Ver a paisagem, formar a nação: Notas sobre o ensino do desenho no Brasil a partir de Belém do Pará Renato Palumbo Dória* Resumo: A busca por um ensino sistemático do desenho se firma no Brasil a partir do início do século XIX através da importação de modelos culturais europeus, construíndo no país uma disciplina de múltiplos usos e finalidades. As publicações voltadas para a propagação do ensino e das práticas em torno do desenho serão, neste âmbito, instrumentos essenciais, fazendo circular ideias, modelos e discursos variados (e muitas vezes antagônicos), sobre quais os melhores métodos e finalidades para o ensino do desenho. Em Belém do Pará esta dinâmica, refletindo uma movimentação internacional, também ocorre desde o século XIX, com a introdução do ensino do desenho nas escolas e através da presença, na cidade, de diferentes profissionais a oferecê-lo. Em princípios do século XX, esta movimentação atinge maior relevância, defendendo-se em alguns círculos o ensino de um desenho de caráter nacional, com especial atenção para a observação da natureza e paisagem locais, escolhas emblemáticas dos enfrentamentos modernos da formação cultural e política do país, em seus constantes deslocamentos e anacronismos diante dos modelos europeus e ocidentais. Palavras chaves: Ensino do desenho; anacronismos; deslocamentos. Abstract: The search for a systematic teaching of drawing is established in Brazil from the 19th century on, by the importation of European cultural models, building in the country a school subject apt for various uses and purposes. Publications aimed at the spread of education and practice around drawing will be considered, in this context, essential tools for disseminating ideas, models and various speeches (and often antagonistic) on the best methods for teaching purposes and drawing. In Belem do Pará, this dynamic, reflecting Revista Estudos Amazônicos • vol. VI, nº 1 (2011), pp. 117-147 an international movement, also occurs in the 19th century century with the introduction of the teaching of drawing in schools and by the presence in the city of different professional to offer it. In the early twentieth century, this movement reaches greater relevancy, aiming, in some groups to teach a national drawing trend, with special attention to the observation of nature and landscape sites. These are emblematic choices of modern clashes in cultural education and the country's political environment in its constant displacement and anachronisms in the face of Western and European models. Keywords: Teaching of drawing; anachronisms; displacements. Revista Estudos Amazônicos • 118 Visando o futuro, os círculos ilustrados do século XVIII já indicavam a educação como meio central de regeneração social e criação de uma nova humanidade, contexto no qual proliferariam inúmeras propostas pedagógicas, desde os planos de uma universidade ideal, por Denis Diderot (instituição que deveria ministrar os princípios básicos de todos os saberes ao maior número possível de cidadãos), às preocupações com os processos de formação individual como no Emílio (ou Da Educação)1, livro de Jean-Jacques Rousseau que, publicado em 1762, trazia a ideia de que as crianças, percebendo antes as imagens que as ideias, deveriam por isso receber, desde os primeiros anos, um cuidadoso ensino do desenho, privilegiando-se através dele, sobretudo a observação direta da natureza.2 Ensino do desenho que Rousseau recomendava, sob prescrições, muito específicas, justificando que não se tratava de formar artistas, mas antes de se valer da prática do desenho para, entre outras coisas, ensinar a ver: “[...] As crianças, grandes imitadoras, tentam todas desenhar: gostaria que a minha cultivasse essa arte, não precisamente pele própria arte e sim para tornar seu olho justo e sua mão flexível. E, em geral, pouco importa que ela saiba tal ou qual exercício, desde que adquira a perspicácia do sentido e os bons hábitos do corpo que se ganham com o exercício. Evitarei por conseguinte dar-lhe um professor de desenho, que só a levaria a imitar imitações e a desenhar segundo desenhos: quero que ela não tenha outro professor senão a natureza, nem outro modelo senão os objetos. Quero que tenha diante dos olhos o original e não o papel que o representa, que esboce uma casa diante de uma casa, uma árvore diante de uma árvore, um homem diante de um homem, a fim de que se acostume a bem observar os corpos e as aparências e não a tomar imitações falsas e convencionais por verdadeiras[...] / [...]minha intenção é menos a de que saiba imitar os objetos do que conhecê-los[...] / Ilustraremos, pintaremos, rabiscaremos; mas nunca deixaremos de olhar para a natureza em nossos rabiscos; nunca faremos nada sem atentar para esse mestre”.3 Revista Estudos Amazônicos • 119 Na Europa do século XVIII já se estabelecera, também, a convicção da utilidade em se propagar o conhecimento do desenho entre as camadas populares, visando à melhoria da produção industrial, objetivo para o qual se fundam escolas de desenho anexas às manufaturas como as de tapetes, móveis, vidros e porcelanas, entre outras. Potencializava-se assim uma clivagem entre distintas práticas e tipos de desenho, em acordo com suas diferentes destinações sociais, ampliada ao longo dos séculos XIX e XX na medida em que, concomitantemente, crescia a institucionalização dos processos educativos e aumentava a oferta dos métodos do desenho, estabelecendo-se uma intensa circulação de alunos, professores e materiais entre diferentes ambientes de aprendizagem. Circulação complexa, feita de convergências, mas também de conflitos e tensões, sendo muitas as tentativas de controle existentes sobre este campo. No Brasil, ultrapassando-se âmbitos de formação puramente práticos, vinculados à atuação de engenheiros militares e pintores coloniais, se buscará estabelecer já a partir da primeira metade do século XIX esta perspectiva iluminista frente ao desenho, visto como possível linguagem universal e conhecimento de utilidade pública, desejável a diferentes gêneros e classes sociais, devendo por isso se tornar disponível para a efetivação da sociedade moderna que se pretendia construir.4 Noção que motivaria, nas primeiras décadas do Brasil imperial, inúmeros projetos de inserção da aprendizagem do desenho nos planos gerais de ensino, em diferentes regiões, repercutindo uma tendência que se verificava, a partir dos modelos europeus, também em outros países latino-americanos.5 Exemplar desta sintonia internacional seria a presteza com a qual se publicaria no Rio de Janeiro, em 1831, o livro Princípios do Desenho Linear, comprehendendo os da Geometria Pratica, pelo methodo do ensino mútuo; extraídos de L.B. Francoeur: dedicados aos amigos da instrução elementar no Brasil, por A.F. de P. E Hollanda Cavalcanti Albuquerque. Publicação que sem desconsiderar abordagens figurativas e ornamentais propunha, contudo uma compreensão eminentemente geométrica e técnica das formas, sendo a tradução de L’Enseignement du Dessin Linéaire de Louis Benjamin Francoeur (pioneiro na defesa da inserção do desenho na educação primária) publicada na França em 1827 – sendo sobretudo do ambiente pedagógico francês de onde se propagariam com maior sucesso os métodos para a aprendizagem do desenho.6 Revista Estudos Amazônicos • 120 Disseminando-se, portanto pelo ambiente educacional brasileiro, desde princípios do século XIX, a disciplina do desenho seria incorporada gradativamente à inúmeros currículos, tanto no ensino primário e secundário quanto nas escolas de formação profissional e superior, refletindo as preocupações de um ambiente cultural que buscava inspirar-se sobretudo nos avanços franceses. Avanços que se expressavam através da publicação de obras como o Dictionnaire