UNIVERSIDADE FEDERAL DE MATO GROSSO
INSTITUTO DE LINGUAGENS
MESTRADO EM ESTUDO DE LINGUAGEM
LEMBRANÇAS DE MATO GROSSO SOB UM OLHAR FEMININO:
UM ESTUDO FILOLÓGICO
CARMEN LÚCIA TONIAZZO
ORIENTADOR: Prof. Dr. ELIAS ALVES DE ANDRADE
CUIABÁ
2011
CARMEN LÚCIA TONIAZZO
LEMBRANÇAS DE MATO GROSSO SOB UM OLHAR FEMININO:
UM ESTUDO FILOLÓGICO
Dissertação apresentada ao Programa
de Pós- Graduação em Estudos de
Linguagem - MeEL, do Instituto de
Linguagens da Universidade Federal
de Mato Grosso, para obtenção de
título de Mestre.
Área de concentração: História e
descrição do português brasileiro.
Orientador: Prof. Dr. Elias Alves de Andrade
CUIABÁ
2011
CUIABÁ-MT
2011
T6651
Toniazzo, Carmen Lúcia Toniazzo
Lembranças de Mato Grosso Sob um Olhar Feminino: Um Estudo
Filológico
Carmen Lúcia Toniazzo. Cuiabá: UFMT, 2011. 164 fls.
Dissertação (Mestrado) Universidade Federal de Mato Grosso –
Instituto de Linguagens, 2011.
Orientador: Prof. Dr. Elias Alves de Andrade
Inclui Bibliografia
1.Filologia. 2. Edições. 3. Paleografia. 4. História Social.
I Titulo. II Andrade, Elias Alves de.
CDU 80
Ficha catalográfica elaborada por Douglas Rios – Bibliotecário – CRB1-1610
DEDICATÓRIA
Dedico este trabalho ao meu esposo Alonso,
pelo seu companheirismo, amor e compreensão,
nesses meses de muito esforço, estudo e
dedicação aos livros.
Aos meus filhos Paola e Marcello, pelo amor
e carinho sempre presentes.
A minha nora e meu genro, Carol e Caio.
A minha irmã Jussara, pelos cuidados para
comigo, pelo amor e dedicação nas horas
difíceis.
Aos três anjos de luz que desceram à terra
para iluminar meus dias e deixar minha vida
mais alegre, aos meus três amores.
Pedro Alonso, Ana Clara e Bernardo, vocês
são a sobremesa da minha vida, amo vocês.
E a mim, pela superação das dificuldades
encontradas.
AGRADECIMENTOS
Neste caminho percorrido até aqui, muitas foram as dificuldades
encontradas, mas muito maior a generosidade que encontrei, pessoas que
cruzaram minha vida e certamente vão estar comigo sempre, não importa o
tempo ou a distância. Pessoas que fizeram a diferença nessa trajetória, a elas,
devo-lhes a conclusão de uma importante fase de minha vida acadêmica e
profissional, assim agradeço:
À Capes pelo incentivo financeiro com o qual pude contar no ano de
2009.
Ao Prof. Dr. Elias Alves de Andrade por ter aceitado o desafio de orientarme e ter tido a paciência e a generosidade em ensinar-me o caminho da filologia.
Aos Professores Doutores Manoel Mourivaldo Santiago Almeida e Maria
Inês Pagliarini Cox, pelas críticas e sugestões relevantes feitas a este trabalho
durante o Exame de Qualificação. À professora Maria Inês, meu agradecimento
especial, por ter-me feito perceber o que é ser professor, sua generosidade,
dedicação e simplicidade que me comoveram.
Aos colegas de turma, em especial, as amigas Margareth Krause e
Marcilene Ribeiro, as outras meninas do Elias, pela amizade sincera, pelo apoio
incondicional, pela cumplicidade. À Margareth meu especial agradecimento, pois
foste bem mais, foi minha coorientadora, obrigada querida pela sua amizade.
Ao corpo docente do MeEL por terem ampliado meu conhecimento, e por
me apresentarem a Bakthin, Schneuwly, Rojo, Maingueneau, Signorini e outros
autores.
À professora Yasmim Nadaf, que me recebeu em sua casa de forma tão
generosa como se fossemos amigas de vários anos, sem sua colaboração,
certamente, esse trabalho não poderia ser realizado, obrigada querida amiga, pois
foi o que aconteceu conosco, uma amizade nasceu.
A Deus, que certamente colocou em meu destino esse percurso que me
levaria ao Mestrado, o Senhor é minha luz, minha verdade e meu caminho.
Amém. Obrigada Senhor.
RESUMO
TONIAZZO, Carmen Lúcia. Lembranças de Mato Grosso sob um olhar
Feminino: Um estudo filológico. Dissertação (Mestrado) – Instituto de
Linguagens – Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá-MT, 2011.
Este trabalho objetiva fazer um estudo filológico, focalizando uma de suas
funções, a Transcendente. Apresentam-se aspectos sócio-históricos de Cuiabá
do final do Império e início de República, a partir do livro “Lembranças de Mato
Grosso”. Escrito por Maria do Carmo de Mello Rego e publicado no ano de
1897 no Rio de Janeiro, em cuja obra, a autora mostra sob sua ótica, as
reminiscências do período em que morou em Cuiabá e da convivência com a
população local. Para tanto, foram feitas a edição fac-similar do livro e a facsimilar e semidiplomática de alguns documentos manuscritos produzidos em
Cuiabá por juízes, presidentes da província, inspetores, padres, no mesmo
período de publicação do referido livro. O objetivo de análise desses
manuscritos é a constatação sobre a maneira de se escrever naquele período,
a fim de possibilitar a leitura dos textos para o trabalho da descrição
paleográfica, descrição das ocorrências ortográficas e dos aspectos históricosociais do período em que os manuscritos e o livro foram produzidos. Dentre os
manuscritos selecionados, dois são de autoria do Presidente da Província de
Mato Grosso, entre os anos de 1887 e de 1888, o Senhor Coronel Raphael de
Mello Rego, esposo da autora do livro em análise. Este estudo teve como
suporte teórico Andrade (2007), Cambraia (2005), Spina (1994), Higounet
(2008), Santiago Almeida (2000), Siqueira (1990) Tessyer (2007) e outros.
Palavras-chave: Filologia, edições, paleografia, história social.
ABSTRACT
TONIAZZO, Carmen Lúcia. Memories of Mato Grosso under a female's
perspective: a philological study. Dissertation (Master degree) - Language
Institute - Universidade Federal de Mato Grosso, Cuiabá-MT, 2011.
This project aims a philological study, focusing one of its functions, the
Transcendent. Social aspects of Cuiabá's late Empire and early Republic are
presented, from the book "Lembranças de Mato Grosso"("Memories of
MatoGrosso").
Written by Maria do Carmo de Mello Rego and published in the year of 1897 in
Rio de Janeiro, in whose work, the author shows under her perspective, the
reminiscences of the period that marked Cuiabá and living with the locals. For
that, the fact simile edition of the book and the fact simile and the semidiplomatic were made for some of the manuscript documents produced in
Cuiabá by judges, province presidents, inspectors, priests, during the same
period of the referred book's publication. The objective of the analysis of such
manuscripts is the finding of that period's writing stile, to enable the text reading
for paleographic description, description of the orthographic occurrences and
the social-historical aspects of the period in which the manuscripts and books
were made.
Among the selected manuscripts, two are authored by Mato Grosso's Province
President, between the years of 1887 and 1888, Mr. Colonel Raphael de Mello
Rego, husband of the author of the book review. This study has had as
theoretical support Andrade (2007), Cambraia (2005), Spina (1994), Higounet
(2008), Santiago Almeida (2000), Siqueira (1990) Tessyer (2007) and others.
Key words: philology, editions, paleography, social history.
SUMÁRIO
Introdução.........................................................................................................9
Capítulo. 1........................................................................................................15
1. Edições fac-similar e semidiplomática.....................................................15
1.1 Vantagens do manuscrito para um estudo filológico...........................15
1.2 Critérios adotados para a edição semidiplomática...............................16
1.3 Manuscritos...............................................................................................18
1.4 Codicologia................................................................................................40
1.4.1Conceito...................................................................................................40
1.4.2 Objeto e finalidade de estudo da Codicologia....................................40
1.4.3 Fac-símile do livro “Lembranças de Mato Grosso”...........................43
Capítulo. 2......................................................................................................130
2. Comentários paleográficos: Cotejo entre os manuscritos e
“Lembranças de mato Grosso”...................................................................130
2.1 Análise paleográfica...............................................................................130
Capítulo. 3......................................................................................................142
3. Lembranças de Mato Grosso: Aspectos sócio-históricos e culturais de
Cuiabá............................................................................................................142
3.1 Função Transcendente da Filologia......................................................146
Considerações Finais...................................................................................160
Referências bibliográficas...........................................................................162
9
INTRODUÇÃO
A necessidade de construir textos autênticos se faz sentir quando um
povo de alta civilização toma consciência dessa civilização e deseja
preservar dos estragos do tempo as obras que lhe constituem o
patrimônio espiritual; salvá-las não somente do olvido como também
das alterações, mutilações e adições que o uso popular ou o desleixo
dos copistas nelas introduzem necessariamente. Tal necessidade se
fez já sentir na época dita helenística da Antiguidade grega no
terceiro século a.C., quando os eruditos que tinham seu centro de
atividades em Alexandria registraram por escrito os textos da poesia
grega, sobretudo de Homero, dando-lhes forma definitiva.
(AUERBACH,1972, p.11)
A história da humanidade se divide em duas eras: antes e a partir da
escrita. Desde sempre há no homem a preocupação em salvaguardar seus
registros, e, assim sendo, a escrita é vista como o fato social que está na base
da civilização e nos permite apreender o pensamento e fazê-lo atravessar o
tempo e o espaço (HIGOUNET, 2003, p. 10) Desse modo, os textos antigos
têm inestimável valor para estudiosos de Filologia, História, Antropologia,
Sociologia, etc.
Ainda segundo o autor
[...], a escrita é mais que um instrumento. Mesmo emudecendo a
palavra, ela não apenas a guarda, ela realiza o pensamento que até
então permanece em estado de possibilidade. Os mais simples traços
desenhados pelo homem em pedra ou papel não são apenas um
meio, eles também encerram e ressuscitam a todo momento o
pensamento humano. Para além de modo de imobilização da
linguagem, a escrita é uma nova linguagem, muda certamente, mas,
segundo a expressão de L. Febvre, “centuplicada”, que disciplina o
pensamento e, ao transcrevê-lo, o organiza.
(HIGOUNET, 2003, p. 9-10).
Cambraia (2005, p.18) usa o termo Filologia para designar o “estudo
global de um texto”, ou seja, a exploração exaustiva e conjunta dos mais
variados aspectos de um texto: linguístico, literário, crítico textual, sóciohistórico, etc. São importantes a preservação e o resgate de documentos
antigos, pois contêm, pela escrita, aspectos linguísticos de um povo. Ainda
segundo Cambraia (2005, p.15) o termo Filologia encerra na sua gênese a
ideia básica de “amor à palavra”, embora desde o início seja entendida como a
10
ciência que estuda o texto e carrega significados diversos, segundo a definição
de vários filólogos.
Esse caráter polissêmico do termo filologia pode ser constatado em
outros autores como Bluteau1 (1712-1721, p. 482), Moraes Silva (1813, p. 446),
Bueno (1946, p. 22) e Andrade (2007, p.10).
Neste trabalho, adota-se a definição mais ampla da Filologia, Latu
Sensu, por possibilitar o estudo da língua em sua plenitude, em seu contexto
histórico-social, no tempo e no espaço.
Não subsistindo sem o texto escrito, antigo ou moderno, manuscrito ou
impresso, a filologia tem como corpus fundamental o texto literário e, como
corpus secundário, os textos históricos, jurídicos, religiosos e filosóficos.
Segundo Spina (1977, p. 77) são três as suas funções:
a) Função substantiva, caracterizada por concentrar-se no texto para explicá-lo,
restituí-lo à sua forma genuína e prepará-lo tecnicamente para publicação;
b) Função adjetiva, caracterizada por „deduzir‟ do texto, aquilo que não está
nele: sua autoria, a biografia do autor, a datação do texto, sua posição na
produção literária do autor e da época, assim com sua avaliação estética, sua
valorização;
c) Função transcendente, caracterizada por visualizar o texto não como um fim
em si mesmo do trabalho filológico transformando-o num instrumento que
permite ao filólogo reconstituir a vida cultural, espiritual de um povo ou de uma
comunidade em determinada época, de forma que a individualidade ou a
presença do texto praticamente desaparece, pois o leitor, abstraído dele,
apenas se compraz no estudo que dele resultou.
Deve-se observar que, na função substantiva do labor filológico, está o
seu caráter erudito; na função adjetiva, as etapas da investigação literária; e,
na função transcendente, a vocação ensaística do filólogo em busca da história
da cultura.
Ao abordar-se um pouco a história de algumas mulheres cuiabanas
que foram importantes para o desenvolvimento da cidade, focaliza-se a função
transcendente da filologia, pois se enfatiza mais a parte histórica e cultural que
1
1º Dicionário da Língua Portuguesa”Vocabulário Português e Latino” (1772 – 1728), Ver mais em :
“ De Bluteau a Houiass” - Um Cotejo Lexicográfico, de ANDRADE, Elias Alves de. Cuiabá: EdUFMT,
2008.
11
aspectos da língua. O estudo de função transcendente do livro “Lembranças de
Mato Grosso”, enquanto documento do século XIX, é o objetivo maior desta
pesquisa.
De posse de um manuscrito, o filólogo tem de saber de que época é a
letra utilizada no documento, deve interpretar e pode desfazer as abreviaturas,
deve conhecer o estado da língua nos primeiros séculos, para saber se o
mesmo é original, ou uma cópia – contemporânea ou posterior, se o copista foi
fiel ou se inseriu algo no texto. O estudioso deve, também, conhecer a história,
os usos, os costumes, a cultura da época em que o manuscrito foi produzido,
para poder interpretá-lo corretamente e, se preciso, restituí-lo à sua forma
genuína. (COUTINHO, 1974, p.71-74).
Para se fazer um trabalho filológico, ou edição crítica de um texto, há
de acordo com Spina (1977, p.77-80) e Cambraia (2005, p. 90-95), diversas
formas:

