Revista RecreArte 11
DIC09
Revista RecreArte 11 > III - Creatividad en las Artes: Expresividad Vivificadora
David de Prado Díez
Santo António no Espaço Ibérico: expressão artística criativa
Isabel Dâmaso Santos
Centro de Tradições Populares Portuguesas
Universidade de Lisboa
A figura de Santo António ocupa um lugar muito especial no imaginário
cultural português, mas é também considerado património cultural ibérico,
europeu e universal. De facto, o culto de cariz religioso que suscitou, a partir do
segundo quartel do século XIII, logo após a sua morte, ou até ainda em vida,
tem vindo a ganhar novos contornos quer através do processo de
contaminação e de absorção de aspectos relacionados com outros cultos não
só religiosos como também pagãos, quer pela renovação incessante com que
nos tem surpreendido ao longo dos tempos.
Santo António, pela sua biografia, pela sua taumaturgia e pelo culto que
envolve a sua figura, revela-se desde cedo um caso extraordinário de
popularidade e de criatividade. A literatura, a arte e a tradição têm delineado a
imagem de Santo António, reinventando-a e perpetuando-a na memória
colectiva, contribuindo para a redefinição da dimensão excepcional que a sua
figura alcança enquanto referência identitária.
A biografia de Santo António revela um homem com um trajecto de vida
muito rico e pouco convencional para a sua época. Com base em relatos
medievais que constituem fontes histórico-hagiográficas1 é possível proceder à
reconstituição do percurso biográfico de Santo António e apurar que terá
1
Vita Prima ou Assidua (Beati Antonii Vita Prima): 1232, franciscano paduano anónimo; Vita
Secunda (Vita Sancti Antonii Confessoris): entre 1235 y 1240, Julião de Spira; Dialogus
(Dyalogus de gestis beati Antonii): 1245, anónimo franciscano italiano; Legenda Benignitas
(Legenda Sancti Antonii presbyteris et confessoris): 1280, João Peckham; Legenda
Raimondina (Vita Sancti Patris Antonii de Padua): 1293, Fr. Pierre de Raymond de SaintRomain; Legenda Rigaldina (Vita Beati Antonii de Ordine Fratrum Minorum): entre 1298 y 1317,
Jean Rigauld; Liber Miraculorum Sancti Antonii: finais do século XIV, autor anónimo.
nascido no lugar que actualmente corresponde à cripta do templo que lhe é
consagrado e designado Igreja-Casa de Santo António, junto à Sé, em Alfama.
Quanto à data exacta do seu nascimento persistem algumas dúvidas
pois nenhuma destas fontes a indica claramente. Assim, a tradição
convencionou como data do seu nascimento o dia 15 de Agosto de 1195, dia
da Assunção de Nossa Senhora, de quem viria a ser grande devoto. No
entanto, a partir dos exames antropométricos realizados em Pádua em 1981,
por ocasião da quarta exumação do seu corpo, quando se assinalou a
passagem dos 750 anos sobre a sua morte, foi possível concluir que Santo
António teria, à data da morte, cerca de 40 anos, mais precisamente 39 anos e
9 meses, contrariando a convicção de que o santo teria 36 anos quando
falecera, informação introduzida em 1280 pela Legenda Benignitas e
posteriormente reiterada pelas fontes que se lhe seguiram. Esta descoberta
veio fazer recuar a data de nascimento de Santo António para 1191, embora se
continue a assinalar a data tradicional, como aconteceu aquando das
comemorações do oitavo centenário do seu nascimento, programa que se
estendeu ao longo do ano de 1995.
Sabe-se que Santo António foi baptizado com o nome de Fernando
Martins, na Sé de Lisboa, local onde ingressou com 7 ou 8 anos para
frequentar os estudos na escola episcopal. O apelido Bulhões, pelo qual o
santo tem sido conhecido, foi-lhe atribuído, não se sabe com que fundamento,
por Frei Marcos de Lisboa, no século XVI, autor que reforçou também as
origens nobres conferidas ao santo, a partir da Legenda Dialogus (1245) e
referidas pelas fontes seguintes2.