Universel D`Education et D`Enseignement, já na Paris de 1873, que inseria o desenho no âmbito da instrução secundária junto ao ensino da indústria, da higiene, da agrimensura e do comércio, entre outras disciplinas, sendo que na França, segundo Renauld D`Enfert, “[...] au début du Second Empire la plupart des institutions d`enseignement mettent en place progressivement des cours de dessin” – expansão do ensino do desenho que era o amadurecimento de idéias em gestação desde o século XVIII, quando começam a firmar-se “[...] nouveux acteurs - savants ou pédagogues - dans un champ traditionnellement réservé aux artistes et l‟élaboration de nouvelles méthodes qui rompent largement avec l`héritage académique”.7 Em um contexto internacional de expansão dos meios de ensino, entre os quais se incluia o ensino do desenho, as publicações didáticas assumiam importância central, ligando-se tanto aos avanços da cultura industrial quanto à formação dos estados nacionais, com os manuais escolares funcionando também como instrumentos de construção e consolidação das identidades nacionais, especialmente através dos manuais de história e do ensino da língua pátria, meios e símbolos da autonomia de um país. Publicações didáticas cuja produção atingiria ainda forte dimensão econômica, com as antigas e artesanais casas tipográficas (que imprimiam obras subsidiadas por seus próprios autores) sendo progressivamente substituída por grandes indústrias editoriais, sob a supervisão de homens de negócios atentos a esta enorme expansão do mercado: “[...]Cette expansion était due à l`alphabétisation et la scolarisation, au type nouveau de livres que réclamaient tous ces acheteurs potentiels, ainsi qu`aux possibilités immenses que leur offraient d`une part la rapidité de distribuition et de diffusion, en France et à l`étranger grâce au Revista Estudos Amazônicos • 121 développement des voies de communication, d`autre part les nouvelles inventions techniques de la fabrication du livre. “Le livre qui était un objet de luxe devint un objet de consommation courante”(Zola)”.8 As publicações específicas para o ensino do desenho, acompanhando estas transformações gerais, ganhariam igualmente novos formatos e feições, preservando, porém, em seu cerne, muitos conteúdos já estabelecidos. Apesar da instauração de novos métodos e modelos, operando-se na Europa a passagem de um desenho de cunho eminentemente artístico e figurativo para um desenho de caráter mais projetual e técnico, o que se verificará comumente no Brasil do século XIX será a manutenção, mesmo no ambiente escolar, de modos mais empíricos e tradicionais de aprendizagem do desenho. Assim, enquanto em Itú, no interior da província de São Paulo, Miguel Arcanjo Benício Dutro (mais conhecido como Miguelzinho Dutra) ensinava de modo pouco ortodoxo o desenho tanto a homens quanto a mulheres9 – um ensino distante do modelo acadêmico, se servindo ainda da cópia de estampas, mas também da observação do natural –, e em Recife o cirurgião Januário Caneca (professor de desenho no Liceo de Pernanbuco em sintonia com a atividade dinamizadora da Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro) publicava, em 1844, seu Compêndio de Dezenho,10 em Belém do Pará algumas jovens alunas do Recolhimento das Educandas do Pará recebiam suas primeiras lições de desenho do professor Jozé Bernardes Santarém – havendo conservados, na Seção de Iconografia da Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, como testemunhos rotos destas lições, alguns estudos à bico de pena datados de 1842, realizados igualmente a partir da cópia de estampas.11 Lições de desenho que se davam no âmbito mais amplo de uma aprendizagem geral feminina, compondo junto à costura, à dança e à música um leque de disciplinas, ou “prendas”, consideradas apropriadas a formação de mulheres: “[...] e tendo eu por vezes vizitado o Estabelecimento posso informar, que estão adiantadas muitas meninas em leitura, caligrafia, arithmetica, grammatica portugueza, e costuras, e Revista Estudos Amazônicos • 122 algumas em dezenho, muzica vocal, e dança: Em poucos dias estará pronto um pianno, e terão ellas meio de se applicarem a mais esta interessante prenda. A muzica e dezenho são ainda ensinadas gratuitamente, a 1ª pelo Rmo. Conego Marçal Antonio Ferreira, e a 2ª pelo 2º Tenente da Armada Jozé Bernardes Santarem, que prestão nisto um serviço meritorio, e digno de todo o elogio [...]”. 12 Recebendo ou não pagamento por isto, Jozé Bernardes Santarem continuaria ensinando o desenho no Recolhimento das Educandas do Pará ao menos até 1844, sendo citado no relatório provincial paraense deste mesmo ano. Instituição fundada em 1803 por iniciativa do religioso Manoel de Almeida Carvalho após uma viagem pastoral pelos sertões dos rios Solimões e Negro, de onde teria trazido quinze meninas índias para Belém, o Recolhimento das Educandas seria qualificado então como estabelecimento “[...] que já tem arrancado às garras da fome, da nudez, em fim da mizeria perdição tantas meninas desvalidas, e destituidas de todo o amparo, e proteção”,13 recebendo ao longo do século não apenas índias e orfãs (que deveriam ser custeadas pelas câmaras municipais de onde proveniessem), mas também “filhas família”14 sob pagamento de uma pequena pensão por parte de seus pais ou tutores.15 Estavam as aulas de desenho de Jozé Bernardes Santarem no Recolhimento das Educandas situadas, portanto, no quadro dos “diversos ramos de ensino próprio das meninas”.16 Era o desenho, porém gênero de estudos relativamente novo na instituição: apenas em seu regulamento de 1840 é que se definiriam como suas atribuições não só o ensino primário, da costura e do bordado, mas também, “[...] logo que haja mestres idôneos, o ensino da muzica, língua franceza e desenho”.17 Embora não tenhamos maiores dados sobre os métodos ali empregados por Bernardes Santarem é justo supor que este se amparasse no cabedal de conhecimentos adquiridos em sua formação militar, adaptados para servir às alunas do “Recolhimento”. O certo é que a partir de experiências isoladas como esta o ensino do desenho ganharia progresssivo destaque em Belém do Pará ao longo do século XIX: um anúncio publicado na cidade em 1868 já ofereceria, por exemplo, a um público mais vasto, lições particulares de desenho e pintura (além da execução de trabalhos decorativos). Tratava-se de Revista Estudos Amazônicos • 123 publicidade feita por Joseph Léon Righini, artista italiano que após passar por Recife (aonde chega em 1856 como cenógrafo de uma companhia de ópera) e São Luís do Maranhão estabelece-se definitivamente em Belém, onde faleceria em 1884. Tomando a natureza e paisagem amazônica como tema central, Righini realizaria então pinturas de grande qualidade, possuindo um domínio técnico evidentemente elevado e mais em acordo com os modelos europeus que se pretendia implementar no país, em relação a outros artistas em atividade na cidade. O anúncio em que oferecia seus préstimos, no Jornal do Pará, figurava em meio a uma variedade de outros comunicados: pequenas peças do mosaico dinâmico e do burburinho da vida cotidiana da Belém do Pará daqueles anos, encontrando-se entre eles desde avisos marítimos (“O vapor a helice Uruguay deve partir de Liverpool para o Ceará fazendo escala por Lisboa, Pará e Maranhão no dia 22 do corrente mez de Agosto [...]”), até anúncios de desaparecimento de cães, da fuga de escravos, da venda de livros e partituras musicais, e mesmo da abertura de escolas. É possível que a atuação de Joseph Léon Righini como professor de desenho e pintura em Belém do Pará tenha conhecido algum sucesso, ainda que a sobrevivência do artista estivesse mais ligada às encomendas que recebia, sobretudo, para a pintura decorativa de interiores. Entre