Revista RecreArte 11 DIC09 Revista RecreArte 11 > III - Creatividad en las Artes: Expresividad Vivificadora David de Prado Díez Santo António no Espaço Ibérico: expressão artística criativa Isabel Dâmaso Santos Centro de Tradições Populares Portuguesas Universidade de Lisboa A figura de Santo António ocupa um lugar muito especial no imaginário cultural português, mas é também considerado património cultural ibérico, europeu e universal. De facto, o culto de cariz religioso que suscitou, a partir do segundo quartel do século XIII, logo após a sua morte, ou até ainda em vida, tem vindo a ganhar novos contornos quer através do processo de contaminação e de absorção de aspectos relacionados com outros cultos não só religiosos como também pagãos, quer pela renovação incessante com que nos tem surpreendido ao longo dos tempos. Santo António, pela sua biografia, pela sua taumaturgia e pelo culto que envolve a sua figura, revela-se desde cedo um caso extraordinário de popularidade e de criatividade. A literatura, a arte e a tradição têm delineado a imagem de Santo António, reinventando-a e perpetuando-a na memória colectiva, contribuindo para a redefinição da dimensão excepcional que a sua figura alcança enquanto referência identitária. A biografia de Santo António revela um homem com um trajecto de vida muito rico e pouco convencional para a sua época. Com base em relatos medievais que constituem fontes histórico-hagiográficas1 é possível proceder à reconstituição do percurso biográfico de Santo António e apurar que terá 1 Vita Prima ou Assidua (Beati Antonii Vita Prima): 1232, franciscano paduano anónimo; Vita Secunda (Vita Sancti Antonii Confessoris): entre 1235 y 1240, Julião de Spira; Dialogus (Dyalogus de gestis beati Antonii): 1245, anónimo franciscano italiano; Legenda Benignitas (Legenda Sancti Antonii presbyteris et confessoris): 1280, João Peckham; Legenda Raimondina (Vita Sancti Patris Antonii de Padua): 1293, Fr. Pierre de Raymond de SaintRomain; Legenda Rigaldina (Vita Beati Antonii de Ordine Fratrum Minorum): entre 1298 y 1317, Jean Rigauld; Liber Miraculorum Sancti Antonii: finais do século XIV, autor anónimo. nascido no lugar que actualmente corresponde à cripta do templo que lhe é consagrado e designado Igreja-Casa de Santo António, junto à Sé, em Alfama. Quanto à data exacta do seu nascimento persistem algumas dúvidas pois nenhuma destas fontes a indica claramente. Assim, a tradição convencionou como data do seu nascimento o dia 15 de Agosto de 1195, dia da Assunção de Nossa Senhora, de quem viria a ser grande devoto. No entanto, a partir dos exames antropométricos realizados em Pádua em 1981, por ocasião da quarta exumação do seu corpo, quando se assinalou a passagem dos 750 anos sobre a sua morte, foi possível concluir que Santo António teria, à data da morte, cerca de 40 anos, mais precisamente 39 anos e 9 meses, contrariando a convicção de que o santo teria 36 anos quando falecera, informação introduzida em 1280 pela Legenda Benignitas e posteriormente reiterada pelas fontes que se lhe seguiram. Esta descoberta veio fazer recuar a data de nascimento de Santo António para 1191, embora se continue a assinalar a data tradicional, como aconteceu aquando das comemorações do oitavo centenário do seu nascimento, programa que se estendeu ao longo do ano de 1995. Sabe-se que Santo António foi baptizado com o nome de Fernando Martins, na Sé de Lisboa, local onde ingressou com 7 ou 8 anos para frequentar os estudos na escola episcopal. O apelido Bulhões, pelo qual o santo tem sido conhecido, foi-lhe atribuído, não se sabe com que fundamento, por Frei Marcos de Lisboa, no século XVI, autor que reforçou também as origens nobres conferidas ao santo, a partir da Legenda Dialogus (1245) e referidas pelas fontes seguintes2. Verificamos, então, que alguns dados biográficos de Santo António que chegaram até à actualidade de forma inquestionável resultam, afinal, da capacidade criativa e efabulativa da tradição e da devoção expressas através da literatura e da arte. Refiro dois exemplos que me parecem muito curiosos e reveladores desta capacidade criativa dos artistas que se dedicaram à ilustração de obras sobre a vida e a taumaturgia do santo: uma gravura, da 2 Note-se que a origem social nobre do santo constitui um tópico hagiográfico que justifica esta tendência de enobrecer as origens de Santo António, verificada ao longo dos tempos, à medida que aumentava a sua popularidade. 