Edição fac-similar ou mecânica – é a fotocópia fiel do original com
todas as suas características: formato, ilustrações, margens, cor e
tamanho, com grau zero de mediação.

Edição diplomática – é a reprodução tipográfica do original
manuscrito, como se fosse completa e perfeita cópia do mesmo,
em todos os seus sinais e lacunas, inclusive nos erros e nas
passagens obscuras. Entretanto, ela já implica certo grau de
mediação, pois passou de manuscrito para impresso.

Edição semidiplomática ou diplomático-interpretativa – é uma
tentativa de melhorar o texto, com a separação das palavras,
quando entre elas não há fronteiras, desdobramento de
abreviaturas, explicitando-se as letras omitidas em itálico.

Edição paleográfica – é aquela que descreve, melhor que a facsimilar,
pormenores
caligráficos
como:
redação
primitiva,
correções e minúsculos sinais introduzidos pelos revisores
subsequentes, recorte diferente de letras e as tintas utilizadas,
retoques feitos em épocas diferentes num mesmo documento,
(SPINA, 1977).
12

Edição interpretativa – é o tipo de edição em que se estabelece
grau máximo de mediação admissível no texto, (CAMBRAIA,
2005)
Neste estudo, optou-se pela edição fac-similar do livro impresso,
integralmente, já que não apresenta dificuldade de leitura. Juntamente com a
edição fac-similar do livro, fez-se a edição semidiplomática e fac-similar
justalinear de nove manuscritos datados do final do séc. XIX, encontrados no
Arquivo Público de Mato Grosso e no Instituto Histórico e Geográfico de Mato
Grosso. Tais documentos foram transcritos e analisados sob a ótica da
Paleografia. Sua transcrição seguiu as normas acordadas no encontro de
Paleografia de Campos de Jordão no ano de 1998.
Aborda-se também a Paleografia, ciência que auxilia o Filólogo em seus
estudos.
Segundo
Spina
(1977),
a
palavra
Paleografia
vem
do
grego
palaios=antigo e graphien=escrita. É “o estudo das antigas escritas e evolução
dos tipos caligráficos em documentos, isto é, em material perecível (papiro,
pergaminho, papel)”, (SPINA, 1977, p. 24).
“A paleografia pode ser definida, de uma forma bastante básica, como o
estudo das escritas antigas.” (CAMBRAIA, 2005, p. 23). Para o autor, a
relevância da Paleografia para o crítico textual é bastante evidente. Para se
fixar a forma genuína de um texto, é necessário ser capaz de decodificar a
escrita em que seus testemunhos estão lavrados.
A paleografia surgiu da necessidade de analisar a autenticidade e a
veracidade dos documentos para poder julgar sobre a aceitação ou a rejeição
do seu conteúdo, surgiu no início da Idade Média, quando se organizaram
verdadeiras coletâneas de abreviaturas como os “Comentari”, espécie de
dicionário em que Sêneca reuniu cerca de 5.000 Notas Tironianas – sistema de
abreviar as palavras, criado para copiar mais rapidamente os discursos
pronunciados no Senado Romano.
As finalidades da Paleografia, segundo Ricardo Román Blanco, citado
por Dias e Bivar (1986, p.16-17) são:

Ensinar a ler corretamente e sem erros todo tipo de documento, tanto
antigo como moderno.
13

Dar a conhecer a evolução da escrita através dos tempos, das
nações e dos indivíduos.

Determinar o autor, o tempo e o lugar em que o documento foi
escrito.

Fornecer ao perito os conhecimentos indispensáveis para saber
distinguir os documentos verdadeiros e autênticos dos falsos,
deturpados, apócrifos, adulterados, etc.

Descrever as letras (forma, traçado, ângulo, módulo, peso).

Descrever os sinais braquigráficos (abreviaturas) atribuindo-lhes
significado exato e completo.