fins do século XIX e princípios do XX, no entanto, a riqueza propiciada pela borracha atrairia ainda mais artistas à região, assumindo importância central a formação e o consumo artístico em uma cidade que se “civilizava”. Importariam-se assim, em ritmo cada vez mais acelerado, os modelos culturais do “velho mundo”, com professores de desenho chegando a ser contratados diretamente na Europa.18 Ambiente no qual o francês Maurice Blaise (convidado em Paris pelo representante dos negócios paraenses na Europa para lecionar em Belém, onde se tornaria professor de desenho na Escola Normal, no Instututo Lauro Sodré e no Ginásio Paes de Carvalho) publicaria, em 1904, seu Desenho Linear Geometrico: acompanhado de algumas aplicações ao ornato, obra dedicada ao ensino do desenho no âmbito primário. Impresso por uma editora com sedes tanto em Paris quanto em Lisboa (a Aillaud & Cia), em seu livro Maurice Blaise se apresentava não só como professor das instituições acima citadas, mas também como “professeur breveté des lycées et colléges de France, além de officier d`Académie”. Tratava-se de Revista Estudos Amazônicos • 124 fato de uma movimentação internacional, com impactos diretos não somente no Brasil, mas em praticamente todo o território latinoamericano. Em 1849, por exemplo, inaugurava-se no Chile a Academia de Pintura de Santiago. Seu diretor, o napolitano Alessandro Cicarelli, que já havia atuado no Brasil (onde deu aulas de desenho à imperatriz Thereza Christina e expôs na Imperial Academia de Belas Artes do Rio de Janeiro), leria então, em cerimônia pública solene, seu discurso intitulado “Origem e Progresso de las Bellas Artes” – uma longa digressão sobre a necessidade de se cultivarem os vínculos com a antiguidade clássica, dando especial atenção ao ensino do desenho e historiando a primazia da arquitetura sobre as demais artes (tópico constante no discurso acadêmico do século XIX). Seria tratando da origem histórica do desenho, porém que Allesandro Cicarelli, mirando o passado, justificaria um plano de estudos para sua própria época: estabelecendo a analogia entre a Grécia antiga e a América (similares, para o artista, pela luminosidade de suas paisagens e estados de civilização), Cicarelli antevia um auspicioso futuro artístico para as nações sul-americanas19 – argumentação recorrente também em alguns discursos brasileiros do século XIX, que exaltando a grandiosidade da natureza local previam para a arte nacional um destino igualmente grandioso. Fé e retórica que para fins do século XIX perderia força, patenteando-se diante de uma consciência crítica nacional que aos poucos se formava o descompasso existente entre a nação e cultura artística almejada (em acordo com modelos clássicos e europeus disponíveis), e a nação e cultura artística reais que se experimentava, sendo este deslocamento em relação ao modelo europeu um dos problemas centrais a ser enfrentado pela arte praticada no Brasil no período pós-colonial:20 “[...] Têm-se escripto [...] que o céu azul e profundo, densamente constelado da Grécia, devia dar como resultado inevitável essa maravilhoza intuição do belo com que eram dotados os compatriotas de Péricles [...]Pois bem; o nosso firmamento reclama vantagens sobre o da Grécia [...]e entretanto [...]hélas! apesar dessa influência sideral a nossa América do Sul continua desprovida de inspirações artísticas; ao Parthenon apenas podemos opôr o edifício da Imprensa Revista Estudos Amazônicos • 125 Nacional, e a produção mais conhecida da escultura contemporânea entre nós é o Cupidinho da fonte do Passeio Publico com a legenda “sou útil inda brincando”. A arte precisa do favor público para se desenvolver e aprimorar”. 21 Ainda no Chile, mas já em 1880, outro discurso dedicado aos educadores e “pais de família”, intitulado “Dibujo: su enseñanza en los colégios”22, dava especial atenção também à educação feminina. Comentando o grande número de mulheres que em Paris já trabalhavam como “[...] escultoras, pintoras, grabadoras, poetisas, literatas, periodistas”, seu autor (José Miguel) elogiava o fato de o desenho ser precocemente ministrado nos colégios franceses, tanto aos meninos quanto às meninas, em inevitável contraponto ao panorama local. Nomeando a si mesmo como “apóstolo infatigável do culto do desenho”, seu autor defendia nas escolas “[...] la enseñanza del dibujo natural, de paisaje, de ornamentacion y de cada ramo que encierra el arte sublime de reproducir la naturaleza en todas sus formas, en todas sus cambiantes colores”. Protestando contra a incompreensão local, não se dando no Chile a devida importância ao ensino do desenho, expressavase ali, porém, certa confusão quanto às finalidades pretendidas para este ensino no âmbito escolar, exaltando-se o modelo das belas artes em detrimento do trabalho operário (o que talvez seja sintomático de uma certa atitude geral latinoamericano para com as artes), indo-se em direção claramente contraditória frente às mais recorrentes defesas para o ensino escolar do desenho, parecendo pretender-se simplesmente transferir para o âmbito escolar a experiência acadêmica do desenho: “[...] los padres de familia no lo reclaman [o ensino do desenho] para sus hijos, y éstos, aunque tengan aptitudes para llegar a ser un Miguel Anjel, un Rafael o un Bramante al salir de los bancos de la escuela, van a instalarse en los bancos del zapatero, del carpintero, del herrero, del sastre, etc., profesiones modestas que no tienen nada de desdoroso, en verdad, pero que tampoco dan campo vasto a la imajinacion y rara vez consigue hacer su fortuna el que las cultiva”.23 Revista Estudos Amazônicos • 126 Os inícios de um novo tempo? Em 7 de setembro de 1909, aniversário da ainda jovem república brasileira, e após um século XIX marcado pelo poder imperial, se inaugurava em Belém do Pará, no privilegiado espaço do Teatro da Paz, e por determinação do Governo do Estado, a Primeira Exposição Escolar de Desenho. No prefácio de seu catálogo, clamando-se pela melhoria dos meios de instrução no país, valorizava-se, sobretudo a introdução da arte neste âmbito: arte vista então como “base da indústria”, sendo a disciplina do desenho considerada como “lei primeira de todas as artes”.24 Tratava-se da reiteração de um discurso já estabelecido ao longo do século precedente, mas que se materializava naquele evento: eram 1825 os trabalhos expostos, em sua maioria desenhos, realizados por 870 alunos e alunas de variados estabelecimentos de ensino paraense, refletindo uma movimentação cultural maior, com a riqueza trazida pela exportação da borracha e com a administração esclarecida e europeizante de Antônio Lemos – político que investiria na música, na pintura e na arquitetura como instrumentos de propaganda e construção local de ideais de urbanidade e civilização. Ufanísticamente se afirmava ali ser “fama geral” que “[...] no terreno da educação artística o Pará marcha na avançada dos estados Brazileiros, como um exemplo digno de imitação”, considerando-se a própria exposição que se realizava prova inequívoca desta superioridade. As atas das reuniões do júri destinado a premiar os trabalhos expostos sugerem, porém, que permaneciam em suspenso muitas das dúvidas e controvérsias em torno de quais as corretas finalidades e melhores métodos para este ensino. Reuniões em que polemizariam de um lado o engenheiro Palma Muniz e de outro o pintor Theodoro Braga (1872-1953), que considerava o evento início de uma “[...] nova era para o estudo escolar de desenho e pintura no Pará”.25 A polêmica giraria ante a proposição de Palma Muniz, para que se excluíssem da premiação os trabalhos de pintura (argumentando que o objetivo do governo era promover uma exposição escolar “apenas de desenho”). Proposição contestada por Theodoro