1 Os antigos habitantes do Leste mineiro Ricardo Batista de Oliveira1 Universidade Federal de Ouro Preto Fugindo do branco e seus associados e de guerras itertribais, os indígenas que se situaram no leste mineiro encontraram ali um ótimo abrigo contra seus opositores.2 Mas isso, até os anos que precedem o declínio da produção aurífera. A partir da segunda metade do século XVIII, hordas de migrantes, — ex-mineradores em sua grande parte — rumaram para as até então “áreas proibidas” a fim de usurparem as terras ocupadas pelos índios. O que se observou então, foi um esforço por parte do governo no sentido de se implantar uma lógica de exploração da terra, na qual, o índio deveria servir como mão-de-obra, num sistema de convívio “pacifico” — embora forçado — e não como um obstáculo à fixação dos colonos. Aqueles que não se adequaram à lógica do governo, aqueles “irredutíveis” como eram tratados pelas autoridades da época, pagaram com suas vidas. Como uma área estanque, os Sertões do Leste mineiro funcionaram contra o descaminho da produção de ouro e, por muito tempo, diversos grupos indígenas ali situados estiveram praticamente livres do contato com os brancos — embora alguns aventureiros já desrespeitassem as determinações da Coroa, se infiltrando nas “áreas proibidas” a fim de obter: minérios e a cobiçada poaia.3 Mas sem que os indígenas soubessem, já prestavam “serviços” ao Estado. De acordo com Maria Leônia Chaves de Rezende: “A impossibilidade da autoridade colonial de controlar o extravio da exploração aurífera fez com que a política do Estado mantivesse populações indígenas afastadas do contato - como um cinturão de resistência nos sertões, intimidando a penetração dos contrabandistas, ávidos em explorar as jazidas minerais à revelia do controle metropolitano. Por isso mesmo, o Estado nem sempre se preocupou de fato com a «civilização» dos índios, que, muitas vezes, prestavam melhores serviços na condição de «bestas e selvagens»...”.4 1 Graduando em história pela UFOP. Bolsista da FAPEMIG. Os indígenas que ocupavam o Leste mineiro não eram autóctones dessa região. Pressionados pelos primeiros europeus que se instalaram no litoral, sobretudo no litoral fluminense, e de guerras intestinas, deslocaram-se para a área que até os dias de hoje recebe o nome de Mata mineira, e ali viviam longe do contato com os brancos. 3 Também conhecidas como ipeca ou ipecacuanha, estas raízes eram usadas como vomitório e antifebril, tendo grandes volumes exportados da Capitania de Minas Gerais. O comercio dessas raízes, que eram obtidas pelo branco por meio do escambo, no qual era oferecida aguardente aos indígenas, ocasionou um grande impacto na região. Se por um lado, a introdução de aguardente alterou as praticas indígenas herdadas do período pré-colonial, levando-os ao consumo indiscriminado da referida bebida, por outro, o acesso dos brancos e seus associados às regiões do Pomba e Alto Rio Doce foi facilitado por tal comercio. De acordo com o Grande Dicionário da Língua Portuguesa, de Antonio Moraes Silva: Poaia – s. f. Bot. Designação brasileira atribuída a varias plantas, em grande parte também designadas pelo nome de ipecacuanha; são eméticas e rubiáceas. 4 RESENDE, Maria Leônia de. Gentios brasílicos: índios coloniais em Minas Gerais Setessentista. Campinas, SP: [s.n.], 2003, p.76. Tese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Instituto de Filosofia e Ciências Humanas. 2 2 A partir de 1707, a capitania de Minas Gerais ficava ligada ao Rio de Janeiro por meio do “Caminho Novo”.5 Procurava-se manter a ligação da capitania ao Rio de Janeiro por uma rota, com o fito de resguardar a Coroa do descaminho e contrabando...”. 