UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DA NATUREZA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA Dissertação de Mestrado Frente, Verso e Reverso de um Cartão-postal: Leituras de paisagens da Praça Nossa Senhora da Boa Viagem - Recife - PE Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Geografia da Universidade Federal da Paraíba como parte dos requisitos para obtenção do título de Mestre em Geografia. João Pessoa – 2007 2 S237f UFPB/BC Santos, Anderson Alves dos Frente, verso e reverso de um cartão-postal: leituras de paisagens da Praça Nossa Senhora da Boa Viagem – Recife - PE / Anderson Alves dos Santos – João Pessoa, 2007. 170 p. : il. Orientador: Raimundo Barroso Cordeiro Júnior. Dissertação (Mestrado) – UFPB / CCEN. 1. Geografia Humana 2. Paisagem 3. Espaço Urbano 4. Cartão-postal 5. Praça Nossa Senhora da Boa Viagem 6. Bairro de Boa Viagem 7. Cidade do Recife. CDU: 911.3 (043) 3 Anderson Alves dos Santos Frente, Verso e Reverso de um Cartão-postal: Leituras de paisagens da Praça Nossa Senhora da Boa Viagem - Recife - PE Banca examinadora: _____________________________________________________ Profº. Dr. Raimundo Barroso Cordeiro Jr. (orientador) Departamento de História – UFPB _____________________________________________________ Profª. Dr. Doralice Sátyro Maia (co-orientadora) Departamento de Geografia - UFPB _____________________________________________________ Profª. Dr. Maria de Fátima F. Rodrigues (examinadora interna) Departamento de Geografia - UFPB _____________________________________________________ Profª. Dr. Edvânia Tôrres Aguiar Gomes (examinadora externa) Departamento de Geografia - UFPE João Pessoa – 2007 4 5 6 À minha mãe Dona Del, pelo seu entusiasmo contagiante em aprender e estudar. 7 AGRADECIMENTOS Primeiramente a Deus por me conceder uma existência interessante. A minha mãe Dona Del por todo zelo e amor. Ao meu pai José Alves pela confiança e por ter financiado os custos dos meus estudos e de outros sonhos. Ao meu irmão Júnior que foi o principal motivador da minha escolha pela Geografia, agradeço por me apontar esse norte. A minha cunhada Nalva por aquela farofa que só ela faz e as minhas lindas sobrinhas e afilhadas Evelyn e Ellen, por preencher nossas vidas com mais beleza e alegria. A Aline, geógrafa do meu mundo, agradeço por muitos dos momentos em que você se dispôs a pensar comigo. Obrigado por prestar seu tempo e sua atenção em favor desse trabalho. Sou grato por você estar ao meu lado quando mais precisei de companhia. Eu lhe agradeço pelo seu amor, pelo seu carinho e por sua generosidade. Ao seu Fernando, dona Adaluza e a minha cunhada Fernanda, por todo apoio que me foi dado, sempre de forma gratuita e amável. A professora Edvânia Tôrres que testemunhou meus primeiros erros e acertos na Geografia, com quem iniciei as reflexões acerca do que significa o cartão-postal para essa pesquisa. Agradeço por soprar o balão de minhas idéias e por me encorajar a pensar diante dessa Geografia tão rica em espaço. Ao professor Raimundo Barroso, por ter aceitado me orientar apenas conhecendo o projeto. Meu louvor pela sua forma sempre polida de encarar as dificuldades da pesquisa científica e meus agradecimentos por toda a confiança depositada em mim. A professora Doralice Sátyro, agradeço por todas as suas contribuições em favor desse trabalho, também agradeço por me acolher no seu grupo de pesquisa e por me apresentar leituras e reflexões sempre muito interessantes. A professora Fátima Rodrigues, por sua atenção e por sua torcida em ver essa pesquisa ser bem realizada. Sou grato pelos seus apoios e também pelos ótimos trabalhos de campo que me possibilitaram conhecer um pouco do mundo dos assentamentos rurais. A professora Maria Franco por sua disponibilidade em ajudar e ouvir os alunos da pósgraduação, agradeço-lhe pelas salutares contribuições. Aos demais professores da pós-graduação com quem aprendi bastante no decorrer das disciplinas e no cotidiano, sempre trocando boas idéias, meus agradecimentos a Dada, Emília de Rodat, Ariane Sá, Valéria de Marco, Eduardo Viana, Carlos Augusto, Sergio Alonso, todos 8 esses professores com quem tive contato durante o curso, e a Sônia, secretária da coordenação do mestrado, a quem agradeço pela maneira sempre simpática e solícita em nos atender. A todos os amigos da pós-graduação, João Tavares, Ednalva, Ivanalda, Avani, Emanuel, Napoleão, Fabiano e Luciano. Aos novos amigos com quem tenho um carinho todo