só todo o esforço de que era capaz, mas literalmente tudo o que
tinha. Todo o seu tempo, todo o seu dinheiro, um bom naco de
sua vida. Claro, isso é o que todos os livros haviam exigido dele,
que pusesse de lado toda distração e todo conforto, que simplesmente baixasse a cabeça e pusesse mãos à obra. Porém, algumas
décadas são mais sensíveis do que outras. E nesta, ao erguer os
olhos, ele havia constatado que estava velho.
Autor se vira e vê que Todd continua parado ali, a observá-lo
em seu devaneio. O rapaz tira do bolso um punhado de substitutos de leite. Ele segura os pequenos potinhos na palma da mão e
a estende até a altura do queixo de Autor, como se este fosse um
bode velho em um zoológico para crianças.
“Não, obrigado”, diz Autor, voltando-se para o outro lado.
“Intolerância a lactose”, diz, “... entre outras coisas.”
Na última vez em que Autor fez uma leitura nessa livraria,
o barista não havia ido embora, os funcionários não haviam ido
embora, e o autor não havia bebido café. A dona lhe oferecera
uísque enquanto enxotava os funcionários de olhos embevecidos.
Mesmo assim, eles corriam excitados ao depósito para dizer “Não
sabemos como acomodar tanta gente. O público. Estão fazendo
fila lá fora.”
Hoje à noite não há ninguém, e Todd espia lá fora mais uma
vez para confirmar. “Vamos esperar mais cinco minutos”, diz,
despregando o crachá. Em seguida tira do bolso um celular e
seus dedos começam a tamborilar.
Autor quer dizer certas coisas ao rapaz. Quer dizer, Doze
anos. Doze anos dedicados a um livro — o que é isso, metade de
sua vida, meu rapaz? Quer dizer a Todd, É preciso sustentar a
própria história. É o mesmo compromisso a que está preso o
mentiroso, mas aqui é uma questão de permanecer fiel à verdade.
170
Em um repentino surto de ansiedade, Autor se oferece para
assinar exemplares do livro.
“Melhor não, não dá para devolvê-los”, diz Todd. “Os distribuidores... acham que as assinaturas...” E aqui Todd ergue os
olhos da mensagem que está digitando. Começou uma frase que
não quer completar.
“Estragam”, diz Autor, completando em seu lugar. Todd faz
que sim com a cabeça. E lá estão os dedos, de novo se mexendo.
Que você não ouviu falar de Autor — que qualquer reconhecimento que alguma vez você pode ter tido há muito caiu no
esquecimento — e Autor (mesmo em sua própria avaliação) não
merece mais ser mencionado, bem, isto não diminui em nada o
que ele foi.
Não compromete os ótimos livros que escreveu. Não diminui os incontáveis exemplares comprados e lidos, livros amados,
talvez um deles com uma dedicatória especial para você, aquele
volume caído atrás das suas estantes, ou das estantes de seus pais,
ou quem sabe se trata, isso sim, de um livro de seus avós — dentro de uma caixa, mofando no porão, as traças abrindo caminho
através dele.
No auge, o diretor da Biblioteca Pública de Nova York saíra
para receber Autor nos degraus da entrada dessa venerável instituição. De porte aristocrático, o bibliotecário-chefe ficou firme
na chuva, entre os dois leões adormecidos, simplesmente para
demonstrar respeito por Autor, que ali ia se apresentar.
Em seguida, levou Autor para conhecer os grandes salões,
insistindo em lhe apresentar as maravilhas de suas coleções. “Essa é a bengala que Virginia Woolf largou na beira do rio antes de
entrar na água”, contou o bibliotecário, “com os bolsos cheios de
pedras.” Ele depositou a relíquia na mão de Autor por um ins171
tante antes de conduzi-lo lá embaixo, sob o velho reservatório de
Manhattan, andar por andar, até as prateleiras que se estendem
muito abaixo do parque Bryant. Ali o bibliotecário girou uma
gigantesca roda niquelada, abrindo as estantes como o mar, e
disse “aí estão os campeões de vendas no século dezenove, aqui
guardamos seus irmãos e irmãs, os autores que, um século atrás,
ocupavam a mesma posição exaltada!”. Autor se aproximou para
examinar. Autor esperava encontrar os livros que tanto apreciava
daquela época.