6 Contudo, a partir de fins do século XVIII e início do XIX, observa-se mudanças nas determinações da Corte. Ocorrendo então, inversões nas políticas que diziam respeito à comunicação entre as capitanias, às doações de sesmarias e outros assuntos que envolvem a questão agrária e, por conseguinte, a questão indígena. Segundo Maria Odila Leite da Silva Dias: “... preocupou-se a Corte em abrir estradas e, fato quase inédito, em melhorar as comunicações entre as capitanias, em favorecer o povoamento e a doação de sesmarias. Tinham como fé obsessiva aproveitar as riquezas”.7 Foi no quadro acima exposto que os brancos e seus associados ao rumarem para os Sertões do Leste, se depararam com um mosaico de grupos indígenas. Onde, a vasta diversidade das tribos que ali se encontravam foi resumida de forma bastante genérica a quatro grupos recorrentes, tanto nos relatos de viajantes, quanto em grande parte das fontes escritas na época. São eles: Coroado8, Coropó, Puri, e Botocudo9. O naturalista Auguste de Saint-Hilaire em uma expedição a Minas Gerais nas primeiras décadas do século XIX revela sua visão eurocentrica ao descrever um grupo de índios Coroado habitantes das áreas próximas do Rio Bonito. “Pertenciam à tribo mais disforme da natureza encontrada durante minha permanência no Brasil. Aos traços da raça Americana, tão diferente da nossa, acresciam uma fealdade peculiar a sua nação: eram de estatura pequena; sua cabeça achatada em cima e de tamanho enorme, mergulhava em largas espáduas; uma nudez quase completa deixava a descoberto sua repelente sujeira; longos cabelos negros caiam em desordem sobre os ombros; a pele de um escuro baço, estava salpicada aqui e ali pelo urucu; percebia-se através de sua fisionomia algo de ignóbil, que não observei entre outros índios, e enfim, uma espécie de embaraço estúpido que traia a idéia de eles mesmos tinham de sua inferioridade.”10 5 O professor Renato Pinto Venâncio, a partir de documentos contidos no Códice Matosso, vem nos mostrar que o Caminho novo não foi construído a partir dos esforços exclusivos dos colonizadores, mas sim conquistado dos povos indígenas que se utilizavam dessa rota desde os tempos pré-cabralinos. 6 Cf. MERCADANTE, Paulo. Os sertões do Leste – estudo de uma região: a mata mineira.In: SOUZA, Rafael de Freitas e. A Revolta dos Purís: resistência e dizimação dos indígenas da Zona da Mata mineira no primeiro quartel do século XIX, Revista de ciências Humanas, v., nº 1, p. 53-64, jul. 2003. 7 DIAS, Maria Odila Leite da Silva. In: Mota, 1986: 183. 8 O nome coroado tem origem no costume desses índios de conservarem seus cabelos na forma de uma calota. SAINT-HILAIRE, August de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Trad. Vivalde Moreira; Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. p. 32. 9 O nome Botocudo foi atribuído pelos portugueses no século XIX em função do uso de botoques labiais e auriculares por esses indígenas. Também conhecidas como rodelas ou imató, esses acessórios foram sendo abandonados pelos indígenas após o contato com o branco. De acordo com um relatório de 1826, “A mocidade Botecuda (sic), facilm.e abandona este ridículo ornam.to, os velhos o não podem por perderem a saliva pela brecha enorme q’. deixa o Imató”. Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XI, Fascículo I, 1906, p. 87. O nome Botocudo também serviu para generalizar vários grupos indígenas do tronco Macro-Jê que eram bravios e utilizavam os adornos já citados.PARAISO, Maria Hilda Baqueiro.Repensando a política indigenista para os Botocudos. In: Revista de Antropologia, São Paulo: USP, 1992, v. 35. p. 77. 10 SAINT-HILAIRE, August de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Trad. Vivalde Moreira; Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. p. 30. 