especial: a Rute e Amanda, pela deleitosa convivência; a Araci pelo seu jeito meigo e gostoso de fazer a gente se sentir bem e a Rita (futura Prefeita de Coremas) por nos fazer sorrir com suas histórias e contos. Ao Alex, que muitas vezes me socorreu quando o computador falhou, agradeço pela amizade desse paraibano arretado. Aos velhos amigos da graduação na UFPE e do PET, Eduardo Nunes (Mago), pela boa amizade que nutrimos; a Andrezza Monteiro, Pedro Nóbrega, Paulo Alves e Alan pela torcida e apoio; ao Paulo Tavares e Lutero, pelos saudosos sarais no laguinho da UFPE, boas saudades! Aos professores do período da graduação os quais tenho grande apreço e que me motivaram a enveredar no universo da Geografia: Caio Maciel, Vanice Selva, Lucivânio Jatobá, Jorge Santana, Hernani e Tânia Bacelar. Ao pessoal do Arquivo Público Jordão Emereciano pela disponibilidade e pela flexibilidade no horário em me mandar embora, e aos funcionários do Museu da Cidade do Recife, da URB e da EMLURB. Aos moradores do bairro de Boa Viagem que me concederam suas palavras e experiências sobre a “pracinha” e à população em situação de rua que se dispuseram em me contar um pouco de suas práticas cotidianas. A Capes por me conceder a bolsa de mestrado. E a todos que de alguma maneira contribuíram para realização dessa pesquisa. 9 Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós, uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém compreenderá que os meus pensamentos são tristes. Fernando Pessoa 10 RESUMO Os cartões-postais são importantes fontes de imagens, de registros temporais e espaciais para subsidiar a leitura e compreensão da história das cidades. Registrando panoramas de determinado recorte espacial em diversos períodos e em distintas escalas de tempo, fornecem caminhos que possibilitam acompanhar os movimentos dinâmicos que configuram a complexidade do urbano. Colecionados de forma articulada findam por se constituir em um repositório documental da gênese e evolução dos fragmentos da cidade. É um elemento textual que permite revisitar e reencontrar elos que podem ajudar a recuperar a “memória histórica” dos espaços. Desse modo, a pesquisa sob o título, Frente, verso e reverso de um cartão-postal utiliza o cartão-postal como um suporte de estudo para compreensão da paisagem urbana e seleciona como objeto de estudo, a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem, Recife-PE, para assim, analisá-la enquanto componente dos recortes contemplados nos cartões-postais. Portanto, tem-se aqui descrito um debate sobre a utilização do cartão-postal como um possível recurso para a pesquisa nas ciências humanas, em especial para a Geografia e o levantamento de alguns principais autores que contemplaram o tema em suas pesquisas. Em seguida, relatou-se um pouco do histórico do cartão-postal enquanto veículo de comunicação, tendo em vista o objetivo de revelá-lo como um eficiente suporte de estudo das paisagens da cidade e também uma sinopse histórica da Praça de Boa Viagem enquanto espaço cartão-postal, inserido no processo de evolução da própria Cidade do Recife. Também foi contemplado um debate sobre os efeitos da especulação imobiliária sobre o estímulo da confecção de paisagens ao modo de cartões-postais, seguido de um resgate da paisagem da praça de Boa Viagem através das ações implementadas pelo poder público ao longo das décadas em que a praça ganhou mais evidência nos cartões-postais circulados. E como contrapondo da idéia que um cartão-postal evoca, demonstrou-se o lado reverso da paisagem a partir da visualização da população com caráter da exclusão social presente no entorno do logradouro. Diante dessa exposição, pode-se afirmar que assim como a Praça de Boa Viagem e o mobiliário que a compõe, nenhum elemento ou objeto do espaço está isolado, pois cada qual está contido numa totalidade que explica muitos dos seus significados. Contudo esses elementos ou objetos, apesar de pertencerem a um universo de ações comuns, tendem a ser observados de maneira individualizada, desconsiderado-se, muitas vezes, o contexto ao qual está imerso. Essa talvez seja uma causa do cartão-postal ser apontado como continente de apenas um lado, para alguns, um lado perverso, para outros, o postal teria unicamente a face a ser celebrizada. De maneira comum, as duas abordagens de compreensão do cartão-postal, assimilam a idéia de que nele há uma aparência que se impõe como significado dominante. Todavia, como o limite da paisagem é manifesto nas capacidades do observante, o alcance do postal pode ser medido através da habilidade que ele tem de convencer e de incitar os sentimentos, assim a perversidade ou o encantamento provocado pela imagem ou pela paisagem de cartão-postal, pode também depender de quem o observa. Palavras-chaves: paisagem, cartão-postal, espaço urbano, Praça N. Sª. da Boa Viagem. 