AGOSTO
L P Baçan
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2014
ÍNDICE
I ....................................................................................................................... 4
I I ..................................................................................................................... 8
I I I ................................................................................................................. 11
I V ................................................................................................................. 14
V ................................................................................................................... 17
V I ................................................................................................................. 18
AGOSTO
O que levavas, e que levavas no
coração? Tiram as pedras, vão
procurando, vão pesquisando na
confusão.
— Onde o poema, onde o tesouro,
onde a invenção? Que ele levava,
que ele ocultava no coração?
“(D. Marcos Barbosa in Tarcísio)
I
Após colocar em ordem seus cadernos, ficou pensando. Amanhã seria
primeiro de agosto. Chegavam as aulas e as esperanças. Como ele gostava
desse mês. com que ansiedade e prazer a fundo escondidos ele o esperava.
Agosto, seu aniversario, punha febre em seus atos, um brilho estranho em
seus olhos.
Distraidamente folheou um dos cadernos. Chiquinho é um bebê, viu
escrito numa orelha.
Seus olhos a princípio erraram pela frase, distantes, como se aquilo nada
fosse que um amontoado ilegível de grafite. Depois, pouco a pouco, o
amontoado se ordenou e ganhou sentido. Eles, sempre eles, os malvados. Por
que não a amizade?
Divagou um pouco e, depois, uma pergunta: quando escreveram aquilo?
Talvez no último dia de aula, em junho, quando deixaram o material na classe
para a festinha de despedida ou, então, à hora do leite.
Mas quem teria escrito? Aquela letra garranchada poderia ser de qualquer
um deles. Qualquer um deles... Um deles havia escrito. Só poderia ter sido um
deles.
Mas não importava. Havia prometido esquecê-los, ignorá-los e assim
faria. E depois não podia — não às vésperas de agosto — deixar-se levar por
isso. Não. Agosto chegava cheio de esperança. Por que renovar as coisas
velhas?
Fechou o caderno calmamente, como se ali encerrasse uma coisa
insignificante. Estava alegre e nada o faria alterar-se. Conseguira, com o
passar do tempo e dos acontecimentos, a passividade nos atos e aquela
mansidão no olhar, mais tristeza que resignação. Agosto chegava, era o
importante. Nada mais no mundo existia. As tardes limpas de céu cinzento, as
queimadas ardendo ao longe e enchendo o céu de fumaça, os campos limpos
e secos e os acordes das máquinas de rami. Chegava o céu de agosto, cheio
de beleza e mistério, nos pôr-de-sol sangrento que machucava a terra de
reflexos. Agosto chegava. De meados de julho em diante, aquela ansiedade,
pouco a pouco dominava-o. O passar dos dias acelerava-se e as noites frias
iam passando para a recordação. Do céu de nuvens escuras de julho nada
restaria. Agosto limpava o céu.
Da sala, restos de conversas chegavam até ele. Falavam de tudo e de
todos. Só não falavam dele. Sobressaltando-se, o menino arrependeu-se da
observação. Não, não podia e nem devia fazer aquilo. Não podia lamentar
recordações, quando as esperanças que nasciam precisavam de cuidados.
Sim, cada agosto era diferente. Tinha que ser. Apesar de todos os passados
haverem sido iguais, a esperança persistia. Tinha que persistir. Um deles tinha
que ser o feliz. O menino sabia que não podia se entristecer, parar para
lamentar e nem sequer pensar naqueles que se foram. Todos haviam sido
iguais, mas um deles tinha que ser diferente. Em um deles “ele” chegaria e só
de pensar nisso, a alegria espantava todas as más recordações e alentava
esperanças.
Levantou-se e foi até a janela. Os meninos da vizinhança brincavam de
pique-salvo. Uma brisa com cheiro de noite de julho espantou seus cabelos
que se alvoroçaram, lambendo seu rosto com o carinho de um talo de capimamargoso. Sim, já havia naquela brisa um pouquinho de agosto, já havia
naquele céu cheio de estrelas um pouquinho de agosto. As estrelas cintilando
já traziam um pouquinho das alegrias do agosto que chegava. Nada mais podia
ser tão ansiosamente esperado que a grandiosidade daquele mês. Nem Natal,
quando recebia presentes, o enchia de tantas alegrias; nem as festas
barulhentas de Ano Novo, quando os sinos repicavam e o povo soltava
foguetório, ganhavam em interesse; nem a Páscoa, com seu coelhinho
invisível... invisível como Papai Noel... nada. Nada. Aquele mês era único no
ano. As festas que trazia eram as dele, só as dele. Talvez fosse por isso que
gostava de agosto. Era um mês todinho seu, de mais ninguém. Ninguém
vibraria com ele aquela alegria, ninguém partilharia aquela ansiedade, ninguém
enxergaria aqueles céus maravilhosos. Ninguém... Só ele.
