CONTOS ESCOLHIDOS
Sem saber que era impossível, ele foi lá e fez!
ÍNDICE
Conto
Autor(a)
Página
EMANUEL
Lygia Fagundes Telles
005
A CAÇADA
Lygia Fagundes Telles
009
AS FORMIGAS
Lygia Fagundes Telles
013
O DEDO
Lygia Fagundes Telles
017
O JARDIM SELVAGEM
Lygia Fagundes Telles
019
LUA CRESCENTE EM AMSTERDAN
Lygia Fagundes Telles
023
O ENCONTRO
Lygia Fagundes Telles
025
TIGRELA
Lygia Fagundes Telles
029
NATAL NA BARCA
Lygia Fagundes Telles
033
UM CORAÇÃO ARDENTE
Lygia Fagundes Telles
037
NOTURNO AMARELO
Lygia Fagundes Telles
043
A MÃO NO OMBRO
Lygia Fagundes Telles
051
VENHA VER O PÔR-DO-SOL
Lygia Fagundes Telles
055
A PRESENÇA
Lygia Fagundes Telles
061
Moreira Campos
065
Ricardo Ramos
067
Dalton Trevisan
071
AMOR
Clarice Lispector
073
OS LAÇOS DE FAMÍLIA
Clarice Lispector
079
Rubem Fonseca
083
O CÃO ACHADO
José Saramago
087
O ENFERMEIRO
Machado de Assis
089
Clarice Lispector
095
MISSA DO GALO
Machado de Assis
097
A CARTOMANTE
Machado de Assis
103
DIZEM QUE OS CÃES VÊEM COISAS
CIRCUITO FECHADO
UMA VELA PARA DARIO
ALICE
TENTAÇÃO
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
EMANUEL
Lygia Fagundes Telles
— Emanuel — eu respondo. E não digo mais nada porque sinto que ninguém está acreditando em mim,
ninguém acredita nisso, que tenho um amante e que esse amante tem olhos verdes, um Mercedes branco e que se
chama — Emanuel — repete Afonso. — Tive um colega com esse nome mas parece que morreu. Você disse que ele
vem te buscar?
Loris está tentando servir uísque mas o uísque não sai da garrafa que ela sacode. Se sacode também de
tanto rir:
— Num Mercedes Benz branco, não é finíssimo? Conta mais, Alice, todo mundo quer saber os detalhes,
detalhes!
Quero alcançar o cinzeiro no centro do tapete e o cinzeiro está longe demais, tenho que me estender no
almofadão num movimento que poderia ser elástico, gracioso e meu gesto é duro e minha voz fica postiça, todos ali à
vontade pelo chão, só eu assim tensa como um faquir em pregos. Serpentes deslizando no caixão.
— Peguei uma vez numa cobrinha. Não, não era viscosa, era apenas fria — digo e ninguém está interessado
em saber o que senti quando peguei na cobra. — Eu queria um conhaque.
Afonso puxou para mais perto o carrinho de bebidas. "Estou me lembrando de uma piada", diz abrindo o riso
mas sei muito bem que a piada sou eu. Me ofereceu o copo fazendo uma reverência.
— Pronto, menina.
Cínico. Está se divertindo à beça, nem ele nem Loris nem Solange — ninguém acreditou. Nessa história de
amante. Mas por que não acreditam, por quê? Sou assim tão horrenda, tão repugnante? Hein? Me respondam, por
quê? Um homem de olhos verdes e Mercedes branco, ele vem me buscar no Mercedes, digo e Loris quase se
engasgou no uísque e Afonso, o cínico. Até o homenzinho de cravo no peito também fez aquelas caras, mal me
conhece e já se incorporou ao grupo, o anão. Um anão cretino, ridículo, ô Deus! Tomo um largo gole, respiro, preciso
me acalmar, não é assim não, puro exagero, histeria, o homenzinho nem me notou, essa mania de perseguição,
minha culpa, minha culpa, quem mandou exagerar? Exagerei, não precisava ter exagerado tanto, podia dizer apenas
que tenho um amante, pronto, um tipo comum, nada de especial. Mas comecei com meus delírios, tanta vontade de
beleza, de poder. Vontade antiga de chamar atenção, brilhar de mistura com um desejo agudo de vingança, Loris me
olhando no maior espanto e eu num crescendo de apoteose mental, fúria de sons com a orquestra desencadeada,
Wagner, mais mais! Desfrutável. Uma desfrutável, nunca entendi direito o que quer dizer desfrutável mas sei que é
uma coisa vergonhosa, acho que vem de fruta que virou bagaço e as pessoas que se aproveitaram — mas quem se
aproveitou de mim? Nem isso. É que nunca tive nada, nem família, nem emprego importante, nunca a alegria do
supérfluo que só o dinheiro, mas que dinheiro? Nem ao menos um gato pingado pra puxar pelo rabo — não, espere
um pouco, um gato isso até que eu tenho. Bebo outro gole enternecida. Um gato de rua mas um gato, Emanuel.
Nome que dei ao meu amante e que saiu tão espontâneo da minha boca, Emanuel.
— Ainda bem, acho que já passou da hora de você arrumar um caso, a gente já estava preocupada com essa
virgindade, que horror. E se ainda por cima é um tipo assim lindo — disse Solange ajeitando o cigarro na piteira.
O sorriso amanteigado foi para Afonso ou para Loris? Acariciou o contorno da boca com a ponta da piteira,
tem corpo bonito mas a boca é grossa, vulgar -- não, não! devo estar verde de inveja, tem uma boca fascinante,
quisera eu. Quisera eu.
— Sabe o que quer dizer Emanuel? Aquele que há de vir — disse Loris fazendo girar com o dedo o gelo do
copo. Chupou devagar o dedo molhado.
Fechei meu dedo na gruta da mão: agora me lembrava do sonho da véspera, da voz dizendo dentro do meu
ouvido que queria a minha boca, minha boca! Abri a boca e a voz ficou mais obscura, mais secreta, queria a outra
boca, a boca silenciosa. Esvazio o copo. Através do vidro vejo os olhos bistrados de Loris me olhando lá de longe, fica
distante quando bebe. E próxima, ouve tudo. Entende tudo. Descobriu que menti desbragadamente e ficou perversa,
ela que não precisa ser perversa.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Afonso, você está rindo sem parar, vai, conta! Sabe que é de mim, a quarentona sem a menor graça e
com esses delírios. Sonhando com homens me pedindo a boca, não essa, a outra! Que sonho. Que vida. Só me resta
agora ficar repetindo que ele virá me buscar, o Emanuel dos olhos e do Mercedes. Branco? Branco. Finíssimo, disse
Loris. Sustentar a mentira enquanto minha cara comprida vai encompridando mais, no boneco de pau era o nariz que
crescia
— ô meu Pai! vontade de vomitar esta cara de freira sem a menor vocação. Tarde demais para começar e
começar com quem? Mulheres aos montes se oferecendo, jovens, velhas, meninas de doze anos e meio e os homens
exauridos, enfartados, a Loris sabe disso, ela que já se deitou com todos os sexos daqui e do mundo, viajou pelo
mundo inteiro. E eu não saí nem do meu bairro. Dois ou três namorados sem o menor empenho, com preguiça de
aprofundamento, mas em que tempo a virgindade era prestigiada? O desejo morno, a preguiça penalizada, quer dizer
que a minha Alicinha?... Alicinha. Quando me chamam de Alicinha já sei que não vai acontecer nada, viro confidente,
irmã. Se ao menos a entrada fosse facilitada, se não sugerisse uma certa mão-de-obra, delicadezas. O medo que eles
têm de envolvimentos, vínculos. E eu afetando essa calma quando minha vontade é gritar de ódio, puxar os cabelos,
ódio de mim mesma, sua imbecil! cretina, pior ainda do que feia é ser assim opaca, medíocre, nenhuma luz. O
dinheiro resolveria, ah, com dinheiro podia fazer a excêntrica, a vaca sagrada que paga sua corte e mais esse
Emanuel, por que não? Dava-lhe o Mercedes, avião, navio e mais daria. Meu homem resplandecente, coberto de ouro
em pó, dê suas ordens, amor, quer que faça sua comida? que engraxe seus sapatos? Engraxo tudo, sou um ser
menor, dependente, frágil, que venham as feministas e que cuspam em mim seu desprezo, ora, cuspam à vontade!
As idiotas se fazendo de fortes, arregaçando mangas e dentes, tamanha arrogância.
— Tinha esse quadro — prosseguiu Solange e fiquei sem saber que quadro era esse. Fico olhando a
correntinha de ouro do seu tornozelo, tem pernas belíssimas.
Encolho as minhas. Ainda assim amanheço e quero escovar os dentes com cuidados especiais, uns dentinhos
fracos e a esperança de que um dia. Esperança no creme das sardas, os cabelos ralos e o ovo, a vitamina. Tanta
vontade de luta. "A esperança é curva como uma asa", disse alguém. Melhor me deitar na planície mas quando dou
acordo de mim já estou subindo a própria montanha resfolegando e subindo. Orgulho? A esperança será só isso,
orgulho?
— E o que ele faz? Seu amado -- pergunta Loris mordendo o sanduíche.
— É médico.
Ginecologista, tenho vontade de dizer. O que sempre desejei, um namorado médico que me tomasse em suas
mãos hábeis e através delas eu conheceria a mim mesma a começar por este corpo que me escapa como um inimigo,
saberia do meu contorno quando as mãos fossem me palmilhando, tateantes. Meu cheiro, meu gosto -- ele que já
conheceu tantos corpos dentro e fora da profissão, me tome depressa que o tempo é de amor! Com mil desculpas
pela minha virgindade, mas não foi nem por virtude, bloqueio, lá sei! eu podia pegar o homem do leite mas faz
séculos que não tem mais nem homem do leite nem do pão, mamãe abria a porta e o cheiro da cesta de pães
dourados, vem neném, escolhe sua rosquinha -- ah, se essa trabalheira lhe desse afinal um pouco mais de emoção.
Sim, me guardei até hoje, nunca antes? Nunca. É simples, Alice, ele diz Aliiiice. Simples como beber um copo d'água,
não fique contraída, você está tensa demais, relaxe, seu pescoço parece pedra, não endureça a boca porque desse
jeito o doutor não vai poder arrancar o seu dentinho! e meu pai segurou forte na minha mão, vamos, filha, prometo
que nem vai doer... Enxugo os olhos no guardanapo de papel.
— Estou curiosíssima, a que horas ele vem? -- pergunta Loris.
Cravo as unhas no guardanapo.
— Nem sei se virá, hoje é dia de plantão, já me avisou que vai ser muito difícil aparecer, médico tem aqueles
horários complicados.
— Nem diga.
Mastigo um croquete fumegante. Sopro a fumaça, queria ficar uma formiguinha para entrar nesse vulcão,
Loris sabe, os outros desconfiam mas os outros estão distraídos, ela não. Encolho as pernas mas queria encolher os
pés que são enormes. Agora Loris quer saber se continuo na mesma casa. Respondo que sim.
— Sozinha?
— Com meu gato.
Contos escolhidos…
6
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Mas ele não é livre?
— Mais ou menos.
— Mais ou menos, como?
Estou rindo e é bom rir do Emanuel que tentou fugir, tentou várias vezes até que mandei levantar o muro e
agora ele se deita feito uma esfinge no pequeno canteiro e fica olhando o portão.
— Tem uma dona, é claro. Mas sempre consegue dar suas escapadas, digo. Pela primeira vez nesta festa estou
me sentindo melhor, gosto da ambigüidade, do jogo, que difícil ser eu mesma. E que fácil.
— Ah, ele é casado?
Afonso escolhe outro disco, quer jazz, Solange avisa que vai fazer pipi e o homenzinho do cravo no peito toma
nota do telefone da jovem desenhista, não é bonita mas soube armar um tipo com tanta imaginação que bateria a
Vênus da concha se a Vênus da concha aportasse nesta praia. Faz o que eu devia ter feito: tirou partido da feiúra que
virou ousadia, eu poderia me vestir de egípcia, não? Se esqueceriam da minha boca, do meu cabelo mas do estilo, da
irreverência -- e não é isso que eu quero? Ser conversada, discutida. Me volto para Loris que está bêbada e lúcida, o
lado ruim me espicaçando, e o Emanuel?... Comecei e agora não posso parar, ninguém acredita, ninguém está se
importando mas Loris me fisgou e vem me puxando como o velho pescador puxou aquele peixe, fiquei tão deprimida
nesse pedaço da fita, a linha mais curta, completamente esticada e o peixe. Me deixo levar sem resistência e agora
ela está querendo -- mas o que ela quer agora?
— Não há muito o que contar, Loris. Achei-o na rua.
— Na rua?
— Parecia solitário, infeliz.
Mais precisamente numa esquina. A lembrança me emociona demais, deve ser do conhaque, ah se passasse
por aqui aquela bandeja de doces eu comeria a bandeja inteira, uma vontade de açúcar, chocolate, um analista
esperto explicaria depressa, carência afetiva. Meu pai me levava a caneca de chocolate quente e esperava eu virar a
caneca até o fim, podia ter vivido até o fim e foi acontecer aquilo, ah! paizinho! mas não, não quero lembrar isso, eu
pensava no analista, tudo virando carência afetiva, meu irmãozinho de oito anos dependurava os gatos pelo rabo, um
varal de gatos se contorcendo aos urros, também carência? Fazia frio e ele miava e tremia tanto, guardei-o no bolso
do casaco, um gatinho mijado, feio, a cabeça vacilante pesada demais para o pescoço fino. Emanuel, eu chamei. Ele
miou e escondeu o focinho na minha mão. Tenho um gato, pensei. E uma túnica grega? Uma túnica podia ser uma
solução, o friso dourado, sandálias com as tiras subindo pelas pernas, a Alice anda fantasiada de grega, acho que
enlouqueceu. Está certo, enlouqueci, a loucura é uma boa saída mas teria que ser uma loucura requintada, com
lampejos, iluminações. Eu seria capaz dessas iluminações? Solange levanta a perna que se descobre até a coxa
enquanto o homem do lábio leporino tenta abrir o fecho da sua pulseirinha no tornozelo, como ficariam nessas minhas
pernas de fio de macarrão as tais tiras douradas? Loris passa engatinhando debaixo da perna de Solange, vai pegar o
prato de croquetes. Volta e me encara apertando os olhos. Recomeçamos a comer com voracidade. Preciso falar.
— Ele gosta muito de música, fica tão calmo quando ouve Mozart.
— Finíssimo.
— Às vezes ele se deita na almofada e fica horas e horas imóvel, ouvindo. Os olhos verdes brilhando tanto,
como brilham seus olhos quando apago a luz e me deito ao lado.
— Vocês preferem o chão?
— Ou a cama, quando acordo tarde da noite ele já pulou na cama, dividimos o travesseiro. Mas o que é isso,
está chovendo?
— Uma tempestade.
— Tenho que ir, Loris.
— Ir, como?! Imagine se — recomeçou ela e emudeceu, a campainha? Não tocaram a campainha? — Mas se
não estou esperando mais ninguém! Então é ele, só pode ser ele!
7
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Ainda de joelhos vou recuando para a zona de sombra, quero esconder minha cara que ficou branca, úmida,
não, Loris, não pode ser, hoje tem plantão lá no hospital, dificílimo fugir do plantão! Mas ela encurtou depressa a linha
e vem me puxando, mas como?! o amado de Alice acaba de chegar e todo mundo desligado, "pois não foi ele que
chegou? só pode ser ele, gente, quem mais?"
A campainha outra vez é agora mais forte, estremeço inteira, o som agudo é o de uma cigarra me serrando
pelo meio, ô Deus! a chuva e Loris de pé, oscilando triunfante na proa do barco. Engulo penosamente a saliva, estou
salivando sem parar porque no medo a saliva cresce borbulhosa, quero repetir que não pode ser ele e o anzol. Ouço
minha voz num sopro, tem o plantão lá no hospital, Loris, dificílimo. Dificílimo.
— Afonso, meu queridinho, vai abrir a porta!
Baixei a cabeça. E eu já tinha cedido sem a menor resistência, não tinha? Um pouco mais e confessaria, tudo
brincadeira, você sabe que não tenho nenhum homem, tenho apenas um gato, Emanuel é um gato! Ela não precisava
fazer isso, não precisava. Aperto contra a boca o copo vazio, eu vazia e a plenitude da chuva e das falas, todos falam
ao mesmo tempo enquanto a janela se escancara e a cortina derruba garrafas, consegui tumultuar a festa que parece
rodopiar na ventania com a voz de Afonso pairando sobre as águas, voltou arfante porque subiu a escada correndo:
— É o Emanuel que veio te buscar.
Contos escolhidos…
8
Acredite no seu sonho, invista em você!
A CAÇADA
Lygia Fagundes Telles
A loja de antiguidades tinha o cheiro de uma arca de sacristia com seus anos embolorados e livros comidos
de traça. Com as pontas dos dedos, o homem tocou numa pilha de quadros. Uma mariposa levantou vôo e foi chocarse contra uma imagem de mãos decepadas.
— Bonita imagem — disse ele.
A velha tirou um grampo do coque, e limpou a unha do polegar. Tornou a enfiar o grampo no cabelo.
— É um São Francisco.
Ele então voltou-se lentamente para a tapeçaria que tomava toda a parede no fundo da loja. Aproximou-se
mais. A velha aproximou-se também.
— Já vi que o senhor se interessa mesmo é por isso... Pena que esteja nesse estado.
O homem estendeu a mão até a tapeçaria, mas não chegou a tocá-la.
— Parece que hoje está mais nítida...
— Nítida? — repetiu a velha, pondo os óculos. Deslizou a mão pela superfície puída. — Nítida, como?
— As cores estão mais vivas. A senhora passou alguma coisa nela?
A velha encarou-o. E baixou o olhar para a imagem de mãos decepadas. O homem estava tão pálido e
perplexo quanto a imagem.
— Não passei nada, imagine... Por que o senhor pergunta?
— Notei uma diferença.
— Não, não passei nada, essa tapeçaria não agüenta a mais leve escova, o senhor não vê? Acho que é a
poeira que está sustentando o tecido acrescentou, tirando novamente o grampo da cabeça. Rodou-o entre os dedos
com ar pensativo. Teve um muxoxo: — Foi um desconhecido que trouxe, precisava muito de dinheiro. Eu disse que o
pano estava por demais estragado, que era difícil encontrar um comprador, mas ele insistiu tanto... Preguei aí na
parede e aí ficou. Mas já faz anos isso. E o tal moço nunca mais me apareceu.
— Extraordinário...
A velha não sabia agora se o homem se referia à tapeçaria ou ao caso que acabara de lhe contar. Encolheu os
ombros. Voltou a limpar as unhas com o grampo.
— Eu poderia vendê-la, mas quero ser franca, acho que não vale mesmo a pena. Na hora que se despregar, é
capaz de cair em pedaços.
O homem acendeu um cigarro. Sua mão tremia. Em que tempo, meu Deus! em que tempo teria assistido a
essa mesma cena. E onde?...
Era uma caçada. No primeiro plano, estava o caçador de arco retesado, apontando para uma touceira
espessa. Num plano mais profundo, o segundo caçador espreitava por entre as árvores do bosque, mas esta era
apenas uma vaga silhueta, cujo rosto se reduzira a um esmaecido contorno. Poderoso, absoluto era o primeiro
caçador, a barba violenta como um bolo de serpentes, os músculos tensos, à espera de que a caça levantasse para
desferir-lhe a seta.
O homem respirava com esforço. Vagou o olhar pela tapeçaria que tinha a cor esverdeada de um céu de
tempestade. Envenenando o tom verde-musgo do tecido, destacavam-se manchas de um negro-violáceo e que
pareciam escorrer da folhagem, deslizar pelas botas do caçador e espalhar-se no chão como um líquido maligno. A
touceira na qual a caça estava escondida também tinha as mesmas manchas e que tanto podiam fazer parte do
desenho como ser simples efeito do tempo devorando o pano.
9
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Parece que hoje tudo está mais próximo — disse o homem em voz baixa. — É como se... Mas não está
diferente?
A velha firmou mais o olhar. Tirou os óculos e voltou a pô-los.
— Não vejo diferença nenhuma.
— Ontem não se podia ver se ele tinha ou não disparado a seta...
— Que seta? O senhor está vendo alguma seta?
— Aquele pontinho ali no arco... A velha suspirou.
— Mas esse não é um buraco de traça? Olha aí, a parede já está aparecendo, essas traças dão cabo de tudo
— lamentou, disfarçando um bocejo. Afastou-se sem ruído, com suas chinelas de lã. Esboçou um gesto distraído: —
Fique aí à vontade, vou fazer meu chá.
O homem deixou cair o cigarro. Amassou-o devagarinho na sola do sapato. Apertou os maxilares numa
contração dolorosa. Conhecia esse bosque, esse caçador, esse céu — conhecia tudo tão bem, mas tão bem! Quase
sentia nas narinas o perfume dos eucaliptos, quase sentia morder-lhe a pele o frio úmido da madrugada, ah, essa
madrugada! Quando? Percorrera aquela mesma vereda aspirara aquele mesmo vapor que baixava denso do céu
verde... Ou subia do chão? O caçador de barba encaracolada parecia sorrir perversamente embuçado. Teria sido esse
caçador? Ou o companheiro lá adiante, o homem sem cara espiando por entre as árvores? Uma personagem de
tapeçaria. Mas qual? Fixou a touceira onde a caça estava escondida. Só folhas, só silêncio e folhas empastadas na
sombra. Mas, detrás das folhas, através das manchas pressentia o vulto arquejante da caça. Compadeceu-se daquele
ser em pânico, à espera de uma oportunidade para prosseguir fugindo. Tão próxima a morte! O mais leve movimento
que fizesse, e a seta... A velha não a distinguira, ninguém poderia percebê-la, reduzida como estava a um pontinho
carcomido, mais pálido do que um grão de pó em suspensão no arco.
Enxugando o suor das mãos, o homem recuou alguns passos. Vinha-lhe agora uma certa paz, agora que
sabia ter feito parte da caçada. Mas essa era uma paz sem vida, impregnada dos mesmos coágulos traiçoeiros da
folhagem. Cerrou os olhos. E se tivesse sido o pintor que fez o quadro? Quase todas as antigas tapeçarias eram
reproduções de quadros, pois não eram? Pintara o quadro original e por isso podia reproduzir, de olhos fechados, toda
a cena nas suas minúcias: o contorno das árvores, o céu sombrio, o caçador de barba esgrouvinhada, só músculos e
nervos apontando para a touceira... "Mas se detesto caçadas! Por que tenho que estar aí dentro?"
Apertou o lenço contra a boca. A náusea. Ah, se pudesse explicar toda essa familiaridade medonha, se
pudesse ao menos... E se fosse um simples espectador casual, desses que olham e passam? Não era uma hipótese?
Podia ainda ter visto o quadro no original, a caçada não passava de uma ficção. "Antes do aproveitamento da
tapeçaria..." — murmurou, enxugando os vãos dos dedos no lenço
Atirou a cabeça para trás como se o puxassem pelos cabelos, não, não ficara do lado de fora, mas lá dentro,
encravado no cenário! E por que tudo parecia mais nítido do que na véspera, por que as cores estavam mais fortes
apesar da penumbra? Por que o fascínio que se desprendia da paisagem vinha agora assim vigoroso, rejuvenescido?...
Saiu de cabeça baixa, as mãos cerradas no fundo dos bolsos. Parou meio ofegante na esquina. Sentiu o corpo
moído, as pálpebras pesadas. E se fosse dormir? Mas sabia que não poderia dormir, desde já sentia a insônia a seguilo na mesma marcação da sua sombra. Levantou a gola do paletó. Era real esse frio? Ou a lembrança do frio da
tapeçaria? "Que loucura!... E não estou louco", concluiu num sorriso desamparado. Seria uma solução fácil. "Mas não
estou louco.".
Vagou pelas ruas, entrou num cinema, saiu em seguida e quando deu acordo de si, estava diante da loja de
antiguidades, o nariz achatado na vitrina, tentando vislumbrar a tapeçaria lá no fundo.
Quando chegou em casa, atirou-se de bruços na cama e ficou de olhos escancarados, fundidos na escuridão.
A voz tremida da velha parecia vir de dentro do travesseiro, uma voz sem corpo, metida em chinelas de lã: "Que
seta? Não estou vendo nenhuma seta..." Misturando-se à voz, veio vindo o murmurejo das traças em meio de
risadinhas. O algodão abafava as risadas que se entrelaçaram numa rede esverdinhada, compacta, apertando-se num
tecido com manchas que escorreram até o limite da tarja. Viu-se enredado nos fios e quis fugir, mas a tarja o
aprisionou nos seus braços. No fundo, lá no fundo do fosso, podia distinguir as serpentes enleadas num nó verdenegro. Apalpou o queixo. "Sou o caçador?" Mas ao invés da barba encontrou a viscosidade do sangue.
Contos escolhidos…
10
Acredite no seu sonho, invista em você!
Acordou com o próprio grito que se estendeu dentro da madrugada. Enxugou o rosto molhado de suor. Ah,
aquele calor e aquele frio! Enrolou-se nos lençóis. E se fosse o artesão que trabalhou na tapeçaria? Podia revê-la, tão
nítida, tão próxima que, se estendesse a mão, despertaria a, folhagem. Fechou os punhos. Haveria de destruí-la, não
era verdade que além daquele trapo detestável havia alguma coisa mais, tudo não passava de um retângulo de pano
sustentado pela poeira. Bastava soprá-la, soprá-la!
Encontrou a velha na porta da loja. Sorriu irônica:
— Hoje o senhor madrugou.
— A senhora deve estar estranhando, mas...
— Já não estranho mais nada, moço. Pode entrar, pode entrar, o senhor conhece o caminho...
"Conheço o caminho" — murmurou, seguindo lívido por entre os móveis. Parou. Dilatou as narinas. E aquele
cheiro de folhagem e terra, de onde vinha aquele cheiro? E por que a loja foi ficando embaçada, lá longe? Imensa,
real só a tapeçaria a se alastrar sorrateiramente pelo chão, pelo teto, engolindo tudo com suas manchas
esverdinhadas. Quis retroceder, agarrou-se a um armário, cambaleou resistindo ainda e estendeu os braços até a
coluna. Seus dedos afundaram por entre galhos e resvalaram pelo tronco de uma árvore, não era uma coluna, era
uma árvore! Lançou em volta um olhar esgazeado: penetrara na tapeçaria, estava dentro do bosque, os pés pesados
de lama, os cabelos empastados de orvalho. Em redor, tudo parado. Estático. No silêncio da madrugada, nem o piar
de um pássaro, nem o farfalhar de uma folha. Inclinou-se arquejante. Era o caçador? Ou a caça? Não importava, não
importava, sabia apenas que tinha que prosseguir correndo sem parar por entre as árvores, caçando ou sendo caçado.
Ou sendo caçado?... Comprimiu as palmas das mãos contra a cara esbraseada, enxugou no punho da camisa o suor
que lhe escorria pelo pescoço. Vertia sangue o lábio gretado.
Abriu a boca. E lembrou-se. Gritou e mergulhou numa touceira. Ouviu o assobio da seta varando a folhagem,
a dor!
"Não..." - gemeu, de joelhos. Tentou ainda agarrar-se à tapeçaria. E rolou encolhido, as mãos apertando o
coração.
11
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
12
Acredite no seu sonho, invista em você!
AS FORMIGAS
Lygia Fagundes Telles
Quando minha prima e eu descemos do táxi já era quase noite. Ficamos imóveis diante do velho sobrado de
janelas ovaladas, iguais a dois olhos tristes, um deles vazado por uma pedrada. Descansei a mala no chão e apertei o
braço da prima.
— É sinistro.
Ela me impeliu na direção da porta. Tínhamos outra escolha? Nenhuma pensão nas redondezas oferecia um
preço melhor a duas pobres estudantes, com liberdade de usar o fogareiro no quarto, a dona nos avisara por telefone
que podíamos fazer refeições ligeiras com a condição de não provocar incêndio. Subimos a escada velhíssima,
cheirando a creolina
— Pelo menos não vi sinal de barata – disse minha prima.
A dona era uma velha balofa, de peruca mais negra do que a asa da graúna. Vestia um desbotado pijama de
seda japonesa e tinha as unhas aduncas recobertas por uma crosta de esmalte vermelho-escuro descascado nas
pontas encardidas. Acendeu um charutinho.
— É você que estuda medicina? — perguntou soprando a fumaça na minha direção.
— Estudo direito. Medicina é ela.
A mulher nos examinou com indiferença. Devia estar pensando em outra coisa quando soltou uma baforada
tão densa que precisei desviar a cara. A saleta era escura, atulhada de móveis velhos, desparelhados. No sofá de
palhinha furada no assento, duas almofadas que pareciam ter sido feitas com os restos de um antigo vestido, os
bordados salpicados de vidrilho.
— Vou mostrar o quarto, fica no sótão — disse ela em meio a um acesso de tosse. Fez um sinal para que a
seguíssemos.
— O inquilino antes de vocês também estudava medicina, tinha um caixotinho de ossos que esqueceu aqui,
estava sempre mexendo neles.
Minha prima voltou-se: – Um caixote de ossos?
A mulher não respondeu, concentrada no esforço de subir a estreita escada de caracol que ia dar no quarto.
Acendeu a luz. O quarto não podia ser menor, com o teto em declive tão acentuado que nesse trecho teríamos que
entrar de gatinhas. Duas camas, dois armários e uma cadeira de palhinha pintada de dourado. No ângulo onde o teto
quase se encontrava com o assoa(ho, estava um caixotinho coberto com um pedaço de plástico. Minha prima largou a
mala e pondo-se de joelhos puxou o caixotinho pela alça de corda. Levantou o plástico. Parecia fascinada.
— Mas que ossos tão miudinhos! São de criança? – Ele disse que eram de adulto. De um anão.
— De um anão? É mesmo, a gente vê que já estão formados… Mas que maravilha, é raro à beça esqueleto de
anão. E tão limpo, olha aí admirou-se ela. Trouxe na ponta dos dedos um pequeno crânio de uma brancura de cal. –
Tão perfeito, todos os dentinhos!
— Eu ia jogar tudo no lixo, mas se você se interessa pode ficar com ele. O banheiro é aqui ao lado, só vocês
é que vão usar, tenho o meu lá embaixo. Banho quente, extra. Telefone, também. Café das sete às nove, deixo a
mesa posta na cozinha com a garrafa térmica, fechem bem a garrafa — recomendou coçando a cabeça. A peruca se
deslocou ligeiramente. Soltou uma baforada final: — Não deixem a porta aberta senão meu gato foge.
Ficamos nos olhando e rindo enquanto ouvíamos o barulho dos seus chinelos de salto na escada. E a tosse
encatarrada. Esvaziei a mala, dependurei a blusa amarrotada num cabide que enfiei num vão da veneziana. prendi na
parede, com durex, uma gravura de Grassmann e sentei meu urso de pelúcia em cima do travesseiro. Fiquei vendo
minha prima subir na cadeira, desatarraxar a lâmpada fraquíssima que pendia de um fio solitário no meio do teto e no
lugar atarraxar uma lâmpada de duzentas velas que tirou da sacola. C quarto ficou mais alegre. Em compensação,
agora a gente podia ver que a roupa de cama não era tão alva assim, alva era a pequena tíbia que ela tirou de dentro
do caixotinho. Examinou-a. Tirou uma vértebra e olhou pelo buraco tão reduzido como o aro de um anel. Guardou-as
com a delicadeza com que se amontoam ovos numa caixa.
13
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Um anão. Raríssimo, entende? E acho que não falta nenhum ossinho, vou trazer as ligaduras, quero ver se
no fim da semana começo a montar ele.
Abrimos uma lata de sardinha que comemos com pão, minha prima tinha sempre alguma lata escondida,
costumava estudar até a madrugada e depois fazia sua ceia. Quando acabou o pão, abriu um pacote de bolacha Maria.
— De onde vem esse cheiro? — perguntei farejando. Fui até o caixotinho, voltei, cheirei o assoalho.
— Você não está sentindo um cheiro meio ardido?
— É de bolor. A casa inteira cheira assim – ela disse. E puxou o caixotinho para debaixo da cama.
No sonho, um anão louro de colete xadrez e cabelo repartido no meio entrou no quarto fumando charuto.
Sentou-se na cama da minha prima, cruzou as perninhas e ali ficou muito sério, vendo-a dormir. Eu quis gritar, tem
um anão no quarto!, mas acordei antes. A luz estava acesa. Ajoelhada no chão, ainda vestida, minha prima olhava
fixamente algum ponto do assoalho.
— Que é que você está fazendo aí? — perguntei.
— Essas formigas. Apareceram de repente, já enturmadas. Tão decididas, está vendo?
Levantei e dei com as formigas pequenas e ruivas que entravam em trilha espessa pela fresta debaixo da
porta, atravessavam o quarto, subiam pela parede do caixotinho de ossos e desembocavam lá dentro, disciplinadas
como um exército em marcha exemplar.
— São milhares, nunca vi tanta formiga assim. E não tem trilha de volta, só de ida – estranhei.
— Só de ida.
Contei-lhe meu pesadelo com o anão sentado em sua cama.
— Está debaixo dela – disse minha prima e puxou para fora o caixotinho.
Levantou o plástico.
— Preto de formiga! Me dá o vidro de álcool.
— Deve ter sobrado alguma coisa aí nesses ossos e elas descobriram, formiga descobre tudo. Se eu fosse
você, levava isso lá pra fora.
— Mas os ossos estão completamente limpos, eu já disse. Não ficou nem um fiapo de cartilagem,
limpíssimos. Queria saber o que essas bandidas vêm fuçar aqui.
Respingou fartamente o álcool em todo o caixote. Em seguida, calçou os sapatos e, como uma equilibrista
andando no fio de arame, foi pisando firme, um pé diante do outro na trilha de formigas. Foi e voltou duas vezes.
Apagou o cigarro. Puxou a cadeira. E ficou olhando dentro do caixotinho.
— Esquisito. Muito esquisito. — O quê?
— Me lembro que botei o crânio em cima da pilha, me lembro que até calcei ele com as omoplatas para não
rolar. E agora ele está aí no chão do caixote, com uma omoplata de cada lado. Por acaso você mexeu aqui?
— Deus me livre, tenho nojo de osso! Ainda mais de anão.
Ela cobriu o caixotinho com o plástico, empurrou-o com o pé e levou o fogareiro para a mesa, era a hora do
seu chá. No chão, a trilha de formigas mortas era agora uma fita escura que encolheu. Uma formiguinha que escapou
da matança passou perto do meu pé, já ia esmagá-la quando vi que levava as mãos à cabeça, como uma pessoa
desesperada. Deixei-a sumir numa fresta do assoalho.
Voltei a sonhar aflitivamente, mas dessa vez foi o antigo pesadelo com os exames, o professor fazendo uma
pergunta atrás da outra e eu muda diante do único ponto que não tinha, estudado. As seis horas o despertador
disparou veementemente. Travei a campanhia. Minha prima dormia com a cabeça coberta. No banheiro, olhei com
atenção para as paredes, para o chão de cimento, à procura delas. Não vi nenhuma. Voltei pisando na ponta dos pés e
então entreabri as folhas da veneziana. O cheiro suspeito da noite tinha desaparecido. Olhei para o chão:
desaparecera também a trilha do exército massacrado. Espiei debaixo da cama e não vi o menor movimento de
formigas no caixotinho coberto.
Quando cheguei por volta das sete da noite, minha prima já estava no quarto. Achei-a tão abatida que
carreguei no sal da omelete, tinha a pressão baixa. Comemos num silêncio voraz. Então me lembrei.
— E as formigas?
— Até agora, nenhuma.
— Você varreu as mortas? Ela ficou me olhando.
— Não varri nada, estava exausta. Não foi você que varreu?
Contos escolhidos…
14
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Eu?! Quando acordei, não tinha nem sinal de formiga nesse chão, estava certa que antes de deitar você
juntou tudo… Mas, então, quem?!
Ela apertou os olhos estrábicos, ficava estrábica quando se preocupava.
— Muito esquisito mesmo. Esquisitíssimo.
Fui buscar o tablete de chocolate e perto da porta senti de novo o cheiro, mas seria bolor? Não me parecia
um cheiro assim inocente, quis chamar a atenção da minha prima para esse aspecto, mas ela estava tão deprimida
que achei melhor ficar quieta. Espargi água-de-colônia Flor de Maçã por todo o quarto (e se ele cheirasse como um
pomar?) e fui deitar cedo. Tive o segundo tipo de sonho, que competia nas repetições com o tal sonho da prova oral,
nele eu marcava encontro com dois namora dos ao mesmo tempo. E no mesmo lugar. Chegava o primeiro e minha
aflição era levá-lo embora dali antes que chegasse o segundo. O segundo, desta vez, era o anão. Quando só restou o
oco de silêncio e sombra, a voz da minha prima me fisgou e me trouxe para a superfície. Abri os olhos com esforço.
Ela estava sentada na beira da minha cama, de pijama e completamente estrábica.
— Elas voltaram.
— Quem?
— As formigas. Só atacam de noite, antes da madrugada. Estão todas aí de novo. A trilha da véspera,
intensa, fechada, seguia o antigo percurso da porta até o caixotinho de ossos por onde subia na mesma formação até
desformigar lá dentro. Sem caminho de volta.
— E os ossos?
Ela se enrolou no cobertor, estava tremendo.
— Aí é que está o mistério. Aconteceu uma coisa, não entendo mais nada!
Acordei pra fazer pipi, devia ser umas três horas. Na volta, senti que no quarto tinha algo mais, está me
entendendo? Olhei pro chão e vi a fila dura de formigas, você se lembra? Não tinha nenhuma quando chegamos. Fui
ver o caixotinho, todas se trançando lá dentro, lógico, mas não foi isso o que quase me fez cair pra trás, tem uma
coisa mais grave: é que os ossos estão mesmo mudando de posição, eu já desconfiava mas agora estou certa, pouco
a pouco eles estão… Estão se organizando.
— Como, se organizando?
Ela ficou pensativa. Comecei a tremer de frio, peguei uma ponta do seu cobertor. Cobri meu urso com o
lençol.
— Você lembra, o crânio entre as omoplatas, não deixei ele assim. Agora é a coluna vertebral quejá está
quase formada, uma vértebra atrás da outra, cada ossinho tomando o seu lugar, alguém do ramo está montando o
esqueleto, mais um pouco e… Venha ver!
— Credo, não quero ver nada. Estão colando o anão, é isso?
Ficamos olhando a trilha rapidíssima, tão apertada que nela não caberia sequer um grão de poeira. Pulei-a
com o maior cuidado quando fui esquentar o chá. Uma formiguinha desgarrada (a mesma daquela noite?) sacudia a
cabeça entre as mãos. Comecei a rir e tanto que se o chão não estivesse ocupado, rolaria por ali de tanto rir.
Dormimos juntas na minha cama. Ela dormia ainda quando saí para a primeira aula. No chão, nem sombra de
formiga, mortas e vivas desapareciam com a luz do dia.
Voltei tarde essa noite, um colega tinha se casado e teve festa. Vim animada, com vontade de cantar, passei
da conta. Só na escada é que me lembrei: o anão. Minha prima arrastara a mesa para a porta e estudava com o bule
fumegando no fogareiro.
— Hoje não vou dormir, quero ficar de vigia – ela avisou. O assoalho ainda estava limpo. Me abracei ao urso.
— Estou com medo.
Ela foi buscar uma pílula para atenuar minha ressaca, me fez engolir a pílula com um gole de chá e ajudou a
me despir.
— Fico vigiando, pode dormir sossegada. Por enquanto não apareceu nenhuma, não está na hora delas, é
daqui a pouco que começa. Examinei com a lupa debaixo da porta, sabe que não consigo descobrir de onde brotam?
Tombei na cama, acho que nem respondi. No topo da escada o anão me agarrou pelos pulsos e rodopiou
comigo até o quarto, Acorda, acorda! Demorei para reconhecer minha prima que me segurava pelos cotovelos. Estava
lívida. E vesga.
— Voltaram — ela disse.
15
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Apertei entre as mãos a cabeça dolorida.
— Estão aí? – Ela falava num tom miúdo, como se uma formiguinha falasse com sua voz.
— Acabei dormindo em cima da mesa, estava exausta. Quando acordei, a trilha já estava em plena
movimentação. Então fui ver o caixotinho, aconteceu o que eu esperava…
— O que foi? Fala depressa, o que foi?
Ela firmou o olhar oblíquo no caixotinho debaixo da cama.
— Estão mesmo montando ele. E rapidamente, entende? O esqueleto já está inteiro, só falta o fêmur. E os
ossinhos da mão esquerda, fazem isso num instante. Vamos embora daqui.
— Você está falando sério?
— Vamos embora, já arrumei as malas.
A mesa estava limpa e vazios os armários escancarados.
— Mas sair assim, de madrugada? Podemos sair assim?
— Imediatamente, melhor não esperar que a bruxa acorde. Vamos, levanta!
— E para onde a gente vai?
— Não interessa, depois a gente vê. Vamos, vista isto, temos que sair antes que o anão fique pronto.
Olhei de longe a trilha: nunca elas me pareceram tão rápidas. Calcei os sapatos, descolei a gravura da
parede, enfiei o urso no bolso da japona e fomos arrastando as malas pelas escadas, mais intenso o cheiro que vinha
do quarto, deixamos a porta aberta. Foi o gato que miou comprido ou foi um grito?
No céu, as últimas estrelas já empalideciam. Quando encarei a casa, só a janela vazada nos via, o outro olho
era penumbra.
Contos escolhidos…
16
Acredite no seu sonho, invista em você!
O DEDO
Lygia Fagundes Telles
Achei um dedo na praia. Eu ia andando em plena manhã de sol por uma praia meio selvagem quando, de
repente, entre as coisas que o mar atirou na areia – conchas, gravetos, carcaças de peixes, pedras –, vislumbrei algo
diferente. Tive de recorrer aos óculos: o que seria aquilo? Só depois de aparecer o anel é que identifiquei meu achado,
o dedo trazia um anel. Faltava a ultima falange.