Verificamos, então, que alguns dados biográficos de Santo António que
chegaram até à actualidade de forma inquestionável resultam, afinal, da
capacidade criativa e efabulativa da tradição e da devoção expressas através
da literatura e da arte. Refiro dois exemplos que me parecem muito curiosos e
reveladores desta capacidade criativa dos artistas que se dedicaram à
ilustração de obras sobre a vida e a taumaturgia do santo: uma gravura, da
2
Note-se que a origem social nobre do santo constitui um tópico hagiográfico que justifica esta
tendência de enobrecer as origens de Santo António, verificada ao longo dos tempos, à medida
que aumentava a sua popularidade.
2
autoria de Pastor, que integra a obra intitulada Vida e Milagres de Santo
António de Lisboa, da autoria de Fernando Thomaz de Brito (1894) e que
reproduz o momento em que Santo António terá saído da Sé ao colo da sua
mãe no dia do seu baptizado; um desenho, da autoria de Émile Probst, que
representa Santo António sentado numa carteira da escola primária e que
ilustra o livro infantil de João Maia (1971) intitulado Santo António de Lisboa.
Pensa-se que por volta de 1212 Fernando Martins ingressou na Ordem
dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de
Fora, em Lisboa, onde permaneceu dois anos, até ser transferido para o
Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Terá sido na biblioteca deste mosteiro
conimbricense, um dos mais prestigiados centros de cultura monástica da
época, que Fernando Martins se formou intelectual e teologicamente da forma
tão sólida e brilhante com que viria mais tarde a impressionar o público ouvinte,
já no seio da Ordem dos Frades Menores, na qual ingressou, em 1222, em
Santo Antão dos Olivais, em Coimbra, recebendo o nome de António, em
homenagem a Santo Antão Abade e Eremita, padroeiro do Convento dos
Olivais.
E é, de facto, a figura do santo franciscano que a arte, erudita e popular,
tem reproduzido ao longo dos tempos. Na verdade, não abundam as imagens
de Santo António vestido com o hábito de agostiniano, no entanto, podemos
assinalar alguns exemplos de arte erudita que conservam a imagem desta fase
determinante da vida do santo, como a estátua que se encontra na fachada do
Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, ou as imagens em madeira
policromada, uma do século XVI, que se encontra na Igreja de Santa Cruz em
Coimbra, outra do século XVIII, que se encontra na Sé de Lisboa. O momento
simbólico da troca do hábito pelo burel ficou eternizado por Pascoal Parente,
no século XVIII, num óleo que se encontra na sacristia da igreja de Santo
António dos Olivais.
Esta mudança de ordem religiosa constitui, desde logo, um rasgo
marcante do carácter extraordinário de Santo António, tanto mais porque se crê
que terá sido fortemente motivada pela vontade de se tornar mártir em
Marrocos, à semelhança do que tinha acontecido, por essa altura, com um
pequeno grupo de cinco franciscanos, enviados a pregar a Espanha e a
3
Marrocos, onde foram martirizados e cujos restos mortais, transformados em
relíquias, foram recolhidos no Mosteiro de Santa Cruz, por influência do infante
D. Pedro, irmão de D. Afonso II. Este ideal de cruzada a par do fascínio pela
vida simples e humilde que Santo António encontrou no seio desta Ordem, que
começava a difundir-se em Portugal, condicionaram definitivamente a sua
orientação e levaram-no a querer seguir o exemplo franciscano. Pensa-se que
alguns abusos que Santo António presenciou na vida desregrada de alguns
elementos do Clero poderão ter contribuído também para esta decisão.
