Capítulo 4. Transformações físicas de substâncias puras Baseado no livro: Atkins’ Physical Chemistry Eighth Edition Peter Atkins • Julio de Paula 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 1 Diagramas de fases Os diagramas de fases são a forma esquemática de representar as mudanças de estado físico de substâncias puras em função da temperatura e pressão. Fase – forma de uma substância, uniforme em termos da composição química e estado físico, em toda a sua extensão. Transição de fase – conversão espontânea de uma fase noutra fase, que ocorre a uma temperatura T para uma dada pressão p. Temperatura de transição, Ttrs - temperatura em que duas fases se encontram em equilíbrio e a energia de Gibbs é mínima, para uma dada pressão. Fase metaestável – fase que é termodinâmicamente instável mas que persiste porque a transição tem uma cinética desfavorável (transformação muito lenta). Ex: o diamante é uma fase metaestável do Carbono a p e T normais. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 2 Pressão de vapor de um líquido ou sólido é a pressão exercida pelo vapor em equilíbrio com a fase condensada. Líquido aquecido em recipiente aberto: evapora a partir da sua superfície e, quando a T é tal que a sua pressão de vapor iguala a pressão exterior, a evaporação ocorre a partir do seu interior, e o vapor expande livremente pela vizinhança (T = Tebulição). Aquecimento de um líquido no interior de um recipiente rígido e fechado: o líquido não entra em ebulição. A pressão de vapor e a densidade do vapor aumentam com a temperatura, assim como a densidade do líquido diminui, devido à sua expansão. Este estado evolui até atingir um estado em que as densidades do gás e do líquido se igualam, e deixa de haver fronteira entre as fases: ponto crítico, caracterizado por um aT crítica Tc e uma pressão crítica pc. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 3 Fronteiras de fase: o diagrama de fases mostra as regiões de p e T a que as diversas fases são termodinâmicamente estáveis. As linhas que separam estas regiões são as fronteiras de fase, e mostram os valores de T e p a que as duas fases coexistem em equilíbrio. Acima de Tc existe uma fase única e uniforme, designada por fluido supercrítico. Ao ponto em que a substância se encontra a Tc e à correspondente pressão designa-se por ponto crítico. Temperatura e pressão a que as 3 fases (sólido, líquido e gás) coexistem em equilíbrio: ponto triplo, T3. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 4 Ponto de ebulição e ponto crítico: Só existe ponto de ebulição, ou seja, só se observa uma linha de separação entre líquido e gás, a temperaturas compreendidas entre T3 e Tc. Abaixo de T3 não existe fase líquida, assim como acima de Tc, temperatura a partir da qual se forma um fluido supercrítico. Ponto de fusão e ponto triplo: A temperatura de fusão de uma substância é aquela a que, a determinada pressão, as fases líquida e sólida coexistem em equilíbrio. Do mesmo modo que anteriormente, só se observa ponto de fusão a temperatura acima do ponto triplo, T3. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 5 Diagrama de fases experimental para o dióxido e carbono O ponto triplo para o CO2 encontra-se a pressão superior à atmosférica: não existe CO2 líquido à pressão normal (é necessário elevar a pressão acima de 5.11 atm). 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 6 Diagrama de fases experimental para a água Representação da estrutura do gelo-I. Cada átomo de C está ligado a dois átomos de hidrogénio por ligação covalente e a outros dois por ponte de hidrogénio formando um arranjo tetraédrico. A água sólida apresenta um grande número de fases diferentes 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 7 Diagrama de fases para o 4He A linha λ marca as condições em que as duas formas de He líquido se encontram em equilíbrio. He II é um superfluido (flui sem viscosidade). He sólido só pode existir a pressões superiores a 20 bar. Hcp e bcc designam duas fases sólidas diferentes, em que os átomos de He se “empacotam” de forma diferente (hcp – empacotamento hexagonal fechado; bcc – empacotamento cúbico de faces centradas) 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 8 Transições de fase e establidade Potencial químico, μ – para um sistema de um componente, o potencial químico é igual à energia de Gibbs molar (para sistemas com mais componentes a definição é mais abrangente). μ é uma medida do potencial que uma substância tem para sofrer alterações químicas ou físicas. No caso de um sistema de um componente sujeito a variações de pressão e temperatura, μ representa o potencial da substância para sofrer transformações físicas. No estado de equilíbrio o potencial químico da substância é igual em todo o sistema, qualquer que seja o número de fases presentes. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 9 A temperaturas baixas e pressões não excessivamente baixas, o estado sólido de uma substância apresenta o potencial químico mais baixo ⇒ é a fase mais estável. A estabilidade de uma fase em relação à temperatura é dada pela expressão que foi anteriormente obtida para a energia de Gibbs para ∂G/∂T: ⎛ ∂μ ⎞ ⎜ ⎟ = −Sm ⎝ ∂T ⎠ p Sm > 0 para todas as substâncias, por isso o declive de μ vs. T é sempre negativo. Além disso, Sm(g) > Sm(l) > Sm(s). 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 10 Resposta do potencial químico à pressão aplicada: O potencial químico de uma substância varia com a pressão de forma proporcional ao volume molar da fase ⎛ ∂μ ⎞ ⎜⎜ ⎟⎟ = Vm ⎝ ∂p ⎠T As figuras mostram de forma esquemática o efeito do aumento de pressão no potencial químico de duas fases (sólida e líquida) e os efeitos nas temperaturas de fusão. a) Vm do sólido mais pequeno que o Vm do líquido ⇒ μ(s) aumenta menos do que μ(l). 20-05-2007 b) Vm do sólido maior que o Vm do líquido ⇒ μ(s) aumenta mais do que μ(l). Maria da Conceição Paiva 11 Efeito da aplicação de pressão no valor da pressão de vapor de uma fase condensada Quando se aplica pressão sobre uma fase condensada a sua pressão de vapor aumenta. A pressão pode ser aplicada (a) por compressaõ directa da fase condensada ou (b) por introdução de um gás inerte (neste caso a pressão de vapor é a pressão parcial de vapor da substância). A pressão de vapor aumenta com a pressão exercida sobre a fase condensada da seguinte forma: Vm ( l ) ΔP / RT p=p e * 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 12 No equilíbrio: μ(g) = μ(l). Qualquer variação que leve a um novo estado de equilíbrio leva a este resultado, por isso: dμ(g) = dμ(l). Aumento da pressão que actua sobre a fase condensada: P → P + dP O potencial químico do líquido aumenta: dμ(l) = Vm(l) dP E o da fase de vapor: dμ(g) = Vm(g) dp Em que dp é a variação de pressão de vapor que procuramos determinar. Tratando o gás como um gás perfeito: Vm(g) = RT/p dμ (g ) = RT dp p Como a variação de potencial químico do gás e do líquido são iguais: RT dp = Vm (l )dP p Para integrar esta equação é necessário definir os limites de integração 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 13 - Inicialmente P (a pressão que actua sobre o líquido) é igual à pressão de vapor normal, p* logo, quando P= p* também p= p* - Quando a pressão sobre o líquido aumenta de ΔP, a pressão exercida sobre o líquido passa a ser p+ΔP - Se a pressão exercida não afectar muito a pressão de vapor normal pode-se substituír p por p* e impor o limite superior de pressão = p*+ΔP p* + ΔP dp ∫p* RT p = ∫p* Vm (l )dP p RT ln p = Vm (l )ΔP * p p = p* eVm (l )ΔP / RT 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 14 Localização das fronteiras entre fases Duas fases coexistem em equilíbrio ⇒ os seus potenciais químicos são iguais μα(T,p) = μβ(T,p) Se induzir uma alteração infinitesimal sem perturbar o equilíbrio, então: dμα(T,p) = dμβ(T,p) Sendo: dμ= dGm = Vmdp-SmdT Então: Vα,mdp - SαmdT = Vβ,mdp - SβmdT (Vβ,m - Vα,m)dp = (Sβm - Sαm)dT Equação de Clapeyron: 20-05-2007 dp Δ trs S = dT Δ trsV Maria da Conceição Paiva 15 Fronteira sólido-líquido A variação da entropia molar de uma substância durante a fusão está relacionada com a variação de entalpia da transição de fase: Δ H dp = fus dT TΔ fusV ΔfusV = variação de volume molar na fusão Considerando que ΔfusH e ΔfusV variam pouco com T e p, que T* e p* são as temperatura e pressão de fusão, então para outras temperatura e pressão T e p a integração resulta em: ∫ p p* dp = Δ fus H Δ fusV dT ∫T * T T Equação para a fronteira sólido-líquido: p ≅ p*+ 20-05-2007 Δ fus H Δ fusV ln T T* ⇒ p ≅ p*+ Maria da Conceição Paiva Δ fus H Δ fusV ⎛T −T * ⎞ ⎜ ⎟ ⎝ T* ⎠ 16 ln T T* T T* ≈ T −T * T* Justificação matemática: T −T * = 1+ T* Quando T é muito próximo de T*, T-T* << 1 Para logaritmos naturais, quando -1 < x < 1 considera-se que ln(1 + x ) = x − Quando x<<1, ln(1+x) ≈ x Considerando o caso acima, em que ⎛ T −T * ⎞ ln⎜1 + ⎟ T* ⎠ ⎝ E então: 20-05-2007 ≈ x = 1 2 1 3 x + x ... 