucial para potenciar o valor das pessoas. Os reais avanços da ciência, e sobretudo a valorização do conhecimento e a sua transferência, exigem estratégia, sustentabilidade, investimento, massas críticas, multidisciplinaridade, gestão e domínio da cadeia de valor. E isso só é possível com instituições sólidas, ágeis e inquietas, que, emanando da universidade, a ajudem a realizar o enorme potencial de que dispõem em favor da sociedade. SOBRE O CONCURSO JOSÉ MENDONÇA ATESTA, DESTE MODO, A IMPORTÂNCIA DE INICIATIVAS COMO O CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES: “É difícil encontrar muitos exemplos genuínos de inovação com relevante impacto social e económico no nosso país. Continua, pois, a ser muito importante fazer um marketing alargado da inovação como condição obrigatória para uma empresa ser competitiva pela diferenciação. O Concurso Nacional de Inovação BES faz isso muito bem, nomeadamente através da parceria que tem com a TSF. Por outro lado, o capital semente é escasso em Portugal. E o concurso responde a isso: além da distinção e do reconhecimento público, a componente financeira do prémio transforma-se num precioso capital semente, oferecido praticamente sem burocracia. Há mais prémios do mesmo tipo e são todos bem-vindos, mas estas duas razões tornam esta iniciativa única em Portugal.” SET 12 Como vê o futuro da indústria nacional, no contexto de dificuldade económica que o país atravessa. A indústria tradicional tem condições para implementar as transformações necessárias para crescer? As empresas que produzem bens e serviços transaccionáveis para o mercado internacional podem ter um papel de relevo nos seus sectores e nichos de mercado, alavancando sobre as suas capacidades e competências. Para isso, terão de inovar, seguindo de perto – ou mesmo antecipando-se – às tendências dos mercados. Para muitas, “o futuro já começou”. Já construíram novos modelos de negócio, incorporaram tecnologia, alargaram as cadeias de valor por forma a incluirem o design (a montante) e a distribuição (a jusante), e consolidaram as redes internacionais de clientes e fornecedores. Aquelas que não o fizeram, podem não ir a tempo de o fazer. Terão de dar o lugar a outras mais jovens, pujantes e criativas. novo negócio em torno de uma visão de transformação da tecnologia em novas ofertas de valor para o mercado. O INESC Porto lançou, nos últimos dez anos, dez empresas spin-off de base tecnológica em áreas como a energia, sistemas de monitorização estrutural, dispositivos médicos, multimédia, etc., que são, inevitavelmente, “born globals”, isto é, orientadas, desde o instante em que nascem, para competir nos mercados internacionais. 9 Portugal, no sentido de o país se poder afirmar como um player de referência? A da energia, em especial das energias renováveis, redes eléctricas inteligentes e mobilidade eléctrica. Com os nossos recursos naturais, competências tecnológicas e capacidade industrial instalada na área seria um enorme disparate desperdiçar uma oportunidade única. Estou a falar em vantagens económicas, sociais e ambientais, no curto-médio prazo. Não é “wishful thinking”; é no superior interesse do país. A da indústria transformadora com capacidade de competição internacional, desde moldes a componentes para automóvel, vestuário e calçado de design, máquinas e até software e produtos tecnológicos em nichos. Tudo bens transaccionáveis que conseguem aumentar as exportações, contribuindo para o equilíbrio da nossa balança. A cadeia de valor tem-se alargado e, à capacidade de fabricar bem e de forma competitiva, juntaram-se o design e a engenharia. Finalmente, o mar, como área de enorme potencial. Apesar da dimensão da nossa zona económica exclusiva e do potencial científico em muitas áreas, desde a biologia marinha à piscicultura, ou à robótica submarina, etc., está quase tudo por fazer em termos de rentabilização económica. PROGRAMA AVANÇADO DE GESTÃO E INOVAÇÃO PARA EMPREENDEDORES Primeira edição com balanço positivo O PROGRAMA AVANÇADO DE GESTÃO E INOVAÇÃO PARA EMPREENDEDORES VAI INICIAR A SUA SEGUNDA EDIÇÃO. RECORDAMOS OS FACTORES QUE LHE DERAM ORIGEM E APRESENTAMOS OS CASOS DE SUCESSO DA PRIMEIRA EDIÇÃO. contar com alguém que os ajudasse a “ultrapassar as dificuldades de gestão” e consideravam a ideia de um curso de pós-graduação “fantástica”, desde que as aulas fossem dadas por alguém que entendesse a sua linguagem. Foram estes os principais factores que motivaram o lançamento, em 2011, do Programa Avançado de Gestão e Inovação