Descrever os sinais estigmológicos (ortográficos de pontuação).
A Paleografia tem por objetivo o estudo das características extrínsecas
dos documentos e livros manuscritos, para permitir a sua leitura e transcrição,
além da determinação de sua data e origem.
Este trabalho está dividido em três capítulos. Para uma melhor
compreensão, faz-se uma breve síntese de cada um deles.
No primeiro capítulo, Edições Fac-similar e Semidiplomática, realizam-se
edições dos nove manuscritos selecionados para este estudo, e do livro
“Lembranças de Mato Grosso”, de Maria do Carmo de Mello Rego, livro
impresso no Rio de Janeiro, no ano de 1897, em que a autora relata, sob sua
ótica as reminiscências de um período em que viveu em Cuiabá.
As edições fac-similar e semidiplomática dos manuscritos estão
apresentadas de forma justalinear com o intuito de facilitar a confrontação entre
uma edição e outra.
No segundo capítulo, Comentários paleográficos: Cotejo entre os
manuscritos e “Lembranças de Mato Grosso”, refere-se à transcrição e análise
dos manuscritos e ao levantamento das ocorrências paleográficas e
ortográficas presentes no corpus em análise.
No terceiro capítulo, Lembranças de Mato Grosso: Aspectos sociais e
culturais de Cuiabá, busco reconstruir, por meio de, os relatos da autora e à luz
da função transcendente da Filologia, aspectos sociais e culturais da cidade e
das pessoas com as quais Maria do Carmo conviveu numa época de grandes
transformações sócio-políticas em todo país, no final do século XIX. Ressalta-
14
se que este é o objetivo maior deste estudo, um levantamento de aspectos e
fatos históricos importantes para o desenvolvimento de Cuiabá, que foram
mencionados no livro de Maria do Carmo.
É preciso lembrar que esta pesquisa está vinculada aos projetos:
“Estudo do Português em manuscritos produzidos em Mato Grosso a partir do
século XVIII”, MeEL/UFMT;
“História e variedade do português paulista às
margens do Anhembi” e “Edição de textos literários e não literários em língua
portuguesa” – FFLCH/USP.
15
CAPÍTULO 1
EDIÇÕES FAC-SIMILAR E SEMIDIPLOMÁTICA
Editar um texto consiste em reproduzi-lo lançando-se mão de variados
graus de mediação. Neste trabalho, optou-se pela edição fac-similar ou fotomecânica, entendida como a “fotografia do texto”, que reproduz com muita
fidelidade as características do texto original, e pela semidiplomática, que,
segundo Spina (1994, p. 85), “representa um tentativa de melhoramento do
texto, com a divisão das palavras, o desdobramento das abreviaturas”,
constituindo-se assim em “uma forma de interpretação do original, pois elimina
as dificuldades de natureza paleográfica suscitadas pela escritura.”
Trata-se, neste capítulo, da edição fac-similar dos nove manuscritos
pertencentes ao APMT2 e ao IHGMT3, que foram selecionados para este
estudo, bem como a transcrição e análise dos mesmos, juntamente com a
edição fac-similar do livro “Lembranças de Mato Grosso”, visto que esses
manuscritos servem para cotejar aspectos ortográficos presentes no livro e
corroborar as ocorrências ortográficas presentes no material impresso em
comparação com os manuscritos. Aborda-se igualmente, a Codicologia, ciência
que auxilia a Filologia, explicando de maneira sucinta seu conceito e
finalidades. .
1.1 VANTAGENS DO MANUSCRITO PARA UM ESTUDO FILOLÓGICO
Para um filólogo, o estudo com manuscritos é mais desafiador, pois
requer do pesquisador, análise minuciosa dos vários elementos que compõem
um texto, como o traçado das letras (ductus, inclinação, tamanho), possibilita
também a averiguação do peso e da cor da tinta, manchas no papel, o tipo de
letra utilizada que pode indicar o período em que o texto foi escrito, quando
este não for datado. Segundo Cambraia (2005, p. 64 - 66), deve-se levar em
2
3
APMT – Arquivo Público de Mato Grosso
IHGMT – Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso
16
conta a natureza do processo de registro dos textos, os testemunhos são
tradicionalmente classificados em manuscritos e impressos.
Os manuscritos podem aparecer em folhas avulsas ou se apresentar na
forma de um conjunto organizado e unido de folhas, ao qual se pode chamar
de livro, lembrando sempre que um manuscrito constitui um dos tipos de
registro da escrita. O manuscrito é mais rico em detalhes, requer uma análise
minuciosa, as características que enriquecem o manuscrito podem se perder
em um impresso, entretanto, algumas ocorrências ortográficas ainda podem
ser analisadas em um impresso, como a duplicação de consoantes, a
acentuação e a pontuação.
1.2 CRITÉRIOS ADOTADOS PARA A EDIÇÃO SEMIDIPLOMÁTICA
Com o intuito de unificar os critérios de transcrição e edição de
manuscritos, a Comissão de Sistematização e Redação do I Encontro Nacional
de Normatização Paleográfica fixada em novembro de 1990, diretrizes e
convenções, revistas durante o II Encontro Nacional de Normatização
Paleográfica, em 1993, e reformuladas por ocasião do II Seminário para a
História do Português Brasileiro, realizado no período de 10 a 15 de maio
de1998, em Campos do Jordão – São Paulo, (BERWANGER & LEAL, 2008,
pág. 99-104)
Assim, a edição semidiplomática dos referidos manuscritos, adota os
seguintes critérios:
1. Os manuscritos e as transcrições serão numerados;
2. As linhas serão numeradas de cinco em cinco;
3. Serão mantidas a acentuação, a pontuação, as letras maiúscula e
minúscula e a ortografia, tal qual como se apresentam nos originais;
4. As abreviaturas serão desdobradas e as letras omitidas serão marcadas
em itálico;
5. As assinaturas serão indicadas por diples;
6. Os caracteres impressos serão registrados entre chaves;
7. O “s”
caudado será transcrito como “s” minúsculo.
17
8. Os termos que não forem decodificados serão marcados entre colchetes
com ponto de interrogação.
9. Intervenção de terceiros será marcada entre dois colchetes.
18
1.3 MANUSCRITOS
Ms 1- FÓLIO 1r
19
Transcrição 01 – 1r
Identificação: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – Cx 01 nº 3
Assunto
Memorial da Igreja N.S. do Bom Despacho referente à construção de
um prédio para internato para meninas.
Local e data
Cuiabá – 1º de março de 1887
Assinatura
Apógrafo
(Diversos inventarios)
Memorial
A Igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho, que presentemente pertence ao Seminario Episcopal da Conceição, era
5 uma Igreja publica, antiga e filial á Matriz da
Freguesia do Senhor Bom Jesus de Cuyabá.
Tendo o fallecido Senhor Bispo Dom José Antonio dos
Reis, Antecessor do actual Senhor Bispo Diocesano,
de construir o edificio do referido Seminario na in10 tenção de estabelecer nelle um internato, e desejando
aproveitar-se da dita Igreja para Capella desse Estabelecimento, tratou de construil-o em 1858 no logar onde elle se acha, com porta interior que dá para a mesma Igreja Mas, não tendo levado a effeito o estabele15 cimento do internato, por não ter podido concluir o
edificio e por falta de recursos; para que a mencionada Igreja tivesse quem a zelasse, instituio em
1872 uma associação de Senhoras com a denominação de Confraria ou Congregação das Servas Devo20 tas de Nossa Senhora do Bom - Despacho, cujo fim
principal é promover o culto e devoção da Santissima Virgem
Senhora do Bom - Despacho, e zelar da supra dita Igreja.
Esta congregação está sob a imediata protecção do
Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo Diocesano, e rege-se por um
25 Estatuto comprehendido em um só capitulo e quartorze artigos.
Dentre as servas devotas o Excellentissimo e Reverendissimo Senhor Bispo
Diocesano escolhe uma e nomea Priora da mesma Congregação, nomeação que dura trez annos,
30 sendo porem obrigado a Priora pelo Estatuto a submetter
annualmente ao exame e approvação do Excellentissimo e Reverendissimo
Senhor Bispo Diocesano os livros de receita e despeza da
Congregação
Desde que se acha erecta esta Congregação, tem ella
35 se esforçado para bem preencher o fim á que é desti-
20
Ms 1 FÓLIO 1v
21
Ts 1 fólio 1v
nada e de que trata o seu Estatuto, realizando algumas obras
ou reparos na mesma Igreja, para auxiliar os quais promoveu subscrições entre os fieis.
Estabelecido que seja o projectado internato sob a di40 recção dos Reverendos Padres da Missão, e instituida a casa
de educação de meninas sob a direcção das Irmãs de
caridade, o Estatuto por que se rege esta Congregação
poderá ser augmentado, deminuido ou modificado pelo
Excellentissimo e Reverendissimo Senhor BispoDiocesano, e estas Senhoras po45 derão formar ainda uma associação de Senhoras de Caridade, como a que existe na Bahia, na Casa da Providencia, com o fim, de auxiliar as Irmãs nas suas
obras de caridade e na manutenção da mesma casa de
educação de meninas. Cuyabá 1º de Março de 1887.
22
Ms2 – FÓLIO 1r
23
Transcrição 02 – 1r
Identificação: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – Pasta 162 nº 1281 Caixa 40
Assunto
Portaria do Bispo de Cuiabá, sobre um crucifixo doado à Capela de N. Senhora
das Dores, no 2º distrito de Cuiabá.
Local e data
Cuiabá MT – 13 de outubro de 1887
Assinatura
autógrafo
50 Portaria.
O Senhor Manoel de Nascimento Ferreira Mendes, depositario das alfaias e mais objectos pertencentes á Cathedral desta Dioce55 se entregue ao Reverendissimo Conego
Antonio Henrique de Carvalho
Ferro, Parocho da Freguezia de São
Gonçalo desta Capital, um dos Crucifixos disponiveis da mesma Ca60 thedral, para ser collocado no Altar da Capella do Cemiterio de Nossa
Senhora das Dores, da referida Freguezia, E alli ficará o dito Crucifixo, com seu resplendor e le65 treiro de prata, por tempo indeterminado e como pertencendo á
mesma Cappella. Residencia
Episcopal da Cuyabá 13 de Outubro de 1887.
70 < +Carlos, Bispo de Cuyabá >
24
Ms 3 – FÓLIO 1r
25
Transcrição 03 – 1r
Identificação: Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso – Pasta 103 nº 394
Assunto
Requerimento de João da Costa Teixeira para o vice-presidente da província,
discorrendo sobre a medição e demarcação do rocio de Cuiabá.
Local e data
Cuiabá - 14 de setembro de 1887
Assinatura
Autógrafo
[[ Illustrissimo Excellentissimo Senhor Doutor Vice Presidente da Provincia
Aceite-se a doação e passa-se a respectiva escriptura. _ Palacio da Presidencia
de Matto Grosso em Cuyabá, 19 de Setembro de 1887
Ramos Ferreira ]]
75 Numero 419
Dizem o Capitão João Baptista de Almeida, sua mulher Dona Maria Felismina de Almeida e Dona Maria Magdalena de França, noiva do Capitão Antonio Peixoto
de Souza, fazendeiros e domiciliados na Villa do Rosa80 rio, que, constando-lhes ter Vossa Excellencia em virtude da Lei
provincial, ordenado á Camara Municipal da mesma Villa, que mandasse medir e demarcar o rocio
municipal respectivo, e sendo certo e por ter sabido que, a referida Villa não possui rocio algum
85 por ser ella situada em Sesmarias medidas e demarcadas, pertencentes aos Supplicantes por titulos
ligitimos, mas dezejando os Supplicantes, não só
que a Villa do Rosario tenha rocio próprio para commodidade dos seus habitantes , como ain90 da e principalmente concorrerem por sua parte
e n‟aquillo que estiver a seu alcance para
que a administração da Vossa Excellencia seja proficua
derrame aos seus administrados grande somma de beneficios; vem, por seu procurador a95 baixo assignado, offerecer á Vossa c como doação
feita a esta Provincia e para servir de rocio a
Villa de Nossa Senhora do Rozario, a arêa de terras contendo um quarto de legoa em quadra, com
2,722.500 metros quadrados, tendo por centro o
100 cruzeiro da Igreja Matriz da sobrre dita Villa.
O alludido procurador dos supplicantes , firmará a escriptura da doação desta, tão logo Vossa Excellencia
26
Ms 03 – FÓLIO 1v
27
Ts 3 fólio 1v
determine, havendo acceitada a mesma doação
cujo valor será regulado na razão de meio re105 al por braça quadrada, preço minimo por que
são vendidas as terras de Estado.
Nestes termos:
Pedem a Vossa Excellencia deferimento
Esperamos Receber Merce
110 Com procuração dos Supplicantes e respectivas Cartas de Ordem.
Cuiabá , 14 de Setembro de 1887
O procurador,
<Joaõ da Costa Teixeira>
28
Ms 04 – FÓLIO 1r
29
Transcrição 04 – 1r
Identificação: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso – Lata B – ano 1887 - documentos
avulsos
Assunto
Oficio de convocação para sessão ordinária de júri.
Local e data
Cuiabá – 26 de julho de 1887
Assinatura
Autógrafo
115 Juizo de Direito da Comarca
De Corumbá, 26 de julho de 1887
[[ Accuse o recebimento ]]
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor
Cumpro o dever de participar a Vossa Excellencia
120 que havendo sido convocada para o dia
23 do corrente a 2ª sessão ordinaria do
Jury, e como não tivesse lugar, por falta
de numero legal de jurados, adiei á mesma para o dia 25 do dito mez, sendo125 n‟esse dia julgado o unico processo que
fôra apresentado noTribunal pelo 1º
supplente do Juiz Municipal, entre partes,
autora a Justiça publica e réo o portuguez
Joaquim Valente (auzente), accusado de
130 ter attentado contra o pudor da menor
Maria de Jesus, de 9 annos de idade, filha
da paraguaya Maria Rita, moradora
do Ladario; foi absolvido, encerrandose em seguida a 2ª sessão ordinaria do
135 Jury n‟esta Comarca.
Deus Guarde a Vossa Excellencia
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Doutor José Joaquim Ramos Ferreira,
Muito Digno 1º Vice-Presidente da Provincia.
O Juiz de Direito Interino
140 < Luiz da Costa Ribeiro>
30
Ms 5 – FÓLIO 1r
31
Transcrição 05 – 1r
Identificação: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso – Caixa A – ano 1887- documentos
avulsos
Assunto
Oficio à Thesouraria da fazenda para informar ordem de despacho
Local e data
Cuiabá - 3 de dezembro de 1887
Assinatura
Autógrafo
Numero 125 {Thesouraria de Fazenda de Matto Grosso }
{ Cuyabá } em 3 {de} Dezembro {de 188}7
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor
Em solução ao despacho exarado no incluso officio
145 do Coronel Director de obras militares, datado de 23
do mes proximo findo, versando sobre não ter apresentado concurrente algum para a execução das
obras de reconstrucção da cavalhariça do quartel
do piquete de cavallaria, tenho a honra de apre150 zentar a Vossa Excellencia a informação junta prestada pela
Contadoria d‟esta Repartição, com a qual me
confórmo.
Deus Guarde a Vossa Excellencia
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Coronel Doutor Francisco Raphael de
155 Mello Rego,
Presidente d‟esta Provincia.
O Inspetor,
<Manoel Kosciuzko Pereira daSilva >
32
Ms 6 – FÓLIO 1r
33
Transcrição 06 – 1r
Identificação: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso – Caixa A – ano 1887- documentos
avulsos
Assunto
Ofício comunicando pagamento de despesas
Local e data
Cuiabá – 5 de dezembro de 1887
Assinatura
Autógrafo
Numero 127 { Thesouraria de Fazenda de Matto Grosso}
160 { Cuyabá,em } 5 {de} Dezembro {de 188}7
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor
Restituindo á VossaExcellencia o officio do Coronel
Director das Obras militares, de 23 de Novembro
findo, acompanhado de uma conta na im165 portancia de R1750,750 , proveniente de
reparos feitos no telhado do deposito de artigos
bellicos em Corumbá, tenho a honra de informar
a VossaExcellencia, em cumprimento ao despacho proferido no citado officio que, confórme disse em
170 meu officio numero 126 d‟esta data, effectuando-se do
saldo de1690$090 reis existente é verba “Obras militares”,
e pagamento da segunda e ultima prestação de 1,500$000
,
pela execução das obras de um compartimento para servir
de cosinha do 8ª batalhão de infantaria, resulta a importancia
175 de 90$090 reis, e por isso entendo que não póde ser paga
aquella conta de 175450 reis.
Deos Guarde a VossaExcellencia
Illustrissimo e Excellentissimo Senhor Coronel Doutor Francisco Raphael de Mello Rego,
Dignissimo Presidente d‟esta Provincia.
180 O Inspetor,
< Manoel Kosciuzko Pereira daSilva >
34
Ms 7 – FÓLIO 1r
35
Transcrição 07 – 1r
Identificação: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso – Caixa C – ano 1887- documentos
avulsos
Assunto
Carta de aviso
Local e data
Cuiabá – 1 de março de 1887
Assinatura
Autógrafo
Numero 8 { Palacio da Presidencia da província de Matto - Grosso}
{ Em Cuyabá} 1º {de} Março {de 188}7
{ 2ª Secção }
185 Illustrissimo e Excellentissimo Senhor
Communico a Vossa Excellencia, para seu conhecimento, que
acabo de transmittir ao Ministerio da Justiça
o relatorio dos actos d‟este Tribunal occoridos
durante o anno passado, o qual, para este fim,
200 acompanhou o seu officio datado de 26 do mez hontem findo.
Deus Guarde a VossaExcellencia
< Alvaro Rodovaldo Marcondes dos Reys.>
Senhor Desembargador Presidente Interino da
205 Relação do districto.
36
Ms 8 – FÓLIO 1r
37
Transcrição 08 – 1r
Identificação: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso – Lata B– ano 1887- documentos
avulsos
Assunto
Oficio de Inspeção
Local e data
Cuiabá – 24 de novembro de 1887
Assinatura
Autógrafo
{ Inspecção do Arsenal de Marinha de Mato Grosso}
Numero 122
{ Ladario} , 24 {de} Novembro {de 18}87
102
210 Ao Illustrissimo e Excellentisimo Senhor Coronel Francisco Raphael de Mello Rego, Presidente desta provincia.
Accuso a recepção do officio nº 71 de
16 do corrente, em que Vossa Excellencia se dignou
communicar a esta Inspectoria
215 haver n‟aquella data prestado juramento e assumido a administracção desta provincia.
Deos Guarde a VossaExcellencia
O Cappitam de Fragata Inspector
220 < Felipe Rolando Phantz >
38
Ms 9 – FÓLIO 1r
39
Transcrição 09 – 1r
Identificação: Arquivo Público do Estado de Mato Grosso – Lata B– ano 1887- documentos
avulsos
Assunto
Recibo de pagamento
Local e data
Livramento – 31 de janeiro de 1887
Assinatura
Autógrafo
Recebi do Collector Provincial Senhor Antonio Quirino da Costa a quantia de 33$333.
vincida n‟este mez de Ianeiro, como Vigario Incommendado da Freguezia do Livramento;
a saber 25$000como congrua, e 8$000 como guizamento de Igreja. Em fé declaroLivramento dia 31 de Ianeiro do anno mil oitocento oitenta e oito
225 < Vigario 1º Luiz Scafaro>
40
1.4 CODICOLOGIA
1.4.1 CONCEITO
É a ciência que estuda a técnica do manuscrito, antigo campo de estudo
da Paleografia e da Diplomática. Diz respeito ao conhecimento do material
empregado na produção do manuscrito e das condições materiais em que esse
trabalho se verificou ( SPINA, 1977, p. 22).
É a disciplina que estuda os manuscritos, os códices, no seu aspecto
material: qual é o suporte empregado, as dimensões do objeto, a sua
formação, o seu conteúdo, a(s) mão(s) que transcrevera(m) o(s) texto(s), a sua
datação. (SPAGGIARI & PERUGI, 2004, p. 15-16).
A Codicologia ocupa-se de elementos do códice ou livro manuscrito ou
impresso antigo, a fim de realizar, a partir da observação, uma descrição e
interpretação de questões referentes ao suporte, tinta, letra, organização dos
cadernos, paginação, cosedura, encadernação, dentre outros. ( DIAS, 2005, p.
02).
1.4.2 OBJETO E FINALIDADE DE ESTUDO DA CODICOLOGIA
A Codicologia tem por finalidade o estudo do livro manuscrito ou
impresso. Conhecer o quadro teórico da ciência codicológica e atender à
finalidade essencial do estudo do códice, que é situá-lo de modo a entender a
transmissão do texto e a sua funcionalidade de leitura, fixando a atenção
particularmente em constituir instrumentos de recuperação do livro e dos
fundos de manuscritos.
Os livros manuscritos apresentavam-se historicamente em duas formas
principais: o “volume” e o “códice”. Segundo Cambraia, (2005, p. 64-66), um
filólogo profissional deve se esforçar para identificar, em um manuscrito de
textos mesclados, as partes distintas que constituíam primitivamente um
mesmo modelo.
Um segundo tipo de reprodução de registro de um texto é o impresso.
Para esse tipo de registro, costuma-se, tradicionalmente, utilizar o termo edição
para nomear o conjunto de impressos obtidos através de sistema de
41
reprodução mecânica (geralmente em série). A cada um dos impressos
produzidos dá-se o nome de “exemplar”. Para a crítica textual, é capital
diferenciar quando dois exemplares impressos pertencem a uma mesma
edição ou a edições diferentes, pois durante a impressão ou a reedição de um
texto, este, assim como acontecia com os manuscritos, pode sofrer alguma
alteração do original, e o filólogo deve estar atento a esses detalhes, uma vez
que é sua função tornar um texto manuscrito ou impresso o mais fidedigno
possível da última vontade de seu autor.
Segundo Cambraia (2005, p.27-28), a Codicologia é de grande
relevância para o crítico textual, pois fornece informações que permitem
compreender porque os textos se modificam no processo de sua transmissão
e, também, como orientação para a descrição dos códices.
Como neste estudo trabalhou-se a partir de um livro impresso é preciso
que se faça uma breve apresentação histórica de seu surgimento. Com a
invenção do papel, e posteriormente da imprensa, atribuída a Gutemberg,
começam a surgir os incunábulos, sendo que a maioria deles era de origem
cristã. Incunábulos – do latim incunabulu, “berço” –: eram livros publicados
antes de 1500.
Estes impressos do final da Idade Média tornaram os conhecimentos
mais acessíveis. Assim como o códice é um antepassado do livro, o incunábulo
é um antecessor do livro impresso.
De acordo com Martins (2001, p. 282), os caracteres dos primeiros livros
impressos buscavam imitar a letra manuscrita. Entretanto, os leitores preferiam
os livros impressos por serem mais legíveis. As possíveis explicações para que
os impressos imitassem os manuscritos, primeiramente, seriam para enganar o
comprador que receava a nova invenção; depois com o intuito de evitar as
queixas dos copistas, entretanto, essas explicações são pouco sustentáveis. O
que se acredita é que na verdade os manuscritos serviram mesmo
simplesmente de modelo para a impressão.
Nos primeiros tempos, não havia a concepção de margens para a escrita
tão definida como atualmente. Hoje se trabalha com o contraste do preto no
42
branco, isto é, estudam-se as melhores medidas para a mancha4 com a
finalidade de proporcionar uma melhor fluência da leitura.
O formato do livro baseia-se na altura e largura da folha impressa após
haver sido dobrada em forma de cadernos. Os formatos e as composições dos
cadernos ou fascículos podem ser reconhecidos pelas assinaturas (MARTINS,
2001, p. 284).
Cambraia (2008, p. 29) cita como um campo análogo ao da Codicologia a
“bibliografia material”, que consiste no estudo da técnica do livro impresso.
Ainda segundo o autor, embora o estudo sobre impressos não seja tão recente,
data de pouco a constituição de uma abordagem desse tema relacionado aos
problemas de transmissão dos textos.
O livro “Lembranças de Mato Grosso”, publicado no ano de 1897, na
cidade do Rio de Janeiro, possui 79 páginas no formato de aproximadamente
18,50 x 11,50 cm. O livro ou livreto, chamado assim por ser de tamanho
pequeno, é dividido em cadernos, cada um com oito
fólios (dezesseis
páginas), estes estão marcados por números, do “1 ao 5” em fonte menor, logo
abaixo do corpo do texto, que segundo Spina, serviam para indicar a sequência
de cada narrativa. No livro “Lembranças de Mato Grosso”, a autora relata
algumas experiências vivenciadas no período em que morou em Cuiabá, são
crônicas, algumas cartas, enviadas ao seu amigo o Visconde de Taunay que a
aconselhou a publicar, surgindo assim o livro.
Para uma melhor compreensão, faz-se a seguir a edição fac-similar do
livro “Lembranças de Mato Grosso”, em sua íntegra.
4
Segundo Acioli (1994), mancha é a parte do manuscrito ocupada pela escrito, ou seja, é o corpo do
texto.
43
1.4.3 FAC-SÍMILE DO LVIRO “LEMBRANÇAS DE MATO GROSSO”
CAPA
44
DORSO
45
CONTRA CAPA
46
FOLHA DE ROSTA
47
DEDICATÓRIA
48
MIOLO
49
50
51
52
53
54
55
56
57
58
59
60
61
62
63
64
65
66
67
68
69
70
71
72
73
74
75
76
77
78
79
80
81
82
83
84
85
86
87
88
89
90
91
92
93
94
95
96
97
98
99
100
101
102
103
104
105
106
107
108
109
110
111
112
113
114
115
116
117
118
119
120
121
122
123
124
125
126
127
128
129
CONTRA CAPA FINAL
130
CAPITULO 2
COMENTÁRIOS PALEOGRÁFICOS:
COTEJO ENTRE OS MANUSCRITOS E “LEMBRANÇAS DE MATO
GROSSO”
Trata-se esta parte do trabalho de analisar, à luz da paleografia, os
manuscritos anteriormente transcritos. Optou-se por trabalhar com nove
manuscritos, sendo três pertencentes ao Instituto Histórico e Geográfico de
Mato Grosso, e seis pertencentes ao Arquivo Público do Estado de Mato
Grosso, pois o interesse maior desta pesquisa é a análise dos aspectos
sociais, históricos e culturais de Cuiabá no final do século XIX. A escolha
desses manuscritos para verificar as ocorrências ortográficas típicas à época
da publicação do livro serve para a constatação da maneira de se escrever
naquele período, qual seja, era a escrita em sua norma padrão. Ressalta-se
que
os
mesmos
foram
escritos
por
juízes,
padres,
escrivães,
desembargadores, inspetores da fazenda da província, provavelmente,
pessoas que detinham certo grau de letramento. A título de exemplo, mostramse os manuscritos cinco e seis, cujo autor é o Presidente da Província, o
senhor coronel Raphael de Mello Rego, esposo de Maria do Carmo. Mesmo
esses manuscritos serem oficias, eles apresentam as características da escrita
padrão à época, sendo que o mesmo acontece com os demais manuscritos do
corpus em análise.
2.1 ANÁLISE PALEOGRÁFICA
O Ms1 é constituído de 49 linhas, divididas em três grandes parágrafos.