Não gosto nada de contar esse episódio assim com essa frieza, como se ao invés de um dedo eu tivesse
encontrado um dedal. Sou do signo de Áries, e os de Áries são apaixonados, veementes, achei um dedo, UM DEDO!
devia estar proclamando na maio excitação. Mas hoje minha face lúcida acordou antes da outra e está me vigiando
com seu olho gelado. Vamos – diz ela – nada de convulsões, sei que você é da família dos possessos, mas não
escreva como uma possessa, fale em voz baixa, sem exageros, calmamente.
Calmamente?! Mas foi um dedo que achei! – respondo e minha vigilante arqueia as sobrancelhas sutis: E daí?
Nunca viu um dedo? Tenho ganas de esmurrá-la: Já vi, mas não nessas circunstâncias.
O poeta dizia que era trezentos, trezentos e não sei quantos. Eu sou apenas duas: a verdadeira e a outra.
Uma outra tão calculista que, às vezes, me aborreço até a náusea. Me deixa em paz! – peço e ela se põe a uma certa
distância, me observando e sorrindo. Não nasceu comigo, mas vai morrer comigo e nem na hora da morte permitirá
que me descabele aos urros, Não quero morrer, não quero! Até nessa hora sei que vai me olhar de maxilares
apertados e olho inimigo no auge da inimizade: Você vai morrer sim senhora e sem fazer papel de miserável, está
ouvindo? Lanço mão do meu último argumento, tenho ainda que escrever um livro tão maravilhoso... E as pessoas
que me amam vão sofrer tanto! E ela, implacável: Ora, querida, as pessoas estão fazendo montes. E o livro não ia ser
tão maravilhoso assim.
É bem capaz de exigir que eu morra como as santas. Recorro às minhas reservas florestais e pergunto-lhe se
posso ao menos devanear um pouco em torno do meu achado, não são todos os dias que se acha um dedo. Ela me
analisa com seu olho lógico: Mas não exorbite.
Fecho a porta. Mas então eu ia dizendo que passeava por uma praia completamente solitária, nem biquínis,
crianças ou barracas. Praia áspera e bela, quase intacta: três pescadores puxando a rede lá longe. Um cachorro vadio
rosnando sem muita convicção para dois urubus pousados nos detritos. O sol batia em cheio na areia brilhante, viva,
cheia de coisas do mar de mistura com coisas da terra longamente trabalhadas pelo mar. Guardei na sacola uma
pedra cinzenta, tão polida que parecia revestida de cetim. Guardei um grosso pedaço de cipó ondulado, silhueta de
serpente se endireitando para o bote. Guardei um punhado de pequeninas estrelas-do-mar. Guardei um caramujo
amarelo, o interior oco e roxo apertando em espiral até a raiz inatingível. Guardei uma asa de concha rosa-pérola. O
dedo não guardei não.
Não senti nenhum medo ou asco quando descobri o dedo meio enterrado na areia, uns restos de ligamentos e
tecidos flutuando na espuma das pequeninas ondas. Há pouco encontrara as carcaças dos peixinhos que escaparam
das malhas das redes. Lavado e exangue, o dedo parecia ser da mesma matéria branca dos peixes, não fosse a
mundana presença do anel, toque sinistro numa praia onde a morte era natural. Limpa.
Inclinara-me para ver melhor o estranho objeto quando notei o pequeno feixe de fibras de algodão emergido
na areia banhada pela espuma.
Quando recorri aos óculos é que vi: não, não era algodão, mas uma vértebra meio descarnada — a coluna
vertebral de um grande peixe? Fiquei olhando. Espera, o que seria aquilo? Um aro de ouro? Agora que a água se
retraíra eu podia ver um aro de ouro brilhando em torno da vértebra, cingindo-a fortemente, enfeixando as fibras que
tentavam se libertar, dissolutas. Com a ponta do cipó, revolvi a areia. Era um dedo, dedo anular, provavelmente, com
um anel de pedra verde preso ainda à raiz intumescida. Como lhe faltasse a última falange, faltava o elemento que
poderia me fazer recuar: a unha. Unha pontuda, pintada de vermelho, o esmalte descascando, acessório fiel ao
principal até no processo da desintegração. Unha de mulher burguesa, bem cuidada, à altura do anel de joalheiro de
17
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
classe que se esmerou na cravação da esmeralda. Penso que se restasse a unha certamente eu teria fugido, unha é
importante demais. Mas aquele estado de despelamento, o fragmento do dedo trabalhado pela água acabara por
adquirir a feição de um simples fruto do mar. Contudo, havia o anel.
A dona do dedo. Mulher rica, um anel daqueles devia ser de uma mulher rica e de meia-idade, que as jovens
não usam jóias, só as outras. Afogada no mar? O biquíni verde combinando com o anel. O óleo perfumado fazendo
brilhar a pele sem brilho. A onda. Começou inocente lá no fundo e foi se cavando cada vez mais alta, mais alta, Deus
meu, tão grande! A fuga na água resiste como um muro, os pés de ferro e a praia tão longe, ah! mas o que é isso?...
Explosão de espuma enrolando boca e olhos em esparadrapos de sal. Sal.
Respirei com ênfase. Mas que mulher vai hoje de anel de esmeralda para o mar? A elegante passageira de
um transatlântico de luxo que afundou na tempestade? Mas fazia tempo que nenhum transatlântico de luxo
naufragava assim. Ocorreu-me o ―Titanic‖, mas isso tinha sido por volta de 1912, imagine. A descrição da tragédia
falava em mulheres fabulosas, as mais ricas do mundo, afundando enlaçadas ainda em homens de casaca, apoteose
do baile fulgurante de valsas, as luzes todas acesas iluminando a superfície do mar onde boiavam diademas. Plumas.
Houve também o ―Princesa Mafalda‖, que submergiu com toda glória perto dos tubarões da Bahia, os espíritos
atônitos baixando nos terreiros, ―Tutta questa gente! ... Dove siamo?!‖ E a mãe-de-santo com seu turbante de rainha
abrindo os braços ―Saravá, meu pai! Saravá!‖
Podia ser ainda uma suicida, dessas que entram de roupa pelo mar adentro, que o desespero é impaciente,
mal teve tempo de encher os bolsos com pedras. A pedra verde no dedo. Ou a personagem real de um crime, crime
passional, é evidente, enfraquecida a hipótese de latrocínio pela presença do anel. Um crime misterioso, já arquivado:
mulher bonita. Marido rejeitado. Minhocando, roque-roque. Roque-roque. O flagrante da traição, Ai, como dói! A
premeditação no escuro, tão profundo o silêncio no quarto que podia se ouvir o murmurejar do pensamento, roqueroque. Ela acorda em pânico no meio da noite, Mas que barulho é esse? Um camundongo? Ele se aproxima sem
poeira. Sem emoção. No banheiro cintilante a proximidade da água facilita demais, os crimes deviam ser cometidos
perto de cascatas. Um pouco de lavanda nas mãos ligeiramente trêmulas após a tarefa cumprida na ausência da
cozinheira em licença remunerada para visitar a mãe. A casa na praia não foi uma solução? E praia deserta, o homem
feliz não tinha camisa, só maiô. Tão simpático o homenzinho de maiô azul que todos os dias vai à praia levando a
caixinha de sabonete, que será que ele leva naquela caixinha? Um detalhista: idéias miúdas, objetos miúdos. Na
cabeça, um pequeno boné se tem sol. Era ele que andava com uma mulher grande, bonita? Era. E a mulher? Lá sei,
deve ter viajado, ele ficou só. Parece que adora o mar, faça sol ou não, vai dar seu passeio com sua caixa e seu boné.
Por que será que cabeça de assassinado fica do tamanho do mundo? Um porta-chapéu. Mas se ninguém mais
usa chapéu? ... Enfim, se sobrou a cabeça não sobrou o dedo que na manhã de garoa ele deixou no mar. O anel foi
junto, era tão afeiçoado à carne que se recusou a sair e ele não insistiu, pois ficasse o dedo com seu anel, que sumam
os dois! Nem os urubus saíram de casa essa manhã. Ele saiu.
A pedra brilhava num tom mais escuro do que a água. Lembrei-me de um quadro surrealizante: uma praia
comprida e lisa, de um branco leitoso com flores brotando na areia, flores-dedos e dedos-flores. No quadro, o insólito
era representado por uma gota de sangue pingando nítida da ponta de um dedo. No meu achado, o insólito era a
ausência do sangue. E o anel.
A primeira pessoa que passar por aqui vai levar esse anel, pensei. Eu mesma – ou melhor, a outra, a lúcida,
com falsa inocência não chegou a insinuar que eu devia guardar o anel na sacola? Mais um objeto para a sua coleção,
não é uma linda pedra? Expulsei-a repugnada. Horror. A morta de Itabira reclamava a flor que o distraído visitante do
cemitério colhera na sua sepultura, Eu quero a flor que você tirou, quero de volta a minha florzinha! A dama do mar
faria uma exigência mais terrível por telegramas, cartas, telefone, me soprando com sua voz de sal: Eu quero o anel
que você roubou do meu dedo, eu quero o meu anel! Como reencontrar naqueles quilômetros de praia os
diluidíssimos restos do dedo para lhe devolver a esmeralda?
Com a ponta do cipó, cavei rapidamente um fundo buraco e nele fiz rolar o dedo. Cobri-o com o tacão do
sapato e na areia tracei uma cruz, intuí que se tratava de um dedo cristão. Então veio uma onda, que esperou o fim
da minha operação para inundar o montículo. Dei alguns passos. Quando me voltei pela última vez, a água já tinha
apagado tudo.
Contos escolhidos…
18
Acredite no seu sonho, invista em você!
O JARDIM SELVAGEM
Lygia Fagundes Telles
—
Daniela
é
assim
como
um
jardim
selvagem — disse o tio Ed olhando para o teto. —
Como um jardim selvagem…
Tia Pombinha concordou fazendo uma cara
muito esperta. E foi correndo buscar o maldito licor
de cacau feito em casa. Passei a mão na tampa da
caixa de marrom-glacê que ele trouxera. Era a
segunda ou terceira vez que a presenteava com uma
caixa igual, eu já sabia que aquele nome era como o
papel
dourado
embrulhando
simples
castanhas
açucaradas. Mas, e um jardim selvagem? O que era
um jardim selvagem?
Foi o que lhe perguntei. Ele me olhou com
um ar de gigante da montanha falando com a
formiguinha.
— Jardim selvagem é um jardim selvagem, menina.
— Ah, bom — eu disse.
E aproveitei a entrada de tia Pombinha para
fugir da sala. A tal caixa estava mesmo fechada, tão
cedo não seria aberta. E o licor de cacau era tão ruim
que eu já tinha visto uma visita guardá-lo na boca
para depois cuspir. Na bacia, fingindo lavar as mãos.
Mais tarde, quando eu já enfiava a camisola
para dormir, tia Pombinha entrou no meu quarto.
Sentou-se na cama. A caixa de doces já devia estar
enfurnada em alguma gaveta. Sovina, sovina.
—
O
Ed
casado,
imagine!
Até
parece
mentira, o meu querido Ed casado há mais de uma
semana. Mas por que não me avisou, Cristo-Rei!
Como é que ele se casa assim, sem participar… Que
loucura!
— Decerto não quis dar festa.
— Mas não seria preciso festa, eu só
gostaria de saber — choramingou, fazendo bico. —
Ainda na noite passada ele me apareceu em sonho…
— Apareceu? — perguntei metendo-me na cama.
Os sonhos de tia Pombinha eram todos
horríveis, estava para chegar o dia em que viria
anunciar
que
sonhara
com
alguma
coisa
que
prestasse.
— Não me lembro bem como foi, ele logo
sumiu no meio de outras pessoas. Mas o que me
deixou nervosa foi ter sonhado com dentes nessa
19
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
mesma noite. Você sabe, não é nada bom sonhar com dentes.
— Tratar deles é pior ainda.
Sorriu sem vontade. Ficou toda sentimental quando resolveu me cobrir até o pescoço.
— Você agora me lembrou o Ed menino. Fui a mãezinha dele quando a nossa mãe morreu. E agora se casa
assim de repente, sem convidar a família, como se tivesse vergonha da gente… Mas não é mesmo esquisito?
E essa moça. Cristo-Rei? Ninguém sabe quem ela é…
— Tio Ed deve saber, ora.
Acho que ela se impressionou com minha resposta porque sossegou um pouco. Mas logo desatou a falar de
novo com aquela fala aflita de quem vai pegar o trem, falava assim quando chegava a hora de viajar.
— Ele parece feliz, sem dúvida, mas ao mesmo tempo me olhou de um jeito… Era como se quisesse me dizer
qualquer coisa e não tivesse coragem, senti isso com tanta força que meu coração até doeu, quis perguntar. O que
foi, Ed! Pode me dizer o que foi? Mas ele só me olhava e não disse nada. Tive a impressão de que estava com medo.
— Com medo de quê?
— Não sei, não sei, mas foi como se eu estivesse vendo Ed menino outra vez. Tinha pavor do escuro, só
queria dormir de luz acesa. Papai proibiu essa história de luz e não me deixou mais ir lá fazer companhia, achava que
eu poderia estragá-lo com muito mimo. Mas uma noite não resisti e entrei escondida no quarto. Estava acordado,
sentado na cama. Quer que eu fique aqui até você dormir?, perguntei. Pode ir embora, ele disse, já não me importo
mais de ficar no escuro. Então dei-lhe um beijo, como fiz hoje. Ele me abraçou e me olhou do mesmo jeito que me
olhou agora, querendo confessar que estava com medo. Mas sem coragem de confessar.
Disfarcei um bocejo. E afastei as cobertas porque já estava transpirando. Quando minha tia anunciava uma
história importante, na certa vinha alguma bobagem sem importância nenhuma. De resto, tia Pombinha tinha a mania
de ver mistério em tudo, até no nosso limoeiro que dava às vezes uns limões adocicados. Não passava um dia sem
falar nos tais pressentimentos.
— Mas por que ele tinha de ter medo?
Ela franziu a testa. Seus olhinhos redondos ficaram mais redondos ainda.
— Aí é que está… Quem é que pode saber? Ed sempre foi muito discreto, não é de se abrir com a gente, ele
esconde. Que moça será essa?
Lembrei-me então do que ele dissera, Daniela é como um jardim selvagem. Quis perguntar o que era um
jardim selvagem. Mas tia Pombinha devia entender tanto quanto eu desses jardins.
— Ela é bonita, tia?
— Ed disse que é lindíssima. Mas não é tão jovem assim, parece que tem a idade dele, quase quarenta anos…
— E não é bom? Isso de ser meio velha.
Balançou a cabeça com ar de quem podia dizer ainda um montão de coisas sobre essa questão de idade. Mas
preferia não dizer.
— Hoje de manhã, quando você estava na escola, a cozinheira deles passou por aqui, é amiga da Conceição.
Contou que ela se veste nos melhores costureiros, só usa perfume francês, toca piano… Quando estiveram na chácara,
nesse último fim de semana, ela tomou banho nua debaixo da cascata.
— Nua?
— Nuinha. Vão morar na chácara, ele mandou reformar tudo, diz que a casa ficou uma casa de cinema. E é
isso que me preocupa, Ducha. Que fortuna não estarão gastando nessas loucuras? Cristo-Rei, que fortuna! Onde é
que ele foi encontrar essa moça?
— Mas ele não é rico?
— Aí é que está… Ed não é tão rico quanto se pensa.
Dei de ombros. Nunca tinha pensado antes no assunto. Bocejei sem cerimônia. Tia Pombinha estava era com
ciúme, havia muito dessas confusões nas famílias, eu mesma já tinha lido um caso parecido numa revista. Sabia até o
nome do complexo, era um complexo de irmão com irmã. Afundei a cabeça no travesseiro. Se queria tanto conversar,
por que não se lembrou de trazer os doces? Para comer tudo escondido, não é?
— Deixa, tia. Você não tem nada com isso.
Ela abriu nos joelhos as mãos ossudas, de unhas onduladas, cortadas rente. Passei a língua na palma das
minhas mãos para umedecê-las. Sempre que olhava para as mãos dela, assim secas como se tivessem lidado com giz,
precisava molhar as minhas.
Contos escolhidos…
20
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Diz que anda sempre com uma luva na mão direita, não tira nunca a luva dessa mão, nem dentro de casa.
Sentei-me na cama. Esse pedaço me interessava.
— Usa uma luva?
— Na mão direita. Diz que tem dúzias de luvas, cada qual de uma cor, combinando com o vestido.
— E não tira nem dentro de casa?
— Já amanhece com ela. Diz que teve um acidente com essa mão, deve ter ficado algum defeito…
— Mas por que não quer que vejam?
— Eu é que sei? Como Ed nem tocou nisso, fiquei sem jeito de perguntar, essas coisas não se perguntam.
Casado, imagine… Deve dar um marido exemplar, desde criança foi muito bonzinho, você precisava ver que pérola de
menino! Uma verdadeira pérola…
Tia Pombinha ficou falando algum tempo ainda sobre a bondade do irmão, mas eu só pensava naquela nova
tia que tomava banho pelada debaixo da cascata. E que não tirava a luva da mão direita.
Na manhã de sábado, quando cheguei para o almoço, soube que ela passara em casa. Chutei minha pasta.
As coisas que valiam a pena aconteciam sempre quando eu estava na escola. Tia Pombinha gaguejava, o pescoço fino
cheio de manchas avermelhadas. Ficava assim que nem peru quando tinha uma emoção forte.
— Ah, você não imagina como é encantadora! Nunca vi uma beleza igual, que encanto de moça! Tão natural,
tão simples e ao mesmo tempo tão elegante, tão bem cuidada… Foi tão carinhosa comigo!
Fiquei olhando para as pernas finas de tia Pombinha com as meias murchas cor de cenoura. Bom, então tudo
tinha mudado.
— Quer dizer que a senhora gostou dela?
— Muito, fiquei mesmo cativada! E trouxe presentes, venha ver — disse puxando-me pelo braço. — Três
cortes de seda finíssima para mim e para você uma boneca francesa… Loura, loura!
— Tenho ódio de boneca.
— Ducha! Você vai gostar dessa, é a coisa mais linda que já se viu, olha aí, não é linda?
Fiquei olhando a boneca dentro da caixa. Usava luvinhas de renda.
— Ela estava de luva?
— Estava. Uma luva verde, combinando com os sapatos. No começo a gente estranha a luva só naquela mão.
Mas não é mesmo de se estranhar? Podia fazer uma plástica… Enfim, deve ter motivos. Um amor de moça!
A conversa no mês seguinte com a cozinheira de tio Ed me fez esquecer até os zeros sucessivos que tive em
matemática. A cozinheira viera indagar se Conceição sabia de um bom emprego, desde a véspera estava
desempregada. Tia Pombinha tinha ido ao mercado, pudemos falar à vontade enquanto Conceição fazia o almoço.
— Seu tio é muito bom, coitado. Gosto demais dele — começou ela enquanto beliscava um bolinho que
Conceição tirara da frigideira. — Mas não combino com dona Daniela. Fazer aquilo com o pobre do cachorro, não me
conformo.
— Que cachorro?
— O Kleber, lá da chácara. Um cachorro tão engraçadinho, coitado. Só porque ficou doente e ela achou que
ele estava sofrendo… Tem cabimento fazer isso com um cachorro?
— Mas o que foi que ela fez?
— Deu um tiro nele.
— Um tiro?
— Bem na cabeça. Encostou o revólver na orelha e pum! matou assim como se fosse uma brincadeira… Não
era para ninguém ver, nem o seu tio, que estava na cidade. Mas eu vi com estes olhos que a terra há de comer, ela
pegou o revólver com aquela mão enluvada e atirou no pobrezinho, morreu ali mesmo, sem um gemido… Perguntei
depois, Mas por que a senhora fez isso? O bicho é de Deus, não se faz com um bicho de Deus uma coisa dessas! Ela
então respondeu que o Kleber estava sofrendo muito, que a morte para ele era um descanso.
— Disse isso?
A mulher deu uma dentada no bolinho. Ficou soprando um pouco porque estava quente como o diabo, eu
mesma não conseguia dar cabo do meu.
— Disse que a vida tinha que ser… Ah! não lembro. Mas falou em música, que tudo tinha que ser como uma
música, foi isso. A doença sem remédio era o desafino, o melhor era acabar com o instrumento pra não tocar mais
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
desafinado. Até que foi muito educada comigo, viu que eu estava nervosa e quis me explicar tudo direitinho. Mas
podia ficar me explicando até gastar todo o cuspe que eu nunca ia entender. O que entendi muito bem foi que o
Kleber estava morto. O pobre.
— Mas ela gostava dele?
— Acho que sim, estavam sempre juntos. Quando ele ainda estava bom, ia tão alegrinho tomar banho com
ela na cascata… Só faltava falar, aquele cachorro.
— Ela perguntou por que você ia embora?
— Não. Não perguntou nada. Nunca me tratou mal, justiça seja feita, sempre foi muito delicada com todos os
empregados. Mas não sei, eu me aborreci por demais… isso de matar o Kleber! E montar em pelo como monta, feito
índio, e tomar banho sem roupa… Uma noite a mesa do jantar virou inteira. O doutor disse que foi ele que esbarrou
no pé da mesa, pra não cair, agarrou a toalha e veio tudo pro chão. Mas ninguém me tira da cabeça que quem virou a
mesa foi ela.
— Por quê? Por que fez isso?
— Quando fica brava… A gente tem vontade até de entrar num buraco. O olho dela, o azul, muda de cor.
— Não tira a luva, nunca?
— Capaz!… Acho que nem o doutor viu aquela mão. Já amanhece de luvinha. Até na cascata usa uma luva de
borracha.
Conceição veio interromper a conversa para mostrar à amiga uma bolsa que tinha comprado. Ficaram as
duas cochichando sobre homens. Quando tia Pombinha chegou, a mulher já estava se despedindo, o que foi uma
sorte.
Não falei com ninguém sobre essa história. Ma levei o maior susto do mundo quando dois meses depois tia
Daniela telefonou da chácara para avisar que tio Ed estava muito doente. Tia Pombinha começou a tremer. O pescoço
ficou uma mancha só.
— Deve ser a úlcera que voltou… Meu querido Ed! Cristo-Rei, será que é mesmo grave? Ducha, depressa, vai
buscar o calmante, quinze gotas num copo de água açucarada… Cristo-Rei! A úlcera…
Contei cinquenta. E carreguei no açúcar para disfarçar o gosto. Antes de levar o copo, despejei ainda mais
umas gotas.
Assim que acordou, à hora do jantar, desandou nos telefonemas avisando à velharia da irmandade que o
―menino estava doente‖.
— E tia Daniela? — perguntei quando ela parou de choramingar.
— Tem sido dedicadíssima, não sai de perto dele um só minuto. Falei também com o médico, disse que nunca
encontrou criatura tão eficiente, tem sido uma enfermeira e tanto. É o que me deixa mais descansada. Meu querido
menino…
Quando Conceição veio me anunciar que ele tinha se matado com um tiro, assustei-me à beça. Mas aquele
primeiro susto que levara quando me disseram que ele estava doente fora um susto maior ainda. Eu chegava da
escola quando Conceição veio correndo ao meu encontro.
— Seu tio Ed se matou hoje de manhã! Se matou com um tiro!
Larguei a pasta.
— Um tiro no ouvido?
— Lá sei se foi no ouvido, não me contaram mais nada, dona Pombinha parecia louca, mal podia falar. Já
seguiu com as irmãs para a chácara, foi um tamanho berreiro! Todas berravam ao mesmo tempo, um horror!
Dessa vez achei muito bom que eu estivesse na escola quando chegou a notícia. Conceição enxugou duas
lágrimas na barra do avental enquanto fritava batatas. Peguei uma batata que caíra da frigideira e afundei-a no sal.
Estava quase crua.
— Mas por que ele fez isso, Conceição?
— Ninguém sabe. Não deixou carta, nada, ninguém sabe! Vai ver que foi por causa da doença, não é mesmo?
Você também não acha que foi por causa da doença?
— Acho — concordei, enquanto esperava que caísse outra batata na frigideira.
Pensava agora em tia Daniela metida num vestido preto. E de luva também preta, como não podia deixar de
ser.
Contos escolhidos…
22
Acredite no seu sonho, invista em você!
LUA CRESCENTE EM AMSTERDAN
Lygia Fagundes Telles
O jovem casal parou diante do jardim e ali ficou sem palavra ou gesto, apenas olhando. A noite cálida, sem
vento. Uma menina loura surgiu na alameda de areia branco-azulada e veio correndo. Ficou a uma certa distância dos
forasteiros, observando-os com curiosidade enquanto comia a fatia de bolo que tirou do bolso do avental. —Vai me
dar um pedaço desse bolo? —pediu a jovem estendendo a mão. —Me dá um pedaço, hem, menininha? —Ela não
entende —ele disse. A jovem levou a mão até a boca. —Comer, comer! Estou com fome —insistiu na mímica que se
acelerou, exasperada. —Quero comer!- Aqui é a Holanda, querida. Ninguém entende. A menina foi se afastando de
costas. E desatou a correr pelo mesmo caminho por onde viera. Ele adiantou-se para chamar a menina e notou então
que a estreita alameda se bifurcava em dois longos braços curvos que deviam sedar as mãos lá no fim, abarcando o
pequeno jardim redondo.- Um abraço tão apertado - ele disse. - Acho que este é o jardim do amor. Tinha lá em casa
uma estatueta com um anjo nu fervendo de desejo apesar do mármore, todo inclinado para a amada seminua,
chegava a enlaçá-la. Mas as bocas estavam a um milímetro do beijo, um pouco mais que ele baixasse... A aflição que
me dava aquelas bocas entreabertas, sem poder se juntar. Sem poder se juntar.- Mas que língua falam em Amsterdã?
A língua de Amsterdã - ele disse enfiando os dedos nos bolsos da jaqueta, à procura de cigarros. - Teríamos que
morrer e renascer aqui para entender oque falam.- Queria tanto aquele bolo, não sente o cheiro? Queria aquele bolo,
uma migalha que fosse e ficaria mastigando, mastigando e o bolo ia se espalhar em mim, na mão, no cabelo, não
sente o cheiro? Ele limpou nas calças os dedos sujos da poeira de fumo que encontrou nos bolsos.- Vamos dormir
aqui. Mas vê se para de chorar, quer que venha o guarda?- Quero chorar.- Então chora. Molemente ela se recostou
numa árvore. Enlaçou-a. Os cabelos lhe caiam em abandono pela cara mas através dos cabelos e da folhagem pôde
ver o céu.- Que lua magrinha. É lua minguante? Ele avançou até o meio da alameda e expôs a cara que se banhou na
luz do céu estrelado.
— Acho que é crescente, tem o formato de um C. Vem, querida, ali tem um banco.- Não me chame mais de
querida. — Está bem, não chamo.- Não somos mais queridos, não somos mais nada. — Está certo. Agora vem. — O
banco é frio, quero minha cama, quero minha cama — ela soluçou e os soluços fracamente se perderam num gemido.
—Que fome. Que fome. —Amanhã a gente... — Quero hoje! —ela ordenou endireitando o corpo. Voltou para ele a face
endurecida. —Se você me amasse mesmo, faria agora um ensopado com seu fígado, com seu coração. Meus
cachorros gostavam de coração de boi. Não vai me fazer um ensopado com seu coração, não vai?- Meu coração é de
isopor e isopor não dá nenhum ensopado. Li uma vez que —ele acrescentou. Puxou-a com brandura: — Vem, Ana. Ali
tem um banco. — Meu coração é de verdade. Ele riu. —O seu? Isopor ou acrílico, na história que li o homem achou
que tinha tanto sofrimento em redor, mas tanto que não aguentou e substituiu seu coração por um de acrílico, acho
que era acrílico. —E daí? Ele ficou olhando para os pés enegrecidos da jovem, forçando as tiras das sandálias rotas.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Subiu o olhar até o jeans esfiapado, pesado de poeira.- Daí, nada. Não deu certo, ele teria que nascer outra coisa.Você sabia contar histórias melhores. Sob a camiseta de algodão transparente os pequeninos bicos dos seios pareciam
friorentos. E não estava frio. Foram escurecendo durante a viagem, ele pensou. Qual era a Ana verdadeira, esta ou a
outra? A que jurou amá-lo na terra, no mar, no braseiro, na neve, debaixo da ponte, na cama de ouro.- Você mentiu,
Ana.- Quando? Quando foi que menti? Ele desviou o olhar desinteressado.- Vem, que amanhã a gente vai ver o museu
de Rembrandt, lembra? Você disse que era o que mais queria ver no mundo.- Tenho ódio de Rembrandt. —Não
esfregue assim a cara, Ana. Você vai se machucar. —Quero me machucar. —Então se machuque. Mas vem.—Minhas
unhas eram limpas. E agora esta crosta —gemeu ela examinandoos dedos em garra. Limpou a gota de sangue que lhe
escorreu do arranhã o aberto no queixo. - Confessa que quer seguir sozinho a viagem, que quer se ver livre de mim!
Nem isso. Não queria nada, apenas comer. E mesmo assim, sem aquele antigo empenho do começo. Gostaria
também de sair dançando, a música leve, ele leve e dançando por entre as árvores até se desintegrar numa pirueta.
— Você disse que seria a menina mais feliz do mundo quando pisasse comigo em Amsterdã. — Tenho ódio de
Amsterdã. Eu era tão perfumada, tão limpa. Me sujei com você. —Nos sujamos quando acabou o amor. Agora vem,
vamos dormir naquele banco. Vem, Ana. Ela puxou-lhe a barba.- Quando foi que fiquei assim tão imunda, fala!- Mas
eu já disse, quando deixou de me amar. —Mas você também — ela soqueou lhe fracamente o peito. —Nega que você
também...- Sim, nós dois. A queda dos anjos, não tem um livro? Ah, que diferença faz. Vem. —O banco é frio.
Quando ele a tomou pela cintura, chegou a se assustar um pouco: era como se estivesse carregando uma criança,
precisamente aquela menininha que fugira há pouco com seu pedaço de bolo. Quis se comover. E descobriu que se
inquietara mais com o susto da menina do que com o corpo que agora carregava como se carrega uma empoeirada
boneca de vitrina, sem saber o quefazer com ela. Depositou-a no banco e sentou-se ao lado. Contudo, era lua
crescente. E estavam em Amsterdã. Abriu os braços. Tão oco. Leve. Poderia sair voando pelo jardim, pela cidade. Só o
coração pesando —não era estranho? De onde vinha esse peso? Das lembranças? Pior do que a ausência do amor, a
memória. —E onde estão os outros? Para a viagem? Você não disse que era aqui o reino deles? —perguntou ela
dobrando o corpo para a frente até encostar o queixo nos joelhos. — Tudo invenção. Isso de Marte ser pedregoso,
deserto. Uma vez fui lá, queria tanto voltar. Detesto este jardim. — Perdemos o outro.- Que outro? A voz dela
também mudara: era como se viesse do fundo de uma caverna fria. Sem saída. Se ao menos pudesse transmitir-lhe
esse distanciamento. Nem piedade nem rancor. —Você sabia, Ana? Algumas estrelas são leves assim como o ar, a
gente podia carregá-las numa maleta. Uma bagagem de estrelas. Já pensou no espantado homem que fosse roubar
essa maleta? Ficaria para sempre com as mãos cintilantes, mas tão cintilantes que não poderia mais tirar as luvas. —
Olha minhas unhas. Até a menininha fugiu de mim —queixou-se ela enlaçando as pernas.- Desconfiou que você ia
avançar no seu bolo. —Olha minhas unhas. Será que aqui também dão comida em troca de sangue? —Não sei. —Uma
droga de comida. Aquela de Marrocos —disse ela esfregando na areia a sola da sandália. —Nosso sangue também
deve ser uma droga de sangue.
O silêncio foi se fazendo de pequenos ruídos de bichos e plantas até formar um tênue tecido que perpassava
pela folhagem, enganchava-se imponderável numa folha e prosseguia em ondas até se romper no bico de um
pássaro. —Queria um chocolate quente com bolo. O creme, eu enchia uma colher de creme que se espalhava na
minha boca, eu abria a boca...Abriu a boca. Fechou os olhos. Ele sorriu: —Estou ouvindo uma música, a gente podia
dançar. Se a gente se amasse agente saía dançando. Ela levantou as mãos e passou as pontas dos dedos nos cabelos.
Na boca. —E agora? O que acontece quando não se tem mais nada com o amor? Quase ele levou de novo a mão no
bolso para pegar o cigarro, onde fumara o último? —Sopra o vento e a gente vira outra coisa. —Que coisa? —Sei lá.
Não quero é voltar a ser gente, eu teria que conviver com as pessoas e as pessoas —ele murmurou. —Queria ser um
passarinho, vi um dia um passarinho bem de perto e achei que devia ser simples a vida de um passarinho de penas
azuis, os olhinhos lustrosos. Acho que queria ser aquele passarinho. —Nunca me teria como companheira, nunca.
Gosto de mel, acho que quero ser borboleta. É fácil a vida de borboleta? —E curta. O vento soprou tão forte que a
menina loura teve que parar porque o avental lhe tapou a cara. Segurou o avental, arrumou a fatia de bolo dentro do
guardanapo e olhou em redor. Aproximou-se do banco vazio. Procurou por entre as árvores, voltou até o banco e
alongou o olhar meio desapontado pela alameda também deserta. Ficou esfregando as solas dos sapatos na areia fina.
Guardou o bolo no bolso e agachou-se para ver o passarinho de penas azuis bicando com disciplinada voracidade a
borboleta que procurava se esconder de baixo do banco de pedra.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
O ENCONTRO
Lygia Fagundes Telles
Em redor, o vasto campo. Mergulhado em névoa branda, o verde era pálido e opaco. Contra o céu, erguiam-se os
negros penhascos tão retos que pareciam recortados a faca. Espetado na ponta da pedra mais alta, o sol espiava
através de uma nuvem.
―Onde, meu Deus?! —perguntava a mim mesma —Onde vi esta mesma paisagem, numa tarde assim igual?
Era a primeira vez que eu pisava naquele lugar. Nas minhas andanças pelas redondezas, jamais fora além do
vale. Mas nesse dia, sem nenhum cansaço, transpus a colina e cheguei ao campo. Que calma! E que desolação. Tudo
aquilo - disso estava bem certa —era completamente inédito para mim .Mas por que então o quadro se identificava,
em todas as minúcias, a uma imagem semelhante lá nas profundezas de minha memória? Voltei-me para o bosque
que se estendia à minha direita. Esse bosque eu também já conhecera com sua folhagem cor de brasa dentro de uma
névoa dourada. ―Já vi tudo isto, já vi... Mas onde? E quando?
Fui andando em direção aos penhascos. Atravessei o campo. E cheguei à boca do abismo cavado entre as
pedras .Um vapor denso subia, como um hálito daquela garganta de cujo fundo insondável, vinha um remotíssimo
som de água corrente. Àquele som eu também conhecia. Fechei os olhos. ―Mas se nunca estive aqui! Sonhei, foi isso?
Percorri em sonho estes lugares e agora os encontro, palpáveis, reais? Por uma dessas extraordinárias coincidências
teria eu antecipado aquele passei o enquanto dormia?
Sacudi a cabeça, não, a lembrança —tão antiga quanto viva —escapava da inconsistência de um simples
sonho. Ainda uma vez fixei o olhar no campo e nevoado, nos penhascos enxutos. A tarde estava silenciosa e quieta.
Contudo, por detrás daquele silêncio, no fundo daquela quietude eu sentia qualquer coisa de sinistro. Voltei-me para o
sol que sangrava como um olho empapando de vermelho a nuvenzinha que o cobria. Invadiu-me a obscura sensação
de estar próxima de um perigo. Mas que perigo era esse e em que consistia?
Dirigi-me ao bosque. E se fugisse? Seria fácil fugir, não? Meu coração se apertou, inquieto. Fácil, sem dúvida,
mas eu prosseguia implacável como se não restasse mesmo outra coisa a fazer senão avançar. ―Vá-se embora
depressa, depressa!‖ — a razão ordenava enquanto uma parte do meu ser, mergulhada numa espécie de
encantamento, se recusava a voltar.
Uma luz dourada filtrava-se por entre a folhagem do bosque que parecia petrificado. Não havia a menor brisa
soprando por entre as folhas enrijecidas, numa tensão de expectativa.
―A expectativa está só em mim‖ —pensei, triturando entre os dedos uma folha avermelhada. Veio-me então a
certeza absoluta de já ter feito várias vezes esse gesto enquanto pisava naquele —mesmo chão que arfava sob os
meus sapatos. Enveredei por entre as árvores. — ―E nunca estive aqui, nunca estive aqui‖ —fui repetindo a aspirar o
cheiro frio da terra. Encostei-me a um tronco e por entre uma nesga da folhagem vislumbrei o céu pálido. Era como se
o visse pela última vez.
―A cilada‖ - pensei diante de uma teia que brilhava suspensa entre dois galhos. No centro, a aranha.
Aproximei-me: era uma aranha ruiva e atenta, à espera. Sacudi violentamente o galho e desfiz a teia que pendeu em
farrapos. Olhei em redor, assombrada. E a teia para a qual eu caminhava, quem? quem iria desfaze-la? Lembrei-me
do sol, lúcido como a aranha. Então enfurnei asmãos nos bolsos, endureci os maxilares e segui pela vereda.
―Agora vou encontrar uma pedra fendida ao meio.‖ E cheguei a rir, entretida com aquele estranho jogo de
reconhecimento: lá estava a grande pedra golpeada, com tufos de erva brotando na raiz da fenda. ―Se for agora por
este lado, vou encontrar um regato.‖ Apressei-me. O regato estava seco mas os pedregulhos limosos indicavam que
provavelmente na próxima primavera a água voltaria a correr por ali.
Apanhei um pedregulho. Não, não estava sonhando. Nem podia ter sonhado, mas em que sonho podia caber
uma paisagem tão minuciosa? Restava ainda uma hipótese: e se eu estivesse sendo sonhada? Perambulava pelo
sonho de alguém, mais real do que se estivesse vivendo. Por que não? Daí o fato estranhíssimo de reconhecer todos
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
os segredos do bosque, segredos que eram apenas do conhecimento da pessoa que me captara em seu sonho. ―Faço
parte de um sonho alheio‖ —disse e espetei um espinho no dedo. Gracejava mas a verdade é que crescia minha
inquietação: ―se for prisioneira de um sonho, agora escapo.‖ Uma gota de sangue escorreu pela minha mão, a dor tão
real quanto a paisagem.
Um pássaro cruzou meu caminho num vôo tumultuado. O grito que soltou foi tão dolorido que cheguei a
vacilar num desfalecimento, e se fugisse? E se fugisse? Voltei-me para o caminho percorrido, labirinto sem esperança.
―Agora é tarde!‖ — murmurei e minha voz avivou em mim um último impulso de fuga. ―Por que tarde?
‖A folha que resvalou pela minha cabeça era a seca advertência que colhi no ar e fechei na mão, que eu não
buscasse esclarecer o mistério, que não pedisse explicações para o absurdo daquela tarde tão inocente na sua
aparência. Tinha apenas que aceitar o inexplicável até que o nó se desatasse, na hora exata.
Enveredei por entre dois carvalhos. Ia de cabeça baixa, o coração pesado mas as passadas eram enérgicas,
impelida por uma energia que não sabia de onde vinha. ―Agora vou encontrar uma fonte. Sentada ao lado, está uma
moça.
Ao lado da fonte, estava a moça vestida com um estranho traje de amazona. Tinha no rosto muito branco
uma expressão tão ansiosa que era evidente estar à espera de alguém. Ao ouvir meus passos, animou-se para caírem
seguida no maior desalento.
Aproximei-me. Ela lançou-me um olhar desinteressado e cruzou as mãos no, regaço.
— Pensei que fosse outra pessoa, estou esperando uma pessoa.
Sentei-me numa pedra verde de musgo, olhando em silêncio seu traje completamente antiquado: vestia uma
jaqueta de veludo preto e uma extravagante saia rodada que lhe chegava até a ponta das botinhas de amarrar.
Emergindo da gola alta da jaqueta destacava-se a gravata de renda branca, presa com um broche de ouro em forma
de bandolim. Atirado no chão, aos seus pés, o chapéu de veludo com uma pluma vermelha.
Fixei-me naquela fisionomia devastada. ―Já vi esta moça, mas onde foi? E quando?...‖ Dirigi-me a ela sem o
menor constrangimento, como se a conhecesse há muitos anos.
— Você mora aqui perto?
— Em Valburgo —respondeu sem levantar a cabeça. Mergulhara tão profundamente nos próprios
pensamentos, que parecia desligada de tudo, aceitando minha presença sem nenhuma surpresa, não notando sequer
o disparatado contraste de nossas roupas. Devia ter chorado. E agora ali estava numa patética exaustão, as mãos
abandonadas no regaço, alguns anéis de cabelo caindo pelo rosto. Nunca criatura alguma me pareceu tão
desesperada, tão tranquilamente desesperada, se é que cabia tranquilidade no desespero. Perdera toda a esperança e
decidira resignar-se. Mas sentia-se a fragilidade naquela resignação.- Valburgo, Valburgo...
— Fiquei repetindo. O nome não me era desconhecido. E não me lembrava de nenhum lugar com esse nome
em toda aquela região.- Fica logo depois do vale. Não conhece Valburgo?
— Conheço - respondi prontamente. Tinha agora a certeza de que esse lugar não existia mais.
Com um gesto indiferente, ela tentou prender o cabelo que desabava do penteado alto. Afrouxou
ansiosamente o laço da gravata, como se lhe faltasse o ar. O bandolim de ouro pendeu, repuxando a renda. ―Esse
broche... Mas já não vi esse mesmo broche nessa mesma gravata?!‖
— Eu esperava uma pessoa - disse com esforço, voltando o olhar dolorido para o cavalo preso a um tronco.Gustavo? Esse nome escapou-me com tamanha espontaneidade que me assustei, era como se estivesse sempre em
minha boca, aguardando aquele instante para ser dito.