“É esse...”, disse Autor.
“Sem dúvida, sem dúvida”, disse o bibliotecário, radiante.
“Os gigantes da era!”
Autor olhou de novo, sem reconhecer as lombadas. Bloo­
mingdale Row; To the Hills, Boys!; Capshaw is Rough; e algo com
o infeliz título de Scuttle-de-do. Os olhos de Autor saltavam pelas
prateleiras, ganhando velocidade até que estavam quase rolando
em sua cabeça. Tentou manter o pânico sob controle. Autor não
ouvira falar de nenhum deles.
“Como muda o gosto do público”, disse o bibliotecário.
“Não é fascinante isso?”
Autor havia enterrado esse momento. Ele o deixara lá onde
estava, bem fundo embaixo do parque. E só agora ele retorna
com força, tantos anos depois, enquanto Autor deixa para trás
Todd e o depósito e sua carreira arruinada.
Autor agradece ao rapaz. Autor se despede. E Todd mal
nota que não é apenas dele, dessa livraria e dessa cidade que o
Autor está se despedindo, mas de toda essa merda.
Esse último livro, Autor o digitara quase todo de pé, lutando
com as dores nas costas e batucando no teclado com as juntas dos
dedos inchadas pela artrite. É assim que trabalhava agora, o vigor
tendo desertado do seu organismo, osso raspando em osso.
“É só levantar o trinco, depois ele fecha sozinho”, grita ­Todd
172
do depósito. Autor ouve isso ao se dirigir à porta da frente, considerando que nisso se resumiam as coisas. O rapaz nos fundos
com o celular, sem dar a mínima para o fato de que alguém já
pode estar ali dentro levando embora os grandes tesouros da literatura e roubando a livraria. Autor se desvia das cinco fileiras de
cadeiras vazias e dispostas em semicírculo para dar a impressão,
caso fossem ocupadas, de um público razoável. Ele mantém os
olhos baixos para não ver as Recomendações nem os Mais Vendidos, tampouco os Favoritos dos Leitores ou as etiquetas de desconto nos livros dos escritores premiados que ele conhecia.
Autor está quase saindo pela porta quando escuta uma voz
diferente chamando. “Autor”, diz a voz. E então, mais aguda,
mais exigente, “Escritor”, diz. “Escritor, você veio aqui para ler.”
Na livraria vazia, naquelas cadeiras vazias, está sentado —
invisível até abrir a boca — um homem.
Ele é pequeno. Bem menor do que o autor, que não é muito alto. Também é muito mais velho, o que leva Autor a pensar
que deve ter pelo menos cento e dez anos. A pele do homem é
descorada e carente de vitaminas. Seu rosto pende solto na cabeça. Socado em sua boca como um retentor de porta, um conjunto de grandes dentes brancos, que sem dúvida costumam passar
a noite dentro de um copo. A única coisa com algum resquício
de vida é o cabelo, de um preto lustroso. Este — Autor mal consegue despregar os olhos — não tem nada a ver com aquela dentadura. O cabelo parece de verdade, vibrante e sem tintura.
Fosse Autor algum dia voltar a escrever, o cabelo seria o
detalhe. Escreveria sobre um velho mirrado, murcho em sua
roupa, o rosto derretendo como cera, e essa pontada, esse choque
vigoroso de cabeleira negra.
“Você veio para ler”, diz o homem.
“De fato, vim aqui para ler”, diz Autor.
O homem continua imóvel, um ar de expectativa.
173
Autor finge não entender a dica que está recebendo. Finge
impaciência. E quando o homem continua inabalável, Autor
cede, claramente desesperado, a voz embargada com todas as
mágoas dessa noite.
“Uma dúzia de anos”, diz Autor, “dia após dia — escrevendo. O tempo todo escrevendo. Você não faz ideia de quantos
lápis são necessários só para o rascunho”, diz ele. “Caixas e caixas
de lápis. E veja isso”, diz Autor, “dê uma olhada, por favor.”
O velho acompanha o olhar do autor pela sala vazia.
“Melhor encerrar a noite por aqui, não?”, pergunta Autor.
“Melhor encerrar a carreira por aqui e voltar para casa.”
