1 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia HISTÓRIA DA SOCIOLOGIA GUIA DE ESTUDO 2 PROFESSOR (A): PROF. MSC. JOÃO PAULO DEROCY CÊPA www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 2 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................. 03 1. O QUE É SOCIOLOGIA: OBJETO E RAMOS DA SOCIOLOGIA ......... 05 1.1. OBJETO DE ESTUDO: A SOCIEDADE ................................................ 05 1.2. RAMOS DA SOCIOLOGIA .................................................................... 06 2. BREVE HISTÓRICO DA SOCIOLOGIA................................................... 09 3. A SOCIOLOGIA CIENTÍFICA .................................................................. 15 3.1 AUGUSTO COMTE ................................................................................ 16 3.2 KARL MARX ........................................................................................... 20 4. A SOCIOLOGIA ACADÊMICA ................................................................ 28 4.1 EMILE DURKHEIM ................................................................................. 28 4.2 MAX WEBER .......................................................................................... 32 REFERÊNCIAS CONSULTADAS E UTILIZADAS ...................................... 38 www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 3 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia INTRODUÇÃO O termo sociologia, cunhado por Augusto Comte para nomear o estudo da sociedade tem, grosso modo, objetivo de estabelecer “leis” ou buscar regularidades referentes a organização das relações humanas e a sua dinâmica específica. O estudo desta ciência fundamenta-se na crença de que as representações, os hábitos, as maneiras de agir e de pensar estão ligadas com os meios sociais nos quais se inserem os indivíduos. Os indivíduos mantêm relações, fazem escolhas, ou seja, tomam decisões a todo o momento. Essas decisões, voltadas sempre para a resolução de problemas práticos, vão de encontro à satisfação de suas necessidades em diversas ordens. Essa tomada de postura, no entanto, tem um impulso, que pode ser analisado de forma individual ou coletiva. O comportamento social e suas implicações na vida cotidiana é justamente o ponto que concerne o estudo das Ciências Sociais. É fato que os indivíduos, desde o surgimento da história, pactuaram relações em sua rotina, seja individual, seja coletiva. Isso constitui uma necessidade humana. A interação entre o individual e o coletivo define em grande parte a vida social. De acordo com Ferreira (2003), é comum encontrarmos afirmações no dia a dia que corroboram com essa visão: “- Você agiu por impulso pessoal ou por pressão do grupo? - Eu agi por minha conta e risco, não dou importância ao que os outros pensam! Ou, - Eu agi de acordo com o grupo, dou muita importância ao que os outros pensam!” (p.31) Que parâmetros definem se um indivíduo age em interesse próprio ou pela coletividade? Definir isso é o papel desta ciência. A sociologia busca reunir ferramental para este conjunto de conceitos, de técnicas e de métodos de www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 4 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia investigação produzidos visando explicar a vida social no contexto histórico que possibilitou o seu surgimento, formação e desenvolvimento (BERNARDO, 1994, p.4). A partir deste conceito, podemos dizer que a sociologia evoluiu desde o início, juntamente com o pensamento humano e suas tentativas de entender os processos sociais. Existe um consenso historiográfico em afirmar que a sociologia nasceu num contexto histórico próprio. As primeiras tentativas de criar parâmetros científicos para entender as relações sociais aparecem no século XVIII, com o advento da sociedade industrial. Nosso esforço neste primeiro módulo de estudo é apresentar as definições mais emblemáticas acerca da sociologia e o contexto no qual ela surgiu. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 5 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia 1. O QUE É SOCIOLOGIA: OBJETOS E RAMOS DA SOCIOLOGIA 1.1. OBJETO DE ESTUDO: A SOCIEDADE O objetivo da Sociologia é estudar o comportamento social dos homens e seus mecanismos de interação social, de forma sistemática, afastada do empirismo e do senso comum. Abrange segundo Oliveira, o estudo dos grupos sociais, dos fatos sociais, da divisão da sociedade em camadas, da mobilidade social, dos processos de cooperação, competição, conflitos na sociedade, etc. (2001, p.10). O elemento que diferencia o trabalho do sociólogo no grupo dos cientistas sociais (que incluem ainda a Economia, Política e Antropologia) é o estudo sobre comportamento dos grupos humanos. A complexidade e a amplitude do estudo da sociedade criam segundo Lago, a necessidade de criar uma proposta de definição mais precisa do objeto de pesquisa desta ciência. A sociedade, objeto de estudo sociológico, define-se por pessoas unidas por laços de interdependência e sociabilidade, cujo comportamento é regulado por uma estrutura social dinâmica, resultante das ações dos vários grupos que a constituem (LAGO, 1996, p. 15). Segundo Lago (p.16) existe ainda várias definições para o termo sociedade: 1) Em ecologia: incluindo sociedades animais e humanas; 2) Conforme Comte: no sentido da humanidade; 3) Conforme Durkheim: no sentido da sociedade informal; 4) Em Direito: Equivalendo a associação contratual; 5) A sociedade civil de Hegel: equivalendo ao conjunto de governados, em contraste, com os governantes do Estado; 6) Uso livre: variando a amplitude do termo desde humanidade, passando por um determinado tipo de sociedade (capitalista, comunista, nacionalista, microrregionais, etc); 7) Uso mundano dos cronistas sociais, referindo-se a “alta sociedade”. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 6 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia Dada a complexidade do termo a ser estudado pela sociologia, vale lembrar que cada um dos pensadores clássicos constitui um recorte do campo de pesquisa sociológico. Em Durkheim, temos a sociologia como pesquisa dos fatos sociais; em Weber, os grupos sociais. No entanto, são noções importantes que ajudam a compreender a sociedade humana, suas formas de associação e os grupos sociais em que se enquadram. 1.2. SOCIOLOGIAS ESPECIALIZADAS Para além da sociologia, encontramos alguns ramos que estudam categorias mais específicas dos fatos sociais. Abaixo temos uma breve descrição de algumas delas (LAKATOS, 1995): a) Sociologia criminal: estuda aspectos da vida social atrelado a prática de crimes ou outras dimensões de delinqüência; b) Sociologia da família: estuda a dinâmica da transformação e formação da relação entre membros das famílias em diferentes sociedades; c) Sociologia histórica: investiga a origem dos processos sociais; d) Antropossociologia: antropológicos estuda (questões a relação étnico-raciais entre ou fatores sociológicos étnico-culturais em e uma sociedade); e) Sociologia do Direito: estuda o impacto das normas jurídicas sobre o comportamento dos componentes de uma sociedade. Busca assim entender o processo de normatização social a partir da inter-relação entre Direito e Sociologia; f) Sociologia Econômica: Estuda a organização da sociedade em busca de suas necessidades materiais; a influência das relações de produção na organização social e das instituições que compõem a sociedade e vice versa; www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 7 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia g) Sociologia Política: Encarregada de estudar os movimentos políticos e ideologia e suas implicações nas diversas sociedades; o desenvolvimento do Estado e seus aspectos teóricos; relações entre Estado e Direito; Estado e Economia; as relações de dominação, liberdade e coerção; h) Sociologia da Educação: Estuda a escola enquanto instituição, a relação entre o pensamento sociológico e os mecanismos referentes a educação formal e informal; i) Sociologia da Religião: Estuda a origem, desenvolvimento e formas de instituições religiosas, além de sua influência no campo das mentalidades e controle social; j) Sociologia da Comunidade: Estuda a organização das comunidades numa determinada circunscrição; k) Sociologia Rural: Estuda o modo de vida rural e suas diferentes formas de organização social ao longo do tempo; l) Sociologia Urbana: Estuda a origem das cidades e a influência do modo