PATRIMONIO CULTURAL GOIANIENSE: A CONSTRUÇÃO DE UMA
MEMÓRIA
Helena Cristina dos Reis Braga¹; Marisa Dorive Antonio²; Kátia Cilene do Couto³
¹ Bolsista PIBIC/IFG , graduanda do curso de Planejamento Turístico do IFG.
² Voltuntária PIBIC/IFG, graduanda do curso de Planejamento Turístico do IFG.
³ Orientadora.
RESUMO
No ano de 1929, o Art Déco chega ao Brasil, importado da Europa e dos Estados
Unidos, atingindo a maioria das regiões do país. Apesar de ser universal, esta arte é ao
mesmo tempo regionalizante, com características culturais de cada região em que é
aplicada. A adoção deste estilo artístico coincide com o início da construção de Goiânia.
O governo a adotou, pois, além de moderna, não precisaria de muitos gastos para sua
aplicação nas construções da nova capital. O Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN), no ano de 2003, tombou o acervo arquitetônico urbanístico
Art Déco de Goiânia. Hoje, o acervo arquitetônico da capital goiana é considerado um
dos mais significantes do país. Na praça central está presente esta arquitetura moderna,
sendo o local com o maior número de construções no estilo Art Déco presente na
capital. Entretanto, diante de tanto progresso e beleza, a expansão rápida da cidade de
Goiânia parece não ter ocorrido concomitantemente com o desenvolvimento de uma
identidade regional. Questão importante para se pensar, pois para haver sustentabilidade
da população local, da sua cultura e do turismo em que nela se desenvolve, é importante
que os cidadãos se “apossem” dela, saibam sua história, busquem se identificar com os
locais e elementos que compõem esta história. Segundo Martins Clerton de Oliveira
(2006), a posse de um território confere identidade ao grupo e aos seus componentes ter e ser no espaço. A importância dos registros de bens de valor histórico e cultural
para a preservação da memória da cultura e da própria identidade do povo é uma
preocupação ainda recente na cidade de Goiânia. Através de pesquisas qualitativas e
quantitativas (entrevistas e aplicações de questionários com cidadãos de bairros nobres e
da periferia) e pesquisas em acervos e registros culturais, temos como objetivo concluir
cientificamente através dos dados e informações que obteremos, como cidadãos
goianienses se identificam com sua cidade, mais especificamente com o conjunto praça
cívica, suas simbologias para a população em geral, e seu conhecimento e respeito por
esse patrimônio histórico. E ainda, concluir se os cidadãos da periferia reconhecem o
conjunto Praça Cívica como elemento de formação de sua memória e identidade.
Palavras – chave: Goiânia, Identidade, Memória
Introdução
Art Déco é um estilo de origem francesa, que se destacou na década de 30 no
continente europeu e americano, influenciou as artes plásticas, a decoração e a
arquitetura de edifícios. Em Goiânia, vários monumentos em estilo Art Déco foram
construídos nas décadas de 30, 40 e 50. Como o governo não pretendia gastar muitos
recursos em edifícios luxuosos, o estilo foi escolhido para compor a arquitetura e para
dar uma aparência moderna à nova capital do Estado. O acervo arquitetônico e
urbanístico Art Déco de Goiânia, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e
Artístico Nacional (IPHAN) no ano de 2003. Neste acervo estão incluídos 22 prédios e
monumentos públicos. Toda a história de Goiânia, desde sua construção até hoje,
representa um conjunto de fatos e marcos históricos muito importantes e significativos
para alguns cidadãos que se identificam com a cidade. Para que haja o sentimento de
pertencer à cidade e fazer parte dela, o indivíduo deve fazer uso da história, das
memórias, das simbologias que cada lugar representa para ele, e também se apossar do
território. Assim, pretendemos analisar a importância histórica e cultural do conjunto da
Praça Cívica e outros monumentos da cidade, buscando identificar os mecanismos
simbólicos que aproximam e separam o cidadão que vive na região central e o que vive
na periferia da cidade.
Justificativa
Chama-nos atenção a realidade em que o patrimônio do conjunto Praça
Cívica é visto pela população, tanto dos setores nobres de Goiânia quanto da periferia
em geral. O Patrimônio histórico constituído pela arquitetura Art Déco é representativo
de um dado momento histórico da capital que tinha na visão progressista de Pedro
Ludovico Teixeira o seu sustentáculo. Esse patrimônio aos olhos de muitos moradores
da capital é invisível; a memória que ele representa está oculta e é caracterizada por
outros significados, novas experiências. Essa pesquisa nos propiciará analisar as várias
relações que os cidadãos goianienses estabelecem com esse patrimônio.