O escriba apresenta regularidade de escrita, com o traçado levemente
inclinado para a direita.

As letras apresentam homogeneidade em seu tamanho e peso do
material utilizado para escrever.
131

É respeitada a fronteira entre palavras e apresenta muitas abreviaturas,
fato comum para a época.

O texto apresenta vocábulos com duplicação de consoantes, como em:
nelle (10)5; capella (11); effeito (14); annos (29); annualmente (31).
Assim como no Ms1, o Livro “Lembranças de Mato Grosso” também
apresenta estas mesmas ocorrências em várias passagens, como por
exemplo, a palavra anno (3), nelle (21, capella (22), effeito (44), escrita
exatamente como nos manuscritos, embora o material utilizado para
escrever tenha sido diferente. No manuscrito usou-se caneta tinteiro e o
livro apresenta caracteres tipográficos.

O tipo de letra apresentado é a humanística, com tipo de letra cursiva,
no âmbito da palavra, sem descanso das mãos. Esse tipo de escrita de
acordo com Higounet (2008, p. 143-145), foi criada por Niccolò Niccoli,
cujos primeiros manuscritos datam de 1423. É uma escrita erudita,
refeita a partir do modelo da escrita carolíngia, sendo caracterizada
como “[...] suave, traçada com penas pontudas, fortemente inclinadas
para a direita, com todas as letras de uma mesma palavra unidas.”

Caracteriza-se pela suavidade, pela inclinação para a direita, com todas
as letras de uma mesma palavra unidas.

O texto apresenta também o uso da letra „d‟ estilo gótico, que tem uma
forma redonda e a haste arqueada conforme diz Higounet (2008, p,
141), nas palavras: instituída (40); modificado (43); caridade (46).

O manuscrito é datado, porém, não apresenta assinatura, o que o
caracteriza como um texto apógrafo percebe-se isso, pelas ocorrências
que aparecem entre linhas, no referido manuscrito.
5
Leia-se (10) como “linha nº 10”, nos manuscritos, e “página 10” no livro.
132
O Ms 2 apresenta 21 linhas, escritas em um único parágrafo, é datado,
assinado, ou seja, é um texto autógrafo, o ductus é uniforme, o escriba respeita
as linhas e as margens.

A duplicação de consoantes aparece nas seguintes palavras: collocado
(60); capella (61 – 67); alli (63). No livro a palavra capella (22); nelle (21)
reiteram essas ocorrências.

A letra é humanística, cursiva, sem descanso das mãos, leve inclinação
para a direita, com pouca presença de abreviaturas.
O Ms 3 apresenta 44 linhas em um único parágrafo, o escriba apresenta
regularidade em sua escrita, embora o ductus não seja uniforme. Em algumas
passagens do texto o peso da tinta aparece mais forte que em outras, por isso,
o texto apresenta algumas rasuras.

A duplicação das consoantes nesse manuscrito aparece nas seguintes
palavras:
villa
(79-82-88...);
ella
(85);
supplicantes
commodidade (89); offerecer (95); alludido (101);
(.86-87);
133

Percebe-se a presença do „s‟
caudado na palavra Nossa (97).
Embora a escrita não seja regular, o escriba respeita a fronteira entre
palavras e faz uso de poucas abreviaturas. O manuscrito é assinado e
datado.
O Ms 4 está constituído de 26 linhas, com parágrafo único, apresenta
irregularidades no traçado das letras, ductus, há o respeito pela fronteira de
palavras e das margens.

A duplicação de consoantes é verificada nas seguintes palavras:
supplente

(127);
accusado
(129);
attentado
(130)
Observa-se nesse manuscrito o uso da letra „y‟ em substituição ao „i‟
como em jury (122-135).