Sabendo que se com julho logo dormisse, com agosto em breve
acordaria, saiu da janela e foi guardar seus cadernos e livros na pasta escolar.
Depois, com ela às costas, passou pela sala para a benção noturna. Beijou a
mãe e a avó, abraçou o pai e foi para o quarto.
Em parte ele gostava dos pais. Apesar daquela rigorosa vigilância,
amava-os. Mas não a toda hora, é claro. Amava-os à noite, à hora do deitar-se
e pela manhã. Amor e ternura. Um pouquinho de bondade também. Depois,
após as aulas, no almoço, começavam. Não se podia ter paz para nada. A toda
hora queriam saber dele. O pai nem tanto porque trabalhava. Mas a mãe e a
avó, nem se fala. Era aquela amolação: Chiquinho, vem pra casa! Chiquinho,
onde você está? Chiquinho, não brinque aí! Chiquinho, não faça isso!
Chiquinho, venha para dentro! Como, meu Deus, ele poderia ter paz para
procurá-lo? Nunca. Era somente naquela hora e meia ou duas em que a mãe e
a avó passavam jogando buraco com as amigas, à hora do café da tarde.
Mesmo assim não podia ir longe. Só quando elas se distraiam por demais no
jogo e se esqueciam dele. Então podia ir até o fim da rua, no pastinho do seu
Juca, cismar um pouco. Mas não por muito tempo. Logo alguém sairia à janela
e gritaria para a vizinhança toda ouvir: Chiquinho!!!
Pendurou sua pasta na cadeira e cheirou o guarda-pó. Era novo. Sentiu
nele o cheiro de tecido ainda não lavado e ferro quente. Havia ali ainda, um
restinho de calor e o menino encostou a cabeça para recebê-lo. Aulas, escolas,
eles... Não. Eles, não. Eles não existiam. Eles haviam morrido.
Tirou a camisa e dobrou-a cuidadosamente. O mesmo fez com as calças.
Botou o pijama e ficou um tempo olhando os elefantinhos azuis e as girafas
verdes. Todos de ponta-cabeça. Eram bonitos e agradáveis de se ver. O
pijama era macio, gostoso, aconchegante. Um pouco, não tanto como o céu de
agosto. Agosto trazia esperanças, o pijama não. Que bobagem: como?
Agachou-se e puxou o pinico. Na posição em que ficou, debruçou a
cabeça sobre a maciez da cama. Seus olhos correram enviesados pelas
paredes do quarto e os olhos de Santa Luzia, no quadro de moldura
envernizada, fizeram-no envergonhar-se. Empurrou o pinico, puxou as cobertas
e deitou-se. Quietinho, quietinho, logo o sono chegaria. Não, antes dele viria o
senhor da areia. Depois o sono.
Um leve estremecimento passou pelo seu corpo. Uma onda de alegria fez
brilhar seus olhos. Enfim agosto chegava. Era só dormir e ele chegaria. Não,
antes de dormir, rezar.
“Pelo sinal da Santa Cruz...”
Por que rezar? A mãe havia dito que os meninos precisavam agradecer a
Deus. Mas agradecer o quê? Deus dava-lhe tudo, dizia a mãe. Mas não, não
lhe dava tudo. Faltava-lhe um AMIGO. Um simples amigo com o qual pudesse
brincar livremente pelas tardes de agosto. Com o qual pudesse repartir as
alegrias daquele céu que se enfeitava só para ele. Como agradecer a Deus se
Ele lhe dava um mês todinho, mas não lhe dava um amigo? De que valia um
mês todinho sem um amigo? Só lhe dava aqueles meninos malvados e
briguentos do Grupo Escolar, que só sabiam provocá-lo. Aqueles terríveis
meninos de coração mau... Como agradecer? Adiantava?
“Agora e na hora de nossa morte, amém!”
Terminada a oração, virou-se de bruços e puxou o travesseiro para o lado
esquerdo. Abraçando-se a ele, sentiu-se acomodado. Gostava de dormir
daquele jeito, abraçado ao travesseiro.
O travesseiro era um amigo, mas não um amigo completo. Era um amigo
mudo. Um amigo para a hora de dormir e de desabafos, não para as horas do
dia. Dos dias de agosto. O travesseiro não falava. Só sabia enxugar... E nas
noites de pesadelo, quando a solidão pisava seu peito e ele se ressentia da
falta de alguém, ele ficava mudo, o travesseiro. Um mudo amigo. Um amigo
bobo e inútil, isso é o que ele era. Fosse um amigo de verdade ele não
precisaria chorar. Seria sempre alegre.