Braga, que defendia que pinturas e desenhos fossem julgados e premiados em igualdade de condições26 – premiados entre os quais se sobressairiam estudantes do sexo feminino (os trabalhos de maior destaque seriam o “desenho do busto de Carlos Revista Estudos Amazônicos • 127 Gomes existente no salão nobre do Theatro da Paz” e a reprodução, a carvão, pela Senhorita Lourdes de Oliveira, de uma “estatueta de gesso”). Envolvendo grande parte das elites paraenses, através de suas famílias, estudantes e professores, imprensa e governo, o sucesso do evento acabaria por convertê-lo em um concorrido salão anual, com orçamento previsto nas despesas da Secretaria de Estado da Instrução Pública e organizado sempre junto às festividades do 7 de setembro, permitindo também a continuidade das polêmicas: por volta de 1913 o mesmo Theodoro Braga (que propunha na época, entre outras inovações, a adoção sistemática, no ensino e na decoração, de motivos decorativos indígenas estilizados, ensaiando algumas reformas para os métodos e objetivos do ensino artístico nacional) criticaria abertamente, pelos jornais de Belém, o ensino do desenho ministrado pelo professor José Girard na Escola Normal do Pará, acusando seus métodos de conservadores e equivocados. Professor que, por sua vez, buscaria ridicularizar Theodoro Braga lançando-lhe, também pelos jornais paraenses, o epíteto irônico de “eminente sábio indígena”27 – tipo de ironia bastante significativa das tensões existentes entre o modelo cultural europeu e francês desejado pelas elites brasileiras, que buscava se instalar na então enriquecida capital da borracha, e as práticas e soluções dadas, de caráter regional e nacional. Tensão e deslocamento entre modelos e práticas culturais que se dava no cenário de um processo amplo, do qual também fazia parte a ação; desde fins do século XIX; do Liceu de Artes e Ofícios Benjamin Constant – estabelecimento de ensino que tinha como preceito regimental justamente a organização de exposições anuais com os trabalhos de seus alunos e dos “artistas e industriais de todo o Estado”, e cuja biblioteca, voltada para as “classes pobres e operárias”, deveria “abrir as suas estantes à noite”.28 O catálogo da primeira mostra anual dos alunos do Liceu Benjamin Constant, em 1895 é, portanto, outro registro bastante elucidativo sobre o funcionamento deste ambiente: revelava-se nele, por exemplo, que contíguo ao Liceu de Artes e Ofícios funcionava também a Academia de Belas Artes de Belém, havendo ali aulas de desenho, pintura e escultura, além de um conservatório musical e de uma pinacoteca.29 Reproduzindo o sistema da Academia do Rio de Janeiro, alguns dos jovens alunos da Academia paraense seriam financiados pelo governo local para estudar pintura diretamente na Europa, havendo nesta mostra de 1895 uma Revista Estudos Amazônicos • 128 seção exclusiva para os “Trabalhos de Pintura dos Pensionistas do Estado na Europa”. Alunos como Corbiniano Villaça, então com 22 anos, que expunha “um estudo de cabeça feminina do natural” (contando sua viagem não só com a subvenção do governo, mas, também, com a “generosidade dos amigos”), ou como Escobar de Almeida, com 19 anos, que na Europa desde 1893 enviava de lá, como prova de seus progressos, um “estudo de cabeça copiada do gesso”, entre outros pensionistas que enviavam estudos de paisagem, do modelo vivo e de perspectiva. Seria ao tratar das obras realizadas pelos alunos do próprio Liceu de Artes e Ofícios Benjamin Constant, contudo, que este catálogo da mostra de 1895 revelaria alguns indícios concretos das práticas e ideais operantes naquele ambiente. Compostas em sua maioria por estudos de paisagens locais e “cabeças ilustres” (tais como as de Bismarck, Floriano e Deodoro, entre outras), realizadas por estudantes que eram também “artistas ou operários de fábricas e officinas desta capital” (Belém do Pará), elas eram valoradas, sobretudo diante das precárias condições em que teriam sido realizadas, por trabalhadores dedicados, que podiam frequentar a instituição e desenhar somente durante a noite, “[...] sob a luz de Kerosene e espaçadamente de dois em dois dias e no intervallo de uma hora”.30 Dentre os alunos do Liceu um ganharia atenção especial: expondo dois trabalhos realizados em crayon (um retrato de Carlos Gomes e uma paisagem “de nossa riquíssima região”), além de seu álbum de Descriptiva, o ferreiro Manoel Simplício Torres pareceria reunir as virtudes do novo cidadão que ali se pretendia criar: conciliando o esforço viril exigido pelo trabalho braçal com a delicadeza feminina da sensibilidade artística, Manoel Simplício Torres mereceria no catálogo da mostra de 1895 um texto especialmente dedicado a ele, em um elogio que demonstrava, sem perceber talvez, a contradição social inerente ao personagem que pretendia exaltar, considerando “[...] inacreditável que um operário tenha a mão tão delicada para fazer desenhos tão finos”.31 Simultaneamente artista e operário, uma das “glórias do Lyceu Benjamim Constant” (que teria frequentado desde as primeiras letras até o curso “de Sciencias e Desenho”), Manoel Simplício Torres encarnaria o tipo ideal que os liceus de artes e ofícios pretendiam formar pelo país. Idealização que agregava à perspectiva industrial almejada certa Revista Estudos Amazônicos • 129 roupagem romântica – mistura própria, talvez, das contradições da modernidade brasileira: “[...] De manhã está junto à forja, ao malho e a bigorna, e à noite aquela mão cansada de trabalhar com o ferro desenha com tal delicadeza como se estivesse ocupada em apanhar flores durante o dia. Manuel Simplício Torres é paraense e tem a sua oficina de ferreiro na rua dos Pariquis n`esta Capital: é um moço de pouco mais de 25 anos, acanhado, dócil e infundido de uma melancolia própria dos artistas nacionais”.32 Para uma efetiva inclusão, contudo, da disciplina do desenho no âmbito escolar, o romantismo de algumas concepções do século XIX, por vezes, excessivamente, individualizantes, perderia gradativamente espaço para as práticas estandartizadas deste ensino, ganhando importância crescente neste contexto o desenho geométrico (e do chamado “desenho linear”) como instrumento conveniente à massa de trabalhadores que se desejava ajustar aos novos modos de produção e consumo industrial. Tratava-se da relativa vitória de um projeto de instalação, nas sensibilidades e mentes ocidentais, de um propalado “espírito geométrico”, defendido no Brasil já desde princípios do século XIX, em acordo com os postulados iluministas do século precedente.33 Modalidade de desenho também apropriada à nova cultura escolar que se formava igualmente estandartizada, havendo uma analogia direta entre o sistema de funcionamento da fábrica industrial e o da própria escola moderna, buscando ambas atingir uma eficiência impessoal e uniforme, uma “produção”, livre das arestas imprecisas da artesania e da subjetividade. As muitas promessas e esperanças em torno do desenho, contudo, e mesmo da educação de modo geral, se cumpririam no Brasil apenas em parte, com a defesa da propagação de seu ensino entrando em lento e constante declínio ao longo do século XX. Ainda que, havendo um aumento geral da oferta e circulação de publicações e materiais voltados às práticas do desenho, os conflitos em torno dos objetivos de seu ensino também se acentuariam. A incoerência da importação e consumo massivo dos modelos culturais europeus começaria a ser criticada em Revista Estudos Amazônicos • 130 alguns círculos, ocorrendo no campo das artes inúmeras reações de caráter nacionalista. Começaria a se defender a adoção da natureza local como modelo privilegiado para o estudo do desenho – defesa integrada a uma ampla renovação das teorias pedagógicas, cada vez mais atentas às possibilidades