— Gustavo —repetiu ela e sua voz era um eco. —Gustavo.
Encarei-a. Mas por que ele não tinha vindo? ―E nem virá, nunca mais. Nunca mais.
‖Fixei obstinadamente o olhar naquela desconcertante personagem de um antiquíssimo álbum de retratos.
Álbum que eu já folheara muitas vezes, muitas. Pressentia agora um drama com cenas entremeadas de discussões
tão violentas, lágrimas. A cena esboçou-se esfamadamente nas minhas raízes, cena que culminou naquela noite das
vozes. exasperadas. De homens. De inimigos. Alguém fechou as janelas da pequena sala frouxamente iluminada por
um candelabro. Procurei distinguir o que diziam quando através da vidraça embaçada vi delinear-se a figura de um
velho magro, de sobrecasaca preta, batendo furiosamente a mão espalmada na mesa enquanto parecia dirigir-se a
uma máscara de cera que flutuava na penumbra.
Moveu-se a máscara entrando na zona de luz. Gustavo! Era Gustavo. A mão do velho continuou batendo na
mesa e eu não podia me despregar dessa mão tão familiar com suas veias azuis se enroscando umas nas outras numa
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
rede de fúria. Nos punhos de renda de sua camisa destacavam-se com uma nitidez atroz os rubis de suas
abotoaduras. Um dos homens avançou. Foi Gustavo? Ou o velho? A garrucha avançou também e a cena explodiu em,
meio de um clarão. Antes do negrume total vi por último as -abotoaduras brilhando irregulares como gotas de sangue.
Senti o coração confranger-se de espanto, ―quem foi que atirou, quem foi?!‖ Apertei os nós dos dedos contra
os olhos. -Era quase insuportável a violência com que o sangue me golpeava as fontes.
—Você devia voltar para casa.
—Que casa? - perguntou ela abrindo as mãos. Olhei para suas mãos. Subi o olhar até seu rosto e fiquei sem
saber o que dizer: era parecidíssima com alguém que eu conhecia tanto.
—Por que não vai procurá-lo? —lembrei-me de perguntar. Mas não esperei resposta. A verdade é que ela
também suspeitava de que estava tudo acabado.
Escurecia. Uma névoa roxa e que eu não sabia se vinha do céu ou do chão - parecia envolvê-la numa aura.
Achei-a impregnada da mesma falsa calmaria da paisagem.
—Vou-me embora —disse apanhando o chapéu.
Sua voz chegou-me aos ouvidos bastante próxima. Mas singular mente longínqua. Levantei-me. Nesse
instante, soprou um vento gelado com tamanha força que me vi enrolada numa verdadeira nuvem de folhas secas e
poeira. Aramaria vergou num descabelamento desatinado. Verguei também tapando acara com as mãos. Quando
consegui abrir os olhos ela já estava montada. O mesmo vento que despertara o bosque, com igual violência
arrancou-a daquela apatia: palpitava em cima do cavalo tão elétrico quanto as folhas vermelhas rodopiando em redor.
Espicaçado, o animal batia com os cascos nos pedregulhos, desgrenhado, indócil. Quis retê-la..
— Há ainda uma coisa!
Ela então voltou-se para mim. A pluma vermelha de seu chapéu debatia-se como uma lavareda em meio da
ventania. Seus olhos eram agora dois furos na face de um tom acinzentado de pedra.
— Há ainda uma coisa - repeti agarrando as rédeas do cavalo. Ela arrancou-as rédeas das minhas mãos e
chicoteou o cavalo. Recuei. Aquela chicotada atingiu em cheio o mistério. Desatou-se o nó na explosão da
tempestade. Meus cabelos se eriçaram. Era comigo que ela se parecia! Aquele rosto era o meu.
—Eu fui você - balbuciei. - Num outro tempo eu fui você! - quis gritar e minha voz saiu despedaçada. Tão
simples tudo, por que só agora entendi?... O bosque, a aranha, o bandolim de ouro pendendo da gravata, a pluma do
chapéu, aquela pluma que minhas mãos tantas vezes alisaram... E Gustavo? Estremeci. Gustavo! A saleta
esfumaçada, se fez nítida. Lembrei-me do que tinha acontecido. E do que ia acontecer.
—Não! - gritei, puxando de novo as rédeas. Um raio chicoteou o bosque com a mesma força com que ela
chicoteou o cavalo. Ele empinou, imenso, negro, os olhos saltados, arrancando-se das minhas mãos. Estatelada, vi-o
fugir por entre as árvores.
Fui atrás. O vento me cegava. Espinhos me esfrangalhavam a roupa. Mas eu corria, corria alucinadamente na
tentativa de impedir o que já sabia inevitável. Guiava-me a pluma vermelha que ora desaparecia, ora ressurgia por
entre as árvores, flamejante na escuridão. Por duas vezes senti o cavalo tão próximo que poderia tocá-lo se
estendesse a mão. Depois o galope foi se apagando até ficar apenas o uivo do vento.
Assim que atingi o campo, desabei de joelhos. Um relâmpago
estourou e por um segundo, por um brevíssimo segundo, consegui
vislumbrar ao longe a pluma debatendo-se ainda. Então gritei, gritei com
todas as forças que me restavam. E tapei os ouvidos para não ouvir o eco de
meu grito misturar-se ao ruído pedregoso de cavalo e cavaleira se
despencando no abismo.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
TIGRELA
Lygia Fagundes Telles
Encontrei Romana por acaso, num café. Estava meio bêbada mas lá no fundo da sua transparente bebedeira senti um
depósito espesso subindo rápido quando ficava séria. Então a boca descia, pesada, fugidio o olhar que se
transformava de caçador em caça. Duas vezes apertou minha mão, eu preciso de você, disse. Mas logo em seguida já
não precisava mais, e esse medo virava indiferença, quase desprezo, com um certo traço torpe engrossando o lábio.
Voltava a ser adolescente quando ria, a melhor da nossa classe, sem mistérios. Sem perigo. Fora belíssima e ainda
continuava mas sua beleza corrompida agora era triste até na alegria. Contou-me que se separou do quinto marido e
vivia com um pequeno tigre num apartamento de cobertura.
Com um tigre, Romana? Ela riu. Tivera um namorado que andara pela Ásia e na bagagem trouxera Tigrela
dentro de um cestinho, era pequenina assim, precisou criá-la com mamadeira. Crescera pouco mais do que um gato,
desses de pêlo fulvo e com listras tostadas, o olhar de ouro. Dois terços de tigre e um terço de mulher, foi se
humanizando e agora. No começo me imitava tanto, era divertido, comecei também a imitá-la e acabamos nos
embrulhando de tal jeito que já não sei se foi com ela que aprendi a me olhar no espelho com esse olho de fenda. Ou
se foi comigo que aprendeu a se estirar no chão e deitar a cabeça no braço para ouvir música, é tão harmoniosa. Tão
limpa, disse Romana, deixando cair o cubo de gelo no copo. O pêlo é desta cor, acrescentou mexendo o uísque.
Colheu com a ponta dos dedos uma lâmina de gelo que derretia no fundo do copo. Trincou-a nos dentes e o som me
fez lembrar que antigamente costumava morder o sorvete. Gostava de uísque, essa Tigrela, mas sabia beber, era
contida, só uma vez chegou a ficar realmente de fogo. E Romana sorriu quando se lembrou do bicho dando
cambalhotas, rolando pelos móveis até pular no lustre e ficar lá se balançando de um lado para outro, fez Romana
imitando frouxamente o movimento de um pêndulo.
Despencou com metade do lustre no almofadão e aí dançamos um tango juntas, foi atroz. Depois ficou deprimida e na
depressão se exalta, quase arrasou com o jardim, rasgou meu chambre, quebrou coisas. No fim, quis se atirar do
parapeito do terraço, que nem gente, igual. Igual, repetiu Romana procurando o relógio no meu pulso. Recorreu a um
homem que passou ao lado da nossa mesa, As horas, as horas! Quando soube que faltava pouco para a meia-noite
baixou o olhar num cálculo sombrio. Ficou em silêncio. Esperei. Quando recomeçou a falar, me pareceu uma jogadora
excitada, escondendo o jogo na voz artificial: Mandei fazer uma grade de aço em toda a volta da mureta, se quiser,
ela trepa fácil nessa grade, é claro. Mas já sei que só tenta o suicídio na bebedeira e então basta fechar a porta que
dá para o terraço. Está sempre tão lúcida, prosseguiu baixando a voz, e seu rosto escureceu. O que foi, Romana?,
perguntei tocando-lhe a mão. Estava gelada. Fixou em mim o olhar astuto. Pensava em outra coisa quando me disse
que no crepúsculo, quando o sol batia de lado no topo do edifício, a sombra da grade se projetava até o meio do
tapete da sala e se Tigrela estivesse dormindo no almofadão, era linda a rede de sombra se abatendo sobre seu pêlo
como uma armadilha.
Mergulhou o dedo indicador no copo, fazendo girar o gelo do uísque. Usava nesse dedo uma esmeralda
quadrada, como as rainhas. Mas não é mesmo extraordinário? O pouco espaço do apartamento condicionou o
crescimento de um tigre asiático na sábia mágica da adaptação, não passava de um gatarrão que exorbitou, como se
intuísse que precisava mesmo se restringir: não mais do que um gato aumentado. Só eu sei que cresceu, só eu notei
que está ocupando mais lugar embora continue do mesmo tamanho, ultimamente mal cabemos as duas, uma de nós
teria mesmo que... Interrompeu para acender a cigarrilha, a chama vacilante na mão trêmula. Dorme comigo, mas
quando está de mal vai dormir no almofadão.
Deve ter dado tanto problema, E os vizinhos?, perguntei. Romana endureceu o dedo que mexia o gelo. Não
tinha vizinhos, um apartamento por andar num edifício altíssimo, todo branco, estilo mediterrâneo, Você precisa ver
como Tigrela combina com o apartamento. Andei pela Pérsia, você sabe, não? E de lá trouxe os panos, os tapetes, ela
adora esse conforto veludoso, é tão sensível ao tato, aos cheiros. Quando amanhece inquieta, acendo um incenso, o
perfume a amolece. Ligo o toca-discos. Então dorme em meio de espreguiçamentos, desconfio que vê melhor de olhos
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
fechados, como os dragões. Tivera algum trabalho em convencer Aninha de que era apenas um gato desenvolvido,
Aninha era a empregada. Mas agora, tudo bem, as duas guardavam uma certa distância e se respeitavam, o
importante era isso, o respeito. Aceitara Aninha, que era velha e feia, mas quase agredira a empregada anterior, uma
jovem. Enquanto essa jovem esteve comigo, Tigrela praticamente não saiu do jardim, enfurnada na folhagem, o olho
apertado, as unhas cravadas na terra.
As unhas, eu comecei e fiquei sem saber o que ia dizer em seguida. A esmera(da tombou de lado como uma
cabeça desamparada e foi bater no copo, o dedo era fino demais para o aro. O som da pedra no vidro despertou
Romana que me pareceu, por um momento, apática. Levantou a cabeça e vagou o olhar pelas mesas repletas, Que
barulho, não? Sugeri que saíssemos, mas ao invés da conta pediu outro uísque, Fique tranqüila, estou acostumada,
disse e respirou profundamente. Endireitou o corpo. Tigrela gostava de jóias e de Bach, sim, Bach, insistia sempre nas
mesmas músicas, particularmente na Paixão Segundo São Mateus. Uma noite, enquanto eu me vestia para o jantar,
ela veio me ver, detesta que eu saia mas nessa noite estava contente, aprovou meu vestido, prefere vestidos mais
clássicos e esse era um longo de seda cor de palha, as mangas compridas, a cintura baixa. Gosta, Tigrela? perguntei,
e ela veio, pousou as patas no meu colo, lambeu de leve meu queixo, para não estragar a maquilagem, e começou a
puxar com os dentes meu colar de âmbar. Quer para você?, perguntei, e ela grunhiu, delicada mas firme. Tirei o colar
e o enfiei no pescoço dela. Viu-se no espelho, o olhar úmido de prazer. Depois lambeu minha mão e lá se foi com o
colar dependurado no pescoço, as contas maiores roçando o chão. Quando está calma, o olho fica amarelo bem
clarinho, da mesma cor do âmbar.
Aninha dorme no apartamento?, perguntei e Romana teve um sobressalto, como se apenas naquele instante
tivesse tomado consciência de que Aninha chegava cedo e ia embora ao anoitecer, as duas ficavam sós. Encarei-a
mais demoradamente e ela riu, Já sei, você está me achando louca, mas assim de fora ninguém entende mesmo, é
complicado. E tão simples, você teria que entrar no jogo para entender. Vesti o casaco, mas tinha esfriado? Lembra,
Romana?, eu perguntei. Da nossa festa de formatura, ainda tenho o retrato, você comprou para o baile um sapato
apertado, acabou dançando descalça, na hora da valsa te vi rodopiando de longe, o cabelo solto, o vestido leve, achei
uma beleza aquilo de dançar descalça. Ela me olhava com atenção mas não ouviu uma só palavra. Somos
vegetarianas, sempre fui vegetariana, você sabe. Eu não sabia. Tigrela só come legumes; ervas frescas e leite com
mel, não entra carne em casa, que carne dá mau hálito. E certas idéias, disse e apertou minha mão. Eu preciso de
você. Inclinei-me para ouvir, mas o garçom estendeu o braço para apanhar o cinzeiro e Romana ficou de novo frívola,
interessada na limpeza do cinzeiro, Por acaso eu já tinha provado leite batido com agrião e melado? A receita é
facílima, a gente bate tudo no liquidificador e depois passa na peneira, acrescentou e estendeu a mão. O senhor sabe
as horas? Você tem algum compromisso, perguntei, e ela respondeu que não, não tinha nada pela frente. Nada
mesmo, repetiu, e tive a impressão de que empalideceu, enquanto a boca se entreabria para voltar ao seu cálculo
obscuro. Colheu na ponta da língua o cubo diminuído de gelo, trincou-o nos dentes. Ainda não aconteceu mas vai
acontecer, disse com certa dificuldade porque o gelo lhe queimava a língua. Fiquei esperando. O largo gole de uísque
pareceu devolver-lhe algum calor. Uma noite dessas, quando eu voltar para casa o porteiro pode vir correndo me
dizer, A senhora sabe? De algum desses terraços... Mas pode também não dizer nada e terei que subir e continuar
bem natural para que ela não perceba, ganhar mais um dia. Às vezes nos medimos e não sei o resultado, ensinei-lhe
tanta coisa, aprendi outro tanto, disse Romana esboçando um gesto que não completou. Já contei que é Aninha quem
lhe apara as unhas? Entrega-lhe a pata sem a menor resistência, mas não permite que lhe escove os dentes, tem as
gengivas muito sensíveis. Comprei uma escova de cerda natural, o movimento da escova tem que ser de cima para
baixo, bem suavemente, a pasta com sabor de hortelã. Não usa o fio dental porque não come nada de fibroso, mas se
um dia me comer sabe onde encontrar o fio.
Pedi um sanduíche, Romana pediu cenouras cruas, bem lavadas. E sal, avisou apontando o copo vazio.
Enquanto 0 garçom serviu o uísque, não falamos. Quando se afastou, comecei a rir, É verdade, Romana? Tudo isso!
Não respondeu, somava de novo suas lembranças e, entre todas, aquela que lhe tirava o ar: respirou com esforço,
afrouxando o laço da echarpe. A nódoa roxa apareceu em seu pescoço. Desviei o olhar para a parede. Através do
espelho vi quando refez o nó e cheirou o uísque. Riu. Tigrela sabia quando o uísque era falsificado, Até hoje não
distingo, mas uma noite ela deu uma patada na garrafa que voou longe. Por que fez isso, Tigrela? Não me respondeu.
Fui ver os cacos e então reconheci, era a mesma marca que me deu uma alucinante ressaca. Você acredita que ela
conhece minha vida mais do que Yasbeck? E Yasbeck foi quem mais teve ciúme de mim, até detetive punha me
vigiando. Finge que não liga mas a pupila se dilata e transborda como tinta preta derramando no olho inteiro, eu já
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
falei nesse olho? É nele que vejo a emoção. O ciúme. Fica intratável. Recusa a manta, a almofada e vai para o jardim,
o apartamento fica no meio de um jardim que mandei plantar especialmente, uma selva em miniatura. Fica lá o dia
inteiro, a noite inteira, amoitada na folhagem, posso morrer de chamar que não vem, o focinho molhado de orvalho
ou de lágrimas.
Fiquei olhando para o pequeno círculo de água que seu copo deixou na mesa. Mas Romana, não seria mais
humano se a mandasse para o zoológico? Deixe que ela volte a ser bicho, acho cruel isso de lhe impor sua jaula, e se
for mais feliz na outra? Você a escravizou. E acabou se escravizando, tinha que ser. Não vai lhe dar ao menos a
liberdade de escolha? Com impaciência, Romana afundou a cenoura no sal. Lambeu-a. Liberdade é conforto, minha
querida, Tigrela também sabe disso. Teve todo 0 conforto, como Yasbeck fez comigo até me descartar.
E agora você quer se descartar dela, eu disse. Em alguma mesa um homem começou a cantar ao gritos um
trecho de ópera, mas depressa a voz submergiu nas risadas. Romana falava tão rapidamente que tive de interrompêla, Mais devagar, não estou entendendo nada! Freou as palavras, mas logo recomeçou o galope desatinado, como se
não lhe restasse muito tempo. Nossa briga mais violenta foi por causa dele, Yasbeck, você entende, aquela confusão
de amor antigo que de repente reaparece, às vezes ele me telefona e então dormimos juntos, ela sabe perfeitamente
o que está acontecendo. Ouviu a conversa. Quando voltei estava acordada, me esperando feito uma estátua diante da
porta, está claro que disfarcei como pude, mas é esperta, farejou até sentir cheiro de homem em mim. Ficou uma
fera. Acho que eu gostaria de ter um unicórnio, você sabe, aquele lindo cavalo alourado com um chifre cor-de-rosa na
testa, vi na tapeçaria medieval, estava apaixonado pela princesa que lhe oferecia um espelho para que se olhasse.
Mas onde está esse garçom? Garçom, por favor, pode me dizer as horas? E traga mais gelo! Imagine que ela passou
dois dias sem comer, entigrada, prosseguiu Romana. Agora falava devagar, a voz pesada, uma palavra depois da
outra com os pequenos cálculos se ajustando nos espaços vazios. Dois dias sem comer, arrastando pela casa o colar e
a soberba. Estranhei, Yasbeck tinha ficado de telefonar e não telefonou, mandou um bilhete, O que aconteceu com
seu telefone que está mudo? Fui ver e então encontrei o fio completamente moído, as marcas dos dentes em toda a
extensão do plástico. Não disse nada mas senti que ela me observava por aquelas suas fendas que atravessam vidro,
parede. Acho que naquele dia mesmo descobriu o que eu estava pensando, ficamos desconfiadas mas ainda assim,
está me entendendo? Tinha tanto fervor...
Tinha?, perguntei. Ela abriu as mãos na mesa e me enfrentou: Por que está me olhando assim? O que mais
eu poderia fazer? Deve ter acordado às onze horas, é a hora que costuma acordar, gosta da noite. Ao invés de leite,
enchi sua tigela de uísque e apaguei as luzes, no desespero enxerga melhor no escuro e hoje estava desesperada
porque ouviu minha conversa, pensa que estou com ele agora. A porta do terraço está aberta, essa porta também
ficou aberta outras noites e não aconteceu, mas nunca se sabe, é tão imprevisível, acrescentou com voz sumida.
Limpou o sal dos dedos no guardanapo de papel. Já vou indo. Volto tremendo para o apartamento porque nunca sei se
o porteiro vem ou não me avisar que de algum terraço se atirou uma jovem nua, com um colar de âmbar enrolado no
pescoço.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
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NATAL NA BARCA
Lygia Fagundes Telles
Não quero nem devo lembrar aqui por que me encontrava naquela barca. Só sei que em redor tudo era
silêncio e treva. E que me sentia bem naquela solidão. Na embarcação desconfortável, tosca, apenas quatro
passageiros. Uma lanterna nos iluminava com sua luz vacilante: um velho, uma mulher com uma criança e eu.
O velho, um bêbado esfarrapado, deitara-se de comprido no banco, dirigira palavras amenas a um vizinho
invisível e agora dormia. A mulher estava sentada entre nós, apertando nos braços a criança enrolada em panos. Era
uma mulher jovem e pálida. O longo manto escuro que lhe cobria a cabeça dava-lhe o aspecto de uma figura antiga.
Pensei em falar-lhe assim que entrei na barca. Mas já devíamos estar quase no fim da viagem e até aquele
instante não me ocorrera dizer-lhe qualquer palavra. Nem combinava mesmo com uma barca tão despojada, tão sem
artifícios, a ociosidade de um diálogo. Estávamos sós. E o melhor ainda era não fazer nada, não dizer nada, apenas
olhar o sulco negro que a embarcação ia fazendo no rio.
Debrucei-me na grade de madeira carcomida. Acendi um cigarro. Ali estávamos os quatro, silenciosos como
mortos num antigo barco de mortos deslizando na escuridão. Contudo, estávamos vivos. E era Natal.
A caixa de fósforos escapou-me das mãos e quase resvalou para o. rio. Agachei-me para apanhá-la. Sentindo
então alguns respingos no rosto, inclinei-me mais até mergulhar as pontas dos dedos na água.
— Tão gelada — estranhei, enxugando a mão.
— Mas de manhã é quente.
Voltei-me para a mulher que embalava a criança e me observava com um meio sorriso. Sentei-me no banco
ao seu lado. Tinha belos olhos claros, extraordinariamente brilhantes. Reparei que suas roupas (pobres roupas puídas)
tinham muito caráter, revestidas de uma certa dignidade.
— De manhã esse rio é quente — insistiu ela, me encarando.
— Quente?
— Quente e verde, tão verde que a primeira vez que lavei nele uma peça de roupa pensei que a roupa fosse
sair esverdeada. É a primeira vez que vem por estas bandas?
Desviei o olhar para o chão de largas tábuas gastas. E respondi com uma outra pergunta:
— Mas a senhora mora aqui perto?
— Em Lucena. Já tomei esta barca não sei quantas vezes, mas não esperava que justamente hoje...
A criança agitou-se, choramingando. A mulher apertou-a mais contra o peito. Cobriu-lhe a cabeça com o xale
e pôs-se a niná-la com um brando movimento de cadeira de balanço. Suas mãos destacavam-se exaltadas sobre o
xale preto, mas o rosto era sereno.
— Seu filho?
— É. Está doente, vou ao especialista, o farmacêutico de Lucena achou que eu devia ver um médico hoje
mesmo. Ainda ontem ele estava bem mas piorou de repente. Uma febre, só febre... Mas Deus não vai me abandonar.
— É o caçula?
Levantou a cabeça com energia. O queixo agudo era altivo mas o olhar tinha a expressão doce.
— É o único. O meu primeiro morreu o ano passado. Subiu no muro, estava brincando de mágico quando de
repente avisou, vou voar! E atirou-se. A queda não foi grande, o muro não era alto, mas caiu de tal jeito... Tinha
pouco mais de quatro anos.
Joguei o cigarro na direção do rio e o toco bateu na grade, voltou e veio rolando aceso pelo chão. Alcancei-o
com a ponta do sapato e fiquei a esfregá-lo devagar. Era preciso desviar o assunto para aquele filho que estava ali,
doente, embora. Mas vivo.
— E esse? Que idade tem?
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Vai completar um ano. — E, noutro tom, inclinando a cabeça para o ombro: — Era um menino tão alegre.
Tinha verdadeira mania com mágicas. Claro que não saía nada, mas era muito engraçado... A última mágica que fez
foi perfeita, vou voar! disse abrindo os braços. E voou.
Levantei-me. Eu queria ficar só naquela noite, sem lembranças, sem piedade. Mas os laços (os tais laços
humanos) já ameaçavam me envolver. Conseguira evitá-los até aquele instante. E agora não tinha forças para rompêlos.
— Seu marido está à sua espera?
— Meu marido me abandonou.
Sentei-me e tive vontade de rir. Incrível. Fora uma loucura fazer a primeira pergunta porque agora não podia
mais parar, ah! aquele sistema dos vasos comunicantes.
— Há muito tempo? Que seu marido...
— Faz uns seis meses. Vivíamos tão bem, mas tão bem. Foi quando ele encontrou por acaso essa antiga
namorada, me falou nela fazendo uma brincadeira, a Bila enfeiou, sabe que de nós dois fui eu que acabei ficando mais
bonito? Não tocou mais no assunto. Uma manhã ele se levantou como todas as manhãs, tomou café, leu o jornal,
brincou com o menino e foi trabalhar. Antes de sair ainda fez assim com a mão, eu estava na cozinha lavando a louça
e ele me deu um adeus através da tela de arame da porta, me lembro até que eu quis abrir a porta, não gosto de ver
ninguém falar comigo com aquela tela no meio... Mas eu estava com a mão molhada. Recebi a carta de tardinha, ele
mandou uma carta. Fui morar com minha mãe numa casa que alugamos perto da minha escolinha. Sou professora.
Olhei as nuvens tumultuadas que corriam na mesma direção do rio. Incrível. Ia contando as sucessivas
desgraças com tamanha calma, num tom de quem relata fatos sem ter realmente participado deles. Como se não
bastasse a pobreza que espiava pelos remendos da sua roupa, perdera o filhinho, o marido, via pairar uma sombra
sobre o segundo filho que ninava nos braços. E ali estava sem a menor revolta, confiante. Apatia? Não, não podiam
ser de uma apática aqueles olhos vivíssimos, aquelas mãos enérgicas. Inconsciência? Uma certa irritação me fez
andar.
— A senhora é conformada.
— Tenho fé, dona. Deus nunca me abandonou.
— Deus — repeti vagamente.
— A senhora não acredita em Deus?
— Acredito — murmurei. E ao ouvir o som débil da minha afirmativa, sem saber por quê, perturbei-me. Agora
entendia. Aí estava o segredo daquela segurança, daquela calma. Era a tal fé que removia montanhas...
Ela mudou a posição da criança, passando-a do ombro direito para o esquerdo. E começou com voz quente
de paixão:
— Foi logo depois da morte do meu menino. Acordei uma noite tão desesperada que saí pela rua afora, enfiei
um casaco e saí descalça e chorando feito louca, chamando por ele! Sentei num banco do jardim onde toda tarde ele
ia brincar. E fiquei pedindo, pedindo com tamanha força, que ele, que gostava tanto de mágica, fizesse essa mágica
de me aparecer só mais uma vez, não precisava ficar, se mostrasse só um instante, ao menos mais uma vez, só mais
uma! Quando fiquei sem lágrimas, encostei a cabeça no banco e não sei como dormi. Então sonhei e no sonho Deus
me apareceu, quer dizer, senti que ele pegava na minha mão com sua mão de luz. E vi o meu menino brincando com
o Menino Jesus no jardim do Paraíso. Assim que ele me viu, parou de brincar e veio rindo ao meu encontro e me
beijou tanto, tanto... Era tamanha sua alegria que acordei rindo também, com o sol batendo em mim.
Fiquei sem saber o que dizer. Esbocei um gesto e em seguida, apenas para fazer alguma coisa, levantei a
ponta do xale que cobria a cabeça da criança. Deixei cair o xale novamente e voltei-me para o rio. O menino estava
morto. Entrelacei as mãos para dominar o tremor que me sacudiu. Estava morto. A mãe continuava a niná-lo,
apertando-o contra o peito. Mas ele estava morto.
Debrucei-me na grade da barca e respirei penosamente: era como se estivesse mergulhada até o pescoço
naquela água. Senti que a mulher se agitou atrás de mim
— Estamos chegando — anunciou.
Apanhei depressa minha pasta. O importante agora era sair, fugir antes que ela descobrisse, correr para
longe daquele horror. Diminuindo a marcha, a barca fazia uma larga curva antes de atracar. O bilheteiro apareceu e
pôs-se a sacudir o velho que dormia:
- Chegamos!... Ei! chegamos!
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Aproximei-me evitando encará-la.
— Acho melhor nos despedirmos aqui — disse atropeladamente, estendendo a mão.
Ela pareceu não notar meu gesto. Levantou-se e fez um movimento como se fosse apanhar a sacola. Ajudeia, mas ao invés de apanhar a sacola que lhe estendi, antes mesmo que eu pudesse impedi-lo, afastou o xale que
cobria a cabeça do filho.
— Acordou o dorminhoco! E olha aí, deve estar agora sem nenhuma febre.
— Acordou?!
Ela sorriu:
— Veja...
Inclinei-me. A criança abrira os olhos — aqueles olhos que eu vira cerrados tão definitivamente. E bocejava,
esfregando a mãozinha na face corada. Fiquei olhando sem conseguir falar.
— Então, bom Natal! — disse ela, enfiando a sacola no braço.
Sob o manto preto, de pontas cruzadas e atiradas para trás, seu rosto resplandecia. Apertei-lhe a mão
vigorosa e acompanhei-a com o olhar até que ela desapareceu na noite.
Conduzido pelo bilheteiro, o velho passou por mim retomando seu afetuoso diálogo com o vizinho invisível.
Saí por último da barca. Duas vezes voltei-me ainda para ver o rio. E pude imaginá-lo como seria de manhã cedo:
verde e quente. Verde e quente.
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UM CORAÇÃO ARDENTE
Lygia Fagundes Telles
O velho voltou-se para a janela aberta, que enquadrava um pedaço do céu estrelado. Tinha uma bela voz:
... Mas eu dizia que na minha primeira juventude fui escritor. Pois é, escritor. Aliás, enveredei por todos os
gêneros: poesia, romance, crônica , teatro... Fiz de tudo. E mais gêneros houvesse... Meti-me também na política,
cheguei a escrever uma doutrina inteira para o meu partido. Mergulhei ainda na filosofia, ô Kant, ó Bergson!... Achava
importantíssimo meu distintivo de filósofo, com uma corujinha encolhida em cima de um livro.
Calou-se. Havia agora no seu olhar uma expressão de afetuosa ironia. Zombava de si próprio, mas sem
amargor.
―Eu não sabia que não tinha vocação nem para político, nem para filósofo, nem para advogado, não tinha a
menor vocação para nenhuma daquelas carreiras que me fascinavam, essa é a verdade. Tinha apenas um coração
ardente, isto sim. Apenas um coração ardente, mais nada.
Meu filho Atos herdou o mesmo coração. Devo dizer-lhe que um coração assim é um bem. Não há dúvida que
é um bem, mas um bem perigoso, está me compreendendo? Tão perigoso... Principalmente na adolescência, logo no
começo da vida, no tão difícil começo. Meu pobre filho que o diga...
Calou-se apertando fortemente os lábios. Eu quis então romper o silêncio porque sabia do que aquele silêncio
se carregava, mas não tive forças para dizer coisa alguma. O olhar do velho já denunciava as tristes lembranças que o
assaltavam: qualquer tentativa para afastá-las resultaria agora inútil. E seria mesmo cruel.
―Ele era inteiro um coração, prosseguiu o velho‖, E foi por saber tão bem disto que corri como um louco para
casa quando me disseram que Leonor tinha morrido. Não, não fui nem pensei sequer em ir ao hospital porque
adivinhei que ele não estava mais lá, devia ter ficado com a noiva até o último momento. Em seguida, devia ter
voltado para casa.
Saí correndo pela rua afora, acenando para os carros que passavam já ocupados. Chovia, chovia
horrivelmente. E eu acenava em vão para os carros, tentei mesmo agarrar-me a um deles, 'depressa, depressa, que
meu filho vai se matar!' Corri tanto que quando cheguei, encharcado e exausto, atirei- me quase desfalecido nos
degraus da escada. E ali fiquei de bruços, a olhar estupidamente uma formiguinha que se infiltrara numa fenda do
degrau de pedra. A casa estava quieta. Quieta demais, pensei, erguendo-me de um salto. E precipitei-me aos gritos
pela casa adentro, embora soubesse muito bem que ele não podia mais me ouvir, 'filho, não!'
O velho fez uma pausa. Acendi um cigarro. Que ao menos o ruído do fósforo riscado rompesse o silêncio que
se abateu na sala. Fixei o olhar numa rosa do tapete puído. E só quando o velho recomeçou a falar é que tive coragem
de encará-lo novamente. A imagem do filho, com o peito varado por uma bala, já passara para um plano remoto.
Atos herdou de mim esse tipo de coração. Gente assim ri mais, chora mais, odeia mais, ama mais... Ama
mais, principalmente isto. Ama muito mais. E uma espécie de gente inflamável, que está sempre se queimando e se
renovando sem parar. De onde nascem chamas tão altas? Muitas vezes não há nenhuma acha de lenha para alimentar
o fogo, de onde vem tamanho impulso? Mistério. As pessoas param, fascinadas, em torno desse calor tão espontâneo
e inocente, não? Tão inocente. No entanto, tão perigoso, meu Deus. Tão perigoso.
O
velho
soprou
a
brasa mortiça
do
cigarro
de
palha.
Seu
largo
rosto
bronzeado
pareceu-me
extraordinariamente rejuvenescido.
Como eu entendia bem aquele filho, eu que lhe transmitira o tal coração flamejante! Como se parecia
comigo! Faltava-lhe, apenas, o meu senso de humor, ele matou-se com vinte anos.
Com vinte anos, eu já terminara três romances, duas peças, um livro de novelas e uma enorme epopéia da
qual tirei a tal doutrina para o meu partido. Lia Bergson, Nietzsche, Shakespeare... Citava-os enfaticamente, com ou
sem cabimento. E cada livro que lia, achava que era a obra máxima, meu guia; meu irmão, meu tudo. Isto até ler
outro livro. Então punha de lado o anterior e imediatamente adotava o novo, achei o que queria, achei!... Tão
desordenada avalanche de leituras me confundiu a tal ponto, que acabei por me perder e não conseguia mais me
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
encontrar. Os heróis de meus livros me marcavam tanto, que de cada um ficava um pouco em mim: sorria como
Fausto, investia como D. Quixote, sonhava como Romeu... Tive crises de angústia, fiquei completamente atordoado,
infeliz. Como é que eu era afinal? Senti-me de repente vazio e perplexo, um personagem em absoluta disponibilidade
diante do autor. E que autor era esse? Deus? Mas eu acreditava Nele? Não acreditava? A vida me dava náuseas. Mas
não era ainda maior do que a náusea o pavor que eu tinha da morte? Que é que eu quero? Que é que eu faço?! ficava a perguntar a mim mesmo até altas horas, a andar de um lado para outro no meu quarto enquanto meu irmão
protestava no quarto vizinho, 'quer ter a bondade de ao menos tirar os sapatos?' As perguntas batiam em mim e
voltavam e rebatiam como bolas de pingue-pongue numa partida infernal. Assaltava-me, às vezes, o desejo de poder,
prestígio e ao mesmo tempo tudo me parecia de uma inutilidade atroz, 'para quê? por quê?' Meus amigos, tão
descabelados quanto eu, vinham somar às minhas suas desesperadas dúvidas. E em debates que não acabavam
nunca, varávamos a noite até a madrugada. Deitava-me com a garganta seca, exausto e deprimido, ainda mais
perturbado do que antes. Um caos.
E eis que, aos poucos, foi-me dominando um desejo feroz de solidão. Senti-me o próprio lobo da estepe,
incompreendido e só num mundo que já não falava a mesma língua que a minha. Abandonei o partido. 'Não é a
doutrina que me decepcionou, mas os homens...', justifiquei no meu discurso de despedida, que por sinal achei uma
obra-prima. Não acreditava mais nos meus companheiros de partido, naqueles homens que falavam o dia inteiro no
bem coletivo, na felicidade do povo, no amor ao próximo. Tão idealistas, tão puros! E na prática, não conseguiam dar
o mais miserável grãozinho de alegria à própria esposa, ao filho, ao cachorro... Diziam-se independentes,
desapegados das vaidades mundanas. Mas quando eram postos à prova... Não era preciso mais do que um convite
para uma festa importante, mais do que um aceno para a glória, não era preciso mais nada para transformá-los em
reles bajuladores. E sua servidão era bem do estilo deles: fleumática, orgulhosamente dissimulada e por isso mil
vezes pior do que a bajulação desmascarada. Tomei um nojo quase físico do gênero humano. Por que as palavras não
coincidiam nunca com os pensamentos? Por que os pensamentos não coincidiam nunca com as ações?
Que farsa, pensei repugnado. Arranquei minhas malas de cima do guarda-roupa. Viajar, ir embora, sumir de
qualquer jeito, para qualquer lugar! Não seria esta a solução? Minha mãe trouxe-me um bolo com vinte e uma
velinhas, eu fazia vinte e um anos. Apaguei as velas de um sopro. E fui falar com meu pai:
— Vou abandonar os estudos, pai. Vou-me embora e não voltarei tão cedo.
Meu irmão, que era muito parecido com minha mãe, encarou-me friamente:
— Deixe de ser histérico, menino.
Meu pai ordenou-lhe que se calasse. E ouviu-me com a maior gravidade.
— A gente sempre volta, filho. Espere um pouco, não tome por enquanto nenhuma resolução.
Concordei em esperar. E olhei para minhas mãos vazias. Se ao menos pudesse agir! Cansara-me dos planos
inúteis, das palavras inúteis, dos gestos inúteis... Fazer alguma coisa de útil, de nobre, alguma coisa que justificasse
minha vida e que até aquele instante não tinha para mim o menor sentido. Mas fazer o quê?
'Amar ao próximo como a si mesmo', fiquei repetindo estupidamente, sem a menor convicção. Ah, sim,
porque era fácil dizer, por exemplo, que eu não tinha nenhum preconceito de cor, que era completamente liberal
nesse assunto, mas na hora de formar a rodinha dos amigos íntimos, daqueles que poderiam vir a se casar com
minhas irmãs, nessa hora chamei por acaso algum negro para participar dela? Era fácil ainda encher a boca de
piedade para com os assassinos e as prostitutas, mas o fato de não atirar-lhes pedras significava, por acaso, que um
dia chegaria a tratá-los como irmãos? Como se fossem eu mesmo? Não passo de um egoísta, concluí. Um refinado
hipócrita e egoísta. Sou capaz de me casar com uma priminha que apresenta todas as características de uma rameira
mas jamais me casarei com uma rameira que seja uma santa em potencial. Hipócrita e egoísta! Burguesinho egoísta!
—berrei dando um soco na vidraça da janela do meu quarto, enquanto minha mãe batia aflita na porta, certa de que
eu me pegava ali dentro com alguém.
Sorri silenciosamente. O velho sorriu também. Seus olhinhos azuis pareciam agora maiores e mais brilhantes.
Pôs-se a preparar novo cigarro. Era agradável o som da lâmina do canivete alisando a palha.
Tomei-me de tamanha irritação por mim mesmo que deixei de fazer a barba só para não topar mais com
minha cara no espelho. Foi quando senti uma necessidade urgente de amar, de dedicar-me inteiramente a alguém,
mas a alguém que precisasse de ajuda, de compreensão, de amor. Oferecer-me como bóia de salvação ao primeiro
que me acenasse. No caso, não foi primeiro, foi primeira. E a bem da verdade devo dizer que ela não fez nenhum
aceno: eu é que fui bater na sua porta para oferecer-lhe socorro. Seria um amor amargo, cheio de sacrifícios e
Contos escolhidos…
38
Acredite no seu sonho, invista em você!
renúncias, mas não era assim o amor que eu procurava? Acho que já disse que meu irmão era muito parecido com
minha mãe. Eu saí parecido com meu pai que era um homem dos grandes impulsos, dos grandes gestos, das grandes
paixões. Meu infortúnio parecia-me, até aquele momento, demasiado medíocre: ansiava agora por ser grandemente
desgraçado, isto é, amar e ainda por cima escolher mal o objeto do meu amor.
Por uma dessas banais ironias, o prostíbulo situava-se no alto da Ladeira da Glória. Ladeira da Glória, doze.
Lembro- me bem de que era um casarão pardo e velho, cheio de ratos que corriam sem nenhuma cerimônia pelos
corredores e de mulheres que trançavam seminuas, com menor cerimônia ainda.
Encontrei-a fazendo as unhas. Na maioria das vezes em que a visitei encontrei-a lidando com seus petrechos
de unhas ou então bordando miçangas em alguma roupa, tinha mania com miçangas. Se pudesse, creio que até nas
cobertas da cama pregaria as tais continhas. E tinha mania com as unhas que eram realmente perfeitas. A cabeleira
podia estar em desordem, a pintura do rosto, desfeita, mas as unhas ah, essas deviam estar sempre corretíssimas!
Tinha a pele muito branca, com ligeiros vestígios de sardas e cabelos ruivos, muito curtos e encaracolados. Parecia
uma cenourinha. Não era bonita, mas quando sorria... Havia tamanha ternura no seu sorriso, uma ternura assim tão
espontânea, tão inocente, que chegava a me comover, 'como pode ser, meu Deus?! Como pode ser?!...' Ela voltava
para mim os olhinhos redondos como bolinhas de vidro verde: 'Como pode ser o quê?' Então era eu quem sorria.
'Nada. Nada.'
Chamava-se Sandra, mas quando eu soube que seu nome verdadeiro era Alexandra, Alexandra Ivanova,
emocionei-me. Descendia de russos. Vi nela uma personagem de romance e eu mesmo me vi na pele suave d'o
Idiota, tão cheio de pureza e de sabedoria, 'que faz você sob este céu azul, provavelmente azul?' Atendendo o
telefone, a dona da pensão não permitiu, no entanto, que eu encaixasse ali minha citação quando informou-me que
Sandra não podia vir falar comigo porque estava muito ocupada. Desliguei atirando o fone no gancho:
—E ainda chama a isso de ocupação!...