de vida urbano nas estratégias sociais; m) Sociologia do Desenvolvimento: Analisa as condições estruturais que precedem o desenvolvimento das sociedades humanas e a forma como influem nela; verifica as implicações sociais do seu desenvolvimento, como marginalidade, conflitos de classe, dependência econômica, etc; n) Sociologia Industrial e Sociologia do Trabalho: Estudo das relações sociais e interação entre indivíduos e grupos relacionados com a função econômica da produção e distribuição de bens e serviços necessários à sociedade; estudam ainda os papéis profissionais, as normas e expectativas a eles associadas no contexto social; o) Sociologia da Burocracia: Estudam os fenômenos que decorrentes da estrutura das organizações burocráticas; p) Sociologia da cultura: Estuda as inter-relações da cultura de um determinado grupo social sobre a dinâmica de seus componentes; www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 8 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia q) Sociologia da Arte: Estuda as relações entre a arte e Sociologia; a influência da sociedade sobre a produção artística e vive versa; r) Sociologia da Comunicação: Estuda as estratégias de comunicação entre os seres humanos; os comportamentos sociais frente as ponderações feitas pela imprensa e os meios de comunicação em massa. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 9 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia 2. BREVE HISTÓRICO DA ORIGEM DA SOCIOLOGIA A evolução do pensamento científico no mundo europeu começou bem antes do que convencionamos chamar de mundo industrial. Nas civilizações mais antigas, o conhecimento esteve concentrado nas mãos de grupos sacerdotais ou privilegiados. A separação do saber social em relação ao sobrenatural ocorreu de forma processual, culminando no século XIX. Na antiguidade grega, a cultura acadêmica e o saber metódico passaram a ser produzidos e transmitidos pelos mestres em instituições culturais, obras literárias e obras de arte. A erudição constituía um traço social desta época. Ao saber grego convencionou-se chamar de filosofia. A existência humana era estudada de forma metódica, reflexiva e critica. Durante muito tempo, as teorias acerca da sociedade humana foram mediadas pela filosofia. Vale ressaltar a importância de Aristóteles no processo de construção do pensamento científico. A partir da observação que empreendia sobre a natureza humana e sua expressão material em cada individuo, influenciou uma série de estudos a partir do Renascimento. Segundo Lago, o pensador Aristóteles foi o primeiro precursor dos cientistas políticos ao distinguir os sistemas de governo a partir do interesse privado ou pelo bem comum. Dessa visão mais flexível e “humana” da sociedade resulta a seguinte classificação (1996, p.24): 1) Governo (puro ou bom) de um só: monarquia 2) Governo (impuro ou mau) de um só: tirania, visando o interesse privado 3) Governo (bom) de poucos: aristocracia 4) Governo (mau) de poucos: oligarquia 5) Governo (bom) do povo: democracia 6) Governo (mau) do povo: oclocracia O período posterior (Idade Média) ficou marcado pelo dogmatismo religioso e reforço do teocentrismo. A Igreja Católica controlava qualquer e rechaçava qualquer questionamento de ordem social, cultural ou político. A maioria das teorias originais www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 10 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia era classificada como heréticas e passíveis de condenação na fogueira ou outras torturas físicas. Temos um exemplo na obra Cidade de Deus, escrita por Santo Agostinho. Nela, a visão que se tinha da sociedade era claramente religiosa. Segundo Oliveira, nas cidades reinava o pecado e as normas eram necessárias para criar uma nova ordem moral e social.(2001, p. 12) Com o Renascimento, surgiram pensadores que abordavam os fenômenos sociais de formas mais concreta e realista. De acordo com Oliveira (2001), escreveram sobre a sociedade de seu tempo: Maquiavel em o Príncipe; Thomas Moore em Utopia, Francis Bacon em Nova Atlântida; Erasmo de Roterdã em Elogio da Loucura; e Thomas Hobbes em O Leviatã. A Reforma Protestante, iniciada no século XVI foi outro momento importante nesta trajetória, já que lançou questionamentos acerca da tradução e interpretação dos textos sagrados pela Igreja Católica. Instituindo o livre exame, fez do exercício individual da consciência a ligação com a divindade. Esse foi mais um passo para reforçar a convicção de que o destino dos homens dependia também de suas ações. Ao longo de toda a Idade Moderna, pudemos observar o desmonte do aparelho ideológico baseado no Antigo Regime e o advento do mundo burguês. Francis Bacon (1561-1626) propunha que a teologia deveria abandonar o centro das discussões acerca dos fenômenos naturais e chegou a propor um programa para acumular os dados disponíveis e com eles realizar experimentos a fim de descobrir e formular leis gerais sobre a sociedade. O emprego sistemático da razão, do livre exame da realidade - traço que caracterizava os pensadores do século XVII, os chamados racionalistas, representou um grande avanço para libertar o conhecimento do controle teológico, da tradição, da "revelação" e, conseqüentemente, para a formulação de uma nova atitude intelectual diante dos fenômenos da natureza e da cultura. (MARTINS, 1994, p.9) O processo de racionalização do conhecimento ganha grande impulso no século XVIII com o movimento iluminista, que ao propor o desmonte do aparelho ideológico do Estado absolutista, atacava de forma impiedosa toda a matriz do www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 11 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia conhecimento até então existente. Montesquieu (1689-1775) em seus estudos institui a partir da observação, experimentação e acumulação de dados algumas idéias acerca da religião, moral e família. As primeiras ciências surgidas neste período lançavam postulados, fazendo uso da reflexão, nascida geralmente de vivencias e observações. Surgiam a partir de então, hipóteses e modelos para explicar ou descrever os objetos pesquisados. Segundo Lago: As primeiras ciências, definidas como tal, surgidas na Idade Moderna foram as ciências naturais, as quais se revelam mais acessíveis a pesquisa. Isso não impediu que filósofos sociais produzissem notáveis obras sobre a sociedade humana, influenciadoras dos cientistas sociais até os nossos dias. Por outro lado, eles estavam abrindo caminho para o futuro estabelecimento dos princípios que iriam criar a noção de ciência social, a partir do século XIX. (1996, p. 26) O auge das mudanças do pensamento social é simbolizado, do ponto de vista histórico, por dois fatos: a revolução industrial e a revolução francesa. A primeira consolidou, a partir do mundo das fábricas, o pensamento capitalista na sociedade européia. Os empresários aos poucos concentraram em suas mãos os mecanismos de produção e ganharam uma importante ferramenta de controle sobre a grande massa de trabalhadores. Em suma, temos a partir de então, o advento do mundo capitalista e todos os problemas que dele advém. O advento da burguesia industrial trouxe uma série de mazelas e desequilíbrios sociais:desemprego, êxodo rural, surgimento dos bairros periféricos e todos o seus problemas estruturais. A marginalização de parcela significativa da sociedade estimulou a atividade pensadora em diversas partes da Europa. O pensamento liberal era a bandeira da burguesia, a parcela detentora dos meios de produção. E os problemas sociais? Como resolvê-los? Como pensá-los do ponto de vista científico? De acordo com Carlos Martins, “a profundidade das transformações em curso colocava a sociedade num plano de análise, ou seja, esta passava a constituir em problema, em objeto que deveria ser estudado” (TESKE, 1999 Apud MARTINS, www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 12 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia 1994, p.14-15). As transformações foram profundas. Vale lembrar ainda que o desmonte da estrutura social do mundo rural e de suas permanências de longa duração acabou com o mundo artesanal e implicava uma reorganização das formas habituais de vida. O primeiro motor das transformações européias foi demográfico. O número de habitantes aumentou bastante, passando de 600 milhões em 1750 para mais de bilhão em 1850. Esse movimento, segundo Schnerb (1969) foi sentido em todo o mundo, com índices de