Título: “Minhas perspectivas... O que eu quero... É permanecer no campo e a minha família também quer isso”: refletindo sobre as subjetividades de jovens envolvidos em movimentos sociais do campo Autoras: Adriana May Rossi Andressa Bertoncello Orientadora: Rosana Maria Badalotti (Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Santa Catarina (1990), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal de Santa Catarina (1996) e doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina (2003). Componentes da Banca Examinadora: Arlene Renk (Graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (1978), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990) e doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993). Márcia Luiza Pit Dal Magro (Graduada em Psicologia pela Universidade Comunitária Regional de Chapecó (2003) e mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de Santa Catarina (2006). Data da defesa do TCC: 26 de novembro de 2007 “MINHAS PERSPECTIVAS... O QUE EU QUERO... É PERMANECER NO CAMPO E A MINHA FAMÍLIA TAMBÉM QUER ISSO”: refletindo sobre as subjetividades de jovens envolvidos em movimentos sociais do campo RESUMO Muitas pesquisas apontam para a migração da juventude rural, sem perspectivas de continuação no campo. Nesta investigação buscamos analisar as condições que possibilitam a continuidade da(o) jovem neste contexto. Na busca desta nova perspectiva, que evidencie outra face da situação da juventude rural, analisamos a contribuição dos movimentos sociais (MAB, MMC, MST e Movimento Sindical) para a permanência deste segmento social no campo. A pesquisa caracteriza-se como qualitativa, com a realização de entrevistas semi-estruturadas, com quatro coordenadoras(es) e onze jovens envolvidas(os) nos movimentos citados. O relatório divide-se em três capítulos, sendo os dois primeiros de fundamentação teórica e o terceiro que correlaciona os dados empíricos aos aspectos teóricos, categorizados em três eixos temáticos: A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de jovens rurais; Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a juventude?; e A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do campo; Os movimentos sociais do campo revelaram-se aqui, como fundamentais na produção de subjetividades “desejantes” de permanência no meio rural. Palavras-chave: Juventude Rural, Subjetividades, Movimentos Sociais do campo. SUMÁRIO INTRODUÇÃO................................................................................................................ 4 1. Subjetividades: um olhar sobre a constituição dos sujeitos.......................................... 7 1.1 A subjetividade e o processo de singularização e criação ...................................... 8 1.2 Identidade como elemento constitutivo das subjetividades.................................. 10 2. Movimentos sociais do campo e juventude rural ....................................................... 12 2.1 Conceituando movimentos sociais ....................................................................... 12 2.2 Conceituando juventude ....................................................................................... 15 2.3 O contexto dos movimentos sociais do campo e a juventude rural no oeste catarinense .................................................................................................................. 17 3. Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude rural ........................... 22 3.1 A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de jovens rurais 22 3.2 Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a juventude? .................................................................................................................................... 34 3.3 A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do campo .................................................................................................................................... 40 CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 49 REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 52 INTRODUÇÃO A juventude destaca-se como pauta recente das discussões no cenário brasileiro contemporâneo e, principalmente, nas políticas públicas. Carvalho (2006) problematiza, no entanto, que estas ações e projetos que têm foco na(o) jovem são pontuais e compensatórias, servindo como objeto de disputa entre esferas governamentais que, dificilmente aprofundam a problemática para a compreensão de que se trata de uma questão de cidadania (e não de um problema a ser resolvido). Segundo a autora, nada melhor do que escutar as propostas da juventude que vive e “sente na pele” a sua condição, proporcionando-lhes o posto da co-responsabilidade e não da marginalidade e da inconseqüência. Dentre os diversos recortes sobre a realidade da juventude rural, consideramos necessária apontar uma das grandes polêmicas do campo na contemporaneidade, qual seja: a não permanência do jovem neste meio, interrompendo, desta forma, a reprodução social da agricultura familiar. A migração maciça da juventude foi alvo de diferentes discussões, como indica Weisheimer (2005) em seu “estudo da arte” das publicações científicas sobre o tema. Brumer (2006) afirma que muitas são as investigações sobre os motivos da saída, principalmente, das mulheres jovens do campo. Evidencia, neste sentido, a necessidade de analisar as condições que possibilitam a continuidade da(o) jovem neste contexto. Os movimentos sociais do campo que fizeram parte desta investigação foram: Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e Movimento Sindical. Foram entrevistados coordenadores e jovens, estes últimos tinham entre 16 e 23 anos e foram indicadas(os) por coordenadoras(es) dos movimentos sociais. A área de referência descrita no projeto: microrregião de Chapecó – SC, sofreu alterações no percurso, pois a realidade nunca é fidedigna às prescrições. Na abordagem de campo optamos pela utilização das técnicas de entrevista e observação participante. Para a composição do Quadro 1, além das informações obtidas através das entrevistas, utilizamos os dados documentais fornecidos pelos movimentos sociais. Utilizamo-nos do recurso de entrevistas semi-estruturadas que se realizaram 5 coletivamente entre as(os) jovens pertencentes a cada movimento. As entrevistas com as(os) coordenadores tinham como foco o mapeamento dos projetos e ações voltados para a juventude rural, sendo também a nossa “porta de entrada” na realidade destes movimentos para posterior contato com as(os) jovens. Neste contato com as(os) jovens objetivamos compreender a sua inserção e o seu envolvimento nos movimentos sociais, bem como analisar em que medida os projetos e ações voltados para a sua realidade têm repercussões no seu dia-a-dia e na constituição das identidades social e política. Este estudo insere-se no contexto da pesquisa qualitativa, pois responde de maneira mais adequada aos propósitos do fenômeno investigado. Utilizamos desta forma, o conceito de González Rey (2002a, p. 31) sobre pesquisa qualitativa em psicologia que enfatiza o reconhecimento da singularidade do estudo, ou seja, não se pretende a partir da análise formulações generalizáveis, mas apreender o momento empírico a partir do conjunto de significações que são construídas tanto pelas(os) investigadoras(es) quanto pelos sujeitos investigados. Nesta perspectiva o olhar da(o) pesquisador(a) contribui para a construção do conhecimento. Esta compreensão faz-se indispensável para que se considere a pesquisa como um momento de produção, portanto, inacabado, visto a infinidade de interpretações e análises que se podem construir. Não pretendemos com esta pesquisa alcançar a verdade absoluta. As afirmações não almejam, porém, ser consideradas sem a fundamentação e embasamento indispensável para uma produção crítica e reflexiva, ou seja, o conjunto das discussões apontadas neste trabalho devem ser consideradas a partir da sua processualidade e também da coerência ético-epistemológica para que não caiamos nos vazios conceituais que tantas vezes costumam encher as prateleiras de livrarias e/ou bibliotecas. Coerente com a postura epistemológica acima afirmada de que a produção do conhecimento é construída na relação entre os sujeitos, optamos em “mesclar” o título deste trabalho utilizando-nos da fala de uma das entrevistadas e de conceitos acadêmicos para evidenciar a dialeticidade inerente à produção do conhecimento. A escolha da fala deve-se à presença de diversos elementos, objetos desta análise. A seguir estaremos apresentando a estrutura dos capítulos que compõem esta pesquisa, sendo que os capítulos I e II referem-se aos aspectos conceituais e às categorias analíticas. O capítulo III, por sua vez, aprofunda a discussão a partir da análise dos dados obtidos, 6 relacionando-os aos aspectos teóricos anteriormente abordados. No primeiro capítulo Subjetividades: um olhar sobre a constituição dos sujeitos, apresentamos a noção de subjetividade que, segundo González Rey (2002a), refere-se a um sistema de significações e sentidos produzidos a partir das relações entre o objetivo e o subjetivo, ou seja, é um fenômeno complexo que se expressa em dois momentos: o individual e o social. Nesta análise referenciamo-nos, especialmente à concepção de singularidade como aspecto essencial, produto/produtor de sentidos que se pretendem criativos em relação à realidade homogeneizante. A identidade como outro aspecto que constitui a subjetividade é compreendida aqui, como fator que permite aos sujeitos constituírem-se e identificarem-se na relação com o outro. No segundo capítulo Movimentos sociais do campo e juventude rural, abordamos inicialmente uma conceituação geral destas categorias de análise, para posteriormente determos-nos aos imbricamentos entre juventude rural e movimentos sociais do campo no oeste catarinense. Para análise dos movimentos realizamos um estudo detalhado a partir das contribuições de Scherer-Warren (1993), Gohn (2006), Strapazzon (1997) e Poli (1999), que entendem os movimentos como formas legitimadoras através das quais os sujeitos lutam pela transformação no sistema de dominação, ou seja, buscam contrapor-se à institucionalização política. Neste mesmo capítulo, em nossa análise a respeito da juventude rural, optamos pela compreensão de que a juventude além do elemento biológico, constitui-se pelas dimensões sócio-culturais e políticas. Este posicionamento está baseado nas colocações de Sallas e Bega (2006) que evidenciam a necessidade de conhecer quais são os parâmetros que o grupo utiliza para definir a juventude. Estamos falando assim, de juventudes, numa alusão às diversas possibilidades de ser e existir. No que se refere ao oeste catarinense buscamos fazer o resgate das interfaces entre a emergência dos movimentos sociais do campo e a inserção das(os) jovens nesta realidade. No terceiro capítulo Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude rural co-relacionamos os dados empíricos com o olhar que embasa este trabalho. A ênfase está na análise da singularidade e da trajetória dos sujeitos envolvidos em movimentos sociais, a partir de uma perspectiva que indique as contradições inerentes à própria constituição histórica dos sujeitos. E falando em história... Vamos a ela! 7 1. Subjetividades: um olhar sobre a constituição dos sujeitos Para uma discussão aprofundada é imprescindível problematizar e contextualizar de que subjetividade estamos falando. Há diversas abordagens que trabalham com esta noção ou seus correlatos1, porém, evidencia-se em grande parte da literatura relativa a este conceito a reificação desta categoria de análise, em que hora se acentuam os aspectos intrapsíquicos de constituição do sujeito, outrora este se apresenta como simples resultado do ambiente. Assim, a proposta de análise da realidade vem ao encontro do que Freire (1987, p. 37) afirma sobre a relação entre objetividade e subjetividade como aspectos inerentes à constituição do sujeito quando aponta que: A objetividade dicotomizada da subjetividade, a negação desta na análise da realidade ou na ação sobre ela, é objetivismo. Da mesma forma, a negação da objetividade, na análise como na ação, conduzindo ao subjetivismo que se alonga em posições solipsistas, nega a ação mesma, por negar a realidade objetiva, desde que esta passa a ser a criação da consciência. Nem objetivismo, nem subjetivismo ou psicologismo, mas subjetividade e objetividade em permanente dialeticidade. Amparando-nos nas discussões de González Rey (2002a, 2004), que define a subjetividade como um processo que é simultaneamente interno e externo, intrapsíquico e interativo, desvela-se como uma importante contribuição no sentido da não dicotomização entre objetivo e subjetivo, um movimento dependente do contexto cultural em que o sujeito está inserido. Portanto, o ser humano pode ser definido apenas a partir da sua processualidade, pois está imbricado num complexo processo de combinação/relação dos aspectos “internos” do desenvolvimento e das condições “externas”. É o que Vigotski apud González Rey (2004) define como situação social do desenvolvimento. A dimensão subjetiva da psique só existe dentro da vida cultural, e constitui-se ao nível psicológico por configurações de sentido e significado que não são reguladas diretamente por sistemas externos e nem mesmo pela cultura da qual emerge. Estamos falando de singularidade que é a constituição da realidade diferenciada na história de vida do sujeito. Compartilhando desta perspectiva Lane (2002) esclarece que a subjetividade é construída na relação dialética entre o indivíduo e a sociedade e as suas instituições, sendo que estas relações são mediatizadas pelas emoções, pela linguagem e pelo pensamento que 1 Entre estes correlatos podemos nos referir à consciência, percepção, relação do sujeito com o ambiente, etc. 8 orientam o processo de subjetivação/objetivação da psique humana. Desta forma, não se pode falar de um sujeito descolado da realidade em que se constitui, visto que: Uma pessoa é a síntese do particular e do universal, ou seja, sua individualidade se constitui, necessariamente, na relação objetiva com o seu meio físico, geográfico, histórico e social que irão, através de suas ações, desenvolver o psiquismo humano constituído, fundamentalmente, pelas categorias: consciência, atividade e afetividade (idem, p. 12). Ratificando estas contribuições de Lane, Sawaia (2006) detém-se no imbricamento entre afetividade, estética e imaginação como elementos constituintes da subjetividade. Cabe aqui fazer alusão à noção de afeto, pois vem ao encontro das discussões referentes ao olhar científico sobre a realidade que relegou ao posto do esquecimento a afetividade, por considerá-la fator de erro na análise dos homens e mulheres, causando a cisão entre racional e afetivo. A partir da crítica de Pinto (2005) a esta dissociação, é possível evidenciar a afetividade como um aspecto que está implicado na organização do pensamento, ou seja, a organização dos pensamentos influencia nossos sentimentos e da mesma forma o sentir assume uma função organizativa do pensar. A afetividade engloba uma organização de significados e conteúdos psicológicos como tristeza, amor, paixão, inveja, etc. Ora, se afeto é a capacidade do ser humano de afetar e ser afetado, é potência humana que provoca transformações em nossa existência, aumentando ou deprimindo a nossa ação, como podemos negá-la como potencialidade de transformação e de (re)invenção de formas de sociabilidade e como elemento constitutivo do pensamento/ação? Acreditamos que afetividade é um aspecto sine qua non para a constituição de sujeitos singulares, pois afeto é potencial de criação. Mas afinal de contas... Como esta produção de subjetividade, que se desenvolve de maneira contínua e inacabada, ocorre? Que processos estão envolvidos e arrolados no desenvolvimento ontológico do ser humano? A categoria sentido passa necessariamente pela dimensão do singular e pode auxiliar-nos no desdobrar destas perguntas e evidenciar possíveis compreensões sobre os processos que estão engendrados na constituição do sujeito. 