2 autoria de Pastor, que integra a obra intitulada Vida e Milagres de Santo António de Lisboa, da autoria de Fernando Thomaz de Brito (1894) e que reproduz o momento em que Santo António terá saído da Sé ao colo da sua mãe no dia do seu baptizado; um desenho, da autoria de Émile Probst, que representa Santo António sentado numa carteira da escola primária e que ilustra o livro infantil de João Maia (1971) intitulado Santo António de Lisboa. Pensa-se que por volta de 1212 Fernando Martins ingressou na Ordem dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, onde permaneceu dois anos, até ser transferido para o Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra. Terá sido na biblioteca deste mosteiro conimbricense, um dos mais prestigiados centros de cultura monástica da época, que Fernando Martins se formou intelectual e teologicamente da forma tão sólida e brilhante com que viria mais tarde a impressionar o público ouvinte, já no seio da Ordem dos Frades Menores, na qual ingressou, em 1222, em Santo Antão dos Olivais, em Coimbra, recebendo o nome de António, em homenagem a Santo Antão Abade e Eremita, padroeiro do Convento dos Olivais. E é, de facto, a figura do santo franciscano que a arte, erudita e popular, tem reproduzido ao longo dos tempos. Na verdade, não abundam as imagens de Santo António vestido com o hábito de agostiniano, no entanto, podemos assinalar alguns exemplos de arte erudita que conservam a imagem desta fase determinante da vida do santo, como a estátua que se encontra na fachada do Mosteiro de São Vicente de Fora, em Lisboa, ou as imagens em madeira policromada, uma do século XVI, que se encontra na Igreja de Santa Cruz em Coimbra, outra do século XVIII, que se encontra na Sé de Lisboa. O momento simbólico da troca do hábito pelo burel ficou eternizado por Pascoal Parente, no século XVIII, num óleo que se encontra na sacristia da igreja de Santo António dos Olivais. Esta mudança de ordem religiosa constitui, desde logo, um rasgo marcante do carácter extraordinário de Santo António, tanto mais porque se crê que terá sido fortemente motivada pela vontade de se tornar mártir em Marrocos, à semelhança do que tinha acontecido, por essa altura, com um pequeno grupo de cinco franciscanos, enviados a pregar a Espanha e a 3 Marrocos, onde foram martirizados e cujos restos mortais, transformados em relíquias, foram recolhidos no Mosteiro de Santa Cruz, por influência do infante D. Pedro, irmão de D. Afonso II. Este ideal de cruzada a par do fascínio pela vida simples e humilde que Santo António encontrou no seio desta Ordem, que começava a difundir-se em Portugal, condicionaram definitivamente a sua orientação e levaram-no a querer seguir o exemplo franciscano. Pensa-se que alguns abusos que Santo António presenciou na vida desregrada de alguns elementos do Clero poderão ter contribuído também para esta decisão. Trocava, então, a vida luxuosa e dedicada ao estudo, que levava em Santa Cruz, pela vida simples da oração e pela ambição do martírio. E assim partiu, esse mesmo ano, para Marrocos com o objectivo de difundir a fé. No entanto, adoeceu e teve que regressar a Lisboa, mas uma enorme tempestade encaminhou o barco para as costas da ilha Sicília, em Itália, onde foi acolhido num convento de franciscanos. E foi em Itália que se destacou pela eloquência e pela sabedoria com que pautava os seus discursos e as suas pregações e com que sublimou a sua missão evangelizadora, difundindo a fé e convertendo muitos infiéis, acção imortalizada no painel de azulejos, do século XVII, que se encontra na Igreja do Penedo, em Colares, Sintra. O sobejamente conhecido e reproduzido sermão de Santo António aos peixes, ao qual me referirei de novo mais adiante, trata-se de um episódio que se reporta a esta fase