crescimento que chegaram a incríveis 300% na América do Norte, 73% na América do Sul e Central e 43% na Europa. O aumento populacional foi acompanhado pelo crescimento da produção e produtividade. Com isso, houve mais trabalho, mais consumidores, expansão de mercados, das comunicações e a ampliação dos recursos tecnológicos. O aumento da população acompanhou outra dimensão desta mudança e que, do ponto de vista social, nos ajuda a entender o porquê do desenvolvimento de um novo status quo na sociedade industrial: as transformações do mundo rural e o deslocamento populacional para o mundo urbano. Em primeiro lugar, a transferência abasteceu as fábricas de mão de obra. Em segundo lugar, com a transferência, os trabalhadores se adaptaram as exigências dos donos das fábricas. Cria-se, de acordo com Canêdo, uma verdadeira Filosofia das Manufaturas, visando “decretar e fazer efetiva a vigência de um código eficaz de disciplina industrial apropriada as necessidades da grande produção” (1987, p.55). Multas e normas foram criadas de forma a criar um laço de obediência. Saem as figuras do suserano e vassalo e entram o patrão e o empregado. Muitas das leis da época permitiam o cárcere de empregados para evitar o abandono da linha de produção, instituem salários e rotinas de trabalho desumanas. Em suma, o ritmo da vida urbana foi ditado pelas fábricas inglesas no início do século XIX. Poluição, imundície, falta de serviços públicos básicos, doenças, ausências das festas (tão comuns na tradição do mundo rural), passeios e piqueniques em jardins, transformaram os trabalhadores urbanos em verdadeiras “ferramentas” das fábricas. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 13 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia A vida dos operários era curta. A liberdade para vender sua força de trabalho constituía uma vantagem apenas teórica. Quem realmente ganhava com isso eram os capitalistas, que ofereciam valores irrisórios pelo trabalho. Podemos dizer que a situação dos operários e se assemelhava a dos escravos, pelo menos alimentados pelos seus proprietários. Movimentos sociais e intelectuais surgem aos poucos: temos o ludismo, o cartismo, anarquismo, sindicalismo, trabalhismo e finalmente o socialismo. Desse panorama histórico nascido no século XVIII e aprofundado no XIX surge o embrião do que conhecemos como sociologia científica. Os precursores desta ciência nascem justamente da reação de setores sociais desprivilegiados e que estavam envolvidos diretamente nestas questões, como Owen (1771-1858), Willian Thompson (1775-1883) e Jeremy Bentham (1748-1832). Das indagações dos primeiros pensadores nascia segundo Ferreira (1993), a própria essência da Sociologia enquanto ciência. O conceito de indivíduo1, sua relação com a sociedade, assim como a implicação de suas ações na teia social, é fruto da sociedade burguesa européia. A nova ciência funcionava como uma reação a ao individualismo no qual se baseava grande parte da teoria econômica liberal da época. Ainda segundo Ferreira (1993, p.34-35) O homem passou a ser visto, do ponto de vista sociológico, a partir de sua inserção na sociedade e nos grupos sociais que a compõem. Nesse sentido, o produto dessa modernidade, os estudos de sociologia, ora enfatizam a ação individual, ora a ação coletiva. Alguns autores privilegiam o papel ativo do individuo na escolha de certas ações sociais, enquanto outros enfatizam o papel da sociedade e de suas instituições, e outros ainda, ressaltam a importância ao conjunto das práticas que definem as próprias relações entre indivíduo e sociedade. 1 Vale lembrar que o conceito de indivíduo é bastante diverso e depende do contexto histórico em que está inserido. O conceito que usamos está presente na obra de Tomazzi (1993) e tem como base a idéia de que a sociedade industrial reduziu o funcionamento das estruturas sociais ao conjunto de interesses de alguns agente privados. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 14 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia Independente da matriz de pensamento, a sociologia tem como grande objetivo de pesquisa na sociologia o indivíduo, ou melhor, a pessoa social, imbuída de status e papel nas relações humanas. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 15 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia 3. A SOCIOLOGIA CIENTÍFICA Os primeiros pensadores estavam preocupados em dar uma explicação científica para os fenômenos sociais que aconteciam em pleno século XIX. Conflitos sociais relacionados ao desequilíbrio causado pelo mundo industrial estiveram presentes nas obras de pensadores como Auguste Comte (1798-1857), Saint Simon (1760-1830), Hegel (1770-1830), David Ricardo (1772-1823) e Karl Marx (18181883). Saint Simon foi o precursor da chamada sociologia científica. Ele viveu o momento de intensas mudanças que descortinavam no final do Antigo Regime francês. Com base no pensamento iluminista, buscou rever uma série de conceitos e, mesmo seduzido pelo liberalismo, foi capaz, segundo Martins, de perceber novas forças atuantes na sociedade, capazes de propiciar uma nova coesão social. Em sua visão, a nova época era a do industrialismo, que trazia consigo a possibilidade de satisfazer todas as necessidades humanas e constituía a única fonte de riqueza e prosperidade. Acreditava também que o progresso econômico acabaria com os conflitos sociais e traria segurança para os homens. A função do pensamento social neste contexto deveria ser a de orientar a indústria e a produção. (1999,p.21) O princípio do industrialismo utilizado por Simon era fundamentado pelo método científico. A sua influência positivista lhe permitia enxergar a nação como uma grande oficina social onde os indivíduos eram vistos pela sua capacitação e qualificações profissionais. A ordem social no mundo fabril estava rompendo com os padrões familiares anteriores. Não interessava mais a origem familiar da mão de obra. O trecho abaixo revela o peso do pensamento positivista de Saint Simon na concepção posterior de sociedade apropriada por sociólogos posteriores: A sociedade não é uma simples aglomeração de seres vivos (...); pelo contrário, é uma verdadeira máquina organizada, cujas partes, todas elas, contribuem de uma maneira diferente para o avanço do conjunto. A reunião dos homens constitui o www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 16 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia verdadeiro SER, cuja existência é mais ou menos vigorosa ou claudicante, conforme sues órgãos desempenhe mais ou menos regularmente as funções que lhes são confiadas. (FERREIRA, 2003 APUD SIMON, t.5, p.177). 3.1. AUGUSTE COMTE Foi o primeiro intelectual a utilizar o termo sociologia em seus cursos de filosofia, ainda na primeira metade do século XIX, “a fim de designar, por um nome único, esta parte complementar da filosofia natural que se relaciona com o estudo positivo do conjunto das leis dos fenômenos sociais” (COMTE, t.4, p. 132). Augusto Comte, assistente de Saint Simon, retomou algumas idéias de seu mentor. No entanto, não tinha uma visão progressista da sociedade. Para Comte, a sociedade encontrava-se em estado de anarquia e caos social. A perda do poder de coerção das idéias religiosas desintegrou os elementos de coesão oriundos da ordem social anterior. Temos então, em sua obra, um conflito entre a ordem feudal e a sociedade industrial, sendo a última causadora da perda da unidade social. A perda dos elementos consensuais deveria levar a criação de novos. Comte não se limitava a refletir sobre a sociedade, mas queria interferir nela, criando novas instituições sociais. Nasce juntamente com a obra Discurso preliminar sobre o espírito positivo, a base do das leis de organização social positivista 2. Comte contribuiu decisivamente para a constituição sociologia enquanto ciência. Três pontos devem ser destacados. Seu primeiro contributo para a 2 Sob base do pensamento de Immanuel Kant,e David Hume, Comte adotou a noção de progresso histórico na qual a sociedade deveria passar por três etapas de desenvolvimento (As Leis dos Três Estados ou Lei de Evolução da Humanidade). De acordo com esta doutrina fundamental, todas as nossas especulações estão inevitavelmente sujeitas, assim no indivíduo como na espécie, a passar por três estados teóricos diferentes e sucessivos, que podem ser qualificados pelas denominações habituais de teológico, metafísico e positivo, pelo menos para