1.1 A subjetividade e o processo de singularização e criação A singularidade como forma de expressão da subjetividade foi, durante um determinado período da produção científica (final do século XIX até meados do século XX), rechaçada por não apresentar os requisitos de cientificidade vigentes até então. A partir do 9 momento em que a subjetividade passa a ser considerada como aspecto fundamental na e para a investigação científica, a singularidade também “ganha espaço” como fonte de discussões e análises, questionando os projetos que visavam encontrar a regularidade e a essência da condição humana. Para o estudo, portanto, da singularidade torna-se essencial discutir o processo pelo qual o ser humano (re)produz a realidade. Segundo Gozález Rey (2004, p. 53) é o sentido que nos diferencia e nos possibilita receber e produzir a realidade num “nível” qualitativamente diferenciado. Assim, A categoria de sentido favorece uma representação da subjetividade que permite entender a psique não como uma resposta, nem como um reflexo do objetivo, e sim como uma produção de um sujeito que se organiza unicamente em suas condições de vida social, mas que não é um efeito linear de nenhuma dessas condições. Se o sentido não é algo pronto, cabe-nos tentar conhecer quais processos estão inerentes à constituição do sujeito num determinado momento histórico-político-cultural, que o fazem perceber, sentir, desejar determinadas formas de ser e experienciar a existência ou, conforme afirma González Rey (2004, p. 55): “tentar conhecer a produção social dessa forma de sentir”. As contribuições de Guattari e Rolnik (1993) sobre a economia capitalística2 desvelam os mecanismos de produção de subjetividade coletiva centrada no capital. Estes mecanismos produzem algumas formas de sentir que são assumidas e vivenciadas na existência particular do sujeito, ou seja, “A subjetividade está em circulação nos conjuntos sociais de diferentes tamanhos: ela é essencialmente social, e assumida e vivida por indivíduos em suas existências particulares” (Grifos dos autores, p. 33). A forma pela qual o sujeito assume esta subjetividade em circulação oscila entre dois extremos e suas nuances: desde o processo de alienação e opressão, em que o sujeito incorpora completamente a subjetividade tal como a recebe, até o processo de singularização, em que o sujeito reapropria-se dos componentes da subjetividade, numa relação de expressão e de criação de outras formas de experienciar. No entanto, por mais que o sujeito esteja vivenciando um processo de alienação ou de singularização num determinado momento de sua história, é indispensável considerar que estes processos não são introduzidos, mas passam necessariamente pelas construções de sentido do sujeito, ou seja, o sujeito apropria-se das construções coletivas de forma particular. 2 A economia capitalística é uma expressão cunhada por Guattari para definir o modo de organização social das sociedades hodiernas que busca incluir, não somente as economias dos países centrais, mas também as economias socialistas burocráticas e dos países periféricos. 10 Portanto, “Nenhuma experiência social tem um sentido universal para aqueles que a vivenciam” (GONZÁLEZ REY, 2004, p. 91). Este processo de apropriação e produção de sentidos constitui as identidades dos sujeitos. 1.2 Identidade como elemento constitutivo das subjetividades Mercer (1990, apud Hall 2001) afirma que a identidade torna-se uma questão quando está em crise, quando algo que se considerava estável, fixo e coerente, passa pela experiência da dúvida e da incerteza. Portanto, a identidade só é percebida quando se vivencia uma confrontação entre valores, conceitos e emoções. Está intrinsecamente relacionada à percepção do outro, definido por Renk (2005) como aquele que é diferente do eu, do mesmo, pois não compartilha dos meus ideais e da minha visão de mundo. Complementando estas colocações, González Rey (2004, p. 158) indica que “A identidade é uma dimensão subjetivada do sujeito, que só aparece na confrontação com as experiências novas que o ameaçam em sua possibilidade de identificá-las como próprias”. Aponta também que se torna indispensável o processo de reflexão do(s) sujeito(s) para a constituição de identidades. Esta constituição somente ocorrerá nos espaços de ação do sujeito que lhe fizerem sentido. Embora diversas perspectivas teóricas questionem as identidades por considerá-las como processos que impedem a singularização, acreditamos que esta noção pode contribuir para a apreensão sobre a realidade que investigamos. Interessa-nos aqui, aprofundar o conceito de identidade social/coletiva e política, que segundo Prado (2002), são elementoschave para a análise dos imbricamentos entre subjetividade e movimentos sociais. Ao referirmo-nos ao conceito de identidade social/coletiva estamos falando sobre o sentimento de pertença, ou seja, a percepção que o sujeito tem sobre si e a sensação de que é acolhido por determinado grupo ou comunidade. A identidade política, por sua vez, refere-se a um conjunto temporário de significados que se modificam na medida em que o processo de enfrentamento e da percepção dos interesses divergentes entre grupos tornam-se mais evidentes devido ao próprio processo de reflexão do sujeito e/ou grupo ao qual pertence. Prado (2002, 2005) compreende que para a constituição das identidades políticas o processo de mobilização social é indispensável, pois é através do desenvolvimento da consciência política que os sujeitos poderão propor novas formas de sociabilidade. Neste processo de mobilização social, o autor destaca a importância e a inerência do processo psicossocial que envolve a identificação coletiva, a passagem das relações de subordinação para a consciência da condição da opressão e a delimitação de fronteiras políticas entre grupos 11 sociais. São estes elementos que contribuem para a percepção diferenciada sobre a realidade social e a busca por novos jeitos de viver e conviver. Porém, para que este processo ocorra, Tajfel (1984, apud Prado 2002) analisa a passagem da mobilidade à mudança social através do processo de mobilização social. A mobilidade social refere-se a um processo quase sempre individual e que se apóia na crença da possibilidade de mudança livre de uma posição social para outra, sendo percebida pelos sujeitos como mais flexível e com maior possibilidade de resultados positivos neste empreendimento. A mobilização social, por sua vez, remete à compreensão de que a mudança social só é possível quando realizada em e pelo grupo, pois há uma identificação entre os membros de uma determinada situação que os leva, coletivamente, a lutar para alterações na estrutura social. O autor destaca ainda, o fato de que a identidade política é constituída nos espaços de reflexão, em que as relações passam a ser percebidas como num campo de forças antagônicas. Esta compreensão de que as identidades vão se constituindo a partir das disputas, possibilita a apreensão não apriorística sobre a identidade, percebendo-a como movimento que se constitui incessantemente a partir do confronto entre os diferentes grupos. Porém, além destas divergências entre grupos é imprescindível considerar as “querelas” internas, que se estabelecem nas relações cotidianas intra-grupais, pois não devemos ser “ingênuas(os)” a ponto de crer que nas relações que se estabelecem entre os sujeitos pertencentes a um mesmo grupo, há participação eqüitativa e igualitária, como se todos tivessem o mesmo direito a falar (por mais que os discursos sempre apontem para esta preocupação). Como enfatizamos anteriormente, a subjetividade é constituída/constituinte das relações entre os seres humanos e a contradição é inerente a este processo. Não há como negar a história particular de cada sujeito que se apropria e produz formas diferenciadas de relações de poder na intersecção com o(s) outro(s). Estas apreciações são imprescindíveis para a percepção da indeterminação humana e para o seu devir sempre possível. A ação humana está no campo da criação e da inventividade, portanto, não se define e não se delimita. É com o olhar que se detém para a capacidade de engenho e de potência de criação humana que procuramos analisar as subjetividades das(os) jovens rurais. 12 2. Movimentos sociais do campo e juventude rural Estaremos abordando no primeiro momento deste capítulo os conceitos de movimentos sociais e de juventude a partir de uma perspectiva crítica e mais geral e, em seguida, deter-nos-emos às especificidades e imbricamentos entre movimentos sociais do campo (centrando-nos na realidade do oeste catarinense) e a juventude rural envolvida nestes movimentos. 2.1 Conceituando movimentos sociais Existe uma grande dificuldade na sistematização de um conceito sobre os movimentos sociais. Gohn (2006) denota uma grande fragilidade nas construções teóricas e interpretações que se devem às próprias transformações ocorridas tanto ao nível dos objetivos e demandas dos atores sociais quanto às próprias alterações nas perspectivas epistemológicas dos investigadores e às mudanças sócio-econômicas da sociedade ampla. Embora Strapazzon (1997) direcione suas análises para os movimentos sociais rurais, suas investigações apontam três principais tendências de estudos sobre os movimentos sociais que emergiram durante as décadas de 1970 e 1980: a estruturalista-determinista, a político-institucional e a pluralista-articulista. A abordagem estrutural-determinista tem o enfoque no viés econômico, enfatizando as contradições resultantes da entrada do capitalismo no meio rural. Esta perspectiva tem embasamento no marxismo, em que a condição social determina por si própria, as relações antagônicas, dividindo os sujeitos entre burguesia e proletariado, cabendo aos últimos o protagonismo para a transformação da sociedade. Assim, os movimentos sociais rurais são subordinados e reificados à condição de luta de classes. A abordagem político-institucional enfatiza as análises na falha dos sistemas representativos na defesa dos interesses dos(as) trabalhadores(as) rurais. Esta falha seria suprida pelos movimentos sociais que buscariam garantir os direitos que as organizações as quais estão vinculados não conseguiam efetivar. Compartilhando da perspectiva de que estas abordagens possuem impasses metodológicos, Gohn (2006) propõe algumas demarcações que não devem ser vistas como limitadoras das discussões a respeito de movimentos sociais, mas como um olhar, 13 um referencial a partir do qual se discuta e se reflita sobre as construções teóricas e as práticas direcionadas aos movimentos sociais. As discussões e análises da autora desenvolvem-se no campo da política, considerando os movimentos sociais como expressões de poder da sociedade civil que ocorrem sempre em contextos de força social, ou seja, no espaço da contradição. É neste sentido que a abordagem pluralista-articulista apresentada por Strapazzon (1997) converge com as considerações de Gohn (2006), pois concebe a sociedade a partir da pluralidade de sujeitos que se constituem através de diversificadas formações discursivas. Assim, os movimentos sociais seriam articulações de diversos discursos, mobilizadores de diferentes significações que se unificam em prol de direitos negados ou na reaquisição do que lhes foi retirado. A ênfase, todavia, não recai sobre as condições materiais, ou seja, as condições objetivas. Estas são, na verdade, a “[...] matéria-prima que potencialmente alimenta as reivindicações” (STRAPAZZON, 1997, p. 19). Desta forma, a análise enfoca o processo de articulação a partir das formações discursivas dos atores sociais que atribuem significado ao processo. Este processo de atribuição de significado é decorrente das ações e das interações com outros atores e não de ações isoladas dos atores sociais. O principal aspecto da perspectiva pluralista é o não determinismo tanto no que se refere à emergência quanto ao desenvolvimento dos movimentos sociais. Este aspecto é essencial na medida em que possibilita a apreensão dos sujeitos de forma nãoapriorística. A principal contraposição desta perspectiva às anteriores refere-se à visão essencialista e determinista que aquelas concepções apresentam sobre os movimentos sociais e os atores sociais, não permitindo a percepção das singularidades dos envolvidos neste processo, muito menos as contradições inerentes, vislumbrando apenas o ideal de um ator social e não o sujeito concreto, falível, que se constitui na dialeticidade e na divergência. Cabe-nos agora resgatar também alguns aspectos teóricos apresentados por Gohn (2006) para a definição de parâmetros que auxiliam na conceituação sobre movimentos sociais, embora corramos o risco de delimitar demais estas apreensões. Os movimentos sociais podem ser entendidos, a partir desta perspectiva, como ações sociopolíticas promovidas por atores sociais coletivos. São ações “aclassistas”, ou seja, 14 não são resultado de uma carência sócio-econômica, mas produto das disputas entre forças divergentes e antagônicas. Trata-se de um espaço não institucionalizado de formulação de identidades coletivas que são sustentadas por princípios valorativos, políticos e ideológicos compartilhados pelos atores sociais, o que não significa dizer que estes espaços de construção coletiva sejam isentos de contradições, conflitos e tendências internas. Todos estes elementos devem ter uma sustentação, uma ancoragem, a base que mantém os pilares, ou seja, o projeto político-social. É este projeto que possibilita a mobilização dos sujeitos ou atores sociais em prol de um objetivo maior. É o que Scherer-Warren (1993, p. 27) define como a utopia. O utopianismo pode ser entendido como o aspecto ideológico dos movimentos sociais, é a crença que permite ao grupo manter-se “engajado na e pela causa”, ou seja, é a meta, o sonho almejado de uma sociedade diferente, a busca pelo novo, mas que é sempre acompanhado por certo grau de incerteza, de dúvida sobre a possibilidade da concretização do projeto. Apesar de toda a repressão e violência que, conforme Gohn (2006) e SchererWarren (1993) apontam em suas análises, insistiam estar presentes durante o período da ditadura militar e, talvez, até mesmo por este cerceamento da liberdade e dos direitos humanos é que, principalmente, nas décadas de 70 e 80 do século XX, diversos movimentos sociais eclodem reivindicando a garantia da dignidade humana, expressas na busca pela cidadania. Estes movimentos que priorizam a cidadania e articulam-se em redes vão constituindo o que os teóricos têm classificado sob a premissa de “Novos Movimentos Sociais”. Nesta busca pelo “novo” destacamos que estes movimentos passam a valorizar aspectos que anteriormente estavam na dependência de setores como a Igreja ou o Estado que, embora “proclamassem” a necessidade de os sujeitos rebelarem-se contra a dominação, exerciam a domesticação na medida em que se consideravam os representantes legais destes movimentos sociais. Estas reivindicações produziram ecos que podem ser expressos na preocupação dos governos em relação à situação de não-acesso aos direitos. Esta é uma conquista que deve muito à participação de movimentos sociais da sociedade civil. Assim, as lutas sociais contribuíram para a concepção de visões mais ampliadas da relação Estado/sociedade e, para uma apreensão diferenciada sobre a sociedade civil. 