O velho, a princípio invisível ele mesmo, agora mostra um
exemplar do livro do autor, que estivera invisível em sua mão. É
um exemplar gasto — como deve ser. Parece, na verdade, tão
gasto quanto uma Bíblia. Um livro de capa dura tão manuseado
que se dobra em suas mãos.
“Há um investimento de minha parte, também”, diz o homem.
“Vamos tomar alguma coisa”, propõe Autor. “Não seria melhor — mais pessoal? Ou será que você preferia — comer alguma
coisa, talvez?”
“Prefiro mesmo que você leia. Foi para isso que vim.”
Eles se encaram. Examinam o rosto um do outro. E Autor,
ele balança a cabeça ao se ouvir falando. “Está bem, algo breve
então”, ele diz, cedendo a esse sujeito antigo.
“Não cabe a mim decidir isso”, diz o velho. “Se for apenas
uma palavra, que seja uma palavra. O contrato — um contrato
social. Ele diz, se eu venho, então você lê.”
“É assim, não é?”, diz Autor, estendendo uma das mãos e
conduzindo o homenzinho à primeira fileira. Autor se senta ele
próprio, aproximando a cadeira do semicírculo, e apanha seu
livro para ler.
174
“Não, não”, diz o homenzinho. “No pódio.”
“O quê?”
“No pódio.”
“Somos apenas nós dois”, diz Autor.
O velho o fita, sem expressão.
“Como público”, diz Autor, “você é apenas um.” E ergue
um dedo para ilustrar.
“Dignidade. Um grande autor.”
“Sou mesmo?”
“Você é. Um grande autor. Um autor poderoso. Que seja
um ou um milhão para vê-lo, tem de ser no pódio. Leia alto. Leia
com vigor.”
Agora a impressão inicial de Autor parece descabida. Autor
já não acha — e tem vergonha de não achar, pois sabe por que
não acha mais isso — que o velho parece tão louco.
Autor sobe ao atril e abre o livro. Faz a mesma introdução
que faria diante de um ou de um milhão. O mesmo aquecimento pessoal e sincero com que antes Autor se dirigia às grandes
plateias. Lembra de uma noite em Seattle, lembra de tropeçar
nos cabos que ligavam um caminhão de tv ao teatro enquanto
abria caminho nos bastidores. Lá, uma mulher com fones de
ouvido puxou a cortina para Autor e, por um instante, o segurou
pelo braço. “Não deixe de erguer os olhos para o camarote” foi o
que ela disse. “Você não pode vê-los, mas eles estão lá.”
Autor lê com toda a emoção de que é capaz para esse homem solitário. Lê com tanto vigor, sua voz ecoando, o sentimento da história tomando conta dele, o ritmo das frases fluindo
através dele, que as lágrimas vêm aos olhos de Autor, lágrimas
que ele deixa correr, de modo que agora é de memória que ele
lê, virando as páginas enquanto as letras nadam.
É no meio desse devaneio que ele não se dá conta — sabe-se
lá por quanto tempo — que Todd está ali de pé, os olhos indo e
175
vindo entre o autor e o homem, uma estranha pulsação emanando dele. Todd está tentando distrair Autor, Autor imagina, tentando estragar esse momento adorável. Que outro motivo haveria
para esse baixo profundo que vem dele? Autor supõe que talvez
isso seja alguma espécie de raiva irradiando de Todd, e então,
arrastado de volta a este mundo, concentrando-se, percebe que
a pulsação vem de um par de fones de ouvido presos como calotas em torno da cabeça de Todd.
Autor, ainda exaltado, continua a ler.
Dirigindo o carro na escuridão rumo à próxima cidade distante, Autor sabe que o que ele acabou de vivenciar foi uma
dádiva. Na verdade, que vida de escritor mais rica um autor poderia almejar além da descoberta, mesmo que apenas por uma
noite, de um verdadeiro leitor?
Autor revira esse pensamento em seu cérebro, chupando-o
como uma pastilha doce e pegajosa. Entretém esse pensamento
até ele se desfazer enquanto avança velozmente pela i-80, puxando para a direita no volante, o carro sacudido pelo vento. Quando a luz de alerta acende, brilhando no painel, Autor a vê apenas
como outra modesta prova na existência de um artista genuíno.
Verificar o motor. Verificar o autor. Seguir em frente.