Meu irmão, que estava ali ao lado, bateu-me tranqüilamente no ombro:
—Você me dá a impressão de estar o dia todo com a espada desembainhada. Não é cansativo?
Saí sem dar resposta. Mais tarde, bem mais tarde acabamos sendo ótimos amigos. Mas naquela época era
impossível haver qualquer entendimento entre nós.
Alexandra tinha vinte e cinco anos e era completamente analfabeta. Mas eu queria uma criatura assim
primitiva e xucra, atirada numa pensão de última classe. Seria preciso ir buscá-la no fundo, bem lá no fundo e trazê-la
aos poucos para a luz, devagarinho, sem nenhuma precipitação. Era um jogo que exigia paciência, sim, e eu não tinha
nada de paciente. Mas a experiência era fascinante.
Três vezes por semana eu ia vê-la, sempre no fim da tarde, quando o mulherio e os ratos pareciam mais
tranqüilos em suas tocas. Costumava levar-lhe um presentinho, pequeninas coisas de acordo com minha discretíssima
mesada: pacotinhos de bombons, lenços, enfeites de toucador... Assim que eu chegava ela olhava ansiosamente para
minhas mãos, como criança em dia de aniversário. E recebia, radiante, as insignificâncias. 'Alexandra. A-le-xan-dra...'
eu gostava de repetir lentamente, destacando bem as sílabas. Nos instantes mais graves da minha doutrinação,
chamava-a dramaticamente pelo nome todo: Alexandra Ivanova. Ela então desatava a rir.
―A princípio, tive um certo trabalho para explicar-lhe que nossa amizade tinha que ser uma coisa de irmão
para irmã. Ofendeu-se um pouco:
—Quer dizer que você não quer nada comigo?
—Quero, Alexandra. Quero tudo com você. Mas antes, precisamos conversar muito.
Ela sorria. Quando sorria, chegava a ficar bonita.
—Você é complicado.
—Não, Alexandra, não é isso, mas o caso e que há coisas mais importantes na frente, precisamos antes nos
entender, nos amar para então... Você precisa se preparar para ser minha. Minha para sempre, ouviu bem?
—Ouvi. Mas você é complicado, sim.
Mais facilmente do que eu esperava ela acomodou-se logo àquele novo tipo de relacionamento. Era de
natureza mansa, indolente. Recebia-me com seu sorriso afável, desfazia o pacotinho, interessava-se alguns instantes
pela novidade do presente e em seguida punha-se a lidar com suas eternas miçangas. Bordava miçangas verdes numa
blusa preta. Antes que eu me fosse, acendia a espiriteira, preparava o chá e me oferecia uma xícara com umas
bolachas que tirava de uma lata com uma borboleta de purpurina na tampa.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
—Acho que você é padre —disse-me certa vez.
Achei graça e respondi-lhe que estava muito longe de ser isso. Não obstante, ela ainda me olhava com um
sorrisinho interior:
—Acho que você é padre, sim.
Mostrei-lhe então o absurdo daquela suspeita mas até hoje desconfio que Alexandra não se convenceu nada
com a minha negativa. E se não voltou a tocar no assunto, foi porque sua natural indolência a impedia de pensar mais
de dois minutos sobre qualquer problema. Dissimulava ceder logo aos primeiros argumentos por simples preguiça de
discutir.
—Você fala tão bem —ela me dizia de vez em quando, para me animar. —Fale mais.
Com a dolorosa impressão de que minhas palavras borboleteavam em redor de sua cabeça e se iam em
seguida pela janela afora, redobrava meus esforços, tentando seduzi- lá com temas nos quais ela parecia se interessar
mais: Deus, amor, morte... Ela fazia pequenos sinais afirmativos com a cabeça enquanto ia bordando seu labirinto de
contas. Quando eu me calava, pedia:
—Fale mais.
E daí por diante só abria a boca para cortar nos dentes o fio de linha da agulha.
Às vezes, eu tentava me convencer de que havia naquele silêncio de Alexandra profundidades insondáveis,
mistérios, sei lá!... Sempre achara um encanto especialíssimo nas mulheres silenciosas. Agora tinha na minha frente
uma que quase não falava. E então? Não era isso que eu queria? Não era mesmo um amor difícil aquele que eu
buscara? Há vinte e cinco anos, praticamente há vinte e cinco anos ela estava naquela vida. A bem dizer, nascera ali.
Vinte e cinco anos de mentiras, vícios, depravações. Não seria mesmo com meia dúzia de palavras que eu iria
remover toda aquela tradição de horror.
Pedia-lhe o fim das suas tardes, nada mais do que o fim das suas tardes, à espera sempre de que
espontaneamente ela fosse abrindo mão também de suas noites de comércio infernal. Mas não. Alexandra me ouvia
muito atenta, retocava o esmalte de alguma unha, lidava com suas miçangas, oferecia- me chá com bolachas e assim
que eu saía, recomeçava com naturalidade sua vida de sempre. Minha exasperação chegou ao máximo quando
descobri que ela estava longe de se considerar infeliz.
—Mas Alexandra, será possível que você está contente aqui? —perguntei-lhe certa tarde.
— Estou contente, sim. Por quê?
Emudeci. Eu tinha justamente acabado de lhe falar sobre um pensionato de moças transviadas, para onde
pretendia levá- la. Diante do seu desinteresse pelo meu plano, fiz-lhe a pergunta cuja resposta me deixou perplexo.
— Alexandra Ivanova, você está vivendo no inferno! Não vê que você está vivendo no inferno?! Ela lançou em
redor um olhar assustado:
— Mas que inferno?
Olhei também em torno: o usino de feltro azul, sentado no meio das almofadas em cima da cama, a mesa de
toalete cheia de potes de creme e de pequeninos bibelôs, o guarda-roupa com malas e caixas cuidadosamente
empilhadas no topo, o coelho felpudo em cima da cadeira, a mesinha coberta com uma toalha que devia ter 4 sido a
saia de um vestido ramado... Num canto da mesa, duas xícaras, um bule, a lata de bolachas e o açucareiro com
rocinhas douradas, presente meu. Todo o quarto tinha o mesmo ar indolente da sua dona.
— Para que um lugar seja o inferno, está claro que não é preciso a presença do fogo - comecei fracamente.
Toquei-lhe no ombro. —O inferno pode estar aí.
Ela riu. Em seguida, ajoelhou-se, pôs a cabeça no meu colo e ali ficou como um bichinho humilde e terno.
Tomei-a entre os braços. Beijei-a. E descobri de repente que a amava como um louco, 'Alexandra, Alexandra, eu te
adoro! Te adoro!...
Naquela tarde, quando a deixei fui como um tonto pela rua afora, a cabeça estalando, os olhos cheios de
lágrimas, 'Alexandra, eu te amo...' Crispei desesperadamente as mãos ao me lembrar de que dentro em pouco, de
que naquele instante mesmo talvez um outro... 'Vou me casar com ela', resolvi ao entrar em casa. Minha família tinha
que aceitar, todos tinham que aceitar aquele amor capaz de mover sol e estrelas, '1'amor che muove il sole e l'altre
stelle'... Mas nem Dante nem eu sabíamos que era mais fácil mover a Via- Láctea do que mover minha pequena
Alexandra da Ladeira da Glória para o Pensionato Bom Caminho.
Uma tarde, nossa última tarde, encontrei-a arredia, preocupada. Hesitou um pouco, mas acabou me dizendo
que a dona da pensão não queria mais saber das minhas visitas. Perguntei-lhe o motivo.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
— Ela acha que você quer me tirar daqui para me explorar noutro lugar.
Fiquei sem poder falar durante alguns minutos, tamanha cólera se apossou de mim.
— Mas Alexandra... — comecei, completamente trêmulo. Dei um murro na mesa. — Chega! Amanhã mesmo
você vai para o pensionato, está me entendendo? Já arranjei tudo, você ficará lá durante algum tempo, aprendendo a
ler, a rezar, a ter boas maneiras...
Alexandra arrumava sua caixinha de miçangas. Sem levantar a cabeça, interrompeu-me com certa
impaciência:
— Mas eu já disse que não quero sair daqui.
— O quê?!
— Eu já disse que não quero sair daqui, logo no começo eu disse isso, lembra? Sair daqui, não.
Respirei profundamente para readquirir a calma, como aprendera num método de respiração iogue.
— Será possível, Alexandra Ivanova, será possível que você também está pensando que... - comecei num fio
de voz e nem tive forças para terminar.
— Pois se eu soubesse que você está querendo me agenciar, iria até de muito bom grado, o que não quero é
essa história de pensionato. Pensionato, não.
Escancarei a janela que dava para o quintal da casa. Lembro- me de que havia ali uma mulher loura com
uma toalha nos ombros, secando os cabelos ao sol. Acendi um cigarro. Minha mão tremia tanto que mal consegui
levar o cigarro à boca.
— Alexandra, você precisa ficar algum tempo num lugar direito, decente, antes de... de nos casarmos. Já
conversamos tanto sobre tudo isso, ficou assentado que você iria, já conversamos tanto a esse respeito! Será
possível?...
Ela pousou em mim os olhos redondos. E falou. Foi a primeira e a última vez que a ouvi falar tanto assim.
— Não conversamos nada. Foi só você que abriu a boca, eu escutava, escutava, mas não disse que queria ir,
disse? Disse por acaso que queria mudar de vida? Pois então. Gosto daqui, pronto. Mania que vocês têm de querer me
baldear, foi a mesma coisa com aquelas três velhas da Comissão Pró não- sei-mais-o-quê. Ficaram uma hora inteira
falando. Depois escreveram meu nome numa ficha e ficaram de voltar na manhã seguinte. Graças a Deus não
apareceram nunca mais. Agora vem você... Por que é que você complica tanto as coisas? Primeiro, aquela história de
ficarmos que nem dois irmãos, agora que tudo ia tão bem, tinha que me inventar essa bobagem do pensionato. Por
que é que você complica tudo?
Fiquei aturdido.
— Quer dizer que você não me ama.
— Amo, sim. Amo - repetiu brandamente. - Mas estamos tão bem assim, não estamos? Além do mais, você
pode amanhã mudar de idéia, me deixar. E meu futuro está aqui.
Aproximei-me dela. Comecei por arrancar-lhe das mãos os pacotinhos de miçangas e atirei-os longe. Em
seguida, agarrei-a pelos cabelos e esmurrei-a tanto, mas tanto, que quase quebrei minha mão. Ela pôs-se a gritar e
só se calou no instante em que a joguei com um safanão sobre a cama. Disse-lhe então as coisas mais duras, mais
cruéis. Ela enrolou-se nas cobertas, como um bichinho apavorado, escondendo o rosto que sangrava. E não me
respondeu.
Um arrependimento brutal apertou meu coração. Tive vontade de me golpear na cara. E suplicar-lhe, de
joelhos, que me perdoasse. Mas continuei inflexível:
— Devia era te matar.
Ela ergueu a cabeça. E como percebesse que eu não cogitava mais de agredi-la e muito menos de matá-la,
levantou-se, lavou o rosto na bacia e choramingando, choramingando, pôs- se a catar as miçangas que eu espalhara
pelo chão. Parecia mais preocupada com as miçangas do que com o próprio rosto que já começava a inchar. Em
nenhum momento me insultou, como seria natural que fizesse. No fundo, tinha por mim um extraordinário respeito, o
que me leva até hoje a crer que jamais ela tirou da cabeça aquela suspeita de ser eu um padre disfarçado.
Apanhei a capa e o Código Civil que caíra do meu bolso Tinha vontade de morrer.
— Você vem amanhã? perguntou-me ainda de cócoras, as mãos cheias de continhas vermelhas.
Confesso que até hoje não sei bem que resposta ela queria ouvir. Desci a escada. E só então compreendi o
motivo pelo qual ninguém ouvira os gritos de Alexandra: o rebuliço na casa era total. O mulherio gesticulava, falava,
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
chorava, trançando de um lado para outro como um punhado de baratas em chapa quente de fogão. Vi que o tumulto
se irradiava de um quarto no fundo do corredor. As portas do quarto estavam escancaradas.
Entrei. Estendida na cama, coberta com um lençol, estava uma moça morta. Na mesinha ao lado, uma
garrafa de guaraná e a lata aberta de formicida. No chão, os cacos de um copo.
Desviei da morta o olhar indiferente. Suicídio. E daí? Podia haver fecho mais digno para aquela vida
enxovalhada?
Sentada na cama, uma mulher chorava sentidamente, assoando- se na toalha que tinha nos ombros: era a
mesma mulher que eu vira no quintal, secando os cabelos. Três outras mulheres revolviam estabanadamente as
gavetas da cômoda.
Fiquei a olhar a cena com a maior indiferença. Era essa mesma a vida e a morte que ela escolhera, não era?
E então? Por que a surpresa? O escândalo?...
Acendi um cigarro e encostei-me ao batente da porta. Tamanho desinteresse acabou por irritar a mulher da
toalha nos ombros e que parecia a mais ligada à morta. Voltou-se para mim:
E você aí, com essa cara... Está se divertindo, está? Vocês, homens, são todos uns cachorros, uns
grandessíssimos cachorros, isso é o que vocês são! Por causa de vocês é que a pobrezinha se matou. Só dezoito anos,
uma criança ainda!
— Criança que gostava deste brinquedo, hem? - perguntei lançando um olhar em redor. E tive que me
abaixar em seguida para fugir do sapato que ela me atirou.
— Seu sujo! Ainda fala assim, o sujo! Saiba que Dedê era muito direitinha, uma menina muito direitinha.
Todos os dias vinha se queixar para mim, que não agüentava mais, que tinha horror disto, que não via a hora de ir
embora, 'quero minha mãe, quero minha mãe!' ela me pediu chorando tanto que não agüentei e chorei junto com ela
também. - A mulher fez uma pausa para assoar-se furiosamente na toalha. - Quantas vezes ela me disse que queria
viver uma vida igual à de qualquer moça por aí, com sua casa, seu marido, seus filhos... Caiu aqui, mas ficou
esperando que algum dia viesse um homem bom que a levasse... Mas vocês são todos uns bandidos. Quem pensou
em dar a mão para ela? Quem?
Pela primeira vez olhei realmente a morta. Tinha no rosto fino uma beleza frágil. Deixei cair o cigarro.
— Ela esperou então que alguém viesse?
— Esperou, esperou. Mas de repente perdeu as forças, foi isso... Bem que ela me disse ainda ontem que não
ia agüentar mais, bem que ela disse! Mas a gente diz tanta coisa, eu não acreditei...
Afastei-me para deixar passar os homens da policia. Inclinaram-se sobre a suicida. Agora eu só podia ver o
delicado contorno dos seus pés sob o lençol.
Fui saindo do quarto. Mas então? Então... Toquei na maçaneta negra da porta: era ali que eu devia ter
batido, era ali, tudo não passara de um pequeno equívoco. Um simples equívoco de porta. Alguns metros menos e...
A tarde estava luminosa e calma. Cruzei os braços. Mas não era mesmo incrível? Coisa mais desconcertante,
mais estúpida...
Sentei-me na calçada, com os pés na sarjeta. E de repente comecei a rir. E ri tanto, mas tanto, que um
homem que passava, ao me ver rindo tão gostosamente, nu-se também. Ah vida louca, completamente louca, mas de
uma loucura lúcida, cheia de nexo nos seus encontros e desencontros, nos seus acasos e imprevistos! Falsa demente,
tão ingenuazinha e tão astuta na sua falta de lógica, cheia de misterioso sentido na sua confusão tão calculada, tão
traiçoeiramente calculada. Uma beleza a vida!
Baixei o olhar para a sarjeta: entre duas pedras tortuosas, uma pequenina flor apontava sua cabecinha
vermelha. Parecia- se com Alexandra. Toquei-lhe na corola tenra. E senti os olhos úmidos. — Minha florzinha tonta disse-lhe num sussurro — você é tão mais importante do que todos os livros, tão mais importante... Você está viva,
minha querida. E que extraordinária experiência é viver!
Ergui-me de cara voltada para o sol. Aproximei-me de uma árvore. Abracei-a. E quando encostei a face no
seu tronco rugoso, foi com se tivesse encostado a face na face de Deus.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Noturno Amarelo
Lygia Fagundes Telles
Vi as estrelas. Mas não vi a lua, embora sua luminosidade se derramasse pela estrada. Apanhei um
pedregulho e fechei-o com força na mão. Por onde andará a lua? perguntei. Fernando arrancou o paletó no auge da
impaciência e perguntou com voz esganiçada se eu pretendia ficar a noite inteira ali de estátua enquanto ele teria que
encher o tanque naquela escuridão de merda porque ninguém lhe passava o raio da lanterna. Inclinei-me para dentro
do carro de portas escancaradas, outra forma que ele tinha de manifestar o mau humor era deixar gavetas e portas
escancaradas. que eu ia fechando em silêncio, com ódio igual ou maior. Fiquei olhando o relógio embutido no painel.
— Onde está a lanterna?
— Mas onde poderia estar uma lanterna senão no porta-luvas, a princesa esqueceu?
Através do vidro, a estrela maior (Vênus?) pulsava reflexos azuis. Gostaria de estar numa nave mas com o
motor desligado, sem ruído, sem nada. quieta. Ou neste carro silencioso mas sem ele. Já fazia algum tempo que
queria estar sem ele, mesmo com o problema de ter acabado a gasolina.
— As coisas ficariam mais fáceis se você fosse menos grosso - eu disse, entreabrindo a mão e
experimentando a lanterna no pedregulho que achei na estrada.
— Está bem, minha princesa, se não for muito incômodo, será que podia me passar a lanterninha?
Quando me lembro dessa noite (e estou sempre lembrando) me vejo repartida em dois momentos: antes e
depois. Antes, as pequenas palavras, os pequenos gestos, os pequenos amores culminando nesse Fernando, aventura
medíocre de gozo breve e convivência comprida. Se ao menos ele não fizesse aquela voz para perguntar se por acaso
alguém tinha levado a sua caneta. Se por acaso alguém tinha pensado em comprar um novo fio dental, este estava no
fim. Não está, respondi, é que ele se enredou lá dentro, se a gente tirar esta plaqueta (tentei levantar a plaqueta) a
gente vê que o rolo está inteiro mas enredado e quando o fio se enreda desse jeito, nunca mais!, melhor jogar fora e
começar outro rolo. Não joguei. Anos e anos tentando desenredar o fio impossível, medo da solidão? Medo de me
encontrar quando tão ardentemente me buscava?
— Dama-da-noite — eu disse respirando de boca aberta ó perfume que o vento trouxe de repente. — E vem
daquele lado.
— Se o jantar não for bom, juro que viro a mesa - disse ele com sua falsa calma. Destapou o vasilhame. —
Estou a fim de comer peixe, será que vai ter peixe?
O ruído do fiozinho de gasolina caindo no tanque. Os ruídos miúdos vindos da terra. Fui andando na direção
daquele lado, conduzida pelo perfume que ficou mais pesado enquanto eu ia ficando mais leve. Agora, eu quase corria
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
pela margem da estrada, as pontas franjadas do meu xale se abrindo em asa, fechei-as no peito. E atravessei a faixa
de mato rasteiro que bordejava o caminho, a barra do meu vestido se prendendo nos galhinhos secos, poderia
arregaçá-lo mas era excitante me sentir assim delicadamente retida pelos carrapichos (não eram carrapichos?) que eu
acabava arrastando. Segui pela vereda. Tão familiar. Como a casa lá adiante, lá estava a casa alta e branca fora do
tempo mas dentro do jardim. O perfume que me servira de guia estava agora diluído, como se - cumprida a tarefa relaxasse num esvaimento, posso? Vi as estrelas maiores nessa noite dentro da noite. Com naturalidade abri o portão
e o som dos gonzos me saudou com a antiga ranhetice de dentes doloridos sob a crosta de ferrugem, entra logo,
menina, entra! A folhagem completamente parada. Uma luz acendeu no andar superior da casa. Outra janela acendeu
em seguida. No andar inferior, três das janelas projetaram sucessivamente seus fachos amarelos até a varanda: nas
colunas de tijolinhos vermelhos as flores branquíssimas das trepadeiras pareciam feitas de material fosforescente.
Etão Ifigênia apareceu na porta principal, o avental nítido no fundo preto do vestido. Levou as mãos à cara, numa
alegria infantil. Voltou-se para dentro:
— É dona Laurinha! Que bom que a senhora veio, dona Laurinha, que bom!
Abracei-a. Cheirava a bolo. — Bolo de fubá?
— Lógico - disse me examinando. Viera ao meu encontro na alameda e agora parava para me ver melhor: —
A senhora está de vestido novo, não é novo?
Tomei-lhe o braço. Andava com dificuldade, as pernas curtas, inchadas. Ficamos um instante na varanda e
sem saber por que (na hora não soube por que) evitei ficar muito exposta na luz da janela. Puxei-a para mais perto de
mim:
— Estão todos aí?
Ela respondeu num tom secreto:
— Só falta o Rodrigo.
Apoiei-me na coluna.
— Mas ele não está no sanatório?
— Saiu faz duas semanas, a senhora não sabia? Mas fique sossegada, dona Laurinha, agora ele está melhor,
mudou tanto — disse e tomou a ponta do meu xale, examinando a tessitura mais nos dedos do que através das
grossas lentes dos óculos. — Acho que esse ponto é o mesmo da manta que fiz pra Avó, lembra? Só que usei uma lã
mais grossa. Acho lindo xale branco, fiz pra dona Eduarda com linha de seda.
Interrompi seu devaneio, mas e o Rodrigo? O médico tinha dito que ele teria de ficar no mínimo mais seis
meses - não foi o que os médicos disseram? Tinha fugido? Ele fugiu, Ifigênia? Agora ela fechava o xale em redor do
meu ombro e seu gesto era o mesmo com que enrolava em meu pescoço uma meia embebida em álcool, um santo
remédio para dor de garganta, mas não pode mexer, menina
ah, o pé de meia verde do pai. Mas espera, o Rodrigo:
ele então parou de beber?
— Parou completamente. E está ajuizado, a senhora lembra como ele falava gritando? Agora fala baixinho,
mudou mesmo, acho até que sarou — disse apertando os olhos para me ver. Estranhou meu cabelo curto, gostava
mais quando eu usava assim comprido até o ombro, por que cortou, dona Laurinha, por que cortou?
— É que não sou mais aquela jovenzinha.
Ela protestou meio distraidamente, interessada ainda no xale, há de ver que paguei uma fortuna, não? Por
que não lhe pedi que fizesse um? Impeliu-me para dentro da casa: tinha acendido a lareira com uma lenha sequinha,
estava um fogo tão limpo.
— E não tentou mais, Ifigênia? Me responda, ele não tentou mais?
Ela arqueou as sobrancelhas inocentes, "se matar?"
Não, dona Laurinha, não tentou mais nem vai tentar, Deus é grande, um menino tão bom.
O vestíbulo de paredes forradas com o desbotado papel bege, salpicado de rosinhas pálidas. O retrato de
Pedro 1 na pesada moldura de ouro gasto, circundado pelos retratos de homens severos e mulheres rígidas nos seus
tafetás pretos, o rendilhado das traças avançando audaz na gola de renda de minha avó portuguesa até a fronteira do
queixo sépia. A vitrina dos bibelôs de porcelana e jade. A larga passadeira de veludo vermelho ao longo do corredor —
ponte silenciosa se oferecendo para me transportar ao âmago — do quê?!
— E tem também biscoito de polvilho, como a senhora gosta — anunciou Ifigênia tirando o meu xale. Dobrouo no braço com gestos melífluos. — Estou pensando sempre em fazer a vontade dos outros mas os outros não pensam
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
nunca em fazer a minha vontade. Uma coisa que eu queria tanto, que pedi tanto, será que a senhora ainda se
lembra?
Enlacei-a: mas me lembrava, sim, a viagem! prometera que a levaria de carro até Aparecida, queria cumprir
uma promessa e me ofereci então para levá-la, convenci-a mesmo de desistir da reserva da passagem de ônibus,
deixa que eu levo. Não levei. Mas não foi por mal, Ifigênia, é que fui adiando, adiando e acabei me esquecendo, me
perdoa?
— Perdoar o quê?
ouvi alguém perguntar atrás de mim, a Ducha?
Ela gostava de chegar assim sorrateira, na ponta das sapatilhas da cor do papel de parede. Notei que seu
busto continuava tímido sob a malha preta de balé e ainda reta a cintura de menina, treze anos? Beijou-me com seu
jeitinho polido, afetando indiferença. Tive que me conter para não puxá-la pelo cabelo, sua bobinha, bobinha!
— E que sua irmã prometeu me levar de carro até Aparecida e até hoje estou esperando - disse Ifigênia.
Acariciava o xale dobrado no braço como se acaricia um gato. — Se eu soubesse, ia de ônibus.
Ducha compôs a pose de bailarina em repouso. Olhou para o teto:
— Ela também me prometeu uma coisa e não cumpriu, era uma troca, eu dava o suéter amarelo e ela me
daria o espelho grande, aquele com o anjinho, eu precisava demais de um espelho pra ensaiar no quarto e o que
aconteceu? Minha irmãzinha ficou com o meu suéter, sim senhora, amanhã mesmo trago o espelho, prometeu. jacaré
trouxe? Continuo ensaiando (tapou os olhos fingindo chorar) num espelho pequeninho assim!
Quis abraçá-la e ela se esquivou, não fosse desmanchar-lhe o cabelo engomado, preso na nuca por uma
fivela, nada de sentimentalismos, eu quero é meu espelho - parecia dizer com o labiozinho irônico e meu coração se
derramou de alegria, dor: sua malha preta guardava o cheiro dos armários profundos com resquícios dos saquinhos
de plantas aromáticas. O passado confundido no futuro que me vinha agora na fumaça cálida da lareira. Ou das velas?
Apaguei-as; não, velas não, escuta, Ducha, juro que amanhã sem falta, sem falta! Acredita em mim? Amanhã!
— Pschiu... — ordenou ela, que me calasse porque a Avó na sala já se decidia por sua valsa de Chopin.
— Ducha — eu comecei e não consegui dizer mais nada.
Ela endireitou o corpo, levantou a cabeça. E esquecida de mim, do espelho, de tudo, enveredou diáfana pelo
corredor afora, sou uma artista! exprimia em cada movimento de inspiração desdenhosa. Uma artista.
Parece uma fadinha dançando - suspirou Ifigênia ao me tomar pela cintura e me conduzir pelo tapete
vermelho.
Ouço ainda as batidas do meu coração tão assustado que me virei para Ifigênia, teria ouvido? Mas tinha o
piano. E as vozes que já chegavam até nós, estávamos na metade do corredor. Passei as pontas dos dedos no braço
do banco de madeira acetinada de tão lisa, pescoço de cisne se enrodilhando numa curva mansa até descer e afundar
a ponta do bico nas penas da asa entalhada na parte lateral do assento. Ao lado, mais uma vitrina de bibelôs com as
xicrinhas de porcelana fina como casca de ovo, o famoso serviço em miniatura, paixão da minha vida. Não pode!
ralhava a Avó, isso não é brincadeira de criança, você vai quebrar tudo. Não quebrei, engoli um bulinho, gostava de
encher a boca com as peças que ia cuspindo em seguida na mesa de chá das bonecas. Senti de novo o bule na
inquieta travessia da garganta.
— Estou tão contente, Ifigênia.
— Então por que está chorando?
Enxuguei depressa os olhos na barra do seu avental e recuei, não era estranho? Na cambraia alvíssima,
nenhuma marca da minha pintura, só o úmido limpo das lágrimas. Fiquei sem saber que olhos tinham chorado, se os
atuais ou os de outrora.
A sala parecia palpitar sob os reflexos do fogo forte da lareira avermelhando os espelhos. O lustre. Vi o Avô
na sua cadeira alta, jogando xadrez com o professor de Eduarda, não era aquele o professor de Eduarda? A Eduarda
arranjou um professor de alemão que é um pão! Ducha tinha me anunciado. Quer dizer que o alemão-pão estava
assim íntimo? quis perguntar mas Eduarda não me viu, estava entretida a preparar uma bebida na mesa posta no
fundo da sala. Tinha uma flor nos cabelos, sinal de alegria, está amando, Eduarda? Vi a Avó — querida, querida! — no
seu vestido das cerimônias especiais, a cabeça inclinada para o teclado, acelerando o ritmo para acompanhar Ducha
que se desencadeava numa grinalda de passos em torno do piano. Vi Ifigênia no seu andar curto, a respiração curta,
arrumando os copos na mesa, era um ponche que Eduarda preparava. E me vi a mim mesma, tão mais velha e ainda
guardando uma ambígua inocência — a suficiente inocência para me comportar com espontaneidade na reunião dos
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
convidados certos. Um ou outro elemento esclarecedor que eu já tinha ou ia ter me advertia que era nova essa noite
antiga. Contornei a cadeira do Avô, abracei-o por detrás. Ele me saudou, levantando na mão a torre que já ia
movimentar.
— O professor conhece essa minha neta? A intelectual da tribo, hem, menina?
O alemão (era mais alto do que eu supunha) lembrou que já tínhamos sido apresentados e teve uma
expressão meio maliciosa, meio divertida, a Eduarda falava muito em mim. Interroguei-o desconfiada mas seu olhar
penetrante fez baixar o meu. Voltou-se para o Avô que ainda segurava a torre.
— E sua vez.
Eduarda então me viu e veio trazendo um copo de ponche. Estava tão jovem de cabelos soltos e cara lavada,
que me perturbei: era como se me visse vir vindo ao meu próprio encontro num flagrante de juventude. Beijou-me
rápida e me entregou o copo, vamos, prove, acho que exagerei no açúcar, não está doce demais? Vi que a Avó me
chamava para sentar a seu lado no banco do piano e vi ainda num relance, atrás do piano, o grande relógio marcando
nove horas. No copo, o ponche com a cereja descaroçada, exposta, boiando na superfície roxa.
— Vamos, beba, não tem veneno — ordenou Eduarda e seu riso era tão confiante que achei injusto que o
tempo continuasse e quis correr e agarrar o pêndulo, para! Esvaziei o copo trincando nos dentes a cereja cristalizada
com pedaços de outras frutas que não identifiquei, Eduarda guardava o mistério dos ingredientes.
— Cuidado, Avô! — eu disse. — Você vai perder esse cavalo.
O namorado de Eduarda piscou para ela: — Já está perdido.
O Avô olhou o cavalo. Me olhou. E sacudindo a mão, fingiu uma cólera que estava longe de sentir quando me
acusou de ter feito tramóia na nossa última partida, fez tramóia, sim senhora, pensa que não sei? Aproveitou
enquanto fui buscar meu suéter e mudou a torre que defendia minha rainha, eu não podia perder como perdi.
— Roubou a torre do Avô! Roubou a torre do Avô! - gritou Ducha aproximando-se num salto e fugindo de
novo, espavorida, de braços abertos e curvada como que impelida por uma ventania: - Ficou com meu espelho e com
a torre do Avô!
— Mais grave do que roubar uma torre é roubar o noivo da prima - sussurrou Eduarda, me puxando pela
mão.
Fomos para perto da janela. Seus olhos eram roxos como o ponche. Fechei os meus, Eduarda, eu queria
tanto explicar isso e não tinha coragem mas agora escuta, ele disse que vocês tinham rompido, que estava tudo
acabado.
— Ele disse?
— Não tive culpa, Eduarda, quando começamos o namoro estava certa que vocês dois já estavam afastados,
que não se amavam mais, não me senti traindo ninguém!
— Não?
Vi as estrelas brilhando próximas. Próximo o perfume da noite que me tomou e me devolveu íntegra.
Verdadeira. Encarei Eduarda, pela primeira vez realmente a encarei, mas era preciso falar? Era mesmo preciso?
Ficamos nos olhando e meu pensamento era agora um fluxo que passava das minhas mãos para as suas, estávamos
de mãos dadas: sim, eu era ciumenta, insegura, quis me afirmar e tudo foi só decepção, sofrimento. Tinha o Rodrigo
(meu Deus, o Rodrigo) que era o meu querido amor, um amor tumultuado, só imprevisão, só loucura, mas amor. E
achei que seria a oportunidade de me livrar dele, a troca era vantajosa, mas calculei mal, logo nos primeiros
encontros descobri que a traição faz apodrecer o amor. Na rua, no restaurante, no cinema, na cama - em toda parte,
Eduarda, você esteve presente, cheguei um dia a sentir sua respiração. Foi ficando tão insuportável que na última vez,
quando ele entrou na cabina para ouvir um disco, eu não aguentei e fugi, estávamos numa loja comprando discos,
quero ouvir este, ele disse entrando na cabina envidraçada, me espera um instante. Fui até a vitrina, fingindo
procurar Deus sabe o quê e então aproveitei, fugi de cabeça baixa, sem olhar para os lados. Eduarda, diga que
acredita em mim, diga que acredita!
Seus olhos, que estavam escuros, foram ficando transparentes. Agora está tudo bem, Laura, estamos juntas
de novo — parecia me dizer. Estamos juntas para sempre — e apertou com força a minha mão. Mas não deixou que
eu me comovesse mais, pegou um biscoito de polvilho que Ifigênia ofereceu, levou-o à minha boca, vamos, você está
muito magra, precisa comer, não fique mais triste. Comecei a me sentir uma coisa miserável: — Fiz trapaça no jogo
com o Avô, eu disse, mas me engasguei com o biscoito e Eduarda desatou a rir como na festa das bonecas, quando
engoli o bulinho. Sua pulseira, uma argola de ouro, ficou enganchada no meu vestido, tentou tirá-la, fica com ela,
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Laura, nossa nova aliança, você gosta desses símbolos. Mas a pulseira já solta do meu vestido, não se soltava do seu
pulso, argola inteiriça que só podia sair pela mão, engordei, está vendo? Engordei de feliz, estou feliz demais com o
meu alemão, não é lindo? O fogo da lareira se refletia na 5L face como no lustre, no espelho: tenho vontade de gritar
de tanto amor! Enlaçou-me e saímos dançando, rindo feito duas tontas até chegarmos ao piano, onde me entregou à
Avó, fica ai que vou salvar meu amado, vovô deve estar querendo jogar outra partida, disse. E ficou séria. Apertou
meu braço.
— O Rodrigo não demora.
— Quem? - perguntou a Avó. Afastou-se para me dar lugar no banco. - Quem não demora?
— O Rodrigo - disse Ducha abrindo os braços num suave movimento de asas e desabando no almofadão.
Quando ela se inclinou para amarrar a fita da sapatilha, vi o menininho deitado no tapete. Estava de pijama e
brincava com os cubos coloridos de uma caixa: mas ele já estava aqui quando cheguei?
— Você emagreceu, Laurinha - lamentou a Avó, examinando-me afetuosa mas fiscalizante. E será que eu não
estava pintada demais? Me preferia mil vezes sem pintura, como a Eduarda. E por que eu estava assim trêmula? Você está gelada, menina, tome esse chá - ordenou pegando a xícara. Era por causa dele que estava tão tensa? Do
(disse o nome em voz baixa) Rodrigo?...
Seus cabelos faceiramente frisados tinham reflexos de um tom azul-lilás que me fez pensar em violetas.
Agora procurava me acalmar no mesmo tom com que vinha me dizer, na hora do boa-noite, que não tem nada essa
história de fantasmas, isso tudo é invenção minha bobinha, vamos, durma. O Rodrigo? Mas agora ele está curado, não
se preocupe mais, foi uma crise muito séria, não nego, mas passou. Passou. Ainda ontem conversamos, está
pensando em recomeçar os estudos, já faz planos - disse e senti no seu olhar (ou no meu?) algo de reticente. Por um
instante pareceu-me feita de um úmido tecido azul-lilás, do mesmo tom dos cabelos. Não vá ainda, esperai - pedi, e
fiquei sem saber se gritei. Na lareira o fogo era mais brando.
— Às vezes volta o medo - eu disse.
— Medo do quê, minha querida? Mas você não está amando? Então precisa amar - disse, olhando para as
minhas mãos. Nenhum anel especial? Nenhum namorado especial? Pois a Eduarda, que tinha a minha idade (hesitou,
tomando o lorgnon) - mas não tínhamos a mesma idade? Sempre pensei que vocês duas regulassem porque quando a
Ivone estava de barriga, a sua mãe também... (Fez contas nos dedos mas se perdeu nas datas.) - O que eu queria
dizer é que a Eduarda arrumou esse namorado de repente, tudo foi no galope. Vão se casar em dezembro, não é
maravilhoso?
Sua voz passava agora para um outro plano enquanto ia entrando em detalhes: depois do casamento
seguiriam para a Alemanha, os pais dele moravam lá, numa cidadezinha que tinha um nome muito gracioso, Ulm,
mas depois da visita viajariam por toda a Europa no período das grandes férias. A Ducha estava ardendo de vontade,
queria ir junto para se matricular num curso de balé em Paris, uma pirralha dessas, vê se pode! Não estava era
gostando nada dessa idéia de avião, por que os jovens têm mania de avião? Tão melhor um vapor, ih, as deliciosas
viagens por mar, ainda se lembrava bem quando foi com o Avô para a Itália num transatlântico italiano, tantas
brincadeiras de bordo, os jogos, as festas! Mas a hora melhor ainda era aquela em que se recostava na cadeira do
tombadilho, puxava a manta até os joelhos e ficava lendo um romance de Conan Doyle. Ou simplesmente olhando o
mar.
— Será que ele ainda pensa em mim?
A Avó demorou para responder. Fez um ligeiro movimento, juntando as mãos espalmadas, como se fechasse
um livro, quem? O Rodrigo? Sim, pensava, mas de modo diferente, sem aflição, sem rancor, estava bastante mudado
depois da tentativa. Se pudesse sair, fazer uma viagem, mas uma viagem por mar, num vapor como aquele, não
lembrava o nome do vapor, não era curioso? Mas não se esquecia das gaivotas. Do vento.
— Onde ele conseguiu o revólver?
A palavra revólver caiu-lhe no colo como uma gaivota. Ou um peixe. Assustou-se sacudindo do vestido os
farelos de biscoito. Limpou com a ponta do lenço a gota de chá que escorreu no teclado, o revólver? Quem é que
sabe? Sempre foi um menino tão reservado, vivia inventando um mundo particular, só dele, não deixava ninguém
entrar nesse mundo.
— Ele me chamou mas recusei.
Ducha apoiou-se nos cotovelos e veio se arrastando pelo tapete até tocar no meu sapato:
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Que chique este salto dourado - disse e fez um sinal para que me abaixasse, queria falar no meu ouvido:
— A bala passou um tantinho assim perto do coração.
— Vão pegar por lá um inverno forte. Se fossem de vapor não sentiriam a mudança tão rápida - suspirou a
Avó. Voltou-se enervada para Ducha que lhe apontava o piano, quero dançar, toca, toca! - Espera, menina, se você
não precisa de intervalo, eu preciso.
Olhei para as cortinas pesadas. Para a cristaleira que me pareceu menos brilhante sob a leve camada de pó.
O tempo não alcança vocês, eu disse. Estão todos iguais. Iguais.
— O piano mudou, querida - disse a Avó sorrindo e dando um acorde grave. - Mandei afinar, lembra como ele
estava? E se você não sabe é porque nunca vem me visitar, fiquei doente, sarei, fiquei doente de novo e nem
um telefonema. Nada. Podia ter morrido e minha neta nem ficaria sabendo porque não ligou uma só vez para
saber, a Avó, como vai?
— Vovó querida, você sabe muito bem como amo vocês. Ê que tenho andado mesmo sumida, mas você sabe.
— Sei, Laurinha. Mas gosto de provas, são importantes as provas.
Ducha fez uma careta:
— Que feio, Laura! A Chapeuzinho Vermelho atravessou um bosque cheio de lobos só pra levar o bolo pra
Avozinha que estava com resfriado, não era resfriado? - Pôs-se na ponta dos pés, pronta para dançar. Teve seu
sorrizinho: - Não veio buscar Ifigênia que queria cumprir a promessa, não trouxe meu espelho, roubou a torre do Avô,
roubou o noivo de Eduarda e não visitou a Avó! Ê demais...
— Ducha, vai dançar, vai - pediu a Avó. Começara uma melodia um tanto dissonante. Esgarçada. - Pronto,
vai dançar!
— E ainda por cima faz a femme fatale - acrescentou Ducha rapidamente, com o gesto de quem empunha
uma arma e aponta contra o peito. Acionou o gatilho. — Pum!... (Cambaleou, esboçando o movimento de se
desvencilhar da arma. Estendeu-se no almofadão, a mão direita apertando o peito, a outra acenando na despedida
frouxa:) - Me mataria em março se te assemelhasses as coisas perecíveis! — recitou, arquejante. E levantou-se de um
salto: - Por que março? H. H. é que sabe, se a poeta diz que é em março, tem que ser março... (Foi recuando, os
braços em arco:) março ou abril...
— E um amor de menina, mas cansa um pouco - murmurou a Avó inclinando-se para me beijar. — Esta
música é minha, você gosta? Vai se chamar Noturno Amarelo.
Antes mesmo de me aproximar da lareira, adivinhei o fogo se reavivar num último esforço. Ifigênia tocou no meu
braço, pensei que fosse me oferecer alguma coisa:
— O Rodrigo acabou de chegar.
Escondi a cara nas mãos mas mesmo assim podia vê-lo na minha frente, com seu jeans puído e blusão com
reforços de couro nos cotovelos. Segurou-me pelos punhos e me descobriu. Ardia o carvão dos seus olhos mas tinha o
mesmo doce sorriso de antes. Esperou. Quando consegui falar, a cinza já cobria completamente o braseiro.
— Eu te neguei, Rodrigo. Te neguei e te trai e traí Eduarda. Mas queria que soubesse o quanto amei vocês
dois.
Ele arrumou meu cabelo. Acendeu meu cigarro. Riu.
— Se a gente não trair os mais próximos, quem então vai trair? (Ficou sério.) - Éramos muito jovens.