do conhecimento a partir das experiências particulares e dos objetos do cotidiano, em detrimento das abordagens tradicionais, falsamente “universais” e excessivamente abstratas, desvinculados de uma vivência do real. Seria neste contexto em que o paraense Theodoro Braga retornaria à cena, na década de 1920, condenando veementemente um projeto nacional em andamento que previa o uso de estampas alemãs como modelos nas escolas profissionais do Brasil – sendo que quatro décadas antes, em 1879, ainda sob o Império, já se comentava no Rio de Janeiro, em artigo anônimo intitulado “O estudo do natural”, a superioridade do desenho de observação sobre o “velho systema de copiar lytographias de Julien”. Artigo que, citando Viollet-le-Duc, afirmava que mesmo Portugal, “[...] que em Belas Artes está longe de ser um paiz adiantado, já, há muitos anos, adoptou [...] o systema de pôr o discípulo logo nos primeiros dias em contato com o natural”.34 O projeto da década de 1920 que previa o uso de estampas alemãs era, portanto, frontalmente contrário não apenas às ideias de Theodoro Braga, mas também a toda uma consciência crítica que começava a se fixar no Brasil desde a segunda metade do século XIX, desejosa de criar e estabelecer no país uma cultura artística simultaneamente moderna e “nacional”. Defendendo a observação direta da natureza e a estilização decorativa dos elementos da fauna e flora locais,35 Theodoro Braga ainda ligava-se, mesmo que indiretamente, à noção então relativamente corrente de “educação dos sentidos”, numa abordagem pedagógica de aspectos também evidentemente políticos e sociais – com o próprio Theodoro Braga observando, criticamente, que o ensino do desenho dado às elites era, lamentavelmente, distinto daquele oferecido às “crianças operárias”.36 Opunha-se de fato ao modelo tradicional das belas artes a busca por uma linguagem visual estritamente racional, geométrica e matemática, capaz de constituir uma ferramenta de caráter operativo, adequada aos modos de produção que começavam a se defendar também para o Brasil (rompendo com uma perspectiva exclusivamente agrícola), vendo-se assim cada vez mais reduzido o espaço para as Revista Estudos Amazônicos • 131 práticas artísticas e subjetivas do desenho, tidas antes como “elevadas”, que se manteriam, contudo em círculos sociais relativamente restritos. Contexto no qual Theodoro Braga, que também atuaria como Diretor, de algumas escolas técnicas no país, publicava no Rio de Janeiro, em 1925, o livreto O Ensino de Desenho nos Cursos Profissionais – discurso totalmente dedicado a definição dos mais adequados métodos de ensino do desenho para as classes trabalhadoras. Um dos pioneiros do modernismo artístico no Pará, Theodoro Braga estudou pintura de paisagem na França, lá desenvolvendo formas de representação que, quando de seu retorno ao norte do Brasil, perceberia como conflitantes com as cores e luminosidades da paisagem amazônica, percebendo um inevitável deslocamento entre o modelo europeu e a realidade da paisagem paraense – consciência de deslocamento e alteridade que seria essencial para a constituição da moderna cultura brasileira. Elaborando em seu atelier-residência de Belém do Pará (onde também dava lições particulares de desenho) trabalhos relacionados à história local e nacional, concluiría então o artista ser impraticável reordenar plasticamente, a partir dos cânones aprendidos em Paris, a natureza superlativa e singular que tinha diante de si. Formulando suas próprias ideias sobre como deveria ser o ensino artístico, e especialmente do desenho, no Brasil, Theodoro Braga vai defender estas ideias no Rio de Janeiro (aonde chega a ser livre-docente da Escola Nacional de Belas Artes) e em São Paulo (onde em 1926 é professor catedrático da Escola de Belas Artes local) – panorama de atuação do qual ainda faria parte a atenção do artista para com os fragmentos arqueológicos indígenas conservados no museu de ciências naturais do Pará, sendo Theodoro Braga um dos propulsores do chamado estilo neomarajoara, havendo já publicado em 1917, na edição inaugural da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Pará, o artigo “A Arte Decorativa Entre os Índios Selvagens da Foz do Amazonas”.37 O fato é que se buscava em diferentes países, naquelas primeiras décadas do século XX, utilizar-se da educação, e singularmente da disciplina do desenho, como instrumentos de construção das identidades nacionais, calcadas, sobretudo numa revaloração da “história pátria” e na redescoberta e invenção de valores autóctones. No México, por exemplo, ação análoga e contemporânea a de Theodoro Braga seria a de Adolfo Best Maugard (1881-1964), que após ilustrar as pesquisas Revista Estudos Amazônicos • 132 etnológicas de Franz Boas (registrando as ornamentações dos primeiros habitantes do vale do México) expandiria este registro por outras regiões, desenvolvendo a partir delas uma metodologia específica para o ensino do desenho nas escolas públicas do país, tomando como base a sistematização e estilização dos grafismos indígenas “anteriores à conquista”. Articulando ainda seu método às artes populares de hoy, em uma operação estética de forte conotação ideológica,38 Best Mauguard publicaria em 1923 seu Método de Dibujo, Tradicion, Resurgimiento y Evolucion del Arte Mexicano, o qual pretendia justamente, em uma perspectiva não apenas nacional, mas mesmo continental, “[...] señalar el camino para otros esfurzos semejantes de “nacionalismo” en Mexico y en toda América”. Publicação que coroava a adoção, já em 1922, do “sistema Best” nas escolas públicas da capital mexicana, sob o significativo nome de “dibujo mexicano” – sendo que em julho do mesmo ano se inaugurara no edifício da Secretaria de Educação Pública do México (para o qual Diego Riviera executaria um grandioso conjunto mural) uma exposição de desenhos escolares feitos segundo os princípios de Best Maugard. Princípios que seriam combatidos, porém, pelos professores já estabelecidos, os quais ainda adotavam o antigo sistema que “[...] comenzaba com el mezquino y siempre fracasado intento de reprodución fotografica del natural”, segundo Pedro Henriquez Ureña – prefaciador do método de Best Maugard que profetizava ainda que este triunfaria graças aos “professores inteligentes” e, especialmente, ao entusiamo das próprias crianças, já que o “dibujo mexicano” lhes ofereceria simultâneamente “[...] la novedad de poner en su trabajo espíritu nacional y la ocasión de crear libremente, no ya de copiar y repetir sin iniciativa y sin deseos”.39 No livro de Thedoro Braga de 1925, O Ensino de Desenho nos Cursos Profissionais, seu autor definia, primeiramente, o desenho como “representação gráfica da forma”, subdividindo-o em seguida em desenho com uso de instrumentos (ou geométrico); para a “representação real dos corpos”; e o desenho à mão livre; para a “representação aparente das formas”. Aproximando o desenho da escrita (pois “[...] quem escreve cadeira, [...] desenha por convenção, e quem desenha esse objeto, escreve-o com a sua forma própria”), defendia-se ali o começo deste aprendizado pela “mão livre” e pela observação do natural, condenando-se a cópia de estampas na medida em que o modelo Revista Estudos Amazônicos • 133 ideal era “[...] o corpo real diante dos olhos, ávido de ver e de grafar aquilo que vê, com todas as dificuldades da aparência produzidas pela perspectiva, pelo claro-escuro, pelo ambiente, pela cor, pela situação”40 – ponderando ainda que o “saber ver” era para muitos o grande obstáculo, associando à prática do desenho de observação qualidades também patrióticas: “[...] Quantos ensinamentos elevados adquire, então, a criança no momento em que ela vai desenhar, em frente ao objeto palpável, modelo de seus estudos, de