aqueles que tiverem compreendido bem o seu verdadeiro sentido geral. O primeiro estado, embora seja, a princípio, a todos os respeitos, indispensável deve ser concebido sempre, de ora em diante, como puramente provisório e preparatório; o segundo, que é, na realidade, apenas a modificação dissolvente do anterior, não comporta mais que um simples destino transitório, para conduzir gradualmente ao terceiro; é neste, único plenamente normal, que consiste, em todos os. gêneros, o regime definitivo da razão humana. (COMTE, VER data e página) www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 17 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia Sociologia está no fato de ter tentado uma classificação científica para os fatos sociais a partir de leis gerais: O caráter fundamental da filosofia positiva é tomar todos os fenômenos como sujeitos a leis naturais invariáveis, cuja descoberta precisa e cuja redução ao menor número possível constituem o objetivo de todos os nossos esforços (...) Cada um sabe que, em nossas explicações positivas, até mesmo as mais perfeitas, não temos de modo algum a pretensão de expor as causas geradoras dos fenômenos, posto que nada mais faríamos então além de recuar a dificuldade. Pretendemos somente analisar com exatidão as circunstâncias de sua produção e vinculá-las umas às outras, mediante relações normais de sucessão e de similitude (MARTINS, 1999 Apud COMTE, p. 7) Objetivo central de suas leis era construir um arcabouço capaz de conduzir o pensamento humano a coerência racional. A sociologia seria o fio condutor do pensamento humano até a razão positiva pensada Por Comte. Em segundo lugar, Comte buscou a classificação das ciências tendo como base a sua complexidade. Julgava a sociologia acima de outras ciências como a matemática e a astronomia, dada a grandiosidade do seu objeto de estudo: a sociedade. Por último, Comte pensava a reforma das instituições sociais em busca do elo perdido. Segundo o pensador, uma elite técnico-científica burguesa conduziria os indivíduos em torno de um consenso: Em relação à política, suas posições foram imperativas: o governo deveria ser exercido em nome de todos e sua ação se daria pelo exercício da força material, impondo seu poder coercitivamente. Governar equivalia a ditar as normas de coordenação do todo social; para isso, todo governo deveria constituir-se em uma ditadura, de conteúdo autocrático e republicano. O poder legislativo deveria ser extinto, uma vez que sua função perderia sentido. Em seu lugar, existiria um colegiado eletivo com funções estritamente financeiras, dedicado apenas ao controle rígido da ação administrativa relacionada ao erário público, objetivando o exercício do governo de acordo com os princípios do equilíbrio orçamentário, não se admitindo ações de despesa sem receita correspondente. Tais condutas no exercício da política www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 18 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia deveriam levar a sociedade no sentido da manutenção da ordem e da continuidade do progresso. (MARTINS, 1999 Apud COMTE, p. 7) Comte entendia que o sustentáculo da sociedade estava no conjunto de princípios admitidos pelo consenso coletivo. A unidade social foi uma busca constante no pensamento do autor. Esse consenso definia a forma de pensar, representações e crenças numa nova ordem social. A nova coesão do pensamento burguês traria de volta a normalidade. A modernização burguesa daria novo sentido a sociedade depois da crise do pensamento feudal. Sua crença neste espírito positivo levou a criação, segundo Ferreira, do que Comte chamava de Física- social: Em sua concepção, essa disciplina deveria adotar os paradigmas do método positivo das ciências naturais, uma vez que “há leis tão determinadas para o desenvolvimento da espécie humana com há para uma queda de uma pedra”. Comte aceitava plenamente os pontos de vista mecanicista e reducionista da física newtoniana como modelos capazes de promover a descriçao correta da realidade social, por isso adotou como fundamentos para suas teorias. Assim, o surgimento da Física Social não significava apenas uma adoção do método positivo a um novo ramo do conhecimento. Com ela, o espírito positivo deveria alcançar a maturidade e oferecer os elementos fundadores da formação do espírito da nova ordem burguesa (2003, p. 36) De acordo com Comte, para alcançar o espírito positivo, a sociedade deveria passar por três estágios ou leis. O primeiro estado da humanidade é o teológico. Nesse estágio o homem vive segundo Ferreira, em estado de aculturação, o que justificaria sua ligação mais intima com as divindades. Essa concepção era fundada na impossibilidade da humanidade, num primeiro momento, de buscar explicações com bases racionais. Dessa forma, a fé era o elemento capaz de explicar a ordenação do mundo social (2003, p.37). www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 19 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia O segundo estado é definido por Comte como metafísico. Esse elo intermediário se fazia necessário, pois os homens começariam a negar uma ordem estritamente espiritual, mas ainda não eram capazes de sistematizar seus próprios esquemas explicativos sociais. Deus não era mais o regente único da vida social e os dogmas da fé começariam a ser colocados a prova. Segundo Comte, esse estágio poderia ser considerado o inicio do progresso no percurso da sociedade. O último estado da Teoria da História Comteana (FERREIRA, 2003, p.37) seria o positivo, onde a sociedade encontraria o espírito moderno burguês. O homem seria capaz de por si só buscar as soluções e razoes científicas do ordenamento social. A sua ciência físico-social conferiria a unidade lógica necessária para a obtenção da unidade social. A coerência racional necessária a sociedade só seria alcançada, segundo o espírito positivo de Comte, com um processo evolutivo cuja eficácia científica estaria a encargo da sociologia. Dessa forma, a ciência por ele proposta seria o elo capaz de fazer a humanidade evoluir. O trabalho de Comte teve penetração relevante no Brasil no final do século XIX por conta do combate no campo ideológico em torno da construção da república brasileira. A sua ordem e progresso teria como objetivo moralizar a sociedade aristocrática brasileira dos tempos do Império. As Forças Armadas apreenderam essas idéias em sua propaganda republicana juntamente com setores ilustrados de São Paulo e Rio de Janeiro. Além do caso citado, destacamos ainda o legado do seu pensamento sociológico no século XX, com Spencer, Durkheim, Raymond Aron, Levi Strauss e Marcel Mauss. 3.2. KARL MARX O alemão Karl Marx (1818-1883), diferente de Comte, adotou uma postura antipositivista. De acordo com Ferreira (p.54), a formação de Marx incluía a seguinte tríade: do pensamento alemão, espelhou-se em Hegel, absorvendo o método www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 20 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia dialético3; do pensamento francês, criticou de maneira aguda o pensamento socialista encabeçado por Saint Simon, Proudhon e Fourier. Dessa crítica surge o chamado socialismo científico. Por fim, a partir de seus estudos econômicos de base burguesa, veio sua ferrenha crítica ao pensamento liberal4. Ao passo em que uma sucessiva onda de revoluções assolava a Europa Ocidental, aparecia ainda uma forma nova de conceber a sociedade. No entanto, os pensadores mais influentes não colocavam em xeque a composição estrutural ou os privilégios de classes sobre outras. A reordenação pensada até então somente encaixava atores sociais em seus respectivos papeis, mas sem o desmonte efetivo dos aparelhos de dominação. Não existiam propostas práticas e efetivas, nem mesmo no campo do socialismo utópico. De acordo com Florestan Fernandes, a situação da Alemanha, berço do pensamento de Marx era propício a um avanço de suas teorias sociológicas para um patamar mais “combativo”: O mundo estava vivendo uma situação revolucionária que se ligava as transformações produzidas pela revolução burguesa na Europa, se quiserem usar uma palavra que os acadêmicos gostam. Aquela era uma situação na qual surgiram novas forças sociais; o proletariado estava se constituindo e era a partir de uma nova perspectiva que Marx encarava a revolução. Perspectiva que se vinculava a uma nova classe social. É preciso que vocês façam um esforço de imaginação para pensar que homens que viveram e se educaram na Alemanha – a Alemanha que era um país atrasado na Europa, economicamente atrasado e culturalmente dependente, que vivia das idéias políticas, econômicas, filosóficas e científicas importadas de outros países da Europa. Por isso, a Alemanha acabou sendo um país no qual havia uma consciência filosófica do fazer alheio. E é esse o problema todo que Marx discute numa introdução à crítica da filosofia do direito de Hegel. Essa introdução é muito importante (FERNANDES, 1995, p.44) 3 Marx absorveu o caráter revolucionário do método de análise revolucionária, que afirmava que tudo que existia, por conta de suas contradições, naturalmente se extinguia. Dessa forma, do ponto de vista filosófico, os fenômenos ligados a realidade eram projeções do pensamento. 