Título:
“Minhas perspectivas... O que eu quero... É permanecer no campo e a minha família
também quer isso”: refletindo sobre as subjetividades de jovens envolvidos em
movimentos sociais do campo
Autoras:
Adriana May Rossi
Andressa Bertoncello
Orientadora:
Rosana Maria Badalotti (Graduada em Ciências Sociais pela Universidade Federal de
Santa Catarina (1990), mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal de
Santa Catarina (1996) e doutorado Interdisciplinar em Ciências Humanas pela
Universidade Federal de Santa Catarina (2003).
Componentes da Banca Examinadora:
Arlene Renk (Graduada em Letras pela Universidade Federal do Paraná (1978),
mestrado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1990) e
doutorado em Antropologia Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1993).
Márcia Luiza Pit Dal Magro (Graduada em Psicologia pela Universidade Comunitária
Regional de Chapecó (2003) e mestrado em Psicologia pela Universidade Federal de
Santa Catarina (2006).
Data da defesa do TCC:
26 de novembro de 2007
“MINHAS PERSPECTIVAS... O QUE EU QUERO... É PERMANECER NO CAMPO
E A MINHA FAMÍLIA TAMBÉM QUER ISSO”: refletindo sobre as subjetividades de
jovens envolvidos em movimentos sociais do campo
RESUMO
Muitas pesquisas apontam para a migração da juventude rural, sem perspectivas de
continuação no campo. Nesta investigação buscamos analisar as condições que
possibilitam a continuidade da(o) jovem neste contexto. Na busca desta nova
perspectiva, que evidencie outra face da situação da juventude rural, analisamos a
contribuição dos movimentos sociais (MAB, MMC, MST e Movimento Sindical) para a
permanência deste segmento social no campo. A pesquisa caracteriza-se como
qualitativa, com a realização de entrevistas semi-estruturadas, com quatro
coordenadoras(es) e onze jovens envolvidas(os) nos movimentos citados. O relatório
divide-se em três capítulos, sendo os dois primeiros de fundamentação teórica e o
terceiro que correlaciona os dados empíricos aos aspectos teóricos, categorizados em
três eixos temáticos: A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de
jovens rurais; Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a
juventude?; e A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do
campo; Os movimentos sociais do campo revelaram-se aqui, como fundamentais na
produção de subjetividades “desejantes” de permanência no meio rural.
Palavras-chave: Juventude Rural, Subjetividades, Movimentos Sociais do campo.
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO................................................................................................................ 4
1. Subjetividades: um olhar sobre a constituição dos sujeitos.......................................... 7
1.1 A subjetividade e o processo de singularização e criação ...................................... 8
1.2 Identidade como elemento constitutivo das subjetividades.................................. 10
2. Movimentos sociais do campo e juventude rural ....................................................... 12
2.1 Conceituando movimentos sociais ....................................................................... 12
2.2 Conceituando juventude ....................................................................................... 15
2.3 O contexto dos movimentos sociais do campo e a juventude rural no oeste
catarinense .................................................................................................................. 17
3. Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude rural ........................... 22
3.1 A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de jovens rurais 22
3.2 Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a juventude?
.................................................................................................................................... 34
3.3 A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do campo
.................................................................................................................................... 40
CONSIDERAÇÕES FINAIS ......................................................................................... 49
REFERÊNCIAS ............................................................................................................. 52
INTRODUÇÃO
A juventude destaca-se como pauta recente das discussões no cenário brasileiro
contemporâneo e, principalmente, nas políticas públicas. Carvalho (2006) problematiza,
no entanto, que estas ações e projetos que têm foco na(o) jovem são pontuais e
compensatórias, servindo como objeto de disputa entre esferas governamentais que,
dificilmente aprofundam a problemática para a compreensão de que se trata de uma
questão de cidadania (e não de um problema a ser resolvido). Segundo a autora, nada
melhor do que escutar as propostas da juventude que vive e “sente na pele” a sua
condição, proporcionando-lhes o posto da co-responsabilidade e não da marginalidade e
da inconseqüência.
Dentre os diversos recortes sobre a realidade da juventude rural, consideramos
necessária apontar uma das grandes polêmicas do campo na contemporaneidade, qual
seja: a não permanência do jovem neste meio, interrompendo, desta forma, a reprodução
social da agricultura familiar. A migração maciça da juventude foi alvo de diferentes
discussões, como indica Weisheimer (2005) em seu “estudo da arte” das publicações
científicas sobre o tema. Brumer (2006) afirma que muitas são as investigações sobre os
motivos da saída, principalmente, das mulheres jovens do campo. Evidencia, neste
sentido, a necessidade de analisar as condições que possibilitam a continuidade da(o)
jovem neste contexto.
Os movimentos sociais do campo que fizeram parte desta investigação foram:
Movimento das Mulheres Camponesas (MMC), Movimento dos Atingidos por
Barragens (MAB), Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e
Movimento Sindical. Foram entrevistados coordenadores e jovens, estes últimos tinham
entre 16 e 23 anos e foram indicadas(os) por coordenadoras(es) dos movimentos sociais.
A área de referência descrita no projeto: microrregião de Chapecó – SC, sofreu
alterações no percurso, pois a realidade nunca é fidedigna às prescrições. Na abordagem
de campo optamos pela utilização das técnicas de entrevista e observação participante.
Para a composição do Quadro 1, além das informações obtidas através das entrevistas,
utilizamos os dados documentais fornecidos pelos movimentos sociais.
Utilizamo-nos do recurso de entrevistas semi-estruturadas que se realizaram
5
coletivamente entre as(os) jovens pertencentes a cada movimento. As entrevistas com
as(os) coordenadores tinham como foco o mapeamento dos projetos e ações voltados
para a juventude rural, sendo também a nossa “porta de entrada” na realidade destes
movimentos para posterior contato com as(os) jovens. Neste contato com as(os) jovens
objetivamos compreender a sua inserção e o seu envolvimento nos movimentos sociais,
bem como analisar em que medida os projetos e ações voltados para a sua realidade têm
repercussões no seu dia-a-dia e na constituição das identidades social e política.
Este estudo insere-se no contexto da pesquisa qualitativa, pois responde de
maneira mais adequada aos propósitos do fenômeno investigado. Utilizamos desta
forma, o conceito de González Rey (2002a, p. 31) sobre pesquisa qualitativa em
psicologia que enfatiza o reconhecimento da singularidade do estudo, ou seja, não se
pretende a partir da análise formulações generalizáveis, mas apreender o momento
empírico a partir do conjunto de significações que são construídas tanto pelas(os)
investigadoras(es) quanto pelos sujeitos investigados. Nesta perspectiva o olhar da(o)
pesquisador(a) contribui para a construção do conhecimento.
Esta compreensão faz-se indispensável para que se considere a pesquisa como
um momento de produção, portanto, inacabado, visto a infinidade de interpretações e
análises que se podem construir. Não pretendemos com esta pesquisa alcançar a verdade
absoluta. As afirmações não almejam, porém, ser consideradas sem a fundamentação e
embasamento indispensável para uma produção crítica e reflexiva, ou seja, o conjunto
das discussões apontadas neste trabalho devem ser consideradas a partir da sua
processualidade e também da coerência ético-epistemológica para que não caiamos nos
vazios conceituais que tantas vezes costumam encher as prateleiras de livrarias e/ou
bibliotecas.
Coerente com a postura epistemológica acima afirmada de que a produção do
conhecimento é construída na relação entre os sujeitos, optamos em “mesclar” o título
deste trabalho utilizando-nos da fala de uma das entrevistadas e de conceitos
acadêmicos para evidenciar a dialeticidade inerente à produção do conhecimento. A
escolha da fala deve-se à presença de diversos elementos, objetos desta análise. A seguir
estaremos apresentando a estrutura dos capítulos que compõem esta pesquisa, sendo que
os capítulos I e II referem-se aos aspectos conceituais e às categorias analíticas. O
capítulo III, por sua vez, aprofunda a discussão a partir da análise dos dados obtidos,
6
relacionando-os aos aspectos teóricos anteriormente abordados.
No primeiro capítulo Subjetividades: um olhar sobre a constituição dos sujeitos,
apresentamos a noção de subjetividade que, segundo González Rey (2002a), refere-se a
um sistema de significações e sentidos produzidos a partir das relações entre o objetivo
e o subjetivo, ou seja, é um fenômeno complexo que se expressa em dois momentos: o
individual e o social. Nesta análise referenciamo-nos, especialmente à concepção de
singularidade como aspecto essencial, produto/produtor de sentidos que se pretendem
criativos em relação à realidade homogeneizante. A identidade como outro aspecto que
constitui a subjetividade é compreendida aqui, como fator que permite aos sujeitos
constituírem-se e identificarem-se na relação com o outro.
No segundo capítulo Movimentos sociais do campo e juventude rural,
abordamos inicialmente uma conceituação geral destas categorias de análise, para
posteriormente determos-nos aos imbricamentos entre juventude rural e movimentos
sociais do campo no oeste catarinense. Para análise dos movimentos realizamos um
estudo detalhado a partir das contribuições de Scherer-Warren (1993), Gohn (2006),
Strapazzon (1997) e Poli (1999), que entendem os movimentos como formas
legitimadoras através das quais os sujeitos lutam pela transformação no sistema de
dominação, ou seja, buscam contrapor-se à institucionalização política.
Neste mesmo capítulo, em nossa análise a respeito da juventude rural, optamos
pela compreensão de que a juventude além do elemento biológico, constitui-se pelas
dimensões sócio-culturais e políticas. Este posicionamento está baseado nas colocações
de Sallas e Bega (2006) que evidenciam a necessidade de conhecer quais são os
parâmetros que o grupo utiliza para definir a juventude. Estamos falando assim, de
juventudes, numa alusão às diversas possibilidades de ser e existir. No que se refere ao
oeste catarinense buscamos fazer o resgate das interfaces entre a emergência dos
movimentos sociais do campo e a inserção das(os) jovens nesta realidade.
No terceiro capítulo Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude
rural co-relacionamos os dados empíricos com o olhar que embasa este trabalho. A
ênfase está na análise da singularidade e da trajetória dos sujeitos envolvidos em
movimentos sociais, a partir de uma perspectiva que indique as contradições inerentes à
própria constituição histórica dos sujeitos.
E falando em história... Vamos a ela!
7
1. Subjetividades: um olhar sobre a constituição dos sujeitos
Para uma discussão aprofundada é imprescindível problematizar e contextualizar de
que subjetividade estamos falando. Há diversas abordagens que trabalham com esta noção ou
seus correlatos1, porém, evidencia-se em grande parte da literatura relativa a este conceito a
reificação desta categoria de análise, em que hora se acentuam os aspectos intrapsíquicos de
constituição do sujeito, outrora este se apresenta como simples resultado do ambiente. Assim,
a proposta de análise da realidade vem ao encontro do que Freire (1987, p. 37) afirma sobre a
relação entre objetividade e subjetividade como aspectos inerentes à constituição do sujeito
quando aponta que:
A objetividade dicotomizada da subjetividade, a negação desta na análise da
realidade ou na ação sobre ela, é objetivismo. Da mesma forma, a negação da
objetividade, na análise como na ação, conduzindo ao subjetivismo que se alonga
em posições solipsistas, nega a ação mesma, por negar a realidade objetiva, desde
que esta passa a ser a criação da consciência. Nem objetivismo, nem subjetivismo
ou psicologismo, mas subjetividade e objetividade em permanente dialeticidade.
Amparando-nos nas discussões de González Rey (2002a, 2004), que define a
subjetividade como um processo que é simultaneamente interno e externo, intrapsíquico e
interativo, desvela-se como uma importante contribuição no sentido da não dicotomização
entre objetivo e subjetivo, um movimento dependente do contexto cultural em que o sujeito
está inserido.
Portanto, o ser humano pode ser definido apenas a partir da sua processualidade, pois
está imbricado num complexo processo de combinação/relação dos aspectos “internos” do
desenvolvimento e das condições “externas”. É o que Vigotski apud González Rey (2004)
define como situação social do desenvolvimento. A dimensão subjetiva da psique só existe
dentro da vida cultural, e constitui-se ao nível psicológico por configurações de sentido e
significado que não são reguladas diretamente por sistemas externos e nem mesmo pela
cultura da qual emerge. Estamos falando de singularidade que é a constituição da realidade
diferenciada na história de vida do sujeito.
Compartilhando desta perspectiva Lane (2002) esclarece que a subjetividade é
construída na relação dialética entre o indivíduo e a sociedade e as suas instituições, sendo
que estas relações são mediatizadas pelas emoções, pela linguagem e pelo pensamento que
1
Entre estes correlatos podemos nos referir à consciência, percepção, relação do sujeito com o ambiente, etc.
8
orientam o processo de subjetivação/objetivação da psique humana. Desta forma, não se pode
falar de um sujeito descolado da realidade em que se constitui, visto que:
Uma pessoa é a síntese do particular e do universal, ou seja, sua individualidade se
constitui, necessariamente, na relação objetiva com o seu meio físico, geográfico,
histórico e social que irão, através de suas ações, desenvolver o psiquismo humano
constituído, fundamentalmente, pelas categorias: consciência, atividade e
afetividade (idem, p. 12).
Ratificando estas contribuições de Lane, Sawaia (2006) detém-se no imbricamento
entre afetividade, estética e imaginação como elementos constituintes da subjetividade. Cabe
aqui fazer alusão à noção de afeto, pois vem ao encontro das discussões referentes ao olhar
científico sobre a realidade que relegou ao posto do esquecimento a afetividade, por
considerá-la fator de erro na análise dos homens e mulheres, causando a cisão entre racional e
afetivo.
A partir da crítica de Pinto (2005) a esta dissociação, é possível evidenciar a
afetividade como um aspecto que está implicado na organização do pensamento, ou seja, a
organização dos pensamentos influencia nossos sentimentos e da mesma forma o sentir
assume uma função organizativa do pensar. A afetividade engloba uma organização de
significados e conteúdos psicológicos como tristeza, amor, paixão, inveja, etc.
Ora, se afeto é a capacidade do ser humano de afetar e ser afetado, é potência humana
que provoca transformações em nossa existência, aumentando ou deprimindo a nossa ação,
como podemos negá-la como potencialidade de transformação e de (re)invenção de formas de
sociabilidade e como elemento constitutivo do pensamento/ação? Acreditamos que
afetividade é um aspecto sine qua non para a constituição de sujeitos singulares, pois afeto é
potencial de criação.
