porta-luvas
EDITORIAL
Leitores aprovam Porta-Luvas
Surpreendente a repercussão do primeiro
número da revista Porta-Luvas. Cartas e emails chegaram à redação, com comentários
que indicam o acerto em seu lançamento e no
seu conteúdo. Aumenta o nosso compromisso
com a cultura regional, o que procuramos
cumprir em mais este número.
A começar pela reportagem que aborda os
conceitos de cultura e de sua produção, o que
nos leva a rememorar tradições que se mantêm,
ainda que com novo foco, vivas na atividade de
muitas pessoas: o fogão a lenha, o grupo de
catira de Rio Claro e, com um pouco de história,
a primeira travessia aérea do Oceano Atlântico.
Em destaque, a matéria de capa que aborda a
realização do 33º Salão Internacional de Humor
de Piracicaba, um evento que dá graça à arte
de ver o mundo com bom humor.
Cultura também está presente na atuação
da OHL em diversas ações regionais, com o
recolhimento do imposto sobre serviços e com
apoios culturais, cujo registro nesta edição é a
comemoração do 68º aniversário da Orquestra
Sinfônica de Ribeirão Preto, completados juntos
com os 150 anos daquela cidade. Venha
conosco conhecer esses assuntos!
S U M Á R I O
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Mapeamento Cultural
Cidades beneficiadas pela cultura da
revista Porta-Luvas.
Artes Visuais
Salão Internacional do Humor de Piracicaba
atrai visitantes de todo o mundo
Fórum
Função da cultura é de encantamento e
transformação
Tradição Popular
Fogão a lenha resgata o sabor do
passado
Agenda
Confira as opções de lazer nos meses
de agosto, setembro e outubro.
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Tradição Popular
Catira - na batida da bota, na palma
da mão
Tradição
Guatapará – onde a cultura japonesa
é preservada há gerações
Patrimônio Cultural
João Ribeiro de Barros – a história de
um vôo inédito
Patrocinador
ISSQN – tributo com bom resultado e
Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto
Um Conto
Jurema, o Maná do Rei
Editor: Fernando Bueno - Milagre do Verbo Editora Ltda ME
Editora/Administrativo e Financeiro: Emana Imagem &
Cultura Ltda
Redação: Milagre do Verbo Editora Ltda ME
Colaboradores: Eduardo Fernandes Begnami e
Marcos Garcia
Distribuição gratuita
Editoração: Gilmar Elidio de Jesus (colaborador)
Tiragem: 150.000 exemplares
Proibida a reprodução total ou parcial de textos, fotografias e
ilustrações sem autorização da Emana Imagem & Cultura Ltda.
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ARTES VISUAIS
Aqui o humor é levado a sério
Salão Internacional de Humor de Piracicaba atrai
visitantes de todo o mundo em busca de diversão
criativa e rica em qualidade
Maria Cristina Marmilli
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Jaguar, Fortuna, Zélio, Glauco, Paulo Caruso,
Chico Caruso, entre outros, estiveram presentes
em várias edições e muitos deles tiveram suas
carreiras lançadas pelo Salão de Humor.
Segundo a diretora do Centro Nacional de
Humor de Piracicaba, Maria Ivete Araújo
Marcolino, a Zetti, com o passar dos anos o
Salão sofreu algumas mudanças e a principal
delas foi quanto à sua dimensão. “O Salão de
Foto: Maria Cristina Marmilli
Criado em 1974 por um grupo de jornalistas
piracicabanos para incentivar a descoberta de
novos talentos do humor gráfico e das histórias
em quadrinhos, o Salão Internacional de Humor
de Piracicaba é hoje um dos principais eventos
do universo das artes gráficas, da indústria
editorial e das histórias em quadrinhos,
reconhecido nacional e internacionalmente.
Durante todos esses anos, artistas de diferentes
par tes do mundo expuseram suas peças
retratando fatos históricos, temas jornalísticos
da atualidade, assuntos universais e
personalidades com muito humor e criatividade.
Combinação que atrai a cada edição um público
variado e cada vez maior.
A sua projeção no exterior foi consolidada
já no ano de 76, com as par ticipações de
Dickinson, editor da revista inglesa Punch;
Aragonês, da revista Mad e Sábat, do jornal La
Nácion, da Argentina. Nomes consagrados como
Angeli, Laerte, Ziraldo, Luis Fernando Veríssimo,
Zetti exibe orgulhosa as caricaturas que ganhou de vários artistas.
porta-luvas
de enviar seus trabalhos”, explica Zetti.
Os temas mais recorrentes eleitos pelos
artistas também variam ao longo dos anos de
acordo com o contexto da época em questão.
Arquiteto formado pela FAU/USP, o premiado
também que o evento foi um dos responsáveis
pelo aprimoramento das técnicas utilizadas. A
cada ano a gente percebe que os cartunistas
realizaram um amplo trabalho de pesquisa antes
cartunista e caricaturista Paulo Caruso faz uma
análise dessa evolução: “No final dos anos
setenta ainda era a crítica à ditadura, nos oitenta
o desmonte do comunismo, com a participação
dos artistas do Leste europeu,
como o ucr aniano Yurij
Kosobukin, ganhador em vários
salões. Logo a seguir o humor
de comportamento ocupou seu
espaço, ironizando as relações
machistas ou a religião, por
exemplo. Nos anos noventa em
diante comentários sobre a
violência, o terrorismo ou as
crises no abastecimento de
água ou petróleo se fizeram
presentes. Assim, sucessivamente, cada época tem o
humor que merece” , afirma
Caruso.
Laerte
Gilson Luiz Hypolito
humor passou a ter maior projeção nacional e
internacional e suas atividades paralelas foram
crescendo. Hoje há a exposição principal, várias
mostras paralelas, teatros, concurso de piadas
e shows humorísticos. É importante destacar
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porta-luvas
Realizado no Armazém 14 do Engenho
Central, em Piracicaba, o Salão de Humor deu
um grande passo para sua modernização no
ano de 2003 e várias propostas para seu futuro
foram discutidas em uma reunião que contou
com a presença de mais de 200 artistas. Os
destaques ficaram por conta da criação do
primeiro Salãozinho de Humor e das três
publicações coordenadas por Paulo Caruso: o
catálogo de 2003 e os livros “Os Quinze de
Piracicaba” e “Piracicaba 30 anos de Humor”,
um compêndio sobre as histórias do Salão,
desde sua criação.
Com mais de trinta
anos, o acervo do Salão
é constituído de 370
trabalhos com grande
valor histórico-analítico,
retratando cada época e
o sentimento que
nor teou a produção
cultural, além da visão
individual de cada artista.
“É um dos nossos mais
valiosos patrimônios no
ter reno das ar tes
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gráficas, cobiçado pelo mundo todo, como
atesta ao longo desses anos a participação dos
artistas estrangeiros”, avalia Caruso.
Em sua 33ª edição, o Salão deste ano será
realizado de 26 de agosto a 15 de outubro e
promete ser mais um grande sucesso.
Concorrerão artistas profissionais e amadores
em quatro categorias: car tum, char ge,
caricatura e tiras, com tema livre. Os premiados
receberão um total de R$ 25 mil em prêmios,
divididos entre os primeiros e segundos
colocados nas quatro categorias. Ar tista
homenageado da edição de
2006 do Salão, o gaúcho Adão
Iturrusgarai desenhou o cartaz
de divulgação do evento,
composto por várias cenas
trágicas, mas que ainda assim
extraem o riso dos personagens.