seu esforço intelectual, na ânsia de bem fazer? A lição de civismo que aprende ao sentir que aquela flor é do jardim da escola ou de sua casa, que aquele fruto é o do seu país amado, que aquele objeto é do seu uso”.41 Relacionando a educação das classes operárias ao problema da nacionalização da arte brasileira, invocava-se a natureza do país como fonte sobre a qual deveria se debruçar a inteligência e criatividade do trabalhador nacional, para que em sua obra estivesse representada “[...] alguma cousa de sua pátria”. Sem saber “nem ler nem pensar”, o operariado nacional estaria em permanente desvantagem em relação aos estrangeiros. Sem estímulo para criar seus “próprios” produtos, e tendo de submeter-se às atividades puramente mecânicas, este operário sofria o que Theodoro Braga chamava de “vida artificial da cópia de modelos”, “[...] que reproduzem sem espírito, sem inteligência e, por isso mesmo, sem o mínimo valor de arte” – insistindo-se por isso em eleger a natureza como fonte de sugestões plásticas para a arte e indústria nacionais, sendo já “[...] tempo de tê-la nossa, muito nossa, a Arte Brasileira, inspirada na nossa flora esplendidamente bela e luxuriante e na nossa fauna exótica e desconhecida, típica e extravagante”.42 Operava no discurso de Theodoro Braga, porém, uma lógica contraditória, que pretendia a equivalência entre nação e indivíduo, acreditando em um caráter nacional atávico, impresso na sensibilidade de cada brasileiro – caráter nacional que deveria necessariamente se manifestar dadas apenas as condições mínimas para isto, cabendo ao professor somente exigir dos alunos “[...] originalidade de concepção nos Revista Estudos Amazônicos • 134 esboços das obras a executar, apurando o gosto de cada um, aproveitando as idiossincrasias pessoais”, pois: “[...] Só assim, expurgada a invasão do terrível mal que nos tem atrofiado o cérebro até agora, isto é, as cópias de catálogos estrangeiros, só assim poderemos iniciar a procura de um estilo, de uma maneira de fazer nacional, que nossos silvícolas descobriram e que nós civilizados desconhecemos [...] / É necessário que cada um seja si próprio”. 43 Afirmando que mesmo os indígenas brasileiros posuíam uma “maneira de fazer nacional”, Theodoro Braga não diferenciava indivíduo e nação, vendo pelo contrário uma continuidade umbilical entre a personalidade dos povos e a dos indivíduos: “[...] Se os demais povos conseguem impor-se na fixação de sua personalidade [em] seus produtos de arte, o que nos impede a nós de abrirmos um caminho neste sentido? Porque não darmos, com os elementos que possuímos, um cunho pessoal de nossa individualidade a tudo o que é nacional? Porque não enriquecermos os produtos de nossas manufaturas com ornamentações regionais, inspiradas nos elementos que nos cercam lembrando assim a nossa Pátria?”.44 Formulando para o desenho escolar princípios que denominava de práticos e intuitivos, Theodoro Braga definia como base de seu método a percepção sensível, mobilizada através da observação e da memória, numa didática centrada no “êxtase diante do modelo”: “[...] com a sua forma individual, com a sua cor característica, com o seu relevo palpável, com o seu claro-escuro sugestivo e com a sua perspectiva do momento. Do desenho à mão livre, no começo, a criança, sabendo ver, passará para o aprendizado do desenho à mão armada ou geométrico”.45 Revista Estudos Amazônicos • 135 Coerente com esta didática estava, portanto, a condenação do tradicional método de aprendizagem do desenho através da cópia de estampas, sobretudo quando estrangeiras, defendendo-se preferencialmente a adoção, como modelos, de “[...] objetos naturais e nacionais, com a sua forma e cor aparentes e que digam alguma coisa à nossa alma de brasileiros”,46 devendo o governo brasileiro “[...] intervir seriamente contra a introdução criminosa de estampas como modelos de desenho, ignomioso sistema de estampas ainda permitido, infelizmente, entre nós”, cabendo aos inspetores de ensino “[...] a denuncia e seqüestro de todos esses criminosos documentos de incapacidade moral e intelectual de sediciantes professores de desenho, os quais deverão ser afastados desse cargo”.47 Para as escolas profissionais por sua vez, também chamadas então de escolas “de aprendizes artífices”, destinadas a educar e instruir o “proletariado infantil nacional”,48 propunha-se uma educação artística criativa, que oferece “noções de arte”, incentivando o sentimento estético “[...] na alma da criança-operário, tão sensível e tão vibrátil”.49 Theodoro Braga, porém, não era indiferente às enormes contradições sociais que cercavam o ensino das artes no Brasil, apontando a injustiça de se negar, a este “proletariado infantil”, “[...] o direito de aprender tão bem quanto se ensina aos meninos ricos”, indagando a razão de “[...] se fazer, criminosamente, duas espécies de método para o ensino do desenho [...] um processo para os ricos e outro defeituoso, quiçá errado para os aprendizes artífices [...]”.50 Propondo às classes operárias um ensino que levasse em conta aspectos, também subjetivos, pensando o trabalhador como indivíduo singular, Theodoro Braga revelava-se assim um pedagogo atento, parecendo não compreender, contudo a complexidade das questões em jogo, que não eram apenas didáticas ou artísticas. Aparentemente ingênuo diante dos combates sociais que se davam sob este pano de fundo, Theodoro Braga tratava, contudo em suas propostas, de temas fundamentais, refletindo sobre a quem caberia realizar, através da linguagem do desenho, uma representação primeira da realidade, definindo imagens modelares. Propondo o desenho de observação como instrumento capaz de desenvolver a percepção, sensibilidade e criatividade da classe operária, os métodos de Theodoro Braga se contrapunham assim a uma dinâmica social restritiva e autoritária, Revista Estudos Amazônicos • 136 sujeitando-se, portanto, ao fracasso e à incompreensão de uma sociedade ainda essencialmente elitista e hierárquica, que optaria historicamente pelo uso da arte não como ferramenta de efetiva construção e coesão nacional, mas sim, como propaganda do poder e como signo de distinção social. Personagem típico das contradições da modernidade brasileira, com seus deslocamentos e anacronismos, e buscando equilibrar racionalidade e romantismo, Theodoro Braga, pleno de fé nos poderes regeneradores da arte e da educação, seria incapaz, contudo de perceber, ou ao menos de aceitar, o pragmatismo dos novos tempos. Inscrição, no canto inferior direito: “Coroada no Exame Público de 1842, é este o primeiro Desenho em [...] grande que faz a S ra D. Gertrudes, he elle tão difficultozo, e está tambem desempenhado, que a torna digna de consideração, e estima. Recolhimento das Educadoras no Pará, 7 de junho de 1842. O Professor J B Santarem” GERTRUDES, M. da G. Silva. Pará, 1842. Seção de Iconografia, Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro. Revista Estudos Amazônicos • 137 Casas de índios na floresta Mata-Mata no Monju. Pará, 1867. Coleção Brasiliana / Pinacoteca do Estado de São Paulo. Jornal do Pará. Belém, 20 de agosto de 1868, p. 3. Acervo de periódicos da Biblioteca Pública do Pará. Revista Estudos Amazônicos • 138 OBREGÓN, José Maria. Giotto y Cimabue, 1857. Museo Nacional de Arte, Cidade do México. Revista Estudos Amazônicos • 139 MAUGARD, Adolf Best. Método de Dibujo: Tradicion, Resurgimiento y Evolucion del Arte Mexicano, 1923. Biblioteca Pública do Estado do Pará. Artigo recebido em junho de 2011 Aprovado em agosto de 2011 Revista Estudos Amazônicos • 140 NOTAS Professor Adjunto de História da Arte no Departamento de Artes (DEART) da Faculdade de Artes, Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal de Uberlândia (FAFCS-UFU). Doutor em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo, 2005. Mestre em História da Arte e da Cultura pela Universidade Estadual de Campinas, 1998. * Obra publicada no mesmo ano de O Contrato Socal, sendo ambas condenadas pelo parlamento de Paris como contrárias ao governo e à religião, tendo JeanJacques Rousseau que exilar-se para não ser preso. Em 1755, com Le Citoyen: Ou Discours sur l`economie politique, o pensador genebrino já estabelecia a educação pública como o meio fundamental para a diminuição da desigualdade social. 