15 2.2 Conceituando juventude A idéia de juventude como uma fase específica da vida e relacionada a uma determinada faixa etária é recente na história da humanidade. Estaremos resgatando assim, alguns aspectos históricos de como esta concepção/idéia sobre o que é ser jovem foi se constituindo. Ariès (1981), em sua análise sobre os efeitos da civilidade na constituição do sujeito contemporâneo enfatiza que nossos hábitos de identidade civil estão ligados a três mundos: o nome, que pertence ao mundo da fantasia, o sobrenome à tradição e a idade à exatidão e ao número. Durante a Idade Média a preocupação com as “idades da vida” era do domínio científico, porém, as categorias infância e puerilidade, juventude e adolescência, velhice e senilidade são apropriadas pelo senso comum a tal ponto que hoje não se tem mais idéia da importância dessas categorias nas antigas representações do mundo. Sendo assim, “As idades da vida não correspondiam apenas a etapas biológicas, mas a funções sociais; sabemos que havia homens da lei muito jovens, mas, consoante a imagem popular, o estudo era uma ocupação dos velhos” (ARIÈS, 1981, p. 9). No final da Idade Média não havia restrições para a utilização da palavra infância. Muitas vezes foi empregada para definir pessoas com 14 ou até mesmo 28 anos. Foi durante o século XVII que, entre a burguesia, o sentido moderno de infância e de juventude é delineado. A arbitrariedade até então vigente na concepção destas categorias deve-se ao fato de que os fenômenos biológicos (puberdade) eram indiferentes. Infância era sinônimo de dependência e somente quando se saía dessa condição poderia considerar-se ao sujeito como adulto, ou seja, a juventude não era um período específico e relevante durante a Idade Média. O século XX vê “proliferar” a concepção latente de adolescência, separando a distância entre a infância e a maturidade. Nas palavras de Ariès (1981) “A consciência da juventude tornou-se um fenômeno geral e banal após a guerra de 1914, em que os combatentes de frente de batalha se opuseram em massa às velhas gerações de retaguardas” (p. 14-15). As contribuições de Bourdieu (1983) sobre o “conceito” de juventude convergem com a perspectiva de Ariès (1981), pois em sua crítica às visões 16 essencialistas sobre o que é a juventude o autor indica a arbitrariedade das divisões etárias. Ou seja, ambas as perspectivas denotam que os critérios para a definição de uma determinada condição estão intrinsecamente relacionados aos aspectos culturais, históricos e políticos de uma determinada sociedade. Chama-nos a atenção o título do artigo de Bourdieu (1981): A “juventude” é apenas uma palavra, destacando a compreensão de que se trata de uma categoria social, objeto de disputas de poder, sendo passível de manipulação conforme as necessidades e os interesses que estão em jogo nas relações sociais. Sendo assim, segundo o autor: “As classificações por idade (mas também por sexo, ou, é claro, por classe...) acabam sempre por impor limites e produzir uma ordem (...) em relação à qual cada um deve se manter em seu lugar” (Grifos do autor, p. 112). Sallas e Bega (2006) enfatizam neste sentido, a necessidade de considerar a juventude a partir do contexto de relações em que está inserida, evitando precipitações e análises equivocadas que não dão conta das realidades específicas de construção e de constituição das diferentes identidades do ser jovem. Reis (2006), dando seqüência a estas reflexões, aponta que é essencial abordar a temática a partir da noção de juventudes – no plural – indicando a multiplicidade de expressões dos jovens nos diferentes contextos. Juventude, no singular, refere-se a um determinado momento da vida, manifestando-se na trajetória pessoal como um imbricamento entre a construção coletiva e a singularidade. Segundo Mayorga (2006) a imposição da ordem do que é ser jovem na atualidade tem centralidade na visão adultocêntrica. É neste sentido que há uma tendência preponderante de discutir a juventude a partir das visões de falta, de inadequação e de desvio, legando-lhe o não-lugar ou o lugar da invisibilidade. Sousa (2006), no prefácio do livro Jovens e crianças: outras imagens, denuncia o fato de que a juventude vive uma situação ambígua na contemporaneidade, pois hora é enaltecida e outrora ignorada, percebida como marginal, ou consumista – dependendo da classe econômica à qual pertença. A proposta para o segundo momento deste capítulo é um desafio, mas também uma tentativa de contextualizar a realidade do oeste catarinense e dos(as) jovens como agentes múltiplos e que se constituem nesta territorialidade. É neste sentido que estaremos apontando para a emergência dos movimentos sociais do campo nesta região 17 e a implicação da juventude nesta realidade, seja na perspectiva de manter-se no meio rural, seja como necessidade de buscar outros espaços de sociabilidade. 2.3 O contexto dos movimentos sociais do campo e a juventude rural no oeste catarinense Os movimentos sociais do campo emergem no oeste catarinense num determinado contexto histórico, político e econômico. Desta forma, consideramos essencial explicitar a realidade que possibilitou a constituição destes movimentos. Concomitante à emergência dos movimentos sociais do campo, os jovens deparam-se com uma nova realidade que também fará parte das discussões a seguir. A partir de meados dos anos 1970, as mudanças advindas do processo de modernização agrícola impuseram aos agricultores familiares a adoção de novas práticas produtivas e tecnológicas que ocasionaram transformações significativas em seus processos produtivos e modos de vida baseados no campesinato tradicional. A emergência dos movimentos sociais do campo no oeste catarinense, na década de 1980, tem como elemento aglutinador a precariedade de vida e trabalho que os pequenos agricultores vivenciam a partir deste processo conhecido como Revolução Verde. Segundo Renk (2000) e Poli (1999), principalmente a partir da segunda metade da década de 1970, a divisão interna do trabalho na unidade camponesa passou a sofrer mudanças, impedindo a reprodução da família nos moldes tradicionais. A exigência de incorporação de tecnologias (máquinas, insumos, herbicidas, etc), visava cada vez mais uma produção voltada para o mercado, ocasionando a descapitalização de muitas famílias e a desestabilização na produção agrícola. Atrelada à pauperização deste modo de organização social da agricultura, constata-se a escassez de alternativas para reprodução social no campo, impelindo ao êxodo rural. Faz-se necessária, neste momento, uma pausa para aprofundarmos a discussão sobre o processo de reprodução social da agricultura familiar, visto tratar-se de um conceito essencial para a apreensão do contexto investigado. A reprodução social caracteriza-se, conforme Renk (2000) explicita em sua análise a respeito da crise vivenciada no oeste catarinense, por um modo de organização social que integra os processos de longa e curta duração. A reprodução social de longa duração refere-se à manutenção, reposição e transmissão dos aspectos constituintes de um determinado 18 modo de ser de geração para geração, ou seja, é a composição dos elementos identitários, valorativos, laborativos que são transmitidos intergeracionalmente, constituindo o processo que se denomina “devolução intergeracional”. A reprodução social de curta duração refere-se às práticas cotidianas que estão pautadas nos princípios valorativos constituintes e constituídos no movimento intergeracional. A crise vivenciada na agricultura tem implicações profundas neste modo de organização pautado nos princípios do campesinato. O jovem, neste contexto, não vê perspectivas de continuidade e, se no período anterior à crise, o anseio de permanência e de continuidade mobilizava a todos os membros familiares, fazendo com que muitos jovens deserdados sentissem-se excluídos de sua condição camponesa, o período posterior é de dificuldade para o encontro de sucessores na reprodução social do campesinato (RENK, 2000). Diante deste contexto vários movimentos sociais camponeses emergem, preocupados em buscar novas estratégias de reprodução social para as famílias de agricultores. Poli (1999) chama a atenção para o fato de que estes movimentos iniciam suas manifestações em momentos quase simultâneos, num espaço muito curto de tempo. Eclodem as reivindicações nos mais diferentes âmbitos, dando início à trajetória do Movimento de Oposição Sindical, o Movimento das Mulheres Agricultoras3 (MMA), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), todos analisados pelo autor como “Novos Movimentos Sociais”. Os movimentos sociais no campo sempre estiveram relacionados uns aos outros, na medida em que muitas das questões tratadas por eles são comuns, constituindo a perspectiva de redes. Esta perspectiva de redes é concebida por Scherer-Warren (1993) e Strapazzon (1997) como a crítica ao marxismo ortodoxo, pois busca ultrapassar a visão de um sujeito único, englobando a heterogeneidade em prol da integração de diversidade, ou seja, não mais a unicidade, mas a pluralidade de vozes e de atores envolvidos que buscam a articulação entre o local e o global, entre o particular e o universal. No intuito de apreensão das especificidades de cada um dos movimentos acima 3 Na atualidade há duas vertentes principais às quais não iremos nos aprofundar: o Movimento das Mulheres Agricultoras (MMA) e o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC). Na nossa pesquisa, as entrevistadas optam pela denominação de MMC. 19 referidos estaremos a seguir abordando alguns aspectos que os diferenciam. Salientamos que seria muita pretensão considerarmos este breve resgate como uma análise aprofundada, porém, não podemos deixar de tecer algumas apreciações, pois estes movimentos constituem-se como pano de fundo da temática, sendo que o essencial nesta discussão é evidenciar a participação e o envolvimento da juventude neste contexto. O Movimento da Oposição Sindical (também conhecido como Sindicato Combativo) inicia suas atuações a partir do final da década de 1970, contrapondo-se à perspectiva vigente no sindicalismo oficial que se caracterizava essencialmente por estar atrelada ao Estado e por sua conduta assistencialista. Segundo Poli (1999) este “novo” jeito de organizar-se tem como princípios a desvinculação em relação ao Estado, a busca pela autonomia e a garantia de direitos relacionados à viabilização da permanência dos(as) trabalhadores(as) no campo. As principais reivindicações e proposições quando houve a assunção das Oposições Sindicais na gestão dos sindicatos referem-se à: “[...] sindicalização da mulher agricultora, a criação de delegacias sindicais nas comunidades, o estímulo à organização e o investimento na formação de lideranças e no processo de informação dos associados” (POLI, 1999, p. 88). Atualmente existem diversas bases sindicais às quais as(os) agricultores(as) podem associar-se. Optamos realizar a pesquisa através da Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (FETRAF-Sul) devido à proximidade ideológica desta organização sindical em relação aos movimentos sociais do campo. Num primeiro momento em que o MMC estava em processo de organização, a ênfase sobressaltava sobre os aspectos classistas que, pouco a pouco vão cedendo espaço para as discussões sobre as relações entre homens e mulheres. Poli (1999) ressalta que as questões de gênero sempre estiveram implícitas, porém, vão ganhando força na medida em que estas mulheres politizam-se e reconhecem as relações de opressão presentes também no campo, tanto no que se refere ao reconhecimento de seus direitos trabalhistas e de agricultoras quanto à sua condição de ser mulher. O MAB organiza-se na defesa dos(as) trabalhadores(as) rurais que foram ou serão atingidos pela construção de barragens. As principais reivindicações apontadas por Uczai (1992), pautam-se no questionamento aos projetos que originam estas 20 barragens, pois as pessoas atingidas não participam do processo de construção destes projetos que implicam diretamente em suas vidas e em seu modo de organização do trabalho. Inicialmente o movimento organizava-se para garantir indenizações ou reassentamento através das bandeiras de luta: “Indenização justa para nossas terras” e “Terra se troca por terra e não por dinheiro”, dividindo as opiniões entre os atingidos. A estas reivindicações acrescentou-se a tentativa de impedir a construção das barragens devido à problematização realizada pelo movimento referente ao modelo energético brasileiro, pois há outras formas de produção energética menos “destruidoras” do ambiente, incluindo os aspectos econômicos, políticos e sociais. As lutas e reivindicações de trabalhadores(as) do campo para conquistar a posse de terra não emergiu, segundo Poli (1999), em um único local, nem é uma experiência específica ou isolada. Trata-se da organização de agricultores(as) sem terra através do MST que buscam garantir o acesso a um bem universal, mas que devido à entrada do capitalismo na agricultura encontram-se despojados desta possibilidade. O movimento denuncia uma grande contradição: a existência de grandes áreas improdutivas versus expropriados que perderam suas terras ou nunca a acessaram. A partir desta breve contextualização referente à atuação dos movimentos sociais do campo, faz-se indispensável enfatizar a participação e o envolvimento da juventude que tem se destacado nas preocupações e debates realizados pelos movimentos. Estas discussões advêm da problemática recente da saída do jovem do campo que, não encontra muitas perspectivas para a sua continuidade. Segundo aponta a cartilha da Rede CEPAGRO de Desenvolvimento Local4 (2001) vários fatores convergem para o êxodo da juventude rural, tais como: perspectiva de que a cidade proporciona melhores condições financeiras, a possibilidade de continuação dos estudos, as dificuldades na agricultura e a impossibilidade de sucessão hereditária devido à falta de terras. Brumer (2006) indica neste sentido, que estes aspectos fazem parte de duas categorias diferenciadas para a saída da juventude do meio rural: os fatores de atração da cidade e os fatores de expulsão do campo. Aponta para o fato de que: “[...] na decisão de migrar, provavelmente os fatores de expulsão são anteriores aos de atração, 4 A Rede CEPAGRO de Desenvolvimento Local compõem-se pelas seguintes entidades: APACO; CEMEAR; CEPAGRI; CEPAGRO; FETRAF-Sul; Centro VIANEI de Educação Popular; e TERRA NOVA Assessoria Ecológica. 