Trocava, então, a vida luxuosa e dedicada ao estudo, que levava em Santa
Cruz, pela vida simples da oração e pela ambição do martírio. E assim partiu,
esse mesmo ano, para Marrocos com o objectivo de difundir a fé. No entanto,
adoeceu e teve que regressar a Lisboa, mas uma enorme tempestade
encaminhou o barco para as costas da ilha Sicília, em Itália, onde foi acolhido
num convento de franciscanos. E foi em Itália que se destacou pela eloquência
e pela sabedoria com que pautava os seus discursos e as suas pregações e
com que sublimou a sua missão evangelizadora, difundindo a fé e convertendo
muitos infiéis, acção imortalizada no painel de azulejos, do século XVII, que se
encontra na Igreja do Penedo, em Colares, Sintra. O sobejamente conhecido e
reproduzido sermão de Santo António aos peixes, ao qual me referirei de novo
mais adiante, trata-se de um episódio que se reporta a esta fase da vida de
Santo António pregador.
Em 1223, São Francisco de Assis incumbiu Santo António de ensinar
Teologia em Bolonha, consagrando-o, assim, como o primeiro Leitor, Mestre ou
Doutor de Teologia da Ordem Franciscana, num impulso inovador quer para a
Ordem, ao tornar compatíveis a piedade e o estudo, quer para Santo António
ao ser-lhe reconhecido este talento pioneiro. A sua presença fez-se também
sentir no Sul de França, para onde foi enviado com o intuito de combater a
heresia e onde desenvolveu acções determinantes para a evangelização, para
a fundação de alguns conventos (como em Brives), para a renovação de outros
conventos (como Bourges ou Limoges) e ainda para a abertura de escolas de
Teologia (como em Montpellier e em Toulouse). Mais tarde, dedicou-se a
concluir a redacção dos seus sermões, considerados autênticos guias de
4
pregação para os franciscanos: os Sermones Dominicales (concluídos) e os
Sermones Festivi (inacabados) compilados na obra Opus Evangeliorum3.
Em meados de Maio de 1231, sentindo-se cansado, retirou-se para o
eremitério de Camposampiero, perto de Pádua, recolhendo-se numa cela
construída no topo do tronco de uma nogueira. A 13 de Junho, pressentindo a
morte, pediu aos companheiros que o levassem para Santa Maria de Pádua,
onde desejava morrer, acabando por falecer perto de Pádua, no Mosteiro de
Arcella. Só no dia 17 de Junho foi possível transportar o seu corpo para Pádua,
depois de ultrapassadas as divergências em torno do local onde deveria ser
sepultado.
Com base na sua vida exemplar e no relato de inúmeros milagres
realizados por sua intercessão, deu-se início, de imediato, ao processo de
canonização, considerado o mais rápido de sempre4, que culminou a 30 de
Maio de 1232, dia do Espírito Santo, em Spoleto, quando o Papa Gregório IX
inscreveu Santo António no Catálogo dos Santos e fixou a data da sua festa
anual para 13 de Junho.
A 16 de Janeiro de 1946, o Papa Pio XII proclamou Santo António como
o primeiro Doutor da Igreja da Ordem Franciscana e o único português Doutor
da Igreja, como forma de reconhecimento solene pela intelectualidade
doutrinária que imprimiu aos sermões que redigiu.
Santo António, reconhecido como o santo de todo o mundo, foi
considerado em assembleia pública na cidade de Brives, em 1989, como o
primeiro santo de perfil verdadeiramente europeu, na medida em que seguiu e
difundiu os “princípios da moderna Doutrina Social da Igreja, ou seja,
Solidariedade, Subsidiariedade e Universalismo (que, em termos modernos,
inclui o pluralismo, a tolerância, o ecumenismo, a participação e a partilha)”
(Melícias: 1996, p.278).
3
As mais recentes edições portuguesas destes sermões são: Santo António de Lisboa,
Biografias – Sermões, Braga, Ed. Franciscanas, 1998, vols. I-III; REMA, Henrique Pinto,
Sermões de Santo António – Antologia Temática, Colecção Obras Clássicas da Literatura
Portuguesa – Literatura Medieval, 2 vols., Porto, Lello Edições, 2000.