Não tinha raiva dos pais por isso. Apenas sentia-se magoado por não ser
compreendido. Que pensavam os pais e a avó? Por que não podia ele brincar
com os outros meninos da vizinhança? Por que não podia correr e soltar
papagaio com os vizinho da esquerda? Por que não podia brincar de selar pião
com os da direita? Por que não podia jogar beta com os da frente? Por que não
podia brincar de dim com eles à noite? Ou de pique-salvo? E depois,
agradecer... Agradecer o quê? A solidão? A vontade? Não. Mas... sim... talvez.
As noites de agosto... Estava certo. Agradecê-las, agradecer os dias, as tardes
de pôr-de-sol sangrento, as queimadas, os acordes das máquina de rami, a
beleza e o mistério do céu, sim estava certo. Tudo isso tinha que ser
agradecido. E não agradecia? Pois que Deus se considerasse muito
agradecido. Sim, isso mesmo!
Achou, por fim, tudo isso uma grande bobagem. Aquela era a última noite
de julho. Agosto chegaria no dia seguinte. Isso era o importante. Agosto, seu
aniversário. Precisava dormir. Apertou mais o travesseiro de encontro ao peito.
Enfim agosto chegava. Era preciso dormir. Isso era importante. Dormir e
sonhar com agosto, com o estilingue que barganhara às escondidas com o
vizinho da esquerda. Ele fora mau, no fundo, muito mau o vizinho. Dera-lhe o
estilingue em troca de um caminhãozinho. Mas era um estilingue dos bons.
Borracha morta não. Borracha boa mesmo. Malha de língua de botina
envernizada, forquilha encapada com elástico, bom de verdade. Trocara-o pelo
caminhãozinho vermelho. Aquele sem rodinhas. O outro gostava dele.
Trocaram... Se fossem amigos...
Pouco a pouco os olhos foram pesando. A respiração diminuiu e os
pensamentos voaram céleres pelo quarto. As pálpebras se abaixaram. O
menino estremeceu, adormecido.
II
O menino adormecera tranquilo. Os sonhos bons de véspera de agosto o
acalentaram por toda a noite. Sob os cobertores, vibrando ao compasso dos
sonhos, seu coração se preparava. Lá fora, sob a claridade tênue das estrelas,
ele sabia, a natureza despia-se de julho e, com cuidado especiais, vestia o
manto de agosto, só para ele.
Foi, talvez, quando o primeiro galo repicou suas asas e rouquejou no
poleiro do vizinho da esquerda, ou quando a claridade alcançou a fresta,
iluminando o quadro de Santa Luzia, ou quando, na cozinha, a avó mexia nas
panelas para o café que o menino acordou. A princípio um treme-tremer das
pálpebras. Depois, abriu os olhos e, um pouco incrédulo ainda, ouviu os últimos
sons dos galos na manhã e olhou o quadro da Santa. Agosto chegara. Lá fora
podia adivinhar o sol atirando-se contra os telhados e quintais, lambendo as
árvores, fazendo sombras alongadas. Uma ternura imensa invadiu seu corpo e
um soluço cortou sua garganta ao meio. Cheio de felicidade, abraçou seu
travesseiro.
Foi só o tempo de uma lágrima entranhar-se no tecido. Um som longínquo
de velho a pigarrear chegou-lhe aos ouvidos. Cortou um soluço ao meio e
levantou a cabeça. Não, não era possível. Seria? Após um minuto de
indecisão, levantou-se febrilmente e correu até a janela. Seus dedos sôfregos
escorregaram pelo trinco e seu coração era a fanfarra do ginásio. Enfim
destrancada, puxou a janela e olhou o céu, sentindo um calafrio percorrer-lhe a
espinha e o desalento tomar conta de seus olhos. O céu de agosto era escuro,
carregado de chuva. Nenhum som longínquo de máquina de rami, nenhuma
queimada esfumaçando o céu. Nada! Só aquelas nuvens escuras carregando
chuva. Agosto chegara triste como os outros meses, desolador como o resto do
ano.
Voltou para a cama e esperou que a mãe o chamasse.
— Chiquinho, meu filho, é capaz de chover. O tempo está armando
chuva. Hoje você não vai pra escola. Vai ficar em casa, mas sem dar trabalho
para a mamãe, viu? Não fique muito perto da água que você pode pegar
friagem, viu? Um beijo pra mamãe.
Pronto, já começou, pensou ele. Não tinha jeito mesmo. Não se podia ter
paz nem liberdade para nada. Dava vontade de falar palavrão. Fazer o quê?
Após o café, saiu ver os pitos de velha que os pingos da chuva faziam ao
cair sobre a água empoçada. A chuva começara com ventania e trovoadas. As
folhas foram varridas e tragadas pela nuvem de pó que se formou na rua
açoitada. Bacias e latas de lixo tombavam e rodopiavam com estardalhaço.