3 Coroado e Botocudo, in Viagem pelo Brasil, 1817 – 1820 de Spix e Martius. Diferente do que se imaginou sobre a higiene dos índios, estes tinham grande preocupação com o aseio do corpo. Prova disso foi o melhor resultado no sistema de aldeamentos próximos dos rios, nos quais, além do exercício da pesca e do nado, os índios se ocupavam em tomar banhos freqüentes, quando pouco, diários. Vejamos o que rezam as “Reflexões sobre os índios da província de Minas Gerais Março de 1826” a respeito dos aldeamentos: 11 “Devem ser estabelecidos [os aldeamentos] em Mattas Virgens, Pátria dos Índios em avezinhanças de Rios navegáveis, sendo possível abundantes de Peixe, q’, teterminará (sic) a sua fixd.a pela abund.e daquelle sustento, e o deleite dos banhos, sem os quais não passão...12 O hábito dos indígenas de se pintarem — como no caso descrito por Saint-Hilaire, com urucum —, tem entre os reais motivos que os levaram a essa pratica, não só o adorno para impressionar as mulheres ou para o complexo religioso e guerreiro. Com o intuito de se protegerem do sol escaldante, de diversos insetos e, sobretudo, dos espíritos malignos, os índios pintavam seus corpos. Nota-se então, uma medida profilática no uso da pintura corporal. Nos primeiros anos do século XIX, Georg Wilhelm Freyreiss, entre os Coroado, observou o fabrico de uma bebida alcoólica que eles chamam veru. O processo se dava da 11 Na historiografia, enquanto o termo “aldeamento” corresponde à aglomerações forçadas, o termo “aldeia” representa um modelo de agrupamento espontâneo. De acordo com Luiz Felipe de Alencastro, os aldeamentos atendiam a três objetivos principais: “tratava-se, em primeiro lugar, de criar aldeamentos de índios ditos «mansos», destinados a proteger os moradores dos índios «bravos». Em segundo lugar, os aldeamentos circunscriviam as áreas coloniais, impedindo a fuga para a floresta tropical dos escravos negros das fazendas e dos engenhos. Enfim, as autoridades e os moradores estimulavam os descimentos de indígenas a fim de manter contingentes de mão-deobra nas proximidades das vilas e dos portos”.Cf. ALENCASTRO, Luiz Felipe de. Os luso-brasileiros em Angola: constituição do espaço brasileiro no Atlântico Sul, 1550-1700. Campinas, 1994. p. 81. In: PUNTONI, Pedro. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do Sertão Nordeste do Brasil, 1650-1720. São Paulo: HUCITEC, Editora da Universidade de São Paulo, FAPESP, 2002. p.54. Para um maior aprofundamento na questão ver também; AZEVEDO, Aroldo de. Aldeias e aldeamentos de índios.Boletim Paulista de Geografia, 33: 26, 1959. 12 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XI, Fascículo I, 1906, p. 81. 4 seguinte maneira: as mulheres sentadas formando um circulo, mastigavam o milho que após bem triturado, era cuspido em um pote grande ao centro delas. Essa mastigação durava em media um a dois dias. Acrescentava-se então, água ao milho com saliva e o liquido decantado, nas palavras de Freyreiss: “parece com cerveja fraca”. Ao final do processo, dava-se inicio a uma festa.13 Isso vem mostrar que, alguns índios do Leste mineiro conheciam bebidas alcoólicas antes do contato com o branco. No entanto, o consumo dessa bebida estava ligado a um fim ritualístico. Foi somente com a introdução da aguardente, (geralmente obtida pelo processo de permuta com a poaia) produzida pelo branco que os índios passaram ao consumo indiscriminado do álcool. E este foi sem dúvida, um dos principais mecanismos que levaram os indígenas do Leste mineiro a uma acelerada destribalização. Aldeia dos Coroados, in Viagem pelo Brasil, 1817 – 1820 de Spix e Martius. (Observe as Mulheres da tribo Coroado preparando o veru) Entre os traços comuns à maioria das tribos de mineiríndios, encontram-se: a poligamia, amplamente combatida pelos cristãos; e o seu caráter nômade, causador de grandes empecilhos para as autoridades. Para resolver a questão da poligamia entre os indígenas, as autoridades tentavam promover casamentos entre os mesmos, e até mistos, reduzindo-os a um modelo de família nuclear. Encontramos na correspondência de Marlière as seguintes instruções: “Nestes princípios [do casamento] principalmente entre os Botocudos, que são Polygamos, deverão os Missionários serem mto. Circunspectos, e não uzár de outro methodo, q’ o da persuazão p.a os reduzir a huma só mulher. Os Coroados estão se 13 FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. p.102. 