A MATEMÁTICA NO CURRÍCULO DAS ESCOLAS PÚBLICAS DO PARÁ –
1900/19201
Mario Oliveira Thomaz Neto
UEPA – [email protected]
Odozina Farias Braga
UEPA
[email protected]
Resumo
Este trabalho aborda a Matemática presente no currículo das escolas públicas do Pará –
1900/1920, a partir das propostas elaboradas e lançadas pelas administrações públicas.
Inicialmente, enfatiza a necessidade de se relacionar a história da Matemática e seu
desenvolvimento ao contexto social no qual é gestada, portanto, historicamente
construída. Em seguida são analisadas as propostas de reformulação da instrução
pública no Pará que visam adequar o ensino aos novos tempos republicanos em via de
modernização. E no bojo destas mudanças, a presença do conhecimento matemático no
processo de reorientação curricular da época, que possui sua concepção filosófica e
opção de conteúdos pautados no Positivismo de Augusto Comte. A justificativa de
opção por tal modelo teórico estaria na idéia da Matemática enquanto saber científico,
útil e soberano à pretendida expansão da sociedade republicana paraense.
Palavras-chave: História da Matemática; Currículo; Positivismo.
Introdução
A partir do século XX, com o movimento da École des Annales, a História enquanto
conhecimento científico passa por uma renovação teórico-metodológica que possibilita
a ampliação do seu objeto de estudo, das suas fontes e de seus temas. A História passa a
se interessar por toda a atividade humana uma vez que “Tudo tem História” (BURKE,
1
Este estudo é parte integrante de um projeto em desenvolvimento financiado pelo Programa de Apoio
ao Desenvolvimento da Pesquisa da Universidade do Estado do Pará - UEPA.
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1992). O saber histórico que antes era considerado objetivo, imutável, passa a ser
percebido como uma ‘construção cultural’, sujeita a variações, tanto no tempo quanto
no espaço.
Em consonância com essa renovação da História, instala-se no campo educacional um
novo debate, que traz conseqüências relevantes para a pesquisa em Educação, isto é,
para a pesquisa histórico-educacional. Isto devido à historicidade do fenômeno
educativo que tem sua origem ligada à própria história do homem. Então, a renovação
do debate historiográfico tem profundas implicações para a pesquisa educacional, uma
vez que o significado da educação está intimamente entrelaçado ao significado da
História (SAVIANI, 1998).
É no bojo desta renovação historiográfica que se opera no campo da História e, por
conseguinte, no campo da pesquisa educacional, que a História da Matemática
atualmente tem alcançado uma certa notoriedade no meio acadêmico. Surge uma
necessidade em se pensar a história da Matemática como área de investigação científica
orientada por novas reflexões que englobe temas de extrema importância, tanto para a
compreensão do desenvolvimento da Matemática, no Brasil, como para a de seu ensino.
(BARONI & NOBRE, 1999).
Nesse sentido, a investigação da história da Matemática relacionada ao estudo de seu
desenvolvimento e de seu ensino, no Brasil, necessita também levar em consideração o
fato de que é um construto social e serve, em geral, a determinados objetivos da
educação formal em tempos e espaços distintos. O ensino de Matemática presente nos
currículos escolares passa, ainda, a ser investigado a partir da idéia de que currículo “é
um artefato social e histórico, sujeito a mudanças e flutuações” (GOODSON, 1995).
Assim, toda reorientação curricular engendrada por uma determinada sociedade é
pertinente às suas necessidades sociais, sejam essas econômicas, políticas ou culturais.
Mediante a essa dimensão política da Educação e do ensino não se pode ignorar também
que o desenvolvimento da Matemática está relacionado a esses diversos contextos
sociais, econômicos, políticos e ideológicos historicamente construídos (CASTRO,
1999; D’AMBRÓSIO, 1999; MIGUEL, 1996).