Portas batiam e no fogão de lenha a avó jogava ramos de palmeira benta. No
céu, acima da cortina avermelhada, faíscas dançavam adoidadas ao som de
tambores malucos que ecoavam e ecoavam e ecoavam. Os olhos ardiam e os
cabelos drapejavam desesperados. Levava no bolso da calça folhas de
caderno para uns barquinhos às escondidas. Distraiu-se a olhar o oscilar
alucinado dos abacateiros do vizinho e sobressaltou-se ao sentir a dor do
puxão de orelhas que o arrastou até a cozinha e despejou-lhe pitos sobre pitos.
Amuado e sem graça, sentou-se no sofá da sala. Não tinha importância. Não
tinha importância mesmo. Nem doera. Nem um pouquinho. Nem um pouquinho
mesmo.
Olhando pela vidraça, nariz embaçando o vidro, cismava. As máquinas de
rami, lá longe, paradas, sem o crem-crem cadenciado varando os ares. As
folhas de rami lavando-se preguiçosamente, agora que a chuva caia mansa e
monótona. Imaginava a água correndo por entre os caules. Pensou nas
estórias de homens que perdiam seus braços nas máquinas. Dava medo vê-las
trabalhando. Dava medo ver as mãos dos homens indo e vindo, indo e vindo...
Seu pai o levara uma vez. Davam medo as máquinas, mas o barulho era
gostoso de ouvir e as máquinas, mas apesar de tudo, eram bonitas. Fazia
algum tempo, ele se lembrava ainda. É por isso que gostava delas. Uma vez
vira um homem sem braço. Vendia bilhetes de loteria e tinha os olhos bons.
“Olha a borboleta para sexta-feira!” Borboleta... Eram bonitas. Uma vez pegara
uma pelas asas. Era rajada e se debatia. Ele a soltou e ela deixou em seus
dedos o pó da cegueira. Era só passar nos olhos... Credo em cruz!
Da janela poderia ver as queimadas e o pôr do sol, mas naquele dia não
haveria pôr-de-sol sangrento e a noite seria um cobertor escuro. Suas estrelas
dormiriam apagadas, no quentinho das nuvens e a tarde não seria limpa. O sol
não faria arco-íris pelo céu inteiro através da fumaça. Não haveria lua, a lua
dos lobisomens. Cé louco, siô! Diziam que, quando nascia uma criança e
enquanto não a batizavam, o lobisomem vinha lascar madeira ao redor da
casa. Sempre que alguém nascia na vizinhança, ele não conseguia dormir
direito. Acordava a todo momento com o estalar da madeira da casa, ruídos no
quarto dos pais. Só em agosto não tinha medo de nada. Mas no agosto de
verdade, não um como aquele que o envolvia, começado com chuva.
Mas não importava. Era preciso esquecer o medo e outras coisas. O
importante era lembrar os campos limpos, lavados de água. Talvez até, como
esse era uma agosto especial, agosto em que encontraria um amigo de
verdade, Deus resolvesse lavar tudo primeiro, para apresentá-lo embelezado e
limpo. Será que agosto usaria brilhantina? Ih, que engraçado! É claro que não.
Agosto era um mês e não gente. Bem, quase gente, mas não era gente. Era
agosto, o seu agosto, só dele, só dele...
Lá fora os pitos de velha espalhavam-se pelo quintal. Os mais bonitos
eram os que caiam pelas beiradas do telhado; grossos e constantes. Sentiu
vontade de sair, pisar os cachimbos de velha, soltar barquinhos na enxurrada,
ficar embaixo dos relâmpagos e sentir o peito tremer com os trovões, mas
sabia ser impossível, uma loucura. Como disse o pai mesmo ao explicar o que
era? Ah, suicídio. “Cé besta, siô!” Não podia nem pensar nisso. Só podia
mesmo era olhar os meninos da vizinhança.
Saiu da janela, mãos no bolso, e foi ver a avó espanar os móveis.
Passou, depois, para o quarto e, de sob o colchão, tirou o estilingue. Segurouo, testou a borracha e mirou no quadro de Santa Luzia. O projétil imaginário
saiu violento, arrebentou os dois olhos do prato da Santa e espargiu sangue
pela parede inteira, como nos filmes do Tim Holt. Fazia tempo que não assistia
a um filme. O pai não o levava mais. Seu pai era gozado mesmo. Só
trabalhava, trabalhava e nem falava mais direito com o menino.
Ao som dos passos pesados da avó que chegava, guardou a arma.
Voltou à janela e a cismar. A chuva passaria. Um dia passaria e então agosto
se apresentaria novo, com as máquinas de rami roncando ao longe, com as
queimadas esfumaçando o céu, com o pôr-de-sol sangrento, com as tardes
limpas e as noites claras de estrelas. Aí ele chegaria realmente.
Lá fora os pitos de velha se espalhavam pelo quintal, passavam a cerca,
atingiam a rua e sumiam ao longe, lá onde nascia o crem-crem, as queimadas
e os amigos...
