APRENDER Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia REITOR Prof. Abel Rebouças São José VICE-REITORA Profª Jussara Maria Camilo dos Santos PRÓ-REITOR – PROEX Prof. Paulo Sérgio Cavalcante Costa DIRETORA DO DEPARTAMENTO DE CIÊNCIAS HUMANAS E FILOSOFIA (DFCH) Profª Cláudia Albuquerque de Lima DIRETOR – EDIÇÕES UESB Jacinto Braz David Filho COMITÊ EDITORIAL Profª Ana Maria dos Santos Rocha Prof. Antonio Jorge Del Rei Moura Prof. Jovino Moreira da Silva Prof. Marcello Moreira Prof. Marco Antônio Araújo Longuinhos Prof. Nelson dos Santos Cardoso Júnior Prof. Paulo Sérgio Cavalcante Costa Catalogação na publicação: Biblioteca Central da Uesb 100 A661a Aprender – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação. Ano II, n. 3, jul./dez. 2004. Vitória da Conquista: Edições Uesb, 2004 Semestral. ISSN 1678-7846 1. Filosofia – Periódicos. 2. Psicologia. I. Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia. II. Título. Indicações de permuta Aceitamos permutas por periódicos de áreas afins, em especial de Educação, Filosofia e Psicologia. Os contatos para essa finalidade podem ser feitos através dos endereços eletrônicos: [email protected] ou [email protected] Campus Universitário – Caixa Postal 95 Estrada do Bem Querer, Km 4 – 45083-900 – Vitória da Conquista – BA Fone: 77 3424-8716 - E-mail: [email protected] Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia APRENDER Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação ISSN 1678-7846 APRENDER - Cad. de Filosofia e Psic. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 3-108 2004 Copyright ©2004 by Edições Uesb APRENDER Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação Caderno do Departamento de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia Ano II – n. 3, jul./dez. 2004 Editores Responsáveis Prof. Ms. Leonardo Maia Bastos Machado – Uesb Prof. Ms. Ruben de Oliveira Nascimento – Uesb Editoria Científica Profª Ms. Ana Lucia Castilhano de Araújo – Uesb Profª Ms. Caroline Vasconcellos Ribeiro – Uesb Prof. Ms. José Luís Caetano – Uesb Prof. Dr. Marcelo Martins Barreira – Uesb Profª Ms. Zamara Araújo dos Santos – Uesb/Uesc Conselho Editorial Profª Dr.ª Ana Elisabeth Santos Alves – Uesb Prof. Dr. Carlos Henrique de Souza Gerken – UFSJ Prof. Dr. Dante Galeffi – Ufba Prof. Dr. Delba Teixeira Rodrigues Barros – UFMG Prof. Dr. Diógenes Cândido de Lima – Uesb Prof. Dr. Filipe Ceppas – UGF/PUC-Rio Prof. Dr. Francisco Moura – Ufop Prof. Dr. João Carlos Salles – Ufba Prof. Dr. José Carlos Araújo – Unitri Prof. Dr. Maria Iza Pinto Amorim Leite – Uesb Profª Drª Maria Luiza Camargos Torres – Univale Prof. Dr. Milenna Brun – Uefs Profª Drª Marilena Ristum – Ufba Profª Ms. Rosane Lopes Araújo Magalhães – Uesc Prof. Dr. Silvio Gallo – Unicamp APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação UNIVERSIDADE ESTADUAL DO SUDOESTE DA BAHIA (UESB) Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) Estrada do Bem Querer, km 4 Cx. Postal 95 45083-900 – Vitória da Conquista – BA Fone: 77 3424-8652 E-mail: [email protected] e [email protected] SUMÁRIO Filosofia e educação em Paulo Freire: pensando com práticas de formação de professores Avelino da Rosa Silveira e Gomercindo Ghiggi ................................................................................................................. 9-18 Aproximações sobre hermenêutica e educação José Bolzan ..................................................................................................................................................................... 19-32 Nietzsche educador: notas para a redefinição da filosofia Gislene Almeida ............................................................................................................................................................ 33-38 Considerações introdutórias sobre a presença da indústria cultural na sociedade pós-moderna: em favor da teoria estética na educação Clédson L. Miranda dos Santos .................................................................................................................................... 39-47 Os diários reflexivos e os processos metacognitivos na práxis educacional Jussara Midlej ................................................................................................................................................................ 49-61 A escritura e o papel na era digital Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques .................................................................................................................. 63-78 Posição sociométrica do aluno com dificuldades de aprendizagem: contribuições da teoria de Moreno para a educação Eliane Giachetto Saravali ............................................................................................................................................. 79-87 Notas sobre a constituição do proletariado em classe Jussara Marques de Macedo ......................................................................................................................................... 89-103 Normas para apresentação de trabalhos ............................................................................................................. 105-106 APRESENTAÇÃO Ao longo da história, a educação sempre fez parte da trajetória humana. Com suas inúmeras formas de realização, o processo educacional sempre envolveu um importante aspecto: o conhecimento. O conhecimento fundamentado no assombro do desconhecido temido e dominado magicamente; na observação dos fatos ou nas idéias sobre a realidade; no método científico de pensar a realidade; nas formas de socialização do saber; nos símbolos e códigos que desenham o pensamento; nos instrumentos e na cultura multiforme; na complexidade. Na produção do conhecimento, a construção de um mundo percebido e compartilhado. O homem, quando conhece, não apenas descobre, mas também recria. Descobrindo e recriando o mundo, somos seus artífices, na medida em que sobre ele nos debruçamos e o interpretamos. Nesse encontro entre sujeito que conhece e o mundo que é conhecido, em diferentes propósitos educacionais, a Filosofia e a Psicologia formam um campo vasto e interligado de perguntas e compreensões sobre essa relação sujeito-mundo. Com o propósito de estudar o processo educacional por meio de contribuições da Filosofia e da Psicologia da Educação, foi criado o APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação, uma publicação semestral que pretende reunir e divulgar artigos, ensaios, monografias, relatos de pesquisas e resenhas que tratem do processo educacional em suas variáveis filosóficas e psicológicas, ou contribuições de outras áreas do conhecimento que discutam o processo educacional, de acordo com a linha editorial do APRENDER. Os editores. FILOSOFIA E EDUCAÇÃO EM PAULO FREIRE: PENSANDO COM PRÁTICAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES Avelino da Rosa Oliveira1 Gomercindo Ghiggi2 RESUMO O presente texto nasce da motivação de compreender um espaço de sala de aula em processo de formação-investigação com professores em serviço, num programa de formação inicial. Seu objetivo é desvelar os fundamentos filosóficos de tal discussão, tomando como base o pensamento de Paulo Freire. Inicialmente, os autores discutem o lugar da filosofia nos cursos de formação de professores, destacando que sua tarefa é pensar o presente, em busca da verdade. Sobre este pano de fundo são projetadas, ainda, reflexões sobre Estado, ética, história, liberdade, autoridade, diálogo e autonomia. Num segundo passo, é discutida a concepção freiriana de liberdade humana, a qual vem sendo historicamente negada para a maioria. Aí, tem especial interesse o problema do inacabamento humano e da conseqüente necessidade de interferir na história para a conquista da liberdade. Finalmente, abordando a questão da autonomia e da intencionalidade educativa, o artigo conclui que Freire busca dar consistência argumentativa à tese a favor da relação entre autoridade, liberdade e autonomia. A autoridade legítima possibilita a instalação de condições para a construção da autonomia séria, competente e comprometida. A autoridade, neste sentido, tem indispensável presença na formação dos educandos para a autonomia. PALAVRAS-CHAVE: Filosofia da educação. Paulo Freire. Autonomia. Liberdade. Autoridade. 1 2 Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel). Doutor em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor da Universidade Federal de Pelotas (Ufpel). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 9-18 2004 10 Avelino da Rosa Oliveira e Gomercindo Ghiggi PHILOSOPHY OF EDUCATION IN PAULO FREIRE: SOME THINKING ON THE PRACTICES OF TEACHERS’ EDUCATION Este texto foi produzido a partir de um projeto de investigação sobre a origem do conceito de autoridade, em sua relação com a liberdade, procurando, assim, entender a presença dessa discussão na biobibliografia de Paulo Freire. Naquele contexto investigativo mais amplo, confirmamos a tese da coexistência da liberdade e da autoridade. Agora, no recorte que representa o presente escrito, queremos apresentar uma discussão que busca desvelar os fundamentos filosóficos de tal discussão; dito de outro modo, temos como objetivo a discussão das “bases filosóficas” do pensamento pedagógico de Paulo Freire. Nosso texto, portanto, quer ser, ele também, um exercício filosófico. Mas um exercício de reflexão que nasce profundamente encarnado, ávido de compreender um espaço de sala de aula em processo de formaçãoinvestigação com professores em serviço, num programa de formação inicial. Em síntese, tomamos como ponto de partida nossas próprias práticas de investigação e for mação com professores em processos de formação inicial, na perspectiva de explicitar e discutir a boa argumentação de Freire a favor da formação para a construção da autonomia e da liberdade; ou, se preferirmos, é uma “reflexão filosófica” que parte de uma experiência singular de “formação de professores” e que propõe fundamento para a “formação de professores”, em geral. Nossa reflexão arranca de duas premissas que tomamos como pontos de referência. Primeiro, com Oliveira (1996) e Rosas (2003), afirmamos que a base filosófica que Freire leva para o mundo da educação e da for mação em geral, vigorosamente instala-se com o diálogo em sala de aula, sob uma configuração tal que garante centralidade à intersubjetividade. Ou seja, falamos de quatro momentos: 1) a leitura da realidade mais imediata, objetiva e subjetiva, 2) a exposição do processo e do entendimento de mundo das pessoas, em suas compreensões mais íntimas e em suas reflexões mais singulares, 3) as interações intersubjetivas que se organizam e que dão sentido ao mundo que as pessoas vivem 4) e, por fim, as problematizações que decorrem do APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 ABSTRACT This paper derives from the motivation to understand the classroom processes developed in a special undergraduate course for teachers. The objective of the paper is to show the philosophical foundations grounded on Paulo Freire’s thought. First, the authors discuss the place of Philosophy in teacher’s education, pinpointing that its task is to think the present in search for the truth. In this frame of reference, reflections over ethics, State, history, freedom, authority, dialogue, and autonomy are also advanced. In a second step, Freire’s concept of human freedom, which has been historically denied to the majority of people, is discussed. At this point, the issue of human incompleteness and its consequent necessity of interfering over history to achieve freedom is the point of most interest. Finally, at the time that the paper deals with problems of autonomy and educational intentionality, it concludes that Freire seeks to give argumentative consistency to the thesis in favor of the relationship among authority, freedom and autonomy. Genuine authority gives room to the constitution of the necessary conditions of competent and serious autonomy, pledged to truth. In this case, the presence of authority is indispensable in education for autonomy. KEYWORDS: Philosophy of education. Paulo Freire. Autonomy. Freedom. Authority. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 Filosofia e educação em Paulo Freire: pensando com práticas de formação de professores confronto com o conhecimento elaborado, quando há sistematização explicitada. Em segundo lugar, é central afirmar que o acordo inicial com o qual trabalhamos inclui a tarefa de transitar da consciência mágico-ingênua para a consciência crítica, com o propósito central de “ler criticamente a realidade sócio-política-econômica e cultural” (OLIVEIRA, 1996, p. 7) que nos cerca, educadores e educandas/educandos, tomando, para tal tarefa, uma concepção política e epistemológica: “um método ativo, dialogal, crítico e criticizador” (FREIRE, 1978, p. 107). Partindo das reflexões de Buber, Jaspers, Dewey e outros, Freire coloca toda a sua filosofia do diálogo “no contexto dialético de uma teoria do conhecimento. Isto traz à tona os elementos ativos do conhecimento na construção de modelos mentais, cuja função é aprender os diferentes aspectos da realidade”. Ou seja, algo sempre todos aprendemos com os outros, embora a partir de “hipóteses” diferentes. Assim, o diálogo em Freire é, “um método de investigação pedagógica” (O LIVEIRA , 1996, p. 9). Está na base do imperativo de mudança ou da denominada “teoria da mudança” que encontra-se instalada na filosofia da educação de Freire. O LUGAR DA FILOSOFIA EM PROGRAMAS DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES Partindo da experiência de reflexão e da concepção acima anunciada, temos tentado instalar, com professores e professoras do Programa de Formação em Serviço (FaE/UFPel – Pedagogia Séries Iniciais), a reflexão filosófica (CALDERA, 1996, p. 72) como “uma forma de entender e [...] transformar a realidade, a partir da própria exigência vital, do próprio mundo e do próprio tempo”. Este modo de compreender a filosofia coloca a educadores e educadoras uma exigência, “particularmente premente ante aos problemas da época e às demandas da realidade 11 que nos exigem [...] ser, mais do que exegetas e glosadores, protagonistas da aventura teórica de nosso tempo”. Tal exigência bem capturada foi por Marx (1986, p. 128), ao explicitar o compromisso revolucionário: “os filósofos se limitaram a interpretar o mundo [...]; o que importa é transformá-lo”. Nas discussões acerca de práticas pedagógicas desenvolvidas por educadores em formação inicial, a filosofia ganha a tarefa de imprimir o ritmo da passagem do que há e é pensado para o vir-a-ser, advogado por Heráclito (540-470 a.C.), por exemplo, e não para a estabilidade, a favor da qual tanto advogou Parmênides (530-460 a.C.). Por isso a filosofia, com Marzá (1993, p. 9), recordando Habermas, tem o encargo de manter desperto “um determinado sentido de humanidade”, o que desautoriza conceitos (quando absolutos) como o da tradição da “Coruja de Minerva”, da “mãe das ciências” ou de “uma ciência tal que sem a qual o mundo fica tal e qual”. A aludida concepção, pois, torna a filosofia tarefa distintamente humana. Assim, ante a complexidade da natureza humana e a luta pelo conhecimento do mundo, Freire nos ajuda a não aceitar a tarefa do filósofo atada às convenções conceituais ocidentalizadas, não raro com status de voz da verdade, que paira sobre mortais e demais ciências. Freire quer, tãosó, pensar a educação, produzir ferramentas (fontes dialógicas) e trabalhar para que as leis do coração não se aviltem, colaborando para que o milagre da reciprocidade pela ação coletiva se realize, a cada dia um pouco mais, nos processos formativos. Pelo dito, com Freire está exposta a tarefa da filosofia: pensar o presente, com as referências do passado e ontologicamente convocar humanos a serem o que são, humanos, para não passar a vida justificando sua própria incompetência. Para tanto, é central escutar e compactuar com a Avelino da Rosa Oliveira e Gomercindo Ghiggi reflexão de Chauí (1990, p. 90) para demarcar o compromisso da filosofia, na qual comunga Freire: “a Filosofia não é um conjunto de idéias [...] que possamos aprender automaticamente, não é um passeio turístico pelas paisagens intelectuais, mas uma decisão [...] orientada por um valor: a verdade. É o desejo do verdadeiro que move a Filosofia e suscita filosofias”. O questionamento principal (RICOUER, 1975, p. 46), pela filosofia que consegue “conjugar o poder soberano de decidir, que é o do Estado, com o poder arbitrário de escolher, que é o princípio próprio de cada indivíduo”, torna imperativo perguntar pelo “ato fundado que engendra ao mesmo tempo a comunidade e a liberdade individual”. Para Ricoeur (1975, p. 52), o sentido do Estado (se é que ele tem algum) é assegurar a coincidência do querer comum e da liberdade subjectiva”,3 reflexão com a qual são geradas condições para avaliar concepções filosóficas incapazes de dar sentido à “existência política do homem: trata-se de filosofias da interioridade, centradas sobre os aspectos puramente psicológicos da escolha (RICOUER, 1975, p. 54-55). Paralelamente à tarefa da “clarificação conceitual” para indicar percursos filosóficos de Freire, é central retomar a reflexão ética, a qual não pode, por imperativo mínimo, mistificar a discussão acerca de relações político-dialéticas. “Ética” é conceito que, progressivamente apropriado por políticas públicas – e banalizado – perdeu vigor crítico: “reconciliar moral e política é [...] reconciliar o homem consigo mesmo, é afirmar que [...] ele pode assumir-se totalidade” (BEAUVOIR, 1967, p. 80). Assim, ética não tem o sentido de “caráter individual”, mas de ciência que analisa valores 4 postos pela sociedade, balizadores de “boas condutas”. É a possibilidade de discussão sobre valor universal ou regional dos princípios que fundamentam os atos humanos. Desde os valores que dão sustentação à cultura particular e que têm gerado condições de reflexão universal a questão imperativa é (BURKE, 1999, p. 5), “como podemos respeitar os pontos de vista incongruentes de grupos dominantes e dominados?” Citando “valores culturais indianos”, que incluem a queima de mulheres viúvas, o autor, combatendo o valor extremado atribuído ao relativismo cultural, conclui dizendo que “parece 3 Também Hegel entende ser o Estado o momento mais elevado da vida política, justamente porque nele a vontade particular eleva-se à universalidade. Dentre as muitas referências a esta questão, encontradas principalmente entre os parágrafos 257 e 261 da Filosofia do Direito, destacamos: “É o Estado a realidade em acto da liberdade concreta. Ora, a liberdade concreta consiste em a individualidade pessoal, com os seus particulares, de tal modo possuir o seu pleno desenvolvimento e o reconhecimento dos seus direitos para si [nos sistemas da família e da sociedade civil] que, em parte, se integram por si mesmos no interesse universal e, em parte, consciente e voluntariamente o reconhecem como seu particular espírito substancial e para ele agem como seu último fim” (1990, §260). 4 Valor que [do campo da ética e para quem ainda o admite pela indignação ante negação humana recorrente], juntamente com o conceito de desigualdade [de condições materiais e simbólicas, de oportunidades, de qualidade de vida], pode ajudar a constituir condições de possibilidade à produção de critérios e juízos em torno da ação humana, para pensar, por exemplo, a objetivação, expressa ontologicamente pelo trabalho [cujas formas de submissão e exploração estão generalizadas, com acentuada servidão pós-moderna e pós-estruturalista], enquanto transformação da natureza e do homem. Ocorre que a ética encontra-se intensamente virtualizada e a moral encarnada. Apple (1999, p. 15) lembra que “qualquer abordagem que elimine o estético, o pessoal e o ético das nossas actividades como educadores não tem nada a ver com educação. É puro treino”, onde o código de ocultação é a mentira. Convém suspeitar a despeito da refutação aos denominados moralismos: a história da humanidade revela mudanças constantes, produzidas em espaços, tempos e referências diversas. Ora a natureza ditou o critério de compreensão do mundo e das práticas humanas, ora eram deuses eleitos para balizar juízos de realidade e valor. Objetivando romper com paradigmas medievais [dogmáticos, metafísicos e teológicos], a modernidade enunciou o homem senhor da história, mantendo, pelo paradigma da racionalidade, referências epistemológicas, políticas, éticas e ao amor, produzindo rupturas: a moral cristã passa a ser vista como equivocada, levando, por conseqüência, os homens à infelicidade. Criticou a dogmática moral da medievalidade e não abriu mão de referências a partir do que os homens poderiam perguntar-se pelo que faziam ou deviam fazer. Ante o drama vivido na modernidade, não apenas pela onda metafísica, mas pelo vício monológico da razão que acabou tornando-se instrumento do instituído, leituras pós-modernas trazem para o presente o absurdo da referência. Criticam o moralismo clássico, medievo e metafísico moderno, não admitindo estar negando referências para colocar humanos a questionarem-se a despeito da pertinência dos atos que praticam e das representações e conceitos que constituem. Pela razão-sensibilidade, buscar a consistente crítica a um histórico passado constitutivo de moralidades parece querer propor o absurdo do fundamento e da referência, o que não passa de novo fundamento [dogmático] e nova referência, insistindo em ser “um momento pós-moralista [em que o sexo foi desregulamentado]”, atrelado a momento “pós-social [tudo privatizou-se em relações de amor, amizade e parentesco] e pós-conflitual [os pobres foram extintos, a riqueza é parte da genética e todos se confraternizam na classe média]” (LEITE NETO, 2000, p. 2). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 12 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 Filosofia e educação em Paulo Freire: pensando com práticas de formação de professores que estamos diante de um conflito entre o respeito às opiniões éticas de outras culturas e o respeito à vida humana”. Pelo argumento acima, é principal voltar à discussão sobre ética, balizada pelo seu clássico objeto que seria o “estudo dos valores morais, da relação entre vontade e paixão, vontade e razão; [...] idéias de liberdade, responsabilidade, de dever, de obrigação, etc.” (CHAUÍ, 1990, p. 55). Dialogando com Chauí e fazendo Freire falar, é possível concluir que a ação ética é virtuosa se for livre, o que só ocorre se for autônoma, do que resultam conflitos entre a autonomia da vontade do agente ético e a heteronomia dos valores postos pela sociedade. A afirmação de Chauí é referência para pensar a constituição da moralidade na escola, discussão que em Freire ganha centralidade, ao discutir a relação entre liberdade e autoridade. Observando a “natureza” racional, livre e responsável do humano (dimensões que não excluem a afetividade e a sensibilidade, por exemplo), respeitando a racionalidade, liberdade e responsabilidade dos outros, tornando, assim, a subjetividade ética uma intersubjetividade socialmente construída. A dimensão ontológica, evidentemente, está posta, na configuração do presente, neste trabalho. Mas o ponto de partida desde o qual retomamos Freire é a historicidade do seu diálogo com os conceitos filosóficos, com destaque para a “liberdade, a autoridade, a ética e a autonomia”. A filosofia freiriana revela a condição histórica na qual os humanos estão inseridos – não determinados mas condicionados –, e desde a qual constroem, nos limites da possibilidade que experienciam, o jeito que descobrem de ser, a cada dia, mais livres. Só é possível, porém, “navegar” pelas incursões filosóficas de Freire, se tomamos a perspectiva de assumir a necessária condição histórica e social da existência, se reparamos que as circunstâncias tornam muitos desumanos e que, então, a “mão” humana, esperta, “deve” interferir 13 na formação das pessoas para a solidariedade e não para o individualismo. E navegar é preciso! Se a tarefa da filosofia liga-se à conceituação da realidade, Freire o faz ao definir suas intencionalidades educativas, atribuindo, assim, a tarefa educativa, aos humanos, mortais, comuns, enquanto competência da espécie humana, de relevância defensável. Portanto, é preciso afirmar a presença da autoridade no mundo da formação, legitimada não apenas pela superação de autoritarismos e licenciosidades, mas por sua base política e ética, num mundo marcado por graves “desigualdades sociais” econômicas e culturais, bem como por exclusões diversas. Porém, mesmo diante de aparentes certezas, a reflexão não pode jamais abandonar o questionamento, a dúvida; é sua tarefa pôr em crise, criticar: “como conciliar interesses diversos, expressos por pessoas diferentes e singulares que participam, num mesmo momento histórico, de determinado projeto educativo?”. Como conciliar liberdade individual e projeto coletivo? Enfim, quais as estratégias, as teorias e as categorias que podem auxiliar na tarefa de compreender e construir alternativas aos problemas educacionais que enfrentamos, tendo como pressuposto básico a gestão democrática e coletiva da tarefa da formação? Mais ainda: como afirmar, do campo filosófico, a ética universal e o respeito aos valores com os quais os educandos e as educandas, por exemplo, chegam à sala de aula? Mais complexo ainda é admitir que os humanos mudam, surpreendem, positiva ou negativamente, conforme o comportamento desejado – e isto é bom e uma referência sempre necessária. Assim, a filosofia que melhor ajuda práticas de formação inicial de professores não é a “fatalista” – querendo nos fazer crer que nada podemos –, nem a que “superestima a vontade do sujeito histórico, individual ou coletivo”, ou a que nega “o papel dos sentimentos, o valor dos valores éticos” (F REIRE , 2000, p. 94). Na perspectiva filosófica, há uma tarefa de “construção da verdade”,5 que une as pessoas, coletivamente ou em comunhão, quando a intersubjetividade ganha centralidade. A LIBERDADE HUMANA E A PROPOSTA DE FREIRE Considerando o atual momento da história humana e, em particular, tomando por base práticas pedagógicas de professores em formação inicial, ensaiar respostas (sempre provisórias) à problemática da relação e da coexistência da liberdade e da autoridade, que Freire coloca também em relação à disciplina, é a tarefa que se coloca. É o que o autor afirma quando da ausência de disciplina tanto “no imobilismo, na autoridade indiferente, distante, que entrega à liberdade os destinos de si mesma”, como “no imobilismo da liberdade, à qual a autoridade impõe sua vontade, suas preferências como sendo as melhores para a liberdade” (FREIRE, 1993, p. 115-116). É evidente que Freire não nega a vocação ontológica dos humanos para a liberdade, entretanto, chama atenção para o processo histórico a partir do qual é possível identificar a sua negação sistemática para muitas pessoas. E é assim que a “concepção” e a prática da liberdade vão sendo construídas em Freire: “esta luta não se justifica apenas em que passem a ter liberdade para comer, mas ‘liberdade para criar e construir, para admirar e aventurar-se. Tal liberdade requer que o indivíduo seja ativo e responsável, não um escravo nem uma peça bem alimentada da máquina’” (FREIRE, 1982, p. 59-60). Avelino da Rosa Oliveira e Gomercindo Ghiggi A liberdade é dimensão exclusivamente humana porque envolve o campo das decisões. A idéia de liberdade só ganha significado quando relacionada ao homem e à mulher. É no “fenômeno humano” que a liberdade tem sentido, ganha estrutura e é possível identificar a sua gênese. O humano constrói referências, torna-se imprevisível, agindo e reagindo na interação com os outros e com o mundo. A dimensão da consciência da possibilidade da liberdade e da sua ausência é fundamental para que os humanos possam refletir a respeito da mesma e da sua própria história. Isto é, a consciência das possibilidades e dos limites de dispor de si, com os outros, para a “criação” no mundo em que vive, é condição indispensável para que o ser humano possa agir autonomamente. Essa é a dimensão dialética da busca desperta e livre da liberdade, ou seja, “os homens [...] porque são consciência de si e, assim, consciência do mundo, porque são um ‘corpo consciente’, vivem uma relação dialética entre os condicionamentos e sua liberdade” (FREIRE, 1982, p. 105-106). O mundo humano é essencialmente “tarefa cultural”, ou seja, é desafio permanente para a reconstrução do já construído e a construção de novos elementos culturais, parte integrante do mundo da vida de homens e mulheres em sociedade. É a dimensão e a consciência de inacabamento do humano, mesmo que sejamos levados a reconhecer deter minações e condicionamentos na vida de muitas pessoas. A ação humana livre dá-se quando os humanos agem conscientemente, ou seja, quando “sabem o que fazem e por que fazem o que fazem”, mesmo que 5 Pensamos em “construção da verdade” enquanto pretensão permanente “à verdade” tomada como referência-síntese, que fala de coisas que são, que foram e que serão. Com Chauí (1999b, p. 108), entendemos a verdade “frágil e poderosa”: frágil, porque “os poderes estabelecidos podem destruí-la” ou “mudanças teóricas podem substituí-la” e poderosa “porque a exigência do verdadeiro é o que dá sentido à existência humana”. Na mesma linha de argumentação, também Horkheimer precisa ser lembrado. No vigoroso ensaio Sobre o problema da verdade, tomando um ponto de vista histórico-social, Horkheimer logra mostrar como a simultaneidade de relativismo e dogmatismo, própria do espírito burguês, é superada pelo pensamento crítico. A “parcialidade” da verdade, que corresponde na luta social aos interesses de certos grupos, bem como sua “provisoriedade”, a qual supõe uma constante correção ativa, de forma alguma afetam sua “validade objetiva” no contexto histórico em que ela se insere. “Por mais que as experiências adquiridas em observações e conclusões, na pesquisa metódica e nos acontecimentos históricos, no trabalho diário e na luta política resistam aos meios de conhecimento disponíveis, elas são a verdade [...]. Enquanto ela permanecer necessariamente inacabada e por isso ‘relativa’, é simultaneamente absoluta; pois a correção posterior não significa que algo verdadeiro tenha sido antes não-verdadeiro” (H ORKHEIMER, 1990, p. 152-153). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 14 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 Filosofia e educação em Paulo Freire: pensando com práticas de formação de professores enfrentando os limites que as relações sociais impõem. Conforme Mounier (1976, p. 109), importante interlocução filosófica de Freire, “a liberdade não é uma coisa”, mas é existenciada por quem, na condição histórica a que é submetido, pode decidir-se “projeto”, capaz, então, de mudar os rumos da história que vive. Assim, a liberdade é conquista e não manifestação espontânea, da mesma forma que a liberdade absoluta ou sem limites ou é “criação ideológica” de forças ahistóricas ou é mito. Sem a defesa da liberdade na condição histórica em que ela é desenvolvida, não é razoável e consistente a defesa da liberdade abstrata. Esta é, sim, referência para a defesa das liberdades cotidianas. Para tanto, é indispensável a construção da linguagem da possibilidade que “comporta a utopia como sonho possível” e não “o discurso neoliberal, ‘pragmático’, segundo o qual devemos nos adequar aos fatos como estão se dando, como se não pudessem dar-se de outra forma, como se não devêssemos lutar, precisamente porque mulheres e homens, para que se dessem de outra maneira” (FREIRE, 1994, p. 90-91). A liberdade é uma conquista do ser humano ao longo do seu percurso na história. O ser humano aprende a ser livre a cada dia. Neste processo, a educação tem uma tarefa importante: a conquista da liberdade é sua missão permanente e por ela o processo pedagógico legitima-se e tem um critério para a sua realização. Mas, teria o ser humano liberdade incondicional ou viveria em determinismo absoluto? Na perspectiva da “liberdade incondicional”, o humano poderia escolher qualquer ação para realizar, independentemente de constrangimentos externos. Na perspectiva “determinista”, no entanto, o ser humano sofreria constrangimentos internos e externos e apenas teria a ilusão da “escolha livre”. A perspectiva “dialética” de liberdade pode ajudar a superar o impasse exposto, 15 ou seja, o ser humano está envolto em determinações, mas, enquanto ser consciente, (re)conhecendo a situação de contradições em que se encontra, é capaz de atuar sobre a realidade que o cerca e operar mudanças. A questão, portanto, resolve-se, como afirma Freire, no campo da ação humana. Mesmo que se admita a tese de que o ser humano é ontologicamente tanto vocacionado como apto à liberdade, a produção da vida pautada pela liberdade é tarefa de construção cotidiana. AUTONOMIA E INTENCIONALIDADE EDUCATIVA EM FREIRE O que dá sustentação ética à defesa da necessária presença da “autoridade” em processos de formação humana ou em “intencionalidades educativas” é, além da construção e garantia da liberdade, a autonomia do ser humano. Freire não se detém no desenvolvimento de um conceito de “autonomia anterior” ao que a experiência refletida possibilita. A sua reflexão está presente nas incursões que vai fazendo a respeito de “saberes necessários à prática educativa” (F REIRE , 1997). Mais ainda, Freire intitula Pedagogia da Autonomia a uma de suas últimas obras, refletindo exaustivamente temas como “autoridade”, “liberdade”, “competência” e “ética”. O que leva Freire a apresentar, assim, a sua reflexão sobre autonomia? É a própria compreensão de autonomia que o faz seguir o caminho da discussão sobre ética e sua relação com competência e com autoridade. O fim da exclusão do ser humano e a conseqüente inclusão nos processos sociais de construção da vida, em especial o respeito à dimensão humana do educando, confor me Freire, passam pela construção da “autonomia”. Para tanto há que se criticar (no sentido original de “pôr em crise”) permanentemente “à malvadez neoliberal, ao cinismo da ideologia fatalista e sua recusa inflexível Avelino da Rosa Oliveira e Gomercindo Ghiggi ao sonho e à utopia” (FREIRE, 1997, p. 15), pois, de outra forma, não se justifica a preocupação com “autonomia”, porque a história já estaria definida ou pré-determinada. A construção de referenciais para pensar a “autonomia” depende, também, do reconheci-mento de que somos condicionados, mas não determinados. É assim exposta a possibilidade da construção da história. Ou seja, a autonomia realiza-se, historicamente, no saber-se limitado, programado ou inacabado, mas esperançoso de que todo o homem e toda a mulher possam assumir a sua história, ou seja: “nós somos seres indiscutivelmente programados mas, de modo nenhum, determinados. Somos programados sobretudo para aprender ...É precisamente porque nos tornamos capazes de inventar nossa existência” (FREIRE, 1993, p. 126). E Freire continua dizendo que “não apenas temos sido inacabados, mas nos tornamos capazes de nos saber inacabados. Aí se abre para nós a possibilidade de inserção numa busca permanente. [...] Minha esperança parte de minha natureza enquanto projeto. Por isso sou esperançoso, e não por pura teimosia” (FREIRE, 1995, p. 75). O respeito devido à “autonomia” de ser do educando é um dos saberes necessários à prática educativa, dimensão esta radicalmente antropológica, pois não é possível pensá-la sem admitir “a inconclusão do ser que se sabe inconcluso”. Freire (1997, p. 65) reflete sobre o tema “Ensinar exige respeito à autonomia do ser educando”, expondo, com destaque, a coerência que é exigida para quem busca e defende a “autonomia” do educando. Saber que devo respeito à autonomia, à dignidade e à identidade do educando e, na prática, procurar a coerência com este saber, me leva inapelavelmente à criação de algumas virtudes ou qualidades sem as quais aquele saber vira inautêntico, palavreado vazio e vontade arrogante do mestre (FREIRE, 1997, p. 69). Para o educador que sabe que deve respeitar a dignidade do educando, a sua “autonomia” e a sua identidade no processo formativo, Freire aponta a exigência de “realização” e não de “negação” deste conhecimento, o que demanda reflexões permanentes sobre a prática educativa. A avaliação permanente do processo, para o autor, é fundamental. Freire não separa a reflexão sobre “autonomia”, identidade e dignidade do educando. Esta reflexão conjunta exige um qualificado esforço do educador no sentido de diminuir, cada vez mais, a distância entre o que é dito e o que é feito. Partindo da tese de que a “liberdade sem limite é tão negada quanto a liberdade asfixiada ou castrada”, Freire defende a possibilidade da construção da “autonomia”. Autonomia essa que, além de histórica, constrói-se na criatividade e na tensa relação entre liberdade e autoridade. Ou seja, é decidindo, com os outros, que se aprende a decidir, num mundo repleto de “autoritarismos e licenciosidades”. A singular liberdade de cada um cresce no confronto com outras liberdades, com outras opções, com as diferenças. A história, repleta de “perversão social e de exclusão”, exige que se construam “elos de encontro” na busca desperta e utópica de relações sociais dignas para todos (MARTINS, 1996). Portanto, em Freire, liberdade, autoridade e “autonomia” são construções inseparáveis. Na prática docente de professores em formação inicial, tal compreensão garante um processo educativo não descolado do mundo da vida e, por isso, comprometido com a construção de uma história a cada dia mais solidária e mais humana, como um ato também solidário de intervenção no mundo. Freire é extremamente exigente com a coerência pedagógica, ética, humana e social dos educadores: “não há nada talvez que desgaste mais um professor que se diz progressista do que sua prática racista, por exemplo” (FREIRE, 1997, p. 123). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 16 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 Filosofia e educação em Paulo Freire: pensando com práticas de formação de professores Os seres humanos vivem permanentemente em tensão entre o reino da necessidade e o reino da liberdade, conforme se pode depreender da “tradição” da produção filosófica. A dimensão humana, reino de necessidades, não está posta, como em algumas teorias clássicas ou pós-modernas, independentemente da liberdade. O ser humano, mesmo que se admita ser fundamentalmente sujeito de sua própria história, é condicionado em sua situação de liberdade pelas circunstâncias em que vive. A busca da autonomia está, em Freire, diretamente relacionada à condição de possibilidade de realização tanto da necessidade como da liberdade, dimensões, respectivamente, histórica e ontológica, constituidoras do humano. Mais ainda, o humano, em Freire, não é um ser préexistente ou desde sempre constituído, mas constrói-se na medida mesma da construção histórico-social que vai realizando. A construção histórica de que o humano é capaz interfere na formação de si, na transformação dos objetos com os quais interage e, da mesma forma, age sobre os outros. Assim, o ponto de partida para a construção da autonomia do ser humano, e do educando em particular, são os próprios sujeitos envolvidos, o seu mundo, a sua cultura, a representação que fazem de si, da história e dos outros. Freire acentua, neste particular, a dimensão política e a formação da subjetividade através das reflexões sobre consciência e conscientização. A questão da condição de possibilidade para a construção da autonomia e, conseqüentemente, da relação entre liberdade e autoridade interferidora na formação moral do humano, claramente está presente em Freire. É de fundamental importância a compreensão do mundo complexo das relações de poder. O oprimido também é opressor e não apenas potencialmente um ser que carrega consigo a opressão. No cotidiano das relações que experiencia, o oprimido oprime familiares, 17 vizinhança, colegas de trabalho, de escola etc. Esse conceito freiriano não está ultrapassado nem pela história que homens e mulheres continuam fazendo e nem pelo próprio Freire, visto que, em seus últimos escritos (1977 e 2000), fala da necessidade do diálogo permanente. Diálogo que pode ajudar a superar o autoritarismo e que é indicador de uma relação que ultrapassa a própria “atitude licenciosa” e a tendência à “opressão”. É a sempre presente vigilância que todos devemos nos colocar como tarefa. A autonomia é fruto da superação das condições de submissão que vive o humano. A importância da atuação coletiva, do encontro com os outros para atuar na construção de relações mais humanas, é fundamental para Freire e para o projeto de produção da autonomia. É “o encontro”, a ação coletiva e a criação da identidade dos que lutam por vida digna que possibilita, não só o encontro com o outro, mas a própria ação transformadora. Isto só ocorre quando as pessoas forem capazes de ações autônomas, isto é, com consciência crítica e criadora. Freire fala de proposta organizada, competente, diretiva, mas solidária, em que o processo de construção do conhecimento e de luta por vida melhor é realizado em “comunhão com o outro, através do diálogo”, relação em que os sujeitos envolvidos podem tornar-se autônomos. A consciência do inacabamento em Freire é dimensão indispensável ao processo de construção da autonomia. Isso porque tal dimensão permite ao humano inserir-se num processo de “fazer e refazer” a história, processo desafiador, capaz de provocar a necessária “tomada” (mudança) “de atitude” diante do mundo em que está inserido. Concluindo, Freire busca, em sua obra, dar consistência argumentativa à tese a favor da relação entre autoridade, liberdade e “autonomia”. A autoridade legítima possibilita a instalação de condições para a construção da “autonomia” séria, competente e comprometida. A autoridade, neste 18 sentido, tem indispensável presença na formação dos educandos para a autonomia. Conforme defende Freire, a autoridade pode ser presença negativa, isto é, presença que inibe a busca inquieta do educando,que nega a possibilidade da curiosidade “epistemologicamente humana”. Essa mesma autoridade, entretanto, pode ser presença desafiadora, criadora e ética, capaz de produzir for mação comprometida com a Avelino da Rosa Oliveira e Gomercindo Ghiggi construção de uma vida humanamente digna para todos. A “autonomia” é construída, na formação escolarizada, frente à capacidade que o educador tem de atuar com segurança, com competência profissional e com generosidade. Esse é o pressuposto para o exercício da autoridade libertadora ou a serviço da formação para a liberdade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, T. W. Educação e emancipação. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1995. BURKE, P. Mal-estar na civilização. Folha de São Paulo, São Paulo, 2 mai.1999. Caderno Mais! BEAUVOIR, S. O existencialismo e a sabedoria das nações. Lisboa: Estampa, 1967. CALDERA, A. S. Os dilemas da democracia. São Leopoldo: Unisinos, 1996. CHAUÍ, M. Convite à filosofia. São Paulo: Ática, 1999. FREIRE, P. Educação como prática da liberdade. 8. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1978. ______. Pedagogia do oprimido. 11. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982. ______. Professora sim tia não. 2. ed. São Paulo: Olho d’Água, 1993. ______. Pedagogia da esperança. 3. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1994. ______. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra, 1997. ______. Pedagogia da indignação. São Paulo: Unesp, 2000. HEGEL, G. W. F. Princípios da filosofia do direito. 4. ed. 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APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 9-18, 2004 ______. À sombra desta mangueira. São Paulo: Olho d’Água, 1995. APROXIMAÇÕES SOBRE HERMENÊUTICA E EDUCAÇÃO Jose Bolzan1 Hermenêutica é a análise interpretativa das expressões lingüísticas no sentido de desocultar o significado, interpretar e compreender a força expressiva colocada na palavra. (Ernildo Stein). RESUMO Partindo de uma abordagem originária e evolutiva da hermenêutica, o presente artigo tem como escopo oportunizar aos leitores uma aproximação reflexiva sobre a experiência hermenêutica, conceito em torno do qual se estrutura a obra Verdade e Método de Hans-Georg Gadamer. A experiência, enquanto expressão reveladora da finitude humana, é tematizada na fundamentação dialética do ato de perguntar. A linguagem, como medium universal que possibilita a aprendizagem do mundo, permite que a educação se articule via processo comunicativo-dialógico, possibilitando que cada um possa dizer o mundo do seu jeito. PALAVRAS-CHAVE: Hermenêutica. Experiência. Linguagem. Perguntar. Educação. THE APPROXIMATIONS ABOUT HERMENEUTICS AND EDUCATION ABSTRACT Starting from an original and evolutive approach of the term hermetic, this paper has the objective of providing the readers with a reflexive closeness about the hermetic experience, whose concept the masterpiece Verdade e Método, of Hans-Georg Gadamer, is all about. This experience, as a revealing expression of human limitation, is themed in the dialectical foundation of questioning. Language, as a universal means of learning the world, allows for the articulations of the communicative process so each one of us can see the world in our own way. KEYWORDS: Hermeneutics. Experience. Language. Education. Mestre em Educação pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Professor de Filosofia e História na rede pública estadual do Rio Grande do Sul – RS. 1 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano III n. 3 p. 19-32 2005 Jose Bolzan 20 A hermenêutica é a arte da interpretação. Ela representa o esforço da razão no sentido de recolocar a temática da incompletude humana no seu devido lugar. Neste sentido, grandes foram os esforços, principalmente, de Heidegger e Gadamer, entre outros, no sentido de possibilitar a compreensão do complexo mundo humano. A redescoberta da historicidade como categoria fundante da natureza humana permite a revelação do ser a partir da sua finitude. Nesta perspectiva, a hermenêutica desponta como uma reformulação da razão crítica que permite conhecer o mundo por um caminho diferenciado ao do método científico. Para tanto, oportunizamos inicialmente, para os não familiarizados com o tema, uma breve abordagem histórico-etimológica da racionalidade hermenêutica, procurando mostrar a sua relevância no processo crítico de redescoberta da finitude humana no contexto lógico-analítico. Analisando a estrutura sistemática da obra de Gadamer, realçamos algumas das preocupações da publicação, bem como as grandes linhas estruturais do livro. Na seqüência, trazemos à discussão a questão da experiência hermenêutica, mostrando como Gadamer a articula no seu pensar. A efetivação da experiência, entretanto, engendra-se no ato de perguntar como caminho imprescindível para o conhecimento. Perguntar é colocar no aberto o perguntado e ao mesmo tempo abrir a possibilidade de desvelamento do ser. Neste sentido, a pergunta funda o ato dialético de conhecer. Este, por sua vez, é articulado e possibilitado na estrutura comunicativa da linguagem como o medium universal que permite a realização da compreensão. A linguagem é o resultado do empenho dialógico-dialético da razão a qual possibilita a instauração do sentido pela articulação da experiência. Enfim, numa aproximação produtiva entre hermenêutica e educação, podemos dizer que somos, em parte, o resultado dos movimentos culturais e dos processos históricos. Para Gadamer, educar é educar-se no processo dialógico-comunicativo que sempre somos. A educação funda o processo de reinvenção do humano, possibilitando que cada um possa dizer o mundo a partir das próprias convicções. APORTES ETIMOLÓGICOS O termo hermenêutica tem sua origem no vocábulo hermeneia e designa a arte de ‘interpretar’. A significação etimológica vem associada a vários outros sinônimos, ou sentidos afins, como: esclarecer, declarar, anunciar, proclamar, ou ainda traduzir. Esta multiplicidade de acepções gira em torno de um único e fundamental sentido, qual seja, tornar algo compreensível, fazer compreender, levar à compreensão algo por meio de palavras, ou ainda, transportar o sentido conservando o significado de uma expressão vocabular para outra língua. O surgimento da hermenêutica articula-se no contexto religioso grego com o sentido de proclamar ou anunciar. Está vinculada a Hermes, o deus-mensageiro alado da mitologia grega, o qual encarregava-se da tradução dos oráculos (resposta dos deuses). Como mensageiro do sentido, deveria tornar a mensagem divina compreensível para o mundo humano. Por isso lhe são atribuídas a invenção e a difusão da escrita e da linguagem. Segundo Palmer (1989), a hermenêutica foi amplamente utilizada no âmbito da teologia cristã como recurso para traduzir a Revelação. Como comentário aos textos bíblicos é um recurso paralelo à exegese, oportunizando a interpretação da Bíblia enquanto anúncio, tradução e comentário. Na acepção que vigora atualmente, a hermenêutica é resultado do grande processo APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 INTRODUÇÃO APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Aproximações sobre hermenêutica e educação transformador ocorrido na modernidade. No século XIX com Schleiermacher (1768-1834) e Dilthey (1833-1911), ambos ligados à Escola Histórica alemã, toma forma uma hermenêutica de cunho filosófico, cujos esforços se concentraram na elaboração de uma “tecnologia” que pudesse servir de modelo no processo de interpretação, a exemplo do paradigma científico. Na seqüência, Martin Heidegger (18891976), empreende um hercúleo esforço de sistematização da racionalidade hermenêutica, elevando-a à categoria de “fenomenologia do dasein e da compreensão existencial”. Assim, a razão her menêutica assume o caráter de “explicação fenomenológica da própria existência humana. [...] a compreensão e a interpretação são modos fundantes da existência humana” (PALMER , 1989, p. 51). Essas estruturas da compreensão heideggeriana são denominadas existenciais, ou seja, estruturas do poder ser, ou categorias pelas quais o homem se constitui e, portanto, pode ser compreendido. O acesso ao humano articula-se através dos existenciais, como código fundamental, pelos quais é permitido compreender e explicitar as possibilidades humanas. Hans-Georg Gadamer, (1900-2002), radicaliza a questão da finitude humana na sua historicidade. Stein, analisando a obra de Gadamer (1986, p. 36), entende que “[a única possibilidade de se aproximar da questão do homem situa-se na comunicação dos homens entre si. Esta é possível, diz-nos a experiência”. A experiência da linguagem, que é comunicação, oportuniza o encontro dialógico com o ser, consigo mesmo e com o outro. Neste sentido, segundo a interpretação de Palmer (1989, p. 52), “a hermenêutica é um encontro com o ser através da linguagem”. Portanto, é em torno da linguagem que Gadamer radica e articula a possibilidade do entendimento humano. A linguagem é o princípio de racionalidade, através do qual se 21 permite ao homem pensar o todo. É o medium no qual se funda e sustenta todo o conhecimento. O acesso ao objeto se dá via sentido, via significado, permitindo que o saber aconteça mediado pela linguagem. Por isso, a famosa frase de Gadamer (1999, p. 687), “Ser que pode ser compreendido é linguagem”, com a qual pretende sintetizar o seu pensamento. Entretanto, além da hermenêutica de cunho filosófico, que acabamos de mencionar, existem outras for mas de aplicação do questionamento hermenêutico, que são reconhecidamente produtivas quando aplicadas no campo das ciências humanas, tais como: na jurisprudência, na história, na filologia, na teologia e na literatura. Cada uma destas áreas de conhecimento, a seu modo, oportunizam uma abordagem particular ao problema central da interpretação, seja analisando a representação de pontos de vista, seja esclarecendo aspectos diferentes, seja especialmente na questão da interpretação de textos. Enfim, a hermenêutica, enquanto modelo alternativo de racionalidade, permite um olhar crítico revitalizador sobre o paradigma científico. Com isso, abre a possibilidade de uma interpretação que não considera a individualidade objetivamente isolada, mas oportuniza a valorização do caráter histórico-cultural que, de modo inconsciente, carregamos às costas. A ciência precisa reconhecer o papel da hermenêutica no processo de construção e reconstrução do conhecimento, bem como sua tarefa de reaproximar os múltiplos horizontes do mundo da vida com o saber científico, para tornálo mais fecundo. O saber não tematizado oportuniza uma visão diferenciada de ciência que “no nascente paradigma pós-moderno [...] passa a habitar novamente o mundo dos homens, imperfeitos, incompletos e errantes” (COSTA, 1994, p. 42). Portanto, a hermenêutica tem a pretensão de explicitar os muitos âmbitos velados do saber. SOBRE – VERDADE E MÉTODO O livro intitulado Verdade e Método é considerado a mais importante e completa publicação de Hans-Georg Gadamer, no qual expõe, de forma sistemática, o núcleo duro do seu pensamento. Publicado em 1960, faz uma exaustiva crítica sobre a histórica evolução da hermenêutica. O livro oportunizou uma espécie de síntese, como quase sempre ocorre com os grandes pensadores, que permitiu conectar investigações paralelas e fragmentárias sobre a her menêutica de então. Nela assume radicalmente a historicidade da racionalidade expressa na idéia da finitude, procurando demonstrar que o conhecimento acontece sempre mediado por “prejuízos”, isto é, por condições históricas e lingüísticas. O título Verdade e Método justifica-se, segundo Stein, [...] porque na tradição lógicosemântica, toda a verdade está ligada ao método – o método dedutivo e indutivo, fundamentalmente. [...] tenta mostrar, nas três partes do livro, que existem, no nível da experiência da arte, no nível do conhecimento histórico e no nível da linguagem, três verdades que não são verdades produzidas pelo método lógico-analítico. Portanto, ao nível da arte, ao nível da história e ao nível da linguagem, temos um tipo de experiência que produz uma verdade que não é de caráter lógico-semântico (STEIN, 1996, p. 44). Portanto, a idéia da obra, em seu pano de fundo, pretende mostrar que a verdade é um acontecer mediado pela historicidade e pela linguagem, questionando de forma contundente a reivindicação de exclusividade, neutralidade e certeza do método experimental. Com isso, Gadamer aponta para outras for mas de experiência que não se esgotam na subjetividade transcendental do método lógico-analítico, direcionando sua crítica ao chamado processo de ‘distanciamento alienante’ provocado pela objetividade da ciência moderna. A compreensão exige uma fusão de horizontes em que intérprete e texto vão se modificando durante a interpretação. Na verdade, a hermenêutica envereda para uma releitura do mundo, guiada pelo intérprete, que tem diante de si infinitos panos de fundo, tanto do texto quanto de si próprio. Esta releitura e reconstrução nunca é definitiva e nem a verdade reina absoluta e inconcussa. É a relativização das interpretações onde passa a valer também o ponto de vista do intérprete, o qual não consegue permanecer imune (sem envolvimento) ao processo. A hermenêutica, ao contrário do método científico, abre-se para o acolhimento do outro enquanto diversidade e ao mesmo tempo aproxima-se mais da vida, que não se repete no outro da mesma forma. A hermenêutica critica a concepção metódica da objetividade científica oportunizando, em contrapartida, uma noção de “sentido objetivo”. O que é compreendido na compreensão, é verdade, a qual ultrapassa a esfera do conhecimento metódico; como, por exemplo, na experiência de um tu, da arte, da tradição humanística. É por isso que o título de sua obra Verdade e Método deve ser lido com cuidado; talvez primeiramente como contraposição de verdade e método. Mas Gadamer não quer apresentar para essas áreas uma tecnologia da compreensão, portanto, não quer construir um método da compreensão (STEIN, 1986, p. 37-38). Gadamer não está preocupado em construir uma tecnologia da compreensão para explicação ou interpretação de textos. Com isso, foge do cerco de Schleiermacher e Dilthey que queriam, a exemplo das ciências, encerrar a APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Jose Bolzan 22 23 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Aproximações sobre hermenêutica e educação interpretação em um método definitivo para interpretações definitivas. A tarefa de encontrar um método “não é possível nem desejável” (HOLLIDAY, 1990, p. 111). Seu intuito era, com isso, superar as limitações que um provável método viria a impor no trabalho da hermenêutica. Portanto, a crítica refere-se à não aceitação ingênua das imposições da ciência e da cultura, mas através delas identificar e restabelecer o elo da historicidade que as fundamenta e justifica. A partir disso, o horizonte da compreensão da razão her menêutica se abre, dando margem à interpretação. Aliás, é do caráter hermenêutico a concepção de abertura de horizontes que se fundem infinitamente. A obra prima de Gadamer foi, como vimos, propositadamente dividida em três grandes blocos. A primeira trata da análise da obra de arte, a qual vem caracterizada pelo subtítulo: “A liberação da questão da verdade desde a experiência da arte”. Nela o autor procura mostrar que a experiência estética proporciona uma abertura de horizontes que permitem compreender a verdade a partir do simplesmente dado, do não dito. Na segunda parte, que trata da “Extensão da questão da verdade à compreensão nas ciências do espírito”, empreende uma exaustiva e minuciosa análise, através da qual [...] critica o entendimento da consciência histórica como fixação do passado, como algo que paire acima de nós mesmos, porque, ao contrário de qualquer imobilidade, a história é sempre compreendida em referência ao presente (HERMANN, 2002, p. 42). Na última parte, Gadamer expõe a “Virada ontológica da hermenêutica no fio condutor da linguagem”. A oportuna e profunda análise sobre a linguagem permite pontuar sua centralidade e significado no processo de compreensão. Assim, resumindo, com o conteúdo e as pretensões de Verdade e Método: Gadamer realiza a superação da filosofia da subjetividade, vinculando o sujeito que compreende a historicidade. A crítica à consciência estética e à consciência histórica conduz ao abandono da idéia de objetividade e do fundamento cartesiano da ciência moderna, para deixar revelar a verdade na linguagem (HERMANN, 2002, p. 43). A EXPERIÊNCIA HERMENÊUTICA O complexo conjunto temático de Verdade e Método não se limita apenas a uma exposição e comentários reflexivos sobre a filosofia de Martin Heidegger. Com sua minuciosa abordagem de cada tema, Gadamer oportuniza uma reelaboração da hermenêutica filosófica a partir da experiência enquanto revelação da finitude no horizonte da historicidade. Portanto, apoia-se na filosofia de Heidegger, mas nem por isso acompanha o seu ideário filosófico do início ao fim. Segundo Stein, Gadamer, [...] parte de uma situação circunstancial da nossa época em que percebe uma espécie de ponto cego, uma espécie de elemento de estrangulamento das ciências humanas, das ciências do espírito e vê a necessidade de tomar esse elemento como ponto fundamental de sua reflexão. É claro que na hermenêutica filosófica de Gadamer aparece a temática da finitude, a temática da historicidade. Mas o conceito central de Verdade e Método é a expressão “experiência”. O problema da experiência é desenvolvido de várias maneiras, mas sempre dando ao conceito de experiência uma amplitude que substitui de certo modo aquilo que no universo lógico-semântico se chamaria o processo dedutivo. A “experiência” é justamente a expressão com que Gadamer procura nos sugerir Jose Bolzan que temos uma possibilidade de representação ou de descrição de uma totalidade e essa totalidade é totalidade da experiência de mundo. Há, portanto, um universo fundamental do ser humano que pode ser descrito por essa experiência (GADAMER, 1996, p. 69-70). O ponto central, em torno do qual se articula a trama de temas de Verdade e Método, é o conceito de experiência, porque Gadamer percebe que a ciência é absolutamente surda aos apelos da historicidade. O aparato metodológico da experiência lógico-analítica opera com outras categorias, as quais visam neutralizar e isolar o experimento de qualquer antecedente histórico. Como a ciência moderna se articula em torno da objetividade e neutralidade do experimento, a dimensão da subjetividade histórica não pode ter relevância no processo de produção do conhecimento. Assim, para a ciência, Uma experiência só é válida, na medida em que se confirma; nesse sentido, sua dignidade repousa na sua reprodutividade principal. Mas isso significa que, por sua própria essência, a experiência suspende em si mesma sua própria história e a extingue (GADAMER, 1999, p. 513). É da análise crítica da dialética hegeliana que Gadamer vai reter o conceito de historicidade enquanto fundamento para a elaboração e tratamento do conceito de experiência hermenêutica. Neste sentido, um conceito histórico e dialético de experiência deve ser proposto em oposição ao conceito de experiência obtido pela repetição e verificabilidade do método lógicoanalítico. A dialética da experiência resulta, segundo Gadamer (1999, p. 525), não num saber concludente, como pretende o saber da experiência científica, mas essencialmente na “abertura à experiência que é posta em funcionamento pela própria experiência”. Com isso, Gadamer recoloca a experiência na essência histórica do homem. E, por isso, a experiência humana é a experiência dos limites, a percepção consciente e radical da finitude. É experimentado, no autêntico sentido da palavra, aquele que é consciente desta limitação, aquele que sabe que não é senhor do tempo e nem do futuro. [...] A verdadeira experiência, portanto, é aquela que nos ensina a reconhecer o que é real. Conhecer o que é vem a ser, pois, o autêntico resultado de toda experiência e de todo querer saber em geral. [...] A verdadeira experiência é aquela na qual o homem se torna consciente de sua finitude. [...] é, assim, a experiência da própria historicidade (GADAMER, 1999, p. 527-528). A experiência her menêutica implica, fundamentalmente, na abertura acolhedora e reconhecimento do outro como “fim em si mesmo”, como alguém capaz de ser portador de verdade. Se não existe esta mútua abertura, tampouco existe verdadeiro vínculo humano. Pertencer-se uns aos outros quer dizer sempre e ao mesmo tempo poder-ouvir-se-uns-aos-outros. Quando dois se compreendem, isto não quer dizer que um “compreenda” o outro, isto é, que o olhe de cima para baixo. E igualmente, “escutar o outro” não significa simplesmente realizar às cegas o que o outro quer. [...] A abertura para o outro implica, pois, o reconhecimento de que devo estar disposto a deixar valer em mim algo contra mim, ainda que não haja nenhum outro que o vá fazer valer contra mim (GADAMER, 1999, p. 532). Essa dimensão da abertura, do sair ao encontro do outro e acolhê-lo como alteridade, implica também “abertura à tradição que possui a consciência da história efeitual” (GADAMER, 1999, p. 532), significando o fato de estarmos APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 24 Aproximações sobre hermenêutica e educação conscientes de que somos, permanentemente, determinados pelos fatos históricos, os quais, no entendimento de Stein, podem tanto limitar quanto, se explicitados, servir como impulso ao desenvolvimento da compreensão. Assim, colocada como o problema central onde a hermenêutica se estriba, APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 A consciência da história efetual faz com que o sujeito perca a soberania do processo compreensivo [...] de modo que a compreensão seja uma conversação. A verdade é uma abertura de sentido, que ocorre na aplicação da história efetual (HERMANN, 2002, p. 57). Gadamer quer resgatar o “preconceito” como parte essencial do processo de interpretação. Reconhece a historicidade como pano de fundo que dá sustentação ao conhecimento. Denomina “prejuízo” ao efeito da tradição, fazendo um inventário detalhado de como o iluminismo deturpou o significado do termo, deixando escapar o seu verdadeiro sentido, a tal ponto que hoje, no seu uso corrente, predomina o aspecto pejorativo. Portanto, para Gadamer, a experiência, como via de acesso e fonte de todo o conhecimento, permite revelar ao homem, na abertura de sentido que proporciona, a consciência da sua finitude enquanto envolvido e determinado pela trama da história. A experiência, ao mesmo tempo em que revela, abre o mundo para ser conhecido; também o vela. É nesse movimento dialético entre o velar e o revelar que se engendram e se fazem explicitar os limites do humano. O PERGUNTAR HERMENÊUTICO Na tentativa de compreender o fenômeno her menêutico do conhecimento, Gadamer explora em profundidade a dialética da pergunta 25 e da resposta. A experiência, fonte do saber, é fruto do perguntar e, portanto, já o pressupõe antecipadamente, se for um perguntar autêntico. A abertura, que é própria da essência da experiência, tem nela a estrutura do perguntar. Portanto, a experiência e o ato de perguntar se consumam numa e mesma atividade, porque visam um saber que ainda não foi explicitado. Assim, tal como a experiência, o perguntar se funda na negatividade radical do saber que não se sabe. Nas análises que Gadamer faz para aprofundar-se sobre a essência do ato de perguntar, portanto, recua até a “docta ignorância” socrática, a qual sintetiza, de forma magistral, a mencionada aporia do não saber e do saber. Contudo, toda pergunta precisa ter um sentido de orientação, isto é, precisa ser colocada numa determinada perspectiva. Esta perspectiva se funda, basicamente, no não saber e no fato de desejar saber. Portanto, o ato de perguntar é prenhe de negatividade, do saber que não se sabe, do ter consciência da ignorância, o que, por sua vez, vinha explícito no objetivo de Sócrates. Ignorar e saber estão imbricados na estrutura da pergunta que, ao ser efetivada, produz uma espécie de rompimento, ruptura da coisa para a qual a pergunta está direcionada, colocando-a “no aberto”. Na estrutura da pergunta está pressuposto um saber implícito, ou seja, a consciência do não saber e o não saber efetivo que irrompe através da indagação. Por isso, todo o saber se articula através da pergunta, a qual tem a função de colocar “no aberto” o perguntado em sua questionabilidade. Vimos, então, que o perguntar vive da negatividade e da abertura. Em que consiste, todavia, esta abertura que possibilita o rompimento da coisa no ato de perguntar? A abertura colocada pela pergunta consiste, basicamente, em que, no perguntado, a resposta nunca está definitivamente dada. Ela o põe em suspenso. Portanto, perguntar é colocar o perguntado “no aberto”, é postar “no aberto”. “Ele tem de ser colocado em suspenso de maneira que se equilibrem o pró e o contra” (GADAMER, 1999, p. 535). Isso nos dá a entender que no perguntar hermenêutico a resposta nunca é completa, mas condição fundamental para recolocar, sempre de novo, a pergunta. Uma vez colocada a pergunta,ela permanece como que guardiã permanente dessa abertura. O colocar “no aberto” permite revelar o sentido da coisa para a qual a pergunta está orientada. É neste jogo do revelar-velar que a abertura adquire significado, porque produz um novo saber. Neste sentido, para Gadamer (1999, p. 535), a abertura do perguntado consiste em que não está fixada a resposta. O perguntado tem de pairar no ar frente a qualquer sentença constatadora e decisória. O sentido do perguntar consiste em colocar em aberto o perguntado em sua questionabilidade. Portanto, a abertura que a verdadeira pergunta na sua autenticidade proporciona permite colocar em suspenso o perguntado na sua questionabilidade, ou seja, na sua possibilidade de ser sempre recolocada a pergunta pelo desvelamento, sempre incompleto, do seu ser, de tal maneira que se depurem os prós e os contras. Segundo Hermann (2002), a formulação da pergunta implica o jogo dialético entre abertura e limitação. A abertura, no entanto, encontra seus limites nos pressupostos que a sustentam enquanto horizonte onde se situa e para onde está orientada a pergunta. Perguntar é o caminho imprescindível para se aprender. Quem pergunta é porque tem dúvida. Alguém que duvida sente-se inseguro. A insegurança é a filha dileta do não saber. Ela se revela na pergunta, refletindo nosso desejo de encontrar bases sólidas e confiáveis para apoiar nossas opiniões, desejos, anseios, projetos, aspirações, etc. Por isso, a pergunta é reveladora da incerteza, do fato de nos encontrarmos em terreno movediço. O perguntar põe em suspenso os fundamentos nos quais apoiamos nossas convicções. O não saber, expresso implicitamente na pergunta, revela, previamente, uma parcial e incompleta compreensão sobre o que está sendo perguntado. Aliás, é no perguntar e em torno dele que se funda todo o aprendizado. Quem não pergunta é porque, muitas vezes, não se sente provocado. Alguém que não se sente provocado, incomodado, cutucado, não responde porque não precisa dar respostas. É possível viver sem respostas? E sem perguntas? Toda a pergunta implica uma resposta, que, em geral, dá margem a uma nova pergunta. Não existe o perguntar por perguntar, ou um perguntar sem interesse, sem sentido de orientação. O homem além de perguntar pelo mundo, por si mesmo, pela natureza, é capaz de retroceder ainda mais, perguntar pelo perguntar, ou seja, indagar pelo sentido e importância do ato de perguntar. Portanto, é em torno do perguntar que se articula e fundamenta todo o conhecimento humano. A pergunta se articula, ou seja, é formulada, a partir da curiosidade. Quem pergunta é porque não sabe e precisa, deseja, quer, pretende saber. Portanto, saber e pergunta se complementam intrincavelmente. Não há possibilidade de saber sem perguntar, e, por outro lado, não há um perguntar sem um mínimo de conhecimento prévio. Aquele que pergunta já vislumbrou algo, já percebeu, ainda que parcialmente, de forma obscura e sem a devida clarividência, o significado daquilo pelo qual dirige a pergunta. O perguntar origina-se do empenho, do esforço humano, na busca de uma fundamentação última primeira, em busca do porquê, ou seja, quer uma fundamentação causal, justificada racionalmente, para o mundo e as coisas que nele se apresentam de modo fenomênico. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Jose Bolzan 26 Aproximações sobre hermenêutica e educação APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Mas, se a experiência e o perguntar instauram-se como condição fundamental para o conhecimento, exercendo, por isso, sua primazia, uma vez que elas se sustentam na dialética do sim e do não, em que consiste o saber? Qual o conceito do saber para o qual se dirige o perguntar hermenêutico? Segundo Gadamer (1999, p. 538), o saber que se engendra a partir do perguntar hermenêutico significa “entrar ao mesmo tempo no contrário”, isto é, naquilo que não é. Portanto, “o saber é fundamentalmente dialético. Somente pode possuir algum saber aquele que tem perguntas, mas as perguntas compreendem sempre a oposição do sim e do não, do assim e do diverso”. Todavia, na dialética do saber deve constar, necessariamente, a oposição, a consideração do contrário. Com isso, Gadamer pretende demonstrar o limite da idéia de método para o saber her menêutico, baseado no pressuposto de que não há método que ensine a perguntar, mas que tudo depende de que se saiba que não se sabe, ou seja, da consciência da ignorância. Por isso, todo o perguntar e todo o querer saber pressupõe um saber que não se sabe, mas de maneira tal que é um não saber deter minado que conduz a uma pergunta determinada” (GADAMER , 1999, p. 539). Portanto, a dialética da pergunta e da resposta é a arte de buscar a verdade de forma dialógica, a qual permite articular e manter sempre de pé a pergunta, ou seja, sua orientação para o aberto, e, acima de tudo, continuar perguntando, e, assim, continuar pensando. “Chama-se dialética porque é a arte de conduzir uma autêntica conversação” (GADAMER, 1999, p. 540). Entretanto, se o saber vive da negatividade de “entrar ao mesmo tempo no contrário” e se a dialética é a arte da conversação que permite a manutenção do perguntar sempre com orientação 27 para o aberto, qual a estrutura dessa arte de dialogar para o pensar hermenêutico? Como vimos, a pergunta constitui-se no primordial movimento capaz de conduzir à compreensão. Portanto, ela marca a dinâmica que impulsiona os interlocutores do diálogo para a abertura. Não é sem motivo que Gadamer recua e busca refúgio e inspiração para seu pensar no modelo dialógico platônico. Desperta-lhe a atenção o papel desempenhado pelo personagem Sócrates como aquele que, através de perguntas desconcertantes é capaz de levar o interlocutor a entrar no diálogo, ou seja, leva-o estrategicamente a perguntar, assim, tornando possível a conversação. Diálogo este que somente se efetiva na medida em que permite um expor-se reciprocamente dos interlocutores na sua autenticidade. A pergunta abre a possibilidade da instauração do sentido empurrando os interlocutores ao aberto e convocando-os a deixarem envolver-se inteiramente no processo. O verdadeiro diálogo tem sua origem no encontro entre pessoas dispostas a ouvirem-se mutuamente – expondo-se, nas próprias opiniões, à avaliação do outro – e a abrirem-se, nesse mesmo movimento, ao que nunca emergira, até então no horizonte da própria compreensão. Com Sócrates o aprender é um permitir vir à luz – um parir – de verdade, que só nasce no duplo movimento de um dirigir-se a, solicitando, e um receber de, que corresponde àquela solicitação (FLICKINGER, 2000, p. 51). Enfatiza, com isso, não os resultados alcançados no processo dialógico, mas é o próprio processo como movimento circular infindável no qual se instaura a compreensão que entra em questão. Seria justamente a esse movimento circular do diálogo que Gadamer viria a designar de ‘círculo hermenêutico’. É nele, dele, que se estabelece a compreensão, isto é, o saber que é envolvimento elucidativo de parte a parte (FLICKINGER, 2000, p. 51). O diálogo possui a estrutura da pergunta e resposta, e, para isso, torna-se necessário, então, que os interlocutores orientem o assunto para a mesma direção e exercitem-se na arte da compreensão, isto é, saibam se colocar lado a lado. Portanto, o diálogo exige abertura ao outro como alteridade, levando a sério a compreensão de suas proposições. Para Gadamer (1999, p. 541), “levar uma conversação quer dizer pôr-se abaixo da direção do tema, acerca do qual se orientam os interlocutores”. Acompanhar o interlocutor no mesmo passo exige o êxito da compreensão como condição para que o diálogo seja levado adiante. Por isso, “o diálogo requer não abafar o outro com argumentos, mas, pelo contrário, sopesar realmente o peso objetivo da opinião contrária” (GADAMER, 1999, p. 541). O diálogo permite aos interlocutores uma auto-reflexão sobre suas opiniões. Com sua estrutura voltada para o aberto, o diálogo possibilita que os participantes possam chegar a entender-se sobre o objeto da discussão que entrou em pauta. O resultado do diálogo, se for levado a sério, deve levar a um saber mais qualificado do que aquele resultante da simples opinião, porque é um saber que foi sopesado, refletido, tendo passado pelo crivo da crítica. A auto-reflexão ocasionada pelo diálogo autêntico per mite depurar os prós e os contras, possibilitando aos interlocutores a superação qualificada de suas posições, bem como afastarse das simples opiniões. Entretanto, se, como vimos, o diálogo se estrutura, fundamentalmente, no perguntar e responder, o qual permite, a cada vez, recolocar o perguntado “no aberto”, bem como no acolher 2 GADAMER, H. G. Gw8, p. 369-370. e solicitar o outro na sua alteridade, resta-nos, todavia, indagar ainda, sobre a estrutura comunicativa que possibilita e efetiva a articulação dessa dialeticidade dialógica. Ora, o diálogo articula-se sempre com a mediação da linguagem. Para Gadamer, a linguagem é o medium universal, isto é, o lugar, a morada do ser e da realização da própria compreensão. Ela permite-nos formular, na pronúncia, na ação, a trajetória histórico-cultural da qual emana o sentido. O sentido, no entanto, é algo que se inscreve na palavra, que é a articuladora da mensagem, permitindo a revelação do ser, isto é, sua colocação “no aberto” para ser compreendido e anunciado. O sentido, segundo Stein (1996, p. 36), “é algo no qual nós nos movemos, que, em boa parte, já nos é dado”. Compreender é sempre um ato lingüístico que possibilita sopesar o assunto, sempre tendo em conta a opinião do outro. Sua forma de realização é a interpretação. A linguagem que permite a compreensão é portadora de um sentido que enraíza-se nas experiências do mundo da vida, formando a tessitura, plena de sentido, que inconscientemente carregamos às costas. Portanto, no diálogo dizemos o que já sempre, de alguma for ma, somos e através do qual encontramo-nos encadeados um-com-o-outro. Linguagem é diálogo. Uma palavra que não chega ao outro é morta, pois, o diálogo é com o outro, e cada palavra necessita no momento concreto o tom correto e irrepetível, para que supere a outra grade, a grade do ser diferente e que chegue ao outro (GADAMER, apud ROHDEN, 2000, p. 174).2 A comunicação somente se efetiva na inauguração do ato interativo da escuta e da compreensão. A linguagem permite operar a abertura do significado do ser pela palavra, oportunizando, assim, a atribuição de um sentido. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Jose Bolzan 28 Aproximações sobre hermenêutica e educação APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Por isso, para Stein (1996, p. 16), “o ser humano só conhece através dos conceitos, só conhece através da linguagem [...] somente é racional porque seu acesso ao mundo se dá via sentido, via significado, via conceitos, via palavras, via linguagem”. Entretanto, é preciso ter claro que, para Gadamer, “linguagem não é, aliás, somente a linguagem de palavra. Há a linguagem dos olhos, a linguagem das mãos, mostrar e nomear, tudo isto é linguagem e confirma que linguagem é sempre na relação de um-com-o-outro” (GADAMER , apud ROHDEN , 2000, p. 162). Portanto, a linguagem é tomada por Gadamer num sentido amplo como toda forma de expressão que inaugura a covivencialidade humana, a qual não se limita somente àquela dos símbolos lógicos. A linguagem é a morada do ser e, por isso, habitamos na palavra. Na linguagem sentimo-nos em nossa casa. Nós não apenas possuímos uma linguagem pela qual efetivamos diálogos intercomunicativos, mas somos efetivamente linguagem, nos tornamos humanos a partir dela. [...] enquanto medium da experiência hermenêutica, ela não apenas veicula e faculta nossa capacidade de conceituar o real, mas nela mesma nós vivemos, somos, nos espelhamos, nos projetamos e conceituamos. [...] nos movemos [...] e pensamos, num processo cujo fim não está dado antecipadamente, mas “padecido” e construído historicamente no diálogo entre temporalidade e eternidade, entre contingência e liberdade (ROHDEN, 2000, p. 202). Por isso, para Gadamer, “O ser que pode ser compreendido é linguagem”. HERMENÊUTICA E EDUCAÇÃO A hermenêutica é uma formulação da racionalidade cuja verdade não se apóia nem no objetivismo cientificista, nem no absolutismo das 29 soluções metafísicas. O fundamento da verdade brota das articulações da vida cotidiana mediados pelo discurso. É, por isso, um conhecimento que se enraíza nas relações práticas da vida cotidiana, portanto muito antes de qualquer tematização racional, o que permite a articulação de outros sentidos possíveis para a prática educativa. A possibilidade de apoiar a verdade na dimensão compreensiva das múltiplas falas que atravessam o processo educacional possibilita que a educação auto-esclareça suas próprias bases fundamentadoras. A crítica da hermenêutica ao objetivismo metodológico da ciência moderna abala os fundamentos da matriz epistemológica sobre a qual se instaura o pensamento pedagógico atual. A idéia de método remete ao imobilismo dogmático do primado da teoria. Gadamer, como vimos, ao criticar o método lógico-analítico leva-nos a considerar a insuficiência da nossa tradição educativa, cuja tese fundamental se apoia na idéia de formação (Bildung). Partindo da radical finitude humana, portanto da historicidade, a percepção hermenêutica de Gadamer aponta para o leque de horizontes, ou panos-de-fundo, que se fundem como possibilidade de conexão no universo educacional. A rejeição da idéia da ‘tábula rasa’ rearticula o papel da tradição e dos “prejuízos” como condição de compreensão do processo educativo. “Gadamer nos permite e estimula a explicar o papel que desempenha a tradição na compreensão e a criticar a idéia de que a educação só tem a ver com a idéia da transferência de conhecimentos” (HOLLIDAY, 1990, p. 114). Para Gadamer, reportando-se a Sócrates, “só se pode aprender através do diálogo”. Quando um fala, sempre fala a alguém, ou seja, estabelece uma relação intersubjetiva. O falar exige a presença de alguém que escute e compreenda o que está sendo dito. Portanto, a educação, na realidade, somente se torna fecunda no diálogo interativo que favoreça a troca recíproca de experiências. Por isso, “a educação é educar-se. [...] nos educamos a nós mesmos, que um se educa e que o chamado educador participa somente [...] com uma modesta contribuição” (GADAMER, 2000, p. 15). A primeira experiência da convivência com o outro é o aprendizado da palavra. O falar inserenos no mundo humano da comunicação. Inicialmente se restringe à imitação de sons. Formulações que vão adquirindo significação na relação comunicativa. A pronúncia da palavra realiza a experiência mais significativa de aprendizado do mundo humano. É no diálogo que, fundamentalmente, nos inscrevemos como humanos. A educação se funda na capacidade de comunicar-se interativamente com os outros. Somente nos educamos porque, já sempre, estamos enraizados no mundo da palavra que sustenta e abre o mundo humano para a experiência do sentido. O diálogo oportuniza reelaborar a experiência a partir da exposição ao risco, ou seja, efetivamente se aprende a partir dos próprios erros. Para Gadamer, o diálogo é, desde sempre, o ponto articulador do processo educativo, sem o qual é impossível a aprendizagem. Aprender é poder dizer com as próprias palavras, a partir das experiências pessoais, o que se aprendeu. Saber é, portanto, primeiramente saber dizer, isto é, expressar de forma própria aquilo que sabe. Por isso, cada saber é um saber particular com características pessoais, porque vem reelaborado a partir das experiências circunstanciais histórico-culturais e das convicções pessoais, com as devidas ênfases que brotam do equilíbrio entre coração e razão. Assim, se faz necessário o acréscimo da experiência pessoal para que o saber se articule como aprendizagem. Por isso, educar-se depende, antes de tudo, em potencializar as próprias forças na relação permanente com a comunidade viva das pessoas e coisas, também dos valores e tradições, costumes e ambiente. Jose Bolzan A vida na comunidade se organiza em torno da convivência. Este fato, segundo Gadamer, oportunizou que o homem, pelo desenvolvimento da linguagem, se sobrepusesse a toda a criação. De fato, nos educamos com os outros. Nos tornamos humanos na relação, na troca de experiências, onde a cada um é dada a oportunidade de reeditar e validar o seu conhecimento. A convivência cria laços e articula o processo de formação da cultura, assim como a transmissão dos valores. A comunidade, instaurada no convívio, se torna fecunda a partir da articulação do encontro com o outro nas suas objeções ou sua aprovação. O cultivo de novas experiências e o intercâmbio faz despertar as forças que dormitam como potencialidades internas. A relação entre educador e educando oportuniza o despertar da Pedagogia para a compreensão mais ampla do horizonte vivencial de cada educando. Por isso, o processo educacional não se restringe apenas a uma mera transmissão de conhecimentos, mas envolve também um conjunto de fatores indizíveis, não tematizados e possivelmente não tematizáveis que dão sustentação às nossas ações. Assim, a hermenêutica ocupa o seu espaço no processo educacional enquanto orientadora das ações de interpretação compreensiva da fecunda herança cultural que carregamos às costas. A hermenêutica nos permite, portanto, perceber que a racionalidade não existe em sua forma pura, ela sempre vem permeada de um conteúdo de experiência, como forma de aprendizado da radical finitude humana. A racionalidade se constitui a partir da palavra, do falar, escrever, enfim, na possibilidade de dialogar. Através da palavra ocorre a transmissão da cultura e torna-se possível a educação pela inserção do homem no mundo humano que é o mundo da linguagem, da comunicação. Nisso está o sentido do ato de educar, termo tão controvertido na atualidade. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 30 31 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 Aproximações sobre hermenêutica e educação A hermenêutica mostra-nos que enganamse os que acreditam que educar encerra-se no ato de ensinar o resultado das ciências, os costumes e a tradição, como saberes já instituídos e invioláveis. É, segundo ela, o ato de oportunizar o rompimento com o estabelecido, com o fixo, com o aparentemente imutável, certo e acabado. Ensinar, portanto, consiste em favorecer ações comunicativas que motivem o questionamento. A curiosidade é uma aliada indissociável do perguntar. O próprio ato de educar se funda na curiosidade despertada pelo diálogo com o mundo. Mais precisamente, o ato de educar se funda, dialogicamente, na capacidade humana de questionar o tido como acabado e definitivo. Evidentemente, não é o que vemos hoje em nossas escolas. Nelas a pergunta perdeu o seu lugar. Muito mais, perdeu o sentido, a razão de ser. Educar hoje se restringe apenas a repetir sem qualquer indício de problematização. Portanto, a educação é um processo de hominização onde a vida é, fundamental e essencialmente, reinvenção permanente, abrir caminho, romper amarras, apostar no inédito. Para Gadamer (2000), “a educação é educar-se, a formação é formar-se”, isto é, nos educamos a nós mesmos através do diálogo em comunhão com os outros no mundo. Com isso, a hermenêutica filosófica aposta na idéia de que não há uma fórmula pronta para educar, mas que esta se dá na experiência da convivência permanente de uma situação em processo. A educação funda-se nas potencialidades, nas experiências, e principalmente nos erros. É através das falhas que o aprendizado se instaura e valida numa conotação particular. A educação efetivase como possibilidade no ato comunicativo que sempre somos, justamente ali onde a linguagem, que se realiza plenamente no diálogo, atua como medium na transmissão consciente ou inconsciente dos “prejuízos”, dos desejos, anseios e projetos. Segundo Stein, Nós não somos apenas sujeitos que apreendem a massa de informação que nos é oferecida nas escolas, nas especializações, mas somos indivíduos produzidos pelos movimentos culturais, pelos processos históricos involuntários, portanto, temos uma biografia que não se compõe apenas pela rigidez de certos parâmetros oficiais (STEIN, 1996, p. 52). Enfim, o paradigma hermenêutico abre a possibilidade de uma educação que considere não apenas o indivíduo isoladamente. Todo o seu caráter histórico e cultural entra em questão, articulando a crítica e apontando alternativas para a superação dos modelos educacionais vigentes, vinculados ao instrumentalismo do paradigma científico. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS COSTA, M. V. Pesquisa ação e hermenêutica: interpretando a tradição em educação popular. Educação & Realidade, Porto Alegre, v. 19, n. 2, jul./dez. 1994. FLICKINGER, H-G. Da experiência da arte à hermenêutica filosófica. In: ALMEIDA, C. L. S; FLICKINGER, H-G; ROHDEN, L. Hermenêutica filosófica: nas trilhas de Hans-Georg Gadamer. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. p. 27-52. GADAMER, H-G. Verdade e método. Petrópolis: Vozes, 1999. ______. La educación es educarse. Barcelona: Paidós, 2000. HERMANN, N. Hermenêutica e educação. Rio de Janeiro: DP&A, 2002. 32 Jose Bolzan HOLLIDAY, J. Educación, gerencialismo y mercado. Madrid: Morata, 1990. PALMER, R. E. Hermenêutica. Lisboa: Edições 70, 1989. ROHDEN, L. Hermenêutica e linguagem. In: ALMEIDA, C. L. S.; FLICKINGER, H-G; ROHDEN, L. Hermenêutica filosófica – nas trilhas de Hans-Georg Gadamer. Porto Alegre: EDIPUCRS, 2000. p. 151-202. STEIN, E. J. Aproximações sobre hermenêutica. Porto Alegre: EDIPUCRS, 1996. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 19-32, 2004 ______. Crítica da ideologia e racionalidade. Porto Alegre: Movimento, 1986. NIETZSCHE EDUCADOR: NOTAS PARA A REDEFINIÇÃO DA FILOSOFIA Gislene Almeida1 RESUMO Digressão em torno da III Intempestiva nietzschiana, cujo destaque é o problema da formação do indivíduo, bem como o do engendramento do gênio que, por sua vez, se converteria num autêntico mestre. Aborda, também, o aspecto platônico da III Intempestiva, tecendo uma distinção conceitual entre “reino do pensamento” e “reino da razão”. PALAVRAS-CHAVE: Gênio. Formação do indivíduo. Platonismo. NIETZSCHE ÉDUCATEUR: DES NOTES POUR LA REDÉFINITION DE LA PHILOSOPHIE RÉSUMÉ Il s´agit d´une digression autour de la Troisième considération intempestive nietzscheenne, dont le relief est le problème de la formation de l´individu, ainsi que celui de la naissance du génie qui, de son côté, deviendrait un maître autentique. On aborde aussi l´aspect platonique de la Troisième considération intempestive, en établissant une distinction conceptuelle entre “royaume de la pensée” et “royaume de la raison”. MOTS-CLÉS: Génie. Formation de l´individu. Platonisme. Mestranda em Filosofia pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj). Professora da Universidade do Estado da Bahia (Uneb). 1 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 33-38 2004 Em um artigo da revista Arts, de 1964, intitulado Il a été mon maître, Deleuze nos revela a sua admiração por Sartre enquanto um autêntico mestre, aliás, porque autêntico, mestre. Em um mundo cujo sentido da “formação do indivíduo” tem caído em desuso, em favor de um processo irrefletido de “informação” fragmentária, é mesmo de se louvar de maneira entusiasta o achado de um mestre, ou, se se preferir, um “pensador privado” e não um “professor público” (D ELEUZE , 2002, p. 109) ou melhor, um “professador” de um conjunto vazio de pensamento. Em seus escritos sobre educação, Nietzsche põe em relevo uma série de problemas concernentes à criação e desenvolvimento do que ele entende por verdadeira cultura. Vale sublinhar que falei acima em “formação do indivíduo” e não formação de um povo ou de uma cultura, isto porque o indivíduo, a vida, é sempre anterior e hierarquicamente superior à cultura, esta vem a serviço da revelação da natureza humana, e não o contrário, visto que a natureza humana (se me é permitido aqui utilizar a terminologia platônico-nietzscheana tão difusamente presente na III Intempestiva) diferente da dos outros seres, só se revela através da cultura, ou das “culturas” (KOFMAN, 1973, p. 146). Destarte, o que importa na sua formação é mesmo a experiência que cada um irá tecer na paulatina descoberta de si e do significado da sua existência, para além das determinações históricas em que se encontra: também por isso a educação é assunto filosófico. Farei aqui uma breve digressão em torno da III Intempestiva nietzscheana intitulada Schopenhauer Educador. A leitura desta intempestiva remete-nos à imagem de um Nietzsche à procura, tal como Diógenes, o cínico, de um Homem, mestre para si, os de seu tempo e também para a posteridade. Neste Homem convergiriam as três expressões Gislene Almeida máximas da espécie, a saber, o filósofo, o artista e o santo. Porém, é sobre o papel do primeiro que Nietzsche dedicará a sua pena de forma mais detida. Em matéria de filosofia, para Nietzsche, o que interessa mesmo é o filósofo, é o rastro, o índice e o ícone que o mesmo imprimirá na história. Rastro na medida em que deixa um legado de seu pensamento, índice enquanto, a partir da sua expressão integral (vida e obra), vivencia também os “perigos de época”, e ícone porque coincide com um expoente dos “perigos do gênio” ou o que podemos chamar também de “os perigos da vida filosófica”, susceptíveis a qualquer gênio de qualquer época, a saber, “a solidão, o desespero da verdade e os limites morais e intelectuais do homem” (NIETZSCHE, 2003, p. 150-160). Hoelderlin e Kleist, por exemplo, sucumbiram a estes perigos. Só as naturezas fortes podem suportá-los, dentre estes Nietzsche destaca Beethoven, Goethe, Wagner e Schopenhauer. E é a este último que Nietzsche, desconsiderando a fraqueza para com os limites morais ou, para dizer de outro modo, a santidade, confere o estatuto de mestre. Nietzsche destaca os “limites morais e intelectuais do homem” como o perigo que requer maior acuidade, uma vez que cada um guarda em si a possibilidade de endurecimento moral e intelectual, o que frustraria todo projeto criador. Schopenhauer é, nesse sentido, um “milagre”. Entretanto, mais que falar de Schopenhauer como educador, Nietzsche oferece-nos uma inflamada reflexão acerca do que vem a ser a tarefa do mestre, das condições de seu surgimento e, o que é mais importante, das condições em que o mesmo é sentido como necessário no interior de determinada sociedade. Semelhante a Tales que “vislumbrou a unidade do ente, e, quando quis comunicar, falou da água” (N IETZSCHE , 1987, p. 32), Nietzsche, ao vislumbrar o exemplo do mestre Schopenhauer, quando quis comunicá-lo, falou “de si mesmo”: APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 33-38, 2004 34 Nietzsche educador: notas para a redefinição da filosofia APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 33-38, 2004 De que modo entendo o filósofo, como terrível corpo explosivo diante do qual tudo corre perigo, de que modo tanto distancio meu conceito de filósofo de um conceito que inclui até mesmo um Kant, para não falar nos ruminantes acadêmicos e outros professores de filosofia: sobre isso esse trabalho dá inestimável ensinamento, mesmo concedendo que no fundo não é “Schopenhauer educador”, porém seu oposto, “Nietzsche educador”, que assume a palavra. – Considerando que naquele tempo meu ofício era o de erudito, e talvez que eu “entendia” do meu ofício, não é sem significância um acre fragmento de psicologia do erudito que aparece subitamente nesse trabalho: ele exprime meu “sentimento de distância”, a profunda segurança sobre o que em mim pode ser “tarefa” ou apenas meio, entreato e ocupação secundária. É inteligência minha haver sido muitas coisas em muitos lugares, para poder tornar-me “um” – para poder alcançar “uma” coisa. Por um tempo eu “tive” de ser também erudito – (NIETZSCHE, 1995, p. 70-71). Nietzsche (2003, p. 157) reconhece, portanto, quatorze anos mais tarde, que traçou uma “psicologia do erudito”, observando qual seria o “comportamento” ou a expressão de um mestre para que seja digno do título. Mestre é aquele que está a serviço da “correção da physis”, pois é nesses termos que Nietzsche concebe a cultura. Em outras palavras, mestre é aquele que nos aproxima daquilo que a natureza “gostaria que fôssemos”, se lhe fosse possível essa tarefa teleológica a qual o autêntico educador toma para si. O mestre deve ser uma espécie de artista plástico do espírito, por assim dizer: A beleza dos vasos antigos, diz Schopenhauer, brota do fato de que eles exprimem com uma grande ingenuidade o que são e o seu objetivo; e ocorre assim também com todos os outros utensílios 35 dos Antigos: na sua presença, se percebe que, se a natureza produzisse vasos, ânforas, lâmpadas, mesas, cadeiras, elmos, escudos, couraças, etc., estas coisas teriam exatamente este mesmo aspecto. Inversamente, aquele que observe como quase todo mundo hoje lida com a arte, com o Estado, com a religião, com a cultura – para não falar, e com razão, dos nossos “vasos” – este encontrará os homens mergulhados num certo barbarismo arbitrário e num exagero da expressão, e, para o gênio que virá, este é precisamente o principal obstáculo que está em curso nesta época, cheia de noções tão excêntricas e necessidades tão quiméricas: estes são os pesos de ferro que tão freqüentemente, invisíveis e inexplicáveis, fazem dobrar a mão quando se quer guiar a charrua – de tal sorte que, mesmo as suas obras mais elevadas, precisamente porque são elevadas à força, devem também carregar consigo, até um certo ponto, a marca desta violência (NIETZSCHE, 2003, p. 203-204). “Qual é então o valor da vida em geral?” (NIETZSCHE, 2003, p. 163), esta é a pergunta decisiva que cumpre ao filósofo elevar ao patamar em que deveria estar normalmente. No bojo dessa questão se encontra uma outra: qual “a imagem de homem” que queremos? Da resposta a estas questões deriva a ação, que é necessariamente uma luta que visa a esculpir este homem dado na imagem. Não podemos esperar que o Estado se preocupe com tais questões, a este cabe apenas proteger o seu território em caso de ameaça exterior. No que tange à promoção da cultura, o Estado só pode ser conservador ou reacionário, visto que a cultura tem como objetivo primaz o engendramento do gênio que ditará a hierarquia dos valores humanos. Dentre as três “imagens de homem” que Nietzsche destaca, a saber, a de Rousseau, a de Goethe e a de Schopenhauer, é, como se poderia esperar, a deste último que Nietzsche toma como a mais encorajadora porque Gislene Almeida o homem de Schopenhauer assume para si o sofrimento voluntário da veracidade e este sofrimento serve para mortificar sua vontade pessoal e para preparar a subversão, a total transformação do seu ser, alvo que constitui o objetivo e o sentido verdadeiros da vida (NIETZSCHE, 2003, p. 171). Uma vez exposto o ideal de homem que se quer, Nietzsche toca o problema concernente à fundamentação da possibilidade do educar. Tratase de retirar deste ideal o conjunto de regras que per mitem passar do transcendente para o gerenciamento da ação, mostrando assim que “este ideal educa” (NIETZSCHE, 1988, p. 51). O homem ao qual se aspira tem como objetivo não a felicidade, visto ser a mesma impossível, porém o heroísmo. Trata-se, portanto, de moldar um herói da veracidade, que não sucumbe à inserção na “história do devir”, e assume a tarefa de “destruir tudo o que pertence ao devir, trazer à luz toda a falsidade das coisas” (NIETZSCHE, 1988, p. 174). Reconhecemos aqui uma expressão sólida do platonismo em Nietzsche. Charles Andler chega a afirmar que esta é a noção mais difícil de aceitar Ela tenderia a fazer crer que a obra da educação é impossível, como em Schopenhauer. Como modificar um caractere “inteligível” escondido no fundo de nós como uma forma pura imóvel? Porém esta fixidez não existe na representação, e ela é, já, uma forma da consciência. O real profundo são os instintos moventes; é o esforço da vontade única onde eles se integram. O que é fora do tempo é esta memória onde residem os arquétipos das imagens, dos caracteres, e esta vontade que nos oferece, na representação, seus aspectos diversos. Pode, portanto, existir, no eterno, o múltiplo não numérico, mas qualitativo, como existe, no pensamento de um mesmo artista, uma multidão de imagens, por onde se traduz, entretanto, uma mesma força criadora. Uma tal força plástica trabalha em cada um de nós. O eterno em nós é justamente esta força movente, que se manifesta na consciência sob a forma de um estilo único de todos os nossos atos, ou seja, de um caractere. Falta liberar esta energia (ANDLER, 1958, p. 206-207). Esta bela interpretação do platonismo nietzscheano põe-nos em contato com o que chamarei aqui de “reino do pensamento”, em contraposição ao “reino da razão”. O primeiro seria regido pelo tempo aiônico: “o tempo é uma criança, criando, jogando o jogo de pedras; vigência da criança” (HERÁCLITO, 1999, p. 73). O pensamento é caracterizado por sua expressão fragmentária, aleatória, indisciplinada, etc., enquanto a razão é caracterizada por uma démarche lógica, pela expressão do logus, do discurso que pretende “adequar-se” ao ser, ao real. Nietzsche, nesse momento de sua filosofia, encontra-se indefinido no que concerne à adoção de um modo de vida que assuma como diretriz o pensamento (com todas as conseqüências de uma vida inspirada no devir e no acaso) ou a razão (fundamentando assim um ideal asceta). Essa indefinição é constatada mais uma vez através da leitura das últimas partes de Schopenhauer educador: percebemos uma vigorosa crítica aos eruditos, aos professores de filosofia que fazem uma “filosofia de professores”, ou seja, retiram da filosofia tudo o que há de vivo, de mobilizante, de inquietante, em uma palavra, o pensamento, a favor da exibição de uma erudição estéril, cuja conseqüência é um acesso de náusea por parte dos jovens estudantes após a submissão a um exame de filosofia. Temos aqui a contraposição, já abordada no Nascimento da Tragédia, entre homem trágico e homem teórico. Nietzsche julga malogrado o projeto platônico de a filosofia ficar sob a tutela do Estado. Este último peca justo na seleção daqueles que viriam a ser os produtores e APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 33-38, 2004 36 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 33-38, 2004 Nietzsche educador: notas para a redefinição da filosofia propagadores do pensamento filosófico. Contra os grandes filósofos por natureza se encontram os maus filósofos pela graça do Estado. A mediocridade e a hipocrisia são intrínsecas ao processo de burocratização da filosofia, na medida em que se fixa previamente hora, lugar, público e assunto para o filosofar – o que, na maioria dos casos, resulta numa fria reprodução da história da filosofia. Este é o maior dos males: transformar a filosofia em uma atividade ridícula. Nietzsche comenta que “daqui e dali, um dentre eles [filósofos universitários] se envolve ainda em torno de uma pequena metafísica – com as conseqüências habituais: vertigem, dor de cabeça e sangramento de nariz” (NIETZSCHE, 1988, p. 89). Para Nietzsche, o que realmente interessa numa filosofia é a demonstração de que se pode viver segundo a mesma e é isto o que as universidades de então (e, parece, as de hoje também) não têm feito. Nietzsche chega mesmo a desconfiar de que a função do Estado concorre mais para impedir o nascimento do verdadeiro filósofo do que promover os meios necessários para o seu surgimento. O Estado atém-se apenas a fazer bons funcionários e não a formar homens livres e cultivados. Diante disto, que alternativa resta então para a filosofia? Nietzsche não hesita [...] é uma necessidade para a cultura retirar à filosofia este reconhecimento do Estado e da Universidade e dispensar absolutamente o Estado e a Universidade da tarefa insolúvel para eles de distinguir entre a verdadeira filosofia e a filosofia aparente. Deixar, portanto, crescer os filósofos ao estado selvagem, recusar-lhes toda perspectiva de emprego e utilidade nas profissões civis, não lisonjear-lhes mais com os tratamentos, melhor ainda: perseguirlhes, olhar-lhes com desfavor – vós vereis os milagres! (NIETZSCHE, 1988, p. 91). 37 Ao verdadeiro mestre de filosofia é dada a tarefa de fazer ver que a essência do homem não está nele, mas acima dele, e esta essência é a criação, mesmo que o indivíduo tenha que perecer para afirmar a criação. A educação, projetando sobre os homens as ilusões salutares, estimula esta energia interior. Ela consiste em enobrecer o esforço onde o homem se consome. O enobrecimento pode vir a todos de uma fascinação projetada sobre eles por uma grande personalidade. Esta educação não pode ser imposta. A revelação se faz por uma via de doçura. Segundo nossas afinidades e nossas forças, nós teremos de descobrir, no presente e no passado, os mestres que queremos imitar. Entraremos, por uma disciplina voluntária, no seu raio de ação. Teremos o sentimento de participar da continuidade dos mais nobres momentos da história e do pensamento. Nossa imitação será sempre original. Aprenderemos dos grandes homens o segredo por onde chegaremos a esta própria maturidade. Os modelos sucessivos e cada vez mais elevados que nos propusemos para os venerar, nos ensinaram somente a lei da nossa individualidade, apta a subir uma escala infinita de perfeições. É uma indicação de nosso temperamento a série de nossas admirações sucessivas. Elas indicam nossa esperança secreta, ampliada sem cessar. Elas são uma luz que nos antecede sobre o caminho que abrimos a nós mesmos (ANDLER, 1958, p. 207). A educação deve promover não o conhecimento de si, mas a liberação de si em prol de uma causa mais nobre, a saber, o engendramento do gênio, porque só ao gênio “é permitido não temer entrar na mais hostil das contradições com as formas e os regulamentos existentes, caso ele queira manifestar claramente a verdade e a ordem superior que carrega no seu interior” (N IETZSCHE , 2003, p. 151). Para Gislene Almeida 38 Nietzsche, só o gênio é capaz deste desprendimento; ele próprio deixou de ser professor público para ser um “pensador privado”, bem como Sartre. Os pensadores privados possuem duas características: uma espécie de solidão reservada para si em todas as circunstâncias; porém também uma certa agitação, uma certa desordem do mundo onde eles surgem e no qual eles falam. [...] Porém, maior ainda que a solidão do pensador privado, é a solidão daqueles que procuram um mestre, que desejam um mestre, e não puderam encontrá-lo em um mundo agitado (DELEUZE, 2002, p. 110-111). Havemos ainda de reconhecer que, neste “mundo agitado” em que nos encontramos, mesmo a necessidade íntima de um mestre já seria um sinal de emancipação. Os modos de vida se encontram tão depauperados, que a procura de Nietzsche, de um mestre desligado das condições oferecidas pelo Estado, uma espécie de sofista dos tempos atuais, ainda nos soa inteiramente intempestiva, de vez que os valores permanecem invertidos. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDLER, C. Nietzsche: sa vie et sa pensée. Paris: Gallimard, 1958. v. 1 et 2. DELEUZE, G. L’Île déserte et autres textes. Textes et entretiens 1953-1974. Édition préparée par David Lapoujade. Paris: Minuit, 2002. NIETZSCHE, F. A filosofia na idade trágica dos gregos. Lisboa: Edições 70, 1987. ______. Oeuvres philosophiques completes II: Considérations inactuelles III et IV – Schopenhauer éducateur; Richard Wagner à Bayreuth / Fragments posthumes début 1874 – printemps 1876. Paris: Gallimard, 1988. ______. Ecce homo: como alguém se torna o que é. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. ______. Escritos sobre educação. Rio de Janeiro: PUC-Rio; São Paulo: Loyola, 2003. ______. Seconde consideration intempestive: De l’utilité et de l’inconvénient des études historiques pour la vie. Paris: Flammarion, 1988. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 33-38, 2004 KOFMAN, S. Le/les “concepts” de culture dans lês “Intempestives” Ou la doublé dissimulation. In: PEYROU, C. Nietzsche aujourd’hui? Paris: Union Générele D’Éditions, 1973. Coletiva de textos apresentados pelo Centre culturel international de Cerisy-la-Salle, realizado em julho de 1972. (n. 2: Passion). CONSIDERAÇÕES INTRODUTÓRIAS SOBRE A PRESENÇA DA INDÚSTRIA CULTURAL NA SOCIEDADE PÓS-MODERNA: EM FAVOR DA TEORIA ESTÉTICA NA EDUCAÇÃO Clédson L. Miranda dos Santos1 RESUMO Este artigo traça o perfil da Indústria Cultural, fenômeno marcante da sociedade industrial capitalista, a partir da leitura de algumas obras dos pensadores da Escola de Frankfurt. Defende a idéia de uma teoria estética aliada a uma teoria crítica como contrapartida aos efeitos da cultura massificada, bem como demonstra que, se a educação trabalhasse a partir da experiência estética, aliada à produção cognitiva, estaria buscando alternativas para superar a bestialização generalizada, a qual Adorno denomina “barbárie estilizada”. PALAVRAS-CHAVE: Escola de Frankfurt. Indústria cultural. Ideologia. Alienação. Teoria Estética. SOME INTRODUCTORY CONSIDERATIONS ABOUT THE PRESENCE OF THE CULTURAL INDUSTRY IN POST-MODERN SOCIETY: IN FAVOR OF THE AESTHETIC THEORY IN EDUCATION ABSTRACT This paper traces an outline of the Cultural Industry, as an outstanding phenomenon of the capitalist society, based on the reading of some books by the Frankfurt School of thinkers. The paper defends the aesthetic theory idea allied to a critical theory as counterpart to the mass culture effects, as well as shows that if education worked from the aesthetic experience, allied to the cognitive production, it would be searching alternatives to surpass the generalized bestiality, which Adorno calls “styled barbarity”. KEYWORDS: Frankfurt School. Cultural industry. Ideology. Alienation. Aesthetic theory. 1 Pós-graduado lato sensu em Filosofia Contemporânea pela Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc). Professor da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 39-47 2004 Em Dialética do Esclarecimento, mais precisamente no capítulo sobre a indústria cultural, Horkheimer e Adorno defendem a tese de que, na sociedade industrial, tudo se transforma em artigo de consumo. O mercado capitalista reduz todas as formas de produção cultural em objeto de compra e venda. Tudo é negociável, pois tudo adquire o status de mercadoria. Artes plásticas, cinema, tevê, religiões, ideologias..., tudo sucumbe a uma uniformização mercadológica imposta pela lógica consumista do capital. “Até mesmo as manifestações estéticas de tendências políticas opostas entram no mesmo louvor do ritmo de aço” (ADORNO; HORKHEIMER, 1985, p. 113). A essência da atenção que as massas prestam aos meios de comunicação (rádio, cinema, revistas...) é, segundo Adorno e Horkheimer (1985), o reconhecimento do que se familiariza através da repetição excessiva de determinadas fórmulas. Essas fórmulas de produção cultural em massa se padronizam através do êxito no consumo. Se determinada fórmula logrou êxito, tende-se a repeti-la, porquanto ela é garantia de consumo. Essas circunstâncias intensificam a passividade social através da criação de pseudonecessidades para produtos supérfluos, ou seja, cria-se a idéia consensual de que se produz o que realmente é necessário. Essa uniformização da técnica gera uma centralização cada vez maior do poder das classes hegemônicas, porque, ao passo que as “mercadorias” são consideradas por todos como gênero de “primeira necessidade”, as consciências se uniformizam e, dessa forma, as forças de permanência perpetuam o status quo da sociedade industrial. A indústria cultural é responsável pela “barbárie estilizada”, um termo usado por Adorno para se referir à uniformização das mercadorias e à pseudodemocratização dos meios de acesso a Cledson L. Miranda dos Santos essas mercadorias. Foi abolida a distinção entre cultura de elite e cultura popular. A ideologia de que há igualdade e democratização dos meios mascara as extremas desigualdades que se estabelecem na sociedade. O mecanismo de venda dos produtos culturais não oportuniza às esferas menos favorecidas da sociedade o acesso aos bens materiais de forma igual às classes altas, pelo contrário, contribuem para a decadência e para a falta de expressão dos “bárbaros”. Assim, evidencia-se a intenção dos meios de comunicação de massa que, ao estilizar determinadas tendências artísticas, elevam-nas ao status de melhor produto para ser vendido; é o que acontece com a música, por exemplo. Veicula-se desde country music, passando pelo axé, forró, brega, dance, pagode e outros ritmos. Na verdade, o que se quer é vender. Todavia, o discurso é o de dar “oportunidade” às massas populares de se expressarem, “valorizando” a sua cultura. Essa política de pseudovalorização da cultura popular cria uma falsa imagem de igualdade social e disfarça as enormes disparidades sociais. Adorno e Horkheimer (1985) postulam que a cultura de massas não é cultura e tampouco é por elas produzida. A indústria cultural trabalha com embustes e simulacros. A novidade é bemvinda, desde que se enquadre nos padrões estabelecidos e não perturbe a ordem das coisas. Para que os produtos da indústria cultural sejam acessíveis, é indispensável que se elabore uma linguagem comum, um “idioma universal” que todos compreendam. Um código legível que evita a complexidade e oferece aos produtos uma interpretação literal e mínima. O sistema de comunicação da indústria cultural esquematiza uma semiótica que atinge um número cada vez maior de espectadores. A educação promovida pela mídia é a educação do condicionamento pela repetição; um adestramento que visa à promoção de uma cultura “agramatical” e “desortográfica”. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 40 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 Considerações introdutórias sobre a presença da indústria cultural na sociedade pós-moderna: em favor da teoria estética na educação A educação que promoveria uma “contracultura” a essa “cultura de massa” está circunscrita aos poucos que conhecem as amarras ideológicas do sistema capitalista e tentam promover uma conscientização contra os simulacros da sociedade do capital. Essa luta contra-ideológica só pode ser levada adiante, se for mostrado o conectivo entre a cultura massificada e a persistência das injustiças e discrepâncias sociais. Analisando, mesmo que superficialmente, os programas de massa, a partir de um determinado nível crítico, percebe-se que os noticiários e programas informativos, bem como os de entretenimento, apenas mostram o que é conveniente. Destarte, a verdade se torna algo parcial e manipulável. A realidade é recortada e montada de tal forma que o espectador, ouvinte ou leitor tenha uma visão direcionada para o que é conveniente ser verdade; uma verdade induzida. Até a nossa sexualidade é condicionada por estímulos provenientes da indústria cultural. A sociedade capitalista conseguiu elaborar um mecanismo de desvio da libido para fins não sexuais. Para garantir a sua sobrevivência enquanto grupo, a sociedade impõe a seus membros uma série de restrições na utilização de sua energia libidinal. A esse mecanismo de canalização da libido para fins de cunho nãosexual Freud (1969) chama de sublimação. Marcuse (1981) vem denunciar essa nova forma de dominação social. Segundo ele, a sociedade capitalista, baseada na exploração do trabalho humano, exacerba a repressão sexual. Para que o capital pudesse se desenvolver, foi necessário que essa energia libidinal fosse desviada para fins de progresso social, através da dedicação quase que exclusiva ao trabalho. O homem se vê “dessexualizado”; reprimido em seus desejos 41 individuais. Para que a sociedade capitalista tivesse a sua sobrevivência garantida e chegasse onde chegou, foi preciso reprimir o uso individualista da libido e desviá-la para fins que garantissem a segurança social, através do trabalho. Marcuse (1981) denomina essa medida de “mais repressão” (em analogia à “mais valia” de Marx). A sociedade do capital tem uma moral sexual repressiva. No momento de nossa socialização, internalizamos esses valores, padrões e normas de comportamento e tornamos nossa essa moral opressora, com todos os seus tabus, preconceitos e crendices necessários à manutenção da ordem das coisas: exploração da força de trabalho humana. Fala-se tanto de repressão sexual! E o que dizer dessa tão propagada liberdade sexual exposta pela mídia? Corpos e rostos sensuais cercam nossa atenção diariamente. O sexo é veiculado nos anúncios de forma constante. Pode-se considerar esse fato como um indício de que nossa epocalidade é marcada por uma maior liberdade sexual? Foucault2 (1984) afirma que o discurso é uma forma de exercer o poder sobre o outro. Estamos sempre proferindo discursos na tentativa de, pela palavra, impor nossa dominação ao outro. Todo discurso é um discurso de dominação, de imposição. Os meios de comunicação de massa, através da propaganda, veiculam uma forma de discurso sexual dominador. O que ocorre é um enquadramento de nossa libido aos padrões veiculados pelos mass media. Essa “variedade” de “opções” sexuais, serviços por telefone, casas de massagem, malhação, culto ao corpo “perfeito” indicam que estamos agindo como o sistema nos per mite. Nosso prazer está ajustado às possibilidades que nos oferecem. E tudo o que 2 Embora não seja um “teórico de Frankfurt”, a referência ao nome de Michel Foucault insere-se neste artigo pelo fato de este pensador haver tratado da questão da sexualidade na sociedade contemporânea de forma bastante pertinente ao conteúdo aqui exposto. contraria o que está posto deve ser abolido, eliminado. Assim, fica vedada a liberdade sexual como também a tão defendida “opção sexual”. A possibilidade de exercer uma sexualidade que corresponda aos nossos desejos “verdadeiros” é praticamente nula. Numa sociedade onde a produção é alienada, o consumo inevitavelmente se torna alienado. O homem perde-se de seu centro. Fica fragmentado e diminuto. Perde a sua dimensão de humano e se reduz à mercadoria. É o que Marx chama de reificação do homem em oposição ao fetichismo da mercadoria. A mercadoria adquire um poder quase que miraculoso, fantasmagórico, nos anúncios veiculados pelos meios de comunicação de massa. As imagens adquirem uma plástica incrível, só mesmo existente nos anúncios. É interessante notar que a indústria cultural trabalha com o princípio da não-satisfação das necessidades e dos desejos humanos. O princípio da frustração ou da satisfação incompleta é necessário para que o cliente, insatisfeito ou parcialmente satisfeito, volte a desejar os efeitos miraculosos da mercadoria, porquanto as suas necessidades ainda não foram sanadas. Todavia, essa insatisfação se dá de modo bastante subliminar. É necessário que fique implícito que o produto não garanta a satisfação completa, pois o sujeito desejante necessita de algo que supra (embora esse objeto de desejo nunca, ou quase nunca, supra) a sua necessidade de ser. Marcuse (1973) classifica o homem contemporâneo como “unidimensional”, ou seja, as perspectivas humanas, que são a expressão do próprio homem, se reduzem a uma só face, a uma só dimensão. Na sociedade capitalista, o consumidor é a única dimensão assumida pelo homem, como também é a sua expressão. O indivíduo perde a capacidade de crítica e contestação e qualquer possibilidade de oposição é descartada. Cledson L. Miranda dos Santos Para compreender melhor como a indústria cultural se estabelece a partir da reprodutibilidade técnica das obras de arte, faz-se necessário compreender como se deu a cisão entre civilização e cultura. Civilização seria o mundo concreto da reprodução material, o mundo do trabalho, da necessidade, da matéria, o mundo da exterioridade. Cultura tinha a ver com o mundo das idéias e dos sentimentos elevados, com a liberdade, felicidade, lazer, espírito, interioridade. Fica evidente que, numa sociedade capitalista, onde uma maioria detém os meios de produção e a mais-valia, apenas um pequeno grupo pode usufruir dessa “cultura”, e do acesso aos bens culturais como a pintura, a música, etc. Essa separação em dois mundos permitia a justificação da exploração da maioria que sofria num trabalho desumano. Uma vez no poder, a burguesia fala de igualdade abstrata para gozar da liberdade real. Se o primeiro intento da dominação cultural era separar a produção material (civilização) da produção de bens espirituais (cultura), o passo seguinte foi baixar a cultura de seu pedestal e disseminá-la entre as massas. O processo foi, então, transformar a obra de arte e a cultura em mercadoria; processo esse viabilizado pela revolução técnico-industrial. As fábricas, que produziam bens de consumo, passaram a produzir bens de consumo cultural para todos: imprensa, fotografia, cinema, disco, cassete, vídeo, etc. Adorno afirma que ele e Horkheimer preferiram usar o termo indústria cultural em lugar de cultura de massa, que poderia tratar-se de algo como uma cultura surgindo espontaneamente das próprias massas ou da forma contemporânea da arte popular. Freitag assevera que A separação entre a produção material [civilização] e a produção de bens espirituais [cultura] não era a forma mais adequada para dissimular as estruturas do novo sistema de produção. A fim de tornar os trabalhadores dóceis e APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 42 Considerações introdutórias sobre a presença da indústria cultural na sociedade pós-moderna: em favor da teoria estética na educação APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 submissos, não bastava recorrer à dicotomia entre civilização e cultura, entre escassez material externa e riqueza espiritual interna. Tornou-se imperioso mudar os padrões de organização da produção cultural, que foi sendo gradativamente cooptada pela esfera da civilização, isto é, sendo absorvida pelo sistema da produção de bens materiais que reestruturou inteiramente as formas de circulação e consumo da cultura (FREITAG, 1994, p. 70). A cultura, tornada mercadoria, perde sua característica de cultura e se transforma em valor de troca que ajuda, por sua vez, a reproduzir o sistema. Onde a mercadoria reina absoluta, tudo precisa se transformar em mercadoria: a arte, as idéias, os valores espirituais, as invenções, a criação. O comercial visto na televisão deixa de ter o caráter único, singular, deixa de ser expressão de criatividade, da genialidade de um artista, poeta ou publicitário. É uma mercadoria e como mercadoria é tratada: comparada, vendida, consumida. O lucro predomina sobre o filosófico, o estético, o religioso, o literário. Analisando nossa sociedade e a função da comunicação, não se pode deixar de ver que as explicações fornecidas pela elite que produz mensagens e explicações de mundo usam a ideologia para tornar suportável a contradição. A dominação passou da esfera corporal, biológica, para a esfera psíquica e para a manipulação das consciências. O verdadeiro pecado passa a ser o desejo que os homens têm de bens de consumo, e não a organização geral que os impede de chegar a eles. Na sociedade administrada, a sociedade da cultura afirmativa, isso configura o caráter repressivo desta sociedade que continua a reproduzir em seus membros as necessidades que ela mesma estimula, de modo que os indivíduos continuem a reproduzir a sociedade. Adorno critica Hegel e Marx, quando afirma que a 43 dialética desenvolvida por eles recaía no caráter afirmativo do existente. Critica o pensamento por um sistema fechado e a totalidade hegeliana, que pretende abarcar a realidade sem fissuras do Absoluto. Para combater este problema, o caráter afirmativo da cultura, Adorno (apud MATOS, 1993, p. 91) defende que é necessário o desenvolvimento de uma dialética negativa dizendo que [...] poder-se-ia chamar a dialética negativa de um anti-sistema. Com os meios da lógica dedutiva, a dialética negativa rechaça o princípio de unidade e a onipotência e superioridade do conceito. Sua intenção é, ao contrário, substituí-los pela idéia do que existiria fora do embuste de uma tal unidade. Os pensadores de Frankfurt não partilham da mesma opinião quando o assunto é a reprodutibilidade da obra de arte. Para Adorno, Horkheimer e Marcuse, a indústria cultural, aparentemente democrática, pelo fato de se ter uma fácil reprodutibilidade técnica, nega o acesso às “grandes obras” da cultura a um contingente muito grande de pessoas. O que se promove é uma bestialização generalizada, através de produtos de fácil acesso e baixa qualidade. A autonomia de pensamento das classes populares sucumbe aos estímulos fantásticos da indústria cultural. Esta, por sua vez, promove a ideologia generalizada de que evidencia e veicula as formas de expressão das camadas populares. Entretanto, o que se observa é uma obliteração, em escala industrial, das consciências. A reflexão crítica cede lugar ao entretenimento perverso. As guerras, os genocídios, a violência nas cidades e no trânsito, o tráfico de drogas, as catástrofes naturais, etc. misturam-se aos bailes funk, ao carnaval multicolorido das escolas de samba, aos programas de variedades, à beleza anabolizada Cledson L. Miranda dos Santos dos modelos, às “popozudas”, “cachorras” e “preparadas”, num espetáculo de belo horror, produzindo uma banalização do colapso social no qual estamos inseridos. Para Benjamin, ao contrário do que pensam Adorno, Horkheimer e Marcuse, a reprodutibilidade em série da obra de arte permite um acesso maior a esta. Embora a arte perca a sua unicidade, aumenta o seu valor de exposição. É ilustrativa a seguinte passagem de Freitag (1994, p. 74-76) quando afirma que No culto religioso medieval, o valor de exposição da obra de arte é praticamente inexistente, sendo enfatizado quase que exclusivamente seu valor de culto. A obra de arte se mantém escondida, inacessível ao olhar do espectador. [...] Na medida em que o mundo se dessacraliza, a obra de arte vai sendo liberada para o olhar do espectador. Mas, o valor de culto não desaparece. Ele sobrevive nas formas seculares da arte como culto do belo. A idealização extrema da arte mostra claramente sua origem religiosa [...]. O valor de exposição aumenta, sem que se perca o elemento cultural, que continua presente na “aura” da obra de arte. O objeto aurático é caracterizado pela unicidade [einmaligkeit] e a distância [entfernung]. O espectador permanece fascinado pela “aura”. A “aura” é uma espécie de invólucro que envolve a obra de arte [...]. [...] a passagem do período burguês para a sociedade de massa está caracterizada pela perda da aura. A perda da aura ocorre em conseqüência de dois fatores básicos: a tecnificação crescente do mundo e a reprodutibilidade técnica da obra de arte, que leva a uma massificação do consumo dos bens artísticos. Ambos os fatores decorrem da modernização da sociedade burguesa do século XIX. [...] para Benjamin, com a perda da aura, se destrói a unicidade e a singularidade da obra de arte, mas, ao perder o seu valor de culto, seu valor de exposição se intensifica. A obra adquire uma nova qualidade: ela se torna acessível a todos, seu consumo generalizado se torna possível, ela adquire, por assim dizer, um novo valor: um “valor de consumo”. Considerando-se que há diferenças no modo de pensar e até mesmo divergências entre os teóricos críticos, não se pode negar que há também entre eles uma concordância fundamental, que é o próprio pressuposto da teoria: tudo contém sua negação, tudo contém sua contradição. Assim como a cultura, a arte, os meios de comunicação em geral têm como função representar a ordem existente, eles, também, denunciam, criticam, mostram as contradições dessa ordem. A cultura pode reprimir, pela força do passado, mas liberta e acena com um futuro diferente. As dimensões conser vadora e emancipatória, no campo da cultura, andam de mãos dadas. Segundo Freitag (1994, p. 77), Marcuse, Horkheimer e Adorno, bem como Benjamin, são unânimes em atribuir à cultura em geral, e à obra de arte em especial, uma dupla função, a de representar e consolidar a ordem existente e ao mesmo tempo a de criticála, denunciá-la como imperfeita e contraditória. Essa dupla função decorre do caráter ambíguo da própria cultura de ser, ao mesmo tempo, a depositária das experiências passadas de repressão e das expectativas de melhoria, de aperfeiçoamento: ela critica o presente e remete ao futuro. A dimensão conservadora e emancipatória da cultura e da obra de arte encontram-se, pois, de mãos dadas. Diante do quadro que até aqui fora exposto, ficam algumas indagações básicas: poderá o homem conciliar a satisfação dos seus reais desejos com as imposições da civilização? Haveria APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 44 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 Considerações introdutórias sobre a presença da indústria cultural na sociedade pós-moderna: em favor da teoria estética na educação alternativas a essa dominação? Que papel caberia à Filosofia e à Educação na promoção das mudanças aspiradas? Qual seria uma possível solução para o quadro de degradação ao qual chegou a sociedade industrial? Como se promoveria às camadas populares um acesso maior às “grandes obras” da cultura e como fazêlas se expressar de forma não alienada? Contra essa realidade de exploração do homem e da natureza pelo homem, os teóricos de Frankfurt propõem uma gratuidade de deleite estético. Numa perspectiva estética, a imaginação produtora e criadora e as potencialidades de libertação do Eros das amarras da civilização repressiva e castradora podem promover uma significativa mudança social. A arte (não a reprodução massificada pela técnica) transcende as determinações de tempo e de espaço. Ela promove uma reconciliação do homem com a natureza interior e exterior, porque rompe com a submissão à produtividade do mundo utilitarista e competitivo, centrado no incentivo à produção em massa e na renúncia ao prazer. A esse respeito, Marcuse (apud M ATOS , 1993, p. 110-113) escreve: A arte está ligada a uma percepção do mundo que aliena os indivíduos de sua existência funcional e da realização de seu desempenho funcional – arte está voltada para a emancipação da sensibilidade, da imaginação e da razão em todas as áreas de subjetividade e objetividade. Mas esse sucesso supõe um grau de autonomia que arranca a arte da potência de mistificação do dado e a libera, permitindo-lhe exprimir a verdade que lhe é própria. Na medida em que o homem e a natureza são constituídos por uma sociedade nãolivre, seu potencial reprimido e deformado só pode ser representado sob uma forma que distancia e destaca. O mundo da arte é o de um princípio de realidade diferente, o da alteridade; e 45 é por sua alteridade que a arte preenche uma função cognitiva: comunica verdades que não são comunicáveis em nenhuma outra linguagem, ela contradiz. [...] O caráter afirmativo da arte tem ainda uma outra fonte, pois a arte está engajada ao lado de Eros, afir ma imperativamente os instintos de vida em sua luta contra a opressão social e instintual. A permanência da arte, sua imortalidade histórica ao longo de milênios de destruição testemunham esse engajamento [...]. Nesse sentido, renunciar à forma estética é abdicar de sua responsabilidade. Abdicação que priva a arte da forma mesma pela qual ela pode criar esta outra realidade no interior da realidade estabelecida: o universo da esperança. O direito à cultura é o direito de acesso aos bens culturais, e a compreensão destes bens é o ponto de partida para a transformação da consciência das classes populares. É necessário considerar que os bens culturais não nascem apenas do esforço dos “grandes gênios”. Assentir com esta idéia de que só “os grandes” produzem cultura é elitizá-la e restringir o seu alcance. Fazse mister considerar que os excluídos da dita “alta cultura” a ela devem ter acesso. A indústria cultural produz uma maior exclusão dos indivíduos das classes menos favorecidas quando desfigura a sua cultura, criando arranjos técnicos para “satisfazer o gosto das massas”. Uma grande questão se coloca agora: Como criar nas massas populares o gosto por uma cultura desbarbarizada? Como dar acesso às classes populares a esse tipo de produção cultural? Adorno (2000, p. 155-156) vê na educação uma alternativa para a “desbarbarização” das consciências e a formação de um espírito negador do caráter afirmativo da cultura: A tese que gostaria de discutir é a de que desbarbarizar tornou-se a questão mais Cledson L. Miranda dos Santos urgente da educação hoje em dia. O problema que se impõe nesta medida é saber se por meio da educação pode-se transformar algo de decisivo em relação à barbárie. Entendo por barbárie algo muito simples, ou seja, que, estando na civilização do mais alto desenvolvimento tecnológico, as pessoas se encontrem atrasadas de um modo particularmente disforme em relação à sua própria civilização – e não apenas por não terem em sua arrasadora maioria experimentado a formação nos tempos correspondentes ao conceito de civilização, mas também por se encontrarem tomadas por uma agressividade primitiva, um ódio primitivo ou, na terminologia culta, um impulso de destruição, que contribui para aumentar ainda mais o perigo de que toda esta civilização venha a explodir, aliás, uma tendência imanente que a caracteriza. Considero tão urgente impedir isto que eu reordenaria todos os outros objetivos educacionais por esta prioridade. Eu começaria dizendo algo terrivelmente simples: que a tentativa de superar a barbárie é decisiva para a sobrevivência da humanidade. Não seria demasiadamente ingênuo pensar que a educação promoveria a emancipação das classes menos favorecidas pelo sistema social vigente? Como visar a uma educação libertária, considerando-se que esta tem de enfrentar a institucionalização do sistema de ensino, que se constitui num aparelho a serviço da ideologia do sistema social no qual está inserido? Adorno discorre: A educação seria impotente e ideológica se ignorasse o objetivo de adaptação e não preparasse os homens para se orientarem no mundo. Porém, ela seria igualmente questionável se ficasse nisto, produzindo nada além de well adjusted people, pessoas bem ajustadas, em conseqüência do que a situação existente se impõe precisamente no que tem de pior. Nestes termos, desde o início existe no conceito de educação para a consciência e para a racionalidade uma ambigüidade. Talvez não seja possível superá-la no existente, mas certamente não podemos nos desviar dela (ADORNO, 2000, p. 143-144). A Teoria Estética, e principalmente a música, seria uma forma consistente de negar e criticar as condições de barbárie. De acordo com Freitag, A perplexidade com o real, os horrores do nosso tempo, o fracionamento da vida cotidiana podem ser magistralmente expressos nessa forma estética: a música erudita de vanguarda. Mas a música meramente incorpora de forma enigmática e codificada um texto que precisa ser decifrado, interpretado, revelado. Esse papel cabe à teoria estética, que em sua “leitura” da representação musical do real decodifica e traz à tona os elementos críticos e contestadores nela contidos, permitindo, assim, uma análise e uma crítica das for mas materiais de organização da sociedade. Nesse sentido, a teoria estética se revela superior à teoria crítica que, bem ou mal, per manecia vinculada a um conceito de razão cuja integridade já tinha sido questionada na Dialética do Esclarecimento e na Dialética Negativa. Nessas obras, Adorno havia expressado sua profunda desconfiança em relação ao próprio ato do pensamento (FREITAG, 1986, p. 83). Adorno reconhece, assim, que a arte é a última barreira, a “reserva ecológica” da sociedade, onde permanecem a esperança e a utopia, que transcendem o status quo alienador. É aqui que se pode começar a falar de alternativas e a constatar como nossa sociedade, nosso povo, continua resistindo à avalanche avassaladora da dominação cultural. A Teoria Estética nos fornece APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 46 Considerações introdutórias sobre a presença da indústria cultural na sociedade pós-moderna: em favor da teoria estética na educação elementos para poder mos compreender alternativas que estão sendo geradas, principalmente a partir das camadas populares, na construção duma sociedade nova, diferente. É claro que essas próprias alternativas vão sendo, algumas vezes, cooptadas e recuperadas pela máquina do sistema. Mas sempre permanecem abertas. Contra todo o totalitarismo, contra toda 47 a dominação, o artista ainda consegue entrever o reino da possibilidade, a brecha da liberdade, o raio de luz que mostra num caminho diferente, novo. Através da Teoria Estética, consegue-se perceber, na arte, os momentos críticos e a negatividade que ela representa, compreendendo a realidade em suas múltiplas dimensões contraditórias. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ADORNO, T. W.; HORKHEIMER, M. Dialética do Esclarecimento: fragmentos filosóficos. Rio de Janeiro: Zahar, 1985. ______. Educação e emancipação. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2000. FOUCAULT, M. A vontade de saber. Rio de Janeiro: Graal, 1984. FREITAG, B. A Teoria Crítica: ontem e hoje. São Paulo: Brasiliense, 1994. FREUD, S. O mal-estar na civilização. Rio de Janeiro: Imago, 1969. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 39-47, 2004 MARCUSE, H. A ideologia da sociedade industrial: o homem unidimensional. Rio de Janeiro: Zahar, 1973. ______. Eros e civilização: uma interpretação filosófica do pensamento de Freud. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. MATOS, O. C. F. A Escola de Frankfurt: luzes e sombras do Iluminismo. São Paulo: Moderna, 1995. OS DIÁRIOS REFLEXIVOS E OS PROCESSOS METACOGNITIVOS NA PRÁXIS EDUCACIONAL Jussara Midlej 1 RESUMO Este artigo fundamenta-se nas discussões que têm orientado o debate acerca da formação de profissionais da educação e da práxis educacional numa perspectiva crítico-reflexiva, apontando para uma redefinição do papel docente. Ao longo do texto, a pesquisa-ação é tomada como uma das alternativas no processo de formação de gestores-pesquisadores. O estudo apresenta uma concepção de pesquisa como atitude do profissional que investiga sua própria prática no intuito de aperfeiçoá-la continuamente, tendo o Diário Reflexivo como um dos instrumentos de reflexão e tematização das experiências vividas. Aliado a isso, aborda a estrutura do pensamento das pessoas, envolvendo a reflexividade em dimensões metapráxica e metacomunicativa, produzindo-se, por meio de interiorização progressiva, condutas de desvelamento das experiências e das percepções, explicação, argumentação e conseqüente aprimoramento do trabalho educacional. PALAVRAS-CHAVE: Formação docente. Práxis educacional. Professor-pesquisador. Diários reflexivos. REFLEXIVE DIARIES AND THE MET COGNITIVE PROCESSES IN THE EDUCATIONAL PRAXIS ABSTRACT This paper is based on the discussions that have oriented the debates about the professional educational training and the educational praxis in a critical-reflexive perspective, which points to a redefinition of the role of the teacher. This action research is taken as an alternative in the process of researcher and manager formation. The study presents a research concept in which the professional researches his/her own practice with the objective of continually improving it. The study uses the Reflexive Diary as an instrument to reflect on living experiences. Besides, the study addresses the structure of people’s thought, involves reflectivity in met cognitive dimensions, and produces development procedures of experiences, perspectives, explanations, discussions, and a consequent betterment of educational task. KEY-WORDS: Teacher training. Education praxis. Researcher. Reflective diaries. 1 Doutoranda em Educação pela Universidade Federal da Bahia (Ufba). Professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 49-61 2004 Não há ensino de qualidade, reforma educacional, nem inovação pedagógica sem uma adequada formação de profissionais da área de Educação. Nesse sentido, há uma tendência contemporânea de formar agentes sociais, no dizer de Veiga (2002, p. 84), “capazes de planejar e gerir o ensino-aprendizagem e de intervir nos complexos sistemas que constituem a estrutura social e profissional”. Nessa perspectiva, a formação de pessoas para atuar nesta categoria deverá acontecer na direção de ampliar a autonomia destas, criando-lhes possibilidades de aquisição e ampliação de elementos conceituais propiciadores de uma consciência crescentemente crítico-reflexiva, tanto num nível individual quanto coletivo. Diante disso, é de suma importância, nessa atualidade, 2 que os professores aprendam a pensar de forma sofisticada antes que possam ensinar os estudantes a fazê-lo3 (KINCHELOE, 1997, p. 38; LIBÂNEO, 1999, p. 27-29). A esta perspectiva de configuração da profissão do agente educacional, conjugam-se os estudos etnográficos e até a análise do discurso num compromisso com um projeto de educação crítico, emancipatório. Novamente é preciso destacar-se a importância do estudo do pensamento prático – não apenas dos professores, também dos gestores – como fator que influencia e determina a práxis4 educacional, verificando-se que eles possuem teorias (teorias práticas, implícitas de ação) sobre o que é o ensino. Estas teorias, que influenciam a forma como estes pensam e atuam na sala de aula e fora desta, Jussara Midlej permanecem provavelmente inconscientes para eles ou, pelo menos, pouco articuladas internamente (MARLAND ; O SBORNE, 1990, apud VASCONCELOS, 1998) necessitando, na organização dos cursos de formação profissional, serem amplamente desveladas. Necessário se faz, portanto, num processo formativo, aliar-se à pesquisa, buscando identificar e desvelar diferentes concepções a respeito da atividade docente e das formas de gestão educacional como práxis, ampliando as possibilidades de trabalhálas conscientemente e ressignificá-las, se necessário. Paulo Freire (1978) afirma que o poder transformador da práxis, ao surgir do processo dialético 5 da ação/reflexão torna-se capaz de produzir uma nova compreensão da realidade. Assim, o estudo dos processos metacognitivos, através dos quais se aborda a estrutura do pensamento das pessoas, envolvendo a reflexividade em dimensões metapráxica e metacomunicativa, tem utilizado conceitos diferentes para designar os mesmos componentes das teorias implícitas destes. Para configurar este aspecto do saber dos profissionais da educação como agentes sociais,6 têm sido utilizados termos diversos como: conhecimento prático pessoal, reflexão como experiência de construções e reconstruções pessoais, epistemologia da ação, da reflexão e do conhecimento em ação, modos pessoais de entender, filosofias instrucionais, teorias da ação, ação comunicacional, sabedoria prática, metáforas, crenças, lucidez. Qualquer que seja o vocábulo ou a expressão, ele/a designa, de Cada atualidade reúne movimentos de origem e de ritmos diferentes: o tempo de hoje data simultaneamente do tempo de ontem, de anteontem, de outrora [...] o presente e o passado esclarecem-se mutuamente, com uma luz recíproca (BRAUDEL, 1989, p. 18-21). 3 Este argumento remete à condição do novo espectador que se encontra num ambiente polifônico e polissêmico que se abriu para todos, com o enfraquecimento dos grandes referentes unidimensionais de significação (SILVA, 2001, p. 19). 4 A práxis se nos apresenta como uma atividade material, transformadora e ajustada a objetivos. Fora dela, fica a atividade teórica que não se materializa, [...] não transforma o mundo [...]” (VÁZQUEZ, 1977, p. 206-208). 5 Dialético aqui entendido como o modo de compreensão da realidade como essencialmente contraditória e em permanente contradição [...] romper com o modo de pensar dominante ou com a ideologia dominante é, pois, condição necessária para instaurar-se um método dialético de investigação/intervenção (FRIGOTTO, 1994, p. 77). 6 Esses profissionais, como agentes sociais, deverão ser capazes de planejar e gerir o ensino-aprendizagem, além de intervir nos complexos sistemas que constituem a estrutura social da Escola, numa perspectiva crítica e emancipadora (VEIGA, 2002, p. 82-83). 2 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 50 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 Os diários reflexivos e os processos metacognitivos na práxis educacional modo implícito, uma forma de reflexividade quando o sujeito toma sua própria ação, seus próprios funcionamentos psíquicos como objeto de sua observação e de sua análise, tentando perceber e compreender sua própria maneira de pensar e agir. Se este funcionamento reflexivo for trabalhado e utilizado de modo sistemático e crítico, torna-se uma verdadeira alavanca de formação interativa, produzindo-se, por meio de interiorização progressiva, condutas de desvelamento das experiências e das percepções, explicação, argumentação, aprimoramento do trabalho educacional e, espera-se, implementação de renovadas condutas. Vista deste modo, a metacognição deve ser encarada, nesse contexto, como o pensar sobre o pensar entrelaçado à reflexãona-ação e à reflexão-sobre-a-ação-na-ação educativa, (SCHÖN, 1992, p. 80-91) envolvendo, em ter mos vygotskianos, uma interação mediatizada7 e ativa entre os diversos elementos multifacetados da sociedade. Ainda que tais conceitos se apresentem como recentes, as origens desta perspectiva remontam a John Dewey (1989, p. 25), o qual, em 1933, defendia que no ensino reflexivo ensejava “o exame ativo, persistente e cuidadoso de todas as crenças ou supostas formas de conhecimento à luz dos fundamentos que as sustentam e das conclusões para as quais tendem”. De seu pensamento, portanto, deriva a necessidade de formação de profissionais da educação que venham a refletir sobre a sua própria prática, na expectativa de que tal ação venha a se constituir num instrumento de desenvolvimento do pensamento e da sua atividade. Falar de ações reflexivas e de profissionais reflexivos leva a constatar que, apesar de existirem certas atitudes e predisposições pessoais a uma reflexividade interativa e mediatizada nos 51 professores e gestores educacionais, há todo um conjunto de destrezas ou habilidades que estes devem dominar para concretizar este modelo de ação. É relevante ressaltar que estas aptidões dizem respeito mais a habilidades cognitivas e metacognitivas, que remetem ao desenvolvimento das funções mentais superiores, do que a destrezas de conduta, ao contrário do que se pensava anteriormente (GARCIA, 1992, p. 6164). As funções psicológicas superiores tratamse de um dos pontos centrais da teoria de Vygotsky, são de origem sócio-cultural e emergem de processos psicológicos elementares, de origem biológica, como estruturas orgânicas (REGO, 1995, p. 26). Assim sendo, a primeira atitude necessária para uma postura reflexiva é a mentalidade aberta e flexível que não limite a mente e a impeça de considerar novos problemas e de assumir novas idéias. Nesse sentido, o sujeito integra um desejo ativo de escutar mais do que um lado, de acolher de modo crítico os fatos independentemente da sua fonte, de prestar mais atenção e ampliar o olhar sem melindres a todas as alternativas, de reconhecer o erro, admitindo a possibilidade de relativizar mesmo aquilo em que mais acredita (DEWEY , 1989, p. 43). Esta atitude conduz, portanto, a identificar e a respeitar diferentes nuanças, a prestar atenção nas alternativas disponíveis, a indagar das possibilidades de errância, ao aceitar cometer erros e a considerálos como inerentes ao aprendizado, a assumir riscos, a administrar incertezas, a examinar as razões do que se passa na sua ação educativa, a investigar evidências conflituosas, a procurar várias respostas para a mesma pergunta, a refletir sobre a forma de melhorar o que já existe (CHARLIER, 2001, p. 93; PERRENOUD, 2001, p. 175; 2002, p. 13). A mediatização, como característica da espécie humana, supõe a utilização de intervenção intencional no sentido de provocar uma transformação, uma adaptação (FONSECA, 1998, p. 59-63; MENTIS, 1997, p. 13-14). 7 Estágio-pesquisa: configurando caminhos Nessa direção epistemológica, foi proposto a um grupo de alunos,8 no bojo de uma ação que teve a pesquisa como princípio formativo, a utilização, em ambientes de estágio, de um instrumento de registro e reflexão de pensamentos e ações – o denominado Diário Reflexivo. A intenção era a de que este pudesse servir de elemento essencial à formação de um profissional mais atento e consciente, questionador de seu pensamento e de sua própria ação. O Diário de Aula (ZABALBA , 1994) ou Diário Reflexivo (ANDRÉ; DARSIE, 1999) é um instrumento de investigação didática comumente usado para registrar as experiências, as realizações e as aprendizagens dos professores e de seus alunos, num processo de retroalimentação das vivências da práxis pedagógica. A concepção e a subseqüente implementação da Habilitação em Gestão Educacional9 para egressos de Pedagogia vêm se desenvolvendo, na perspectiva de ampliar as possibilidades de o profissional da área atuar como um agente social. Desse modo, o curso foi concebido tendo como base de formação a pesquisa e a reflexão da prática – na pretensão de que ambas funcionem como meios de produção de conhecimento e de intervenção na práxis. Na sua acepção, o problematizar, o indagar e o duvidar são partes integrantes da formação e da citada práxis educacional. Assim, a pesquisa, imbricada com o estágio, acontece como procedimento científico de construção de conhecimento e como processo formativo, no entrelaçamento entre formação, pesquisa e o exercício da profissão. Numa Jussara Midlej ambiência de pesquisa como relação teoria/prática, como práxis criadora e autocriadora. Nesse contexto, os primeiros registros no Diário Reflexivo dos alunos egressos, em ambiências de estágio/pesquisa foram, ainda, de insegurança e cada um lembrava, quando lidos coletivamente, dos versos do compositor Caetano Veloso em Sampa (1978)10 – ao compor e cantar, poeticamente, seu medo diante do novo – “[...] à mente apavora o que, ainda não é mesmo velho [...]”. Viu-se surgir, assim, os primeiros registros realizados em campo e estes disseram, muito bem, desses versos-sentimento: [...] em princípio, senti muita dificuldade em escrever no Diário, pois este não era mais meu diário de adolescência que ninguém tinha acesso e, sim, um instrumento em que eu iria relatar meu dia-a-dia como professora-pesquisadora (Aluna A 719).11 Meu primeiro contato com o Diário é instigante e, ao mesmo tempo, estranho. Sempre detestei expor num papel o que sentia [...] e agora sei que ele será lido por professores. Tentarei, no entanto, expor minhas angústias e minhas experiências no processo do estágio em movimento [...] (Aluna A 1214). Sobre isso, Welfort (1996, p. 38) pontua que “escrever é muito difícil porque deixa marca, registra pensamento, sonho, desejo de morte e vida”. Pôde-se vivenciar esta realidade por inteiro: no decorrer das primeiras sessões, em meio a naturais resistências, os alunos-profissionais demonstravam seus receios e suas incertezas. Os poucos que se arriscavam a escrever resistiam à 8 Egressos do curso de Pedagogia do campus de Vitória da Conquista e já atuantes no mercado de trabalho na área de Educação, de volta à Universidade do Sudoeste da Bahia (Uesb) para cursar a Habilitação em Gestão Educacional (2004.1). 9 Curso de Habilitação em Gestão Educacional proposto por mim e pelos colegas Andréa Lago, José Jackson Reis dos Santos e Sandra Márcia Campos Pereira, da Uesb/DFCH, para acontecer em dois semestres letivos. 10 Composição datada de 1978. Aqui, citada como a faixa 9 do CD 836.528-2 – O Melhor de Caetano Veloso – Sem lenço e sem documento – Selo Philips, Poly Gram do Brasil, 1994. 11 Esta codificação foi feita tomando como base a lista de freqüência às sessões presenciais de trabalho acadêmico com o grupo citado. Tal lista, enumerada de cima para baixo e vice-versa, recebeu esta codificação como forma de preservar as identidades dos sujeitos citados. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 52 Os diários reflexivos e os processos metacognitivos na práxis educacional socialização de suas idéias e dos escritos realizados nos ambientes escolhidos para os estágios-pesquisa em movimento. Nesse processo, a pesquisa como princípio educativo, ao ser pensada na perspectiva de pesquisa-ação12 perpassa toda a organização curricular da citada Habilitação, compondo, no cerne do estágio, o elemento diferencial constitutivo da práxis: a interação entre o conhecer (a teoria) e o fazer (a prática). O Diário Reflexivo aqui, encaminha a prática, de novo, à teorização e convida os agentes sociais, à luz de suas próprias reflexões, a desenvolver suas potencialidades de compreensão do contexto, instigando-os a transformarem-se, transformando. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 A reflexão na ação e sobre a ação Nas sessões presenciais13 continuou-se a insistir na necessidade da sistematização das experiências vividas e refletidas nos Diários Reflexivos. Ficou visível que, com o tempo, as resistências dos alunos em escrever foram sendo vencidas. Aos poucos, os egressos do curso de pedagogia foram criando o hábito de registrar intenções e ações, lê-las para o grupo em classe, avaliando os graus de percepção e realização possíveis nas diferentes situações. Nas semanas que se sucederam, já se podiam ver registros como este, transcrito abaixo, serem lidos para todos: Ao reconhecer a importância do Diário como instrumento de classificação, reflexão e concretização de meu pensamento [...] me disponho a registrar, da melhor forma, o exercício de ações e do que interessar na minha construção de conhecimento, objetivando meu foco de pesquisa (Aluna A 620). 53 Transparece, assim, no depoimento anterior, a reflexão como componente essencial da análise que une o pensamento e ação como investigação e esta, quando colocada no mesmo nível da responsabilidade intelectual, a gerar, como se vê, uma categoria essencial apontada por Dewey, na experiência da reflexividade e da produção de saberes interligada à práxis: Ser intelectualmente responsável quer dizer considerar as conseqüências de um passo projetado, significa ter vontade de adotar essas conseqüências quando decorram de qualquer posição previamente assumida. A responsabilidade intelectual assegura a integridade, isto é, a coerência e a harmonia daquilo que se defende (DEWEY, 1989, p. 44). Vê-se, pelo depoimento, que ser intelectual responsável significa, além disso, procurar conhecer, desvelando os propósitos educativos e éticos da própria conduta docente e não apenas de seus propósitos utilitários, processando informações contextuais e encarando “cada experiência presente como uma força em movimento, destinada a influir sobre o que serão as experiências futuras” (DEWEY, 1989, p. 93). Essa “força em movimento” a que Dewey se refere constitui-se como a correspondência entre plano-ação-reflexão, compondo a análise que une o pensamento à ação em contextos sistêmicos complexos, não-lineares, o que não quer dizer, em absoluto, que esta não esteja comprometida com o rigor e a cientificidade do processo. O citado ato parece potencializar a compreensão mais acurada de situações reais num processo metacognitivo e metapráxico importante. Acerca disso, Pereira (2000, p. 165) A pesquisa-ação aqui, tal como a idealizou Kurt Lewin na década de 1940 nos Estados Unidos, como base para a melhoria da ação prática, tendo o envolvimento de pessoas em espirais de ação-reflexão-ação no seu cerne (ELLIOT, 1993). 