Éramos? Levantei a cabeça. Já não me importava que me visse de frente, queria mesmo me expor assim
devastada, ele então sabia? Ouvi minha voz vindo de longe:
— Passei a noite me desculpando, só faltava você, oh Deus! como eu precisava desse encontro — disse,
tocando no seu peito.
Ele estremeceu. Então me lembrei, mas ainda dói, Rodrigo? E continuam as bandagens? Ele pegou um copo
de ponche, me fez beber: que eu não me impressionasse com isso, era mesmo um sensível e nos sensíveis essa zona
é sensível demais, demora a cicatrização.
Nem precisamos falar. Dentro de mim (e dele) agora era calma. Silêncio. Comecei a sentir frio, fui buscar o
xale. Quando voltei, não o encontrei mais. E o Rodrigo? perguntei a Ifigênia. Ela levava pela mão o menininho que
resistia, o Rodrigo? Mas agora mesmo ele não estava com você?
— Eu sei fazer cara de bicho, olha, tia! — o menino gritou espetando os dedos na testa. — Olha o bicho!
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Tudo então aconteceu muito rápido. Ou foi lento? Vi o Avô dirigir-se para a porta que ficava no fundo da sala,
pegar a chave que estava no chão, abrir a porta, deixar a chave no mesmo lugar e sair fechando a porta atrás de si.
Foi a vez da Avó, que passou por mim com sua bengala e seu lorgnon, me fez um aceno e deixando a chave no
mesmo lugar, seguiu o Avô. Vi Eduarda de longe, ajudando o noivo a vestir a capa, mas onde foram todos? perguntei
e ela não ouviu ou não entendeu. Estavam rindo quando foram se aproximando da porta, enlaçados. Num salto,
Ducha varou por entre ambos, pegou a chave, ajoelhou-se num só joelho e pousou a chave no outro, inclinando-se na
reverência de um pajem medieval, oferecendo os serviços.
Desviei a cara, não quis mais olhar. Por pudor, continuei de costas quando Ifigênia passou arrastando o
menino que queria brincar mais, não pode, amor, nada de manha, fica bonzinho. A pirâmide dos cubos coloridos que
ele erguera no tapete foi desabando através das minhas lágrimas. Quando achei que já podia olhar, a sala estava
vazia. Vi o jogo de xadrez interrompido ao meio. O piano aberto (ela terminou o Noturno?) e o livro em cima da
lareira. A xícara pela metade. A fivela de Ducha esquecida no almofadão. A pirâmide. Por que os objetos (os projetos)
me comoviam agora mais do que as pessoas? Olhei o lustre: ele parecia tão apagado quanto a lareira.
Saí pela porta da frente e antes mesmo de dar a volta já tinha adivinhado que atrás da porta por onde todos
tinham saído não havia nada, apenas o campo.
Atravessei o jardim que não era mais jardim sem o portão. Sem o perfume. A vereda (mais fechada ou era
impressão?) foi desembocar na estrada: o carro continuava lá adiante com suas portas abertas e seus faróis acesos.
Fernando tapava o vasilhame.
— Demorei muito?
Ele vestiu o casaco. Acendeu um cigarro, se demorei? Mas como? Eu tinha saído?
Entrei no carro e me vi no espelho iluminado pela lanterna: minha maquiagem estava intacta.
— Sabe as horas?
— Nove em ponto. Por quê? - perguntou ele ligando o rádio no painel. Pôs a mão no meu joelho: - Você está
linda, amor, mas tão distante, tão fria, ih! que merda de música - gritou, mudando de estação. - Será que o jantar vai
ser bom? Hoje estou a fim de comer peixe.
Fiquei olhando a Via-Láctea através do vidro. Fechei os olhos. Fechei com força a pulseira que ainda trazia na
mão.
— Não é um esquilo? - perguntou Fernando apontando excitado para a estrada. Ali, não está vendo?
— Pode ser uma lebre.
— Mas agora não é hora de lebre!
Nem de esquilo, pensei em dizer ou disse. Mas ele já não me ouviu.
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A MÃO NO OMBRO
Lygia Fagundes Telles
O homem estranhou aquele céu verde-cinza com a lua de cera coroada por um fino galho de árvore, as folhas
se desenhando nas minúcias sobre o fundo opaco. Era uma lua ou um sol apagado? Difícil saber se estava anoitecendo
ou se já era manhã no jardim que tinha a luminosidade fosca de uma antiga moeda de cobre. Estranhou o perfume
úmido de ervas. E o silêncio cristalizado como num quadro, com um homem (ele próprio) fazendo parte do cenário.
Foi andando pela alameda atapetada de folhas cor de brasa mas não era outono. Nem primavera porque faltava às
flores o hálito doce avisando as borboletas, não viu borboletas. Nem pássaros. Abriu a mão no tronco da figueira viva
mas fria: um tronco sem formigas e sem resina, não sabia por que motivo esperava encontrar a resina vidrada nas
gretas, não era verão. Nem inverno, embora a frialdade limosa das pedras o fizesse pensar no sobretudo que deixou
no cabide do escritório. Um jardim fora do tempo mas dentro do meu tempo, pensou.
O húmus que subia do chão impregnava do mesmo torpor da paisagem. Sentiu-se oco, a sensação de leveza
se misturando ao sentimento inquietante de um ser sem raízes: se abrisse as veias não sairia nenhuma gota de
sangue, não sairia nada. Apanhou um folha. Mas que jardim era esse? Nunca estivera ali nem sabia como o
encontrara. Mas sabia – e com que força – que a rotina fora quebrada porque alguma coisa ia acontecer, o quê?!
Sentiu o coração disparar. Habituara-se tanto ao cotidiano sem imprevistos, sem mistério. E agora, a loucura desse
jardim atravessado em seu caminho. E com estátuas, aquilo não era uma estátua?
Aproximou-se da mocinha de mármore arregaçando graciosamente o vestido para não molhar nem a saia
nem os pés descalços. Uma mocinha medrosamente fútil no centro do tanque seco, pisando com cuidado, escolhendo
as pedras amontoadas em redor. Mas os pés delicados tinham os vãos dos dedos corroídos por uma época em que a
água chegava até eles. Uma estria negra lhe descia do alto da cabeça, deslizava pela face e se perdia ondulante no
rego dos seios meio descobertos pelo corpete desatado. Notou que a estria marcara mais profundamente a face,
devorando-lhe a asa esquerda do nariz, mas por que a chuva se concentrara só naquele percurso numa obstinação de
goteira? Ficou olhando a cabeça encaracolada, os anéis se despencando na nuca que pedia carícia. Me dá sua mão que
eu ajudo, ele disse e recuou: um inseto penugento, num enrodilhamento de aranhas, foi saindo de dentro da
pequenina orelha.
Deixou cair a folha seca, enfurnou as mãos nos bolsos e seguiu pisando com a mesma prudência da estátua.
Contornou o tufo de begônias, e vacilou entre os dois ciprestes (mas o que significava essa estátua?) e enveredou por
uma alameda que lhe pareceu menos sombria. Um jardim inocente. E inquietante como o jogo de quebra-cabeça que
o pai gostava de jogar com ele: no caprichoso desenho de um bosque estava o caçador escondido, tinha que achá-lo
depressa para não perder a partida, vamos, filho, procura nas nuvens, na árvore, não está ele enfolhado naquele
ramo? No chão, veja no chão, não forma um boné a curva ali do regato?
Está na escada, ele respondeu. Esse caçador singularmente familiar que viria por detrás, na direção do banco
de pedra onde ia se sentar, logo ali adiante tinha um banco. Para não me surpreender desprevenido (detestava
surpresas) discretamente ele dará algum sinal antes de pousar a mão no meu ombro. Então eu me viro para ver.
Estacou. A revelação o fez cambalear, esvaído numa vertigem: agora joelhos no chão. Seria como uma folha
tombando em seu ombro mas se olhasse para trás, se atendesse o chamado. Foi endireitando o corpo. Passou as
mãos nos cabelos. Sentia-se observado pelo jardim, julgado até pela roseira de rosas miúdas sorrindo reticente logo
adiante. Envergonhou-se. Meu Deus, murmurou num tom de quem pede desculpas por ter entrado em pânico assim
com essa facilidade, meu Deus, que papel miserável, e se for um amigo? Simplesmente um amigo? Começou a
assobiar e as primeiras notas da melodia o transportaram ao menino antigo com sua roupa de Senhor dos Passos na
procissão da Sexta-feira Santa. O Cristo cresceu no esquife de vidro, oscilando suspenso sobre as cabeças, me
levanta, mãe, quero ver! Mas continuava alto demais tanto na procissão como depois, lá na igreja, deposto no estrado
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
de panos roxos, fora do esquife para o beija-mão. O remorso velando as caras. O medo atrofiando a marcha dos pés
tímidos atrás do Filho de Deus, o que nos espera se até Ele?!… A vontade de que o pesadelo passasse logo e
amanhecesse sábado, ressuscitar no sábado! Mas a hora ainda era a da banda de batas pretas. Das tochas. Dos
turíbulos atirados para os lados, vupt! vupt! até o extremo das correntes. Falta muito, mãe? A vontade de evasão de
tudo quanto era grave e profundo certamente vinha dessa noite: os planos de fuga na primeira esquina, desvencilharse da coroa de falsos espinhos, da capa vermelha, fugir do Morto tão divino, mas morto~A procissão seguiu por ruas
determinadas, era fácil se desviar dela, descobriu mais tarde. O que continuava difícil era fugir de si mesmo. No fundo
secreto, fonte de ansiedade, era sempre noite – os espinhos verdadeiros lhe espetando a carne, ô! por que não
amanhece? Quero amanhecer!
Sentou-se no banco verde de musgo, tudo em redor mais quieto e mais úmido agora que chegara ao âmago
do jardim. Correu as pontas dos dedos no musgo e achou-o sensível como se lhe brotasse da própria boca. Examinou
as unhas. E abaixou-se para tirar a teia de aranha que se colara despedaçada à bainha da calça: o trapezista de
malha branca (foi na estreia do circo?) despencou do trapézio lá em cima, varou a rede e se estatelou no picadeiro. A
tia tapou-lhe depressa os olhos, não olha, querido! mas por entre os dedos enluvados viu o corpo se debater sob a
rede que foi arrastada na queda. As contrações se espaçaram até a imobilidade, só a perna de inseto vibrando ainda.
Quando a tia o carregou para fora do circo, o pé em ponta escapava pela rede estraçalhada num último
estremecimento. Olhou para o próprio pé adormecido, tentou movê-lo. Mas a dormência já subia até o joelho.
Solidário, o braço esquerdo adormeceu em seguida, um pobre braço de chumbo, pensou enternecido com a lembrança
de quando aprendera que alquimia era transformar metais vis em ouro, o chumbo era vil? Com a mão direita,
recolheu o braço que pendia, avulso. Bondosamente colocou-o sobre os joelhos: já não podia fugir. E fugir para onde
se tudo naquele jardim parecia dar na escada? Por ela viria o caçador de boné, eterno habitante de um jardim eterno,
só ele mortal. A exceção. E se cheguei até aqui é porque vou morrer. Já? horrorizou-se olhando para os lados mas
evitando olhar para trás. A vertigem o fez fechar de novo os olhos. Equilibrou-se tentando se agarrar ao banco, não
quero! gritou. Agora não, meu Deus, espera um pouco, ainda não estou preparado! Calou-se, ouvindo os passos que
desciam tranquilamente a escada. Mais tênue do que a brisa um sopro pareceu reavivar a alameda. Agora está nas
minhas costas, ele pensou e sentiu o braço se estender na direção do seu ombro. Ouviu a mão ir baixando numa
crispação de quem (familiar e contudo cerimonioso) dá um sinal, sou eu. O toque manso. Preciso acordar, ordenou se
contraindo inteiro, isto é apenas um sonho! Preciso acordar! acordar. Acordar, ficou repetindo. Abriu os olhos.
Demorou um pouco para reconhecer o travesseiro que apertava contra o peito. Limpou a baba morna que lhe
escorria pelo queixo e puxou o cobertor até os ombros. Que sonho! Murmurou abrindo e fechando a mão esquerda,
formigante, pesada. Estendeu a perna e quis contar-lhe o sonho do jardim com a morte vindo por detrás: sonhei que
ia morrer. Mas ela podia gracejar, a novidade não seria sonhar o contrário? Virou-se para a parede. Não queria
nenhum tipo de resposta do gênero bem humorado, como era irritante quando ela exibia seu humor. Gostava de se
divertir à custa dos outros mas se encrespava quando se divertiam à sua custa. Massageou o braço dolorido e deu
uma vaga resposta quando ela lhe perguntou que gravata queria usar, estava um dia lindo. Era dia ou noite no
jardim? Tantas vezes pensara na morte dos outros, entrara mesmo na intimidade de algumas dessas mortes e jamais
imaginou que pudesse lhe acontecer o mesmo, jamais. Um dia, quem sabe? Um dia lá longe, mas tão longe que a
vista não alcançava essa lonjura, ele próprio se perdendo na poeira de uma velhice remota, diluído no esquecimento.
No nada. E agora, nem cinquenta anos. Examinou o braço. Os dedos. Levantou-se molemente, vestiu o chambre, não
era estranho? Isso de não ter pensado em fugir do jardim. Voltou-se para a janela e estendeu a mão para o Sol.
Pensei, é claro, mas a perna desatarraxada e o braço advertindo que não podia escapar porque todos os caminhos iam
dar na escada, que não havia nada a fazer senão ficar ali no banco, esperando o chamado que viria por detrás, de
uma delicadeza implacável. E então? Perguntou-lhe a mulher. Assustou-se. Então o quê?! Ela passava creme na cara,
fiscalizando-o através do espelho, mas ele não ia fazer sua ginástica? Hoje não, disse massageando de leve a nuca,
chega de ginástica. Chega também de banho? ela perguntou enquanto dava tapinhas no queixo. Ele calçou os
chinelos: se não estivesse tão cansado, poderia odiá-la. E como desafina! (agora ela cantarolava), nunca teve bom
ouvido, a boz até que é agradável mas se não tem bom ouvido… Parou no meio do quarto: o inseto saindo do ouvido
da estátua não seria um sinal? Só o inseto se movimentando no jardim parado. O inseto e a morte. Apanhou o maço
de cigarro mas deixou-o, hoje fumaria menos. Abriu os braços: esse dolorimento na gaiola do peito era real ou
memória do sonho?
Contos escolhidos…
52
Acredite no seu sonho, invista em você!
Tive um sonho, ele disse passando por detrás da mulher e tocando-lhe o ombro. Ela afetou curiosidade no
leve arquear das sobrancelhas, um sonho? e recomeçou a espalhar o creme em torno dos olhos, preocupada demais
com a própria beleza para pensar em qualquer coisa que não tivesse ligação com essa beleza. Que já está perdendo o
viço, ele resmungou ao entrar no banheiro. Examinou-se no espelho: estava mais magro ou essa imagem era apenas
um eco multiplicador do jardim?
Cumpriu a rotina da manhã com uma curiosidade comovida, atento aos menores gestos, os gestos que
sempre repetiu automaticamente e que agora analisava, fragmentando-os em câmera lenta, como se fosse a primeira
vez que abria uma torneira. Podia também ser a última. Fechou-a, mas que sentimento era esse? Despedia-se e
estava chegando. Ligou o aparelho de barbear, examinou-o através do espelho e num movimento caricioso
aproximou-o da face: não sabia que amava assim a vida. Essa vida da qual falava com tamanho sarcasmo, com
tamanho desprezo. Acho que ainda não estou preparado, foi o que tentei dizer, não estou preparado. Seria uma morte
repentina, coisa do coração – mas não é o que eu detesto? O imprevisto, a mudança dos planos. Enxugou-se com
indulgente ironia: exatamente isso era o que todos diziam. Os que iam morrer. E nunca pensaram sequer em se
preparar, até o avô velhíssimo, quase cem anos e alarmado com a chegada do padre, mas está na hora? Já?
Tomou o café em goles miúdos, como era gostoso o primeiro café. A manteiga se derretendo no pão
aquecido. O perfume das maçãs de prazeres. Baixou o olhar para a mesa posta: os pequeninos objetos. Ao entregarlhe o jornal, a mulher lembrou que tinham dois compromissos para a noite, um coquetel e um jantar, e se
emendássemos? Ela sugeriu. Sim, emendar, ele disse. Mas não era o que faziam durante anos e anos, sem
interrupção? O brilhante fio mundano era desenrolado infinitamente, dia após dia, sim, emendaremos, repetiu. E
afastou o jornal: mais importante do que todos os jornais do mundo era agora o raio de sol entrando pela janela até
respassar as uvas do prato. Colheu um bago cor de mel e pensou que se houvesse uma abelha no jardim do sonho, ao
menos uma abelha, podia ter esperança. Olhou para a mulher que passava geleia de laranja na torrada, uma gota
amarelo-ouro escorrendo lhe pelo dedo e ela rindo e lambendo o dedo, há quanto tempo tinha acabado o amor? Ficara
esse jogo. Essa acomodada representação já em decadência por desfastio, preguiça. Estendeu a mão para acariciar
lhe a cabeça, que pena, disse. Ela voltou-se, pena por quê? Ele demorou o olhar nos seus cabelos encaracolados,
como os da estátua: uma pena aquele inseto, disse. E a perna ficar metálica na metamorfose final, não se importe,
estou delirando. Serviu-se de mais café. Mas estremeceu quando ela lhe perguntou se por acaso não estava atrasado.
Hoje entraria mais tarde, queria fumar um ultimo cigarro. Teria dito ultimo? Beijou o filho de uniforme azul,
entretido em arrumar a pasta do colégio, exatamente como fizera na véspera. Como se não soubesse que naquela
manhã (ou noite?) o pai quase olhara a morte nos olhos. Mais um pouco e dou de cara com ela, segredou ao menino
que não ouviu, conversava com o copeiro. Se não acordo antes, disse num tom forte e a mulher se debruçou na
janela para avisar ao motorista que tirasse o carro. Vestiu o paletó: podia dizer o que quisesse, ninguém se
interessava. E por acaso eu me interesso pelo que dizem ou fazem? Afagou o cachorro que veio saudá-lo com uma
alegria tão cheia de saudade que se comoveu, não era extraordinário? A mulher, o filho, os empregados – todos
continuavam impermeáveis, só o cachorro pressentira o perigo com seu faro visionário. Acendeu o cigarro, atento à
chama do palito queimando até o fim. Vagamente, de algum cômodo da casa, veio a voz do locutor de rádio na
previsão do tempo. Quando se levantou, a mulher e o filho já tinham saído. Ficou olhando o café esfriando no fundo
da xícara. O beijo que lhe deram foi tão automático que nem sequer se lembrava de ter sido beijado.
Telefone para o senhor, o copeiro veio avisar. Encarou-o: há mais de três anos aquele homem trabalhava ali
ao lado e quase nada sabia sobre ele. Baixou a cabeça, fez um gesto de quem se recusa e se desculpa. Tanta pressa
nas relações dentro de casa. Lá fora, um empresário de sucesso casado com uma mulher na moda. A outra fora
igualmente ambiciosa, mas não tinha charme e era preciso charme para investir nas festas, nas roupas. Investir no
corpo, a gente tem que se preparar como se todos os dias tivesse um encontro de amor, ela repetiu mais de uma vez,
olha aí, não me distraio, nenhum sinal de barriga! A distração era de outro gênero. O doce distraimento de quem tem
a vida pela frente, mas não tenho? Deixou cair o cigarro dentro da xícara: agora, não mais. O sonho interrompera o
fluxo da sua vida no corte do jardim. O incrível sonho fluindo tão natural apesar da escada com seus degraus
esburacados de tão gastos. Apesar dos passos do caçador embutido, pisando na areia da malícia fina até o toque no
ombro: vamos?
53
Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Entrou no carro, ligou o contato. O pé esquerdo resvalou para o lado, recusando-se a obedecer. Repetiu o
comando com mais energia e o pé resistindo. Tentou mais vezes. Não perder a calma, não se afobar, foi repetindo
enquanto desligava a chave. Fechou o vidro. O silêncio. A quietude. De onde vinha esse perfume de ervas úmidas?
Descansou no assento as mãos desinteressadas. A paisagem foi se aproximando numa aura de cobre velho, estava
clareando ou escurecia? Levantou a cabeça para o céu esverdinhado, com a lua de calva exposta, coroada de folhas.
Vacilou na alameda bordejada pela folhagem escura, mas o que é isso estou no jardim? De novo? E agora, acordado,
espantou-se, examinando a gravata que ela escolhera para esse dia. Tocou na figueira, sim, outra vez a figueira.
Enveredou pela alameda: um pouco mais e chegaria ao tanque seco. A moça dos pés cariados ainda estava em
suspenso, sem se decidir, com medo de molhar os pés. Como ele mesmo, tanto cuidado em não se comprometer
nunca, em não assumir a não ser as superfícies. Uma vela para Deus, outra para o Diabo. Sorriu das próprias mãos
abertas, se oferecendo. Passei a vida assim, pensou, mergulhando-as nos bolsos num desesperado impulso de
aprofundamento. Afastou-se antes que o inseto fofo irrompesse de dentro da pequenina orelha, não era absurdo? Isso
da realidade imitar o sonho num jogo onde a memória se sujeitava ao planificado. Planificado por quem? Assobiou e o
Cristo da procissão foi se esboçando no esquife indevassável, tão alto. A mãe enrolou-0 depressa no xale, a roupa do
Senhor dos Passos era leve e tinha esfriado, está com frio, filho? Tudo se passava mais rápido ou era apenas
impressão? A marcha funeral se precipitou em meio das tochas e correntes soprando fumaça e brasa. E se eu tivesse
mais uma chance? gritou. Tarde porque o Cristo já ia longe.
O banco no centro do jardim. Afastou a teia despedaçada e entre os dedos musgosos como o banco,
vislumbrou o corpo do antigo trapezista enredado nos fios da rede, só a perna viva. Fez-lhe um afago e a perna não
reagiu. Sentiu o braço tombar, metálico, como era a alquimia? Se não fosse o chumbo derretido que lhe atingia o
peito, sairia rodopiando pela alameda, descobri! Descobri. A alegria era quase insuportável: da primeira vez, escapei
acordando. Agora, vou escapar dormindo. Não era simples? Recostou a cabeça no espaldar do banco, mas não era
sutil? Enganar assim a morte saindo pela porta do sono. Preciso dormir, murmurou fechando os olhos. Por entre a
sonolência verde-cinza viu que retomava o sonho no ponto exato em que fora interrompido. A escada. Os passos.
Sentiu o ombro tocado de leve. Voltou-se.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
VENHA VER O PÔR-DO-SOL
Lygia Fagundes Telles
Ela subiu sem pressa a tortuosa ladeira. À medida que avançava, as casas iam rareando, modestas casas espalhadas
sem simetria e ilhadas em terrenos baldios. No meio da rua sem calçamento, coberta aqui e ali por um mato rasteiro,
algumas crianças brincavam de roda. A débil cantiga infantil era a única nota viva na quietude da tarde.
Ele a esperava encostado a uma árvore. Esguio e magro, metido num largo blusão azul-marinho, cabelos
crescidos e desalinhados, tinha um jeito jovial de estudante.
— Minha querida Raquel.
Ela encarou-o, séria. E olhou para os próprios sapatos.
— Veja que lama. Só mesmo você inventaria um encontro num lugar destes. que idéia, Ricardo, que idéia!
Tive que descer do táxi lá longe, jamais ele chegaria aqui em cima.
Ele sorriu entre malicioso e ingênuo.
— Jamais, não é? Pensei que viesse vestida esportivamente e agora me aparece nessa elegância... quando
você andava comigo, usava uns sapatões de sete léguas, lembra?
— Foi para me dizer isso que você me fez subir até aqui? - perguntou ela, guardando o lenço na bolsa. Tirou
um cigarro. - Hem?!
— Ah, Raquel... - e ele tomou-a pelo braço, rindo. - Você está uma coisa de linda. E fuma agora uns
cigarrinhos pilantras, azul e dourado... Juro que eu tinha que ver ainda uma vez toda essa beleza, sentir esse
perfume. Então? Fiz mal?
— Podia ter escolhido um outro lugar, não? - Abrandara a voz. - E que é isso ai? Um cemitério?
Ele voltou-se para o velho muro arruinado. Indicou com o olhar o portão de ferro, carcomido pela ferrugem.
— Cemitério abandonado, meu anjo. Vivos e mortos, desertaram todos. Nem os fantasmas sobraram, olha aí
como as criancinhas brincam sem medo - acrescentou, lançando um olhar 'às crianças rodando na sua ciranda.
Ela tragou lentamente. Soprou a fumaça na cara do companheiro.
— Ricardo e suas idéias. E agora? Qual é o programa?
Brandamente ele a tomou pela cintura.
— Conheço bem tudo isso, minha gente está enterrada aí. Vamos entrar e te mostrarei o pôr-do-sol mais
lindo do mundo.
Perplexa, ela encarou-o um instante. E vergou a cabeça para trás numa risada.
— Ver o pôr-do-sol!... Ah, meu Deus... Fabuloso, fabuloso!... Me implora um último encontro, me atormenta
dias seguidos, me faz vir de longe para esta buraqueira, só mais uma vez, só mais uma! E para quê? Para ver o pôrdo-sol num cemitério...
Ele riu também, afetando encabulamento como um menino em falta.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
— Raquel, minha querida, não faça assim comigo. Você sabe que eu gostaria era de te levar ao meu
apartamento, mas fiquei mais pobre ainda, como se isso fosse possível. Moro agora numa pensão horrenda, a dona é
uma Medusa que vive espiando pelo buraco da fechadura...
— E você acha que eu iria?
— Não se zangue, sei que não iria, você está sendo fidelíssima. Então pensei, se pudéssemos conversar um
pouco numa rua afastada... — disse ele, aproximando-se mais. Acariciou-lhe o braço com as pontas dos dedos. Ficou
sério. Aos poucos, inúmeras rugazinhas foram-se formando em redor dos seus olhos ligeiramente aperta-dos. Os
leques de rugas se aprofundaram numa expressão astuta: não era nesse instante tão jovem como aparentava. Mas
logo sorriu e a rede de rugas desapareceu sem deixar vestígio. Voltou-lhe novamente o ar inexperiente e meio
desatento. - Você fez bem em vir.
— Quer dizer que o programa... E não podíamos tomar alguma coisa num bar?
— Estou sem dinheiro, meu anjo, vê se entende.
— Mas eu pago.
— Com o dinheiro dele? Prefiro beber formicida. Escolhi este passeio porque é de graça e muito decente, não
pode haver um passeio mais decente, não concorda comigo? Até romântico.
Ela olhou em redor. Puxou o braço que ele apertava.
— Foi um risco enorme, Ricardo. Ele é ciumentíssimo. Está farto de saber que tive meus casos. Se nos pilha
juntos, então sim, quero só ver se alguma das suas fabulosas idéias vai me consertar a vida.
— Mas me lembrei deste lugar justamente porque não quero que você se arrisque, meu anjo. Não tem lugar
mais discreto do que um cemitério abandonado, veja, completamente abandonado - prosseguiu ele, abrindo o portão.
Os velhos gonzos gemeram. - Jamais seu amigo ou um amigo do seu amigo saberá que estivemos aqui.
— É um risco enorme, já disse. Não insista nessas brincadeiras, por favor. E se vem um enterro? Não suporto
enterros.
— Mas enterro de quem? Raquel, Raquel, quantas vezes preciso repetir a mesma coisa?! Há séculos ninguém
mais é enterrado aqui, acho que nem os ossos sobraram, que bobagem. Vem comigo, pode me dar o braço, não tenha
medo.
O mato rasteiro dominava tudo. E não satisfeito de ter-se alastrado furioso pelos canteiros, subira pelas
sepulturas, infiltrara-se ávido pelos rachões dos mármores, invadira as alamedas de pedregulhos enegrecidos como se
quisesse com sua violenta força de vida cobrir para sempre os últimos vestígios da morte. Foram andando
vagarosamente pela longa alameda banhada de sol. Os passos de ambos ressoavam sonoros como uma estranha
música feita ao som das folhas secas trituradas sobre os pedregulhos. Amuada mas obediente, ela se deixava conduzir
como uma criança. As vezes mostrava certa curiosidade por uma ou outra sepultura com os pálidos medalhões de
retratos esmaltados.
— É imenso, hem? E tão miserável, nunca vi um cemitério mais miserável, é deprimente —exclamou ela,
atirando a ponta do cigarro na direção de um anjinho de cabeça decepada. — Vamos embora, Ricardo, chega.
— Ah, Raquel, olha um pouco para esta tarde! Deprimente por quê? Não sei onde foi que eu li, a beleza não
está nem na luz da manhã nem na sombra da noite, está no crepúsculo, nesse meio-tom, nessa incerteza. Estou-lhe
dando um crepúsculo numa bandeja e você se queixa.
— Não gosto de cemitério, já disse. E ainda mais cemitério pobre.
Delicadamente ele beijou-lhe a mão.
— Você prometeu dar um fim de tarde a este seu escravo.
— É, mas fiz mal. Pode ser muito engraçado, mas não quero me arriscar mais.
— Ele é tão rico assim?
— Riquíssimo. Vai me levar agora numa viagem fabulosa até o Oriente. Já ouviu falar no Oriente? Vamos até
o Oriente, meu caro...
Ele apanhou um pedregulho e fechou-o na mão. A pequenina rede de rugas voltou a se estender em redor
dos seus olhos. A fisionomia, tão aberta e lisa, repentinamente ficou envelhecida. Mas logo o sorriso reapareceu e as
rugazinhas sumiram.
— Eu também te levei um dia para passear de barco, lembra?
Recostando a cabeça no ombro do homem, ela retardou o passo.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
— Sabe, Ricardo, acho que você é mesmo meio glingue-glongue... Apesar de tudo, tenho às vezes saudade
daquele tempo. Que ano aquele. Palavra que quando penso não entendo até hoje como aguentei tanto. Um ano!
— É que você tinha lido A Dama das Camélias, ficou assim toda frágil, toda sentimental. E agora? Que
romance você está lendo agora?
— Nenhum — respondeu ela franzindo os lábios. Deteve-se para ler a inscrição de uma laje despedaçada: —
A minha querida esposa, eternas saudades. — Fez um muxoxo. — Pois sim. Durou pouco essa eternidade.
Ele atirou o pedregulho num canteiro ressequido.
— Mas é esse abandono na morte que faz o encanto disto. Não se encontra mais a menor intervenção dos
vivos, a estúpida intervenção dos vivos. Veja - disse, apontando uma sepultura fendida, a erva daninha brotando
insólita de dentro da fenda - o musgo já cobriu o nome na pedra. Por cima do musgo, ainda virão as raízes, depois as
folhas... Esta a morte perfeita, nem lembrança, nem saudade, nem o nome sequer. Nem isso.
Ela aconchegou-se mais a ele. Bocejou.
— Está bem, mas agora vamos embora que já me diverti muito, faz tempo que não me divirto tanto, só
mesmo um cara como você podia me fazer divertir assim.
— Deu-lhe um beijo rápido na face. - Chega, Ricardo, quero ir embora.
— Mais alguns passos...
— Mas este cemitério não acaba mais, já andamos quilômetros! Olhou para trás — Nunca andei tanto
Ricardo, vou ficar exausta.
— A boa vida te deixou preguiçosa? Que feio — lamentou ele empurrando a para a frente Dobrando esta
alameda fica o jazigo da minha gente e de lá que se vê o pôr-do-sol. — E tomando a pela cintura. Sabe, Raquel, andei
muitas vezes por aqui de mãos dadas com minha prima. Tínhamos então doze anos. Todos os domingos minha mãe
vinha trazer flores e arrumar nossa capelinha onde já estava enterrado meu pai. Eu e minha priminha vínhamos com
ela e ficávamos por ai, de mãos dadas, fazendo tantos planos. Agora as duas estão mortas.
— Sua prima também?
— Também. Morreu quando completou quinze anos. Não era propriamente bonita, mas tinha uns olhos...
Eram assim verdes como os seus, parecidos com os seus. Extraordinário, Raquel, extraordinário como vocês duas...
Penso que toda a beleza dela residia apenas nos olhos, assim meio oblíquos, tão brilhantes.
— Vocês se amaram?
— Ela me amou. Foi a única criatura que... — Fez um gesto. — Enfim, não tem importância.
Raquel tirou-lhe o cigarro, tragou e depois devolveu-o.
— Eu gostei de você, Ricardo.
— E eu te amei. E te amo ainda. Percebe agora a diferença?
Um pássaro rompeu o cipreste e soltou um grito. Ela estremeceu.
— Esfriou, não? Vamos embora.
— Já chegamos, meu anjo. Aqui estão meus mortos.
Pararam diante de uma capelinha coberta de alto a baixo por uma trepadeira selvagem, que a envolvia num
furioso abraço de cipós e folhas. A estreita porta rangeu quando ele a abriu de par em par. A luz invadiu um cubículo
de paredes enegrecidas, cheias de estrias de antigas goteiras. No centro do cubículo, um altar meio desmantelado,
coberto por uma toalha que adquiria a cor do tempo. Dois vasos de desbotada opalina ladeavam um tosco crucifixo de
madeira. Entre Os braços da cruz, uma aranha tecera dois triângulos de teias já rompidas, pendendo como farrapo. de
um manto que alguém colocara sobre os ombros de Cristo. Na parede lateral, à direita da porta, uma portinhola de
ferro dando acesso para uma escada de pedra, descendo em caracol para a catacumba.
Ela entrou na ponta dos pés, evitando roçar mesmo de leve naquelas ruínas.
— Que triste que é isto, Ricardo. Nunca mais você esteve aqui?
Ele tocou na face da imagem recoberta de poeira.
— Sei que você gostaria de encontrar tudo limpinho, flores nos vasos, velas, sinais da minha dedicação,
certo? Mas já disse que o que mais amo neste cemitério e precisamente este abandono, esta solidão. As pontes com o
outro mundo foram cortadas e aqui a morte se isolou total. Absoluta.
Ela adiantou-se e espiou através das enferrujadas barras de ferro da portinhola. Na semi-obscuridade do
subsolo, os gavetões se estendiam ao longo das quatro paredes que formavam um estreito retângulo cinzento.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
- E lá embaixo?
— Pois lá estão as gavetas. E, nas gavetas, minhas raízes. Pó, meu anjo, pó — murmurou ele. Abriu a
portinhola e desceu a escada. Aproximou-se de uma gaveta no centro da parede, segurando firme na alça de bronze,
como se fosse puxá-la. — A cômoda de pedra. Não é grandiosa?
Detendo-se no topo da escada, ela inclinou-se para ver melhor.
— Todas essas gavetas estão cheias?
— Cheias?... - Sorriu. - Só as que têm o retrato e a inscrição, está vendo? Nesta está o retrato da minha
mãe, aqui ficou minha mãe — prosseguiu ele, tocando com as pontas dos dedos num medalhão esmaltado, embutido
no centro da gaveta.
Ela cruzou OS braços. Falou baixinho, um ligeiro tremor na voz.
— Vamos Ricardo, vamos.
— Você está com medo.
— Claro que não, estou é com frio. Suba e vamos embora, estou com frio!
Ele não respondeu. Adiantara-se até um dos gavetões na parede oposta e acendeu um fósforo. Inclinou-se
para o medalhão frouxamente iluminado.
— A priminha Maria Camila. Lembro até do dia em que tirou esse retrato. Foi duas semanas antes de
morrer... Prendeu os cabelos com uma fita azul e veio se exibir, estou bonita? Estou bonita?... - Falava agora consigo
mesmo, doce e gravemente. — Não, não é que fosse bonita, mas os olhos... Venha ver, Raquel, é impressionante
como tinha olhos iguais aos seus.
Ela desceu a escada, encolhendo-se para não esbarrar em nada.
— Que frio faz aqui. E que escuro, não estou enxergando...
Acendendo outro fósforo, ele ofereceu-o à companheira.
— Pegue, dá para ver muito bem... — Afastou-se para o lado. — Repare nos olhos.
— Mas está tão desbotado, mal se vê que é uma moça... — Antes da chama se apagar, aproximou-a da
inscrição feita na pedra. Leu em voz alta, lentamente. - Maria Camila, nascida em vinte de maio de mil e oitocentos e
falecida... - Deixou cair o palito e ficou um instante imóvel. — Mas esta não podia ser sua namorada, morreu há mais
de cem anos! Seu menti...
Um baque metálico decepou lhe a palavra pelo meio. Olhou em redor. A peça estava deserta. Voltou a olhar
para a escada. No topo, Ricardo a observava por detrás da portinhola fechada. Tinha seu sorriso meio inocente, meio
malicioso.
— Isto nunca foi o jazigo da sua família, seu mentiroso! Brincadeira mais cretina! - exclamou ela, subindo
rapidamente a escada. - Não tem graça nenhuma, ouviu?
Ele esperou que ela chegasse quase a tocar o trinco da portinhola de ferro. Então deu uma volta à chave,
arrancou-a da fechadura e saltou para trás.
— Ricardo, abre isto imediatamente! Vamos, imediatamente! - ordenou, torcendo o trinco. - Detesto este tipo
de brincadeira, você sabe disso. Seu idiota! É no que dá seguir a cabeça de um idiota desses. Brincadeira mais
estúpida!
— Uma réstia de sol vai entrar pela frincha da porta, tem uma frincha na porta. Depois, vai se afastando
devagarinho, bem devagarinho. Você terá o pôr-do-sol mais belo do mundo.
Ela sacudia a portinhola.
— Ricardo, chega, já disse! Chega! Abre imediatamente, imediatamente! - Sacudiu a portinhola com mais
força ainda, agarrou-se a ela, dependurando-se por entre as grades. Ficou ofegante, os olhos cheios de lágrimas.
Ensaiou um sorriso. - Ouça, meu bem, foi engraçadíssimo, mas agora preciso ir mesmo, vamos, abra...
Ele já não sorria. Estava sério, os olhos diminuídos. Em redor deles, reapareceram as rugazinhas abertas em
leque.
— Boa-noite, Raquel.
— Chega, Ricardo! Você vai me pagar!... — gritou ela estendendo os braços por entre as grades, tentando
agarrá-lo. — Cretino! Me dá a chave desta porcaria, vamos! — exigiu, examinando a fechadura nova em folha.
Examinou em seguida as grades cobertas por uma crosta de ferrugem. Imobilizou-se. Foi erguendo o olhar até a
chave que ele balançava pela argola, como um pêndulo. Encarou-o, apertando contra a grade a face sem cor.
Esbugalhou os olhos num espasmo e amoleceu o corpo. Foi escorregando. - Não, não...
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Voltado ainda para ela, Ricardo recuou até a porta e abriu os braços. Foi puxando as duas folhas
escancaradas.
— Boa-noite, meu anjo.
Os lábios dela se pregavam um ao outro, como se entre eles houvesse cola. Os olhos rodavam pesadamente
numa expressão embrutecida.
— Não...
Guardando a chave no bolso, ele retomou o caminho percorrido. No breve silêncio, o som dos pedregulhos se
entrechocando úmidos sob seus sapatos. E, de repente, o grito medonho, inumano:
— NÃO!
Durante algum tempo ele ainda ouviu os gritos que se multiplicaram, semelhantes aos de um animal sendo
estraçalhado. Depois, os uivos foram ficando mais remotos, abafados como se viessem das profundezas da terra.
Assim que atingiu o portão do cemitério, lançou ao poente um olhar mortiço. Ficou atento. Nenhum ouvido humano
escutaria agora qualquer chamado. Acendeu um cigarro e foi descendo a ladeira. Crianças ao longe brincavam de
roda.
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Contos escolhidos
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Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
A PRESENÇA
Lygia Fagundes Telles
Quando entrou pela alameda de pedregulhos e parou o carro defronte do hotel, o casal de velhos que
passeava pelo gramado afastou-se rapidamente e ficou espiando de longe. O velho porteiro que o atendeu no balcão
de recepção também teve um movimento de recuo. Ele pousou a mala no chão e pediu um apartamento. Por quanto
tempo? Não estava bem certo, talvez uns vinte dias. Ou mais. O velho examinou-o da cabeça aos pés. Forçou o
sorriso paternal, disfarçando o espanto com uma cordialidade exagerada, mas o jovem queria um apartamento? Ali,
naquele hotel?! Mas era um hotel só de velhos, quase todos moradores fixos antiquíssimos, que graça um hotel
desses podia ter para um jovem? Depois das nove da noite, silêncio absoluto porque todos dormiam cedíssimo. E a
comida tão insípida, sem gordura, sem sal, com pratos sem nenhuma imaginação dentro de dietas rigorosas - pois
não eram velhos? E velhos têm problemas de saúde, tantas doenças reais e imaginárias, artritismo, bronquite crônica,
asma, pressão alta, flebite, enfisema pulmonar... Sem falar nas doenças mais dramáticas, ocioso enumerar tudo. A
própria velhice já era uma doença. Um jovem assim saudável passar suas férias num hotel tão frio quanto um
hospital? Nos hospitais ao menos havia uma esperança, os pacientes saírem curados, mas a doença da velhice era
sem cura e com a agravante de piorar como tempo. Injusto oferecer-lhe esse quadro de decadência que apesar de
mascarada (os hóspedes pertenciam à burguesia) era por demais deprimente. O prazer com que a juventude se vê
refletida num espelho! mas a velhice ali concentrada chegava a ser tão cruel que os espelhos acabaram por ser
afastados. Na última reforma, foram removidos os que apresentavam sinais mais acentuados de decomposição nas
manchas porosas e bordas amarelecidas, contraídas sob o cristal como um fino papel queimando brandamente.