da vida de Santo António pregador. Em 1223, São Francisco de Assis incumbiu Santo António de ensinar Teologia em Bolonha, consagrando-o, assim, como o primeiro Leitor, Mestre ou Doutor de Teologia da Ordem Franciscana, num impulso inovador quer para a Ordem, ao tornar compatíveis a piedade e o estudo, quer para Santo António ao ser-lhe reconhecido este talento pioneiro. A sua presença fez-se também sentir no Sul de França, para onde foi enviado com o intuito de combater a heresia e onde desenvolveu acções determinantes para a evangelização, para a fundação de alguns conventos (como em Brives), para a renovação de outros conventos (como Bourges ou Limoges) e ainda para a abertura de escolas de Teologia (como em Montpellier e em Toulouse). Mais tarde, dedicou-se a concluir a redacção dos seus sermões, considerados autênticos guias de 4 pregação para os franciscanos: os Sermones Dominicales (concluídos) e os Sermones Festivi (inacabados) compilados na obra Opus Evangeliorum3. Em meados de Maio de 1231, sentindo-se cansado, retirou-se para o eremitério de Camposampiero, perto de Pádua, recolhendo-se numa cela construída no topo do tronco de uma nogueira. A 13 de Junho, pressentindo a morte, pediu aos companheiros que o levassem para Santa Maria de Pádua, onde desejava morrer, acabando por falecer perto de Pádua, no Mosteiro de Arcella. Só no dia 17 de Junho foi possível transportar o seu corpo para Pádua, depois de ultrapassadas as divergências em torno do local onde deveria ser sepultado. Com base na sua vida exemplar e no relato de inúmeros milagres realizados por sua intercessão, deu-se início, de imediato, ao processo de canonização, considerado o mais rápido de sempre4, que culminou a 30 de Maio de 1232, dia do Espírito Santo, em Spoleto, quando o Papa Gregório IX inscreveu Santo António no Catálogo dos Santos e fixou a data da sua festa anual para 13 de Junho. A 16 de Janeiro de 1946, o Papa Pio XII proclamou Santo António como o primeiro Doutor da Igreja da Ordem Franciscana e o único português Doutor da Igreja, como forma de reconhecimento solene pela intelectualidade doutrinária que imprimiu aos sermões que redigiu. Santo António, reconhecido como o santo de todo o mundo, foi considerado em assembleia pública na cidade de Brives, em 1989, como o primeiro santo de perfil verdadeiramente europeu, na medida em que seguiu e difundiu os “princípios da moderna Doutrina Social da Igreja, ou seja, Solidariedade, Subsidiariedade e Universalismo (que, em termos modernos, inclui o pluralismo, a tolerância, o ecumenismo, a participação e a partilha)” (Melícias: 1996, p.278). 3 As mais recentes edições portuguesas destes sermões são: Santo António de Lisboa, Biografias – Sermões, Braga, Ed. Franciscanas, 1998, vols. I-III; REMA, Henrique Pinto, Sermões de Santo António – Antologia Temática, Colecção Obras Clássicas da Literatura Portuguesa – Literatura Medieval, 2 vols., Porto, Lello Edições, 2000. 4 Apesar de Santo António ser indicado como o santo que mais rapidamente foi canonizado, V. Gamboso, na nota 9, da página 439, da Assidua, refere o caso do mártir dominicano S. Pedro de Verona, falecido a 6 de Abril de 1252 e canonizado a 9 de Março do ano seguinte. 5 Em suma, as opções de vida que Santo António tomou e a simplicidade, a dedicação e a sabedoria com que as cumpriu revelam o seu carácter determinado, pioneiro, destemido e aventureiro, que lhe permitiu destacar-se no seu tempo e alcançar uma projecção universal ímpar. O culto que, desde cedo, surgiu em torno da sua figura assenta precisamente no seu exemplo de vida mas também na sua taumaturgia, acrescentada pelas sucessivas fontes, e ainda na capacidade renovadora com que a devoção popular tem delineado a sua imagem e contribuído para a evolução criativa do seu culto. Ao longo da primeira metade do século XX, por exemplo, o culto antoniano viu-se renovado e reforçado através de várias manifestações. Embora se tenham generalizado as cerimónias religiosas e os festejos populares em honra do santo um pouco por toda a parte, a cidade de Lisboa tem tido uma relação privilegiada com o santo e em 