III
Por cinco dias os pitos de velha, lá fora, se espalharam pelo quintal,
passaram a cerca, atingiram a rua e sumiram ao longo, lá onde nasciam o
crem-crem, as queimadas e os amigos...
Cinco dias se passaram sem que dançassem, aos acordes das máquinas
de rami, a fumaça das queimadas sob o céu cinza de agosto, acima do verde
esmaecido das plantas. Nenhum pôr-de-sol sangrento, apenas dia e noite,
aquela chuvinha do pinico, persistente, chata, embrulhona. Foram cinco dias de
reclusão, sem aulas, sem D. Nair, sem “eles”, nem chances de procurar... Do
mundo exterior vinham somente as notícias que o pai trazia à hora do almoço e
do jantar:
— Muito rami se perde nesta chuva e...
— A aí, o pessoal, pego de surpresa, desprevenido, sem tempo de
armazenar a fibra...
— ... pontes levadas por inundações...
— ... e Rancho Alegre ficou isolada...
— ... todos aqueles carros e caminhões encalhados, atravancando as
estradas, atolados no barro...
E por cinco dias, só pitos de velha. Cinco dias de uma inquietude de
enjaulado que o fazia andar daqui pra lá, de lá pra cá, ora relendo um
“Pequeno Xerife”, ora dando corda no carrinho e deixando-o de rodas para o
ar. Isso quando não cismava de puxar conversa, ora com avó, ora com mãe, a
fazer perguntas e a receber evasivas. Nada, nada havia de bom a fazer que
não fosse pregar os olhos na vidraça e sonhar com agosto ou arriscar um
puxão de orelha. Já soltara mil barquinhos de papel, jogando-os pela janela,
torcendo para que caíssem em pé e escorregassem pela enxurrada.
Que desgraça!
O sexto dia amanheceu sem chuva, mas as nuvens escuras persistiam, a
se empurrarem, abrindo ora um claro aqui, ora outro ali, a mostrar nesgas de
céu e deixar escorregar raios de sol. A alegria tomou conta dele e ele pedia
intimamente que Deus as levasse para as cidades vizinhas e poupasse a sua:
a coitada já estava cheia de tanta água.
Após o meio-dia, raios de sol tímidos e vacilantes foram pontilhando os
telhados. Às duas, a exuberância de um verde lavado causava reflexos, de tão
forte. Da chuva restava apenas o barro, um resto de enxurrada escorrendo pelo
seu leito de erosão e um rolo compressor de nuvens sumindo no horizonte. Um
bando de crianças surgiu na rua, pés descalços, patinando caminhões
imaginários, em evoluções acrobáticas de corpo para controlar a direção, tal e
qual o faziam os motoristas dos caminhões encalhados pela ruazinha sem
calçamento. Já havia, na operação de desatolar um caminhão do barro, o
universo solidário de esforços, risos, cuidados e suor, habitual a quem mora à
beira de estradas de terra. Um cava sob a roda atolada, outro providencia
galhos, terra seca de sob os porões para dar firmeza à tração. O motorista
acelera, o veículo adianta-se um pouco, alguém corre e trava-o com uma pedra
para que não recue a distância ganha. Nova escavação, mais pedras, galhos,
terra seca, empurrões e travas, até que um riso aflora em todos os lábios e o
veículo finalmente ganha firmeza e avança. O motorista, porta semiaberta,
corpo metade dentro e metade fora, agradece e segue em frente, deixando
mãos, roupas, rostos e ferramentas encardidas acenando. Há uma pequena
pausa e logo a pequena multidão acode o veículo seguinte.
Da janela o menino assistia, impaciente e desejoso de estar patinando
também, ajudando com pedras, galhos, qualquer coisa, mas sabia ser
impossível. Quando é que poderia fazer aquilo? Nunca na vida! Quem dizia
que a mãe ou a avó deixariam?
À tardinha, a molecada, aproveitando os pelotes de barro deixados pelos
caminhões, esculpiam bonecos ou preparavam pelotas que, após passadas
pela cinza e deixadas ao sol, virariam projéteis contra os passarinhos da
redondeza. Quantos tombariam por elas? Coitadinhos! Tantos e tantos, mas
nenhum pelo seu estilingue inútil, sem uso, sem cumprir os propósitos que
nortearam sua manufatura cuidadosa. Nem treinar pontaria podia. Às vezes o
menino, apalpando-o, examinando-o, perguntava-se porque fizera tanta
questão em possuí-lo. Provavelmente nunca o usaria. A borracha se
ressecaria, surgiriam boqueiras, a malha perderia o brilho do verniz, os
elásticos se arrebentariam, todo o estilingue se desmantelaria. Por que, então?