13 Acontecidas em dez horas/aula, duas vezes por semana, (e nos demais dias, sob a orientação dos outros colegas citados nas dependências do campus universitário da Uesb em Vitória da Conquista). 12 Jussara Midlej muito bem assevera que “reconhecer a importância da reflexão na ação e sobre a ação é reconhecer que os contextos humanos são instáveis e que os problemas que surgem neles podem ser originais e únicos e são, definitivamente, passíveis de mudança”. Atesta, também, o que está sendo discutido, um registro selecionado num Diário Reflexivo de uma professora atuante em classes dos anos iniciais do ensino fundamental da rede municipal de Vitória da Conquista e participante de um Programa de Formação para Professores: Arrumei a sala em semicírculo e, primeiramente, fui chamando aqueles alunos que se dispusessem a apresentar o trabalho realizado. Eles foram vindo aos poucos, um a um, lendo os textos e recebendo os aplausos. Foram textos muito interessantes: houve até alunos que criaram diálogos críticos com temas atuais [...] outros tiveram dificuldades em escrever de modo claro e, mais ainda de ler na frente de todos. Gostei dessa atividade, pois pude perceber que a apresentação oral incentiva os alunos a ouvir e respeitar o que os outros colegas criam e que isso precisa ser trabalhado em minha classe mais vezes. Vou procurar realizar mais atividades desse tipo: percebi que os meus alunos estão tímidos nas apresentações e, também precisam parar para ouvir mais os colegas [...] (Professora B 19). Vê-se aqui, claramente, que a práxis educacional, aliada a um agir epistêmico metacognitivo e comunicacional, acaba sendo exercida como diálogo, se contrapondo a modelos tradicionais de educação. Estes juízos pessoais são, por seu próprio caráter, sempre discutíveis e devem estar abertos a reinterpretações através da prática reflexiva e não em relação a pontos fixos e imutáveis (PEREIRA, 2000). E isto ocorreu com a referida professora, ao explicitar, no seu Diário, a sua gestão da situação pedagógica: ali, ela exerce a pesquisa como uma prática acessível e cotidiana, processando informações colhidas na realidade e selecionando indicadores represen-tativos que a auxiliam a interpretar os sinais e utilizá-los para a tomada de decisões. Ao afirmar que “vou procurar realizar mais atividades desse tipo [...]”, ela exterioriza uma ação metacognitiva, demonstrando a força que possuem os dados empíricos como fundamento de uma melhoria da práxis educacional. Assim sendo, o desvelamento do experienciado ampliou sua compreensão acerca do fenômeno vivido, terminando por deliberar novas ações futuras, em outros níveis. Acaba por demonstrar o cumprimento de um dos objetivos da implementação do Diário Reflexivo em classe. Paulo Freire (1996, p. 43-44) explica o movimento realizado pela professora com as seguintes palavras: “A prática docente crítica envolve o movimento dinâmico, dialético, entre o fazer e o pensar sobre o fazer. Por isso é que, na for mação per manente dos professores, o momento fundamental é o da reflexão crítica sobre a prática”. Dewey e Schön: o desenvolvimento reflexivo na formação humana Dewey (1989) se refere à atitude do entusiasmo em ação como a predisposição para enfrentar a atividade com curiosidade, energia, capacidade de renovação e de luta contra a rotina. Assim, constituiu-se em objetivo a ser alcançado, tanto individual quanto coletivamente no grupo trabalhado, a aquisição de tal atitude atrelada a uma prática reflexiva, acreditando-se serem estas suscitadoras de processos evolutivos na aprendizagem humana. Sob tais bases, o registro das experiências e idéias pôde suscitar e estabelecer a reflexividade já citada e, com ela, uma perspectiva mais emancipatória do pensar e do realizar na área educacional. Um dos alunos da citada Habilitação em Gestão Educacional APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 54 Os diários reflexivos e os processos metacognitivos na práxis educacional atesta o que está sendo dito, ao pontuar no seu Diário Reflexivo: APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 Como educador me questiono e reflito acerca desses meus dezesseis anos dedicados à educação: será que o nosso sistema não tem jeito?! Como esperar que a educação seja um dos ícones de transformação, se quem está à frente das Instituições manipula, dita e determina regras? [...] penso que preciso dar um ‘adeus’ a esta área [...] me sinto explorado profissionalmente e pouco reconhecido financeiramente. (Aluno A179). Donald Schön foi um dos autores que teve maior peso na difusão do conceito de reflexão, contribuindo sua obra para popularizar e estender ao campo da Educação as teorias sobre a epistemologia da prática. Desse modo, a partir da noção de reflective action de Dewey, ele argumenta favoravelmente a essa ação no exercício profissional, afirmando que, na medida em que a pessoa “conversa” com a situação e “ouve” o que ela tem a dizer, “verbaliza” os seus próprios processos de reflexão e tende a avançar na concepção e na realização de seu fazer. A teoria de Schön (1992, p. 80-91) é centrada em noções fundamentais que caracterizam a reflexão sobre a prática do dia-a-dia. A primeira delas é o conhecimento-na-ação que se refere ao conhecimento demonstrado na execução da prática, o que se denomina nesse artigo de saber experienciado, um a priori. É a inteligência manifestada no know how, na experiência. A descrição do que se praticou correspondente à reflexão que ocorre simultânea à ação, ele a denomina de “reflexão-na-ação”. Há, nesse caso, apenas um distanciamento breve da situação e os profissionais aprendem a partir da análise e interpretação de sua própria atividade. Schön (1992, p. 85) afirma que esse processo tem a ver com incerteza e confusão, enfatizando muito bem que aprender sem ficar confuso é impossível. 55 A reflexão, realizada a partir da reconstrução mental da ação, é chamada por ele de “reflexão-sobre-a-ação” e refere-se às análises que a pessoa realiza a posteriori sobre as características e processos de sua própria atividade, o que lhe permite refletir a partir de retrospectivas do vivenciado, configurando-se, aí, numa tomada de consciência sobre seu autodesenvolvimento. Este autor, ao referir-se à profissão docente sob a ótica da reflexividade, afirma: [...] um professor reflexivo tem a tarefa de encorajar e reconhecer, e mesmo de dar valor à confusão de seus alunos. Mas, também parte das suas incumbências encorajar e dar valor à sua própria confusão [...] se não ficar confuso jamais poderá reconhecer o problema que necessita de explicação (S CHÖN, 1992, p. 85). O exercício da indagação reflexiva, ao proporcionar um retorno ao que foi realizado, produz um efeito “reverberador” no sujeito, que o faz repensar a ação praticada, dando-lhe novos subsídios para reformulá-la em outros níveis, se for o caso. É a “reflexão-sobre-a-reflexão-naação”, ato que ultrapassa os três primeiros movimentos e que facilita ao profissional uma tomada de consciência dos problemas da práxis educacional, superando os limites didáticos da própria aula (SCHÖN, 1992, p. 54-59). Novamente, registros de uma alunaprofissional, também da citada Habilitação, ilustram esse movimento reflexivo, essa tomada de consciência: Diante da violência de alguns alunos, eu, como uma das gestoras daquela instituição, naquele momento, só pude dizer: ‘quero ir logo para minha casa!’ [...] sinceramente, não sei o que fazer para tranqüilizar meus colegas e a mim mesma. Será que a polícia, na escola, vai fazer mal? Ou será que deveremos expulsar da escola os ‘alunos problemáticos?’ Será que os violentos não estamos sendo, nós, corpo docente e gestores? [...] estou um pouco aliviada, mas a presença de policiais, na escola, me incomoda [...] neste momento, estou chorando, quero sumir [...] estou, já, começando a crer que a violência está em nós, corpo docente e gestores [...] excluímos nossos alunos quando os tratamos sem afetividade ou achamos que eles não têm condições de aprender [...] precisamos pensar em ações de resgate de auto-estima para todos (Aluna A 251). Percebe-se que, à medida que o profissional coloca questões do seu cotidiano como situações problemáticas, se indaga sobre estas e busca, em seus estudos e nas interlocuções individuais e/ ou coletivas, interpretações para aquilo que está sendo vivenciado. Com isto adquire melhores condições de ampliar sua compreensão da situação, relativizando, confrontando, emitindo opiniões e buscando respeitar diferentes pontos de vista, exercitando o pensamento crítico, repensando os fundamentos teórico-metodológicos que embasam seu pensamento e o trabalho educacional; enfim, comprometendo-se mais com as possibilidades de reorientação das ações no momento mesmo em que estas se processam. Num processo formativo que possua como base a ação reflexiva, aprende-se vivenciando coletivamente, aprende-se pensando, descrevendo, compreendendo, interpretando: aprendese o significativo (PEY, 1986, p. 45). A investigação em ação e a análise da práxis educacional, tendo como apoio os Diários Reflexivos, são algumas estratégias possíveis de formação do professor e do gestor educacional nessa atualidade. Essa concepção de formação profissional deixa claro que é o exercício da profissão que constitui verdadeiramente o quadro de referência, tanto da formação inicial quanto da continuada, bem como da pesquisa em educação nessa nova etapa em que a humanidade está vivendo (TARDIF; LESSARD; GAUTHIER, 1999, p. 26). Nesse sentido, reafirma-se que os Diários Reflexivos, num processo de uso privilegiado da Língua, proporcionam, durante todo o “percurso didático”, além de um entrelaçamento dos pressupostos teóricos com a prática, uma investigação didática das situações e experiências que vão sendo vividas pelos docentes ou gestores, numa perspectiva de pesquisa-ação. E isto, tanto na condição de alunos quanto na de profissionais, ensejando elementos de validação, ou não, das novas aquisições no sentido de revigoramento dos saberes; esse processo, traduzindo-se num rico processo metacognitivo que pode acionar as metacompetências – saber-analisar, saber-refletir, saber-justificar, através de um trabalho sobre as próprias práticas e experiências. Visto sob tal prisma, o pensar epistêmico sobre a própria vida e sobre o processo educacional revela a importância de se olhar o ato educativo, não apenas na perspectiva do sujeito cognoscente, devendo-se levar em conta, também, a dimensão política do ato de viver, convivendo. Além disso, esta ação revigora as possibilidades de aprender a aprender e de se ver atuando em variados contextos de um modo mais atento e em níveis mais ampliados. Nessas condições, a reflexão deve ser centrada na tematização das práticas – no sentido de olhar para a práxis educacional como um objeto sobre o qual se pode pensar – e seguir desenvolvendo-se coletivamente, através da explicitação do vivido, construído, reconstruído, visando, além do auto-aprimoramento, a renovação do próprio processo de ensino e aprendizagem (ALTET, 2001, p. 28-35; MIDLEJ, 2003, p. 35; WEIZ, 2000, p. 123-124). Zabalza (1994, p. 30) fala disso e ratifica, muito bem, tais assertivas: APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 Jussara Midlej 56 Os diários reflexivos e os processos metacognitivos na práxis educacional Na narração que o Diário oferece, os professores reconstroem a sua acção, explicitam simultaneamente [umas vezes com maior clareza que outras]o que são as suas acções e qual é a razão e o sentido que atribuem a tais ações. Welfort (1996, p. 41), por sua vez, “dialoga” com Zabalza e corrobora: APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 A escrita materializa, dá concretude ao pensamento, dando condições de se voltar ao passado, enquanto está-se construindo a marca do presente. Nesse sentido o registro escrito amplia a memória e historifica o processo [...]. É um fato que, na reconstrução das ações expressas, por escrito, nos instrumentos de reflexão, as condutas auto-observáveis passam por um processo metacognitivo dirigido por operações mentais complexas que as afastam do automatismo. Nesse contexto infor mativo sistematizado e intencional, a atuação das pessoas é exercida de acordo com seus julgamentos de modo dinâmico e dialético, através de suas observações e registros. Com referência ao acesso às citadas funções superiores – essenciais às novas tarefas do professor-profissional – Vygotsky (1991, p. 5965) amplia essas discussões ao afirmar que no desenvolvimento cultural do indivíduo todas as funções aparecem duas vezes: primeiro no nível social e depois no nível individual. Inicialmente entre as pessoas (interpsicológica ou social) e depois no seu interior – intrapsicológica ou pessoal, colocando em destaque, assim, o lugar das interações sociais como espaço privilegiado de construção de sentidos, especialmente se houver a interação e intermediação (dialogismo) do outro, ratificando: 57 Todas as funções superiores originamse das relações reais entre os indivíduos humanos. [...] O aprendizado desperta vários processos internos de desenvolvimento, que são capazes de operar somente quando o indivíduo interage com pessoas em seu ambiente e quando em cooperação com seus companheiros (VYGOTSKY, 1991, p. 64, 101). Vê-se, assim, que na concepção sóciohistórica é dada uma importância especial à interação entre as pessoas e, assim, também à escola. O aluno precisa do professor (um dos mediadores mais experientes) e dos colegas para exercer sua ação sobre o meio social e cultural sistematicamente. Numa relação dialética com estes (intervenção deliberada), ele é capaz de desenvolver e potencializar sua percepção, organizar os elementos percebidos, compreender o inter-relacionamento das ações humanas e dos fenômenos naturais, desenvolvendo funções psicológicas cada vez mais sofisticadas. Sob esse prisma, o uso da linguagem se constitui na condição mais importante do desenvolvimento destas funções. Em seu texto Novos caminhos para o practicum: uma perspectiva para os anos 90, Zeichner (1992, p. 115-123) defende a idéia de que o professor, apesar de guiar-se por seu próprio sistema de crenças e princípios, terá muito para aprender ao investigar e partilhar seus pontos de vista com seus pares, socializando-os. O autor também sugere que para ser prático-reflexivo fazse necessária a discussão no grupo, a interação, o compartilhamento de registros, o que proporciona ao profissional uma forma pessoal de reconstruir o conhecimento, fortalecer-se e de agir de modo diferenciado do que agia.14 Assim, na utilização do Diário Reflexivo, de modo sistematizado e intencional, nos processos de formação de agentes Um dos pontos centrais da teoria de Vygotsky é a complexidade da estrutura humana que deriva do processo de desenvolvimento profundamente enraizado nas relações entre história individual e social (REGO, 1995, p. 26). 14 Jussara Midlej da área de Educação, esta se identifica com a idéia de percurso, processo, trajetória de vida pessoal e profissional. A pesquisa, sob estas novas nuanças constitui-se, portanto, como um princípio formativo da maior relevância. Um outro ponto importante ressaltado por Zeichner (1992, p. 120) é que o professor, ao refletir de modo intencional e sistematizado individualmente, terá mais condições de avaliar a sua ação com uma pergunta do tipo: “Gosto do resultado?”. Esta for ma de reflexão está relacionada com o conceito de pesquisa-ação que permite aos profissionais analisarem sua prática de modo crítico, identificando possíveis estratégias de implementação de melhorias. Nesse sentido, o questionamento introduz um novo elemento no contexto real: um compromisso de mudança e de desenvolvimento que outras modalidades de reflexão comumente não contemplam. Para ilustrar, apresenta-se um outro trecho do Diário Reflexivo, socializado numa sessão de estudos. Desta vez, uma aluna da citada Habilitação expõe sua própria experiência e percebe algo que não havia detectado antes de registrar, sistematicamente, suas aulas: A vice-diretora falou que o recreio não deveria acontecer, pois as crianças estavam muito violentas umas com as outras. Aí pensei: ‘isso não irá me atingir nem às crianças, pois levarei para a classe atividades recreativas e desenvolverei com elas’ [...] no entanto, depois de vários dias dos alunos sem recreio e, apesar das atividades aplicadas, fui percebendo que estes começavam a desenvolver comportamentos que antes não haviam manifestado: agressividade, falta de atenção e concentração nas atividades propostas em sala de aula, muita dispersão. Isso me surpreendeu: de início, pensei que a suspensão do recreio não fosse provocar essas mudanças de comportamento e afetar até a aprendi- zagem dos alunos. Diante disso, preparei atividades lúdicas e levei os alunos para uma rua pouco movimentada, nos fundos da escola [...] após a realização das atividades recreativas eles retornaram para a sala, menos agressivos e mais concentrados nos estudos. Hoje vejo que eles precisam se movimentar para aprender mais e melhor (Aluna A719). Observa-se, neste fragmento, que, os professores aprendem a partir do registro, da análise e da interpretação de suas próprias atividades. Vê-se que, de um modo integrado e coerente, há uma importância intrínseca no uso desse Diário Reflexivo como instrumento de investigação didática e de registro provocativo de reflexão, de tomada de consciência do próprio processo de atuação profissional e de concomitante interferência na práxis, quando, no dizer de Michel Maffesoli (1998), o pensar se reintegra à ação. A compreensão mais ampliada das tramas do cotidiano e das atividades educacionais não se constitui, assim, apenas como uma atitude técnico-metodológica, mas em atos de caráter político, pedagógico, antropológico, cultural, complexo e dinâmico que dão uma dimensão especial ao processo metapráxico. Assim sendo, nas sessões coletivas da citada Habilitação, tornou-se visível como o profissional pedagogo, ao sentir que “voltava a aprender”, colocava-se como aluno na relação com o conhecimento. E observa-se, muitas vezes, assumindo suas dificuldades e suas necessidades, ao socializar, através de seus registros escritos e suas explicitações orais, suas crenças, seus anseios e dúvidas, suas teorias práticas (implícitas de ação) produzindo uma gama de conhecimentos ressignificados, com base na análise interpretativa do trabalho educacional nos diversos contextos onde a pesquisa-ação estava a ocorrer. Tornou-se, desse modo, patente que, incentivar os profissionais a investigar em ação, APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 49-61, 2004 58 59 Os diários reflexivos e os processos metacognitivos na práxis educacional registrar acontecimentos e examinar, individual ou coletivamente, o que se passa na práxis, tende a ampliar suas percepções e suas possibilidades de ação. Além disso, revelou-se como elemento desvelador das limitações de ordem cultural, social e ideológica do sistema educacional. Pelo visto, constata-se que não se pode pôr mais em dúvida que a formação do profissional de Educação articulada à pesquisa-ação deve se dar como um processo reflexivo e de análise contínuo da realidade, permeado pelas situações e necessidades concretas vividas em ambientes educacionais. Nesse caso, a utilização dos Diários Reflexivos, a funcionar como alavanca de for mação interativa, produz, por meio de interiorização progressiva, condutas de desvelamento das experiências e das percepções, explicação, argumentação e aprimoramento do trabalho educacional. A reflexividade crítica, nesse contexto, ao proporcionar novos elementos de ação interiorizada, passa a constituir-se como base de reforma do pensamento e instigação a renovadas investidas profissionais. Finalmente, ao funcionar como um fator essencial no desenvolvimento dos esquemas complexos dos profissionais da Educação, na ampliação de suas competências sociais e políticas, na potencialização da qualidade do trabalho educacional desenvolvido, poderá dar à escola um novo sentido ético e estético, tão necessário a um tempo de temores e prenhe de incertezas, como o que se vive na atualidade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ALTET, M. et al. (Org.). Formando professores profissionais: Quais estratégias? 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A ESCRITURA E O PAPEL NA ERA DIGITAL Estrella Bohadana1 Marcio Mori Marques2 RESUMO O objetivo do presente artigo é discutir, no âmbito das tecnologias de informação e comunicação, outras possibilidades para o ensino da Língua Portuguesa, considerando o hiato existente entre a formação do aluno e as demandas dos recursos informacionais, que requerem a escrita teclada. Essa reflexão problematiza a função da educação e a forma pela qual o universo de crenças do sujeito no interior da cultura está sendo afetado pelas transformações que marcam o momento histórico atual. PALAVRAS-CHAVE: Tecnologia de informação e comunicação. Ensino da língua portuguesa. Linguagem digital. Escrita teclada. THE WRITING AND THE PAPER IN THE DIGITAL ERA ABSTRACT The purpose of this article is to discuss in the realm of communication and information technologies other possibilities for the teaching of the Portuguese language, taking into account the existing hiatus between the student formation and the demands of the informational resources, which require keyboard writing. This reflection questions the function of the education and the way in which the universe of beliefs of the subject inside the culture is being affected by the changes that mark the present historical moment. KEYWORDS: Communication and information technology. Portuguese language teaching. Digital language. Keyboard writing. 1 Doutora em História dos Sistemas de Pensamentos pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ). Professora da Universidade Estácio de Sá (Unesa – RJ). 2 Mestre em Educação e Cultura Contemporânea pela Universidade Estácio de Sá (Unesa – RJ). Professor da Unicarioca e do Instituto Isabel – RJ. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 63-78 2004 INTRODUÇÃO Escrever é uma das formas que o sujeito encontra para manifestar poética e prosaicamente o seu “existir-no-mundo”. Afirma Lispector: Escrever é o modo de quem tem a palavra como isca: a palavra pescando o que não é palavra. Quando essa nãopalavra – a entrelinha – morde a isca, alguma coisa se escreveu. Uma vez que se pescou a entrelinha, poder-se-ia com alívio jogar a palavra fora. Mas aí cessa a analogia: a não-palavra, ao morder a isca, incorporou-a. O que salva, então, é escrever distraidamente (LISPECTOR, 1998, p. 20). E é por meio da escrita que se pode concretizar uma das formas de o sujeito se manifestar como educado: “educado para o mundo, educado para a vida”. Essas afirmações são corroboradas por Hoffmann (2002), sobretudo ao destacar que o produto visível da educação é a escrita. De fato, a vida escolar é recheada intensamente com atividades escritas. São 11 anos de estudos – oito no Ensino Fundamental e três no Ensino Médio – exercitando tal atividade, às vezes, em detrimento de outras atividades de comunicação, como ler, falar e ouvir. Entretanto, de acordo com os dados do III Indicador Nacional de Alfabetismo Funcional (Inaf),3 do Instituto Paulo Montenegro, 8% da população brasileira, entre 15 e 64 anos, encontram-se na faixa de analfabetismo absoluto. Nessa pesquisa, as pessoas alfabetizadas foram classificadas em três níveis, a saber: no nível 1, 30% da população brasileira, entre 15 e 64 anos, têm habilidade muito baixa, pois só são capazes de localizar informações simples em enunciados com uma só frase, num anúncio ou chamada de capa de revista, por exemplo; no nível 2, encontram-se 37% da população, na mesma faixa etária, com habilidade básica para localizar informações em textos breves (cartas, notícias curtas, etc.); e, no nível 3, encontram-se 25% com habilidade plena, pois são capazes de ler textos mais longos, localizar mais de uma informação, comparar informações contidas em diferentes textos e estabelecer relações diversas entre eles. Estes dados revelam não só a desigualdade social expressa na dimensão do conhecimento da língua portuguesa, em que a plena capacidade de leitura e compreensão de textos se torna privilégio, mas também o agravamento de uma crise social, justificável pela entrada das tecnologias de infor mação e comunicação. Tecnologias que, ao introduzirem uma nova linguagem, a digital, e seus diversos recursos informacionais, lançam-nos a um universo de paradoxos e, por vezes, de contradições, tornando-se um revelador de diversas problemáticas. No que tange especificamente à linguagem digital, assistimos a uma das importantes problemáticas: por um lado, esses recursos implementam e valorizam a imagem, o espetáculo, o já-sentido, dando-lhes supremacia com relação a outros recursos; por outro, mesmo com a fluidez e a mobilidade desse suporte, deparamos com a necessidade da escrita, uma escrita teclada. Entretanto, essa escrita teclada não prescinde da linguagem escrita. Como ressalta Moraes (2001, p. 93), devemos aceitar que o “mundo das letras já não gravita apenas em torno de livros impressos, prontos e acabados, nem se vincula, atavicamente, a crivos acadêmicos e aos filtros da grande mídia”. Segundo Hagège (2001 apud 3 Disponível em: <http//:www.ipm.org.br/na_ind_inaf_3.php>. O Instituto Paulo Montenegro e a ONG Ação Educativa apresentaram, em 08/09/03, os resultados do III Inaf. A data foi escolhida por representar o Dia Internacional da Alfabetização. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques 64 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital FERREIRO), esse novo lugar de gravitação dos signos tampouco é uma língua oral transcrita, mas um novo fenômeno lingüístico e cultural, em que antigos dilemas, presentes no ensino da língua escrita no País, tornaram-se mais evidentes, principalmente, no que concerne à passagem da linguagem oral para a linguagem escrita. Passagem cuja história nos desloca no tempo e nos remete a algumas reflexões que foram determinantes de práticas pedagógicas que, sobrepujando a educação, perpetuaram uma ação educativa não centrada no sujeito. Considerando as múltiplas questões introduzidas por esta “Nova Era”, o objetivo deste artigo é o de buscar perspectivas no interior das tecnologias de informação e comunicação que possam abrir outros espaços para o ensino da disciplina de Língua Portuguesa na modalidade escrita, uma vez que se trata, por excelência, de uma disciplina fundamental para o entendimento e aprendizagem de outras que estruturam as diferentes áreas do conhecimento. Entretanto, cabe lembrar que tais objetivos nos remetem a duas questões: a metodológica e a relacional. Por meio de tais questões, que mantêm uma relação de interdependência – procedimento e finalidade –, torna-se imprescindível trazer à luz subsídios, no intuito de alimentar a reflexão sobre a função da educação. Consideramos que tais subsídios desempenham papel fundamental na compreensão do significado e sentido a respeito do que é o sujeito, de qual o seu lugar no planeta e de como seu universo de crenças e sua cultura estão sendo afetados no atual momento histórico. Neste sentido, lançamos um olhar poliocular sobre as transformações que vêm ocorrendo com o advento das tecnologias de informação e comunicação, a fim de que o ato de ensinar e aprender não ocorra desvinculado de uma perspectiva dialógica de educação. 65 UM OLHAR POLIOCULAR: UM MUNDO EM (TRANS)FORMAÇÃO Mundo globalizado, redes interconectadas, conhecimento e informações são potencializados e potencializam as tecnologias de informação e comunicação. Mundo constituído de componentes da multimídia – escrita teclada, textos, imagens, gráficos, áudio, ilustração, animação – que, num mesmo suporte numérico e acoplados via “interface”, promovem a linguagem digital. Linguagem que altera os atuais conceitos de tempo e espaço e rompe vínculos sociais já estabelecidos entre pessoas, instituições e nações, ao mesmo tempo em que os recria. Essa nova linguagem, cujo suporte possibilita a interatividade, a não-linearidade do armazenamento das informações, bem como a ruptura da narrativa e do pensamento linear e seqüencial, favorece a descontinuidade do espaço e do tempo que, adquirindo mobilidade e particularidade, acompanham o desejo e a necessidade do sujeito. Esses são alguns dos indicadores que marcam um período de mutações científicotecnológicas, em que a microeletrônica impulsiona diferentes inovações no campo da informação e da comunicação, afetando dimensões da vida social, econômica e cultural. Como parte integrante dessas transformações, a informática encontra no computador o seu mais importante produto, cuja característica é a velocidade com que produz, armazena e dissemina informação (DREIFUSS, 1996). Por meio de tais recursos, fortalece-se a comunicação digitalizada e a produção de uma nova gama de objetos digitais. Trata-se de outro tipo de trânsito, agora pelo ciberespaço, possibilitando um “navegar” que ocorre na descontinuidade do espaço e do tempo, os quais adquirem mobilidade e particularidade. Navegar que ignora fronteiras geográficas, favorecendo a troca de informações e criando formas de contato entre pessoas e grupos sociais dos mais distintos lugares, credos e etnias. Em contrapartida, estabelece outras fronteiras geopolíticas. Fronteiras esculpidas pelo significativo contingente de excluídos, quer seja pelos projetos políticos, quer seja pela exigência de uma nova cognição. Assim, embora as tecnologias de informação e comunicação ampliem o poder de difusão da informação, rompendo barreiras geográficas até então intransponíveis e propagando a comunicação mundo afora, são elas também que alimentam e são alimentadas, segundo Dreifuss (2000), pelos processos de “mundialização”, “globalização” e “planetarização”, denominados de “configurações-em-processo”, pois se apóiam e se entrelaçam reciprocamente. A mundialização é conceituada pelo autor como responsável pela criação “de denominadores comuns nas preferências de consumo das mais variadas índoles”, lidando com mentalidades, hábitos e padrões, com estilos de comportamento, usos e costumes e com modos de vida, atingindo diretamente o universo da cultura. No que se refere ao conceito de globalização, esta, embora voltada para os fenômenos da “oikonomia transnacional”, abarca os efeitos e desdobramentos da mundialização, visto que, além de ocorrer no plano da economia, enlaça também as dimensões da cultura e da política. Portanto, na globalização econômica, o mundo é percebido como o local da produção e da comercialização. Já a planetarização, atuando diretamente sobre as relações de poder, explicita-se como “cortes e redesenhos nas relações de poder internas dos países e como reformulações das relações internacionais”. A planetarização é, portanto, segundo o autor, indissociável dos outros dois processos, pois consiste em “um conjunto de mutações ocorridas nas dimensões Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques político-institucionais, político-estratégicas e nas novas for mas de organização e expressão societária” (DREIFUSS, 2000). Concomitantemente a esses fenômenos, descortina-se o cenário dos paradoxos, das reações e das reafirmações excêntricas, expressas e configuradas pelas singularidades e particularidades nacionais, étnicas, religiosas e civilizatórias. Assim, marcados por tensões, no interior de cada um desses processos coexistem o particular e o genérico, o singular e o universal, a homogeneização e a heterogeneização. Como acontecimento, essa mudança de base científico-tecnológica, sem se restringir nem a um fenômeno tecnológico nem a um fenômeno científico, tem sido capaz de desestabilizar o antigo equilíbrio das forças e das representações, provocando impactos com ressonâncias e efeitos inesperados e viabilizando estratégias inéditas e alianças inusitadas. Vivemos, então, um momento e um movimento de crise de paradigmas, isto é, de decisão do padrão ou do arranjo sistemático (arcabouço) das partes repetidas ou correspondentes que constituem o cenário de poder e a relação de forças, mudando hierarquias, estruturas, desenhos nacionais dos Estados, alinhamentos, blocos e coalizões, e recondicionando planos, esquemas e diagramas usados como guias para a compreensão e a ação (legislação e fiscalização, formulação de diretrizes e execução). Perde-se a noção da seqüência de eventos e do peso e da importância de cada um. Assim, desconhecemos intimamente para onde vamos e como. Perdemos a capacidade de predizer. Redirecionam-se os rumos da caminhada prometéica da humanidade, desenhando-se um destino fáustico. LINGUAGEM DIGITAL E LINGUAGEM ESCRITA À diferença do padrão comunicacional constituído pelas linguagens oral e escrita – APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 66 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital baseado na relação emissor-receptor –, o padrão de comunicação introduzido pelo computador e pelas redes se caracteriza pelo fenômeno da interatividade, cuja ocorrência se dá na simultaneidade do tempo, isto é, em tempo real. A partir dessa perspectiva, podemos dizer, então, que o fenômeno da interatividade faz crescer o número de inventos e de possibilidades, aumentando com isso as potencialidades dos recursos informacionais e configurando o cenário paradoxal deste novo milênio: excesso de infor mação e, proporcionalmente, pouca produção de conhecimento; excesso de reflexos e pouco pensar; excesso de imagens e a espantosa disseminação da escrita teclada; e a baixa escolaridade impedindo a expansão da linguagem escrita. Se retomarmos o papel social das várias linguagens, observaremos que, quando a linguagem oral predominava, a cognição privilegiada era a memória humana que, identificada com a inteligência, encontrava no cérebro a única forma de registrar, armazenar e disseminar a informação, instaurando-se no interior de uma relação em que emissor e receptor da mensagem encontram-se localizados no mesmo espaço e no mesmo tempo. A linguagem oral viabiliza a constituição de um contexto único de significação, responsável pela interação semântica que flui inseparável do contexto cultural. Efeito da lembrança dos indivíduos, a cultura se nutre da memória que tece a história com seus invisíveis fios. Com o surgimento da escrita, a linguagem oral cede lugar à linguagem escrita, da qual nasce outra modalidade de comunicação. Nela predomina o discurso que, separado do contexto espaço-temporal no qual foi produzido, libera o homem da função de mediador da mensagem. Por meio da linguagem escrita, multiplicam-se as formas de registro, tornando-se o livro o principal suporte, o formato mais conhecido para concentrar o pensamento, 67 pois na difusão da informação ele adquire um eficaz poder de disseminação. Além disso, estabelece-se uma duração temporal maior, uma vez que a linguagem escrita, à diferença da oral, está fora de um tempo biológico. Dispensando a presença física e simultânea do emissor e do receptor, a linguagem escrita faz crescer o hiato entre o escritor e o leitor, embora exija uma cognição voltada para a decifração e a interpretação. Portanto, uma cognição que se sustenta na possibilidade de provocar e operar relações entre os diferentes signos que, adormecidos na linearidade do tempo, tombando sobre si mesmos, aguardam que o leitor os desperte (BOHADANA, 2004). Já a linguagem digital exige um suporte – disquete, disco rígido, disco ótico, entre outros – formado por uma série de códigos informáticos que somente podem encontrar sua tradução em sinais alfabéticos por meio de um objeto ou “instrumento”: o computador. Fenômeno também lingüístico, a linguagem digital, ocorrendo por meio do predomínio das tecnologias de informação e comunicação, complexifica o conhecimento que, produzido e reconhecido através de redes, dissolve a relação emissor e receptor, cedendo lugar a uma relação bidirecional. Amplia-se, assim, o universo de criação e de interpretação dos signos, propiciando simultaneamente a emergência de uma nova maneira de conceber a subjetivação e a objetivação, consideradas, agora, como movimentos complementares da virtualização. É o nascer de jogos de linguagem que trazem a instabilidade e a dispersão dos elementos de linguagem, expandindo o raio de atuação do universo comunicacional. Uma vez modificadas de forma radical as condições da dinâmica da mensagem, a linguagem digital funda-se em contextos móveis que inviabilizam a determinação de um sentido prévio, embora exigindo a escrita teclada (BOHADANA, 2004). Deslizando no suporte digital, a linguagem digital adentra um jogo de comunicação em que a mensagem ingressa na contingência do espaço e do tempo, exigindo que o contexto, mutante e efêmero, seja compartilhado pelos parceiros, inaugurando, assim, um novo sistema de escrita (grifo nosso). Ao se referir às tecnologias de informação e comunicação, Ferreiro (2002, p. 25) afirma que “novos estilos de fala e de escrita estão sendo gerados graças a esses meios”. O navegar, salienta a autora, já faz parte dos objetivos educacionais declarados ou em vias de o serem. Além disso, ressalta também que a Internet, o correioeletrônico, as páginas na Web, os hipertextos, entre outros, estão introduzindo mudanças profundas e aceleradas na maneira de nos comunicarmos. Portanto, estes “novos tempos” trazem para o campo da Educação uma das grandes problemáticas: a imensa lacuna existente entre a formação e o preparo do aluno para a utilização da língua escrita e as exigências dos recursos informacionais, que necessitam da escrita teclada. Como decorrência, docente e discente são lançados a um profundo desafio. No entanto, mesmo conscientes de que a questão de base de nossa temática reside na passagem da linguagem oral para a linguagem escrita, vamos nos restringir especificamente à problemática que relaciona o pouco domínio da linguagem escrita com as demandas impostas pelos recursos informacionais, que exigem o domínio da escrita teclada. Para Martin-Barbero (2003, p. 70), apesar da fascinação pregada pelos manuais de pósmodernismo, comunicar – que engloba todas as linguagens – torna-se algo mais difícil e amplo do que informar. Para esse autor, “comunicar é tornar possível que homens reconheçam outros homens em um duplo sentido: reconheçam seu direito a viver e a pensar diferente e reconheçam a si mesmos nessa diferença”. Dito em outras Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques palavras, o autor ressalta a necessidade de uma disposição de luta pela defesa dos direitos dos outros, visto que nesses mesmos direitos estão contidos os próprios. Assim, concordamos com Bourdieu (1998, p. 54) quando afirma que “a igualdade formal que pauta a prática pedagógica serve como máscara e justificativa para a indiferença, no que diz respeito às desigualdades reais diante do ensino e da cultura transmitida, ou melhor, exigida”. Buscando caminhos que pudessem vir a minorar as questões impostas pela linguagem digital, em face do pouco domínio que o aluno possui da linguagem escrita, priorizamos uma reflexão voltada para as condições e possibilidades geradas pela informática, capazes de favorecer o aprimoramento da língua escrita. DO APRENDER E DO ENSINAR O fato de as tecnologias de informação e comunicação não abrirem mão da escrita teclada, a despeito de introduzirem uma linguagem com características singulares, acabou por denunciar a precariedade da formação básica, pois é nela que ocorre o processo de alfabetização e, portanto, a passagem da linguagem falada para linguagem escrita. Trata-se de uma passagem complexa, já que não se restringe a um momento pontual, mas a um longo processo que engloba desde a aquisição da linguagem escrita até o seu total domínio, incluindo o ler e o escrever com pleno entendimento. Se a questão da alfabetização veio se revelando, ao longo dos tempos, um dos importantes e ousados desafios para os educadores, hoje se torna questão premente, impulsionando debates e for mulações de propostas. Várias têm sido as propostas elaboradas para que a ação que impulsiona o ensinar alcance o êxito necessário. A medida desse esforço pode ser verificada por meio dos APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 68 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital estudos de Halliday, McIntosh e Strevens (1974), quando apresentam três tipos de abordagem de ensino: o prescritivo, o descritivo e o produtivo. De acordo com esses autores, o ensino prescritivo tem como finalidade levar o aluno a substituir seus padrões de atividade lingüística, considerados inaceitáveis, por outros, considerados corretos. Portanto, objetiva levar o aluno a dominar a língua culta ou padrão. O ensino descritivo tem como objetivo mostrar o funcionamento da linguagem e de uma determinada língua em particular. Trata-se, portanto, de todas as variedades lingüísticas. De certa forma, a validade desse ensino tem sido justificada pela afirmação de que o falante precisa conhecer a instituição lingüística que utiliza, assim como outras instituições sociais, para melhor atuar em sociedade. O ensino produtivo tem como propósito ensinar novas habilidades lingüísticas, sem alterar as já adquiridas, mas incorporando-as aos recursos que o aluno possui, no intuito de deixar à disposição a maior escala possível de potencialidades da língua para o uso adequado, afirmam Halliday, McIntosh e Strevens (1974). No entanto, a hipervalorização observada em relação à abordagem prescritiva vem revelando que esta tem trazido mais danos que benefícios à for mação do alunato, pois, reivindicando fundamentalmente a língua culta, o ensino prescritivo tende a aumentar o hiato entre a linguagem falada – que afeta e é afetada pelas transformações culturais – e a linguagem escrita, essencialmente mais morosa em suas mutações. Na atualidade, lembra Perini (1997), o maior perigo que correm as línguas é o de “não desenvolverem vocabulário técnico e científico suficiente para acompanhar a corrida tecnológica”. 