A letra é humanística cursiva, traçada no âmbito da palavra, em sua
maioria sem descanso das mãos.

O manuscrito apresenta intervenção de terceiros logo no início da
página, quando aparecem as palavras < Accuse o recebimento> (117).

Os pronomes de tratamento aparecem abreviados.
O Ms 5 é composto de 18 linhas, sendo que o corpo do texto aparece em
um único parágrafo.

O referido manuscrito foi produzido em papel pautado, o que facilita o
traçado das letras.

O escriba mantém uma regularidade em sua escrita, faz uso das
abreviaturas, o texto é assinado e datado. Há respeito às margens e à
fronteira de palavras.
134

A duplicação de consoantes, assim como o uso de encontros
consonantais, por influência do período ortográfico etimológico ou
pseudo-etimológico, era a tônica da grafia.

Apresenta a duplicação de consoantes nos seguintes vocábulos: officio
(144); cavallaria (149);

O texto apresenta marcas de oralidade na escrita, no seguinte exemplo:
concurrente (147);

O escriba faz uso das abreviaturas nos pronomes de tratamento.
O Ms 6 foi produzido em papel oficial do governo e apresenta caracteres
impressos. É constituído de 23 linhas em um único parágrafo.

O traçado das letras é feito com leve inclinação para a direita,
provavelmente utilizou-se material de escrita leve, pois o texto não
apresenta traços fortes de tinta.

Aparecem as seguintes ocorrências de duplicação de consoantes: officio
(162-160-170); bellicos (167); effectuando-se (170); aquella (176).

O escriba respeitou as fronteiras de palavras, as margens, há algumas
abreviações, e o texto é datado e assinado.
O Ms 7 é composto de 14 linhas, portanto, um texto pequeno, com
caracteres impressos no alto da folha.

Respeita-se as fronteiras entre palavras, as margens, o traçado é leve,
com inclinação para a direita, como o texto foi produzido em papel
pautado, isso pode ter facilitado o trabalho do escriba.

As duplicações de consoantes são as seguintes: Communico (186);
transmittir (187); occorridos (188); anno (189); officio (200).
135
O Ms 8 é constituído de 15 linhas, numa escrita homogênea , com traçado
regular e leve inclinação para a direita.

O escriba faz uso das abreviaturas nos pronomes de tratamento, o texto
foi produzido em papel com pauta, é datado e assinado.

As ocorrências das duplicações de consoantes são as seguintes: Mello
(211); Accuso (212); officio (212); communicar (214); n‟aquella (215).
O Ms 9 apresenta letra humanística, tipo cursiva, sem descanso das mãos, é
uniforme em seu traçado e peso da tinta.

O texto é composto de poucas linhas, 05, num único parágrafo. É
assinado, datado e mostra o local onde foi produzido.

Apresenta em sua escrita o uso do „d‟ gótico, e do „s‟ caudado, em Costa
(221); n‟este (222); mes (222), encommendado (222), da (221-222); do
(224).

Ocorrem as duplicações de consoantes nos seguintes casos: collector
(221); Encommendado (222); anno (224).

Segundo Higounet (2003, p.105), há em Ianeiro (224) a presença de
letra ramista, assim denominada em homenagem a Pierre La Ramée,
dito em latim Petrus Ramus, que editou sua gramática em 1558, quando
uniformizou o uso do „u‟ e „v‟, do „i‟ e do „j‟. O „v‟ e „j‟ passaram a
136
representar as consoantes, e o „i‟ e o „u‟ as vogais e semivogais.
Nesses manuscritos transcritos e analisados à luz da paleografia,
verificada a ocorrência de duplicação de consoantes constata-se, então, que o
livro em análise apresenta a mesma ocorrência.
No livro “Lembranças de Mato Grosso”, escrito no final do século XIX,
aparecem essas características ortográficas, como se pode verificar nas
seguintes palavras:
1. No livro, palavras escritas com ll: d‟elle,(02)6; Portella,(02); aquella, (03);
fallou,(06); della,(12);
bellezas, (13); crystallinas, (p. 16); falleceu, (20);
estrella, (43); gallinhas, (45); panellinha, (47); collocado, (12); novello, (57);
illuminando, (65); alliança, pallidamente, (37); illustrado, (07); callejada, (13);
capella, (22); collina, (29).; pelles, (41); N‟aquelles, (40).
No Ms 1, aparecem fallecido (10); nelle (10); capella (11);
2. No livro, palavras escritas com tt: matto, (01,04); gottas, attrahente, (06,
attençaõ, (09); pittoresco, (16); commetteram, metter-se, (40); attestar, (42);
mattas,
matto,
gottas,
(06);
commando,
(21);
attrahiu-me,
(21).
No Ms 01 temos, submetter (linha 30);
3. No livro palavras escritas com mm: recommendação, (01); commoda,
(01);
commovidos (09); immensa, (22,68);
imminente, commercio, (30);
descomunaes, commigo, (39); incommodativo, (11); commeteram, (24);
commando, (21); commenta, (p. 36).
4. No livro, palavras escritas com nn: annunciar, (02,38); annos, (02,16);
pennas, (20, 74); anniversario, (32); panno, (40); innocentes, (70).
No Ms 01 têm-se annos (29); annualmente (31)
5. No livro, palavras escritas com ff: affeiçoados, (02); affectos, offereceu,
6
Leia-se como página 2 do livro “Lembranças de Mato Grosso” de Maria do Carmo de Mello Rego.
137
(06, 13); difficil, (p20);
soffrimento, (24);
offerece, (30); difficuldade, (30);
sufficientes, (32); affrontar, (56); effeite, (34); offertas, (45); soffrega, (13);
difficuldade, soffrer, (70).
No Ms 1 aparece effeito (14);
6. No livro, palavras escritas com pp: appelidava, (05); approximarmo-nos,
(07); opposta, (12,30); desappareceu, (24); suppor, (58); oppressão, supplício,
(44); insupportavel, (44); appareceu, (74); supponho, (35).
No Ms 01 temos approvaçaõ (31).
7. No livro, palavras escritas com cc: successo, (08); occultára, (09);
accidentado, (16); acceitei, accesas, (28); occasião, (32,40); accôrdo,
saccal-os, (47); seccar, (58); bocca, (58); seccura, (65); soccorrida, (66);
succumbir, occultar, (42).
No Ms 4 temos a palavra accuse (intervenção de terceiros).
8. No livro, palavras escritas com gg: aggressão, (44); aggregadas, (45).
Outras
características
ortográficas
encontradas
no
livro
e
nos
manuscritos.
A história da ortografia da língua portuguesa divide-se em três fases,
como aponta Melo (1981, p. 161 a 164):
Fonética, que vai desde o século XIII, até o século XVI. Nessa fase, a
“língua era escrita para o ouvido”, conforme afirma Coutinho (2005, p. 71). Não
havia um padrão uniforme na transcrição das palavras.
Há marcas de oralidade em:
A segunda fase denomina-se pseudo-etimológica, que se estende do
século XVI até 1904.
A terceira fase da escrita ficou denominada como “simplificada”.
A segunda fase denomina-se pseudo-etimológica, que se estende do
século XVI até 1904. Essa fase, como afirma Melo (1981, p. 163), “inicia-se
com o Renascimento e, portanto, com a intensificação da influência latinoclássica.” Surgiram então nos hábitos gráficos letras dobradas, o latinismo que
138
consistia em adotar grafia etimológica para tornar à forma escrita dos
vocábulos latinos, como diz Teyssier (1990, p. 68- 69), e os digramas gregos
rh, th, ph e ch com valor de k. Observam-se essas ocorrências no corpus em
estudo:
A terceira fase da escrita ficou denominada como “simplificada”, que
resolveu parte dos problemas relacionados à escrita, isso ocorreu em 1904,
com a publicação da obra “ Ortografia Nacional” de Gonçalves Viana, que entre
outras coisas defendia:
1. Proscrição absoluta e incondicional de todos os símbolos de
etimologia grega, th, ph, ch (=k), rh e y.
2. Redução das consoantes dobradas a singelas, com exceção de rr e
ss mediais, que têm valores peculiares.
3. Eliminação de consoantes nulas, quando não influam na pronúncia da
vogal que as preceda.
4. Regularização da acentuação gráfica.
139
Ainda acerca de algumas características ortográficas próprias à época
em análise neste trabalho, percebe-se a presença de:

ae, aes, ao, eo, como ditongos em lugar de ai, ais, ua, eu e ai

Observa-se a presença de formas verbais com pronomes enclíticos
grafados diferentemente da grafia atual:

O h no meio das palavras aponta Coutinho (2005, p. 74) separava as
vogais em hiato, como em
Maria do Carmo, em sua narrativa, mostra claramente as diferenças no
falar do homem “culto” com o falar do índio ou do crioulo, como se percebe no
seguinte excerto, página vinte e três:
140
Quando a autora se refere ao mesmo senhor citado pelo negro, ela diz:

Percebe-se no livro analisado o uso de algumas conjunções, pronomes
e advérbios escritos de maneira diversa da escrita atual, mas muito comum no
final do século XIX, uma vez que essa era a forma padrão da escrita naquele
período.
Analisando
os
manuscritos,
pode-se
dizer
que
as
ocorrências
ortográficas presentes no livro também aconteciam nos manuscritos.
Essas são algumas das ocorrências ortográficas próprias à época em
que Maria do Carmo escreveu o livro, ocorrências verificadas também nos
manuscritos analisados pertencentes ao Arquivo Público de Mato Grosso, e ao
Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso. Os manuscritos foram
produzidos por autoridades da província, homens com boa formação cultural,
cita-se como exemplo os manuscritos produzidos pelo coronel Raphael de
Mello Rego, presidente da província de Mato Grosso, marido de Maria do
Carmo, autora do livro em análise.
141
O resultado nos mostra que a maneira de se escrever era semelhante.
Percebeu-se neste estudo que a duplicação de consoantes, por exemplo, era
algo muito comum, independentemente da região ou da forma de produção de
um determinado texto manuscrito ou impresso, uma vez que na época ainda
não havia uma normatização para a escrita, o que veio a acontecer em 1904,
com a publicação por Gonçalves Viana, da Ortografia Nacional.
Segundo Santiago-Almeida (2000, p. 181), apesar dos acordos na
busca de unificação ortográfica do português,
[...] a ausência de uma norma de fato para a escrita fez com que,
principalmente no século XVIII, se apresentasse uma grafia variável,
oscilante, emergindo ainda traços da modalidade oral, resquícios da
fase da ortografia fonética, própria do período arcaico, em que os
textos, segundo Maia (1986, p. 302), revelavam frequentes situações
de polivalência e de poligrafia.
Após 1904, com a publicação da Ortografia Nacional, por Gonçalves
Viana, foram estabelecidos dois sistemas simplificados: o português e o lusobrasileiro. Vários princípios ortográficos foram definidos, de maneira a buscarse uniformidade de escrita, por um lado, mas também, a simplificação da
ortografia, por outro.
142
CAPÍTULO 3
LEMBRANÇAS DE MATO GROSSO: ASPECTOS SÓCIO-HISTÓRICOS E
CULTURAIS DE CUIABÁ
Devido a sua posição geográfica, Cuiabá conseguiu transformar-se em um
importante e significativo entreposto comercial, cumprindo a função de núcleo
abastecedor das cidades que surgiam em seu entorno (SIQUEIRA, 2002, p.
36).
Cuiabá viveu dois momentos contrastantes desde sua fundação, um
intenso apogeu, com a descoberta das minas de ouro e a vinda de inúmeras
famílias, e outro, de decadência com o declínio da produção de ouro.
Os anos se passaram e a cidade de Cuiabá crescia e isso gerava uma
diferença nítida entre as classes sociais. Segundo Siqueira, existiam os
homens livres e os escravos. Entre a denominada classe livre, também ocorria
certa distinção, que era a elite composta pelos fazendeiros, criadores de gado,
os comerciantes e os burocratas do Estado. Logo abaixo vinha a camada
média formada pelos profissionais liberais, seguidos pelos homens “livres
pobres”, constituída de militares de baixa patente, mineiros e pequenos
agricultores (SIQUEIRA, 2002, p. 58-9).
Ainda segundo a autora, destacavam-se entre os homens livres pobres,
os soldados, oriundos de famílias de poucas posses. Muitos desses jovens
encontravam no serviço militar uma forma de manter-se, mesmo recebendo
baixos salários. Entretanto, não menos importantes para a economia da região,
embora não considerados pela sociedade, estavam os escravos formados por
negros africanos e índios domesticados, e era através do trabalho desses
homens que a elite progredia e melhorava sua condição de vida.
143
http://historiografiamatogrossense.blogspot.com/2009/05/historia-de-mato-grossoprainha.html
Mato Grosso cresceu e se destacou no âmbito nacional graças, não
somente às riquezas minerais aqui encontradas, mas também à exploração do
extrativismo vegetal. Fundamenta-se nesse quadro a empresa líder de
mercado, a Mate Laranjeira, que retirava o produto in natura e o industrializava,
tendo forte influência no meio empresarial e político.
O meio de se encontrar, caminhos mais acessíveis para o transporte das
riquezas encontradas nessas terras foi a navegação fluvial. O rio Cuiabá,
integrante da bacia do Prata, foi importante fator para o crescimento da cidade,
uma vez que permitiu o seu interrelacionamento com os centros mais
desenvolvidos do litoral brasileiro.
Esse novo nicho de habitantes trouxe uma ampliação no mercado da
capital, fazendo com que algumas famílias progredissem rapidamente no
cenário cuiabano. 0s anos passam e a cidade aos poucos vai se
desenvolvendo. Embora muito distante geograficamente das grandes cidades,
Cuiabá foi cultivando um estilo próprio de viver. O gosto dos cuiabanos pela
música e pela dança é muito forte. Sobre o comportamento da população e a
cultura mato-grossense, Karl Von Steinen7, em uma de suas viagens a Cuiabá
descreve com detalhes a cidade, os habitantes, costumes, festas e política.
Sobre esse gosto dos cuiabanos pela dança e pela música, Maria do Carmo
( pág. 32), faz o seguinte relato
A elite cuiabana também mantinha hábitos noturnos, gostava de festas,
de teatro, que, além de divertir, tinha também a função de instruir, revestia-se
7
Etnólogo e Naturalista Alemão esteve em Mato Grosso por duas vezes, entre os anos de 1883 e 1887 em
expedições científicas. Deixou duas Obras de relevância para a História do país: O Brasil Central e Entre
os Aborígenes do Brasil Central.
144
de caráter educativo, uma vez que o público alvo eram as famílias, jovens e
adultos que, a partir das peças representadas, assimilavam os valores por elas
veiculados. Gostava de dança, de ouvir música ao piano, fato que justificava a
forte presença desse instrumento na maioria das casas cuiabanas. As famílias
se reuniam e, enquanto as mulheres debatiam assuntos voltados aos
problemas domésticos, educação de filhos, casamento de filhas, educação,
civismo e bons costumes, os homens debatiam questões políticas, regadas
pelo uso de muita cerveja. As discussões acerca da política eram voltadas para
o novo regime que se apresentava, e as consequências para o Estado.
No livro “Lembranças de Mato Grosso”, aparece a seguinte narrativa sobre
os eventos sociais da elite
Excerto “Lembranças de Mato Grosso” página 32
Siqueira (2000, p.98) relata em “Luzes e Sombras” que foi a partir do
cenário império que os pressupostos da modernidade adentraram a província
de Mato Grosso, e tiveram no âmbito da cultura e da educação significativa
expressão e realização.
Integravam a elite cuiabana os dirigentes político-administrativos,
Presidentes da Província, seus assessores, os deputados, Magistrados, os
profissionais liberais, os grandes proprietários rurais e os comerciantes. Esses
145
homens é quem discutiam e idealizavam melhorias para Cuiabá, e essas ideias
de melhoramento para a cidade tinham como fonte de origem os ideais
proclamados na Corte, e quando alguém da elite viajava, voltava sempre com
novas concepções para a região. A ideia de que as cidades precisavam ser
modernizadas, urbanizadas, com serviços de encanamento de água, melhoria
na iluminação pública, mais higienização na cidade e nas moradias, significava
mais saúde para todos.
Entretanto, Cuiabá não estava preparada para tais mudanças, não havia
saneamento básico algum, a cidade crescia e o lixo produzido por seus
habitantes também acarretava na proliferação de mosquitos e mau cheiro,
resultando em doenças de todos os tipos. Sobre isso Maria do Carmo ( pág. 26
e 24), faz o seguinte comentário
É nesse cenário, numa Cuiabá cheia de problemas e contrastes sociais,
de diferentes modos de viver e pensar entre a elite e os pobres, que no ano de
1887, chegou a Cuiabá, Maria do Carmo de Mello Rego, esposa do então
designado presidente da Província de Mato Grosso, o coronel Francisco
Raphael de Mello Rego. O casal viveu em Cuiabá por um período de dois anos.
Ao retornarem para o Rio de Janeiro, passados alguns anos, Maria do Carmo,
influenciada por seu amigo, o Visconde de Taunay, decide tornar público, suas
memórias sobre um período importante de sua vida, publicando o livro
“Lembranças de Mato Grosso”.
146
3.1 FUNÇÃO TRANSCENDENTE DA FILOLOGIA
Neste capítulo, recorre-se a uma das funções da Filologia, a
transcendente, que segundo Spina (1977, p.77),
[...] é a parte do estudo filológico em que o texto deixa de ser um fim
em si mesmo da tarefa filológica, para se transformar num
instrumento que permite ao filólogo reconstituir a vida espiritual de um
povo ou de uma comunidade em determinada época. A
individualidade ou a presença do texto praticamente desaparece, pois
o leitor, abstraído do texto, apenas se compraz no estudo que dele
resultou
Para estudar mais detalhadamente algumas personagens citadas no
livro “Lembranças de Mato Grosso” de autoria de Maria do Carmo de Mello
Rego, que destaca a importância das mulheres cuiabanas e que tiveram
forte influência no desenvolvimento de Cuiabá, pessoas que estavam à frente
de seu tempo.
Busca-se então mostrar a importância de algumas dessas personagens
nesse cenário. Mulheres como Dª. Leonor Falcão que dirigiu o Jornal Jasmim,
periódico destinado aos “interesses das senhoras”. Embora não se encontrem
exemplares desse jornal é possível extrair-se suas notícias em periódicos da
época que atestam que o mesmo atuou na linha da emancipação feminina. Da
luta dessa senhora, outras mulheres a seguiram. Cuiabá, no início do século
XIX, tinha vários periódicos com temas voltados para o público feminino que
serviam de fonte de informação social, política, civismo, literatura e outros
assuntos. Outro periódico de muito alcance na sociedade cuiabana, fundado,
escrito e dirigido por mulheres é “A Violeta”, que por vários anos, influenciou a
sociedade local.
Outra mulher que se destacou no cenário da literatura mato-grossense
foi Leopoldina Tavares Porto-Carrero8, autora de uma obra de muita relevância
para estudos referentes à educação brasileira, em que faz um levantamento
sobre os diferentes tipos de ensino da época. Sua obra denominada “O
Relatório” é repleta de ideologias e escrita com objetividade e racionalidade.
Nela, a autora descreve métodos para facilitar o processo de ensino-
8
PORTO-CARRERO, Leopoldina Tavares. Relatório – O ensino público na França, Espanha e Portugal.
Rio de Janeiro: Oficina Tipográfica do Instituto Profissional, 1896.
147
aprendizagem e sugere reformas para o sistema educacional vigente no país,
naquele período de final de Império e início de República, a autora apresenta
considerações sobre a importância da educação para a formação integral do
homem, e para o progresso da nação, (NADAF, 2004, p.25-37)
Diferentemente de Leopoldina, outra mulher que escreveu nesse
período, porém, com outros interesses, foi Maria da Glória Pereira Leite, mais
conhecida como a baronesa de Villa Maria, que nos legou o rico e
revolucionário opúsculo “A extinta província de Mato Grosso poderá por si só
constituir-se em estado?”, de 1890.
Nesta obra, que é uma coletânea de cartas enviadas ao General
Deodoro da Fonseca, a baronesa diz ser vítima de perseguições políticas,
torna públicos a remoção e o sequestro arbitrário, por autoridades regionais, da
herança a que teria direito, nela incluindo-se as propriedades agrícolas.
Segundo a Baronesa, Mato Grosso deveria ser novamente incorporado ao
Estado de São Paulo como a única maneira de sair do marasmo em que se
encontrava. Para corroborar seus argumentos utiliza dados estatísticos
socioeconômicos e educacionais, refere-se também à vasta extensão territorial,
o descaso do governo monárquico para com a região, a escassez de instrução,
do comércio, da lavoura e da indústria, os constantes surtos epidêmicos de
várias doenças, essa autora escreve de maneira mais passional, uma vez que
defendia seus interesses. (idem, p. 92 -95)
Nadaf (2004, p. 95), em “Presença de mulher”, faz um levantamento e
estudo de produções femininas a partir de meados do século XIX em Mato
Grosso, pesquisa que resultou na descoberta do livro em análise, “Lembranças
de Mato Grosso”, de autoria de Maria do Carmo de Mello Rego.
Pouco se sabe sobre a história de vida de Maria do Carmo de Mello
Rego, havendo divergências sobre o local e a data de seu nascimento. Para
alguns historiadores, ela teria nascido no Uruguai, possivelmente no ano de
1840. Nadaf, em “Presença de mulher”, confirma o que esses historiadores
escreveram sobre a biografia de Maria do Carmo, ou seja, que ela teria se
casado em dezoito de outubro de 1860, em Jaguarão, Rio Grande do Sul, com
o coronel Francisco Raphael de Mello Rego. Dentre os manuscritos analisados
nesse trabalho, os manuscritos cinco e seis são de autoria do então presidente
da província de Mato Grosso, o coronel Francisco Raphael de Mello Rego.
148
Tempos depois do matrimônio, o casal se mudou para o Rio de Janeiro
e lá viveu por muitos anos, até que, em 1887, o coronel foi designado para