Material e Métodos
Materiais
•
Levantamento bibliográfico;
•
Pesquisa de campo;
•
Pesquisa em acervos públicos;
•
Busca de informações, referentes ao tema do projeto, em órgãos públicos como
AGETUR, Secretaria de Cultura, Secretaria de Turismo e AGEPEL;
•
Aplicação de questionários para coleta de dados qualitativos e quantitativos.
Métodos
•
Método bibliográfico: realizado através de levantamento bibliográfico em
faculdades públicas, privadas e acervo público;
•
Método quantitativo e qualitativo: com a aplicação de questionários em escolas
públicas e conveniadas. Estes questionários eram formados por perguntas de
cunho quantitativo e qualitativo.
Resultados e discussões
Segundo Meneses “A História e o Turismo Cultural, em seus limites interpretativos,
monumentalizam eventos e musealizam existências” a monumentalização e a
musealização muitas vezes ocorrem de forma superficial, em que se configura uma
maneira de se informar sobre um bem cultural, edifícios e pessoas não problematizam a
história da comunidade em que estão inseridos. Meneses continua “... servem apenas
como objetos materiais expostos à curiosidade de turistas que, provavelmente
esquecerão rapidamente o que viram, postos que não foram estimulados a pensar, a
partir deles, sobre a construção dinâmica da cultura visitada.” Daí, um projeto de
educação patrimonial precisa estimular a reflexão e a participação. Caso contrário, o
morador de um determinado local não compreenderá a cultura de sua região, de forma
que os edifícios, as construções e até mesmo o patrimônio imaterial serão sempre
externos a ele, não ocorrendo identificação. Consequentemente, o cidadão terá a idéia
de “preservar por preservar”, ou seja, sem reflexão não há o entendimento da
importância real e cultural do Patrimônio para os habitantes de um determinado local.
“A superficialidade da fruição impede que o turismo
construa algo que é fundamental para a sustentabilidade da
atividade e do atrativo que se constrói: a dignificação é
traduzida por uma incorporação efetiva da cultura como
substrato do produto que se escolheu para construir e
vender.” (MENESES, p.22)
Meneses defende que Monumento tem dois sentidos diferentes em nosso tempo. A
palavra em latim monumentum deriva de lembrar, de modo que monumento pode
significar aquilo que memoriza, traz à lembrança e precisa ser guardado. O monumento
nesse caso seria para Meneses como “edificação, que dá sentido a um processo
educativo e revela as intenções da instituição educadora, apresenta informações para
que os acontecimentos não sejam esquecidos”. Mas o monumento pode ser também
uma construção que não tem função memorial explícita e sim a de exaltar a beleza ou
técnica de seu tempo presente. Como percebemos em vários questionários, os alunos
percebem os patrimônios de sua cidade como algo de grandeza e distante de suas
realidades e não ocorrendo participação e identificação com eles.
A compreensão do patrimônio estende-se de forma ampla nos dias atuais. Entretanto
é importante fazer uso da reflexão para que se consiga atingir aprendizado com aquilo
que se visita. Caso contrário, os monumentos terão sempre significações externas ao
morador local.
“A compreensão contemporânea do patrimônio deixou de se
ater apenas às qualidades estéticas do bem em si, ampliandose ao cotidiano da vida, no exercício da cultura e no
desenvolvimento sócio-econômico das comunidades,
constituindo-se em um dos fatores responsáveis por sua
identidade e qualidade de vida” (CARSALADE, 2001)
Não há como tratar do assunto Patrimônio Histórico e cultural sem pensar na
memória. A memória está relacionada à identidade, e para que ocorra uma reflexão
acerca dos patrimônios e apropriação dos mesmos, é preciso memorização. Memória,
segundo Carsalade (2001), é algo que a humanidade constrói, identificando indivíduos
entre si e tornando-se únicos nas comunidades. Pode se dizer que memória é a base da
identidade auxiliando dos laços de pertencimento da humanidade.