4 Karl Marx possuía formação nas áreas de Filosofia, História, Sociologia e Economia, por isso não é possível perceber, aos moldes da sociologia moderna, uma preocupação clara em definir fronteiras entre essas áreas do conhecimento. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 21 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia A sociologia de Marx, assim como em Comte, tinha objetivos práticos. No seu método de estudo, o juízo crítico acerca do objeto era algo inerente ao estudo científico. Por conta da excessiva aproximação com a realidade estudada, Marx propõe uma filosofia de ação, visando modificar e não apenas interpretar o mundo. Por isso, o pensamento de Marx se forma voltado para a crítica e para a mudança revolucionária do capitalismo em direção ao socialismo e posteriormente ao comunismo. A idéia de antagonismo entre capitalismo e socialismo parte dos princípios filosóficos de antagonismo e contradição presentes na obra de Hegel. No entanto, para Marx, as contradições se resolvem numa esfera mais concreta: na ação histórica e social. O pensamento dialético do pensador alemão conflui no choque dos antagonismos entre o velho e o novo. A luta de opostos, por ele denominada de luta de classes define-se como o motor da história, com os sucessivos embates entre os modos de produção, que desde as primeiras formas de organização social definem as relações sociais. Do ponto de vista científico, seus escritos têm por finalidade demonstrar as contradições do pensamento capitalista. O principal alvo de suas críticas é a voracidade desse sistema econômico. Esse sistema segundo Marx é autodestrutivo, pois a luta revolucionária contra a burguesia é uma conseqüência da pauperização da classe trabalhadora. Este inclusive é o objetivo de sua obra mais emblemática: O Capital. A obra de Karl Marx encontrava-se em perfeita consonância com o momento histórico em que estava inserido. Era uma reflexão acerca da realidade que o cercava. Sua obra, no entanto, não teve grande repercussão enquanto esteve vivo. De acordo com Meksenas: “obras fundamentais como “Crítica da Filosofia do Direito de Hegel” (1843), “Manuscritos Econômico-Filosóficos” (1844), “Teses sobre Feuerbach” (1845), “A Ideologia Alemã” (1846), “Teorias da Mais-Valia” (1862) e os volumes II e III de “O Capital”, por exemplo, somente começaram a ser publicadas após a sua morte, algumas quase 50 anos depois, como lembra Perry Anderson. Mesmo o “Manifesto Comunista”, www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 22 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia publicado pouco antes das eclosões de 1848 (em fevereiro/1848) nenhuma repercussão teve além do círculo restrito que o encomendou”. (2008). A teoria marxista possui alguns princípios fundamentais, a saber: a) O materialismo histórico: De acordo com Marx, a luta de classes é o motor de transformação da sociedade, atribuindo ao estrato mais organizado o papel de conduzir os indivíduos rumo a transformação. Em O Capital, Karl Marx afirma que o capitalismo é apenas mais uma etapa rumo ao inevitável socialismo. A revolução contra a burguesia se daria pela classe trabalhadora, que eliminaria os conflitos sociais. b) Alienação: Este conceito, que foi apropriado por Fich por Hegel e a partir de então por Marx, foi definido em o Capital a partir da condição da classe operária onde o “seu trabalho se torna um objeto, uma existência exterior, mas que o seu trabalho existe fora dele, independentemente dele, estranho a ele e se torna um poder autônomo em relação a ele” (MARX,1867). A força de trabalho torna-se mais uma mercadoria regida pelas leis do mercado e tornase algo exterior ao homem. Este, segundo Marx, perde a sua dignidade c) Modo de produção: A partir desse conceito, a sociedade é caracterizada pela sua maneira de produzir. As relações sociais são fundamentadas dessa forma em cada uma das etapas da sucessão linear a que as sociedades são submetidas: comunismo primitivo, escravismo, feudalismo, capitalismo, socialismo e comunismo. São os modos de produção que dão sentido histórico a teoria marxista. As contradições dentro das etapas e as relações sociais produzidas pelas condições particulares em cada contexto dão vazão aos conflitos (luta de classes) e rupturas inerentes ao processo materialista do marxismo. Em suma, a história para Marx é a resultante do desenvolvimento e da derrocada de modos de produção distintos, que seria movida pela ação da luta de classes (FERREIRA, 2003, p.57). d) Infraestrutura e superestrutura: Segundo Marx, estas são as duas estruturas que englobam as dimensões fundamentais da sociedade. A primeira corresponde aos conjuntos de forças produtivas e relações sociais de www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 23 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia produção. A segunda aos elementos imateriais da sociedade, representadas por instituições sociais, culturais e jurídicas de uma sociedade. A doutrina marxista propõe que existe uma articulação entre esses grupos, e nessa relação é que fundamentam as bases de dominação da classe burguesa no sistema econômico capitalista. Althusser, pensador de influência Marxista, utiliza essas noções para construir seu conceito de Aparelho Ideológico do Estado e Aparelho Repressor do Estado; e) Classe Social e luta de classes: Em Karl Marx, temos o que chamamos de teoria realista. Temos de um lado, os detentores das forças produtivas e dos meios de produção (proprietários). Do outro, o proletariado, detentor da força de trabalho (trabalhadores não proprietários). São essas duas classes (chamadas por Marx de classes fundamentais), que segundo Marx, polarizam as tensões sociais decorrentes da exploração da mão de obra da classe trabalhadora. A partir da utilização do trabalho livre assalariado, os burgueses se apropriam das riquezas produzidas pelos trabalhadores. É justamente essa apropriação que impede que os operários recebam uma remuneração justa. A dissidência entre as duas classes dá origem a luta de classes, o “motor revolucionário” da teoria de Karl Marx. As relações de produção capitalistas estão fundamentadas na transformação da força de trabalho, dentre outros elementos, em mercadoria. Essa força seria negociada por certo valor entre o trabalhador e o dono dos meios de produção. O parâmetro de negociação do valor é o mercado. De um lado temos o trabalhador que oferece seu trabalho e do outro o empregador que o compra (salário). Fernanda Alcântara afirma que Marx acreditava na centralidade da noção de mercadoria dentro da categoria explicativa sobre a essência do capitalismo. Isso se dá, segundo ela, porque toda a teoria de Marx está centrada na exploração do trabalhador enquanto mercadoria e as implicações que seguem. (ALCÂNTARA, 2007, p. 67) Nesse sentido, Alcântara aponta três dimensões da visão de Marx sobre mercadoria (2007, p. 69-70): www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 24 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia a) A mercadoria possui utilidade quando tomada para consumo, ou seja, possui valor de uso; b) A mercadoria também possui valor de troca, isto é, caracteriza-se como um produto que pode ser trocado por outro ou por moeda de qualquer espécie; c) A mercadoria tem seu valor calculado a partir da quantidade de tempo gasto para a sua produção. A força de trabalho enquanto mercadoria, é o elemento capaz de produzir riquezas para aquele que a compra. O salário, segundo Marx, é um fator que aprofunda as desigualdades entre a classe burguesa e o proletariado. Em sua concepção, a remuneração dada aos trabalhadores é apenas o necessário para que ele