1 MARCOS ANTONIO BATISTA DA SILVA ESTUDOS E REPERCUSSÕES DA PRÁTICA FAMILIAR E ESCOLAR NA ESCOLHA DO TRABALHO DO JOVEM CENTRO UNIVERSITÁRIO FIEO Osasco 2010 2 MARCOS ANTONIO BATISTA DA SILVA ESTUDOS E REPERCUSSÕES DA PRÁTICA FAMILIAR E ESCOLAR NA ESCOLHA DO TRABALHO DO JOVEM Dissertação apresentada à Banca Examinadora do Curso de Pós-Graduação em Psicologia Educacional, do Centro Universitário FIEO, para a obtenção do título de mestre em Psicologia Educacional. Área de concentração: Ensino-aprendizagem. Linha de pesquisa: Ensino-aprendizagem no contexto social e político. Orientador: Prof. Dr. João Clemente de Souza Neto CENTRO UNIVERSITÁRIO FIEO Osasco 2010 3 FICHA CATALOGRÁFICA BATISTA DASILVA, Marcos A. Estudos e Repercussões da Prática Familiar e Escolar na Escolha do Trabalho do Jovem – São Paulo: SP, 2010.150 f. Dissertação – Mestrado em Psicologia Educacional Unifieo – Centro Universitário Fieo 1. Jovem 2. Mundo do trabalho 3. Escola. 4. Família. 4 CENTRO UNIVERSITÁRIO FIEO MARCOS ANTONIO BATISTA DA SILVA ESTUDOS E REPERCUSSÕES DA PRÁTICA FAMILIAR E ESCOLAR NA ESCOLHA DO TRABALHO DO JOVEM Aprovado em: _____/___________________/ ______ Banca Examinadora: Professor Dr. João Clemente de Souza Neto Instituição: Centro Universitário Fieo _______________________________________________ Professora Drª. Cleomar Azevedo Instituição: Centro Universitário Fieo _______________________________________________ Professor Dr. Rogério Adolfo de Moura Instituição: UNICAMP _______________________________________________ SÃO PAULO 2010 5 Dedico, em homenagem póstuma: ao meu pai, João Batista da Silva, à minha mãe, Amélia Marçal da Silva, pais carinhosos e dedicados. Que seus frutos sejam sempre de glória! 6 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus por ser um sinal de rumo certo na minha vida. Aos Anjos, Santos e Irmãos que sempre me inspiram, iluminam-me, protegem-me e ensinam-me. Agradeço à minha família, aos meus amigos, e a todos os que fazem parte, ou fizeram parte de algum momento da minha vida, em especial ao Adriano, um jovem que, com sua simplicidade, me ensinou a observar a natureza; que já nos deixou, mas continuará sendo eternamente jovem. A todos os professores que fizeram parte da minha trajetória, desde os anos iniciais até o momento presente, com os quais aprendi a gostar de ler. Em especial aos professores do Centro Universitário FIEO, que durante o Programa de Mestrado mostraram-se sempre dedicados e com atenção especial. Professores Doutores Márcia Siqueira de Andrade, João Clemente de Souza Neto, Marisa Irene Siqueira Castanho, Maria Luiza Puglisi Munhoz, Maria Laura Barbosa Franco, Cleomar Azevedo. Aos Professores Dr. Rogério Moura, da UNICAMP, Drª. Cleomar Azevedo e Dr. João Clemente de Souza Neto, da UNIFIEO, participantes da Banca de Qualificação do Programa de Mestrado, pela possibilidade da troca e pelas contribuições sempre determinantes para a conclusão deste estudo. Ao Prof. Dr. João Clemente de Souza Neto, pelo seu esforço intelectual durante o desenvolvimento deste estudo, com suas orientações acadêmicas eficazes e humanitárias. Aos grupos de apoio de serviços gerais, administrativos e acadêmicos do Centro Universitário FIEO, que, cada qual à sua maneira, fizeram parte do cotidiano para a aquisição do conhecimento e aos colegas e amigos que fiz durante o Programa de Mestrado, pelo companheirismo e estímulo, com os quais também aprendi a ser e a conviver. Em especial, Rosa, Rodrigo, Chocolate, Val, Raquel e Edna. Ao Prof. Dr. Sigmar Malvezzi, do Instituto de Psicologia da USP, que contribuiu de maneira eficaz com suas aulas para a minha percepção da relação homemtrabalho. Ao Professor Dr. Celso Beisiegel, da Faculdade de Educação da USP, com quem tive a oportunidade de aprender um pouco mais sobre a educação e sociedade brasileira. 7 Às Professoras Doutoras Marília Pontes Sposito, Maria Carla Corrochano, da Faculdade de Educação da USP, pelo acolhimento sempre afetivo e efetivo nas questões da juventude e pela simplicidade com que conduzem o processo de aquisição de conhecimento de futuros jovens pesquisadores. Aos colegas do Grupo de Estudos em Sociologia da Educação (GETESE), coordenado pela Profª. Drª. Marília Pontes Sposito, por partilharem suas vivências acadêmicas, em especial à Suely e à Bete, pelo carinho e acolhimento. Aos colegas de trabalho Fernando Puppo, Maria de Fátima Amaral e Carla por me ajudarem a acreditar que seria possível fazer o curso, mesmo quando todas as circunstâncias pareciam dizer o contrário. À Direção da Faculdade Nossa Cidade (FNC), aqui representada por sua diretora, Sra. Samira Fortunato, e pelo coordenador, Fernando Citroni, pela oportunidade de pôr em prática os conhecimentos adquiridos. Aos responsáveis pela unidade escolar onde foi realizada a pesquisa, por acreditarem na importância deste estudo para o desenvolvimento do processo de escolarização dos estudantes do Ensino Médio. Aos jovens adolescentes participantes desta pesquisa e suas famílias, por entenderem a relevância deste estudo, pela participação, colaboração e prontidão no decorrer das atividades propostas. 8 Dirijo-me, sobretudo aos jovens adolescentes! A iniciativa deste estudo é norteada pela crença de que o encaminhamento das questões de interesse social só será efetivo com a aliança entre as ações do Poder Público e a iniciativa da cada jovem e de cada comunidade. Marcos Antonio Batista da Silva 9 SUMÁRIO RESUMO .................................................................................................... 10 ABSTRACT ................................................................................................ 11 1 INTRODUÇÃO .......................................................................................... 12 2 JUVENTUDE E ADOLESCÊNCIA: DIFERENTES OLHARES ................ 27 2.1 JUVENTUDE, CONFLITOS E MODERNIDADE........................................ 32 2.2 JUVENTUDE, TRABALHO: UM CONTEXTO ........................................... 35 2.3 O NOSSO JOVEM ..................................................................................... 39 2.3.1 Conhecendo os jovens adolescentes participantes ............................ 41 3 FAMÍLIA, ESPAÇO DE PROTEÇÃO E SOCIALIZAÇÃO DE JOVENS .. 45 3.1 FAMÍLIA: UMA CONSTITUIÇÃO .............................................................. 46 3.2 FAMÍLIA E A ESCOLHA PROFISSIONAL DOS JOVENS ........................ 51 3.3 PERCEPÇÕES DE JOVENS SOBRE ESCOLHAS PROFISSIONAIS ..... 55 4 EDUCAÇÃO: CONVIVÊNCIA E APRENDIZAGEM ................................. 62 4.1 EDUCAÇÃO, ESTADO E SOCIEDADE .................................................... 63 4.2 EDUCAÇÃO: DIFERENTES REALIDADES ............................................. 67 4.3 EDUCAÇÃO E ENSINO MÉDIO ................................................................ 70 4.4 PERCEPÇÕES DE UM JOVEM DO ENSINO MÉDIO ............................. 71 4.4.1 Percepções dos jovens participantes da pesquisa sobre a escola .... 75 5 INSERÇÃO DE JOVENS E O MUNDO DO TRABALHO ........................ 85 5.1 TRABALHO: SIGNIFICADOS E SENTIDOS ............................................ 85 5.2 TRABALHO: UM FAZER HUMANO .......................................................... 92 5.3 TRABALHO: CONTEXTO JUVENIL .......................................................... 96 5.4 TRABALHO: A VISÃO DOS JOVENS ....................................................... 101 6 CONTEXTO E PROCEDIMENTOS DA PESQUISA ................................. 107 6.1 CENÁRIOS E ATORES ............................................................................. 107 6.2 O CENÁRIO: CARAPICUÍBA, UMA ALDEIA DA PERIFERIA .................. 108 6.3 O PALCO: UMA ESCOLA PÚBLICA DE ENSINO MÉDIO ....................... 114 6.4 PERCEPÇÕES DOS JOVENS SOBRE OS ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA, A FAMÍLIA, A ESCOLA E O TRABALHO ...................... 115 CONSIDERAÇÕES FINAIS............................................................................... 127 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ........................................................ 133 ANEXOS .......................................................................................................... 145 10 BATISTA DA SILVA, Marcos. A. (2010). Estudos e Repercussões da Prática Familiar e Escolar na Escolha do Trabalho do Jovem. São Paulo: 2010. [Dissertação de Mestrado – Programa de Pós-graduação em Psicologia Educacional, Centro Universitário FIEO]. RESUMO Esta pesquisa objetivou discutir a inserção laboral do jovem do Ensino Médio considerando a teoria e o cotidiano da prática familiar e escolar, no momento em que nossa sociedade vive um processo de intensa globalização e progresso tecnológico, que sugere reorganizações, frente às novas dinâmicas do trabalho humano. Ultimamente as instituições e organismos – como a UNESCO, OIT, Ministério do Trabalho e Ministério da Educação –, têm voltado seu foco para a formulação de políticas que contemplem o jovem adolescente na inserção do mundo do trabalho como um meio de socialização e de realização pessoal. O desenvolvimento deste trabalho foi norteado pelo referencial teórico sócio-histórico. Esta pesquisa contou com 50 jovens participantes de ambos os sexos, com idade entre 17 e 20 anos, estudantes do 3º ano do Ensino Médio, de escola pública, no município de Carapicuíba, SP, em busca do primeiro emprego. O presente trabalho apresenta, através de pesquisa bibliográfica realizada, um aprofundamento da discussão sobre a categoria juventude e as repercussões da prática familiar e escolar, na escolha de trabalho de jovens e inserção laboral. É também uma pesquisa qualitativa, no sentido em que faz um levantamento através de coleta de dados dos jovens. Para coletar as informações na escola dos participantes, utilizamos questionários e a técnica de grupo focal, além da nossa vivência com essa temática. A pesquisa teve duração de um ano, e seus resultados atendem às exigências para a obtenção do Mestrado em Psicologia Educacional. Como conclusão, inferimos que os resultados sinalizaram para a necessidade do fortalecimento da autoestima do jovem, para a necessidade de a escola assumir o propósito de prepará-lo para o mundo do trabalho, compreendendo o seu entorno social. Observamos ainda que a família, além de garantir sobrevivência e estabilidade emocional, necessita dar condições para o jovem fazer suas escolhas. Contudo, os jovens, apesar de estarem inseridos em uma sociedade que vive uma crise no mercado de trabalho com desemprego e falta de capacitação, valorizam o trabalho, seja para realização pessoal, fonte de renda, meio de ganhar independência ou como contribuição social. No que tange à inserção no mercado de trabalho, creditam como dificuldades a falta de experiência e capacitação inadequada frente às novas dinâmicas do trabalho. Palavras-chave: jovem; mundo do trabalho; escola; família. 11 BATISTA DA SILVA, Marcos A. (2010). Studies and Impact of Family Practice and School Choice in Labour Youth. São Paulo: 2010. [Masters Dissertation – Masters Program in Educational Psychology, Academic Center FIEO]. ABSTRACT This research discusses the labor insertion of the young high school considering the theory and practice of everyday family and school at a time when our society is undergoing a process of intense globalization, and of technological progress suggests that reorganizations, compared to the new dynamics of human labor. Lately the institutions and bodies such as UNESCO, OIT, Ministry of Labour and Ministry of Education, have turned their focus to the formulation of policies that address the adolescent in the insertion of the working world as a means of socialization and personal fulfillment. The development of this work was guided by socio-historical theories. This survey had 50 young people of both sexes aged between 17 and 20 years, students in the 3rd year of a public High School, in the town of Carapicuíba, SP, seeking their first job. This paper presents, through literature search was undertaken, a further discussion on the youth category and the impact of family practice and school choice in youth work and labor insertion. It is also a qualitative research, in that it makes a survey by collecting data from young people. To collect the information of participants in school, we used questionnaires and focus groups, as well as our experience with this topic. The search lasted one year; the search results meet the requirements for obtaining a Masters in Educational Psychology. In conclusion, we infer that the results signal the need for strengthening self-esteem, the need for the school to assume the purpose of preparing students for the world of labor, including the social environment. We further note the need to ensure family survival, emotional stability, and the empowerment of the youth to make their choices more consciously. However, young people, despite being embedded in a society where they have experienced a crisis in the labor market with unemployment, and lack of capacity, still value labor, whether as personal achievement, a source of income, or freedom, whether as a means of social contribution. Regarding the integration into the labor market, they credit difficulties to lack of experience and inadequate training due to the new dynamics of work. Keywords: young ; working life; school; family. 12 1 INTRODUÇÃO Trabalhar com temas envolvendo a juventude geralmente exige do pesquisador alguns recortes, objetivando uma definição mais precisa sobre essa categoria, tal é a multiplicidade de abordagens que esse conceito contém.Há diferentes concepções no que se refere ao próprio ―objeto‖ ora em estudo, o jovem e a análise da diversidade sociocultural que os envolvem mas partiremos da definição de juventude de Abramo e Leon: [...] uma faixa etária, um período da vida, um contingente populacional, uma categoria social, uma geração... Mas todas essas definições se vinculam, de algum modo, à dimensão de fase do ciclo vital entre a infância e a maturidade‖. (ABRAMO e LEON, 2005, p.6) Há fortes razões para estudar o atual contingente jovem brasileiro, em primeiro lugar: sua magnitude. Em 2007, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (Pnad/IBGE), o Brasil possuía cerca de 50,2 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, o que correspondia a 26,4% da população, embora esse contingente populacional fosse maior do que o das últimas décadas do século 20 (ANDRADE, 2008, p. 25). Em segundo lugar, pela necessidade de se fazer uma reflexão sobre a educação de jovens. Neste sentido, quanto mais se articula o conhecimento frente ao mundo, mais os educandos se sentirão desafiados a buscar respostas, e, consequentemente, quanto mais incitados, mais serão levados a um estado de consciência crítica e transformadora frente à realidade. Essa relação dialética é cada vez mais assimilada na medida em que educadores e educandos se fazem sujeitos do seu processo. Em terceiro lugar, por estudar a juventude e alguns fatores que acontecem neste período. O tema juventude tem sido bastante discutido na sociedade contemporânea nos últimos anos, ampliando sua visibilidade e relevância, a exemplo do discurso inaugural da posse da atual Presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, que abordou a questão social da juventude e suas implicações para um desenvolvimento de orientação democrática e popular. 13 Contudo é preciso explorar essa temática, iniciando por dizer que existe hoje, no Brasil, o uso concomitante de dois termos, adolescência e juventude, que ora se superpõem, ora constituem campos distintos, mas complementares, ora traduzem uma disputa por distintas abordagens e muitas vezes, as disputas existentes restam escondidas na imprecisão dos termos. (ABRAMO e LEON, 2005, p. 6). Já o termo adolescência1 tem como fundo um período da vida marcado pela puberdade, pelas oscilações emocionais e características comportamentais – já não é criança e entretanto não é ainda adulto. Essa é uma perspectiva mais utilizada pelas ciências jurídicas e da saúde. O ordenamento jurídico que emergiu da Constituição de 1988 propiciou um amplo debate na sociedade brasileira acerca dos direitos da infância e da adolescência. Esse debate incluiu os aspectos pedagógicos e sociais da temática da adolescência, e definiu como faixa etária dessa fase da vida o período que vai dos 12 aos 18 anos de idade, conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA, em consonância com algumas teorias sociológicas e psicológicas, que foram utilizadas para explicar os problemas sociais da adolescência. ―Art. 1º - Esta Lei dispõe sobre a proteção integral à criança e ao adolescente.‖ (ECA) A inspiração de reconhecer proteção especial para a criança e adolescente, não é nova. Já a Declaração de Genebra de 1924 determinava ―a necessidade de proporcionar à criança uma proteção especial‖, da mesma forma que a Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas (Paris, 1948) apelava ao ―direito a cuidados e assistência especiais‖; na mesma orientação, a Convenção Americana sobre os Direitos Humanos (Pacto de São 1 A noção de adolescência está mais consolidada, clara e difundida na sociedade brasileira, contando com maior institucionalidade (da qual o marco legal, o ECA, e a existência de conselhos tutelares e de defesa em todos os níveis da federação são sua maior expressão), maior número de ações e atores comprometidos a sustentarem sua postulação. Para registro de tal noção, recolhemos a definição constante do Relatório da Situação da Adolescência Brasileira, elaborado e publicado pelo UNICEF em 2002: logo no início do texto, toma-se como ponto de partida a noção de adolescência como uma ―fase específica do desenvolvimento humano caracterizada por mudanças e transformações múltiplas e fundamentais para que o ser humano possa atingir a maturidade e se inserir na sociedade no papel de adulto‖; acrescenta-se, logo em seguida, que é ―muito mais que uma etapa de transição, contemplando uma população que apresenta especificidades, das quais decorrem uma riqueza e potencial únicos‖.(Abramo e Leon, 2005, p. 29) 14 José da Costa Rica, 1969) alinhava, em seu art. 19: ―Toda criança tem direito às medidas de proteção que na sua condição de menor requer, por parte da família, da sociedade e do Estado‖. Ainda mais recentemente, as Regras Mínimas das Nações Unidas para a Administração da Justiça da Infância e da Juventude – Regras de Beijing (Res. 40/33 da Assembleia-Geral, de 29.11.85); as Diretrizes das Nações Unidas para a Prevenção da Delinquência Juvenil – Diretrizes de Riad (Assembleia-Geral da ONU, novembro/90); bem como As Regras Mínimas das Nações Unidas para a Proteção dos Jovens Privados de Liberdade (Assembleia-Geral da ONU, novembro/90), lançaram as bases para a formulação de um novo ordenamento no campo do Direito e da Justiça, possível para todos os países, em quaisquer condições em que se encontrem, cuja característica fundamental é a nobreza e a dignidade do ser humano criança. Diante das influências normativas do cenário mundial, o Brasil passou a adotar suas principais orientações. Entretanto a necessidade de normatizar e naturalizar os conceitos ocorre simultaneamente aos momentos críticos de consolidação de novas etapas do sistema capitalista. Em quarto lugar, pela necessidade de refletir sobre a posição política e econômica na questão do emprego para jovens. Na sociedade contemporânea o trabalho é essencial para o desenvolvimento do sujeito e sua interação com a sociedade. O período de hegemonia do projeto neoliberal em nosso país provocou profunda desestruturação do mercado de trabalho e a diminuição do papel do Estado no provimento de políticas sociais. O resultado da política econômica desse período foi o baixo crescimento econômico e o achatamento da renda das famílias. A conjunção desses fatores impôs aos filhos e filhas em idade escolar a necessidade de buscar formas de incremento da renda familiar. Com o objetivo de compreender as questões da relação juventude e trabalho, por entendermos que o trabalho seja um meio de realização e de construção da identidade dos jovens como um processo não dissociado das mudanças que ocorrem na sociedade, buscamos estudar as repercussões da prática familiar e escolar na escolha do trabalho do jovem. O presente trabalho apresenta, através de pesquisa bibliográfica realizada, um aprofundamento da discussão sobre a categoria juventude e as repercussões da prática familiar e escolar, na escolha de trabalho de jovens e inserção laboral. Neste sentido o tema juventude e trabalho se reapresentam 15 na agenda das principais universidades e centros de pesquisa do Brasil, procurando responder aos questionamentos e desafios que emergem de um mundo em transformação. Vários pesquisadores têm-se debruçado sobre esta temática, a exemplo de (Sposito, 2009; Abramo & Leon, 2005a; Dayrell, 2003; Corrochano &, Nakano, 2009; Peregrino, 2009). A compreensão da categoria juventude está circunscrita, de maneira integrada, nas relações sociais, culturais, políticas e econômicas. Neste sentido sociólogos e psicólogos, como, Adorno, Ianni, Castoriadis, Mannheim, Bourdieu, Souza Neto, Durkheim, Erikson, Piaget, Vigotski e outros, defendem a família como espaço privilegiado para a formação dos valores essenciais à convivência. Nela, a criança e o adolescente introjetam a ideia de papeis e constroem o juízo moral, fundamentais à formação da identidade do sujeito. Outro espaço importante dentro deste contexto é a escola, há um consenso de que, na sociedade do conhecimento e da informação, a escolarização tem valor inquestionável, “já que é capaz de proporcionar ao individuo experiências e informações de sua cultura” (Rego, 2002, p. 48). Entretanto, acreditamos que a escola precisa abrir um espaço para que possam discutir projetos de vida que incluem o trabalho. O que pressupõe que o trabalho permite aos sujeitos expandir suas energias, desenvolver sua criatividade e realizar suas potencialidades. A ação de trabalhar não é apenas extrair materiais da natureza, mas sim alterar seu estado natural, definir e melhorar sua utilidade. Este ato é carregado de aspectos sociais, em vista da manutenção material e imaterial pessoal e da comunidade, bem como da coesão social (Braverman, 1987). Segundo os clássicos da sociologia e da psicologia, cada descoberta na linha da tecnologia e da ciência produz também uma mudança na divisão social do trabalho. Isso não significa uma defesa da inserção precoce dos jovens no mundo do trabalho. Ao contrário, o que defendemos é a mudança nos quadros da desigualdade social, política, de oportunidades e de condição existencial de nossa sociedade, o que implica em alterações de ações e valores sóciohistóricos sedimentados (Corrochano, 2008). Segundo nossa perspectiva, o trabalho não se reduz a um método pedagógico, mas um meio para o 16 desenvolvimento da educação profissional (Vygotsky, 2003). Não só se introduz o trabalho na escola, mas também a escola no trabalho, sendo a atividade laboral a base do processo educativo. Hoje, é muito tênue a separação entre escola e trabalho, pois ambos mantêm uma reciprocidade. Similarmente, o fim primeiro da família não é preparar o jovem para o trabalho, mas os procedimentos familiares têm uma sintonia com o mundo do trabalho. Compartilhamos com o pensamento de (Rossler, 2007) de que o ensino profissionalizante poderia ser uma solução para o problema de educação para o trabalho e destacamos a importância de refletir sobre as relações entre as esferas do mundo do trabalho e da educação. Segundo nossa perspectiva, o trabalho não se reduz a um método pedagógico, mas um meio para o desenvolvimento da educação profissional (Vygotsky, 2003). Não só se introduz o trabalho na escola, mas também a escola no trabalho, sendo a atividade laboral a base do processo educativo. Este estudo também se torna uma pesquisa qualitativa, no momento em que procuramos interpretar o fenômeno que observamos, através da compreensão de seus significados, valorizando a fala do jovem, por meio de questionários e entrevistas, com cinquenta jovens de ambos os sexos, com idade entre 17 e 20 anos,2 matriculados no terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública de município de Carapicuíba, na Grande São Paulo, Brasil. A pesquisa foi realizada na própria escola dos sujeitos, numa sala de aula, coletivamente, após breve explicação dos objetivos do trabalho pelo aplicador da pesquisa e da devida autorização dos pais ou responsáveis dos participantes menores de idade. Não foi obrigatório o preenchimento do 2 Ainda que para fins de definição de política pública, legislação e pesquisa seja possível fixar um recorte etário para determinar quem são os jovens, deve-se ter em conta que ―juventude‖ é uma categoria em permanente construção social e histórica, isto é, varia no tempo, de uma cultura para outra, e até mesmo no interior de uma mesma sociedade. No Brasil, a adoção do recorte etário de 15 a 29 anos no âmbito das políticas públicas é bastante recente. A praxe anterior tomava por ―jovem‖ a população na faixa etária entre 15 e 24 anos. A ampliação desta faixa para os 29 anos não é uma singularidade brasileira, configurando-se, na verdade, numa tendência geral dos países que buscam instituir políticas públicas de juventude. Duas são as principais justificativas da mudança: maior expectativa de vida para a população em geral, e maior dificuldade desta geração em ganhar autonomia em função das transformações no mundo do trabalho. (Andrade, 2008, p.26) 17 material impresso, dando-se ao participante a liberdade de devolvê-lo em branco. Registre-se que, para que este trabalho fosse realizado, primeiramente o projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética do Centro Universitário FIEO, tendo sido cumpridos todos os pré-requisitos necessários para a sua realização. Utilizamos um questionário com perguntas abertas e fechadas, de autopreenchimento e sem identificação pessoal de aluno. O questionário foi dividido da seguinte maneira. Em primeiro lugar foi levantado o perfil do participante através de perguntas que nos informariam: sexo, idade, raça, religião, naturalidade, estado civil entre outros. A seguir, o questionário levantou informações sobre a família e o domicílio: número de pessoas na casa, grau de parentesco, irmãos, renda familiar, dados socioeconômicos. Em terceiro lugar, dados sobre cultura e lazer: literatura, atividades, tecnologia, tempo livre, atitudes e comportamento. E, por fim, questões de reflexões sobre algumas temáticas: o mundo do trabalho, legislação trabalhista, profissões, escola, trabalho, expectativa profissional, projeto de vida e família. Dos cinquenta entrevistados, escolhemos nove para participarem de um grupo focal de reflexão sobre temas relacionados à inserção no mundo do trabalho, à escola, à família e às escolhas profissionais. A dinâmica do grupo focal propicia uma forma rápida, fácil e prática de pôr-se em contato com a população que se deseja investigar e, ao mesmo tempo, de aprofundar alguns temas nem sempre abordados num primeiro momento. Não obstante haver críticas a essa metodologia, ela foi importante para o diálogo do pesquisador com os adolescentes e destes entre si, no sentido de desvelar um pouco mais o fenômeno estudado. Neste estudo, privilegiamos dois participantes do grupo, por entendermos que se envolveram com profundidade nos objetivos de nossa pesquisa e ajudaram a enriquecer nossas reflexões. Carlos e Ariel são nomes fictícios de dois jovens participantes. Carlos ofereceu-nos um panorama dos temas abordados e nos permitiu inferir que a percepção pode ser um processo muito mais pessoal do que comumente se crê. No relato da percepção de Ariel 18 do que é ser jovem, observamos que ele tem sonhos e objetivos a alcançar, mesmo que para isto deva vencer obstáculos; é preciso determinação. Trabalhar um projeto de vida com jovens propicia ao pesquisador revisitar sua própria história, repensar suas metas, desafios e retomar seus sonhos, objetivando no jovem a capacidade de sonhar e desejar. Especificamente quando iniciamos o projeto de pesquisa, tivemos como uma das fontes inspiradoras o texto “Os sonhos dos adolescentes” de Contardo Calligaris. Na época de sua publicação. no ano de 2007, enviamos ao autor um e-mail, no qual dizíamos do nosso interesse sobre o artigo e que num futuro próximo gostaríamos de elaborar um projeto de pesquisa, tendo já em vista o ingresso no programa de pós-graduação, que abordasse a temática da juventude, obtendo resposta encorajadora que fez com que tivéssemos uma motivação ainda maior para este estudo. Em uma das passagens do texto o autor comenta que os adolescentes atualmente têm devaneios sobre o seu futuro, parecido com a vida da gente. Acreditamos que o nosso sonho muitas vezes passa por ajustes entre nossas aspirações e as necessidades concretas. Tanto para os estudantes quanto para os jovens pesquisadores, as instituições escolares precisam ser sempre interessantes para que possamos continuar sonhando, porque elas alavancam um futuro, a possibilidade de ter uma vida muita mais próxima de nossos sonhos. Acreditamos que é por meio do diálogo do discurso, como entendido por (Habermas, 1987), que a confiança ativa é construída e se torna base de renovação, criando oportunidade do resgate do direito de ser sujeito. Esta dissertação teve como linha de pesquisa o ensino-aprendizagem no contexto social e político, considerando os estudos e seus aspectos culturais, sociais e psicológicos. Ao retratar a visão do jovem participante partimos do princípio de que a percepção do mundo é diferente para cada pessoa; cada um percebe um objeto ou uma situação de acordo com os aspectos que têm especial importância para si próprio, e que ―o que o indivíduo percebe e como percebe são importantes para a compreensão do comportamento humano‖ (BOCK, 1999, p. 51), aguçando, assim, sinais interiores e exteriores, provocando reflexões críticas e gerando nas pessoas a necessidade de reavaliarem suas 19 próprias crenças como mecanismo de preservação da qualidade de vida e da sua identidade humana. O que implica que ―a percepção dos indivíduos é influenciada pela cultura por meio de aprendizagem dos padrões culturais‖. (AGUIAR, 2005, p. 269). O PNDU (Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento Humano), em seu Paradigma de Desenvolvimento Humano nos coloca que: ―toda pessoa nasce com um potencial e tem direito de desenvolvê-lo‖. Todavia, para desenvolver esse potencial, toda pessoa precisa de oportunidades. Nesse contexto, o que a pessoa se torna ao longo da vida, depende basicamente dessas oportunidades, mas, sobretudo, das escolhas que faz. Além de ter oportunidades, as pessoas precisam ser preparadas para fazer escolhas. Diante do exposto, cabe um questionamento: De que forma as instituições, como a família e a escola, podem ajudar o jovem a se projetar, mobilizar-se e ter melhores condições e perspectivas de futuro, no âmbito profissional, que envolvam escolhas efetivas? Tomamos como princípio que a categoria juventude é uma construção social, e dentro dessa forma de perceber o jovem, procuramos situar elementos norteadores para o enfrentamento dos impasses próprios do mundo globalizado, como as novas dinâmicas do trabalho, a educação, a família e a própria juventude. A escola em tempos atuais, das periferias aos grandes centros, exceção feita a algumas escolas técnicas de ensino profissionalizante, não prepara o jovem em termos técnicos e teóricos para a inserção no mundo do trabalho e por consequência não os habilita em experiências para escolhas profissionais. Em grande parte das escolas há uma preparação para a iniciação do jovem no ensino superior, em detrimento de prepará-lo para sua inserção no mundo do trabalho. Em nossa cultura, o vestibular ainda é visto como o principal marco de passagem da juventude para a vida adulta. Constantemente o vestibular é realizado de forma alienada, principalmente devido ao fato de o jovem, mesmo depois de ter passado por ele, permanecer em simbiose com a família, continuando dependente, sendo sustentado ainda por alguns anos. Porém a grande maioria dos jovens tem, por motivos socioeconômicos, abreviado os estudos para ingressar no mundo do trabalho, sem uma formação eficiente e eficaz. Olhando para o universo jovem de nosso país observamos 20 que essa juventude não é apenas uma massa, mas é uma juventude que traz seus sonhos, esperanças, suas angústias, seu jeito próprio. O aprofundamento deste estudo procura evidenciar a importância de a sociedade ir ao encontro dos jovens, mobilizá-los para a participação na vida comunitária, mostrando outras visões de mundo e contribuindo, como cidadãos, para a construção de projetos de vida, na família, na sua comunidade, na região e no país, fomentando ações de capacitação profissional, estimulando-os para que retornem a uma vida de estudos e que sejam atuantes em suas comunidades. Contudo, é necessário que sejam criadas condições concretas de melhoria do processo de escolarização, objetivando a valorização dos hábitos de leitura, do pensamento lógico, do ensino de habilidades profissionais, além de apoiá-los na busca por empreendimentos geradores de renda, estimulando a criatividade e o comportamento empreendedor, sensibilizando-os para os ideais do associativismo como estratégia indutora de desenvolvimento social em nossa sociedade. Para Freire (1998), uma nova educação só poderá ser possível com uma profunda mudança da sociedade, da política, da ética, do cotidiano dos indivíduos e dos grupos sociais. Sabemos que o Brasil, como país em desenvolvimento, tem capacidade de mobilizar recursos financeiros e institucionais adequados para o enfrentamento da problemática da juventude no contexto educacional e no mundo do trabalho. Sempre serão louvadas iniciativas de indivíduos, associações e empresas particulares como também medidas governamentais de políticas públicas que venham atender as demandas da juventude brasileira. Discutir a relação entre trabalho e o jovem é mais do que analisar a questão da escolha profissional e da obtenção de um emprego. Significa contribuir para a formulação de um projeto de vida, crivado de valores sobre o sentido do trabalho como meio de realização pessoal e de participação na transformação do mundo. Na sociedade globalizada e de consumo, preparar para escolhas com princípios éticos, na idade das opções, é vital para o desenvolvimento humano. 