Outro ponto importante visualizado nos questionários aplicados é a idéia que os
alunos têm de que Patrimônio é algo material somente, e também a consideração de que
paisagens atrativas são praias e monumentos de grandes dimensões. Entretanto, sabe-se
que há patrimônios intangíveis que tem como objetivo a preservação das tradições orais
e artísticas e um povo como rezas, danças, pinturas, etc, e que uma construção simples e
sem tombamento pode ser também considerada como patrimônio cultural, desde que
uma comunidade a julgue importante e atribua valor a ela. A definição oficial de
patrimônio cultural consta da Constituição Brasileira de 1988 em seu artigo 216:
Constitui patrimônio cultural brasileiro os bens de
natureza material e imaterial, tombados individualmente
ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à
ação, à memória dos diferentes grupos formadores da
sociedade brasileira, nos quais se incluem:as formas de
expressão, os modos de criar, fazer e viver; as criações
científicas, artísticas e tecnológicas;as obras, objetos,
documentos, edificações e demais espaços destinados as
manifestações artístico-culturais; os conjuntos urbanos e
sítios de valor histórico, paisagístico, artístico,
arqueológico, paleontológico, ecológico e científico.
Através da nossa pesquisa, percebemos em Goiânia a carência de projetos de
educação patrimonial e de revitalização dos bens tombados. É preciso o exercício de
aproximação entre História, Patrimônio Cultural e Planejamento turístico, promovendo
discussões e reflexões dos indivíduos que visitam os patrimônios.
Em geral, podemos citar as principais conclusões do nosso trabalho de pesquisa:
percebe-se a distância da preservação, “preservar por preservar”, cidadão distante de sua
própria cultura e distante de sua identidade regional; a definição de patrimônio está
muito ligada a ponto turístico, riqueza arquitetônica de dimensão global; importância do
patrimônio é para a cidade e turismo, não para o povo. Os entrevistados se vêem longe
da apropriação dos patrimônios e como não há identificação desses bens com sua
própria história e realidade de vida; definição de patrimônio histórico e cultural somente
em sua forma tangível; ponto turístico e valor cultural as paisagens ligadas a praias e
grandes belezas, não incluindo o cotidiano dos habitantes locais e o valor de seus
costumes, tradições e locais que deveriam fazer parte de sua memória;idéia de que para
ser patrimônio precisa ser tombado, é errôneo visto que uma construção, por exemplo,
se for atribuída valor a ela por parte de uma comunidade local, tal construção pode ser
definida como patrimônio também; há inúmeros projetos relacionados ao patrimônio
histórico e cultural goiano mas quase nenhum sai do papel, pouquíssimos são colocados
em prática, diante disto se pode perceber a pouca atenção dada a este tema por parte dos
governantes, iniciativa privada e população em geral; idéia de que o patrimônio
histórico é sempre algo externo ao indivíduo, algo distante e algo fixo em sua história
de construção; a palavra memória, relacionada com patrimônio apareceu em
pouquíssimos questionários; a não existência de aulas e disciplinas sobre patrimônio
histórico e cultural nas escolas reforçam o desconhecimento e a falta de interesse dos
alunos pelo tema. Embora a importância de se tratar o tema conste nos PCNs, que visa
que os alunos estudem de forma consciente a cidade e os valores culturais da sua
própria região.
Carência de entendimento acerca dos projetos e questões relativas ao patrimônio por
parte dos próprios funcionários das instituições é um agravante sobre a falta de uma
ação mais efetiva no que se refere ao estudo, preservação e conscientização sobre o
patrimônio histórico goianiense, como por exemplo, o “Projeto Vila Cultural”.
A Vila Cultural é um programa de extrema importância, pois é criado no contexto
em que o centro das cidades brasileiras vem sofrendo um processo de degradação
constante, ao longo dos últimos 50 anos. Várias são as cidades do país que viram seus
centros perder a importância como ponto focal da vida pública, cultural e social.
Goiânia, apesar de ser uma cidade nova, já demonstra os primeiros sinais de degradação
do centro.
Como exemplos de objetivos específicos para o projeto Vila Cultural têm-se:
capacitar professores, guias turísticos e demais profissionais para serem multiplicadores
da importância do projeto; sensibilizar os alunos em relação ao papel do cidadão no
processo de valorização do patrimônio histórico da cidade; dinamizar roteiros turísticos
específicos do patrimônio histórico e cultural de Goiânia; oferecer um conjunto de
atrações que desperte na população o desejo de participar da vida do centro;
requalificação e reabilitação do centro de Goiânia; recuperação e reforma de prédios
históricos.