continue trabalhando e fornecendo a sua força de trabalho ao patrão e continue reproduzindo excedentes de riqueza. (ALCÂNTARA, 2007, p. 70) Uma das críticas fundamentadas por Marx está na falta de equivalência entre o que é pago ao trabalhador e o que se realmente ele vale, ou seja, entre o que o trabalhador pode produzir e o seu salário é incompatível. Em função das relações sociais de produção capitalistas, o valor que é produzido durante o tempo de trabalho excedente ou não-pago é apropriado pela burguesia. Parte desse valor extraído gratuitamente durante o processo de produção e passa a integrar o próprio capital, possibilitando a acumulação crescente (QUINTANEIRO, 2003 p. 45). Na realidade, a situação de liberdade aparente na venda da força de trabalho é apenas aparente: “O valor que ultrapassa o dos fatores consumidos no processo produtivo (meios de produção e força de trabalho), e que se acrescenta ao capital empregado inicialmente na produção, é a mais-valia. Ela se transforma, assim, em uma riqueza que se opõe à classe dos trabalhadores. A taxa de mais-valia, a razão entre trabalho excedente e trabalho necessário, expressa o grau de exploração da força de trabalho pelo capital. O que impede o trabalhador de www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 25 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia perceber como se dá efetivamente todo esse processo é sua situação alienada” (QUINTANEIRO, 2003 p. 45). www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 26 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia 4. SOCIOLOGIA ACADEMICA 4.1. EMILE DURKHEIM Considerado o primeiro catedrático de Sociologia na França, dirigiu durante muitos anos a revista “L’Année Sociologique”. Desenvolveu estudos e conceitos tidos como fundamentais para a história da sociologia. Dentre estes, destacamos: fatos sociais, suas regras explicativas, anomias sociais (com ênfase em estudos sobre suicídio), etc. Durkheim formulou as primeiras orientações para a Sociologia, demonstrando que os fatos sociais têm características próprias, que os tornam diferentes dos objetos de outras ciências. Durkheim afirma que a sociologia é o estudo dos fatos sociais. De acordo com essa idéia, o fato social é o conjunto de elementos que a priori, orientam a forma de agir, pensar e sentir de um grupo social. Oliveira apresenta um exemplo simples para compreender o conceito de fato social Um exemplo simples nos ajuda a entender o conceito de fato social, segundo Durkheim. Se um aluno chegasse à escola com roupa de praia, certamente ficaria numa situação muito desconfortável: os colegas riram dele, o professor lhe daria uma enorme bronca e provavelmente o diretor o mandaria de volta para pôr uma roupa adequada. Existe um modo adequado de vestir que é comum, que todos seguem. Isso não é estabelecido pelo indivíduo. Quando ele entrou no grupo, já existia tal norma e, quando ele sair, a norma provavelmente permanecerá. Quer a pessoa goste, quer não, vê-se obrigada a seguir o costume geral. Se não a seguir, sofrerá uma punição. O modo de vestir é um fato social. São fatos sociais também a língua, o sistema monetário, a religião, as leis e uma infinidade de outros fenômenos do mesmo tipo. (2001, p. 13) Para Durkheim, os fatos sociais são elementos externos ao indivíduo, e exercem poder de influência sobre ele. Os elementos que dão objetividade e proporcionam a possibilidade de um estudo metódico dos fatos sociais são www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 27 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia a) Generalidade: é comum a todos os membros b) Exterioridade: os fatos sociais acontecem independentes da ação dos indivíduos c) Coercitividade: força que induz as pessoas a seguir os comportamento preestabelecidos. Os fatos sociais compreendem segundo Durkheim, toda maneira de agir fixa ou não, suscetível de exercer sobre o indivíduo uma coerção exterior; ou então ainda, que é geral na extensão de uma sociedade dada, apresentando uma existência própria, independente das manifestações individuais que possa ter. Incluem ainda as maneiras de agir, de pensar e de sentir exteriores ao indivíduo, dotadas de um poder de coerção em virtude do qual se lhe impõem. (DURKHEIM, 1974, p. 31) O fato social é tipo por Durkheim como uma entidade autônoma, com vida própria e eu exerce atração sobre os indivíduos. É essa força atrativa que leva os membros de um grupo social a agir e pensar de uma determinada maneira. Dessa forma, a sociedade não pode ser compreendida como um somatório de indivíduos que se interpõem. As características de um determinado grupo social nascem da fusão de elementos externos e a sua apreensão pelos componentes do todo. A sociedade é uma síntese. A explicação está no todo e não nas partes. Durkheim concebia a sociedade como uma estrutura semelhante ao corpo humano. As partes funcionavam de forma integrada. Cada integrante tinha a sua função específica. Uma analogia pode ser feita a partir da seguinte afirmação (SEED,2007 Apud MONTE, 1997, p. 257): O médico Joaquim Monte, em seu livro “Promoção da qualidade de vida(1997) considera o corpo humano como sendo um “organismo vivo concebido sob forma de uma estrutura que apresenta constituição e função (um conjunto organizado de elementos bióticos de anatomia e fisiologia). A estrutura do corpo humano representa a dimensão orgânica da pessoa: a carne da qual somos constituídos (matéria orgânica com suas características e propriedades funcionais) e que tem www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 28 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia a potencialidade de reproduzir, nascer, maturar, crescer, desenvolver, agir, adaptar, sarar e morrer (p.257) Durkheim entendia que cada parte da sociedade tinha uma função dentro de uma dinâmica integrada. A falha de um componente deste corpo era chamada por ele de anomia (uma desconformidade social). Um exemplo interessante utilizado por Durkheim para explicar esta questão está em seus estudos sobre o suicídio. Ele tipificou três categorias de suicídios, se acordo com a dinâmica social e a relação entre realidade coletiva e a ação dos indivíduos: a) Altruísta: ocorre quando o individuo supervaloriza a sociedade em relação a si própria. Isso significa dizer que os laços que o unem a sociedade são muito fortes (encontramos um exemplo emblemático nos ataques terroristas, que trazem em si elementos religiosos ou nacionalistas). b) Egoísta: acontece quando o individuo encontra-se desvinculado das instituições sociais (família, escola, igreja, partido político). Isso reflete a falta de rede de convívios ou limites para as suas ações. c) Anômico: Acontece quando as partes do corpo social param de funcionar e as normas que poderiam socializar ou integrar os indivíduos perdem sua eficácia. A exterioridade dos fatos sociais aparece na obra de Durkheim em outro aspecto teórico. A consciência coletiva, expressa nos movimentos coletivos, movimentos sociais e políticos possuem formas cristalizadas no seio social. São elementos moldadores de opinião e valores: dogmas morais e religiosos, sistemas financeiros, regras matrimoniais, normas de etiqueta. Essas regras são passadas para gerações futuras de forma imperativa, coagindo os membros da sociedade a adotar certas condutas. Dessa forma, o processo educacional ganha um papel decisivo na teoria de Durkheim. É preciso que a consciência coletiva, agregada aos valores de uma determinada sociedade, seja canalizada e transmitida para a juventude: Desde muito pequenas, lembra, as crianças são constrangidas (ou educadas) a seguir horários, a desenvolver certos comportamentos e maneiras de ser e, mais tarde, a trabalhar. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 29 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia Elas passam por uma socialização metódica e é uma ilusão pensar que educamos nossos filhos como queremos. Somos forçados a seguir regras estabelecidas no meio social em que vivemos. Com o tempo, as crianças vão adquirindo os hábitos que lhes são ensinados e deixando de sentir-lhes a coação, aprendem comportamentos e modos de sentir dos membros dos grupos dos quais participam. Por isso a educação cria no homem um ser novo, insere-o em uma sociedade, leva-o a compartilhar com outros de certa escala de valores, sentimentos, comportamentos. Mais do que isso, nasce daí um ser superior àquele puramente natural. E se as maneiras de agir e sentir próprias de uma sociedade precisam ser transmitidas por meio da aprendizagem é porque são externas ao indivíduo.