É nesta trilha que o presente estudo procura resgatar a Matemática no currículo das
escolas públicas do Pará entre os anos de 1900 a 1920. A opção por esta delimitação
histórica ocorre pela carência de estudos que focalizem a Matemática na região e,
também, por se constituir numa época de mudanças aceleradas denominada de Belle
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Époque. Estas mudanças também se fizeram presentes na esfera educacional e, por
conseguinte, no ensino da Matemática escolar, como pode ser observado no currículo de
formação de professores da Escola Normal ao que tange a opção filosófica e de
conteúdos (THOMAZ NETO & BRAGA, 2002). Assim, se pretende continuar
desenvolvendo uma análise histórico-crítica de fontes documentais que propicie a
compreensão do processo de desenvolvimento curricular, assim como das variáveis que
intervêm em sua formulação. Enfim, analisar que relações são estabelecidas entre o
currículo da Matemática escolar e o contexto cultural, social, político e econômico da
Educação Pública no Pará no início do século XX (1900-1920).
A Política de Reorientação Curricular nas Escolas Públicas do Pará - 1900-1920
Como pano de fundo ao estudo da Matemática no currículo das escolas públicas do Pará
compreendido entre os anos de 1900 a 1920, está a recém proclamada República e o
desenvolvimento da economia da borracha. Esse contexto facilita em grande parte o
ingresso da região paraense, especialmente da cidade de Belém, a uma reorganização
política, econômica e cultural.
Par e passo com as mudanças estabelecidas a partir da implementação da República e da
nova ordem econômica local, estão às propostas de Políticas Públicas destinadas a
educação. Estabelecendo acordos, governos estadual e municipal traçam suas linhas
administrativas coerentes à nova situação econômica, política e sociais vigentes.
Em Belém do Pará, no dia 29 de Dezembro de 1900, realiza-se a 1ª Sessão Preparatória
do Congresso Pedagógico Paraense, presidida por Virgílio Cardoso de Oliveira, então
Diretor Geral da Instrução Pública. São suas as seguintes palavras:
“E aproveito o ensejo para, d’esta cadeira, fazer um apello ao vosso
patriotismo, ao vosso amor à instrucção pública, para que o Congresso
Pedagógico constitua uma nota brilhantíssima e notável neste estado,
inaugurando como vae ser a entrada do novo século (...) a fim de que, dando um
alto e bello exemplo de patriotismo pela gratuidade de vossas funções,
possamos mostrar aos nossos irmãos da União Brasileira que o Estado do Pará
se movimenta beneficamente em prol da grande causa do povo, que é a grande
causa da República”2.(grifos nossos).
É notório no discurso “(...) a instrucção pública (...) se movimenta (...) em prol (...) da
causa da república (...) a estreita relação existente entre educação e o movimento
2
Conselho Estadual de Cultura. A Escola: Official de Ensino. Pará, 1901, p.218.
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republicano. A causa republicana sustentada pelas idéias positivistas de Augusto Comte
vão em grande medida nortear e exigir as mudanças curriculares empreendidas nas
escolas públicas paraenses, sobretudo no período de 1900 a 1920. É o que, já a partir
desse encontro preparatório, objetivava o Congresso Pedagógico Paraense.
Desde 1890, as elites dirigentes republicanas locais já vinham se desdobrando no intuito
de satisfazerem as exigências sociais, em parte reformulando a instrução pública. Dentre
essas transformações podem ser citadas a regulamentação da instrução primária
mediante o estabelecimento do Decreto de nº 149 (07/01/1890) que ainda se encontrava
regida pela Lei de nº 1295, datada da época do Império, e, o Decreto de nº 436
(18/01/1897) que buscava complementar o esforço republicano de empreender reformas
na educação Enfim, havia o esforço em se “(...) promulgar as medidas que devem
facilitar a transição methodica que nos conduza da actual phase do ensino público, em
que elle está enfeudado (..) ás de um porvir melhor (...) de accôrdo com a sã política
republicana”.3
Nesse novo cenário paraense em conjunto com as mudanças políticas vividas que dizem
respeito à falência do sistema monárquico e a implementação de uma sociedade
republicana, sobrepõem-se as transformações de cunho econômico por qual essa
sociedade passava, ou seja, o desenvolvimento de uma economia em crescente
prosperidade, assentada na atividade da extração da borracha e voltada para o mercado
externo e que em muito contribuiu, mediante seus dividendos, para a construção da
“Belle Époque” no Pará, qual seja, a sua urbanização e modernização.