11 ABSTRACT Postcards are important sources of images, temporary and space registers to grant the reading and comprehension of the history in the cities. They also register a scenery of some spaces ad newspapers in several periods in different time scales, they also show ways that permits to follow a dynamic movement and setups the complexity of the urban cities. Collected and linked in an specific shape, It constitutes a documental file of the genesis and evolution for the city fragments. It is a literal element that allows to re-visit and re-encounter chains that can help to recover the "historical memory" of space. Therefore, the research under the title, front, overleaf and hide place of the postcard, is used as a study support to understand the urban landscape and selects as the study object, " Nossa Senhora da Boa Viagem" square RECIFE-PE. Thus, to analyse as parts of ads newspapers seen on the postcards. Therefore, we have over here, a written debate about the use of a postcard as a possible resource to researchers to the human sciences, in special to Geography, and some mains authors datas, had seen these themes their researches. Then, it was shown a little about the history of postcards as a way of communication, taken into account the aim to reveal them as an efficient study support to the city landscape and also a historic synopsis of "Boa Viagem" square as a postcard space. Including it to the evolution process to the city itself RECIFE. It was also a debate about the effects of real estate speculation of different shapes of landscapes into the postcards, showing the view of "Boa Viagem" square. Through some actions by the public power Government along some decades whrere the squares were more used into the postards by the market.It showed its hidden side view from the social exclusion seen in downtown. In face of this exhibition, it can be confirmed to " Boa Viagem" square, to real estate and other places, they are not isolated, because each of them is linked as a whole where they explain ist meaning. Thus, all these objects and elements, despite of to belong a universe of common actions, tend to be observed most of the times isolated. Not taking into account the context where it is included. This is perhaps the cause like the ostcards are being used just one side back as a continent. For some people, a bad side, for others, good. In a certain commmon point of view, the studies and researchers of postcards show an appearance of a power importance. Although, this limited landscape is made public the capacity to the observer. The range of postcards can be measured by the abilities they haveto convince and stimulate the feelings, also emphasized bad and good charming provoked by the image or the landscape of postcard. It also depends on the point of view to whom observes them. Key words: landscape, postcard, urban space, N. Sª. da Boa Viagem square. 12 LISTA DE SIGLAS AMABV – Associação dos Moradores e Amigos de Boa Viagem APBS – Associação dos Moradores do Pina, Boa Viagem e Setúbal. APEJE – Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano. EMLURB - Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização FCPP – Federação das Colônias de Pesca de Pernambuco. Fundaj – Fundação Joaquim Nabuco. MCR – Museu da Cidade do Recife RMR – Região Metropolitana do Recife. URB - Empresa de Urbanização do Recife ZPR – Zona de Preservação Rigorosa. 13 ÍNDICE DE FIGURAS FIGURA 1: Vista aérea de Boa Viagem ................................................................................... 16 FIGURA 2: Máquina de Vender cartões-postais (1906) ........................................................... 20 FIGURA 3: Capa da Revista de Pernambuco em 1925 ............................................................. 65 FIGURA 4: Ilha do Nogueira ................................................................................................... 71 FIGURA 5: Caminhos da Boa Viagem (Afogados) ................................................................. 73 FIGURA 6: Avenida Ligação................................................................................................... 