1953, através do despacho do Diário do Governo nº 119, 2ª Série, de 6 de Junho, foi decretado que o dia 13 de Junho se tornasse feriado municipal da cidade de Lisboa, consagrando-o também seu padroeiro, a par de São Vicente, cujas insígnias se mantêm na heráldica lisboeta. De facto, ao longo dos tempos, Santo António foi frequentemente referido como patrono da cidade de Lisboa e de Portugal. No entanto, só a 13 de Junho de 1934, o Papa Pio XII designou oficialmente Santo António como padroeiro de Portugal, juntamente com a Imaculada Conceição. E também a partir de 1934, o desfile das marchas populares foi incorporado no Programa das Festas de Lisboa, com o patrocínio da Câmara Municipal, embora a primeira edição tenha acontecido no Parque Mayer, por iniciativa do seu director, em 1932, ano em que se comemorou o sétimo centenário da canonização de Santo António. O cinema português desempenhou um papel divulgador desta tradição das marchas populares, através de dois filmes: A Canção de Lisboa (1933) e O pátio das Cantigas (1941). Em 1952, a Câmara Municipal de Lisboa e o jornal Diário Popular passaram a organizar o Concurso de Noivas de Santo António que continua a realizar-se ainda que sujeitos a um regulamento diferente, uma vez que as cerimónias de casamento foram alargadas a outras confissões ou ao Registo Civil e os casamentos religiosos realizam-se actualmente na Sé. Todas estas manifestações da popularidade de 6 Santo António assentam no enorme carinho que os devotos sentem pela sua figura difundida pela fama dos seus maravilhosos milagres. A taumaturgia atribuída a Santo António desde as fontes medievais fundamenta-se no relato de milagres originais operados por intercessão do santo mas recorre também, por vezes, ao processo de contaminação com a taumaturgia de outros santos, como é vulgar acontecer. Veja-se, por exemplo, a capacidade de protecção dos animais, nomeadamente dos porcos, prerrogativa que recebeu de Santo Antão, assim como o bordão com que chegou a ser representado. Por outro lado, o episódio do sermão às aves protagonizado por São Francisco de Assis poderá estar na origem do milagre que Santo António operou, ainda em criança, quando domou divinamente os pássaros que costumavam atacar as culturas agrícolas do seu pai. Este feito encontra-se ilustrado em Banda Desenhada da autoria de Jordi Longaron, no livro infantil Santo António de Lisboa – Missionário Fora de Série, de Francesc Gamissans. Aliás, este episódio maravilhoso encontra-se também relatado sob a designação de “Santo António e os Passarinhos”, que conta apenas com cinco versões portuguesas no Romanceiro, todas recolhidas na zona de TrásOs-Montes, a par de vinte e uma versões em castelhano (dezanove da zona de Castela e duas da Catalunha). Na verdade, o culto antoniano difundiu-se em Espanha acompanhando o processo de expansão da Ordem Franciscana e contando com o impulso da monarquia. São conhecidos vestígios da rápida integração do culto antoniano na vivência espanhola, tais como a fundação de diversos conventos, igrejas, hospícios e confrarias sob a égide de Santo António, assim como a inclusão da sua figura em muitos templos, um pouco por todo o espaço ibérico. Pela mão e pela fé dos franciscanos que acompanharam os descobridores portugueses e espanhóis, a imagem de Santo António espalhouse por todas as partes do mundo, miscigenando-se, muitas vezes, com divindades locais. Santo António transforma-se e pode ser o “negro, ou o indu ou o de tradição afro-brasileira” (Ganho: 2001, p. 54), como atesta um interessante conjunto de figuras que se encontram no Museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, que representam Santo António com traços fisionómicos 7 característicos das culturas em que se integrou; podemos encontrá-lo com feições orientais, africanas ou índias. Ainda que as representações do santo na arte sejam escassas ao longo dos séculos XIII e XIV, é de referir que o catálogo do leilão de Outono de 2006 da madrilena Casa Fernando Durán (lote320) aparece uma pintura de grandes dimensões identificada pelos técnicos como pertencente à escola catalanoaragonesa