21 na medida em que os indivíduos fazem um balanço entre a situação vivida e a expectativa sobre a nova situação” (BRUMER, 2006, p. 3). As contribuições de Stropassolas (2003) sobre a permanência ou não da(o) jovem no campo são instigadoras para que não se naturalize nenhuma das situações, ou seja, o autor denuncia posições extremistas que não vêem a possibilidade de sucessão hereditária, com a fatalidade representada pela saída da juventude sem perspectiva de manutenção. Da mesma forma critica as posições que pretendem a permanência da(o) jovem no campo a todo custo, desconsiderando as suas vontades e os seus anseios. No que se refere à migração de jovens rurais, o autor apresenta diversas indagações que consideramos pertinente apresentar, pois vão de encontro a estas perspectivas impregnadas em diferentes âmbitos, desde o mundo acadêmico até as lideranças e os representantes políticos: “Por que este é um problema? Para quem? O movimento (migratório) não seria também, para as famílias e para os jovens, uma das estratégias possíveis em busca de solução para os seus problemas e expectativas?” (p. 150-151). Chama a atenção o fato de que Stropassolas (2003) denomina a esta solução como uma estratégia, ou seja, parte do pressuposto da necessidade do processo reflexivo em que diversas possibilidades estão colocadas para o sujeito e, que entre estas optou, decidiu conscientemente sobre uma das possibilidades. Porém, este processo reflexivo não é uma constante na maioria das famílias e dos(as) jovens que optam pelo êxodo. A escolha é na maioria das vezes, como apontado anteriormente, resultante da dificuldade de vislumbrar outras possibilidades e estratégias que não a migração. Diante do exposto evidencia-se a complexidade e os diferentes imbricamentos que contribuem para a permanência ou não da juventude no campo. Ressaltamos que estes aspectos referentes à realidade de o jovem querer ou não se apropriar dos elementos do ideal campesino são constituintes e constituídos nas relações sociais. O jovem apropria-se e produz sentidos sobre o contexto em que está inserido. É para a análise dos processos de produção de subjetividades de jovens envolvidos em movimentos sociais que estaremos aprofundando as discussões no próximo capítulo. As próximas análises serão referentes a um recorte da realidade, portanto, não se insinuam como verdades absolutas. Pretendemos, no entanto, abarcar algumas possibilidades de compreensão a partir da complexidade, por considerá-la menos reificadora da realidade. 22 3. Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude rural A proposta deste capítulo é um desafio e ao mesmo tempo a possibilidade de aprofundarmos a nossa compreensão e olhar sobre a realidade investigada. Organizamos o capítulo em três eixos temáticos: A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de jovens rurais; Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a juventude?; A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do campo;, que foram definidos após o processo de categorização das entrevistas. Optamos pela utilização das iniciais dos nomes das(os) entrevistadas(os) no intuito de evitar a identificação das(os) informantes. Elegemos, num primeiro momento, dez categorias5, mas ao iniciarmos o processo da escrita, percebemos a possibilidade de condensá-las nestes eixos devido ao entrecruzamento destes elementos que se constituem a partir da complexidade e da trama de relações da vida, sendo assim, indissociáveis. A reestruturação em torno desta nova situação exigiu-nos selecionar alguns aspectos em detrimento de outros que não são menos importantes ou necessários para a análise, mas como a realidade possui (de)limitações que estão relacionadas ao próprio campo perceptivo de quem as vê e interpreta, este foi o recorte possível para o momento. Convidamos agora para que ouse fazer suas considerações sobre o que pensamos ser apenas uma “fatia do bolo”! 3.1 A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de jovens rurais Estaremos no momento seguinte explicitando a trajetória das(os) entrevistadas(os) e concomitantemente apresentaremos alguns aspectos referentes à nossa “aventura antropológica”. Consideramos essencial a realização deste processo, devido à própria perspectiva que nos orienta ser desveladora da impossibilidade de neutralidade na arte de pesquisar, incluindo os elementos que a constituem: pesquisador versus pesquisado, sujeito versus objeto, enfim, as dicotomias anteriormente criticadas. Sendo uma arte, não se sabe exatamente onde termina a idéia do criador e onde inicia a 5 As categorias de análise delimitadas no primeiro momento foram: Processo intergeracional; Trajetória pessoal no movimento; Preocupação em relação à juventude; Formação política; Discurso sobre identidade política e social; Conceito de juventude e juventude rural; Trabalho; Gênero; Alternativas para permanência no campo; Projetos e ações. 23 imaginação de quem se depara com a obra. Para subsidiar estas reflexões retomamos o conceito de subjetividade que, segundo González Rey (2002a) refere-se à integração das diferentes esferas da experiência humana que produzem formas de significação e sentido complexas, portanto, indissociáveis, dificilmente possíveis de segmentação. A trajetória tem o sentido da percepção da singularidade dos sujeitos no movimento, ou seja, buscamos apreender, diante do discurso ideológico que orienta as ações e reflexões dos movimentos sociais do campo, a forma particular com que cada sujeito entrevistado apropria-se e dimensiona a ideologia que embasa o movimento social. Nesta análise da trajetória consideramos essencial perceber os diversos aspectos que vão constituindo estas singularidades desde a demanda e as necessidades que mobilizaram o sujeito a participar de um determinado movimento social até a sua história pessoal, a sua inserção que tem aspectos sui generis. Silva (2004) em sua análise sobre a produção de subjetividades num assentamento do MST contribui para o questionamento destas produções nos diferentes movimentos investigados, afirmando que embora haja o forjamento de subjetividades hegemônicas, os sujeitos apropriam-se destes processos de maneiras distintas, constituindo modos particulares de vivenciar e experienciar a realidade do movimento social. A singularidade exige-nos retomar o conceito de sentido através do qual o objetivo transforma-se em psicológico. É este processo que possibilita o “colorido” e as “tonalidades” da vida. Pensando nestas nuances que caracterizam a vida e a pesquisa, não podemos deixar de referenciar uma situação que experienciamos após a realização das entrevistas com as(os) coordenadoras(es) dos movimentos. Partimos para as entrevistas com as(os) jovens que, porventura, o movimento houvesse indicado e, o primeiro movimento social que buscamos foi o MMC. Estávamos preparadas para entrevistar duas jovens envolvidas neste movimento social... Qual não foi a nossa surpresa quando nos aguardavam três jovens, sendo que uma delas não pertencia à microrregião de Chapecó! E o que fazer? No projeto delimitamos duas entrevistas individuais por movimento com sujeitos desta microrregião! Poderíamos simplesmente deixar-nos guiar pelos preceitos, por aquilo que estava prescrito, mas preferimos guiar-nos pela emoção do momento... Por que não entrevistar três jovens de forma coletiva? Foi o que fizemos. Esta situação foi de extrema importância para que pensássemos sobre as 24 imprevisibilidades, as descontinuidades que são inerentes à arte de pesquisar. É fato que estes pequenos imprevistos são importantes para que as(os) pesquisadoras(es) “desarmem-se” do seu controle rígido sobre os processos que constituem a pesquisa, “despindo-se” de fórmulas preestabelecidas, porém, sem perder o objetivo, a finalidade. O imprevisto auxiliou-nos na realização de entrevistas coletivas que possibilitaram evidenciar elementos da singularidade e da coletividade (objetivos da pesquisa). Além disso, o fato de uma das jovens não se “enquadrar” nos critérios de pertencimento à microrregião foi um aspecto que contribuiu para a nossa percepção de que os movimentos sociais são desterritorializados, não se caracterizam como especificidade de um lugar, mas abrangem a coletividade de sujeitos de diferentes localidades. Diante destas colocações que refletem o nosso próprio processo de produção de sentido a partir da relação dialética entre objetividade e subjetividade, debruçar-nos-emos agora às reflexões realizadas sobre as entrevistas com estas(es) jovens. Alguns mais falantes outros nem tanto, uns cativam no primeiro contato, para outros talvez fossem necessários mais contatos... Foram encontros muito breves a partir dos quais se evidenciaram pequenas lembranças das histórias de cada sujeito, narradas com ou sem entusiasmo. Cabe-nos ter clareza também, que nem sempre é possível transmitir a confiança que o outro necessita para expor sua vida a pessoas “estranhas” ao seu contexto e ao seu dia-a-dia. É necessário ter o discernimento em relação à presença do gravador como um elemento “estranho”, inibidor, pois não está presente na nossa experiência diária. Mas por que estamos detendo-nos a estes detalhes e minúcias? Acreditamos que são estes pormenores, tantas vezes desprezados no meio acadêmico, que fazem a diferença no que se refere à proposta desta pesquisa, ou seja, falar de subjetividade, de singularidade, exige-nos colocar no centro das reflexões os processos que são inerentes à sua constituição, versando a história de cada sujeito. Pois, [...] el sujeto representa um importante punto de confluência entre las subjetividades social e individual: el sujeto es resultado de su historia individual, en la cual se constituye como personalidad y, simultáneamente, representa un momento activo en la constitución de la subjetividad social, dentro de la cual se desarrolla de forma permanente como personalidad (GONZÁLEZ REY, 2002b, p. 27-28). As afirmações de González Rey (2002b) ratificam a necessidade de análise a partir do sujeito não reificado e ensimesmado, mas dialético, síntese da complexa trama 25 que o constitui e o faz singular. Na tentativa de fazer jus a estas colocações, estaremos abordando agora a inserção de cada sujeito entrevistado. J.A.P.S., mulher, 19 anos, militante do MST, iniciou sua trajetória em 2002 quando houve a ocupação que originou o acampamento Dom José Gomes, na Linha Água Amarela, do município de Chapecó, SC. [...] pra vim pra cá foram os trabalhos de frente de massa que o pessoal fazia nas regiões pobres e nós morávamos numa área que recém tinha sido regularizada ali perto do bairro São Pedro, atrás do CAIC. Tinha bastantes famílias lá que estavam em condições de passar fome, que tinham que catar papel pra sobreviver, que não tinham trabalho. Então o pessoal fez uma reunião com essas pessoas e nós éramos uma das famílias que estavam incluídas, então foi uma última alternativa de vida, de procurar uma vida melhor, aí nós resolvemos vir pra cá. O sentido acima apresentado é reconfigurado por esta militante, pois se inicialmente a perspectiva resume-se à possibilidade de sobrevivência, a participação no movimento social abre um leque de intenções que não se referem mais tão-somente à busca de moradia e de alimento, mas à percepção dos direitos como cidadã. Este processo de conscientização de uma condição social de exclusão para a condição de sujeito crítico e reflexivo advém do que Scherer-Warren (1993) afirma como as novas relações societárias que se estabelecem no coletivo do movimento social, em que as(os) atrizes/atores reapropriam-se das relações comunitárias politicamente, configurando-lhe um novo sentido, como sugere a seguinte fala da mesma entrevistada: Mas quando a gente vem pra cá, a gente vê que não é só terra que precisa. Precisa de terra, de saúde, de escola, de vida digna, de produtos saudáveis, de alternativas de cooperação, de crédito [...] O movimento trabalha essa questão do crédito, de a gente lutar por isso, de a gente saber que além da terra tem muitas outras coisas que a gente precisa, que é necessário (J.A.P.S., militante do MST). Chamou-nos a atenção neste processo de entrevista coletiva o fato de que, embora todas(os) passem pela mesma formação – e aí vem a questão da singularidade –, não exime das discussões feitas anteriormente que se referem às características pessoais de cada sujeito. As outras duas militantes do MST – L.K., 23 anos e J.A., 19 anos, mulheres – que participaram desta entrevista coletiva, talvez por timidez ou até mesmo pela nossa presença, dificilmente expressavam suas opiniões, apenas confirmavam as 26 considerações feitas por J.A.P.S. Foi com muito esforço que conseguimos obter alguns dados sobre a sua trajetória pessoal que abordaremos logo em seguida. Esta situação causou-nos certo constrangimento e até mesmo impotência, pois fizemos (ou acreditamos fazer) vários esforços no intuito de facilitar às entrevistadas que expressassem suas opiniões. Esta dificuldade contribuiu para nossos debates a respeito da singularidade e da prática de pesquisar. Será que não fomos percebidas como “intrusas”? Não sabemos, pois não realizamos um processo que consideramos agora fundamental: a devolução das análises para os sujeitos que fazem parte da pesquisa possibilitando que expressem suas opiniões, suas concordâncias e discordâncias. A trajetória de L.K., mulher, 23 anos, militante do MST de Chapecó – SC, diferencia-se da história das outras militantes do MST entrevistadas, pelo fato de que seus pais contribuem com o movimento desde o início das ocupações, porém, não estão em busca da terra. Neste sentido, esta jovem evidencia que o seu envolvimento está intrinsecamente relacionado com a trajetória vivenciada por seus pais que, apesar de possuírem um “pequeno pedaço de terra”, não tem condições de dividi-la entre as(os) filhas(os), incentivando-as(os) a buscarem no MST a alternativa para a reprodução social do modo de vida baseado na agricultura familiar. L.K.: Meu pai sempre ajudou, desde 85, no início do movimento, ele sempre ajudou nas ocupações, ia por todo o estado [...] ele não é assentado, mas sempre