para Empreendedores, um curso criado para responder às carências expressas pelos empreendedores, proporcionando-lhes conhecimentos básicos para lançar e desenvolver o negócio e aumentar a taxa de su- 10 SET 12 No âmbito da estratégia do Banco Espírito Santo de apoio à inovação e ao empreendedorismo, no final de 2010, a Universidade BES efectuou um levantamento das principais necessidades de um conjunto importante de empreendedores – composto por participantes no Concurso Nacional de Inovação BES e clientes. Os empreendedores ouvidos assumiam a necessidade de “combinar a estratégia empresarial com o conhecimento científico”, bem como apontavam “sérias dificuldades em fazer o plano de negócio”. Expressavam ainda o desejo de poder Entrega de diplomas. A conclusão do curso foi assinalada com uma cerimónia de entrega dos certificados aos participantes, que contou com a presença do presidente da Comissão Executiva do BES, Ricardo Salgado. cesso das suas inovadoras empresas. Recorde-se que as empresas inovadoras envolvem, por natureza, negócios de elevado nível de risco e uma reduzida taxa de sobrevivência: nos Estados Unidos, cerca de 40% das empresas apoiadas por venture capital não sobrevivem. Entre os factores que contribuem para este elevado rácio conta-se o facto de os seus promotores apresentarem uma formação altamente especializada, o que se traduz em empresas com fundamentos tecnológicos muito sólidos, mas com défices nas dimensões associadas à gestão. o Programa Avançado desenvolvido pelo BES em parceria com a UCP. EXEMPLOS DE SUCESSO FeedZai: Levantou, em 2011, um milhão de euros, internacionalizou-se para os Estados Unidos, Reino Unido, Dubai e Polónia, e apresenta uma estimativa de vendas, para 2012, na ordem dos 1,5 milhões de euros. Recrutou 12 pessoas. O participante no curso destaca a importância do mesmo para melhorar competências, desde o Marketing às Vendas, passando pela Gestão Financeira e Negociação. Plux: Levantou, em 2011, 500 mil euros e está actualmente a levantar mais dois milhões de euros, prevendo receitas de 700 mil euros em 2012, 50% das quais oriundas de exportações. Nos novos recrutamentos contam-se quatro pessoas. O participante destaca a relevância do curso em termos de networking e no que toca ao estabelecimento de relação com convidados externos. Zuvinova: Levantou, em 2011, 400 mil euros e está a levantar a segunda ronda, no valor de 1,2 milhões de euros. Internacionalizou-se para o Brasil e Estados Unidos, registou vendas de 500 mil euros (mais de 95% oriundas de exportações) e recrutou sete pessoas. O participante no curso destaca a oportunidade “rara” para aprender, rever e actualizar temas relevantes para a prática empresarial, mas também – e sobretudo – interagir com especialistas nacionais e internacionais. Zypho: Levantou 700 mil euros (EDP) e lançou, em Maio último, o Zypho 750, com mais de dez países como distribuidores, sendo o principal o Reino Unido. Recrutou duas pessoas. O participante destaca a importância do curso no sentido de ajudar a tomar decisões estratégicas. SET 12 A segunda edição do Programa Avançado de Gestão e Inovação para Empreendedores já está no terreno e apresenta algumas novidades. Entre elas conta-se uma maior abrangência, que traduz a capacidade de chegar a mais empreendedores, e um alargamento da cobertura geográfica nos principais pólos de inovação, através de um maior esforço na selecção dos projectos e participantes. Com esta medida, a entidade promotora pretende incrementar a qualidade do grupo participante. Outra novidade prende-se com o programa lectivo, que será mais intensivo, com a parte académica mais condensada e de menor duração. Destaque ainda para a nova metodologia para elaboração de business plan, cujo modelo, de cariz muito prático, contará com o apoio da Espírito Santo Ventures. Equipa vencedora não se altera, pelo que se manterá a parceria com a Universidade Católica Portuguesa (UCP). O prestígio da UCP e a qualidade dos seus docentes são factores distintivos do Programa e continuarão a integrar a sua componente curricular e mais conceptual. 30 participantes, de 16 empresas, integraram em 2011 Active Space: Angariou mais de um milhão de euros para o desenvolvimento de projectos e criou um modelo de holding. As vendas passaram de 190 mil euros em 2010 para mais de um milhão de euros previstos para 2012, a maior parte (mais de 95%) oriundos do mercado externo. Recrutou quatro pessoas. O participante considera que todos os pontos que o curso foca são “muito importantes no dia-a-dia de qualquer empresa”, e que deveria ser repetido a cada cinco anos para fazer um “refresh”. 