Mas afinal de contas... Como esta produção de subjetividade, que se desenvolve de
maneira contínua e inacabada, ocorre? Que processos estão envolvidos e arrolados no
desenvolvimento ontológico do ser humano? A categoria sentido passa necessariamente pela
dimensão do singular e pode auxiliar-nos no desdobrar destas perguntas e evidenciar possíveis
compreensões sobre os processos que estão engendrados na constituição do sujeito.
1.1 A subjetividade e o processo de singularização e criação
A singularidade como forma de expressão da subjetividade foi, durante um
determinado período da produção científica (final do século XIX até meados do século XX),
rechaçada por não apresentar os requisitos de cientificidade vigentes até então. A partir do
9
momento em que a subjetividade passa a ser considerada como aspecto fundamental na e para
a investigação científica, a singularidade também “ganha espaço” como fonte de discussões e
análises, questionando os projetos que visavam encontrar a regularidade e a essência da
condição humana.
Para o estudo, portanto, da singularidade torna-se essencial discutir o processo pelo
qual o ser humano (re)produz a realidade. Segundo Gozález Rey (2004, p. 53) é o sentido que
nos diferencia e nos possibilita receber e produzir a realidade num “nível” qualitativamente
diferenciado. Assim,
A categoria de sentido favorece uma representação da subjetividade que permite
entender a psique não como uma resposta, nem como um reflexo do objetivo, e sim
como uma produção de um sujeito que se organiza unicamente em suas condições
de vida social, mas que não é um efeito linear de nenhuma dessas condições.
Se o sentido não é algo pronto, cabe-nos tentar conhecer quais processos estão
inerentes à constituição do sujeito num determinado momento histórico-político-cultural, que
o fazem perceber, sentir, desejar determinadas formas de ser e experienciar a existência ou,
conforme afirma González Rey (2004, p. 55): “tentar conhecer a produção social dessa forma
de sentir”.
As contribuições de Guattari e Rolnik (1993) sobre a economia capitalística2 desvelam
os mecanismos de produção de subjetividade coletiva centrada no capital. Estes mecanismos
produzem algumas formas de sentir que são assumidas e vivenciadas na existência particular
do sujeito, ou seja, “A subjetividade está em circulação nos conjuntos sociais de diferentes
tamanhos: ela é essencialmente social, e assumida e vivida por indivíduos em suas existências
particulares” (Grifos dos autores, p. 33). A forma pela qual o sujeito assume esta
subjetividade em circulação oscila entre dois extremos e suas nuances: desde o processo de
alienação e opressão, em que o sujeito incorpora completamente a subjetividade tal como a
recebe, até o processo de singularização, em que o sujeito reapropria-se dos componentes da
subjetividade, numa relação de expressão e de criação de outras formas de experienciar.
No entanto, por mais que o sujeito esteja vivenciando um processo de alienação ou de
singularização num determinado momento de sua história, é indispensável considerar que
estes processos não são introduzidos, mas passam necessariamente pelas construções de
sentido do sujeito, ou seja, o sujeito apropria-se das construções coletivas de forma particular.
2
A economia capitalística é uma expressão cunhada por Guattari para definir o modo de organização social das
sociedades hodiernas que busca incluir, não somente as economias dos países centrais, mas também as
economias socialistas burocráticas e dos países periféricos.
10
Portanto, “Nenhuma experiência social tem um sentido universal para aqueles que a
vivenciam” (GONZÁLEZ REY, 2004, p. 91). Este processo de apropriação e produção de
sentidos constitui as identidades dos sujeitos.
1.2 Identidade como elemento constitutivo das subjetividades
Mercer (1990, apud Hall 2001) afirma que a identidade torna-se uma questão quando
está em crise, quando algo que se considerava estável, fixo e coerente, passa pela experiência
da dúvida e da incerteza. Portanto, a identidade só é percebida quando se vivencia uma
confrontação entre valores, conceitos e emoções. Está intrinsecamente relacionada à
percepção do outro, definido por Renk (2005) como aquele que é diferente do eu, do mesmo,
pois não compartilha dos meus ideais e da minha visão de mundo. Complementando estas
colocações, González Rey (2004, p. 158) indica que “A identidade é uma dimensão
subjetivada do sujeito, que só aparece na confrontação com as experiências novas que o
ameaçam em sua possibilidade de identificá-las como próprias”. Aponta também que se torna
indispensável o processo de reflexão do(s) sujeito(s) para a constituição de identidades. Esta
constituição somente ocorrerá nos espaços de ação do sujeito que lhe fizerem sentido.
Embora diversas perspectivas teóricas questionem as identidades por considerá-las
como processos que impedem a singularização, acreditamos que esta noção pode contribuir
para a apreensão sobre a realidade que investigamos. Interessa-nos aqui, aprofundar o
conceito de identidade social/coletiva e política, que segundo Prado (2002), são elementoschave para a análise dos imbricamentos entre subjetividade e movimentos sociais. Ao
referirmo-nos ao conceito de identidade social/coletiva estamos falando sobre o sentimento de
pertença, ou seja, a percepção que o sujeito tem sobre si e a sensação de que é acolhido por
determinado grupo ou comunidade. A identidade política, por sua vez, refere-se a um
conjunto temporário de significados que se modificam na medida em que o processo de
enfrentamento e da percepção dos interesses divergentes entre grupos tornam-se mais
evidentes devido ao próprio processo de reflexão do sujeito e/ou grupo ao qual pertence.
Prado (2002, 2005) compreende que para a constituição das identidades políticas o
processo de mobilização social é indispensável, pois é através do desenvolvimento da
consciência política que os sujeitos poderão propor novas formas de sociabilidade. Neste
processo de mobilização social, o autor destaca a importância e a inerência do processo
psicossocial que envolve a identificação coletiva, a passagem das relações de subordinação
para a consciência da condição da opressão e a delimitação de fronteiras políticas entre grupos
11
sociais. São estes elementos que contribuem para a percepção diferenciada sobre a realidade
social e a busca por novos jeitos de viver e conviver. Porém, para que este processo ocorra,
Tajfel (1984, apud Prado 2002) analisa a passagem da mobilidade à mudança social através
do processo de mobilização social.
A mobilidade social refere-se a um processo quase sempre individual e que se apóia na
crença da possibilidade de mudança livre de uma posição social para outra, sendo percebida
pelos sujeitos como mais flexível e com maior possibilidade de resultados positivos neste
empreendimento. A mobilização social, por sua vez, remete à compreensão de que a mudança
social só é possível quando realizada em e pelo grupo, pois há uma identificação entre os
membros de uma determinada situação que os leva, coletivamente, a lutar para alterações na
estrutura social. O autor destaca ainda, o fato de que a identidade política é constituída nos
espaços de reflexão, em que as relações passam a ser percebidas como num campo de forças
antagônicas.
Esta compreensão de que as identidades vão se constituindo a partir das disputas,
possibilita a apreensão não apriorística sobre a identidade, percebendo-a como movimento
que se constitui incessantemente a partir do confronto entre os diferentes grupos. Porém, além
destas divergências entre grupos é imprescindível considerar as “querelas” internas, que se
estabelecem nas relações cotidianas intra-grupais, pois não devemos ser “ingênuas(os)” a
ponto de crer que nas relações que se estabelecem entre os sujeitos pertencentes a um mesmo
grupo, há participação eqüitativa e igualitária, como se todos tivessem o mesmo direito a falar
(por mais que os discursos sempre apontem para esta preocupação). Como enfatizamos
anteriormente, a subjetividade é constituída/constituinte das relações entre os seres humanos e
a contradição é inerente a este processo. Não há como negar a história particular de cada
sujeito que se apropria e produz formas diferenciadas de relações de poder na intersecção com
o(s) outro(s).
Estas apreciações são imprescindíveis para a percepção da indeterminação humana e
para o seu devir sempre possível. A ação humana está no campo da criação e da
inventividade, portanto, não se define e não se delimita. É com o olhar que se detém para a
capacidade de engenho e de potência de criação humana que procuramos analisar as
subjetividades das(os) jovens rurais.
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2. Movimentos sociais do campo e juventude rural
Estaremos abordando no primeiro momento deste capítulo os conceitos de
movimentos sociais e de juventude a partir de uma perspectiva crítica e mais geral e,
em seguida, deter-nos-emos às especificidades e imbricamentos entre movimentos
sociais do campo (centrando-nos na realidade do oeste catarinense) e a juventude rural
envolvida nestes movimentos.
2.1 Conceituando movimentos sociais
Existe uma grande dificuldade na sistematização de um conceito sobre os
movimentos sociais. Gohn (2006) denota uma grande fragilidade nas construções
teóricas e interpretações que se devem às próprias transformações ocorridas tanto ao
nível dos objetivos e demandas dos atores sociais quanto às próprias alterações nas
perspectivas epistemológicas dos investigadores e às mudanças sócio-econômicas da
sociedade ampla. Embora Strapazzon (1997) direcione suas análises para os
movimentos sociais rurais, suas investigações apontam três principais tendências de
estudos sobre os movimentos sociais que emergiram durante as décadas de 1970 e
1980: a estruturalista-determinista, a político-institucional e a pluralista-articulista.
A abordagem estrutural-determinista tem o enfoque no viés econômico,
enfatizando as contradições resultantes da entrada do capitalismo no meio rural. Esta
perspectiva tem embasamento no marxismo, em que a condição social determina por si
própria, as relações antagônicas, dividindo os sujeitos entre burguesia e proletariado,
cabendo aos últimos o protagonismo para a transformação da sociedade. Assim, os
movimentos sociais rurais são subordinados e reificados à condição de luta de classes.
A abordagem político-institucional enfatiza as análises na falha dos sistemas
representativos na defesa dos interesses dos(as) trabalhadores(as) rurais. Esta falha seria
suprida pelos movimentos sociais que buscariam garantir os direitos que as
organizações as quais estão vinculados não conseguiam efetivar.
Compartilhando da perspectiva de que estas abordagens possuem impasses
metodológicos, Gohn (2006) propõe algumas demarcações que não devem ser vistas
como limitadoras das discussões a respeito de movimentos sociais, mas como um olhar,
13
um referencial a partir do qual se discuta e se reflita sobre as construções teóricas e as
práticas direcionadas aos movimentos sociais. As discussões e análises da autora
desenvolvem-se no campo da política, considerando os movimentos sociais como
expressões de poder da sociedade civil que ocorrem sempre em contextos de força
social, ou seja, no espaço da contradição.
É neste sentido que a abordagem pluralista-articulista apresentada por
Strapazzon (1997) converge com as considerações de Gohn (2006), pois concebe a
sociedade a partir da pluralidade de sujeitos que se constituem através de diversificadas
formações discursivas. Assim, os movimentos sociais seriam articulações de diversos
discursos, mobilizadores de diferentes significações que se unificam em prol de direitos
negados ou na reaquisição do que lhes foi retirado.
A ênfase, todavia, não recai sobre as condições materiais, ou seja, as condições
objetivas. Estas são, na verdade, a “[...] matéria-prima que potencialmente alimenta as
reivindicações” (STRAPAZZON, 1997, p. 19). Desta forma, a análise enfoca o
processo de articulação a partir das formações discursivas dos atores sociais que
atribuem significado ao processo. Este processo de atribuição de significado é
decorrente das ações e das interações com outros atores e não de ações isoladas dos
atores sociais.
O principal aspecto da perspectiva pluralista é o não determinismo tanto no que
se refere à emergência quanto ao desenvolvimento dos movimentos sociais. Este
aspecto é essencial na medida em que possibilita a apreensão dos sujeitos de forma nãoapriorística. A principal contraposição desta perspectiva às anteriores refere-se à visão
essencialista e determinista que aquelas concepções apresentam sobre os movimentos
sociais e os atores sociais, não permitindo a percepção das singularidades dos
envolvidos neste processo, muito menos as contradições inerentes, vislumbrando
apenas o ideal de um ator social e não o sujeito concreto, falível, que se constitui na
dialeticidade e na divergência.
Cabe-nos agora resgatar também alguns aspectos teóricos apresentados por
Gohn (2006) para a definição de parâmetros que auxiliam na conceituação sobre
movimentos sociais, embora corramos o risco de delimitar demais estas apreensões. Os
movimentos sociais podem ser entendidos, a partir desta perspectiva, como ações
sociopolíticas promovidas por atores sociais coletivos. São ações “aclassistas”, ou seja,
14
não são resultado de uma carência sócio-econômica, mas produto das disputas entre
forças divergentes e antagônicas. Trata-se de um espaço não institucionalizado de
formulação de identidades coletivas que são sustentadas por princípios valorativos,
políticos e ideológicos compartilhados pelos atores sociais, o que não significa dizer
que estes espaços de construção coletiva sejam isentos de contradições, conflitos e
tendências internas. Todos estes elementos devem ter uma sustentação, uma
ancoragem, a base que mantém os pilares, ou seja, o projeto político-social. É este
projeto que possibilita a mobilização dos sujeitos ou atores sociais em prol de um
objetivo maior. É o que Scherer-Warren (1993, p. 27) define como a utopia.
O utopianismo pode ser entendido como o aspecto ideológico dos movimentos
sociais, é a crença que permite ao grupo manter-se “engajado na e pela causa”, ou seja,
é a meta, o sonho almejado de uma sociedade diferente, a busca pelo novo, mas que é
sempre acompanhado por certo grau de incerteza, de dúvida sobre a possibilidade da
concretização do projeto.
Apesar de toda a repressão e violência que, conforme Gohn (2006) e SchererWarren (1993) apontam em suas análises, insistiam estar presentes durante o período da
ditadura militar e, talvez, até mesmo por este cerceamento da liberdade e dos direitos
humanos é que, principalmente, nas décadas de 70 e 80 do século XX, diversos
movimentos sociais eclodem reivindicando a garantia da dignidade humana, expressas
na busca pela cidadania.
Estes movimentos que priorizam a cidadania e articulam-se em redes vão
constituindo o que os teóricos têm classificado sob a premissa de “Novos Movimentos
Sociais”. Nesta busca pelo “novo” destacamos que estes movimentos passam a
valorizar aspectos que anteriormente estavam na dependência de setores como a Igreja
ou o Estado que, embora “proclamassem” a necessidade de os sujeitos rebelarem-se
contra a dominação, exerciam a domesticação na medida em que se consideravam os
representantes legais destes movimentos sociais.