21 Em cada época da história, educadores, intelectuais e instituições têm-se preocupado com o processo de socialização e de profissionalização do jovem que, deixado à deriva, poderia descambar para as práticas de violência. Não é sem motivo que instituições e organismos como a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e a OIT (Organização Internacional do Trabalho), e os Ministérios do Trabalho e da Educação, tomam como foco a necessidade da formulação de políticas que contemplem a questão da formação para o trabalho e da inserção profissional do jovem. Atualmente, este tema se reapresenta na agenda das principais universidades e centros de pesquisa do Brasil, procurando responder aos questionamentos e desafios que emergem de um mundo em transformação. Vários pesquisadores têm-se debruçado sobre essa temática, a exemplo de Sposito (2009), Abramo & Leon (2005), Dayrell (2003), Corrochano & Nakano (2009) e Peregrino (2009). O tema da juventude tem tomado corpo no Brasil, de forma bastante intensa nos últimos anos, ampliando e diversificando os focos anteriormente existentes e colocando novas questões e desafios para a construção de diagnósticos e ferramentas de trabalho para quem atua em ações e iniciativas dirigidas aos jovens [...] também se vinculam a diferentes perspectivas políticas relativas às propostas e projetos para o país. (ABRAMO E LEON, 2005, p. 29) Nesse cenário, várias questões têm sido colocadas. A fase atual seria uma ―moratória social‖, um compasso de espera que a sociedade oferece a seus membros jovens que se preparam para exercer certas responsabilidades (ERICSON, 1968). Esse processo de espera da emancipação familiar, no entanto, não se produz da mesma forma para todos os jovens, devido às diferentes práticas de criação das famílias (FIERRO,1995). Paralelamente a esta emancipação em relação ao grupo familiar, laços importantes são estabelecidos com grupos de amigos. Contudo, a influência familiar é decisiva no tocante à formação de valores primordiais à vida. O critério cronológico é insuficiente para caracterizar esta fase, pois nela interferem fatos sociais e históricos (CARRANO, 2000; CASTRO & ABRAMOVAY, 2002). Segundo Sposito (1996), a categoria juventude deve ser tomada como um conceito cultural e histórico e abordada por uma perspectiva relacional. Por essa ótica, definir a categoria adolescência significa visualizar sua inserção num contexto social e compreender os processos de construção da sua 22 identidade. Construir uma noção de juventude pela perspectiva da diversidade implica considerá-la não mais presa a critérios rígidos, mas sim, como parte de um processo de crescimento amplo de constituição de sujeitos, mas que tem especificidades que marcam a vida de cada sujeito, de acordo com suas vivências no contexto social (DAYRELL, 2003). Talvez tenha sido Marx quem primeiro definiu a condição do jovem pela perspectiva sócio-histórica. Nela, o jovem se define nas relações sociais. Assim, por exemplo, tal como um negro é um negro, e só se torna escravo num determinado contexto, podemos dizer que existem tantos modelos de juventude quantos a cultura permitir. Quem trabalha com jovens pode perceber que ser jovem é ser um pouco polivalente, é estar conectado com várias coisas ao mesmo tempo, sem estar, aparentemente, ligado a coisa alguma. O jovem costuma se angustiar profundamente com as relações afetivas, com os vínculos dos relacionamentos grupais. Não existe uma maneira única de ser jovem. Cada um constrói, à sua maneira, um modo de ser, de agir, de confabular e de fazer sua história, dentro de uma circunstância dada. O sentido existencial do jovem está em formação, o que o faz necessitar de coisas concretas e de sonhos. É próprio ao jovem ansiar por oportunidades, formular projetos de vida, deixar-se fascinar pela liberdade, sonhar com experiências de realização no trabalho, nas amizades, na sociedade. Se, de um lado, o jovem tem expectativas, de outro, as instituições, o mercado, a família e a sociedade também têm seus projetos. A dificuldade do jovem é integrar essas dimensões, uma vez que sua subjetividade se constrói e é construída no conjunto das relações sociais e de acordo com seu modo de assimilar e de responder às solicitações objetivas do cotidiano e da história. A desigualdade social e as contínuas transformações no mercado de trabalho repercutem na vida e na formação do jovem. Essa realidade provoca o poder público, a sociedade e a família a discutirem a realidade do emprego, da capacitação profissional e da necessidade de políticas públicas voltadas à população juvenil. Tal procedimento compreende não apenas a formulação e a implementação de políticas de inserção, como também de programas 23 socioculturais, capacitação profissional e para a cidadania, a oferta de oportunidades de experiências de vida e o próprio conceito de trabalho. Podemos definir trabalho como toda atividade pela qual o ser humano utiliza sua energia física e psíquica para satisfazer suas necessidades ou para atingir um determinado fim. É por intermédio do trabalho que o ser humano transforma a natureza, constrói e reconstrói cultura e dá sentido à vida. É pelo trabalho que o homem pode moldar e mudar a natureza e, ao mesmo tempo, alterar a si próprio. O mundo do trabalho inclui uma abrangente diversidade de capacidades heterogêneas, que vai do senso estético ao fazer. O trabalho permite aos sujeitos expandir suas energias, desenvolver sua criatividade e realizar suas potencialidades. A ação de trabalhar não é apenas extrair materiais da natureza, mas sim alterar seu estado natural, definir e melhorar sua utilidade. É um ato carregado de aspectos sociais, em vista da manutenção material e imaterial, pessoal e da comunidade, bem como da coesão social (BRAVERMAN, 1987). Segundo os clássicos da sociologia e da psicologia, cada descoberta na linha da tecnologia e da ciência produz também uma mudança na divisão social do trabalho. O papel do indivíduo no mundo do trabalho contribui para a formação de sua identidade. Tão ligado está o trabalho à definição de nossa identidade que, quando somos apresentados a uma pessoa, a pergunta mais imediata que fazemos, não é de onde ela vem, ou quem é sua família, mas o que ela faz e em que trabalha. Se o trabalho assume tal importância em nossa vida, é natural que não nos contentemos com o que ele nos traz. A metamorfose do capital, descrita por Marx (1985), deixa perceber que o trabalho é a ação de transformar o mundo e a nós mesmos. Em si, o trabalho é bom, mas pode ser um mal em determinadas circunstâncias. Prisioneiro de mecanismos de exploração e alienação, o trabalho deixa de ser meio de realização e se transforma em instrumento de coisificação, que aborta muitas perspectivas de criatividade e de um sentido emancipador da vida. No mundo do lucro e da produção em massa, a desigualdade social enfraquece as possibilidades de realização das potencialidades humanas, 24 particularmente dos mais jovens. O capitalismo, em países como o Brasil, traz uma cultura de exploração que produz e reproduz a desigualdade social, impregnada nas políticas econômicas e públicas. Nossa sociedade é marcada pela contradição. Se o trabalho é fonte de exploração, por outro lado, é também fonte de emancipação. Por isso nos perguntamos se é possível ao adolescente extrair do processo de trabalho a felicidade, e nele manifestar suas potencialidades e criatividade? Entendemos que a educação e a cultura tendem a ajudar o jovem a encontrar um sentido para o trabalho, que contribua para a construção de um sentido para sua vida. Uma vida cheia de sentido fora do trabalho supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho. Não é possível compatibilizar trabalho assalariado, fetichizado/alienado com tempo (verdadeiramente) livre. Uma vida desprovida de sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Em alguma medida, a esfera fora do trabalho estará maculada pela desefetivação que se dá no interior da vida laboral. (ANTUNES, 1999, p. 22) Um princípio norteador para compreendermos a importância do sentido do trabalho para o adolescente é que o homem modifica o mundo e a si mesmo, produz cultura e se autoproduz, ou seja, é produto e produtor da cultura. Na contemporaneidade, a produção não se dá apenas no campo material, mas também no imaterial. A equivalência física e simbólica dos produtos leva tudo a se transformar em mercadoria. Mesmo as relações entre as pessoas ganham contornos mercadológicos (SOUZA NETO, 2008), fundados numa filosofia do consumismo, pela qual o processo produtivo se torna objetivo do homem, em vez de o homem ser o objetivo da produção. Neste quadro de reflexão, cabe evidenciar a relação que se estabelece entre adolescente e trabalho, vital na experiência do primeiro emprego. É uma espécie de passaporte para a consolidação da autonomia, da formação da identidade, do seu reconhecimento como alguém pelo grupo e pela família, é poder escolher e adquirir coisas. Para o jovem, o ingresso no mundo do trabalho constitui-se, tradicionalmente, em um marco da passagem da condição juvenil para a vida adulta. A inserção no mundo do trabalho tem sido uma das preocupações da juventude e também, dos educadores e gestores das políticas públicas. Existe 25 uma convicção generalizada de que é necessário desenvolver programas e ações que melhorem a situação atual, levando-se em conta o aumento da vulnerabilidade social e pessoal desse segmento social, além da limitada oferta de oportunidades e da falta de preparo específico do jovem para assumir funções de trabalho. Mesmo aqueles que conseguem superar todas as dificuldades e terminar uma faculdade, não têm garantia de emprego. As diferenças entre a teoria da escola, nos cursos de modo geral, e a prática, no mercado de trabalho, acabam por atribuir à escolaridade com um papel modesto frente ao treinamento em serviço ou ao estágio, na preparação do jovem trabalhador. O diagnóstico dominante aponta para as dificuldades de aproveitar oportunidades, especialmente em obter o primeiro emprego, em função do despreparo e da desqualificação frente à competitividade. Essa realidade coloca em xeque a proposta pedagógica da política educacional e da forma de pensar e de agir das famílias. A realidade de jovens brasileiros aponta como alternativa uma reformulação das políticas públicas voltadas ao primeiro emprego, não apenas no sentido de desestimular a busca precoce do mercado de trabalho, mas também de construir um projeto de vida, preparar para a convivência humana, para aprender a ser, saber e fazer. Portanto, a adquirir uma identidade pautada na ética do cuidar de si, do outro e do planeta. Ingressar no mercado de trabalho, sem base escolar, pode ser um fator desfavorável ao desenvolvimento de uma trajetória profissional satisfatória. Numa sociedade marcada pela transitoriedade, repleta de sinais confusos, propensa a mudar com rapidez e de forma imprevisível, a escola, a família e as demais instituições devem cuidar da formação ético-social e profissional, para que o jovem possa modificar sua biografia e a de seus companheiros. A procura por jovens com experiência profissional é um fator que eleva a importância do treinamento em serviço, para obter e aperfeiçoar as habilidades e conhecimentos profissionais. Com isso, uma grande parcela da melhoria do sistema de ensino no país cabe às empresas. No cenário atual, 26 caracterizado pela tecnologia e pela mudança de valores, várias são as instâncias que respondem pela formação do adolescente. Para os jovens, a escolha de uma profissão passa por uma questão de identidade, de encontro de seu espaço social, de descoberta e construção de um projeto de vida e, sobretudo, de oportunidades. Neste sentido, o jovem necessita de grupos de apoio para subsidiar o autodesenvolvimento. Entre esses grupos destacam-se a família, a escola e a comunidade. Este estudo se distribui em duas partes, sendo que a primeira parte a aborda percepções conceituais – subdividida em quatro capítulos: o primeiro capítulo aborda a adolescência e juventude em seus referenciais conceituais e ao final desse capítulo será apresentado o perfil do jovem participante da pesquisa. O segundo capítulo discorre sobre a família como um espaço de proteção e socialização de jovens, e, no final deste também, serão apresentadas percepções de jovens sobre a influência da família nas questões de escolhas profissionais. O terceiro capítulo trata das temáticas da educação, enfocando uma reflexão sobre a percepção da escola como um centro de convivência e de aprendizagem para a juventude, contendo alguns depoimentos de jovens sobre esse espaço. O quarto capítulo apresenta as questões da inserção laboral do próprio ponto de vista dos jovens participantes e o mundo do trabalho. Na segunda parte apresentamos as percepções metodológicas. E, por fim, as considerações finais, onde buscamos sistematizar as questões propostas nesta pesquisa, sem a pretensão de esgotá-las. Trata-se mais de uma partilha de nossas reflexões com você, leitor, de quem esperamos não ser um seguidor de instruções, mas alguém que possa criar e recriar a partir dessas reflexões. 27 2 JUVENTUDE E ADOLESCÊNCIA: DIFERENTES OLHARES Este capítulo procurou incluir algumas evidências que dêem testemunho sobre dois termos, adolescência e juventude que muitas vezes são descritos como uma categoria genérica situação esta que foi abordada na introdução deste trabalho. Neste sentido buscamos alguns referenciais como O Relatório Situação Mundial da Infância 2011 que inova em sua edição ao apresentar a adolescência como foco de análise, descrevendo essa fase da vida como um período de oportunidades e define adolescência como a fase da vida entre 10 e 19 anos de idade. Neste sentido a adolescência deve ser entendida, antes de tudo, como uma fase especial de desenvolvimento, que precisa ser abordada a partir da perspectiva dos direitos. Analisar o impacto de questões emergentes na adolescência é poder investir no desenvolvimento dos adolescentes, considerarmos que a essa geração caberá encontrar soluções para os desafios da contemporaneidade, como a crise financeira mundial, o desemprego estrutural, a mudança climática que gera degradação ambiental, a urbanização e migração, o envelhecimento das sociedades. Hoje e nas próximas décadas a luta contra a pobreza, as iniquidades e a discriminação nunca atingirá seus objetivos sem a participação dos adolescentes. O Brasil é um país jovem: 30% dos seus 191 milhões de habitantes têm menos de 18 anos e 11% da população possui entre 12 e 17 anos, uma população de mais de 21 milhões de adolescentes. Por isso, é essencial que o Brasil atenda às necessidades específicas da adolescência nas suas políticas. Caso contrário, corre-se o risco de que um grupo tão significativo e estratégico para o desenvolvimento do País fique invisível em meio às políticas públicas que focam prioritariamente na primeira fase da infância e na fase seguinte da juventude. Acreditamos para que a adolescência se torne realmente uma fase de oportunidades para todos, será preciso: que as necessidades específicas da adolescência sejam contempladas nas políticas públicas, e que a agenda dessas políticas seja uma agenda específica e positiva focada na promoção do desenvolvimento integral dos adolescentes; Que o apoio nas fases inicial e 28 intermediária da infância seja complementado por investimentos em educação, cuidados de saúde, proteção e participação dos adolescentes, principalmente para os mais pobres e vulneráveis; Que dados e informações sejam coletados para identificar os grupos mais vulneráveis de adolescentes em todas as regiões e as iniquidades que os afetam, para garantir-lhes mais investimentos, oportunidades e direitos; Que os adolescentes sejam ouvidos nos processos de tomada de decisão como condição essencial para se alcançar mais equidade. Que as escolas aproveitem a facilidade de aprendizado dos adolescentes e contribuam para que eles adquiram competências, habilidades e conhecimentos necessários para desenvolver todo o seu potencial; Que um esforço especial seja feito para reduzir a violência que atinge os adolescentes, com especial atenção para as causas dos homicídios. Para a OMS (ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE) a adolescência constitui um processo fundamentalmente biológico durante o qual se acelera o desenvolvimento cognitivo e a estruturação da personalidade. Abrange as idades de 10 a 19 anos, divididas nas etapas de pré-adolescência (de 10 a 14 anos) e de adolescência propriamente dita (de 15 a 19 anos). Já o Mapa da Violência -2011 -Os Jovens do Brasil-Julio Jacobo Waiselfisz trás o conceito juventude como uma categoria essencialmente sociológica, que indica o processo de preparação para o indivíduo assumir o papel de adulto na sociedade, tanto no plano familiar quanto no profissional, estendendo-se dos 15 aos 24 anos. É preciso, então, considerar o contexto social mais especifico em que vivem os sujeitos da pesquisa. Entretanto, é importante evidenciar que há discordâncias quanto ao conceito de adolescência e juventude, já que na literatura podemos encontrar tanto aqueles que defendem a perspectiva desenvolvimentista,3 da qual é decorrente a referência de adolescência como 3 A visão desenvolvimentista aborda a adolescência como fenômeno universal e generalizado, baseando-se na razão como principal mecanismo de apreensão e de vivência no mundo, através do amadurecimento e do predomínio da razão. O sujeito conseguiria aprender cada vez mais coisas sobre si mesmo e o mundo que o cerca. Esse processo ocorreria até a maturidade, quando o indivíduo já se teria formado, com todas as suas capacidades em funcionamento. (BERTOL & SOUZA, 2010, p. 824-839) 29 uma etapa do desenvolvimento humano, como outros, que não defendem essa visão e preferem e trabalham a constituição do subjetivo, considerando a perspectiva histórico-social, da qual compartilhamos. Isso posto, são muitas questões a serem exploradas, ao tentarmos traçar um perfil do jovem; contudo, nesse processo fomos nos apercebendo das semelhanças e diferenças entre todos aqueles que se encontram nesse período de transformações biológicas, psicológicas, sociais e emocionais intensas. ―Construir uma visão da categoria juventude não é fácil, principalmente porque os critérios que a constituem são históricos e culturais‖. (DAYRELL, 2003, p.41), A visão do jovem como ator estratégico do desenvolvimento está orientada à formação de capital humano. Vygotsky defende uma abordagem teórica e, consequentemente, uma metodologia que privilegia a mudança. O seu esforço de mapear as mudanças ao longo do desenvolvimento deve-se, em parte, à tentativa de mostrar as implicações psicológicas do fato de os homens serem participantes ativos e vigorosos da sua própria existência. (VYGOTSKY, 1998 p.163). O nosso sujeito em questão é o jovem, e Vygotsky (1996) buscou compreender o jovem a partir de alguns aspectos fundamentais: sua inserção em um modelo global de sociedade e suas ideologias, ou seja, na sua cultura que também faz parte de sua constituição psicossocial. Dois fatores apontados pelo autor capacitam o jovem a sentir-se membro de sua classe social e dela participar: a vivência na sua comunidade, comungando de atividades e interesses, e o uso de conceitos que permitem conhecer essas atividades e interesses. Partilhando a ideologia de sua classe, esses conceitos se desenvolvem inevitavelmente dentro de uma determinada ideologia social. O amadurecimento intelectual do jovem não muda apenas o conteúdo do pensamento (material totalmente novo e ligação a esferas novas da cultura, como política, justiça, profissão, ética, ciência e ideologia), mas também mudam e se enriquecem as próprias funções intelectuais, as formas do pensamento, a estrutura e composição de suas operações intelectuais. Isso significa que na juventude o pensamento pode operar logicamente com conceitos, uma mudança que representa uma formação psíquica qualitativamente nova. Em meio a todo o desenvolvimento biológico e cultural 30 do jovem, as mudanças em seu pensamento permitem que ele possa conhecer também sua realidade interna, ter autopercepção e auto-observação. No que se refere à percepção, a abordagem de Vygotsky (1988) é centrada no fato de que, ao longo do desenvolvimento humano, a percepção torna-se cada vez mais um processo complexo, que se distancia das determinações fisiológicas dos órgãos sensoriais, embora, obviamente, continue a basear-se nas possibilidades desses órgãos físicos. Oliveira (1997) estabelece de modo mais efetivo a divisão entre o mundo das vivências internas e o mundo da realidade objetiva. O desenvolvimento da consciência para um estado de autoconsciência permite que as vivências internas e o mundo da realidade objetiva sejam crescentemente mais discriminados. Dessa forma, a juventude é o momento em que se pode falar de uma personalidade, ao mesmo tempo em que se pode falar de uma visão de mundo, embora ainda em processo de desenvolvimento Vygotsky (1996). A juventude caracteriza-se, então, por um maior domínio do jovem sobre si mesmo e sobre o mundo à sua volta, no sentido de que pode compreender-se melhor e conhecer sua realidade social. Pode, além disso, usar sua vontade, que é considerada por Vygotsky (1996) uma importante função psíquica superior. Dessa forma, o jovem está mais consciente da distinção que existe entre seu mundo interno e seu mundo exterior, o que pode trazer muitos conflitos, mas capacita-o a exercer melhor sua vontade. Isso não quer dizer que não haja diversas determinações agindo sobre essa vontade, mas que ela é uma função sobre a qual se tem muito mais controle do que na infância. Esses aspectos constitutivos da subjetividade do jovem permitem estabelecer, à luz da teoria de Vygotsky (1996) que: a) é a partir da juventude que o indivíduo pode compreender a sua própria inserção na sociedade, em sua classe e na sociedade global; b) o pensamento do jovem ganha em plasticidade, ao operar por conceitos, e ao possibilitar o uso da vontade no encaminhamento de sua vida; e c) as transformações por que passa implicam uma nova consciência de si mesmo e uma nova visão de mundo. O jovem apresenta características que o capacitam a fazer escolhas e a tomar decisões sobre suas aspirações e seu projeto de vida. Porém, de certa forma, o jovem contemporâneo vive um paradoxo: por um lado, há uma 31 padronização excessiva de gostos e de atitudes e, por outro lado, a condição de jovem que o define como alguém que possui uma grande plasticidade. Vygotsky (1996) também aponta para o pensamento do jovem como muito mais flexível do que na infância, com possibilidade de ser dialético. Mas nem sempre os contextos nos quais esse jovem se insere contribuem para o desenvolvimento do pensamento dialético, questionador, transformador. A percepção desenvolvimentista entende a adolescência como uma fase da vida e que possui características biológicas e emocionais especificas, relacionadas aos arroubos da juventude – rebeldia, impulsividade e transformações hormonais, que ocorrem em um período de transição da vida infantil para a fase adulta. Abramo (1994), compreendendo que a noção mais usual do termo juventude está relacionada às mudanças físicas, psicológicas e sociais, faz observações examinando o pensamento de autores da categoria social como Eisenstadt (1976), que apresenta a juventude como um fenômeno universal da vida social, porém, e de modo peculiar, diz que cada sociedade define tais etapas, atribuindo-lhes significados. Esse modo peculiar está relacionado à forma da socialização do indivíduo na sociedade, porque somente a socialização da família não é o suficiente para este processo de integração. Áries (1981) nos revela que a fase da juventude foi se processando no desenvolvimento da sociedade moderna ocidental, mediante a progressiva instituição de um espaço preparatório para a vida adulta. Isso significa que esse processo foi se modificando devido às transformações da família, do trabalho, do processo escolar e de gênero. Obtendo maior visibilidade social, a juventude, com o passar dos tempos, começa a ser introduzida na vida pública e a se confrontar com os valores em circulação. Abramo (2005) entende que é fundamental considerar, ao se pensarem as idades, as relações entre as dimensões culturais e biológicas, pois se há características universais dadas pelas transformações biológicas que acontecem numa determinada fase, a forma como cada sociedade e, no seu interior, cada grupo social representa essas transformações é muito diversificada. 32 Para Dayrell (2003), construir uma noção de juventude na perspectiva da diversidade implica em considerá-la não mais presa a critérios rígidos, mas sim como parte de um processo de crescimento mais totalizante de acordo com as vivências dos sujeitos no seu contexto social. Diante desse panorama apresentado, entendemos que a visão desenvolvimentista não contempla todo o desenvolvimento sócio-histórico de experiências e questões vivenciadas pelos sujeitos que nasceram em um determinado momento histórico, que enfrenta mudanças psicológicas e sociais, culturais. Dentre outros aspectos dessa discussão entendemos a juventude como uma fase onde os sujeitos possuem características específicas que marcam sua vida. Portanto, acreditamos que é nesse processo que cada um deles vai se construindo e sendo construído como sujeitos. Desse modo os jovens aqui pesquisados constroem determinados modos de ser jovem que apresentam especificidades, o que não significa uma única maneira de ser jovem. 2.1 JUVENTUDE, CONFLITOS E MODERNIDADE O interesse pela juventude desponta de tempos em tempos. As crises e os excessos, os conflitos e as explosões que a eles se seguem, acompanham a história da preocupação social e acadêmica com a juventude. [...] a tematização e uma maior visibilidade da juventude se constroem através do surgimento de um comportamento ―anormal‖ por parte de grupos de jovens delinqüentes, ou excêntricos, ou contestadores, implicando todos, embora de formas diferentes, em um contraste com os padrões vigentes. (ABRAMO, 1994, p. 8) Podemos evidenciar o Movimento Juvenil Alemão, desencadeado por jovens estudantes no século 19, como forma de articulação de um novo estilo de vida, longe dos valores instituídos pelas gerações precedentes, com o objetivo de fundar uma nova sociedade, que iria romper a unidade da vida em nome do direito dos jovens de serem autônomos, porém seria necessário ―declarar guerra‖ a outras formas da vida adulta. Contudo, outras questões, ou expressões, aconteceram para compor o desenvolvimento público da juventude. 33 Os anos de 1920 presenciaram a explosão desse interesse na razão direta da comoção gerada pela turbulência social em Chicago, nos Estados Unidos. Naquela época, toda uma geração de jovens tornou-se objeto de estudos da sociologia, em busca de uma resposta às indagações acerca de possíveis implicações entre juventude, violência, criminalidade e desorganização social urbana, atribuídas as contraposições aos padrões dominantes, que suscitam o tema do desvio no processo de integração dos jovens à vida social. As questões da delinquência, da rebeldia e da revolta, serviram de construção da problematização da questão da juventude ao longo deste século. Outra experiência que podemos destacar foi a da participação traumatizante dos jovens europeus durante a Primeira Guerra Mundial, com muitas mortes e sofrimento. Nos anos de 1950, pela explosão demográfica nas urbes, e mais recentemente pelos elevados índices de disseminação das doenças sexualmente transmissíveis, as ciências humanas privilegiaram o exame da juventude sob a ótica do negativismo. Os excessos juvenis, tomados como impulso da desordem urbana, colocaram em movimento esforços de disciplinarização; associadas aos comportamentos disfuncionais, as pulsões da juventude tornaram-se foco da assepsia social, que queria o controle e a correção dos vícios, e nesse percurso as ciências reforçaram ao longo dos anos a percepção de que boa parte das mazelas sociais poderia ser creditada na conta da juventude e de seus anseios de diferenciação. Firmou-se no imaginário social a associação entre a juventude e as grandes questões de cada tempo: no século 21, quando emergem as preocupações com o individualismo exacerbado e a criminalidade crescente, o jovem emerge como individualista e responsável, em grande parte, pela criminalidade urbana. Entretanto, na sociedade contemporânea, a idéia de violência não está mais associada somente às classes populares, de jovens das periferias dos grandes centros que não conseguiam se inserir na sociedade, mas também se estende à classe média, com características básicas de violência e exercícios de crueldade. O fenômeno do jovem novo, que se abriu da difusão de agressões a mendigos de rua, mulheres e homossexuais, entre outros, caracteriza a intolerância às diferenças sociais. Simbolizando a perda de 34 prestígio social, eles se tornaram objetos de ataque desses jovens que, no fundo, temem o que possam a vir a ser, principalmente aqueles que ainda não encontraram um sentido para suas vidas. Muitos jovens que construíram uma violência subjetiva de culto ao corpo cultivam músculos, representação da força, da beleza e do erotismo, mostram o desamparo e o desalento. À medida que eles ganham músculos, usam a violência, como um animal acuado que tenta manter o seu território. Esta é uma juventude acuada, com menos liberdade do que em épocas passadas, controlada, vigiada, seja pelo poder policial, seja em shoppings ou condomínios de classe média, o que nos faz refletir sobre os mais de 50 milhões de jovens da América Latina fora do mercado de trabalho, desvalidos e não reconhecidos socialmente. Esses conflitos carregam a possibilidade de ruptura do processo de integração do jovem à ordem, da transmissão da herança cultural ou mesmo da própria ordem social. [...] antes de tudo, a condição de transitoriedade: a juventude é entendida como uma etapa de transição, que processa a passagem de uma condição social recolhida e dependente a uma outra mais ampla; um período de preparação para o ingresso na vida social adulta. (ABRAMO,1994, p. 11-14) Existe uma convicção generalizada de que é necessário desenvolver programas e ações que melhorem a situação atual, levando-se em conta o aumento da vulnerabilidade desse grupo social, a limitada oferta de oportunidades e as especificidades da condição juvenil contemporânea. Ao longo da história há grande variedade de caracterizações e atribuições de sentido para essas crises da juventude. Para Sposito (2003), a moderna concepção de juventude derivou de longas transformações a partir do século 18, mas, com o advento da Segunda Guerra Mundial, incidiu sobre alguns aspectos, como o alongamento do período de transição entre a infância e a idade adulta e o retardamento da juventude para a inserção no mundo do trabalho. Esse panorama nos remete à questão do trabalho que é uma das grandes preocupações da juventude atual e também o é no campo das políticas públicas para a juventude. Para Andrade (2008), a inserção do jovem no mercado de trabalho, tem sido marcada pelo signo da incerteza, porque ele tendem a ocupar as ofertas de emprego que surgem, quase sempre de curta duração e baixa remuneração, o que implica em pouca possibilidade de iniciar 35 ou progredir na carreira profissional. Pesquisas nacionais 4 têm mostrado que o trabalho está entre os principais assuntos que mais mobilizam o interesse dos jovens. 2.2 JUVENTUDE, TRABALHO: UM CONTEXTO Se cada fase da vida é suscetível de se identificar com uma série de papéis, atividades e relações, não cabem dúvidas de que a entrada no mundo do trabalho seja uma delas. No caso dos jovens, assegurar-lhes o acesso a empregos produtivos é contribuir para o desenvolvimento econômico sustentável e equitativo, para o fortalecimento da democracia e uma maior coesão social, e tendo acesso ao mundo do trabalho, ao crédito, à renda, ao esporte, ao lazer, à cultura e à terra e proporcionar a garantia dos direitos a satisfação das necessidades básicas dos jovens e as condições necessárias para aproveitar as oportunidades disponíveis. Acreditamos que o futuro desenvolvimento econômico e social dos países depende do aproveitamento da energia e do desenvolvimento das habilidades dos jovens . O trabalho adequado pode ser benéfico, desde que não impeça a realização de direitos. O desemprego de jovens – que chega a 81 milhões de indivíduos – é hoje uma preocupação em quase todos os países. (UNICEF). Vale dizer que a centralidade do trabalho para os jovens não advém tão-somente do seu significado ético, ainda que este seja relevante, mas resulta também, e sobremaneira, da sua urgência enquanto problema. [...] é, sobretudo enquanto um fator de risco, estabilizador das formas de inserção social e do padrão de vida, que o trabalho se manifesta como demanda urgente, como necessidade, no coração da agenda para uma parcela significativa da juventude brasileira. Ou, de outra forma, é por sua ausência, por sua falta, pelo não trabalho, pelo desemprego, que o mesmo se destaca. (GUIMARÃES, 2004, p. 12) No entanto, nas últimas décadas, em funções de intensas transformações produtivas e sociais, ocorreram mudanças nos padrões de transição de uma condição à outra. O diagnóstico dominante aponta para as ―Juventude Brasileira e Democracia: participação, esferas e políticas públicas‖, coordenada pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase) e pelo Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em Políticas Sociais (Pólis), em 2005; e ―Retratos da Juventude Brasileira‖, coordenada por Abramo e Branco (2005). 