11 SEGUNDA EDIÇÃO ARRANCA COM NOVIDADES Fotos: Bernardo S. Lobo O Programa Avançado de Gestão e Inovação para Empreendedores, lançado pelo BES em parceria com a Universidade Católica Portuguesa (UCP), representa uma resposta a essas lacunas, ao abordar temáticas como: Conceitos e Práticas de Gestão, Elaboração de Plano de Negócios, Soft Skills (liderança e gestão de equipas), Protecção da Propriedade Intelectual e Fontes de Financiamento. Passado um ano, o balanço dos 16 projectos que participaram na primeira edição do Programa Avançado de Gestão e Inovação para Empreendedores é claramente positivo. De uma forma geral, os participantes valorizaram o programa pelos seus ensinamentos pragmáticos, pelo networking e pela exposição. As empresas FeedZai, Plux, Zuvinova, EIDT e AST foram capazes de angariar fundos (3,6 milhões de euros no total), aumentar significativamente as vendas (mais de três milhões de euros no total) e as exportações (em mais de 75%), tendo ainda criado 29 postos de trabalho, quase todos especializados. CASE-STUDY Democratizar a produção de energia solar 12 SET 12 DESENVOLVEU UMA SOLUÇÃO QUE VEIO REVOLUCIONAR A PRODUÇÃO DE ENERGIA SOLAR FOTOVOLTAICA E COM A QUAL VENCEU O CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES EM 2006. DESDE ENTÃO, A WS ENERGIA ALARGOU O POSICIONAMENTO NA CADEIA DE VALOR E NO MUNDO. UMA HISTÓRIA DE SUCESSO “MADE IN” PORTUGAL. Entre 2006 e 2011, registou um volume de negócios acumulado na ordem dos 25 milhões de euros, 22 milhões dos quais advindos do mercado externo, sobretudo de Itália. O investimento em investigação e desenvolvimento (I&D), entre 2006 e 2014, anda na ordem dos quatro milhões de euros e os prémios e distinções acumulam-se ano após ano. Estes são alguns dos factos e números que atestam o percurso da WS Energia rumo à missão de liderar o desenvolvimento de tecnologia de ponta e conhecimento na área da energia solar. A WS Energia é a única empresa em Portugal a apresentar três tecnologias para soluções fotovoltaicas: sistemas fixos, seguidores solares a dois eixos e sistemas de concentração solar DoubleSun®. Presente no mercado da microgeração desde a sua abertura, em Abril de 2008, a empresa já realizou mais de 300 instalações em território nacional. Mas o sucesso não se circunscreve ao mercado interno: são já cerca de duas mil as unidades de seguimento e concentração solar que levam a assinatura da WS Energia um pouco por todo o mundo. O mercado italiano foi o primeiro onde a empresa, sediada no Tagus Park, deu entrada a nível internacional e continua a ser o mais relevante. Foi naquele país que instalou, em 2007, a primeira central na Europa com tecnologia de concentração integrada em edifícios, e forneceu com mais de 600 sistemas de seguimento e concentração solar o projecto Lago Sollare. Depois de percorrer com sucesso as fases de start-up, lançamento de produtos inovadores e consolidação da equipa, a WS Energia viu chegada a hora de apostar na diversificação geográfica da sua actividade comercial, e em 2008 ruma ao continente americano. Nos Estados Unidos cria uma joint-venture para a produção local de sistemas solares da WS Energia com a Solar Monkey, onde passou a ter também um gestor comercial e de produto. E dois anos depois firma uma parceria com a B&B Solutions, que a representa comercialmente no mercado brasileiro. A aposta justificava-se “pelo enorme potencial do mercado interno e proximidade da língua”, e era encarada como “uma porta de entrada para o mercado sul-americano”, explicam os fundadores da empresa. INOVAÇÃO E ALARGAMENTO DA CADEIA DE VALOR É a forte aposta na inovação em toda a cadeia de valor das soluções de produção de energia solar fotovoltaica que explica o sucesso alcançado pela WS Energia em apenas seis anos de existência. A empresa tem vindo a surpreender o mercado com um leque de soluções inovadoras, que vão desde concentradores solares mais eficazes, passando pelos SmartGrid Ready, que ajudam a gerir a energia produzida, sem esquecer os segui- João Wemans, um dos fundadores da WS Energia FORTE APOSTA NOS RECURSOS HUMANOS Forte investimento em I&D. Tem permitido à empresa diversificar os seus produtos e expandir o negócio ao mercado internacional. Fotos: Bernardo S. Lobo Numa empresa de pendor altamente tecnológico como a WS Energia, a formação dos recursos humanos assume especial importância. É neste contexto que surge