Apenas pelo secreto prazer de possuí-lo, apalpá-lo às escondidas, sentir-se
seguro nas noites de lobisomem com ele sob o travesseiro e três bolinhas de
vidro no bolso do pijama? Ou então para tentar, desejo vão, destruir os olhos
inquisidores de Santa Luzia nas noites em que ia para a cama com algum peso
na consciência? Ou para sonhar caçadas memoráveis no pastinho do seu
Juca, abatendo tizius, pardais, rolinhas, pombas, elefantes, girafas...
Provavelmente naquele dia não haveria crem-crem, queimadas, mas, em
compensação, as crianças não brincariam de pique-salvo lá fora, com seus
gritos de alegria, suas correrias, com a liberdade deles. Mas haveria —
Obrigado Deus! — um pôr do sol que, sem ser por demais sangrento, já era de
agosto. Mais tarde, a lua concorreria em brilho com as estrelas e a noite seria
fresca e agradável. Agosto já andava pelo ar, a alegria já morava nas
esperanças quase concretas, próximas da realização.
Antes, o banho diário, a água tépida sobre o corpo, a espuma
desenhando barba e bigode de Papai Noel no rosto imberbe, dos gestos
tímidos e assustados ao percorrer as partes íntimas, o ritual costumeiro de pôr
roupas e, frente ao espelho, repartir o cabelo de lado e puxar o topete. Depois,
à janela, recebendo o frescor da quase noite, o cheiro de barro e mato lavado,
o verde das plantas, o contorno nítido dos morros lá longe, na linha do
horizonte, que não era reto, mas denteado como a boca de um cachorro. Pelas
bandas do acaso, um vermelho desmaiado firmava-se e, gradativamente, ia
aumentando, até atingir uma cor viva e vibrante. Sem nuvens nem fumaça, não
haveria um arco-íris de cores pelo céu, mas apenas o vermelho, o dourado
brilhante, quiçá um violeta. Nos abacateiros e santas-bárbara e laranjeiras e
eucaliptos os pardais faziam algazarra. Pela rua desciam seu pai, um ginasiano
aplicado e retardatário, algumas mulheres. Subindo-a, um bêbado teimava em
equilibrar-se sobre o barro. Ao ver o pai, desejou poder correr até ele, pisar o
barro, senti-lo escorrer por entre os dedos. Ou então, correr pela rua, sentindo
sobre si o céu de agosto, extravasando uma emoção que cinco dias de
reclusão maior transformaram numa dúvida ridícula. Era, realmente, o primeiro
pôr-de-sol de agosto. Não tão belo como seriam os próximos, mas belo, belo
demais para não ser aproveitado. Alguma coisa lá dentro dele remoia-se e nem
o frescor da tarde, o cheiro de barro e mato lavado, o verde das plantas e o
pôr-de-sol conseguiam aplacar. Era agosto que chegava, era a natureza mais
bela do ano, era a primeira noite bela, era tudo que ele sonhava, e ele ali, atrás
da janela, mísero quadrilátero sem barras de ferro, mas aprisionador. Era a
própria vida que chegava e a janela, a família e o barro e separá-lo do primeiro
contato com a origem dos seus sonhos.
Paradoxalmente, diante do primeiro pôr-de-sol sangrento, o menino
chorava. Agosto chegara e duas lágrimas desceram quentes pelas faces,
refletiram o vermelho do céu e foram misturar-se ao barro de seus
pensamentos.
O menino sentia que alguma coisa indefinida ameaçava quebrar-se.
IV
— É, ué. Cê nunca brincou?
— Não.
— Por quê?
— Por que? Porque sim.
— Sua mãe não deixa, né?
— É.
— O pai falou que cês são entojados.
— Que é entojado?
— É pessoa que não liga pros pobre... que tem o rei na barriga.
— Rei na barriga?
— É, rei na barriga. Cê não sabe o que é ter o rei na barriga?
— Não. Como é que é, conta pra mim? — virando-se para o outro, cheio
de curiosidade.
O sol do meio-dia enlanguescia a sombra do abacateiro e nem chegava a
ressecar o chão, ainda úmido. Pelo ar corria o crem-crem cadenciado, mas não
haviam vestígios ainda de uma queimada longínqua que fosse.
— Ter rei na barriga, continuou o outro, é pensar que é o can-can da vila,
sabe, né? É pensar assim sem ligar pros outros.
— É nós é isso que cê falou?
— Meu pai que falou.
O menino tornou a encostar-se na cerca. Seus olhos acompanharam uma
abelha, revolutearam com alguns urubus lá em cima, na reta dos aviões, e
depois baixaram para o cordão dos sapatos. Um graveto estalou em suas
mãos. De repente virou-se e encarou o outro, perguntando sério:
— Cê quer ser meu amigo?
— Ué! Mas eu não sou seu amigo?
— Não, mas não amigo assim de vizinho. Amigo assim de verdade, pra
ajudar a gente, ficar perto da gente, amigo de verdade mesmo, ara!
— Por quê?