do século XIV e por eles intitulada “Santo franciscano com Santa Catarina de Alexandria e Santo André”. Se observarmos os atributos com atenção (o livro na mão e o Menino Jesus no coração) e a cena superior que representa o milagre da mula, um dos mais difundidos da sua taumaturgia, podemos concluir que este santo franciscano é Santo António. Esta pintura a óleo permite-nos verificar que o milagre da mula ou da adoração da Eucaristia, actualmente quase desconhecido, foi dos milagres mais divulgados pela oportunidade da mensagem de conversão de hereges, pois conta-se como uma mula faminta se ajoelhou perante a hóstia sagrada, ignorando um molho de feno, o que levou à conversão do seu dono à fé cristã. Este milagre, introduzido pela Legenda Benignitas (fim do século XIII), juntamente com o milagre da pregação aos peixes, introduzido pela Legenda Rigaldina (início do século XIV), encontram-se reproduzidos nas iluminuras, atribuídas a António de Holanda, que integram o Livro de Horas de D. Manuel, de inícios do século XVI. No fólio 276, no quadro principal, junto ao texto da oração, vê-se o milagre do sermão, presenciado ainda ao longe pelo Menino Jesus e, nas tarjas, assiste-se ao milagre eucarístico. No fólio 293, no quadro principal vê-se Santo António com a imagem do Menino Jesus, desta vez, no lugar do coração, e o santo encontra-se apoiado num bordão, o que remete para uma contaminação com a iconografia de Santo Antão. Nas tarjas, assistese ao milagre da mula, ao fundo, e ao milagre do sermão, que remete inevitavelmente para uma contaminação com o sermão de São Francisco às aves. Como podemos verificar, nestas reproduções ainda não aparece um dos símbolos que passará a fazer parte da iconografia antoniana: a açucena ou o lírio, introduzidos pelos italianos em finais do século XV. Por outro lado, o Menino Jesus passará rapidamente para os braços de Santo António, em pé ou 8 sentado em cima de um livro que representa a Bíblia Sagrada. A introdução do Menino Jesus como símbolo iconográfico decorre do relato do milagre da aparição introduzido pelo Liber Miraculorum (finais do século XIV), largamente difundido quer em Portugal quer em Espanha, tendo servido de base para inúmeras biografias do santo que se têm escrito até à actualidade pois reúne os principais passos da vida e da taumaturgia do santo, cristalizados pela tradição. É importante realçar que a arte tem representado, ao longo dos tempos, este milagre da aparição do Menino Jesus das mais variadas formas. Perante o vastíssimo e diversificado leque de representações artísticas deste milagre, limito-me a referir apenas alguns exemplos que se destacam pelo carácter inovador que lhe conferem no espaço ibérico. Distingo a pintura a óleo sobre madeira, da autoria de Frey Carlos, século XVI, que se encontra no museu Nacional de Arte Antiga, em Lisboa, e que inova na forma de apresentação do Menino Jesus que aparece a brincar com os livros sagrados. O especialista José Luís Porfírio (1996) considera que esta atitude do Menino resulta na “primeira afirmação figurativa em português de que a alegria é a coisa mais séria da vida” (p. 158). O mesmo especialista sublinha também a originalidade da representação de Santo António, criada em 1898 por Columbano Bordalo Pinheiro, na pintura a óleo sobre tela que se encontra no Museu do Chiado, em Lisboa, que, por um lado, acentua o efeito de surpresa que o aparecimento do Menino Jesus provoca em Santo António que o leva a deixar cair no chão o livro sagrado, e, por outro lado, teve como modelo para o rosto do santo a noiva do próprio autor (p. 163). Note-se igualmente a profusão de representações deste milagre por parte dos grandes pintores espanhóis pertencentes ao florescente período artístico designado Siglo de Oro, como Francisco de Zurbarán, Murillo, Alonso Cano, Francisco Herrera, Claudio Coello, Juan Valdés Leal, etc. Tenho que particularizar o óleo sobre tela intitulado “Visión de San Antonio de Padua” que se encontra na Capela de Santo António da Catedral de Sevilha, no qual Murillo introduz o círculo de anjos que emolduram o menino Jesus no