69 As formas de ensino prescritiva e descritiva, envoltas de ideologia, remetem-nos ao pensar de Soares (1999), quando afirma que estas podem gerar um fracasso justificado e legitimado, quer seja pela ideologia do dom, da deficiência cultural, quer seja pela ideologia do déficit cultural. No entanto, encontramos também formulações feitas por Travaglia (2002) e Soares (1999), em que estas três abordagens de ensino da língua não são excludentes, podendo ser utilizadas de acordo com os objetivos definidos pela instituição e pelo professor. Dessa maneira, numa época de profundas transformações, em que a velocidade e a rapidez mostram-se aliadas, é importante não deixar que a linguagem culta se torne cada vez mais distante do alunato – já que na cibercultura 4 há um aumento dos neologismos, demonstrando uma redução de rigor –, pois tal fato tem tornado o ensino da língua culta cada vez mais difícil. É possível observar que o aluno vem desenvolvendo um sentimento de abominação ao aprendizado da língua na modalidade escrita, sobretudo quando lhe apresentam, exclusivamente, uma forma prescritiva para a compreensão da língua. Com a entrada da linguagem digital, as discussões têm se voltado para repensar o ensino e a aprendizagem da língua na modalidade escrita, no intuito de acompanhar o desenvolvimento do léxico, uma vez que esta linguagem vai além da questão lingüística, ou seja, implica a introdução de transformações profundas e radicais. No entanto, com as novas atividades que as ferramentas computacionais propiciam, surge, sem dúvida, a necessidade de maior atuação do docente, a fim de que o alunato amplie sua visão do computador, nele percebendo um uso em benefício da atividade acadêmica. O termo cibercultura está sendo utilizado para descrever o fenômeno sócio-político-cultural decorrente da incidência das tecnologias de informação e comunicação – redes informáticas, realidade virtual, multimídia – na vida societária. Neste caso, cibercultura seria a indissociável articulação entre tecnologia e sociedade. 4 Nessa perspectiva, é importante observar que, com a utilização das tecnologias de informação e comunicação, surge a possibilidade de integrar essas abordagens de ensino – a prescritiva, a descritiva e a produtiva – e levar os alunos a ter mais competência no uso da língua na modalidade escrita. O fato de a linguagem digital se utilizar da escrita teclada e de recursos de multimídia, que estimulam sensações próximas da linguagem falada, pode tornar o computador um importante recurso a ser explorado para auxiliar essa passagem. Como ressalta Ferrés (2001), tal pensar já leva em consideração que o alunato está mergulhado numa cultura em que há a hiperestimulação sensorial e, por isso, necessita em todos os momentos de uma estimulação. O autor afirma ainda que a atual geração habituouse a ver espetáculo em qualquer lugar, por isso custa-lhe ter acesso a uma realidade que não tenha sido espetacularizada. Considerando essas várias tensões provenientes do computador, percebemos que o ensino produtivo poderá se tornar um importante suporte no processo de reapropriação das tecnologias de informação e comunicação. No entanto, o êxito desse processo – no sentido de como as abordagens de ensino criam ou inibem as condições e as possibilidades de auxiliar os discentes no aprimoramento da linguagem civilizacional – dependerá fundamentalmente da postura que o docente adotar. No entanto, tal postura não deve se deter, apenas, na forma pela qual o docente irá ensinar a utilizar as novas possibilidades tecnológicas, mas na maneira pela qual se dará a aprendizagem. Portanto, a responsabilidade do docente não consiste, apenas, em criar novos métodos ou procedimentos de aprendizagem, posto que não se trata de uma questão técnica, mas de uma questão relacional que – tendo como pressuposto o diálogo, numa perspectiva dialógica – se volte mais para valorizar o aprendizado. Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques Aprendizado que se realiza como um semear. E cremos ser este um dos propósitos do docente: semear a possibilidade de educar. Educar é fazer alguém amadurecer. Lembrando Arendt (1973), “não se pode educar sem ao mesmo tempo ensinar; uma educação sem aprendizagem é vazia e, portanto, degenera, com muita facilidade, em retórica moral ou emocional”. Entretanto, Arendt (1973) chama a atenção para o fato de ser muito fácil ensinar sem educar, visto que se pode aprender durante o dia todo sem, por isso, ser educado. Nesse sentido, consideramos que as tecnologias de informação e comunicação, quando se restringem a uma perspectiva tecnicista, dificilmente têm condições de responder às questões que envolvem o campo da educação, uma vez que nos remetem a indagações que afetam tanto a vida em sociedade quanto a própria vida humana. EDUCAR NUMA PERSPECTIVA DIALÓGICA No momento em que todas as técnicas de comunicação e de processamento de informação se digitalizam, conectando o cinema, o rádio, a televisão, o jornalismo, a edição, a música, as telecomunicações e a informática, o princípio de interface, em um mesmo tecido eletrônico, tornase um dado irreversível. Assim, passa o conhecimento a ocorrer por interface, interação e simultaneidade, indicando um contexto de diálogo em rede, no qual o entrecruzar de diversas individualidades, o pensar coetâneo à distância e o recurso aos bancos de dados de acesso instantâneo e simultâneo acabam por impor outra percepção da noção de “disciplina”. Noção de disciplina que não se prende ao estudo disciplinar de um único domínio do saber, uma vez que este tem se mostrado limitado para lidar com as questões típicas de uma sociedade informatizada, que, realizada via interface, abre horizontes para uma perspectiva transdisciplinar. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 70 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital Entendemos que as áreas do conhecimento adquirem estatuto transdisciplinar quando perpassadas por uma mesma questão. Neste momento específico, em que a humanidade se encontra vulnerável, a ética torna-se o sustentáculo da vida humana. É neste sentido que os diferentes campos do saber podem se unificar, uma vez que todos devem ter como ponto central a preocupação em preservar a humanidade. Por sua natureza, o campo da educação se encaixa no âmbito da transdisciplinaridade, visto que tem por pilares a ética e a estética, sendo, por isso, responsável, em parte, pela inserção do homem na cultura. A educação, portanto, não deve ficar omissa diante de um contexto sociocultural e político-econômico que reflete uma das mais significativas crises civilizatórias, nem tampouco restringir-se ao âmbito institucional ou formal. Etimologicamente, “educar” vem do latim educare, derivado de educere – conduzir. No entanto, o que confere legitimidade à condução é o fato de o conduzido poder construir o próprio caminho, caminho que só ocorre no caminhar. Em nada, porém, esse percurso retira do condutor a responsabilidade sobre o conduzido, pois o ato de caminhar pressupõe escolhas, efetiváveis somente quando o caminhante já atingiu a autonomia, tornandose um sujeito que se percebe na sua alteridade. Educar é, então, possibilitar a constituição existencial do outro, uma vez que o homem, para se constituir como sujeito, necessita estabelecer relações com um outro da cultura. Cabe lembrar que o estado de prematuração intrínseco ao homem faz dele o único animal que necessita de um “outro semelhante” – de um outro ser humano – para que possa existir biológica e psiquicamente, constituindo-se como sujeito. Trata-se, portanto, de um estado de dependência estruturante, sem a qual a vida humana seria impossível. Assim, o homem é forçado a inserir-se na cultura. 71 Em outras palavras, para que o homem se constitua como sujeito, ele precisa estabelecer relações que o insiram em contextos socioculturais. Essas relações se estabelecem no âmbito sociocultural por meio do diálogo, cujo instrumento é a linguagem. Linguagem em que a compreensão ocorre nos interstícios “da fala”. É nesse sentido que educar pressupõe o estabelecimento de uma relação gerada e nutrida por um tipo de diálogo, cujo compromisso é o de favorecer a existência. Como lembra Arendt (1973), “a educação é o ponto em que decidimos se amamos o mundo o bastante para assumirmos a responsabilidade por ele”. O diálogo ao qual nos referimos deverá ser tecido por uma palavra “dialógica”, na qual prevaleça a intenção de um “voltar-se para o outro” (BUBER, 1979). Na visão buberiana, a única forma de o homem se tornar “EU” ocorre quando ele estabelece uma relação com o “TU”. “EU-TU” traduz uma experiência relacional responsável pela existência humana, posto que é nela que o EU se realiza. Afirma Buber: “O EU se realiza na relação com o TU; é tornando EU que digo TU. Toda vida atual é encontro.” [...] “O TU encontra-se comigo. Mas sou eu quem entra em relação imediata com ele. Tal é a relação, o ser escolhido e o escolher.” Portanto, como lembra Morin (1998), para cumprir um papel estimulador, o diálogo deve comportar a idéia de “antagonismo”, caso contrário desempenhará uma função “reguladora”. Acreditamos que seja por meio dessa palavra “estimuladora” ou dialógica que a educação pode intervir nos processos sociais de forma transformadora. Portanto, a identificação do sujeito com o coletivo – este constituinte do “espaço do saber” – só pode ocorrer de maneira adequada se as atuais tecnologias forem utilizadas como meio para promover uma relação dialógica. No entanto, mesmo considerando que, do ponto de vista técnico, as tecnologias de informação e comunicação propiciem essa relação, elas exigem certas habilidades básicas, tais como ler e escrever, o que automaticamente exclui uma grande parcela da população do planeta. Por outro lado, essa relação depende menos da tecnologia e mais do grau de consciência que o educador tem de seu papel. Em uma sociedade informatizada, que não só entroniza a linguagem digital como engloba, paradoxalmente, o domínio da escrita teclada, o docente vê-se diante de profundos embates. Como já assinalamos, se, por um lado, a questão de fundo encontra-se na maneira inadequada de realizar a passagem da linguagem oral para a linguagem escrita, por outro, não devemos ignorar a grande expectativa que recai sobre o docente, no sentido de ele proporcionar um ensino cujo alvo seja o de possibilitar um domínio básico da escrita teclada. Cabe lembrar que, para Freire (1994, p. 165), “a operosidade de grupos humanos está cada vez mais na dependência do saber técnico e científico”, em níveis distintos, e que, para operacionalizar esses conhecimentos – imprescindíveis para o futuro –, saber utilizar e transmitir a linguagem é primordial. Seguindo o pensar freireano, é inevitável refletir sobre as possibilidades de os docentes se reapropriarem de uma tecnologia que tem gerado exclusão social, impondo uma nova cognição e a introdução da escrita teclada. Observando pelo prisma cognitivo, por promover experiências estéticas por meio de representações antes inexistentes, o uso do computador passou a requerer competências no campo da cognição. Se associarmos a isso o fato de que, em geral, as mudanças tecnológicas acarretam necessariamente alguma exclusão, surge uma questão preocupante para a educação. Ainda observando os aspectos cognitivos, talvez possamos nos valer da reflexão de Morin (1999), segundo a qual o atual momento impõe uma reforma de caráter paradigmático e não somente Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques programática. Trata-se de uma nova maneira de reorganizar o conhecimento. Pensado como modelo a ser seguido, um paradigma se rompe quando os elementos que o constituem deixam de viger. Por esse prisma, as tecnologias de informação e comunicação promovem a quebra de paradigmas, desconstruindo conceitos e valores até então estáveis. No campo da educação, tal ruptura fica evidenciada diante das novas exigências cognitivas dessas tecnologias, vinculadas diretamente aos novos parâmetros de navegação, os quais encontram no computador o viabililizador das práticas de coleta de informação e acesso ao conhecimento, contribuindo para outras formas de aprendizagem e impondo diversidade e velocidade de evolução dos saberes. Essa perspectiva imprime na educação um deslocamento na relação ensino-aprendizagem, na qual a aprendizagem assume um papel proeminente. Portanto, nossa preocupação deve voltar-se, não só para o que ensinamos, mas também para o que o outro aprende. Um dos aspectos importantes dos recursos inerentes ao computador é o de agregar elementos tanto da linguagem falada quanto da escrita, embora a linguagem digital esteja longe de ser um somatório das duas. No entanto, o fato de encontrarmos elementos em comum entre essas três linguagens possibilita indagar até que ponto a linguagem digital, metaforicamente argumentando, pode ser utilizada como uma “ponte” entre a linguagem oral e a linguagem civilizacional, ou seja, entre a linguagem falada e a linguagem escrita. PROBLEMATIZANDO A EDUCAÇÃO Entendemos que uma das singularidades das tecnologias de informação e comunicação é o fato de elas se expressarem sobretudo em um objeto-meio (o computador), que necessita da atuação do sujeito, para realizar as funções para APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 72 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital as quais foi programado. Nesse caso, estamos afirmando que essas tecnologias, sozinhas, ou com um “docente-meio” – “mediador” –, dificilmente teriam condições de solucionar questões como as que apresentamos. No entanto, é por exigir a presença de um sujeito que o computador pode permitir uma apropriação voltada para o âmbito da educação, favorecendo que se estabeleça uma relação dialógica entre docente e discente. Encontramos em Ferreiro (2002) subsídios para tal reflexão, uma vez que para a autora as tecnologias de informação e comunicação serão de grande valia para a educação se contribuírem para sepultar os intermináveis debates sobre temas obsoletos, como, por exemplo: “deve-se começar a ensinar com letras cursivas ou bastão?”; “o que fazer com os canhotos?”; “deve-se ensinar a ler por palavras ou por sílabas?”, entre outras questões. Corroborando essa visão, Luft (2003) nos lembra que expor o aluno à constante leitura e, posteriormente, levá-lo a produzir textos, significa fazê-lo conviver com a gramática em funcionamento, portanto, com a língua viva. Cabe lembrar que Freinet (1989, p. 120) já ressaltava que, se a escola se apropriasse dos instrumentos e das técnicas, em todos os graus, que propiciam um trabalho que atenda às necessidades funcionais das crianças, o problema da aquisição da escrita-leitura – ou lectoescrita – já não se apresentaria com tanta agudeza. Com o surgimento do computador, essa possibilidade pode se materializar na produção textual, quando se efetuam links – ligações – para integrar, interagir, corrigir e refletir, devido ao rápido processamento de dados. Neste sentido, no âmbito acadêmico, as tecnologias de informação e comunicação podem auxiliar no aprimoramento da linguagem escrita, desde que os recursos interativos e multimediáticos presentes na linguagem digital, próximos da dinâmica da linguagem oral, sejam utilizados pelo 73 docente como elementos facilitadores para que o aluno se aproxime da escrita teclada. Inevitavelmente, essa questão nos remete, de início, à própria gramática e aos métodos de ensino. No que tange à gramática, Perini (1997, p. 52-53) afirma que essa matéria carece de “organização lógica”, fazendo uma ressalva ao lançar tal afirmativa, explicando que a gramática que não tem lógica é a que se ensina com o nome de gramática nas escolas. Como exemplo, o autor cita uma definição de “sujeito” encontrada numa gramática: “Sujeito é o ser sobre o qual se faz uma declaração”. Nessa mesma gramática, algumas páginas depois, segundo o autor, encontra-se a seguinte frase: “Quem disse isso?”, e o pronome “quem” vem sublinhado como sendo o sujeito. Para testar a logicidade de sua afirmação, o autor indaga qual é a declaração que se faz sobre esse “quem”, confirmando a sua assertiva. Nesse ínterim, ressalta que não é de se espantar que os alunos não sintam segurança nessa disciplina. No que concerne à metodologia, Perini também salienta que, muitas vezes, o aluno recebe como resposta às suas perguntas a seguinte frase: “Assim que é o certo”. – ‘E ponto’, inferimos – (grifo nosso). Cremos, então, quando se refere à metodologia, que se trata de um uso excessivo do ensino prescritivo, sem metodologia adequada e com objetivos mal formulados para que tal resposta seja dada. No que se refere ao docente, para um considerável número de pensadores, como no caso de Lévy (1999, p. 171), “o professor tornase o animador da inteligência coletiva dos grupos que estão a seu encargo”. Se, por um lado, podemos entender essa afirmativa de Lévy, resgatando do termo animador por ele utilizado o sentido etimológico, a saber, aquele que dá anima, ou seja, movimento, alma, por outro, esse animador pode ser aquele produzido por um sistema em que o espetáculo impera. Palavras como animador, mediador e facilitador têm sido empregadas para designar o ofício docente, entretanto, acabam por mascarar uma situação que não se sustenta, porque não é verdadeira. O professor será sempre o professor e, na sua ação, poderá mediar, orientar, facilitar e também animar, uma vez que tais verbos fazem parte dessa ação. No que concerne à questão ensinoaprendizagem, porém, a aprendizagem somente ocorrerá em uma relação na qual o docente não seja visto como detentor da verdade e do saber, recaindo, portanto, toda a discussão em como se ensina, considerando, também, como se aprende. Ao argumentar sobre o “si-mesmo” como imago Dei, Jung (1986) salienta que as pessoas ligadas a profissões de ajuda, como professores e médicos, por exemplo, devem ficar atentas às projeções “divinas” que se costumam fazer sobre elas. No entanto, é parte do ato de educar não acatar essa projeção que o aluno confere ao educador. Na perspectiva de Buber (1979), aceitar uma projeção divina é impedir o estabelecimento de uma relação Eu-Tu, uma vez que essa relação é que poderá gerar a transformação e a libertação do outro. Fritz Lang, em seu monumental filme de 1926, Metropolis, afirma que entre a mente do que planeja e a mão do que constrói deve haver um mediador. Esse mediador, localizado entre a mente e a mão, é o coração. Apropriamo-nos dessa metáfora para esclarecer nosso ponto de vista, pois cremos que não é do ofício do professor ser o que está “entre”, “o meio” – o coração. Acreditamos que, no alvorecer desse mundo que se configura de forma desterritorializada, o papel do professor vai além da mediação, da facilitação, da orientação, pois sua responsabilidade é ainda maior, devido à velocidade das transformações por que passa o planeta e pela ruptura de valores que tem ocorrido na mesma velocidade. Cremos Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques que o professor, nestes tempos, deve ser aquele que está à frente, que consegue perceber o simbólico e o dia-bólico em sua ação e, assim, construir pontes. Dito em outras palavras, o professor é a mente que planeja, a mão que constrói e também o coração – enfim, um somatório dos três. Por meio desse somatório, cremos que o professor se transfor maria em educador, guardando para si a responsabilidade de estabelecer uma relação dialógica, a despeito dos meios e das ferramentas tecnológicas utilizados. Nessa óptica, torna-se relevante para o estabelecimento de uma relação dialógica o quase sempre enriquecedor ato de ouvir como atividade integrante do processo de comunicação – ato ativo e voluntário, fundamental para o estabelecimento de relações interpessoais. Relações que ocorrem quando quem fala e quem ouve assumem comportamentos que permitem o encontro do EU com o TU. No entanto, o fato de as tecnologias de informação e comunicação poderem ser utilizadas para a “carnavalização” e a espetacularização, fortalecendo uma perspectiva distanciada da atividade acadêmica, não impede que seu uso também se volte para uma ação educativa, prestando-se a uma relação que favoreça a aprendizagem baseada no diálogo entre docente e discente. Mariotti (2000, p. 194) ressalta a dificuldade que temos em ouvir o que o outro tem a dizer, porque isso implica transacionar a vida com ele, deixando de vê-lo como objeto. E acrescenta que o “já sei” ou o “já conheço” é a lâmina com que lhe cortamos a palavra. Em resumo, Mariotti afirma que se trata de uma violência com a qual interrompemos a for mação das redes de conversação, imprescindíveis ao desenvolvimento de uma alteridade solidária. Trata-se de uma lâmina que interrompe o encontro do Eu-Tu, APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 74 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital responsável pelo reconhecimento do outro como pura alteridade. Ferreiro (2001) saúda e dá boas-vindas à tecnologia que elimina destros e canhotos ao trazer o teclado. Reconhece, porém, que a tecnologia, por si só, não vai simplificar as dificuldades cognitivas e que tampouco será a oposição “método versus tecnologia” que permitirá superar as desventuras da educação. Ao utilizarmos as tecnologias de informação e comunicação para realizar um ensino produtivo, no qual prevaleça a relação dialógica, o docente se afasta do que Huxley (1992) denominava de “celibato do intelecto”. Tendo como foco a aprendizagem e, portanto, a preocupação com o outro, essas tecnologias devem ser usadas como mais uma das possíveis ferramentas a serem exploradas, principalmente no que elas possam oferecer para fortalecer a relação Eu-Tu. É mister colocar os alunos frente a dificuldades, frente a enigmas, orientando-os e fazendo-os perceber que essas tecnologias apontam para muitas possibilidades, embora passíveis de serem questionadas. Daí a importância de os alunos realizarem uma reapropriação, ou seja, apropriarem-se novamente das tecnologias, para delas retirar o que potencialize a existência-humana-no-mundo. Essa postura, sem dúvida, exige mudanças dos docentes. Em algum momento o docente desempenhará o papel de transmissor, mediador, facilitador e tantos outros papéis, mas a questão central parece recair nas antigas perguntas: Qual a responsabilidade do docente no ato de educar? Educar o quê? Para quem? Para quê? Como? E por quê? Posto nesse lugar, caberá a ele maior responsabilidade, pois não lhe deverá faltar a consciência de que assumir o papel de autoridade implica assumir uma posição responsável. Responsável pelo que diz, responsável pelo 75 conteúdo, mas também responsável por emancipar o jovem. É importante destacar que a utilização das tecnologias de informação e comunicação seja entendida como uma opção para se realizar uma educação contextualizada. Por educação contextualizada entendemos fornecer contexto a cada acontecimento sociocultural ou existencial e não retirar a informação do seu contexto para fazê-la chegar ao contexto do aluno. Percebemos que as tecnologias de informação e comunicação, coleando entre o virtual e o presencial, dão-nos o referencial do significado de pontífice, pois podem ser entendidas como ponte capaz de auxiliar a ação integradora das diferentes mídias e, nessa integração, abrir “novos espaços”. Essas tecnologias trazem no seu bojo possibilidades inovadoras. No entanto, para que se efetive o ato de educar, é fundamental que o educador reconheça a necessidade de incorporar um pensar que englobe a concepção filosófica freiriana de conhecimento inacabado e permanente, o que mantém o docente em constante ato reflexivo, disposto a revisar constantemente seu repertório de saberes. Sabemos que, mesmo trazendo a potencialidade de introduzir novas práticas no campo do ensino e da aprendizagem, as tecnologias de informação e comunicação per se não propiciam a emergência espontânea de novos paradigmas de apreensão da realidade. Torna-se, portanto, de fundamental importância um projeto educacional que vise a preparar o educador para a dimensão da aprendizagem. Por sua vez, o ensino calcado na técnica ou em procedimentos não proporciona nem ao educador nem ao educando a possibilidade de interagir com a pluralidade de informações e conhecimentos que se entrecruzam nesse “novo espaço do saber”. Neste momento de verdadeira mutação civilizatória, cabe ao docente, tal como um arauto, anunciar ao discente, não somente as atuais transformações, mas orientá-lo e promover a discussão, a fim de estimular o diálogo e a reflexão crítica. Essa atitude pode ser comparada a um salto. E, nesse salto, arriscamos. Arriscamos como uma aranha, que, ao produzir uma substância aquosa, semelhante a uma goma, friccionando o abdome, planeja a construção da teia. O primeiro salto de um ponto ao outro, para dar início à construção, é um risco. Ao saltar, o aracnídeo colase em outro ponto com a goma produzida, que se transformará em fios. E assim, sucessivamente, vai de um ponto ao outro, desenhando o seu trabalho. Arriscamos, cientes do “correr o risco”, por acreditarmos que a construção ocorre pela relação permeada por um diálogo, que, preservando a dimensão dialógica, não permita que o outro entre em elipse. Relação que se faz religação. Religação que significa uma permanente travessia na busca de uma relação diferenciada entre o eu e o outro. Nessa travessia, o nosso empreendimento é o de perlustrar os mares ainda pouco navegados, no propósito firme de somar, para posteriormente dividir, pois o pouco que temos e apresentamos foi conseguido pela divisão. Divisão que, para se realizar, colocou-nos entre pensadores ilustres, apresentando-nos admiráveis novos horizontes, habitados por sábios, deuses e poetas. Com e “sobre os deuses e os poetas”, conseguimos aprender que “o poeta não é o melhor operário, mas o melhor instrumento” (PERNIOLA , 1993). Mas, para obtermos essa ferramenta, talvez tenhamos de, como educadores, visitar o Parnaso para podermos reinventar, reencantar, redescobrir e despertar, conduzindo-nos a uma visão da educação que, mesmo condizente com esses “novos tempos”, não perca a responsabilidade que encerra o ato de educar. Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques Talvez pouco haja de novo a dizer, mas muito exista no ato da re-dicção. Quando questionada, a educação deve voltar-se para seus princípios básicos e, através do olhar poliocular sobre ela lançado, talvez apenas re-dizer o que sempre lhe coube: manter-se fiel a uma perspectiva ética, cujo horizonte seja o da preservação da dignidade do homem. Dignidade que deve englobar não só o atendimento das necessidades básicas de sobrevivência, mas o de ver e ouvir o outro como alteridade. Educar é também ter a possibilidade de ouvir o outro. “Quando se ouve alguém, verdadeiramente, e se apreende o que mais importa a essa pessoa, ouvindo não apenas as palavras, mas a ela mesma, e fazendo-a saber que foram ouvidos os seus significados pessoais privados”, surge um sentimento de gratidão, e a pessoa se sente libertada (ROGERS, 1977). E, imersa nesse sentimento de liberdade, a pessoa sente um forte desejo de transmitir mais coisas sobre o seu “pequeno-grande-mundo”, que habita poética e prosaicamente. De acordo com Rogers (1977, p. 223), nesse momento, vivenciando esse novo senso de liberdade, em que prevalece o viver em estado de poesia, “a pessoa pode se tornar mais acessível ao processo de mudança”. No entanto, acrescenta, hoje há pessoas que vivem “em cárceres privados, gente que nada exterioriza do que tem no seu íntimo, cujas tênues mensagens só com muito esforço se podem captar”. Na visão rogeriana, há pessoas que, em devaneios e aprisionadas em seu mundo prosaico, clamam por alguém que as ouça, como se fossem prisioneiras de uma masmorra e passassem a dedilhar, em código Morse, dia após dia, as seguintes mensagens: “Alguém me ouve?”, “Há alguém aí?”, “Pode alguém ouvir-me?”. Até que um dia, finalmente, escuta uma tênue batidinha que ele soletra: “Sim!” APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 76 77 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 63-78, 2004 A escritura e o papel na era digital “Sim!” Tal resposta “mímica o liberta da solidão, ei-lo a se tornar, outra vez, um ser humano” (ROGERS, 1977, p. 223). É... Ouvir carrega realmente consigo conseqüências: gratidão, liberdade e o fato de promover um possível e rápido acesso ao processo de mudança. Mudança que pode conduzir o sujeito a uma vida harmônica. E estar em harmonia é transitar pelo poético e o prosaico. Morin (1998) afirma a necessidade de reconhecer que o sujeito, inserto em qualquer cultura, produz duas linguagens a partir da sua língua. Uma racional, empírica, prática, técnica, tendendo a precisar, denotar, definir, apoiada sobre a lógica. Outra simbólica, mágica, mítica, utilizando-se da conotação, da analogia, da metáfora, ensaiando “traduzir a verdade da subjetividade”. A cada uma dessas linguagens, que podem ser justapostas ou misturadas, separadas ou opostas, correspondem dois estados: o prosaico e o poético. Viver em estado prosaico significa responder às vicissitudes da vida diária, percebendo o mundo que nos cerca e raciocinando, na busca incessante de um agir melhor. Viver em estado poético significa viver em um “estado segundo”, em estado de vidência, que nos transporta “através da loucura e da sabedoria e para além delas”. Assim, conclui o autor, “poesia-prosa constituem o tecido de nossa vida” (MORIN, 1998, p. 23). E para perceber o entrelaçamento desse tecido que perpassa o nosso existir-no-mundo é preciso ouvir. Os santos e os poetas talvez percebam, um pouco, esse entrelaçamento, pois ouvem além das palavras, aguçando o terceiro ouvido e apreendendo a incorporeidade da palavra. Saber ouvir talvez seja uma das condições para que possamos nos tornar de fato educadores. Remetemo-nos a Bilac, o mais espontâneo poeta brasileiro, que percebeu a magia desse entrelaçar e a traduziu num dos mais belos sonetos da língua portuguesa. Transcrevemo-lo integralmente para que possa ser apreciado, sentido, mas também aprendido. “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muitas vezes desperto E abro as janelas, pálido de espanto... E conversamos toda a noite, enquanto A Via-Láctea, como um pátio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto Inda as procuro pelo céu deserto Direis agora: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?” E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas”. 78 Estrella Bohadana e Marcio Mori Marques REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARENDT, H. Entre o passado e o futuro. São Paulo: Perspectiva, 1973. BILAC, O. Poesias. 27. ed. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1967. BUBER, M. Eu e tu. São Paulo: Cortez & Moraes, 1979. BOHADANA, E. Transformações: cultura, subjetividade e linguagem. Cadernos de Psicanálise, Rio de Janeiro: Sociedade de Psicanálise da Cidade do Rio de Janeiro, v. 20, n. 23, 2004. BOURDIEU, P. A economia das trocas lingüísticas. 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POSIÇÃO SOCIOMÉTRICA DO ALUNO COM DIFICULDADES DE APRENDIZAGEM: CONTRIBUIÇÕES DA TEORIA DE MORENO PARA A EDUCAÇÃO Eliane Giachetto Saravali 1 RESUMO O objetivo desse trabalho consistiu em investigar a posição sociométrica de alunos com dificuldades de aprendizagem na inter-relação com seus colegas de sala. Nossos sujeitos foram alunos de uma 4ª série da rede pública do estado de São Paulo, indicados pela professora como sendo crianças com dificuldades de aprendizagem. O teste sociométrico objetivo foi aplicado duas vezes no ano letivo. Os resultados apontaram para a baixa ou nenhuma escolha que as crianças com queixa de Dificuldade de Aprendizagem têm de seus colegas. PALAVRAS-CHAVE: Dificuldades de aprendizagem. Sociometria. Interação social. SOCIOMETRIC POSITION OF A STUDENT WITH LEARNING DIFFICULTIES: CONTRIBUTIONS OF MORENO’S THEORY FOR EDUCATION ABSTRACT The central objective of this work consisted in investigating the sociometric position of students with learning disabilities when inter-relating with their school-mates. Our informants were fourth graders of the Public State Schools of São Paulo, Brazil, indicated by the schoolteacher as being children with learning disabilities. The socio-metric objective test was applied during the first and second terms of the school year. The results pointed in the direction of a low or nonexisting choice the children with learning disabilities have of their school-mates. KEYWORDS: Learning disabilities. Sociometry. Social interaction. 