No ano passado a mostra
principal reuniu 245 trabalhos
nas quatro categorias, escolhidos
entre os 1800 desenhos vindos
de 27 países. A exposição foi
visitada por cerca de 50 mil
pessoas.
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Pequenos grandes
artistas
Jovens entre sete e 14 anos
são os grandes ar tistas no
Salãozinho de Humor de Piracicaba,
que é realizado pelo quarto ano
consecutivo com o intuito de
incentivar alunos da rede pública e
par ticular de ensino à prática
artística e desenvolver o humor
construtivo, o senso crítico e
intelectual.
A competição acontece nos
mesmos moldes do Salão
Internacional de Humor de
Piracicaba e é dividida em duas
categorias: alunos entre 7 e 10 anos
de idade e alunos entre 11 e 14
anos. A exposição dos trabalhos
selecionados acontecerá de 26 de
setembro até 15 de outubro,
paralelamente à mostra principal
do evento.
O que é?
Car
tum – piada gráfica com temas universais e
Cartum
atemporais.
Charge – representação gráfica de um tema
jornalístico da atualidade.
Caricatura – Deformação gráfica reconhecível
de personalidades.
Tir
as – arte gráfica em seqüência com enredo
Tiras
que se fecha em formato padrão, usualmente
publicado em colunas de jornal.
33º Salão de Humor de Piracicaba
Armazém 14 do Parque Engenho Central
Avenida Maurice Allain, 454, Piracicaba - SP - Fone: (19) 3403 2620
Visitação: abertura a partir das 20h no dia 26 de agosto / das 10h às 21h de 27 de agosto
até 15 de outubro. A entrada é gratuita.
www.salaodehumordepiracicaba.com.br
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porta-luvas
FÓRUM
Função da Cultura é de
encantamento e transformação
Jousy Mirelle
O termo Cultura – e suas variações, como
“Cultura de Massa”, “Boa Cultura”, “Cultura de
Botequim”, “Cultura Erudita”, etc. – é
abrangente, ninguém discorda. Mas o que arte
tem a ver com Cultura? O que é belo e o que
não é? Gosto se discute? Porta-Luvas reuniu
profissionais de áreas distintas, porém, com
vidas entrelaçadas pela arte e pelo ato de
fazer Cultura cotidianamente, para tentar
ampliar esta discussão. O que se descobriu
é que acadêmicos e artistas vêem a vida
por seus prismas pessoais, mas tanto uns
como os outros garantem: Cultura encanta
o corpo e a alma, tem a ver com
discernimento da própria vida e deve ser
praticada em sociedade.
Escritor reconhecido em todo Brasil,
Prêmio Jabuti 2000 com o livro “À Sombra
do Cipreste”, Menalton Braff é gaúcho de
Taquara, mas fincou raízes há anos na
pequena Serrana, ao lado de Ribeirão Preto.
Para ele, o homem se distingue dos outros
animais justamente por suas necessidades.
Para Menalton Braff, a arte tem que ser
questionadora
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“Cultura é alimento para a
alma, para a essência. Os bens
materiais
são
ilusórios,
passageiros e não condizem com
as verdades do íntimo”
Evandro Navarro
porta-luvas
Ribeirão Preto desde os anos 70. Eliana Maria
de Melo, professora doutora do Departamento
de Sociologia da Unesp (Universidade Estadual
Paulista), campus de Araraquara (SP),
acrescenta que os conceitos de Braff e Navarro
não podem ser aceitos sozinhos. “A Cultura faz
parte do discernimento. Ocupa uma dimensão
no espaço para discussão, como algo
intersubjetivo do aqui e do agora. Vai além do
preenchimento da alma. Tem a ver com a
relação do outro no espaço em que se vive”,
diz. Ela explica que Cultura não é algo para se
Foto: Tiago Morgan
“Queremos consumir valores éticos e
filosóficos. A Cultura tem função de encantamento e transformação de quem a consome.
A literatura faz isso bem. A narrativa busca
questões sobre o que somos e de onde somos.
O leitor fica curioso em saber como é o outro
através do personagem da história”, emenda.
“Cultura é alimento para a alma, para a
essência. Os bens materiais são ilusórios,
passageiros e não condizem com as verdades
do íntimo” , afirma o músico mineiro de
Muzambinho, Evandro Navarro, radicado em
Folia de Reis em Ribeirão Preto é manifestação da cultura popular
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“Cultura é alimento para a alma”, Evandro Navarro
O poder transformador da Cultura fez com
que o artesão de Araraquara se tornasse uma
pessoa bem melhor, segundo ele próprio.
“Trabalho com madeira. Ela deve ser cortada
na direção do veio. Se eu tentar fazer de outra
forma, a madeira é perfurada, mas não consigo
cortá-la. O que quero dizer com isso é que com
minha arte aprendi a me disciplinar e fazer as
coisas de acordo com um planejamento. Torneime observador, atento aos sentimentos dos
outros”, conta.
Menalton Braff salienta que a arte da
literatura ajudou na formação de seu caráter.
“Quando era adolescente li um livro de Erico
Veríssimo, ‘Olhai os lírios do campo’. Era a história
de um médico que se casou por interesse, e
amava uma outra mulher. Depois que o seu
verdadeiro amor morreu, ele começou a mudar
seus valores. Eu comecei aí a formar os meus.
A arte não deve ser apenas reprodutora. Ela
tem que ser questionadora”, conclui.
Encenação da Paixão de Cristo em Ribeirão Preto é tradição
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Foto: Tiago Morgan
usufruir sozinho e, sim, partilhada e praticada
em sociedade, para que as pessoas possam
pensar sobre o que verdadeiramente é arte.
Para o artesão Jaivon da Silva Lima, também
de Araraquara, as pessoas confundem arte
com, por exemplo, decoração. “Hoje se coloca
um quadro em casa para combinar com as
paredes e com os móveis. Arte e cultura têm
que ter o poder de apresentar algo que já
conhecemos, mas que pode ser retratado de
várias maneiras. Os homens das cavernas, por
exemplo, desenhavam o cotidiano, não faziam
traços para combinar com cores”, ressalta.
A Cultura, segundo os artistas, não muda
somente o público que a consome, mas mexe
principalmente com eles mesmos. “A música é
tudo para mim. Ajudou na minha formação
moral e emocional. Aprendo muito ouvindo
outros artistas. De vez em quando falo: como
esse compositor conseguiu dizer exatamente
o que eu sinto? É claro que a música não tem
que explicar nada, mas ela acaba sendo
libertadora”, afirma Evandro Navarro. Para ele,
atualmente o que deve ser criticado é o grande
espaço que se dá a produtos de baixa qualidade
e o pequeno espaço para as grandes obras.
“Existe muita obra musical que deveria ser
conhecida por todos, mas que morre no
anonimato. A sociedade consumista quer música
que dure pouco”, desabafa.
Foto: Mariah Guazzelli
porta-luvas
porta-luvas
TRADIÇÃO POPULAR
Fogão a lenha resgata o
sabor do passado
“...Fogão de lenha, e uma rede na varanda.
Arrume tudo mãe querida, que seu filho
vai voltar”
(Trecho da música Fogão de Lenha, de Xororó, Carlos Colla e
Maurício Duboc).
Foto: Katia Fanticelli
Maria Cristina Marmilli
SP, José Carlos Victorello é especialista no
assunto e convive desde cedo com esse
equipamento tão tradicional da cultura brasileira.