Não dura muito, esse sentimento. Não chega a durar vinte
e quatro horas, e Autor já começa a se sentir envergonhado e
constrangido por ter dirigido até ali. Autor se descobre de pé ao
lado de uma mulher estreita, os pulsos dela envoltos em braceletes de cobre, como se preparados para uma obscura forma de
guerra. Tudo o que ocorre a Autor é: Com quem ela vai lutar
nesta livraria vazia? Quem vai se dar ao trabalho de vir atacar?
A mulher conversa com Autor enquanto arruma uma pilha
de livros minúsculos expostos ao lado do caixa. “Deve ser um
176
choque para o romancista que lança um livro a cada década”,
comenta ela. “Uma surpresa ver o quanto as coisas mudaram.”
“É verdade”, diz Autor. “Um livro a cada dez anos... é como
ser uma cigarra. Você passa todo esse tempo debaixo da terra,
ocupado em sobreviver. E quando por fim abre caminho para
fora, nunca sabe que mundo vai encontrar.”
A mulher empurra para longe toda a situação, e o gesto põe
os braceletes para correr pelo seu braço, produzindo um tilintar
metálico. “Daqui a dezesseis semanas e três dias esse espaço vai
virar uma farmácia da rede cvs.”
Autor não sabe o que responder, e por isso diz: “Sabonetes”.
E depois, apontando para sua cabeça, “cotonetes”. Limpa a garganta. “Há coisas que sempre vão ser necessárias.”
A mulher reflete e, enquanto isso, Autor aproveita a oportunidade para agradecer com uma inclinação da cabeça e sair em
direção à porta que dá para o estacionamento. É então que ouve.
“Autor”, diz a voz. “Escritor? Onde você vai?”
Autor para, pisca, uma orelha empinada na direção da sala.
Autor está segurando a maçaneta da porta como se tivesse acabado de ouvir o som da própria voz.
“Sempre apressado, o escritor. Hoje à noite tem leitura!”
Antes que Autor responda, é a dona da livraria que fala, com
voz forte o suficiente para derrubar o homenzinho.
“Hoje não tem leitura”, diz. “Foi cancelada.”
“Cancelada por quê?”, pergunta o velho. “Cancelada
­como?”
Ela olha para ele, intrigada. “Não veio ninguém.”
“Alguém veio”, diz ele. Mas não está se referindo a si mesmo. “O autor veio. Olhe ali. Não está vendo? Ele está segurando
a porta aberta, deixando entrar o frio.”
“Não vale a pena”, diz a mulher. “Sem querer ofender, mas
já passou a hora de leitura.”
177
“É uma ofensa, sim”, diz o velho. E então se põe todo exaltado e começa a entoar louvores a Autor. Autor não toma isso
como algo pessoal. Isto é, não ouve os elogios como se lhe fossem
destinados. O que ouve desse homem antigo é uma paixão pelos
livros em si, da parte de alguém picado pela palavra escrita. Autor
ouve o que ouve como um colega leitor, e Autor se lembra.
Era “A história do meu pombal”. De Bábel, lido para ele por
sua mãe. Sentada ao lado de sua cama infantil, ela leu essa história para Autor em russo. Isso foi na época em que a língua
murmurada junto à cama ainda fazia sentido no ouvido de Autor.
E olhe para ele agora, toda uma vida mais tarde e ainda consegue
ver a história inteira como se ele próprio a tivesse vivido. Para
Autor, ela permanecia tão vívida como na primeira vez em que
foi contada, ao passo que a língua russa — toda ela — havia desaparecido.
Quando a mãe tinha terminado de ler, Autor tinha perguntado se a história era para ele. Não disse isso como metáfora, ou
exagero; não, perguntava sinceramente — uma pergunta de garoto — se o sr. Bábel tinha escrito aquela história para Autor
ouvir.
A mãe, depois de ter lido um conto triste demais, sombrio
demais para um menino tão pequeno, tinha acariciado seu cabelo e beijado sua cabeça e dito: “Claro que sim. Ele escreveu
só para você, meu filho”. Autor, como uma criança, ficou assombrado, transbordando de felicidade e absolutamente maravilhado. Em algum lugar, um escritor havia posto alguma coisa de si
no mundo, e posto bem ali para só Autor achar. Era uma intimidade tão real quanto uma amizade.