1 Doutora em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 79-87 2004 O campo de estudo referente às dificuldades de aprendizagem é amplo e muitas vezes ambíguo e confuso, não havendo consenso sobre a definição e caracterização desse termo. No entanto, a cada dia vemos que cresce o número de alunos do nosso sistema de ensino caracterizados como tendo dificuldades de aprendizagem. Rapidamente, muitos professores encaminham e rotulam crianças que não têm tido sucesso na escola. Tal fato tem encontrado ressonância na explosão dos cursos de especialização em Psicopedagogia que, teoricamente, vão formar o profissional que deverá lidar com as questões relacionadas ao processo de aprender. Assim, muitos professores esquivam-se de suas responsabilidades, transferindo-as para os psicopedagogos e psicólogos. Isso ocorre não somente pelo comodismo ou pela negligência dos educadores, mas também pela falta de (in)formação a respeito das questões referentes às dificuldades de aprendizagem, às formas de intervenção e ao papel da escola nesse processo. Destaca-se, também, a formação dos pedagogos, que muitas vezes não aborda tais questões. A amplitude e confusão terminológica das Dificuldades de Aprendizagem (DA) ocorrem em razão das diferentes influências que o campo sofreu, tais como, a médica e organicista, que procura relacionar as dificuldades de aprendizagem com problemas no funcionamento cerebral provocados por lesões, mau funcionamento ou desequilíbrio químico; a pedagógica ou escolar, que procura associar as DA com questões metodológicas e didáticas; e aquelas ligadas a fatores psicológicos e a problemas relacionados ao processamento da informação. Diante desse quadro, evidenciar um elo entre problemas de interação social, ou mesmo a existência de inadaptações sociais e as dificuldades de aprendizagem é algo que não encontra unanimidade na literatura. Dependendo do enfoque adotado, alguns autores admitem ou Eliane Giachetto Saravali não que estes problemas sejam as próprias dificuldades enfrentadas pelo sujeito. No entanto, um consenso que parece existir é o de que as DA podem gerar ou mesmo agravar problemas relacionados à adaptação social e convivência. A criança que desde cedo vivencia experiências de fracasso e insucesso e percebe constantemente os julgamentos dos professores e dos próprios colegas da sala sobre os seus problemas com a aprendizagem, tende a formar aos poucos uma imagem negativa de si mesma. A repetição dessas situações certamente causa desconforto para o aluno, que pode passar a desacreditar nas suas próprias capacidades e sentir-se altamente desmotivado em relação aos estudos e à escola. Tal situação pode gerar uma instabilidade emocional bem como a dificuldade em formar vínculos afetivos e sociais. É possível, também, que a criança procure um meio para fugir dessa situação, como, por exemplo, apresentar mau comportamento em sala de aula, na tentativa de mudar o foco da incapacidade cognitiva para o da indisciplina e rebeldia. Há também casos em que o aluno, excluído ou sentindo-se excluído pelo grupo, simplesmente fecha-se, assumindo uma posição de total rejeição. A interação social é importante para o desenvolvimento humano. Jean Piaget (1896-1980) já a apontava como um fator do desenvolvimento, na medida em que o contato com o outro provoca a descentração do pensamento, criando a necessidade de coerência nas ações. Ou seja, temos a necessidade de trocar e conviver com o outro, como condição para o avanço cognitivo. O presente trabalho teve por objetivo central investigar as interações sociais que crianças, apontadas pela professora como alunos com dificuldades de aprendizagem, estabelecem no grupo da sala de aula do qual fazem parte (SARAVALI, 2003). Algumas questões nortearam nosso trabalho: Como estão esses alunos na sala? Como APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 80 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 Posição sociométrica do aluno com dificuldades de aprendizagem: contribuições da teoria de Moreno para a educação são vistos pelos colegas e pelos professores? Estão tendo possibilidades de interagir com os demais? Como percebem suas relações interpessoais? Nos tempos atuais, em que a inclusão é assunto tão debatido, será que essas crianças estão incluídas no grupo da sala a que pertencem? Para avaliarmos essa interação, baseamonos na sociometria, criada por Moreno (1972a) e utilizamos o teste sociométrico objetivo, no intuito de avaliar a posição que ocupam as crianças com dificuldades nas relações que estabelecem com o grupo. A sociometria parecenos um referencial bastante válido, uma vez que busca compreender a real posição ocupada por alguém no grupo do qual faz parte. O teste sociométrico, que avalia as preferências dos membros do grupo em relação a diferentes critérios, permite-nos compreender melhor a rede de interação que se estabelece entre todos. Como escolhem e são escolhidas as crianças que têm dificuldades de aprendizagem? Há diferença nestas escolhas conforme o critério sociométrico adotado? Estaria o rótulo da incapacidade atrapalhando o aluno no seu desenvolvimento cognitivo e também social e afetivo? Uma criança que está construindo sua própria imagem e é vista pelo professor e pelos colegas como alguém incapaz, nunca sendo, por exemplo, escolhida para realizar um trabalho escolar, não teria problemas na sua forma de se relacionar com as situações de aprendizagem? Tal avaliação negativa não influenciaria também as relações de amizade, afetivas e sociais, vivenciadas com os demais colegas da sala? A partir dessas reflexões, formulamos o seguinte problema de pesquisa: Qual a posição sociométrica observada em alunos com queixa de dificuldades de aprendizagem na inter-relação com os demais colegas da sua sala, conforme a análise dos resultados de um teste sociométrico objetivo? 81 Os objetivos que pretendemos alcançar com o nosso trabalho puderam ser assim formulados: Objetivo Geral: aplicar e analisar os resultados de um teste sociométrico numa sala de aula, nos meses de junho e setembro do ano letivo e investigar a posição sociométrica ocupada pelas crianças com dificuldades de aprendizagem. . Objetivos Específicos: 1) Investigar se há diferenças ou semelhanças nas posições ocupadas por crianças com dificuldades de aprendizagem confor me o critério sociométrico apresentado; 2) Relacionar a posição sociométrica ocupada pelos alunos com observações realizadas pela professora; 3) Analisar o histórico escolar dos alunos da sala pesquisada; 4) Relacionar a posição sociométrica ocupada pelos alunos com os dados obtidos no histórico escolar; 5) Verificar, por intermédio de depoimentos coletados com os alunos da sala, como os sujeitos vêem sua relação com os demais membros do grupo. A metodologia de pesquisa empregada no presente estudo caracteriza-se pela pesquisa nãoexperimental ou ex post facto (K ERLINGER , 1979). Neste tipo de pesquisa não há manipulação nem controle de variáveis, uma vez que o fato é investigado após sua ocorrência. Portanto, nossa proposta metodológica consistiu num trabalho diagnóstico e não de intervenção. Nossos sujeitos foram alunos de uma 4ª série da rede pública de um município do interior do estado de São Paulo. A sala de aula escolhida foi indicada pela professora como uma sala que possuía crianças com dificuldades de aprendizagem, dessa forma, os sujeitos foram caracteri- zados pela queixa de dificuldade de aprendizagem. Os procedimentos empregados foram os seguintes: aplicação do teste sociométrico no mês de junho, coleta de observações sobre os alunos junto à professora da sala, análise do histórico escolar. Em seguida, no mês de setembro, os mesmos procedimentos foram reempregados, ocorrendo também a coleta de depoimento dos alunos numa redação com o seguinte tema: Como é sua relação de amizade com seus colegas de classe? Os resultados apontaram para a baixa ou nenhuma escolha que as crianças com queixa de Eliane Giachetto Saravali DA têm de seus colegas. Apresentamos aqui dois sociogramas da aplicação feita em setembro, que retratam tal fato; as crianças com queixa de DA estão representadas pela cor cinza. Para a representação sociométrica, os círculos indicam os elementos do sexo feminino e os triângulos os do sexo masculino, as setas correspondem a quem se referem as escolhas feitas pelos sujeitos. Durante a aplicação dos testes, os alunos eram sempre convidados a pensarem sobre questões afetivas e intelectuais. Assim, primeiramente deveriam pensar sobre qual colega da sala escolheriam para passear no Shopping e em seguida qual colega escolheriam para fazer uma lição difícil. Figura 1 – Sociograma da primeira escolha do critério afetivo: Qual colega da sala você levaria para passear no Shopping com você? APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 82 Posição sociométrica do aluno com dificuldades de aprendizagem: contribuições da teoria de Moreno para a educação 83 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 Figura 2 – Sociograma da segunda escolha do critério intelectual: Qual colega da sala você escolheria para fazer uma lição difícil com você? Para a obtenção das informações junto à professora, solicitamos que a mesma preenchesse uma tabela na qual deveria avaliar os alunos segundo o relacionamento interpessoal e o desempenho acadêmico, utilizando-se dos critérios: P – péssimo, R – regular, B – bom, MB – muito bom e O – ótimo. Os dados obtidos mostraram que nem sempre o julgamento da professora sobre o aluno coincide com a posição sociométrica que este ocupa no grupo, ressaltando a importância do teste sociométrico para um maior conhecimento das interações estabelecidas na sala de aula. Foi possível observar também que o julgamento que a professora faz do aluno com dificuldade de aprendizagem tem relação direta com o número de escolhas que este aluno obtém no teste sociométrico. Os conceitos utilizados no histórico escolar correspondiam a Muito Bom (MB), Bom (B) e Insuficiente (I). A análise do histórico constatou o baixo rendimento escolar da criança com queixa de DA, confir mando as observações da professora. As crianças com DA tinham I em pelo menos uma disciplina e poucos conceitos MB. As crianças que tinham os piores conceitos tiveram também menos escolhas no teste do que as outras crianças com DA que tinham conceitos um pouco melhores. A análise das redações não evidenciou questões relacionadas aos sentimentos de exclusão, ou problemas no relacionamento interpessoal como era esperado. Os conteúdos das redações concentraram-se em: • Uso de adjetivos: “É muito legal” “É muito boa”2 • Descrição das atividades que mais gostavam de realizar com os amigos: 2 As transcrições foram feitas respeitando os textos originais, exatamente como eles foram escritos. Os nomes dos sujeitos foram substituídos pelo número correspondente ao utilizado no sociograma a fim de não possibilitar a identificação. “... Sempre me damos bem e, nós sempre jogamos handebol, pingue-pongue, queimada, amarelinha, esconde-esconde, pega-pega e etc.” Somente um aluno apresentou uma redação cujo conteúdo retratava sentimentos envolvendo as relações de amizade: “Eu respeito eles, eu brinco do que eles quer brincar na hora que eles quer falar eu deixo eles também me respeita nós não brigamos um com o outro não jogamos um jogo sujo e nós repartilhamos as nossas coisas.” O fato das redações não retratarem o tema amizade e quase sempre referirem-se a descrições das ações que realizavam com os colegas, sobretudo em momentos fora da sala de aula, como por exemplo, no recreio e nas aulas de educação física, nos alerta para a importância das crianças terem realmente oportunidade de estarem juntas, de cooperarem, de tomarem decisões que envolvam coordenações de diferentes pontos de vista e, sobretudo, de refletirem sobre estas questões. A inclusão social tão almejada perpassa pelos bancos escolares, que desde cedo devem promover a inclusão escolar de TODOS os alunos e não somente daqueles que possuem necessidades educativas especiais. A escola, depois da família, é a instituição que irá introduzir a criança no mundo social e este pode ser acolhedor e voltado para o diálogo ou tremendamente segregador e excludente. Pretendemos com nosso trabalho oferecer reflexões acerca do papel da escola e dos professores. Acreditamos também que psicopedagogos, profissionais ligados à formação de professores e demais interessados nas questões que tratamos poderão beneficiar-se e inclusive realizar outras pesquisas, a partir do que concluímos. Entendemos que, na medida em que se investiga sobre a interação social estabelecida pela criança com dificuldade de aprendizagem na sala de aula, muito se pode fazer para melhorar e contribuir diante de um quadro de exclusão ou rejeição, por exemplo. Nossos resultados indicaram que as crianças com queixa de dificuldade de aprendizagem têm comprometimentos em relação à interação social que estabelecem com o grupo. Tal afir mação pôde ser comprovada, ao observarmos os resultados da aplicação do teste sociométrico em dois momentos do ano letivo. No que se refere a eleições afetivas e intelectuais, nossos sujeitos, apontados como tendo DA, tiveram pouca ou nenhuma escolha dos seus colegas de sala. Acreditamos que o estudo sociométrico pode trazer grandes contribuições ao trabalho docente, uma vez que nem sempre as idéias que a professora tinha sobre seus alunos, sobretudo em relação ao relacionamento interpessoal, coincidiam com a forma como as crianças eram vistas pelos demais colegas. Portanto, a aplicação do teste pode contribuir para um maior e melhor conhecimento dos alunos e da posição que ocupam em relação aos colegas da sala. O professor que já possui uma série de informações sobre seus alunos, pode empregar o teste sociométrico como um instrumento a mais na compreensão, reformulação e reflexão sobre o que já conhece da turma. Essa reflexão deve conduzir a mudanças nas ações realizadas em sala de aula, na direção de aprimorar principalmente a organização do trabalho pedagógico, visando não somente o desenvolvimento da inteligência e a apropriação dos conteúdos, mas também o desenvolvimento afetivo e social dos alunos. O professor pode começar perguntando-se: em quantos momentos do dia seus alunos podem trocar e interagir? Sabemos que tais trocas são importantes não somente para a socialização como também para o desenvolvimento cognitivo. Notamos que nas redações feitas pela turma, toda APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 Eliane Giachetto Saravali 84 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 Posição sociométrica do aluno com dificuldades de aprendizagem: contribuições da teoria de Moreno para a educação vez que as crianças mencionaram as relações que têm com os colegas, as brincadeiras e jogos que têm prazer em realizar juntos, fizeram referência a atividades extra-sala. Será que ricos momentos de troca dentro da sala não estão sendo perdidos? Piaget já refletia sobre essas questões e dizia que a escola tradicional conhece apenas um tipo de relação social: a que se refere à ação do professor sobre o aluno. Neste sentido, o autor explicava que a vida social entre as crianças não é aproveitada dentro da sala de aula e que os trabalhos denominados de coletivos são, na verdade, uma justaposição de atividades, pois cada indivíduo faz o seu, sem confrontá-lo, dividilo, coordená-lo, aprimorá-lo com os demais (PIAGET, 1988). Ao analisar um sociograma da sua turma, o professor poderá ter um conhecimento maior, sabendo, por exemplo, sobre líderes e sobre rejeitados, enfim, crianças mais ou menos escolhidas. Uma ação bem direcionada poderá facilitar e até melhorar as relações interpessoais. Não se trata de aproximar crianças que se escolhem, formar grupinhos com afinidades, mas sim de provocar a troca, o conhecimento e aceitação pela singularidade e especificidade. Assim, por exemplo, o professor pode organizar atividades em pequenos grupos que visem à participação de todos numa meta a ser atingida, pode valer-se menos de atividades coletivas, nas quais sempre uns terminam primeiro e outros nunca ter minam e deixá-los mais juntos, trabalhando em grupo, trocando, conversando e ajudando-se enquanto fazem as atividades propostas, entre outras.3 85 Os projetos e temas abordados podem ser mais originais, saindo daquilo que usualmente é trabalhado e muitas vezes repete-se de ano para ano. Neste sentido, é possível trabalhar com temas relacionados, por exemplo, aos sentimentos dos alunos, suas atividades preferidas, hábitos, angústias, medos, visando o conhecimento de todos os colegas com os quais se relacionam, o respeito e aceitação pela diferença, a amizade entre outros. Os jogos de regras devem ser trabalhados visando à interação, à cooperação, à reciprocidade e até mesmo ao trabalho com conteúdos de uma forma prazerosa e lúdica. Os jogos dramáticos per mitem a personificação de papéis que transcendem os limites do tempo e do espaço (ARANTES, 2001). Conforme observamos anteriormente, a visão da professora em relação ao relacionamento interpessoal nem sempre coincidiu com as eleições da turma. Todavia, em relação ao desempenho acadêmico, é importante ressaltar que, em muitas ocasiões, o julgamento da professora foi coincidente com as eleições das crianças na escolha intelectual. Tal fato, a nosso ver, caracteriza a grande influência que o mestre, nessa faixa etária, ainda exerce sobre a turma. Neste sentido, suas opiniões, seus julgamentos podem ser transmitidos por meio de olhares, palavras, gestos, decisões sobre os lugares que os alunos podem sentar-se, comentários, entre muitas outras ações. Os professores devem estar atentos para isso, ao confirmarem os resultados do teste que também é um bom instrumento para alertá-los a observar e reconsiderar seus alunos diante do grupo. 3 Mantovani de Assis (1999) apresenta uma proposta para a realização das atividades diárias dividida em atividades individuais, atividades coletivas, atividades em pequenos grupos e atividades diversificadas. Nas atividades coletivas há o mesmo objetivo a ser alcançado pela turma, por exemplo, ouvir uma história; nas diversificadas: há objetivos diferentes conforme o lugar que a criança escolhe para trabalhar, por exemplo: produzir um texto, confeccionar um mapa, etc; nas atividades em pequenos grupos, as crianças trabalham em grupos menores buscando alcançar um objetivo, por exemplo, quatro crianças com a tarefa de fazer uma maquete; nas individuais o professor trabalha diretamente com uma criança, a fim de acompanhar mais de perto o seu desenvolvimento. Esta proposta corresponde às orientações metodológicas do Programa de Educação Infantil e Ensino Fundamental (Proepre). Todas as crianças que a professora apontou como tendo dificuldades de aprendizagem, foram pouco escolhidas nos critérios afetivo e intelectual. Sobre este fato, é muito bom refletir sobre os sentimentos que essas crianças elaboram a respeito de si próprias. Uma criança que não tem sucesso na escola vai acumulando experiências de fracasso sucessivamente, percebendo-se negativamente em relação aos demais. Suas dificuldades em relação à aprendizagem tornam-se muito mais destrutivas, na medida em que tem dificuldade em fazer amigos, em relacionar-se, e aos poucos vai ficando à margem do grupo, formando uma imagem deformada de si mesma. Recomendamos a utilização do teste sociométrico na sala de aula com as seguintes ressalvas: Moreno defendia em nível clínico, não somente o diagnóstico, mas a intervenção no grupo; trabalhando, muitas vezes, com o teste perceptual, devolvendo os resultados aos membros do grupo e utilizando-se do psicodrama para o tratamento do grupo. O trabalho com psicodrama em nível pedagógico deve ocorrer por meio da utilização de jogos dramáticos. Nossa pesquisa teve fins de diagnóstico num contexto educacional e não clínico e, portanto, não realizamos os demais procedimentos que Moreno recomendava, apenas informamos a professora e coordenadora pedagógica dos resultados, ao final do trabalho. Acreditamos que o teste possa ser utilizado no sentido de melhorar as relações sociais e afetivas estabelecidas pelo grupo, objetivando a inclusão e a participação de todos. Não é recomendada a devolução das respostas do teste ao grupo, pois acreditamos que isso só possa ser feito por um profissional com experiência e fundamentação na prática psicodramática em área clínica. Um profissional sem este preparo pode, ao apresentar os resultados sobre as escolhas, ou mesmo numa análise do teste perceptual, causar Eliane Giachetto Saravali grandes danos a alguns alunos, que terão seus sentimentos de rejeição e de inadaptação social severamente agravados. Os resultados devem ser utilizados sigilosamente para melhorar o interrelacionamento grupal. As ações dos professores devem caminhar ao encontro das necessidades dos alunos, necessidades estas relacionadas ao seu desenvolvimento não somente cognitivo, mas afetivo, social e motor. Portanto, estar atento ao que realmente ocorre com o aluno na sala e atuar em prol de uma melhor interação é papel fundamental do educador. As inúmeras experiências de fracasso podem levar o aluno a formar uma imagem negativa de si mesmo, a ter medo do desafio, a se desinteressar pelas atividades escolares, entre outros aspectos indesejáveis. Diante deste quadro, suas relações com os colegas podem vir a ser prejudicadas, acentuando-se ainda mais o problema. Portanto, se a escola mantiver uma postura seletiva, com ênfase somente no rendimento acadêmico, pode influenciar e reforçar a inadaptação do aluno, culminando muitas vezes, mais tarde, no atraso mental, na delinqüência ou em sociopatias múltiplas (FONSECA , 1995). Sobre isso, vale ressaltar que pesquisas recentes apontam que um grande número de adolescentes e adultos envolvidos na criminalidade ou até mesmo no uso de drogas tiveram uma história escolar complicada, caracterizada por dificuldades na escola primária, autoconceito negativo, exclusão social, entre outros (TOPCZEWISKI, 2003). Acreditamos que tais reflexões devam ser ampliadas para todos os níveis de escolaridade, não somente para séries iniciais do ensino fundamental, mas para nossos alunos do ensino médio e superior. Em nossa sociedade convivemos com a intolerância e as guerras são destaques nos APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 86 Posição sociométrica do aluno com dificuldades de aprendizagem: contribuições da teoria de Moreno para a educação noticiários. Ora, não podemos esquecer que a sociedade da diversidade começa na escola e que uma segregação que já se inicia nas carteiras escolares, tão cedo, é muito perigosa. Precisamos aprender a aprender juntos, acessar juntos o conhecimento. Não se trata de compensar as diferenças, todos devem ver-se como diferentes e singulares e não somente ver o outro como diferente. A educação e a escola devem ser espaço para emoção e convivência. No espaço escolar deve predominar o diálogo, o afeto, a valorização dos sentimentos alheios. Deve-se 87 buscar a aceitação e o rechaço pela rejeição, mediante uma participação ativa e prazerosa na sala de aula, compreendendo e acolhendo, ensinando os alunos a ter uma atitude mais flexível e cooperativa em relação aos outros, valorizando as capacidades de cada um. Queremos estar contribuindo para que os professores encontrem meios para transmitir aos seus alunos os fundamentos do ensino democrático, o reconhecimento do colega na sua diferença, na sua alteridade, chaves fundamentais para uma vida em sociedade. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ARANTES, V. Inclusão e exclusão: uma visão psicodramática. In: SEMANA DA EDUCAÇÃO, 1., 2001, Mirassol. Anais... Mirassol: Faimi, 2001. p. 81-83. FONSECA, V. Introdução às dificuldades de aprendizagem. 2. ed. rev. e aum. Porto Alegre: Artes Médicas, 1995. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 79-87, 2004 KERLINGER, F. Metodologia da pesquisa em ciências sociais. 5. ed. Tradução: Helena Mendes Rotundo. São Paulo: EPU, 1979. Título original: Behavioral Research – a conceptual approach. MANTOVANI DE ASSIS, O. Z; ASSIS, M. (Org.). Proepre: prática pedagógica. Campinas: Unicamp/ FE/LPG, 1999. MORENO, J. L. Fundamentos de la sociometría. Tradução: J. García Bouza e Saul Karsz. Buenos Aires: Paidós, 1972. Título original: Who shall, survive? PIAGET, J. Psicologia e pedagogia – a respostas do grande psicólogo aos problemas do ensino. 9. ed. Tradução: Dirceu Lindoso e Rosa Silva. São Paulo: Forense, 1988. SARAVALI, E. G. Dificuldades de aprendizagem e interação social. 2003. Tese (Doutorado em Psicologia Educacional) – Faculdade de Educação, Universidade Estadual de Campinas, Campinas, 2003. TOPCZEWISKI, A. TDA/TDHA em comorbidades com dislexia. In: SIMPÓSIO NACIONAL DISLEXIA, COGNIÇÃO E APRENDIZAGEM COM ÊNFASE EM EDUCAÇÃO, 7., 2003, São Paulo. Anais... São Paulo, 2003. Mimeografado. NOTAS SOBRE A CONSTITUIÇÃO DO PROLETARIADO EM CLASSE Jussara Marques de Macedo1 RESUMO A partir de revisão bibliográfica de Marx, Engels e Gramsci, o artigo aborda a constituição do proletariado em classe na sociedade capitalista. Com base nos pressupostos teóricometodológicos do materialismo histórico, o artigo apresenta a tese de que as condições para a constituição do proletariado em classe na contemporaneidade estão colocadas em decorrência do aumento da produtividade do trabalho e da complexificação da política. Cabe, portanto, à direção do movimento dos trabalhadores capitalizar tais condições em favor de seus interesses. PALAVRAS-CHAVE: Luta de classes. Capitalismo. Burguesia. Proletariado. SOME NOTES ON THE CONSTITUTION OF THE PROLETARIAT IN CLASS ABSTRACT This article is about the formation of the proletariat in class in the capitalist society, based on Marx, Engels and Gramsci’s bibliographical review. Still, based on the theoreticalmethodological presuppositions of the historical materialism, this article presents the following thesis: the conditions for the formation of the proletariat into a class nowadays are presented here, resulting from labor’s productivity increases and from the diversification of public politics. It behooves, therefore, to the working class leadership search for such conditions in behalf of its member’s interests. KEYWORDS: Class conflict. Capitalism. Bourgeoisie. Proletariat. 1 Mestre em Educação pela Universidade Federal Fluminense (UFF–RJ). Professora da Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação Vitória da Conquista Ano II n. 3 p. 89-103 2004 INTRODUÇÃO Neste artigo apresentamos uma reflexão sobre as possibilidades de constituição do proletariado em classe. Para isso, fez-se necessária uma retomada da leitura de Marx, Engels, Gramsci e outros autores contemporâneos como Neves, por exemplo. Nossa intenção foi a de apontar as reais possibilidades de tomada do poder por parte da classe trabalhadora, com vistas à constituição de uma nova sociedade, a partir da perspectiva da classe dominada, rompendo, dessa forma, com a hegemonia burguesa. Em um primeiro momento, analisamos o desenvolvimento da sociedade capitalista, segundo a contribuição de Marx e Engels, tomando como referência o Manifesto. Com base nesses teóricos, apontamos as reais possibilidades de organização da classe trabalhadora. Nossa tese central é a de que o desenvolvimento do capitalismo exige a qualificação dos trabalhadores, o que abre possibilidades concretas para sua organização em classe. Em seguida, tomando como referência a contribuição de Gramsci, desenvolvemos o conceito de hegemonia e o papel da formação do trabalhador como elemento fundamental para a ruptura do senso comum e a elevação do bom senso, com vistas à constituição de novos dirigentes, para uma nova sociedade. Por fim, apresentamos a categoria do “binômio industrialismo/democracia”, capaz de fornecer elementos teóricos significativos para nossa compreensão das condições de constituição do proletariado em classe na contemporaneidade. REVISITANDO O MANIFESTO É no Manifesto Comunista, de Marx e Engels, publicado pela primeira vez em Londres, no ano de 1848, que encontramos as referências originais do processo de desenvolvimento do proletariado, ou seja, da constituição do proleta- Jussara Marques de Macedo riado em classe. Para esses autores, a constituição do proletariado em classe tem sido a conseqüência do próprio desenvolvimento da maquinaria e da supremacia da burguesia. O Manifesto nos mostra que o desenvolvimento da maquinaria e da grande indústria fortalece a classe burguesa e, como conseqüência, promove o desenvolvimento do proletariado, o que representa, de certa forma, a ruína do artesanato e da pequena burguesia tradicional. Procuraremos aqui, resgatar os aspectos apontados por Marx e Engels acerca desse processo. Nosso principal objetivo é demonstrar como no Manifesto Marx e Engels concebem o desenvolvimento da supremacia burguesa e a constituição do proletariado em classe, não como um fenômeno social do campo das forças produtivas apenas, mas também do campo das relações de poder, confirmando uma das premissas fundamentais do pensamento histórico dialético: a unidade entre a economia e a política. Ao abordar o processo revolucionário promovido pela burguesia, Marx e Engels (1994, p. 18) nos indica que, se por um lado, naquele contexto, não mais cabia o trabalho artesanal, caracterizado pela atividade manual do homem, que buscava no trabalho doméstico os meios para sua sobrevivência, trabalho este que se confundia com o trabalho cotidiano e que buscava atender à necessidade doméstica, sem grandes investimentos, por outro, não cabia também a manufatura que, caracterizada pela introdução da máquina, eliminava o trabalho doméstico, pois este se processava na oficina, buscando não atender apenas à necessidade de uma pessoa, mas sim, de uma corporação. Embora tenha alterado o modo de produção, a sociedade burguesa moderna que surge com o fim da sociedade feudal, não aboliu as diferenças de classes que existiram em todo o mundo desde as sociedades mais antigas. Ao contrário disso, essa burguesia moderna acabou APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 90 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 Notas sobre a constituição do proletariado em classe por consolidar mais ainda a diferença de classe, passando a sociedade a dividir-se cada vez mais em duas classes opostas e bem visíveis, a saber: a da burguesia e a do proletariado (MARX; ENGELS, 1994, p. 18). O descobrimento de novos continentes, o avanço da ciência, a negociação por meio da troca de mercadorias contribuíram, enormemente, para o surgimento da burguesia moderna. Desta forma, a antiga organização feudal já não podia satisfazer às necessidades, que aumentavam com a abertura de novos mercados. Com a procura cada vez maior de mercadorias, a própria manufatura tornou-se insuficiente, sendo substituída pela produção industrial, o que levou ao surgimento de verdadeiros exércitos industriais gerenciados pelos burgueses modernos. Com o crescimento da indústria, cresce também o mercado que se expande em nível mundial, o que faz acelerar mais ainda os meios de comunicação, as novas técnicas na área da navegação, as vias férreas e, conseqüentemente, o crescimento do comércio nunca visto em tempos outrora. Porém, isto não foi condição para que sucumbisse a divisão de classes presente na sociedade. Pelo contrário, enquanto crescia a burguesia e seus capitais, crescia com mais vigor ainda a exploração da classe subalterna, que vivia em condições cada vez mais precárias. Todavia, podemos afirmar que a burguesia desempenhou um papel fundamental na história e este pode ser considerado revolucionário. Inclusive, no entendimento de Marx e Engels, [...] a burguesia destruiu todas as relações feudais, patriarcais e indílicas. Todos os complexos e variados laços que prendiam o homem feudal a seus “superiores naturais” ela os despedaçou sem piedade, só para deixar subsistir, de homem para homem, o laço do frio interesse, as duas exigências do “pagamento à vista”. Afogou os fervores sagrados do êxtase religioso, do 91 entusiasmo cavalheiresco, do sentimentalismo pequeno-burguês nas águas geladas do cálculo egoísta. Fez da dignidade pessoal um simples valor de troca; substituiu as numerosas liberdades, conquistadas com tanto esforço, pela única e implacável liberdade do comércio. Em uma palavra, em lugar de exploração velada por ilusões religiosas e políticas, a burguesia colocou uma exploração aberta, cínica e brutal (MARX; ENGELS, 1994, p. 19). Esta nova for ma de organização da sociedade, da produção e da comercialização das mercadorias fez com que a classe proletária vivesse em condições de completa subordinação. Mas, a existência e manutenção da burguesia só foram possíveis pelo fato de a burguesia revolucionar os instrumentos de produção, as relações de produção e todas as relações sociais. Para isso, utilizou-se de toda a tecnologia proposta pela ciência. Assim, “tudo o que é sólido e estável se esfuma, tudo o que era sagrado é profano, e os homens são obrigados finalmente a encarar com seriedade suas condições de existência e suas relações recíprocas” (MARX; ENGELS, 1994, p. 20). É justamente esse o momento mais propício para a classe proletária construir a consciência de que é uma classe diferente da burguesia, justamente por sua própria condição de existência e subalternidade, pois, estão postas, no novo modo de produção capitalista, as condições necessárias para o proletariado se organizar enquanto força social autônoma, colocando-se como força dirigente. AS POSSIBILIDADES DE ORGANIZAÇÃO DO PROLETARIADO Esta nova for ma de produção está relacionada diretamente à utilização da máquina, que vai cada vez mais eliminar maior quantidade de força física, barateando e desqualificando o trabalho do operário. Dessa forma, o trabalho realizado por este operário é visto como uma mercadoria sujeita a flutuações do mercado, o que vai gerar um mal-estar entre os trabalhadores, levando-os à concorrência entre si. A máquina, de certa for ma, dispensa a força física, desqualifica e barateia o trabalho do operário, o que possibilita a introdução de mulheres e crianças na indústria, proporcionando, assim, o enriquecimento cada vez maior da classe burguesa. A indústria, na visão de Marx e Engels, passa a ser determinada pelo movimento das máquinas. Desta forma, afirmam os autores: A indústria moderna transformou a pequena oficina do antigo mestre da corporação patriarcal na grande fábrica do industrial capitalista. Massas de operários, amontoados na fábrica, são organizados militarmente. Como soldados da indústria, estão sob a vigilância de uma hierarquia completa de oficiais e suboficiais. Não são somente escravos da classe burguesa, do Estado burguês, mas também diariamente, a cada hora, escravos da máquina, do capataz e, sobretudo do dono da fábrica. E esse despotismo é tanto mais mesquinho, odioso e exasperador, quanto maior é a fraqueza com que proclama ter no lucro seu objetivo exclusivo (MARX; ENGELS, 1994, p. 23). Com esta nova organização do trabalho, o proletário estava cada vez mais organizado geograficamente, a maior proximidade com os seus pares era inevitável e, assim também era a luta por interesses comuns. A luta por melhores salários, por exemplo, fazia crescer a unidade e a organização do proletariado. Por outro lado, porém, como lembra Boito Jr. (1998, p. 118-119), a nova forma de concorrência entre os proletários inaugurada pelo desenvolvimento da maquinaria retardava consideravelmente a constituição do proletariado em classe. Contraditoriamente, a constante guerra da burguesia para manter-se no poder, favorecia, sobremaneira, as formas de desenvolvimento do proletariado. Marx e Engels (1994, p. 24-25) citam como exemplo a luta que a burguesia travava “contra a aristocracia; depois, contra as frações da própria burguesia cujos interesses se encontram em conflito com os progressos da indústria; e sempre contra a burguesia dos países estrangeiros”. Não devemos considerar que os intelectuais pertencentes à classe burguesa, tendo compreendido o processo de evolução histórica em seu conjunto, passariam para o lado dos proletários. É o novo modo de produção capitalista que possibilita, pela primeira vez na história, a participação do proletariado na luta política, estando este em condições de “hegemonizar” um processo revolucionário. Ou seja, as contradições presentes no seio das classes dominantes pôde facilitar a constituição do proletariado em classe ou, ainda, a obtenção de reformas dentro do próprio sistema capitalista. A respeito das sugestões propostas por Marx e Engels no Manifesto Comunista, Boito Jr. salienta que [...] não apenas o proletariado, criado pelo desenvolvimento do capitalismo, pode fazer, desde que as condições o permitam, a revolução, como também a revolução, isto é, a crise revolucionária, pode fazer o proletariado; ou seja, pode ensejar sua constituição em classe com um programa político próprio (BOITO JR., 1998, p. 121). Assim, o movimento socialista, para se fortalecer, não deve ocorrer somente no interior das fábricas, mas junto às demais lutas sociais progressistas, como as lutas democráticas, camponesas e de libertação nacional, como sugere Marx e Engels no Manifesto (MARX; ENGELS, 1994, p. 11). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 Jussara Marques de Macedo 92 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 Notas sobre a constituição do proletariado em classe Com a introdução das máquinas nas indústrias, foi necessária uma maior qualificação do trabalhador e, em contrapartida, este passa a ser visto como aquele que opera a máquina, extensão da máquina. O custo desse novo trabalhador diminui, dando-lhe apenas um salário necessário para perpetuar sua existência. A burguesia não estava atenta para o detalhe de que, à medida que aumentava o seu poderio, aumentavam-se, também, as condições objetivas e subjetivas para a organização e luta da classe trabalhadora por melhores condições de trabalho e de sobrevivência. Os operários modernos, percebendo que eram tratados como mercadoria ou como artigo de comércio, tomaram consciência do que significava, na prática, viver sobre constante vigilância nas indústrias, fosse esta realizada pelos gerentes ou pelos chefes. Além de serem escravos da classe burguesa e do Estado burguês, eram também escravos das máquinas. À medida que a indústria se modernizava com a aquisição de maior quantidade de máquinas, abriam-se brechas para que houvesse, também, nesse espaço a exploração de mulheres e crianças, visto que pouca era a força e a qualificação exigida para o manuseio das máquinas, aprimoradas pela tecnologia. Assim, o Manifesto sugere que, com o crescimento da exploração da classe trabalhadora pela burguesia, cresce também a motivação para os proletários se organizarem e lutarem por seus direitos. Inicialmente essa organização se dava no próprio espaço da fábrica, depois dentro de um mesmo ramo industrial, para em seguida atingir maiores proporções. Toda esta mobilização dos proletários foi gerida concomitantemente ao desenvolvimento da burguesia. Logo, as reivindicações dos trabalhadores se evidenciam como uma luta de classes. Assim, poderíamos afirmar que o avanço da ciência contribuiu para o crescimento da 93 burguesia da mesma forma que contribuiu para a união dos trabalhadores, que se utilizaram dos meios de comunicação e dos meios de transporte para transformarem sua luta local em uma luta de nível nacional. Por isso, a afirmação de Marx ao dizer “que a burguesia fornece aos proletários os elementos de sua própria educação política, isto é, armas contra ela própria” (MARX; ENGELS, 1994, p. 25), ou seja, a burguesia acaba dando numerosos elementos de educação para o proletariado, ou ainda, a própria relação de poder é em si uma relação pedagógica. A constituição do proletariado em classe é bem diferente da luta burguesa, que visa a acumulação de capital por parte de uma classe mediante a apropriação do trabalho excedente de outra classe. O movimento proletário é divergente da luta burguesa, justamente por buscar, na realidade, os interesses coletivos de uma determinada classe explorada. Segundo Marx e Engels (1994, p. 43), é pela derrubada violenta da ordem burguesa e de suas instituições que o proletariado assume o poder. Coutinho (1999) analisando a obra de Marx e buscando sistematizar sua teoria política afirma que é através da “revolução permanente” que os trabalhadores assumiriam a direção do Estado, ou seja a tomada radical do poder, que se daria através da força. Poderíamos apreender do Manifesto a natureza conflituosa da ordem social fundada pela burguesia. Trata-se da incessante comoção de todas as condições sociais, uma inquietude e um movimento constante que distinguem a época burguesa de todas as épocas anteriores. Entretanto, o que para nós, aqui, é de maior relevância volta-se à constatação de que a revolução da maquinaria e das relações de produção são a condição fundamental para o desenvolvimento do capital. E com esse processo de revolução constante, revolucionam-se, também, todas as relações sociais. Embora no Manifesto Marx e Engels estivessem mais atentos ao processo revolucionário desencadeado pela burguesia no século XIX, eles acabam evidenciando uma das premissas do desenvolvimento do capital: o desenvolvimento do industrialismo e da democracia (MARX; ENGELS, 1994, p. 55). Inclusive, nesse processo de revolução constante, o Manifesto já aponta o caráter internacionalista do capital, certamente estabelecendo o princípio fundamental do que hoje alguns chamam de “globalização” ou de “mundialização” do capital, pois, no Manifesto, fica claro que o constante processo de aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e o constante progresso dos meios de comunicação são os meios pelos quais a burguesia arrasta todas as nações, desde as mais atrasadas, para a lógica da ordem capitalista, fazendo-os capitular aos preceitos das leis de mercado, ou seja, “forja um mundo a sua imagem e semelhança” (MARX; ENGELS, 1972, p. 57). Mas, certamente o mérito do Manifesto está na sua capacidade de evidenciar para a classe trabalhadora as contradições internas da ordem burguesa. O constante processo revolucionário das forças produtivas e das relações de produção fundam uma condição tal que as forças produtivas nunca são suficientes para o desenvolvimento da ordem social burguesa, constituindo-se sempre em um obstáculo para seu desenvolvimento, de modo que poderíamos afirmar que o desenvolvimento do capital é uma constante superação/ condicionamento das forças produtivas, o que precipita uma condição de ordenamento/ desordenamento de toda a sociedade burguesa, ameaçando permanentemente a existência da propriedade privada. Como Marx aponta, as relações burguesas resultam demasiado estreitas para conter as riquezas criadas em seu seio (MARX; ENGELS, 1972, p. 59). Jussara Marques de Macedo A partir dessa tese do Manifesto, poderíamos compreender a ordem capitalista como um processo de produção e reprodução da sociedade, onde a própria reprodução pressupõe, paradoxalmente, um processo de conservação e de ruptura, articulados dialeticamente; um processo no qual, à medida que o sistema muda, alimenta e conserva sua estruturação. Para compreendermos a dinâmica desse processo, no entanto, é necessário reconhecer que o sistema de produção e reprodução do capital é um processo histórico e, como tal, é um processo em transformação, com rupturas ou crises. A ruptura na ordem de continuidade do sistema capitalista se produz no contexto dos conflitos de classe (interclasse e intraclasse), ou seja, a ruptura na ordem de continuidade do sistema de produção e reprodução do capital se produz no contexto das crises de um determinado patamar de desenvolvimento das forças produtivas e das relações de produção, expressos numa determinada configuração do conflito de classe (SOUZA, 1998a, p. 52). CONCEITO DE HEGEMONIA EM GRAMSCI Passaremos aqui a analisar a contribuição de Gramsci para a compreensão desse processo, já que o conceito de hegemonia de Gramsci é de fundamental importância para trazermos à atualidade as lições do Manifesto Comunista de Marx e Engels. A história nos aponta que, desde os tempos mais remotos, o conceito de hegemonia era utilizado como forma de expressar domínio do mais forte em relação ao mais fraco. De origem grega, etimologicamente significa guiar, conduzir, mandar, governar, ser chefe. Com o passar do tempo, este termo foi tomando diferentes formas de uso, considerando-se o momento histórico em que o mesmo estava sendo utilizado e, mesmo APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 94 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 Notas sobre a constituição do proletariado em classe valendo-se de palavras sinônimas, relacionavase sempre ao sentido original presente na cultura grega (JESUS, 1989, p. 32). Com base nos estudos realizados por Jesus (1989), podemos considerar, didaticamente, quatro períodos em que se constituiu de forma bastante significativa o sentido da palavra hegemonia, a saber: o período que abrange os séculos V e VI a.C., período em que o sentido do termo se voltava ao chefe ou ao comandante do exército, representando,desta forma,a hegemonia no mundo grego, que poderia ser exercida em tempo de guerra ou de paz; o período da Idade Média, quando o conceito de hegemonia se amplia em relação ao primeiro período, uma vez que não se relacionava apenas ao poderio militar, mas a outros campos, destacando-se, principalmente, o político e o religioso, os quais mantiveram sempre a mesma supremacia políticomilitar presente no período anterior, pois, nesta época, era a Igreja o principal poder hegemônico. O autor caracteriza como terceiro período o referente aos Tempos Modernos onde o termo hegemonia é utilizado principalmente para se referir ao poder exercido de uma classe sobre a outra, considerando, não apenas os fatores político-militares, mas outros de fundamental importância, como o econômico, cultural e religioso. Da Contemporaneidade até nossos dias, é o que o autor considera como último período, destacando como principal característica da hegemonia o sentido político-militar da mesma forma que foi utilizado na Grécia, evidenciandose como preponderante desse período o sentido militar. Podemos apreender, então, que desde sua origem, o termo hegemonia, mesmo utilizandose de palavras sinônimas para atender às necessidades de cada época histórica, vem traduzindo o sentido de poder-direção ou dominação-consenso. Mas, o que tudo isso tem a ver com constituição do proletariado em classe? 95 Vejamos como Gramsci utilizou o termo e, de que forma isto contribuiu para o enriquecimento da teoria marxista, indo além de Marx e Engels. Ao iniciar suas reflexões a respeito da luta do proletariado, Gramsci desenvolve conceitos equivalentes ao de hegemonia e no discorrer de suas obras vai se tornando cada vez mais necessária a consolidação de uma perspectiva de luta que visa à transformação da sociedade capitalista em uma sociedade socialista. Para Gramsci, o socialismo era a única forma em que todos os cidadãos teriam oportunidade de fazer valer seus interesses coletivos e não apenas os seus interesses pessoais. De tal modo, esta nova ordem social se daria através da elevação da cultura e do saber, em todos os níveis sociais, ou seja, a constituição do proletariado em classe estaria condicionada à superação do senso comum (GRAMSCI, 1989a). Portanto, tal elevação se daria somente a partir do momento em que a classe subalterna – isto é, os proletários – tomasse consciência de sua própria condição de classe e passasse, a partir daí, a lutar organicamente por seus direitos. Assim, Gramsci inaugura uma nova forma de entender hegemonia dentro do próprio movimento marxista; entendimento este que se voltava diretamente para a capacidade de pensar e refletir a respeito de sua própria realidade. Isso elevaria o proletariado, dando-lhes uma capacidade crítica que os tornaria, não apenas objeto de uma história escrita por outros agentes, mas sujeitos críticos com capacidade de escreverem e direcionarem sua própria história. Pode-se afirmar, diante disso, que as reflexões gramscianas a respeito da hegemonia implicam em uma necessidade da classe proletária se tornar dominante e dirigente. Gramsci acreditava que os proletários deveriam superar o senso comum e a religião, ou seja, deveriam buscar o bom senso, que vai além do senso comum. Não deveriam os proletários tomar como referência somente as filosofias Jussara Marques de Macedo anteriores à filosofia da práxis. Como exemplo, podemos citar os movimentos heréticos da Idade Média, que surgiam como forma de politicagem da Igreja, tendo sua base na filosofia escolástica, que buscava justificar os conflitos existentes no interior da própria Igreja. A este respeito Gramsci afirma Por isso, a filosofia de uma época não pode ser nenhum sistema individual ou de tendência: ela é o conjunto de todas as filosofias individuais e de tendência, mais as opiniões científicas, mais a religião, mais o senso comum. Pode se formar artificialmente um sistema de gênero, através da obra de grupos e de indivíduos? A atividade crítica é a única possível, notadamente no sentido de colocar e resolver criticamente os problemas que se apresentam como expressões do desenvolvimento histórico. Mas o primeiro destes problemas, que deve ser colocado e compreendido, é o seguinte: a nova filosofia não pode coincidir com nenhum sistema do passado, não importa qual seja o seu nome. Identidade de termos não significa identidade de conceitos (GRAMSCI, 1989, p. 180). Os marxistas vêm tentando através de sua teoria romper com esta forma simplista de pensar a sociedade. Mas, é Gramsci o primeiro a considerar o saber popular, buscando, a partir deste, uma forma de superação do pensamento alicerçado somente no observável para uma forma mais elaborada, com bases filosóficas. Para que os homens comuns tivessem condições de se tornarem dominantes e dirigentes era necessário, segundo Gramsci Criticar a própria concepção do mundo, portanto, significa torná-la unitária e coerente e elevá-la até o ponto atingido pelo pensamento mundial mais desenvolvido. Significa, portanto, criticar, também, toda a filosofia até hoje exis- tente, na medida em que ela deixou estratificações consolidadas na filosofia popular. O início da elaboração crítica é a consciência daquilo que somos realmente, isto é, um “conhece-te a ti mesmo” como produto do processo histórico até hoje desenvolvido, que deixou em ti uma infinidade de traços recebidos sem benefício no inventário. Deve-se fazer, inicialmente, este inventário (GRAMSCI, 1989a, p. 12). Podemos verificar que Gramsci se referia à superação do “homem massa” que vive de forma acrítica e que, por isso, deixa-se levar por formas de compreensão do mundo que não condizem com sua realidade, mas com a de outrem. Portanto, a compreensão crítica deste mundo, segundo Gramsci, equivale à compreensão de sua própria condição de subalterno, tornando-se capaz de lutar em prol dos seus interesses e organizar-se, a fim de promover um mundo mais justo, onde as oportunidades sejam iguais para todos. Nesse sentido, Gramsci afirma que A compreensão crítica de si mesmo é obtida, portanto, através de uma luta de “hegemonias” políticas, de direções contrastantes, primeiro no campo da ética, depois no da política, atingindo, finalmente, uma elaboração superior da própria concepção do real. A consciência de fazer parte de uma determinada força hegemônica [isto é, a consciência política] é a primeira fase de uma ulterior e progressiva autoconsciência, na qual teoria e prática finalmente se unificam (GRAMSCI, 1989, p. 21). O que na verdade diferencia Gramsci de outros autores marxistas é sua capacidade de pensar a hegemonia como a forma de a classe trabalhadora se organizar, conquistando também a supremacia, o domínio, a direção e o consenso. Se a classe que detém o poder tem se constituído e se mantido no decorrer da história através da APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 96 Notas sobre a constituição do proletariado em classe APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 consolidação de uma ideologia hegemônica, não se deve deixar de considerar que a classe que almeja o poder, no caso os proletários, necessita, também, criar sua contra hegemonia, que é uma condição imprescindível para uma luta consciente e firme, capaz de se contrapor à hegemonia dominante. Uma vez assumido o poder, a classe trabalhadora poderá criar sua própria ditadura. É interessante notar que esta forma de tomada do poder, para Gramsci, não se daria enquanto a classe trabalhadora estivesse lutando de forma fragmentária, mas sim a partir do momento em que, unidos, buscassem se organizar culturalmente. Essa organização se daria no momento em que o povo, unido, buscasse constituir um bloco intelectual moral, o que é determinado pela filosofia da práxis. Para isso há de se considerar a urgência da classe proletária produzir seus próprios intelectuais, da mesma forma que a classe dominante os possui. A este respeito descreve Gramsci Parece-me justo que também este problema deva ser colocado historicamente, isto é, como um aspecto da questão política dos intelectuais. Autoconsciência crítica significa, histórica e politicamente, criação de uma elite de intelectuais: uma massa humana não se “distingue” e não se torna independente “por si”, sem organizar-se [em sentido lato]; e não existe organização sem intelectuais, isto é, sem organizadores e dirigentes, sem que o aspecto teórico da ligação teoria-prática se distinga concretamente em um estrato de pessoas “especializadas” na elaboração conceitual e filosófica (GRAMSCI, 1989, p. 21). Tal processo não deve ser visto como algo fácil, mas com muitas contradições. É um processo que exige dos intelectuais e da massa muita disciplina, persistência e credibilidade de ambas as partes, o que deve levar a uma confiança e credibilidade mútua. Intelectuais e massa devem 97 estar unidos dialeticamente no desenvolvimento desse processo, buscando superar as dificuldades oriundas desta luta. É papel dos intelectuais dinamizar e organizar as massas, elevando os simplórios “a níveis superiores de cultura e [ampliando] simultaneamente o seu círculo de influência, através de indivíduos, ou mesmo grupos mais ou menos importantes, no estrato dos intelectuais especializados” (GRAMSCI, 1989a, p. 22). Desta forma, percebe-se que a criação de intelectuais provindos da própria classe é uma possibilidade concreta que deve ser considerada por aqueles que lutam pela tomada do poder, e que almejam a constituição do proletariado em classe e, conseqüentemente, a passagem da sociedade capitalista para a sociedade socialista. Podemos perceber que esta possibilidade apregoada por Gramsci só é possível pelo fato da sociedade capitalista estar organizada de tal forma que os membros da classe proletária já podem possuir os elementos necessários à sua própria qualificação e à produção de seus intelectuais, ou seja, este pensamento só é válido, só faz sentido, justamente devido à existência da própria sociedade capitalista. Fora dela, nada disso teria significado. Observamos que este pensamento de Gramsci tem sua base na teoria de Marx e Engels que via no avanço do capitalismo as condições necessárias para a própria constituição do proletariado em classe. Para Marx e Engels (1994), à medida que o industrialismo vai se desenvolvendo, vai exigindo também, maior organização do trabalhador, com isso, os mesmos se valem desta oportunidade para se organizarem em classe e, assim, buscarem cada vez mais a concretização de seus interesses. Podemos identificar que, na base do pensamento gramsciano, a for mação dos intelectuais se volta diretamente ao pensamento de Marx e Engels, no que diz respeito à trans- Jussara Marques de Macedo formação do proletariado em classe, aproveitando as oportunidades oferecidas pela própria classe burguesa à classe proletária. À medida que a produção capitalista aumenta, buscando atender à exigência do mercado consumidor, aumenta também a necessidade de introdução de máquinas cada vez mais potentes para garantir a produção. A industrialização moderna exige então, o surgimento de um novo trabalhador, com uma nova mentalidade. Tomando consciência de sua própria classe, como sugere Marx e Engels, o proletariado terá condições de se organizar e, assim, lutar por seus interesses e construir a hegemonia de sua própria classe, como sugere Gramsci. É justamente neste aspecto que Gramsci apresenta uma contribuição significativa ao materialismo histórico, pois propõe que a tomada do poder não deveria ser fruto apenas do exercício da força, como sugeriu Marx e Engels, mas sim fruto da construção de uma hegemonia da classe trabalhadora, pois considera que não basta a tomada do poder pelos proletários, se os mesmos não tiverem como se manter no poder. A supremacia de um grupo social se manifesta com o domínio e a direção moral e intelectual e não apenas com a força. Para ser classe dominante é imprescindível ser antes classe dirigente, o que mostra que já se tem o consenso da maioria dos trabalhadores. Isto não impede, porém, que a classe trabalhadora seja dirigente, mesmo antes de assumir o poder e é nisto que consiste a relação dialética dos elementos “direção” e “dominação” em uma relação hegemônica. Segundo Jesus, [...] não existe para Gramsci uma hegemonia em si, uma categoria abstrata, indiferente à realidade histórica, ou, então, uma hegemonia que é ora dominação, ora direção, como elementos separados e independentes. Isto é tão verdade que não se pode entender o conceito eliminando um dos elementos, pois ambos significam aspectos diversos de uma mesma realidade. Uma compreensão dialética da totalidade do conceito exige a relação entre suas partes e o todo e das partes entre si. Somente as circunstâncias históricas, ou seja a historicização dos fenômenos, é que possibilitarão o destaque de um ou de outro elemento, também representados por seus equivalentes, como “consenso” e “persuasão” para o primeiro, e “ditadura” e “coerção” para o segundo (JESUS, 1989, p. 39). Esta hegemonia não será construída sem que o proletariado tenha acesso a uma educação de qualidade, uma escola onde estes possam formar intelectuais orgânicos de sua própria classe e organizar sua própria cultura, fazendo com que a classe proletária deixe de pensar corporativamente levando-a a uma motivação de luta pela superação dos interesses imediatos, visando o interesse de todos. Só assim, será possível a consolidação de uma classe nacional. Para Gramsci, a “revolução permanente” sugerida por Marx já não mais cabia em uma sociedade com seus pilares firmados na idéia de sociedade democrática, como no caso das sociedades modernas. Assim, ele afirma A fórmula [da revolução permanente] é própria de um período histórico em que não existiam ainda os grandes partidos políticos de massa e os grandes sindicatos econômicos, e a sociedade ainda estava, por assim dizer, no estado de fluidez sob muitos aspectos: maior atraso no campo e monopólio quase completo da eficiência político-estatal em poucas cidades ou numa só [...]; aparelho estatal relativamente pouco desenvolvido e maior autonomia da sociedade civil em relação à atividade estatal; determinado sistema de forças militares e do armamento nacional; maior autonomia das economias nacionais no quadro das relações econômicas do mercado mundial, etc. (GRAMSCI, 1989, p. 92). APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 98 APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 Notas sobre a constituição do proletariado em classe Esta estratégia proposta por Marx funcionaria no que dizia respeito aos países e às colônias atrasados e não especificamente aos Estados modernos, onde a organização interna e externa muito se complexificam. Para este novo tipo de sociedade, cabe sim, a perspectiva referente ao conceito de “hegemonia civil”, embora polêmico. É com este conceito de hegemonia que Gramsci avança em relação a Marx. A conquista dessa hegemonia, contudo, só seria possível através da “guerra de posição”, entendida por Gramsci como ligada diretamente à construção da hegemonia da sociedade civil por parte do proletariado. Gramsci percebe as transformações históricas ocorridas no seio da sociedade capitalista, o que o leva a uma renovação e reelaboração da teoria marxista, a fim de dar conta desta complexidade. Complexidade esta, inclusive, sugerida pelo próprio Marx no Manifesto. Gramsci (1991), já preconizava que a tomada do poder pelo trabalhador só se daria com base em uma sólida formação que garantiria a formação da hegemonia dos trabalhadores, por isso propôs: A escola unitária ou de for mação humanista [entendido este termo, “humanismo”, em sentido amplo e não apenas em sentido tradicional] ou de cultura geral deveria se propor a tarefa de inserir os jovens na atividade social, depois de tê-los levado a um certo grau de maturidade e capacidade, à criação intelectual e prática e a uma certa autonomia na orientação e na iniciativa (GRAMSCI, 1991, p. 120). 99 Esta é a escola onde não cabe a fragmentação entre os conteúdos oferecidos, mas uma organicidade que leve os alunos a estabelecerem relação com a prática, buscando exercitar o hábito do questionamento e construção de novos conhecimentos. É uma escola onde se deve explorar toda a inovação da ciência e tecnologia, a fim de se apropriarem de todo o conhecimento mais elevado da cultura que já tenha sido produzido. Dessa forma, estaria sendo colocado em xeque todo o conhecimento dogmático valorizado tradicionalmente. A disciplina é uma forma de conquistar a autonomia intelectual e moral. O valor da teoria educativa de Gramsci consiste, no entanto, em analisar e criticar as formas pedagógicas de sua época, principalmente a que se refere à Reforma Educacional Gentile.2 É percebido em sua análise a crítica à educação vocacional, rejeitando, dessa forma, a versão positivista da educação. Sua pedagogia radical ligase à história, à dialética e à crítica. É através da educação que a classe proletária criticaria a cultura dominante antes de poder transformá-la e, conseqüentemente, chegar à tomada do poder. Com isso, o proletariado teria condições plenas de formar sua consciência revolucionária através de uma educação que não seria injetada na classe trabalhadora de fora para dentro, mas sim mobilizada de dentro para fora, a partir da participação dos intelectuais orgânicos desta classe. Enquanto o senso comum sugeria uma visão mística da realidade por parte dos proletários, Gramsci via na educação o terreno propício onde os homens tomariam consciência 2 Na verdade, o que Gramsci estava criticando era a Reforma Educacional feita por Gentile em 1923, de cunho meramente conservador, durante o fascismo italiano que perdurou de 1922 a 1943. Reforma esta que consistia em um programa escolar e educativo que “fixava um sistema escolar rígido e internamente diferenciado, que separava as escolas secundárias humanistas [para as classes dirigentes] das técnicas [para as classes subalternas], que indicava como cultura formativa só a literário-histórico-filosófica, que permitia acesso à universidade só pelos liceus, que introduzia o ensino religioso na escola elementar [para dar ao povo uma “concepção do mundo”] e que era controlada na sua eficiência através do exame de Estado que concluía todos os ciclos secundários. A escola saiu dessa reforma profundamente renovada nas estruturas e nos conteúdos, mas foi logo atacada dentro e fora do fascismo, pela sua seletividade e pelo bloqueio que produzia na ascensão social dos grupos inferiores” (CAMBI, 1999, p. 578). de si mesmos, porém via nesta forma simplista de ver o mundo uma prática incapaz de “romper” com o mundo dado e transformá-lo. A noção de Gramsci de que no senso comum existe elementos de uma visão mais racional do mundo reforça a posição de que a tarefa do intelectual é promover lutas contrahegemônicas, tomando como ponto de partida o conhecimento popular, considerado a base de qualquer relacionamento pedagógico. Somente com este tipo de pedagogia, as pessoas estariam compreendendo as contradições da sociedade capitalista e, desta forma, poderiam transformar este conhecimento em resistência, a fim de formar uma nova consciência política. É portanto, imprescindível para a compreensão da possibilidade de tomada do poder pela classe proletária identificar a relação existente entre hegemonia, intelectuais e guerra de posição. Não estabelecer esta relação significa sustentar uma visão simplista e fragmentada da posição de Gramsci a respeito das possibilidades da emancipação da classe trabalhadora. O INDUSTRIALISMO, A DEMOCRACIA E A POSSIBILIDADE DA CONSTITUIÇÃO DO PROLETARIADO EM CLASSE É com base no pensamento de Marx e Gramsci que afirmam que a burguesia deu ao proletariado elementos necessários à sua educação a partir da própria exigência de formação e qualificação para o trabalho na indústria moderna; que Neves (1994) formula sua tese a respeito do “binômio industrialismo/democracia”, onde aponta as muitas contradições existentes na sociedade capitalista. Esta autora parte do princípio elaborado por Gramsci, onde industrialismo é entendido como um “estágio civilizatório superior” em que não há divisão entre trabalho e ciência e nem entre ciência e vida, considerando que para esta nova sociedade Jussara Marques de Macedo industrializada é necessária a formação também de um novo tipo de homem. Democracia seria, então, o crescimento da participação popular na tomada de decisão, o que provoca, segundo Gramsci, a possibilidade de uma maior luta de classes no interior do aparelho do Estado. A autora salienta que neste novo conceito – industrialismo/democracia – os dois termos estão imbricados, e que um só existe em função do outro. Segundo a autora, é a junção dos dois termos, industrialismo/democracia que possibilita a sociedade contemporânea a exigir melhores condições de vida e conseqüentemente, o crescimento do sistema educacional, que complementará a formação dos novos dirigentes da classe proletária. Considerando que esta tese foi elaborada a partir do materialismo históricodialético e fundamentada pela teoria de Gramsci, podemos acrescentar que não apenas o espaço escolar é considerado o lugar privilegiado para a formação do proletariado, mas sim, todos os outros espaços da sociedade onde se verifica qualquer expressão cultural. A educação, com base nos interesses da classe dominante, busca formar, antes de tudo, quadros para a efetiva manutenção do poder. No momento em que a sociedade capitalista busca novas formas educacionais para a formação de seus intelectuais e seus dirigentes, concomitantemente oferece, também, aos trabalhadores a oportunidade de educação necessária a sua organização. Desta forma, compreendemos que a escola gerida na sociedade de classes, com todas as suas contradições, dá oportunidade aos trabalhadores de se qualificarem. A este respeito salienta Neves A escola forma os intelectuais orgânicos da burguesia e for ma também, ao mesmo tempo, os intelectuais orgânicos do proletariado. A mesma escola que prepara os técnicos especialistas em funções de controle industrial [gerentes, APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 100 Notas sobre a constituição do proletariado em classe APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 supervisores, projetistas], as novas gerações de militantes partidários e sindicalistas das várias frações da classe dominante e seus aliados, prepara, também, os técnicos especializados em tarefas de execução, tanto na indústria quanto na burguesia estatal e no setor terciário da economia, ou seja, militantes partidários e sindicalistas da classe dominada e seus aliados (NEVES, 1994, p. 24). Quanto à educação, cabe ressaltar, no entanto, que existe diferença no que diz respeito ao “binômio industrialismo/democracia”. A escola, nesta sociedade, está organizada segundo os padrões da classe dominante que busca formar seus intelectuais, mas, mesmo assim, dá oportunidade também de nela se formar o intelectual da classe proletária. Isso, porém, não nos impede de ver que esta educação na sociedade capitalista acaba reservando os graus mais elevados de ensino, como as universidades, para os membros da classe burguesa. Contudo, entendemos que o controle democrático possibilitado à classe trabalhadora pela própria sociedade capitalista oferece também a oportunidade do desmonte dos mecanismos de filtragem social, possibilitando à classe trabalhadora os espaços imprescindíveis para a preparação quantitativa e qualitativa de seus dirigentes (N EVES , 1994, p. 26). Assim, o “binômio industrialismo/democracia”, na contemporaneidade, permite que os sistemas educacionais possam ser vistos e entendidos segundo duas óticas, a do capital e a do trabalho. A este respeito, Neves afirma o seguinte: Na ótica do capital [...] se traduz na necessidade de sua reprodução ampliada e na manutenção das relações sociais de produção. Assim, o capital requer da escola a formação de técnicos e de dirigentes voltados para a produção por ela controlada [...]. Do ponto de vista do trabalho, industrialismo e democracia 101 significam a possibilidade técnica e política de transformar as relações de produção vigentes, na perspectiva de que o domínio do conhecimento das leis da natureza e da dinâmica da sociedade, ao mesmo tempo que resgata para o trabalhador a condição de sujeito do processo social, proporciona-lhe os instrumentos necessários para o desenvolvimento coletivo de suas lutas contra a apropriação privada da riqueza e do saber (NEVES, 1994, p. 24-26). Se vivemos em uma sociedade dividida em classes, é evidente que a educação oferecida aos cidadãos, sejam eles pertencentes a uma classe ou outra, é a educação com base nos padrões estabelecidos pela classe dominante, ou seja, uma educação voltada para a produção e para o mercado que, mesmo tendo a base científica e tecnológica provenientes do avanço científico, está longe de corresponder à educação almejada pela classe proletária, já que estes buscam se apropriar, não só do conhecimento acumulado ao longo da história, mas de for ma fecunda, relacionando teoria e prática no seu cotidiano, visando sua emancipação. Evidencia-se desta maneira, dois projetos de educação em disputa na sociedade buscando alcançar sua hegemonia frente ao Estado. Se Marx e Engels afir mavam que a sociedade capitalista dava condições ao proletariado para se constituírem enquanto classe, bastando para isso que este se organizasse e buscasse assumir o poder através da força, se Gramsci preconizava que a constituição do proletariado em classe se daria a partir da construção de uma hegemonia pertencente à própria classe, Neves (1994), por sua vez, nos oferece os elementos teóricos que nos permitem compreender que as condições para a constituição da classe proletária já está dada na sociedade contemporânea, partindo dos princípios de Marx, Engels e Gramsci, acrescentando que a classe Jussara Marques de Macedo 102 CONSIDERAÇÕES FINAIS Após uma releitura do Manifesto de Marx e Engels, foi possível compreender que o desenvolvimento da ordem burguesa pressupõe o desenvolvimento da classe trabalhadora. Justamente por esta razão, a burguesia aciona seus mecanismos de mediação do conflito de classe para manter sua hegemonia. Em razão disto, a tomada de consciência por parte da classe trabalhadora está relacionada diretamente com o desenvolvimento do capitalismo, ou seja, é no contexto do desenvolvimento do capital que se dão as condições objetivas e subjetivas para constituição do proletariado em classe. Paradoxalmente, na medida em que a ordem social de produção burguesa se desenvolve, abrem-se novas possibilidades para a classe trabalhadora, bem como novos limites para a classe dominante. Portanto, para uma melhor compreensão da luta que se trava no seio da sociedade entre burguesia e classe trabalhadora, é necessário evidenciar os mecanismos instituídos na ordem social para garantir o consentimento ativo das camadas subalternas em torno do projeto de sociedade dominante. O conceito de hegemonia desenvolvido por Gramsci constitui-se em uma contribuição essencial nesse sentido, na medida em que esclarece a dinâmica da mediação do conflito de classe. A compreensão desta dinâmica é fundamental para os trabalhadores resgatarem as possibilidades existentes, tomar consciência da sua condição de explorado, para tornar-se dominante e dirigente. Isto seria possível através da sua formação que permitiria a passagem do senso comum para o bom senso, ou seja, sua constituição enquanto classe social. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BOITO JÚNIOR, A. A constituição do proletariado em classe, a propósito do Manifeto Comunista de Marx e Engels. Crítica Marxista, São Paulo: Xamã ,v. 1, 1998, p. 115-125. Tomo 6. CAMBI, F. História da pedagogia. São Paulo: Unesp, 1999. COUTINHO, C. N. Gramsci: um estudo sobre seu pensamento político. Nova edição ampliada. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1999. GRAMSCI, A. Concepção dialética da história. 8. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989a. ______. Maquiavel, a política e o estado moderno. 7. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1989b. ______. 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Dissertação (Mestrado em Educação) – Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense (UFF), Niterói, 1998. APRENDER - Cad. de Filosofia e Pisc. da Educação - Vitória da Conquista, Ano II, n. 3, p. 89-103, 2004 ______. Desmistificando a formação humana. Crítica – Revista de Filosofia, Londrina, v. 4, n. 15, p. 343-370, abr./jun. 1999. NORMAS PARA APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS O Aprender é uma publicação que pretende divulgar trabalhos sobre o processo educacional em suas variáveis filosóficas ou psicológicas, ou contribuições de outras áreas de conhecimento, de acordo com o enfoque da publicação. Dada a abrangência do processo educacional, o Aprender define enfoques temáticos para melhor orientar o conteúdo dos trabalhos candidatos à publicação: Filosofia da educação: • A aprendizagem como problema filosófico: como e em que condições se dá a transmissão, construção ou apropriação do conhecimento; • A Filosofia e a instituição escolar; • Abordagem teórica das diferentes escolas pedagógicas; • Diferentes conceitos e concepções de educação; • Educação e Filosofia: as correntes filosóficas e sua relação com os processos educacionais; • Ética e Educação: a ética como fundamento para a formação e a aprendizagem, a ética profissional do educador, entre outros. • O papel da Filosofia nas transformações da educação contemporânea. Psicologia da educação: • Análise psicológica do processo ensino-aprendizagem e suas variáveis; • Desenvolvimento psicológico e educação: aspectos psicomotores, afetivos, cognitivos, lingüísticos, sociais, culturais e familiares; • Diferentes aspectos psicológicos da educação para portadores de necessidades especiais; • Novas tendências e tecnologias de ensino: aspectos psicopedagógicos; • Psicanálise e educação; • Psicologia e instituição escolar: trabalho docente, cultura escolar, currículos escolares, atuação do psicólogo na escola, entre outros; • Psicologia social e educação; • Relações humanas na escola; • Trabalho e educação. (Somente serão aceitos trabalhos que se enquadrem em um ou mais enfoques temáticos citados acima). Envio dos trabalhos: Os trabalhos candidatos à publicação deverão ser enviados por e-mail, com o texto anexo, digitado em Word for Windows, para os seguintes endereços eletrônicos: [email protected] e [email protected] Ou ainda, por correio, contendo uma cópia impressa em papel tamanho A4, e uma cópia em disquete, para o endereço abaixo: Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb) Departamento de Filosofia e Ciências Humanas (DFCH) APRENDER – Caderno de Filosofia e Psicologia da Educação Estrada do Bem Querer, Km 4 - 45083-900 – Vitória da Conquista – Bahia Tanto no envio por endereço eletrônico ou pelo correio, os trabalhos deverão vir acompanhados por uma página ou folha à parte, contendo os seguintes dados de identificação: • Título do trabalho acompanhado pelo resumo e palavras-chave em português; • Nome completo do(s) autor(es); • Graduação e nome da instituição onde se graduou; • Maior titulação e nome da instituição onde se titulou; • Instituição de origem e função que está exercendo; • Endereço eletrônico e telefone para contatos. Formatação dos trabalhos: Os trabalhos candidatos à publicação deverão ser digitados da seguinte forma: 1. Título do trabalho em fonte Arial, tamanho 12, em negrito e caixa alta, centralizado no alto da página inicial. 2. Dois espaços abaixo do título do trabalho, deverá vir o nome do(s) autor(es) em fonte Times New Roman, tamanho 12, em itálico, alinhado à direita da página, e somente com as primeiras letras em maiúsculo. 3. Dois espaços abaixo da indicação do(s) autor(es) do trabalho, deverá vir o Resumo e as PalavrasChave em português e outra em inglês ou francês. 4. Os Resumos deverão ter no mínimo 50 (cinqüenta) palavras e as palavras-chave deverão ser no máximo 5 (cinco). 5. Títulos secundários em fonte Times New Roman, tamanho 12, em negrito, somente com as primeiras letras em maiúsculo, e alinhadas à esquerda da página (não devem ser numeradas). 6. A fonte do corpo do texto deverá ser Times New Roman, tamanho 12, com espaçamento de 1,5 entre linhas. 7. A configuração da página onde será digitado o trabalho deverá ser de 2 (dois) centímetros nas bordas superior, inferior, direita e esquerda, com papel tamanho A4 e orientação tipo retrato. 8. Os trabalhos deverão ser digitados em Word for Windows. 9. Figuras e fotos deverão vir no corpo do texto, em local desejado pelo autor, somente em preto e branco. 10. Gráficos deverão vir no final do trabalho, somente em preto e branco, de maneira legível e com legendas por extenso. 11. Os trabalhos deverão conter no máximo 20 (vinte) páginas, excluindo-se a referência bibliográfica e o resumo em língua estrangeira. EQUIPE TÉCNICA Coordenação editorial Jacinto Braz David Filho Capa Joaquim Oliveira Santos (Idéia) Editoração eletrônica e supervisão gráfica Ana Cristina Novais Menezes DRT-BA 1613 Revisão de linguagem (Português) Marluce de Santana Vieira Normalização técnica Jacinto Braz David Filho Revisão das traduções: Inglês Diógenes Cândido de Lima Francês Carlos Alberto Almeida Ferraz e Araújo [email protected] Impresso na Empresa Gráfica da Bahia Na tipologia Garamond 12/16/papel offset 90g/m² Em outubro de 2005.