Construiu seu primeiro fogão a lenha com
apenas quinze anos de idade: “E o fogão
funcionou!”, diz animado. Ainda jovem ganhou
uma bolsa de estudos do governo austríaco e
mudou-se para o país onde fez três anos de
estágio em siderurgia. “Eu aprendi sobre
refratários, isoladores térmicos, essas coisas
que um dia eu iria usar sem saber. Pois, na
época, eu fui trabalhar como executivo de
multinacional na área de peças para automóvel”,
conta Victorello.
Mesmo trabalhando na empresa, não
Foto: Katia Fanticelli
Ele é muito mais que um antigo item da
cozinha, utilizado por nossos avós. Com o passar
dos anos, o fogão a lenha ganhou um significado
muito especial e tornou-se uma figura de
resgate cultural, trazendo à tona boas
lembranças, estimulando a reunião da família
e dos amigos e fazendo da arte de cozinhar
um ritual em busca de prazer e sossego. Essa
nova função pode explicar a volta desse velho
conhecido às cozinhas em pleno século XXI,
caindo nas graças de um público bastante
variado, de diferentes idades e pertencente à
diferentes classes sociais.
Proprietário de uma oficina onde constrói
fogões e fornos a lenha, instalada em Araras-
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deixou de lado a paixão pelos fogões e
construía pelo menos uma peça por ano. Após
a aposentadoria, passou a se dedicar
inteiramente a esta atividade, fez seu primeiro
protótipo e o levou para o Instituto de Pesquisas
Tecnológicas de São Paulo
(IPT), que elaborou um
trabalho de mapeamento de
temperaturas internas. “Este
relatório nos permitiu
conhecer as verdadeiras
faixas de temperatura de
trabalho de um fogão a
lenha e, com isso, pudemos
fazer diversas correções e
modificações”, afirma.
Para o empresário de 61
anos, a volta do fogão a
lenha contribuiu para a
reconsideração da atmosfera familiar que havia
sido perdida. “Antes a cozinha era aquele
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espaço generoso, onde as famílias se reuniam,
eu fazia a lição da escola na mesa após o
jantar, meu pai ficava por ali, minha avó
costurava. Araras era uma cidade mais úmida,
então o calor do fogão a lenha deixava o
ambiente muito aconchegante”, relembra. “Com
a chegada do gás no final da década de 50,
virou moda tirar o fogão a lenha da cozinha,
que foi dividida e virou um ambiente mais
resumido. Mas de uns anos pra cá a função
cultural do fogão a lenha está sendo resgatada”,
analisa Victorello.
Um dos fatores que contribuíram para a
valorização do fogão a lenha fazendo com que
cada vez mais pessoas buscassem ter um em
casa é a modernização dos materiais utilizados
na construção das peças, porém preservando
aquele aspecto rústico e tradicional do fogão.
Segundo Victorello “o fogão dos nossos avós
era um fogão primitivo, construído com aquilo
que eles tinham, que era o tijolo e o barro. Esse
fogão demorava para acender e para esquentar;
para nossa atual realidade, ele seria inviável.
Hoje existem novos materiais, refratáveis e
isoladores térmicos que permitem um
aquecimento quase que instantâneo. No entanto
o fogão a lenha não pode perder a sua
rusticidade, e isso eu faço questão de
conservar”.
Foto: Katia Fanticelli
Foto: Katia Fanticelli
porta-luvas
Victorello construiu o primeiro
fogão aos 15 anos de idade
porta-luvas
Lugar de homem é na cozinha
Foto: Katia Fanticelli
Uma outra tendência que chega com a
volta dos fogões a lenha ao cotidiano das
famílias é a presença masculina na cozinha. O
homem se rendeu à arte de cozinhar e adotou
esta prática como um lazer nos finais de semana,
quando reúne a família e os amigos. Não é raro
vermos homens comprando suas panelas
preferidas, novidades em utensílios e buscando
temperos sofisticados em casas especializadas.
Nesse novo contexto, o fogão a lenha não
poderia ficar de fora e atrai cada vez mais o
interesse desses novos “cozinheiros”.
Reunião em família ao redor do fogão: Menegolli
com o filho Marcelo.
FOGÃO
A
LENHA
Falo simples
do velho pobre
Fogão a lenha
volta a ser nobre
Fogão a lenha
o que quer hoje
Dar paladar
do povo, longe
O empresário ararense Eduardo Menegolli
é um grande apreciador da culinária e cozinha
há 20 anos. Nas horas vagas, seu lazer preferido
é pesquisar sobre o assunto, reunir a família,
os amigos e preparar uma comidinha em sua
chácara, onde construiu um fogão a lenha. “Eu
fiz questão de construir esse fogão no lugar
onde o pessoal costuma ficar, assim eu cozinho
com todo mundo junto”, diz Menegolli.
Os três filhos do empresário herdaram do
pai a paixão pela culinária. “Toda vez que eles
estão na chácara, acendem o fogão logo pela
manhã e começam a pensar no que vão preparar.
Enquanto isso a lenha vai queimando e,
principalmente nessa época de frio, o clima
fica mais aconchegante ainda. É muito gostoso”.
E completa: “Além disso o fogão a lenha me
traz boas lembranças, pois tinha um na casa
da minha avó”.
Esta mesma lembrança tem o motorista
Carlos Alberto Grabert, que há quase três anos
construiu uma área de lazer no fundo de sua
casa onde também fez questão da presença
de um fogão a lenha. “Minha família morava
na zona rural e, desde que me lembro por
gente eu brincava na beira de um fogão. O
nosso recanto era ali, principalmente no inverno”,
recorda Carlos. De acordo com ele, cozinhar no
fogão a lenha tornou-se um ritual: “Enquanto
eu preparo a comida, a gente toma um vinho e
vai batendo um papo. Além disso a comida
tem um outro sabor, é muito bom”, fala.
Velho cravado
com chapa nova
Mostra paciência
e longa prosa
Resposta simples
do velho pobre
Fogão a lenha
volta a ser nobre.
Aparecida Donizeti
Denobile Grabert
(Doni)
Oficina Victorello - Rua dos Antúrios, 325, Jd. Sobradinho, Araras-SP
(19) 3541.3382 - victor
ello@f
.f.foo g aoalenha.com.br
victorello@f
ello@foo g aoalenha.com.br - www
www.f
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AGENDA
porta-luvas
ITAPIRA
Casa Menotti Del Picchia
Criado em março de 1987, o museu guarda
objetos, livros, roupas, fotos, pinturas e
esculturas do poeta Menotti Del Picchia. Itapira,
com sua paisagem rural, impulsionou a
decolagem literária de Menotti, e foi na fazenda
Santa Catarina que ele escreveu seu famoso
poema “Juca Mulato”. O museu pode ser visitado
de segunda a sexta das 13h às 17h. A entrada
é gratuita. Endereço: Parque Juca Mulato - Rua
Ribeiro de Barros, s/nº, Centro, Itapira - SP
(19) 3813 2010 - www.casamenotti.com
Espetáculo Raízes
Encerrando a comemoração do Jubileu de Prata
da 25ª Semana Juca Mulato, será realizado no
dia 25 de agosto o espetáculo “Raízes”, que
reúne apresentações de artistas locais em busca
do resgate folclórico regional e nacional. São
grupos de dança, a orquestra itapirense de
viola, grupo de catira, entre outras atrações.
Com entrada gratuita, o espetáculo acontecerá
a partir das 20 horas, no Ginásio de Esportes
Benedito Alves Lima (Itapirão), que fica na
Rua Duque de Caxias, Centro, em Itapira – SP.
Informações: (19) 3813 2010.