O Instituto Casa Brasil de Cultura (ICBC) é responsável pela elaboração do projeto,
captação e execução. O projeto Vila Cultural é uma extensão do projeto de revitalização
do centro de Goiânia denominado Cara Limpa, de 2004. A estratégia de lançar a
execução do projeto Cara Limpa concomitantemente à Vila Cultural deve-se ao fato de
ações articuladas e simultâneas obterem maior impacto na percepção da população e
atrair mais força às ações.
O Projeto prevê medidas para curto, médio e longo prazo. Há planejamento para a
execução de ações pelos próximos quatro anos. Entre elas, prevê-se a isenção da licença
onerosa para se construir habitações coletivas no Centro. A queda do imposto é um
atrativo para atrair empreendimentos imobiliários.
Em relação ao orçamento, o pedido ao Ministério da Cultura foi da totalidade do
projeto, de mais de R$ 6 milhões. Em seguida, após quase dois anos, a Itaú Seguros
interessou-se pelo projeto e aportou o valor mencionado. Em vista desse aporte, o ICBC
decidiu pedir a redução do escopo original do projeto, apresentando novo pedido para a
redução do valor total para R$ 1,4 milhão. Uma única ação de divulgação que contou
com o patrocínio de entidade pública foi o encontro internacional com representantes de
associação Art Déco, em 2004, evento patrocinado com R$ 10 mil pela Celg.
Ao buscar informações sobre sua aplicação e ação junto à comunidade não obtivemos
muitas informações específicas, somente através de diálogos com os funcionários da
Goiás Turismo, e mesmo assim, tal projeto não é muito acessível para os goianienses,
como por exemplo, o acompanhamento dos resultados;
Foram aplicados 102 questionários para obtenção de dados quantitativos e
qualitativos. Estes questionários foram aplicados no Colégio Lyceu de Goiânia e
Clarentiano, por serem colégios público e conveniado, respectivamente, e conterem uma
diversidade de alunos, em relação a classe social, idade e localidade onde moram.
Os alunos que responderam os questionários tinham idades entre 14 e 18 anos,
estavam no Ensino Médio e tiveram algumas dificuldades em responder questões mais
específicas sobre o tema.
Perguntamos se eles consideram Goiânia uma cidade turística e por quê?
Quarenta e oito pessoas disseram que sim, consideram Goiânia uma cidade turística e
cinqüenta e duas disseram que não. “Goiânia não é uma cidade turística porque não
tem nada de interessante e não chama a atenção de ninguém para vir aqui”. (Aluno
Colégio Clarentiano. 15 anos. Setor Vila Nova).
Outra questão muito interessante foi sobre qual a importância dos prédios
históricos de Goiânia, como a Praça Cívica na sua vida para cada um deles. Vinte e
quatro alunos disseram que é muito importante, quarenta e três responderam importante,
catorze indiferentes e vinte e um falaram que não tem nenhuma importância.
A próxima pergunta foi se os alunos dos Colégios em que foram aplicados os
questionários tiveram alguma aula sobre a história de Goiânia. Vinte e um responderam
que sim e cinqüenta e nove que não.
Como focamos nosso trabalho nos Patrimônios de Goiânia e nossa proposta era
saber qual a relação das pessoas com estes monumentos, se realmente elas conheciam
ou tinham ligação com algum deles, citamos todos os Patrimônios Culturais de Goiânia
tombados pelo IPHAN e perguntamos quais eles já tinham visitado. Cinqüenta e sete já
foram no Coreto que se localiza na Praça Cívica, quinze nas Fontes Luminosas, tinta e
oito na Residência de Pedro Ludovico Teixeira, trinta e três no Palácio das Esmeraldas,
cinqüenta no Relógio da Avenida Goiás, sessenta e duas no Colégio Lyceu de Goiânia,
sete no Grand Hotel sessenta e uma no Teatro Goiânia, vinte e duas na Antiga Escola
Técnica e Goiás, hoje Instituto Federal de Educação Tecnológica de Goiás, e quarenta e
três na Estação Ferroviária.