participou, sempre ajudou, ele mora em Quilombo no interior, mas ele sempre esteve junto, nas frentes de ocupação. E: E isso fez com que você acompanhasse também, como que é? L.K.: Ah, a gente sempre notava, porque, 85 né, (risos) 84 é o ano que eu nasci. Eu notava que ele saía, ia nas casas, ia fazer a frente de massa que dizem. Ele sempre motivou a gente, que é bom, que é o melhor jeito de a gente conseguir uma terra, porque se tivesse lá junto com ele com certeza 7 filhos não ia conseguir comprar um pedaço de terra pra cada um. Sempre motivou a gente pra que participasse, inclusive quando eu morava lá sempre participava das discussões, do grupo de mulheres também. Então é isso, ele sempre motivava nós a participar do grupo de jovens, do movimento de mulheres. Sempre tem pessoas que motivam a gente a ir para os movimentos sociais. Esta trajetória evidencia a importância do processo intergeracional que se refere, segundo Renk (2000), à transmissão de valores, da herança e da cultura camponesa. Neste caso, esgotadas as possibilidades de garantia da terra através do processo de divisão, a jovem buscou o MST como uma estratégia de manter os princípios e os valores relacionados ao cultivo da terra e à continuação do modo de vida camponês. A 27 indivisibilidade da terra é, neste caso, decorrência da insuficiência deste recurso para todas(os) os membros da família, pois se trata de propriedade de tamanho mínimo e que, se cindida perde a sua capacidade de produção. Este impasse – a indivisibilidade da terra – suscita diversas possibilidades para a reprodução social e entre estas, devido à própria proximidade da família de L.K. com o movimento, apresentou-se a alternativa de viabilizar a continuação e a sobrevivência na/da terra. A jovem sempre acompanhou o movimento e relata que a partir do momento em que se insere como militante passa a realizar diversos cursos e a participar mais efetivamente desta realidade. J.A., mulher, 19 anos, militante do MST de Chapecó – SC, também tem uma trajetória familiar que aponta para o envolvimento e a busca no espaço deste movimento de alternativas para garantir a reprodução social camponesa. Eu fui acampada junto com meu pai no ano de 1997. Já faz um tempo aí. Depois ele foi assentado. Aí saiu esse acampamento aqui e depois de dois anos eu resolvi vim pra cá. Estava com ele, daí resolvi vir pro acampamento, depois eu casei, me amontoei (risos). A timidez desta entrevistada foi bastante marcante, muito mais do que o conteúdo de sua fala, houve dificuldade até mesmo para transcrever as suas colocações, quase inaudíveis. Acreditamos, no entanto, que o retraimento não significa menos capacidade reflexiva ou de resistência (no sentido de obstinação), contrapondo assim, a própria idéia que os movimentos sociais apresentam em seus discursos de que a participação possibilita a formação de sujeitos “altamente críticos e falantes”, ou seja, o que ocorre é que muitas vezes se confunde o falar com o agir. Muitos homens e mulheres, segundo Silva (2004, p. 43): “Podem não fazer grandes discursos ou gestos, mas nem por isso são menos importantes ou lutam menos”. Reiteramos, portanto, a singularidade como as diversas possibilidades de ser e existir que se referem às formas particulares de experienciar a “vida vivida”. C.P., mulher, 21 anos, militante do MMC de Águas Frias – SC, relata que está há pouco tempo participando do movimento. A sua atuação mais efetiva ocorreu a partir de 2006, quando foi convidada a participar de um curso técnico em agroecologia. A jovem relata que esta participação nos movimentos sociais relaciona-se à própria trajetória de seus pais que também estão envolvidos politicamente e contribuindo na organização dos movimentos. 28 Meu pai também, ele sempre, desde quando ele veio aqui pra Santa Catarina, que antes ele morava no Rio Grande do Sul, ele já participava dos movimentos, ajudava na organização, etc. e tal. Eu também, ele apóia muito e acha que é por aí o caminho, que o jovem tem que estar ligado aos movimentos. A fala indica a preocupação das gerações mais antigas em relação à juventude e a necessidade desta de encontrar alternativas para questionar e problematizar a realidade a partir da coletividade, ou seja, da busca por movimentos sociais que engajem as(os) jovens na luta política e ideológica. Parece-nos, além disso, que o incentivo deste pai vem ao encontro da perspectiva de reprodução social camponesa, em que se vislumbra a luta política como estratégia para garantir a sustentabilidade deste modelo. J.M.R., mulher, 18 anos, militante do MMC de Mondaí – SC, iniciou sua trajetória mais efetiva também a partir de 2006 quando foi convidada a realizar o curso de agroecologia, juntamente com C.P., promovido através da Via Campesina. Esta jovem relata a participação de sua mãe e de seu pai em movimentos sociais, contribuindo para a sua participação e o seu envolvimento. A minha mãe também já participa, eu iniciei a partir dela. Meu pai também, quando a gente morava em Itapiranga, outro município, eu não era nem nascida ainda, ele participava de um... era chamado 4s6, que era meio que do movimento sindical e tal, então eles dão total apoio, porque eles já conhecem bastante dessa luta de movimentos, é apoio total, até minha mãe, às vezes a gente vai juntas pros encontros. Neste caso a mãe não somente apóia a participação da filha no MMC como também acompanha ativamente as discussões e debates realizados pelo movimento. Esta história diferencia-se um pouco da trajetória de R.G., mulher, 22 anos, militante do MMC de Novo Horizonte – SC que também é participante do curso de agroecologia, pois embora os pais a apóiem e incentivem a participar não se evidenciou o envolvimento destes em movimentos sociais, como relata a jovem: 6 O programa 4s era um programa de extensão da antiga Associação de Crédito e Assistência Rural de Santa Catarina (ACARESC) nos anos 60, atualmente Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão de Tecnologia de Santa Catarina S.A. (EPAGRI) e tinha uma perspectiva funcionalista. A jovem, provavelmente, não teve acesso a esta informação. 29 Lá em casa eles dão incentivo. Até no início, que eu falei que ia pra escola, teve um incentivo grande, às vezes a gente cansa de ir pra reunião e eles dizem “Vai, que vai dar certo”, então é um incentivo, sem incentivo é mais difícil. Constata-se, portanto, que nem sempre há uma história de envolvimento familiar que justifique a atuação das(os) jovens em movimentos sociais. Com isso estamos querendo afirmar que não há nenhuma preocupação nossa em encontrar relações de causalidade entre a escolha da(o) jovem e a história familiar, ou seja, ratificamos que não há determinismos, mas é possível pressupor que o envolvimento da juventude tem uma relação estreita com a história de seus pais. Isto não se deve, contudo, a uma visão linear, mas à compreensão de que a perspectiva política imbuída em movimentos sociais possibilita aos sujeitos outra apreensão da realidade, justificando a presença do fator intergeracional neste processo. A importância da reprodução social que se refere à continuação no espaço e no tempo de um determinado modo de relações sociais, elucida-se ao resgatarmos as falas destas militantes do MMC quando expressam aquilo que Renk (2000) denomina, respectivamente, como processo de devolução de curta e longa duração: No campo a gente tá praticamente todo tempo junto, discute os problemas, tudo que vai construir tá sendo discutido ali junto (C.P., 21 anos). Os nossos pais vão envelhecendo, e uma cidade precisa de alguém que produza os alimentos (J.M.R., 18 anos). Quando C.P. destaca que as decisões sobre o trabalho são realizadas pelo grupo familiar, está indicando como a família organiza-se no dia-a-dia em prol da concretização daquilo que se encontra estabelecido no campo dos valores e preceitos do “ser camponesa ou camponês”. Da mesma forma podemos evidenciar que as colocações de J.M.R. indicam a preocupação com a manutenção deste valor num espaço de tempo maior, referindo-se à necessidade de continuação deste modo de vida. [...] porque a gente tem total apoio dos pais pra trabalhar em casa, sou eu mais meu irmão, daí a gente faz o trabalho em casa, trabalhar em casa no campo, ficar no campo. Porque a gente tem o apoio em casa e tem como trabalhar, a gente não tem a necessidade de buscar na cidade. (J.M.R., 18 anos) 30 Embora os estudos apontem para a saída da(o) jovem do campo para a cidade em busca de trabalho e outro estilo de vida, a convicção desta jovem denota que a permanência da juventude no campo depende também do incentivo da família. Esta não é uma realidade vivenciada pela maioria das famílias do campo que presencia um contingente cada vez maior de jovens, principalmente mulheres, buscando outros espaços de socialização. A masculinização do campo – decorrente deste processo migratório – pode ser problematizada, conforme a Rede CEPAGRO de Desenvolvimento Local (2001), a partir de dois enfoques: o primeiro diz respeito às próprias relações de poder e de gênero estabelecidas na família e, a segunda, refere-se ao incentivo das famílias para que as(os) jovens busquem espaços para “melhorar de vida”. A jovem a seguir, C.F., mulher, 22 anos, militante do movimento sindical de Planalto Alegre – SC, apresenta uma trajetória específica, diferenciada daquelas que foram apresentadas anteriormente, pois foi incentivada a sair do campo, retornando algum tempo depois por vontade própria. C.F.: Eu morava na cidade, não arrumei emprego, voltei pra roça, aí o presidente do sindicato me convidou pra participar do Curso de Desenvolvimento Sustentável e Assistência Técnica. Aí comecei a participar do Acampamento da Juventude, do Consórcio e agora fui eleita como coordenadora municipal do sindicato, além do regional de São Carlos como coordenadora da juventude. [...] E.: Você antes tinha colocado que saiu do campo e agora retornou, que não achou emprego. Por que você saiu e o que te fez voltar? C.F.: Sim. Saí por incentivo da família pra eu não permanecer. Só que trabalhei lá por um ano mais ou menos, mas daí eu não consegui. O incentivo dos pais para a migração é muito comum, pois a não visibilidade de perspectivas de manutenção compromete a reprodução social da agricultura familiar, que se anteriormente era vivenciada através da disputa no que se refere à herança, atualmente constata-se como um vácuo nas propriedades rurais que estão sem herdeiros. Segundo Renk (2000, p. 68) “Dentre esses camponeses, verifica-se uma mudança, de forte, para outra de fraca hereditariedade ocupacional, quando não de ausência de herdeiros nas propriedades rurais”. O retorno de C.F. ao campo, mesmo a contragosto da família, implica na participação de outros aspectos, tais como o seu envolvimento no movimento sindical, estimulando este regresso. 31 A.M.G., homem, 19 anos, militante do movimento sindical de Guatambu – SC, conta-nos um pouco da sua trajetória: [...] faz uns dois anos mais ou menos, acho que comecei junto com a C.F. a participar. Desde que eu comecei a participar já aconteceram muitas mudanças lá na propriedade dos meus pais, trouxe muitos benefícios pra mim desde que eu comecei a participar. E agora a gente vai se aperfeiçoando mais ainda com o consórcio que tá dando uma formação mais avançada pra colocar algumas práticas que a gente aprende, lá na nossa propriedade. Em relação às trajetórias anteriores percebe-se uma mudança de tonalidade no discurso, sendo que a ênfase está no processo de aquisição de conhecimento técnico para aplicação na propriedade. Este aspecto é bastante marcante nas entrevistas realizadas com a jovem e os dois jovens do movimento sindical que nos deixaram uma leve impressão de que não se apropriaram do discurso deste movimento, mas consideram fundamental como revela a fala a seguir: Que nem nós estamos ali, se não tivesse o movimento sindical pra representar nós, não teria muitas conquistas que hoje temos, acho que o movimento sindical é tudo pra nós da agricultura (A.M.G.). Percebemos nesta fala, como em outras, a idéia de que o sindicato é uma entidade representativa, diferente do discurso dos outros movimentos que parecem estar incorporados, vividos. Não pretendemos com esta afirmação promover alguns movimentos em detrimento de outros, mas evidenciar como os discursos são diferentes e representam momentos distintos da incorporação dos valores e ideologia do movimento social ao qual estão vinculados. Ao serem indagados sobre a relação que se estabelece entre o movimento sindical e os demais movimentos do campo, excluem-se da condição de sujeitos pertencentes a um movimento social: E.: Qual é a relação, ou como é que vocês percebem esses movimentos. Vocês entram em contato com o pessoal desses movimentos? A.M.G.: Em contato nós no caso não, mas o movimento sindical claro que sim. Embora o discurso de que “são movimento sindical” não esteja incorporado pela(os) jovens entrevistada(os), fazem parte de coordenações deste movimento, 32 contribuindo em sua organização. Estas colocações sobre os discursos são apenas “pinceladas”, pois estão intrinsecamente relacionadas à trajetória do sujeito e serão discutidas com maior profundidade num momento distinto, quando nos reportarmos à análise da constituição das identidades política e social. R.J., homem, 16 anos, militante do movimento sindical, residente em Guatambu – SC está há pouco tempo participando desta organização. [...] moro aqui em Guatambú, na Linha Feliz, eu comecei a participar do sindicato faz um ano, comecei nos movimentos do sindicato e continuei com o consórcio e daí to aqui. A trajetória deste jovem indica a relação que se estabelece no dia-a-dia com a sua família. Denota também a preocupação com seu irmão que já migrou para a cidade no sentido de que retorne para o campo. Lá em casa é só eu, a mãe e minha irmã. Eu chego em casa do curso eu converso com a mãe, falo o que nós trabalhamos, o que nós podemos fazer na propriedade pra nós melhorarmos. E muitas vezes não tem mão de obra, daí não tem como investir. Eu quero ver se eu faço um projeto lá, abro uma agroindústria, alguma coisa assim, pra ver se meu irmão, que mora na cidade, está ganhando pouco, pra ver se ele volta. As perspectivas, os sonhos, os projetos idealizados por este jovem indicam-nos a contribuição do movimento sindical, principalmente a partir da realização do Consórcio Social da Juventude Rural (curso em parceria entre Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Federação dos Trabalhadores na Agricultura Familiar da região Sul (FETRAF-Sul)), no desenvolvimento de um novo olhar em relação ao campo, qual seja: o ideal de manutenção e investimento na propriedade rural, incitando até mesmo quem está na cidade a retornar. Ressaltamos que estas falas da(os) jovens do movimento sindical enfatizaram a participação neste curso. Podemos pressupor que a ênfase recaiu sobre o Consórcio pelo fato de que as entrevistas foram coletadas durante a sua realização, contribuindo para que a(os) jovens respondessem referenciando-se, de forma maciça, à importância desta ação da FETRAF. Além disso, no mesmo dia da entrevista, estavam respondendo a um questionário de outra pesquisa acadêmica sobre o Consórcio Social da Juventude Rural. 