LIMEIRA
Foto: Katia Fanticelli
Festa do Peão
Acontece de 5 a 10 de setembro a 22ª edição
da Festa do Peão de Limeira, organizada pelo
Clube dos Cavaleiros do município. Durante os
seis dias de festa o público poderá conferir,
além das montarias em touros e cavalos, shows
musicais, boate e praça de alimentação com
várias opções de comidas e bebidas.
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A festa será realizada no bairro Jardim Morro
Azul, na área da UNICAMP.
www.festadopeaodelimeira.com
RIBEIRÃO PRETO
Cotidiano / Situações
Exposição do Cine Foto Clube Ribeirão Preto.
Parceria da Folha de São Paulo com a Secretaria
Municipal da Cultura de Ribeirão Preto e do
Marp (Museu de Arte de Ribeirão Preto “Pedro
Manuel-Gismondi”). No Espaço Cultural Folha
Ribeirão. Rua General Osório, 882, Ribeirão
Preto-SP. Visitação de segunda a sexta-feira,
das 9 às 18 horas (até dia 25/8). Informações
no Marp pelo fone (16) 3635-2421.
Pr
ojeto Acer v o PPer
er manente
Projeto
Busca dar visibilidade ao acervo do Marp em
um processo rotativo de obras, tendo como
meta fomentar o trabalho de pesquisa no museu
através da equipe de monitores. As obras do
acervo ficam em exposição no piso térreo do
Marp. Horário de visitação: de terça a sextafeira, das 9 às 18 horas. Informações (16)
3635-2421, das 9 às 12 e das 14 às 18
horas, [email protected].
Circuito Cultural
A Secretaria Municipal da Cultura oferece
monitoria pelos pontos culturais de Ribeirão
Preto. Roteiro: Palácio Rio Branco, Praça XV
de Novembro, Theatro Pedro II, Projeto Galeria
de Arte a Céu Aberto, museus Municipal e do
Café - Projeto Café da Manhã, Campus da USP,
Parque da Cultura “Antonio Palocci”, Santuário
das Sete Capelas e Marp. O transporte é de
responsabilidade do solicitante. Informações na
Secretaria Municipal da Cultura. Fone: (16)
3636-1206 e fax: (16) 3635-3660 [email protected].
Exposições Itinerantes da Casa da
Memória - Arquivo Público Histórico
de Ribeirão Preto
Guarda e preserva documentos sobre a história
e a memória de Ribeirão Preto, auxiliando
porta-luvas
estudantes e profissionais em pesquisas. De
segunda a sexta-feira as visitas podem
acontecer das 8h30 às 11h30 e das 13h30
às 17h30. Nos finais-de-semana e feriados,
abre mediante agendamento prévio. Rua José
da Silva, 915, Jardim Paulista. Fone (16)
3625-6712. [email protected]
Galeria de Ar te a Céu Aber to
Artistas plásticos expõem e comercializam suas
obras todos os domingos, das 9 às 14 horas,
na Praça Sete de Setembro. Os ar tistas
plásticos interessados em expor suas obras
podem obter mais informações pelo fone (16)
3636-1206. A programação paralela inclui
apresentação de grupos musicais, atividades
artísticas e exposição de Numismática e Filatelia.
J uv
entude Tem Concer to
uventude
Ribeirão das Serestas acontece no Coreto da
Praça Sete de Setembro (Aureliano de Gusmão)
às 20h30. Eventos gratuitos. Mais informações
(16) 3636-1206 - [email protected].
SÃO CARLOS
Festival Chorando Sem Parar
27 de Agosto das 10 às 22 horas. Praça XV
de Novembro. Músicos brasileiros e do exterior
apresentam-se tocando “chorinho”
to da
Primeir a Mostr a de Ar tesana
tesanato
Região Central
Até 31de Agosto das 8h às 19h30 no São
Carlos Clube. Participantes: Ar te da Terra
(Araraquara), Koisas da Terra (Analândia),
Jacaré Pepira (Brotas), Casa do Ar tesão
(Descalvado), Casa do Artesão (Itirapina) e
Aartescar (São Carlos).
SANTA GERTRUDES
Apresentação de concertos mensais, sempre
aos domingos, no Theatro Pedro II, com a
Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto, para
crianças, jovens, adolescentes e público em
geral. Agendamento de escolas e grupos pelo
fone (16) 3636-1206 ou pelo e-mail:
[email protected]. Convites podem
ser retirados nas bilheterias do Theatro Pedro II.
Ribeirão das Serestas
O Projeto Ribeirão das Serestas apresenta
grupos musicais da chamada Velha Guarda,
que resgatam a charmosa tradição das
serenatas na cidade. Na primeira sexta-feira
de cada mês o projeto apresenta uma serenata
na Praça XV de Novembro às 16 horas. Na
segunda sexta-feira, às 20 horas, no Jardim
Independência. Na terceira ela é itinerante. Na
última sexta-feira de cada mês o projeto
Feira de Livros, com contadores de histórias
De 9 a 15 de Outubro das 8h às 18h00 no
Salão de Eventos do Centro Cultural.
Informações: [email protected]
ITIRAPINA
Broa Classic
Encontro de aeronaves antigas e clássicas.
Segunda quinzena de setembro no Aerodromo
Dr. José Augusto de Arruda Botelho.
Informações: www.abaac.com.br
Foto: Banco de Imagem
Foto: Banco de Imagem
Mostr a D´Ar te
Artes plásticas, artesanato cerâmico, patrimônio
histórico. Lançamento de folder sobre Turismo
De 9 a 17 de Setembro no Salão de Eventos
do Centro Cultural.
Informações: [email protected]
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porta-luvas
TRADIÇÃO POPULAR
Na batida da bota, na palma da mão
Milena Ar thur
Catira – ou cateretê – é uma dança
folclórica cuja origem mais provável nos leva
ao descobrimento do Brasil. Os jesuítas, na
intenção de tornar a catequização dos índios
mais interessante, trouxeram para os ritos
religiosos essa dança que segue o ritmo da
música com batidas dos pés e das mãos. A
dança se espalhou pelo interior do Brasil e foi
adotada como a dança oficial do caipira. A
Foto: Banco de Imagem
Uma tradição familiar tão antiga que se
confunde com a fundação da própria cidade de
Rio Claro. Assim é a história da dança de catira
na região, que faz parte das celebrações da
família Honório desde o século 18. É o que
conta Fernando Basso, do grupo Catira Brasil,
que mesmo tendo pesquisado a extensa árvore
genealógica da família, não conseguiu
determinar a época em que seus antepassados
começaram a dançar a catira. Mas o avô de
Fernando, Sr. Olavo Honório, hoje com quase
88 anos, ainda se lembra das histórias que seu
pai, Joaquim, contava da época em que a catira
era dançada não apenas pela família, mas
também pelos escravos.
catira exige sempre um número par de
componentes (sem limite de número)
caracterizados com botas, chapéu e camisa de
manga longa. O grupo é liderado pelos palmeiros
(puxadores de palmas), que são sempre os
dois integrantes mais próximos dos violeiros,
para acompanhar o ritmo.
Duas gerações de catireiros:
Sr. Olavo Honório e seu neto,
Fernando Basso.
Foto: Divulgação
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Foto: divulgação
porta-luvas
O grupo Catira Brasil em apresentação neste ano, em Avaré.