momento da sua aparição e que viria a tornar-se um elemento frequente, bem como a 9 mesa de madeira que se pode observar no lado direito e cuja tipologia entrou na linguagem sob a designação de “mesa de Santo António”. Outro grande pintor espanhol, Goya, encontrou na taumaturgia de Santo António um tópico para o seu labor artístico, nomeadamente no milagre da salvação do pai. Introduzido pelo Liber Miraculorum, conta-se como Santo António veio a Lisboa e, por graça divina, fez falar o defunto perante o juiz para confirmar a inocência do pai do santo, acusado injustamente do assassinato. Goya, com base neste episódio, concebeu uma das obras memoráveis da arte espanhola: os frescos que decoram as abóbadas e a cúpula da Igreja de Santo Antonio de la Florida, em Madrid, e que primam pela originalidade da forma e da teatralidade que o autor conseguiu imprimir, transformando cada figura pintada numa personagem carregada de expressividade. A azulejaria portuguesa coetânea conseguiu também transmitir esta dinâmica cénica em painéis como o que se encontra na Ermida de Santo António do Vale, em Lisboa. O painel de azulejos serviu de inspiração para a pintura a óleo sobre tela, datada de 1946 e assinada por Vieira da Silva, que, numa versão estilizada e modernizada, representa o milagre do sermão aos peixes. Outra representação deste emblemático milagre e que se pode considerar bastante inovadora do ponto de vista plástico é o baixo-relevo em madeira, do século XVII, que se encontra no Museu Nacional Soares dos Reis, no Porto. No século XVII surgiu em Portugal uma nova faceta da figura de Santo António e do seu culto: a vertente militar, que constitui um caso extraordinário de criatividade no processo de renovação do culto. Esta devoção teve início durante as guerras peninsulares, intensificando-se durante as lutas contra os franceses, em consequência da fé na vitória que os soldados sentiam quando se encontravam sob a protecção de Santo António. Santo António chegou mesmo a assentar praça em vários regimentos, os soldados transportavam consigo uma imagem do santo e muitos locais de defesa estratégica receberam a invocação de Santo António. O Museu Municipal de Lagos, contíguo à Igreja de Santo António, guarda a imagem do santo e o respectivo altar de campanha que os soldados do Regimento de Infantaria desta cidade transportavam consigo aquando das suas batalhas. Esta tradição militar de Santo António 10 encontra-se também expressa no magnífico retábulo da Igreja Conventual de São Francisco, em Lorca, concebido por Jerónimo Caballero, no século XVII, onde podemos admirar oito alto-relevos que representam os mais conhecidos milagres do santo. Este retábulo foi encomendado como forma de agradecimento pela vitória dos lorcanos contra o Marquês de Vilhena. Como percebemos, as várias formas de expressão artística têm conseguido plasmar não só o perfil mais espiritual de Santo António como também as suas facetas mais populares, irradiando a evolução do culto em torno da sua figura. No século XVII, Padre António Vieira, que recorreu à figura de Santo António como tópico para nove dos seus sermões, referiu-se a ele nos seguintes termos, em 1653, no seu sermão em S. Luís do Maranhão (Tomo VII, p. 242): Se vos adoece o filho, Santo António; se vos foge o escravo, Santo António; se mandais as encomendas, Santo António; se esperais o retorno, Santo António; se requereis o despacho, Santo António; se aguardais a sentença, Santo António; se perdeis a menor miudeza de vossa casa, Santo António; e talvez se quereis os bens da alheia, Santo António. Este excerto demonstra claramente a popularidade de que Santo António gozava no século XVII, decorrente da polivalência na resolução de toda a classe de problemas dos seus devotos, nomeadamente na recuperação de objectos perdidos. No entanto, nesta altura, ainda não lhe eram reconhecidos os dotes de casamenteiro que viria a receber em meados do século XIX, a partir da tradição popular. Esta devoção rapidamente se estendeu a todo o território e até além fronteiras, nomeadamente à vizinha Galiza, como podemos verificar na obra