Autor olha para seu leitor falando com a mulher armada de
braceletes, tentando persuadi-la. Ali estava o maluco do Autor. O
demente do Autor. E também o público do Autor — esse homem
antigo, muito antigo, com cabelo cor de graxa de sapato e cata178
ratas espessas como unhas através das quais ele lê. Lê e, de algum
modo, dirige seu carro.
A mulher da livraria acaba cedendo, e Autor não se opõe.
Agora está genuinamente emocionado com a dedicação desse
homem, que ali está para ouvi-lo em uma segunda noite. Autor
lê para o velho, com todo o entusiasmo de que é capaz. E quando Autor termina, uma arrependida dona da livraria se aproxima
com um romance que Autor humildemente autografa. Não é
para a livraria. É um autógrafo encomendado, um exemplar personalizado que vai ser devolvido ao dono. Ela o guarda junto ao
peito, protegendo-o com aqueles braços cheios de braceletes.
Autor está verdadeiramente agradecido a seu paladino, a seu
defensor. Isto é o que diz a si mesmo quando vê seu único e leal
leitor usando quipá, sentado na primeira fila, no Centro Comunitário Judaico de St. Paul.
Ele próprio de quipá, Autor é tão grato a esse homem que o
apoia, que o sustenta, que não lhe volta as costas em tempos difíceis, que o mantra acaba virando uma pequena oração. Autor
o recita desde o estrado — ele jorra de sua boca, um poema. O
velho parece emocionado, dentes e cabelo reluzindo, enquanto
ouve uma devoção íntima quase abafada pela gritaria de uma
partida de basquete noturna atravessando uma parede retrátil.
Em seguida, ele tira um papel amassado com as datas das próximas leituras do autor anotadas à mão. “Uma noite adorável, esta”,
comenta o velho, despreocupado, examinando o papel.
Mas, a certa altura, toda dádiva e toda benção azedam e ficam intragáveis. O homem aparece para ouvi-lo em uma Brookline Booksmith vazia, em uma Three Lives vazia e em uma Politics and Prose vazia. Em Kansas City, quando uma dupla de
bêbados entra aos tropeços no meio da leitura para aproveitar o
179
vinho grátis, Autor fecha o livro com violência, apenas para ouvir
a exclamação do público formado por uma única pessoa: “Autor,
continue a ler!”.
“Continuar a ler”, claro, mas por quanto tempo mais? Autor
é um homem que sobrevive de recordações e fumaças de prestígio. Ele comunica isso ao leitor — para sempre nos seus calcanhares — em uma exótica livraria de inspiração pueblo em Alamosa. “Este livro”, diz Autor, “não é um romance, é uma lápide.
Por que não simplesmente enterrá-la no chão sobre minha cabeça? Meu nome já está gravado.”
“É um equívoco fazer um tal pedido”, diz o leitor. “Ninguém morre antes da hora.”
“Antes da hora? Olhe para mim. Sou um pato pendurado
na vitrine há tempo demais — não dá mais para ser servido. A
única diferença?”
“Claro”, diz o leitor. “Qual é a diferença entre você e o pato
na vitrine?”
“O pato”, responde Autor, “ao menos sabe quando é hora
de morrer.”
O velho olha para Autor, refletindo.
“Meu pai”, diz ele, “se enforcou com noventa e sete anos.
Não aguentava mais. Foi o que disse no bilhete. Não queria mais
encarar a vida.”
“Lamento saber disso.”
“Gostaria que ele tivesse falado comigo”, diz o velho. “Eu
teria dito a ele. Noventa e sete? Não é preciso fazer nada tão
drástico, pai. Paciência. É só esperar um pouquinho mais.”
Perdoe ao autor seu comprometimento implacável. Perdoe-lhe a sua crença de que, mesmo que a próxima cidade não lhe
reserve nada além daquele único velho, ainda assim sua obriga180
ção é seguir em frente em seu carro. Um escritor nunca sabe se
perseverança é sua terrível debilidade ou sua maior força. E com
todos esses faróis flutuando divididos no retrovisor, Autor nunca
pode dizer qual deles pertence a seu leitor, qual par é seu farol,
uma Estrela Polar, fendida, recuperada, servindo-lhe de guia.