4
Apesar de Santo António ser indicado como o santo que mais rapidamente foi canonizado, V.
Gamboso, na nota 9, da página 439, da Assidua, refere o caso do mártir dominicano S. Pedro
de Verona, falecido a 6 de Abril de 1252 e canonizado a 9 de Março do ano seguinte.
5
Em suma, as opções de vida que Santo António tomou e a simplicidade,
a dedicação e a sabedoria com que as cumpriu revelam o seu carácter
determinado, pioneiro, destemido e aventureiro, que lhe permitiu destacar-se
no seu tempo e alcançar uma projecção universal ímpar.
O culto que, desde cedo, surgiu em torno da sua figura assenta
precisamente no seu exemplo de vida mas também na sua taumaturgia,
acrescentada pelas sucessivas fontes, e ainda na capacidade renovadora com
que a devoção popular tem delineado a sua imagem e contribuído para a
evolução criativa do seu culto.
Ao longo da primeira metade do século XX, por exemplo, o culto
antoniano viu-se renovado e reforçado através de várias manifestações.
Embora se tenham generalizado as cerimónias religiosas e os festejos
populares em honra do santo um pouco por toda a parte, a cidade de Lisboa
tem tido uma relação privilegiada com o santo e em 1953, através do despacho
do Diário do Governo nº 119, 2ª Série, de 6 de Junho, foi decretado que o dia
13 de Junho se tornasse feriado municipal da cidade de Lisboa, consagrando-o
também seu padroeiro, a par de São Vicente, cujas insígnias se mantêm na
heráldica lisboeta. De facto, ao longo dos tempos, Santo António foi
frequentemente referido como patrono da cidade de Lisboa e de Portugal. No
entanto, só a 13 de Junho de 1934, o Papa Pio XII designou oficialmente Santo
António como padroeiro de Portugal, juntamente com a Imaculada Conceição.
E também a partir de 1934, o desfile das marchas populares foi incorporado no
Programa das Festas de Lisboa, com o patrocínio da Câmara Municipal,
embora a primeira edição tenha acontecido no Parque Mayer, por iniciativa do
seu director, em 1932, ano em que se comemorou o sétimo centenário da
canonização de Santo António. O cinema português desempenhou um papel
divulgador desta tradição das marchas populares, através de dois filmes: A
Canção de Lisboa (1933) e O pátio das Cantigas (1941). Em 1952, a Câmara
Municipal de Lisboa e o jornal Diário Popular passaram a organizar o Concurso
de Noivas de Santo António que continua a realizar-se ainda que sujeitos a um
regulamento diferente, uma vez que as cerimónias de casamento foram
alargadas a outras confissões ou ao Registo Civil e os casamentos religiosos
realizam-se actualmente na Sé. Todas estas manifestações da popularidade de
6
Santo António assentam no enorme carinho que os devotos sentem pela sua
figura difundida pela fama dos seus maravilhosos milagres.
A taumaturgia atribuída a Santo António desde as fontes medievais
fundamenta-se no relato de milagres originais operados por intercessão do
santo mas recorre também, por vezes, ao processo de contaminação com a
taumaturgia de outros santos, como é vulgar acontecer. Veja-se, por exemplo,
a capacidade de protecção dos animais, nomeadamente dos porcos,
prerrogativa que recebeu de Santo Antão, assim como o bordão com que
chegou a ser representado. Por outro lado, o episódio do sermão às aves
protagonizado por São Francisco de Assis poderá estar na origem do milagre
que Santo António operou, ainda em criança, quando domou divinamente os
pássaros que costumavam atacar as culturas agrícolas do seu pai. Este feito
encontra-se ilustrado em Banda Desenhada da autoria de Jordi Longaron, no
livro infantil Santo António de Lisboa – Missionário Fora de Série, de Francesc
Gamissans. Aliás, este episódio maravilhoso encontra-se também relatado sob
a designação de “Santo António e os Passarinhos”, que conta apenas com
cinco versões portuguesas no Romanceiro, todas recolhidas na zona de TrásOs-Montes, a par de vinte e uma versões em castelhano (dezanove da zona de
Castela e duas da Catalunha).