5 Christianizando ha 60 annos, e ainda achei Polygamia entre elles, a q.l fis cessar pelo modo acimaindicado.14 Esta foi uma das estratégias aplicadas pelo então T.e Cor.el Diretor Geral dos Aldeamentos indígenas de Minas Gerais Guido Thomaz Marlière.15 Quanto ao caráter nômade dos mineiríndios, foi observado que: “Elles não perdem facilm.te o habito de irem Cassar, pescar, e colher frutoas em certos tempos aos Mattos mais voltão. Os Coroados, e Coropós aldeados á 60 annos ainda não perderão este uso. No meu tempo, Aldeamentos inteiros, seduzidos p.r Brazileiros ambiciozos de poalha tem desaparecido; mas, como as abelhas, elles se reúnem em outro, e mesmo a seu primeiro Director”.16 (correspondência de Marlière) Ainda entre os índios que passaram a cultivar o milho, os lugares habitados não eram inteiramente fixos. Penetrando nas matas, os índios deixavam suas cabanas durante meses à procura de caça. “Essas viagens são muito penosas para as mulheres que tem de carregar todo o mobiliário, redes, potes, etc., acomodando tudo numa cesta e presa por uma faixa de pano que passa ao redor da testa, e mais os filhos pequenos e os animais domésticos”.17 ( correspondência de Marlière) Antes do contato com o branco, os indígenas dos Sertões do Leste mineiro não praticavam a criação de animais. Pelo menos não com o fim de se utilizarem destes como alimento ou para transportar fardos. Essa ausência de criação animais é um traço que pode ser estendido aos dois grupos principais dos indígenas brasileiros, os Tupi e os Jê-Botocudo. Se algum animal foi observado entre os indígenas, esses eram apenas para “... fazer companhia à pessoa e não para servi-la nem fornecer-lhe alimento”.18 Freyreiss já havia percebido essa característica dos mineiríndios em suas viagens. Nas suas palavras: “Todas essas tribos [referindo-se às tribos mineiras] são nômades no seu estado livre e como nenhuma criação têm, nutrem-se de caça, de raízes e de frutas silvestres...”.19 14 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XI, Fascículo I, 1906, p. 84. Nascido na França, Marlière atuou na “Revolução francesa”, abandonando os exércitos napoleônicos e se alistando nas forças terrestres portuguesas a partir de 1802. “Ao contrario do que já se escreveu, Guido Marlière não veio para o Brasil em 1808, junto com a Família Real, e sim, em 1807 na Corveta de João Marcos Vieira Araújo, para o Rio de Janeiro e depois para o Rio Grande do Sul, onde serviu no posto de Alferes da Cavalaria Ligeira”. Fundação Chico Boticário, Biografias e genealogias [on-line] 1a edição. Avaliable from Internet < http://www.chicoboticario.org.br/scripts/biografias.asp >. Sob suspeita de ser um espião de Napoleão Bonaparte foi preso em 25 de junho de 1811. Considerado inocente, retornou a Vila Rica, onde, no ano de 1813 teve o seu pedido de trabalhar junto aos índios atendido. Com o fim de apaziguar os conflitos entre os índios e os brancos, permaneceu até 1816 no Arraial de São João Batista do Presídio — núcleo inicial de sua atuação e ponto irradiador do devassamento dos Sertões do Leste mineiro —, transferindo seu quartel logo em seguida para a Serra da Onça (hoje Guidoval e Dona Elsébia). “Sua ação entre os crotos, cropós e purís teve efeito duradouro e de grande alcance. Empregando métodos brandos e utilizando-se do recurso do aldeamento do indígena, conquistou esse e o branco do Presídio e vizinhanças, que, às vezes precisava mais de catequese e civilização que o silvícola”. JOSÉ, Oiliam. Visconde do Rio Branco: terra, povo, historia. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. p. 55-6. 