4 36 enormes dificuldades dos jovens em conseguir uma ocupação, principalmente em obter o primeiro emprego, dado o aumento da competitividade, da demanda por experiência e por qualificação no mercado de trabalho. Com isso, a transição para a vida adulta tem sido retardada. A questão do trabalho é uma das grandes preocupações da juventude e também o é no campo das políticas públicas para a juventude. Existe uma convicção generalizada de que é necessário desenvolver programas e ações que melhorem a situação atual, levando-se em conta o aumento da vulnerabilidade desse grupo social, a limitada oferta de oportunidades, e as especificidades da condição juvenil contemporânea. O desemprego entre os jovens brasileiros é significativamente superior ao do restante da população. Ainda que, ao longo dos anos, tenha havido aumento das médias de escolarização dos jovens e uma melhoria nas condições de trabalho, com a alta da formalização não se observou aumento correspondente na oferta de empregos. Diante de um cenário de altas taxas de desemprego, e de desestruturação e precarização do trabalho, como a juventude tem reagido? Hoje, jovens de todas as classes e situações sociais expressam inseguranças e angústias ao falar das expectativas em relação ao trabalho, no presente e no futuro. Por isso, é urgente a criação de programas específicos para essa população. É na fase da juventude que o flagelo do desemprego ganha contornos preocupantes, jovens na sua imensa maioria com baixa escolaridade e falta de experiência para a inserção no mundo do trabalho. O que leva a uma realidade em que justamente no início de vida profissional e adulta se encontram numa condição de desemprego, desalento e desprovidos da possibilidade de construção de um projeto de vida. O que haveria de comum entre jovens? Que vínculos existem entre jovens que possuem garantias familiares para se escolarizarem no tempo adequado e outros de mesma idade que já se encontram diante dos desafios do mundo do trabalho ou da constituição de uma família? O que têm em comuns jovens que vivem em espaços sociais economicamente valorizados da cidade e jovens que moram nas favelas e periferias? Jovens do sexo masculino e do sexo feminino, ainda que de classes e idades semelhantes? Certamente, as respostas vão muito além da agregação etária, mas apontam para a necessidade de refletir 37 sobre as diferentes condições objetivas e percepções sobre os sentidos de ser jovem hoje. Somente dessa forma é possível dirigir um olhar sobre a juventude que contemple a sua diversidade, mais adequado à situação real, ou seja, aquela na qual a agregação arbitrária por idade não resume as identificações possíveis num conjunto determinado de homens e mulheres que se reúnem num universo de pesquisa. Nessa perspectiva, pode-se dizer que se está diante de uma mesma geração quando os sujeitos, em alguma medida, vivenciam espaços-tempos comuns de sensibilidades, saberes, memórias, experiências históricas e culturais. Diante do agravamento das condições de vida de ampla maioria da população jovem brasileira – em especial os setores mais vulneráveis: jovens negros e moradores de espaços populares – incide diretamente no aumento da sensação de insegurança no presente e das incertezas quanto à vida futura. Reguillo (2003) chama a atenção para o fato de que, em toda a América Latina, a face mais visível dos jovens, principalmente os pertencentes aos setores populares, foi aquela que os converteu nos principais operadores de violências nas sociedades. Não é de se estranhar, assim, que sobre eles tenham recaído as principais ações – não necessariamente de políticas públicas – de controle social tutelar e repressivo. Em conjunto com esse processo estigmatizado e generalizável a todos os países da região, aprofundou-se a crise estrutural dos anos 80, que fraturou as macroeconomias dos países e pulverizou a microeconomia de pessoas e famílias. Nesse processo, muitos jovens vêm pagando o preço de políticas econômicas que os excluem das possibilidades de incorporar-se de maneira produtiva e cidadã à sociedade. Um dos grandes desafios democráticos se relaciona com as encruzilhadas que podem ser percorridas para que a participação social se torne objetivo e meta realizável numa sociedade em que tantos jovens se encontram em processo de exclusão econômica e marginalização social. A ampliação de conhecimentos sobre as diferentes realidades juvenis, necessidades insatisfeitas, motivações e subjetividades em curso, especialmente àquelas relacionadas com os jovens pobres que mais 38 dificuldades enfrentam para realizar escolhas alternativas e projetos autônomos, é condição necessária para a definição de políticas públicas sintonizadas com os sujeitos e realidades que se quer transformar. A participação dos jovens nos assuntos públicos está entre as preocupações do debate sobre a ampliação dos processos democráticos. Não é incomum que dados de pesquisas de opinião pública sejam distorcidos pelas mídias que pintam quadros conservadores e que sem apresentam perspectivas, os ou jovens seja, contemporâneos nova geração, como porém, politicamente mais velha do que seus próprios pais, que teriam contestado o sistema dominante. Deixa-se de reconhecer que não há mais valores pertencentes a apenas uma geração, que há desconfiança generalizada da população na política e que em todos os lugares e idades há dificuldades para se encontrar meios de ação para a resolução dos problemas coletivos. A crítica mais acentuada sobre os jovens pode estar na função sociológica que as sociedades modernas atribuíram à juventude, de ser agente de revitalização da vida social. Em grande medida, as generalizações sobre a apatia juvenil são agravadas pela insuficiência de pesquisas que permitam, com alguma precisão, apreender e interpretar as situações pelas quais os jovens, em diferentes contextos e condições econômicas e sociais, expressam processos de recusa, impossibilidades ou mesmo apontam para novas práticas de participação de solidariedade e conflito que já praticam ou com as quais aceitariam se envolver. Muitas dessas práticas se tornam invisíveis para os sentidos dominantes, que dizem ser mais legítimos determinados ideais de participação ou mitos participativos do passado, tais como aqueles que se associam ao jovem radical dos anos 60. Ao mesmo tempo em que há pouca participação juvenil em espaços políticos formais, nota-se a presença de jovens em outros tipos de ações coletivas que contribuem para a constituição de espaços públicos em torno de diferentes experiências sociais participativas. 2.3 O NOSSO JOVEM 39 Nosso contato com os jovens pesquisados deixou evidente que eles buscam oportunidades, pensam a respeito de suas condições, de suas experiências de vida, posicionam-se, possuem desejos e propostas de projetos de vida, e entre eles está o trabalho. Sposito (2007) nos revela que a crescente visibilidade da juventude como alvo da ação pública se remete para o desdobramento da conjuntura socioeconômica, provocando debate sobre o desemprego juvenil. O cenário de crise e de produção de desigualdades nas sociedades capitalistas reflete a situação do jovem no mercado de trabalho, confirmando esse problema da juventude. A discussão acerca do trabalho coloca-se como um dos grandes temas que merecem atenção no campo das políticas públicas para a juventude, no intuito de se ter ações concretas gerando oportunidades. Neste sentido, os jovens devem ser reconhecidos como um grupo social atingido pelas atuais dinâmicas no mundo do trabalho, tanto no que se refere à sua inserção quanto no que diz respeito à sua capacitação para o mundo do trabalho. Atualmente vemos uma primeira movimentação no país, no sentido de implementar políticas governamentais para a juventude. Nas leituras realizadas para este trabalho, em diferentes momentos pudemos perceber a construção da história dos jovens sempre atrelada à história das crianças, seja na elaboração de legislações ou na história das instituições de atendimento à juventude desassistida socialmente. O termo juventude, assim como os jovens com mais de 18 anos, ficou por muito tempo fora da temática social, até meados dos anos 90, quando uma nova emergência do tema se produz, basicamente relacionada às dificuldades de inserção e integração social numa conjuntura marcada pela extensão dos fenômenos de exclusão decorrentes da crise do trabalho e do aumento da violência, resultando em profundas dificuldades de estruturar projetos de vida. O tema juventude tem tomado corpo, no Brasil, de forma bastante intensa nos últimos anos, ampliando e diversificando os focos anteriormente existentes e colocando novas questões e desafios para a construção de diagnósticos, e tal multiplicidade de abordagens contém diferentes concepções no que diz respeito ao próprio objeto em questão. Acredita-se que uma boa parte das 40 ações públicas e privadas, como, por exemplo, programas desenvolvidos tanto pelo Estado como por ONGs, no campo da saúde, do lazer, da defesa de direitos, da prevenção de violência, de educação complementar e alternativa, passaram a definir seu público-alvo dessa maneira. Muitos movimentos sociais também passaram a incorporar em suas pautas bandeiras de defesa dos direitos das crianças e adolescentes e dos jovens. Os centros urbanos brasileiros, marcados pelas enormes distâncias sociais, põem em contato territórios informados pelo simbólico e permeados pelo econômico. Nesse particular, nossa geografia urbana impõe experiências que diferem de qualquer cidade das sociedades centrais. A disparidade de renda, a presença ou ausência das benfeitorias sociais e a maior ou menor dificuldade de acesso às benesses são os elementos mais visíveis da rede de significados que o jovem deve aprender a decodificar. A convivência com o outro, na interconectividade das histórias vividas, mostra que uns têm acesso amplo ao conjunto de benfeitorias sociais, outros renunciam a elas e alguns se apropriam daquelas que lhes parecem indispensáveis. Assim, o jovem é chamado a construir ativamente as redes de significado, sob pena de sucumbir aos apelos do estranho e aos perigos da cidade. A visibilidade mais ou menos explícita da distância entre os diversos grupos sociais que convivem no meio urbano – e as formas como essas distâncias são preenchidas – não é um problema menor, já que toca a temática da regulação a exemplo de atitudes comuns aos jovens, que, se contêm um viés de agressão, são também formas de reivindicação. Os jovens brasileiros têm emitido sinais, mais ou menos visíveis, da negação frente a formas tradicionais de participação, tais como as que se expressam pela filiação a partidos, sindicatos e organizações estudantis. No entanto, ações coletivas juvenis deixam de ser notadas ou valorizadas devido ao seu caráter tópico, descontínuo e muito frequentemente desprovidas de ideologias facilmente reconhecidas – esquerdas e direitas, por exemplo – das quais se revestem. Entretanto, as novas formas e temas pelos quais os jovens se mobilizam na esfera pública também indicam o quadro de crise das formas tradicionais de participação e socialização política. Sem dúvida, pensar os distintos significados da participação política para a juventude pode representar 41 um importante aporte para captar não só como ela reproduz, mas principalmente, como constrói novas respostas a essa questão. 2.3.1 Conhecendo os jovens adolescentes participantes Participaram deste estudo 50 jovens de ambos os sexos, com idade5 entre 17 e 20 anos, de camadas populares,6 estudantes do 3º ano do Ensino Médio, em escola pública, no município de Carapicuíba, SP, todos em busca do primeiro emprego. A fixação de alguns critérios permitiu traçar o perfil dos sujeitos desta pesquisa – ―quem‖ – e definir – ―como‖ – cercar esses jovens, delimitando, dessa forma, o meu campo de estudo. Ao tentarmos traçar um perfil dos jovens participantes fizemos algumas perguntas: Quem era o jovem? Quais eram suas características? De acordo com os dados7 fornecidos pela escola, é importante mencionar que a maioria dos jovens que abandonam os estudos são do período noturno. Daí pode implicar que, na maioria das vezes, isso pode ser devido à inserção no mundo do trabalho ou por desvio juvenil, o que reforça o propósito deste estudo de pôr na pauta do debate juvenil a inserção laboral dos jovens e nos remetem a políticas públicas da juventude que atendam as necessidades dos jovens para conciliar trabalho e escolarização. Pudemos constatar por meio desta pesquisa que dos cinquenta participantes, 34 eram do sexo feminino (68%) e 16 do sexo masculino (32%). Em relação à faixa etária, uma parte significativa dos entrevistados era menor de idade (41,5%), enquanto que os demais já haviam atingido a maioridade 5 A faixa etária escolhida corresponde à idade média de alunos do 3ª ano do Ensino Médio e por já possuírem, em termos de legislação trabalhista, idade para inserção no mundo do trabalho. 6 Camadas populares decorrentes da pobreza e privação – inclusive quanto às condições de habitabilidade, segurança alimentar trabalho e geração de renda. 7 A partir dos dados fornecidos pela escola pesquisada sobre o rendimento dos alunos referentes ao período de 2004 a 2006, pudemos observar que em relação ao Ensino Médio, nosso objeto de estudo, no ano de 2004, 93% dos alunos foram promovidos, com 5% de retidos e 2% de evadidos. Já no ano de 2005, houve aprovação para 84%, retenção para 8% e evasão de 8%. Contudo, no ano de 2006, verificou-se 93% de aprovação, com 4% de retenção, e outros 3% de abandono. Observamos também que a maioria dos jovens que abandonam os estudos são do período noturno. 42 (58,5%). Foi percebido também que na questão da religião ou culto predominou a religião católica (88,8%) em detrimento do protestantismo (11,2%). Dos relatos coletados, percebemos que em relação ao estado civil dos entrevistados, a totalidade era constituída por solteiros (100%). No que se refere ao local de nascimento, todos relataram ter nascido no Estado de São Paulo (100%). No entanto, vale destacar algumas peculiaridades regionais. (44,4%) dos entrevistados relataram ter nascido na região da Grande São Paulo. Outros (11,2%) relataram ter nascido no interior do estado e o restante (44,4%) era de nascidos na capital do Estado de São Paulo. Daí se evidencia que nenhum entrevistado nasceu no município em que a pesquisa foi realizada. Entre os entrevistados, a grande maioria era de raça branca (77,7%) e os demais que se intitulavam negros (23,3%). Essa diferença percentual entre negros e brancos nos remete a um passado histórico, e ao examinar mos a trajetória do negro no Brasil, verificamos que ―introduzido como escravo, ele foi desde o primeiro momento chamado à execução das tarefas mais duras, como mão de obra fundamental de todos os setores produtivos‖. (RIBEIRO, 2004, p. 228-241). Diante do exposto acreditamos ser de extrema importância o sistema de cotas, muito discutido na atualidade, como forma de compensação das desigualdades sociais vigentes em nosso país. A aplicação política de cotas beneficiaria principalmente a população negra. A primeira instituição federal de ensino superior a programar o sistema de cotas foi a Universidade de Brasília (UnB). Um dos autores da proposta da UnB, o professor José Jorge de Carvalho, do Departamento de Antropologia, acredita que o sistema de cotas é a única forma de se resolver o problema da exclusão racial no curto prazo. O preconceito está presente nas salas de aula. Afirma o professor: Há poucos negros na universidade e isso dificulta que eles se unam para lutar por seus direitos. É preciso mudar o tipo de relação que existe na academia. Com relação à população do sexo feminino ser maior do que a do sexo masculino o mesmo se pode observar a partir de pesquisas como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (A Pnad/IBGE (2010) mostra que no Brasil, no grupo dos 15 aos 17 43 anos, 57% das meninas está no Ensino Médio, etapa correta para essa faixa etária. Entre os meninos, o atraso é maior, apenas 47% cursam a série indicada para a idade. Essa situação, apesar de faltarem estudos conclusivos, pode estar relacionada ao fato de os meninos sofrerem mais pressão social para entrar no mercado de trabalho. Os dados apresentados nesta pesquisa nos revelam que a totalidade (100%) dos entrevistados alega nunca terem utilizado drogas. E os motivos apresentados na pesquisa foram vários, entre eles mencionamos a falta de curiosidade, o medo, a falta de oportunidade, o perigo, em função da família, da sociedade, porque faz mal a saúde. A partir dos resultados da pesquisa podemos inferir que os jovens de hoje são ―espertos‖ sobre o uso de drogas, não apenas conhecendo seus efeitos, mas distinguindo entre o uso ocasional e o vício. Acreditamos que para resistir à pressão do grupo, os jovens precisam de muito mais do que um simples aviso contra o perigo das drogas; necessitam de maneira imprescindível que ocorra o diálogo na escola, na família e na sociedade para enfatizar sobre os efeitos potencialmente fatais da mistura entre diferentes tipos de drogas: como o consumo de álcool, cigarros e drogas durante a gravidez pode prejudicar o feto; que qualquer um pode se tornar um usuário crônico ou um viciado; e que mesmo os não-viciados podem sofrer consequências graves e fatais. Vale ressaltar que atualmente grande parte das escolas públicas e particulares participam de um programa de prevenção e resistência às drogas promovido pela Policia Militar do Estado. Geralmente o curso é ministrado para alunos do Ensino Fundamental, com grande aprovação pela comunidade escolar, o que de certa forma é um referencial positivo para o desenvolvimento ético das crianças em formação e poderá repercutir de forma positiva no futuro. Apesar de não termos dados específicos sobre esses programas, que avalizem a compreensão aqui exposta, pensar nessas questões é entender que essas ações, geram consequências à comunidade e a todas as suas instituições, entre elas a escola, beneficiando a família, melhorando a qualidade de vida nas cidades, diminuindo a violência e construindo projetos de vida. Nesse sentido acreditamos que a força do processo socializador exercido pela família e outras instituições,como a escola pode influenciar de maneira 44 significativa o desenvolvimento dos jovens. A educação é essencial para o desenvolvimento e o bem-estar dos adolescentes e jovens. Objetivando superar com sucesso os múltiplos riscos ao seu desenvolvimento e a seus direitos. Para dar-lhes a oportunidade de adquirir habilidades para ganhar a vida de maneira adequada, e os conhecimentos de que necessitam para proteger-se e exercer seus direitos, é necessária uma variedade maior de opções educacionais. 45 3 FAMÍLIA, ESPAÇO DE PROTEÇÃO, E SOCIALIZAÇÃO DE JOVENS Encontramos na nossa literatura vários autores que acreditam que a família é um forte espaço de socialização que tem influências significativas entre seus membros. [...] A família, entendida como o primeiro contexto de socialização, exerce, indubitavelmente, enorme influência sobre a criança e o adolescente (REGO, 2002, p. 55). Para Vygotsky (1988), é no ambiente familiar que a criança inicia o seu processo de aprendizagem e, ao considerar a aprendizagem como profundamente social, afirma que, quando os pais ajudam e orientam a criança desde o início de sua vida, dão a ela uma atenção social mediada, e assim desenvolvem um tipo de atenção voluntária e mais independente, que ela utilizará na classificação e organização de seu ambiente. Entendemos que a temática da família é vital para a organização da sociedade, bem como para o desenvolvimento das formas de sociabilidade dos jovens. Na adolescência, os espaços onde são possíveis as interações sociais se expandem. Consequentemente, debilita-se muitas vezes a força do referencial familiar, caso este não esteja suficientemente bom para se opor ao novo grupo. Essa emancipação, durante esse processo de aquisição de autonomia pessoal como elemento constituinte, é um traço destacado na nova situação social do adolescente, o que nos faz compartilhar o pensamento de Minuchin (1982), que nos revela que a família sempre tem passado por mudanças que correspondem às mudanças da sociedade e que assume ou renuncia a funções de proteção e socialização de seus membros em resposta às necessidades da cultura, atendendo basicamente a dois objetivos: a proteção psicossocial de seus membros e a acomodação a uma cultura e à transmissão dessa cultura. Este momento também está vinculado proximamente a outros processos de evolução na vida dos jovens, a exemplo do processo da identidade, ―[...] com complexa e em permanente redefinição, segundo a multiplicidade de experiências e jogos relacionais dos quais o sujeito participa‖ 46 (CARRANO, 2000, p. 18), que na realidade dos indivíduos produzem-se de maneira conjunta e, em geral, de maneira integrada. Neste sentido a influência familiar no desenvolvimento dos jovens é indizível, uma vez que a partir dela ele adquire os seus primeiros conceitos, que formarão, ao longo do tempo, os alicerces de seu caráter, servindo de orientação para os inúmeros caminhos que a vida imporá durante sua trajetória. Acreditamos que a família tem papel fundamental neste processo a partir de diferentes mecanismos, como recompensas, castigos, observações, imitações. Entretanto, a família não tem um poder absoluto, porque ―nem os pais poderão ―talhar‖ em seus filhos as características cognitivas, sociais e de personalidade que rigidamente e a priori desejem‖ (MORENO e CUBERO 1995, p.190). Isso implica que deverão ser consideradas também, ao longo deste desenvolvimento, as experiências positivas e negativas vividas no interior da família. 3.1 FAMÍLIA: UMA CONSTITUIÇÃO A Constituição estabelece que [...] a família é à base da sociedade e que, portanto, compete a ela, juntamente com o Estado, a sociedade em geral e as comunidades assegurar à criança e aos adolescentes, o exercício de seus direitos fundamentais. Porém, quando pensamos hoje o conceito de família, é comum imaginála como se sempre tivesse existido na forma monogâmica e perfeita. Entretanto a família é uma instituição historicamente constituída que, ao longo do tempo, sofre modificações em função das transformações econômicas, culturais e sociais, o que provoca também a produção de diferentes subjetividades; nesse sentido, tais manifestações repercutem também na formação do jovem adolescente. Elaborar um quadro completo da origem da família, portanto, é tarefa extremamente difícil e complexa. Compreender as concepções de família na atualidade requer que se resgate a historicidade das formas de organização familiar. Na literatura há um grande número de estudos respeitáveis que mostram que a família passou por transformações consideráveis, evoluindo 47 junto com o homem e foi, ao contrário do que se pensava, resultado de um longo processo. Canevacci (1976) nos revela que os laços familiares permanentes são condicionados pela cultura, e não por necessidades biológicas. A família não é, portanto, algo biológico, algo natural ou dado, mas produto de diferentes formas históricas de organização entre os humanos. [...] a idéia de família foi o resultado de uma evolução, através de estágios sucessivos de desenvolvimento, dos quais a família monogâmica constituiu a última forma [...] cada uma dessas famílias teve uma longa vida nas tribos da humanidade, com períodos de infância, de maturidade e de decadência. (MORGAN in CANEVACI, 1976, p. 56-61) Ao examinarmos a trajetória da família ao longo dos tempos, encontramos o antigo regime da aristocracia européia, onde havia as casas grandes que consistiam em agrupamentos de 40 a mais de pessoas, inclusive não consanguíneos e agregados, e pautavam-se por excessiva hierarquia com nenhuma privacidade; os bebês nobres eram amamentados por amas-de-leite formando seus primeiros vínculos com alguém que não pertencia à família. Já a estrutura da família camponesa se diferenciava da aristocrática, em que a autoridade social não estava investida ―na figura paterna, mas na própria aldeia. Esta estrutura familiar comportava poucos filhos, que usualmente eram enviados, por volta de 6 a 10 anos, para a casa de outro camponês para um período de aprendizagem; aprendiam a depender da aldeia e não dos pais. A amamentação era realizada pela mãe com escasso envolvimento emocional, como uma tarefa incomodativa e consumidora de tempo. É importante observar que tanto na família camponesa como na aristocrática o treino de hábitos higiênicos eram pouco fiscalizados e o controle da vida sexual na fase genital era também superficial. No Brasil, identificamos a passagem do modelo patriarcal feudal ao modelo patriarcal nuclear burguês. A história da instituição familiar, no Brasil, tem como ponto de partida o modelo patriarcal, importado pela colonização e adaptado às condições sociais do Brasil de então, latifundiário e escravagista. O patriarca era o detentor das posses, não apenas de seu latifúndio, mas de sua família, de seus agregados e escravos. Nessa configuração, a mulher era considerada propriedade do patriarca. Mercadoria cambiável nos casamentos 48 arranjados, depois de casada, cabia à mulher administrar a casa e servir ao marido como reprodutora. Com o advento da revolução industrial, pode-se falar em uma estrutura familiar característica da classe trabalhadora, em que todos os componentes deveriam trabalhar para garantir o sustento, sujeitando-se a extensos horários de trabalho e, em muitos casos, tendo a mulher alçada ao mercado de trabalho, assumindo frequentemente o papel de sustentáculo da família. Singly (2007) apreende a família como um espaço no qual os indivíduos acreditam proteger a sua individualidade, ao mesmo tempo em que sofrem intervenção do Estado mediante o apoio e a regulação sobre as relações dos seus componentes. Entende que ao longo das últimas décadas a discussão sobre a crise da família, no Ocidente, foi propiciada pelos efeitos do divórcio, pelo enfraquecimento da instituição do casamento e da baixa taxa de nascimentos. Esses acontecimentos tanto indicaram a compreensão de que se delineara o enfraquecimento da família, quanto sugeriram a análise do surgimento de novos modelos familiares, caracterizados, por sua vez, pelas mudanças nas relações entre os sexos e as gerações, tais como: controle mais intenso da natalidade, autonomia relativa da sexualidade, inserção da mulher no mercado de trabalho, entre outras. Ao acompanharmos as transformações no âmbito da família moderna, focalizando os comportamentos interpessoais, entendemos, pela visão do autor, que nas sociedades contemporâneas ocidentais os indivíduos não se parecem com aqueles das gerações precedentes, devido ao surgimento do indivíduo original e autônomo, resultante da imposição dessas sociedades, as quais fazem vigorar razões tanto ideológicas quanto objetivas. Para Singly (2007, p. 54), [...] as famílias são dependentes da sociedade na medida em que devem atuar em um jogo cujas regras e o desenrolar das partes lhes são parcialmente desconhecidos.” Isso implica que, sob essa visão, a família contemporânea é relacional, é privada e pública, é individualista e precisa de horizonte intergeracional. Entretanto é amplamente reconhecida a importância da família8 no cuidado e no bem-estar de seus integrantes, uma De acordo com o Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (1990) art. 25: ―Entende-se por família natural a comunidade formada pelos pais ou qualquer deles e seus descendentes‖.Art. 8 49 vez que é ela o âmbito privilegiado e o primeiro a proporcionar a garantia de sua sobrevivência, o aporte afetivo fundamental para seu pleno desenvolvimento e para a sua saúde integral, absorção de valores éticos e de conduta, e a sua introdução na cultura e na sociedade em que estão inseridas. Essa importância adquire contornos ainda mais decisivos no caso dos indivíduos mais vulneráveis, como por exemplo, as crianças, os adolescentes e jovens, os idosos e os doentes. Nessa perspectiva, por iniciativa do Estado e a sociedade elaboraram-se documentos a fim de estabelecer políticas públicas que visam atender a família, a exemplo do Plano Nacional de Promoção, Proteção e Defesa dos Direitos de Crianças e Adolescentes à Convivência Familiar e Comunitária,9 que estabelecem conceitos sobre a família e descrevem o marco situacional e as perspectivas das Políticas Sociais voltadas a potencialização das famílias, onde são apontadas também perspectivas sobre uma noção de família ampliada para dar conta do desenvolvimento do adolescente. Diante do exposto, abordamos aqui a questão do (CRAS) Centro de Referência da Assistência Social, que é uma unidade pública estatal descentralizada da política de assistência social, responsável pela organização e oferta de serviços da proteção básica do Sistema Único de Assistência Social – SUAS, nas áreas de vulnerabilidade e risco social dos municípios e Distrito Federal. Dada sua capilaridade nos territórios, caracteriza-se como a principal porta de entrada desse sistema social, ou seja, é uma unidade que possibilita o acesso de um grande número de famílias à rede de proteção social de Assistência Social. E esta compreende a família como um espaço contraditório, marcado por desigualdades e, até mesmo, violência. Nessa direção, ao eleger-se a matricidade social10 como eixo do sistema social, a família é enfocada em seu contexto sociocultural e econômico, com 4º: ―É dever da família, da comunidade, da sociedade em geral e do Poder Público assegurar, com absoluta prioridade, a efetivação dos direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária‖. 9 Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente. Secretaria Especial dos Direitos Humanos - Brasília-DF. CONANDA, 2006, p. 47. 10 A matricidade sociofamiliar se refere à centralidade da família como núcleo social fundamental para a efetividade de todas as ações e serviços da política de Assistência Social. E define a família como conjunto de pessoas unidas por laços consanguíneos, afetivos e ou de solidariedade, cuja sobrevivência e reprodução social pressupõem obrigações recíprocas e o compartilhamento de renda e ou dependência econômica. 50 composições distintas e dinâmicas próprias. Essa compreensão busca superar a concepção tradicional de família, o modelo padrão, a unidade homogênea idealizada e acompanhar a evolução do seu conceito, reconhecendo que existam arranjos distintos, em constante movimento e transformação. Contudo, as novas concepções de família na sociedade moderna, muitas vezes contribuem para uma educação deficitária dos filhos, porque ao mesmo tempo em que podem suprir necessidades materiais, muitas vezes, não conseguem desenvolver um processo afetivo e de aprendizagem. O crescente número de relações pouco duradouras tem tido consequências drásticas no que diz respeito à estrutura da família. Atualmente, poucas são as famílias onde se encontra pai, mãe e filhos vivendo em harmonia sob o mesmo teto, o que gera certa desestrutura. No entanto, alguns especialistas afirmam que esse termo deve ser revisto. Desestrutura familiar, por exemplo, não quer dizer, necessariamente, ausência de pai ou de mãe; ou modelo familiar alternativo. A desestrutura tem a ver com as condições mínimas de afeto e convivência dentro da família, o que pode ocorrer em qualquer modelo familiar. No caso específico da influência da família no desempenho escolar dos filhos, fatores relativos à vida extraescolar dos alunos impactam no aprendizado: o contexto familiar do qual a criança ou adolescente se origina, a escolaridade dos pais, a valorização que a família atribui à escolarização, a preocupação com a boa trajetória dos filhos, o acompanhamento dos estudos e a participação efetiva na vida escolar dos estudantes são elementos centrais para um aprendizado eficiente. O fato de os pais estarem inseridos do mercado de trabalho, não terem escolaridade, serem pobres ou serem ricos, negros ou brancos, não os exime da responsabilidade pela criação dos filhos. Antes do trabalho, ou qualquer outra coisa, deve vir o direito à vida. Os pais retiram esse direito quando se ausentam e não participam do desenvolvimento dos filhos. Essa ausência pode ser preenchida por sentimentos de frustração e abandono. A família é também, o primeiro "mundo" que habitamos, podendo nos parecer acolhedor ou hostil, e como tal, regras, costumes, linguagens. Na relação família–escola, podemos questionar em alguns momentos e nos perguntarmos: por que a família é tão mal vista? Os professores dão algumas pistas. Eles dizem que quem leciona faz também o papel de assistente social, a 51 escola está no lugar da família, onde o professor não ensina apenas, mas ajuda o aluno a sobreviver. Isso ocorre muitas vezes porque os pais não desenvolvem o papel que sempre lhe coube: criar e cuidar bem dos filhos, orientá-los nos estudos e prepará-los para a vida. ―A educação (recebida na família, na escola e na sociedade de um modo geral) cumpre um papel primordial na constituição dos sujeitos. A atitude dos pais e suas práticas de criação e educação são aspectos que interferem no desenvolvimento individual e, conseqüentemente, influenciam o comportamento da criança na escola‖. (VYGOTSKY, 1984, p. 87) A influência do lar como hábitat da criança e da família, assim como a influência do meio social mais amplo, é muito grande, principalmente na primeira infância e na adolescência, e essas são fases críticas do desenvolvimento do ser humano, que sempre requerem um maior cuidado e atenção. 3.2 A FAMÍLIA E A ESCOLHA PROFISSIONAL DOS JOVENS O estudo das profissões é abordado de forma sistemática na sociologia somente a partir da metade do século 20, e existem vários autores e várias teorias que debatem nesse campo. Entre eles Freidson (1996), que elabora uma teoria do profissionalismo e consolida o paradigma do poder das profissões, com sua análise das profissões. Para ele, uma profissão é um tipo de ocupação que se distingue das outras por seu conhecimento e competência especializados, que são necessários para a realização das tarefas numa divisão de trabalho, ele identifica profissão como um princípio ocupacional de organização do trabalho. Kober (2003) faz uma análise da teoria das competências. Ele combina cinco elementos para construir o modelo das competências: normas e recrutamento, que privilegiam o nível de diploma, valorização da mobilidade e do acompanhamento individualizado da carreira, novos critérios de avaliação, que privilegiam as qualidades pessoais, como responsabilidade, autonomia, capacidade de trabalhar, instigação à formação contínua, o aprender sempre e, por fim, a desvalorização dos antigos sistemas de classificação fundados nos 52 níveis de qualificação e originados nas negociações coletivas, com negociações individuais de salários e benefícios. Quando o assunto é a percepção da juventude sobre as escolhas profissionais, é importante destacar o processo da Orientação Vocacional. A Orientação Profissional é uma atividade que vem sendo desenvolvida pelos psicólogos e pedagogos por todo o século 20 e sua finalidade não se modificou muito durante esses anos, visando sempre traçar o perfil dos sujeitos e encontrar, para eles, atividades profissionais que servissem a esse perfil. Testes de interesse, de aptidão e de personalidade foram os instrumentos básicos utilizados nesse campo. Esta perspectiva tradicional de Orientação Profissional estava baseada em alguns pressupostos importantes de serem destacados: liberdade de escolha, igualdade de oportunidades e individualismo. O sujeito é visto nessas teorias, comumente chamadas de teorias psicológicas, como um sujeito livre para escolher dentre as alternativas e possibilidades que o meio social lhe oferece. No entanto, para que essa liberdade possa ser exercida, é preciso que se dê aos sujeitos igualdade de oportunidades. A crítica a essas perspectivas começa exatamente no questionamento de seus pressupostos: não há liberdade de escolha para todos e nem igualdade de oportunidades em nossas sociedades; não existe esse indivíduo isolado que possui características pessoais naturais ou potencialidades naturais desenvolvidas pelo aproveitamento das condições que lhe foram ofertadas pela sociedade. Essas idéias de igualdade, liberdade e individualidade ocultam a desigualdade social existente em nossas sociedades e o processo de construção dos sujeitos nas condições sociais desiguais. Essas teorias tornaram-se, ao longo de tempo, instrumentos de manutenção do status quo e de dissimulação da realidade. Diante do exposto, devemos considerar nesse processo de escolha a perspectiva sócio-histórica, cuja definição já foi evidenciada neste estudo. Se verificarmos que diferentes ritos contemporâneos estão perdendo a força. O vestibular não tem mais a aura do passado. De um modo geral, os diplomas não têm mais o reconhecimento social de antigamente. Os novos heróis propostos aos jovens pela mídia são aqueles que fazem fortuna rapidamente. A educação nacional é atacada de todos os lados. 