Os dois chegam a uma livraria de Denver, que agora também é uma distribuidora de maconha. Um esquema, explica o
proprietário espanando o pó de um exemplar adorado, no qual
uma droga paga pela outra. Depois de uma leitura para ninguém-a-não-ser-o-leitor-solitário, é esse homem, cheio de grana e de
boa vida, que diz a Autor para pegar qualquer livro que queira,
pelo incômodo. Um presente da livraria.
“Bábel”, diz Autor, surpreendendo a si mesmo. “Os primeiros contos.” Desde pequeno ainda não se permitira ler essas histórias.
Saindo de Denver, Autor cruza as Montanhas Rochosas em
direção ao Pacífico, com o leitor (sempre atento ao limite de
velocidade) em seu encalço. Em Salt Lake City, Autor toma o
rumo norte à direita e segue, durante três dias chuvosos, até Vancouver. Após ter lido para o seu leitor nessa cidade luxuriante,
Autor aponta o carro para a livraria seguinte, retomando o caminho pela Costa Oeste. O sol o acompanha dessa vez, e Autor
dirige com um braço para fora da janela, assando o lado esquerdo do corpo até queimá-lo. Em um posto de gasolina logo ao
norte de Seattle, Autor enche o tanque com seu último centavo.
Tão necessitado de dinheiro está que, poucas milhas adiante,
estaciona diante de uma barraca montada por uma igreja à beira
da estrada. Ali vende por um dólar o Bábel que acabou de ganhar, e observa a mulher jogá-lo em uma caixa com uma etiqueta de dois dólares. “Os contos”, diz a ela, “são exatamente como
me lembrava.”
Entrando em Seattle, cidade onde Autor foi um dia de fato
181
conhecido, ele sabe, literal e figuradamente, a que está reduzido.
Que um velho amigo, o comprador da Elliot Bay Books, tenha
arranjado para que ali fizesse uma leitura é um ato de caridade
tão óbvio que o deixa humilhado o suficiente para aceitar outro.
De olhos baixos, Autor atravessa a rua diante da livraria e vai até
a missão Come Unto Me, onde toma um prato de sopa, sua primeira refeição no dia.
No interior da livraria, Autor se apresenta à funcionária de
piercing no nariz que está atrás do balcão. Sem nenhuma emoção, ela lhe diz que a leitura vai ser lá embaixo. Autor está desanimado ao se aproximar da escada que leva ao porão. Então ouve
o ruído, e seu coração começa a bater mais rápido ao som de uma
recepção a todo vapor. A energia, ele pode senti-la nos pés, através das tábuas do piso. Autor tem de se conter para não descer
dois degraus de cada vez.
E de fato há uma multidão reunida quando ele chega ao
porão. São bebedores de café lotando um café de livraria. Autor
pergunta à barista, e ela aponta. A leitura vai ser em uma sala
minúscula mais além.
Como aquele ruído havia confundido Autor, que alegria
havia sentido.
Quando chega, o comprador da livraria encontra Autor à
espera na pequena sala, e os anos desaparecem. Todo esse tempo
passado nada mais é do que um lampejo quando há afeição entre
duas pessoas. Eles se abraçam e o comprador diz: “Você está
muito bem, não mudou nada”.
Antes que o vazio da sala estrague o momento, o comprador
o enfrenta diretamente. “Sinto muito”, diz. “É um ótimo livro.
O fato de não ter vindo ninguém não tem a ver com você, mas
conosco. Está tudo muito devagar nesta temporada. Os números
só caem.”
“Não tem problema”, diz Autor. “O país todo é, para mim,
182
um deserto — salas vazias de uma costa à outra.” É uma sensação
muito boa dizer isso para esse homem que sabia como era antes,
que havia organizado a gloriosa noite em que, doze anos atrás,
Autor esgotou seus livros, e que mesmo assim reconhecia — com
elegância — o que se passa agora. Não como seu leitor. Não
como sua sombra, sufocando-o com tanta fé. Autor diz: “Sabe de
uma coisa? Não vamos nem mesmo esperar. Pelos velhos tempos,
que tal tomarmos algo — você e eu?”.
O comprador pensa um pouco e então coloca o braço no
ombro de Autor. “Claro, seria ótimo”, diz. Tira o braço e desliza
através do café rumo à escada, com o autor, melancólico, atrás.