16 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XII, 1907/1908, p. 526. 17 FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. p. 92. 18 FREYRE, Gilberto. Casa grande & senzala: formação da família brasileira sobre o regime da economia patriarcal. Apresentação de Fernando Henrique Cardoso, — 47a ed. rev. — São Paulo: Global, 2003. p. 166. 19 FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. p.82. 15 6 Aliados aos Coropó, estavam os índios Coroado. Estes últimos, segundo Oiliam José: “... possuíam físico avantajado e usavam machados de pedra maiores que os seus vizinhos purís”. Ainda para o historiador riobranquense: os Puri faziam parte dos indígenas pacíficos de Minas Gerais. “Só se defendiam pela Guerra, e muito mal, quando atacados de surpresa ou impedidos de fugir”.20 Neste ponto algumas impressões de Oiliam José parecem se contrapor com as do viajante Freyreiss. Em primeiro lugar, os Puri não eram vistos pelos brancos como indígenas pacíficos, provocando temor entre os fazendeiros do Leste mineiro. O relato do viajante reza que, apesar da aparente maneira inofensiva dos índios Puri para com os fazendeiros, os portugueses temiam esses índios. Um morador de Santana dos Ferros confessa que “... ele nunca caçava no outro lado do rio”, lugar onde se encontravam vagando os indígenas da tribo dos Puri e, mesmo o diretor dos índios tendo “... amansado 500 Purís e os domiciliados em lugares determinados”, os moradores de Santana ainda evitavam o contato com os índios. Como solução para esse quadro, o comandante (?) propôs que “se devia levar-lhes a varíola para acabar com eles [os índios] de uma só vez, porque a varíola é a doença mais terrível para essa gente”. Em segundo lugar, afirmava Freyreiss “... que os Purís são sempre os mais fortes do que os Coroados [...] e o arco de um Puri, nenhum Coroado pode armar”.21 Assim foi narrado o quanto um Puri era mais forte que um Coroado. A possível superioridade dos Coroado sobre os Puri, descrita por Oiliam José, parece verdadeira somente se considerarmos a superioridade numérica daqueles em relação a estes, e não as condições físicas e materiais de ambos os grupos. Freyreiss notava que os Coroado são considerados mais poderosos que os Puri; uma vez que, no caso dos primeiros, somados às mulheres e crianças, chegam a 2.000 indivíduos, enquanto, os segundos não passam de 500.22 Embora não fosse observado o ritual antropofágico entre os Coroado, existia entre eles uma pratica bastante peculiar que chamou a atenção de muitos viajantes. Ainda segundo relato de Freyreiss: “Quando matam algum inimigo, de ordinário um Puri, levam consigo para a cabana um braço do cadáver, como uma espécie de troféu da vitória. Chegados (sic) em casa arranjam uma festa na qual se regalam com a bebida23 predileta que fabricam, [...] e que é servida em grandes potes de barro [...] Nestes potes colocam o braço do inimigo morto e cada um; por sua vez, tira-o do pote para chupar a extremidade cortada”.24 Os conflitos intertribais envolvendo vários grupos de índios brasileiros eram movidos principalmente pela vingança. Uma vez que tais indígenas eram desprovidos da idéia de propriedade, vivendo da caça, pesca e coleta, não acumulavam nenhum excedente. Sendo assim, um grupo não atacava outro tendo a cobiça por motivo.25 A correspondência oficial de Marlière é bem elucidativa no que diz respeito à trama da vingança. 20 JOSÉ, Oiliam. Visconde do Rio Branco: terra, povo, historia. Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1982. p. 23-4. FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. p. 78-102. 22 FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. p. 82. 23 Como já foi antes mencionada, a bebida alcoólica indígena (veru) era originalmente consumida segundo um fim ritualístico. O relato acima exposto serve como um bom exemplo para entendermos tal lógica. 24 FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. p. 92. 