O Catira Brasil
Em 1997 Fernando e seus primos
decidiram profissionalizar a catira. Criaram o
grupo Catira Brasil, formado por quatro
integrantes - Fernando, Marcos, Michel e Doeli
– todos músicos além de catireiros. A família
tem muitos catireiros, e qualquer um deles
pode ser chamado a integrar o grupo caso seja
necessário. Mas são os quatro que participam
dos ensaios e têm o compromisso de divulgar a
tradição da família. O primeiro CD, “Catira Brasil
e Amigos”, foi gravado em 2002 e o segundo
está a caminho. Atualmente o grupo não tem
violeiros fixos, mas nos shows conta com a
participação de vários cantores de renome como
As Irmãs Galvão, Mazinho Quevedo (padrinho
do grupo), Pena Branca, Vieira e Vieira Jr.,
entre outros.
O desafio do Catira Brasil é manter a
tradição mesmo com alguns ajustes impostos
pela modernidade. “Temos que modernizar para
manter o interesse do público e ao mesmo
tempo manter a catira viva”, explica Fernando
Basso. A tradição manda que a catira seja
acompanhada por música ao vivo e disso os
Honório não abrem mão. Mas a família
introduziu algumas novidades, como a presença
de mulheres, que antigamente não era
permitida. Doeli, a mais nova do time com
apenas 15 anos, é a segunda mulher a se
apresentar com o Catira Brasil.
Fernando diz também que “embora a catira
seja uma dança de origem sertaneja, garanto
que é possível encaixá-la em qualquer tipo de
ritmo.” Ele garante e comprova: o grupo já se
apresentou com bandas de rock e pop e até ao
ritmo do pagode de viola. Talvez seja essa
versatilidade que tenha levado o Catira Brasil a
se apresentar em tantos programas de
televisão, como “Raul Gil”, “Jornal Hoje”, “Viola
Minha Viola” da TV Cultura e até na MTV. As
participações em discos de outros artistas também
são uma constante: foram 12 desde 1997.
Para manter a tradição da família, Fernando
garante que uma nova geração já está a
caminho. Ele lembra que antigamente, as
crianças não eram propriamente ensinadas a
dançar; aprendiam assistindo às apresentações
nas festas da família. Hoje, crianças de apenas
cinco anos já estão com a catira na batida da
bota e na palma da mão.
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porta-luvas
TRADIÇÃO
Guatapará também fala japonês
Foto: Divulgação
Fernando Bueno
Os primeiros japoneses a povoarem Mombuca
A 48 quilômetros de Ribeirão Preto fica Mombuca,
bairro da pequena Guatapará e local onde a cultura
japonesa é preservada há gerações
A colônia japonesa de Mombuca, em
Guatapará (SP), é muito mais que um bairro
formado por japoneses e descendentes, que
construíram a vila emigrando do Japão depois
da 2ª Guerra Mundial. Os moradores de lá vivem
como uma grande família. Eles ajudam a
construir o Brasil que conhecemos, mas não
deixam que suas raízes se percam. Por meio
dos filhos e netos, a nova geração, continuam a
fazer com que Mombuca seja um pedacinho
do Japão. De acordo com os moradores, a
cultura japonesa é passada de pai para filho,
naturalmente, no dia-a-dia. Não existe
imposição, o que resulta em jovens conscientes
e curiosos em aprender sobre a terra de seus
20
antepassados.
Aya Inoue, de 24 anos, tem pai e
mãe japoneses, aprendeu a língua deles em
casa e na escola. Sempre ouve música pop,
mas suas preferidas são as japonesas. Gosta
de folclore, festas tradicionais e aprendeu a
fazer origami e bijuteiras. “Moro aqui desde
que nasci. Meus pais nunca impuseram nada,
mas como a tradição japonesa sempre foi muito
forte, aprendi muitas coisas com o convívio
familiar e na sociedade”, diz a nissei, que
motivada pela curiosidade quis saber de perto
como era o Japão. “Passei um ano e meio lá e
estou pensando em voltar este ano ainda”,
acrescenta.
De acordo com Kizuki Nitta, 55 anos, vicepresidente da Associação Agro-Cultural
Esportiva de Guatapará, pai de quatro filhos,
não se pode falar
que
os
moradores de
M o m b u c a
queiram resgatar
a cultura de seu
país de origem. O
que eles fazem é
viver o mais
perto possível do
que se encontra
no Japão e isso é transmitido naturalmente aos
filhos, já que eles convivem com língua, cultura,
ar tesanato, danças, músicas e comidas
japonesas. “Nossos filhos aceitam se quiserem.
Quando vim para o Brasil tinha apenas 12
anos. Não tinha vontade própria. Tinha
empolgação. Tive que fazer o que meu pai
queria. Estudei na escola de Mombuca, onde
se ensina japonês, e depois fui para Ribeirão
Preto estudar normalmente. O idioma foi o
mais difícil para mim. Hoje, as crianças nascem
e vão para escola. Aprendem os dois idiomas,
japonês e português aqui, e o ensino normal em
outra cidade. É muito mais fácil”, diz.
Liberdade
A escola é só uma continuação do que é
ensinado dentro de casa. Exemplo
disso está na mãe de três filhas
Akemi Kuramoshi Saito, de 49
anos. Veio para o Brasil com cinco
anos. Ela acredita que sua
adaptação foi mais fácil, mas as
raízes da família sempre prevaleceram. “Meu pai sempre gostou
de música japonesa, então
Foto: Célio de Souza
pegamos o gosto dele. Uma de minhas filhas
toca taikô (tambor). Ela tomou
conhecimento aqui no bairro
mesmo, na escola, e aí gostou.
Todas as minhas filhas sabem
falar japonês e tudo isso elas
conseguiram porque quiseram.
Hoje em dia eles são mais livres
para fazer escolhas, o que não
acontecia antigamente”, explica.
Foto: Divulgação
Foto: Célio de Souza
porta-luvas
21
É isso o que
acontece com
Noelly Sayaka
Kanno, 20 anos.
A jovem tem pai
japonês e mãe
brasileira. Ela não
fala bem o
japonês e diz
que sabe apenas
a l g u m a s
palavras, mas sente necessidade de voltar para
escola para aprender o idioma. “Não levei muito
a sério isso de aprender a falar a língua japonesa.
Aprendi quando era pequena e depois não quis
mais saber. Em relação aos costumes de seu
povo, meu pai nunca exigiu muito de mim. A
minha necessidade vem do convívio com outras
pessoas. Gosto muito mais dos costumes
brasileiros, mas adoro par ticipar do Grupo
Senekai (que promove as festas culturais de
Mombuca)”, diz a jovem. Uma curiosidade em
sua vida: todos os dias ela almoça comida
brasileira e janta comida japonesa. “Metade de
cada cultura”, conclui sorrindo.
Há quem queira que as raízes do povo
japonês nunca morram e acredita que Mombuca
existe par a isso, mas não descar ta a
importância do país que os acolheu. “Sempre
quisemos que nossos filhos aprendessem sobre
nosso povo, mas o Brasil também tem muito a
ensinar. Gosto do que vem do Japão, mas não
quero mais voltar. Criei raízes aqui”, explica
Shungo Wakiyama, de 58 anos, que saiu da
Terra do Sol Nascente quando tinha apenas 15
anos de idade.
Banco de Imagem
Imigração
Mombuca foi construída em 1962, depois que o
governo japonês comprou a Fazenda Guatapará para as
famílias vindas daquele país depois da 2ª Guerra Mundial.
O local conta hoje com 130 famílias, em um total de 693
moradores, vindas originalmente das províncias Yamagata,
Ibaraki, Nagano, Okayama, Shimane, Yamaguti e Saga. A
colônia tem escola de Ensino Fundamental, igreja, praça,
clube, etc. O cultivo de arroz no local não deu certo.