a Summer School, envolvendo dez estágios e a formação dos quadros de gestão em Harvard, London Business School e MIT. No início deste ano, a WS Energia assinou também com o Instituto Superior Técnico (IST) e a Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT) um memorando de entendimento para a constituição e financiamento da Cátedra WS Energia na área da energia. O objectivo passa por criar uma estrutura de investigação a nível mundial que desenvolva inovações no sentido de tornar a gestão e a produção de energia mais acessíveis no dia-a-dia dos utilizadores finais. No âmbito desta iniciativa, a WS Energia tornou-se ainda MIT-Research Affiliate junto do programa MIT-Portugal da Fundação para a Ciência e a Tecnologia (FCT), trazendo para a Cátedra WS Energia benefícios únicos na promoção e reforço da sua capacidade científica e tecnológica num contexto internacional. PRÉMIOS E DISTINÇÕES 2006: Vence o Concurso Nacional de Inovação BES no sector de Energia. 2007: Torna-se membro da Rede PME – COTEC e representante nacional na Comissão de Normalização do IEC para o Fotovoltaico de Concentração. 2010: Conquista estatuto de PME Exce- lência. 2011: Recebe uma menção especial no âmbito do Prémio Inovação COTEC-BPI. É reconhecida pelo Príncipe de Gales com o Global Partnership Programme Award, resultado do projecto de I&D realizado em parceria com a britânica MarecSolar, tendo em vista a redução do custo dos produtos de energia solar. Recebe um Green Project Award pelo projecto HSUN. 2012: Torna-se MIT-Research Affiliate no programa MIT-Portugal. dores, que permitem maior produção de energia face às habituais estruturas fixas de suporte dos módulos. Em causa está ainda o desenvolvimento de um processo on-line de instalação – o Asun –, que se traduz numa maior possibilidade de escolha, e o desenvolvimento dos terminais remotos RemotePV, que permitem levar a produção e utilização de energia solar a locais isolados. Os sistemas inovadores de produção de energia de fonte solar fotovoltaica desenhados, produzidos e comercializados pela WS Energia garantem, dependendo da tecnologia em causa, um incremento da produção de energia solar entre os 20% e 95% comparativamente aos sistemas fixos. Entre os últimos produtos lançados no mercado destaca-se o WS Horizon, um seguidor solar que gera 25% mais energia com o mesmo investimento inicial de um sistema fixo convencional, um ganho extra conseguido com o alinhamento dos pai- néis fotovoltaicos com o sol através de um movimento este-oeste no plano horizontal. A WS Energia é também responsável pelo HSUN, uma tecnologia que permite lançar produtos fotovoltaicos de concentração solar capazes de produzir electricidade a preços competitivos relativamente aos combustíveis fósseis. A inovação, realizada em parceria com as universidades e a indústria, é encarada na WS Energia como um processo contínuo e sem fim como atestam os quatro projectos de I&D que tem em curso, envolvendo um investimento na ordem dos 2,3 milhões de euros. Entre eles contam-se o RemotePV, que tem como objectivo levar a produção de energia solar a regiões distantes, sem acesso a electricidade, e o Smart PV, um sistema que atribui ao utilizador o controlo da produção de energia, o que se traduz na optimização do seu preço de venda à rede. Em nome da democratização da produção de energia solar. 13 2009: SET 12 Assume a vice-presidência da Associação Portuguesa da Indústria Solar. CASE-STUDY A IMPORTÂNCIA DO PRÉMIO O prémio conquistado no âmbito da segunda edição do Concurso Nacional de Inovação BES contribuiu essencialmente para ajudar nos custos e nos complexos procedimentos inerentes ao patenteamento da nova tecnologia. Segundo António José Ribeiro, promoveu ainda a divulgação do projecto, colocando a Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra nas publicações relacionadas com a ciência, e fazendo chegar à comunidade científica o que de importante se faz no seio daquela universidade. Novos desenvolvimentos no campo da insulina oral 14 SET 12 DESDE QUE VENCEU O CONCURSO NACIONAL DE INOVAÇÃO BES, A NOVA FORMULAÇÃO DE INSULINA ORAL SOFREU IMPORTANTES DESENVOLVIMENTOS. A EQUIPA DA FACULDADE DE FARMÁCIA DA UNIVERSIDADE DE COIMBRA PROCURA AGORA UM PARCEIRO PARA A DISPENDIOSA, MAS PROMETEDORA, FASE DE ENSAIOS CLÍNICOS. A nova formulação farmacêutica de insulina oral convenceu o júri da segunda edição do Concurso Nacional de Inovação BES, tendo conquistado o prémio no sector da Saúde. Os argumentos eram fortes: apresentava-se como uma