53 Nunca os professores foram tão desconsiderados. A entrada em um meio profissional não oferece mais um quadro definitivo. As confrarias corporativistas desaparecem com os pequenos trabalhos. As grandes empresas, outrora familiares, onde se entrava como estagiário para sair aposentado depois de ter tido uma promoção interna começam a fazer parte da história. A crise econômica dos anos 2000 e a globalização da economia transformam o sistema. Muitas profissões propostas aos jovens não são conhecidas de seus pais, impedindo a noção de uma transmissão de memória e colocando novamente esses últimos ou os outros adultos à parte da dimensão iniciática. Nos rituais tradicionais, na verdade, se os adultos são postos de lado, eles sabem, por já terem vivido essa experiência, que isso passa. Os rituais de passagem na adolescência visam marcar a ruptura dos jovens com seus laços domésticos e consagrar a saída da vida restrita à família para a vida comunitária. Em nossa cultura, o vestibular ainda é visto como marco principal desse evento. Entretanto, como foram observados anteriormente, os processos ritualísticos de nossa sociedade foram ao longo do tempo sendo desenergizados, culminando em pseudorrituais. Dessa forma, vemos o vestibular como um desses pseudorrituais, não somente porque na maioria das vezes é realizado de forma alienada, mas principalmente devido ao fato de o jovem, mesmo depois de ter passado por ele, permanecer em simbiose com a família, pois continua dependente sendo sustentado ainda por alguns anos. Calligaris (2007), em artigo intitulado ―Os sonhos dos adolescentes‖, para o jornal Folha de S. Paulo, comenta: [...] os jovens de hoje sabem que sua origem não fecha seu destino: sua vida não tem que acontecer necessariamente no lugar onde nasceram sua profissão não tem que ser a continuação da de seus pais. Pelo acesso a uma proliferação extraordinária de ficções e informações, eles conhecem uma pluralidade inédita de vidas possíveis. (CALLIGARIS, 11 jan. 2007, p. E10) Nesse sentido, a função social do educador é ser agente de transformação; cabe a ele auxiliar na organização dos desejos e necessidades da população com a qual trabalha. É importante identificarmos de que forma a compreensão dos fenômenos conhecidos como ritos de passagem podem ser úteis na realização de trabalhos de orientação profissional e vice-versa. 54 Acreditamos que uma sociedade tão carente de simbolismos formais dessa ordem, como a nossa, acaba criando, por meio dos recursos disponíveis, outras formas de cristalizar seus aspectos mais subjetivos, tão necessários para o desenvolvimento do sujeito. É importante lembrar que, muitas vezes, os jovens, hoje desempregados, são os trabalhadores infantis de anos atrás. Dessa forma, o aumento das oportunidades de trabalho decente para jovens não pode ser dissociado dos esforços de erradicação do trabalho infantil e da melhoria de perspectivas de emprego para adultos. Além do mais, o problema do desemprego de jovens reflete e perpetua défices de trabalho decente nas famílias e comunidades. Contudo, a idéia do pressuposto de que o jovem escolhe uma profissão a partir das condições em que vive, da influência da família e em função de suas habilidades e aptidões não é uma idéia que sempre existiu; é algo que teve início quando se instalou na sociedade o modelo do capitalismo. E neste momento coloca-se uma questão: se tudo está na mão do sujeito, o momento de sua escolha profissional torna-se muito importante. Esse é um momento de conflito, e não devemos imaginar que o futuro de uma pessoa dependerá principalmente de sua opção profissional e que essa escolha não poderá ser alterada, principalmente devido a inúmeras influências que interferem nesse processo. Entre eles podemos mencionar as características da profissão, o mercado de trabalho, a importância social da profissão, o histórico pessoal, a satisfação pessoal, a satisfação material, a vocação e o dom, a remuneração, as habilidades necessárias para o desempenho da profissão, a trajetória para se chegar a esse processo de escolha profissional, como: a escolarização, o vestibular, os custos da formação. Outros fatores que merecem destaques aqui são os grupos sociais, e entre eles está a família e o grupo de amigos, de onde se espera que venham as principais pressões nesse processo de escolha. Não podemos aqui deixar de fazer menção às profissões ditas ocultas, muito comuns nos centros 55 urbanos, como catadores de produtos para reciclagem, limpadores de vidros de carro em semáforos entre outras, que são originarias do sistema atual capitalista, seja por falta de escolarização, família ou políticas públicas. Para Bock ―o indivíduo é escolhido para uma profissão pelas influências dos fatores sociais, da estrutura de classes, dos meios de comunicação e, de certa forma, da herança social‖ (BOCK, 1999, p. 248). Considerando que esse pensamento esteja correto, ao negar a possibilidade de liberdade de escolha, acabamos também percebendo esse indivíduo como reflexo da organização social, sem autonomia frente a essas determinações. 3.3 PERCEPÇÕES DE JOVENS SOBRE ESCOLHAS PROFISSIONAIS Perguntamos aos jovens adolescentes participantes se eles já haviam pensado sobre ter uma profissão. De acordo com os resultados desta pesquisa, os participantes foram unânimes em afirmar que já pensaram em ter uma profissão (100%). Muito embora nem todos soubessem a área em que gostariam de ingressar, como apontam os resultados a seguir: ciências humanas (22%), ciências exatas (33%) e ciências biológicas (33%) e (12%) não escolheram ainda. Ao serem questionados sobre suas escolhas, os pesquisados relataram como fatores que influem no processo de escolha: a importância social e a remuneração, o mercado de trabalho, as habilidades necessárias para o desempenho, os caminhos para chegar à profissão desejada, a satisfação pessoal, a vocação e o dom, o grupo social em que estão inseridos e a própria história pessoal. A seguir selecionamos percepções de sete participantes por entender que evidenciam de forma específica a temática abordada, sobre os motivos pelos quais escolheram, a princípio, as respectivas áreas. (P1) ―Biológica, pois gosto desta área, acho interessante, sabemos o que acontece no corpo ao redor da gente e também porque é uma coisa que vem crescendo a cada dia.‖ 56 (P2) ―Nutricionista porque envolve a alimentação, saúde e boa forma.‖ (P3) ―Ator/diretor de teatro/arte-educador, porque reconheço a importância e o poder da arte no meio social e desejo contribuir para sua compreensão e disseminação.‖ (P4) ―Engenharia aeronáutica, pelo dinheiro, pelo desafio de querer o melhor, por consequência, o mais fácil.‖ (P5) ―Técnico em informática, porque tenho facilidade em aprender e ensinar nesse ramo.‖ (P6) ―Professora de filosofia, porque me identifico com essa profissão, talvez porque desde pequena vejo minha mãe lecionando.‖ (P7) ―Física, porque sempre fui bom com matérias exatas.‖ Diante de algumas das escolhas acima descritas podemos notar que são profissões tidas como tradicionais: Engenharia, Física, Filosofia, Informática, Nutrição, Artes, Biologia, Jornalismo. Entretanto, o cenário das profissões ganha novos contornos no século 21, com profissões que surgem, ou são reinventadas, na proporção das mudanças tecnológicas, como administradores de comunidades virtuais, engenheiros de rede, tecnólogo em criogenia, especialista em ensino a distância (EAD), que buscam espaço em uma fatia do mercado de trabalho que até então não existia. As inovações e mudanças não se restringem às novas profissões, tais inovações afetam tanto os profissionais que já possuem formação quanto os adolescentes em processo de definição de carreira. As profissões tidas como ―tradicionais‖ não vão acabar, segundo a opinião de alguns especialistas, que sugerem que os profissionais mais experientes precisarão se adaptar. Já na opinião do economista e sociólogo Gilson Schwartz (2000), em sua obra As 57 Profissões do Futuro, com o advento e explosão de crescimento da Internet, várias profissões foram criadas para ampliar ou consolidar redes de conhecimento. Isto é, as novas profissões não mudaram apenas as relações pessoais, mas mexeram também na engenharia das empresas. Por essa razão, acreditamos que todas as profissões têm um papel na organização da vida humana. Uns planejam, outros executam; alguns se dedicam a pesquisar, enquanto outros divulgam as pesquisas: assim, complementando-se, os profissionais das mais diversas áreas são os responsáveis pela construção deste organismo complexo e maravilhoso chamado sociedade. Enfim somos constantemente colocados diante de escolhas. Optar, decidir, protagonizar a nossa própria história. Contudo, para os jovens, a escolha de uma profissão passa por uma questão de identidade, de encontro de seu espaço, de descoberta e da construção de um projeto de vida. Neste sentido o jovem necessita muito de um grupo de apoio para desencadear o seu desenvolvimento e autodesenvolvimento. Por outro lado, sabemos que a família não é a única a interferir no processo de decisão do jovem; temos a mídia, a igreja, os grupos de amigos, as referências e as condições sócio-históricas e econômicas que interferem de forma contundente na subjetividade do jovem adolescente. Nos jovens entrevistados, percebemos essa interferência, conforme descrição de nove participantes a seguir: (P1) ―Por mais que a minha mãe viva dizendo que o ITA não é para mim, todo mundo me apóia. Só o que eles gastam com escola e livro e todo tipo de material que eu preciso já é um grande tipo de contribuição; o psicológico eu vou trabalhando me encorajando.‖ (P2) ―Eles me apóiam em minhas decisões, principalmente porque escolhi uma área de atuação difícil, que é a arte. Venho fazendo isso de forma amadora há muito tempo e meus familiares apoiaram, sim, dentro de suas limitações.‖ 58 (P3) ―Elas querem o melhor para mim, e estão sempre pegando no meu pé em relação aos estudos, para que eu tenha um futuro.‖ (P4) ―Minha família acredita que contribui muito; tenho muita base, me ensinaram a respeitar o próximo, a ser educado, ser honesto, me incentiva nos estudos.‖ (P5) ―Porque me proporcionam toda estrutura possível para o meu futuro.‖ (P6) ―Porque eles me apóiam e me incentivam para os estudos.‖ (P7) ―É sempre bom receber conselhos de pessoas experientes, o que nos ajuda a decidir o que é melhor.‖ (P8) ―Porque estão sempre presentes na minha vida.‖ (P9) ―Eles contribuem pagando meus estudos e dando suporte para que eu aproveite o mesmo. Porém, acho que a família se fecha em uma posição mais conservadora.‖ Essas respostas fazem eco a outras pesquisas realizadas. De acordo com Soares (1997, 2002), os pais constroem projetos para o futuro do filho e desejam que ele corresponda à imagem sobre ele projetada, propondo, muitas vezes, objetivos que na realidade eram sonhos seus que não puderam realizar na juventude. O filho se torna, então, um depositário das aspirações dos pais, absorvendo a responsabilidade de escolher a profissão que o pai não pôde seguir (ANDRADE, 1997). De alguma maneira, os pais introduzem em seus discursos seus próprios desejos sobre os projetos de seus filhos, e a forma como estes vivenciam suas ocupações também é fator influente na decisão do jovem. 59 Segundo Filomeno (1997), o filho estabelece conceitos e valores acerca das profissões de acordo com o que se fala em família. Analisando os relatos de adolescentes, podemos fazer certas observações interessantes sobre o universo pesquisado e constatar que a identificação com as profissões e com profissionais se dão por meio das relações que o jovem estabelece com o mundo adulto. Daí a importância dessas identificações com os pais e com outros membros da família com os quais o jovem interage. Esses dados foram comprovados nesta pesquisa ―Estudos e Repercussões da Prática Familiar e Escolar na Escolha do Trabalho do Jovem‖, em que a maioria dos sujeitos da pesquisa mencionam a contribuição da família para o futuro profissional. A família é citada em diferentes aspectos como exemplo de modelo de conduta no desempenho de seus papéis sociais e das normas e valores; referem-se à família também como mantenedora de papéis sociais conservadores, porém participativa e estruturalista, principalmente no apoio social e emocional. Diante do exposto, buscamos referências em autores como Santos (2005), em que a família é apontada pela literatura como um dos principais aspectos que podem tanto ajudar quanto dificultar o jovem no momento da decisão profissional. No momento em que o adolescente está construindo sua identidade tanto pessoal como vocacional a influência da família é de extrema importância. A problemática da adolescência já foi estudada à exaustão por muitos autores. Ericson (1972), explicita que é nesse período que se organiza a construção da identidade, sendo esta a base do desenvolvimento do indivíduo. Já Bohoslavsky (1988), quando se refere à identidade ocupacional, diz que a adolescência não é vista como algo definido, mas sim "como um momento de um processo submetido às mesmas leis e dificuldades daquele que conduz à conquista da identidade pessoal" (BOHOSLAVSKY, 1998, p. 30). Apesar de a identidade ocupacional se desenvolver como um aspecto da identidade pessoal, pode-se dizer que são dois processos que caminham juntos em determinado momento de transição – a adolescência – da vida do indivíduo. Os jovens pesquisados evidenciam que as famílias contribuem com indicadores, os quais sugerem que eles estão tendo uma formação escolar de 60 qualidade, sendo apoiados nos processos de escolha e decisão de projeto de vida e recebem investimentos em capacitação profissional. Mas essas famílias também esperam resultados. Elas se concentram muito na escolaridade dos filhos, e a preocupação com o desemprego pode ser uma das razões, mas não é a única. independentemente do grau de envolvimento dos pais com os filhos ou certa incapacidade de acompanharem culturalmente a escola dos filhos. Os pais não têm tempo e principalmente não estão no tempo dos filhos. Não compreendem a matéria de que é feita a escola dos filhos e são incapazes, às vezes, de conversar sobre o que os filhos aprendem ou deviam aprender. Deixam de conversar com os filhos e não são exigentes, nem com os filhos, nem com a escola ao nível das aprendizagens, dos conhecimentos e técnicas, da utilidade do que aprendem. Em vez de buscar a compreensão da complexidade e da qualidade das aprendizagens, os pais pressionam a escola sobre as classificações, as quais, ainda que sem conteúdo, permitem a transição e o ingresso no mundo do trabalho ou no Ensino Superior. Acreditamos que a presença dos pais na vida escolar tem significativo valor para os estudos dos filhos, dando-lhes apoio, colocando-os em boas escolas, incentivando, participando da vida escolar dos filhos entre outras ações. Percebe-se que, no contexto escolar, existem diversas maneiras de os pais participarem efetivamente do processo educativo, já que essa participação é necessária, considerando-se que, ao relacionar-se com a escola, a família participa da construção do sucesso escolar de diferentes maneiras. Já quando perguntamos a esses mesmos jovens sobre a composição de suas famílias e quais suas contribuições para sua formação e desenvolvimento, os dados obtidos sugerem que a influência da família para o futuro profissional do jovem é deveras importante. Entre os participantes pesquisados, a maioria, cerca de (77,7%) mora com os pais, e há entre 4 e 5 pessoas morando no domicílio, enquanto que (22,3%) só vive em domicílio com a figura materna. Em relação ao número de irmãos, (55,6%) têm até 2 irmãos, e para a totalidade dos entrevistados ficou caracterizado que não possuem dependentes (100%). 61 No que se refere à renda familiar, a grande maioria (77,8 %) tem até 3 pessoas contribuintes na família, sendo que para esse mesmo percentual corresponde o teto de rendimento familiar corresponde a um valor acima de 3 salários mínimos. Entretanto, há também famílias que sobrevivem com renda mensal de 1 salário mínimo (11,1%). A pesquisa também demonstra que a situação ocupacional dos pais dos entrevistados apresenta a prevalência da figura materna constituindo a maioria das chefias das famílias, pois (88,8%) das mães trabalham e em contrapartida apenas (66,6%) dos pais trabalham atualmente. Essa disparidade caracteriza também a situação de escolaridade dos pais, pois grande parte das mães dos entrevistados possui curso superior (55,8%), o Ensino Médio e o Ensino Fundamental totalizando (44,2%). Em relação à figura paterna, ficou evidenciado que a maioria possui somente o Ensino Médio (77,8%). Observamos também que na grande maioria dos casos estavam presentes na composição familiar o pai a mãe e os irmãos. Em relação à renda familiar, a grande maioria vive com mais de três salários mínimos. Entretanto no domicílio de alguns dos entrevistados ainda não existe infraestrutura básica de saneamento. A realidade muitas vezes contradiz as pesquisas de opiniões divulgadas pela mídia, que apontam índices de desenvolvimento humano positivos. Há ainda grande preocupação, porque este é um país emergente e com grande desigualdade. 62 4. EDUCAÇÃO: CONVIVÊNCIA E APRENDIZAGEM Este capítulo é resultado de uma reflexão sobre a percepção da escola como sendo um espaço de convivência e aprendizagem para a juventude. Nas ultimas décadas, tem se tornado cada vez mais evidente a importância da educação na construção das práticas democráticas e da modernidade. Este tema tem ocupado e preocupado grande parte da sociedade, mobilizando a atenção de Organismos como a UNESCO (Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura) e o Ministério da Educação, além de pesquisadores, especialistas em educação, bem como os demais cidadãos. Tal interesse pode ser visto como resultante das novas e complexas demandas do mundo contemporâneo e globalizado. Entre elas, podemos destacar: as novas dinâmicas do trabalho, a profissionalização do jovem e seu processo de inserção no mundo do trabalho e o papel da família. Diante deste novo contexto social estaria a escola de hoje, na sua prática cotidiana, sendo uma instituição ainda capaz de reproduzir o conhecimento disponível para que os jovens tenham instrumentos para enfrentar o mundo do trabalho e reproduzir as relações de autoridade e seleção presentes na nossa sociedade? Estudo realizado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento – BID (2008) relata que mais da metade dos latino-americanos entre 15 e 19 anos não têm um nível adequado de educação para conseguir um trabalho bem remunerado. No Brasil, o percentual de jovens nesta situação é de 71,6%. Entretanto, de modo geral os jovens na atualidade têm expectativas sobre o futuro profissional muito semelhantes às de todos que procuram um crescimento e um desenvolvimento social. Os jovens sonham com um dia a dia que, para muitos de nós, não é apenas um sonho, e sim, resultado de um projeto de vida, angústias ou frustrações. Com os relatos colhidos nesta pesquisa ―Estudos e Repercussões da Prática Familiar e Escolar na Escolha do Trabalho do Jovem ‖, exceção feita às distinções necessárias que serão expostas no capítulo sobre a inserção do jovem e o mundo do trabalho, pudemos notar um consenso, a partir das 63 respostas, de que todos os participantes já pensaram em ter uma profissão (100%), porém os resultados da pesquisa sugerem que os jovens precisam ainda ajustar seus sonhos às necessidades (segurança no trabalho, assistência médica, dinheiro, entre tantas outras). Cabem aqui alguns questionamentos: nos tempos atuais, existe esse espaço no mundo do trabalho para a juventude? A escola desperta interesse quando carrega consigo uma promessa de futuro? O que significa ―escolher‖ numa sociedade onde as oportunidades não são iguais para todos? Coloca-se, então, um desafio para os profissionais que trabalham com os alunos do Ensino Médio público: saber quem é esse jovem, conhecer o mundo do trabalho na atual sociedade capitalista, entender o significado das reais possibilidades de escolha desse jovem e compreender que há algo muito maior que permeia e condiciona a efetivação das escolhas: a realidade socioeconômica. Contudo, a realidade não determina definitivamente o destino do jovem economicamente desfavorecido, mas com certeza reduz a probabilidade de ele atingir suas metas, ou mesmo força a modificação de suas escolhas, levando-o a negá-las ou a adaptá-las para obter maiores chances de se inserir no ensino universitário ou no mundo do trabalho. Todos parecem concordar que, na chamada sociedade do conhecimento, a escolarização tem um valor inquestionável, ―já que é capaz de proporcionar ao indivíduo experiências e informações de sua cultura‖ (REGO, 2002, p. 48). Cabe a nós o esforço de examinar essas questões sob a ótica da educação. 4.1 EDUCAÇÃO, ESTADO E SOCIEDADE Ao abordarmos a temática da educação, proponho pensarmos a juventude como uma oportunidade que implica tratar os jovens como sujeitos de sua própria história e não como objeto das expectativas dos adultos. Deve ser um processo interacional onde ambos devem contribuir para o crescimento do sujeito. Essa mudança de olhar que supera a visão de jovens como objeto do problema e se firma na visão de jovem como sujeito de oportunidades, nos 64 leva a uma perspectiva importante para a ação do sistema educacional, do trabalho e da mobilização da sociedade em nosso país. ―Há indicações de que uma parcela importante dos jovens brasileiros está, atualmente, experimentando uma série de fragilidades e vulnerabilidades, o que leva a que se fale em uma ‗crise dos jovens‘.‖ (CAMARANO et al., 2004, p. 11-20) O país tem ainda o desafio de superar o uso excessivo de medidas de abrigo e de privação de liberdade para adolescentes em conflito com a lei. Em ambos os casos, cerca de dois terços dos internos são negros. Cerca de 30 mil adolescentes recebem medidas de privação de liberdade a cada ano, apesar de apenas 30% terem sido condenados por crimes violentos, para os quais a penalidade é amparada na lei. Hoje, há mais de 11 mil jovens brasileiros privados de liberdade, levantamento feito pela Secretaria Nacional dos Direitos Humanos (2009). As causas sociológicas do aumento da violência dos jovens são dominadas pela crise econômica e o desemprego. De acordo com (CALIMAM, 2006) diante de certos comportamentos e estilos de vida não convencionais, muitas pessoas atribuem qualificações e rótulo a indivíduos com diferentes abordagens relacionadas ao desvio social e à delinquência juvenil. Acreditamos que um jeito de reconstruir esse panorama poderá se dar por intermédio da educação. A educação existe em todas as esferas da vida do indivíduo. Ela existe em cada cultura, participando do processo de produção de crenças e ideias, de qualificações e especialidades que envolvem as trocas de símbolos, bens e poderes que, em conjunto, constroem tipos de sociedades. E esta é a sua força. A educação é a ação exercida, pelas gerações adultas, sobre as s gerações que não se encontrem ainda preparadas para a vida social; tem por objetivo suscitar e desenvolver, na criança, certo número de estados físicos, intelectuais e morais. (DURKHEIM, 1978, p. 41) Já para Freire (1983), a educação muitas vezes vem sendo utilizada pela classe dominante para transmitir sua hierarquia de valores, na qual se tomou o ato educativo como um depósito de conteúdos que o professor faz no aluno a partir de uma premissa inicial: o professor possui a cultura e o saber; o aluno ignora e, por isso, necessita ser levado a esse saber. Isso implica que é 65 importante elucidar no educando sua criticidade, criatividade e ação diante do que está dado: é preciso que o oprimido tenha consciência de sua opressão. Isso implica que a formação do homem democrático exige que se encontre um método de ensino capaz de permitir ao indivíduo apropriar-se do sentido altamente cambiante da sociedade e do tempo em que ele está vivendo. A educação deve estar a serviço da formação de traços de personalidade e consciência crítica que levem à formação da personalidade democrática. Há uma inadequação de nossa educação atual, cheia de verborragia e pouca prática, em relação ao clima cultural que vem se prolongando no país: nenhum sistema educativo é capaz de manter na nova geração a estabilidade afetiva e a integridade mental, a menos que esteja unido em uma estratégia comum com as influências sociais que atuam fora da escola. Somente mediante a cooperação dessas influências sociais, em nossos dias de modo especial, será possível colocar um freio nas influências sociais que, de outra parte, desorganizam a vida da comunidade de conhecimento concreto da realidade, de nossa sociedade. Devemos incentivar as forças positivas da industrialização. A Escola, então, passaria a ser uma instituição local, centrada democraticamente no seu educando e na sua comunidade, vivendo sob sua circunstância em verdadeira comunidade de trabalho e de estudo, prática e dinâmica que deve enfrentar dificuldades, resolver questões e identificar-se com sua realidade. Conforme as idéias de Freire (1987), uma prática de sala de aula deveria desenvolver a criticidade dos alunos. Paulo Freire condenava o ensino oferecido pela ampla maioria das escolas, isto é, as ―escolas burguesas‖, o qual ele qualificou de educação bancária, onde o professor age como quem deposita conhecimento num aluno apenas receptivo, dócil. Em outras palavras, o saber é visto como uma doação dos que se julgam seus detentores. Trata-se, de uma escola alienante, mas não menos ideologizada do que a que ele propunha para despertar a consciência dos oprimidos. Ele dizia que, enquanto a escola conservadora procura acomodar os alunos ao mundo existente, a educação que defendia tinha a intenção de inquietá-los. 66 No conjunto do pensamento de Paulo Freire encontra-se a idéia de que tudo está em permanente transformação e interação. Por isso, não há futuro a priori, como ele gostava de repetir no fim da vida, como crítica aos intelectuais de esquerda que consideravam a emancipação das classes desfavorecidas como uma inevitabilidade histórica. Seu ponto de vista implica a concepção do ser humano como ―histórico e inacabado‖ e, consequentemente, sempre pronto a aprender. No caso particular dos professores, isso se reflete na necessidade de formação rigorosa e permanente. Já para Tragtenberg (1985), a educação tem o pensamento voltado para os limites da escola como instituição disciplinadora e burocrática e as possibilidades da autogestão pedagógica como iniciação à autogestão social. A burocracia escolar é poder, repressão e controle. As propostas do autor mostram as possibilidades de organização das lutas das classes subalternas e da participação política do trabalhador na empresa escola visando à reeducação dos próprios trabalhadores em geral e dos trabalhadores em educação, em particular. A possibilidade de desvincular saber de poder, no plano escolar, reside na criação de estruturas de organização horizontais, onde professores, alunos e funcionários formem uma comunidade real. É um resultado que só podem provir de muitas lutas, de vitórias setoriais, derrotas também. Mas sem dúvida a autogestão da escola pelos trabalhadores da educação – incluindo os alunos – é a condição de democratizar a escola. Sem a escola democrática não há regimes democráticos; portanto, a democratização da escola é fundamental e urgente, pois ela forma o homem, o futuro cidadão. (TRAGTENBERG, 1985, p. 40-.45) Diante dessa discussão, entendemos, entretanto ao estabelecer os fins da educação no país, nossos legisladores, pelo menos em teoria, falam sobre o que deve determinar e controlar o trabalho educacional em todos os seus graus e modalidades. De certo modo falam a respeito de uma educação idealizada, ou falam da educação a partir de uma ideologia. Mas, do outro lado do palco, intelectuais, educadores e estudantes fazem todos os dias a crítica da prática da educação no Brasil. Eles levantam questões e afirmam que, do Ministério à escola infantil, a educação nega no cotidiano o que afirma na lei. E o esforço em examinar estas questões pode significar uma importante contribuição para os estudos das complexas relações entre o indivíduo e a sociedade. 67 4.2 EDUCAÇÃO: DIFERENTES REALIDADES Retomando as questões que nos remetem à conceituação de educação e sua situação num contexto social, podemos, antes de mais nada, dizer que a educação sempre expressa uma doutrina pedagógica, a qual, implícita ou explicitamente, se baseia em uma filosofia de vida, concepção de homem e sociedade. Além disso, devido ao fato de que numa realidade social concreta, o processo educacional se dá através de instituições especificas (família, igreja, escola, comunidade) que se tornam porta-vozes de uma determinada doutrina pedagógica. Essa posição foi primeiramente sistematizada por Émile Durkheim, que não especificava os conteúdos educacionais, mas partia do conceito do homem egoísta que precisa ser moldado para a vida social. As novas gerações apresentam uma flexibilidade para assimilar, internalizar, perceber e, finalmente, reproduzir os valores, as normas e as experiências das gerações mais velhas. Isso implica que o processo educacional é midiatizado basicamente pela família, mas também por instituições do Estado, como as escolas. Podemos perceber, portanto, que é a partir da escola que a criança e o jovem fazem uma ponte importante e favorável com o mundo exterior, por meio da socialização que a escola permite. Contudo, é a partir da percepção no contexto escolar que o aprendente adquire conhecimento por meios sensoriais, o que contribui para que exista um processo de aprendizagem. E a escola também pode fazer uma mediação por meio do valor simbólico (valor dado a um elemento de forma subjetiva) e do contexto social. Isso implica que o contexto social no qual a pessoa está inserida tem como característica facilitar e mediar a absorção do conhecimento, que tem início no nascimento e acompanha a pessoa durante toda a vida. A percepção escolar está vinculada à forma pelo qual a criança e o adolescente percebem e adquirem conhecimentos no ambiente escolar, os quais serão utilizados posteriormente na vida adulta, e também aos valores já 68 assimilados e acomodados por eles em outros contextos sociais. Na escola, a criança ou adolescente aprende diversos elementos de socialização, como a convivência com diferentes grupos do âmbito escolar, uma vez que é a partir disso que a criança e/ou adolescentes irão aprender e desenvolver relacionamentos sociais, viver em sociedade, isto é, tornar-se um indivíduo social. No âmbito escolar, a criança se defronta com maiores exigências sobre o modo de se relacionar com os outros: passa a estabelecer relações tanto com adultos quanto com seus iguais e a se deparar com diferentes contextos e novas regras. Há diversas formas de interação social como fatores determinantes na formação de crenças e valores dos indivíduos, o que pressupõe que as relações entre diferentes contextos da vida têm merecido cada vez mais a atenção de pesquisadores que partilham perspectivas sociais do funcionamento e do desenvolvimento humano. Tanto a família quanto a escola, duas instituições cuja relação é nosso objeto de análise, sofreram transformações profundas ao longo da nossa história. Mediador e regulador dessa relação, o papel do Estado também foi se modificando. Ao percorrer essa história, podemos compreender a origem de algumas ideias que ainda hoje estão presentes no pensamento educacional e verificar sua atualidade ou anacronismo. A recuperação deste fio condutor pode inspirar cada município a identificar conexões desse cenário geral com a história local, com seus traços específicos, e assim melhor compreender o terreno simbólico no qual irá atuar. Ao longo das últimas décadas, a criança foi sendo deslocada da periferia para o centro da família. Do mesmo modo, ela passou a ser o foco principal do sistema educativo. O deslocamento é fruto de uma longa história de emancipação, na qual as propostas educacionais têm grande peso. Esse movimento alinha-se ao dos direitos humanos e consolida-se na Carta Internacional dos Direitos da Criança, de 1987, que registra o acesso da criança ao status de sujeito de direitos e à dignidade de pessoa. Tais conquistas invertem a concepção de aluno como página em branco, encerrada no projeto inicial da escola de massa e que organizava a hierarquia das posições no sistema escolar. Essas mudanças 69 incidem diretamente na transformação das relações entre as gerações, tanto entre pais e filhos, quanto entre professores e alunos. Segundo a LDB, (Leis de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) os profissionais da educação devem ser os responsáveis pelos processos de aprendizagem, mas não estão sozinhos nessa tarefa. A lei prevê a ação integrada das escolas com as famílias e estas estão inseridas em uma comunidade, localizada em determinado território, com seus costumes, valores e histórias, a que chamaremos de contexto social. Contudo, no âmbito das condições para o sucesso escolar, a literatura aponta para a importância da qualidade das relações entre a família e escola, como meio de potencializar a eficácia de ambos os sistemas. [...] A escola é, então vista como portadora de uma função social porque compartilha com as famílias a educação das crianças e jovens, uma função política, pois contribui para a formação dos cidadãos. (REGO, 2002, p. 48). A educação existe também onde não há escola. e por toda parte pode haver redes e estruturas sociais de transferências de saber de uma geração a outra, onde ainda não foi sequer criada a sombra de algum modelo de ensino formal e centralizado. Contudo nem sempre os contextos nos quais a pessoa se insere contribuem para o desenvolvimento do pensamento questionador e, transformador. […] O homem não nasce dotado das aquisições históricas da humanidade. Resultando estas do desenvolvimento das gerações humanas, não são incorporadas nem nele, nem nas suas disposições naturais, mas no mundo que o rodeia, nas grandes obras da cultura humana. Só apropriando-se delas no decurso da sua vida ele adquire propriedades e faculdades verdadeiramente humanas... (LEONTIEV, 1978) Isso implica que a cada fase do seu desenvolvimento o homem adquire os meios para intervir de forma competente no seu mundo e em si mesmo. Bock, quando aborda a concepção de mundo do sujeito, comenta: Ao escolher uma forma de se envolver no mundo do trabalho bem como a atividade que vai desenvolver, a pessoa mobiliza imagens que adquiriu durante sua vida [...]. ―Ao pensar numa profissão, a pessoa mobiliza uma imagem que foi construída a partir de sua vivência por meio de contatos pessoais, de exposição à mídia, de leituras (biografias, romances, revistas etc.), identificação ou um afastamento da profissão‖. (BOCK, 2002, p. 78-79) 70 Partindo do pressuposto de que não existe o indivíduo isolado em nossa sociedade a pergunta que nos cabe é: Existe liberdade de escolha e igualdade de oportunidades em nossa sociedade para todos? Essas ideias de igualdade, liberdade e individualidade, ocultam a desigualdade social existente em nossa sociedade e o processo de construção dos sujeitos em condições sociais desiguais. 