Comesses, foram levados também os espelhos maiores da sala de refeições e que ainda estavam em bom estado. A
substituição nunca foi providenciada e nem se voltou a falar no assunto, mas seria preciso? Era evidente o alivio dos
hóspedes livres daquelas testemunhas geladas, captando-os em todos os ângulos: mais do que suficientes os espelhos
menores dos banheiros, apenas o essencial para uma barba, um penteado. Um irrisório carmim. E a quantidade de
espelhos na inauguração do hotel! (Estaria o jovem com disposição para ouvir mais?) Bem, tinha sido há cinquenta
anos. Nessa época, não passava de um rapazola que ajudava a carregar a bagagem. As famílias chegavam com os
carros pejados de malas, caixas, pajens, crianças, bicicletas. Nas longas temporadas de verão, a piscina (que ainda se
conservava apesar dos rachões) ficava fervilhante. As danças até de madrugada. O jogo. E as competições na quadra
de tênis, as cavalgadas pelo campo, o hotel dispunha de ótimos cavalos. Charretes. Mas aos poucos os hóspedes mais
velhos foram dominando à medida que os mais jovem começaram a rarear, não sabia explicar o motivo, o fato é que
a transformação -embora lenta - fora definitiva. Um museu-mausoléu. Que jovem podia se sentir bem num hotel
assim? Se ele prosseguisse pela mesma estrada por onde viera, alguns quilômetros adiante encontraria um hotel
excelente, tinha várias setas indicando o caminho, ficava num bosque bastante aprazível. E pelo que ouvira contar, o
ambiente era alegre. Jovial.
Ele tirou os documentos do bolso da jaqueta de couro e colocou-os no mármore do balcão: queria um
apartamento nesse hotel e só não insistiria se o regulamento tivesse uma cláusula que proibisse um jovem de vinte e
cinco anos de hospedar-se ali.
O velho porteiro passou as pontas dos dedos vacilantes na gola puída do uniforme pardo. Já não sorria
quando examinou os documentos do recém-chegado. Devolveu-os. Os olhos de um azul-pálido estavam frios. Talvez
não tivesse sido suficientemente claro, talvez, mas o fato é que se ele não se importava com a presença dos velhos,
era bem provável que os velhos se importassem (e quanto) com a sua presença. Tão fácil de entender, como um
jovem assim sagaz não entendia? Os velhos formavam uma comunidade com seus usos, seus costumes. Uniram-se e
a antiga fragilidade, tão agredida além daqueles portões, foi se transformando numa força. Num sistema. Eram seres
obstinados. Na secreta luta para garantir a sobrevivência, perderam a memoriado mundo que os rejeitara e se não
eram felizes, pelo menos conseguiram isso, a segurança. O direito de morrer em paz. No segundo andar do hotel, por
exemplo, vivia uma atriz de revista que fora muito famosa. Muito amada. Reduzida agora a um simples destroço,
fechara-se na sua concha, apavorada com a curiosidade do público, com o realismo da imprensa ávida por fotografá-la
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
na sua solidão, mas o que vocês querem de mim? ela gritou ao repórter que conseguiu apanhá-la numa cilada e
publicar a foto com a manchete que a fez chorar dois dias. Quando o elevador quebrou, só ela, que ainda andava com
certa agilidade, continuou no segundo andar, os outros foram transferidos parao primeiro por causa da escada. Nesse
andar morava um antigo ídolo de atletismo que chegara a duas olimpíadas. Vivia num cadeira de rodas. E como não
lia jornais nem ligava a televisão (quem quisesse, tinha seu televisor particular) conseguira esquecer que a corrida
com a tocha acesa prosseguia gloriosa sem ele. Esqueceu, assim como foi esquecido. As medalhas e troféus que nos
primeiros tempos de invalidez não podia nem ver estavam agora expostos na estante do seu quarto; às vezes os
olhava mas sem a antiga emoção, integrados na sua senilidade como o saco de água quente ou a cadeira. O vizinho
era um comerciante esclerosado que em poucos anos regredira à juventude, depois à adolescência e agora estava
ficando criança de novo. Mas uma criança que era protegida até pelo mais neurastênico dos hóspedes, um
homossexual que morava com um gato velhíssimo. Tivera na mocidade uma experiência trágica: quando o amigo
tentou matá-lo, todos ficaram sabendo oque desesperadamente procurara esconder, ambos tinham família e eram
conhecidíssimos. Hoje, é claro, ninguém se importava com isso mas naquele tempo foi só rejeição. Sofrimento.
Reencontrara um certo equilíbrio naquele hotel, vendo as gêmeas da paciência abrir o leque do baralho no taciturno
exercício do silêncio. Ouvindo a gorda solteirona do bandolim tocar pontualmente aos sábados. Relendo na pequena
biblioteca (escassos volumes já gastos) Os Três Mosqueteiros. Ou O Conde de Monte Cristo. Uma tênue cinza baixara
sobre suas cabeças. Sobre seus guardados. Agora chegara um jovem para ficar. Para lembrar (e com que veemência)
o que todos já tinham perdido,beleza, amor. Um jovem com dentes, músculos e sexo - perfeito como um deus, não,
não precisava rir, antiga medida de todas as coisas. Essa medida eles esqueceram. Com sua simples presença, iria
revolver tudo: a revolução da memória. E passara o tempo das revoluções, ninguém queria renovar mas conservar.
Assegurar essa sobrevida, o que já significava um verdadeiro heroísmo, os mais fracos tinham morrido todos.
Restaram esses, empenhados numa luta terrível porque dissimulada, eram dissimulados - será que estava sendo
claro? Não eram bons.
Ele acendeu o cigarro e ofereceu outro ao porteiro que agradeceu, não podia fumar. Olhou o lustre com
longos pingentes de cristal em formato de lágrimas pesadas de poeira. Sorriu enquanto apontava na direção do
pequeno elevador dourado e redondo, ―mas é lindo, parece uma gaiola!‖ Abriu o zíper da jaqueta de couro, fazia calor
O porteiro inclinou-se sobre o grosso caderno de registro, molhou a caneta no tinteiro mas ficou com a mão parada no
ar. Arqueou as sobrancelhas fatigadas: será que o amigo não percebia que ia ser um importuno? Um intruso?
Representava o direito do avesso. Ou o avesso desse direito? O problema é que ele, um simples porteiro, não podia
sequer defendê-lo se a comunidade decidisse sutilmente pela sua exclusão. Por mais tolos que esses velhos pudessem
parecer, guardavam o segredo de uma sabedoria que se afiava na pedra da morte. Era preciso lembrar que usariam
de todos os recursos para que as regras do jogo fossem cumpridas: até onde poderia chegar o ódio por aquele que
viera humilhá-los, irônico, provocativo, tumultuando a partida?
O jovem se animara com a idéia da piscina. Mas senessa mesma piscina coalhada de folhas aparecesse uma
manhã seu belo corpo boiando, tão desligado quanto as folhas? Eles fechariam depressa a portadevido à correnteza de
vento, os velhos não gostam de vento. E voltariam satisfeitos aos seus assuntos. Ao seu joguinho dos domingos,
aquele loto tão alegre, os cartões sendo cobertos com grãos de milho enquanto o anunciador(nenhum estranho por
perto?) vai cantando os números com as brincadeiras de costume, sempre as mesmas porque eles se divertem com as
repetições, como as crianças: número vinte e dois, dois patinhos na lagoa? Quarenta e quatro, bico de pato! Número
três, gato escocês! Tão brincalhões esses velhinhos...O jovem riu, tirou os óculos escuros e sua fisionomia se
acendeu, tinha palhetas douradas no fundo das pupilas. Por acaso o porteiro lia romance policial? Os romances da
velhinha inglesa, não? Ah, preferia palavras cruzadas. Apanhou a mala. Se possível, um apartamento no segundo
andar. O jantar era às sete, não? Ótimo, tinha tempo para dar umas boas braçadas, a tarde estava uma delícia.
Nenhuma importância se a piscina estava abandonada, a água não era corrente? Pediria apenas que lhe levassem um
pouco de gelo, gostava de bebericar na piscina. Não, não precisava de uísque, trouxera sua marca.
Uma velhinha de gargantilha lilás cruzou o saguão na sua cadeira de rodas empurrada por uma calma
enfermeira de touca: ia gesticulando, brava, deixando escapar resmungos por entre as gengivas duras enquanto a
outra seguia atrás, voltando-se para os lados e sorrindo, poor, poor darling! Hoje está meio irritada mas também, com
oitenta e nove anos!... Poor, poor darling! Orecém-chegado fez uma profunda reverência na direção de ambas e
voltou-se para o porteiro que mostrava num sorriso constrangido a dentadura opaca. Quer dizer que insistia mesmo
em ficar? Bem, tinha um apartamento bastante ensolarado no segundo andar, dando para a piscina. ―Espero que o
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
senhor fique satisfeito‖, acrescentou enquanto fazia sinal para um velho de avental até os joelhos, por favor, podia
conduzir 6 novo hóspede? Em largas passadas o jovem galgou os degraus de veludo vermelho e foi esperar o
empregado lá em cima, segurando a mala que em vão o velho tentou levar. Quando entrou no apartamento seguido
pelo empregado com seu molho de chaves, aspirou comum expressão de prazer o esmaecido perfume que parecia vir
dos móveis antiquados, lavanda? E perguntou enquanto abria a mala se por ali não havia fantasmas, sempre sonhara
com um hotel de fantasmas. Os fantasmas somos nós, respondeu-lhe o velho e ele riu alto. Tirou a garrafa de uísque.
Ligou o toca-discos.
Quando subiu no trampolim, notou um vulto que espiava através da cortina rendada de uma das janelas.
Baixou o olhar divertido para a água de um verde profundo, onde as folhas boiavam num ondulado calmo. Abriu os
braços. Saltou. Enquanto nadava de costas, entreviu uma cabeça branca na fresta de uma janela do primeiro andar.
Logo apareceu outra cabeça (de um homem?)que ficou um pouco atrás, na sombra. Chegou-lhe vagamente o fiapo
triturado de uma discussão antes que a janela se fechasse com força. Ele deitou-se no banco de pedra e ali ficou de
braços pendentes, a tanga vermelha escorrendo água, os olhos cerrados. Passou cariciosamente as pontas dos dedos
no peitoonde os pêlos dourados de sol já começavam a secar. Riu silenciosamente enquanto apanhava o copo que
deixara no chão: seus movimentos se fragmentavam em câmara lenta, calculados.
No jantar, antes mesmo de provara comida, despejou o sal, o molho inglês, a pimenta e bateu palmas
vigorosas para os três velhos músicos - um pianista, um violinista e o careca do rabecão -que tocaram antigas peças
que alguns hóspedes (poucos desceram para o jantar) ouviram imperturbáveis. Achou um certo amargor na goiabada
com queijo.
Ao se deitar, depois de ter tomado o chá-de-estrada servido às vinte e uma hora, ele já não se sentia bem.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
DIZEM QUE OS CÃES VÊEM COISAS
Moreira Campos
Ela chegou diáfana, transparente, no vestido branco que lhe descia até os pés calçados pelas ricas sandálias
de pluma. Ninguém lhe ouviu os passos. Sentou-se à beira da grande piscina, cruzando as pernas longas. Chegou
antiqüíssima, atual e eterna, com a sua cara de máscara. Moldada em gesso? Apenas uma presença, porque pousou
como uma sombra. Mas por um fragmento de tempo, um quase nada, reinou entre todos um silêncio largo, que se
estendeu pelo vasto terreno murado da mansão ensombrada pelas árvores, dominou a enorme piscina e emudeceu as
próprias crianças pajeadas pelas babás de aventais bordados, e vejam que as crianças são indóceis.
Um presságio.
Fragmento de tempo apenas, porque o homem gordo, de ventre imenso, saltou dentro da piscina com o
copo de uísque na mão. Espadanou água por todos os lados, a piscina transbordou. Muitos se molharam, outros
saltaram da cadeira de lona.
- Bruto! – disse alguém íntimo, sem que ele se aborrecesse, bêbado.
A onda de água despejou-se sobre Ela, que não se moveu: era trespassável e transparente. Floco de névoa
pronto a esvoaçar. Permaneceu parada, a cara imóvel, nenhum ricto. Apenas parecia consultar no pulso um relógio
invisível, para marcar o tempo. O homem de ventre enorme já estava à beira da piscina, gotejante e trôpego, para
uma nova dose de uísque, os dedos graúdos catando no balde os cubos de gelo. Mulheres seminuas, o cordão do
biquíni, as nádegas reluzentes de sol e gotas dágua. As rodas, as conversas, os garçons que circulavam, as bandejas
de salgadinhos.
Uns óculos escuros sofisticados no sutiã mínimo:
- Por favor.
O garçom atendia, solicito, perdendo os olhos ávidos nos seios mal contidos, oferecidos e inatingíveis.
- Obrigada.
O garçom mantinha a dignidade, ereto. A menina chegou e segurou a mãe pelo queixo:
- Mãe-ê, quero uma coca-cola.
A mãe não lhe dava atenção em flerte com o recente campeão de vôlei, uma estrutura de tórax (a mãe da
menina contrariava-se apenas com o tufo de pêlos que ele tinha no peito, quase imoral). A menina impacientava-se:
- Mãe-ê, uma coca-cola.
- Deixa de ser chata!
O campeão levantou-se para apanhar o refrigerante. Em roda mais distante conversavam os homens
graves: a última medida do governo, a crise econômica.
- O país vai à bancarrota.
- Vai o quê?
- A bancarrota.
- Fazia tempo que eu não ouvia essa palavra.
- Mas vai.
Aceitava-se a bancarrota sem muita convicção. Na grande varanda, as senhoras grisalhas e indesnudáveis,
pulseiras tilintantes na flacidez dos braços, discutiam os novos valores morais e comentavam o recente desquite.
- A menina dela não tem um ano de casada.
- É a segunda que se separa.
- Como?
- A segunda.
Aniversário da dona da mansão, que se acompanhava ao violão com graça, aplaudida pelos que estavam em
volta. O garçom (ou maitre, porque era solene) curvou-se ao seu ouvido. Ela se livrou do violão, levantou-se e bateu
palmas chamando todos para o almoço à americana, as mesas sob as árvores. Cada um apanhou o seu prato,
formaram-se as filas, o homem gentil cedeu lugar a umas nádegas rijas, cortadas sempre pelo cordão do biquíni:
- Faz favor.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
- Obrigada.
Os cães de raça latiam e uivavam desesperadamente nos canis (e dizem que os cães vêem coisas). Foi
preciso que o tratador viesse acalmá-los, embora eles rodassem sobre si mesmos e rosnassem. A distância, a piscina
quase olímpica, agora deserta: toalhas esquecidas. O vidro de bronzeador, o cinzeiro sobre a mesinha cheio de pontas
de cigarro marcadas de batom.
As filas. Alguém tangeu o gato que lutava com um pedaço de osso. Lenita fez o prato do marido, preparou
também o seu. Mordia a fatia de peru com farofa, quando se lembrou do filho:
- Cadê o Netinho?
Certa angústia na voz. Chamou o marido, gritou pela babá, que se distraía com as outras na varanda. Olhos
espantados e repentino silêncio talvez maior de qualquer outro. Refeições suspensas, uma senhora mantinha no ar o
garfo cheio. Tentavam segurar Lenita. oEla se desvencilhava:
- Cadê o Netinho? Cadê?
As águas da grande piscina eram tranqüilas, apenas levemente franjadas pelo vento. Boiava sobre elas uma
carteira de cigarros vazia. Mas a moça que se aproximava parecia divisar um corpo no fundo, preso à escada.
Voltaram a afastar Lenita, o marido a envolveu nos braços possantes, talvez procurando refúgio também. O campeão
de vôlei atirou-se à piscina e veio à tona sacudindo com a cabeça os cabelos longos: trazia sob o braço um corpo
inerme, flácido, de apenas quatro anos e de cabelos louros e gotejantes.
O médico novo, de calção, tentou a respiração artificial, e boca-a-boca (os lábios de Netinho estavam
arroxeados), e levantou-se sem palavras e sem olhar para ninguém. Lenita soltou-se e agarrou-se ao filho:
- Acorde, acorde! Pelo amor de Deus, acorde?
Conseguiram afastá-la mais de uma vez, quase desmaiou. A amiga limpava-lhe com os dedos a sobra de
farofa que se grudava ao seu rosto. Os cães de raça voltavam a a latir desesperadamente, e dizem que os cães vêem
coisas.
Lenita ficou para sempre com a sensação do corpo inerte e mole entre os braços. Uma marca, uma
presença, que procurava desfazer com as mãos. Cabelos louros e gotejantes. Às vezes, ela despertava na noite:
- Acorde, acorde!
A presença também daquele instante de silencio que pesara sobre a piscina. Um pressentimento apenas?
Precisamente o momento em que Ela chegara, transparente e invisível, e se a senhora à beira da piscina, cruzando as
pernas longas, antiqüíssima, atual e eterna.
_____
Fonte: CAMPOS, José Maria Moreira. Dizem que os cães vêem coisas. Fortaleza: Edições UFC, 1987.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
CIRCUITO FECHADO
Ricardo Ramos
Chinelos, vaso, descarga. Pia, sabonete. Água. Escova, creme dental, água, espuma, creme de barbear, pincel,
espuma, gilete, água, cortina,sabonete, água fria, água quente, toalha. Creme para cabelo, pente. Cueca, camisa,
abotoaduras, calça, meias, sapatos, gravata, paletó. Carteira, níqueis, documentos, caneta, chaves, lenço, relógio,
maço de cigarros, caixa de fósforos. Jornal. Mesa, cadeiras, xícara e pires, prato, bule, talheres, guardanapo.
Quadros. Pasta, carro. Cigarro, fósforo. Mesa e poltrona, cadeira, cinzeiro, papéis, telefone, agenda, copo com lápis,
canetas, bloco de notas, espátula, pastas, caixas de entrada, de saída, vaso com plantas, quadros, papéis, cigarro,
fósforo. Bandeja, xícara pequena. Cigarro e fósforo. Papéis, telefone, relatórios, cartas, notas, vales, cheques,
memorandos, bilhetes, telefone, papéis. Relógio. Mesa, cavalete, cinzeiros, cadeiras, esboços de anúncios, fotos,
cigarro, fósforo, bloco de papel, caneta, projetor de filmes, xícara, cartaz, lápis, cigarro, fósforo, quadro-negro, giz,
papel. Mictório, pia, água. Táxi. Mesa, toalha, cadeiras, copos, pratos, talheres, garrafa, guardanapo, xícara. Maço de
cigarros, caixa de fósforos. Escova de dentes, pasta, água. Mesa e poltrona, papéis, telefone, revista, copo de papel,
cigarro, fósforo, telefone interno, externo, papéis, prova de anúncio, caneta e papel, relógio, papel, pasta, cigarro,
fósforo, papel e caneta, telefone, caneta e papel, telefone, papéis, folheto, xícara, jornal, cigarro, fósforo, papel e
caneta. Carro. Maço de cigarros, caixa de fósforos. Paletó, gravata. Poltrona, copo, revista. Quadros. Mesa, cadeiras,
pratos, talheres, copos, guardanapos. Xícaras. Cigarro e fósforo. Poltrona, livro. Cigarro e fósforo. Televisor, poltrona.
Cigarro e fósforo. Abotoaduras, camisa, sapatos, meias, calça, cueca, pijama, chinelos. Vaso, descarga, pia, água,
escova, creme dental, espuma, água. Chinelos. Coberta, cama, travesseiro.
2
Dentes, cabelos, um pouco do ouvido esquerdo e da visão. A memória intermediária, não a de muito longe nem a de
ontem. Parentes, amigos, por morte, distância, desvio. Livros, de empréstimo, esquecimento e mudança. Mulheres
também, como os seus temas. Móveis, imóveis, roupas, terrenos, relógios, paisagens, os bens da infância, do
caminho, do entendimento. Flores e frutos, a cada ano, chegando e se despedindo, quem sabe não virão mais, como o
jasmim no muro, as romãs encarnadas, os pés de pau. Luzes, do candeeiro ao vaga-lume. Várias vozes, conversando,
contando, chamando, e seus ecos, na música, seu registro. Várias vozes, conversando, contando, chamando, e seus
ecos, sua música, seu registro. O alfinete das primeiras gravatas e o sentimento delas. A letra das canções que foram
importantes. Um par de alpercatas, uns sapatos pretos de verniz, outros marrons de sola dupla. Todas as
descobertas, no feitio de crescerem e se reduzirem depois, acomodadas em convívio, costumes, a personagem, o fato,
a amiga. As idéias, as atitudes, as posições, com a sua revisada, apagada consciência. O distintivo sem cor nem
formato. Qualquer experiência, de profissão, de gosto, de vida, que se nivela incorporada, nunca depois, quando é
preciso tomá-la entre os dedos como um fio e atá-la. Os bondes, os trilhos. As caixas-d’água, os cata-ventos. Os
porta-chapéus, as cantoneiras. Palavras, que foram saindo, riscadas, esquecidas. Vaga praia, procissão, sabor de
milho, manhã, o calor passado não adormecia. Um cheiro urbano, depois da chuva no asfalto, com o namoro que
arredondava as árvores. Ansiedade, ou timidez, mais antes e após, sons que subiam pela janela entrando muito
agudos, ou muito mornos. Sino, apito de trem. Os rostos, as páginas. Lugares, lacunas. Por que não instantes? As
sensações, todas as de não guardar. O retrato mudando na parede, no espelho. Desbotando. Os dias, não as noites,
são o que mais ficou perdido.
3
Muito prazer. Por favor, quer ver o meu saldo? Acho que sim. Que bom telefonar, foi ótimo, agora mesmo estava
pensando em você. Puro, com gelo. Passe mais tarde, ainda não fiz, não está pronto. Amanhã eu ligo, e digo alguma
coisa. Guarde o troco. Penso que sim. Este mês, não, fica para o outro. Desculpe, não me lembrei. Veja logo a conta,
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
sim? É uma pena, mas hoje não posso, tenho um jantar. Vinte litros, da comum. Acho que não. Nas próximas férias,
vou até lá, de carro. Gosto mais assim, com azul. Bem, obrigado, e você? Feitas as contas, estava errado. Creio que
não. Já, pode levar. Ontem aquele calor, hoje chovendo. Não filha, não é assim que se faz. Onde está minha camisa
amarela? Às vezes, só quando faz frio. Penso que não. Vamos indo, naquela base. Que é que você tem? Se for
preciso, dou um pulo aí. Amanhã eu telefono e marco, mas fica logo combinado, quase certo. Sim, é um pessoal muito
simpático. Foi por acaso, uma coincidência. Não deixe de ver. Quanto mais quente melhor. Não, não é bem assim.
Morreu, coitado, faz dois meses. Você não reparou que é outra? Salve, lindos pendões. Mas que esperança. Nem sim,
nem não, muito pelo contrário. Como é que que eu vou saber? Antes corto o cabelo, depois passo por lá. Certo. Pra
mim, chega. Espere, mais tarde nós vamos. Aí foi que ele disse, não foi no princípio, quem ia advinhar? Deixe, vejo
depois. Sim, durmo de lado, com uma perna encolhida. O quê? É, quem diria. Acredito que sim. Boa tarde, como está
o senhor? Pague duas, a outra fica para o mês que vem. Oh, há quanto tempo! De lata e bem gelada. Perdoe, não
tenho miúdo. Estou com pressa. Como é que pode, se eles não estudam? Só peço que não seja nada. Estou com
fome. Não vejo a hora de acabar isto, de sair. Já que você perdeu o fim-de-semana, pôr que não vai pescar? É um
chato, um perigo público. Foi há muito tempo. Tudo bem, tudo legal? Gostei de ver. Acho que não, penso que não,
creio que não. Acredito que sim. Claro, fechei a porta e botei o carro par dentro. Vamos dormir? É, leia que é bom.
Ainda agosto e esse calor. Me acorde cedo amanhã, viu?
4
Ter, haver. Uma sombra no chão, um seguro que se desvalorizou, uma gaiola de passarinho. Uma cicatriz de operação
na barriga e mais cinco invisíveis, que doem quando chove. Uma lâmpada de cabeceira, um cachorro vermelho, uma
colcha e os seus retalhos. Um envelope com fotografias, não aquele álbum. Um canto de sala e o livro marcado. Um
talento para as coisas avulsas, que não duram nem rendem. Uma janela sobre o quintal, depois a rua e os telhados,
tudo sem horizonte. Um silêncio por dentro, que olha e lembra, quando se engarrafam o trânsito, os dias, as pessoas.
Uma curva de estrada e uma árvore, um filho, uma filha, um choro no ouvido, um recorte que permanece, e todavia
muda. Um armário com roupa e sapatos, que somente veste, e calçam, e nada mais. Uma dor de dente, uma
gargalhada, felizmente breves. Um copo de ágata sem dúvida amassado. Uma cidade encantada, mas seca. Um papel
de embrulho e cordão, para todos os pacotes a cada instante. Uma procuração, um recuo, uma certeza, que se diluem
e confundem, se gastam, e continuam. Um gosto de fruta com travo, um tostão guardado, azinhavrado, foi sempre a
menor moeda. Uma régua de cálculo, nunca aprendida. Um quiosque onde se vendia garapa, os copos e as garrafas
com o seu brilho de noite. Uma gaveta, uma gravura, os guardanapos de chave e de parede. Um caminhar de cabeça
baixa, atento aos buracos da calçada. Um diabo solto, uma prisão que o segura, um garfo e uma porta. Um rol de
gente, de sonho com figuras, que passa, que volta, ou se some sem anotação. Uma folhinha, um relógio, muito
adiantados. Uma hipermetropia que não deixa ver de perto, é necessário recuar as imagens até o foco. Um realejo
que não soube aos sete anos, uma primeira alegria aos quatorze, uma unha encravada e um arrepio depois. Uma
fábrica de vista, um descaroçador de algodão, uma usina com a tropa de burros, são os trechos de paisagem com e
sem raiz. Um morto, uma dívida, um conto com história. Um cartão de identidade cinzento e uma assinatura floreada,
só ela. Um lugar à mesa. Uma tristeza, um espanto, as cartas do baralho, passado, presente e futuro, onde estão?
Uma resposta adiada. Uma vida em rascunho, sem tempo de passar a limpo.
5
Não. Não foi o belo, quase nunca, nem ao menos o bonito, porque tudo se veio esgarçando em rotina, sombra com
vazio. Não foi o plano, o projeto, a lucidez conduzindo, já que o mistério se fez magia e baralhou os búzios da
vontade. Não foi o imaginado, o sonhado, mas a verdade miúda e comovida ser ter de quê. Não foi o tempo que
abarca vastamente, não, deve ser o que se conta aos pedaços, recorta, em mesquinha soma, e medrosa. Não foi o
prometido, o esperado, antes foram os enganos, os engodos, os adiamentos sempre roubos, pequenos e de
importância. Não foi nada útil, ou de se repartir, apenas o de guardar para comer sozinho. Não foi o brilhante, de anel
e de relâmpago, simplesmente a luz no vidro. Não foi o bom, foi o barato, não foi o alegre, foi o pouco a pouco, não
foi o claro, foi o difuso, pois os encargos chegam logo, e se aprendem, e ficam.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Não foi o momento certo, a maior parte aconteceu de repente, ou cedo, ou tarde, afinal não se repetiu. Não foi a
viagem, a longa, larga viagem, de recordar, rever, que as paradas e os horários dividiram muito o roteiro, partiram,
nublaram, não devolveram. Não foi o encontro nem a memória, não foi a paisagem nem o esquecimento, foi esse
passar de pessoas e o seu reverso de imóvel que se isola e não fala, porque não adianta. Não foi a cidade mas a rua,
não foi a figura mas a boca, não foi a chuva mas a calha. Não foi o campo, nem a mata, o morro, nem o rio, a relva,
nem a árvore, nem o verde, foi a janela de trem, de carro, de longe. Não foi o livro aberto, a oração disfarçada, a
primeira lição. Não foi a lâmpada, o linho, a lenda. Não foi a casa, o quintal, o corredor com portas e pé direito. Não
foi o que vem de dentro, e sim o que bate, não se anuncia, e força, abre, e entra. Não foi o pacífico, o sem tumulto,
foi até mesmo a guerra, ou melhor o combate, a escaramuça, perdidos de mãos nuas, limpas, as armas brancas. Não
foi o amor, a certeza, o amanhã, foram as palavras que representam, a idéia de , o conceito, enfim, a sua redução.
Não foi pouco nem muito, foi igual. Não foi sempre, nem faltou, foi mais às vezes. Não foi o que, foi como, e onde, e
quando. Não, não foi.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
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UMA VELA PARA DARIO
Dalton Trevisan
Dario vinha apressado, guarda-chuva no braço esquerdo e, assim que dobrou a esquina, diminuiu o passo até parar,
encostando-se à parede de uma casa. Por ela escorregando, sentou-se na calçada, ainda úmida de chuva, e
descansou na pedra o cachimbo.
Dois ou três passantes rodearam-no e indagaram se não se sentia bem. Dario abriu a boca, moveu os lábios, não se
ouviu resposta. O senhor gordo, de branco, sugeriu que devia sofrer de ataque.
Ele reclinou-se mais um pouco, estendido agora na calçada, e o cachimbo tinha apagado. O rapaz de bigode pediu aos
outros que se afastassem e o deixassem respirar. Abriu-lhe o paletó, o colarinho, a gravata e a cinta. Quando lhe
retiraram os sapatos, Dario roncou feio e bolhas de espuma surgiram no canto da boca.
Cada pessoa que chegava erguia-se na ponta dos pés, embora não o pudesse ver. Os moradores da rua conversavam
de uma porta à outra, as crianças foram despertadas e de pijama acudiram à janela. O senhor gordo repetia que Dario
sentara-se na calçada, soprando ainda a fumaça do cachimbo e encostando o guarda-chuva na parede. Mas não se via
guarda-chuva ou cachimbo ao seu lado.
A velhinha de cabeça grisalha gritou que ele estava morrendo. Um grupo o arrastou para o táxi da esquina. Já no
carro a metade do corpo, protestou o motorista: quem pagaria a corrida? Concordaram chamar a ambulância. Dario
conduzido de volta e recostado á parede - não tinha os sapatos nem o alfinete de pérola na gravata.
Alguém informou da farmácia na outra rua. Não carregaram Dario além da esquina; a farmácia no fim do quarteirão e,
além do mais, muito pesado. Foi largado na porta de uma peixaria. Enxame de moscas lhe cobriu o rosto, sem que
fizesse um gesto para espantá-las.
Ocupado o café próximo pelas pessoas que vieram apreciar o incidente e, agora, comendo e bebendo, gozavam as
delicias da noite. Dario ficou torto como o deixaram, no degrau da peixaria, sem o relógio de pulso.
Um terceiro sugeriu que lhe examinassem os papéis, retirados - com vários objetos - de seus bolsos e alinhados sobre
a camisa branca. Ficaram sabendo do nome, idade; sinal de nascença. O endereço na carteira era de outra cidade.
Registrou-se correria de mais de duzentos curiosos que, a essa hora, ocupavam toda a rua e as calçadas: era a
polícia. O carro negro investiu a multidão. Várias pessoas tropeçaram no corpo de Dario, que foi pisoteado dezessete
vezes.
O guarda aproximou-se do cadáver e não pôde identificá-lo — os bolsos vazios. Restava a aliança de ouro na mão
esquerda, que ele próprio quando vivo - só podia destacar umedecida com sabonete. Ficou decidido que o caso era
com o rabecão.
A última boca repetiu — Ele morreu, ele morreu. A gente começou a se dispersar. Dario levara duas horas para
morrer, ninguém acreditou que estivesse no fim. Agora, aos que podiam vê-lo, tinha todo o ar de um defunto.
Um senhor piedoso despiu o paletó de Dario para lhe sustentar a cabeça. Cruzou as suas mãos no peito. Não pôde
fechar os olhos nem a boca, onde a espuma tinha desaparecido. Apenas um homem morto e a multidão se espalhou,
as mesas do café ficaram vazias. Na janela alguns moradores com almofadas para descansar os cotovelos.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Um menino de cor e descalço veio com uma vela, que acendeu ao lado do cadáver. Parecia morto há muitos anos,
quase o retrato de um morto desbotado pela chuva.
Fecharam-se uma a uma as janelas e, três horas depois, lá estava Dario à espera do rabecão. A cabeça agora na
pedra, sem o paletó, e o dedo sem a aliança. A vela tinha queimado até a metade e apagou-se às primeiras gotas da
chuva, que voltava a cair.
Texto extraído do livro "Vinte Contos Menores", Editora Record – Rio de Janeiro, 1979, pág. 20.
Este texto faz parte dos 100 melhores contos brasileiros do século, seleção de Ítalo Moriconi para a Editora Objetiva.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
AMOR
Clarice Lispector
Um pouco cansada, com as compras deformando o novo saco de tricô, Ana subiu no bonde. Depositou o volume no
colo e o bonde começou a andar. Recostou-se então no banco procurando conforto, num suspiro de meia satisfação.
Os filhos de Ana eram bons, uma coisa verdadeira e sumarenta. Cresciam, tomavam banho, exigiam para si,
malcriados, instantes cada vez mais completos. A cozinha era enfim espaçosa, o fogão enguiçado dava estouros. O
calor era forte no apartamento que estavam aos poucos pagando. Mas o vento batendo nas cortinas que ela mesma
cortara lembrava-lhe que se quisesse podia parar e enxugar a testa, olhando o calmo horizonte. Como um lavrador.
Ela plantara as sementes que tinha na mão, não outras, mas essas apenas. E cresciam árvores. Crescia sua rápida
conversa com o cobrador de luz, crescia a água enchendo o tanque, cresciam seus filhos, crescia a mesa com
comidas, o marido chegando com os jornais e sorrindo de fome, o canto importuno das empregadas do edifício. Ana
dava a tudo, tranqüilamente, sua mão pequena e forte, sua corrente de vida.
Certa hora da tarde era mais perigosa. Certa hora da tarde as árvores que plantara riam dela. Quando nada mais
precisava de sua força, inquietava-se. No entanto sentia-se mais sólida do que nunca, seu corpo engrossara um pouco
e era de se ver o modo como cortava blusas para os meninos, a grande tesoura dando estalidos na fazenda. Todo o
seu desejo vagamente artístico encaminhara-se há muito no sentido de tornar os dias realizados e belos; com o
tempo, seu gosto pelo decorativo se desenvolvera e suplantara a íntima desordem. Parecia ter descoberto que tudo
era passível de aperfeiçoamento, a cada coisa se emprestaria uma aparência harmoniosa; a vida podia ser feita pela
mão do homem.
No fundo, Ana sempre tivera necessidade de sentir a raiz firme das coisas. E isso um lar perplexamente lhe dera. Por
caminhos tortos, viera a cair num destino de mulher, com a surpresa de nele caber como se o tivesse inventado. O
homem com quem casara era um homem verdadeiro, os filhos que tivera eram filhos verdadeiros. Sua juventude
anterior parecia-lhe estranha como uma doença de vida. Dela havia aos poucos emergido para descobrir que também
sem a felicidade se vivia: abolindo-a, encontrara uma legião de pessoas, antes invisíveis, que viviam como quem
trabalha — com persistência, continuidade, alegria. O que sucedera a Ana antes de ter o lar estava para sempre fora
de seu alcance: uma exaltação perturbada que tantas vezes se confundira com felicidade insuportável. Criara em troca
algo enfim compreensível, uma vida de adulto. Assim ela o quisera e o escolhera.
Sua precaução reduzia-se a tomar cuidado na hora perigosa da tarde, quando a casa estava vazia sem precisar mais
dela, o sol alto, cada membro da família distribuído nas suas funções. Olhando os móveis limpos, seu coração se
apertava um pouco em espanto. Mas na sua vida não havia lugar para que sentisse ternura pelo seu espanto — ela o
abafava com a mesma habilidade que as lides em casa lhe haviam transmitido. Saía então para fazer compras ou
levar objetos para consertar, cuidando do lar e da família à revelia deles. Quando voltasse era o fim da tarde e as
crianças vindas do colégio exigiam-na. Assim chegaria a noite, com sua tranqüila vibração. De manhã acordaria
aureolada pelos calmos deveres. Encontrava os móveis de novo empoeirados e sujos, como se voltassem
arrependidos. Quanto a ela mesma, fazia obscuramente parte das raízes negras e suaves do mundo. E alimentava
anonimamente a vida. Estava bom assim. Assim ela o quisera e escolhera.
O bonde vacilava nos trilhos, entrava em ruas largas. Logo um vento mais úmido soprava anunciando, mais que o
fim da tarde, o fim da hora instável. Ana respirou profundamente e uma grande aceitação deu a seu rosto um ar de
mulher.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
O bonde se arrastava, em seguida estacava. Até Humaitá tinha tempo de descansar. Foi então que olhou para o
homem parado no ponto.
A diferença entre ele e os outros é que ele estava realmente parado. De pé, suas mãos se mantinham avançadas.
Era um cego.
O que havia mais que fizesse Ana se aprumar em desconfiança? Alguma coisa intranqüila estava sucedendo. Então
ela viu: o cego mascava chicles... Um homem cego mascava chicles.
Ana ainda teve tempo de pensar por um segundo que os irmãos viriam jantar — o coração batia-lhe violento,
espaçado. Inclinada, olhava o cego profundamente, como se olha o que não nos vê. Ele mascava goma na escuridão.
Sem sofrimento, com os olhos abertos. O movimento da mastigação fazia-o parecer sorrir e de repente deixar de
sorrir, sorrir e deixar de sorrir — como se ele a tivesse insultado, Ana olhava-o. E quem a visse teria a impressão de
uma mulher com ódio. Mas continuava a olhá-lo, cada vez mais inclinada — o bonde deu uma arrancada súbita
jogando-a desprevenida para trás, o pesado saco de tricô despencou-se do colo, ruiu no chão — Ana deu um grito, o
condutor deu ordem de parada antes de saber do que se tratava — o bonde estacou, os passageiros olharam
assustados.
Incapaz de se mover para apanhar suas compras, Ana se aprumava pálida. Uma expressão de rosto, há muito não
usada, ressurgia-lhe com dificuldade, ainda incerta, incompreensível. O moleque dos jornais ria entregando-lhe o
volume. Mas os ovos se haviam quebrado no embrulho de jornal. Gemas amarelas e viscosas pingavam entre os fios
da rede. O cego interrompera a mastigação e avançava as mãos inseguras, tentando inutilmente pegar o que
acontecia. O embrulho dos ovos foi jogado fora da rede e, entre os sorrisos dos passageiros e o sinal do condutor, o
bonde deu a nova arrancada de partida.
Poucos instantes depois já não a olhavam mais. O bonde se sacudia nos trilhos e o cego mascando goma ficara atrás
para sempre. Mas o mal estava feito.
A rede de tricô era áspera entre os dedos, não íntima como quando a tricotara. A rede perdera o sentido e estar num
bonde era um fio partido; não sabia o que fazer com as compras no colo. E como uma estranha música, o mundo
recomeçava ao redor. O mal estava feito. Por quê? Teria esquecido de que havia cegos? A piedade a sufocava, Ana
respirava pesadamente. Mesmo as coisas que existiam antes do acontecimento estavam agora de sobreaviso, tinham
um ar mais hostil, perecível... O mundo se tornara de novo um mal-estar. Vários anos ruíam, as gemas amarelas
escorriam. Expulsa de seus próprios dias, parecia-lhe que as pessoas da rua eram periclitantes, que se mantinham por
um mínimo equilíbrio à tona da escuridão — e por um momento a falta de sentido deixava-as tão livres que elas não
sabiam para onde ir. Perceber uma ausência de lei foi tão súbito que Ana se agarrou ao banco da frente, como se
pudesse cair do bonde, como se as coisas pudessem ser revertidas com a mesma calma com que não o eram.
O que chamava de crise viera afinal. E sua marca era o prazer intenso com que olhava agora as coisas, sofrendo
espantada. O calor se tornara mais abafado, tudo tinha ganho uma força e vozes mais altas. Na Rua Voluntários da
Pátria parecia prestes a rebentar uma revolução, as grades dos esgotos estavam secas, o ar empoeirado. Um cego
mascando chicles mergulhara o mundo em escura sofreguidão. Em cada pessoa forte havia a ausência de piedade pelo
cego e as pessoas assustavam-na com o vigor que possuíam. Junto dela havia uma senhora de azul, com um rosto.
Desviou o olhar, depressa. Na calçada, uma mulher deu um empurrão no filho! Dois namorados entrelaçavam os
dedos sorrindo... E o cego? Ana caíra numa bondade extremamente dolorosa.
Ela apaziguara tão bem a vida, cuidara tanto para que esta não explodisse. Mantinha tudo em serena compreensão,
separava uma pessoa das outras, as roupas eram claramente feitas para serem usadas e podia-se escolher pelo jornal
o filme da noite - tudo feito de modo a que um dia se seguisse ao outro. E um cego mascando goma despedaçava
tudo isso. E através da piedade aparecia a Ana uma vida cheia de náusea doce, até a boca.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Só então percebeu que há muito passara do seu ponto de descida. Na fraqueza em que estava, tudo a atingia com
um susto; desceu do bonde com pernas débeis, olhou em torno de si, segurando a rede suja de ovo. Por um momento
não conseguia orientar-se. Parecia ter saltado no meio da noite.
Era uma rua comprida, com muros altos, amarelos. Seu coração batia de medo, ela procurava inutilmente
reconhecer os arredores, enquanto a vida que descobrira continuava a pulsar e um vento mais morno e mais
misterioso rodeava-lhe o rosto. Ficou parada olhando o muro. Enfim pôde localizar-se. Andando um pouco mais ao
longo de uma sebe, atravessou os portões do Jardim Botânico.
Andava pesadamente pela alameda central, entre os coqueiros. Não havia ninguém no Jardim. Depositou os
embrulhos na terra, sentou-se no banco de um atalho e ali ficou muito tempo.
A vastidão parecia acalmá-la, o silêncio regulava sua respiração. Ela adormecia dentro de si.
De longe via a aléia onde a tarde era clara e redonda. Mas a penumbra dos ramos cobria o atalho.
Ao seu redor havia ruídos serenos, cheiro de árvores, pequenas surpresas entre os cipós. Todo o Jardim triturado
pelos instantes já mais apressados da tarde. De onde vinha o meio sonho pelo qual estava rodeada? Como por um
zunido de abelhas e aves. Tudo era estranho, suave demais, grande demais.