Também perguntamos se realmente é importante preservar os Patrimônios
Culturais de Goiânia. A maioria dos alunos disse que sim. “É a historia da nossa
cidade. É importante preservar aquilo que nos traz algo de bom, uma cultura
saudável”. Aluno Colégio Clarentiano. 15 anos. Setor Central. “Pois precisamos
preservar a história da nossa cidade. Pois faz parte da identidade da nossa cidade”.
Aluno Colégio Clarentiano. 16 anos. Setor Vila nova.
Estes foram os dados quantitativos que obtivemos através dos questionários
aplicados para alunos do Ensino Médio.
Tabela 1
Você considera Goiânia uma cidade turística?
sim 48
não 52
Tabela 1 – Goiânia considerada uma cidade turística
Tabela 2
Qual a importância dos prédios históricos de Goiânia como a Praça Cívica, na sua
vida?
45
40
35
30
25
Muito importante
20
15
Indiferente
Importante
Nenhuma
10
5
0
24
43
14
21
Tabela 2 – Importância dos prédios históricos de Goiânia para os alunos.
Tabela 3
Na escola você tem ou teve alguma aula sobre a história de Goiânia?
Sim 41
Não 59
Tabela 3 – Na escola tiveram a matéria sobre a história de Goiânia.
Tabela 4
Dentre os Patrimônios Culturais de Goiânia citados quais deles já visitaram?
43
22
61
Estação Ferroviária
CEFET
7
Teatro Goiânia
Grand Hotel
62
Colégio Lyceu
50
Relógio da A. Goiás
33
Residência Pedro Ludovico
38
Coreto
Palácio das Esm eraldas
Fontes Lum inosas
15
57
0
50
100
Tabela 4 – Patrimônios Culturais de Goiânia.
Conclusão
O turismo é indissociável da cultura, a diversidade cultural é o ingrediente principal
para o desenvolvimento desse setor. É preciso haver um turismo sustentável, permitindo
ao mesmo tempo preservar a diversidade cultural e torná-la um componente efetivo de
um desenvolvimento socialmente justo. Entretanto, para que ocorra um turismo
sustentável em uma determinada região é preciso que sua população reconheça o valor
de sua própria cultura a fim de lutar pela sua preservação. De acordo com Meneses, a
cultura de um povo não é imutável, pode e precisa mudar ao longo do tempo, mas tais
mudanças devem ser refletidas e pensadas pelos moradores e não como algo imposto
por parte dos turistas. Com reflexão ocorre turismo sustentável. Daí, através desta
pesquisa percebemos a importância de existirem programas de educação patrimonial a
fim de formar cidadãos mais conscientes.
Na globalização atual o turismo muitas vezes funciona como fuga do cotidiano.
Turistas buscam peculiaridades. Além de atrair turistas é importante, por exemplo, que a
população de determinada região valorize e use sua cultura como forma de atrativo
turístico. Além de atrair lucros e investimentos, a população que valoriza e se identifica
com sua própria cultura, tradições, costumes e patrimônios, conserva uma identidade,
característica cada vez mais necessária, requisitada e ainda sim difícil de manter no
sistema global.
“Desenvolver a cultura nas sociedades contemporâneas,
multiculturais e densamente interconectadas, não pode
consistir em privilegiar uma tradição, nem simplesmente
preservar um conjunto de tradições unificadas por um Estado
como “cultura nacional”. O desenvolvimento mais produtivo
é aquele que valoriza a riqueza das diferenças, propicia a
comunicação e o intercâmbio – interno e com o mundo- e
contribui para corrigir as desigualdades”. (Canclini, p.23).
Para exemplificar ações educativas existentes no Brasil, é relevante comentar sobre
o Projeto de conscientização turística e patrimônio, denominado de turismo educativo,
realizado na Prefeitura de São Luís, por meio da Secretaria do Turismo. Segundo
Meneses (2004), tal projeto é destinado a estudantes do ensino fundamental das escolas
das redes pública e particular de ensino, que envolve diretores, professores,
funcionários, pais e que beneficia, diretamente, crianças e adolescentes na formação de
uma consciência de preservação do patrimônio de São Luís, capital maranhense. Aos
alunos são apresentados palestras, vídeos, dramatizações e exposição do patrimônio
cultural e natural da cidade. Eles também participam de atividades socioeducativas, que
incluem passeios pelo centro histórico, os quais contribuem para o enriquecimento
cultural, além de criar uma consciência turística na comunidade. O projeto, que foi
implantado em 1998 e aplicado até 2005, envolveu 48 escolas das redes municipais e
particulares e atendeu um público participante de 145.016 pessoas ao longo dos seis
anos de funcionamento. Em dezembro de 2005, promoveu-se encontro entre Setur e
representantes da comissão formada por órgãos federais, estaduais e municipais, além
de instituições de ensino superior em que, além de um balanço positivo do projeto,
discutiu-se a inclusão, nos currículos, da disciplina Educação patrimonial e turismo
cultural. É importante notar a importância de primeiramente a cidade ser valorizada pela
população local e ocorrer identificação para que somente depois a região tornar-se
atrativo turístico.