(QUINTANEIRO, 2003, p.63) Os valores de uma sociedade, outro elemento estudado por Durkheim, também possuem, segundo ele, uma dinâmica própria, que independe do juízo de valores de um ou mais indivíduos. A sua aceitação ou a concordância com eles também deve ser levado em consideração por quem faz parte de um determinado grupo. Durkheim se refere em Educação e Sociologia, as implicações da não aceitação das regras ou convenções preestabelecidas: “as forças morais contra as quais nos insurgimos reagem contra nós e é difícil, em virtude de sua superioridade, que não sejamos vencidos. (...) Estamos mergulhados numa atmosfera de idéias e sentimentos coletivos que não podemos modificar. à vontade.” (WEBER, 1955, p. 7) Isso não significa que haja uma sujeição total aos preceitos e regras sociais. É possível que haja comportamentos inovadores, desde que um conjunto de pessoas conflua para um comportamento que posteriormente constituirá um fato social. Na obra Da divisão social do trabalho (1893), Durkheim analisa os limites da coletividade social. Para tal, ele estuda as relações entre indivíduo e sociedade. Era necessário entender, segundo Durkheim, o que unem elementos sociais tão diversos em comunidade. A resposta estaria no que ele chama de solidariedade. A solidariedade exprime o conjunto de ações (estruturas) que regulam a sociedade e criam os laços de interdependência entre os indivíduos. Dessa forma, a www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 30 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia sociedade é capaz de manter o mínimo de coesão mesmo naquelas compostas por características mais individualistas. Em Durkheim temos duas formas de solidariedade. A primeira é a solidariedade mecânica ou por semelhança, onde os indivíduos diferem pouco uns dos outros. A forma oposta de solidariedade, a orgânica, é aquela em que o consenso resulta de uma diferenciação, ou se exprime por seu intermédio. Os indivíduos não se assemelham, são diferentes. A medida em a divisão social do trabalho se acentua, a redução da solidariedade mecânica é inevitável. Institui-se um processo de individualização dos membros da sociedade que a priori não deveriam manter laço algum de coesão. No entanto, a solidariedade passa a se expressar pela interdependência entre os elementos sociais. De acordo com Quintaneiro, a função da divisão do trabalho é, enfim, “a de integrar o corpo social, assegurar-lhe a unidade. É, portanto, uma condição de existência da sociedade organizada, uma necessidade. Sendo esta sociedade “um sistema de funções diferentes e especiais”, onde cada órgão tem um papel diferenciado, a função que o indivíduo desempenha é o que marca seu lugar na sociedade, e os grupos formados por pessoas unidas por afinidades especiais tornamse órgãos, e “chegará o dia em que toda organização social e política terá uma base exclusivamente ou quase exclusivamente profissional”. (QUINTANEITO, 2003, p.74) A idéia de representação social é central na obra de Durkheim. Seus estudos sobre religiosidade enfatizam bastante essa relação. No estudo Les Formes elementaires de la vie religieuse, a essência da religião está no sagrado e não no sobrenatural. O sagrado engloba o conjunto de crenças e idéias, o que caracteriza seu aspecto coletivo e impessoal. Dessa forma, a religião constitui um fato social. A religião é coletiva porque suas crenças são coletivas. Por sua vez, elas são coletivas porque emanam da sociedade. A religiosidade é o símbolo da união de pessoas em torno de uma crença comum. Torna-se assim um elemento de coerção. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 31 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia As idéias de Durkheim sobre o funcionamento da sociedade estão intimamente ligadas ao método por ele utilizado em suas análises. De acordo com ele, é preciso tratar os fatos sociais como objetos ou “coisas”. Isso implica em pensar seu método a partir do seguinte esquema: 1) Observação dos fatos sociais: - Os fatos precisam ser observados de forma exterior, de forma semelhante aos fatos físicos ou naturais; - Para conhecer fatos, muitas vezes complexos como religião e sociedade, é preciso enxergá-los sem preconceitos ou julgamentos iniciais. Esse é o princípio da cientificidade; - É preciso encarar a análise social com a mesma neutralidade e cientificidade utilizada nas ciências naturais; 2) Buscar nos fatos sociais os elementos de coerção sobre os indivíduos; QUADRO ESQUEMÁTICO DA TEORIA SOCIOLÓGICA DE DURKHEIM www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 32 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia 4.2. MAX WEBER A obra de Max Weber (1864-1920), juntamente com outros pensadores, é decisiva para a formação da sociologia, estruturando, inclusive, a base do pensamento cientifico. Sua principal contribuição metodológica para as ciências sociais, segundo Ferreira, foi a elaboração do conceito de tipo ideal. Ao estudar História numa perspectiva comparativa, buscou analisar a problemática do funcionamento do capitalismo e da burocracia, fazendo relações com questões ligadas a religião (2003, p. 66). Filósofo, historiador e sociólogo alemão, era filho de uma família de idéias protestantes e de ideais liberais. Seus estudos universitários permearam os campos do Direito, Economia, História e Filosofia. Sua vida profissional o manteve sempre ligado as questões políticas concernentes ao seu país. Foi conselheiro da delegação alemã que participou da condução do Tratado de Versalhes, em 1919. Participou ainda da confecção da Constituição da República de Weimar no período entreguerras. Suas concepções sempre estiveram ligadas ao nacionalismo, princípios liberais e parlamentaristas. Max Weber é uma referencia quando se trata da reputação científica da sociologia. De acordo com Martins, ele tencionava criar uma fronteira rígida entre o cientista social e o pensador empírico. A neutralidade científica é justamente o limiar entre estas duas categorias de pensamento. Para Weber, as paixões políticas deveriam estar fora da análise social: Essa posição de Weber, que tantas discussões tem provocado entre os cientistas sociais, constitui, ao isolar a sociologia dos movimentos revolucionários, um dos momentos decisivos da profissionalização dessa disciplina. A idéia de uma ciência social neutra seria um argumento útil e fascinante para aqueles que viviam e iriam viver da sociologia como profissão. Ela abria a possibilidade de conceber a sociologia como um conjunto de técnicas neutras que poderiam ser oferecidas à qualquer comprador público ou privado. Vários estudiosos da formação da sociologia tem assinalado, no entanto, que a neutralidade defendida por Weber foi um recurso utilizado por ele na luta www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 33 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia pela liberdade intelectual, uma forma de manter a autonomia da sociologia em face da burocracia e do Estado alemão da época. (MARTINS,1994, p.33) Para ele, não existe nenhuma relação de subordinação das regras e normas sociais sobre os indivíduos. Pelo contrario, os grandes sistemas sociais seriam resultado de um conjunto de ações individuais orientadas pela racionalidade. Segundo Ferreira, as grandes idéias coletivas, como o Estado, capitalismo e religião só existiam porque muitos indivíduos orientaram suas ações para um objetivo comum. (2003, p.66) Sua postura teórica advém de sua formação kantiana e hegeliana. Isso causou um distanciamento do positivismo e do marxismo. Enquanto Marx e Durkheim deram maior importância ao estudo dos fatos sociais, Weber esteve muito mais inclinado a postura individualista das estratégias sociais. O centro de seus estudos é ação individual. QUADRO COMPARATIVO ENTRE TEORIAS SOCIOLÓGICAS INDIVIDUALISTAS E COLETIVISTAS www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 34 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia Weber se preocupa, assim como Marx, com as mudanças sociais, no entanto, opõe-se ao materialismo como elemento determinante da sociedade. Ao contrário, preocupa-se em demonstrar que o mundo das idéias, da religiosidade e valores contribuíram para as diferentes configurações sociais. Weber se ocupou de forma bastante específica ao que ele chama de ação social. De acordo com ele, é