Um movimento leve e íntimo a sobressaltou — voltou-se rápida. Nada parecia se ter movido. Mas na aléia central
estava imóvel um poderoso gato. Seus pêlos eram macios. Em novo andar silencioso, desapareceu.
Inquieta, olhou em torno. Os ramos se balançavam, as sombras vacilavam no chão. Um pardal ciscava na terra. E de
repente, com mal-estar, pareceu-lhe ter caído numa emboscada. Fazia-se no Jardim um trabalho secreto do qual ela
começava a se aperceber.
Nas árvores as frutas eram pretas, doces como mel. Havia no chão caroços secos cheios de circunvoluções, como
pequenos cérebros apodrecidos. O banco estava manchado de sucos roxos. Com suavidade intensa rumorejavam as
águas. No tronco da árvore pregavam-se as luxuosas patas de uma aranha. A crueza do mundo era tranqüila. O
assassinato era profundo. E a morte não era o que pensávamos.
Ao mesmo tempo que imaginário — era um mundo de se comer com os dentes, um mundo de volumosas dálias e
tulipas. Os troncos eram percorridos por parasitas folhudas, o abraço era macio, colado. Como a repulsa que
precedesse uma entrega — era fascinante, a mulher tinha nojo, e era fascinante.
As árvores estavam carregadas, o mundo era tão rico que apodrecia. Quando Ana pensou que havia crianças e
homens grandes com fome, a náusea subiu-lhe à garganta, como se ela estivesse grávida e abandonada. A moral do
Jardim era outra. Agora que o cego a guiara até ele, estremecia nos primeiros passos de um mundo faiscante,
sombrio, onde vitórias-régias boiavam monstruosas. As pequenas flores espalhadas na relva não lhe pareciam
amarelas ou rosadas, mas cor de mau ouro e escarlates. A decomposição era profunda, perfumada... Mas todas as
pesadas coisas, ela via com a cabeça rodeada por um enxame de insetos enviados pela vida mais fina do mundo. A
brisa se insinuava entre as flores. Ana mais adivinhava que sentia o seu cheiro adocicado... O Jardim era tão bonito
que ela teve medo do Inferno.
Era quase noite agora e tudo parecia cheio, pesado, um esquilo voou na sombra. Sob os pés a terra estava fofa, Ana
aspirava-a com delícia. Era fascinante, e ela sentia nojo.
Mas quando se lembrou das crianças, diante das quais se tornara culpada, ergueu-se com uma exclamação de dor.
Agarrou o embrulho, avançou pelo atalho obscuro, atingiu a alameda. Quase corria — e via o Jardim em torno de si,
com sua impersonalidade soberba. Sacudiu os portões fechados, sacudia-os segurando a madeira áspera. O vigia
apareceu espantado de não a ter visto.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Enquanto não chegou à porta do edifício, parecia à beira de um desastre. Correu com a rede até o elevador, sua
alma batia-lhe no peito — o que sucedia? A piedade pelo cego era tão violenta como uma ânsia, mas o mundo lhe
parecia seu, sujo, perecível, seu. Abriu a porta de casa. A sala era grande, quadrada, as maçanetas brilhavam limpas,
os vidros da janela brilhavam, a lâmpada brilhava — que nova terra era essa? E por um instante a vida sadia que
levara até agora pareceu-lhe um modo moralmente louco de viver. O menino que se aproximou correndo era um ser
de pernas compridas e rosto igual ao seu, que corria e a abraçava. Apertou-o com força, com espanto. Protegia-se
tremula. Porque a vida era periclitante. Ela amava o mundo, amava o que fora criado — amava com nojo. Do mesmo
modo como sempre fora fascinada pelas ostras, com aquele vago sentimento de asco que a aproximação da verdade
lhe provocava, avisando-a. Abraçou o filho, quase a ponto de machucá-lo. Como se soubesse de um mal — o cego ou
o belo Jardim Botânico? — agarrava-se a ele, a quem queria acima de tudo. Fora atingida pelo demônio da fé. A vida é
horrível, disse-lhe baixo, faminta. O que faria se seguisse o chamado do cego? Iria sozinha... Havia lugares pobres e
ricos que precisavam dela. Ela precisava deles... Tenho medo, disse. Sentia as costelas delicadas da criança entre os
braços, ouviu o seu choro assustado. Mamãe, chamou o menino. Afastou-o, olhou aquele rosto, seu coração crispouse. Não deixe mamãe te esquecer, disse-lhe. A criança mal sentiu o abraço se afrouxar, escapou e correu até a porta
do quarto, de onde olhou-a mais segura. Era o pior olhar que jamais recebera. Q sangue subiu-lhe ao rosto,
esquentando-o.
Deixou-se cair numa cadeira com os dedos ainda presos na rede. De que tinha vergonha?
Não havia como fugir. Os dias que ela forjara haviam-se rompido na crosta e a água escapava. Estava diante da
ostra. E não havia como não olhá-la. De que tinha vergonha? É que já não era mais piedade, não era só piedade: seu
coração se enchera com a pior vontade de viver.
Já não sabia se estava do lado do cego ou das espessas plantas. O homem pouco a pouco se distanciara e em
tortura ela parecia ter passado para o lados que lhe haviam ferido os olhos. O Jardim Botânico, tranqüilo e alto, lhe
revelava. Com horror descobria que pertencia à parte forte do mundo — e que nome se deveria dar a sua misericórdia
violenta? Seria obrigada a beijar um leproso, pois nunca seria apenas sua irmã. Um cego me levou ao pior de mim
mesma, pensou espantada. Sentia-se banida porque nenhum pobre beberia água nas suas mãos ardentes. Ah! era
mais fácil ser um santo que uma pessoa! Por Deus, pois não fora verdadeira a piedade que sondara no seu coração as
águas mais profundas? Mas era uma piedade de leão.
Humilhada, sabia que o cego preferiria um amor mais pobre. E, estremecendo, também sabia por quê. A vida do
Jardim Botânico chamava-a como um lobisomem é chamado pelo luar. Oh! mas ela amava o cego! pensou com os
olhos molhados. No entanto não era com este sentimento que se iria a uma igreja. Estou com medo, disse sozinha na
sala. Levantou-se e foi para a cozinha ajudar a empregada a preparar o jantar.
Mas a vida arrepiava-a, como um frio. Ouvia o sino da escola, longe e constante. O pequeno horror da poeira ligando
em fios a parte inferior do fogão, onde descobriu a pequena aranha. Carregando a jarra para mudar a água - havia o
horror da flor se entregando lânguida e asquerosa às suas mãos. O mesmo trabalho secreto se fazia ali na cozinha.
Perto da lata de lixo, esmagou com o pé a formiga. O pequeno assassinato da formiga. O mínimo corpo tremia. As
gotas d'água caíam na água parada do tanque. Os besouros de verão. O horror dos besouros inexpressivos. Ao redor
havia uma vida silenciosa, lenta, insistente. Horror, horror. Andava de um lado para outro na cozinha, cortando os
bifes, mexendo o creme. Em torno da cabeça, em ronda, em torno da luz, os mosquitos de uma noite cálida. Uma
noite em que a piedade era tão crua como o amor ruim. Entre os dois seios escorria o suor. A fé a quebrantava, o
calor do forno ardia nos seus olhos.
Depois o marido veio, vieram os irmãos e suas mulheres, vieram os filhos dos irmãos.
Jantaram com as janelas todas abertas, no nono andar. Um avião estremecia, ameaçando no calor do céu. Apesar de
ter usado poucos ovos, o jantar estava bom. Também suas crianças ficaram acordadas, brincando no tapete com as
outras. Era verão, seria inútil obrigá-las a dormir. Ana estava um pouco pálida e ria suavemente com os outros.
Depois do jantar, enfim, a primeira brisa mais fresca entrou pelas janelas. Eles rodeavam a mesa, a família. Cansados
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do dia, felizes em não discordar, tão dispostos a não ver defeitos. Riam-se de tudo, com o coração bom e humano. As
crianças cresciam admiravelmente em torno deles. E como a uma borboleta, Ana prendeu o instante entre os dedos
antes que ele nunca mais fosse seu.
Depois, quando todos foram embora e as crianças já estavam deitadas, ela era uma mulher bruta que olhava pela
janela. A cidade estava adormecida e quente. O que o cego desencadeara caberia nos seus dias? Quantos anos levaria
até envelhecer de novo? Qualquer movimento seu e pisaria numa das crianças. Mas com uma maldade de amante,
parecia aceitar que da flor saísse o mosquito, que as vitórias-régias boiassem no escuro do lago. O cego pendia entre
os frutos do Jardim Botânico.
Se fora um estouro do fogão, o fogo já teria pegado em toda a casa! pensou correndo para a cozinha e deparando
com o seu marido diante do café derramado.
— O que foi?! gritou vibrando toda.
Ele se assustou com o medo da mulher. E de repente riu entendendo:
— Não foi nada, disse, sou um desajeitado. Ele parecia cansado, com olheiras.
Mas diante do estranho rosto de Ana, espiou-a com maior atenção. Depois atraiu-a a si, em rápido afago.
— Não quero que lhe aconteça nada, nunca! disse ela.
— Deixe que pelo menos me aconteça o fogão dar um estouro, respondeu ele sorrindo.
Ela continuou sem força nos seus braços. Hoje de tarde alguma coisa tranqüila se rebentara, e na casa toda havia um
tom humorístico, triste. É hora de dormir, disse ele, é tarde. Num gesto que não era seu, mas que pareceu natural,
segurou a mão da mulher, levando-a consigo sem olhar para trás, afastando-a do perigo de viver.
Acabara-se a vertigem de bondade.
E, se atravessara o amor e o seu inferno, penteava-se agora diante do espelho, por um instante sem nenhum mundo
no coração. Antes de se deitar, como se apagasse uma vela, soprou a pequena flama do dia.
Texto extraído no livro ―Laços de Família‖, Editora Rocco – Rio de Janeiro, 1998, pág. 19, incluído entre ―Os cem
melhores contos brasileiros do século‖, Editora Objetiva – Rio de Janeiro, 2000, seleção de Ítalo Moriconi.
Clarice Lispector: tudo sobre a autora e sua obra em "Biografias".
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
OS LAÇOS DE FAMÍLIA
Clarice Lispector
A mulher e a mãe acomodaram-se finalmente no táxi que as levaria à Estação. A mãe contava e recontava as duas
malas tentando convencer-se de que ambas estavam no carro. A filha, com seus olhos escuros, a que um ligeiro
estrabismo dava um contínuo brilho de zombaria e frieza assistia.
— Não esqueci de nada? perguntava pela terceira vez a mãe.
— Não, não, não esqueceu de nada, respondia a filha divertida, com paciência.
Ainda estava sob a impressão da cena meio cômica entre sua mãe e seu marido, na hora da despedida. Durante as
duas semanas da visita da velha, os dois mal se haviam suportado; os bons-dias e as boas-tardes soavam a cada
momento com uma delicadeza cautelosa que a fazia querer rir. Mas eis que na hora da despedida, antes de entrarem
no táxi, a mãe se transformara em sogra exemplar e o marido se tornara o bom genro. "Perdoe alguma palavra mal
dita", dissera a velha senhora, e Catarina, com alguma alegria, vira Antônio não saber o que fazer das malas nas
mãos, a gaguejar - perturbado em ser o bom genro. "Se eu rio, eles pensam que estou louca", pensara Catarina
franzindo as sobrancelhas. "Quem casa um filho perde um filho, quem casa uma filha ganha mais um", acrescentara a
mãe, e Antônio aproveitara sua gripe para tossir. Catarina, de pé, observava com malícia o marido, cuja segurança se
desvanecera para dar lugar a um homem moreno e miúdo, forçado a ser filho daquela mulherzinha grisalha... Foi
então que a vontade de rir tornou-se mais forte. Felizmente nunca precisava rir de fato quando tinha vontade de rir:
seus olhos tomavam uma expressão esperta e contida, tornavam-se mais estrábicos - e o riso saía pelos olhos.
Sempre doía um pouco ser capaz de rir. Mas nada podia fazer contra: desde pequena rira pelos olhos, desde sempre
fora estrábica.
— Continuo a dizer que o menino está magro, disse a mãe resistindo aos solavancos do carro. E apesar de Antônio
não estar presente, ela usava o mesmo tom de desafio e acusação que empregava diante dele. Tanto que uma noite
Antônio se agitara: não é por culpa minha, Severina! Ele chamava a sogra de Severina, pois antes do casamento
projetava serem sogra e genro modernos. Logo à primeira visita da mãe ao casal, a palavra Severina tornara-se difícil
na boca do marido, e agora, então, o fato de chamá-la pelo nome não impedira que... - Catarina olhava-os e ria.
— O menino sempre foi magro, mamãe, respondeu-lhe. O táxi avançava monótono.
— Magro e nervoso, acrescentou a senhora com decisão.
— Magro e nervoso, assentiu Catarina paciente. Era um menino nervoso, distraído. Durante a visita da avó tornara-se
ainda mais distante, dormira mal, perturbado pelos carinhos excessivos e pelos beliscões de amor da velha. Antônio,
que nunca se preocupara especialmente com a sensibilidade do filho, passara a dar indiretas à sogra, "a proteger uma
criança‖ ...
— Não esqueci de nada..., recomeçou a mãe, quando uma freada súbita do carro lançou-as uma contra a outra e fez
despencarem as malas. — Ah! ah! - exclamou a mãe como a um desastre irremediável, ah! dizia balançando a cabeça
em surpresa, de repente envelhecida e pobre. E Catarina?
Catarina olhava a mãe, e a mãe olhava a filha, e também a Catarina acontecera um desastre? seus olhos piscaram
surpreendidos, ela ajeitava depressa as malas, a bolsa, procurando o mais rapidamente possível remediar a
catástrofe. Porque de fato sucedera alguma coisa, seria inútil esconder: Catarina fora lançada contra Severina, numa
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Contos escolhidos
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intimidade de corpo há muito esquecida, vinda do tempo em que se tem pai e mãe. Apesar de que nunca se haviam
realmente abraçado ou beijado. Do pai, sim. Catarina sempre fora mais amiga. Quando a mãe enchia-lhes os pratos
obrigando-os a comer demais, os dois se olhavam piscando em cumplicidade e a mãe nem notava. Mas depois do
choque no táxi e depois de se ajeitarem, não tinham o que falar - por que não chegavam logo à Estação?
— Não esqueci de nada, perguntou a mãe com voz resignada.
Catarina não queria mais fitá-la nem responder-lhe.
— Tome suas luvas! disse-lhe, recolhendo-as do chão.
— Ah! ah! minhas luvas! exclamava a mãe perplexa. Só se espiaram realmente quando as malas foram dispostas no
trem, depois de trocados os beijos: a cabeça da mãe apareceu na janela.
Catarina viu então que sua mãe estava envelhecida e tinha os olhos brilhantes.
O trem não partia e ambas esperavam sem ter o que dizer. A mãe tirou o espelho da bolsa e examinou-se no seu
chapéu novo, comprado no mesmo chapeleiro da filha. Olhava-se compondo um ar excessivamente severo onde não
faltava alguma admiração por si mesma. A filha observava divertida. Ninguém mais pode te amar senão eu, pensou a
mulher rindo pelos olhos; e o peso da responsabilidade deu-lhe à boca um gosto de sangue. Como se "mãe e filha"
fosse vida e repugnância. Não, não se podia dizer que amava sua mãe. Sua mãe lhe doía, era isso. A velha guardara o
espelho na bolsa, e fitava-a sorrindo. O rosto usado e ainda bem esperto parecia esforçar-se por dar aos outros
alguma impressão, da qual o chapéu faria parte. A campainha da Estação tocou de súbito, houve um movimento geral
de ansiedade, várias pessoas correram pensando que o trem já partia: mamãe! disse a mulher. Catarina! disse a
velha. Ambas se olhavam espantadas, a mala na cabeça de um carregador interrompeu-lhes a visão e um rapaz
correndo segurou de passagem o braço de Catarina, deslocando-lhe a gola do vestido. Quando puderam ver-se de
novo, Catarina estava sob a iminência de lhe perguntar se não esquecera de nada...
— ...não esqueci de nada? perguntou a mãe.
— Também a Catarina parecia que haviam esquecido de alguma coisa, e ambas se olhavam atônitas - porque se
realmente haviam esquecido, agora era tarde demais. Uma mulher arrastava uma criança, a criança chorava,
novamente a campainha da Estação soou... Mamãe, disse a mulher. Que coisa tinham esquecido de dizer uma a
outra? e agora era tarde demais. Parecia-lhe que deveriam um dia ter dito assim: sou tua mãe, Catarina. E ela
deveria ter respondido: e eu sou tua filha.
— Não vá pegar corrente de ar! gritou Catarina.
— Ora menina, sou lá criança, disse a mãe sem deixar porém de se preocupar com a própria aparência. A mão
sardenta, um pouco trêmula, arranjava com delicadeza a aba do chapéu e Catarina teve subitamente vontade de lhe
perguntar se fora feliz com seu pai:
— Dê lembranças a titia! gritou.
— Sim, sim!
— Mamãe, disse Catarina porque um longo apito se ouvira e no meio da fumaça as rodas já se moviam.
— Catarina! disse a velha de boca aberta e olhos espantados, e ao primeiro solavanco a filha viu-a levar as mãos ao
chapéu: este caíra-lhe até o nariz, deixando aparecer apenas a nova dentadura. O trem já andava e Catarina acenava.
O rosto da mãe desapareceu um instante e reapareceu já sem o chapéu, o coque dos cabelos desmanchado caindo em
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Acredite no seu sonho, invista em você!
mechas brancas sobre os ombros como as de uma donzela - o rosto estava inclinado sem sorrir, talvez mesmo sem
enxergar mais a filha distante.
No meio da fumaça Catarina começou a caminhar de volta, as sobrancelhas franzidas, e nos olhos a malícia dos
estrábicos. Sem a companhia da mãe, recuperara o modo firme de caminhar: sozinha era mais fácil. Alguns homens a
olhavam, ela era doce, um pouco pesada de corpo. Caminhava serena, moderna nos trajes, os cabelos curtos pintados
de acaju. E de tal modo haviam-se disposto as coisas que o amor doloroso lhe pareceu a felicidade - tudo estava tão
vivo e tenro ao redor, a rua suja, os velhos bondes, cascas de laranja - a força fluia e refluia no seu coração com
pesada riqueza. Estava muito bonita neste momento, tão elegante; integrada na sua época e na cidade onde nascera
como se a tivesse escolhido. Nos olhos vesgos qualquer pessoa adivinharia o gosto que essa mulher tinha pelas coisas
do mundo. Espiava as pessoas com insistência, procurando fixar naquelas figuras mutáveis seu prazer ainda úmido de
lágrimas pela mãe. Desviou-se dos carros, conseguiu aproximar-se do ônibus burlando a fila, espiando com ironia;
nada impediria que essa pequena mulher que andava rolando os quadris subisse mais um degrau misterioso nos seus
dias.
O elevador zumbia no calor da praia. Abriu a porta do apartamento enquanto se libertava do chapeuzinho com a outra
mão; parecia disposta a usufruir da largueza do mundo inteiro, caminho aberto pela sua mãe que lhe ardia no peito.
Antônio mal levantou os olhos do livro. A tarde de sábado sempre fora "sua", e, logo depois da partida de Severina,
ele a retomava com prazer, junto à escrivaninha.
— "Ela" foi?
— Foi sim, respondeu Catarina empurrando a porta do quarto de seu filho. Ah, sim, lá estava o menino, pensou com
alívio súbito. Seu filho. Magro e nervoso. Desde que se pusera de pé caminhara firme; mas quase aos quatro anos
falava como se desconhecesse verbos: constatava as coisas com frieza, não as ligando entre si. Lá estava ele
mexendo na toalha molhada, exato e distante. A mulher sentia um calor bom e gostaria de prender o menino para
sempre a este momento; puxou-lhe a toalha das mãos em censura: este menino! Mas o menino olhava indiferente
para o ar, comunicando-se consigo mesmo. Estava sempre distraído. Ninguém conseguira ainda chamar-lhe
verdadeiramente a atenção. A mãe sacudia a toalha no ar e impedia com sua forma a visão do quarto: mamãe, disse
o menino. Catarina voltou-se rápida. Era a primeira vez que ele dizia "mamãe" nesse tom e sem pedir nada. Fora mais
que uma constatação: mamãe! A mulher continuou a sacudir a toalha com violência e perguntou-se a quem poderia
contar o que sucedera, mas não encontrou ninguém que entendesse o que ela não pudesse explicar. Desamarrotou a
toalha com vigor antes de pendurá-la para secar. Talvez pudesse contar, se mudasse a forma. Contaria que o filho
dissera: mamãe, quem é Deus. Não, talvez: mamãe, menino quer Deus. Talvez. Só em símbolos a verdade caberia,
só em símbolos é que a receberiam. Com os olhos sorrindo de sua mentira necessária, e sobretudo da própria tolice,
fugindo de Severina, a mulher inesperadamente riu de fato para o menino, não só com os olhos: o corpo todo riu
quebrado, quebrado um invólucro, e uma aspereza aparecendo como uma rouquidão. Feia, disse então o menino
examinando-a.
— Vamos passear! respondeu corando e pegando-o pela mão.
Passou pela sala, sem parar avisou ao marido: vamos sair! e bateu a porta do apartamento.
Antônio mal teve tempo de levantar os olhos do livro - e com surpresa espiava a sala já vazia. Catarina! chamou, mas
já se ouvia o ruído do elevador descendo. Aonde foram? perguntou-se inquieto, tossindo e assoando o nariz. Porque
sábado era seu, mas ele queria que sua mulher e seu filho estivessem em casa enquanto ele tomava o seu sábado.
Catarina! chamou aborrecido embora soubesse que ela não poderia mais ouvi-lo. Levantou-se, foi à janela e um
segundo depois enxergou sua mulher e seu filho na calçada.
Os dois haviam parado, a mulher talvez decidindo o caminho a tomar. E de súbito pondo-se em marcha.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Por que andava ela tão forte, segurando a mão da criança? pela janela via sua mulher prendendo com força a mão da
criança e caminhando depressa, com os olhos fixos adiante; e, mesmo sem ver, o homem adivinhava sua boca
endurecida. A criança, não se sabia por que obscura compreensão, também olhava fixo para a frente, surpreendida e
ingênua. Vistas de cima as duas figuras perdiam a perspectiva familiar, pareciam achatadas ao solo e mais escuras à
luz do mar. Os cabelos da criança voavam...
O marido repetiu-se a pergunta que, mesmo sob a sua inocência de frase cotidiana, inquietou-o: aonde vão? Via
preocupado que sua mulher guiava a criança e temia que neste momento em que ambos estavam fora de seu alcance
ela transmitisse a seu filho... mas o quê? "Catarina", pensou, "Catarina, esta criança ainda é inocente!" Em que
momento é que a mãe, apertando uma criança, dava-lhe esta prisão de amor que se abateria para sempre sobre o
futuro homem. Mais tarde seu filho, já homem, sozinho, estaria de pé diante desta mesma janela, batendo dedos
nesta vidraça; preso. Obrigado a responder a um morto. Quem saberia jamais em que momento a mãe transferia ao
filho a herança. E com que sombrio prazer. Agora mãe e filho compreendendo-se dentro do mistério partilhado.
Depois ninguém saberia de que negras raízes se alimenta a liberdade de um homem. "Catarina", pensou com cólera,
"a criança é inocente!" Tinham porém desaparecido pela praia. O mistério partilhado.
"Mas e eu? e eu?" perguntou assustado. Os dois tinham ido embora sozinhos. E ele ficara. "Com o seu sábado." E sua
gripe. No apartamento arrumado, onde "tudo corria bem". Quem sabe se sua mulher estava fugindo com o filho da
sala de luz bem regulada, dos móveis bem escolhidos, das cortinas e dos quadros? fora isso o que ele lhe dera.
Apartamento de um engenheiro. E sabia que se a mulher aproveitava da situação de um marido moço e cheio de
futuro - deprezava-a também, com aqueles olhos sonsos, fugindo com seu filho nervoso e magro. O homem
inquietou-se. Porque não poderia continuar a lhe dar senão: mais sucesso. E porque sabia que ela o ajudaria a
consegui-lo e odiaria o que conseguissem. Assim era aquela calma mulher de trinta e dois anos que nunca falava
propriamente, como se tivesse vivido sempre. As relações entre ambos eram tão tranqüilas. Às vezes ele procurava
humilhá-la, entrava no quarto enquanto ela mudava de roupa porque sabia que ela detestava ser vista nua. Por que
precisava humilhá-la? no entanto ele bem sabia que ela só seria de um homem enquanto fosse orgulhosa. Mas tinha
se habituado a torna-la feminina deste modo: humilhava-a com ternura, e já agora ela sorria - sem rancor? Talvez de
tudo isso tivessem nascido suas relações pacíficas, e aquelas conversas em voz tranqüila que faziam a atmosfera do
lar para a criança. Ou esta se irritava às vezes? Às vezes o menino se irritava, batia os pés, gritava sob pesadelos. De
onde nascera esta criaturinha vibrante, senão do que sua mulher e ele haviam cortado da vida diária. Viviam tão
tranqüilos que, se se aproximava um momento de alegria, eles se olhavam rapidamente, quase irônicos, e os olhos de
ambos diziam: não vamos gastá-lo, não vamos ridiculamente usá-lo. Como se tivessem vívido desde sempre.
Mas ele a olhara da janela, vira-a andar depressa de mãos dadas com o filho, e dissera-se: ela está tomando o
momento de alegria - sozinha. Sentira-se frustrado porque há muito não poderia viver senão com ela. E ela conseguia
tomar seus momentos - sozinha. Por exemplo, que fizera sua mulher entre o trem e o apartamento? não que a
suspeitasse mas inquietava-se.
A última luz da tarde estava pesada e abatia-se com gravidade sobre os objetos. As areias estalavam secas. O dia
inteiro estivera sob essa ameaça de irradiação. Que nesse momento, sem rebentar, embora, se ensurdecia cada vez
mais e zumbia no elevador ininterrupto do edifício. Quando Catarina voltasse eles jantariam afastando as mariposas.
O menino gritaria no primeiro sono, Catarina interromperia um momento o jantar... e o elevador não pararia por um
instante sequer?! Não, o elevador não pararia um instante.
— "Depois do jantar iremos ao cinema", resolveu o homem. Porque depois do cinema seria enfim noite, e este dia se
quebraria com as ondas nos rochedos do Arpoador.
Texto extraído do livro "Laços de Família", Editora Rocco - Rio de Janeiro, 1998, pág. 94.
Clarice Lispector: tudo sobre a autora e sua obra em "Biografias".
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
ALICE
Rubem Fonseca
Nosso filho Gabriel, de catorze anos, era gago. Eu e minha mulher Celina já o havíamos levado a vários especialistas,
mas a gagueira dele continuava.
Gabriel era estudioso e passava de ano em todas as matérias, menos em português, em que sempre ficava de
recuperação. Conseguíamos um professor para lhe dar aulas particulares e assim mesmo ele passava com dificuldade.
Nas ocasiões em que o professor mudava, o que podia ocorrer quando Gabriel passava de ano, eu e Celina
procurávamos o novo professor para falar das dificuldades do nosso filho.
Nesse ano, quando marcamos a entrevista, verificamos que quem ia ensinar português ao Gabriel era uma professora,
de nome Alice, que fora transferida de outra escola, uma mulher de aproximadamente quarenta anos, separada do
marido, sem filhos.
A professora perguntou se Gabriel gostava de ler e minha mulher respondeu que ele detestava e se irritava quando o
professor mandava ler um livro da bibliografia. A professora Alice disse que isso era comum, os jovens, com algumas
exceções, não gostavam de ler.
Uns meses depois a professora Alice nos telefonou pedindo que fôssemos à escola. Ela nos recebeu gentilmente e
disse que haviam sido realizadas as primeiras provas e que Gabriel
tivera um desempenho abaixo do sofrível. Acrescentou que ele precisaria de aulas particulares.
Minha mulher deu um suspiro, era ela quem tomava conta das finanças da família e conhecia melhor do que eu a
nossa situação econômica. Eu sempre achei que Gabriel deveria estudar numa escola pública, mas Celina queria que
ele frequentasse o melhor colégio, cuja mensalidade era uma fortuna.
A professora Alice era uma mulher inteligente e devia ter percebido o nosso embaraço.
Ou talvez não tivesse tido a sensibilidade de ler o nosso semblante, apenas notara pelas nossas roupas que nós não
pertencíamos ao mesmo nível econômico e social dos outros pais que tinham filhos naquele colégio. Houve um
instante em que percebi que a professora Alice olhara os sapatos de Celina, e as mulheres entendem de sapatos, e
são capazes de descobrir, pelo sapato de uma mulher, o nível econômico-social a que ela pertence.
Depois de consultar uma agenda, a professora Alice disse que poderia dar aulas particulares ao Gabriel sem cobrar
por isso.
Eu e Celina alegamos, sem muita convicção, que não queríamos dar esse trabalho a ela, mas a professora Alice foi
categórica e marcou para todas as terças e quintas-feiras à noite aulas particulares em sua casa.
Aquilo nos deixou aliviados, não apenas deixaríamos de pagar pelas aulas como elas não seriam realizadas em nosso
pequeno e desconfortável apartamento.
Um mês mais tarde notei que Gabriel estava deitado no quarto lendo. Perguntei que livro era aquele e ele respondeu
que lhe fora emprestado pela professora Alice. Ela é boa professora?, perguntei, e ele respondeu que ela era legal.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Contei para Celina o que acontecera. Ela não acreditou que Gabriel estivesse lendo um livro, disse que ele odiava
livros. Acrescentei que era um livro de Machado de Assis e ela fez uma careta dizendo que quando mandavam ela ler
Machado de Assis no colégio ela não conseguia e pedia a uma amiga para lhe dizer qual era a trama do livro, e
acrescentou que Machado de Assis era um chato insuportável.
Mais tarde, quando estávamos na cama, ela disse, essa professora Alice é uma feiticeira.
Feiticeira do bem, acrescentou depois de uma pausa.
Mas a professora Alice era muito mais feiticeira do que supúnhamos. Além de ter tido uma boa nota na segunda
prova e de ficar lendo diariamente, até mesmo deixando de ver o jogo de futebol na televisão, Gabriel parou de
gaguejar.
Celina lembrou-se do médico que dissera que para curar a gagueira de Gabriel precisaria usar um tal de método
holístico. Ele explicou o que era, escreveu num papel, que eu guardei. A gagueira, conforme escreveu o médico, só
poderia ser curada através do holismo, que busca a integração dos aspectos físicos, emocionais, mentais do ser
humano. Segundo o médico, nós não éramos apenas matéria física, nem somente consciência, nem unicamente
emoções, éramos uma totalidade que precisa ser analisada em sua inteireza. O tratamento holístico custaria uma
fortuna. Creio que ele não olhou os sapatos de Celina.
O certo é que Gabriel não gaguejava mais e ao comentar o assunto no escritório um colega me disse que isso era
muito comum, um menino ou menina gaguejava até uma certa idade e de repente parava de gaguejar.
Gabriel não apenas falava com desembaraço, também deixara de ter o aspecto sorumbático de antes. Ter se curado
da gagueira lhe fizera um grande bem. E também a Celina, que sentiu-se perdoada. Nós tivemos o Gabriel quando ela
tinha dezesseis anos de idade e eu, dezoito, ainda solteiros. E ela, que era muito católica, eu diria mesmo uma carola,
acreditava que a deficiência de Gabriel tinha sido uma espécie de punição divina e sentia-se culpada.
Convidamos a professora Alice para jantar em nossa casa. Era uma pessoa agradável, inteligente e muito falante.
Quem ficou muito calado durante o jantar foi o Gabriel, certamente com medo de gaguejar na frente da professora.
Eu o provoquei várias vezes, mas ele respondia monossilabicamente.
Celina perguntou à professora se Gabriel ainda precisava daquelas aulas extras, explicou que não queríamos abusar
da sua generosidade. Alice respondeu que ele estava indo muito bem, principalmente na parte de redação, pois
passara a ler bastante, mas na gramática ainda havia algumas insuficiências.
Um dia recebi um telefonema de um comissário de menores chamado Lacerda, que disse que queria ter uma conversa
reservada comigo. Pedi uma licença no escritório e marquei uma hora à tarde em que Celina estaria trabalhando.
Lacerda ao chegar se identificou. Em seguida perguntou se eu conhecia a professora Alice Peçanha. Respondi que
sim. Lacerda disse que fora ao colégio e tivera conhecimento de que o meu filho de catorze anos, Gabriel, estava
tendo aulas particulares com ela, em sua casa, durante a noite. Respondi que sim. Ele então me disse que a
professora Alice Peçanha fora obrigada a abandonar a escola onde ensinava anteriormente, em outra cidade, porque
fora acusada de abusar sexualmente de um aluno de treze anos, a quem também dava aulas particulares, mas a
acusação não fora devidamente comprovada.
Mulheres pedófilas, disse Lacerda, são raras, essa atração sexual de um adulto por crianças ocorre mais com homens.
Então, com uma voz grave, disse que gostaria de falar com o meu filho, para preparar as informações que seriam
enviadas ao juizado.
Assim que ele acabou de falar eu perguntei se uma mulher ter relações com um menino de catorze anos faria mal a
ele. O comissário respondeu que o Estatuto da Criança e do Adolescente dizia que era crime submeter um
adolescente, não importava o sexo, à exploração sexual. Meninos e meninas eram tratados igualmente perante a lei,
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
se não se aceitava que um homem adulto tivesse relações sexuais com uma menina, o que chegava ser considerado
estupro presumido, também não se podia aceitar que uma mulher adulta tivesse relações sexuais com um menino.
Disse que era dever deles, comissários, conforme a lei, garantir a inviolabilidade da integridade física, psíquica e moral
da criança e do adolescente, dos dois sexos. Lamentava muito, mas precisava ter uma conversa com o meu filho. Se
confirmasse que a professora Alice abusava dele, ela seria processada de acordo com a lei.
Concordei com ele, pedi para me esperar que eu daria um pulo no colégio, que era próximo, e traria o meu filho para
conversar com ele.
Quando o meu filho chegou o comissário disse que queria falar com ele sem a minha presença. Saí da sala e deixei os
dois a sós.
O comissário Lacerda devia ser um homem meticuloso, pois ficou conversando com o meu filho quase duas horas.
Depois abriu a porta da sala e me chamou. Disse que o meu filho lhe dissera que a professora Alice jamais tocara
nele. E que, conforme a sua experiência em interrogar menores, ele não tinha dúvidas de que o meu filho dizia a
verdade.
Antes de se despedir, lamentou o tempo que perdia fazendo investigações baseadas em informações falsas.
Ficamos calados na sala, eu e o meu filho, um sem olhar para o outro. Gabriel, depois de algum tempo, disse que
seguira as minhas instruções, fizera exatamente o que eu mandara, tanto que o comissário acreditara nele. Respondi
que ele agira bem. Gabriel disse que gostava da professora, que ela curara a sua gagueira, fizera ele gostar de ler, e
que o que eles faziam na cama não era nenhum pecado. Respondi que o assunto estava encerrado, que a mãe dele
não precisava saber de nada e que eu não queria saber de mais nada.
Gabriel disse que naquela noite tinha aula com a professora Alice, perguntou se devia ir. Eu respondi que sim, ele
devia ir a todas as aulas na casa da professora Alice.
Gabriel me deu um abraço. E não falamos mais no assunto.
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O CÃO ACHADO
José Saramago
Vou a um negócio de homens, desta vez tens de ficar em casa, disse Cipriano Algor ao cão, que correra para ele
quando o viu aproximar-se da furgoneta. É claro que o Achado não necessitava que o mandassem subir, bastava que
lhe deixassem aberta a porta do carro o tempo suficiente para perceber que não o expulsariam depois, mas a causa
real da sobressaltada corrida, por muito estranho que possa parecer, foi ter ele suposto, em sua ansiedade de cão,
que o iam deixar sozinho. Marta, que saíra para o terreiro conversando com o pai e o acompanhava à furgoneta, tinha
na mão o sobrescrito com os desenhos e a proposta, e embora o cão Achado não tenha idéias claras sobre o que são e
para que servem sobrescritos, propostas e desenhos, conhece da vida, em todo o caso, que as pessoas que se
dispõem a entrar em carros costumam levar consigo coisas que, em, geral, mesmo antes de para eles subirem, atiram
para o banco de trás. Instruído por estas experiências, percebe-se que a memória do Achado o tenha levado a pensar
que Marta iria acompanhar o pai nesta nova saída da furgoneta. Apesar de estar aqui há poucos dias, não tem dúvidas
de que a casa dos donos é a sua casa, mas o seu sentido de propriedade, por incipiente, ainda não o autoriza a dizer,
olhando em redor, tudo isto é meu. Aliás, um cão, seja qual for o tamanho, a raça e o carácter, jamais se atreveria a
pronunciar palavras tão brutalmente possessivas, diria, quando muito, tudo isto é nosso, e ainda assim, revertendo ao
caso particular destes oleiros e dos seus bens móveis e imóveis, o cão Achado nem daqui a dez anos será capaz de
ver-se a si mesmo como terceiro proprietário. O máximo a que talvez consiga chegar quando for cão velho é ao
obscuro e vago sentimento de participar em algo arriscadamente complexo e, por assim dizer, de escorregadias
significações, um todo feito de partes em que cada uma é, ao mesmo tempo, a parte que é e o todo de que faz parte.
Idéias aventurosas como esta, que o cérebro humano, grosso modo, é mais ou menos capaz de conceber, mas que
logo tem uma enorme dificuldade em trocar por miúdos, são o pão nosso de cada dia nas diferentes nações caninas,
quer de um ponto vista meramente teórico quer no que se refere às suas consequências práticas. Não se pense,
contudo, que o espírito dos cães é como uma nuvem bonançosa que levemente passa, uma alvorada primaveral de
suave luz, um tanque de jardim com cisnes brancos vogando, se o fosse não teria o Achado começado, de repente, a
ganir lastimeiro, E eu, e eu, dizia ele. Para responder a tal desgarramento de alma aflita, não tinha achado Cipriano
Algor, apreensivo como ia pela responsabilidade da missão que o levava ao Centro, melhores palavras que desta vez
ficas em casa, o que valeu ao angustiado animal foi ter visto Marta dar dois passos atrás depois de ter entregado o
sobrescrito ao pai, assim ficou o Achado ciente de que não o iriam deixar sem companhia, na verdade, mesmo
constituindo cada parte, de per si, o todo a que pertence, como cremos que já deixámos demonstrado por a + b, duas
partes, desde que estejam unidas, fazem muita diferença no total. Marta acenou ao pai um cansado gesto de adeus e
voltou para casa. O cão não a seguiu logo, ficou à espera de que a furgoneta, depois de descer a ladeira para a
estrada, desaparecesse por trás da primeira casa da povoação. Quando daí a pouco entrou na cozinha, viu que a dona
estava sentada na mesma cadeira em que tinha trabalhado durante estes dias. Passava os dedos pelos olhos uma , e
outra vez como se precisasse de aliviá-los de uma sombra ou de uma dor. Decerto por estar no tenro verdor da
mocidade, Achado não teve ainda tempo de adquirir opiniões formadas, claras e definitivas sobre a necessidade e o
significado das lágrimas no ser humano, no entanto, considerando que esses humores líquidos persistem em
manifestar-se no estranho caldo de sentimento, razão e crueldade de que o dito ser humano é feito, pensou que
talvez não fosse desacerto grave chegar-se à chorosa dona e pousar-lhe docemente a cabeça nos joelhos. Um cão
mais idoso, e por essa razão, supondo que a idade está obrigada a suportar culpas duplicadas, mais cínico do que o
cinismo que não pode evitar ter, comentaria com sarcasmo o afectuoso gesto, mas isso deveria ser porque o vazio da
velhice o teria feito esquecer-se de que, em assuntos do coração e do sentir, sempre o demasiado foi melhor que o
diminuído. Comovida, Marta passou-lhe devagar a mão pela cabeça, acariciando-o, e, como ele não se retirava e
continuava a olhá-la fixamente, pegou num carvão e começou a riscar no papel os primeiros traços de um esboço. Ao
princípio, as lágrimas impediam-na de ver bem, mas, pouco a pouco, ao mesmo tempo que a mão ganhava
segurança, os olhos foram aclarando, e a cabeça do cão, como se emergisse do fundo de uma água turva, apareceulhe na sua inteira beleza e força, no seu mistério e na sua interrogação. A partir deste dia, Marta vai querer tanto ao
cão Achado como sabemos que já lhe quer Cipriano.
____________________Extraído de: SARAMAGO, José. A Caverna. São Paulo: Companhia das Letras, 2000. p.85-87.
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O ENFERMEIRO
Machado de Assis
Parece-lhe então que o que se deu comigo em 1860, pode entrar numa página de livro? Vá que seja, com a condição
única de que não há de divulgar nada antes da minha morte. Não esperará muito, pode ser que oito dias, se não for
menos; estou desenganado.
Olhe, eu podia mesmo contar-lhe a minha vida inteira, em que há outras coisas interessantes, mas para isso era
preciso tempo, ânimo e papel, e eu só tenho papel; o ânimo é frouxo, e o tempo assemelha-se à lamparina de
madrugada. Não tarda o sol do outro dia, um sol dos diabos, impenetrável como a vida. Adeus, meu caro senhor, leia
isto e queira-me bem; perdoe-me o que lhe parecer mau, e não maltrate muito a arruda, se lhe não cheira a rosas.
Pediu- me um documento humano, ei-lo aqui. Não me peça também o império do Grão-Mogol. nem a fotografia dos
Macabeus; peça, porém, os meus sapatos de defunto e não os dou a ninguém mais.
