Revista Educare CEUNSP – Volume 1, Número 1 - 2013 A REPRESENTAÇÃO DO UNIVERSO CAIPIRA: FATOR DE RENOVAÇÃO NA PRODUÇÃO DE ALMEIDA JÚNIOR* Representation of the Caipira Universe: renewal factor in Almeida Junior’s production Paula Giovana Lopes Andrietta Frias1 RESUMO Quando se trata de avaliar as contribuições da produção de Almeida Júnior para a arte brasileira, fica claro que o artista conseguiu trazer uma nova discussão para a pintura brasileira ao tratar os temas regionalistas em suas obras. Dentre as questões que permeiam esta discussão, a inserção do ambiente “caipira” nos assuntos artísticos do século XIX é um dos pontos fortes. Palavras-chave: Almeida Júnior. Arte brasileira. Caipira. ABSTRACT When evaluating Almeida Junior’s contribution to Brazilian art, it is clear that the artist succeeded in bringing a new discussion to Brazilian painting while dealing with Regionalist issues in his works. Among the matters that cross this discussion, the insertion of “caipira” environment in the 19th century artistic themes is one of its strengths. Keywords: Almeida Júnior. Brazilian Art. Caipira. O “NOVO” EM ALMEIDA JÚNIOR José Ferraz de Almeida Júnior (1850-1899), pintor nascido em Itu, interior de São Paulo, proveniente de uma família de poucos recursos, foi para o Rio de Janeiro estudar na Academia Imperial de Belas Artes graças a uma coleta de fundos feita pelo padre Miguel, pároco da Igreja matriz de Itu, seu primeiro incentivador. Complementou seus estudos na Escola de Belas Artes de Paris através de uma bolsa de estudos cedida pelo Imperador. Destacou-se como pintor e recebeu diversos prêmios2. Sendo um pintor de formação acadêmica, sua produção se caracterizava pela excelente qualidade técnica, que manteve durante toda a sua trajetória. Dentre sua extensa 1 Paula Giovana Lopes Andrietta Frias, Mestre em Artes Visuais pelo Instituto de Artes da Unicamp, é Coordenadora e Professora do Curso de Educação Artística do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio - CEUNSP. E-mail: [email protected] 2 Dentre os prêmios que o artista recebeu, um deles representa o reconhecimento internacional de sua obra, medalha de ouro, no ano de 1893 em Chicago, na Exposição Internacional Colombiana em comemoração ao IV Centenário do Descobrimento da América, onde expõe: Caipiras Negaceando, Descanso do Modelo e Leitura. 30 Revista Educare CEUNSP – Volume 1, Número 1 - 2013 produção, as obras que mais chamaram a atenção da crítica foram as que apresentam tema regionalista, retratando o trabalhador rural do interior paulista e seus costumes. A obra de Almeida Júnior apresenta temática bastante variada: retratos; cenas narrativas como O Descanso do Modelo, O Importuno ou A família do Dr. Adolfo Augusto Pinto; paisagens; obras sacras; pintura histórica3; obras regionalistas que retratam a arquitetura de pau-a-pique e o homem do interior, de barba rala e pés descalços, como Caipira Picando Fumo, Violeiro ou Amolação Interrompida. Uma das características significativas da produção de Almeida Júnior é a proximidade que consegue criar entre o espectador e a cena retratada. A forma como compõe a cena, envolve o espectador com a intimidade do personagem, em Descanso do Modelo, por exemplo, onde retrata o momento de repouso da modelo, descontraída ao piano, numa conversa informal e não posando para um retrato. Em Repouso, onde a modelo é retratada dormindo, bastante à vontade, com as roupas semiabertas. Na obra Saudade, envolve o espectador na dor da personagem que, vestida de luto, chora segurando um retrato, cuja história ficamos a imaginar. Em Partida da Monção, em que retrata o momento da despedida dos “desbravadores” que estão por partir, o abraço das famílias ressaltando a intimidade, o lado psicológico dos monçoeiros e não a cena de uma partida heroica. Em várias de suas telas, torna o expectador cúmplice do “realismo cotidiano” de suas cenas, retratando situações por vezes embaraçosas como em Recado Difícil, em que o garoto envergonhado não consegue dizer à mulher que o atende qual é o recado que traz, ou ainda em O Importuno onde a modelo escondida observa a conversa do pintor com uma visita indesejada. A produção regionalista do artista tem início com a obra O Derrubador Brasileiro (1879), a primeira de sua autoria a apresentar tema nacional. Esta obra foi produzida no período em que o pintor estava na Europa e a paisagem que foi pintada de memória, difere das demais obras regionalistas que foram pintadas a partir da observação do real. O modelo que posou para a obra era italiano, enquanto os personagens retratados nas demais obras que apresentam temática caipira tem como modelos pessoas que realmente faziam parte daquele ambiente, moradores das fazendas que o artista visitava para buscar inspiração. Almeida Júnior parecia ser atraído pelo ambiente caipira, do qual se manteve próximo também por ter fortes laços com parentes e amigos que lá viviam. 