25 MONTEIRO, John Manoel. Negros da Terra: índios e bandeirantes nas origens de São Paulo. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. p. 26-8. 21 7 “Tenho memória de haver mandado, em 1814 ou 15, duas Bandeiras ao Matto, contra os Purís então bravos. A 1.a porq’ vierão matar á hum moço na Freguezia d’S. João Baptista do Prezidio, composta de Portuguezes da Esquadra do Matto, e de índios Coroados: a 2.a, inteiramente de Coroados, por virem os mesmos matar á hum Índio desta Nação chamado Silvestre, e a dous filhos deste, que estavam trabalhando nas plantações da sua respectiva Aldeã”.26 Este relado ainda nos demonstra uma característica recorrente na composição das bandeiras ou “armações”: a superioridade numérica do elemento indígena sobre o branco. Observe que a segunda bandeira era composta exclusivamente por índios Coroado. O sucesso de uma ação bandeirante dependia em muito do índio aliado. Enquanto o português carecia de uma carga de provisões; entre mantimentos, chumbo e pólvora, por exemplo; o indígena, além de exímio arqueiro, conseguia grande parte de seu sustento por meio da caça e de frutos que encontrava em seu caminho. Menos dispendioso, foi também mais eficiente no seu deslocamento pelas matas. Não devemos esquecer que as emboscadas proferidas pelos indígenas revolucionaram os métodos de guerra de que os portugueses se valiam.27 Assim, os índios aliados poderiam engrossar as tropas e expedições militares “pela promessa de derrotar seus inimigos centenários”, pela oferta de bugigangas e ferramentas e, principalmente, pela coação.28 Mesmo assim, muitos índios fugiam ao notarem a aproximação do branco. Isto, por temerem ser usados em arregimentações. Considerados os índios mais ferozes dos sertões de Minas Gerais, os Botocudo se configuraram em um sério empecilho ao avanço do progresso rumo a essas áreas. Por isso mesmo, o governo tomou medidas para que fosse criado um ambiente menos hostil aos colonos, e, ao mesmo tempo, empregou meios para reduzir os Botocudo aos trabalhos; atuando nas fazendas, na coleta de poaia ou na navegação dos rios. Viviam em pequenos grupos nômades, e em função disto não eram recorrentes os aldeamentos envolvendo bandos destes índios. Marlière, em 20 de janeiro de 1828, relatava a dificuldade imposta pelo caráter nômade dos Botocudo: “Para que o meu Mappa29 podesse servir efficazmente a Estatística da Província seria necessário dar hum numero approximativo dos Botocudos que afluão às Aldeãs formadas desde 1823, mais he trabalho este mais difficil do que contar os habitantes de hum formigueiro, emquanto pelo decurso do tempo, e a fixidade delles mais determinada, não poder alcançar por via dos sub-Directores, e de Instruçoens que em conseqüência lhes dirigir o rezultado dezejado, o qual Communicarei á V. Ex.ca logo que possível for.”30 Ainda em 1806, o General Presidente da Capitania de minas Gerais, Pedro Maria Xavier de Ataíde e Mello propõe: “... estabelecer pelo menos três destacamentos, ou Guardas postadas...” a fim de patrulhar os portos e margens dos rios, facilitando a entrada “... para o 26 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XII, 1907/1908, p. 526-7. PUNTONI, Pedro. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do Sertão Nordeste do Brasil, 16501720. São Paulo: HUCITEC, Editora da Universidade de São Paulo, FAPESP, 2002. p.188. 28 PUNTONI, Pedro. A guerra dos bárbaros: povos indígenas e a colonização do Sertão Nordeste do Brasil, 16501720. São Paulo: HUCITEC, Editora da Universidade de São Paulo, FAPESP, 2002. p.206. 29 Mappa Fazendo conhecer os Aldeamentos das differentes Tribus da Província de Minas Geraes. Seu local, População, seu aumento ou decadência, e as causas. In: Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XII. 1907/1908, p. 498s. 30 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XII. 1907/1908, p. 510. 