O processo de modernização que atinge a região paraense procurará assentar-se também
na instrução pública, que fará opção por uma determinada concepção filosófica de
educação e de conteúdos escolares nas diversas áreas do conhecimento, assim como de
novas propostas de ensino que venham ao encontro dos anseios da elite dirigente local e
de seus planos para a construção de uma nova sociedade que seja republicana e
qualificada. Visando a diversificação da produção, reorganizam a educação criando e
ampliando cursos técnicos e profissionais direcionados a formação de trabalhadores
qualificados. São oferecidos cursos primários, secundários e profissionais.
As novas diretrizes oficiais para o ensino de Matemática nas escolas públicas
acompanham as novas tendências e objetivos da educação. Com as reformulações dos
3
Conselho Estadual de Cultura. A Escola: Official de Ensino. Pará, 1901, p.232.
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programas de ensino alarga-se a carga horária da Matemática, o que torna esse saber,
em alguns casos, soberano diante de outros. Frutificam-se os discursos oficiais e
intelectuais em prol do ensino de conteúdos matemáticos, sobretudo da Aritmética e da
Álgebra pautados numa lógica cientificista de cunho utilitarista, e portanto, viável a
formação teórica e prática de trabalhadores qualificados ao mercado local.
Reafirma-se no currículo das escolas públicas paraenses uma concepção filosófica e, por
conseguinte, uma opção de conteúdos orientadores da prática de ensino de Matemática
– as idéias positivistas de Augusto Conte.
A Matemática no Currículo Escolar das escolas públicas paraenses: concepção
filosófica e opção de conteúdos.
Dando continuidade ao projeto de reformulação curricular da instrução pública paraense
em acordo com as necessidades sociais vigentes, o governador Augusto Montenegro,
em 1903, apresenta novas diretrizes para a educação pública, entre essas apresenta o
novo programa do ensino primário:
Quadro 1 – Programa de Ensino Primário do Estado do Pará – 1903
1º ANO
2º ANO
3º ANO
4º ANO
Leitura
Leitura
Leitura
Leitura
Escrita
Escrita
Escrita
Escrita
Aritmética
Aritmética
Aritmética
Aritmética
Português
Geometria
Geografia
História
Educação Física
Educação Física
Educação Física
Educação Física
Os estudos da Aritmética no 1º, 2º e 3º ano do ensino primário e a Geometria no 4º ano
surgem enquanto conhecimentos básicos ao novo cidadão em ingresso naquele novo
cenário. A partir desse novo quadro educacional que vai se desenhando, a Aritmética
desponta como uma das principais disciplinas no currículo da escola primária, pois “as
primeiras lições de lógica dadas ao espírito humano, são aprendidas no estudo da
Mathematica, cujos methodos de exposição e de demonstração devem ser faceis de ser
percebidos pela intelligencia” dizia o engenheiro civil João de Palma Muniz no artigo
Doutrina Arithmetica veiculado pela revista A Escola no Pará, em 1901. E, ainda,
segundo Muniz, por a Aritmética também se apresentar como termo final de todas as
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questões matemáticas ao mesmo tempo em que é base indispensável ao estudo dessa
ciência. Assim, consoante aos discursos oficiais da época, a Aritmética deveria ser
estudada em quatro partes: histórica, teórica, filosófica e prática, uma vez que
“(...) o modo racional de dividir e coordenar a matéria de que se ocupa a
Arithmetica como ciencia e como arte deve ser um dos pontos de vista capitais
de todo aquele que pretende estudar essa ciencia e suas aplicações (...) como
ciência que é e como arte útil e necessária aos meios social e comercial”.4
Nesse percurso, o método amparado por uma concepção positivista, é alçado a condição
essencial no processo de ensino e aprendizagem do conhecimento matemático porque
traria resultados satisfatórios na transmissão desse conhecimento. De acordo com o que
defendia Vilhena Alves na revista oficial de ensino da época, “ensinar sem méthodo é
querer afogar a intelligencia dos alumnos, e não desenvolve-las”. 5
Desta forma é comum na Revista Official de Ensino a publicação de observações e
sugestões de atividades para todos os níveis de ensino como, por exemplo, o artigo
intitulado Série Graduada de Mathematica Elementar de autoria de René Barreto, que
tem aqui um trecho destacado a seguir:
“Toda creança tem, aos 7 annos, a noção mais ou menos até 5. Algumas podem
mesmo conhecer até mais. A primeira lição deve pois consistir em verificar que
extensa, a esse respeito, têm os conhecimentos da maioria da classe. Assim, a
professora mandará que diversos alumnos vão tirando, de um grupo numeroso
de objectos, quatro objectos, dois objectos, três objectos, cinco objectos, sete
objectos, um objecto, seis objectos,etc., de modo a verficar até que númerp a
maioria da classe consegue separara, de golpe, e não de um em um. Feito este
exercício, durante algumas poucas lições, passar-se-há ao estudo graduado dos
números”.