Na verdade, o culto antoniano difundiu-se em Espanha acompanhando o
processo de expansão da Ordem Franciscana e contando com o impulso da
monarquia. São conhecidos vestígios da rápida integração do culto antoniano
na vivência espanhola, tais como a fundação de diversos conventos, igrejas,
hospícios e confrarias sob a égide de Santo António, assim como a inclusão da
sua figura em muitos templos, um pouco por todo o espaço ibérico.
Pela mão e pela fé dos franciscanos que acompanharam os
descobridores portugueses e espanhóis, a imagem de Santo António espalhouse por todas as partes do mundo, miscigenando-se, muitas vezes, com
divindades locais. Santo António transforma-se e pode ser o “negro, ou o indu
ou o de tradição afro-brasileira” (Ganho: 2001, p. 54), como atesta um
interessante conjunto de figuras que se encontram no Museu Nacional de Arte
Antiga, em Lisboa, que representam Santo António com traços fisionómicos
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característicos das culturas em que se integrou; podemos encontrá-lo com
feições orientais, africanas ou índias.
Ainda que as representações do santo na arte sejam escassas ao longo
dos séculos XIII e XIV, é de referir que o catálogo do leilão de Outono de 2006
da madrilena Casa Fernando Durán (lote320) aparece uma pintura de grandes
dimensões identificada pelos técnicos como pertencente à escola catalanoaragonesa do século XIV e por eles intitulada “Santo franciscano com Santa
Catarina de Alexandria e Santo André”. Se observarmos os atributos com
atenção (o livro na mão e o Menino Jesus no coração) e a cena superior que
representa o milagre da mula, um dos mais difundidos da sua taumaturgia,
podemos concluir que este santo franciscano é Santo António. Esta pintura a
óleo permite-nos verificar que o milagre da mula ou da adoração da Eucaristia,
actualmente quase desconhecido, foi dos milagres mais divulgados pela
oportunidade da mensagem de conversão de hereges, pois conta-se como
uma mula faminta se ajoelhou perante a hóstia sagrada, ignorando um molho
de feno, o que levou à conversão do seu dono à fé cristã.
Este milagre, introduzido pela Legenda Benignitas (fim do século XIII),
juntamente com o milagre da pregação aos peixes, introduzido pela Legenda
Rigaldina (início do século XIV), encontram-se reproduzidos nas iluminuras,
atribuídas a António de Holanda, que integram o Livro de Horas de D. Manuel,
de inícios do século XVI. No fólio 276, no quadro principal, junto ao texto da
oração, vê-se o milagre do sermão, presenciado ainda ao longe pelo Menino
Jesus e, nas tarjas, assiste-se ao milagre eucarístico. No fólio 293, no quadro
principal vê-se Santo António com a imagem do Menino Jesus, desta vez, no
lugar do coração, e o santo encontra-se apoiado num bordão, o que remete
para uma contaminação com a iconografia de Santo Antão. Nas tarjas, assistese ao milagre da mula, ao fundo, e ao milagre do sermão, que remete
inevitavelmente para uma contaminação com o sermão de São Francisco às
aves.
Como podemos verificar, nestas reproduções ainda não aparece um dos
símbolos que passará a fazer parte da iconografia antoniana: a açucena ou o
lírio, introduzidos pelos italianos em finais do século XV. Por outro lado, o
Menino Jesus passará rapidamente para os braços de Santo António, em pé ou
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sentado em cima de um livro que representa a Bíblia Sagrada. A introdução do
Menino Jesus como símbolo iconográfico decorre do relato do milagre da
aparição introduzido pelo Liber Miraculorum (finais do século XIV), largamente
difundido quer em Portugal quer em Espanha, tendo servido de base para
inúmeras biografias do santo que se têm escrito até à actualidade pois reúne
os principais passos da vida e da taumaturgia do santo, cristalizados pela
tradição.