3 Almeida Júnior produziu somente uma obra com tema histórico Partida da Monção, de 1897. 31 Revista Educare CEUNSP – Volume 1, Número 1 - 2013 Quando retorna de Paris em 1882, o artista instala seu atelier em São Paulo (na Rua da Glória), distanciando-se do Rio de Janeiro. Havia recusado um convite para lecionar na Academia Imperial de Belas Artes, atitude que causou estranhamento. A crítica da época condena esse comportamento: Entre os artistas que enviaram quadros à última exposição acadêmica de 1884, aquele que acusava, por suas obras, maior originalidade e mais nítida e moderna compreensão da arte era Almeida Júnior... (...) Desde essa exposição até hoje não sei e ninguém sabe o que ele tem feito. Dizem que vive em sua província pintando retratos. É pena que vocação artística desse feitio se isole e viva embrenhado no interior de uma província, onde pode erigir fortuna, porém obscuramente... (ESTRADA, 1888 p. 158-9) Tomando como ponto de partida a Exposição Geral do Segundo Reinado em 1884, quando o artista participa com as obras: Fuga para o Egito, Descanso do Modelo, Remorso de Judas e O Derrubador Brasileiro que são elogiadas pela crítica, fica claro que Almeida Júnior havia atingido um elevado grau de conhecimento técnico na pintura. Havia chegado de Paris havia apenas dois anos e já estava entre os mais respeitados pintores da época. O artista mantinha uma boa relação com o mercado artístico do período, tendo inclusive algumas de suas obras compradas por órgãos do governo4. Um dos pontos que chama a atenção é que apesar desta boa relação com a crítica e o mercado, após algum reconhecimento, Almeida Júnior parece não estar satisfeito, talvez buscasse dedicar-se a uma pesquisa que considerava importante naquele momento, podendo, também, estar mais perto de sua terra. Certamente, já que o artista pretendia viver da pintura, São Paulo era uma opção interessante, pois o mantinha perto de seus familiares e do ambiente do interior, onde poderia se beneficiar de encomendas pagas com os recursos provenientes do café, bastante promissores naquela região. Na época, muitos artistas garantiam sua subsistência pintando retratos, o que é provável também no caso de Almeida Júnior, que continua pintando retratos mesmo durante o período em que se dedicou a produção das obras de tema regionalista. Dentro deste contexto, a produção regionalista, parece acontecer de forma paralela, resultando de um conjunto entre as buscas pessoais do artista e as exigências do mercado. Desde meados do século XIX, as discussões sobre os rumos da arte brasileira, relacionavam várias questões, dentre elas a busca por uma identidade nacional e por uma 4 Em 1882 a Academia Imperial comprou as obras Derrubador Brasileiro, Descanso do Modelo e Remorso do Judas; em 1890 a instituição adquiriu a obra Caipiras Negacendo; e, novamente, em 1895 a obra Recado Difícil. A obra Partida da Monção cuja produção é incentivada pelo então secretário do interior Cesário Motta Júnior foi adquirida pelo governo do Estado de São Paulo em 1899 para compor a galeria de obras do Museu Paulista. 32 Revista Educare CEUNSP – Volume 1, Número 1 - 2013 pintura genuinamente brasileira, que representasse elementos da cultura nacional. A produção regionalista de Almeida Júnior veio ao encontro destes anseios. Entre 1893 a 1895 está compreendido o período em que o artista mais produziu obras com esta temática: Caipira Picando Fumo em 1893, Amolação Interrompida em 1894, Apertando o Lombilho, Cozinha Caipira, Recado Difícil e Nhá Chica de 1895, e ainda Garoto com Banana de 1897, Velha Beata de 1898, O Violeiro e Saudade de 1899, ano de sua morte. E uma das características marcantes destas obras é a representação do “caipira” em todo o seu contexto. A produção regionalista de Almeida Júnior documenta a vida do caipira, mostrando suas casas, vestes, utensílios e registrando