Atualmente, a principal atividade econômica é a avicultura,
sobretudo para a comercialização de ovos. Mas lá também
se planta cogumelo-do-sol, alho, soja, milho e flor-delótus, entre outras. Algumas terras são arrendadas para o
plantio da cana-de-açúcar.
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Foto: Divulgação
Foto: Célio de Souza
porta-luvas
porta-luvas
PATRIMÔNIO CULTURAL
A história de um vôo inédito
Claudio Luiz de Carvalho
A Praça Siqueira Campos, em Jaú, é onde
fica o Mausoléu de João Ribeiro de Barros, um
grande aviador brasileiro. João Ribeiro de Barros
escreveu nos céus do mundo a vontade, a
coragem e o despreendimento do brasileiro
quando, em outubro de 1927, de forma inédita,
fez o primeiro vôo sem escalas que ligou por
via aérea a Europa ao Continente Americano.
Perto de completar oitenta anos do feito e
embora registrada por muitos autores, a história
ainda desperta o orgulho brasileiro, embora
não se concretiza o merecido reconhecimento
a Ribeiro de Barros. Há muitas tentativas de se
criar, de forma definitiva, um museu para que o
Foto: Katia Fanticelli
23
porta-luvas
restauração se realiza nas oficinas da Helipark.
O histórico vôo teve início no dia 13 de
outubro de 1926, com o transpor te do
hidroavião de Gênova, na Itália, ao arquipélago
de Cabo Verde, na costa africana, de onde
levantou vôo às 04h45 do dia 28 abril de
1927 (partida de Porto Praia, Cabo Verde), e terminou
às 14h30 do mesmo dia, quando aterissou no
Municipal, estão alguns quadros e troféus, a
âncora do hidroavião, o canhão utilizado para
saudar a chegada da tripulação a Jaú, periódicos,
fotos e alguns documentos e objetos.
A cidade, por meio da Secretaria de Cultura
e Turismo, tem realizado esforços para que o
hidroavião e todos os objetos de seu filho
heróico venham para Jaú. A idéia é se criar o
Museu João Ribeiro de Barros, onde ficaria
exposto todo o acervo da viagem histórica do
aviador brasileiro.
Atualmente o hidroavião está em trabalho
de restauração (uma das peças foi enviada
para a Itália, país de origem do avião - um
Savoia-Marchetti modelo S-55, o único ainda
existente no mundo). O trabalho de restauração
do Jahu é possível graças a um convênio entre
a Força Aérea Brasileira (por meio do IV
Comando Aéreo – Comar), a Fundação Santos
Dumont e a empresa Helicentro Helipark Ltda,
com apoio da família de João Ribeiro de Barros
e do Conselho de Defesa do Patrimônio
Histórico, Artístico, Arqueológico e Turístico do
Estado de São Paulo - Condephaat. A
arquipélago Fernando de Noronha, no Brasil.
João Ribeiro de Barros foi o primeiro piloto,
junto com uma tripulação de brasileiros (o
navegador Newton Braga, o co-piloto João
Negrão e o mecânico Vasco Cinquini) a
atravessar o Oceano Atlântico, navegando com
o auxílio de um sextante e custeado pela
iniciativa privada. Além disso, reforçou as
tratativas internacionais de cooperação mundial
para a ampliação da aviação comercial.
A coragem e o valor de Ribeiro de Barros
se destacam em seu feito, pois, durante toda a
preparação e o vôo,
enfrentou revezes como
perseguição, traição,
sabotagem, doença,
interferência do governo
brasileiro, tempestades,
ventos for tes, avarias,
etc.
Foto: Divulgação
feito não se perca ao longo dos anos. A melhor
solução seria a de que o hidroavião Jahu e todo
o acervo de Ribeiro de Barros sejam trazidos
para a cidade onde nasceu (Jaú). Hoje, tanto o
hidroavião, como os troféus, diplomas,
condecorações e outros objetos relativos ao
vôo, estão parte com a família e parte com a
Fundação Santos Dumont. Em Jaú, no Museu
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Foto: Katia Fanticelli
porta-luvas
Detalhes da viagem:
hélices eram do tipo S.I.A.I. e o
diâmetro do avião media 3 metros.
Vazio, pesava 4.500 kg. O tanque
de combustível cheio pesava 2.183
kg, o de óleo 250 kg e a tripulação
mais 300 kg. O tempo médio de
decolagem era de 1m25s e a razão
de subida era de 416 pés por
minuto.
- A travessia realizada por João Ribeiro de
Barros foi de 3.200 quilômetros, voando a
uma altitude de 150 metros e a 190 km/h.
- João Ribeiro de Barros nasceu em Jaú no
dia 4 de abril de 1900 e seu amor pela terra
natal foi demonstrado ao dar o nome ao
hidroavião de Jahu. Tinha 27
anos apenas quando cruzou o
Oceano Atlântico.
- João Ribeiro de Barros
morreu em 20 de julho de
1947 e seu corpo está, desde
1953, depositado em seu
mausoléu, na cidade de Jaú.
Foto: Katia Fanticelli
- O co-piloto João Negrão substituiu a
Arthur Cunha, que procurou desmoralizar o
projeto do vôo intercontinenal e que teria sido
responsável por atos de sabotagem;
- O presidente do Brasil, Washington Luís,
determinou que o projeto fosse interrompido e
recebeu como resposta um telegrama assinado
por João Ribeiro de Barros, com o seguinte
teor: Senhor Presidente. Cuide das obrigações
de seu cargo e não se meta em assuntos dos
quais Vossa Excelência nada entende e para os
quais não foi chamado.
- O hidroavião Jahu possuia 16,20 metros
de comprimento, 5,70metros de altura,
extensão de aber tura das asas de 24,00
metros. Tinha dois
motores da marca Isota
Fraschini (um anterior –
trativo nº 103 e outro
propulsivo nº 104. Os
motores possuiam 12
cilindros em “V”, com
aber tura de 60 0 . As
Foto: Katia Fanticelli
Foto: Katia Fanticelli
Conheça Jaú
Identificada como a capital nacional do calçado feminino, Jaú fica a
300 quilômetros de São Paulo, com acesso pelo Sistema Anhangüera
(SP 330)/Bandeirantes (SP 348), rodovia Washington Luís (SP 310),
rodovia Engenheiro Paulo Nilo Romano (SP 225) e rodovia Comandante
João Ribeiro de Barros (SP 225). Tem cerca de 130 mil habitantes. A
Praça Siqueira Campos, onde está o Mausoléu de João Ribeiro de
Barros, é conhecida como Jardim de Cima e é formada pelo quadrilátero
das ruas Major Prado, Visconde do Rio Branco, Edgard Ferraz e Lourenço
Prado. Uma das rodovias que permite o acesso a Jaú recebe o nome de
Comandante João Ribeiro de Barros. Possui ao todo 450 quilômetros
de extensão e corta vários municípios na Região Central do Estado de
São Paulo. O Museu Municipal, onde se encontram alguns dos objetos
que pertenceram a João Ribeiro de Barros, fica na Avenida João
Ferraz, s/n, em frente ao Teatro Municipal.
O Museu da Aeronáutica fica na rodovia Hélio Smidt, que leva ao Aeroporto Internacional de São Paulo,
em Guarulhos, no portão G3 da Base Aérea, em Cumbica. Informações (11) 6412-5392 e 6412-6098.