presidente da província de Mato Grosso e Maria do Carmo teve de
acompanhar seu esposo até essa província. Não há relato de que o casal
tenha tido filhos naturais, pois em suas memórias Maria do Carmo narra em um
pequeno livro a história de Guido, um “indiozinho bororo” que o casal havia
adotado no período em que morou em Cuiabá e, que, infelizmente, segundo
ela, logo depois de retornarem ao Rio de janeiro, acometido por uma grave
doença, acabou falecendo.
Maria do Carmo sofreu muito com essa perda. Depois de algum tempo,
e ainda com certa relutância, convencida por amigos, resolveu escrever um
livro em que relatou a história do “indiozinho” e de outros acontecimentos que
presenciou em sua estada em Mato Grosso.
Entre os fatos relatados, talvez os que mais a tenham marcado são
referentes a acontecimentos envolvendo índios da região, como a luta entre
brancos e índios da tribo bororo, „solucionada‟ graças à intervenção de uma
mulher índia, Cibáe Modojebádo, que ficou conhecida como “Rosa a Bororo”,
além, claro, da adoção do pequenino e a trajetória de sua curta vida,
acontecimentos que geraram o livro “Guido”, com o apoio e o incentivo do
Visconde de Taunay. No ano seguinte, Maria do Carmo sente-se estimulada a
escrever um relato maior, o que resultou no livro “Lembranças de Mato
Grosso”.
Nesse livro, a autora conta como foi difícil a viagem feita desde a saída
da Corte, a ida a Montevidéu e toda a emoção sentida ao reencontrar antigos
amigos de seus pais e que a fizeram lembrar sua infância, demonstrando
conhecimento e cultura ao detalhar aspectos geográficos das regiões por onde
o vapor inglês Trent passava.
Segundo Nadaf (2004, p. 42), “a obra é escrita com maior rigor estético,
nele inexistindo os arroubos de caráter emocional presentes em Guido”. O livro
“Lembranças de Mato Grosso” é uma narrativa, um relato de memórias, no qual
a autora conta sua viagem, e depois faz uma descrição da Vila de Cuiabá,
onde morou por um período de aproximadamente dois anos. Relata o espírito
festivo dos cuiabanos, a geografia de Cuiabá, descreve seus prédios, ruas,
condições de higiene e saúde pública, o comportamento sociável da mulher
149
cuiabana, sempre alegre, receptiva, forte. Eram mulheres que pouco se
importavam com as opiniões alheias. Um exemplo do comportamento peculiar
da mulher cuiabana é que pouco sucesso fez a famosa roda dos enjeitados,
local onde eram colocadas as crianças que nasciam de um relacionamento fora
do casamento. Na Vila de Cuiabá, essa roda foi implantada no muro da Santa
Casa, onde as moças que passavam por essa situação, em sua grande
maioria, assumiam seus filhos e os criavam junto a seus familiares, um dos
motivos pelos quais as famílias cuiabanas são numerosas, segundo Siqueira
(2000, p. 85), citando Volpato9, que relata que, por mais de dezesseis anos, a
roda não recebeu nenhuma criança.
Peraro (1992, p. 214), analisando os fatores que contribuíram para a
relativa independência das mulheres cuiabanas, as quais assumiam não só os
filhos sem pai definido, mas que também assumiam a direção da casa e dos
negócios, diz que um dos fatores levantados para tal comportamento foi o da
região ser fronteira e do recrutamento forçado dos homens para o serviço
militar, além de ser uma região quase que isolada do resto do país, esses
fatores faziam com que as mulheres assumissem o comando de suas vidas
independente do sustento do homem.
Em seu livro “Lembranças de Mato Grosso”, Maria do Carmo mostra
personagens femininas que fizeram história, mulheres como a dona Maria
Leopoldina (REGO, 1897, p. 33) proprietária da usina do Aricá10, que mesmo
antes da morte de seu marido, auxiliava-o na administração da mesma e
depois viúva administrou com muita coragem e competência a referida
fazenda, controlando os empregados com pulso firme, porém sem perder a
candura própria das mulheres não esquecendo seus afazeres de dona de casa.
O trabalho nas usinas não se restringia à população adulta, mas incluía
toda a família. As crianças, inclusive, participavam dos trabalhos da roça, na
confecção de sacos, nos teares, na fabricação de farinha, nas tarefas de
9
VOLPATO, Luiza Rios Ricci, op. cit. P.52. Volpato define: A roda dos expostos era um cilindro
implantado no muro (da Santa Casa) por um eixo que permitia sua rotação. O cilindro era aberto por um
dos lados. A criança era colocada dentro do cilindro pelo lado de fora do muro e recolhida pelo lado
interno. Através desse mecanismo , a criança era entregue à caridade pública, sem que se soubesse a
identidade de quem a depositara na roda.
10
Usina Aricá. Localizada à margem direita do rio Cuiabá, na barra do Aricá-açu, ou Bambá, nos anos de
1886 , de propriedade de Antonio Manuel da Silva Fontes.
150
descascar arroz e até mesmo no tratamento da cana. Nas usinas eram
produzidos açúcar, rapadura, álcool e aguardente.
Maria do Carmo cita outra personagem feminina de muita força e visão
futurista, mulher que ficou viúva ainda jovem e cuidou de seus filhos com muito
zelo e ao mesmo tempo com autoridade, a senhora Dona Demethilde Metello,
que, como disse Maria do Carmo, era digna de tantos títulos e honras. Tivesse
Dona Demethilde nascido homem, segundo a escritora, marcharia na
vanguarda daqueles que são capazes de grandes empreendimentos. Cabe à
Dona Demethilde grande parte da responsabilidade pela construção do
bondinho em Cuiabá.
Em “Lembranças de Mato Grosso” são narradas também algumas
lendas e fenômenos naturais específicos da região. Assim, merecem maior
atenção os capítulos em que a autora relata a viagem feita de Cuiabá até a
antiga cidade de Vila Maria, hoje Cáceres, marcada por vários acontecimentos
que a tornaram inesquecível. Entre outras curiosidades, narra a descoberta de
um possível cemitério indígena ao longo do trajeto, viagem pelo interior de
Mato Grosso que durou cerca de vinte e cinco dias, percorrendo, via fluvial,
uma distância aproximada de 447 léguas (REGO, 1897, p. 62). Ao retornar
para Cuiabá, contou o que viu ao Dr. Von de Steinen, chefe da comissão alemã
exploradora do Xingu, que estava em Cuiabá para descanso de viagem, após
exaustiva exploração pelas matas mato-grossenses, a quem mostrou os vários
objetos de cultura indígena que recolheu, encontrados durante a viagem na
localidade, conhecida como Barranca do Tucum.
De acordo com a autora, Steinen deu muita importância ao que ela lhe
dissera e recomendou que seu sucessor fizesse as explorações na referida
localidade.
Já no capítulo “Rosa a bororo”, (REGO, 1897, p. 66), Maria do Carmo
descreve a interessante história de Rosa, índia da tribo Bororo Coroado, que
fora aprisionada por brancos, juntamente com duas filhas e mais alguns índios
da tribo, cujo aprisionamento fazia parte do plano de “pacificação” desses
índios, na tentativa de, após “civilizar” esses prisioneiros, levá-los em futuras
campanhas como intérpretes, para o apaziguamento entre brancos e índios.
Rosa foi adotada pela família do então Diretor Geral dos índios, o senhor
Thomas Aquino de Miranda e por sua esposa, a quem coube a função de
151
educá-la segundo padrões da sociedade local. Com o passar dos anos, Rosa
se afeiçoa pela nova família e torna-se, então, figura importante na história de
Mato grosso, no que se refere ao fim das lutas entre brancos e índios.
Sobre “Rosa a Bororo”, encontra-se um breve registro em um artigo
publicado na revista da Academia Mattogrossense de Letras11,
[...] e não esquecendo um facto bem nosso, bem mato-grossense,
mister se faz realçar aqui o eloqüente eptsodio de Roza, a Boróró,
magnificamente descripto pela Penna brilhante de D. Maria do C. de
Mello Rego, como importante subsidio para a historia da cathechese
em nosso estado. ( CORREA, Philogonio de Paula, 1936, p. 33).
Ainda sobre “Rosa a Bororo”, encontram-se registros de sua participação
em
documentos
avulsos
pertencentes
ao
APMT.
Para
uma
melhor
compreensão dessa personagem, faz-se necessário um recorte na história que
envolve as eternas brigas entre brancos e índios da tribo Bororo Coroado.
Os Bororos, tribo à qual pertencia Cibáe Modojebádo, mais tarde
conhecida como “Rosa a Bororo”, ocupavam uma área próxima à região de
Villa Maria, hoje Cáceres, e ao Distrito de Mato Grosso, Vila Bela. Segundo
Florence (1977, p. 197)12, no ano de 1817, João Pereira Leite, proprietário da
fazenda Jacobina, solicitou uma autorização de D. João VI para um primeiro
contato com essa tribo justificando a necessidade de impedir que os mesmos
continuassem a atacar as propriedades da região, segundo relato do viajante
francês, o proprietário obteve resposta positiva.
O coronel fez-lhe uma guerra que durou seis anos, durante o qual sua
gente matou 450 Bororo e agarrou 50 prisioneiros que mais ou menos
se sujeitaram ao trabalho na fazenda, principalmente o custeio dos
gados. Não foi senão depois de aprisionado o cacique que esses
índios consentiram em se tornar amigos. O tenente Coronel
concedeu-lhes a liberdade; presenteou-o e o batizou.( FLORENCE,
Hércules, 1977, p. 197).
Esses índios e outros de outras tribos atrapalhavam as vias de
comunicação da província, sendo constantes os ataques às propriedades
próximas às suas aldeias. As várias tentativas de pacificação não tinham
11
Excerto do artigo “A Influencia da Mulher na Evolução Brasileira”. – CORREA, Philogonio de Paula.
Revista da Academia Mattogrossense de Letras. Anno IV, 1936; nº VII e VIII, p. 33.
12
Desenhista que fez parte da expedição científica russa, chefiada pelo Barão de Langsdorff, que visitou a
província de Mato Grosso no ano de 1822.
FLORENCE, Hércules. Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, 1825 a 1829. 1977, p. 197.
152
resultado positivo. Por vários anos, brancos e índios viviam em constante
combate.
Em meados do século XIX, a Província de Mato Grosso buscava
integrar-se à modernização que tomava força no país, mas nessa região
longínqua da Corte, os problemas continuavam os mesmos, não havia estradas
e nem o mínimo de estrutura que permitisse à província de Mato Grosso
feições modernas.
As primeiras tentativas para apaziguar a relação entre brancos e índios
da tribo Bororo Coroado não obtiveram o resultado que a população esperava
por esse motivo o governo passou a elaborar novas formas de aproximação.
Passavam-se os anos e a situação não se alterava, os agentes de civilização
entravam em terras indígenas e os índios atacavam as propriedades vizinhas
em especial o Distrito de Chapada dos Guimarães, as queixas dos moradores
eram constantes.
Apenas no ano de 1886 ocorreu o que se denominou de processo de
“pacificação” dos Bororo Coroado, e a participação da índia Cibáe
Modojebádo13, a Rosa Bororo, como figura fundamental ao lado do alferes
Duarte. Esse processo pôs fim a tantos anos de lutas e mortes. Entretanto,
antes que isso ocorresse, o alferes Duarte já havia passado por várias
situações difíceis, nas quais em uma das tentativas de pacificação fora
vitimado por uma “flecha homicida”. Sobre esse acontecimento Maria do Carmo
faz a seguinte narrativa
Sem esperança de resultado profícuo, e só em cumprimento do
dever, lá andou annos e annos o tenente Duarte, de alpercates aos
pés por ínvios e ásperos sertões, ora subindo serras, ora descendo
despenhadeiros, afim de não perder s pista das feras que perseguia;
elle, um dos bravos lutadores frente a frente contra o tyrano de
Paraguay. Quantas emboscadas fazia, e de quantas escapara!
Certo dia em que mandara cercar pela sua tropa parte do cerrado
matagal, onde contava agarrar um bom numero de índios, sentiu que
uma flexa lhe batera no meio do peito, na mesma occasião em que
segunda varava o braço de um soldado, cuja montaria caiu morta por
outra. Sem desequilibrar até o Cavallo, viu logo o tenente que devera
a vida á chapa de metal de uma bolsa de couro a tira-collo, na qual
batera a fatídica setta!(...) os indígenas supondo que o perseguidor
merecia protecção especial de Bope,(espírito do mal) daquelle
momento em diante lhe tomaram supersticioso terror. ( REGO. 1897, p.
71-72).
13
ALMEIDA, Maria Auxiliadora. Cibáe Modojebádo – a Rosa Bororo e a “pacificação” dos Bororo
Coroado - 1845-1887. Dissertação de mestrado em História, UFMT, 2002, p. 85-88.
153
Segundo Almeida (2002, p. 83-90), em sua dissertação de mestrado em
História, UFMT, em que faz um estudo sobre os índios Bororo e a política de
“pacificação”, idealizada pelo governo, percebe-se na obra de Maria do Carmo,
que o contato entre os índios e os representantes do governo era sempre
marcado por situações de conflito.
Havia, de um lado, a ação dos governantes, sempre com investidas
armadas com o intuito de matar, de outro, os índios, que viam seus territórios
cada vez mais ocupados e seus pares sendo dizimados. Essa situação
começou a mudar quando o governo e os militares começaram a pensar em
novas táticas de aproximação, no lugar de armas para matar, a tentativa de
diálogo para apaziguar e assim promover a “pacificação”. O tenente Duarte, por
ter participado de várias investidas, defendia o uso de estratégias mais