É importante realçar que a arte tem representado, ao longo dos tempos,
este milagre da aparição do Menino Jesus das mais variadas formas. Perante o
vastíssimo e diversificado leque de representações artísticas deste milagre,
limito-me a referir apenas alguns exemplos que se destacam pelo carácter
inovador que lhe conferem no espaço ibérico.
Distingo a pintura a óleo sobre madeira, da autoria de Frey Carlos,
século XVI, que se encontra no museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e
que inova na forma de apresentação do Menino Jesus que aparece a brincar
com os livros sagrados. O especialista José Luís Porfírio (1996) considera que
esta atitude do Menino resulta na “primeira afirmação figurativa em português
de que a alegria é a coisa mais séria da vida” (p. 158).
O
mesmo
especialista
sublinha
também
a
originalidade
da
representação de Santo António, criada em 1898 por Columbano Bordalo
Pinheiro, na pintura a óleo sobre tela que se encontra no Museu do Chiado, em
Lisboa, que, por um lado, acentua o efeito de surpresa que o aparecimento do
Menino Jesus provoca em Santo António que o leva a deixar cair no chão o
livro sagrado, e, por outro lado, teve como modelo para o rosto do santo a
noiva do próprio autor (p. 163).
Note-se igualmente a profusão de representações deste milagre por
parte dos grandes pintores espanhóis pertencentes ao florescente período
artístico designado Siglo de Oro, como Francisco de Zurbarán, Murillo, Alonso
Cano, Francisco Herrera, Claudio Coello, Juan Valdés Leal, etc. Tenho que
particularizar o óleo sobre tela intitulado “Visión de San Antonio de Padua” que
se encontra na Capela de Santo António da Catedral de Sevilha, no qual
Murillo introduz o círculo de anjos que emolduram o menino Jesus no momento
da sua aparição e que viria a tornar-se um elemento frequente, bem como a
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mesa de madeira que se pode observar no lado direito e cuja tipologia entrou
na linguagem sob a designação de “mesa de Santo António”.
Outro grande pintor espanhol, Goya, encontrou na taumaturgia de Santo
António um tópico para o seu labor artístico, nomeadamente no milagre da
salvação do pai. Introduzido pelo Liber Miraculorum, conta-se como Santo
António veio a Lisboa e, por graça divina, fez falar o defunto perante o juiz para
confirmar a inocência do pai do santo, acusado injustamente do assassinato.
Goya, com base neste episódio, concebeu uma das obras memoráveis da arte
espanhola: os frescos que decoram as abóbadas e a cúpula da Igreja de Santo
Antonio de la Florida, em Madrid, e que primam pela originalidade da forma e
da teatralidade que o autor conseguiu imprimir, transformando cada figura
pintada numa personagem carregada de expressividade. A azulejaria
portuguesa coetânea conseguiu também transmitir esta dinâmica cénica em
painéis como o que se encontra na Ermida de Santo António do Vale, em
Lisboa.
O painel de azulejos serviu de inspiração para a pintura a óleo sobre
tela, datada de 1946 e assinada por Vieira da Silva, que, numa versão
estilizada e modernizada, representa o milagre do sermão aos peixes. Outra
representação deste emblemático milagre e que se pode considerar bastante
inovadora do ponto de vista plástico é o baixo-relevo em madeira, do século
XVII, que se encontra no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto.