necessário inicialmente entender para que fins e como agiam os atores sociais. Ele buscava compreender as condições objetivas nas quais os atores sociais agiam. Para a compreensão destas ações, ele estabeleceu quatro tipos ideais (LAGO,1996, p.43): 1) Ações racionais, com dois tipos: 1.1) Racionais quanto aos fins – quando baseiam-se em antecipações de conseqüências e ações alheias, de modo a garantir a maior eficácia possível dos resultados 1.2) Racionais quanto aos valores – baseadas em crenças conscientes, sem considerar os resultados que possam atingir 2) Ações tradicionais – determinadas por hábitos e costumes, sem exame critico da realidade 3) Ações efetivas – baseadas no estado emocional atuais A partir da construção dos tipos ideais, a idéia de Weber era agrupar os indivíduos em comunidades de acordo com as ações que empreendiam. As ações racionais davam as comunidades ou a sociedade um caráter burocrático semelhante a uma empresa. Essa visão burocrática da sociedade e da organização estatal. Max Weber incorporou em seus estudos o problema da compreensão das ações na chamada Sociologia Compreensiva ou Interpretativa. O homem pode compreender ou buscar compreender as suas intenções a partir de sua conduta ou pela interpretação destas condutas, sejam elas racionais ou afetivas (irracionais). Para Weber não existe causas gerais que norteiem as ações sociais. Torna-se necessário a análise compreensiva, ou seja, a investigação do passado histórico e da sua repercussão nas características peculiares de cada sociedade. (FERREIRA, 2003, p.70) Dessa forma, o estudo da sociologia não deveria partir das instituições ou grupos sociais. O individuo e a sua ação era considerada o ponto chave da investigação. www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 35 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia De acordo com Ferreira, o conceito de ação social está vinculado a idéia de relação social. Para que a análise atinja o plano sociológico,é preciso transpor o significado das ações individuais para o plano coletivo. O objetivo é buscar o sentido da ação dos grupos em direção comum. De acordo com Cohen (FERREIRA, 2003 Apud COHEN, 1997, p. 30), este conceito é concernente a Conduta de múltiplos agentes que se orientam reciprocamente em conformidade com um conteúdo específico do próprio sentido das suas ações. A diferença entre ação social e relação social é importante: na primeira a conduta do agente está orientada significativamente pela conduta de outro (ou outros), ao passo que na segunda a conduta de cada qual entre múltiplos agente envolvidos (que tantos podem ser apenas dois e em presença direta quanto um grande número e sem contato direto entre si no momento da ação) orienta-se por um conteúdo de sentido reciprocamente compartilhado (1997, p.30) Outra contribuição de Weber para as ciências sociais foi a elaboração do conceito por ele chamado de “tipos de dominação pura”. Ele entende que esta desempenha um papel fundamental na condução ou na orientação das ações sociais: Todas as áreas da ação social, sem exceção, mostram-se profundamente influenciadas por complexos de dominação. Num número extraordinariamente grande de casos, a dominação e a forma como ela é exercida são o que faz nascer, de uma ação social amorfa, uma relação associativa racional, e noutros casos, em que não ocorre isto, são, não obstante, a estrutura da dominação e seu desenvolvimento que moldam a ação social e, sobretudo, constituem o primeiro impulso, a determinar, inequivocamente, sua orientação para um "objetivo". (WEBER,1999, p.187). Dentro da tipologia da dominação criada por Weber, encontramos as seguintes formas: dominação legal, tradicional e carismática. A primeira engloba www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 36 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia elementos hoje presentes na organização burocrática de estados, municípios e organizações administrativas. Em Economia e Sociedade, Weber afirma que as base da dominação burocrática são regidas pelo principio de competencias oficiais fixas, mediadas por regras preestabelecidas. Os poderes me mando também são previamente estabelecidos e divididos pelos diferentes meios que possam empregá-los. Estas verdadeiras “empresas burocráticas” são encontradas, segundo Weber, em formacoes politicas diversas, como o Oriente Antigo e em formacoes estatais feudais (WEBER, 1999, p. 198). Por conta dessa tipificaçao burocrática, pertence a Weber a primeira teorizaçao das organizaçoes burocráticas modernas. Seus estudos sobre modelos de dominaçao nesta vertente o levou a levantar os seguintes aspectos da burocracia: 1) a autoridade hierarquizada de forma piramidal e estabelecida por deveres oficiais; 2) as normas encontram-se escritas sob a forma de leis que regulam o trabalho dentro da organização; 3) os funcionários são trabalhadores remunerados de acordo com o seu estatuto na organização; 4) a vida privada dos funcionários é independente do seu desempenho e decorre fora do espaço de trabalho; 5) os recursos utilizados para trabalhar não pertencem ao funcionário. A chamada dominacão tradicional é sintetizada pela ideia do patriarcalismo: Em sua essência, não se baseia no dever de servir a determinada "finalidade" objetiva e impessoal e na obediência a normas abstratas, senão precisamente no contrário: em relações de piedade rigorosamente pessoais..Seu germe encontra-se na autoridade do chefe da comunidade doméstica.(...) Na dominação patriarcal é a submissão pessoal ao senhor que garante a legitimidade das regras por este estatuídas, e somente o fato e os limites de seu poder de mando têm, por sua vez, sua origem em "normas", mas em normas não-estatuídas, sagradas pela tradição. Mas sempre www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 37 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia prevalece na consciência dos submetidos, sobre todas as demais idéias, o fato de que este potentado concreto é o "senhor"; e na medida em que seu poder não está limitado pela tradição ou por poderes concorrentes, ele o exerce de forma ilimitada e arbitrária, e sobretudo: sem compromisso com regras. (WEBER, 1999, p. 234) Weber afirma que o lider patriarcal é a referencia das atividades cotidianas. A estrutura burocrática é o contraponto do patriarcalismo, pois ambos estão em limiares diferentes em relação a racionalidade proposta pelo sociólogo em seus estudos. Como estrutura permanente, a dominação burocrática é diferente porque traduz o cotidiano a partir de regras racionais de forma a atender as mesmas necessidades previstas em uma rotina normal. (WEBER, 1982, p.282) A dominação carismática é exercida, segundo Weber, a partir do reconhecimento da existência de um dom natural ou sobrenatural. Ela transpõe a burocracia ou o patriarcalismo. Uma espécie de aura divina “ilumina” um individuo e lhe dá uma missão especial. O portador do carisma assume as tarefas que considera adequada e exige obediência e adesão em virtude de sua missão. Determinado por fatores locais, étnicos, sociais, políticos, profissionais ou de outro tipo qualquer: neste caso, encontra seus limites no círculo destas pessoas (WEBER, 1999, p.325). O domínio de origem carismática não reconhece códigos ou estatutos preestabelecidos. Sua situação privilegiada advém, segundo Weber, de sua experiência concreta, da graça celestial e de sua força divina. Ele converte-se num herói de atitude revolucionária que transpõe todos os valores (WEBER,1982, p.289) . www.institutoibe.com.br – [email protected] – (0XX31)2533-0500 38 Instituto Brasileiro de Ensino Ensino de Sociologia – História da Sociologia REFERÊNCIAS CONSULTADAS E UTILIZADAS ALCANTARA, Fernanda Henrique Cupertino. Os clássicos no cotidiano: Auguste Comte, Karl Marx, Aléxis de Tocqueville, Émile Durkheim, Max Weber. São Paulo: Arte & Ciência, 2007. ARISTÓTELES, Política. Brasília: UNB, 1997. COMTE, Auguste. Discurso Sobre o Espírito Positivo. São Paulo: Abril Cultural, 1983b. Coleção Os Pensadores DURKHEIM, Emile. A divisão do trabalho social. Lisboa: Editorial Presença, 1991. _______________. As regras do método sociológico. São Paulo: Editora Nacional, 1990. FERNANDES, Florestan. Em busca do socialismo: últimos escritos & outros textos. São Paulo: Xamã, 1995. FERREIRA, Delson. Manual de Sociologia: dos clássicos à sociedade da informação. 2 ed. São Paulo: Atlas, 2007. 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