Fontes: www.almanaque.folha.uol.com.br - www.projetojahu.com.br - www.camarajau.sp.gov.br www.promotur.com.br - www.pioneirosdoar.com.br - www.jau.sp.gov.br
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PATROCINADOR
Foto: Katia Fanticelli
porta-luvas
Tributo com bom resultado
Por Claudio Luiz de Carvalho, com colaboração de Fernando Bueno
Desde o início de junho que os milhares de
turistas que se dirigem a Brotas são
recepcionados por um por tal colorido e
moderno, junto ao qual foi instalada a sede da
Guarda Municipal. O portal é conseqüência do
Programa de Incentivo ao Turismo, realizado
pela concessionária Centrovias em atendimento
a uma exigência da Licença Ambiental de
Instalação para a duplicação da SP 225, Rodovia
Engenheiro Paulo Nilo Romano.
A Guarda Municipal é um bom exemplo da
aplicação e do benefício que o ISSQN – Imposto
Sobre Serviços de Qualquer Natureza, recolhido
pelas concessionárias de rodovias, traz aos
municípios.
O ISS, como é geralmente identificado,
passou a ser exigido desde o ano de 2000 e
incide sobre a arrecadação das tarifas de
pedágio e sobre os serviços prestados pelas
empresas que trabalham para as concessionárias na realização de obras e conservação,
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principalmente.
De 2000 até Junho de 2006, foram
recolhidos aos cofres dos 49 municípios que
pertencem à região das três concessionárias
da OHL Brasil (Autovias, Centrovias e Intervias)
cerca de cento e quatro milhões de reais, dos
quais noventa milhões correspondem à
incidência sobre as tarifas de pedágio e quatorze
milhões sobre a prestação de serviços pelas
empresas contratadas pelas concessionárias.
A criação da Guarda Municipal em Brotas
só foi possível com a “chegada do ISS”, explica
o prefeito Du Barreto, que governa a cidade
pelo terceiro mandato. O dinheiro desse imposto
permite a manutenção da corporação, cujos
integrantes foram também treinados para suas
funções com aulas teóricas, práticas e estágios.
A atribuição da Guarda Municipal é bastante
ampla: além da vigilância dos principais pontos
da cidade, dos prédios públicos (câmara,
prefeitura, escolas, hospital, etc), da fiscalização
porta-luvas
Ambientais.
Foi uma solução importante encontrada
pela cidade de Brotas na aplicação do ISS.
Das 49 cidades atendidas pelas
concessionárias da OHL Brasil, o menor valor
destinado a um município foi de R$ 63 mil
reais. O município que mais arrecadou recebeu
R$ 7.650 mil, computados os recolhimentos
entre os anos de 2000 e 2006.
Foto: Katia Fanticelli
do horário do comércio e da vigilância das obras
em andamento, dá apoio à Polícia Militar no
policiamento de trânsito (principalmente perto
das escolas) e à Polícia Civil, com atuação
destacada nos eventos e nas festas municipais,
como o carnaval.
Para proteger o patrimônio ecológico de
Brotas (conhecida como um centro de turismo
ecológico), a Guarda Municipal possui em seu
quadro policiais com treinamento de Guardas
Cálculo
Até 2003, o ISS sobre a arrecadação do
pedágio era calculado com base na
localização das praças de pedágio (40% do
imposto iam para o município onde a praça
estivesse localizada e 60% eram rateado
entre todos os municípios por cuja área passa
a rodovia).
A partir de 2004, com a edição da Lei
116, o valor da arrecadação passou a ser
rateado 100% entre os municípios.
A mudança foi importante, pois o ISS é
uma parcela significativa na arrecadação dos
municípios, especialmente aqueles de menor
porte. A questão é que, com essa receita,
advinda com a presença das concessionárias,
as cidades passaram a ter condições de
investir mais em saúde, em educação e,
obviamente na cultura.
As alíquotas variam de município para
município, embora o limite máximo seja de
5%. A grande vantagem é que, a partir da
Lei 116, no caso das prestadoras de serviço,
as concessionárias retêm e recolhem aos
cofres municipais o imposto devido.
27
porta-luvas
Mais apoio
Independente dessa obrigação tributária,
as concessionárias têm apoiado de forma
contínua as manifestações culturais e
educacionais da região onde a OHL está
presente. O destaque mais forte é a Orquestra
Sinfônica de Ribeirão Preto.
Por meio da Lei Rouanet, a OHL tem sido
parceira importante da orquestra ao longo dos
últimos cinco anos.
um orgulho muito grande participarmos do
trabalho sério e de qualidade da Orquestra
Sinfônica de Ribeirão Preto, o que complementa
nossas ações de educação, saúde, meio
ambiente e de fomento à cultura”.
O Diretor Superintendente da Centrovias,
Eneo Palazzi defende que o investimento das
concessionárias encontra respaldo no fato de
que “difundir a cultura é uma das ações mais
Foto: Divulgação
28
nobres dentre todas as ações humanas e a
orquestra é uma organização que faz isto de
forma exemplar”.
E, por fim, o Diretor Presidente da OHL Brasil,
José Carlos Ferreira de Oliveira Filho, ao afirmar
que “A cultura se manifesta pela produção das
qualidades geradas pelo povo”, reconhece na
orquestra uma organização “sinfônica madura,
harmônica, de representatividade nacional, rica
em talento e musicalidade que expressam o
orgulho da população de Ribeirão Preto”.
Foto: Antonio Stefani
No entendimento dos diretores, a
orquestra “é uma das organizações
musicais mais importantes do nosso país
e detém o glorioso título de ser a mais
antiga orquestra sinfônica em atividade
no Brasil”, explica Paulo Pacheco, Diretor
Superintendente da Autovias. “Difundir
a música e a cultura é um trabalho feito
de maneira exemplar pela orquestra”,
conclui.
Para Rober to de Barros Calixto,
Diretor Superintendente da Intervias, “é
Foto: Divulgação
porta-luvas
Histórico da orquestra
Foto: Divulgação
Com origem na década de 1920, a
orquestra completou 68 anos de atividade em
2006 e realizou várias apresentações, dentro da
programação dos 150 anos de Ribeirão Preto.
A primeira tentativa de se formar uma
orquestra sinfônica em Ribeirão Preto remete
aos anos 20 do século passado. Com regência
de Luís Delfino Machado e composta por 31
músicos, foi criada em 1923 a Sociedade de
Concertos Sinfônicos de Ribeirão Preto. Em
1930 foi a vez da “Orchestra Simphonica de
Ribeirão Preto”, organizada e regida pelo
maestro Ignacio Stabile, com 41 músicos. Essa
orquestra participou da inauguração do Theatro
Pedro II em 8 de outubro de 1930, executando
“O Guarani”, de Carlos Gomes. Mas foi em 23
de maio de 1938 que Max Bartsh, músico da
orquestra de 1923, fundou a Sociedade Musical
de Ribeirão Preto”, que daria origem a
Sociedade Lítero Musical de Ribeirão Preto,
hoje Associação Musical de Ribeirão Preto,
mantenedora da Orquestra Sinfônica de Ribeirão
Preto.
Em 1988, no cinqüentenário de sua
fundação, a Orquestra Sinfônica de Ribeirão
Preto foi regida pelos maestros Isaac
Karabtchevsky e Lutero Rodrigues na Esplanada
do Theatro Pedro II. Nesses 68 anos de
existência, a orquestra tem participado de todos
os eventos sociais, políticos e culturais da cidade.
Também tem se apresentado com regularidade
no Festival de Inverno de Campos do Jordão
(SP), recebendo elogios da crítica especializada.
Sua agenda anual é repleta de grandes
apresentações no Brasil. Desde 2004, a
Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto vem
recebendo apoio das concessionárias do Grupo
OHL – Autovias, Centrovias e Intervias – por
meio da aplicação da Lei Rouanet.