No século XVII surgiu em Portugal uma nova faceta da figura de Santo
António e do seu culto: a vertente militar, que constitui um caso extraordinário
de criatividade no processo de renovação do culto. Esta devoção teve início
durante as guerras peninsulares, intensificando-se durante as lutas contra os
franceses, em consequência da fé na vitória que os soldados sentiam quando
se encontravam sob a protecção de Santo António. Santo António chegou
mesmo a assentar praça em vários regimentos, os soldados transportavam
consigo uma imagem do santo e muitos locais de defesa estratégica receberam
a invocação de Santo António. O Museu Municipal de Lagos, contíguo à Igreja
de Santo António, guarda a imagem do santo e o respectivo altar de campanha
que os soldados do Regimento de Infantaria desta cidade transportavam
consigo aquando das suas batalhas. Esta tradição militar de Santo António
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encontra-se também expressa no magnífico retábulo da Igreja Conventual de
São Francisco, em Lorca, concebido por Jerónimo Caballero, no século XVII,
onde podemos admirar oito alto-relevos que representam os mais conhecidos
milagres do santo. Este retábulo foi encomendado como forma de
agradecimento pela vitória dos lorcanos contra o Marquês de Vilhena.
Como percebemos, as várias formas de expressão artística têm
conseguido plasmar não só o perfil mais espiritual de Santo António como
também as suas facetas mais populares, irradiando a evolução do culto em
torno da sua figura.
No século XVII, Padre António Vieira, que recorreu à figura de Santo
António como tópico para nove dos seus sermões, referiu-se a ele nos
seguintes termos, em 1653, no seu sermão em S. Luís do Maranhão (Tomo VII,
p. 242):
Se vos adoece o filho, Santo António; se vos foge o escravo, Santo
António; se mandais as encomendas, Santo António; se esperais o retorno,
Santo António; se requereis o despacho, Santo António; se aguardais a
sentença, Santo António; se perdeis a menor miudeza de vossa casa, Santo
António; e talvez se quereis os bens da alheia, Santo António.
Este excerto demonstra claramente a popularidade de que Santo
António gozava no século XVII, decorrente da polivalência na resolução de
toda a classe de problemas dos seus devotos, nomeadamente na recuperação
de objectos perdidos. No entanto, nesta altura, ainda não lhe eram
reconhecidos os dotes de casamenteiro que viria a receber em meados do
século XIX, a partir da tradição popular. Esta devoção rapidamente se
estendeu a todo o território e até além fronteiras, nomeadamente à vizinha
Galiza, como podemos verificar na obra poética de expressão galega de
Rosalía de Castro que recupera um cantar popular local que serve de mote à
composição intitulada “San Antonio bendito” que integra Cantares Gallegos
desde a sua primeira edição em 1863:
San Antonio bendito
Dádeme un home
Anque me mate
Anque me esfole
Com efeito, pode-se considerar que o culto antoniano na Galiza é
bastante significativo tendo em conta, por exemplo, a quantidade e a qualidade
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de pinturas e esculturas de imagens de Santo António nas igrejas da região. A
Catedral de Santiago de Compostela conta com uma capela de Santo António
que demonstra a importância do santo para os galegos. Testemunho desta
relação amigável única é o relevo em madeira que se encontra numa das
portas da sacristia do Santuário da Quinta Angustia de Cacabelos, em pleno
Caminho de Santiago, uma obra popular que representa Santo António
ludicamente entretido a jogar às cartas com o Menino Jesus.
Esta relação cúmplice e de proximidade entre Santo António e os seus
devotos permite abordagens artísticas bastante arrojadas, como aquela que,
em 1912, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro oferece na sua escultura em
faiança, que se encontra no Museu da Cerâmica, nas Caldas da Rainha, e que
Almada Negreiros também desenhou em 1934 para representar o milagre da
bilha. Introduzido em meados do século XIX, este episódio conta como Santo
António terá concertado a bilha de barro que uma rapariga teria deixado cair,
na fonte, por se encontrar distraída a pensar no namorado.