Estas reivindicações produziram ecos que podem ser expressos na preocupação
dos governos em relação à situação de não-acesso aos direitos. Esta é uma conquista
que deve muito à participação de movimentos sociais da sociedade civil. Assim, as
lutas sociais contribuíram para a concepção de visões mais ampliadas da relação
Estado/sociedade e, para uma apreensão diferenciada sobre a sociedade civil.
15
2.2 Conceituando juventude
A idéia de juventude como uma fase específica da vida e relacionada a uma
determinada faixa etária é recente na história da humanidade. Estaremos resgatando
assim, alguns aspectos históricos de como esta concepção/idéia sobre o que é ser jovem
foi se constituindo. Ariès (1981), em sua análise sobre os efeitos da civilidade na
constituição do sujeito contemporâneo enfatiza que nossos hábitos de identidade civil
estão ligados a três mundos: o nome, que pertence ao mundo da fantasia, o sobrenome à
tradição e a idade à exatidão e ao número.
Durante a Idade Média a preocupação com as “idades da vida” era do domínio
científico, porém, as categorias infância e puerilidade, juventude e adolescência,
velhice e senilidade são apropriadas pelo senso comum a tal ponto que hoje não se tem
mais idéia da importância dessas categorias nas antigas representações do mundo.
Sendo assim, “As idades da vida não correspondiam apenas a etapas biológicas, mas a
funções sociais; sabemos que havia homens da lei muito jovens, mas, consoante a
imagem popular, o estudo era uma ocupação dos velhos” (ARIÈS, 1981, p. 9).
No final da Idade Média não havia restrições para a utilização da palavra
infância. Muitas vezes foi empregada para definir pessoas com 14 ou até mesmo 28
anos. Foi durante o século XVII que, entre a burguesia, o sentido moderno de infância e
de juventude é delineado. A arbitrariedade até então vigente na concepção destas
categorias deve-se ao fato de que os fenômenos biológicos (puberdade) eram
indiferentes. Infância era sinônimo de dependência e somente quando se saía dessa
condição poderia considerar-se ao sujeito como adulto, ou seja, a juventude não era um
período específico e relevante durante a Idade Média.
O século XX vê “proliferar” a concepção latente de adolescência, separando a
distância entre a infância e a maturidade. Nas palavras de Ariès (1981) “A consciência
da juventude tornou-se um fenômeno geral e banal após a guerra de 1914, em que os
combatentes de frente de batalha se opuseram em massa às velhas gerações de
retaguardas” (p. 14-15).
As contribuições de Bourdieu (1983) sobre o “conceito” de juventude
convergem com a perspectiva de Ariès (1981), pois em sua crítica às visões
16
essencialistas sobre o que é a juventude o autor indica a arbitrariedade das divisões
etárias. Ou seja, ambas as perspectivas denotam que os critérios para a definição de
uma determinada condição estão intrinsecamente relacionados aos aspectos culturais,
históricos e políticos de uma determinada sociedade.
Chama-nos a atenção o título do artigo de Bourdieu (1981): A “juventude” é
apenas uma palavra, destacando a compreensão de que se trata de uma categoria social,
objeto de disputas de poder, sendo passível de manipulação conforme as necessidades e
os interesses que estão em jogo nas relações sociais. Sendo assim, segundo o autor: “As
classificações por idade (mas também por sexo, ou, é claro, por classe...) acabam
sempre por impor limites e produzir uma ordem (...) em relação à qual cada um deve se
manter em seu lugar” (Grifos do autor, p. 112).
Sallas e Bega (2006) enfatizam neste sentido, a necessidade de considerar a
juventude a partir do contexto de relações em que está inserida, evitando precipitações
e análises equivocadas que não dão conta das realidades específicas de construção e de
constituição das diferentes identidades do ser jovem. Reis (2006), dando seqüência a
estas reflexões, aponta que é essencial abordar a temática a partir da noção de
juventudes – no plural – indicando a multiplicidade de expressões dos jovens nos
diferentes contextos. Juventude, no singular, refere-se a um determinado momento da
vida, manifestando-se na trajetória pessoal como um imbricamento entre a construção
coletiva e a singularidade.
Segundo Mayorga (2006) a imposição da ordem do que é ser jovem na
atualidade tem centralidade na visão adultocêntrica. É neste sentido que há uma
tendência preponderante de discutir a juventude a partir das visões de falta, de
inadequação e de desvio, legando-lhe o não-lugar ou o lugar da invisibilidade. Sousa
(2006), no prefácio do livro Jovens e crianças: outras imagens, denuncia o fato de que a
juventude vive uma situação ambígua na contemporaneidade, pois hora é enaltecida e
outrora ignorada, percebida como marginal, ou consumista – dependendo da classe
econômica à qual pertença.
A proposta para o segundo momento deste capítulo é um desafio, mas também
uma tentativa de contextualizar a realidade do oeste catarinense e dos(as) jovens como
agentes múltiplos e que se constituem nesta territorialidade. É neste sentido que
estaremos apontando para a emergência dos movimentos sociais do campo nesta região
17
e a implicação da juventude nesta realidade, seja na perspectiva de manter-se no meio
rural, seja como necessidade de buscar outros espaços de sociabilidade.
2.3 O contexto dos movimentos sociais do campo e a juventude rural no oeste
catarinense
Os movimentos sociais do campo emergem no oeste catarinense num
determinado contexto histórico, político e econômico. Desta forma, consideramos
essencial explicitar a realidade que possibilitou a constituição destes movimentos.
Concomitante à emergência dos movimentos sociais do campo, os jovens deparam-se
com uma nova realidade que também fará parte das discussões a seguir.
A partir de meados dos anos 1970, as mudanças advindas do processo de
modernização agrícola impuseram aos agricultores familiares a adoção de novas
práticas produtivas e tecnológicas que ocasionaram transformações significativas em
seus processos produtivos e modos de vida baseados no campesinato tradicional. A
emergência dos movimentos sociais do campo no oeste catarinense, na década de 1980,
tem como elemento aglutinador a precariedade de vida e trabalho que os pequenos
agricultores vivenciam a partir deste processo conhecido como Revolução Verde.
Segundo Renk (2000) e Poli (1999), principalmente a partir da segunda metade
da década de 1970, a divisão interna do trabalho na unidade camponesa passou a sofrer
mudanças, impedindo a reprodução da família nos moldes tradicionais. A exigência de
incorporação de tecnologias (máquinas, insumos, herbicidas, etc), visava cada vez mais
uma produção voltada para o mercado, ocasionando a descapitalização de muitas
famílias e a desestabilização na produção agrícola. Atrelada à pauperização deste modo
de organização social da agricultura, constata-se a escassez de alternativas para
reprodução social no campo, impelindo ao êxodo rural.
Faz-se necessária, neste momento, uma pausa para aprofundarmos a discussão
sobre o processo de reprodução social da agricultura familiar, visto tratar-se de um
conceito essencial para a apreensão do contexto investigado. A reprodução social
caracteriza-se, conforme Renk (2000) explicita em sua análise a respeito da crise
vivenciada no oeste catarinense, por um modo de organização social que integra os
processos de longa e curta duração. A reprodução social de longa duração refere-se à
manutenção, reposição e transmissão dos aspectos constituintes de um determinado
18
modo de ser de geração para geração, ou seja, é a composição dos elementos
identitários, valorativos, laborativos que são transmitidos intergeracionalmente,
constituindo o processo que se denomina “devolução intergeracional”. A reprodução
social de curta duração refere-se às práticas cotidianas que estão pautadas nos princípios
valorativos constituintes e constituídos no movimento intergeracional.
A crise vivenciada na agricultura tem implicações profundas neste modo de
organização pautado nos princípios do campesinato. O jovem, neste contexto, não vê
perspectivas de continuidade e, se no período anterior à crise, o anseio de permanência
e de continuidade mobilizava a todos os membros familiares, fazendo com que muitos
jovens deserdados sentissem-se excluídos de sua condição camponesa, o período
posterior é de dificuldade para o encontro de sucessores na reprodução social do
campesinato (RENK, 2000).
Diante deste contexto vários movimentos sociais camponeses emergem,
preocupados em buscar novas estratégias de reprodução social para as famílias de
agricultores. Poli (1999) chama a atenção para o fato de que estes movimentos iniciam
suas manifestações em momentos quase simultâneos, num espaço muito curto de
tempo. Eclodem as reivindicações nos mais diferentes âmbitos, dando início à trajetória
do Movimento de Oposição Sindical, o Movimento das Mulheres Agricultoras3
(MMA), o Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) e o Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), todos analisados pelo autor como “Novos
Movimentos Sociais”.
Os movimentos sociais no campo sempre estiveram relacionados uns aos outros,
na medida em que muitas das questões tratadas por eles são comuns, constituindo a
perspectiva de redes. Esta perspectiva de redes é concebida por Scherer-Warren (1993)
e Strapazzon (1997) como a crítica ao marxismo ortodoxo, pois busca ultrapassar a
visão de um sujeito único, englobando a heterogeneidade em prol da integração de
diversidade, ou seja, não mais a unicidade, mas a pluralidade de vozes e de atores
envolvidos que buscam a articulação entre o local e o global, entre o particular e o
universal.
No intuito de apreensão das especificidades de cada um dos movimentos acima
3
Na atualidade há duas vertentes principais às quais não iremos nos aprofundar: o Movimento das
Mulheres Agricultoras (MMA) e o Movimento das Mulheres Camponesas (MMC). Na nossa pesquisa, as
entrevistadas optam pela denominação de MMC.
19
referidos estaremos a seguir abordando alguns aspectos que os diferenciam.
Salientamos que seria muita pretensão considerarmos este breve resgate como uma
análise aprofundada, porém, não podemos deixar de tecer algumas apreciações, pois
estes movimentos constituem-se como pano de fundo da temática, sendo que o
essencial nesta discussão é evidenciar a participação e o envolvimento da juventude
neste contexto.
O Movimento da Oposição Sindical (também conhecido como Sindicato
Combativo) inicia suas atuações a partir do final da década de 1970, contrapondo-se à
perspectiva vigente no sindicalismo oficial que se caracterizava essencialmente por
estar atrelada ao Estado e por sua conduta assistencialista. Segundo Poli (1999) este
“novo” jeito de organizar-se tem como princípios a desvinculação em relação ao
Estado, a busca pela autonomia e a garantia de direitos relacionados à viabilização da
permanência dos(as) trabalhadores(as) no campo. As principais reivindicações e
proposições quando houve a assunção das Oposições Sindicais na gestão dos sindicatos
referem-se à: “[...] sindicalização da mulher agricultora, a criação de delegacias
sindicais nas comunidades, o estímulo à organização e o investimento na formação de
lideranças e no processo de informação dos associados” (POLI, 1999, p. 88).
Atualmente existem diversas bases sindicais às quais as(os) agricultores(as)
podem associar-se. Optamos realizar a pesquisa através da Federação dos
Trabalhadores na Agricultura Familiar da Região Sul (FETRAF-Sul) devido à
proximidade ideológica desta organização sindical em relação aos movimentos sociais
do campo.
Num primeiro momento em que o MMC estava em processo de organização, a
ênfase sobressaltava sobre os aspectos classistas que, pouco a pouco vão cedendo
espaço para as discussões sobre as relações entre homens e mulheres. Poli (1999)
ressalta que as questões de gênero sempre estiveram implícitas, porém, vão ganhando
força na medida em que estas mulheres politizam-se e reconhecem as relações de
opressão presentes também no campo, tanto no que se refere ao reconhecimento de seus
direitos trabalhistas e de agricultoras quanto à sua condição de ser mulher.
O MAB organiza-se na defesa dos(as) trabalhadores(as) rurais que foram ou
serão atingidos pela construção de barragens. As principais reivindicações apontadas
por Uczai (1992), pautam-se no questionamento aos projetos que originam estas
20
barragens, pois as pessoas atingidas não participam do processo de construção destes
projetos que implicam diretamente em suas vidas e em seu modo de organização do
trabalho. Inicialmente o movimento organizava-se para garantir indenizações ou
reassentamento através das bandeiras de luta: “Indenização justa para nossas terras” e
“Terra se troca por terra e não por dinheiro”, dividindo as opiniões entre os atingidos. A
estas reivindicações acrescentou-se a tentativa de impedir a construção das barragens
devido à problematização realizada pelo movimento referente ao modelo energético
brasileiro, pois há outras formas de produção energética menos “destruidoras” do
ambiente, incluindo os aspectos econômicos, políticos e sociais.
As lutas e reivindicações de trabalhadores(as) do campo para conquistar a posse
de terra não emergiu, segundo Poli (1999), em um único local, nem é uma experiência
específica ou isolada. Trata-se da organização de agricultores(as) sem terra através do
MST que buscam garantir o acesso a um bem universal, mas que devido à entrada do
capitalismo na agricultura encontram-se despojados desta possibilidade. O movimento
denuncia uma grande contradição: a existência de grandes áreas improdutivas versus
expropriados que perderam suas terras ou nunca a acessaram.
A partir desta breve contextualização referente à atuação dos movimentos
sociais do campo, faz-se indispensável enfatizar a participação e o envolvimento da
juventude que tem se destacado nas preocupações e debates realizados pelos
movimentos. Estas discussões advêm da problemática recente da saída do jovem do
campo que, não encontra muitas perspectivas para a sua continuidade. Segundo aponta
a cartilha da Rede CEPAGRO de Desenvolvimento Local4 (2001) vários fatores
convergem para o êxodo da juventude rural, tais como: perspectiva de que a cidade
proporciona melhores condições financeiras, a possibilidade de continuação dos
estudos, as dificuldades na agricultura e a impossibilidade de sucessão hereditária
devido à falta de terras.
Brumer (2006) indica neste sentido, que estes aspectos fazem parte de duas
categorias diferenciadas para a saída da juventude do meio rural: os fatores de atração
da cidade e os fatores de expulsão do campo. Aponta para o fato de que: “[...] na
decisão de migrar, provavelmente os fatores de expulsão são anteriores aos de atração,
4
A Rede CEPAGRO de Desenvolvimento Local compõem-se pelas seguintes entidades: APACO;
CEMEAR; CEPAGRI; CEPAGRO; FETRAF-Sul; Centro VIANEI de Educação Popular; e TERRA
NOVA Assessoria Ecológica.
21
na medida em que os indivíduos fazem um balanço entre a situação vivida e a
expectativa sobre a nova situação” (BRUMER, 2006, p. 3).