2 3 T −T * T* T −T * T* p ≅ p*+ Δ fus H Δ fusV Maria da Conceição Paiva ⎛T −T * ⎞ ⎜ ⎟ T * ⎝ ⎠ 17 Fronteira líquido-vapor Para esta situação, a equação de Clapeyron escreve-se: Δ vap H dp = dT TΔ vapV Ao passar ao estado de vapor, a variação de volume molar é muito grande e positiva; a variação de entalpia é também positiva, logo dp/dT é positivo, mas muito mais pequeno relativamente à passagem de sólido a líquido. Como ΔvapV é muito grande, e considerando o gás perfeito: Δ vapV ≅ Vm (g ) = RT p A equação de Clapeyron pode reescrever-se: dp dT = Δ vap H R T2 p ⇒ dp p Equação de Clausius-Clapeyron: 20-05-2007 = Δvap H dT R T2 d ln( p ) dT = Maria da Conceição Paiva Considerando dp/p = dln(p): Δ vap H RT 2 18 Integrando a equação de Clausius-Clapeyron entre a temperatura e pressão de vaporização, T* e p*, e outro valor de T e p: dp ∫p* p p = Ou seja: Δ vap H R p dT ∫T * T 2 T = ⇒ − p*e ⎛ p ⎞ ⎟⎟ ln⎜⎜ p * ⎝ ⎠ = Δ vap H ⎛ 1 1 ⎞ − ⎟ ⎜ R T T⎠ * ⎝ Δ vap H ⎛ 1 1 ⎞ ⎜ − ⎟ R ⎝T T* ⎠ Fronteira sólido-vapor Utiliza-se também a equação de Clausius-Clapeyron, que é aplicável a todos os sistemas em que uma fase seja um gás. Neste caso, a entalpia de sublimação é maior do que a de vaporização, pois considera-se ΔsubH = ΔfusH + ΔvapH Assim, a equação para a sublimação prevê um declive maior para a linha sólido-vapor relativamente à linha líquido-vapor. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 19 Transições de fase: classificação de Ehrenfest Vários tipos de transições, tais como a vaporização e a fusão, são acompanhadas por variações de entalpia e de volume. Estas variações têm como consequência a alteração dos declives da curva de potencial químico em função da temperatura de ambos os lados da transição de fase. Assim, na transição da fase α para a fase β: ⎛ ∂μ β ⎞ ⎛ ∂μα ⎞ ⎜⎜ ⎟⎟ − ⎜⎜ ⎟⎟ = Vβ ,m − Vα ,m = Δ trsV ⎝ ∂p ⎠T ⎝ ∂p ⎠T ⎛ ∂μ β ⎞ ⎛ ∂μα ⎞ Δ H ⎜⎜ ⎟⎟ − ⎜ ⎟ = −Sβ ,m + Sα ,m = Δ trsS = trs Ttrs ⎝ ∂T ⎠ p ⎝ ∂T ⎠ p As primeiras derivadas do potencial químico relativamente à pressão e temperatura são descontínuas na transição ⇒ transições deste tipo designam-se por transições de fase de primeira ordem 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 20 Para uma transição de segunda ordem, segundo a classificação de Ehrenfest, a primeira derivada de μ relativamente à temperatura é contínua, mas a segunda derivada é descontínua. Um exemplo de transição de segunda ordem é a transição associada à variação da simetria de uma estrutura cristalina num sólido: consideremos um sólido em que, tal como no exemplo da figura, os átomos estão dispostos na rede cristalina de forma a que a distância entre eles, na célula unitária, é maior numa das direcções e igual nas outras duas. Consideremos que quando se aumenta a temperatura, as duas dimensões menores aumentam mais rapidamente do que a outra. A certa altura as três dimensões igualam-se. Nesse ponto, a estrutura cristalina muda de simetria, todas as distâncias são iguais e passam a alterar-se da mesma forma com a temperatura. No entanto, o volume, energia de interacção entre átomos, etc, variam continuamente com a temperatura. 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 21 Problemas 28. O volume molar de um sólido é 161.0 cm3mol-1 a 1 atm e 350.75 K (a sua temperatura de fusão). O volume molar do líquido a essa temperatura e pressão é de 163.3 cm3mol-1. A 100 atm a temperatura de fusão varia para 351.26 K. Calcule a entalpia e entropia de fusão do sólido. R: ΔfH = 15.9 kJmol-1; ΔfS = 45.2 kJmol-1K-1 29. A pressão de vapor do ácido nítrico (HNO3) varia com a temperatura da seguinte forma: a) b) T (ºC) 0 20 40 50 70 P (kPa) 1.92 6.38 17.7 27.7 62.3 Qual é o seu ponto de ebulição normal? R: 357 K Qual a sua entalpia de vaporização? R: + 38.0 kJmol-1 80 89.3 90 124.9 100 170.9 30. A variação da pressão atmosférica (pA em atm) com a altitude (H em km) é dada pela equação de nivelamento barométrico: log pA = 5.260 log(1- 0.0226H) Sabendo que a pressão de saturação de vapor de água a 51.9 ºC é 100 mmHg, calcule a temperatura de ebulição da água no cimo do Monte Branco (4807 m). R: 356.8 K 31. Para a variação do potencial químico com a temperatura, calcule a diferença de declive para cada lado dos seguintes pontos: a) ponto de solidificação normal da água; b) ponto de ebulição normal da água e c) determine qual o excesso de potencial químico da água superarrefecida a -5ºC relativamente ao potencial químico do gelo à mesma temperatura. R: a) -22.0 JK-1mol-1; b) -109.0 JK-1mol-1; c) +110 Jmol-1 32. Qual a fracção de entalpia de vaporização da água que é gasta na expansão do vapor de água? R: 0.0763 ou ≅ 7.6% 20-05-2007 Maria da Conceição Paiva 22