Ainda, através do Decreto de nº 986, o governo acresce aos estudos primários de
algumas escolas públicas o ensino profissionalizante de agricultura e indústria voltado
para os ofícios de carpintaria, marcenaria, tipografia, serralheria, mecânica, funilaria,
alfaiataria dentre outros. Os cursos eram divididos em uma parte teórica e outra parte
prática, que se concretizava a partir da criação de novos espaços como o museu
4
5
CENTUR. A Escola no Pará. Pará, 1901, p.605.
Conselho Estadual de Cultura. A Escola: Official de Ensino. Pará, 1901, 117-119.
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auxiliador6, os campos agrícolas, oficinas e postos zootécnicos. Nesse intento de
mudanças, o conhecimento matemático presente nos currículos escolares vai se
tornando indispensável a esses novos saberes impostos pelo novo contexto cultural que
se desenhava.
Assim, a Matemática nos currículos escolares numa ótica comtiana vai fazendo parte
dos alicerces teóricos e práticos indispensáveis à edificação dessa nova sociedade
industrial e moderna pretendida pela elite dirigente local. Nesse sentido, o saber
matemático baseado numa lógica positiva de ciência, daria espaço a um ensino pautado
tanto na teoria como em atividades práticas com o objetivo de ensinar racionar
racionando, ou seja, aprender e ensinar Matemática seria, antes de tudo, teorizar suas
leis gerais para só depois aplicá-la; ter como início os fenômenos mais gerais e simples
para em seguida ser abordado o particular, que seriam os mais complexos. Assim, o
ensino de Matemática à luz do paradigma positivista procurava contribuir efetivamente
com a construção – a partir do interior das escolas públicas – de mão de obra qualificada
imprescindíveis às exigências da região em via de desenvolvimento.
No ensino secundário, a exemplo do “gymnásio Paes de Carvalho”7, o ensino de
Matemática também deveria dotar o estudante de um meio poderoso de cultura mental,
com tendência a desenvolver o raciocínio e proporcionar noções básicas e
imprescindíveis a vida prática mediante o desenvolvimento do seguinte programa de
ensino apresentado pelas autoridades locais.
Na primeira série a Aritmética Elementar deveria abranger o sistema decimal de
numeração, as operações sobre números inteiros e frações, suas transformações, dízimas
periódicas, fazendo-se sempre uso do cálculo mental.
Na segunda série deveriam ser estudadas as proporções e suas aplicações, progressões e
logaritmos, e o estudo da Álgebra que deveria se estender até as equações do primeiro
grau.
Na terceira série deveria ser completado o estudo da Álgebra Elementar e se iniciaria o
da Geometria com o desenvolvimento relativo à igualdade, à semelhança, à
equivalência, à retificação da circunferência, avaliação das áreas e dos volumes, tudo
com aplicações práticas.
6
Coleção de terras representando solos, subsolos, rochas das diversas formações geológicas do Estado, do
resto do país e de outros países; coleções de adubos e corretivos, com indicação da composição, valor
fertilizante e venal; coleção de madeiras nacionais; coleção de sementes e produtos agrícolas; mapas;
modelo de máquinas; aparelhos; instrumentos e mais objetos ligados a agricultura e ofícios industriais.