As contribuições de Stropassolas (2003) sobre a permanência ou não da(o)
jovem no campo são instigadoras para que não se naturalize nenhuma das situações, ou
seja, o autor denuncia posições extremistas que não vêem a possibilidade de sucessão
hereditária, com a fatalidade representada pela saída da juventude sem perspectiva de
manutenção. Da mesma forma critica as posições que pretendem a permanência da(o)
jovem no campo a todo custo, desconsiderando as suas vontades e os seus anseios. No
que se refere à migração de jovens rurais, o autor apresenta diversas indagações que
consideramos pertinente apresentar, pois vão de encontro a estas perspectivas
impregnadas em diferentes âmbitos, desde o mundo acadêmico até as lideranças e os
representantes políticos: “Por que este é um problema? Para quem? O movimento
(migratório) não seria também, para as famílias e para os jovens, uma das estratégias
possíveis em busca de solução para os seus problemas e expectativas?” (p. 150-151).
Chama a atenção o fato de que Stropassolas (2003) denomina a esta solução
como uma estratégia, ou seja, parte do pressuposto da necessidade do processo
reflexivo em que diversas possibilidades estão colocadas para o sujeito e, que entre
estas optou, decidiu conscientemente sobre uma das possibilidades. Porém, este
processo reflexivo não é uma constante na maioria das famílias e dos(as) jovens que
optam pelo êxodo. A escolha é na maioria das vezes, como apontado anteriormente,
resultante da dificuldade de vislumbrar outras possibilidades e estratégias que não a
migração.
Diante do exposto evidencia-se a complexidade e os diferentes imbricamentos
que contribuem para a permanência ou não da juventude no campo. Ressaltamos que
estes aspectos referentes à realidade de o jovem querer ou não se apropriar dos
elementos do ideal campesino são constituintes e constituídos nas relações sociais. O
jovem apropria-se e produz sentidos sobre o contexto em que está inserido. É para a
análise dos processos de produção de subjetividades de jovens envolvidos em
movimentos sociais que estaremos aprofundando as discussões no próximo capítulo. As
próximas análises serão referentes a um recorte da realidade, portanto, não se insinuam
como verdades absolutas. Pretendemos, no entanto, abarcar algumas possibilidades de
compreensão a partir da complexidade, por considerá-la menos reificadora da realidade.
22
3. Os movimentos sociais do campo no cotidiano da juventude rural
A proposta deste capítulo é um desafio e ao mesmo tempo a possibilidade de
aprofundarmos a nossa compreensão e olhar sobre a realidade investigada. Organizamos
o capítulo em três eixos temáticos: A história como ela é contada: um olhar a partir das
trajetórias de jovens rurais; Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado
para e com a juventude?; A identidade política das(os) jovens militantes dos
movimentos sociais do campo;, que foram definidos após o processo de categorização
das entrevistas. Optamos pela utilização das iniciais dos nomes das(os) entrevistadas(os)
no intuito de evitar a identificação das(os) informantes.
Elegemos, num primeiro momento, dez categorias5, mas ao iniciarmos o
processo da escrita, percebemos a possibilidade de condensá-las nestes eixos devido ao
entrecruzamento destes elementos que se constituem a partir da complexidade e da
trama de relações da vida, sendo assim, indissociáveis. A reestruturação em torno desta
nova situação exigiu-nos selecionar alguns aspectos em detrimento de outros que não
são menos importantes ou necessários para a análise, mas como a realidade possui
(de)limitações que estão relacionadas ao próprio campo perceptivo de quem as vê e
interpreta, este foi o recorte possível para o momento. Convidamos agora para que ouse
fazer suas considerações sobre o que pensamos ser apenas uma “fatia do bolo”!
3.1 A história como ela é contada: um olhar a partir das trajetórias de jovens
rurais
Estaremos
no
momento
seguinte
explicitando
a
trajetória
das(os)
entrevistadas(os) e concomitantemente apresentaremos alguns aspectos referentes à
nossa “aventura antropológica”. Consideramos essencial a realização deste processo,
devido à própria perspectiva que nos orienta ser desveladora da impossibilidade de
neutralidade na arte de pesquisar, incluindo os elementos que a constituem: pesquisador
versus pesquisado, sujeito versus objeto, enfim, as dicotomias anteriormente criticadas.
Sendo uma arte, não se sabe exatamente onde termina a idéia do criador e onde inicia a
5
As categorias de análise delimitadas no primeiro momento foram: Processo intergeracional; Trajetória
pessoal no movimento; Preocupação em relação à juventude; Formação política; Discurso sobre
identidade política e social; Conceito de juventude e juventude rural; Trabalho; Gênero; Alternativas para
permanência no campo; Projetos e ações.
23
imaginação de quem se depara com a obra. Para subsidiar estas reflexões retomamos o
conceito de subjetividade que, segundo González Rey (2002a) refere-se à integração das
diferentes esferas da experiência humana que produzem formas de significação e
sentido complexas, portanto, indissociáveis, dificilmente possíveis de segmentação.
A trajetória tem o sentido da percepção da singularidade dos sujeitos no
movimento, ou seja, buscamos apreender, diante do discurso ideológico que orienta as
ações e reflexões dos movimentos sociais do campo, a forma particular com que cada
sujeito entrevistado apropria-se e dimensiona a ideologia que embasa o movimento
social. Nesta análise da trajetória consideramos essencial perceber os diversos aspectos
que vão constituindo estas singularidades desde a demanda e as necessidades que
mobilizaram o sujeito a participar de um determinado movimento social até a sua
história pessoal, a sua inserção que tem aspectos sui generis.
Silva (2004) em sua análise sobre a produção de subjetividades num
assentamento do MST contribui para o questionamento destas produções nos diferentes
movimentos investigados, afirmando que embora haja o forjamento de subjetividades
hegemônicas, os sujeitos apropriam-se destes processos de maneiras distintas,
constituindo modos particulares de vivenciar e experienciar a realidade do movimento
social. A singularidade exige-nos retomar o conceito de sentido através do qual o
objetivo transforma-se em psicológico. É este processo que possibilita o “colorido” e as
“tonalidades” da vida.
Pensando nestas nuances que caracterizam a vida e a pesquisa, não podemos
deixar de referenciar uma situação que experienciamos após a realização das entrevistas
com as(os) coordenadoras(es) dos movimentos. Partimos para as entrevistas com as(os)
jovens que, porventura, o movimento houvesse indicado e, o primeiro movimento social
que buscamos foi o MMC. Estávamos preparadas para entrevistar duas jovens
envolvidas neste movimento social... Qual não foi a nossa surpresa quando nos
aguardavam três jovens, sendo que uma delas não pertencia à microrregião de Chapecó!
E o que fazer? No projeto delimitamos duas entrevistas individuais por movimento com
sujeitos desta microrregião! Poderíamos simplesmente deixar-nos guiar pelos preceitos,
por aquilo que estava prescrito, mas preferimos guiar-nos pela emoção do momento...
Por que não entrevistar três jovens de forma coletiva? Foi o que fizemos.
Esta situação foi de extrema importância para que pensássemos sobre as
24
imprevisibilidades, as descontinuidades que são inerentes à arte de pesquisar. É fato que
estes pequenos imprevistos são importantes para que as(os) pesquisadoras(es)
“desarmem-se” do seu controle rígido sobre os processos que constituem a pesquisa,
“despindo-se” de fórmulas preestabelecidas, porém, sem perder o objetivo, a finalidade.
O imprevisto auxiliou-nos na realização de entrevistas coletivas que possibilitaram
evidenciar elementos da singularidade e da coletividade (objetivos da pesquisa). Além
disso, o fato de uma das jovens não se “enquadrar” nos critérios de pertencimento à
microrregião foi um aspecto que contribuiu para a nossa percepção de que os
movimentos sociais são desterritorializados, não se caracterizam como especificidade de
um lugar, mas abrangem a coletividade de sujeitos de diferentes localidades. Diante
destas colocações que refletem o nosso próprio processo de produção de sentido a partir
da relação dialética entre objetividade e subjetividade, debruçar-nos-emos agora às
reflexões realizadas sobre as entrevistas com estas(es) jovens.
Alguns mais falantes outros nem tanto, uns cativam no primeiro contato, para
outros talvez fossem necessários mais contatos... Foram encontros muito breves a partir
dos quais se evidenciaram pequenas lembranças das histórias de cada sujeito, narradas
com ou sem entusiasmo. Cabe-nos ter clareza também, que nem sempre é possível
transmitir a confiança que o outro necessita para expor sua vida a pessoas “estranhas”
ao seu contexto e ao seu dia-a-dia. É necessário ter o discernimento em relação à
presença do gravador como um elemento “estranho”, inibidor, pois não está presente na
nossa experiência diária. Mas por que estamos detendo-nos a estes detalhes e minúcias?
Acreditamos que são estes pormenores, tantas vezes desprezados no meio acadêmico,
que fazem a diferença no que se refere à proposta desta pesquisa, ou seja, falar de
subjetividade, de singularidade, exige-nos colocar no centro das reflexões os processos
que são inerentes à sua constituição, versando a história de cada sujeito. Pois,
[...] el sujeto representa um importante punto de confluência entre las
subjetividades social e individual: el sujeto es resultado de su historia
individual, en la cual se constituye como personalidad y, simultáneamente,
representa un momento activo en la constitución de la subjetividad social,
dentro de la cual se desarrolla de forma permanente como personalidad
(GONZÁLEZ REY, 2002b, p. 27-28).
As afirmações de González Rey (2002b) ratificam a necessidade de análise a
partir do sujeito não reificado e ensimesmado, mas dialético, síntese da complexa trama
25
que o constitui e o faz singular. Na tentativa de fazer jus a estas colocações, estaremos
abordando agora a inserção de cada sujeito entrevistado.
J.A.P.S., mulher, 19 anos, militante do MST, iniciou sua trajetória em 2002
quando houve a ocupação que originou o acampamento Dom José Gomes, na Linha
Água Amarela, do município de Chapecó, SC.
[...] pra vim pra cá foram os trabalhos de frente de massa que o pessoal fazia
nas regiões pobres e nós morávamos numa área que recém tinha sido
regularizada ali perto do bairro São Pedro, atrás do CAIC. Tinha bastantes
famílias lá que estavam em condições de passar fome, que tinham que catar
papel pra sobreviver, que não tinham trabalho. Então o pessoal fez uma
reunião com essas pessoas e nós éramos uma das famílias que estavam
incluídas, então foi uma última alternativa de vida, de procurar uma vida
melhor, aí nós resolvemos vir pra cá.
O sentido acima apresentado é reconfigurado por esta militante, pois se
inicialmente a perspectiva resume-se à possibilidade de sobrevivência, a participação no
movimento social abre um leque de intenções que não se referem mais tão-somente à
busca de moradia e de alimento, mas à percepção dos direitos como cidadã. Este
processo de conscientização de uma condição social de exclusão para a condição de
sujeito crítico e reflexivo advém do que Scherer-Warren (1993) afirma como as novas
relações societárias que se estabelecem no coletivo do movimento social, em que as(os)
atrizes/atores reapropriam-se das relações comunitárias politicamente, configurando-lhe
um novo sentido, como sugere a seguinte fala da mesma entrevistada:
Mas quando a gente vem pra cá, a gente vê que não é só terra que precisa.
Precisa de terra, de saúde, de escola, de vida digna, de produtos saudáveis,
de alternativas de cooperação, de crédito [...] O movimento trabalha essa
questão do crédito, de a gente lutar por isso, de a gente saber que além da
terra tem muitas outras coisas que a gente precisa, que é necessário
(J.A.P.S., militante do MST).
Chamou-nos a atenção neste processo de entrevista coletiva o fato de que,
embora todas(os) passem pela mesma formação – e aí vem a questão da singularidade –,
não exime das discussões feitas anteriormente que se referem às características pessoais
de cada sujeito. As outras duas militantes do MST – L.K., 23 anos e J.A., 19 anos,
mulheres – que participaram desta entrevista coletiva, talvez por timidez ou até mesmo
pela nossa presença, dificilmente expressavam suas opiniões, apenas confirmavam as
26
considerações feitas por J.A.P.S. Foi com muito esforço que conseguimos obter alguns
dados sobre a sua trajetória pessoal que abordaremos logo em seguida. Esta situação
causou-nos certo constrangimento e até mesmo impotência, pois fizemos (ou
acreditamos fazer) vários esforços no intuito de facilitar às entrevistadas que
expressassem suas opiniões. Esta dificuldade contribuiu para nossos debates a respeito
da singularidade e da prática de pesquisar. Será que não fomos percebidas como
“intrusas”? Não sabemos, pois não realizamos um processo que consideramos agora
fundamental: a devolução das análises para os sujeitos que fazem parte da pesquisa
possibilitando que expressem suas opiniões, suas concordâncias e discordâncias.
A trajetória de L.K., mulher, 23 anos, militante do MST de Chapecó – SC,
diferencia-se da história das outras militantes do MST entrevistadas, pelo fato de que
seus pais contribuem com o movimento desde o início das ocupações, porém, não estão
em busca da terra. Neste sentido, esta jovem evidencia que o seu envolvimento está
intrinsecamente relacionado com a trajetória vivenciada por seus pais que, apesar de
possuírem um “pequeno pedaço de terra”, não tem condições de dividi-la entre as(os)
filhas(os), incentivando-as(os) a buscarem no MST a alternativa para a reprodução
social do modo de vida baseado na agricultura familiar.
L.K.: Meu pai sempre ajudou, desde 85, no início do movimento, ele
sempre ajudou nas ocupações, ia por todo o estado [...] ele não é assentado,
mas sempre participou, sempre ajudou, ele mora em Quilombo no interior,
mas ele sempre esteve junto, nas frentes de ocupação.
E: E isso fez com que você acompanhasse também, como que é?
L.K.: Ah, a gente sempre notava, porque, 85 né, (risos) 84 é o ano que eu
nasci. Eu notava que ele saía, ia nas casas, ia fazer a frente de massa que
dizem. Ele sempre motivou a gente, que é bom, que é o melhor jeito de a
gente conseguir uma terra, porque se tivesse lá junto com ele com certeza 7
filhos não ia conseguir comprar um pedaço de terra pra cada um. Sempre
motivou a gente pra que participasse, inclusive quando eu morava lá sempre
participava das discussões, do grupo de mulheres também. Então é isso, ele
sempre motivava nós a participar do grupo de jovens, do movimento de
mulheres. Sempre tem pessoas que motivam a gente a ir para os movimentos
sociais.