poética de expressão galega de Rosalía de Castro que recupera um cantar popular local que serve de mote à composição intitulada “San Antonio bendito” que integra Cantares Gallegos desde a sua primeira edição em 1863: San Antonio bendito Dádeme un home Anque me mate Anque me esfole Com efeito, pode-se considerar que o culto antoniano na Galiza é bastante significativo tendo em conta, por exemplo, a quantidade e a qualidade 11 de pinturas e esculturas de imagens de Santo António nas igrejas da região. A Catedral de Santiago de Compostela conta com uma capela de Santo António que demonstra a importância do santo para os galegos. Testemunho desta relação amigável única é o relevo em madeira que se encontra numa das portas da sacristia do Santuário da Quinta Angustia de Cacabelos, em pleno Caminho de Santiago, uma obra popular que representa Santo António ludicamente entretido a jogar às cartas com o Menino Jesus. Esta relação cúmplice e de proximidade entre Santo António e os seus devotos permite abordagens artísticas bastante arrojadas, como aquela que, em 1912, Manuel Gustavo Bordalo Pinheiro oferece na sua escultura em faiança, que se encontra no Museu da Cerâmica, nas Caldas da Rainha, e que Almada Negreiros também desenhou em 1934 para representar o milagre da bilha. Introduzido em meados do século XIX, este episódio conta como Santo António terá concertado a bilha de barro que uma rapariga teria deixado cair, na fonte, por se encontrar distraída a pensar no namorado. Aliás, a barrística portuguesa tem perpetuado a imagem de Santo António no imaginário colectivo. Santo António multiplica-se numa profusão surpreendente de reproduções que evidenciam o cariz mais popular e mais inovador da sua figura e do seu culto. Realizam-se por todo o país inúmeras feiras e exposições de artesanato que exibem uma panóplia interminável de representações artísticas de Santo António. Realço a Exposição Antoniana que a galeria “A Arte da Terra”, inicialmente em Almada e agora em Lisboa, junto à Sé, tem vindo a organizar desde 2003, durante o mês de Junho. Aproveito para agradecer aos seus proprietários, Filomena Frade e António Ramos, as fotografias que gentilmente me cederam de algumas peças mais significativas que estiveram em exposição e que revelam que Santo António continua a suscitar o interesse dos artesãos portugueses, dos quais destaco Júlia Ramalho, Mistério e Família, irmãs Flores, Família Baraça, Augusto Ferreira, Manuel Carvalho, José Cunha, Luís Alenquer, Rita Matias, etc. Bastante inovadora é também a representação de Santo António através da escultura em ferro forjado, da autoria de J. Espinós, de 1981, que se encontra na Capela do Colegio de San Antonio, em Carcaixent, Valência, e que representa Santo António na companhia de São Francisco e de Santa Maria 12 dos Anjos, remetendo para as primeiras representações do santo na pintura, quando era habitual fazer-se acompanhar de outros santos. Como podemos observar, a pintura e a escultura eruditas têm reproduzido a imagem de Santo António jovem, alto e magro, correspondendo ao retrato físico que os já referidos exames antropométricos, realizados em 1981, puderam apurar. Registe-se, no entanto, como excepção, o óleo quinhentista sobre madeira de autor desconhecido, que constitui um caso raro de representação de Santo António hidrópico. Este quadro, que no reverso apresenta a pintura de uma caveira, é atribuído ao Mestre da Lourinhã por Luís Reis Santos (1945: p. 11). A azulejaria e a imaginária de feição popular têm reproduzido a imagem de Santo António, baixo e rechonchudo que se presta a todo o tipo de aproveitamentos, até os mais inesperados como aqueles que se registam na área da publicidade. De facto, a imagem de Santo António é aproveitada para vender lotaria, óculos, sabonetes, vinho, móveis ou cremes. O estudo que agora se publica refere apenas alguns exemplos extraídos de entre a interminável galeria de representações em torno da figura de Santo António, tendo em conta as limitações de páginas que um trabalho desta natureza implica. Torna-se, naturalmente, impossível desenvolver todas as