Quando estão galgando os degraus, Autor ouve. Fica surpreso por ter ouvido, com música e gente falando, mas lá está, desde
as profundezas da confusão no café. “Autor! Escritor! É hora de
começar” é o que ouve. “Escritor, olá, onde está indo?”
O comprador da livraria o entreouve também — o suficiente para estacar, ainda segurando o corrimão. Autor não vai se
submeter. Continua a subir, levando consigo o comprador. E o
velho de Autor — lento demais para alcançá-los, ainda mais com
todos aqueles degraus entre eles — berra lá de baixo com toda a
força que consegue reunir. “Ei, escritor!”, e continua: “Ei, cara
da livraria! Há um cliente aqui! O escritor tem de ler!”.
Isto, o comprador da livraria não deixa de ouvir. “Você não
vai atendê-lo?”, diz. “É o chamado do público.” Antes que diga
qualquer outra coisa, o autor, cabisbaixo, faz meia-volta e desce
a escada.
A leitura está começando, mas ninguém do café se aproxima. As conversas continuam. A música rola solta. Não é nada
fácil para o comprador convencer a barista a diminuir o volume.
Há — Autor ouve — uma rodada baixa de vaias.
183
O velho se senta na primeira fileira na minúscula sala com
apenas três fileiras. Embora pequena, possui um palco de compensado, com trinta centímetros de altura e não muito mais profundo, e um pequeno atril encarapitado de viés, no qual o autor
vai fazer a leitura.
É evidente a emoção no rosto de Autor. O comprador espera até que se recomponha, embora logo fique óbvio que o desespero de Autor está longe de se dissipar. Parece estar fervilhando,
transformado numa raiva dirigida, inexplicavelmente, ao frágil
homenzinho.
“Companheiro”, diz o comprador, tentando conduzir Autor
até o palco, “que tal conceder a esse cara cinco minutos e depois
a gente sai pra tomar aquele drinque?” O comprador, sem se dar
conta, está massageando o ombro de Autor e dando tapinhas em
suas costas, como se o preparasse para subir ao ringue.
“É isso, cinco minutos”, diz o velho. “Vamos lá! Suba ao
palco. É hora de começar.”
Isto é a gota d’água para o autor.
“Torturador!”, berra Autor.
“Mestre!”
“Você se dá conta da loucura disso?”, pergunta Autor.
“E você — você se dá conta da loucura disso?”
Autor fica calado, tremendo visivelmente. O velho se volta
para o comprador, supondo que ele tomou as dores do autor.
“Diga uma coisa, por que o artista é um romântico por sobreviver de um lampejo de esperança? Por que a mesma coisa
não vale para o leitor? Por que meu comprometimento pesa menos? Vim até aqui, não vim?”, diz o velho, “agora ele tem de ler!”
O autor, como se os dois estivessem sozinhos no mundo,
berra de volta. “Não vou ler nada. Diabo! Endiabrado, velho
endiabrado.”
O velho começa a rir. Para o comprador, ele diz: “Ele vai
184
ler, sim. Você vai ver”. E, para Autor, incisivo, exigente: “Diga a
esse livreiro para que ele entenda. Diga-lhe o que de fato está em
jogo no seu coração e no meu”.
Autor não quer chorar. Pode sentir os olhos úmidos, e chega
a inclinar a cabeça para trás, rezando para que não escorra uma
lágrima.
“Como? Como?”, pergunta o velho, fazendo uma concha
com a mão atrás da orelha.
“Dito em voz alta, não vai soar muito bem”, diz Autor.
“Diga a ele!”, berra o velho, apontando o comprador. “Diga
a ele por que um homem como você faz o que faz.”
“Eu escrevo”, diz Autor, com o rosto retorcido em um esgar,
“para tocar as pessoas do modo como eu, como leitor, fui tocado.” E aqui seu semblante se descontrai. “E se eu ainda fosse
bom de algum modo, não estariam apenas vocês dois aqui para
me escutar. Um fracasso, admito. Agora cabe a você”, diz ao velho, “admitir isso também.”
“Autopiedade. O lamento de uma miss envelhecida. Não,
não”, diz o leitor, “não vou admitir o fracasso de um livro que foi
escrito para durar muito.”