1 Inspirados nesta concepção, da primazia das imagens sobre os sentidos e a formação das primeiras idéias, em fins do século XVIII inúmeros outros educadores também proporiam o uso didático de recursos visuais, como a lanterna mágica e outros aparatos imagéticos. CHOPPIN, Alain. “Los manuales escolares de ayer a hoy: el ejemplo de Francia” (“School handbooks from yesterday to today: the french example”). “Historia de la Educación”. Revista interuniversitaria, Ediciones Universidad de Salamanca, n. 19 (2000), p. 32. 2 ROUSSEAU, Jean-Jacques. Emílio, ou Da Educação. Tradução de Sérgio Milliet. São Paulo: Difusão Européia do Livro, 1968, p. 145-146. 3 Vale registrarmos que o projeto original de Joachim Lebreton para o ensino artístico no Brasil, via Missão Artística Francesa de 1816, dizia respeito a esta visão moderna das “artes do desenho”, pretendendo ele estabelecer uma dupla escola, capaz de formar tanto artistas do âmbito das belas artes como também artesãos capacitados para as necessidades da indústria artística. A estrutura social brasileira daquele período, no entanto, com uma ainda exígua classe média e urbana, e uma massa de trabalhadores escravos (e não de operários), impediria o estabelecimento deste projeto, indiretamente retomado, cerca de meio século mais tarde, pela fundação, em inúmeras regiões brasileiras, dos Liceus de Artes e Ofícios – como o fundado na própria cidade de Belém do Pará. 4 “[…] A comienzos del siglo XIX se torna definitivamente conciencia del reconocimiento de las cualidades del Dibujo en la formación integral de la persona, lo que hace aconsejable esta disciplina en la enseñanza escolar”. MOLINA, Juan José Gómez. Las Lecciones del Dibujo. Madrid: Cátedra, 1995, p. 145. 5 Revista Estudos Amazônicos • 141 Louis Benjamin Francoeur publicou também Dessin Lineaire et Arpentage pour toutes les écoles primaires quel que soit le mode d’instruction qu’on y suit. A Biblioteca Naval do Rio de Janeiro possui um exemplar de uma terceira edição desta obra, datada de 1832. 6 D`ENFERT, Renaud. L`Enseignement du Dessin en France. Figure humaine et dessin géométrique (1750-1850). Paris: Belin, 2003, sn-p. 9. 7 AMBRIÈRE, Madelaine. “Édition et Imprimerie en France”. In: Dictionnaire du XIXe Siècle Européen. Paris: Puf, 1997, p. 372. 8 Como comprovam alguns dos desenhos dispostos no álbum organizado pelo próprio artista, hoje nos acervos do Museu Paulista, em São Paulo. 9 Possivelmente o primeiro manual de ensino de desenho de autoria de um brasileiro publicado no país. Ao menos um exemplar do Compendio de Dezenho de Januário Caneca se encontra no acervo de Obras Raras da Biblioteca Estadual de Pernambuco, no Recife. 10 A trajetoria destes desenhos, entre sua produção no âmbito do Recolhimento das Educandas do Pará e sua recepção e conservação no acervo da Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, permanece obscura. Uma das hipóteses é que tenha sido o próprio Jozé Bernardes Santarém quem, para atestar o estado de adiantamento em que se encontravam suas alunas, os tenha enviado para a corte imperial, na busca de algum cargo ou benesse governamental – talvez mesmo o merecido pagamento por seu ensino, visto que em 1842 estas eram oferecidas no Recolhimento de modo gratuito. 11 Discurso recitado pelo Exmo Snr. Doutor Bernardo de Souza Franco, vicePrezidente da Província do Pará. Na Abertura da Assembléa Legislativa Provincial. No dia 14 de Abril de 1842. Pará: Typographia de Santos & menor, 1842, p. 17. 12 Discurso recitado pelo Exmo Snr. Desembargador Manoel Paranhos da Silva Vellozo, Prezidente da Província do Pará Na Abertura da Primeira Sessão [...] da Assembléa Provincial. No dia 15 de Agosto de 1844. Pará: Typographia de Santos & menor, 1844, p. 32. 13 Denominavam-se pensionistas as filhas famílias “[...] cuja entrada seus pais ou parentes requererem, pagando uma módica mesada [...] sendo regra invariável, que nenhuma será recolhida com idade superior à quatorze annos”. Treze de Maio, Belém do Pará, sábado, n. 8, 6 de junho de 1840, p. 32. 14 Responsáveis que “[...] as tem ali depositado não só por falta nesta Cidade de Estabelecimentos regulares, e comprehensivos de diversos ramos de ensino proprios das meninas como porque conhecem que ali se presta huma regular 15 Revista Estudos Amazônicos • 142 educação civil, moral e religioza, e se habituão ao trabalho, que não poucas vezes vem a ser de summa vantagem às pessoas mesmo abastadas”. Discurso recitado pelo Exmo Snr. Desembargador Manoel Paranhos da Silva Vellozo, Prezidente da Província do Pará. Na Abertura da Primeira Sessão [...] da Assembléa Provincial. No dia 15 de Agosto de 1844. Pará: Typographia de Santos & menor, 1844, p. 32. Referindo-se, na década seguinte, às condições do ensino particular em São Paulo, o “Mappa dos Estabelecimentos de Instrução Secundária do Distrito da capital, e dos Alumnos que frequentaram o anno de 1854”. Arquivo do Estado de São Paulo registrava que, no colégio da „Sra. Anna‟, voltado ao que parece exclusivamente à educação de meninas, havia já também uma cadeira de desenho, que se somava às cadeiras de aritmética, francês, inglês, geografia, música, piano e prendas domésticas. 16 17 Treze de Maio, Belém do Pará, sábado, n. 8, 6 de junho de 1840, p. 32. Entre estes professores contratados na Europa encontrava-se o russo David Osipovitsch Widhopff, que após passar por Odessa e Munique seria aluno em Paris de Bouguereau, Jules Lefebre e Robert Fleury, havendo colaborado como ilustrador em diversos periódicos europeus: “[...] Em 1893, desejando o Governo do Estado contractar na Europa um professor de pintura para prover as respectivas cadeiras criadas no Lyceu Paraense e Escola Normal, mandou abrir concorrência em diversas capitais daquele continente. Em Paris, Widhopff, que a instâncias da colônia brazileira ali residente se inscrevera no concurso, exibiu tão valiosas provas, que o nosso ministro naquela capital, dr. Pizza e Almeida, não hesitou [...]”. MOURA, Ignacio. A Exposição Artística e Industrial do Lyceu Benjamin Constant e os expositores em 1895. Pará: Lith. De C. Wiegandt, 1895, pp. 105-106. 18 “[...] mientras que Troya acababa de ser destruida, lo cual aconteció en el año 1209 antes de la era vulgar, comenzó la inmigración en el litoral Itálico, que no era entonces mas que una tierra virgen como la América”. CICARELLI, D. Alejandro. “Origem e Progresso de las Bellas Artes”. Discurso pronunciado a la apertura de la academia de pintura por su Director Alejandro Cicarelli, 7 de marzo de 1849. Anales de la Universidad de Chile., Tomo VI, Santiago do Chile, 1849, sn, [s.ed.]. 