abordagens pertinentes, como as que decorrem da forte ligação entre Santo António e as crianças, dos seus poderes no campo da fertilidade que determinaram a construção do maior ex-voto que lhe é dedicado através da Igreja e do Convento de Mafra, do forte impulso que o culto recebeu após o terramoto de 1755 e das consequentes obras de recuperação da Igreja de Santo António, em Lisboa, e da associação da sua imagem à distribuição de pães pelos pobres que subjaz à acção social desenvolvida pela Igreja-Casa, por exemplo. Para concluir, podemos afirmar que as artes plásticas, a par da literatura, tanto eruditas como populares, enquanto formas de expressão cultural, encontraram e continuam a encontrar em Santo António um tópico recorrente que aparece numa grande variedade de registos que retratam a sua vida e a sua taumaturgia, bem como demonstram a evolução do culto 13 antoniano e que contribuem para que a sua figura permaneça tão viva na memória colectiva e no imaginário cultural no espaço ibérico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Banda y Vargas, Antonio (1996). Temas antonianos en la pintura barroca sevillana. In Actas do Congresso Internacional Pensamento e Testemunho: 8º Centenário do Nascimento de Santo António (1º Vol, pp. 321-330). Braga: Universidade Católica Portuguesa e Família Franciscana Portuguesa. Brito, Fernando Thomaz (1894). Vida e Milagres de Santo António de Lisboa. Lisboa: Companhia Nacional Editora. Castro, Rosalía de (2001). San Antonio bendito. In Cantares Gallegos. Madrid: Ediciones Cátedra, pp. 88-90. Fornaciari, G., Mallegni, F., Ragaglini, G. (1981), Determinazione dell’etá della morte e analisi di alcuni quadri radiologici relativi a segmenti ossei di S. Antonio di Padova. Il Santo, 21 (1981), pp. 179 (363)-188 (372). Galhoz, Maria Aliete (1998). Santo António no Romanceiro Popular Português. In Em Louvor de Santo António de Lisboa (pp. 161-169). Lisboa: IgrejaCasa de Santo António. Gamboso, Vergilio (introdução, texto crítico, versão italiana e notas), (19811997). Fonti Agiografiche Antoniane, Padova, Edizione Messagero, Vol. I: Vita Prima; Vol. II: Officio e Vita Secunda; Vol. III: Dialogus e Benignitas; Vol. IV: Raymondina e Rigaldina; Vol. V: Liber Miraculorum. Gamissans, Francesc (1995). Santo António de Lisboa – Missionário Fora de Série. Braga: Editorial Franciscana. Ganho, Maria de Lourdes Sirgado (2001). O essencial sobre Santo António. Lisboa: Imprensa Nacional-Casa da Moeda. Maia, João (1971). Santo António de Lisboa. Lisboa: Verbo. Melícias, Vítor (1996). O pensamento social em Santo António. In Actas do Congresso Internacional Pensamento e Testemunho: 8º Centenário do 14 Nascimento de Santo António (1º Vol, pp. 275-281). Braga: Universidade Católica Portuguesa e Família Franciscana Portuguesa. Ortega Romero, Mª do Socorro Dolores (1996). San Antonio en la escultura gallega. In Actas do Congresso Internacional Pensamento e Testemunho. 8º Centenário do Nascimento de Santo António (Vol. I, pp.303-320). Braga: Universidade Católica Portuguesa e Família Franciscana. (1995) O Santo do Menino Jesus, Santo António – Arte e História. Lisboa: IPM e ICEP. Santos, Luís Reis (1945). Santo António na pintura portuguesa do século XVI. Lisboa: Editorial Ática. Vieira, Padre António (1995). Sermão de Santo António pregado na Dominga infra octavam de Corpus Christi com o Santíssimo Sacramento exposto em São Luís do Maranhão no Ano de 1653. In Sermões (Tomo VII, pp. 219-243). Porto: Lello & Irmão. 15 Revista RecreArte 11 DEC09 Revista Recrearte: 9 Director David de Prado Díez 9 Consejo de Redacción 9 Consejo científico Frey Rosendo Salvado nº 13, 7º B 15701 Santiago de Compostela. España. Tel. 981599868 - E-mail: [email protected] www.iacat.com / www.micat.net / www.creatividadcursos.com www.revistarecrearte.net / www.tiendaiacat.com © Creacción Integral e Innovación, S.L. (B70123864) En el espíritu de Internet y de la Creatividad, la Revista Recrearte no prohíbe, sino que te invita a participar, innovar, transformar, recrear, y difundir los contenidos de la misma, citando SIEMPRE las fuentes del autor y del medio.