29
porta-luvas
UM CONTO
JUREMA, O MANÁ DO REI.
Emerson de Stefani
Passei os últimos vinte anos
avaliando roteiros turísticos para
revistas, profissão que abarrotou
o modesto apartamento deste
seu repórter com todo o tipo de
suvenires, bibelôs e quinquilharias.
Muitos deles são curiosos, caro
leitor, enquanto outros vão ser vindo de
divertimento aos netos que já crescem e que para o bem do mundo - pisoteiam nossas
memórias.
Eu sempre quis escrever sobre uma dessas
lembranças em par ticular, mas tive que
escondê-la do mundo por temer o ridículo. Hoje,
na condição de aposentado brasileiro, não receio
mais nada.
Decidi então usar esse último artigo, meu
último suspiro na redação, para revelar ao meu
fiel leitor a mais intrigante das histórias que
colecionei durante toda a minha vida.
Tudo começou no ano de 1987, quando
visitei pela primeira vez a praia de Jericoacoara,
Ceará, que na época era conhecida apenas
pelo pouco mais de dois mil habitantes da vila
de Jijoca. O leitor mais atento notou que não
usei o termo “nativo”, tão recorrente nos meus
textos anteriores, admito. É que nossa atenção
estará voltada para Seu Galego, justamente o
único forasteiro do lugar.
Embora jurasse ter vindo da Irlanda, o forte
sotaque denunciava sua origem nor teamericana.
Foi nessa primeira visita que este seu
dedicado repór ter conheceu o senhor
rechonchudo e carismático, loiro, belo sorriso,
postura de príncipe e fala cativante, viúvo e pai
de gêmeos. Estes, logo ao nascer já foram
apelidados de “nego-aço”, que é como chamam
por aí a combinação da pele escura com cabelos
alourados. Essa era sua herança, divertia-se
Seu Galego: ouro na grimpa e olhos de
esmeraldas adornando dois diamantes negros.
O velho vivia de consertar rádios e vender
30
cachaça, ambos em um único estabelecimento,
que a propósito, constituía a terça parte do
comércio local. Diziam que era eletricista, fazer
que não lhe rendia muito naquele lugar sem
fios ou postes. Também ouvi nas rodas de
conversa que se chamava Jessie Garon, embora
preferisse o apelido dado pelo povo.
Retornei a Jijoca de Jericoacoara apenas
no verão de 2001 e do estrangeiro encontrei
só a cova, posto que falecera no ano anterior.
De morte morrida, na santa paz de Deus. Ainda
em luto seus filhos partiram atrás de garimpo
que os enricasse, e como em pau-de-arara só
se levam sonhos, negociaram a casa e a venda
com tudo o que havia dentro.
O novo proprietário não sabia eletrônica,
então servia a caninha e ainda lucrava algum
vendendo os pertences do morto: dezenas de
rádios quebrados, alguns móveis, roupas e o pouco
mais que se encontra em um lar de viúvo.
Foi no tabuleiro de miudezas montado
sobre grades de garrafas vazias que vi algumas
fitas K-7 muito usadas. Decidi comprá-las.
Eu sempre disse aos meus leitores que são
as pequenas compras, e não as grandes, que
justificam uma viajem. Pois que em meio a
muita música qual não foi minha surpresa ao
encontrar um depoimento gravado pelo próprio
Galego. Com voz embargada, misturava o
português com o inglês na mesma frase e, não
raro, na mesma palavra.
O texto abaixo transcreve o impressionante
testemunho desse nosso apátrida.
Adequei o uso de alguns verbos, traduzi o
restante da melhor forma que pude e acredito
que em momento algum violentei suas palavras
ou intenções. Sinto apenas que não pude deitar
no papel um certo sentimento, uma comoção
que aquela voz grave e bela trazia.
Confesso que por muitas vezes, quando
ouvia a gravação sentindo a emoção que cada
palavra carregava, não podia deixar de acreditar
nas palavras do Galego.
porta-luvas
(transcrição de fita adquirida em Jijoca de
Jericoacoara, em março de 2001)
“ ...as vezes me pergunto o porquê dessas gravações... me sinto um tolo fazendo
assim... sempre na mesma fita, apagando a cada nova sessão o que disse da vez anterior,
que é também, quase sempre, o mesmo.
Deve ser pela força do hábito... bem, se for assim, acho que deveria começar a usar fitas
diferentes. Ou talvez seja só vontade de falar sobre mim mesmo, algo que não faço há anos.
E o silêncio deixa a boca amarga, parece que nos enche de fel... Gostos... ahh, os
sabores... foram eles que me trouxeram aqui. Me lembro que saí da Alemanha em março
de 60, cansado de tanto frio e ração de campanha... decidi vir ao Brasil pela primeira vez,
sem avisar ninguém. Desembarquei em Salvador, anônimo... roupas comuns... apenas mais
um turista.
Logo fui, como se diz por aqui, pego pelo estômago... moqueca, cocada, caruru... vatapá,
abará, pirão de leite. Sem contar a pitanga, as pimentas, a manga, o maracujá e, é claro, a
feijoada... os alemães deveriam aprender a preparar a feijoada...
Acho que foi quando comecei a engordar, quando provei desses temperos... e os tolos
diziam que eram drogas... e como poderiam imaginar que apenas passei a comer mais.
Foram quatro dias provando desse país... toda fruta, ou prato apeteciam. Mas no bufê
daqueles dias o melhor ficou para a última noite... o sabor que viria a me matar...
Dias depois de ter chegado a Nashville eu ainda sentia na boca o sal da pele de Jurema,
o mesmo sal que permaneceu comigo por anos e que viria dar gosto aos meus melhores
dias...
No meu país casei e tive filhos, mas não com Jurema, e sim com Priscilla. Com o tempo
descobri que o paladar não pertence à língua, mas ao peito... e o meu, vazio, já não sentia
nada.
Por mais de dez anos estive assim, como um pássaro que canta e alegra o viveiro em
troca do insosso alpiste. E sabendo que a ave cativa por longo tempo, ou foge ou morre...
optei por ambos: no ano de 77 forjei minha morte e abandonei tudo. Viajei sorrateiro, voltei
para Jurema e a levei ao lugar mais belo e distante que encontrei: Jijoca.
Vejam só... eu, que ainda pronunciava “Diuwremah” quando falava de amor, vim morar
em Jijoca de Jericoacoara... quem acreditaria ?
Mas não poderia ter sido melhor... aqui também tinha baião de dois, carne de sol,
sarrabulho, paçoca, peixe de todo o tipo, lagosta, siri, abiu, caju e carambola... e tinha
jerimum, jatobá e jambo, e tinha, principalmente, a Jurema... E tinha a mim mesmo... porque
foi aqui, no meio de tanto gosto e tanta cor, que me encontrei.
Tornei-me marido e pai novamente. Tornei-me homem, finalmente.
Eu nunca tive certeza se Jurema sabia ou não quem eu era. Também nunca perguntei,
preferi não saber.... Mas me lembro que, um tempo depois do nosso casamento, com muito
esforço dominei o português e quase morri de susto ao descobrir que “Meu Rei”, como ela
me chamava durante nossa lua-de-mel, era a tradução para o My King, do inglês.
Talvez tenha sido apenas coincidência, talvez não... é que muitos já me chamaram de
King... uns poucos ainda chamam.
Não os mais íntimos, esses me chamavam pelo meu nome de batismo mesmo... ...o
nome que eu quis esquecer... Elvis... Elvis Aron Presley.”
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