Já sabe que foi em l860. No ano anterior, ali pelo mês de agosto, tendo eu quarenta e dois anos, fiz-me teólogo. quero dizer, copiava os estudos de teologia de um padre de Niterói, antigo companheiro de colégio, que assim me
dava. delicadamente, casa, cama e mesa. Naquele mês de agosto de 1859, recebeu ele uma carta de um vigário de
certa vila do interior, perguntando se conhecia pessoa entendida, discreta e paciente, que quisesse ir servir de
enfermeiro ao Coronel Felisberto, mediante um bom ordenado. O padre falou- me, aceitei com ambas as mãos, estava
já enfarado de copiar citações latinas e fórmulas eclesiásticas. Vim à corte despedir-me de um irmão, e segui para a
vila.
Chegando à vila, tive más notícias do coronel. Era homem insuportável, estúrdio, exigente, ninguém o aturava, nem
os próprios amigos. Gastava mais enfermeiros que remédios. A dois deles quebrou a cara. Respondi que não tinha
medo de gente sã, menos ainda de doentes; e depois de entender-me com o vigário, que me confirmou as notícias
recebidas, e me recomendou mansidão e caridade, segui para a residência do coronel.
Achei-o na varanda da casa estirado numa cadeira, bufando muito. Não me recebeu mal. Começou por não dizer
nada; pôs em mim dois olhos de gato que observa; depois, uma espécie de riso maligno alumino-lhe as feições. que
eram duras. Afinal, disse-me que nenhum dos enfermeiros que tivera, prestava para nada, dormiam muito, eram
respondões e andavam ao faro das escravas; dois eram até gatunos!
- Você é gatuno?
- Não, senhor.
Em seguida, perguntou-me pelo nome: disse-lho e ele fez um gesto de espanto. Colombo? Não, senhor: Procópio José
Gomes Valongo. Valongo? achou que não era nome de gente, e propôs chamar-me tão-somente Procópio, ao que
respondi que estaria pelo que fosse de seu agrado. Conto-lhe esta particularidade, não só porque me parece pintá-lo
bem, como porque a minha resposta deu de mim a melhor idéia ao coronel. Ele mesmo o declarou ao vigário,
acrescentando que eu era o mais simpático dos enfermeiros que tivera. A verdade é que vivemos uma lua-de-mel de
sete dias.
No oitavo dia, entrei na vida dos meus predecessores, uma vida de cão, não dormir, não pensar em mais nada,
recolher injúrias, e, às vezes, rir delas, com um ar de resignação e conformidade; reparei que era um modo de lhe
fazer corte. Tudo impertinências de moléstia e do temperamento. A moléstia era um rosário delas, padecia de
aneurisma, de reumatismo e de três ou quatro afecções menores. Tinha perto de sessenta anos, e desde os cinco toda
a gente lhe fazia a vontade. Se fosse só rabugento, vá; mas ele era também mau, deleitava-se com a dor e a
humilhação dos outros. No fim de três meses estava farto de o aturar; determinei vir embora; só esperei ocasião.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Não tardou a ocasião. Um dia, como lhe não desse a tempo uma fomentação, pegou da bengala e atirou-me dois ou
três golpes. Não era preciso mais; despedi-me imediatamente, e fui aprontar a mala. Ele foi ter comigo, ao quarto,
pediu-me que ficasse, que não valia a pena zangar por uma rabugice de velho. Instou tanto que fiquei.
- Estou na dependura, Procópio, dizia-me ele à noite; não posso viver muito tempo. Estou aqui, estou na cova. Você
há de ir ao meu enterro, Procópio; não o dispenso por nada. Há de ir, há de rezar ao pé da minha sepultura. Se não
for, acrescentou rindo, eu voltarei de noite para lhe puxar as pernas. Você crê em almas de outro mundo. Procópio?
- Qual o quê!
- E por que é que não há de crer, seu burro? redargüiu vivamente, arregalando os olhos.
Eram assim as pazes; imagine a guerra. Coibiu-se das bengaladas; mas as injúrias ficaram as mesmas, se não piores.
Eu, com o tempo, fui calejando, e não dava mais por nada; era burro, camelo, pedaço d'asno, idiota, moleirão, era
tudo. Nem, ao menos, havia mais gente que recolhesse uma parte desses nomes. Não tinha parentes; tinha um
sobrinho que morreu tísico, em fins de maio ou princípios de julho, em Minas. Os amigos iam por lá às vezes aproválo, aplaudi-lo, e nada mais; cinco, dez minutos de visita. Restava eu; era eu sozinho para um dicionário inteiro. Mais
de uma vez resolvi sair; mas, instado pelo vigário. ia ficando.
Não só as relações foram-se tornando melindrosas, mas eu estava ansioso por tornar à Corte. Aos quarenta e dois
anos não é que havia de acostumar-me à reclusão constante, ao pé de um doente bravio, no interior. Para avaliar o
meu isolamento, basta saber que eu nem lia os jornais; salvo alguma notícia mais importante que levavam ao
coronel, eu nada sabia do resto do mundo. Entendi, portanto, voltar para a Corte, na primeira ocasião, ainda que
tivesse de brigar com o vigário. Bom é dizer (visto que faço uma confissão geral) que, nada gastando e tendo
guardado integralmente os ordenados, estava ansioso por vir dissipá-los aqui.
Era provável que a ocasião aparecesse. O coronel estava pior, fez testamento, descompondo o tabelião, quase tanto
como a mim. O trato era mais duro, os breves lapsos de sossego e brandura faziam-se raros. Já por esse tempo tinha
eu perdido a escassa dose de piedade que me fazia esquecer os excessos do doente; trazia dentro de mim um
fermento de ódio e aversão. No princípio de agosto resolvi definitivamente sair; o vigário e o médico, aceitando as
razões, pediram- me que ficasse algum tempo mais. Concedi-lhes um mês; no fim de um mês viria embora, qualquer
que fosse o estado do doente. O vigário tratou de procurar-me substituto.
Vai ver o que aconteceu. Na noite de vinte e quatro de agosto, o coronel teve um acesso de raiva, atropelou-me,
disse-me muito nome cru, ameaçou-me de um tiro, e acabou atirando-me um prato de mingau, que achou frio; o
prato foi cair na parede, onde se fez em pedaços.
- Hás de pagá-lo, ladrão! bradou ele.
Resmungou ainda muito tempo. Às onze horas passou pelo sono. Enquanto ele dormia, saquei um livro do bolso, um
velho romance de d'Arlincourt, traduzido, que lá achei, e pus-me a lê-lo, no mesmo quarto, a pequena distância da
cama; tinha de acordá-lo à meia-noite para lhe dar o remédio. Ou fosse de cansaço, ou do livro, antes de chegar ao
fim da segunda página adormeci também. Acordei aos gritos do coronel, e levantei-me estremunhado. Ele, que
parecia delirar, continuou nos mesmos gritos, e acabou por lançar mão da moringa e arremessá-la contra mim. Não
tive tempo de desviar-me; a moringa bateu-me na face esquerda, e tal foi a dor que não vi mais nada; atirei-me ao
doente, pus-lhe as mãos ao pescoço, lutamos, e esganei-o.
Quando percebi que o doente expirava, recuei aterrado, e dei um grito; mas ninguém me ouviu. Voltei à cama, agiteio para chamá-lo à vida, era tarde; arrebentara o aneurisma, e o coronel morreu. Passei à sala contígua, e durante
duas horas não ousei voltar ao quarto. Não posso mesmo dizer tudo o que passei, durante esse tempo. Era um
atordoamento, um delírio vago e estúpido. Parecia-me que as paredes tinham vultos; escutava uma vozes surdas. Os
gritos da vítima, antes da luta e durante a luta, continuavam a repercutir dentro de mim, e o ar, para onde quer que
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
me voltasse, aparecia recortado de convulsões. Não creia que esteja fazendo imagens nem estilo; digo-lhe que eu
ouvia distintamente umas vozes que me bradavam: assassino! assassino!
Tudo o mais estava calado. O mesmo som do relógio, lento, igual e seco, sublinhava o silêncio e a solidão. Colava a
orelha à porta do quarto na esperança de ouvir um gemido, uma palavra, uma injúria, qualquer coisa que significasse
a vida, e me restituísse a paz à consciência. Estaria pronto a apanhar das mãos do coronel, dez, vinte, cem vezes.
Mas nada, nada; tudo calado. Voltava a andar à toa, na sala, sentava-me, punha as mãos na cabeça; arrependia-me
de ter vindo. - "Maldita a hora em que aceitei semelhante coisa!" exclamava. E descompunha o padre de Niterói, o
médico, o vigário, os que me arranjaram um lugar, e os que me pediram para ficar mais algum tempo. Agarrava-me à
cumplicidade dos outros homens.
Como o silêncio acabasse por aterrar-me, abri uma das janelas, para escutar o som do vento, se ventasse. Não
ventava. A noite ia tranqüila, as estrelas fulguravam, com a indiferença de pessoas que tiram o chapéu a um enterro
que passa, e continuam a falar de outra coisa. Encostei-me ali por algum tempo, fitando a noite, deixando-me ir a
urna recapitulação da vida, a ver se descansava da dor presente. Só então posso dizer que pensei claramente no
castigo. Achei-me com um crime às costas e vi a punição certa. Aqui o temor complicou o remorso. Senti que os
cabelos me ficavam de pé. Minutos depois, vi três ou quatro vultos de pessoas, no terreiro, espiando, com um ar de
emboscada; recuei, os vultos esvaíram-se no ar; era uma alucinação.
Antes do alvorecer curei a contusão da face. Só então ousei voltar ao quarto. Recuei duas vezes, mas era preciso e
entrei; ainda assim, não cheguei logo à cama. Tremiam-me as pernas, o coração batia-me; cheguei a pensar na fuga;
mas era confessar o crime, e, ao contrário, urgia fazer desaparecer os vestígios dele. Fui até a cama; vi o cadáver,
com os olhos arregalados e a boca aberta, como deixando passar a eterna palavra dos séculos: "Caim, que fizeste de
teu irmão?" Vi no pescoço o sinal das minhas unhas; abotoei alto a camisa e cheguei ao queixo a ponta do lençol. Em
seguida, chamei um escravo, disse-lhe que o coronel amanhecera morto; mandei recado ao vigário e ao médico.
A primeira idéia foi retirar-me logo cedo, a pretexto de ter meu irmão doente, e, na verdade, recebera carta dele,
alguns dias antes, dizendo-me que se sentia mal. Mas adverti que a retirada imediata poderia fazer despertar
suspeitas, e fiquei. Eu mesmo amortalhei o cadáver, com o auxílio de um preto velho e míope. Não saí da sala
mortuária; tinha medo de que descobrissem alguma coisa. Queria ver no rosto dos outros se desconfiavam; mas não
ousava fitar ninguém. Tudo me dava impaciências: os passos de ladrão com que entravam na sala, os cochichos, as
cerimônias e as rezas do vigário. Vindo a hora, fechei o caixão, com as mãos trêmulas, tão trêmulas que uma pessoa,
que reparou nelas, disse a outra com piedade:
- Coitado do Procópio! apesar do que padeceu, está muito sentido.
Pareceu-me ironia; estava ansioso por ver tudo acabado. Saímos à rua. A passagem da meia-escuridão da casa para a
claridade da rua deu-me grande abalo; receei que fosse então impossível ocultar o crime. Meti os olhos no chão, e fui
andando. Quando tudo acabou, respirei. Estava em paz com os homens. Não o estava com a consciência, e as
primeiras noites foram naturalmente de desassossego e aflição. Não é preciso dizer que vim logo para o Rio de
Janeiro, nem que vivi aqui aterrado, embora longe do crime; não ria, falava pouco, mal comia, tinha alucinações,
pesadelos...
- Deixa lá o outro que morreu, diziam-me. Não é caso para tanta melancolia.
E eu aproveitava a ilusão, fazendo muitos elogios ao morto, chamando-lhe boa criatura, impertinente, é verdade, mas
um coração de ouro. E, elogiando, convencia-me também, ao menos por alguns instantes. Outro fenômeno
interessante, e que talvez lhe possa aproveitar, é que, não sendo religioso, mandei dizer uma missa pelo eterno
descanso do coronel, na igreja do Sacramento. Não fiz convites, não disse nada a ninguém; fui ouvi-la, sozinho, e
estive de joelhos todo o tempo, persignando-me a miúdo. Dobrei a espórtula do padre, e distribuí esmolas à porta,
tudo por intenção do finado. Não queria embair os homens; a prova é que fui só. Para completar este ponto,
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
acrescentarei que nunca aludia ao coronel, que não dissesse: "Deus lhe fale n'alma!" E contava dele algumas anedotas
alegres, rompantes engraçados...
Sete dias depois de chegar ao Rio de Janeiro, recebi a carta do vigário, que lhe mostrei, dizendo-me que fora achado
o testamento do coronel, e que eu era o herdeiro universal. Imagine o meu pasmo. Pareceu-me que lia mal, fui a meu
irmão, fui aos amigos; todos leram a mesma coisa. Estava escrito; era eu o herdeiro universal do coronel. Cheguei a
supor que fosse uma cilada; mas adverti logo que havia outros meios de capturar-me, se o crime estivesse
descoberto. Demais, eu conhecia a probidade do vigário, que não se prestaria a ser instrumento. Reli a carta, cinco,
dez, muitas vezes; lá estava a notícia.
- Quanto tinha ele? perguntava-me meu irmão.
- Não sei, mas era rico.
- Realmente, provou que era teu amigo.
- Era... Era...
Assim, por uma ironia da sorte, os bens do coronel vinham parar às minhas mãos. Cogitei em recusar a herança.
Parecia-me odioso receber um vintém do tal espólio; era pior do que fazer-me esbirro alugado. Pensei nisso três dias,
e esbarrava sempre na consideração de que a recusa podia fazer desconfiar alguma coisa. No fim dos três dias,
assentei num meio-termo; receberia a herança e dá-la-ia toda, aos bocados e às escondidas. Não era só escrúpulo;
era também o modo de resgatar o crime por um ato de virtude; pareceu-me que ficava assim de contas saldas.
Preparei-me e segui para a vila. Em caminho, à proporção que me ia aproximando, recordava o triste sucesso; as
cercanias da vila tinham um aspecto de tragédia, e a sombra do coronel parecia-me surgir de cada lado. A imaginação
ia reproduzindo as palavras, os gestos, toda a noite horrenda do crime...
Crime ou luta? Realmente, foi uma luta em que eu, atacado, defendi-me, e na defesa... Foi uma luta desgraçada, uma
fatalidade. Fixei-me nessa idéia. E balanceava os agravos, punha no ativo as pancadas, as injúrias... Não era culpa do
coronel, bem o sabia, era da moléstia, que o tornava assim rabugento e até mau... Mas eu perdoava tudo, tudo... O
pior foi a fatalidade daquela noite... Considerei também que o coronel não podia viver muito mais; estava por pouco;
ele mesmo o sentia e dizia. Viveria quanto? Duas semanas, ou uma; pode ser até que menos. Já não era vida, era um
molambo de vida, se isto mesmo se podia chamar ao padecer contínuo do pobre homem... E quem sabe mesmo se a
luta e a morte não foram apenas coincidentes? Podia ser, era até o mais provável; não foi outra coisa. Fixei-me
também nessa idéia...
Perto da vila apertou-se-me o coração, e quis recuar; mas dominei- me e fui. Receberam-me com parabéns. O vigário
disse-me as disposições do testamento, os legados pios, e de caminho ia louvando a mansidão cristã e o zelo com que
eu servira ao coronel, que, apesar de áspero e duro, soube ser grato.
- Sem dúvida, dizia eu olhando para outra parte.
Estava atordoado. Toda a gente me elogiava a dedicação e a paciência. As primeiras necessidades do inventário
detiveram-me algum tempo na vila. Constituí advogado; as coisas correram placidamente. Durante esse tempo, falava
muita vez do coronel. Vinham contar-me coisas dele, mas sem a moderação do padre; eu defendia-o, apontava
algumas virtudes, era austero...
- Qual austero! Já morreu, acabou; mas era o diabo.
E referiam-me casos duros, ações perversas, algumas extraordinárias. Quer que lhe diga? Eu, a princípio, ia ouvindo
cheio de curiosidade; depois, entrou-me no coração um singular prazer, que eu, sinceramente buscava expelir. E
defendia o coronel, explicava-o, atribuía alguma coisa às rivalidades locais; confessava, sim, que era um pouco
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
violento... Um pouco? Era uma cobra assanhada, interrompia-me o barbeiro; e todos, o coletor, o boticário, o
escrivão, todos diziam a mesma coisa; e vinham outras anedotas, vinha toda a vida do defunto. Os velhos
lembravam-se das crueldades dele, em menino. E o prazer íntimo, calado, insidioso, crescia dentro de mim, espécie
de tênia moral, que por mais que a arrancasse aos pedaços, recompunha-se logo e ia ficando.
As obrigações do inventário distraíram-me; e por outro lado a opinião da vila era tão contrária ao coronel, que a vista
dos lugares foi perdendo para mim a feição tenebrosa que a princípio achei neles. Entrando na posse da herança,
converti-a em títulos e dinheiro. Eram então passados muitos meses, e a idéia de distribuí-la toda em esmolas e
donativos pios não me dominou como da primeira vez; achei mesmo que era afetação. Restringi o plano primitivo;
distribuí alguma coisa aos pobres, dei à matriz da vila uns paramentos novos, fiz uma esmola à Santa Casa da
Misericórdia, etc.: ao todo trinta e dois contos. Mandei também levantar um túmulo ao coronel, todo de mármore,
obra de um napolitano, que aqui esteve até 1866, e foi morrer, creio eu, no Paraguai.
Os anos foram andando, a memória tornou-se cinzenta e desmaiada. Penso às vezes no coronel, mas sem os terrores
dos primeiros dias. Todos os médicos a quem contei as moléstias dele, foram acordes em que a morte era certa, e só
se admiravam de ter resistido tanto tempo. Pode ser que eu, involuntariamente, exagerasse a descrição que então
lhes fiz; mas a verdade é que ele devia morrer, ainda que não fosse aquela fatalidade...
Adeus, meu caro senhor. Se achar que esses apontamentos valem alguma coisa, pague-me também com um túmulo
de mármore, ao qual dará por epitáfio esta emenda que faço aqui ao divino sermão da montanha: "Bem-aventurados
os que possuem, porque eles serão consolados."
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Prestigio - Ediouro - s/d.
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Contos escolhidos
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TENTAÇÃO
Clarice Lispector
Ela estava com soluço. E como se não bastasse a claridade das duas horas, ela era ruiva.
Na rua vazia as pedras vibravam de calor - a cabeça da menina flamejava. Sentada nos degraus de sua casa, ela
suportava. Ninguém na rua, só uma pessoa esperando inutilmente no ponto do bonde. E como se não bastasse seu
olhar submisso e paciente, o soluço a interrompia de momento a momento, abalando o queixo que se apoiava
conformado na mão. Que fazer de uma menina ruiva com soluço? Olhamo-nos sem palavras, desalento contra
desalento. Na rua deserta nenhum sinal de bonde. Numa terra de morenos, ser ruivo era uma revolta involuntária.
Que importava se num dia futuro sua marca ia fazê-la erguer insolente uma cabeça de mulher? Por enquanto ela
estava sentada num degrau faiscante da porta, às duas horas. O que a salvava era uma bolsa velha de senhora, com
alça partida. Segurava-a com um amor conjugal já habituado, apertando-a contra os joelhos.
Foi quando se aproximou a sua outra metade neste mundo, um irmão em Grajaú. A possibilidade de comunicação
surgiu no ângulo quente da esquina, acompanhando uma senhora, e encarnada na figura de um cão. Era um basset
lindo e miserável, doce sob a sua fatalidade. Era um basset ruivo.
Lá vinha ele trotando, à frente de sua dona, arrastando seu comprimento. Desprevenido, acostumado, cachorro.
A menina abriu os olhos pasmada. Suavemente avisado, o cachorro estacou diante dela. Sua língua vibrava. Ambos
se olhavam.
Entre tantos seres que estão prontos para se tornarem donos de outro ser, lá estava a menina que viera ao mundo
para ter aquele cachorro. Ele fremia suavemente, sem latir. Ela olhava-o sob os cabelos, fascinada, séria. Quanto
tempo se passava? Um grande soluço sacudiu-a desafinado. Ele nem sequer tremeu. Também ela passou por cima do
soluço e continuou a fitá-lo.
Os pêlos de ambos eram curtos, vermelhos.
Que foi que se disseram? Não se sabe. Sabe-se apenas que se comunicaram rapidamente, pois não havia tempo.
Sabe-se também que sem falar eles se pediam. Pediam-se com urgência, com encabulamento, surpreendidos.
No meio de tanta vaga impossibilidade e de tanto sol, ali estava a solução para a criança vermelha. E no meio de
tantas ruas a serem trotadas, de tantos cães maiores, de tantos esgotos secos - lá estava uma menina, como se fora
carne de sua ruiva carne. Eles se fitavam profundos, entregues, ausentes de Grajaú. Mais um instante e o suspenso
sonho se quebraria, cedendo talvez à gravidade com que se pediam.
Mas ambos eram comprometidos.
Ela com sua infância impossível, o centro da inocência que só se abriria quando ela fosse uma mulher. Ele, com sua
natureza aprisionada.
A dona esperava impaciente sob o guarda-sol. O basset ruivo afinal despregou-se da menina e saiu sonâmbulo. Ela
ficou espantada, com o acontecimento nas mãos, numa mudez que nem pai nem mãe compreenderiam. Acompanhouo com olhos pretos que mal acreditavam, debruçada sobre a bolsa e os joelhos, até vê-la dobrar a outra esquina.
Mas ele foi mais forte que ela. Nem uma só vez olhou para trás
__________________
Conto extraído de LISPECTOR, Clarice. A legião estrangeira. Rio de Janeiro: Rocco, 1999.
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Contos escolhidos
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Contos escolhidos…
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MISSA DO GALO
Machado de Assis
Nunca pude entender a conversação que tive com uma senhora, há muitos anos, contava eu dezessete, ela trinta. Era
noite de Natal. Havendo ajustado com um vizinho irmos à missa do galo, preferi não dormir; combinei que eu iria
acordá-lo à meia-noite.
A casa em que eu estava hospedado era a do escrivão Meneses, que fora casado, em primeiras núpcias, com uma de
minhas primas. A segunda mulher, Conceição, e a mãe desta acolheram-me bem, quando vim de Mangaratiba para o
Rio de Janeiro, meses antes, a estudar preparatórios. Vivia tranqüilo, naquela casa assobradada da rua do Senado,
com os meus livros, poucas relações, alguns passeios. A família era pequena, o escrivão, a mulher, a sogra e duas
escravas. Costumes velhos. Às dez horas da noite toda a gente estava nos quartos; às dez e meia a casa dormia.
Nunca tinha ido ao teatro, e mais de uma vez, ouvindo dizer ao Meneses que ia ao teatro, pedi-lhe que me levasse
consigo. Nessas ocasiões, a sogra fazia uma careta, e as escravas riam à socapa; ele não respondia, vestia-se, saía e
só tornava na manhã seguinte. Mais tarde é que eu soube que o teatro era um eufemismo em ação. Meneses trazia
amores com uma senhora, separada do marido, e dormia fora de casa uma vez por semana. Conceição padecera, a
princípio, com a existência da comborça; mas, afinal, resignara-se, acostumara-se, e acabou achando que era muito
direito.
Boa Conceição! Chamavam-lhe "a santa", e fazia jus ao título, tão facilmente suportava os esquecimentos do marido.
Em verdade, era um temperamento moderado, sem extremos, nem grandes lágrimas, nem grandes risos. No capítulo
de que trato, dava para maometana; aceitaria um harém, com as aparências salvas. Deus me perdoe, se a julgo mal.
Tudo nela era atenuado e passivo. O próprio rosto era mediano, nem bonito nem feio. Era o que chamamos uma
pessoa simpática. Não dizia mal de ninguém, perdoava tudo. Não sabia odiar; pode ser até que não soubesse amar.
Naquela noite de Natal foi o escrivão ao teatro. Era pelos anos de 1861 ou 1862. Eu já devia estar em Mangaratiba,
em férias; mas fiquei até o Natal para ver "a missa do galo na Corte". A família recolheu-se à hora do costume; eu
meti-me na sala da frente, vestido e pronto. Dali passaria ao corredor da entrada e sairia sem acordar ninguém. Tinha
três chaves a porta; uma estava com o escrivão, eu levaria outra, a terceira ficava em casa.
- Mas, Sr. Nogueira, que fará você todo esse tempo? perguntou-me a mãe de Conceição.
- Leio, D. Inácia.
Tinha comigo um romance, os Três Mosqueteiros, velha tradução creio do Jornal do Comércio. Sentei-me à mesa que
havia no centro da sala, e à luz de um candeeiro de querosene, enquanto a casa dormia, trepei ainda uma vez ao
cavalo magro de D’Artagnan e fui-me às aventuras. Dentro em pouco estava completamente ébrio de Dumas. Os
minutos voavam, ao contrário do que costumam fazer, quando são de espera; ouvi bater onze horas, mas quase sem
dar por elas, um acaso. Entretanto, um pequeno rumor que ouvi dentro veio acordar-me da leitura. Eram uns passos
no corredor que ia da sala de visitas à de jantar; levantei a cabeça; logo depois vi assomar à porta da sala o vulto de
Conceição.
- Ainda não foi? Perguntou ela.
- Não fui; parece que ainda não é meia-noite.
- Que paciência!
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Conceição entrou na sala, arrastando as chinelinhas da a1cova. Vestia um roupão branco, mal apanhado na cintura.
Sendo magra, tinha um ar de visão romântica, não disparatada com o meu livro de aventuras. Fechei o livro; ela foi
sentar-se na cadeira que ficava defronte de mim, perto do canapé. Como eu lhe perguntasse se a havia acordado,
sem querer, fazendo barulho, respondeu com presteza:
- Não! qual! Acordei por acordar.
Fitei-a um pouco e duvidei da afirmativa. Os olhos não eram de pessoa que acabasse de dormir; pareciam não ter
ainda pegado no sono. Essa observação, porém, que valeria alguma coisa em outro espírito, depressa a botei fora,
sem advertir que talvez não dormisse justamente por minha causa, e mentisse para me não afligir ou aborrecer. Já
disse que ela era boa, muito boa.
- Mas a hora já há de estar próxima, disse eu.
- Que paciência a sua de esperar acordado, enquanto o vizinho dorme! E esperar sozinho! Não tem medo de almas do
outro mundo? Eu cuidei que se assustasse quando me viu.
- Quando ouvi os passos estranhei; mas a senhora apareceu logo.
- Que é que estava lendo? Não diga, já sei, é o romance dos Mosqueteiros.
- Justamente: é muito bonito.
- Gosta de romances?
- Gosto.
- Já leu a Moreninha?
- Do Dr. Macedo? Tenho lá em Mangaratiba.
- Eu gosto muito de romances, mas leio pouco, por falta de tempo. Que romances é que você tem lido?
Comecei a dizer-lhe os nomes de alguns. Conceição ouvia-me com a cabeça reclinada no espaldar, enfiando os olhos
por entre as pálpebras meio-cerradas, sem os tirar de mim. De vez em quando passava a língua pelos beiços, para
umedecê-los. Quando acabei de falar, não me disse nada; ficamos assim alguns segundos. Em seguida, vi-a endireitar
a cabeça, cruzar os dedos e sobre eles pousar o queixo, tendo os cotovelos nos braços da cadeira, tudo sem desviar
de mim os grandes olhos espertos.
- Talvez esteja aborrecida, pensei eu.
E logo alto:
- D. Conceição, creio que vão sendo horas, e eu...
- Não, não, ainda é cedo. Vi agora mesmo o relógio; são onze e meia. Tem tempo. Você, perdendo a noite, é capaz de
não dormir de dia?
- Já tenho feito isso.
- Eu, não; perdendo uma noite, no outro dia estou que não posso, e, meia hora que seja, hei de passar pelo sono.
Mas também estou ficando velha.
- Que velha o quê, D. Conceição?
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Tal foi o calor da minha palavra que a fez sorrir. De costume tinha os gestos demorados e as atitudes tranqüilas;
agora, porém, ergueu-se rapidamente, passou para o outro lado da sala e deu alguns passos, entre a janela da rua e
a porta do gabinete do marido. Assim, com o desalinho honesto que trazia, dava-me uma impressão singular. Magra
embora, tinha não sei que balanço no andar, como quem lhe custa levar o corpo; essa feição nunca me pareceu tão
distinta como naquela noite. Parava algumas vezes, examinando um trecho de cortina ou consertando a posição de
algum objeto no aparador; afinal deteve-se, ante mim, com a mesa de permeio. Estreito era o círculo das suas idéias;
tornou ao espanto de me ver esperar acordado; eu repeti-lhe o que ela sabia, isto é, que nunca ouvira missa do galo
na Corte, e não queria perdê-la.
- É a mesma missa da roça; todas as missas se parecem.
- Acredito; mas aqui há de haver mais luxo e mais gente também. Olhe, a semana santa na Corte é mais bonita que
na roça. São João não digo, nem Santo Antônio...
Pouco a pouco, tinha-se inclinado; fincara os cotovelos no mármore da mesa e metera o rosto entre as mãos
espalmadas. Não estando abotoadas, as mangas, caíram naturalmente, e eu vi-lhe metade dos braços, muitos claros,
e menos magros do que se poderiam supor. A vista não era nova para mim, posto também não fosse comum; naquele
momento, porém, a impressão que tive foi grande. As veias eram tão azuis, que apesar da pouca claridade, podia
contá-las do meu lugar. A presença de Conceição espertara-me ainda mais que o livro. Continuei a dizer o que
pensava das festas da roça e da cidade, e de outras coisas que me iam vindo à boca. Falava emendando os assuntos,
sem saber por quê, variando deles ou tornando aos primeiros, e rindo para fazê-la sorrir e ver-lhe os dentes que
luziam de brancos, todos iguaizinhos. Os olhos dela não eram bem negros, mas escuros; o nariz, seco e longo, um
tantinho curvo, dava-lhe ao rosto um ar interrogativo. Quando eu alteava um pouco a voz, ela reprimia-me:
- Mais baixo! Mamãe pode acordar.
E não saía daquela posição, que me enchia de gosto, tão perto ficavam as nossas caras. Realmente, não era preciso
falar alto para ser ouvido; cochichávamos os dois, eu mais que ela, porque falava mais; ela, às vezes, ficava séria,
muito séria, com a testa um pouco franzida. Afinal, cansou; trocou de atitude e de lugar. Deu volta à mesa e veio
sentar-se do meu lado, no canapé. Voltei-me, e pude ver, a furto, o bico das chinelas; mas foi só o tempo que ela
gastou em sentar-se, o roupão era comprido e cobriu-as logo. Recordo-me que eram pretas. Conceição disse
baixinho:
- Mamãe está longe, mas tem o sono muito leve; se acordasse agora, coitada, tão cedo não pegava no sono.
- Eu também sou assim.
- O quê? Perguntou ela inclinando o corpo para ouvir melhor.
Fui sentar-me na cadeira que ficava ao lado do canapé e repeti a palavra. Riu-se da coincidência; também ela tinha o
sono leve; éramos três sonos leves.
- Há ocasiões em que sou como mamãe: acordando, custa-me dormir outra vez, rolo na cama, à toa, levanto-me,
acendo vela, passeio, torno a deitar-me, e nada.
- Foi o que lhe aconteceu hoje.
- Não, não, atalhou ela.
Não entendi a negativa; ela pode ser que também não a entendesse. Pegou das pontas do cinto e bateu com elas
sobre os joelhos, isto é, o joelho direito, porque acabava de cruzar as pernas. Depois referiu uma história de sonhos, e
afirmou-me que só tivera um pesadelo, em criança. Quis saber se eu os tinha. A conversa reatou-se assim
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Contos escolhidos
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lentamente, longamente, sem que eu desse pela hora nem pela missa. Quando eu acabava uma narração ou uma
explicação, ela inventava outra pergunta ou outra matéria, e eu pegava novamente na palavra. De quando em
quando, reprimia-me:
- Mais baixo, mais baixo...
Havia também umas pausas. Duas outras vezes, pareceu-me que a via dormir; mas os olhos, cerrados por um
instante, abriam-se logo sem sono nem fadiga, como se ela os houvesse fechado para ver melhor. Uma dessas vezes
creio que deu por mim embebido na sua pessoa, e lembra-me que os tornou a fechar, não sei se apressada ou
vagarosamente. Há impressões dessa noite, que me aparecem truncadas ou confusas. Contradigo-me, atrapalho-me.
Uma das que ainda tenho frescas é que, em certa ocasião, ela, que era apenas simpática, ficou linda, ficou lindíssima.
Estava de pé, os braços cruzados; eu, em respeito a ela, quis levantar-me; não consentiu, pôs uma das mãos no meu
ombro, e obrigou-me a estar sentado. Cuidei que ia dizer alguma coisa; mas estremeceu, como se tivesse um arrepio
de frio, voltou as costas e foi sentar-se na cadeira, onde me achara lendo. Dali relanceou a vista pelo espelho, que
ficava por cima do canapé, falou de duas gravuras que pendiam da parede.
- Estes quadros estão ficando velhos. Já pedi a Chiquinho para comprar outros.
Chiquinho era o marido. Os quadros falavam do principal negócio deste homem. Um representava "Cleópatra"; não
me recordo o assunto do outro, mas eram mulheres. Vulgares ambos; naquele tempo não me pareciam feios.
- São bonitos, disse eu.
- Bonitos são; mas estão manchados. E depois francamente, eu preferia duas imagens, duas santas. Estas são mais
próprias para sala de rapaz ou de barbeiro.
- De barbeiro? A senhora nunca foi a casa de barbeiro.
- Mas imagino que os fregueses, enquanto esperam, falam de moças e namoros, e naturalmente o dono da casa
alegra a vista deles com figuras bonitas. Em casa de família é que não acho próprio. É o que eu penso; mas eu penso
muita coisa assim esquisita. Seja o que for, não gosto dos quadros. Eu tenho uma Nossa Senhora da Conceição,
minha madrinha, muito bonita; mas é de escultura, não se pode pôr na parede, nem eu quero. Está no meu oratório.
A idéia do oratório trouxe-me a da missa, lembrou-me que podia ser tarde e quis dizê-lo. Penso que cheguei a abrir a
boca, mas logo a fechei para ouvir o que ela contava, com doçura, com graça, com tal moleza que trazia preguiça à
minha alma e fazia esquecer a missa e a igreja. Falava das suas devoções de menina e moça. Em seguida referia
umas anedotas de baile, uns casos de passeio, reminiscências de Paquetá, tudo de mistura, quase sem interrupção.
Quando cansou do passado, falou do presente, dos negócios da casa, das canseiras de família, que lhe diziam ser
muitas, antes de casar, mas não eram nada. Não me contou, mas eu sabia que casara aos vinte e sete anos.
Já agora não trocava de lugar, como a princípio, e quase não saíra da mesma atitude. Não tinha os grandes olhos
compridos, e entrou a olhar à toa para as paredes.
- Precisamos mudar o papel da sala, disse daí a pouco, como se falasse consigo.
Concordei, para dizer alguma coisa, para sair da espécie de sono magnético, ou o que quer que era que me tolhia a
língua e os sentidos. Queria e não queria acabar a conversação; fazia esforço para arredar os olhos dela, e arredavaos por um sentimento de respeito; mas a idéia de parecer que era aborrecimento, quando não era, levava-me os
olhos outra vez para Conceição. A conversa ia morrendo. Na rua, o silêncio era completo.
Chegamos a ficar por algum tempo, - não posso dizer quanto, - inteiramente calados. O rumor único e escasso, era
um roer de camundongo no gabinete, que me acordou daquela espécie de sonolência; quis falar dele, mas não achei
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Acredite no seu sonho, invista em você!
modo. Conceição parecia estar devaneando. Subitamente, ouvi uma pancada na janela, do lado de fora, e uma voz
que bradava: "Missa do galo! missa do galo!"
- Aí está o companheiro, disse ela levantando-se. Tem graça; você é que ficou de ir acordá-lo, ele é que vem acordar
você. Vá, que hão de ser horas; adeus.
- Já serão horas? perguntei.
- Naturalmente.
- Missa do galo! repetiram de fora, batendo.
-Vá, vá, não se faça esperar. A culpa foi minha. Adeus; até amanhã.
E com o mesmo balanço do corpo, Conceição enfiou pelo corredor dentro, pisando mansinho. Saí à rua e achei o
vizinho que esperava. Guiamos dali para a igreja. Durante a missa, a figura de Conceição interpôs-se mais de uma
vez, entre mim e o padre; fique isto à conta dos meus dezessete anos. Na manhã seguinte, ao almoço, falei da missa
do galo e da gente que estava na igreja sem excitar a curiosidade de Conceição. Durante o dia, achei-a como sempre,
natural, benigna, sem nada que fizesse lembrar a conversação da véspera. Pelo Ano-Bom fui para Mangaratiba.
Quando tornei ao Rio de Janeiro, em março, o escrivão tinha morrido de apoplexia. Conceição morava no Engenho
Novo, mas nem a visitei nem a encontrei. Ouvi mais tarde que casara com o escrevente juramentado do marido.
Fonte: Contos Consagrados - Machado de Assis - Coleção Pretígio - Ediouro - s/d.
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Contos escolhidos
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A CARTOMANTE
Machado de Assis
Hamlet observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma
explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de Novembro de 1869, quando este ria dela, por
ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que fui, e que ela adivinhou o motivo da
consulta, antes mesmo que eu lhe dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta
de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que
eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! Interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de
mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe queria muito, que os seus sustos pareciam de
criança; em todo o caso, quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a;
disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas coisas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muito cousa misteriosa e verdadeira
neste mundo. Se ele não acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é
que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se, Não queria arrancar-lhe as ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois,
foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No
dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da
mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava
em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento; limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque
negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros,
e foi andando.
Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a
estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se
lisonjeado. A casa do encontro era na antiga rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta
desceu pela rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda velha, olhando
de passagem para a casa da cartomante.
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura, e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros
eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do
pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um
emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta;
abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado. Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi
a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo; falava sempre do
senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras. Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher
do Vilela não desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e
interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vente e seis.
Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida
moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns
para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição.
Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi,
os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou
especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que gostava de passar as horas ao lado dela; era a
sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita. Odor di femina: eis o que ele
aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e
passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, — ele, para lhe ser agradável,
pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os
dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas. Um dia, fazendo ele anos,
recebeu de Vilela uma rica bengala de presente, e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi
então que ele pôde ler no próprio coração; não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há
vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com
a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo. Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam.
Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo,
fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame,
sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura; mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos!
Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente
por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do
outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava imoral e pérfido, e dizia que a aventura era
sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este
notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As
ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de
amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa
do procedimento de Camilo. Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter
feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão
apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de
Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não
gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Contos escolhidos…
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Acredite no seu sonho, invista em você!
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem
remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com a das cartas que lá aparecerem; se alguma for
igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se sombrio, falando pouco, como desconfiado.
Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa
deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia;
aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por
algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem, em caso de necessidade, e separaram-se com
lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falarte sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao
escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe
trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e lacrimosa, Vilela indignado, pegando na pena
e escrevendo o bilhete, certo de que ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo:
depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a idéia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a
casa; podia achar algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a
idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria
pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem
motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as palavras estavam decoradas, diante dos olhos,
fixas; ou então, — o que era ainda peior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela. "Vem já, já
à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas, assim, pela voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça.
Vem, já, já, para quê? Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto. Tanto imaginou o que
se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo. Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois rejeitava a idéa, vexado de si mesmo, e
seguia, picando o passo, na direção do largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a
trote largo.
— Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim...
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo.
Quase no fim da rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar; a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra.
Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao
pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição
das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do
incidente da rua. Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era grande, extraordinária, e do fundo das camadas
morais emergiam alguns fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O cocheiro propôs-lhe
voltar a primeira travessa, e ir por outro caminho; ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a
casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com
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Contos escolhidos
Acredite no seu sonho, invista em você!
vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a pouco moveu outra vez
as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos, pensava em outras cousas; mas a voz do marido
sussurrava-lhe às orelhas as palavras da carta: "Vem já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia. A casa
olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar... Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou
rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários; e a
mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a
filosofia..." Que perdia ele, se...?
Deu por si na calçada, ao pé da porta; disse ao cocheiro que esperasse, e rápido enfiou pelo corredor, e subiu a
escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não viu nem sentiu nada. Trepou
e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as
fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse
que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura.
Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para os telhados do fundo. Velhos trastes,
paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do que destruía o prestígio.
A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a
pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e
enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma
mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a
mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma coisa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu; disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra vez as cartas e baralhou-as, com os longos
dedos finos, de unhas descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas, três vezes; depois começou a
estendê-las. Camilo tinha os olhos nela, curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada
aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável mais cautela;
ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita... Camilo estava deslumbrado. A
cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendendo a mão por cima da mesa e apertando a da
cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
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Acredite no seu sonho, invista em você!
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu, como se fosse mão da própria sibila, e
levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas,
começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação
comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá tranqüilo. Olhe a escada, é
escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele, falando, com um leve sotaque. Camilo
despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante alegre com a paga, tornava
acima, cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote
largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o céu estava límpido e as caras joviais.
Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram
íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal
em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa; parece que formou também o plano de
aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras
da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que
não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças
do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si
mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo
innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que
formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao
passar pela Glória, Camilo olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço
infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a pouco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava
silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e foram para uma saleta interior. Entrando,
Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensangüentada. Vilela
pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.
Este conto foi publicado originalmente na Gazeta de Notícias - Rio de Janeiro, em 1884. Posteriormente foi incluído no
livro "Várias Histórias" e em "Contos: Uma Antologia", Companhia das Letras - São Paulo, 1998, de onde foi extraído.
Com esta publicação homenageamos Machado de Assis que, no dia 21 deste, estaria completando seu 172°
aniversário.
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Sem saber que era impossível, ele foi lá e fez!