4.3 EDUCAÇÃO E ENSINO MÉDIO No Brasil, a oferta de Ensino Médio é majoritariamente de responsabilidade do poder público estadual. Em 2009, dos mais de oito milhões de matrículas computadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais (INEP), 85,9% eram oriundas de redes estaduais de ensino. Matrículas no Ensino Médio nas redes federais e municipais perfaziam apenas 2,4% e na rede privada 11,7%. Para alguns, como na opinião do membro do Conselho Estadual de Educação do Estado de São Paulo e professor da UNESP (Universidade Estadual Paulista ―Júlio de Mesquita Filho‖) João Palma Filho, tem havido, nos últimos tempos, ampla discussão e avaliação de propostas para uma etapa de ensino cada vez mais em evidência: o Ensino Médio. Em recente entrevista ao boletim Juventude na Cena, João Palma partilha suas opiniões sobre a necessidade de um currículo mínimo para o Ensino Médio, que possa ser construído de maneira democrática e participativa e não seja o fechamento da escolaridade elementar do brasileiro que, assim, torna-se um candidato potencial para o ensino superior, independentemente de sua vontade. É bom dizer que nem todo mundo quer ir para o Ensino Superior e não há problema nisso, se a pessoa tiver acesso a uma boa educação básica. Mas o Ensino Médio continua espremido entre o Ensino Fundamental e o Superior, servindo apenas como uma etapa preparatória para este último. O campo educacional, de modo geral, acabou contaminado por um discurso politicamente correto, que é o seguinte: ―a escola deve formar para a cidadania‖. Outro senso comum é o de que a escola deve desenvolver no aluno o ‖pensamento crítico‖. O que nos chama atenção nesses argumentos é o fato 71 de que são menos frequentes afirmações sobre a função da escola no que diz respeito ao conteúdo e seu papel na formação para o trabalho. Nossa preocupação é a seguinte: sem conteúdo e sem trabalho, qual é a cidadania que a escola consegue promover? O maior problema do Ensino Médio não é ter ou não conteúdo, mas a escolha desse conteúdo. O que interessa para o jovem de hoje? E o que é importante que esse jovem aprenda hoje? Sobre essa temática, mencionamos a seguir um depoimento de um jovem estudante do Ensino Médio. 4.4. Percepções de um jovem do Ensino Médio ―Marcelo Teixeira de Morais,11 17 anos, é estudante do 3º ano do ensino médio e participante do projeto Jovens Agentes pelo Direito à Educação (JADE). A situação da educação hoje no estado de São Paulo pode ser resumida pela palavra precariedade. No caso do Ensino Médio, considero que é um ensino completamente defasado e com uma estrutura falida. Muitos jovens estão na escola sem ter clareza do porquê de estarem nela. Vão para lá, porque é um espaço de encontro, porque é lá que estão seus amigos. Mas os sentidos desta escola não são de conhecimento dos estudantes. A precariedade não é uma realidade exclusiva da educação.‖ Diante desse quadro, é importante mencionar, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional e a Reforma do Ensino Médio, que define novas diretrizes. A partir da Lei Nº 9.394 e do Decreto-lei Nº 2.208/97, e também pela Lei Nº 11.684/08, novas relações são estabelecidas. No momento em que o Ensino Médio é alvo de políticas governamentais, de preocupações nacionais e de avaliação, vale a pena relatar pesquisas que lançam luz sobre esse nível de ensino, para, no mínimo, abalar mitos veiculados pela mídia sobre as contradições entre escola pública e escola particular. Em seu trabalho "Ensino médio: função do estado ou da empresa?", Whitaker (2001) nos revela que a mais importante descoberta de sua pesquisa foi a de relacionar fatores complexos ligados ao preparo para o vestibular. Observou que, embora fugindo da escola pública, supostamente inoperante, e frequentando o Ensino Médio e mesmo o Ensino Fundamental em escola 11 Texto produzido a partir de entrevista concedida no dia 24/maio/2010, “Juventude na Cena.” In: Ação Educativa nº13, junho de 2010. 72 particular, os privilegiados necessitam mais do que nunca daquilo que há 10 anos batizou-se de "efeito cursinho". No entanto, a categoria dos sem-cursinho sofre quedas vertiginosas na proporção entre inscritos e matriculados, demonstrando que pagar mensalidades caríssimas durante os anos que antecedem o vestibular pode ser útil a muitos propósitos dos pais, quando investem na educação dos filhos, mas não elimina os gastos com um, dois e até três anos de cursinho. Outros trabalhos surgiram com o propósito de tratar especificamente da reforma do Ensino Médio, um deles, uma tese de doutorado. Vianna (2001), realizando uma pesquisa, propõe três hipóteses: em primeiro lugar, a reforma do ensino não representaria um avanço em relação ao processo de universalização de ensino médio; em segundo, esta agudizaria o dualismo entre formação geral e formação para o trabalho; por fim, a reforma não alteraria as condições de precariedade com que se realiza o trabalho de ensino e aprendizagem no Ensino Médio. ―Por que a gente tem que ir à escola? Para aprender o quê? O que seria um conteúdo básico para o ensino médio? Na minha escola, os professores têm foco no vestibular. São aplicados testes e a gente realiza exercícios que caíram na FUVEST e na PUC, muitas vezes, em meio a ameaças. O vestibular aparece como uma polícia que garante o êxito do aluno. Não acho que minha escola seja uma regra, pelo contrário.‖ ―Mas o foco tem que ser mesmo o vestibular? Será que todo jovem tem que ir para a faculdade e quer isso? Se não, qual é a proposta para quem não quer? Eis a questão... Como não conheço outra escola, não tenho uma proposta, mas seria possível pensar numa escola que ajudasse os jovens nas suas vivências, no vestibular e no mundo do trabalho? Por que não fazer diversos projetos de ensino médio com focos e objetivos diferentes, sem que um valesse mais do que o outro? Não é uma idéia que eu tenha muito bem formulada e quando comentei isso com amigos eles disseram que não podia ser. ― Mas não pode? De toda forma, essa idéia vai na contramão do que vejo acontecer, porque hoje todo mundo tem o mesmo material, o mesmo currículo. Se bem que, na escola em que estudo, os livros didáticos e os livros dos alunos, fornecidos pelo governo estadual, têm sido utilizados como material de apoio. Para apoiar a mesa. Apenas alguns professores recorrem a esse material ou ele é utilizado em momentos muito específicos. O argumento recorrente dos professores para criticá-lo é de que ele oferece conteúdos que estão muito defasados quando comparados aos saberes e aos conhecimentos que são problematizados pelos professores da escola. Essa afirmação pode estar correta, mas o uso pouco sistemático desse material não é, em minha opinião, o problema. 73 Desde que foi implementada a reforma, alguns professores têm recorrido ao SARESP para atestar que nossa escola está acima da média estadual, como se estivéssemos isolados dos problemas que afetam outras escolas. ―Nossa escola é boa‖. Meus questionamentos sobre esse assunto são os seguintes: a política atual não está incentivando a competição entre as escolas? Até que ponto incentivar a competição entre escolas de ensino médio favorece a educação? Será que, se todas as escolas se ajudassem os resultados não seriam melhores? A cooperação não ajudaria mais do que a competição com base em provas e avaliações? Na verdade, tenho mais perguntas do que respostas e a impressão de que consertar é um processo sempre muito difícil. Embora descabido, penso que, às vezes, é melhor destruir tudo o que já existe para reconstruir outra coisa. Isso talvez diminuísse a existência de programas que são ―tapa buraco‖. Não tenho muita clareza sobre o que resolveria, mas certamente ―tapa buraco‖ não dá certo. É preciso medidas muito mais abrangentes para a educação, até porque há clareza de que os problemas são sérios: as pessoas não estão se formando direito, há um monte de gente criticando e se manifestando contrariamente a tudo que está sendo feito.‖ Como pudemos observar pelo relato de Marcelo, estudante do Ensino Médio, e seu questionamento sobre o sistema educacional, especificamente do Ensino Médio, apesar de o país ter uma legislação como o Estatuto da Criança e do adolescente – ECA, que proporciona ao adolescente o direito à educação, visando ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e qualificação para o trabalho, a escola não possibilita a inserção dos alunos e nem os habilita para o mundo do trabalho. Esse fato poderia sugerir que o jovem brasileiro teria hoje maiores chances de ingressar no mercado de trabalho em profissões que exijam maior qualificação, além de uma maior possibilidade de cursar o ensino superior, ou um curso técnico profissionalizante. Mas tudo isto está ocorrendo? Entre a escolha profissional realizada e a efetivação dessa escolha, há um caminho repleto de fatores condicionantes que podem interferir na realização do curso ou da profissão desejada. Entretanto, para muitos especialistas em educação, a escola tem uma importância fundamental para o desenvolvimento do ser humano. O panorama apresentado por Marcelo nos remete a algumas inquietações de Constantino (2004). Como conciliar a teoria e a prática no sistema educacional vigente? Como formar um profissional com situações de ensino-aprendizagem que promovam a aproximação entre o pensar e o agir, 74 isto é, que gere um novo cenário para que os aprendizes vivenciem novas formas de sentir, pensar e agir? Dessa forma, a escolha profissional do aluno do Ensino Médio público coloca-se como questão, visto que elementos como a necessidade de trabalhar, a falta de recursos para pagar um cursinho pré-vestibular ou uma faculdade, a impossibilidade de concorrer em pé de igualdade com alunos oriundos de classes economicamente favorecidas, podem ter um peso decisivo na concretização de suas escolhas. Vivendo numa sociedade capitalista que não oferece emprego para todos, que emprega profissionais qualificados para trabalhos não qualificados, que incentiva a competição individual para o ingresso na universidade e no mercado de trabalho, as reais chances de realização das escolhas dos alunos egressos do Ensino Médio público mostram-se bastante reduzidas, já que as opções profissionais são entremeadas por fatores sociais e seus determinantes políticos e econômicos. Neste sentido nos reportamos ao pensamento de Vygotsky (2003) que nos revela que [...] o trabalho não é nem método e nem meio de ensino, mas a matéria-prima da educação profissional. Nela não só se introduz o trabalho na escola, mas também a escola no trabalho, sendo a atividade laboral a base do processo educativo. (Vygotsky, 2003 p. 182-188). ... o que implica que uma das alternativas para o Ensino Médio seriam as escolas técnicas profissionalizantes, que podem de certa forma capacitar o jovem para o mundo do trabalho e oferecer um ambiente para o ensinoaprendizagem. Rossler (2007) destaca a importância de refletirmos sobre as relações entre as esferas do mundo do trabalho e da educação. Considera que a educação e o trabalho são interligados e que recusar-se a encarar esse dado seria uma forma de negação da própria especificidade da educação. Contudo, para Rossler: Educação e trabalho sujeitam-se, submetem-se, à lógica e aos interesses da acumulação de capital, uma vez que quem passa a ditar as formas de trabalho, o que deve ser socializado em termos dos requisitos necessário para o processo de trabalho e ainda como deve ser socializado, é o próprio sistema econômico, político e social vigente. [...] Educação e trabalho, portanto sempre estiveram 75 intimamente, ou melhor, ontologicamente, interligados num mesmo movimento de produção e reprodução do gênero humano, o qual se expressa na dialética maior entre os processos ontológicos de apropriação e objetivação (ROSSLER, 2007, p. 96-101). Isso implica que as interações entre as esferas da educação e do trabalho têm contribuído para o ajuste da educação às necessidades de reprodução do capital. E na medida em que se fundamentem em teorias psicológicas do conhecimento e aprendizagem que reproduzem os elementos valorativos presentes no universo ideológico contemporâneo, a educação escolar reproduz, de ponta a ponta, da seleção dos seus conteúdos aos métodos de ensino, a lógica e os interesses dos sistemas capitalistas de produção, perdendo então, sua própria especificidade como mediação social fundamental na reprodução tanto dos indivíduos como do gênero humano. Acreditamos que nenhum sistema educativo é capaz de manter na nova geração a estabilidade afetiva e a integridade mental, a menos que esteja unido em uma estratégia comum com as influências sociais que atuam fora da escola. Devemos incentivar as forças positivas da industrialização, onde a escola passaria a ser uma instituição local, centrada democraticamente no seu educando e na sua comunidade local, vivendo sob sua circunstância. 4.4.1. PERCEPÇÕES DOS JOVENS PARTICIPANTES DA PESQUISA SOBRE A ESCOLA Determinantes individuais e sociais não devem ser a função ideológica do processo de ensino-aprendizagem que medeia interesses antagônicos, de um lado o do capital e do outro o do trabalho. O quê e como se ensina na escola não deveria depender dos interesses daquele que financia a escola. Podemos dizer então que a rede de ensino oficial formal se torna indispensável? Em absoluto e este é o posicionamento de (FREITAG, 1986) sobre os setores educacionais: [...] transmitem uma ideologia eclética em que se combinam elementos de ideologia democrática com a tecnocrática (educação com mecanismo de democratização e educação com investimento) e que em seu sincretismo asseguram a manutenção da falsa consciência das classes subalternas. (FREITAG, 1986, p.137) 76 Isso implica que parte da população, ao acreditar pertencer a um sistema educacional democrático, procura-o para ascensão social, e esses alunos, se não obtiverem êxito na escola, nem no mercado de trabalho, acreditam que eles são os culpados, por inferirem que ambas as esferas (pública e particular) são regidas pelo princípio da igualdade de chances, onde os culpados não percebem ainda a institucionalização da desigualdade de chances consumada entre o ensino público e o particular. Nesse sentido, fazse necessário que o sujeito procure se conscientizar e conhecer. Severino (1992) diz que o conhecimento pressupõe a existência de um sujeito conhecedor e de um objeto a ser conhecido, mediado pelo ato de conhecer. É a relação estabelecida entre o sujeito e o objeto, na qual o sujeito aprende informações a respeito do objeto. É a atividade do psiquismo humano, que torna presente à sensibilidade ou à inteligência um determinado conteúdo, seja ele do campo empírico ou do próprio campo ideal. (SEVERINO, 1992, p. 38) Dentro dessa perspectiva, será oportuno repensar e questionar o papel da escola como trabalho educativo. A escola prepara as crianças para o mundo real? Estude com afinco, tire boas notas e você encontrará um bom emprego com um salário alto? A área de educação está possibilitando que as escolas, além do conhecimento formal, gerem capacitação e profissionalização aos estudantes? Durante esta pesquisa de ―Estudos e Repercussões da Prática Familiar e Escolar na Escolha do Trabalho do Jovem ‖ coletamos diversos depoimentos dos jovens participantes sobre o papel da escola em suas vidas. Os resultados desse conjunto de opiniões são bastante relevantes para o tema que exploramos neste capítulo, por possibilitarem análises do impacto da escolarização sobre aspectos das configurações estatais, sociais e familiares. No nosso entender, as premissas esboçadas por Vygotsky em sua abordagem, já mencionadas neste trabalho, são extremamente importantes para a compreensão do tema em pauta. A seguir. percepções dos jovens participantes desta pesquisa sobre o papel que a escola exerce em suas vidas: 77 (P1) ―A escola sempre cumpriu com suas responsabilidades e está sempre em busca de seus objetivos.‖ (P2) ―Se a pessoa além de estudar tiver boa vontade, sim, mas nem tudo o que acontece na vida da gente tem há ver com a escola.‖ (P3) ―Por bem ou por mal, ela nos coloca em contato com o mundo, mas proporciona diariamente diversas experiências.‖ (P4) ―A escola serve para adquirir conhecimento. Venho aprendendo muito com a escola, sem contar que convivemos com pessoas muito diferentes umas das outras e temos que respeitálas, aprender a conviver com as diferenças.‖ (P5) ―Para formar um indivíduo com conhecimento, para saber o que está falando e não ser ignorante e um (fofolete) do governo.‖ (P6) ―Para socializar e trazer conhecimento ao indivíduo.‖ (―P7) ―Para aprender a viver em sociedade, uma preparação e até um apoio nos estudos, pois estudar em casa também dá certo.‖ (P8) ―Simples e unicamente para formar o cidadão participativo; isto engloba todo o resto.‖ (P9) ―Para educar e ensinar as crianças a serem boas pessoas no mundo.‖ (P10) ―Para preparar para ter uma boa profissão, para ensinar algumas coisas para os filhos.‖ 78 (P11) ―Nos dá lições sobre a vida, apresenta o que é necessário: socializar e preparar a pessoa para o trabalho.‖ (P12) ―Preparar para a vida profissional.‖ (P13) ―A escola serve para ajudar o indivíduo se enquadrar na sociedade e ajudar no preparo para um futuro brilhante.‖ Diante dessas respostas, observamos que questões como educação e trabalho estão interligadas dentro desse contexto. Notamos também que o papel da escola para 15% dos jovens está vinculado ao processo de socialização; para 15% está relacionado à educação; para 33% à aquisição de conhecimento e, por fim, para 37%, cabe-lhe proporcionar crescimento. Os jovens sujeitos desta pesquisa acreditam que a escola tem contribuído para o seu futuro profissional (88,8%), por considerarem a escola como referência para que possam adquirir conhecimentos, trocar experiências, socializarem e se prepararem para o mercado de trabalho de forma humanista. Além de ser uma estrutura sólida que lhes dá base para a sua formação, cumprindo o papel social a que se propõe. Por estarem ainda fora do mundo do trabalho, acreditamos que os jovens não têm as dimensões exatas das exigências do mercado do trabalho. Um dos fatores seria a questão da experiência, ou seja, a falta dela. Onde adquirir essa experiência, na escola? Há ainda um discurso na educação para que o aluno domine os conteúdos antes da prática, mas quando adquirir experiência? A qualificação resolverá o problema de todos? A educação resolverá todos os problemas de demanda de vagas de trabalho? O estudo também nos revela que a escola, na opinião dos jovens pesquisados, tem a função de formar cidadãos participativos que não sejam passíveis de manipulação pelo poder. Segundo Foucault o poder não existe, o que existem são práticas ou relações de poder. O que faz com que o poder se mantenha e que seja aceito é simplesmente por que ele não pesa como uma força que diz não, mas que de fato permeia, produz coisas, induz ao prazer, forma saber, produz discurso. Deve-se considerá-lo como uma rede produtiva que atravessa todo o corpo social muito mais do que uma 79 instância negativa que tem por função reprimir. (FOUCAULT, 2003, p. 181) Diante de outras questões abordadas relacionadas a outras práticas educacionais como, por exemplo, realização de cursos extracurriculares, pudemos observar que (66,6%) participam dessas atividades, sejam esses cursos pré-vestibulares, de idiomas ou profissionalizantes. Já relacionado a práticas culturais percebemos, também pelos dados desta pesquisa, que a totalidade dos jovens pesquisados pratica ou frequenta atividades socioculturais relacionadas a artes, esportes e lazer. Porém, apenas parte dessa população tem o hábito de ler livros sem a exigência da escola (66,6%), talvez porque, em tempos atuais, a Internet tenha ocupado grande parte do tempo livre de jovens que não trabalham. Diante disto constatamos que os entrevistados, na sua grande maioria, têm acesso à informática e a utilizam em seus domicílios (88,9%) e que em (78%) dos casos pertencem a alguma comunidade virtual de sites de relacionamentos, em detrimento de outras comunidades como religiosas (11,%) e culturais (11,%). Diante desse panorama de cultura e desenvolvimento, os dados da pesquisa sugerem uma posição sobre algumas características apresentadas, como: a prática e atividades culturais e esportivas, e de tecnologia. No aspecto da tecnologia é notório que nos últimos anos, os programas educativos proliferaram rapidamente, invadindo residências e escolas, seduzindo estudantes, professores e toda a família com recursos de multimídia, muita diversão e informação. Paralelamente, o surgimento da Internet também trouxe novos conhecimentos e consequências, além de tornar todo tipo de informação mais acessível a todos. Segundo Pesquisa do Ibope/Nielsen (2009), o brasileiro, no mês de junho daquele ano navegou, em média, 44h59 na Internet. O dado é 10,6% maior do que no mês anterior. O levantamento estima que até o primeiro semestre de 2009 existiam 62,3 milhões de pessoas com algum tipo de acesso à Internet no Brasil, incluindo escola, bibliotecas e lanhouses. Os que possuem uma conexão ativa de Internet em casa são 25,6 milhões. A atividade mais praticada na Internet é o uso de programas de mensagens instantâneas, que representou uma fatia de 7h15 da média do tempo de uso no mês. A segunda atividade é a navegação em comunidades de relacionamento, que consumiu 80 4h17. Entre as dez categorias analisadas na pesquisa, o tempo de navegação caiu em apenas três: jogos, sites de busca e vídeos ou filmes. A pesquisa também demonstra que o Brasil, no mês de junho de 2009, ficou à frente de países como Estados Unidos, Japão e Reino Unido em tempo gasto na rede. O poder da tecnologia das comunicações sobre o desenvolvimento é imenso. Satélites, computadores, fax, telefones, redes informatizadas, tudo isso globalizou a informação, interligando o mundo‖. (QUEIROZ e AZEVEDO, 2008, p. 55). Contudo é importante que os jovens saibam usufruir da tecnologia de maneira satisfatória. Por meio da informática é possível acessar enormes bibliotecas de dados a partir de algumas teclas de computador. Mas o mais importante nesse fluxo é obter informações apropriadas e desenvolver a capacidade para analisá-las. [...] jovens com acesso a toda essa tecnologia, empregam sua inteligência em caminhos tortuosos, ilegais, denotando assim falta de educação e conscientização melhor direcionada, desde os primeiros ensinamentos. Não só a falta de recursos produz a alienação e a ignorância. O excesso tem nos mostrado que as conseqüências são bem mais perniciosas. Toda forma de saber serve para o bem e para o mal. (QUEIROZ e AZEVEDO, 2008, p. 55) A tecnologia e a cultura (arte) também são uma prática dos jovens pesquisados; neste sentido, compartilhamos com o posicionamento de Vygotsky: A arte tem função pedagógica, nos permite utilizar a representação simbólica de conceitos como: o controle consciente do comportamento, lembrança voluntária, memorização ativa, pensamento abstrato, raciocínio dedutivo, capacidade de planejamento, que foram emitidos por Vygotsky e sintetizados como funções psicológicas superiores (VYGOTSKY in REGO, 2002, p. 24) Outra característica encontrada nos relatos dos jovens aponta na direção das práticas desportivas, envolvendo, neste caso, o corpo. Muitos autores se referem ao corpo, entre eles Foucault. O domínio, a consciência de seu próprio corpo só puderam ser adquiridos pelo efeito do investimento do corpo pelo poder: a ginástica, os exercícios, o desenvolvimento muscular [...] mas a partir do momento em que o poder produziu este efeito como consequência direta de suas conquistas, emergiu inevitavelmente a reivindicação de seu próprio corpo pelo poder [...]. O poder, longe de impedir o saber, o produz. Se foi possível constituir um saber sobre o corpo, foi através de um conjunto de disciplinas militares escolares. É a partir de um 81 poder sobre o corpo que é possível um saber fisiológico, orgânico sobre o corpo. (FOUCAULT, 2004, p.146-149) A televisão na questão do lazer também é uma referência para alguns jovens. Entretanto, a televisão pode ter outra dimensão entre a dominação ideológica e a necessidade de educar a sociedade brasileira, diante das mudanças econômicas e sociais do país. Foucault (1996), ao estudar a Sociedade Disciplinar, constata que sua singularidade reside na existência do desvio diante da norma e, assim, para normalizar o sujeito moderno, foram desenvolvidos mecanismos e dispositivos de vigilância capazes de interiorizar a culpa e causar no indivíduo remorsos por seus atos. Se os dispositivos do poder, segundo Foucault, buscavam, no trabalho, controlar o tempo do cidadão para torná-lo mais útil, economicamente, na TV, o controle do tempo se dá em seu momento de não trabalho, após sua jornada de trabalho, de forma a tornálo menos útil, talvez, em seu aspecto político. A disciplina televisiva .....pode ir um pouco além, fabricando fenômenos, por meio da vigilância hierárquica que se estabelece entre dois gêneros: o telejornalismo e a telenovela. Por outro lado, a televisão também pode ter uma melhor aplicação e cabe ao homem utilizá-la de forma adequada e em prol de objetivos sociais, por exemplo, como vem sendo utilizada em alguns momentos em prol de uma educação à distância. Contudo, não podemos perder de vista as contradições presentes da história que proporcionam transformações da realidade. Cabe aos educadores escolher de forma crítica entre uma educação que traga contribuições para que a sociedade se transforme, ou uma educação que esteja voltada para a reprodução e dominação, ou seja, para o empobrecimento da individualidade humana. (Rossler, 2007). E, por fim, para pensarmos em educação de qualidade hoje é preciso ter em mente que a família esteja presente na vida escolar dos alunos jovens em todos os sentidos. Ou seja, é preciso haver uma interação entre escola, família e indivíduo. Neste sentido, a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) formaliza e institui a gestão democrática nas escolas, colocando em pauta que a família é imprescindível, pois é um espaço de orientação na construção da identidade do ser humano e deve promover uma parceria, 82 juntamente com a escola, a fim de contribuir para o desenvolvimento integral da criança e do jovem. Dayrell (1996) busca contribuir com esta discussão quando aborda o seu olhar sobre a escola, levando o entendimento da mesma enquanto espaço sócio-cultural, buscando compreender alunos e professores como sujeitos sócio-culturais, ou seja, os sujeitos que reproduzem e elaboram uma cultura própria a partir das experiências sociais vividas por eles. Afirma que esses sujeitos na escola desempenham um papel ativo no cotidiano, que define o que a escola é realmente, pois esta pode possibilitar ou limitar, conflitando ou dialogando constantemente com a sua organização. Concordamos com o autor que a escola deve ser uma instituição dinâmica, fruto de um processo de construção social. Com esse olhar, ressaltamos que determinados aspectos e dimensões presentes no cotidiano escolar não devem ser neutralizados ou julgados sem importância para a educação por serem muitas vezes sequer notados. Buscamos revelar a forma como os sujeitos, na escola, lidam com o espaço, o tempo e com os seus ritos cotidianos em que os atores vivenciam o espaço escolar como uma unidade sóciocultural complexa, onde convivem diversidades que devem ser assumidas e tratadas como um elemento desencadeador do processo educativo. Acreditamos que a escola deve ser o lugar onde o aluno deve ser formado de forma ampla, fazendo com que o processo de humanização seja aprofundado nesse indivíduo, aprimorando as dimensões e habilidades que são comuns a nós, seres humanos. Pensar que o acesso ao conhecimento, às experiências culturais, às experiências sociais diversas, contribuem como suporte para desenvolvimento do aluno de forma individual, como sujeito sóciocultural, contribui para ajudar a aprimorar a vida social desses indivíduos. Faz-se necessário o aprofundamento e ampliação das análises que, como afirma Dayrell (1996), buscam apreender a escola na sua dimensão cotidiana, apurando nosso olhar sobre a instituição escolar, seu fazer e seus objetivos, e contribuindo desta forma para a problematização da função social da escola. Será oportuno repensar a escola. A escola prepara as crianças para 83 o mundo real? Estude com afinco, tire boas notas e você encontrará um bom emprego com um alto salário. Atualmente, boa formação e notas altas não bastam para garantir o sucesso de alguém, principalmente o dos jovens adolescentes aqui retratados. O mundo mudou. A maioria dos jovens em busca do primeiro emprego encontram dificuldades e principalmente aqueles em situação de vulnerabilidade, da periferia dos grandes centros. Os pais esperam resultados. Eles se concentram muito na escolaridade de seus filhos, têm como preocupação o desemprego, o desvio social, a inserção laboral, mas para tanto se faz necessário um trabalho educativo na atividade laboral em que as exigências pedagógicas relativas ao desenvolvimento pessoal e social do educando prevaleçam sobre o aspecto produtivo. Acreditamos que o trabalho é um meio de socialização e interação para o jovem. O primeiro emprego pode ser decisivo para a sua vida. A juventude brasileira é maior que as dificuldades existentes. É com essa afirmação que Pochmann (2007) inicia sua análise sobre a situação do primeiro emprego do jovem no Brasil. Superar as barreiras para a melhor distribuição de renda e melhores condições de educação é parte importante da transformação da realidade controversa e difícil do jovem. Demonstrar que o emprego juvenil está associado à precarização do trabalho, à falta de profissionalização, e à urgente geração de emprego, são caminhos para que possamos pensar nas políticas de geração de emprego juvenil colocadas hoje em nosso país. Pochmann (2007) analisa a situação da educação no Brasil como fator fundamental para a superação de exploração no trabalho juvenil. A capacitação do jovem e a possibilidade de postergar sua entrada no mercado de trabalho são caminhos apontados para as políticas públicas juvenis de primeiro emprego. O sistema educacional que deveria formar o jovem, dentre outras possibilidades, também para o mercado de trabalho, contribui para sua exclusão, pois a escola ainda não incluiu as novas tecnologias, que para os jovens são parte de seu dia a dia. Outro fator relevante para a melhoria e inclusão do ensino no Brasil é o investimento, propiciando ao jovem ter mais condições de acesso e permanência no ensino, não sofrendo com as barreiras 84 de falta de vagas e de desestímulo nas escolas. O ensino é capaz de evitar a marginalização juvenil. O jovem requer espaço e oportunidade para viver o seu tempo, munido de condições suficientes tanto para ampliar o tempo de não trabalho, associado ao processo educacional, bem como uma melhor preparação para o ingresso em condições adequadas no mercado. [...] o jovem brasileiro tem garra e sabe o que quer (POCHMANN, 2007, p. 114). Fazendo uma breve reflexão, tendo em conta a retrospectiva histórica da educação, percebemos que nos anos 50 a educação estava a serviço de pequenos grupos, favorecendo uma elite, que tinha como propósito formar lideranças com conteúdos que favoreciam a reflexão, a crítica, enfim, que levavam ao pensamento e à instituição de um saber. Logo em seguida, com o processo da industrialização, nos deparamos com outra situação, em que a grande massa da população precisava aprender a ler, a escrever. Tem início, nesse momento social, um processo de educação de massas, onde muitas escolas são construídas com o objetivo de formar mão de obra para o mercado de trabalho, onde o método escolar se assemelha a uma linha de produção: produzia-se com muita rapidez, o que implicava uma escola seriada. Sob essa ótica, acreditamos que a escola segmentou o saber; produz-se um conhecimento desvinculado da vida real e, no caso dos jovens ―objeto‖ deste estudo, acreditamos que a escola não prepara o jovem para o mercado de trabalho. Se a escola produz um conhecimento fragmentado, e vivemos de maneira totalitária, onde temos de resolver várias situações ao mesmo tempo, como esse jovem em formação participará do mundo do trabalho globalizado, onde o conhecimento encontra com a vida? 85 5. INSERÇÃO DE JOVENS E O MUNDO DO TRABALHO Este capítulo faz uma reflexão sobre o mundo do trabalho que afeta alguns coletivos, de modo especial os jovens. A partir de uma análise do próprio significado do trabalho e seus sentidos, abordaremos os efeitos dessa nova organização produtiva do trabalho. O que nos leva a interrogações em torno do lugar da esfera do trabalho na vida dos jovens em sua etapa de transição para a vida adulta, de suas expectativas para esse espaço, diante de um cenário de avanço tecnológico, globalização, desemprego, das novas ou não relações entre educação e trabalho e das ações públicas implementadas por diferentes atores para lidar com esse panorama. Neste sentido, ao final deste capítulo os participantes evidenciam suas respostas sobre a percepção que têm do trabalho. Para quem pensa a juventude e a percepção de valores, seus sentidos e seus significados, faz-se necessária uma melhor compreensão da realidade juvenil, entender os discursos que os jovens têm, em suas diferentes formas e visões. São muitos os caminhos possíveis, e entre eles está o trabalho. 