27 8 nosso interior...” pois os Botocudo vêm atacando os colonos “... que confrontão com a Mata Geral de Aquém do Rio Doce no Termo da Cidade de Marianna...” Ataíde e Mello ainda lembra do estabelecimento de seis presídios pelo seu predecessor, Visconde de Barbacena, e frisa que tais presídios “... tiveram algumas utilidades...” Os ditos destacamentos seriam assim estabelecidos: um no Rio do Peixe, outro no Rio da Casca e o ultimo na Barra do Ribeirão Belém. Os gastos da Coroa com a instalação, pagamento dos praças, fornecimento de pólvora e munição, seriam restituídos com o tributo dos “... Dízimos, e já no Quinto do Ouro, que se pode extrair em alguns daquelles Rios...”. 31 A conquista dos Rios Doce e Pardo e as necessárias atuações das Juntas Militares eram definidas por Cartas Regias, onde a obtenção de terras e a apropriação do trabalho indígena foram em síntese, orientações fundamentais. Decretava-se a “guerra justa”, e a questão indígena tornava-se uma questão militar. Erigiam-se quartéis e destacamentos na região, formavam-se aldeamentos indígenas compulsórios próximos aos quartéis e destacamentos. Para os índios “mansos” cabiam-lhes os aldeamentos. Já para os índios capturados em “guerras justas”, restavam-lhes o trabalho escravo por tempo determinado. “As terras tomadas dos índios eram transformadas em sesmarias e distribuídas aos colonos e comandantes das Divisões Militares”.32 A Carta regia de 13 de maio de 1808 decretava “guerra Ofensiva contra os Botocudos Antropófagos”. A partir de tal documento, estava reaberta legalmente a escravização indígena. Grupos inteiros de Botocudo foram dizimados ou reduzidos aos aldeamentos compulsórios. Somente em 1831 a fúnebre Carta Regia foi abolida, quando grande parte desse grupo já estava reduzida aos aldeamentos ou aniquilada. Essa eliminação dos Botocudo foi justificada pela visão de que Tais indígenas “...eram incivilizáveis e refratários aos meios brandos de relação”. Somase ainda, a necessidade de se levar a “paz” à região. Clima extremamente necessário para que o desenvolvimento e progresso fossem alcançados.33 A sistemática supressão do mineiríndio não pode ser entendida apenas pelos efeitos degradantes da aguardente, do choque microbiano, do cativeiro e do brutal extermínio de suas populações. A questão agrária foi um fator teve grande importância para a eliminação desses povos. Inúmeros processos foram utilizados pelos brancos a fim de tomarem posse da terra que pertencia, por direito, aos indígenas do Leste mineiro. Fontes Documentais Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano III, fascículo III e IV, 1898. Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XI, Fascículo I, 1906 31 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano III, fascículo III e IV, 1898. p.743-5. PARAISO, Maria Hilda Baqueiro.Repensando a política indigenista para os Botocudos. In: Revista de Antropologia, São Paulo: USP, 1992, v. 35. p. 83. 33 PARAISO, Maria Hilda Baqueiro.Repensando a política indigenista para os Botocudos. In: Revista de Antropologia, São Paulo: USP, 1992, v. 35. p. 83. 32 9 Revista do Arquivo Público Mineiro. Ano XII, 1907/1908 FREYREISS, Georg Wilhelm. Viagem ao interior do Brasil. Trad. A. Löfgren, Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. Da Universidade de São Paulo, 1982. SAINT-HILAIRE, August de. Viagem pelas províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais. Trad. Vivalde Moreira; Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; São Paulo: Ed. da Universidade de São Paulo, 1975. SILVA, Antonio Moraes. Grande Dicionário da Língua Portuguesa. 10a edição revista, corrigida e muito mais aumentada e actualizada. Por Augusto Moreno, Cardoso Junior e José Pedro Machado, Lisboa/ Portugal: editora Confluência, 1945. Bibliografia ALENCASTRO, Luiz Felipe de. 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