alternativa viável à insulina injectável, prometendo melhorias consideráveis na saúde e qualidade de vida dos pacientes com diabetes mellitus, uma doença de elevada incidência e prevalência. O foco da inovação desenvolvida no âmbito do doutoramento de Ana Catarina Reis, no Laboratório de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra, assentava, essencialmente, no veículo de transporte da insulina: um sistema de nanopartículas de polímeros de origem natural, compostos totalmente biocompatíveis e biodegradáveis, cuja aplicação em seres humanos poderia constituir uma realidade muito próxima. Passaram seis anos, e o projecto – que representa um interessante exemplo de cooperação multidisciplinar – sofreu importantes desenvolvimentos no sentido de alicerçar os resultados obtidos. Importava conseguir uma melhor caracterização da formulação, em resposta quer a uma maior exigência por parte dos processos que envolvem nanopartículas, quer das próprias formulações utilizadas na diabetes mellitus. “A segurança e a qualidade da formulação estavam asseguradas, faltava alicerçar a eficácia com uma caraterização minuciosa, que constituísse uma proof-of-concept”, explica António José Ribeiro, um dos investigadores que, juntamente com Francisco Veiga, coordena a equipa interna- cional responsável pelo desenvolvimento da nova tecnologia farmacêutica. Em 2011 foram publicados resultados promissores. Por um lado, a nova formulação assegura a protecção da insulina em ambiente gástrico; por outro, consegue que esta atravesse o epitélio intestinal, teoricamente impermeável à passagem de moléculas de insulina, aumentando a sua biodisponibilidade, ou seja, a quantidade de fármaco que chega efectivamente ao sangue. A nova formulação de insulina oral é a primeira a conseguir níveis de biodisponibilidade na ordem dos 30%. Apesar de não se poderem ainda extrapolar os resultados para o ser humano (os testes foram até agora realizados com ratos), os valores alcançados são bastante promissores e traduzem, na prática, a necessidade de uma menor António José Ribeiro e Francisco Veiga, Fotos: Bernardo S. Lobo a dupla de investigadores da Universidade de Coimbra responsável por coordenar a equipa internacional que está a desenvolver a formulação da insulina oral. rigor e dentro das normas éticas pelas quais nos regemos”, explica o coordenador do projecto. Além da melhoria da qualidade de vida do diabético, a inovação promete desencadear um passo gigante nas novas tecnologias na área da saúde e possibilitar vantagens promissoras do ponto vista da comercialização, uma vez que se trata de um processo facilmente aplicável à escala industrial, com recursos pouco dispendiosos e de fácil obtenção. Um longo caminho foi já percorrido, mas o objectivo final só será alcançado quando as pessoas afectadas pela “epidemia” em que se tornou a diabetes mellitus puderem usufruir desta nova forma de insulina mais cómoda e menos invasiva. Um repto ao investimento. Em nome da saúde e da qualidade de vida dos pacientes. O projecto da insulina oral data de 2002 e é desenvolvido na Faculdade de Farmácia da Universidade de Coimbra (FFUC) sob a coordenação de António José Ribeiro e Francisco Veiga, professores de Tecnologia Farmacêutica da Faculdade de Farmácia daquela universidade. Além dos coordenadores, a equipa inclui ainda os investigadores da UC, Isabel Vitória e Rui Carvalho, tendo contado com a colaboração de equipas do Centro de Investigação de Ciências da Saúde (CICS), da Faculdade de Medicina de Estrasburgo e da Universidade de Queens, no Canadá. Para este projecto, muito contribuíram as investigadoras Catarina Silva, Ana Catarina Reis e Camile Woitiski, através dos respectivos trabalhos de doutoramento. 15 quantidade de fármaco para produzir o efeito desejado no paciente. “O projecto avançou e os testes têm sido favoráveis: a tecnologia está agora validada com critérios mais exigentes. Gostávamos que tivesse avançado mais, mas o passo seguinte, de ensaios clínicos, envolve um investimento considerável, e não encontrámos ainda o parceiro certo para avançar nesse sentido”, justifica António José Ribeiro. A Universidade de Coimbra, detentora da patente da nova tecnologia, recebeu alguns convites de países do médio-oriente mas, segundo o investigador, as propostas não ofereciam grande credibilidade. “Os ensaios clínicos representam um passo muito importante para confirmar a aplicabilidade da nova formulação em seres humanos. Gostaríamos que fossem realizados com grande SET 12 A EQUIPA