Aliás, a barrística portuguesa tem perpetuado a imagem de Santo
António no imaginário colectivo. Santo António multiplica-se numa profusão
surpreendente de reproduções que evidenciam o cariz mais popular e mais
inovador da sua figura e do seu culto. Realizam-se por todo o país inúmeras
feiras e exposições de artesanato que exibem uma panóplia interminável de
representações artísticas de Santo António. Realço a Exposição Antoniana que
a galeria “A Arte da Terra”, inicialmente em Almada e agora em Lisboa, junto à
Sé, tem vindo a organizar desde 2003, durante o mês de Junho. Aproveito para
agradecer aos seus proprietários, Filomena Frade e António Ramos, as
fotografias que gentilmente me cederam de algumas peças mais significativas
que estiveram em exposição e que revelam que Santo António continua a
suscitar o interesse dos artesãos portugueses, dos quais destaco Júlia
Ramalho, Mistério e Família, irmãs Flores, Família Baraça, Augusto Ferreira,
Manuel Carvalho, José Cunha, Luís Alenquer, Rita Matias, etc.
Bastante inovadora é também a representação de Santo António através
da escultura em ferro forjado, da autoria de J. Espinós, de 1981, que se
encontra na Capela do Colegio de San Antonio, em Carcaixent, Valência, e que
representa Santo António na companhia de São Francisco e de Santa Maria
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dos Anjos, remetendo para as primeiras representações do santo na pintura,
quando era habitual fazer-se acompanhar de outros santos.
Como podemos observar, a pintura e a escultura eruditas têm
reproduzido a imagem de Santo António jovem, alto e magro, correspondendo
ao retrato físico que os já referidos exames antropométricos, realizados em
1981, puderam apurar. Registe-se, no entanto, como excepção, o óleo
quinhentista sobre madeira de autor desconhecido, que constitui um caso raro
de representação de Santo António hidrópico. Este quadro, que no reverso
apresenta a pintura de uma caveira, é atribuído ao Mestre da Lourinhã por Luís
Reis Santos (1945: p. 11).
A azulejaria e a imaginária de feição popular têm reproduzido a imagem
de Santo António, baixo e rechonchudo que se presta a todo o tipo de
aproveitamentos, até os mais inesperados como aqueles que se registam na
área da publicidade. De facto, a imagem de Santo António é aproveitada para
vender lotaria, óculos, sabonetes, vinho, móveis ou cremes.
O estudo que agora se publica refere apenas alguns exemplos extraídos
de entre a interminável galeria de representações em torno da figura de Santo
António, tendo em conta as limitações de páginas que um trabalho desta
natureza implica. Torna-se, naturalmente, impossível desenvolver todas as
abordagens pertinentes, como as que decorrem da forte ligação entre Santo
António e as crianças, dos seus poderes no campo da fertilidade que
determinaram a construção do maior ex-voto que lhe é dedicado através da
Igreja e do Convento de Mafra, do forte impulso que o culto recebeu após o
terramoto de 1755 e das consequentes obras de recuperação da Igreja de
Santo António, em Lisboa, e da associação da sua imagem à distribuição de
pães pelos pobres que subjaz à acção social desenvolvida pela Igreja-Casa,
por exemplo.
Para concluir, podemos afirmar que as artes plásticas, a par da
literatura, tanto eruditas como populares, enquanto formas de expressão
cultural, encontraram e continuam a encontrar em Santo António um tópico
recorrente que aparece numa grande variedade de registos que retratam a sua
vida e a sua taumaturgia, bem como demonstram a evolução do culto
13
antoniano e que contribuem para que a sua figura permaneça tão viva na
memória colectiva e no imaginário cultural no espaço ibérico.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
Banda y Vargas, Antonio (1996). Temas antonianos en la pintura barroca
sevillana.
In
Actas
do
Congresso
Internacional
Pensamento
e
Testemunho: 8º Centenário do Nascimento de Santo António (1º Vol, pp.
321-330).
Braga:
Universidade
Católica
Portuguesa
e
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Revista RecreArte 11
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