5.1 TRABALHO: SIGNIFICADOS E SENTIDOS Podemos definir trabalho como toda atividade na qual o ser humano utiliza sua energia física e psíquica para satisfazer suas necessidades ou para atingir um determinado fim. Por intermédio do trabalho, o homem acrescenta um mundo novo à cultura e ao mundo natural já existente. O trabalho é, portanto, a ação ou o resultado de determinado esforço realizado pelo homem. E a ação da força do trabalho também é percebida como capacidade de trabalho, que na sociedade do capitalismo é tida como mais uma mercadoria que é comprada e vendida, numa transação entre o trabalhador – possuidor da força de trabalho – e o capitalista – o detentor do capital. (CORREIA, 2000, p.13) 86 Quando pensamos sobre o papel do trabalho, verificamos que ele nos permite expandir nossas energias, desenvolver nossa criatividade e realizarmos potencialidades. Mas, sobretudo, o trabalho continua sendo vital para o sujeito e para a sociedade, pois engendra uma contribuição social possível. A organização do trabalho expressa um modo de ser, de pensar e de agir de uma determinada civilização. Diante de várias discussões que envolvem o homem e o trabalho observamos que o processo de racionalização e otimização está formatando o sistema de produção. Dos trabalhadores que permanecem no sistema produtivo, exige-se grande variedade de habilidades e flexibilidade, soluções criativas, alto grau de envolvimento com a empresa e capacidade para tomar conhecimento de todo o processo produtivo. Portanto, o homem deve ser capaz de realizar várias atividades, bem como intervir no processo e no ambiente de trabalho. Em contrapartida, existe a intensificação do trabalho por meio do enxugamento da estrutura e também dos métodos de trabalho. Diante desses fatores, grandes mudanças e desafios irão fazer parte desse contexto, como a evolução acelerada do conhecimento humano. Pessoas cada vez mais conscientes de seus direitos e do valor que têm; acesso a informações, novos tipos de trabalho, profissões e especializações; a crescente preocupação com a conservação ambiental, somados à globalização e o impacto das novas tecnologias... Tudo isso implica que o impacto das novas tecnologias não deverá ficar somente no âmbito das empresas, e sim, ser inseridas nos parâmetros curriculares oficiais e não aparecer de modo tímido. Nós precisamos de uma educação em movimento e a mesma deverá ser inserida na vida das pessoas, ocasionando múltiplos benefícios como forma de inclusão. Porém, essas questões da modernidade são processos que geram incertezas e repercutem nas diversas dimensões na sociedade. Entendemos a globalização como uma organização civilizatória, fonte de possibilidades e impossibilidades que desafiam o desenvolvimento humano. Tanto quando produz o desemprego, a globalização acentua o fascínio pelas descobertas tecnológicas, abre caminhos ao redescobrimento do Planeta e faz do homem um ser especial. [...] A globalização é um movimento histórico que assume configuração própria e interfere no local e vice-versa. Como desdobramento da modernidade, ultrapassa diferenças de tempo e espaço, elimina fronteiras geográficas, varre distâncias de raças, nações, religiões e ideologias, amortece antagonismos de classes. (SOUZA NETO, 2004, p. 92-93) 87 Os impactos da competição, tecnologização e globalização na relação homem–trabalho estão marcados por uma série de mudanças de caráter estrutural para a qual contribui o enorme avanço do conhecimento científico e suas correspondentes inovações na área produtiva e globalizações do cenário mundial. A globalização como um processo não pode ser reduzida à dimensão econômica. Globalização ―significa a experiência cotidiana da ação sem fronteiras nas dimensões da economia, da informação, da ecologia, da técnica, dos conflitos transculturais e da sociedade civil‖ (BECK, 1999, p. 46). Nesse contexto, dinheiro, tecnologia, mercadorias, informações, bem como as pessoas, ultrapassam as fronteiras, como se elas não existissem. A separação dos continentes e das nações torna-se, assim, uma questão de aparência. Para Aguiar (2005) a globalização cria novos espaços sociais que podem modificar as culturas, os valores locais, exigindo, assim, uma nova composição no lugar da que existia. Gorender (1997) define a globalização como a aceleração intensa dos processos de internacionalização, inerentes ao capitalismo desde sua fase original nos séculos 15 E 16. O autor ainda destaca os efeitos da terceira revolução tecnológica, centrada na informática e nas telecomunicações, com influência dominante a partir da década de 70 do século passado. No caso das privatizações de empresas no Brasil, como as das áreas de telecomunicações na época do governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, observamos que o governo privatizou para não ficar com a tecnologia atrasada, porque se supõe que as empresas não tinham condições de desenvolvimento tecnológico. Nos tempos atuais seria pertinente uma privatização dos terminais de aeroportos dos principais centros do país. O importante é que tenhamos grandes empresas públicas no país que funcionem como repartições públicas, mas sim, que funcionem com poder de competição e não político, e não podem compactuar com o avanço do poder político no controle das empresas para gerar apenas recursos positivos para campanhas políticas. Há relativamente poucos anos, afirmou-se que o desenvolvimento dos países mais pobres dependeria do seu isolamento do mercado mundial e da confiança apenas nas próprias forças. A experiência recente demonstrou que 88 os países que foram excluídos registraram estagnação e recessão, e aqueles que se permitiram sair do isolamento, conseguiram entrar na corrente geral de interligação das atividades econômicas em nível internacional. Mas, sobretudo será necessário abandonar uma mentalidade que considera os pobres — pessoas e povos — como um fardo e como importunos, que pretendem consumir tudo o que os outros produziram. Os pobres pedem o direito de participar no usufruto dos bens materiais e de fazer render a sua capacidade de trabalho, criando assim um mundo mais justo e mais próspero para todos. A elevação dos pobres é uma grande ocasião para o crescimento moral, cultural e até econômico da humanidade inteira. Para alguns especialistas, como Dominique Peccoud,12 a globalização é marcada por uma dinâmica baseada no poder do mais forte, onde não há lugar para aquele que perde e onde, contrariamente, o vencedor é sempre mais vencedor. Para conciliar globalização e desenvolvimento humano, analisa que é necessário inserir regras de distribuição, de igualdade, em uma sociedade onde coexistem três dimensões: em primeiro lugar, a empresa e o livre mercado, que são necessários porque é exatamente ali que se cria a riqueza. Em segundo lugar, os "governos", que vão promover a redistribuição da riqueza para o bem do mercado e para uma maior coesão social. Em terceiro lugar, a estruturação da sociedade civil – isto é, a família, as associações locais ou internacionais como Organizações Não Governamentais – ONGs e também todas as grandes tradições religiosas e filosóficas, porque são necessários valores compartilhados para se criar uma lei. Finaliza enfocando que o liberalismo desenfreado viveu o que tinha para viver e os grandes empreendedores percebem isso atualmente. Então devemos construir uma saída, precisamos ter consciência de tudo que representa o investimento em educação (ao invés de pensar exclusivamente em termos de consumismo) e fazer dialogar entre elas as grandes tradições políticas, sociais, religiosas para encontrarmos os valores em comum sobre os quais se poderá construir um "governo" global, imprescindível no contexto da globalização. Para Aguiar (2005), o processo de globalização é contextualizado a partir de uma complexa mistura de processos 12 : Dominique Peccoud,12 do External Relations and Partnerships International Labor Office (Genebra). 89 que modificam os fundamentos em que se apoiavam a sociedade, consequentemente, gerando incertezas e riscos cujos efeitos podem produzir conflitos sociais como autoconfrontos. A globalização recoloca, assim, o problema da perda da razão de ser, do paradigma do pensamento até então dominante. Ao refletir sobre que caminhos poderiam sustentar estes novos paradigmas e ao mesmo tempo a construção de uma sociedade justa e humana, somos levados a pensar na relação entre o homem e o trabalho. Segundo Castanho (2002, p. 251-2), ―o homem da atualidade encontra-se imerso em um mundo cujo desenvolvimento tecnológico e científico acelera processos de produção, de comunicação e da aplicação dos conhecimentos‖. Isso implica que as complexidades trazem novas emergências e desafios para a sociedade e para o campo do trabalho. Aubert (2004) nos revela que estamos testemunhando o surgimento de um novo indivíduo, cujas formas de ser, fazer e sentir, diferem profundamente das de seus antecessores. Os indivíduos resultantes dessas mudanças têm aspectos contraditórios: um enfoque sobre a satisfação imediata dos seus desejos e a intolerância pela frustração da busca do absoluto, ainda é relevante. Malvezzi (2010) diz que ―a gestão do Imediatismo tornou-se uma demanda significativa da capacitação profissional, neste momento histórico‖. Acreditando que todo este processo moderno possa gerar riscos, Bauman (2004), quando fala sobre modernidade e seus riscos, nos revela que uma das características do que ele chama de ―modernidade sólida‖ era que as maiores ameaças para a existência humana eram muito mais óbvias. Isto implica que os perigos eram reais, palpáveis, e não havia muito mistério sobre o que fazer para neutralizá-los ou, ao menos, aliviá-los. Era óbvio, por exemplo, que alimento, e só alimento, era o remédio para a fome. Os riscos de hoje são de outra ordem, não se pode sentir ou tocar muitos deles, apesar de estarmos todos expostos, em algum grau, às suas consequências. Não podemos, por exemplo, cheirar, ouvir, ver ou tocar as condições climáticas que gradativamente, mas sem trégua, estão se deteriorando a diminuição das matérias primas e das fontes de energia não renováveis, e os processos de globalização sem controle político ou ético, que solapam as 90 bases de nossa existência e sobrecarregam a vida dos indivíduos com um grau de incerteza e ansiedade sem precedentes, ocasionando uma nova dinâmica na formatação da relação homem–trabalho. Para confrontar sua condição existencial e enfrentar seus desafios, a humanidade precisa se colocar acima dos dados da experiência a que tem acesso como indivíduo. Ou seja, a percepção individual, para ser ampliada, necessita da assistência de intérpretes munidos com dados não amplamente disponíveis à experiência individual. Quando se refere ao conceito de pós-modernidade, Bauman (2006) expõe uma das razões pelas quais passou a falar em ―modernidade líquida‖ e não em ―pós-modernidade‖: porque para ele pós-modernidade significa uma sociedade que se refere a um tipo de condição humana, enquanto ―pósmodernismo‖ refere-se a uma visão de mundo que pode surgir, mas não necessariamente, da condição pós-moderna. Ser um pós-modernista significa ter uma ideologia, uma percepção do mundo, uma determinada hierarquia de valores que, entre outras coisas, descarta a ideia de um tipo de regulamentação normativa da comunidade humana, assume que todos os tipos de vida humana se equivalem, que todas as sociedades são igualmente boas ou más. No contexto apresentado pelo autor tudo é temporário, as relações, o trabalho, a relação homem-trabalho, é isso que sugere a metáfora da ―liquidez‖ para caracterizar o estado da sociedade moderna: como os líquidos, ela caracteriza-se pela incapacidade de manter a forma. Nossas instituições, quadros de referência, estilos de vida, crenças e convicções mudam antes que tenham tempo de se solidificar em costumes, hábitos e verdades ―autoevidentes‖. Sem dúvida a vida moderna foi desde o início ―desenraizadora‖, ―derretia os sólidos e profanava os sagrados‖, como os jovens Marx13 e Engels14 notaram. Mas enquanto no passado isso era feito para ser novamente ―reenraizado‖, agora todas as coisas – empregos, relacionamentos, know-hows etc. – tendem a permanecer em fluxo, voláteis, desreguladas, flexíveis. A nossa 13 Karl Heinrich Marx (1818-83), intelectual alemão fundador da doutrina comunista moderna, atuou como economista, filósofo, historiador, teorico político e jornalista. 14 Friedrich Engels (1820-95) foi um importante filósofo alemão. Juntamente com Karl Marx, criou o marxismo. 91 é uma era, portanto, que se caracteriza não tanto por quebrar as rotinas e subverter as tradições, mas por evitar que padrões de conduta se congelem em rotinas e tradições. O que me interessa é, portanto, tentar compreender quais as consequências dessa situação para a lógica do indivíduo, para seu cotidiano. Quando nos referimos à crise do sistema capitalista e ao mundo do trabalho, podemos também nos reportar às ideias de Antunes (1999), quando aborda a crise da sociedade do trabalho, afirmando que é absolutamente necessário qualificar de que dimensão se está tratando: em primeiro lugar, se é uma crise da sociedade do trabalho abstrato. Em segundo lugar, se se trata da crise do trabalho também em sua dimensão concreta, enquanto elemento estruturante do intercâmbio social entre os homens e a natureza. No primeiro caso, da crise da sociedade do trabalho abstrato, há uma diferenciação que nos parece decisiva e que em geral tem sido negligenciada. A questão essencial aqui é: a sociedade contemporânea é ou não predominantemente movida pela lógica do capital, pelo sistema produtor de mercadorias, pelo processo de valorização do capital? Se a resposta for afirmativa, a crise do trabalho abstrato somente poderá ser entendida como a redução do trabalho vivo e a ampliação do trabalho morto. Acredita que sem a precisa e decisiva incorporação desta distinção entre trabalho concreto e abstrato, quando se diz adeus ao trabalho, comete-se um forte equívoco analítico, pois se considera de maneira una um fenômeno que tem dupla dimensão. Com isso entramos num ponto crucial, que constitui o eixo central da obra Os Sentidos do Trabalho: uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Para Antunes (1999), que supõe uma vida dotada de sentido dentro do trabalho, não é possível compatibilizar trabalho assalariado, fetichizado e tempo livre. Uma vida desprovida de sentido no trabalho é incompatível com uma vida cheia de sentido fora do trabalho. Em alguma medida, a esfera fora do trabalho estará maculada pela desefetivação que se dá no interior da vida laborativa. Como o sistema global do capital dos nossos dias abrange também as esferas da vida fora do trabalho, a desfetichização da sociedade de consumo tem como necessidade imprescindível a desfetichização do modo de produção das coisas. O que torna a sua conquista muito mais difícil, se não se 92 inter-relaciona decisivamente a ação pelo tempo livre com a luta contra a lógica do capital e a vigência do trabalho abstrato. Uma vida cheia de sentido em todas as esferas do ser social, somente poderá efetivar-se pela demolição das barreiras existentes entre tempo de trabalho e tempo de não-trabalho, de modo que, a partir de uma atividade vital cheia de sentido, autodeterminada, para além da divisão hierárquica que subordina o trabalho ao capital hoje vigente e, portanto, sob bases inteiramente novas, possa se desenvolver uma nova sociabilidade. Se o trabalho torna-se dotado de sentido, será também a partir da arte, da poesia, da pintura, da literatura, da música, do tempo livre, do ócio, que o ser social poderá humanizar-se e emancipar-se em seu sentido mais profundo. 5.2 TRABALHO: UM FAZER HUMANO O termo felicidade pode funcionar como um conceito que organiza a compreensão da finalidade humana. Esse pressuposto nos faz refletir sobre a questão das novas bases do trabalho, contudo, No decorrer da história, as pessoas buscam sem cessar a felicidade. Modernamente, instaurou-se a crença no poder da tecnologia para construir a sociedade da abundância e do tempo livre. [...] Entretanto, talvez estejamos passando por uma das maiores crises da história, marcada pelo desemprego e pelo comportamento antiético. (SOUZA NETO e LIBERAL, 2004, p. 14). Diante do exposto, Bendassolli (2007) diz que a base moderna do trabalho, pode ter como consequências um enfraquecimento do trabalho e contextualizar novas dinâmicas na relação homem-trabalho. Pensamento este que faz com que Richard Sennett (2004) analise em A corrosão do caráter a questão induzida pela instabilidade profissional sob o capitalismo flexível, baseando-se em relatos de vida, notadamente de trabalhadores condenados à mobilidade, o que não lhes possibilita o estabelecimento de vínculos duráveis. Sennett (2009) filósofo americano, considerado um crítico do capitalismo, amplia o campo dessa discussão, opinando que podemos alcançar uma vida material mais humana, se pelo menos entendermos as coisas; para o autor, a questão central não é a felicidade, mas a formação do ser humano. 93 Em O artífice, Sennett (2009) dá continuidade ao seu projeto iniciado na década de 1990, quando se voltou para o entendimento do novo mundo do trabalho. Ele acrescenta que o caminho para isso é a atividade artesanal. A habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho bem feito por si mesmo. O sistema capitalista não tem sido eficaz ao desenvolver as pessoas. Uma vez que entendamos o que as pessoas são capazes de alcançar, em termos de qualidade de trabalho e autodesenvolvimento, a questão passa a ser como organizar as instituições do trabalho para promover essas habilidades. Em O Artífice, o autor centra-se na habilidade artesanal definida por ele como ―[...] um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho bem-feito por si mesmo‖ (Sennett 2009, p. 19). Para falar dessa habilidade natural para o trabalho, a busca de soluções para os problemas com os quais se depara no trabalho, reafirma a vinculação entre o fazer e o pensar, seja o Artífice um carpinteiro ou um regente de orquestra. O que o torna um Artífice é, principalmente, uma condição humana especial: o engajamento. Contudo é importante ressaltar uma crítica às práticas motivacionais que incentivam a competição, aos avanços tecnológicos divergentes do trabalho do Artífice. Para Sennett (2009) é possível aprender conhecendo a técnica, mas essa aprendizagem está intimamente ligada à disposição de experimentar por meio do erro. A aprendizagem da técnica envolve também a repetição, não uma repetição fragmentada e mecanizada de ações, mas uma repetição que permita ao Artífice tomar consciência das coisas. Nessa tomada de consciência, torna-se possível aprimorar seu autocontrole, utilizar de forma adequada e equilibrada suas forças e habilidades, sincronizar corpo e mente e concentrar-se naquilo que faz, de forma a envolver-se emocional e intelectualmente com sua atividade e tornar-se um bom Artífice. Sua contribuição traz discussões sobre os testes de inteligência e sua capacidade real de avaliar as habilidades do Artífice, o autor advoga a tese de que a aprendizagem dessas habilidades inicia-se na infância e é aprimorada pelos jogos infantis. Considera que é por meio do jogo que ocorre a apreensão de regras pelas crianças, que testam seus limites e vão apreendendo o mundo das coisas. Sendo assim, o fazer (trabalhar) nasce do brincar. Sennett (2009) 94 finaliza sua obra enfatizando três questões centrais relativas ao trabalho: Primeiro, é ele que nos coloca no mundo e define as relações que estabelecemos; segundo, este fazer não é neutro, nem os objetos que ele cria; e terceiro, é importante o orgulho pelo trabalho, mas ele não deve se constituir em uma cegueira. Dessa forma, o autor deseja romper com a aura de inocência diária que rodeia o trabalho humano. Ele pode não ser para o bem comum, pode causar o mal, por isso, é necessário que o Artífice reflita constantemente sobre os aspectos éticos relativos ao seu trabalho. O texto nos remete a uma reflexão sobre a relação ser humano-trabalho, em que ser ou não ser um artífice não parece tratar-se somente de uma questão, mas de algo essencial para trazer o sentimento de realização no trabalho e, portanto, essencial para a saúde mental do trabalhador. Tal reflexão perpassa pela necessidade da criação de ambientes de trabalho mais saudáveis, que favoreçam essa ligação afetiva e positiva com o trabalho. Diante do exposto podemos inferir que podemos alcançar uma vida material mais humana, se pelo menos entendermos como são feitas estas coisas. Sennett (2009) acredita que as pessoas podem se desenvolver por meio do trabalho e que isso tem consequências psicológicas, recompensas como autorrespeito e o respeito dos outros, e o caminho para isto é a atividade artesanal. A habilidade artesanal designa um impulso humano básico e permanente, o desejo de um trabalho bem feito por si mesmo. O sistema capitalista tem sido incompetente em promover o desenvolvimento das pessoas, visto o que as pessoas são capazes de alcançar, em termos de qualidade de trabalho e autodesenvolvimento. Aí a questão passa a ser como organizar as instituições do trabalho para promover essas habilidades. . Em A corrosão do caráter, diferentemente de em O artífice (2009), o que o autor destaca e critica são os elementos de mediação que se interpõem ao homem em sua relação com o trabalho. Enfim, que lugar esse homem ocupa no mundo. O autor procura explicar o incômodo em relação à temática do livro. Segundo ele, nas discussões com Hannah Arendt (2004), as questões 95 sobre o homem e sua práxis trouxeram-lhe não só explicações, mas dúvidas. Dúvidas que se centraram no ―porquê‖ e no ―como‖ fazemos as coisas. Por outro lado quando revisitamos, Arendt (2004), em A Condição Humana, verificamos que a perda do espaço público como local privilegiado e único da prática da democracia e a diminuição do status do homem de ser político (que age) para Homo faber (que cria) até Animal laborans (que se reproduz), nos remete à condição do homem em sua relação com o trabalho. Nesse sentido a autora aborda três dimensões que considera importantes da vida ativa: Labor – atividade assinalada pela necessidade do processo biológico e que assegura, por isso mesmo, a manutenção da espécie, denotando a proximidade do homem com os outros animais; por isso, Hannah Arendt atribui essa atividade ao Animal laborans. Acrescenta que o trabalho é a atividade que nos remete ao artificialismo da existência humana, pois, ao contrário da primeira, não está preocupada com o ciclo vital natural, mas sim com a criação de artefatos a partir da natureza, que acabam por engendrar um mundo diferente do mundo natural, um mundo de objetos que se interpõe entre a natureza e o homem e entre os próprios homens; essa atividade é atribuída ao Homo faber. E finaliza evidenciando a ação como a atividade (única) que se exerce entre os homens diretamente, sem a mediação das coisas ou da matéria; tratase, aqui, da condição política dos homens, na sua extrema pluralidade, e é aqui, segundo Hannah Arendt, que se encontra a liberdade enquanto capacidade de reger o próprio destino, para começar algo novo e imprimir no mundo a lembrança, a história, que dão eternidade à condição humana. Ao criar organismos políticos, o homem cria algo novo que o imortaliza, pois ultrapassa a sua morte. Somente a Ação é tipicamente humana e pressupõe a presença de outros; por isso é a condição humana fundamental. Temos observado que é brutal o abismo socioeconômico que separa os ricos e os pobres no mundo. Podemos inferir que bem mais da metade da humanidade ainda enfrenta o drama agudo da fome, da falta de habitação, do desemprego, do desamparo à saúde e à educação; enquanto isso, uma pequena parcela da população mundial detém grande parte da renda econômica do planeta. Ou seja: enquanto a grande maioria não tem o mínino necessário para sobreviver dignamente, uma maioria pode se dar ao luxo de 96 consumir de tudo e esbanjar o supérfluo. Assim, é principalmente entre essa minoria com poder aquisitivo que ocorre o fenômeno do consumo alienado. Não tem sentido falarmos em consumismo alienado entre povos famintos, esmagados pela miséria e pelas injustiças sociais. No padrão de consumo sadio, uma pessoa adquire um produto tendo em vista suas reais necessidades e pelo prazer de utilizá-lo. Já no consumo alienado, o prazer do uso é muitas vezes substituído pelo poder de posse. Assim, uma grande quantidade de coisas é comprada apenas para ser possuída e não usufruída. O consumidor alienado age como se a felicidade consistisse apenas numa questão de poder sobre as coisas, ignorando o prazer obtido com aquilo que ama. Para o filósofo alemão Horkheimer (1976), quanto mais intensa é a preocupação do indivíduo com o poder sobre as coisas, mais as coisas o dominarão, mais lhe faltarão os traços individuais genuínos. Assim, a vontade de consumo perde sua relação com a personalidade do indivíduo ao se desvincular de suas necessidades reais. Induzido pela máquina publicitária, o consumo deixa de ser um meio para o prazer pessoal e se transforma num fim em si mesmo. Torna-se um ato apenas movido pela novidade e pela liquidez do produto. E considerando que é na fase da juventude que o consumismo se faz latente, destaco o poema Eu Etiqueta, de Carlos Drummond de Andrade (2001): ―Em minha calça está grudado um nome/ Que não é meu de batismo ou de cartório/ Um nome... estranho [...]‖ que, faz critica e discute o consumismo na sociedade o que nos faz pensar sobre o papel da propaganda (mídia) como instrumento de produção cultural e que tem um papel decisivo na forma de estruturação da sociedade capitalista e principalmente dos jovens no processo de construção de sua identidade. 5.3 - TRABALHO: CONTEXTO JUVENIL Neste estudo que objetiva estudar as repercussões da prática familiar e escolar na escolha do trabalho do jovem e diante do panorama apresentado sobre o universo do trabalho, podemos observar que essas novas práticas configuram um novo cenário, e ao tomarmos a juventude como foco, é possível trazer algumas reflexões e questionamentos e dados secundários que possam 97 corroborar com este estudo, além de algumas ilustrações dos resultados obtidos com esta pesquisa. Então, como os jovens poderão encontrar um sentido no trabalho, frente a possibilidades de desemprego, e falta de qualificação? Quando pensamos a juventude como sendo somente um processo de transição para a vida adulta, corremos o risco de compreendê-la por aquilo que os jovens adolescentes não são mais ou ainda não são. Acreditamos ser necessário conhecer os processos de transição e suas trajetórias que caracterizem suas realidades históricas sociais para uma melhor compreensão. Grande parte da literatura do campo psicológico ou sociológico inclui o processo de inserção no mundo do trabalho, seja esse trabalho temporário ou um meio de sobrevivência, como momento de transição para a vida adulta dos jovens adolescentes. Entretanto, devemos entender que juntamente para esse momento de inserção laboral, corroboram outros eventos sociais e psicológicos, dentre os quais destacamos a família, o processo de escolarização, assuntos já abordados em capítulos anteriores, mas, por sua vez, essas influências acabam sendo decorrentes de mudanças sociais que englobam novas perspectivas de inserção no mundo do trabalho dos jovens. Consideramos que o primeiro emprego é decisivo para a trajetória profissional do jovem, principalmente quando o mercado reproduz a desigualdade do sistema educacional, ou seja, reserva os melhores postos de trabalho aos mais qualificados. Pochmann (1998) retrata essa dura realidade dos jovens brasileiros e aponta como alternativa uma reformulação das políticas públicas de primeiro emprego para que possam estar associadas à manutenção do jovem no sistema educacional, e não apenas estimulá-lo precocemente a sair para o mercado de trabalho. ―A juventude brasileira é maior que as dificuldades existentes.‖ É com essa afirmação o autor inicia sua análise sobre a situação do primeiro emprego do jovem no Brasil. Superar as barreiras para a melhor distribuição de renda e melhores condições de educação é parte importante do papel para a transformação da realidade controversa e difícil do jovem. Demonstrar que o emprego juvenil está associado à precarização do trabalho, à falta de profissionalização e à urgente criação de vagas, são caminhos para que possamos pensar as políticas de geração de emprego 98 juvenil colocadas hoje em nosso país. O primeiro emprego é decisivo para a trajetória futura do jovem. Ao ingressar precariamente no mercado de trabalho, sem ter completado o ensino regular, por exemplo, o jovem desfavorece seu desempenho ao longo de sua trajetória profissional. O mercado de trabalho reproduz a desigualdade verificada no sistema educacional, estabelecendo os melhores postos de empregos aos melhor qualificados, ou seja, aos filhos de ricos que tiveram a sua inatividade financiada pelos pais. Essas reflexões fazem parte do mundo atual, e devem ser discutidas pela sociedade, nos debates acadêmicos, nas propostas da política, nas empresas; afinal, mudanças são necessárias no trabalho, na sociedade, mas é preciso contextualizá-las. Bauman (2004) nos revela um mundo repleto de sinais confusos, propenso a mudar com rapidez e de forma imprevisível, que traz consigo uma misteriosa fragilidade de laços humanos. Investiga de que forma nossas relações tornam-se cada vez mais "flexíveis", gerando níveis de insegurança sempre maiores. A prioridade a relacionamentos em ―redes‖, as quais podem ser tecidas ou desfeitas com igual facilidade – e frequentemente sem que isso envolva nenhum contato além do virtual –, faz com que não saibamos mais manter laços de longo prazo. E isso afeta não apenas as relações amorosas e os vínculos familiares. O autor busca esclarecer, registrar e apreender de que forma o homem sem vínculos — figura central dos tempos modernos — se conecta. Dentro deste contexto os jovens de hoje deveriam, apesar de tudo, apesar de todas as tendências em contrário e de todas as pressões de fora, reter na consciência e na memória o valor da durabilidade, da constância, do compromisso. Os jovens não podem mais contar, como as gerações mais antigas, com a natureza permanente do mundo lá fora, com a durabilidade das instituições que tinham antes toda a probabilidade de sobreviver aos indivíduos. Assim, o único sentido duradouro, o único significado que tem chance de deixar traços, rastos no mundo, de acrescentar algo ao mundo exterior, deve ser fruto de seu próprio esforço e trabalho. Nesse sentido, os jovens podem contar unicamente com eles próprios e só haverá em suas vidas o sentido e a relevância que forem capazes de lhes dar. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 99 2007), apontou que o Brasil possuía cerca de 50,2 milhões de jovens entre 15 e 29 anos, o que correspondia a 26,4% da população. Outras pesquisas repetem várias estatísticas que comparam a população jovem à população mundial, como o relatório de Tendências Globais de Emprego para a Juventude, da Organização Mundial do Trabalho (OIT, 2010). Vale ressaltar que esses estudos evidenciam uma tendência de crescimento da população jovem, e, a partir dessa tendência, podemos inferir que existe uma dificuldade de absorção de toda essa mão de obra juvenil e que o trabalho está entre os principais assuntos que mais mobilizam o interesse dos jovens, já que é também um dos direitos essenciais da pessoa humana e dos mais importantes direitos de cidadania. Vale dizer que a centralidade do trabalho para os jovens não advém tão-somente do seu significado ético, ainda que este seja relevante, mas resulta também, e sobremaneira, da sua urgência enquanto problema. [...] é, sobretudo enquanto um fator de risco, instabilizador das formas de inserção social e do padrão de vida, que o trabalho se manifesta como demanda urgente, como necessidade, no coração da agenda para uma parcela significativa da juventude brasileira. Ou, de outra forma, é por sua ausência, por sua falta, pelo não trabalho, pelo desemprego, que o mesmo se destaca. (GUIMARÃES, 2004, p. 12) O ingresso no mundo do trabalho constitui-se, tradicionalmente, em um dos principais marcos da passagem da condição juvenil para a vida adulta, mas não o único. No entanto, nas últimas décadas, em função de intensas transformações produtivas e sociais, ocorreram mudanças nos padrões de transição de uma condição à outra. O diagnóstico dominante aponta para as enormes dificuldades dos jovens em conseguir uma ocupação, principalmente em obter o primeiro emprego, dado o aumento da competitividade, da demanda por experiência e por qualificação no mercado de trabalho. Com isso, a transição para a vida adulta tem sido retardada. A questão do trabalho é uma das grandes preocupações da juventude e também o é no campo das políticas públicas para a juventude. Existe uma convicção generalizada de que é necessário desenvolver programas e ações que melhorem a situação atual, levando-se em conta o aumento da vulnerabilidade desse grupo social, a limitada oferta de oportunidades e as especificidades da condição juvenil contemporânea. 100 O desemprego entre os jovens brasileiros é significativamente superior ao do restante da população. Ainda que, ao longo dos anos, tenha havido aumento das médias de escolarização dos jovens e uma melhora nas condições de trabalho – com alta da formalização –, não se observou aumento correspondente na oferta de empregos. Más condições de trabalho, baixa remuneração, longas jornadas, dificuldade de conciliar trabalho e escola, altas taxas de desemprego e desajuste entre o estudo recebido e as exigências do mercado, podem estar relacionados a esse panorama vivido por muitos jovens que estão no mercado de trabalho e os que ainda estão tentando encontrar nele um lugar. Mesmos aqueles que conseguem superar todas as dificuldades e terminar uma faculdade, não têm garantia de emprego. As diferenças entre a teoria da escola nos cursos de forma geral e a prática no mercado de trabalho acabam deixando a escolaridade com um papel mais modesto do que o treinamento em serviço ou o estágio na preparação do jovem trabalhador. A procura por jovens com experiência profissional é outro fator que eleva a importância do treinamento em serviço, para obter e aperfeiçoar as habilidades e conhecimentos profissionais. Com isso, uma grande parcela da melhoria do sistema de ensino no país cabe às empresas. Diante de um cenário de altas taxas desemprego, e de desestruturação e precarização do trabalho, como a juventude tem reagido? Hoje, jovens de todas as classes e situações sociais expressam inseguranças e angústias ao falar das expectativas em relação ao trabalho, no presente e no futuro. Eles vivenciam, de modo sofrido e dramático, o que alguns estudiosos têm chamado de ―medo de sobrar‖ (Novaes, 2007). Observamos também que o jovem tenta se inserir no mundo de trabalho de diversas maneiras, surgem novas formas de participações informais, e que na maioria das vezes são ocultas, ou seja, são trabalhos poucos reconhecidos, como guardadores de carros, catadores de latinhas, limpadores de vidros em semáforos, entre outros. Alguns pesquisadores, como Camarano et al, (2004) constatam que o desemprego incide mais sobre os grupos de escolaridade baixa e ou mediana, com uma média entre 5 de 11 anos de estudo, o que implica que esse jovem está propício, devido à sua condição, a aceitar qualquer trabalho que apareça. 101 Em contrapartida, tem outra parcela que fica à espera de melhores condições de trabalho, em busca de melhores oportunidades e uma inserção mais adequada ao seu contexto. Mas acreditamos que esses eventos não aconteçam somente em relação à escolaridade, mas são decorrentes também do fator familiar: jovens que, tendo uma família, poderão ou não permitir-se esse compasso de espera e seletividade. Acreditamos também em possibilidades de trabalhos artesanais como forma de inserir os jovens adolescentes no mundo do trabalho, de forma que eles possam desenvolver potencialidades, continuar estudando, ajudando as famílias e se desenvolvendo. 