Os dois homens ficam se encarando, Autor agora chora
abertamente. Ambos estão presos em um momento tão grande e
tão doloroso que não percebem que os toques dos celulares deixaram de soar e que a máquina de café deixou de emitir aquele
terrível silvo, que as conversas cessaram na sala ao lado, pois todos os que estavam na cafeteria, atraídos pelos gritos, agora se
apinham junto à porta, interessados na briga.
É a mulher que estava atrás do balcão, com piercing e tatuagem e cabelo tingido de azul. “Vamos lá, leia”, diz ela, seu pedido logo apoiado por outro. “Suba lá”, grita alguém. E outro berra: “Vamos lá, velho, dê a esse outro velho o que ele merece”.
Um público considerável está se formando. Congestionado de185
pois de toda a choradeira e as fungadas, Autor se decide por apanhar seu livro e dar um passo com os joelhos rígidos até o palco.
Hoje vai ler para uma multidão.
“Ó, não!”, grita o velho. “Assim não.” Ele se coloca atrás da
porta e, firmando os pés no chão, a empurra com força, tentando
fechá-la na cara do grupo de descolados, que não recua de imediato. “Fora!”, grita ele. “Fora, fora, jovens estilosos!”
Soltando uma das mãos, o velho aponta para Autor no palco,
de modo que só a mão indicadora é visível para quem está no
café, do outro lado da porta. “Esse homem é uma lenda! Não é
um gato amestrado de circo russo”, berra ele. “Vocês têm de
ouvir pelos motivos certos. Não é um macaco cavalgando um cão
em um espetáculo.” E quando o velho diz “russo”, Autor, observando do palco, pensa “russo”, e se lembra da história de um
pombal prometido. E vê um par das aves ensanguentadas de Bábel destroçado a seus pés.
O velho continua a empurrar até que a porta se fecha. Durante a confusão, seu cabelo preto, preto de algum modo girou
na direção errada, a risca invertida. Esse cabelo milagroso, que
Autor tinha certeza de que ficara intocado pelo tempo, se mostra
de outra cor por baixo. Um amarelo-palha doentio. Dessa vez, o
leitor de Autor aparenta a sua idade apropriadamente petrificada.
E o leitor, sentindo isso de algum modo, se apressa para fazer o
cabelo voltar para sua posição costumeira. A mão dele, de aparência muito pior que a de Autor, é sacudida por tremores.
“Eu e ele”, diz o velho a Autor enquanto puxa o livreiro
para junto de si. “Por que não ler para essa boa dupla, que sabe
e entende?”
Autor abre o livro em uma página ao acaso — simbólica. Ele
se prepara para ler de memória, recitando para seu implacável
perseguidor. Vai ler o trecho predileto do velho. Autor começa,
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ininteligível, com os ecos de toda a sua hesitação e choro, e um
estertor na voz.
Mal lê duas linhas e se interrompe. Autor ergue a mão para
indicar que é só uma pausa, e saca do bolso de trás uma caderneta pequena e flexível, já sem a espiral. É onde Autor, secretamente, involuntariamente, e contra o seu bom senso, faz intermináveis anotações. É ali que prepara um livro novo, pelo qual
ninguém irá esperar, e do qual ninguém vai ouvir falar. Soltando
o elástico, bem sabe que seu leitor não viverá o suficiente para
ver esse livro, mesmo que Autor se empenhe em levá-lo à conclusão.
“Algo novo em que estou trabalhando”, diz Autor. E o velho
assente com a cabeça, respeitoso. E o livreiro, que continua de
pé, assente também, acomodando-se ao lado do leitor.
E Autor, que já se apresentou em circunstâncias melhores
e maiores, que, sob toda a pressão do mundo, já se desempenhou
em tais noites com dignidade, limpa o nariz com a manga da
camisa, toma fôlego e — debruçando-se sobre a pequena caderneta — lê com toda a energia que possui.
Autor lê para Seattle; ela sempre foi sua cidade. Lê para o
comprador da livraria, que sempre o apoiou. Autor lê uma vez
mais para o seu velho. Ele sorri para seu leitor, e continua a ler por
entre as lágrimas. Autor continua a ler. E Autor continua a ler.
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Leia trecho do livro de Nathan Englander, Do que a gente fala