brandas, assim, vai tomando corpo o processo que visava a “pacificação”.
O alferes Duarte, talvez por estar ciente da debilidade dos índios Bororo
Coroado propôs ao presidente da província José Joaquim Ferreira a seguinte
atitude
Aprisionar um indígena [do sexo masculino], que tivesse filhos, em
seguida enviá-lo de volta ao aldeamento, deixando os filhos como
reféns na cidade. Em troca da própria liberdade e dos seus, o índio
deveria retornar ao aldeamento para a realização do contato com a
tribo e realizar a catequese. Desaconselhava a utilização de mulheres
14
e crianças para esse fim .
A partir do estudo de Almeida (2002), o interesse pelo episódio de Cibáe
Modojebádo aumentou, buscou-se mais detalhes sobre esses acontecimentos
para a confirmação dos dados obtidos, e, assim foi possível encontrar registros
históricos desses acontecimentos.
No ano de 1885, ao tomar posse como presidente da província, Joaquim
Galdino Pimentel declara em seu discurso de posse que em seu mandato
tomaria a seguinte atitude para atingir a “pacificação”
Depois de tantos danos que tem causado à Província as incessantes
agressões dos selvagens, parece que era tempo de tomar-se
14
Relatório de Antonio José Duarte ao presidente da Província José Joaquim Ramos Ferreira. Documento
avulso. APMT. Lata 1885 – E. ( apud, ALMEIDA, Maria Auxiliadora de. Cibáe Modojebádo – a Rosa
Bororo e a “pacificação” dos Bororo Coroado (1845-1887).
154
qualquer providência no sentido de dar impulso à catequese dos
índios, uma vez que ao nosso estado de civilização repugna que se
15
empregue contra eles a força pública para exterminá-los .
“Excerto de parte do discurso do Presidente da Província de Mato Grosso Galdino Pimentel no
ato de sua posse”.
Foi assim que o processo de “pacificação” dos Bororo aconteceu, num
percurso de vários anos e várias tentativas, com a mudança de estratégias por
parte do governo e dos militares. Nesse quadro é que aparece novamente a
figura de Cibáe Modojebádo, a índia havia sido aprisionada no ano de 1881,
passados então mais de cinco anos, agora batizada de Rosa a Bororo. Durante
o convívio com os brancos e com esperteza, Rosa aprende a língua dos
brancos, seus modos e costumes, mas não se esqueceu de sua tribo, e
quando foi chamada para participar de mais uma tentativa de aproximação
15
Livro de Registros das falas Presidenciais apresentada à Assembleia Legislativa Provincial. 1886. Nº 23
APMT.
155
entre os brancos e os índios, numa comissão liderada pelo tenente Duarte, ela
o acompanhou feliz, pois sabia que poderia ajudar naquela investida.
(ALMEIDA, 2002, p. 107)
Rosa convenceu o Tenente Duarte para que aguardasse por três dias e
que não tomasse nenhuma iniciativa de violência mesmo que se visse cercado
pelos índios. Foram três dias de muito nervosismo entre os homens, três dias
de espera, até que finalmente avistaram inúmeros índios que os olhavam,
porém não demonstravam ferocidade, e o Tenente Duarte viu Rosa aproximarse junto com o cacique, que trazia em uma das mãos um arco todo colorido
que foi entregue ao Tenente em sinal de paz, e ali, no meio do clarão da
floresta, a paz foi acordada. Tanto índios quanto brancos finalmente
encontraram a paz tanto esperada. (REGO, 1887, p.71-74)
Esse episódio aos poucos foi sendo esquecido e alguns anos mais tarde
ninguém mais se lembrava do fato ocorrido. A história de “Rosa a Bororo” já
não tinha mais importância, afinal a índia fora usada como mais uma das
estratégias para a pacificação dos selvagens. Somente quando da publicação
do livro “Lembranças de Mato Grosso” em que Maria do Carmo relata esse
episódio e coloca Rosa como a “leal índia”, esta passa a ser considerada como
a figura feminina heroica desses fatos, associada ao mesmo tempo à figura de
seu comandante o tenente Duarte. (ALMEIDA, p. 120-124).
Após a publicação do livro de Maria do Carmo, “Lembranças de Mato
Grosso”, o nome de Rosa foi lembrado novamente, e a partir de então ela
torna-se conhecida como a personagem responsável pela pacificação entre os
Bororo e os brancos da província de Mato Grosso. Muitas foram as perguntas
sobre o que tinha acontecido com Rosa, uma vez que ela não voltou para a
cidade com a companhia do tenente Duarte, Rosa decidiu ficar na aldeia e
ajudar aos seus e as outras tribos existentes.
Maria do Carmo, em seu livro, se questiona sobre qual fim teria tido a
boa e fiel indígena.
156
Excerto livro “Lembranças de Mato Grosso”, de Maria do Carmo de Mello Rego.
A partir desse questionamento, buscou-se averiguar o que aconteceu
com “Rosa a Bororo” após sua atuação no processo de “pacificação”. Segundo
Almeida (2002, p. 123) há registros da presença de Rosa, após a “pacificação”
dos Coroado, entre os Bakairi, em uma viagem realizada pelos participantes
da construção da linhas telegráficas de Mato Grosso à Amazônia. O Tenente
Antonio Pyrineus de Souza, quando esteve entre os Bakairi, relatou a
circunstância em que encontrou a Rosa Bororo
Mais tarde, em luta entre os índios Coroado e Bakairi, aliados dos
civilizados que foram se estabelecer na barra do São Manoel, foi
morto o pai de José Coroado. Desde então, Rosa e seu filho, ainda
muito criança, ficaram na aldeia dos Bakairi, da qual era chefe o velho
Capitão Antonino, que acabou de criar José Coroado. Rosa morreu
16
na aldeia de seu filho
Sobre o final de vida de Rosa a Bororo, encontra-se, no livro
“Datas Mato-Grossenses” de Estevão de Mendonça17 o seguinte relato
16
SOUSA, Antonio Pyrineus. Relatório da Comissão de Linhas Telegráficas de Mato Grosso ao
Amazonas ( 1915- 1916) 1916, p. 66-67.
17
MENDONÇA, Estevão. Datas Mato-Grossenses, 2º volume, 1919 - APMT
157
Excerto do livro “Datas Mato-grossenses”, p. 58-59.
Desse excerto pode-se constatar o que teria sido o comentário de Rosa,
em seus últimos momentos de vida, quando analisa a atitude dos brancos e
158
aconselha o seu filho “a nunca confiar nos brancos”. Passados tantos anos,
pode-se concluir que a índia tinha razão, dado o resultado de vida das tribos
indígenas que sobreviveram ao avanço dos brancos e que vivem até hoje.
Percebe-se, por meio desses episódios narrados no livro de Maria do
Carmo, ressaltando-se o excesso de passionalidade em sua escrita, que era
uma mulher inteligente, perspicaz e sensível, pois demonstrou preocupação
para com as pessoas com as quais conviveu no período quando morou em
Cuiabá. Pela sua narrativa, foi possível o acesso a acontecimentos verídicos
sobre a história de Mato Grosso
que não aparecem nos livros oficiais,
valorizando assim a figura da mulher, que muito contribuiu para o
desenvolvimento de Mato Grosso e da nação, mas que, na maioria das vezes,
é esquecida pelos historiadores.
Ao descrever os aspectos geográficos de Cuiabá, Maria do Carmo relata
que uma das principais ruas da cidade era a Barão de Melgaço, com várias
casas, todas longas, com grandes quintais. Fala da catedral que, mesmo
decorada com simplicidade, era muita acolhedora.
Sobre o córrego da prainha, diz lembrar-se de uma noite muita chuvosa,
das ruas lamacentas, ter visto da janela de sua casa, “negros velhos de pernas
finas e compridas com a sua batêa18 a pescarem ouro” ( CARMO, 1897, p. 25).
O córrego da prainha era longo, atravessava toda a cidade e ia morrer no rio
Cuiabá. Ela relata que era no córrego que parecia que todo lixo da cidade
resolvia parar, pois era tanto detrito, abundância de lixos e animais mortos que
se explicava talvez a existência de muitas doenças que apareciam, matando
tantas pessoas.
Ao falar das coisas bonitas que havia na cidade, cita a “machina da
Hydraulica”, local pitoresco e belo, às margens do rio Cuiabá, além das
chalanas que subiam e desciam o rio.
Quando a autora relata os hábitos e costumes da cidade, expressa certa
admiração pela paixão quase indescritível do povo pela dança. Ela conta que
grandes distâncias eram vencidas para se chegar a um baile e a festa por
vezes vencia a noite e dominava o dia, com as pessoas cantando e dançando
muito.
18
Batêa – objeto muito utilizado na época da mineração pelas pessoas na busca do ouro e pedras
preciosas, é uma espécie de peneira com um só furinho por onde escorre a água.
159
“Lembranças de Mato Grosso” foi dedicado ao Visconde de Taunay, o
prefaciador do livro “Guido”. Nele a autora, demonstra o conhecimento
abrangente e curioso de uma mulher daquela época, no que diz respeito aos
aspectos históricos, sociais, geográficos, e os costumes culturais de uma
região onde vivera por tão pouco tempo.
Essa análise feita do livro “Lembranças de Mato Grosso” foi possível
graças à função transcendente da filologia que, como dito anteriormente,
possibilita ao ensaísta a busca por dados referentes à história de um
determinado povo, numa determinada época, possibilitando com isso, mostrar
aspectos socioculturais da província de Mato Grosso e mais especificamente
da cidade de Cuiabá.
Esse livro apresenta, além dos aspectos sócio históricos e culturais de
Cuiabá, no final do Império, características bem peculiares em sua forma de
escrita, pois nele se percebem várias ocorrências ortográficas típicas da época
como a duplicação de consoantes, acentuação gráfica, formas verbais com
pronomes enclíticos grafados diferentemente da grafia atual, entre outras
ocorrências, isso porque na época não havia uma norma prescritiva da escrita,
mas uma que era seguida, tanto é que os manuscritos e o livro têm muitos
aspectos comuns, à norma seguida.
160
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse trabalho abordou o corpus da pesquisa sob a ótica da Filologia,
quando se decidiu pela análise de um livro impresso, juntamente com a
transcrição e análise de manuscritos produzidos numa mesma época, cuja
proposição era a averiguação das ocorrências ortográficas, como a duplicação
das consoantes, tratando-se assim dos aspectos linguísticos, ressalta-se,
porém, que o interesse maior desse trabalho é a análise dos aspectos sociais,
culturais e históricos de Cuiabá do final do século XIX, fazendo uso da função
transcendente da filologia que possibilita ao filólogo a possibilidade de adentrar
na história.
O texto manuscrito é uma fonte inesgotável de informações históricas e
linguísticas de um povo. A preservação deste tipo de documento torna-se
essencial para o resgate e registro de uma determinada época no que diz
respeito aos costumes e à língua de um determinado povo. Mas nem sempre a
preservação acontece nos lugares onde estão esses documentos. Cabe então
à Filologia resgatar esse precioso material e dele fazer a edição, para que não
se perca com o tempo e possa chegar até as gerações futuras.
Assim, ao longo desse trabalho, buscou-se, sempre à luz da filologia,
fazer um estudo sobre aspectos da língua e aspectos sócio históricos e
culturais de Cuiabá, no final do século XIX, período de grandes transformações
em todo país. O Brasil deixava para trás um período de monarquia e entrava
em um novo regime político, a República, em que as esperanças se
renovavam, e a modernidade se apresentava.
Mostrou-se um pouco do perfil de Cuiabá, da alegria de sua gente, da
força de suas mulheres, que tiveram de aprender a ser fortes e muitas vezes,
tomar o controle de suas vidas e de suas famílias nas próprias mãos. Procurouse dar maior ênfase, entre tantas figuras femininas que merecem ser
estudadas, à figura de Cibáe Modojebádo, ou “Rosa a Bororo”, uma vez que se
tornou uma figura lendária na história de Cuiabá quando de sua participação no
projeto do governo de “pacificação” dos índios da tribo Bororo Coroado.
Após a transcrição e análise dos manuscritos, num trabalho filológico,
fazendo uso das edições fac-similar e semidiplomática do referido material,
bem como a edição fac-similar do livro “Lembranças de Mato Grosso”, foi
161
constatado que as ocorrências linguísticas são as mesmas no que se refere à
ortografia. Percebeu-se neste estudo que a duplicação de consoantes, por
exemplo, era algo muito comum, independentemente da região ou da forma de
produção de um determinado texto manuscrito ou impresso, uma vez que na
época ainda não havia uma normatização para a escrita, o que veio a ocorrer
em 1904, com a publicação da obra de Gonçalvez Viana, “Ortografia Nacional”.
Este tipo de estudo destina-se a um público específico, ou seja, pessoas
envolvidas com a história e desenvolvimento de nossa língua, pois se fez um
percurso pelo tempo, trabalhando com textos do século XIX, manuscritos e livro
impresso. Para um trabalho filológico a descoberta de um manuscrito é muito
importante, uma vez que propicia o estudo do tipo de escrita utilizado numa
determinada época, neste estudo em especial, partiu-se de um livro impresso
que traz em si marcas linguísticas próprias da época, como as consoantes
duplicadas, ocorrências que foram abonadas com o estudo e transcrição de
alguns manuscritos produzidos no mesmo período.
Espera-se que o mesmo sirva de fonte de pesquisa para aqueles que no
futuro queiram olhar o passado e desvendar novos fatos históricos ainda
desconhecidos.
162
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