7
CENTUR. Revista de Ensino. Pará, 1903, p. 504-505.
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Na quarta série caberia o desenvolvimento da Álgebra com o estudo do binômio de
Newton, com a determinação dos princípios gerais de composição das equações e sua
resolução numérica pelos métodos mais simples e práticos; o estudo da Geometria que
englobaria as seções cônicas, com o traçado e principais propriedades das curvas
correspondentes e o ensino da trigonometria retilínea.
Essa preocupação com o saber matemático, seus conteúdos, seu método e sua
preponderância no currículo escolar decorre da concepção positivista de que há uma
necessidade de
“(...) agrupar o saber humano em uma série, onde se caminhe do mais fácil
para o mais difícil, em uma progressão crescente, lógica, se impõe, por
conseguinte a noção de classificação dos conhecimentos humanos, em uma
ordem ascendente de dificuldade. E com esta coordenação progressiva que a
intelligencia se aperfeiçoa vencendo todas as dificuldades, da menor para a
maior(...) sem discutirmos a importante questão da classificação das sciencias,
notamos única e exclusivamente que, qualquer que seja a orientação philosofica
e lógica da classificação, a Sciencia Mathematica ocupa sempre o primeiro
lugar da serie ascendente”.8
A Aritmética, em qualquer que seja o nível de ensino - primário ou secundário -, é
sempre apresentada como proposta inicial de conteúdo, isto porque, segundo o
pensamento positivista na lógica do aperfeiçoamento do espírito humano, deve-se
principiar o estudo da Matemática pela Aritmética por ser esta a causa final e primeira
na qual vai se sustentar todo o alicerce do saber matemático.
A Matemática neste contexto é entendida como a ciência que trata da medida indireta
das grandezas. Fundamenta todo o saber humano e encontra-se divida em três partes:
cálculo, geometria e mecânica, que por sua vez estudam o número, a extensão e o
movimento. O cálculo, por sua vez, subdividi-se em duas partes: a Aritmética e a
Álgebra. A Aritmética será então o cálculo dos valores, tal é a definição ancorada em A.
Comte. Daí a supremacia do conteúdo matemático em detrimento de outros saberes
como a História e a Geografia no currículo das escolas públicas desde as séries iniciais.
É ao encontro dessa concepção de Matemática, que são lançadas pelas revistas de
ensino paraense da época propostas de atividades tal qual:
8
IEP. A Escola no Pará – revista de ensino. Pará, 1900.
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9
“Ler os números seguintes, discriminando as centenas, dezenas e unidade de
cada um:
502 664 208 309 324 222 930
271 604
209 734 999 004 071
Separe em períodos e ler os números expressos pelos algarismos seguintes:
(1) 7,13,45,59,329,4578
(2) 90,110,207,4300,4036,4306
(3) 417235682719435, 203056300072010
Vamos escrever em algarismos o número duzentos e oitenta três milhões
seiscentos e vinte quatro milhares duzentos e sete”.9
No ensino da Escola Normal essas reformas também estarão presentes, tanto que em
1901 é proposta pelo Congresso Pedagógico do Pará uma nova grade curricular, onde
são acrescidas as disciplinas de Aritmética, Álgebra e Geometria, que impõem uma
nova redistribuição das cargas horárias das disciplinas. O objetivo, segundo as
autoridades locais da época, seria o de qualificar o futuro profissional que naquela
unidade de ensino seria formado para atender as novas demandas sociais. O curso com
quatro anos de duração passaria a adotar então a seguinte estrutura:
Quadro 2 - Programa de Ensino do Curso Normal – 1901
1° ANO
2° ANO
Disciplina CH Disciplina CH
3° ANO
Disciplina
Português
3
Português
3
Português
Francês
3
Francês
3
Aritmética
4
Geografia
2
Desenho
3
Caligrafia
2
Noções de
Álgebra e
Geometria
Desenho
Caligrafia
9
2
3
Noções de História
Geral
Noções de
Física,Química e
História Natural
Instrução Moral e
Cívica
Pedagogia e
legislação do
Ensino
2
CENTUR. Revista de Ensino. Pará, 1900, p. 5-7.