5.4 TRABALHO: A VISÃO DOS JOVENS Hoje, diante dos pressupostos para o trabalho e a questão do trabalho se apresentando como uma incógnita para o futuro, Baptista (2002), em seu artigo ―Identidade profissional: questões atuais‖, indaga: O que ocorre com a identidade do ser humano que se questiona algo que já foi considerado fundamental para sua constituição? O papel profissional, uma flexibilização do trabalho provoca uma fluidez na caracterização dos papéis [...] a situação de emprego também se modifica ou deixa de existir‖. (BAPTISTA, 2002, p. 150) Estamos vivendo, hoje em dia, uma situação paradoxal: de um lado, temos a idealização da realidade profissional, modelo tradicional de aquisição e desenvolvimento da identidade profissional e, de outro, uma vivência, por parte da maioria da população, que contrasta frontalmente essa idealização. A maior parte das pessoas não tem percepção clara quanto a esta questão ser um problema temporário, fruto de uma crise momentânea, ou ser uma transformação permanente da realidade social. (BAPTISTA, 2002, p. 150) Contudo, os jovens de hoje ainda continuam sonhando com seu futuro profissional e com a escolha de uma profissão. É importante que os jovens adquiram conhecimento do mundo do trabalho, para poderem de forma mais efetiva, com a contribuição da escola, da mídia, se perceber no mundo do trabalho. Diante do panorama apresentado, a seguir evidencio dados na nossa pesquisa ―Percepção dos jovens sobre o trabalho‖ com relação a essa temática (mundo do trabalho). 102 Referente à questão em que os pesquisados demonstraram o seu conhecimento sobre o mundo do trabalho, a pesquisa nos revela, que a maioria dos jovens sabe pouco sobre este assunto (66,6%). Com relação ao que os jovens esperam do mundo do trabalho, foram colocados como indicativos: dinheiro, fama, poder, posição social e realização. Pudemos constatar pelas respostas obtidas junto aos pesquisados que metade deles afirma ter como expectativa do mundo do trabalho a realização pessoal (50%), e que o poder não é uma questão importante. Indicadores como dinheiro (22%), posição social (22%) e, por fim, fama (6%). Corrochano (2002), em sua pesquisa ―O olhar de jovens operários sobre o trabalho‖, conclui que o olhar do jovem a respeito de mercado de trabalho perpassa por três questões: independência pessoal (a independência em relação aos pais, a autonomia financeira e, a partir desta, a maior autonomia em outras esferas da vida); dignidade: (associada à possibilidade de prover sua família com os meios necessários para a sobrevivência de maneira honesta, bem como o fato de não ser confundido com o ―bandido‖, o ―marginal‖) e realização pessoal (―o trabalho tem a ver com satisfação pessoal, fazer o que gosta‖). Esse fato foi percebido pelos nossos jovens pesquisados. Fazendo uma breve análise comparativa, encontramos pontos em comuns, que podem ser resumidos no trabalho como realização pessoal e ascensão social. Em outro momento da pesquisa, quando perguntamos aos jovens participantes para que serve o trabalho, obtivemos algumas respostas que vale a pena serem destacadas e discutidas a seguir: (P1) ―Para a minha sobrevivência, e também para ter mais conhecimentos, aprender a lidar com as pessoas.‖ (P2) ―Para estabilizar e desenvolver o indivíduo como pessoa na sociedade.‖ (P3) ―Para quem faz o que gosta acabar sendo prazeroso e estimulante, mas para eles e para quem não gosta é apenas um meio de ganhar dinheiro para sobreviver e ser um cidadão ativo, 103 pois a sociedade impõe que precisamos ser alguém e preciso trabalhar e se sustentar.‖ (P4) ―O trabalho serve para melhorar o conhecimento das pessoas e para melhorar a vida social também.‖ (P-5) ―O trabalho é a realização e práticas de talento.‖ (P6) ―O trabalho serve para melhorar a pessoa, para ajudar na renda familiar.‖ (P-7) ―Trabalho serve para nos testar, em todos os sentidos, pôr em prática nossos dotes para ser homem profissional.‖ (P-8) ―Para dar condição de termos o que desejamos.‖ Nos relatos colhidos, tendo em vista a opinião sobre o trabalho, podemos observar pelas respostas dos jovens que o trabalho é o meio pelo qual se produz riqueza, aumenta-se o poder de compra, além de ser indicativo de importância social. Subjetivo porque proporciona prazer, concretiza sonhos e aspirações e realização. Como indicativo social, desenvolve cidadania, inserção social, socialização, fama e reconhecimento. As respostas também relacionam o trabalho à independência, ou seja, é a partir do trabalho que os jovens se sentem mais autônomos. Percebemos também que o trabalho está relacionado à necessidade, mas também ao crescimento e desenvolvimento. As respostas sugerem percepções, sentidos e valores. Diante desse panorama, entendemos que homem e trabalho estabelecem uma relação desde o início da existência daquele. Com a necessidade do acúmulo do capital por parte daqueles que contratam a força de trabalho e com as evoluções das tecnologias relacionadas, o conceito de trabalho e suas implicações foram estudadas e questionadas por vários historiadores. 104 Considerando, então, a influência do trabalho na vida do ser humano, assim como as transformações ocorridas no mercado de trabalho, em decorrência tanto das novas tecnologias como da divisão de tarefas, podemos observar que as respostas dos participantes reforçam o conceito de trabalho de CORREIA (2000): [...] A ação da força de trabalho também percebida como a capacidade de trabalho, que na sociedade do capitalismo é tida como mais uma transação entre o trabalhador – possuidor da força de trabalho – e o capitalista – detentor do capital. (CORREIA, 2000, p. 13) Quando um dos entrevistados responde para que serve o trabalho, dizendo: ―Para a minha sobrevivência...‖ (P1), o relato do jovem condiz com o pensamento de Correia (2000) quando se refere à essência do trabalho para que o ser humano consiga concretizar seus sonhos e ideais : [...] pois é por meio deles que cria e constrói bens necessários à sua sobrevivência e à de outras pessoas, como também obtém recursos para adquirir outros bens. (CORREIA, 2000, p. 17) ―O trabalho serve para melhorar o conhecimento das pessoas e para melhorar a vida social também‖ (P4). ―Além de ser o meio de sustentar, suprir as necessidades do homem, desenvolve este, tanto consigo mesmo, quanto com o mundo, ao qual ele oferece suas atividades. O trabalho é a realização e prática dos talentos.‖ Quando (P2) diz: ―Para estabilizar e desenvolver o indivíduo como pessoa na sociedade‖, observamos que a resposta sugere uma concepção de trabalho que vai ao encontro aos pensamentos de Franco (2004): ―Nesse momento, percebemos que o trabalho em nossa sociedade é um dos eixos estruturais de nossa civilização‖ (FRANCO, 2004, p. 179). Mas para que possamos ter esta concepção de trabalho, precisamos antes de tudo retornar às suas concepções e essências. Os homens e os animais irracionais despendem energias para suprir suas carências mais elementares, mas para o animal irracional este instinto se concretiza e tem um fim em si mesmo, até que sintam novamente as mesmas necessidades. Já para o homem, essas necessidades vão além de um suprimento físico. ―Trabalho serve para nos testar, em todos os sentidos, pôr em prática nossos dotes para ser um bom profissional‖ (P7), quando P7 fala sobre o trabalho podemos perceber as ideias de Braverman (1987) 105 [...] não é apoderar-se de materiais da natureza, tais como esta oferece, e sim alterar este estado natural e melhorar sua utilidade. O que distingue o homem do animal irracional, é que o homem pensa, idealiza e produz e o resultado provém da imaginação, o que não ocorre com os outros animais. O homem ―imprime ao material o projeto de vida que tinha conscientemente em mira. ―Portanto, o homem tem um propósito, enquanto os outros animais agem pelo instinto. (BRAVERMAN, 1987, p. 49) Segundo outro jovem, o trabalho serve ―Para dar condição de termos o que desejamos‖ (P8), ou seja, o consumismo. E será que o trabalho atualmente corresponde a essas aspirações? E como compreendê-lo na vida moderna? Segundo Queiroz e Azevedo (2008): A divisão da geografia em campos de conhecimento da sociedade e da natureza tem propiciado um aprofundamento temático de seu objeto de estudo. Muitos alunos pensam que o consumismo é apenas o exagerado volume de coisas que compramos e que simbolizam a vida moderna, tais como beleza, higiene etc. Mas o consumismo não está apenas na atitude e no desejar coisas. O consumismo é uma mentalidade que nos induz a criar e recriar necessidades perdulárias, isto é gastar excessivamente, sem consciência das conseqüências para a natureza. (QUEIROZ; AZEVEDO, 2008, p. 49). Isso implica que o jovem, ao integrar-se e fazer parte do todo, considerando o consumismo, a vida moderna, significa aprender, aproximar-se com cuidado, atenção e firmeza. A concordar e discordar sem romper, nem agredir, a ceder em prol do coletivo e fazer de sua ação um instrumento em busca de transformação,seja em qualquer grupo social, seja na escola, no mundo do trabalho, seja na família, e é neste grupo social que a história de vida de uma pessoa começa muito antes de seu nascimento e vai se processando ao longo do tempo. Ao adolescer, além de representar um momento de crise, é também, e muito mais, o momento em que escolhas são feitas e projetos começam a ser construídos. Neste momento o jovem além de nascer para si mesmo, nasce para a sociedade, questionando o que quer, o que pode alcançar e para onde vai. Giddens (1997), ao caracterizar a sociedade como uma sociedade de riscos, afirma que as transformações científicas e tecnológicas provocam mudanças que envolvem desde a realidade biológica de cada pessoa até o contexto econômico e social. No âmbito do emprego de jovens, a rápida globalização do mundo e os avanços tecnológicos oferecem novas oportunidades de trabalho produtivo. 106 Porém, para muitos jovens, essas tendências apenas aumentam sua vulnerabilidade inerente. O que vemos hoje é que com o processo de globalização, as desigualdades se acentuaram, seja nos níveis de renda, sejam no desenvolvimento de conhecimentos e capacitações para o mercado de trabalho. Isso implica também em insegurança no momento presente, somado ao fato de o Estado não conseguir normatizar essas problemáticas pela criação de políticas públicas voltadas para o trabalho de jovens. Espero que este estudo contribua para a discussão e o conhecimento do estado das pesquisas sobre a juventude e estimule a emergência de novas investigações sobre o tema. 107 6 CONTEXTO E PROCEDIMENTOS DA PESQUISA Com o objetivo de compreender a percepção do jovem sobre a inserção no mundo do trabalho e qual é a contribuição da família e da escola nesse processo, realizamos uma pesquisa, de caráter qualitativo que procurou valorizar a fala do jovem, por meio de um questionário aberto, com cinquenta jovens adolescentes de ambos os sexos, com idades entre 17 e 20 anos, matriculados no terceiro ano do Ensino Médio de uma escola pública de município de Carapicuíba, na Grande São Paulo, Brasil. 6. 1 CENÁRIOS E ATORES A pesquisa foi realizada na própria escola dos sujeitos, numa sala de aula, coletivamente, após breve explicação dos objetivos do trabalho pelo aplicador da pesquisa e da devida autorização dos pais ou responsáveis dos participantes menores de idade. Não foi obrigatório o preenchimento do material impresso, dando-se ao participante a liberdade de devolvê-lo em branco. Registre-se que, para que este trabalho fosse realizado, primeiramente o projeto de pesquisa foi submetido ao Comitê de Ética do Centro Universitário FIEO, tendo sido cumpridos todos os pré-requisitos necessários para a sua realização. (Documento em anexo). Utilizamos um questionário com perguntas abertas e fechadas, de autopreenchimento e sem identificação pessoal de aluno. O questionário utilizado (Anexo) é uma adaptação de instrumentos propostos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística). Por meio do questionário podem-se identificar dados importantes. O questionário foi dividido da seguinte maneira. Em primeiro lugar foi levantado o perfil do participante através de perguntas que nos informariam: sexo, idade, raça, religião, naturalidade, estado civil entre outros. 108 A seguir, levantaram-se informações sobre a família e o domicílio – número de pessoas, grau de parentesco, irmãos, renda familiar, dados socioeconômicos. Em terceiro lugar levantamos dados sobre cultura e lazer – literatura, atividades, tecnologia, tempo livre, atitudes e comportamento. E, por fim, apresentamos questões para reflexão sobre algumas temáticas: o mundo do trabalho, legislação trabalhista, profissões, escola, expectativa profissional, trabalho, projeto de vida e família. Dos cinquenta entrevistados, escolhemos nove para participarem de um grupo focal de reflexão sobre temas relacionados à inserção no mundo do trabalho, à escola, à família e às das escolhas profissionais. A dinâmica do grupo focal permite uma forma rápida, fácil e prática de pôr-se em contato com a população que se deseja investigar, e, ao mesmo tempo, de aprofundar alguns temas nem sempre abordados num primeiro momento. Não obstante haver críticas a essa metodologia, ela foi importante para o diálogo do pesquisador com os adolescentes e destes entre si, no sentido de desvelar um pouco mais o fenômeno estudado. 6.2 O CENÁRIO : CARAPICUÍBA, UMA ALDEIA DA PERIFERIA Com a doação em 1580, pelo capitão-mor Jerônimo Leitão, Governador da Província, de terras para fundar uma povoação no local conhecido por "Carapicuíba", que em tupi-guarani, significa peixe (cará ou acará) comprido (picu ou pucu) que não serve para ser comido, ruim (iba). Neste espaço a Companhia de Jesus reuniu os índios catequisados que viviam na região. Em 1615, Afonso Sardinha o velho, proprietário das terras vizinhas a Carapicuíba, construiu com os índios uma capela, entregando-a aos jesuítas. Em torno desta construiu-se a aldeia, ponto de passagem das expedições que se dirigiam aos sertões do sul. Em 1698, alegando esgotamento das terras para a lavoura, os jesuítas tentaram a transferência dos aldeados para Itapecerica, determinando a destruição das casas e da igreja, mas, diante a recusa dos índios de 109 abandonar a localidade, reconstruíram-nas gradualmente, obedecendo ao traçado original. A igreja somente foi reerguida em 1736, tendo como orago Foto do Largo da Aldeia de Carapicuíba.Fonte: http://www.carapicuiba.sp.gov.br São João Batista, alterado, no século 19, para Santa Catarina e, atualmente, São Pedro é o padroeiro do Município. O núcleo pertenceu sucessivamente à administração de Santana de Parnaíba, Embu, Cotia e Barueri. Com a chegada de imigrantes, principalmente italianos e japoneses, e migrantes de outros Estados, o povoamento da região deslocou-se na direção da ferrovia, junto ao rio Tietê. No início do século 20, momento em que a cidade de São Paulo começava a intensificar seu processo industrial, a principal atividade nas terras que futuramente corresponderiam a Carapicuíba era a criação de gado, secundada pela instalação de dois frigorificos. Além disso, uma outra atividade começaria a despontar na região nas primeiras décadas de 1900 comum em diferentes trechos do rio Tietê: a extração de areia era uma atividade necessária ao crescimeneto urbano de São Paulo. Na área que corresponde atualmente à Lagoa de Carapicuíba, foi iniciada a mineração de areia nas primeiras décadas do século 20, cujo depósito foi formado num passado geológico distante. Ali foram depositados 110 areia, cascalho e argila, formando um grande depósito de areia, que com o advento da industrialização no início do século 20, ajudou a impulsionar a construção civil, que tomava corpo na capital, e passou a se utilizar dessa matéria prima para encorpar a argamassa, dar liga e durabilidade à estrutura da construção. A estrada de ferro Sorocabana concedeu uma cancela para facilitar o embarque da areia para São Paulo. Dada a qualidade da areia retirada e a potencialidade dos "bancos" encontrados, a extração era negócio de lucro certo, entretanto, as crateras deixadas no solo, aborreceram membros da comunidade. Durante, praticamente, três séculos e meio, o território brasileiro conheceu uma utilização fundada na exploração dos seus recursos naturais pelo trabalho direto e concreto do homem, mais do que pela incorporação de capital à natureza que durante esse tempo, teve um papel relevante na seleção das produções e dos homens. Nos cem anos que vão da metade do século XIX à metade do século XX, algumas áreas conhecem a implantação de um meio técnico, meio mecanizado, que altera a definição do espaço e modifica as condições do seu uso. (SANTOS, 1994, p. 45) Com isso, a extração passa a ser tamanha, que provoca o aprofundamento e aumenta/ e extensão da/ a cava, transformando-a num grande "buracão". A exploração desse veio de areia continua até os dias de hoje, em área que pertence ao município de Barueri. Para se ter a dimensão da profundidade desse local, na década de 60 o buraco ali formado era tamanho, que serviu como cenário de trechos do filme brasileiro chamado "Roberto Carlos em Ritmo de Aventura". Nessa mesma década, porém, houve um empreendimento do Governo do Estado de São Paulo realizou no local obras para a retificação do rio Tietê. Com as explosões para o desvio e aprofundamento do terreno, que definiria o novo curso do rio, houve o rompimento de barreira que separava o rio da cava, provocando a invasão das águas para dentro da mesma. Tudo o que havia lá embaixo, como maquinários, caminhões e casas que serviam como escritórios das mineradoras, foi encoberto pelas águas, transformando o local num grande e profundo lago. Um adequado planejamento ambiental mexe com muitos interesses, sendo estruturalmente um potencializador de conflitos. [...] Em nossa realidade difícil, nem sempre o ambientalmente correto segue junto com os anseios sociais, e encontrar o ponto de equilíbrio entre a 111 norma técnica e a justiça social nem sempre é tarefa fácil. (MORAES, 1994, p. 25-26) Mesmo diante deste fato, a extração continuou, sendo realizada por maquinários que dragam a areia das águas. Nos dias de hoje esse grande lago é conhecido como "a lagoa de Carapicuíba", tendo aproximadamente 800 m de largura por 1000 m de comprimento, tomando praticamente toda a parte norte da cidade. Por ela passam oito mil litros de esgoto por segundo, que saem de vários bairros das zonas sul, oeste e central de São Paulo e percorrem uma tubulação 9,5 km até Barueri. Na estação local, o esgoto é tratado e volta para o rio Tietê. Para os técnicos da Sabesp a situação chegou ao limite. Uma liminar proibiu o funcionamento das mineradoras que atuavam na área. Atualmente, as margens da lagoa do lado de Carapicuíba foram aterradas e em suas margens plantou-se grama, como parte de um grande projeto de reurbanização da região central de Carapicuíba. Durante muitos anos um lixão fez parte da paisagem geográfica da cidade. Com o seu fim, acaba também o estigma do município e da população, que tinha que conviver com o mau cheiro e visão nada agradável de seu lixão. Essa área, que durante mais de 20 anos arranhou a imagem da cidade, será transformada em parque aquático. Desde que foi desativado, em abril de 2001, o lixão de Carapicuíba deixou de ser o grande problema na vida dos cidadãos que residem próximos ao local. Mas o encerramento das atividades dificultou a vida de quem vivia do lixo, pois, como afirmam, seus ganhos serão menores. O lixão, que por um longo período contribuiu para a degradação da imagem de Carapicuíba, originou-se há cerca de 23 anos, quando um desvio na calha do rio Tietê propiciou uma vala de 5 metros de profundidade. Nela, passou a ser depositado todo o lixo do município e de municípios vizinhos. Foram mais de 20 anos de desconforto e problemas de saúde para milhares de moradores das regiões próximas ao lixão. Segundo informações contidas no Inventário de Resíduos Sólidos da CETESB, aproximadamente 3 mil catadores trabalham em lixões na Grande São Paulo. Desse total, 643 são menores de 14 anos. Os residentes em Carapicuíba eram em número de 150, sendo 53 menores. 112 De aldeia a município: o distrito é criado com a denominação de Carapicuíba, pela Lei Estadual nº 233, de 24 de dezembro de 1948, fazendo parte do Município de Barueri. Assim permanece no quadro fixado pela Lei Estadual nº 2.456, de 30-XII-1953, para vigorar, respectivamente no período de 1954-1958, assim permanecendo em divisão territorial datada de I-VII-1960. Elevado à categoria de Município com a denominação de Carapicuíba, por Lei Estadual nº 8092, de 28 de fevereiro de 1964, desmembrado de Baueri, constituindo-se em Distrito Sede. Sua instalação verificou-se no dia 26 de março de 1965. A Lei Estadual no 4.954, de 27 de dezembro de 1985, cria o Distrito de Aldeia de Carapicuíba e o incorpora ao município de Carapicuíba. Lei Estadual no 4.954, de 27 de dezembro de 1985, cria o Distrito de Vila Dirce o e incorpora ao Município de Carapicuíba. Em divisão territorial datada de 01VI-1995, o Município é constituído de 3 Distritos: Carapicuíba, aldeia de Carapicuíba e Vila Dirce. Assim permanecendo em divisão territorial datada de 15-VII-1997. (IBGE, ano). Carapicuíba fica situada a noroeste da capital do Estado de São Paulo, a apenas 23 km da Praça da Sé – marco zero – e pertence à 1ª Região Administrativa da Grande São Paulo. Com população total em 2009 (IBGE) de 403.502 habitantes, Carapicuíba possui como limites as seguintes cidades: ao Norte, limita-se com Barueri; ao Sul, com Cotia; a Leste, com Osasco e a Oeste, com Jandira e Barueri. Possui 34 km2 e sua topografia é bastante acidentada, tendo como acessos principais as rodovias Presidente Castelo Branco ao norte, Raposo Tavares ao sul e Avenida dos Autonomistas a leste (Osasco). A nova obra do governo do Estado, o Rodoanel Mário Covas interliga a cidade a quase todas as demais rodovias que cortam o Estado, bem como às marginais Tietê e Pinheiros. O prefeito atual é Sergio Ribeiro. Altitude: 717 metros, Posição Geográfica: Latitude 23º - 36º Sul Longitude 45º - 55º Oeste, Clima: frio e seco. A história de Carapicuíba se confunde com a ação dos bandeirantes portugueses. Fundada em 1580, pelo padre José de Anchieta, conquistou sua Emancipação política e administrativa em 26 de Março de 1965, e tem como característica principal a facilidade de acesso a toda a região metropolitana da 113 capital do estado. Carapicuíba tornou-se, assim, tipicamente, uma cidadedormitório e grande fornecedora de mão de obra especializada para todos os setores da indústria de São Paulo. Possui um grande défice habitacional, e uma população operária, com baixa renda familiar, que dificultam a consecução das soluções propostas para melhorar o perfil do Município de Carapicuíba. Com baixa arrecadação de impostos por seu pequeno número de indústrias e na sua maioria pequenas empresas prestadoras de serviços, o Município depende de repasses dos governos Estadual e Federal. Essas condições aumentam a responsabilidade da Administração para com a população, buscando soluções práticas para as questões sociais além do esporte, lazer, turismo e cultura, partindo do mínimo necessário até atingir as metas de oferecer ao povo de Carapicuíba o orgulho de ser brasileiro. A atual administração do município criou um canal de comunicação com a população sobre o (PDT) Plano Diretor Participativo de Carapicuíba. Além dos tradicionais informes veiculados pela mídia escrita e eletrônica sobre o processo participativo, adotou agora o Blog, como uma ferramenta de diálogo com o Grupo de Acompanhamento do Plano Diretor. A intenção é utilizar esse canal para atualizar e divulgar atividades, bem como, disponibilizar as informações necessárias para que todos possam acompanhar e debater as questões relativas ao planejamento e ao andamento do Plano diretor da cidade. Ou seja, a Administração deseja que seja esse um espaço no qual os munícipes possam expor ideias do que querem e o que projetam para Carapicuíba r nos próximos anos. Foto do Município de Carapicuíba: 114 6.3 O PALCO: UMA ESCOLA PÚBLICA DE ENSINO MÉDIO A escola onde foi realizada a pesquisa é uma escola pública, e sua escolha se deu por vários fatores: em primeiro lugar, por ter alunos do Ensino Médio, condição fundamental para o desenvolvimento da pesquisa. Em segundo lugar, pela receptividade dos responsáveis pela escola, entendendo a importância deste trabalho de pesquisa e sua importância para o crescimento e desenvolvimento dos alunos, além do incentivo ao trabalho acadêmico, em particular o deste pesquisador, e ressaltar as dificuldades que às vezes são encontradas para a realização deste tipo de trabalho. A escola pública em questão, situada no Município de Carapicuíba, Foi criada por volta dos anos 60. Em 1977, com o projeto de reorganização da rede púbica do sistema de ensino do governo do Estado de São Paulo, a escola passou a atender, prioritariamente, o Ensino Médio, em todos os seus três turnos, com algumas salas de Ensino Fundamental para atender à demanda. A Escola possui aproximadamente 2.200 alunos, sendo 1.600 alunos do Ensino Médio, divididos pelos três horários em que a escola funciona. A grande maioria dos alunos vem de outras regiões que não a central – bairros e vilas distantes do centro. Em termos de infraestrutura a Escola possui biblioteca, onde os alunos têm livre acesso ao acervo. Conta também com um laboratório de ciências, que serve às disciplinas de Química, Física e Biologia, em bom estado de conservação, porém não se promovem feiras de ciências. Há também dois laboratórios de informática, que os alunos utilizam para realizar atividades escolares. Duas quadras de esportes, cobertas, são utilizadas pelos/por todos os alunos para práticas desportivas. Em termos de acessibilidade, a escola não dispõe de rampas e nem elevadores, porém, há banheiros adaptados. Embora a escola não organize eventos com projetos de atividades culturais, artísticas e tampouco em relação a programas de orientação profissional e vocacional, fora do período letivo, a escola permanece aberta para a comunidade nos finais de semana. É onde a comunidade pratica esportes, artesanato, atividades de informática entre outras. 115 Contudo a escola conta com grades, muros altos e portões fechados durante as aulas. O prédio é antigo, mas sua fachada mantém boa aparência devido às pinturas constantes. Não há ventiladores nas salas.O portão da secretaria, que era o único que propiciava visão do exterior, na verdade, do estacionamento da escola, foi trocado por um totalmente fechado, e uma parte do pátio foi tomada por um muro para aumentar o estacionamento, usado pela diretoria e professores. Esses fatos desgostaram grande parte da população escolar. 6.4 PERCEPÇÕES DOS JOVENS SOBRE OS ESPAÇOS DE CONVIVÊNCIA, A FAMÍLIA, A ESCOLA E O TRABALHO Para a reflexão que apresentaremos a seguir, selecionamos dois participantes do grupo, por entender que se envolveram em profundidade com os objetivos de nossa pesquisa e ajudaram a enriquecer nossas reflexões. Carlos e Ariel são nomes fictícios. Carlos nos ofereceu um panorama dos temas abordados e nos permitiu inferir que a percepção pode ser um processo muito mais pessoal do que comumente se crê. Qualquer reflexão acerca dos espaços de convivência da juventude se defronta com o debate sobre as contradições inerentes às questões sociais. Estas se encontram circunscritas no bojo do modelo econômico e social adotado pelo Brasil, tal como explicitam Souza Neto (2008), Ianni (1988), Fernandes (1978) e Castel (1999). No decorrer da pesquisa, especialmente no grupo focal, Carlos demonstrou seu afeto e respeito pela família e reconhecimento pela sua influência na construção dos valores que nortearam a escolha profissional: “Meus pais sempre incentivaram meus estudos; de começo, eles não queriam que eu trabalhasse, com medo de prejudicar meus estudos. Eles sempre me acompanharam em relação às coisas novas e me incentivam.” Sociólogos e psicólogos, como Winnicott, Adorno, Ianni, Castoriadis, Mannheim, Bourdieu, Souza Neto, Durkheim, Erikson, Piaget, Vygotsky e outros, defendem a família como espaço privilegiado para a formação dos valores essenciais à convivência. Nela, a criança e o adolescente introjetam a 116 ideia de papeis e constroem o juízo moral, fundamentais à formação da identidade do sujeito. Winnicott nos oferece material para inferir que uma família suficientemente boa marca positivamente a existência e interfere nas formas de pensar, de ser e de agir. Todas as vezes que Carlos se referiu à família o fez com admiração e gratidão. Isto talvez demonstre que para além das questões financeiras e familiares, há outras variáveis que, pela perspectiva winnicottiana, determinam o que é uma família suficientemente boa. Mesmo diante das transformações das responsabilidades familiares, a nosso juízo, a família permanece vital para a integração e a inserção do sujeito. Na era dos direitos humanos, no quadro da doutrina de proteção integral, o que se observa é que a Constituição brasileira, as legislações sociais e as políticas públicas consagram o princípio da família como base do desenvolvimento do sujeito. Em que pesem os dramas da família brasileira, a situação econômica e as práticas de violência, a família continua a ser valorizada como um dos pilares de garantia da coesão social. Nesse sentido, os clássicos da sociologia e da psicologia nos permitem afirmar que a família sempre influenciou e continua a influenciar as escolhas e decisões do sujeito, seja positiva, seja negativamente. Ao longo da história, verificamos as nuanças dessa influência. Na sociedade da era da informação, outras instituições partilham com a família esse papel. Carlos diz que sua família tem contribuído para o seu futuro profissional e que seus pais sempre incentivaram seus estudos, mas não concordam que ele comece a trabalhar antes de terminar o Ensino Médio. Nem todas as famílias podem adotar esse procedimento, mas a família de Carlos interfere diretamente em sua formação para que ele possa fazer uma boa escolha. Contudo, as mutações no mundo do trabalho fazem com que haja necessidade de um olhar aprofundado para o percurso dos jovens na busca do primeiro emprego, porque a sociedade é fundada e organizada a partir do trabalho. Isso não significa uma defesa da inserção precoce dos jovens no mundo do trabalho. Ao contrário, o que defendemos é a mudança nos quadros da desigualdade social, política, de oportunidades e de condição existencial de nossa sociedade, o que implica em mudanças de ações e valores sócio- 117 históricos sedimentados (Corrochano, 2008). Segundo nossa perspectiva, o trabalho não se reduz a um método pedagógico, mas constitui um meio para o desenvolvimento da educação profissional (Vygotsky, 2003). Não só se introduz o trabalho na escola, mas também a escola no trabalho, sendo a atividade laboral a base do processo educativo. Hoje, é muito tênue a separação entre escola e trabalho, pois ambos mantêm uma reciprocidade. Similarmente, o fim primeiro da família não é preparar o jovem para o trabalho, mas os procedimentos familiares têm uma sintonia com o mundo do trabalho. Compartilhamos o pensamento de Rossler (2007), de que o ensino profissionalizante poderia ser uma solução para o problema de educação para o trabalho e destacamos a importância de refletir sobre as relações entre as esferas do mundo do trabalho e da educação. O depoimento e o posicionamento de Carlos reúnem um conjunto de evidências sobre a importância da família na sua formação. A partir dela, o adolescente adquiriu os conceitos que formam os alicerces de seu caráter e que orientarão sua vida. Por esse olhar, podemos, ainda, perceber que os conceitos de educação e de aprendizagem ao longo da vida se iniciam na família. A família tem papel fundamental nesse processo, por meio das práticas que valorizam e corrigem: recompensas, castigos, afeto, emulações, imitações, em vista de aprender a lidar com frustrações. É bom ressaltar que a pessoa incapaz de lidar com frustrações e emoções tem muita dificuldade para marcar posições no mundo do trabalho. Entretanto, nenhuma instituição, nem mesmo a família, tem poder absoluto sobre o adolescente e o jovem, que conserva sua autodeterminação de fazer opções e traçar caminhos. O que defendemos é a influência da família e não um determinismo ou reducionismo. Devemos considerar, portanto, as experiências positivas e negativas vividas no interior da família. É importante destacar que a família não é uma instituição isolada. Está vinculada aos dramas da sociedade. É um produto social e cultural. Quando boa o suficiente, a família é um espaço de proteção e de resistência contra as mazelas e perversidades da sociedade. A família protege quando cria as condições para que a criança e o adolescente tenham estabilidade emocional e segurança, dentro de um 118 desenvolvimento integral e saudável, pela perspectiva de Vygotsky, Piaget, Freire e outros. Portanto, a família interfere no desenvolvimento individual e, consequentemente, influencia o comportamento da criança e do jovem na escola, bem como os resultados que ele irá atingir. Em síntese, sem pretender assumir a defesa da família, nem apresentá-la como um bem, um mal ou uma panaceia para todos os desafios da juventude, entendemos a fala de Carlos como um dos veios de compreensão da instituição familiar. Se, para os clássicos da sociologia e da psicologia a família era responsável pela socialização primária e a escola pela secundária, hoje essa distinção já não é tão clara, sobretudo na escola, que acabou por assumir ambos os papeis. Para abordar a questão do trabalho dos adolescentes, acreditamos que é essencial ouvir o que ele mesmo diz sobre a relação entre profissionalização e escola. Carlos tem a seguinte percepção: ―A escola hoje, infelizmente, não é mais a que a sociedade espera, ou seja, vamos à escola em busca de conhecimento e lá ―você encontra‖ tudo, violência, drogas, más influências e etc. A escola estadual, em vez de ter pessoas mais estudadas, é considerada como um depósito de humanos. Os pais saem para trabalhar e deixam os filhos na escola.‖ Carlos faz alusão à escola como um conjunto de contradições, um depósito humano, o que mostra uma percepção de aspectos predominantemente negativos. O que parece é que a escola reproduz todas as mazelas sociais. Essa percepção está mais próxima de Bourdieu. Mas é importante olhar a escola como uma instituição que reproduz as mazelas sociais, mas também transforma essas mazelas e cria condições de mudança para o sujeito, como a veem Freire ou Gramsci. Carlos deixa nas entrelinhas que a escola que frequenta está um tanto perdida e não conseguiu absorver todas as suas novas atribuições. Seu papel não é mais somente ensinar. Para Rego (2002), [...] a escola ganhou função social, que transita entre o ensinar, o cuidar e o proteger. Isso porque compartilha com as famílias a educação das crianças e jovens, uma função política, pois contribui para a formação dos cidadãos, e uma função pedagógica‖ (Rego, 2002, p. 48). 