33 D.T.B., mulher, 20 anos, militante do MAB, reside no município de Alpestre – RS. Esta cidade faz divisa com Santa Catarina através do Rio Uruguai e será atingida pela barragem Foz de Chapecó. Eu conheci o movimento no ano de 1999, quando na verdade as empresas começaram querer construir a barragem Foz de Chapecó, que eu moro agora no canteiro de obras. [...] O meu pai começou a participar do movimento e conseqüentemente eu também. Comecei a conhecer o movimento, comecei a participar de mobilizações, de reuniões e assembléias. Como o pai é coordenador, nós começamos a participar das reuniões, pra ver as propostas que nós queremos apresentar pra empresa. O processo intergeracional evidencia-se mais uma vez, como tentativa de manutenção do modo de vida baseado na agricultura familiar, através da estratégia de resistência à desapropriação e, quando esta não é mais possível, luta-se pelo reassentamento. A trajetória desta jovem inicia a partir da possibilidade de retirada de um bem adquirido – a terra. Porém, a terra é imbuída de símbolos e signos que extrapolam as dimensões econômicas, pois se referem à constituição da identidade e do trabalho familiar baseado na agricultura. V.L.S., mulher, 23 anos, militante do MAB, reside no município de Águas de Chapecó – SC, na comunidade do Saltinho do Uruguai. Eu tenho 23 anos. Comecei um pouquinho antes que a D.T.B. Comecei em 97, fazer uns cursos. Fazia um mês de curso. Daí eu comecei ali, em mobilização, os acampamentos. (...) participava junto, participava de ato, de reunião, de reunião ainda era pouco, (...) participei não só do movimento do MAB. Lá em Abelardo Luz onde eu morava, participei também do movimento do MST, nós éramos assentados lá. (No MAB) o pai é mais, porque ele é da direção, ele é o coordenador municipal, ele participa mais das reuniões. A mãe não vai tanto, mas de vez em quando ela vai. A jovem aponta, em sua trajetória, uma vasta participação em movimentos sociais, intrinsecamente relacionada à condição e história de luta e resistência de sua família. A participação anterior no MST indica esta relação estreita entre os movimentos sociais. Muitos sujeitos participam concomitantemente de movimentos sociais ou iniciam o seu envolvimento num determinado movimento e continuam sua luta em outro, como no caso de V.L.S. 34 Além das trajetórias destes jovens que estão na base dos movimentos sociais, os coordenadores também apresentaram aspectos de suas histórias e de maneira geral, a sua participação e envolvimento estão relacionados ao processo intergeracional e da luta de seus pais na perspectiva de alternativas de manutenção do modo de vida baseado na agricultura familiar. No próximo item estaremos apresentando os projetos e ações citados por estes movimentos sociais e que têm como foco a discussão e a participação da juventude rural. 3.2 Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a juventude? A inquietação com a temática da juventude, segundo Carvalho (2006), é crescente nos últimos anos e tem se tornado objeto de discussão por parte de diferentes agentes sociais, tais como: programas partidários, sindicatos, Organizações Não Governamentais (ONGs), grupos religiosos e o poder público. No entanto, a autora põe em evidência que os projetos apresentados por estas organizações têm pouca efetividade para a modificação a nível estrutural. Relacionam-se, na maioria das vezes, a aspectos pontuais e conjunturais, não conseguindo atingir à radicalidade da problemática que se refere à própria concepção de juventude na sociedade contemporânea. Retomamos assim as colocações de Mayorga (2006) sobre a invisibilidade da juventude que continua a fazer-se presente nas políticas que são, geralmente, construídas por sujeitos que não vivenciam a condição juvenil. A problemática também é apontada pelos movimentos sociais do campo que fazem parte desta investigação quando afirmam a falta de políticas públicas para a juventude de uma forma geral e ainda mais no que se refere à especificidade da juventude rural. Nas entrevistas tanto com as(os) coordenadoras(es) quanto com as(os) jovens envolvidas(os) na militância, a ênfase recai sobre o “déficit” de políticas que, os movimentos tentam não somente suprir, mas questionar e problematizar, ampliando o foco de análise para os aspectos estruturais. Os movimentos sociais do campo voltam suas atenções para a juventude, concedendo-lhe centralidade nas discussões. Destacamos que esta foi uma questão pontuada como uma preocupação recente no cotidiano das reflexões e ações destes movimentos como fica evidente na fala a seguir: 35 [...] ainda é um trabalho bem iniciante, faz pouco tempo que a gente tá fazendo esse trabalho com as gurias, então precisa ir amadurecendo, debatendo, construindo, procurando, propondo e elaborando (coordenadora de formação das jovens do MMC). Além de ser uma preocupação atual, as entrevistas evidenciam que as ações dos movimentos buscam não somente organizar uma pauta de reivindicações sobre as questões juvenis, mas envolver a(o) jovem, possibilitando a participação efetiva nos debates que se referem à sua própria condição. Isto é perceptível pelo fato de que as coordenações direcionadas para a juventude são protagonizadas pelas(os) próprias(os) jovens, ou seja, não são de adulto para jovem, mas de jovem para jovem. Contrapondo-se à visão adultocêntrica em que as políticas para a juventude são decididas por aqueles que se consideram “mais aptos” neste empreendimento, as(os) atrizes⁄atores envolvidas(os) nesta pesquisa enfatizaram a necessidade de sua participação no processo de constituição das políticas voltadas para a sua realidade e os seus interesses. Entre os movimentos investigados constatamos a especificidade em relação ao MAB que, embora apresente a preocupação com o envolvimento da(o) jovem, não possui uma coordenação da juventude na organicidade do movimento. Porém, este fato não exime a preocupação do MAB em relação à importância da juventude, como afirma um dos coordenadores de articulação deste movimento: Dentro da área da formação, nós temos definido a nível nacional, que a juventude está dentro da estratégia do MAB, de nós envolvermos o jovem no movimento. Nós achamos que a juventude tem perspectivas em todos os níveis de fortalecer o movimento, e até fortalecer a luta maior da sociedade. Nós estamos apostando muito na juventude. Estas falas assinalam para a apreensão de que o envolvimento da juventude fazse essencial para a continuação do projeto ideológico dos movimentos. A partir dos discursos evidenciamos a compreensão destas(es) coordenadoras(es) de que o investimento na juventude possibilita a continuidade tanto no que se refere às lutas e reivindicações quanto à perspectiva de permanência desta no meio rural. No entanto, não podemos perder de vista que se trata da análise de discursos, num determinado contexto e, devido a estas limitações, não é possível afirmar se estas falas são “fiéis” à prática cotidiana, ou seja, se se constituem como práxis – indissociabilidade entre discurso e prática. 36 Os projetos e ações que procuram dar certa consistência às problemáticas que envolvem a juventude constituíram-se num elemento de investigação, na medida em que possibilitam apreender concretamente a efetividade e a dimensão das preocupações referentes a este tema. Os principais projetos e ações desenvolvidos pelos movimentos sociais rurais, geralmente, são realizados em parceria com outras entidades – universidades, organizações governamentais e não governamentais, rede de movimentos sociais rurais (Via Campesina, por exemplo) e/ou urbanos, etc. SchererWarren (1993) e Gohn (2006) enfatizam que esta busca por parcerias refere-se à própria organicidade dos movimentos que procuram estabelecer articulações, encontrar aliados para a concretização de projetos que tenham finalidades em comum. Portanto, tratam-se das redes de movimentos sociais que, têm na interação com outras entidades a tentativa de manutenção, pois isoladamente é muito difícil que encontrem alternativas de viabilidade para a continuidade de seu projeto político e ideológico. Damasceno (2006) acrescenta a esta discussão o reconhecimento de que os projetos de formação e qualificação dos movimentos sociais têm a perspectiva de produção e apropriação do saber mais concernente à realidade e às experiências dos sujeitos que vivem do/no campo. Interessa-nos, neste momento, explicitar alguns dos projetos e ações realizados a partir destas articulações e que têm como foco a juventude, considerando a sua realidade. No quadro a seguir estão sintetizados os projetos e ações citados pelas(os) coordenadoras(es) entrevistadas(os): Quadro 1: Projetos e ações dos movimentos sociais do campo para a juventude rural Movimento FETRAF-Sul Parcerias Projetos e ações Objetivos MDA; MTE Consórcio Social da Juventude Rural Acampamento da Juventude Rural da Agricultura Familiar Projeto Nossa Primeira Terra Vínculo com universidades do Brasil, Cuba, Venezuela, Formar técnica e politicamente para trabalhar no campo. Abrir espaço para a discussão sobre a autonomia da(o) jovem. FETRAFSul/SINTRAF FETRAF-Sul Via-campesina MDA Adquirir terras através de crédito fundiário. Possibilitar acesso ao ensino superior. 37 Via-campesina FUNDEP Via-campesina; FETRAF-Sul Poder público; programas partidários ENFF; Movimentos urbanos da classe trabalhadora Via-campesina Argentina. Cursos Técnicos em Agroecologia Universidade Pública e Popular Curso Economia Política de MST Constituição de biblioteca em assentamentos; MST Criação de rádios comunitárias em assentamentos; MST Jornadas Culturais MMC Encontros regionais jovens camponesas MAB Diversos Movimentos Sociais Criação brigadas juventude de de da Formar técnica e politicamente para trabalhar no campo. Inserir as(os) jovens nas discussões sobre a constituição de uma nova universidade. Fortalecer o trabalho de base, a educação popular, a organização política e a participação da juventude na compreensão e transformação da realidade. Possibilitar a participação do jovem na organização de espaços de educação e lazer. Possibilitar a participação do jovem na organização de espaços de educação e lazer. Sensibilizar os jovens em relação à importância da cultura através de oficinas diversas: artes plásticas, artesanato, rádio, teatro, poesia e música. Propiciar às jovens discussões sobre relações de gênero e sobre a condição de jovens camponesas. Envolver a juventude no debate sobre a tarifa de energia elétrica. Fonte elaborada pelas autoras (2007). A partir do que expressaram as(os) informantes da pesquisa consideramos que os projetos e ações possuem além da perspectiva de capacitação técnica a intenção de propiciar a formação política. Esta formação política está no cerne do debate dos 38 movimentos sociais, pois somente com o reconhecimento de uma determinada condição social, denominada por Scherer-Warren (1993) como uma tríplice exclusão relativa – que se referem aos aspectos econômicos, políticos e culturais/ideológicos –, torna-se possível a condução e a continuação das reivindicações que estão na base de suas lutas. A coletividade que permeia as relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos em movimentos sociais contribui na constituição das identidades social e política. É interessante como os movimentos emergem a partir de demandas individuais, por exemplo, a falta de terras, inviabilizando a reprodução social de um modo de ser e, na medida em que o movimento une as particularidades, vai assumindo um corpo coletivo, em busca de lutas comuns e que extrapolam a perspectiva inicial, individual e limitada em sua apreensão política. Esta idéia da coletividade somente tem sentido a partir da formação política. Além da perspectiva de constituição da identidade política baseada no ideal de coletividade para a construção de uma sociedade diferente – revelando o aspecto ideológico – a proeminência na formação de lideranças projeta-se sobre a juventude como a esperança, o fator de mobilização para a continuação das utopias dos movimentos sociais. Esta preocupação fica evidente na fala do coordenador estadual da juventude do MST: [...] cursos de formação pra militância, pra juventude atuar no movimento como militante, liderança, pra contribuir no movimento e com outros movimentos sociais. [...] Tem as relações de gênero, os cursos de formação pra dirigentes, como fazer um trabalho de base, como ser um dirigente, como organizar o povo. Ainda no sentido da formação política, mas com a proposta de formação de lideranças a partir da via institucionalizada, o coordenador do Consórcio Social da Juventude Rural da FETRAF-Sul aponta para este aspecto, afirmando que estes projetos de formação contribuem para a constituição de lideranças a longo prazo: A gente sabe que esses projetos de formação, principalmente de formação política, eles dão resultados tardios, tardios que eu digo, que levam mais tempo, porque hoje nós estamos trabalhando com jovens de 16 a 24 anos, de repente lá com 30, 35 ele vai ser presidente de sindicato, ou nos 29, 30 ele vai ser candidato a vereador e assim por diante, quer dizer, essa dinâmica de você ir cultivando sabe, é necessária. 39 A formação adquire um sentido diferenciado para a juventude envolvida no Movimento Sindical – representado pela FETRAF-Sul – devido ao fato de que nem sempre os pais estão envolvidos neste processo de formação. É diferente do que ocorre em outros movimentos sociais do campo objetos desta investigação em que, geralmente, a juventude continua a trajetória de seus pais que, já estão envolvidos e engajados em alguns movimentos camponeses. Não queremos com estas afirmações homogeneizar e padronizar a realidade de quem participa, mas evidenciar que, a formação adquire um sentido diferenciado quando já existe uma cultura de participação política na família. Ressaltamos, neste sentido, a fala do coordenador do consórcio da juventude rural da FETRAF-Sul: [...] esses jovens estão tendo acesso a uma formação mais geral básica ou específica, uma reflexão sobre a vida, valores, organização da sociedade, enfim, uma formação técnica também [...] dá uma capacidade de refletir, pensar sobre a vida e querer fazer algumas coisas novas, mas claro, daí tem o conflito com os pais, porque os pais, alguns são das bases da FETRAF aí, tem uma visão de formação diferente, se os pais participassem de uma formação desse tipo, com esse porte, em uma perspectiva de outra agricultura, ecológica, com desenvolvimento, na perspectiva de fazer agroindústrias familiares, tivessem uma mentalidade diferente, poderia coincidir. No mesmo sentido o jovem A.M.G., homem, 19 anos, pertencente ao movimento sindical, afirma que: [...] talvez pelos pais não terem tido uma formação de que é possível ficar na agricultura, de ter novas alternativas de renda, incentivam o jovem pra ir pra cidade. [...] e eu acho que os pais, o fator principal ali são os pais, porque são eles que dizem sim ou não. Estas falas indicam a importância das relações que se estabelecem entre as gerações e as práticas que se constroem no dia-a-dia, sendo os elementos constitutivos daquilo que se sonha, planeja e projeta como estratégia de reprodução social, aspecto este aprofundado no item anterior. As perspectivas dos movimentos sociais têm por base a ideologia que, se constitui neste elemento que dá vida e sentido para a existência a partir da coletividade. Não poderíamos deixar de aprofundar a reflexão sobre este elemento-fundamento da práxis que pulsa e mobiliza aos sujeitos envolvidos em 40 movimentos sociais. Dedicaremos o próximo item a esta problematização. 