CH
3
4° ANO
Disciplina
Português e
Noções de
Literatura
Geografia
2
CH
3
3
História
5
4
3
Cosmografia
1
3
Noções de
Agronomia
2
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O ensino de Matemática no Curso Normal é aplicado apenas nos 1º e 2º anos, através do
estudo da Aritmética no 1º ano e, de noções de Álgebra e Geometria no 2º ano. Essa
proposta se justifica, sobretudo pelo fato de que os futuros profissionais formados por
essa instituição seriam professores normalistas, regentes de classes primárias e também
porque a Aritmética, enquanto saber científico, seria na lógica positivista de
classificação do saber, a ciência que estaria sempre em primeiro lugar numa série
ascendente do conhecimento, além do que possibilitaria a fundamentação de outros
saberes matemáticos que porventura viessem a ser indispensável aos sujeitos.
O pensamento Positivista de Comte introduzido no Brasil a partir da segunda metade do
século XIX estava em processo de superação devido ao desenvolvimento da ciência e,
por conseguinte da Matemática na Europa (SILVA, 1994). Mesmo sendo considerado
démodé na França, o pensamento comtiano será o norteador das reformulações
curriculares empreendidas no ensino público paraense entre os anos de 1900 a 1920.
A justificativa para a adoção do comtismo como opção filosófica de educação e, em
especial, como princípio orientador das práticas de ensino de Matemática, estaria na
idéia de que o saber matemático, enquanto conteúdo escolar, seria uma ciência útil e
necessária ao novo contexto social que se configurava no espaço paraense agora
republicano e em vias de industrialização e modernização. Para tanto, as elites
dirigentes locais não medem esforços em preparar com êxito seus futuros cidadãos que,
ordeiros e trabalhadores, qualificados à luz do paradigma comtiano pudessem contribuir
com a construção da nova pátria. Em consonância com essa intencionalidade é que as
propostas oficiais de ensino de Matemática vão se fazendo presentes no currículo das
escolas do Pará mediante as propostas oficiais de reformulação da educação pública.
Considerações Finais
Tendo como fio condutor a implantação do regime republicano e o comércio próspero
da borracha, nota-se que o movimento de integração do Pará ao processo de urbanização
entre os anos de 1900 e 1920, ou seja, a construção de uma Belle Époque paraense não
somente diz respeito ao seu embelezamento físico, como também, as tentativas de
mudanças dos hábitos e costumes locais e da implantação de uma nova política
educacional adequada aqueles novos tempos.
A partir desse contexto de mudanças, sobretudo políticos e econômicos, é que a
educação passa a ser um dos principais meios pelo qual o poder público lança mão ao
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intentar formar, dentre outros profissionais, os especializados e qualificados que
atenderão à demanda da diversificação da produção industrial nascente.
Dentro da nova política educacional do Estado e sua concepção de educação pautada
nas idéias de A. comte é que as mudanças curriculares vão se desenvolvendo. A
Matemática e seu ensino, norteados pelo arquétipo positivista, desponta nesse cenário
histórico como saber vantajoso e imprescindível, isto porque é considerado como a
ciência que alicerça todos os outros conhecimentos. Ao ensino de Matemática caberia a
formação do raciocínio lógico e a preparação dos indivíduos para a resolução de
problemas da vida prática mediante o aprendizado de algumas noções básicas de
Aritmética e Álgebra.
A opção por conteúdos aritméticos e algébricos nos programas de ensino primários e
secundários, fundamentados na lógica comtista, estaria no estudo teórico das suas leis
gerais e menos complexas até chegar aos fenômenos mais complexos, para só depois
aplicá-las a situações cotidianas.
Portanto, o ensino de Matemática nos currículos das escolas públicas no Pará segue à
luz do paradigma positivista e favorece a formação de mão de obra qualificada
indispensável às exigências da região em via de desenvolvimento.
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