Esta trajetória evidencia a importância do processo intergeracional que se refere,
segundo Renk (2000), à transmissão de valores, da herança e da cultura camponesa.
Neste caso, esgotadas as possibilidades de garantia da terra através do processo de
divisão, a jovem buscou o MST como uma estratégia de manter os princípios e os
valores relacionados ao cultivo da terra e à continuação do modo de vida camponês. A
27
indivisibilidade da terra é, neste caso, decorrência da insuficiência deste recurso para
todas(os) os membros da família, pois se trata de propriedade de tamanho mínimo e
que, se cindida perde a sua capacidade de produção. Este impasse – a indivisibilidade da
terra – suscita diversas possibilidades para a reprodução social e entre estas, devido à
própria proximidade da família de L.K. com o movimento, apresentou-se a alternativa
de viabilizar a continuação e a sobrevivência na/da terra. A jovem sempre acompanhou
o movimento e relata que a partir do momento em que se insere como militante passa a
realizar diversos cursos e a participar mais efetivamente desta realidade.
J.A., mulher, 19 anos, militante do MST de Chapecó – SC, também tem uma
trajetória familiar que aponta para o envolvimento e a busca no espaço deste movimento
de alternativas para garantir a reprodução social camponesa.
Eu fui acampada junto com meu pai no ano de 1997. Já faz um tempo aí.
Depois ele foi assentado. Aí saiu esse acampamento aqui e depois de dois
anos eu resolvi vim pra cá. Estava com ele, daí resolvi vir pro acampamento,
depois eu casei, me amontoei (risos).
A timidez desta entrevistada foi bastante marcante, muito mais do que o
conteúdo de sua fala, houve dificuldade até mesmo para transcrever as suas colocações,
quase inaudíveis. Acreditamos, no entanto, que o retraimento não significa menos
capacidade reflexiva ou de resistência (no sentido de obstinação), contrapondo assim, a
própria idéia que os movimentos sociais apresentam em seus discursos de que a
participação possibilita a formação de sujeitos “altamente críticos e falantes”, ou seja, o
que ocorre é que muitas vezes se confunde o falar com o agir. Muitos homens e
mulheres, segundo Silva (2004, p. 43): “Podem não fazer grandes discursos ou gestos,
mas nem por isso são menos importantes ou lutam menos”. Reiteramos, portanto, a
singularidade como as diversas possibilidades de ser e existir que se referem às formas
particulares de experienciar a “vida vivida”.
C.P., mulher, 21 anos, militante do MMC de Águas Frias – SC, relata que está
há pouco tempo participando do movimento. A sua atuação mais efetiva ocorreu a partir
de 2006, quando foi convidada a participar de um curso técnico em agroecologia. A
jovem relata que esta participação nos movimentos sociais relaciona-se à própria
trajetória de seus pais que também estão envolvidos politicamente e contribuindo na
organização dos movimentos.
28
Meu pai também, ele sempre, desde quando ele veio aqui pra Santa Catarina,
que antes ele morava no Rio Grande do Sul, ele já participava dos
movimentos, ajudava na organização, etc. e tal. Eu também, ele apóia muito
e acha que é por aí o caminho, que o jovem tem que estar ligado aos
movimentos.
A fala indica a preocupação das gerações mais antigas em relação à juventude e
a necessidade desta de encontrar alternativas para questionar e problematizar a realidade
a partir da coletividade, ou seja, da busca por movimentos sociais que engajem as(os)
jovens na luta política e ideológica. Parece-nos, além disso, que o incentivo deste pai
vem ao encontro da perspectiva de reprodução social camponesa, em que se vislumbra a
luta política como estratégia para garantir a sustentabilidade deste modelo.
J.M.R., mulher, 18 anos, militante do MMC de Mondaí – SC, iniciou sua
trajetória mais efetiva também a partir de 2006 quando foi convidada a realizar o curso
de agroecologia, juntamente com C.P., promovido através da Via Campesina. Esta
jovem relata a participação de sua mãe e de seu pai em movimentos sociais,
contribuindo para a sua participação e o seu envolvimento.
A minha mãe também já participa, eu iniciei a partir dela. Meu pai também,
quando a gente morava em Itapiranga, outro município, eu não era nem
nascida ainda, ele participava de um... era chamado 4s6, que era meio que do
movimento sindical e tal, então eles dão total apoio, porque eles já
conhecem bastante dessa luta de movimentos, é apoio total, até minha mãe,
às vezes a gente vai juntas pros encontros.
Neste caso a mãe não somente apóia a participação da filha no MMC como
também acompanha ativamente as discussões e debates realizados pelo movimento.
Esta história diferencia-se um pouco da trajetória de R.G., mulher, 22 anos, militante do
MMC de Novo Horizonte – SC que também é participante do curso de agroecologia,
pois embora os pais a apóiem e incentivem a participar não se evidenciou o
envolvimento destes em movimentos sociais, como relata a jovem:
6
O programa 4s era um programa de extensão da antiga Associação de Crédito e Assistência Rural de
Santa Catarina (ACARESC) nos anos 60, atualmente Empresa de Pesquisa Agropecuária e Difusão de
Tecnologia de Santa Catarina S.A. (EPAGRI) e tinha uma perspectiva funcionalista. A jovem,
provavelmente, não teve acesso a esta informação.
29
Lá em casa eles dão incentivo. Até no início, que eu falei que ia pra escola,
teve um incentivo grande, às vezes a gente cansa de ir pra reunião e eles
dizem “Vai, que vai dar certo”, então é um incentivo, sem incentivo é mais
difícil.
Constata-se, portanto, que nem sempre há uma história de envolvimento familiar
que justifique a atuação das(os) jovens em movimentos sociais. Com isso estamos
querendo afirmar que não há nenhuma preocupação nossa em encontrar relações de
causalidade entre a escolha da(o) jovem e a história familiar, ou seja, ratificamos que
não há determinismos, mas é possível pressupor que o envolvimento da juventude tem
uma relação estreita com a história de seus pais. Isto não se deve, contudo, a uma visão
linear, mas à compreensão de que a perspectiva política imbuída em movimentos sociais
possibilita aos sujeitos outra apreensão da realidade, justificando a presença do fator
intergeracional neste processo.
A importância da reprodução social que se refere à continuação no espaço e no
tempo de um determinado modo de relações sociais, elucida-se ao resgatarmos as falas
destas militantes do MMC quando expressam aquilo que Renk (2000) denomina,
respectivamente, como processo de devolução de curta e longa duração:
No campo a gente tá praticamente todo tempo junto, discute os problemas,
tudo que vai construir tá sendo discutido ali junto (C.P., 21 anos).
Os nossos pais vão envelhecendo, e uma cidade precisa de alguém que
produza os alimentos (J.M.R., 18 anos).
Quando C.P. destaca que as decisões sobre o trabalho são realizadas pelo grupo
familiar, está indicando como a família organiza-se no dia-a-dia em prol da
concretização daquilo que se encontra estabelecido no campo dos valores e preceitos do
“ser camponesa ou camponês”. Da mesma forma podemos evidenciar que as colocações
de J.M.R. indicam a preocupação com a manutenção deste valor num espaço de tempo
maior, referindo-se à necessidade de continuação deste modo de vida.
[...] porque a gente tem total apoio dos pais pra trabalhar em casa, sou eu
mais meu irmão, daí a gente faz o trabalho em casa, trabalhar em casa no
campo, ficar no campo. Porque a gente tem o apoio em casa e tem como
trabalhar, a gente não tem a necessidade de buscar na cidade. (J.M.R., 18
anos)
30
Embora os estudos apontem para a saída da(o) jovem do campo para a cidade
em busca de trabalho e outro estilo de vida, a convicção desta jovem denota que a
permanência da juventude no campo depende também do incentivo da família. Esta não
é uma realidade vivenciada pela maioria das famílias do campo que presencia um
contingente cada vez maior de jovens, principalmente mulheres, buscando outros
espaços de socialização. A masculinização do campo – decorrente deste processo
migratório
–
pode
ser
problematizada,
conforme
a
Rede
CEPAGRO
de
Desenvolvimento Local (2001), a partir de dois enfoques: o primeiro diz respeito às
próprias relações de poder e de gênero estabelecidas na família e, a segunda, refere-se
ao incentivo das famílias para que as(os) jovens busquem espaços para “melhorar de
vida”.
A jovem a seguir, C.F., mulher, 22 anos, militante do movimento sindical de
Planalto Alegre – SC, apresenta uma trajetória específica, diferenciada daquelas que
foram apresentadas anteriormente, pois foi incentivada a sair do campo, retornando
algum tempo depois por vontade própria.
C.F.: Eu morava na cidade, não arrumei emprego, voltei pra roça, aí o
presidente do sindicato me convidou pra participar do Curso de
Desenvolvimento Sustentável e Assistência Técnica. Aí comecei a participar
do Acampamento da Juventude, do Consórcio e agora fui eleita como
coordenadora municipal do sindicato, além do regional de São Carlos como
coordenadora da juventude.
[...]
E.: Você antes tinha colocado que saiu do campo e agora retornou, que não
achou emprego. Por que você saiu e o que te fez voltar?
C.F.: Sim. Saí por incentivo da família pra eu não permanecer. Só que
trabalhei lá por um ano mais ou menos, mas daí eu não consegui.
O incentivo dos pais para a migração é muito comum, pois a não visibilidade de
perspectivas de manutenção compromete a reprodução social da agricultura familiar,
que se anteriormente era vivenciada através da disputa no que se refere à herança,
atualmente constata-se como um vácuo nas propriedades rurais que estão sem herdeiros.
Segundo Renk (2000, p. 68) “Dentre esses camponeses, verifica-se uma mudança, de
forte, para outra de fraca hereditariedade ocupacional, quando não de ausência de
herdeiros nas propriedades rurais”. O retorno de C.F. ao campo, mesmo a contragosto
da família, implica na participação de outros aspectos, tais como o seu envolvimento no
movimento sindical, estimulando este regresso.
31
A.M.G., homem, 19 anos, militante do movimento sindical de Guatambu – SC,
conta-nos um pouco da sua trajetória:
[...] faz uns dois anos mais ou menos, acho que comecei junto com a C.F. a
participar. Desde que eu comecei a participar já aconteceram muitas
mudanças lá na propriedade dos meus pais, trouxe muitos benefícios pra
mim desde que eu comecei a participar. E agora a gente vai se aperfeiçoando
mais ainda com o consórcio que tá dando uma formação mais avançada pra
colocar algumas práticas que a gente aprende, lá na nossa propriedade.
Em relação às trajetórias anteriores percebe-se uma mudança de tonalidade no
discurso, sendo que a ênfase está no processo de aquisição de conhecimento técnico
para aplicação na propriedade. Este aspecto é bastante marcante nas entrevistas
realizadas com a jovem e os dois jovens do movimento sindical que nos deixaram uma
leve impressão de que não se apropriaram do discurso deste movimento, mas
consideram fundamental como revela a fala a seguir:
Que nem nós estamos ali, se não tivesse o movimento sindical pra
representar nós, não teria muitas conquistas que hoje temos, acho que o
movimento sindical é tudo pra nós da agricultura (A.M.G.).
Percebemos nesta fala, como em outras, a idéia de que o sindicato é uma
entidade representativa, diferente do discurso dos outros movimentos que parecem estar
incorporados, vividos. Não pretendemos com esta afirmação promover alguns
movimentos em detrimento de outros, mas evidenciar como os discursos são diferentes
e representam momentos distintos da incorporação dos valores e ideologia do
movimento social ao qual estão vinculados. Ao serem indagados sobre a relação que se
estabelece entre o movimento sindical e os demais movimentos do campo, excluem-se
da condição de sujeitos pertencentes a um movimento social:
E.: Qual é a relação, ou como é que vocês percebem esses movimentos.
Vocês entram em contato com o pessoal desses movimentos?
A.M.G.: Em contato nós no caso não, mas o movimento sindical claro que
sim.
Embora o discurso de que “são movimento sindical” não esteja incorporado
pela(os) jovens entrevistada(os), fazem parte de coordenações deste movimento,
32
contribuindo em sua organização. Estas colocações sobre os discursos são apenas
“pinceladas”, pois estão intrinsecamente relacionadas à trajetória do sujeito e serão
discutidas com maior profundidade num momento distinto, quando nos reportarmos à
análise da constituição das identidades política e social.
R.J., homem, 16 anos, militante do movimento sindical, residente em Guatambu
– SC está há pouco tempo participando desta organização.
[...] moro aqui em Guatambú, na Linha Feliz, eu comecei a participar do
sindicato faz um ano, comecei nos movimentos do sindicato e continuei com
o consórcio e daí to aqui.
A trajetória deste jovem indica a relação que se estabelece no dia-a-dia com a
sua família. Denota também a preocupação com seu irmão que já migrou para a cidade
no sentido de que retorne para o campo.
Lá em casa é só eu, a mãe e minha irmã. Eu chego em casa do curso eu
converso com a mãe, falo o que nós trabalhamos, o que nós podemos fazer
na propriedade pra nós melhorarmos. E muitas vezes não tem mão de obra,
daí não tem como investir. Eu quero ver se eu faço um projeto lá, abro uma
agroindústria, alguma coisa assim, pra ver se meu irmão, que mora na
cidade, está ganhando pouco, pra ver se ele volta.
As perspectivas, os sonhos, os projetos idealizados por este jovem indicam-nos a
contribuição do movimento sindical, principalmente a partir da realização do Consórcio
Social da Juventude Rural (curso em parceria entre Ministério do Desenvolvimento
Agrário (MDA), Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e Federação dos
Trabalhadores
na
Agricultura
Familiar
da
região
Sul
(FETRAF-Sul)),
no
desenvolvimento de um novo olhar em relação ao campo, qual seja: o ideal de
manutenção e investimento na propriedade rural, incitando até mesmo quem está na
cidade a retornar.
Ressaltamos que estas falas da(os) jovens do movimento sindical enfatizaram a
participação neste curso. Podemos pressupor que a ênfase recaiu sobre o Consórcio pelo
fato de que as entrevistas foram coletadas durante a sua realização, contribuindo para
que a(os) jovens respondessem referenciando-se, de forma maciça, à importância desta
ação da FETRAF. Além disso, no mesmo dia da entrevista, estavam respondendo a um
questionário de outra pesquisa acadêmica sobre o Consórcio Social da Juventude Rural.