3.3 A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do campo É fato que a juventude rural, sem perspectivas de continuidade no campo tem migrado para a cidade em busca de emprego e outros estilos de vida. Weisheimer (2005) denota a invisibilidade da juventude e os processos migratórios que têm caracterizado a realidade brasileira deste segmento da população. Em sua análise sobre o “estado da arte” da produção voltada para uma parcela específica da juventude – a rural – a preocupação em responder às demandas deste setor revela-se através de algumas pesquisas acadêmicas e políticas públicas que priorizam a discussão sobre esta temática. Estes estudos e ações partem da constatação do envelhecimento da população residente no campo. A opção pelo debate inverso, acerca das possibilidades que estão sendo construídas para a permanência da juventude no meio rural, exigiu-nos a reflexão a partir das noções de subjetividade e de singularidade. A subjetividade, categoria de análise indissociável de seu par dialético, a objetividade, apresenta como centralidade das discussões a constituição do sujeito em sua processualidade. Deste modo, torna-se inegável sua importância para a investigação das condições sócio-histórico-culturais que permitem aos jovens rurais um novo olhar sobre sua realidade, uma compreensão que lhes faz desejar permanecer no campo. Nesta trajetória de constituição de uma nova percepção da realidade rural, não podemos deixar de fazer referência aos aspectos psicossociais. Para Prado (2002) a mobilização social possibilita a emergência de valores, crenças e interesses necessários para a constituição de ações coletivas. O interessante nesta perspectiva é que este processo nunca acaba, desvelando assim, a dialeticidade da constituição de sujeitos politizados. Para a mobilização social este autor propõe três aspectos psicossociais constituintes da identidade política, quais sejam: a delimitação de fronteiras políticas entre grupos sociais; a identificação coletiva; e a passagem das relações de subordinação para a consciência da condição de opressão. No momento seguinte estaremos elencando algumas falas das(os) jovens representativas destes aspectos. Ratificamos tratar-se de uma análise do que sobressalta nas colocações, mas que estes processos são complementares, portanto, não são falas “puras”, mas sim, 41 miscelâneas que caracterizam a complexidade dos aspectos psicossociais. A delimitação de fronteiras refere-se à distinção entre os grupos sociais a partir da percepção de que possuem interesses diferentes. Esta demarcação acena para o reconhecimento de que o “Ele” e o “Nós” estabelecem relações antagônicas, implicando na construção de valores, crenças e interesses que evidenciam a contraposição entre os grupos sociais. As afirmações de J.A.P.S., mulher, 19 anos, pertencente ao MST são representativas de uma das questões apontadas pelos movimentos sociais do campo que fazem parte desta investigação: [...] eu não tinha essa ligação direta de trabalhar na roça, de gostar, de saber o que a gente está comendo, o que não está comendo, produto natural, produto bem cuidado. A gente não tinha isso e aqui no movimento a gente aprendeu a ter isso, a saber o que é comer bem, saudável. [...] A gente quer terra, mas a gente quer terra pra trabalhar, pra trabalhar e produzir comida boa, não comida ruim, envenenada, cheia de agrotóxico. A gente quer uma forma diferente de vida, estamos tentando construir isso. É difícil porque bate de frente com o sistema capitalista, com o sistema que norteia a sociedade. É difícil, nós sabemos que vai ser difícil, mas o sonho é grande. Estamos tentando. Esta fala traz diversos elementos que podem auxiliar-nos no desdobramento desta análise, pois a jovem refere-se tanto aos aspectos da delimitação de fronteiras entre grupos sociais distintos (movimentos sociais versus sistema capitalista) quanto à sua singularidade neste movimento social. O MST contribuiu para a apropriação de um discurso e de uma prática que anteriormente não faziam parte do dia-a-dia desta jovem, produzindo sentidos singulares da sua relação com a terra e com os alimentos. O ponto de vista da jovem sobre o posicionamento deste movimento social em relação ao modelo de agricultura “moderna”, desvela a incompatibilidade entre este padrão (im)posto pelo mercado mundial e a proposta, compartilhada e enfatizada pelos movimentos sociais, de uma agricultura orgânica e agroecológica. Clarifica-se neste discurso a constituição da identidade política que diferencia o nós, o dentro e o bom versus o ele, o fora e o mau, sendo que estes últimos aspectos devem ser não somente evitados, mas combatidos. O modelo atual de agricultura extensiva foi bastante enfatizado pelas(os) jovens e coordenadoras(es) destes movimentos sociais. Apontam, em suas falas, a necessidade da crítica a este sistema de produção devido às repercussões na vida dos sujeitos, como 42 se constata na seguinte afirmação: No campo agora, o modelo que está implantado pra muitos jovens, não é bom, mas não é bom mesmo o modelo que está aí, mas é bom de uma maneira diferente, construindo a vida lá no campo de uma forma diferente, porque vai viver lá no campo cheio de veneno? Vai durar quantos anos? Vai morrer. (risos) (C.P., mulher, 21 anos, MMC). A ênfase numa agricultura que se contrapõe ao modelo vigente denota não somente a necessidade destes sujeitos de apresentar um conjunto de técnicas de manejo do solo e dos produtos que seja diferenciado, mas a uma perspectiva ideológica e de posicionamento político diante da realidade do campo e da proposta de uma nova relação com o ecossistema. Esta fala elucida que a proposta dos movimentos sociais para a juventude não se embasa somente na necessidade de sua permanência no meio rural, mas de que esta permanência deve pautar-se numa forma diferenciada de cuidados com a terra e com quem (sobre)vive desta. Descentra-se o foco da lucratividade e da produção em grande escala para o cultivo que possibilite o auto-sustento, como se observa na expressão de R.J., homem, 16 anos, militante do Movimento Sindical quando apresenta a perspectiva ideológica que embasa os movimentos sociais: “[...] agricultura familiar é não produzir em quantidade, mas sim com qualidade”. Estas falas são necessárias para esclarecer o antagonismo entre as propostas destes movimentos sociais em relação à realidade dominante de produção em série. A formação técnica e política propiciada pelos movimentos sociais ressoa no que expressam as(os) jovens envolvidas(os) nesta pesquisa que se apropriam do discurso ideológico, reconhecendo a legitimidade das reivindicações e a necessidade de divulgar a concepção de mundo e as relações sociais propostas por estes movimentos (tantas vezes banalizadas pelo senso comum e pela mídia, por exemplo). [...] a gente busca pelo menos levar para as outras pessoas os projetos que a gente quer construir de uma agricultura agroecológica, orgânica, de uma relação de igualdade entre as pessoas, de respeito aos direitos humanos. A gente tem que mostrar o que a gente debate, não ficar só com aquela visão que são uns baderneiros, uns bagunceiros que não fazem nada. (J.M.R., mulher, 18 anos, MMC). Este fragmento ilustra em que medida esta jovem está comprometida com os ideais do movimento, incorporando-os em sua prática cotidiana de tal forma que se sente parte, contribuindo para a continuidade dos projetos que sustentam e embasam o 43 movimento social. No conceito de identificação coletiva desenvolvido por Prado (2002) este aspecto psicossocial revela-se em sua processualidade através do sentimento de pertença a um determinado grupo que estabelece as regras para as relações intra e intergrupais. O sentimento de pertença propicia o desenvolvimento de ações coletivas e da organização do grupo em defesa de seus interesses. A gente aprende a construir novos relacionamentos, não onde que a mulher tem que obedecer o que o homem manda, mas sim de construir, não também de ser melhor, mas o que a gente quer construir é uma relação de igualdade. (J.M.R., mulher, 18 anos, MMC). O discurso desta jovem revela-se como decorrente da conscientização sobre uma determinada condição social que não resulta de um processo individual7, mas que se refere à construção histórica do “ser mulher”, portanto, compartilhada por um grupo que vivencia esta situação. A percepção do compartilhamento de uma determinada condição que, permite a identificação em prol de uma causa em comum, possibilita também a percepção da relação de dominação, que anteriormente era vivenciada como uma realidade inquestionável. Aqui já se evidencia o outro aspecto psicossocial identificado por Prado (2002), que se refere à percepção das relações de subordinação que devem ser problematizadas e questionadas, visto que não são naturais, mas fruto de realidades construídas socialmente. A crítica consiste em evidenciar as duas lógicas que emergem da mobilização social: a equivalência e a diferença, sendo que a equivalência implica na percepção dos posicionamentos diferenciados entre os sujeitos como objeto de luta e a diferença, por sua vez, exige a equivalência entre os sujeitos que se encontram em posições diferentes. Sendo assim, “[...] a igualdade não é pensada como homogeneidade, mas sim como equivalência/diferença” (idem, p. 69). A percepção das relações de opressão evidenciam-se mais claramente a partir da identificação coletiva e da delimitação de fronteiras entre grupos com posições divergentes. Consideramos que a presença destes elementos psicossociais não seguem uma ordem linear de aparecimento e/ou manifestação na consciência dos sujeitos, mas são processos que se interpenetram e se constituem nas experiências vivenciadas no 7 Referimo-nos, portanto, à constituição da identidade coletiva que, segundo Gohn (2006) advém de uma realidade em comum, anterior à aglutinação dos sujeitos, sendo o elemento que possibilita esta junção (neste caso, a condição de ser mulher). 44 cotidiano. É neste sentido que Scherer-Warren (1993) suscita que as relações comunitárias como forma de luta e como modo de vida são práticas que vão se arraigando no cotidiano dos sujeitos. A gente sabe que hoje em dia um agricultor sozinho na roça não consegue nada. A gente tem que estar sempre em grupos, no MST a gente está sempre em grupo, pra conseguir os créditos tem que estar juntos, uma pessoa sozinha da roça não consegue e a gente junto consegue alternativas de uma vida um pouco melhor. A gente sabe que tem que lutar junto (L.K., mulher, 22 anos, MST). A fala desta militante é indicativa da ênfase prestada pelos movimentos sociais aos valores de cooperação e solidariedade incutidos no dia-a-dia destes sujeitos. O grupo passa a ser o ponto de partida a partir do qual a reivindicação de direitos deve ser realizada, ou seja, a assunção da cidadania para os integrantes destes movimentos sociais tem como critério a percepção da identidade coletiva, unificadora dos interesses e de realidades que a princípio parecem dispersas e distantes quando vividas e sentidas na individualidade. A coletividade não se limita às relações entre os sujeitos pertencentes ao mesmo grupo, mas tem, conforme Scherer-Warren (1993), na articulação com outros movimentos sociais e outras organizações que compartilham do plano utópico de transformação da sociedade, a estratégia para pressionar o Estado em busca da cidadania, através da atuação nos campos cultural e político. [...] compreendemos que temos aliados estratégicos, que são os que nós podemos contar, que eles caminham no mesmo rumo do movimento assim na linha ideológica, na Utopia, na prática também. Que nós hoje nos articulamos com a via campesina, que faz parte o MST, o movimento das mulheres, a CPT, as pastorais, a Federação Nacional da Agronomia. E temos aliados táticos que são pontuais, em certos momentos eles contribuem na articulação da base, pra buscar audiência com o governo, pra fazer denúncias e tal (coordenador de articulação do MAB). Além destes aliados que compartilham de valores e da ideologia, fica evidente a necessidade de articulação com outras(os) organizações que, se não possuem os mesmos ideais, devem, minimamente possuir aspectos éticos concernentes com a práxis destes movimentos sociais. Mas quais são estes valores? Contrapondo-se à visão individualista predominante, os movimentos sociais investem na constituição de “novos valores” que 45 possam auxiliar na construção da sociedade almejada. [...] vem trabalhar essa questão dos valores, a questão dos valores enquanto pessoa que precisamos construir numa nova sociedade. Trabalhamos muito presente a questão do respeito às diferenças entre nós, o respeito e o cuidado com o meio ambiente (coordenador estadual da juventude do MST). No entanto, chamamos a atenção para o fato de que estes novos valores, disseminados entre os integrantes dos movimentos sociais não se constituem em práticas isentas de contradições, pois os discursos nem sempre são fidedignos às práticas. Baseando-nos nas argumentações de Silva (2004), percebemos que a realidade dos homens, mulheres, jovens, crianças e idosos não se constituem a partir do molde idealizado de ser ser humano, mas se constituem no cotidiano das disputas de poder, das próprias histórias individuais que se unem para formar este coletivo diferente. Retomamos a discussão sobre a construção de valores e crenças diferenciados que são possíveis através da formação política. O referencial a partir do qual os movimentos sociais têm atuado busca evidenciar a primazia da contextualização histórica como imprescindível para discutir a realidade, questionando-a. Neste sentido, as relações sociais são (re)significadas permanentemente. J.M.R.: No início a gente vinha nos encontros e era um mundo totalmente diferente, até em termos de... tu vai assistir televisão hoje, já tem uma visão mais crítica das coisas que vê. Assim, antes o que passava era só mais uma coisinha bonitinha na televisão. [...] R.G.: A gente percebe desde as músicas. Agora a gente só ouve as que não discriminem tanto a mulher. J.M.R.: Tem umas músicas que realmente né. Os Tchê principalmente, Tchê Garotos, Tchê Guri, tem umas músicas bem preconceituosas, que antes a gente ouvia, ia