— Porque... Ué! Porque sim! — soube somente responder.
Para que, realmente, queria um amigo?
— Cê que sabe, né.
— Mas tem de que ser amigo de verdade.
— Ah, mas não vai dar certo.
— Por que?
— Porque cê não sai pra brincar com a gente...
— Mas amigo não é só pra brincar.
— Então pra quê?
— Pra quê? Ué, pra que sim. — (para que realmente queria um amigo?)
— Mas amigo só de nome...
— Não, não é só de nome. Amigo pra ficar junto com a gente, conversar
com a gente...
— Como, ué? Cê não sai da barra da saia da sua mãe. Parece
mariquinha...
— Não é verdade, viu? — interrompeu.
Na sua mão pesava uma pedra. Para quê?
— Não?
— Não, se eu sair ela me bate.
— Não falei? Sua mãe é enjoada, não quer ver ocê brincando que nem a
gente.
— Não é verdade, viu?
Recostou-se de novo, amuado, à cerca. A inutilidade da pedra em sua
mão o exasperou. Com raiva, arremessou-a em direção a um frangote que
passava por perto e que, com acrobacias e pulos, safou-se do perigo. O outro
riu e comentou:
— Que pontaria ruim que cê tem.
—...
— Ficou brabo?
—...
— Se ocê quiser eu fico seu amigo.
— Verdade? — virou-se sôfrego.
— Verdade.
— Quer morrer sequinho?
— Quero.
— Quer encontrar sua mãe morta atrás da porta?
— Quero.
— Então cê me dá uma porção de pelotas?
— Pra quê? Cê não vai tacar mesmo, ué!
— Pra que sim!
Para que, realmente, as queria? Pelo secreto prazer...
— Quantas cê quer?
— Três. Não, três não. Quero quatro.
— Só quatro?
— É, só quatro.
— Dou.
— Cadê?
— Cê me espera aqui que eu vou pegar.
— Das bem redondinhas — gritou.
Lesto o outro garoto correu e pronto voltou.
— Pronto, toma!
O menino olhou fascinado as pelotas. (Para que?) Levantou-se, correu
para casa, entrou como um pé-de-vento, apanhou um automovinho de lata,
carro de polícia com somente as duas rodas da frente, e voltou, entregando-o
ao outro que o recebeu receoso e fascinado.
— Pra quê?!!!
— Pra que sim, ué. Cé é meu amigo, né? Cé gosta de máquina de rami?
— Cé louco, eu não!
— Por quê?
— Porque ela cortou o braço do meu tio. Deixou ele pitoco.
— Puxa vida! Doeu?
— Ele gritou, né. Chegou a mijar nas calças. Aquela sangueira...
— Cê viu?
— Eu tava levando a marmita pro pai. Quando eu tava chegando eu vi...
— Coitado!
— Coitado nada. Foi até bom.
— Por quê?!
— Porque ele recebeu bastante dinheiro, comprou chapéu, óculos raibam
e um radinho de pilha.
— É?
— É.
— Que ele faz agora?
— Não sei. Sumiu. Não vejo mais ele em casa.
— Seu pai também trabalha lá?
— Trabalha.
— E não tem medo?
— Acho que não. Ele nunca falou nada.
— Cê gosta de fumaça de queimada?
— Que?!!!
— É, fumaça de queimada, pôr-de-sol sangrento, noite de estrelas, mês
de agosto...
— Eu não. Mês de agosto é mês de cachorro louco.
— Não é!
— É.
— Não é!
— É.
— Cê é bobo.
— Cê é biruta.
— Cê que é.
— Biruta e mariquinha!
— Cê...
— Rabo de saia!
— Bobo!
— Vá tomar no cu!
Mudo de espanto, patético, o menino vacilou antes de levantar a mão,
devolver com força as quatros pelotas e receber na testa o carrinho de lata.
Naquele dia não houve pôr-de-sol sangrento, queimada, nem estrelas.
Houve, sim, briga de vizinhos, palavrões, choro de criança, mertiolate,
esparadrapo e cama mais cedo, sem janta, confidências ao travesseiro, velho
amigo mudo e, principalmente, muitas lágrimas de dor, mas lágrimas que
traduziam alguma coisa quebrada lá no fundo do peito, como se uma fila de
pique-salvo fosse libertada e se desconjuntasse toda, a escorrer por todos os
lados com algazarras e correrias.
V
Desse dia em diante, ensimesmou-se, acabrunhou-se de tal modo que o
pai prometeu levá-lo ao médico. A ameaça das injeções vieram dar-lhe um
pouco de ânimo, forçando-o a sair daquela casca de lassidão. Talvez uma
vizinha, ou mesmo uma das costureiras parceiras da mãe no jogo houvesse
aconselhado. Não soube como, mas, de repente, a mãe autorizou-o a dar
algumas voltas pela redondeza e brincar com as crianças. Mas que não
sujasse a roupa, viu?