33
D.T.B., mulher, 20 anos, militante do MAB, reside no município de Alpestre –
RS. Esta cidade faz divisa com Santa Catarina através do Rio Uruguai e será atingida
pela barragem Foz de Chapecó.
Eu conheci o movimento no ano de 1999, quando na verdade as empresas
começaram querer construir a barragem Foz de Chapecó, que eu moro agora
no canteiro de obras.
[...]
O meu pai começou a participar do movimento e conseqüentemente eu
também. Comecei a conhecer o movimento, comecei a participar de
mobilizações, de reuniões e assembléias. Como o pai é coordenador, nós
começamos a participar das reuniões, pra ver as propostas que nós queremos
apresentar pra empresa.
O processo intergeracional evidencia-se mais uma vez, como tentativa de
manutenção do modo de vida baseado na agricultura familiar, através da estratégia de
resistência à desapropriação e, quando esta não é mais possível, luta-se pelo
reassentamento. A trajetória desta jovem inicia a partir da possibilidade de retirada de
um bem adquirido – a terra. Porém, a terra é imbuída de símbolos e signos que
extrapolam as dimensões econômicas, pois se referem à constituição da identidade e do
trabalho familiar baseado na agricultura.
V.L.S., mulher, 23 anos, militante do MAB, reside no município de Águas de
Chapecó – SC, na comunidade do Saltinho do Uruguai.
Eu tenho 23 anos. Comecei um pouquinho antes que a D.T.B. Comecei em
97, fazer uns cursos. Fazia um mês de curso. Daí eu comecei ali, em
mobilização, os acampamentos. (...) participava junto, participava de ato, de
reunião, de reunião ainda era pouco, (...) participei não só do movimento do
MAB. Lá em Abelardo Luz onde eu morava, participei também do
movimento do MST, nós éramos assentados lá. (No MAB) o pai é mais,
porque ele é da direção, ele é o coordenador municipal, ele participa mais
das reuniões. A mãe não vai tanto, mas de vez em quando ela vai.
A jovem aponta, em sua trajetória, uma vasta participação em movimentos
sociais, intrinsecamente relacionada à condição e história de luta e resistência de sua
família. A participação anterior no MST indica esta relação estreita entre os
movimentos sociais. Muitos sujeitos participam concomitantemente de movimentos
sociais ou iniciam o seu envolvimento num determinado movimento e continuam sua
luta em outro, como no caso de V.L.S.
34
Além das trajetórias destes jovens que estão na base dos movimentos sociais, os
coordenadores também apresentaram aspectos de suas histórias e de maneira geral, a
sua participação e envolvimento estão relacionados ao processo intergeracional e da luta
de seus pais na perspectiva de alternativas de manutenção do modo de vida baseado na
agricultura familiar. No próximo item estaremos apresentando os projetos e ações
citados por estes movimentos sociais e que têm como foco a discussão e a participação
da juventude rural.
3.2 Movimentos sociais: que ações e projetos têm realizado para e com a
juventude?
A inquietação com a temática da juventude, segundo Carvalho (2006), é
crescente nos últimos anos e tem se tornado objeto de discussão por parte de diferentes
agentes sociais, tais como: programas partidários, sindicatos, Organizações Não
Governamentais (ONGs), grupos religiosos e o poder público. No entanto, a autora põe
em evidência que os projetos apresentados por estas organizações têm pouca efetividade
para a modificação a nível estrutural. Relacionam-se, na maioria das vezes, a aspectos
pontuais e conjunturais, não conseguindo atingir à radicalidade da problemática que se
refere à própria concepção de juventude na sociedade contemporânea. Retomamos
assim as colocações de Mayorga (2006) sobre a invisibilidade da juventude que
continua a fazer-se presente nas políticas que são, geralmente, construídas por sujeitos
que não vivenciam a condição juvenil.
A problemática também é apontada pelos movimentos sociais do campo que
fazem parte desta investigação quando afirmam a falta de políticas públicas para a
juventude de uma forma geral e ainda mais no que se refere à especificidade da
juventude rural. Nas entrevistas tanto com as(os) coordenadoras(es) quanto com as(os)
jovens envolvidas(os) na militância, a ênfase recai sobre o “déficit” de políticas que, os
movimentos tentam não somente suprir, mas questionar e problematizar, ampliando o
foco de análise para os aspectos estruturais. Os movimentos sociais do campo voltam
suas atenções para a juventude, concedendo-lhe centralidade nas discussões.
Destacamos que esta foi uma questão pontuada como uma preocupação recente no
cotidiano das reflexões e ações destes movimentos como fica evidente na fala a seguir:
35
[...] ainda é um trabalho bem iniciante, faz pouco tempo que a gente tá
fazendo esse trabalho com as gurias, então precisa ir amadurecendo,
debatendo, construindo, procurando, propondo e elaborando (coordenadora
de formação das jovens do MMC).
Além de ser uma preocupação atual, as entrevistas evidenciam que as ações dos
movimentos buscam não somente organizar uma pauta de reivindicações sobre as
questões juvenis, mas envolver a(o) jovem, possibilitando a participação efetiva nos
debates que se referem à sua própria condição. Isto é perceptível pelo fato de que as
coordenações direcionadas para a juventude são protagonizadas pelas(os) próprias(os)
jovens, ou seja, não são de adulto para jovem, mas de jovem para jovem.
Contrapondo-se à visão adultocêntrica em que as políticas para a juventude são
decididas por aqueles que se consideram “mais aptos” neste empreendimento, as(os)
atrizes⁄atores envolvidas(os) nesta pesquisa enfatizaram a necessidade de sua
participação no processo de constituição das políticas voltadas para a sua realidade e os
seus interesses. Entre os movimentos investigados constatamos a especificidade em
relação ao MAB que, embora apresente a preocupação com o envolvimento da(o)
jovem, não possui uma coordenação da juventude na organicidade do movimento.
Porém, este fato não exime a preocupação do MAB em relação à importância da
juventude, como afirma um dos coordenadores de articulação deste movimento:
Dentro da área da formação, nós temos definido a nível nacional, que a
juventude está dentro da estratégia do MAB, de nós envolvermos o jovem
no movimento. Nós achamos que a juventude tem perspectivas em todos os
níveis de fortalecer o movimento, e até fortalecer a luta maior da sociedade.
Nós estamos apostando muito na juventude.
Estas falas assinalam para a apreensão de que o envolvimento da juventude fazse essencial para a continuação do projeto ideológico dos movimentos. A partir dos
discursos evidenciamos a compreensão destas(es) coordenadoras(es) de que o
investimento na juventude possibilita a continuidade tanto no que se refere às lutas e
reivindicações quanto à perspectiva de permanência desta no meio rural. No entanto,
não podemos perder de vista que se trata da análise de discursos, num determinado
contexto e, devido a estas limitações, não é possível afirmar se estas falas são “fiéis” à
prática cotidiana, ou seja, se se constituem como práxis – indissociabilidade entre
discurso e prática.
36
Os projetos e ações que procuram dar certa consistência às problemáticas que
envolvem a juventude constituíram-se num elemento de investigação, na medida em
que possibilitam apreender concretamente a efetividade e a dimensão das preocupações
referentes a este tema. Os principais projetos e ações desenvolvidos pelos movimentos
sociais rurais, geralmente, são realizados em parceria com outras entidades –
universidades, organizações governamentais e não governamentais, rede de
movimentos sociais rurais (Via Campesina, por exemplo) e/ou urbanos, etc. SchererWarren (1993) e Gohn (2006) enfatizam que esta busca por parcerias refere-se à própria
organicidade dos movimentos que procuram estabelecer articulações, encontrar aliados
para a concretização de projetos que tenham finalidades em comum. Portanto, tratam-se
das redes de movimentos sociais que, têm na interação com outras entidades a tentativa
de manutenção, pois isoladamente é muito difícil que encontrem alternativas de
viabilidade para a continuidade de seu projeto político e ideológico.
Damasceno (2006) acrescenta a esta discussão o reconhecimento de que os
projetos de formação e qualificação dos movimentos sociais têm a perspectiva de
produção e apropriação do saber mais concernente à realidade e às experiências dos
sujeitos que vivem do/no campo. Interessa-nos, neste momento, explicitar alguns dos
projetos e ações realizados a partir destas articulações e que têm como foco a
juventude, considerando a sua realidade. No quadro a seguir estão sintetizados os
projetos e ações citados pelas(os) coordenadoras(es) entrevistadas(os):
Quadro 1: Projetos e ações dos movimentos sociais do campo para a juventude rural
Movimento
FETRAF-Sul
Parcerias
Projetos e ações
Objetivos
MDA; MTE
Consórcio Social
da
Juventude
Rural
Acampamento da
Juventude Rural
da
Agricultura
Familiar
Projeto
Nossa
Primeira Terra
Vínculo
com
universidades do
Brasil,
Cuba,
Venezuela,
Formar
técnica
e
politicamente
para
trabalhar no campo.
Abrir espaço para a
discussão
sobre
a
autonomia da(o) jovem.
FETRAFSul/SINTRAF
FETRAF-Sul
Via-campesina
MDA
Adquirir terras através
de crédito fundiário.
Possibilitar acesso ao
ensino superior.
37
Via-campesina
FUNDEP
Via-campesina;
FETRAF-Sul
Poder
público;
programas
partidários
ENFF;
Movimentos
urbanos da
classe
trabalhadora
Via-campesina
Argentina.
Cursos Técnicos
em Agroecologia
Universidade
Pública e Popular
Curso
Economia
Política
de
MST
Constituição de
biblioteca
em
assentamentos;
MST
Criação de rádios
comunitárias em
assentamentos;
MST
Jornadas
Culturais
MMC
Encontros
regionais
jovens
camponesas
MAB
Diversos
Movimentos
Sociais
Criação
brigadas
juventude
de
de
da
Formar
técnica
e
politicamente
para
trabalhar no campo.
Inserir as(os) jovens nas
discussões
sobre
a
constituição de uma
nova universidade.
Fortalecer o trabalho de
base,
a
educação
popular, a organização
política e a participação
da
juventude
na
compreensão
e
transformação
da
realidade.
Possibilitar
a
participação do jovem
na
organização
de
espaços de educação e
lazer.
Possibilitar
a
participação do jovem
na
organização
de
espaços de educação e
lazer.
Sensibilizar os jovens
em
relação
à
importância da cultura
através de oficinas
diversas: artes plásticas,
artesanato, rádio, teatro,
poesia e música.
Propiciar às jovens
discussões
sobre
relações de gênero e
sobre a condição de
jovens camponesas.
Envolver a juventude no
debate sobre a tarifa de
energia elétrica.
Fonte elaborada pelas autoras (2007).
A partir do que expressaram as(os) informantes da pesquisa consideramos que os
projetos e ações possuem além da perspectiva de capacitação técnica a intenção de
propiciar a formação política. Esta formação política está no cerne do debate dos
38
movimentos sociais, pois somente com o reconhecimento de uma determinada condição
social, denominada por Scherer-Warren (1993) como uma tríplice exclusão relativa –
que se referem aos aspectos econômicos, políticos e culturais/ideológicos –, torna-se
possível a condução e a continuação das reivindicações que estão na base de suas lutas.
A coletividade que permeia as relações estabelecidas entre os sujeitos envolvidos em
movimentos sociais contribui na constituição das identidades social e política.
É interessante como os movimentos emergem a partir de demandas individuais,
por exemplo, a falta de terras, inviabilizando a reprodução social de um modo de ser e,
na medida em que o movimento une as particularidades, vai assumindo um corpo
coletivo, em busca de lutas comuns e que extrapolam a perspectiva inicial, individual e
limitada em sua apreensão política. Esta idéia da coletividade somente tem sentido a
partir da formação política.
Além da perspectiva de constituição da identidade política baseada no ideal de
coletividade para a construção de uma sociedade diferente – revelando o aspecto
ideológico – a proeminência na formação de lideranças projeta-se sobre a juventude
como a esperança, o fator de mobilização para a continuação das utopias dos
movimentos sociais. Esta preocupação fica evidente na fala do coordenador estadual da
juventude do MST:
[...] cursos de formação pra militância, pra juventude atuar no movimento
como militante, liderança, pra contribuir no movimento e com outros
movimentos sociais.
[...] Tem as relações de gênero, os cursos de formação pra dirigentes, como
fazer um trabalho de base, como ser um dirigente, como organizar o povo.
Ainda no sentido da formação política, mas com a proposta de formação de
lideranças a partir da via institucionalizada, o coordenador do Consórcio Social da
Juventude Rural da FETRAF-Sul aponta para este aspecto, afirmando que estes projetos
de formação contribuem para a constituição de lideranças a longo prazo:
A gente sabe que esses projetos de formação, principalmente de formação
política, eles dão resultados tardios, tardios que eu digo, que levam mais
tempo, porque hoje nós estamos trabalhando com jovens de 16 a 24 anos, de
repente lá com 30, 35 ele vai ser presidente de sindicato, ou nos 29, 30 ele
vai ser candidato a vereador e assim por diante, quer dizer, essa dinâmica de
você ir cultivando sabe, é necessária.
39
A formação adquire um sentido diferenciado para a juventude envolvida no
Movimento Sindical – representado pela FETRAF-Sul – devido ao fato de que nem
sempre os pais estão envolvidos neste processo de formação. É diferente do que ocorre
em outros movimentos sociais do campo objetos desta investigação em que, geralmente,
a juventude continua a trajetória de seus pais que, já estão envolvidos e engajados em
alguns movimentos camponeses. Não queremos com estas afirmações homogeneizar e
padronizar a realidade de quem participa, mas evidenciar que, a formação adquire um
sentido diferenciado quando já existe uma cultura de participação política na família.
Ressaltamos, neste sentido, a fala do coordenador do consórcio da juventude rural da
FETRAF-Sul:
[...] esses jovens estão tendo acesso a uma formação mais geral básica ou
específica, uma reflexão sobre a vida, valores, organização da sociedade,
enfim, uma formação técnica também [...] dá uma capacidade de refletir,
pensar sobre a vida e querer fazer algumas coisas novas, mas claro, daí tem
o conflito com os pais, porque os pais, alguns são das bases da FETRAF aí,
tem uma visão de formação diferente, se os pais participassem de uma
formação desse tipo, com esse porte, em uma perspectiva de outra
agricultura, ecológica, com desenvolvimento, na perspectiva de fazer
agroindústrias familiares, tivessem uma mentalidade diferente, poderia
coincidir.