no baile e dançava e não tava nem aí. R.G.: Pra nós era normal, agora a gente vai no baile, fica analisando as letras. J.M.R.: E se decepciona as vezes, porque o ser humano as vezes vira menos que um chinelo. R.G.: Desde uma palavra que alguém fale assim, por mais que seja uma palavra brincando a gente percebe que aquilo lá é uma forma de violência, antes não, pra nós era tudo brincadeira, normal. Mas agora a gente sabe como se defender assim, não em palavras fortes, mas de uma forma, ó, você está errando. Este diálogo entre as militantes do MMC demonstra a (re)significação do sentido de “ser mulher”, incorporando a dimensão crítica e histórica de uma condição 46 anteriormente vista como normal – a subordinação, possibilitado a partir da introdução de valores que contestam concepções que desvalorizam o feminino. A mídia, segundo Guattari e Rolnik (1993) é um dos dispositivos de serialização das subjetividades, fabricando em escala mundial, formas idênticas de pensar, sentir, amar e perceber ao outro. Entre as diferentes produções hegemônicas engendradas pelo sistema capitalista está a concepção do “ser mulher” difundida em letras de músicas e na mídia. E se antes eram percebidas por estas militantes como algo que fazia parte do seu dia-a-dia e, portanto, as “insinuações” embutidas em conteúdos aparentemente inofensivos não tinham tanta importância, adquirem, com a politização, novo sentido – revelando-se como expressão da opressão. A tentativa de problematizar este modelo hegemônico pode ser compreendida como “fuga” à captura das mentes e corpos e a busca pela (re)criação de significados singulares e sui generis. A produção de singularidades, porém, implica a apreensão de que nem sempre este novo jeito é bem aceito ou valorizado. A tendência é o receio, a insegurança de não ser aceita(o) ou compreendida(o). Quando a gente vai conversar com eles, a gente pensa: “será que ele vai gostar que eu fale isso?”, eles pensam diferente da gente e, é até complicado de explicar. (C.P., mulher, 21 anos, MMC). A politização dos sujeitos confronta as formas hegemônicas e homogeneizantes de experienciar a vida, pois fogem das fórmulas preestabelecidas como normais e adequadas. A fala representa certo desabafo desta militante. Diante disso, não poderíamos deixar de considerá-la pelo fato de desvelar os sentimentos de uma forma singular de viver. Lembramos neste momento das colocações de Sawaia (2006) quando se refere à afetividade como forma de expressão humana que tem como sentido essencial a capacidade de afetar e ser afetado. É neste sentido que Galano (1995, p. 152) afirma que o afeto é o elemento que “Estrutura os entrelaçamentos das subjetividades pessoais”, tanto nas expressões de solidariedade, quanto nas de antipatia, enfrentamento, etc. No embate entre assumir ou não a identidade camponesa ou de agricultor(a), Renk (2000) evidencia em sua análise a ocorrência de alterações consubstanciais na relação da mulher e do homem com a terra. Se outrora a terra e a condição de 47 agricultor(a) eram sinônimos de orgulho e bem-aventurança, hoje são entendidas como motivo de vergonha e menosprezo para uma boa parcela da população, tanto rural quanto urbana. A fala a seguir denota em que medida esta condição de desprezo ao campo é percebida e sentida como um fato naturalizado, vivenciado sempre como estigma, sendo que os movimentos sociais do campo assumem como objetivo, modificar esta situação. [...] às vezes quando você convida pra um encontro de jovens camponesas, muitas não vão porque não se acham camponesas, tem vergonha de dizer “ah, eu sou da roça”, porque assim tem muitas que contam assim, mais nas grandes cidades, que se você vai chegar na escola e dizer que você mora na roça, que você mora no interior, sabe vai dar aquela, aquela gozação, porque é uma cultura que já tem desde sempre que quem mora na roça é considerado o “bicho-do-mato”. (...) por esse modelo de sociedade que tem, tem vergonha de dizer eu sou camponesa, eu sou da roça. Dizem: eu sou doméstica, daí acham que é mais bonito, que ninguém vai gozar, (coordenadora de formação do MMC). A fala de uma das coordenadoras de movimentos sociais também está presente no discurso das(os) jovens que expressam tanto o sentimento de afeto em relação à terra, como o reconhecimento de suas identidades em contraposição à juventude citadina. [...] estava lá num outro cursinho, de computação, aí um colega meu pediu onde é que eu morava e eu disse que morava lá na agricultura, daí ele falou “você é colono”, sim, sou colono e com muito orgulho, moro lá, lá eu tenho frutas, tenho o ar limpo, puro, tenho tantas coisas que você não tem ali na cidade, você tá aí na rua, não tem nada, é um moleque (A.M.G., homem, 19 anos, Movimento Sindical). O discurso deste jovem é representativo da fala de todas(os) as(os) entrevistadas(os) que declararam estar conscientes de sua condição camponesa ou de agricultor(a), assumindo-a não como um estigma, mas a reconhecendo como essencial para a sociedade. Assumir esta identidade não é algo simples num contexto de migração crescente da juventude que tem, nos próprios pais o incentivo a buscar no meio urbano uma outra condição de vida e de sustento. Neste sentido, os movimentos sociais têm propiciado o espaço de reflexão e de questionamento sobre esta concepção difundida a respeito da impossibilidade de permanência no meio rural. 48 E aí quando elas começam a perceber a importância do papel da roça pra sociedade, elas começam a ter outra consciência e começam a dizer, não eu sou camponesa mesmo Outras dizem: acho que isso não é pra mim, então a pessoa tem que se conhecer na verdade, pra saber o que realmente ela quer. A gente pensa de conseguir ajudar elas a ver a sua identidade, o que mesmo eu quero ser (coordenadora de formação do MMC). Apesar de esta fala apontar para a necessidade de conhecer-se, saber realmente o que se quer, o que se deseja e almeja como forma de vida, ou seja, aumentar o campo de possibilidades de escolha ao invés de esta resultar unicamente da falta de perspectivas, percebemos certa tendência destes movimentos sociais a enfatizar o meio rural como a alternativa mais apropriada. Que nem na cidade tu recebe por mês, tu tem sempre o salário. Só que tu é escravo, escravo do patrão. E já na roça não, tu trabalha como pode, se ficou doente já não vai, e na cidade tu tem aquele dinheiro todo mês, mas se fica doente tem que ir igual. É muita exploração (V.L.S., mulher, 23 anos, MAB). Parece-nos que o reconhecimento do campo como um lugar bom para viver e trabalhar exige a compreensão de que a cidade é um espaço ruim e indesejável. Na tentativa de fugir destas polarizações reiteramos que não se trata de negar as possibilidades de escolha, mas aumentar o campo perceptivo destas em prol de uma decisão que passe pelo crivo da reflexão. No momento seguinte, estaremos retratando a inserção da juventude no contexto dos movimentos sociais, qual a sua relação e compreensão sobre os projetos, as ações e as formações políticas e ideológicas. 49 CONSIDERAÇÕES FINAIS Debater sobre juventude rural, fenômeno a princípio estranho à nossa cotidianidade, passou a ser visto através dos olhos curiosos da investigação e do pensamento científico. Pensamento este que nos levou a questionar a nossa própria condição juvenil, a problematizar o que fazemos e como fazemos este “estar jovem” acontecer. É muito fácil apontar para as dificuldades e as contradições do outro. Mas e nós? Como nos relacionamos com as políticas públicas? Como lutamos para garantir os nossos direitos enquanto coletividade? Ou melhor... Onde está a coletividade? Estes questionamentos, reflexos da nossa crise decorrente do processo investigativo, indicam a necessidade de colocar no cerne das discussões as problemáticas da juventude, trazendo-a para o debate, não como simples depositários de ações, mas como agentes mobilizados e conscientes de suas reivindicações e necessidades. Apesar de todo o trabalho e esforço empenhado na construção deste relatório, compreendemos que ainda há muitas lacunas. A compreensão de que a “obra” está inacabada, apesar de a estrutura prendê-la no tempo e no espaço através destas folhas, sabemos que a continuação depende do olhar da(o) leitor(a) que dará o sentido singular, tantas vezes discutido durante a produção deste trabalho. A proposição desta pesquisa que se efetivou na elaboração e construção deste relatório deve ser analisada crítica e radicalmente, neste sentido, retomamos o seu objetivo principal de refletir sobre as subjetividades de jovens envolvidas(os) em movimentos sociais do campo. Nesta tarefa “incubatória” da produção de conhecimento foi possível evidenciar que a juventude está sendo alvo de discussões que se instrumentalizam nos diversos projetos e ações descritos no capítulo 3. Denota-se a aproximação entre a formação técnica e política que se constitui dialeticamente nos movimentos sociais do campo. Nos discursos das coordenações e das(os) jovens a ênfase sobre a necessidade e a vontade de permanecer no campo, desvela-se como uma resposta ao modelo hegemônico de migração rural para os centros urbanos. No entanto, este processo não é apenas objetivo, ou seja, resultante dos empreendimentos citados, mas referentes à dialeticidade entre objetividade e subjetividade. Os movimentos sociais do campo revelam-se aqui, como fundamentais na 50 produção de subjetividades “desejantes” de permanência no meio rural. Percebemos que, se este modo de a(o) jovem relacionar-se com a terra e a vida no campo está contrapondo-se à realidade predominante, “fugindo” deste padrão e expressando-se como singularidade, por outra via, evidenciamos a tendência de novas “capturas” da subjetividade através de processos que agora “exigem” a continuidade da juventude no campo, dificultando a expressão dos sujeitos em suas particularidades. Não estamos, com estas reflexões, realizando julgamentos morais sobre se a juventude deve ou não permanecer no campo, mas compreender como este processo, às vezes, não parte da reflexão e, sim do inculcamento de uma lógica que contrapõe o campo – lugar bom para se (con)viver – e a cidade – lugar ruim –, expresso nas falas das(os) jovens entrevistadas(os). Os eixos temáticos referenciados no capítulo sobre Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude rural sintetizam o que consideramos constituir-se permanente e incessantemente: as dimensões do singular e do universal. Neste sentido, a trajetória das(os) jovens revelou-se como o “ponto de partida” para a compreensão da constituição das subjetividades num determinado contexto histórico-político-cultural. Foi possível evidenciar que, embora o discurso dos movimentos sociais seja hegemônico e homogeneizante, a forma como os sujeitos apropriam-se destes princípios e valores que embasam a realidade dos movimentos sociais têm aspectos sui generis. Na trajetória dos sujeitos fez-se essencial observar o imbricamento entre a história de envolvimento familiar com os movimentos sociais e com a terra e a perspectiva da(o) jovem em relação ao que Renk (2000) denomina processo intergeracional. Novamente enfatizamos que não pretendemos encontrar uma relação causal entre a participação da(o) jovem e seus ascendentes, mas clarificar que há uma importante contribuição destes para a constituição dos valores e crenças que constituem estas(es) jovens. A heterogeneidade fica presente até mesmo nesta pequena amostra, em que nem todas(os) as(os) jovens têm o incentivo familiar para a permanência no campo, portanto, para a reprodução social dos valores da agricultura familiar. Ratificamos que os projetos e ações voltados para a juventude rural têm seu foco na(o) própria(o) jovem. Vislumbra-se assim, outro olhar para a juventude, não mais vista, pensada e planejada de fora para dentro, como um “receptáculo” de ações pensadas para, mas a partir da condição de sujeitos participantes e ativos na 51 elaboração/realização destes projetos. A apropriação dos discursos ideológicos dos movimentos sociais do campo possibilita às(aos) jovens o reconhecimento das reivindicações e da visão de mundo diferenciada que estes propõem. Percebemos nas falas a incorporação dos ideais dos movimentos no que se refere às práticas cotidianas das(os) entrevistados, o que não quer dizer que estas práticas sejam isentas de contradições e “descompassos”. É importante destacar que ao retratar a relação entre os movimentos sociais, juventude e campo, as(os) jovens atribuíram fundamental importância para a presença da coletividade, da terra – símbolo de seu trabalho – e das bandeiras dos movimentos sociais representando as suas lutas e reivindicações. Consideramos também um desafio abranger os quatro movimentos sociais do campo que fizeram parte desta investigação, pois embora se possa ter um panorama mais geral de como estas discussões sobre a juventude têm sido analisadas pelos diferentes movimentos, não pudemos nos aprofundar nas especificidades que são inerentes à realidade e à própria constituição de cada grupo. Retomando as colocações realizadas no capítulo 3, quando utilizamos a metáfora do bolo para refererirmo-nos aos recortes que se fazem necessários no processo de pesquisa, confessamos agora, que a sensação é de que deveríamos apresentar o bolo inteiro e não apenas uma fatia, mas pensando bem, a maioria das pessoas não come um bolo inteiro... Talvez antes disso tivesse uma indigestão ou na metade já sentiria que não tem mais condições de continuar ou, porque enjoou ou, porque está suficientemente saciada(o). No entanto, ficamos satisfeitas com este “bolo” (bolo este dividido em fatias e que você teve a possibilidade de saboreá-lo, gostar ou desgostar), resultado de uma produção conjunta e que teve o auxílio de muitas mãos. A receita? Não, não há receitas ou modelos preestabelecidos de como confeitar este bolo, apenas a base da massa que se constrói a partir da reflexão crítica e da afetividade, ingredientes sine qua non a massa desanda ou tende à estagnação. Os enfeites ficam sob a responsabilidade da imaginação e da criação de quem se dispuser a “retocar”, modificar ou produzir novos bolos na imensa fornalha do conhecimento. 52 REFERÊNCIAS ARAÚJO, Maristela Dalbello. Alguns olhares sobre a subjetividade nas pesquisas em saúde do trabalhador. In: MACHADO, L. D.; LAVRADOR, M. C. C.; BARROS, M. E. B. (orgs). Texturas da psicologia: subjetividade e política no contemporâneo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001. ARIÈS, Philippe. História social da criança e da família. 2.ed. Rio de Janeiro: LCT – Livros Técnicos e Científicos Editora S.A, 1981. BOCK, Ana; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria de Lourdes T. Psicologias: uma introdução ao estudo da psicologia. 13.ed. São Paulo: Saraiva, 2007. BOURDIEU, Pierre. A juventude é apenas uma palavra. In: Questões de sociologia. Rio de Janeiro: Editora Marco Zero Limitada, 1983. BRUMER, Anita. A problemática dos jovens rurais na pós-modernidade. 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