seus costumes. A estética caipira representada nas obras de Almeida Júnior é vinculada, em boa parte da fortuna crítica, com a busca por uma expressão nacional e ao desenvolvimento de uma pintura voltada para uma realidade nacional. E o fato do artista ter conquistado tanto espaço, seja em relatos biográficos, críticas ou ensaios jornalísticos, é um indício significativo da representatividade da sua produção. Dentre as questões que permeiam a produção regionalista de Almeida Júnior, uma das mais complexas é a questão do clareamento da paleta de cores apresentado nestas obras. As cores usadas nas obras regionalistas são mais vivas, o artista altera alguns tons de cores de sua paleta tornando-a mais clara. Uma das explicações dos críticos para o uso das “novas cores” estaria relacionada à representação da luminosidade natural das paisagens que o pintor retratou, que seriam reflexos da natureza tropical. Outra explicação seria a influência da “luz impressionista” com a qual o pintor teria tomado contato durante o período em que esteve em Paris. Considerando a formação do pintor, e o percurso natural de sua viagem, sempre orientado pelo pensamento da Academia Imperial, o contato com o movimento impressionista é algo improvável. A representação da “luz tropical” pode ser apontada como o dado mais significativo, a partir da observação desta “luz” e apropriando-se das conquistas acumuladas em termos de técnicas artísticas, Almeida Júnior conseguiu ser original para o meio artístico brasileiro do século XIX. E por que desejar que Almeida Júnior fizesse o mesmo percurso dos impressionistas da Escola de Paris? Por que considerar uma regressão ou centralização de sua trajetória as telas que ele produziria a seu regresso da Europa somente porque se dedicaria, a par de suas encomendas, a uma temática que, longe do usual, exemplificaria sua autonomia de voo em um meio novo que acolhe sua produção? Como só ver sentimentos e empatia com seu entorno e não reconhecer que essa motivação o tornou original como obra? Não importa que outros tenham vindo depois, imitindo-o com mediocridade em academia regionalista. Almeida Júnior 33 Revista Educare CEUNSP – Volume 1, Número 1 - 2013 permanece sensível à luz, à luz local, manipulando-a com rara mestria ao tirar dela partido do ponto de vista formal. Daí porque a poética de obras como Saudades, Leitura e Cozinha caipira, destacam uma peculiar apropriação do valor de “luz”, distanciada das preocupações impressionistas. Mas também parece projetar visualmente uma deglutição do impressionista a partir da cultura e da sensibilidade brasileiras de um tempo de que Almeida Júnior foi, sem dúvida, o porta-voz mais expressivo. (AMARAL, 2000, p. 145). A QUESTÃO DO TEMA COMO FATOR DE RENOVAÇÃO Um dos momentos mais importantes da historiografia do artista foi no início do século XX quando Almeida Júnior veio a ser reconhecido pelos modernistas como precursor, pioneiro em representar o nacional. Quando se trata de apontar o moderno na obra de Almeida Júnior, o tema se torna o centro da discussão por sua significativa importância social, pois a produção do pintor acontece em meio à decadência da produção de cana-de-açúcar do nordeste e o florescimento da produção cafeeira paulista. O nosso grande pintor do fim do século passado deveria, com irrepreensível lógica ser paulista. De Pernambuco se deslocava para São Paulo a primazia da nossa riqueza agrária, com a decadência da lavoura do açúcar e o surto vitorioso do café. O contexto é complexo, as realidades artística e cultural tinham características próprias, que apresentavam limitações e necessidade de afirmação. É envolvida nesse ambiente que a produção regionalista de Almeida Júnior afirma seu valor. O desejo dos modernistas era de renovação do pensamento artístico nacional, de afirmação da cultura brasileira especialmente a paulista. De fato, as contribuições deixadas por Almeida Júnior são resultado de todo um contexto cultural e de um conjunto de valores e anseios que nasciam dessa necessidade de afirmação, o que não as tornam menos significativas e singulares no que se refere ao contexto da arte brasileira. Bibliografia AMARAL, A. A Luz de Almeida Júnior. Revista da USP. São Paulo, n.5, 1990. ARGAN, G. C. Arte Moderna. São Paulo: Companhia das Letras, 1996. AZEVEDO, M. José Ferraz de Almeida Júnior. 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