No mesmo sentido o jovem A.M.G., homem, 19 anos, pertencente ao
movimento sindical, afirma que:
[...] talvez pelos pais não terem tido uma formação de que é possível ficar na
agricultura, de ter novas alternativas de renda, incentivam o jovem pra ir pra
cidade.
[...] e eu acho que os pais, o fator principal ali são os pais, porque são eles
que dizem sim ou não.
Estas falas indicam a importância das relações que se estabelecem entre as
gerações e as práticas que se constroem no dia-a-dia, sendo os elementos constitutivos
daquilo que se sonha, planeja e projeta como estratégia de reprodução social, aspecto
este aprofundado no item anterior. As perspectivas dos movimentos sociais têm por
base a ideologia que, se constitui neste elemento que dá vida e sentido para a existência
a partir da coletividade. Não poderíamos deixar de aprofundar a reflexão sobre este
elemento-fundamento da práxis que pulsa e mobiliza aos sujeitos envolvidos em
40
movimentos sociais. Dedicaremos o próximo item a esta problematização.
3.3 A identidade política das(os) jovens militantes dos movimentos sociais do
campo
É fato que a juventude rural, sem perspectivas de continuidade no campo tem
migrado para a cidade em busca de emprego e outros estilos de vida. Weisheimer
(2005) denota a invisibilidade da juventude e os processos migratórios que têm
caracterizado a realidade brasileira deste segmento da população. Em sua análise sobre
o “estado da arte” da produção voltada para uma parcela específica da juventude – a
rural – a preocupação em responder às demandas deste setor revela-se através de
algumas pesquisas acadêmicas e políticas públicas que priorizam a discussão sobre esta
temática. Estes estudos e ações partem da constatação do envelhecimento da população
residente no campo. A opção pelo debate inverso, acerca das possibilidades que estão
sendo construídas para a permanência da juventude no meio rural, exigiu-nos a reflexão
a partir das noções de subjetividade e de singularidade.
A subjetividade, categoria de análise indissociável de seu par dialético, a
objetividade, apresenta como centralidade das discussões a constituição do sujeito em
sua processualidade. Deste modo, torna-se inegável sua importância para a investigação
das condições sócio-histórico-culturais que permitem aos jovens rurais um novo olhar
sobre sua realidade, uma compreensão que lhes faz desejar permanecer no campo. Nesta
trajetória de constituição de uma nova percepção da realidade rural, não podemos deixar
de fazer referência aos aspectos psicossociais.
Para Prado (2002) a mobilização social possibilita a emergência de valores,
crenças e interesses necessários para a constituição de ações coletivas. O interessante
nesta perspectiva é que este processo nunca acaba, desvelando assim, a dialeticidade da
constituição de sujeitos politizados. Para a mobilização social este autor propõe três
aspectos psicossociais constituintes da identidade política, quais sejam: a delimitação de
fronteiras políticas entre grupos sociais; a identificação coletiva; e a passagem das
relações de subordinação para a consciência da condição de opressão. No momento
seguinte estaremos elencando algumas falas das(os) jovens representativas destes
aspectos. Ratificamos tratar-se de uma análise do que sobressalta nas colocações, mas
que estes processos são complementares, portanto, não são falas “puras”, mas sim,
41
miscelâneas que caracterizam a complexidade dos aspectos psicossociais.
A delimitação de fronteiras refere-se à distinção entre os grupos sociais a partir
da percepção de que possuem interesses diferentes. Esta demarcação acena para o
reconhecimento de que o “Ele” e o “Nós” estabelecem relações antagônicas,
implicando na construção de valores, crenças e interesses que evidenciam a
contraposição entre os grupos sociais. As afirmações de J.A.P.S., mulher, 19 anos,
pertencente ao MST são representativas de uma das questões apontadas pelos
movimentos sociais do campo que fazem parte desta investigação:
[...] eu não tinha essa ligação direta de trabalhar na roça, de gostar, de saber
o que a gente está comendo, o que não está comendo, produto natural,
produto bem cuidado. A gente não tinha isso e aqui no movimento a gente
aprendeu a ter isso, a saber o que é comer bem, saudável.
[...]
A gente quer terra, mas a gente quer terra pra trabalhar, pra trabalhar e
produzir comida boa, não comida ruim, envenenada, cheia de agrotóxico. A
gente quer uma forma diferente de vida, estamos tentando construir isso. É
difícil porque bate de frente com o sistema capitalista, com o sistema que
norteia a sociedade. É difícil, nós sabemos que vai ser difícil, mas o sonho é
grande. Estamos tentando.
Esta fala traz diversos elementos que podem auxiliar-nos no desdobramento
desta análise, pois a jovem refere-se tanto aos aspectos da delimitação de fronteiras
entre grupos sociais distintos (movimentos sociais versus sistema capitalista) quanto à
sua singularidade neste movimento social. O MST contribuiu para a apropriação de um
discurso e de uma prática que anteriormente não faziam parte do dia-a-dia desta jovem,
produzindo sentidos singulares da sua relação com a terra e com os alimentos. O ponto
de vista da jovem sobre o posicionamento deste movimento social em relação ao
modelo de agricultura “moderna”, desvela a incompatibilidade entre este padrão
(im)posto pelo mercado mundial e a proposta, compartilhada e enfatizada pelos
movimentos sociais, de uma agricultura orgânica e agroecológica. Clarifica-se neste
discurso a constituição da identidade política que diferencia o nós, o dentro e o bom
versus o ele, o fora e o mau, sendo que estes últimos aspectos devem ser não somente
evitados, mas combatidos.
O modelo atual de agricultura extensiva foi bastante enfatizado pelas(os) jovens
e coordenadoras(es) destes movimentos sociais. Apontam, em suas falas, a necessidade
da crítica a este sistema de produção devido às repercussões na vida dos sujeitos, como
42
se constata na seguinte afirmação:
No campo agora, o modelo que está implantado pra muitos jovens, não é
bom, mas não é bom mesmo o modelo que está aí, mas é bom de uma
maneira diferente, construindo a vida lá no campo de uma forma diferente,
porque vai viver lá no campo cheio de veneno? Vai durar quantos anos? Vai
morrer. (risos) (C.P., mulher, 21 anos, MMC).
A ênfase numa agricultura que se contrapõe ao modelo vigente denota não
somente a necessidade destes sujeitos de apresentar um conjunto de técnicas de manejo
do solo e dos produtos que seja diferenciado, mas a uma perspectiva ideológica e de
posicionamento político diante da realidade do campo e da proposta de uma nova
relação com o ecossistema. Esta fala elucida que a proposta dos movimentos sociais
para a juventude não se embasa somente na necessidade de sua permanência no meio
rural, mas de que esta permanência deve pautar-se numa forma diferenciada de cuidados
com a terra e com quem (sobre)vive desta. Descentra-se o foco da lucratividade e da
produção em grande escala para o cultivo que possibilite o auto-sustento, como se
observa na expressão de R.J., homem, 16 anos, militante do Movimento Sindical
quando apresenta a perspectiva ideológica que embasa os movimentos sociais: “[...]
agricultura familiar é não produzir em quantidade, mas sim com qualidade”. Estas
falas são necessárias para esclarecer o antagonismo entre as propostas destes
movimentos sociais em relação à realidade dominante de produção em série.
A formação técnica e política propiciada pelos movimentos sociais ressoa no que
expressam as(os) jovens envolvidas(os) nesta pesquisa que se apropriam do discurso
ideológico, reconhecendo a legitimidade das reivindicações e a necessidade de divulgar
a concepção de mundo e as relações sociais propostas por estes movimentos (tantas
vezes banalizadas pelo senso comum e pela mídia, por exemplo).
[...] a gente busca pelo menos levar para as outras pessoas os projetos que a
gente quer construir de uma agricultura agroecológica, orgânica, de uma
relação de igualdade entre as pessoas, de respeito aos direitos humanos. A
gente tem que mostrar o que a gente debate, não ficar só com aquela visão
que são uns baderneiros, uns bagunceiros que não fazem nada. (J.M.R.,
mulher, 18 anos, MMC).
Este fragmento ilustra em que medida esta jovem está comprometida com os
ideais do movimento, incorporando-os em sua prática cotidiana de tal forma que se
sente parte, contribuindo para a continuidade dos projetos que sustentam e embasam o
43
movimento social. No conceito de identificação coletiva desenvolvido por Prado (2002)
este aspecto psicossocial revela-se em sua processualidade através do sentimento de
pertença a um determinado grupo que estabelece as regras para as relações intra e
intergrupais. O sentimento de pertença propicia o desenvolvimento de ações coletivas e
da organização do grupo em defesa de seus interesses.
A gente aprende a construir novos relacionamentos, não onde que a mulher
tem que obedecer o que o homem manda, mas sim de construir, não também
de ser melhor, mas o que a gente quer construir é uma relação de igualdade.
(J.M.R., mulher, 18 anos, MMC).
O discurso desta jovem revela-se como decorrente da conscientização sobre uma
determinada condição social que não resulta de um processo individual7, mas que se
refere à construção histórica do “ser mulher”, portanto, compartilhada por um grupo que
vivencia esta situação. A percepção do compartilhamento de uma determinada condição
que, permite a identificação em prol de uma causa em comum, possibilita também a
percepção da relação de dominação, que anteriormente era vivenciada como uma
realidade inquestionável. Aqui já se evidencia o outro aspecto psicossocial identificado
por Prado (2002), que se refere à percepção das relações de subordinação que devem
ser problematizadas e questionadas, visto que não são naturais, mas fruto de realidades
construídas socialmente. A crítica consiste em evidenciar as duas lógicas que emergem
da mobilização social: a equivalência e a diferença, sendo que a equivalência implica na
percepção dos posicionamentos diferenciados entre os sujeitos como objeto de luta e a
diferença, por sua vez, exige a equivalência entre os sujeitos que se encontram em
posições diferentes. Sendo assim, “[...] a igualdade não é pensada como
homogeneidade, mas sim como equivalência/diferença” (idem, p. 69).
A percepção das relações de opressão evidenciam-se mais claramente a partir da
identificação coletiva e da delimitação de fronteiras entre grupos com posições
divergentes. Consideramos que a presença destes elementos psicossociais não seguem
uma ordem linear de aparecimento e/ou manifestação na consciência dos sujeitos, mas
são processos que se interpenetram e se constituem nas experiências vivenciadas no
7
Referimo-nos, portanto, à constituição da identidade coletiva que, segundo Gohn (2006) advém de uma
realidade em comum, anterior à aglutinação dos sujeitos, sendo o elemento que possibilita esta junção
(neste caso, a condição de ser mulher).
44
cotidiano. É neste sentido que Scherer-Warren (1993) suscita que as relações
comunitárias como forma de luta e como modo de vida são práticas que vão se
arraigando no cotidiano dos sujeitos.
A gente sabe que hoje em dia um agricultor sozinho na roça não consegue
nada. A gente tem que estar sempre em grupos, no MST a gente está sempre
em grupo, pra conseguir os créditos tem que estar juntos, uma pessoa
sozinha da roça não consegue e a gente junto consegue alternativas de uma
vida um pouco melhor. A gente sabe que tem que lutar junto (L.K., mulher,
22 anos, MST).
A fala desta militante é indicativa da ênfase prestada pelos movimentos sociais
aos valores de cooperação e solidariedade incutidos no dia-a-dia destes sujeitos. O
grupo passa a ser o ponto de partida a partir do qual a reivindicação de direitos deve ser
realizada, ou seja, a assunção da cidadania para os integrantes destes movimentos
sociais tem como critério a percepção da identidade coletiva, unificadora dos interesses
e de realidades que a princípio parecem dispersas e distantes quando vividas e sentidas
na individualidade.
A coletividade não se limita às relações entre os sujeitos pertencentes ao mesmo
grupo, mas tem, conforme Scherer-Warren (1993), na articulação com outros
movimentos sociais e outras organizações que compartilham do plano utópico de
transformação da sociedade, a estratégia para pressionar o Estado em busca da
cidadania, através da atuação nos campos cultural e político.
[...] compreendemos que temos aliados estratégicos, que são os que nós
podemos contar, que eles caminham no mesmo rumo do movimento assim
na linha ideológica, na Utopia, na prática também. Que nós hoje nos
articulamos com a via campesina, que faz parte o MST, o movimento das
mulheres, a CPT, as pastorais, a Federação Nacional da Agronomia. E temos
aliados táticos que são pontuais, em certos momentos eles contribuem na
articulação da base, pra buscar audiência com o governo, pra fazer
denúncias e tal (coordenador de articulação do MAB).
Além destes aliados que compartilham de valores e da ideologia, fica evidente a
necessidade de articulação com outras(os) organizações que, se não possuem os mesmos
ideais, devem, minimamente possuir aspectos éticos concernentes com a práxis destes
movimentos sociais. Mas quais são estes valores? Contrapondo-se à visão individualista
predominante, os movimentos sociais investem na constituição de “novos valores” que
45
possam auxiliar na construção da sociedade almejada.
[...] vem trabalhar essa questão dos valores, a questão dos valores enquanto
pessoa que precisamos construir numa nova sociedade. Trabalhamos muito
presente a questão do respeito às diferenças entre nós, o respeito e o cuidado
com o meio ambiente (coordenador estadual da juventude do MST).
No entanto, chamamos a atenção para o fato de que estes novos valores,
disseminados entre os integrantes dos movimentos sociais não se constituem em
práticas isentas de contradições, pois os discursos nem sempre são fidedignos às
práticas. Baseando-nos nas argumentações de Silva (2004), percebemos que a realidade
dos homens, mulheres, jovens, crianças e idosos não se constituem a partir do molde
idealizado de ser ser humano, mas se constituem no cotidiano das disputas de poder, das
próprias histórias individuais que se unem para formar este coletivo diferente.
Retomamos a discussão sobre a construção de valores e crenças diferenciados
que são possíveis através da formação política. O referencial a partir do qual os
movimentos sociais têm atuado busca evidenciar a primazia da contextualização
histórica como imprescindível para discutir a realidade, questionando-a. Neste sentido,
as relações sociais são (re)significadas permanentemente.
J.M.R.: No início a gente vinha nos encontros e era um mundo totalmente
diferente, até em termos de... tu vai assistir televisão hoje, já tem uma visão
mais crítica das coisas que vê. Assim, antes o que passava era só mais uma
coisinha bonitinha na televisão.