119 Nesse sentido, a escola ultrapassa o papel educativo, pensamento este que vai de encontro com o posicionamento de Clerget, que vê ―a escola como um local protetor para o equilíbrio psicológico do adolescente‖ (Clerget, 2004, p. 218). O conjunto de solicitações que se aloja no interior da escola e cobra dela soluções de todos os tipos se apresenta para Carlos como descontrole e falta de rumo. Quando lhe foi perguntado o que esperava da escola, ele nos respondeu, por ordem de importância: ―Em primeiro lugar, conhecimento; em segundo lugar, crescimento; em terceiro lugar, socialização; em quarto lugar, educação; e, por fim, uma preparação para o mundo do trabalho‖. Acrescentou que a escola não contribui para capacitação profissional do aluno: ―A escola só contribui com meus conhecimentos básicos, não com o profissionalismo‖. O depoimento traz à tona o desconhecimento das prioridades da escola e do conjunto de uma trajetória profissional. O básico, o genérico, é peculiar às instituições família e escola. Sem esses ―conhecimentos básicos‖, não há como alguém se qualificar profissionalmente. Sem conhecer as operações e as noções elementares da matemática e da física, sem o domínio da língua materna, o saber fazer fica seriamente comprometido. A escola contribui para formar integralmente o sujeito. Seu grande desafio está no campo da profissionalização, um ramo em que as empresas parecem ter mais competência e tecnologia disponível. Neste caso, continua indispensável a parceria entre a escola e a empresa. Algumas experiências de parceria entre escola e empresa, no Brasil, demonstram que esse deve ser o novo projeto a ser perseguido pelas políticas públicas de educação. Há um consenso de que, na sociedade do conhecimento e da informação, a escolarização tem valor inquestionável, ―já que é capaz de proporcionar ao indivíduo experiências e informações de sua cultura‖ (REGO, 2002, p. 48). Entretanto, os jovens acreditam que a escola precisa abrir um espaço para que possam discutir projetos de vida, que incluem o trabalho. Em síntese, a escola precisa concretizar os quatro pilares da educação levantados pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO: saber aprender, saber ser, saber conviver e saber fazer, uma vez 120 que a educação ocorre de forma permanente, ao longo da vida. Por essa perspectiva, temas sobre as inquietações dos jovens, seus temores e expectativas, devem integrar o currículo. Carlos tem o hábito da leitura e gostaria de poder fazer cursos de capacitação profissional, artes e idiomas. Porém, não realiza nenhum e tampouco pratica esportes. Participa de comunidades virtuais, religiosa e cultural. Utiliza o tempo livre descansando e, na maioria das vezes, com jogos de computador e videogames. Já participou de uma ONG que auxilia adolescentes a ingressarem no mercado de trabalho. Nela, prendeu elementos de legislação trabalhista. Com base nessa experiência, comenta que ―...acho importante que todas as pessoas tenham informações sobre o assunto para se prevenirem de eventuais restrições‖. Nunca exerceu atividade remunerada e está em busca de seu primeiro emprego. Pensou em ter uma profissão na área de recursos humanos para trabalhar no departamento de pessoal. Sobre suas expectativas no mundo do trabalho, responde: ―realização, poder, dinheiro, posição social e fama‖. Esses são elementos peculiares e essenciais do consumismo. Carlos deseja trabalhar para sua autorrealização, para ser independente e crescer, e para satisfazer suas necessidades materiais e imateriais. Ele comenta que o trabalho, num país capitalista como o Brasil, é muito importante e que precisamos de capital para sobreviver e ter lazer. Observa que o trabalho é parte da nossa vida e por isso é necessário ser capaz de adaptar-se às mudanças do mundo do trabalho. O trabalho para Carlos tem valor forte, o influencia, o faz aprender, conhecer pessoas, dá prazer e o desenvolve como cidadão; espera sucesso e reconhecimento, porém acredita que a dificuldade da inserção do jovem no mundo do trabalho é causada pela falta de experiência profissional: ―[...] a sociedade em si dificulta [para] o jovem no seu primeiro emprego; por não ter experiência profissional, ele é excluído‖. Contudo, acredita que o ―trabalho é parte da nossa vida e por isso temos que se adaptar para (sic.) esse novo mundo‖. No que se aplica ao processo de escolha profissional, onde foram observadas diferentes dimensões (motivação para os estudos, motivação para 121 o sucesso escolar, socialização), a pesquisa revelou que essas geralmente são ações mescladas com afetos, que propiciam melhorar o desenvolvimento e as escolhas dos jovens. Entretanto não existem dados conclusivos, no que se refere às razões pelas quais a pessoa escolhe uma ou outra profissão. Essa questão que pode ser entendida sob a ótica sociológica, a partir da qual as escolhas são apresentadas como herança ocupacional que se manifesta por meio das profissões transmitidas de pais para filhos, ou no acesso a determinadas novas profissões – situação socioeconômica e mercado de trabalho dos pais. Já a ótica psicológica, analisa as relações existentes entre os traços de personalidade, orientação vocacional, que supõe considerar a visão sócio-histórica – em que o ser humano aqui é histórico e social – e parte do fundamento de que existe uma intervenção viva entre o sujeito e o objeto, uma relação entre o mundo real e o sujeito, uma vinculação indissociável entre o mundo objetivo e a subjetividade, em que acreditamos. O participante Carlos finaliza dizendo: ―O que me torna motivado na vida é Deus. A Bíblia é um manual de vida; minha vida é motivada e levada pelo Senhor, eixo da força para todos os dias lutar pelos meus objetivos‖. Isso implica que outras esferas sociais e sujeitos estão mobilizados no universo da juventude, principalmente na fase da adolescência, onde ocorre o processo de emancipação familiar: entre eles estão os grupos religiosos, as comunidades virtuais e o grupo de amigos. Diante do relato do jovem participante podemos refletir sobre a ação das políticas públicas existentes para a juventude, que se propõem proporcionar aos jovens acesso à educação, à qualificação profissional e à cidadania, criando oportunidades para utilizar capacidades, tendo acesso ao mundo do trabalho, ao crédito, à renda, ao esporte, ao lazer, à cultura e à terra. Proporcionarem a garantia dos direitos, com ofertas de serviços que garantam a satisfação das necessidades básicas dos jovens e as condições necessárias para aproveitar as oportunidades disponíveis. Mas estão efetivamente atingindo os objetivos propostos? Documento Diálogo Nacional para uma Política Pública de Juventude (2006) elaborado pelo IBASE (Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas) e POLIS (Instituto de Estudos, Formação e Assessoria em 122 Políticas Sociais) define política pública para juventude como sendo ―[...] o conjunto de princípios, estratégias e ações que contempla as distintas realidades dos jovens, estabelecendo seus direitos e responsabilidades e afirmando suas identidades e potencialidades [...]‖ Contudo, diante do exposto, articular as temáticas juventude e participação não é tarefa simples e torna-se um importante desafio, especialmente no contexto atual do Brasil. Ainda há dificuldades na visualização das necessidades e direitos específicos dos jovens que garantam atualmente uma igualdade de direitos a todos. Apontar para uma inserção social e produtiva para os jovens se faz necessário. O desafio passa a ser o de combinar programas que proporcionem políticas de transferência de renda, elevação quantitativa e qualitativa de escolaridade, assistência a famílias de jovens em situação de vulnerabilidade social, formação tecnológica, serviços comunitários, esporte e lazer, além de uma nova abordagem da articulação entre o mundo do trabalho e a educação para jovens. Porém surgem iniciativas no âmbito dos municípios, como Barueri, na Grande São Paulo, que neste ano de 2011 implantou a Assessoria de Política Públicas para a Juventude, objetivando formular ações capazes de atender essa população, e também no âmbito federal, que já no discurso inaugural do atual governo, teve abordada a questão social da juventude e suas implicações para um desenvolvimento de orientação democrática e popular. 6.4.1 Percepção de Ariel: o que é ser jovem? Ser jovem é ter sonhos e lutar para alcançá-los, ter determinação, vencer obstáculos. Ser jovem é ter opinião, atitude, participar dos movimentos, ir a baladas, navegar na Internet, ficar, namorar, estudar, se divertir, trabalhar para comprar o que queremos sem ter que ficar pedindo dinheiro aos nossos pais e ter um futuro. Ser jovem é também perceber as coisas que estão erradas, como corrupção, discriminação, falta de emprego para nós jovens e lugar para tirar um lazer. Ser jovem é viver intensamente, experimentar coisas novas, ter coisas novas. Ser jovem é saber viver a vida sim, 123 seja com responsabilidade ou não, sempre com muita criatividade e vontade de mudar aquilo que não está bom. E o nosso país precisa disso, precisa de jovens interessados a mudar. Jovens precisam fazer a diferença com a esperança de que nosso país tem chance de ainda continuar mudando pra valer.‖ Na percepção de Ariel do que é ser jovem, observamos em seu relato que ele tem sonhos e objetivos a alcançar, mesmo que para isso deva vencer obstáculos e precise de determinação. Muitos outros jovens não têm a determinação de Ariel, seja por outros contextos sociais e/ou emocionais. O abandono de sonhos e ideais pelos jovens em algumas situações tem sua origem no próprio processo de escolarização. Metade dos jovens com idade entre 15 e 17 anos não está matriculada na etapa da educação básica em que deveria estudar: o Ensino Médio. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios – Pnad (IBGE, 2009) mostram que há mais de cinco milhões de estudantes nessa situação. No Norte, apenas 39,1% dos alunos nessa faixa etária cursa o Ensino Médio. Diante disso, como conciliar a inserção social do jovem, de pertencer a uma sociedade globalizada e em rede em vista da necessária capacitação para o mercado de trabalho e preparo básico para a vida? Por sua vez, as famílias apresentam dificuldades para reverter esse quadro devido à sua condição social, que marca o seu cotidiano, forçando de certa maneira o ingresso precoce do adolescente no mercado de trabalho, independente de se tratarem de empregos tidos como formais, ou, dependendo da condição do jovem, de inserção em trabalhos não formais, a exemplo dos flanelinhas, guardadores de carros, limpadores de vidros em semáforos, entre outros. Além da necessidade de aumentar a renda, o trabalho dos jovens é valorizado pelas famílias por seu potencial socializador, uma vez que, em tese, mantém os jovens ocupados e longe dos desvios da vivência na rua, como as drogas e a criminalidade. De acordo com Calimam (2006), diante de certos comportamentos e estilos de vida não convencionais muitas pessoas atribuem qualificações e rótulos a indivíduos com diferentes abordagens relacionadas ao desvio social e à delinquência juvenil. 124 No esboço de um relato sobre o que é ser jovem, é importante contextualizarmos que a sociedade atual está fortemente apoiada, em seu desenvolvimento, a fatos relativos a âmbitos socioeconômicos, emocionais e culturais, que convergem das diversas maneiras de o jovem perceber e intervir no mundo. Na sociedade contemporânea, com o processo de globalização, das novas tecnologias de informação e dinâmicas de trabalho, vivemos momentos que promovem uma multiculturalidade que em certos momentos rompem com alguns referenciais tidos como tradicionais. Há substituições de cenários, meios de comunicação, família, escola, trabalho, espaços privados, individualização. Nesse contexto, como o jovem pode construir a sua identidade? Diante do relato de Ariel estabelece-se de modo mais efetivo a divisão entre o mundo das vivências internas e o mundo da realidade objetiva. O desenvolvimento da consciência para um estado de autoconsciência permite que as vivências internas e o mundo da realidade objetiva sejam crescentemente mais discriminados. Dessa forma, a juventude é o momento em que se pode falar de uma personalidade, ao mesmo tempo em que se pode falar de uma visão de mundo, embora ainda em processo de desenvolvimento. Em consonância com a teoria de Vygotsky, acreditamos que é a partir da juventude que o indivíduo pode compreender a sua própria inserção na sociedade, ganhando em plasticidade, ao operar por conceitos, e ao possibilitar o uso da vontade no encaminhamento de sua vida, objetivando transformações que passam a implicar em uma nova consciência de si mesmo e uma visão de mundo, capacitando-o a fazer escolhas e a tomar decisões sobre suas aspirações e seu projeto de vida. Porém, de certa forma, o jovem contemporâneo vive um paradoxo: por um lado, há uma padronização excessiva de gostos e de atitudes e, por outro lado, a condição de jovem que o define como alguém que possui uma grande inquietude, que busca um sentido para a sua vida. Mas nem sempre os contextos nos quais esse jovem se insere contribuem para o desenvolvimento do pensamento dialético, questionador, transformador. Portanto seja no âmbito familiar, escolar ou no trabalho, acreditamos que essas possibilidades, se não estiverem acopladas a uma rede de sustentação mais ampla, a exemplo de 125 políticas públicas para a juventude, onde haja espaços que possam garantir o desenvolvimento de um sentido para a juventude, o jovem terá dificuldades em exercitar o seu papel de ator social. Os jovens estão em todos os lugares e a todo tempo, eles querem ser notados, capacitados, educados e inseridos nos espaços que lhes cabe, mas para isso necessitam ser preparados para fazer escolhas positivas; precisam ser capacitados em termos éticos, cuidando de si e do outro, da sua escolarização, e estar aptos a uma inserção no mercado de trabalho, visando crescimento e desenvolvimento sociais. Falar sobre a temática da juventude e trabalho ―[...] exige do pesquisador alguns recortes, a fim de objetivar uma definição mais precisa sobre o adolescente pesquisado, tendo em vista a diversidade sociocultural que o envolve‖. (SILVA e MUNHOZ, 2010, p.235). Contudo, é importante evidenciar que há diferentes visões conceituais relacionadas à definição de adolescência, uma vez que se encontram na literatura correntes psicológicas que defendem a perspectiva desenvolvimentista da qual decorre a concepção de adolescência como uma etapa do desenvolvimento humano, entendendo a adolescência como uma fase da vida que possui características biológicas e emocionais específicas, com a ideia de evolução até a maturidade regida pelo desenvolvimento biológico. Como também aqueles que adotam a perspectiva por nós defendida, trabalhamos com a perspectiva a partir de referências históricas e sociais. (PERALVA, 1997; DAYRELL, 2003; CHARLOT, 2000). Para efeitos desta análise da percepção de Ariel do que é ser jovem, acreditamos ser importante: em primeiro lugar, considerar que os jovens, apesar de estarem inseridos em uma sociedade que tem vivido uma crise no mercado de trabalho, como desemprego e falta de capacitação adequada, valorizam o trabalho, seja para a realização pessoal, como fonte de renda, como meio de liberdade ou como contribuição social. Entretanto, a inserção no mundo do trabalho para o jovem é difícil, devido à falta de experiência e capacitação adequada frente às novas dinâmicas do trabalho no mundo globalizado, que está em constante transformação, devido ao impacto que causam as novas tecnologias, flexibilidade e individualização do trabalho. 126 Em segundo lugar, inserir o jovem no mundo do trabalho supõe políticas públicas de inserção laboral, onde sejam priorizadas jornadas de trabalho compatíveis com os estudos e programas de capacitação. Pensar nessa questão é entender que essas ações não são apenas privilégios para os jovens, mas sim, ações que geram consequências positivas para toda comunidade, entre elas a escola, beneficiando a família, melhorando a qualidade de vida nas cidades, diminuindo a violência e construindo projetos de vida. Como o jovem apresenta uma percepção de si mesmo e do trabalho, são dados importantes para a compreensão dos novos desafios decorrentes da globalização, das novas tecnologias, da educação e dos níveis de qualificação para o ingresso no mundo do trabalho. E, por fim, constatamos que os indicadores que evidenciam o relato de Ariel pressupõem percepções de que o jovem não é um ser isolado, sendo formado pelo processo em curso, tendo vivências e experiências passadas e um futuro potencial. Para (O‘Gormam, 1981, p. 28) ―[...] a pessoa humana é um ser social e histórico, imerso numa rede de relacionamentos.‖ Entendemos, então, que a percepção da realidade não é estática, mas acompanha todo um projeto de vida. Certamente a percepção do mundo é diferente para cada pessoa; cada pessoa percebe um objeto ou uma situação de acordo com os aspectos que têm especial importância para si própria. ―O que o indivíduo percebe e como percebe são importantes para a compreensão do comportamento humano‖ (BOCK, 1999, p. 51), aguçando, assim, sinais interiores e exteriores, provocando reflexões críticas e gerando nas pessoas a necessidade de reavaliarem suas próprias crenças como mecanismo de preservação da qualidade de vida e da sua identidade humana. O que pressupõe que as pessoas pensam, sentem, agem e têm reações por desejos e aspirações, desencadeando, assim, uma percepção e valoração no contexto do seu próprio processo histórico social, dimensionando ações reflexivas. CONSIDERAÇÕES FINAIS 127 Os participantes desta pesquisa são jovens de ambos os sexos, urbanos, do município de Carapicuíba, Estado de São Paulo, Brasil, com idade entre 17 e 20 anos, estudantes de uma escola pública do terceiro ano do Ensino Médio, pertencentes a famílias das camadas populares. Este estudo é resultado de uma pesquisa sobre a influência da família e da escola na formação do jovem para o mundo do trabalho. Toma como princípio a juventude enquanto uma construção sócio-histórica, onde se pressupõe que as abordagens sobre ela variam de acordo com os contextos social, histórico, econômico e cultural em que são formuladas e propiciam a afirmação que a juventude não é somente concebida como uma etapa de transição para a vida adulta, como um processo que enfatiza somente os aspectos cronológicos. Dentro dessa forma de perceber o jovem, procuramos situar elementos norteadores para o enfrentamento dos impasses próprios do mundo globalizado, como as novas dinâmicas do trabalho, a educação, a família e a própria juventude. O percurso de socialização destes jovens passa pelas famílias de camadas populares a que pertencem. Isso implica que vivenciaram esse processo com uma população dos centros urbanos, cujas condições de habitação muitas vezes são precárias, assim como o acesso à saúde, à educação e ao saneamento básico e dispõe de renda familiar reduzida. Nessas famílias, os cuidados com os filhos em seu processo de socialização primário cabem principalmente à figura materna, enquanto a figura paterna tem, muitas vezes, importância menor nesse processo, que pode ser visto como um processo de incursões de padrões culturais para organizar o comportamento individual, em que a família é citada em diferentes aspectos a exemplo de modelo de conduta no desempenho de seus papéis sociais e das normas e valores. Os participantes muitas vezes se referem à família como sendo mantenedores de papéis sociais conservadores, desejando que os jovens construam projetos de vida que correspondam a expectativas dos próprios pais, seja para responder à imagem sobre eles projetada da própria juventude ou em projetos de vida que visem o aumento de renda da família, sem considerar o desejo do próprio jovem. O que implica que a família pode tanto 128 ajudar quanto dificultar o jovem no momento de suas escolhas, entre elas a profissional, no momento em que o jovem está construindo sua identidade tanto pessoal como vocacional. Contudo outras instituições como, escola, igreja, mídia, além do grupo de pares também aparecem como transmissores de valores. Entendemos que a escola é um espaço que acolhe, e onde o jovem pode aprender, mas não basta apenas passar um volume grande de conteúdos: é preciso preparar para pensar. Deve ser um território em que o jovem possa exercitar suas vivências e convivências. É nesse espaço de convivência e aprendizagem, em que se dão encontros e relações, que o jovem questiona valores e começa a construir seu projeto de vida. Porém, muitos esforços ainda precisam ser construídos objetivando uma maior aproximação da escola com a vida cotidiana dos jovens. O trajeto escolar que esses jovens percorrem, nem sempre é um caminho de possibilidades para que se solidifiquem ações que promovam a capacitação e a potencialidade para que eles consigam uma inserção de trabalho. Essas ações que deveriam ser direcionadas ao fortalecimento das habilidades, da empregabilidade, propiciando um futuro próximo com tomada de decisões favoráveis. Desse modo, cabe ao sistema educacional um papel mais representativo na percepção de comportamentos, buscando significados nas diversidades socioculturais que contribuam para a reflexão e propiciem uma melhor qualidade nessa fase. Tendo isso em mente, foi importante conhecer os aspectos das percepções dos jovens do Ensino Médio de escola pública, por favorecer uma visão mais ampla do tema juventude e inserção laboral. A partir dessas reflexões e pressupostos podem-se atingir profissionais que trabalham com grupo de adolescentes, e que, ao longo de sua atuação, podem ser privilegiados com essa discussão. Entendemos que nessa convivência o trabalho com jovens se pauta na construção de vínculo que viabiliza a percepção das contradições pessoais e grupais. objetivando novos caminhos. Contudo, nos tempos atuais, no momento em que a sociedade exibe um cenário de crise de valores e ao mesmo tempo de transformações tecnológicas e sociais que repercutem na forma e na diversidade de modos do jovem participar socialmente e buscar uma inserção no mundo do trabalho, o presente 129 estudo propicia uma reflexão necessária, no propósito de questionarmos também que jovem e que sociedade queremos formar. Isso implica que a contribuição da família e do processo de escolarização como influência no desenvolvimento do jovem, fortalecendo sua a autoestima e dando-lhe suporte para o seu crescimento pessoal e social, poderá ser um dos caminhos para a cidadania, propiciando uma relação mais humanitária entre o homem e o trabalho. Temos, de um lado, a família como garantia de sobrevivência com um aporte afetivo fundamental para o pleno desenvolvimento de seus integrantes, objetivando saúde, absorção de valores éticos e de conduta, introdução na cultura e na sociedade. Por outro lado, a escola, desenvolvendo um trabalho educativo, expressando o desenvolvimento de competências pessoais e sociais que alavancam o jovem na busca uma inserção social em sentido abrangente, que inclui o trabalho, para que ele possa fazer parte de uma sociedade globalizada, com impactos tecnológicos, que necessitam aproximar a prática ao discurso no processo de socialização da juventude. Entretanto, para uma expressiva parcela dos jovens desta pesquisa, os caminhos para o mundo do trabalho são íngremes. Várias pesquisas sobre essa temática, a exemplo das realizadas por organizações internacionais como a Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2008) nos revelam crescimento da população jovem. A partir dessa condição, pode-se dizer que há uma tendência de o mercado de trabalho não conseguir absorver toda essa demanda de jovens. Segundo o mesmo relatório, a condição do jovem é bem mais precária que a dos adultos, pois as chances de aqueles estarem desempregados são três vezes maiores do que as destes, tanto no cenário nacional como no internacional. Um dos motivos principais dos relatos dos jovens participantes desta pesquisa no que se refere à dificuldade de inserção no mercado de trabalho é a falta de experiência, uma característica forte que se pode atribuir também a este grupo. Entendemos que é nesta fase da juventude que o adolescente vai à busca do seu primeiro emprego. No entanto, ele se depara com uma nova organização produtiva no mundo do trabalho, originária dos impactos da 130 competição, da tecnologização e da globalização na relação homem-trabalho, que estão marcadas por uma série de mudanças, de caráter estrutural, para os quais contribuem o enorme avanço do conhecimento científico e suas correspondentes inovações na área produtiva e globalizações do cenário mundial, que são inerentes ao capitalismo. Com base nessas considerações, para que o jovem participante da nossa pesquisa possa vivenciar esse novo ambiente em que ele quer se inserir – o mundo do trabalho –, principalmente numa sociedade propensa a mudar com bastante rapidez, ele necessita de contar com instituições como a família, a escola, e outras esferas que propiciem uma formação ética, social e profissional, para que ele possa modificar sua biografia e a de seu grupo. Compreendemos a partir de reflexões desta pesquisa que a escola atual, principalmente a escola pública do Ensino Médio não tem recursos humanos e materiais que supram a necessidade de capacitação exigida pelo mercado de trabalho, cabendo às empresas o treinamento em serviço, para obter e aperfeiçoar as habilidades e conhecimentos profissionais, principalmente para atender um cenário caracterizado pela nova dinâmica do trabalho, novas tecnologias e globalização. Diante dessas considerações, fica evidenciado que a atual escola não comporta as necessidades do mundo do trabalho, o que pode significar que a mesma não reúne qualidades que capacitem os jovens a se inserirem no mercado. E aqui cabe um questionamento: é papel da escola preparar para o mundo do trabalho? Os jovens acreditam que são necessárias mudanças, visando uma escola que além de transmitir conhecimentos, também possa criar um espaço de socialização, objetivando assim discussões, reflexões para que os jovens se posicionem sobre suas reais necessidade sociais, alavancando-o e impulsionando-o a pensar a vida e a orientação profissional, criando tendências. A escola precisa abrir um espaço para o jovem discutir seu projeto de vida, e não se fala em projeto de vida sem discutir o trabalho, onde podem ser abordadas, sobre o tema, as inquietações dos jovens, seus temores e expectativas, possibilitando que ele perceba o trabalho como realização pessoal e meio de participação, cooperação e sobrevivência. Originando-se 131 assim uma escola que compartilhe seu papel transformador do entorno social do jovem na sociedade contemporânea. A família também deve ser incluída nesse processo de desenvolvimento do jovem na busca do primeiro emprego, por sua função de garantir sobrevivência, estabilidade emocional, e condições de aprendizagem durante o processo de socialização em conjunto com a sociedade e o Estado, pois, como diz o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) Art. 227: ―É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão‖. Essas ações podem favorecer o processo de escolhas profissionais de jovens em diferentes dimensões, como motivação para os estudos, motivação para o sucesso escolar, socialização. Ações estas que devem ser acompanhadas de combinações de afetos, que ajudam a melhorar o desenvolvimento e as escolhas dos jovens, estejam elas focadas na ótica sociológica ou psicológica, já discutidas no corpo deste estudo. Falar sobre a percepção do jovem sobre o trabalho é considerar que, apesar de estarem inseridos em uma sociedade onde os jovens têm vivido uma crise no mercado de trabalho frente às novas dinâmicas do trabalho no mundo globalizado e em constante transformação, devido aos impactos causados pelas novas tecnologias e flexibilidade e individualização do trabalho, com desemprego e falta de capacitação adequada, os jovens valorizam o trabalho, seja como realização pessoal, como fonte de renda, como meio de liberdade, como contribuição social. Contudo um trabalho para a juventude supõe políticas públicas de inserção no mundo do trabalho, onde sejam priorizadas jornadas de trabalho compatíveis com as de estudos, e programas de capacitações. Pensar nessa questão é entender que essas ações não são apenas privilégios para os jovens, mas sim, ações que têm consequências sobre toda comunidade, beneficiando a escola e a família, melhorando a 132 qualidade de vida nas cidades, diminuindo a violência e construindo projetos de vida. Este estudo é o produto de um processo realizado por muitas mãos: dos facilitadores encarregados dos jovens, dos responsáveis pelo trabalho junto aos jovens, dos jovens participantes e por fim a aqueles que contribuíram para a adequação da proposta a uma realidade possível, especificamente aos autores que fundamentam este trabalho, que ajudaram a criar com maior sinergia e a consolidar diversas contribuições na área educacional, no campo do trabalho, no tocante ao papel da família e à percepção da juventude, transformando-o em material acessível a educadores. Cada pesquisador há de encontrar um jeito de caminhar na perspectiva de novas percepções das pessoas. São muitos os caminhos possíveis. Nesta caminhada, cada passo tem um propósito, cada percepção tem um sentido. Dos levantamentos preliminares, da escolha da epistemologia, do método, dos estudos, das entrevistas, da troca de experiências... enfim foram vários os percursos para estudar as repercussões da prática familiar escolar na escolha do trabalho do jovem. As reflexões a partir dos pressupostos que atingem todos os profissionais que trabalham com grupos de jovens e que, ao longo de sua atuação, aprendem que não existem certezas absolutas ao se lidar com pessoas. Nesta convivência constatamos que o trabalho com jovens se pauta na construção de vínculo que viabiliza a percepção das contradições pessoais e grupais e a construção de novos caminhos. 133 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ABRAMO, H. W. Cenas juvenis: punks e darks no espetáculo urbano. São Paulo: Scritta, ANPOCS, 1994. ________. Condição Juvenil no Brasil Contemporâneo. In: ABRAMO, H. W.; BRANCO, P. P. M. (Org.). 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Sexo: ( ) Masculino ( ) Feminino 2. Idade 3. A sua cor ou sua raça é: ( ) Branca ( ) Preta ( )Amarela ( )Parda ( ) Indígena 4. Qual sua religião: 5. Local de nascimento: Cidade/Estado/Pais ( 6. Qual é o seu estado civil: ( )Solteiro (a) ( ) Casado(a) ( ) Viúvo(a) ( ) Desquitado(a)ou separado judicialmente )Divorciado 7. Você tem alguma deficiência que limite suas atividades habituais: ( ) Não ( ) Sim Qual: II - Família e Domicílio 8. Você reside em domicílio com: ( ) pai ( ) avó ( )sozinho ( )tios ( ) mãe ( ) avô ( )esposa ( )outros 9. Qual é o seu estado civil: ( ) Solteiro(a) ( ) Casado(a) ( )Divorciado(a) ( ) Viúvo(a) ( ) Desquitado(a) ou separado(a) judicialmente 10. Você tem alguma deficiência que limite suas atividades habituais: ( ) Não ( ) Sim Qual:________________________________ 11. Quantidade de pessoas no domicílio: 12. Número de irmãos: 13. Número de pessoas que contribuem 14. Você possui dependentes: com a renda familiar: ( ) não ( ) sim Quantos: _____________ 15. Qual é a sua a renda familiar: ( ) 1 SM ( ) 1-2 SM ( (SM)= Salário Mínimo 16. Pai trabalha: ( ) Sim ( ) 2-3 SM ( ) 3-4 SM ) não ( ) 4-5 SM ( ) + que 5 SM 19. Mãe trabalha : ( ) Sim ( 17. Função: 20. Função: 18. Grau de escolaridade do pai: 21. Grau de escolaridade da mãe: 22. Qual é o seu tipo de domicílio: ( 23. O domicílio é: ( ) próprio ( ) casa ( ) apto ( ) alugado ( ) cedido ) cômodo ( ) outro ) não 146 24. Você possui conta corrente ou poupança: 25. Você possui plano de saúde ( ) sim 26. Você possui cartão de crédito ( ) sim 27. No seu domicílio existe: ( ) Rádio ( ) Geladeira ou Freezer ( ) TV ( ) Aparelho de DVD ( ) Máquina de lavar roupa ( ) Máquina de lavar louça ( ) Aparelho de som ( ) Microcomputador ( ( ) sim ( ) não ) não ( ) não ( ( ( ( ( ( ( ( ) Linha telefônica instalada ) Forno microondas ) Celular ) Filtro d’água ) Aparelho de ar condicionado ) Secador ) Fogão ) Automóvel III-Cultura e Lazer 28. Qual foi o ultimo livro que você leu que não fosse exigência escolar: 29. Enumere de 1 a 6-por ordem de importância a frequência em que você pratica ou frequenta algumas das seguintes atividades: ( ( ) esportes ( ) artes ( ) cursos profissionalizantes ) pré- vestibulares ( ) outros. Quais? 30. Você tem acesso a informática: ( ) sim ( ) não ( ) curso de idiomas 31. Enumere de 1 a 5, por ordem de frequência, o local onde você utiliza o computador: ( ) casa ( ) escola ( ) lanhouse ( )casa de amigos ( )outros 32. Enumere de 1 a 5, por ordem de importância, a sua participação em uma ou mais das seguintes comunidades ou agremiações : ( ) virtual ( ) esportivas ( ) religiosas ( ) teatro ( ) outras. Qual: ___________ 31.Como você utiliza seu tempo livre? 32.Você já utilizou drogas: ( ) não ( ) sim Comente: 33.Você já teve algum tipo de problema com a justiça: ( ) não ( ) sim Comente: 147 IV- Reflita e responda às questões abaixo: 1. Você já teve alguma ocupação remunerada? ( ) sim ( ) não 2. Você exerce atualmente algum tipo de trabalho remunerado? ( ) sim ( ) não 3. O que você sabe do mundo do trabalho ? ( ) nada ( ) muito pouco ( ) pouco ( ) bastante 4. Enumere por ordem de importância de 1 a 5, O que você espera do mundo do trabalho ? ( ) dinheiro ( ) fama ( )poder ( ) posição social ( ) realização ( ) outras quais: ( ( 5. Enumere por ordem de importância de 1 a 5, O que você espera da escola ? ) socialização ( )educação ( )conhecimento ( ) crescimento ) preparar para o mundo do trabalho: 6. Enumere de 1 a 5 , por ordem de importância; Por que você deseja trabalhar ? ( ) necessidade ( )independência ( ) crescimento ( )auto realização ( ) outra -qual 7. Em sua opinião para que serve a escola? 8. Você já pensou em ter uma profissão? ( ) sim ( ) não Qual: _____________________________________ por quê?______________________________ 9-Você acha que sua família tem contribuído para o seu futuro profissional? ( )sim ( ) não Comente:__________________________________________________________________ 10- Você acha que seu grupo de amigos tem contribuído para o seu futuro profissional? 11-Você conhece a Legislação Trabalhista? Comente. 12-Em sua opinião para que serve o trabalho? 13-Você acha que a escola tem contribuído para o seu futuro profissional? ( ) sim ( ) não – Por quê? 14- O que em sua opinião dificulta a inserção no mundo do trabalho ? 148 ANEXO B - MODELO DO ROTEIRO DE ENTREVISTA ROTEIRO DE ENTREVISTA 1- Qual a sua expectativa para o primeiro emprego? 2- Qual o sentido do trabalho para você? 3- Qual o valor do trabalho para você? 4- Qual a percepção do trabalho para você? 5- Você acredita que sua vida ira mudar após o primeiro emprego? Por quê? 6- O que motiva você na vida? 7- Em sua opinião quais outros grupos sociais ou instituições têm contribuído para o seu futuro profissional? 8- Quando você necessita de dinheiro a quem você recorre? 9- Você frequenta alguma igreja? Por quê? 10- Em sua opinião o que é ser jovem? 149 ANEXO C - APROVAÇÃO DO COMITÊ DE ÉTICA FIEO