É preciso haver cidadão críticos para definir os patrimônios e valores que estão
relacionados com seu cotidiano, e não se omitir deixando assim o Estado selecionar os
bens a serem preservados, pois deste modo, este preservará somente os bens
selecionados pelos grupos sociais dominantes, excluindo a população em geral. Tal
consciência, de que cada cidadão precisa apossar de seus valores, está sendo pouco
desenvolvida. Cabe a cada indivíduo reconhecer sua importância na história da cidade, e
não ser passivo diante de decisões estatais. Segundo Bolle (1984. p. 33):
“A história que se preserva tende a ser a história das classes
dominantes. Os monumentos que se conservam são aqueles
que estão associados com os feitos e a produção cultural das
classes dominantes. Raramente se preserva a história dos
dominados."
As pessoas ainda têm muito que aprender sobre Patrimônio Cultural, a
importância dos monumentos históricos para a própria identidade e para a preservação
da herança histórica para as gerações futuras.
Trabalhar o Patrimônio Cultural nas escolas fortalece a
relação das pessoas com suas heranças culturais,
estabelecendo um melhor relacionamento destas com
estes bens, percebendo sua responsabilidade pela
valorização e preservação do Patrimônio, fortalecendo
a vivência real com a cidadania, num processo de
inclusão social. (MORAES. p 2.).
Para que isso aconteça, deve ser feito um trabalho de Educação Patrimonial. Isto
pode ser realizado nas escolas com crianças a partir do 4º ano, pois nesta idade elas já
têm um entendimento histórico. As aulas pode interdisciplinar com as matérias de
história e geografia, mas para isso os professores devem fazer um treinamento para
realmente entenderem o que é Patrimônio Cultural e sua importância para toda a
sociedade.
O governo deve investir na Educação Patrimonial infantil e adolescente, e
também deve conscientizar os turistas da importância destes Patrimônios. Como
Goiânia possui um acervo muito rico em arquitetura Art Déco, os órgão públicos
responsáveis pelo turismo de Goiânia devem se aproveitar disso para promover a cidade
turisticamente. Projetos devem ser elaborados e levados a frente para promover Goiânia,
mostrar o quão rica esta cidade é de história e cultura.
Bibliografia
FEIBER, Fúlvio; FEIBER, Silmara. Arquitetura Brasileira: Art Déco. Trabalho
Acadêmico. 2007.
Assessoria Especial de Cultura / Prefeitura de Goiânia. Memória Cultural, Ensaios da
História de um povo. Goiânia, 1985
PESAVENTO, Sandra Jatahy /História, memória e centralidade urbana/ Número 7 –
2007, Nuevo Mundo Mundos Nuevos, mis em ligne le 5 janvier 2007, référence du 7
février 2007, disponible sur: http://nuevomundo.revues.org/documente3212.html
MENESES, José Newton Coelho. História & Turismo Cultural. São Paulo, 2004.
CARSALADE, F. L. Patrimônio Histórico. Sustentabilidade e Sustentação.
Campinas, junho 2001.
Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.
CANCLINI, Nestor. G. Todos tienen cultura: quiénes pueden desarrollarla?
Conferência para o seminário sobre Cultura e Desenvolvimento. Whashington: Banco
Interamericano de Desenvolvimento, 24 fev.2005.
BOLLE, Wille. Cultura, Patrimônio e Preservação. In: ARANTES, Antonio Augusto
(Org). Produzindo o passado: estratégias de construção do patrimônio cultural. São
Paulo: Brasiliense, 1984.
MORAES, Allana Pessanha. Educação Patrimonial nas escolas: aprendendo a
resgatar o Patrimônio Cultural. Trabalho Acadêmico.
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