19 No Brasil moderno dos séculos XIX e XX vários momentos de sua história cultural podem ser lidos, desde o indianismo romântico, como um esforço por responder a este sentimento de delocamento, seja através da busca por vezes ingênua pela “atualização” (nunca alcançável), como na Semana de Arte Moderna de 1922, seja através de atitude mais dialética, como no Movimento Antropófago, no Neoconcretismo e no Tropicalismo – sendo que para a análise 20 Revista Estudos Amazônicos • 143 deste deslocamento e diferença diante do paradigma europeu e ocidental (ao mesmo tempo camisa-de-força e mola propulsora da invenção) pode ser útil repensarmos os sentidos do conceito de anacronismo, com a anacronia podendo ser pensada não somente como falha temporal e narrativa, mas também tomada como parte constitutiva e mesmo poética deste referido deslocamento e diferença, a requererem outros instrumentos de análise historiográfica. Revista Musical e de Bellas Artes. Rio de Janeiro, 23 de outubro de 1880. No México, por sua vez, o cultivo sistemático das belas artes já havia se estabelecido desde fins do século XVIII, sendo a Academia de São Carlos a mais antiga das Américas. Seus membros, tratando de glorificá-la, tomariam por vezes a própria aprendizagem acadêmica como assunto de algumas de suas obras, como o gêsso realizado em 1854 por Juan Bellido, com a alegoria La Academia de San Carlos premiando a sus alumnos (Museu Nacional de Arte, Cidade do México), ou através de pinturas como Giotto y Cimabue, retratando o legendário momento no qual o jovem pastor é descoberto desenhando nas rochas – tipo de temática que contribuía para reforçar os laços identitários entre os integrantes da academia. 21 MIGUEL, José. “Dibujo: su enseñanza en los colegios”. Anales de la Universidad de Chile, Tomo LVII, 1880, pp. 232-239. 22 23 Idem, Ibidem. Catálogo da Primeira Exposição Escolar de Desenho. Inaugurada em 7 de setembro de 1909 por determinação do Sr. Dr. João Antonio Luiz Coelho - Governador de Estado. Belém: Secretaria de Estado do Interior e Instrução Pública/Imprensa do Estado do Pará, 1909, sn [consultado na Biblioteca Central da Universidade Federal do Pará, Seção de Obras Raras]. 24 FIGUEIREDO, Aldrin Moura. Eternos Modernos: uma história social da arte e da literatura na Amazônia, 1908-1929. Campinas/SP: Tese de Doutoramento, Unicamp, 2001, p. 98. Aldrim Moura Figueiredo observa que, apesar desta atividade intensa em torno do ensino do desenho, nem todos estavam ali irmanados num mesmo objetivo, pois “[...] Com a amplitude do circuito das artes, as tensões e disputas entre os artistas [e potenciais professores] também cresceram”. Ibidem, pp. 99-100. 25 “Acta da primeira seção do Jury Julgador da exposição escolar do Desenho [...]”. In: Catálogo da Primeira Exposição Escolar de Desenho, pp. 46-47. 26 FIGUEIREDO, Eternos Modernos: uma história social da arte e da literatura na Amazônia, 1908-1929, pp. 100. 27 Revista Estudos Amazônicos • 144 MOURA, A Exposição Artística e Industrial do Lyceu Benjamin Constant e os Expositores em 1895, pp. 7 e 28. 28 A Escola de Pintura da Academia de Belas Artes de Belém era dirigida, em 1895, pelo russo David Widhopff, o mesmo personagem contratado em 1893, em Paris, como professor do Liceu Paraense e da Escola Normal de Belém. O professor de desenho linear do Liceu Benjamin Constant, por sua vez; José de Castro Figueiredo; exporia com destaque na mostra anual de 1895 seus “[...] diversos atlas geographicos para o ensino nas escolas primárias deste Estado”. MOURA, A Exposição Artística e Industrial do Lyceu Benjamin Constant e os Expositores em 1895, pp.113-114. Trânsitos que exprimem uma ativa circulação de professores, métodos e modelos do ensino do desenho por distintos ambientes de aprendizagem. 29 MOURA, A Exposição Artística e Industrial do Lyceu Benjamin Constant e os Expositores em 1895, p. 119. 30 31 Idem, p. 121. 32 Idem, pp. 121-122. “[...] o primeiro, e sem dúvida o maior de todos os fructos, que nos devemos propor tirar do estudo desta Sciencia [a Geometria], é o de criar, e formar na Mocidade o espírito da Exactidão; falo do „espírito Geométrico‟, o único que, segundo a expressão de outro sábio, é a verdadeira fonte do discorrer, do inventar, e do saber”. In: BARBOSA, Francisco Villela. Elementos de Geometria por Francisco Villela Barbosa, Cavalheiro da Ordem de Christo, Lente de Mathemática na Academia Real de Marinha e sócio da Academia Real das Sciencias, ec. Lisboa: Na offic. Da Academia real das Sciencias, MDCCCXVI, p. VII. Consultado na Biblioteca José e Guita Mindlin, que possui ainda duas edições posteriores dos Elementos de Geometria de Villela Barbosa, uma de 1837 (3ª ed.), e outra de 1846 (5ª ed.), além do Breve Tratado de Geometria Spherica, do mesmo autor, de 1817. 33 “Semanário Artístico”. Revista Musical e de Bellas Arte, Rio de Janeiro, 1879, p. 5, [s.ed.] (Consultado na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro, Seção de Obras Raras). 34 “[...] Estylisa-se uma figura, um objeto, um producto da natureza quando se despe essa figura, esse objeto ou esse producto das imperfeições, isto é: irregularidades naturaes de suas formas [...] Um pintor cometeria um grave erro se no seu quadro estylisasse as folhas ou frutos de uma árvore. Do mesmo modo o ornamentista violaria as leis da sua arte se imitasse as irregularidades e casualidades da natureza nos motivos da ornamentação; neste caso o seu trabalho seria naturalistico, o contrário de estylisado”. In: VASCONCELLOS, 35 Revista Estudos Amazônicos • 145 Joaquim de. A Reforma do Ensino de Bellas-Artes III Reforma do Ensino de Desenho. Seguida de um plano geral de organização das escolas e colleções do ensino artistico com os respectivos orçamentos por Joaquim de Vasconcellos, do Instituto Imperial Germanico de Archeologia da Academia Real de S. Fernando (Bellas-Artes, Madrid). Porto: Imprensa Internacional, 1879, p. 55 (Consultado na Biblioteca de Artes da Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa). Josef Grandauer, autor na Alemanha da década de 1870 do Elementar Zeichenschule, afirmava ser arriscado “[...] começar desde logo com o desenho a olho quando o ensino haja de ser dado em massa”. In: VASCONCELLOS, A Reforma do Ensino de Bellas-Artes III Reforma do Ensino de Desenho, p. 61. 36 FIGUEIREDO, Eternos Modernos: uma história social da arte e da literatura na Amazônia, 1908-1929, p. 100. 37 Para os festejos do centenário da independência mexicana Best Maguard realizou o painél Noche Mexicana. Experimentando então algumas soluções derivadas de suas pesquisas, o artista utilizaria ali “[...] entre otros elementos de arte indigena y popular, los de una curiosa tradición decorativa que era costumbre tomar a burla pero que representaba la valentía del color vivo, hijo del trópico, em medio del gris que invadió la capital”. UREÑA, Pedro Henriquez. In: MAUGARD, Adolfo Best. Método de Dibujo: Tradicion, Resurgimiento y Evolucion del Arte Mexicano. Ciudad de México: Departamento Editorial de Secretaria de Educación, 1923, p. 130. Vale registrar que um exemplar do método de Best Maugard pode ser consultado na Biblioteca Pública do Pará. 38 39 MAUGARD, Método de Dibujo, pp. 130-132. BRAGA, Theodoro. O Ensino de Desenho nos Cursos Profissionais por Theodoro Braga, bacharel em Sciencias Jurídicas e Sociais pela Faculdade de Direito do Recife. Prêmio de viagem à Europa, por cinco anos, pela Escola Nacional de Belas Artes. Professor livre-docente da Escola Nacional de Belas Artes. Membro do Conselho Superior de Belas Artes. Ex-director do Instituto Profissional “Lauro Sodré” do Estado do Pará. Ex-diretor do Instituto Profissional “João Alfredo” do Distrito Federal [ etc.]. Rio de Janeiro: O Globo, 1925, pp. 19-20 (Consultado na Biblioteca do Museu Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro). 40 41 BRAGA, O Ensino de Desenho nos Cursos Profissionais, p. 21. 42 Idem, p. 7. 43 Idem, p. 10. 44 Idem, p. 13. Revista Estudos Amazônicos • 146 45 Idem, p. 50. 46 Idem, p. 46. 47 Idem, p. 10. Idem, p. 28. Tipo de ambiente de aprendizagem no qual muitos artistas modernos brasileiros teriam suas primeiras lições de desenho, tais como, em São Paulo, Francisco Rebolo Gonsales, Mário Zanini e Luiz Sacilotto, entre outros, todos os alunos da Escola Profissional Masculina do Brás. 48 49 Idem, p. 11. 50 Idem, p. 39. Revista Estudos Amazônicos • 147