Na primeira escapada, reatando a amizade com o vizinho, acompanhou-o
levar comida ao pai, no ramizal. A ida foi um deslumbramento pelas promessas
que trazia. Depois, sentado à sombra dos varais de fibra que secava ao sol,
começou a achar por demais grotesca aquela faina, bruta, amedrontadora. A
cada vez que um feixe de rami sumia máquina adentro, engolida por um urro
que nada tinha de musical, um arrepio de medo passava-lhe amolecimento
pelo corpo todo. Era terrível participar daquele perigo constante.
Pouco a pouco o menino começou a não gostar da máquina; pouco a
pouco foi deixando de ouvir a música cadenciada para perceber um aviso de
perigo a cada urro. De longe pareciam tão bonitas, coloridas, limpas,
comandadas por motores que roncavam mais bonito que os dos carros
grandes. De perto, porém, eram negras, enferrujadas, nojentas, movidas por
motores e correias que mais pareciam armadilhas. Cruz credo!
Na ida ao ramizal sujou a roupa. Castigo! À noite, no travesseiro,
procurou descobrir onde e como havia se enganado. O que havia acontecido
com ele? O que mudava dentro dele?
VI
Uma noite acordou com um estranho movimento na rua. Pela janela notou
um pôr-de-sol sangrento no céu, apesar de madrugada. Saindo à janela, viu
pessoas que corriam rua abaixo, vindas de toda parte, rumo a algumas casas
da sua, onde o fogo consumia o velho armazém do seu Nicolau. Correu para a
porta da saída, mas encontrou o pai e a mãe que ordenaram cama de novo e
que ficasse quieto até que voltassem. Aquilo não era para crianças. Mesmo
assim, tão logo os pais saíram, pulou a janela e correu misturar-se à multidão.
O espetáculo era belíssimo. As chamas já haviam dominado o interior da
casa e se infiltravam pelas frestas, pedindo saída. Toda a construção era um
imenso lampião, clareando o céu com um vermelho-sangue. Emocionado, o
menino batia palmas e pulava de contentamento. Quando o teto ruiu e o fogo
alcançou algumas latas de querosene que explodiram em línguas de fogo que
buscavam as estrelas, todos correram, menos ele. Parado ali, ardendo pelo
calor do fogo, queria participar de tudo, não perder nada.
Quando, porém, um puxão de orelhas o levantou do chão e uma vara de
santa-bárbara assobiou nos ares, esperneou como um desesperado. Arrastado
para casa, ouvia, de passagem, pedaços de conversas:
— Foi curto-circuito e...
— ...uma vela acesa...
— Com querosene é um perigo...
— ...e toda aquele foguetório vai...
Com o corpo ardendo e uma revolta formigando pelo corpo todo, não
conseguia ficar quieto na cama. Toda aquela movimentação, aquela festa, e
ele ali, preso, sem poder admirar o pôr-de-sol sangrento, o mais belo que já
tinha visto. Os pais à janela, não permitiriam que saísse.
Na parede, os olhos acusadores de Santa Luzia, iluminados pelo clarão
avermelhado que penetravam no quarto, condenavam-no por algo que
desconhecia. A sensação de que tudo era falso prostrou-o desanimado sobre o
inútil travesseiro. Agosto, amigos, crem-crem, queimadas, sol, tudo, tudo era
falso, um sonho absurdo, uma busca sem fim. Estava condenado eternamente
a vagar de agosto em agosto, sonhador idealista, sem amigos de verdade, a
procurar utopias, com desejos de transformar o mundo e uma lassidão
permanente nos músculos a impedir e dificultar tudo.
A contemplação não era válida: levava a conclusões. Era só firmar os
olhos e tudo que lhe parecia belo transformava-se em coisas perigosas, feias,
amedrontadoras ou impossíveis. Onde achar o sonho perfeito? E realizável?
Onde buscar a perfeição para os amigos e para os desejos íntimos e
corriqueiros?
E o olhar de Santa Luzia a acusá-lo à eterna insatisfação.
Sol, chuva, fogo, agosto, tudo, enfim, ruiu de repente, sem razão, inútil.
Nada mais o atraia, condenado que estava a buscar o inatingível, a sonhar o
impossível. Agosto era pleno de esperanças finadas. O mundo era mau; “ele”
nunca chegaria. A sensação de que toda aquela espera ansiosa era besteira
transformou-se numa certeza que machucou-o de tanta dor. Tudo que fosse...
Que fosse... tomar no cu!
Com o cuidado de quem espreita passarinho, sacou o estilingue de sob o
colchão, armou-o com uma das bolinhas de vidro, apontou para os olhos
acusadores e cruéis de Santa Luzia e abateu seu primeiro pássaro.
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agosto - a casa do mago das letras