[...]
R.G.: A gente percebe desde as músicas. Agora a gente só ouve as que não
discriminem tanto a mulher.
J.M.R.: Tem umas músicas que realmente né. Os Tchê principalmente,
Tchê Garotos, Tchê Guri, tem umas músicas bem preconceituosas, que antes
a gente ouvia, ia no baile e dançava e não tava nem aí.
R.G.: Pra nós era normal, agora a gente vai no baile, fica analisando as
letras.
J.M.R.: E se decepciona as vezes, porque o ser humano as vezes vira menos
que um chinelo.
R.G.: Desde uma palavra que alguém fale assim, por mais que seja uma
palavra brincando a gente percebe que aquilo lá é uma forma de violência,
antes não, pra nós era tudo brincadeira, normal. Mas agora a gente sabe
como se defender assim, não em palavras fortes, mas de uma forma, ó, você
está errando.
Este diálogo entre as militantes do MMC demonstra a (re)significação do sentido
de “ser mulher”, incorporando a dimensão crítica e histórica de uma condição
46
anteriormente vista como normal – a subordinação, possibilitado a partir da introdução
de valores que contestam concepções que desvalorizam o feminino. A mídia, segundo
Guattari e Rolnik (1993) é um dos dispositivos de serialização das subjetividades,
fabricando em escala mundial, formas idênticas de pensar, sentir, amar e perceber ao
outro. Entre as diferentes produções hegemônicas engendradas pelo sistema capitalista
está a concepção do “ser mulher” difundida em letras de músicas e na mídia. E se antes
eram percebidas por estas militantes como algo que fazia parte do seu dia-a-dia e,
portanto, as “insinuações” embutidas em conteúdos aparentemente inofensivos não
tinham tanta importância, adquirem, com a politização, novo sentido – revelando-se
como expressão da opressão. A tentativa de problematizar este modelo hegemônico
pode ser compreendida como “fuga” à captura das mentes e corpos e a busca pela
(re)criação de significados singulares e sui generis.
A produção de singularidades, porém, implica a apreensão de que nem sempre
este novo jeito é bem aceito ou valorizado. A tendência é o receio, a insegurança de não
ser aceita(o) ou compreendida(o).
Quando a gente vai conversar com eles, a gente pensa: “será que ele vai
gostar que eu fale isso?”, eles pensam diferente da gente e, é até complicado
de explicar. (C.P., mulher, 21 anos, MMC).
A politização dos sujeitos confronta as formas hegemônicas e homogeneizantes
de experienciar a vida, pois fogem das fórmulas preestabelecidas como normais e
adequadas. A fala representa certo desabafo desta militante. Diante disso, não
poderíamos deixar de considerá-la pelo fato de desvelar os sentimentos de uma forma
singular de viver. Lembramos neste momento das colocações de Sawaia (2006) quando
se refere à afetividade como forma de expressão humana que tem como sentido
essencial a capacidade de afetar e ser afetado. É neste sentido que Galano (1995, p. 152)
afirma que o afeto é o elemento que “Estrutura os entrelaçamentos das subjetividades
pessoais”, tanto nas expressões de solidariedade, quanto nas de antipatia, enfrentamento,
etc.
No embate entre assumir ou não a identidade camponesa ou de agricultor(a),
Renk (2000) evidencia em sua análise a ocorrência de alterações consubstanciais na
relação da mulher e do homem com a terra. Se outrora a terra e a condição de
47
agricultor(a) eram sinônimos de orgulho e bem-aventurança, hoje são entendidas como
motivo de vergonha e menosprezo para uma boa parcela da população, tanto rural
quanto urbana. A fala a seguir denota em que medida esta condição de desprezo ao
campo é percebida e sentida como um fato naturalizado, vivenciado sempre como
estigma, sendo que os movimentos sociais do campo assumem como objetivo,
modificar esta situação.
[...] às vezes quando você convida pra um encontro de jovens camponesas,
muitas não vão porque não se acham camponesas, tem vergonha de dizer
“ah, eu sou da roça”, porque assim tem muitas que contam assim, mais nas
grandes cidades, que se você vai chegar na escola e dizer que você mora na
roça, que você mora no interior, sabe vai dar aquela, aquela gozação, porque
é uma cultura que já tem desde sempre que quem mora na roça é
considerado o “bicho-do-mato”. (...) por esse modelo de sociedade que tem,
tem vergonha de dizer eu sou camponesa, eu sou da roça. Dizem: eu sou
doméstica, daí acham que é mais bonito, que ninguém vai gozar,
(coordenadora de formação do MMC).
A fala de uma das coordenadoras de movimentos sociais também está presente
no discurso das(os) jovens que expressam tanto o sentimento de afeto em relação à
terra, como o reconhecimento de suas identidades em contraposição à juventude
citadina.
[...] estava lá num outro cursinho, de computação, aí um colega meu pediu
onde é que eu morava e eu disse que morava lá na agricultura, daí ele falou
“você é colono”, sim, sou colono e com muito orgulho, moro lá, lá eu tenho
frutas, tenho o ar limpo, puro, tenho tantas coisas que você não tem ali na
cidade, você tá aí na rua, não tem nada, é um moleque (A.M.G., homem, 19
anos, Movimento Sindical).
O discurso deste jovem é representativo da fala de todas(os) as(os)
entrevistadas(os) que declararam estar conscientes de sua condição camponesa ou de
agricultor(a), assumindo-a não como um estigma, mas a reconhecendo como essencial
para a sociedade. Assumir esta identidade não é algo simples num contexto de migração
crescente da juventude que tem, nos próprios pais o incentivo a buscar no meio urbano
uma outra condição de vida e de sustento. Neste sentido, os movimentos sociais têm
propiciado o espaço de reflexão e de questionamento sobre esta concepção difundida a
respeito da impossibilidade de permanência no meio rural.
48
E aí quando elas começam a perceber a importância do papel da roça pra
sociedade, elas começam a ter outra consciência e começam a dizer, não eu
sou camponesa mesmo Outras dizem: acho que isso não é pra mim, então a
pessoa tem que se conhecer na verdade, pra saber o que realmente ela quer.
A gente pensa de conseguir ajudar elas a ver a sua identidade, o que mesmo
eu quero ser (coordenadora de formação do MMC).
Apesar de esta fala apontar para a necessidade de conhecer-se, saber realmente o
que se quer, o que se deseja e almeja como forma de vida, ou seja, aumentar o campo de
possibilidades de escolha ao invés de esta resultar unicamente da falta de perspectivas,
percebemos certa tendência destes movimentos sociais a enfatizar o meio rural como a
alternativa mais apropriada.
Que nem na cidade tu recebe por mês, tu tem sempre o salário. Só que tu é
escravo, escravo do patrão. E já na roça não, tu trabalha como pode, se ficou
doente já não vai, e na cidade tu tem aquele dinheiro todo mês, mas se fica
doente tem que ir igual. É muita exploração (V.L.S., mulher, 23 anos,
MAB).
Parece-nos que o reconhecimento do campo como um lugar bom para viver e
trabalhar exige a compreensão de que a cidade é um espaço ruim e indesejável. Na
tentativa de fugir destas polarizações reiteramos que não se trata de negar as
possibilidades de escolha, mas aumentar o campo perceptivo destas em prol de uma
decisão que passe pelo crivo da reflexão. No momento seguinte, estaremos retratando a
inserção da juventude no contexto dos movimentos sociais, qual a sua relação e
compreensão sobre os projetos, as ações e as formações políticas e ideológicas.
49
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Debater sobre juventude rural, fenômeno a princípio estranho à nossa
cotidianidade, passou a ser visto através dos olhos curiosos da investigação e do
pensamento científico. Pensamento este que nos levou a questionar a nossa própria
condição juvenil, a problematizar o que fazemos e como fazemos este “estar jovem”
acontecer. É muito fácil apontar para as dificuldades e as contradições do outro. Mas e
nós? Como nos relacionamos com as políticas públicas? Como lutamos para garantir os
nossos direitos enquanto coletividade? Ou melhor... Onde está a coletividade? Estes
questionamentos, reflexos da nossa crise decorrente do processo investigativo, indicam
a necessidade de colocar no cerne das discussões as problemáticas da juventude,
trazendo-a para o debate, não como simples depositários de ações, mas como agentes
mobilizados e conscientes de suas reivindicações e necessidades.
Apesar de todo o trabalho e esforço empenhado na construção deste relatório,
compreendemos que ainda há muitas lacunas. A compreensão de que a “obra” está
inacabada, apesar de a estrutura prendê-la no tempo e no espaço através destas folhas,
sabemos que a continuação depende do olhar da(o) leitor(a) que dará o sentido singular,
tantas vezes discutido durante a produção deste trabalho.
A proposição desta pesquisa que se efetivou na elaboração e construção deste
relatório deve ser analisada crítica e radicalmente, neste sentido, retomamos o seu
objetivo principal de refletir sobre as subjetividades de jovens envolvidas(os) em
movimentos sociais do campo. Nesta tarefa “incubatória” da produção de conhecimento
foi possível evidenciar que a juventude está sendo alvo de discussões que se
instrumentalizam nos diversos projetos e ações descritos no capítulo 3. Denota-se a
aproximação entre a formação técnica e política que se constitui dialeticamente nos
movimentos sociais do campo. Nos discursos das coordenações e das(os) jovens a
ênfase sobre a necessidade e a vontade de permanecer no campo, desvela-se como uma
resposta ao modelo hegemônico de migração rural para os centros urbanos. No entanto,
este processo não é apenas objetivo, ou seja, resultante dos empreendimentos citados,
mas referentes à dialeticidade entre objetividade e subjetividade.
Os movimentos sociais do campo revelam-se aqui, como fundamentais na
50
produção de subjetividades “desejantes” de permanência no meio rural. Percebemos
que, se este modo de a(o) jovem relacionar-se com a terra e a vida no campo está
contrapondo-se à realidade predominante, “fugindo” deste padrão e expressando-se
como singularidade, por outra via, evidenciamos a tendência de novas “capturas” da
subjetividade através de processos que agora “exigem” a continuidade da juventude no
campo, dificultando a expressão dos sujeitos em suas particularidades. Não estamos,
com estas reflexões, realizando julgamentos morais sobre se a juventude deve ou não
permanecer no campo, mas compreender como este processo, às vezes, não parte da
reflexão e, sim do inculcamento de uma lógica que contrapõe o campo – lugar bom para
se (con)viver – e a cidade – lugar ruim –, expresso nas falas das(os) jovens
entrevistadas(os).
Os eixos temáticos referenciados no capítulo sobre Os movimentos sociais do
campo no cotidiano da juventude rural sintetizam o que consideramos constituir-se
permanente e incessantemente: as dimensões do singular e do universal. Neste sentido,
a trajetória das(os) jovens revelou-se como o “ponto de partida” para a compreensão da
constituição das subjetividades num determinado contexto histórico-político-cultural.
Foi possível evidenciar que, embora o discurso dos movimentos sociais seja
hegemônico e homogeneizante, a forma como os sujeitos apropriam-se destes princípios
e valores que embasam a realidade dos movimentos sociais têm aspectos sui generis.
Na trajetória dos sujeitos fez-se essencial observar o imbricamento entre a
história de envolvimento familiar com os movimentos sociais e com a terra e a
perspectiva da(o) jovem em relação ao que Renk (2000) denomina processo
intergeracional. Novamente enfatizamos que não pretendemos encontrar uma relação
causal entre a participação da(o) jovem e seus ascendentes, mas clarificar que há uma
importante contribuição destes para a constituição dos valores e crenças que constituem
estas(es) jovens. A heterogeneidade fica presente até mesmo nesta pequena amostra, em
que nem todas(os) as(os) jovens têm o incentivo familiar para a permanência no campo,
portanto, para a reprodução social dos valores da agricultura familiar.
Ratificamos que os projetos e ações voltados para a juventude rural têm seu foco
na(o) própria(o) jovem. Vislumbra-se assim, outro olhar para a juventude, não mais
vista, pensada e planejada de fora para dentro, como um “receptáculo” de ações
pensadas para, mas a partir da condição de sujeitos participantes e ativos na
51
elaboração/realização destes projetos.
A apropriação dos discursos ideológicos dos movimentos sociais do campo
possibilita às(aos) jovens o reconhecimento das reivindicações e da visão de mundo
diferenciada que estes propõem. Percebemos nas falas a incorporação dos ideais dos
movimentos no que se refere às práticas cotidianas das(os) entrevistados, o que não quer
dizer que estas práticas sejam isentas de contradições e “descompassos”.
É importante destacar que ao retratar a relação entre os movimentos sociais,
juventude e campo, as(os) jovens atribuíram fundamental importância para a presença
da coletividade, da terra – símbolo de seu trabalho – e das bandeiras dos movimentos
sociais representando as suas lutas e reivindicações.
Consideramos também um desafio abranger os quatro movimentos sociais do
campo que fizeram parte desta investigação, pois embora se possa ter um panorama
mais geral de como estas discussões sobre a juventude têm sido analisadas pelos
diferentes movimentos, não pudemos nos aprofundar nas especificidades que são
inerentes à realidade e à própria constituição de cada grupo.
Retomando as colocações realizadas no capítulo 3, quando utilizamos a metáfora
do bolo para refererirmo-nos aos recortes que se fazem necessários no processo de
pesquisa, confessamos agora, que a sensação é de que deveríamos apresentar o bolo
inteiro e não apenas uma fatia, mas pensando bem, a maioria das pessoas não come um
bolo inteiro... Talvez antes disso tivesse uma indigestão ou na metade já sentiria que não
tem mais condições de continuar ou, porque enjoou ou, porque está suficientemente
saciada(o). No entanto, ficamos satisfeitas com este “bolo” (bolo este dividido em fatias
e que você teve a possibilidade de saboreá-lo, gostar ou desgostar), resultado de uma
produção conjunta e que teve o auxílio de muitas mãos. A receita? Não, não há receitas
ou modelos preestabelecidos de como confeitar este bolo, apenas a base da massa que se
constrói a partir da reflexão crítica e da afetividade, ingredientes sine qua non a massa
desanda ou tende à estagnação. Os enfeites ficam sob a responsabilidade da imaginação
e da criação de quem se dispuser a “retocar”, modificar ou produzir novos bolos na
imensa fornalha do conhecimento.
52
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Minhas perspectivas... O que eu quero... É permanecer no campo e