76 FIGURA 7: A Ponte do Pina .................................................................................................... 78 FIGURA 8: Reforço da Ponte do Pina...................................................................................... 78 FIGURA 9: Escultura da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem........................................... 80 FIGURA 10: Povoado de Boa Viagem..................................................................................... 86 FIGURA 11: Alguns Aspectos do rio Jordão............................................................................ 91 FIGURA 12: Alguns Aspectos do rio Jordão............................................................................ 91 FIGURA 13: Bilhete-Postal praia em Boa Viagem................................................................... 93 FIGURA 14: Avenida Beira Mar ............................................................................................. 97 FIGURA 15: Inauguração da Avenida Beira Mar..................................................................... 98 FIGURA 16: Projeto de palacete.............................................................................................. 102 FIGURA 17: Projeto de palacete.............................................................................................. 102 FIGURA 18: Terminal de Boa Viagem em construção............................................................. 105 FIGURA 19: Inauguração da Linha de Boa Viagem................................................................. 106 FIGURA 20: Inauguração da Linha de Boa Viagem................................................................. 107 FIGURA 21: Cassino de Boa Viagem ...................................................................................... 109 FIGURA 22: Cartão-postal do Hotel Boa Viagem, avistando-se pracinha ............................... 114 FIGURA 23: Frente de cartão-postal de Praia do Recife circulado no ano de 1958................... 117 FIGURA 23.i: Verso de cartão-postal de Praia do Recife circulado no ano de 1958 ................. 117 14 FIGURA 24: Vista aérea de Boa Viagem ................................................................................. 122 FIGURA 25: Cartão-Postal Brasil turístico .............................................................................. 125 FIGURA 26: Fachada aérea do edifício.................................................................................... 127 FIGURA 27: Varanda do edifício............................................................................................. 127 FIGURA 28: Falso projeto circulado de um futuro cartão-postal de Boa Viagem ..................... 130 FIGURA 29: Praça e Igreja de Boa Viagem ............................................................................. 134 FIGURA 30: Praça e Igreja N. Sra. Da Boa Viagem ............................................................... 139 FIGURA 31: Igreja e praia de Nossa Senhora da Boa Viagem ................................................. 141 FIGURA 32: Vista noturna da Praça de Boa Viagem ............................................................... 142 FIGURA 33: Praça de Boa Viagem.......................................................................................... 145 FIGURA 34: Artesanato na areia de Boa Viagem..................................................................... 153 FIGURA 35: Foto do calçadão destruído pelo mar ................................................................... 157 FIGURA 36: Folder da proposta da Associação dos Barraqueiros para a ciclovia..................... 158 FIGURA 37: Quadro da Feira Artesanato da Praça de Boa Viagem.......................................... 160 ÍNDICE DE MAPAS Mapa 01 - Localização da área de estudo ................................................................................. 18 Mapa 02 - Bairro do Pina e arredores ....................................................................................... 72 Mapa 03 - Acesso entre os bairros do Recife, Pina e Boa Viagem ............................................ 77 Mapa 04 - Povoado de Boa Viagem – Recife – PE – 1870 ....................................................... 87 Mapa 05 - Projeto de Planta da Boa Viagem e Projeto de Arruamento – Recife – PE – 1870.... 88 Mapa 06 - Avenida Boa Viagem entre o bairro do Pina e a Praça N. Sª. da Boa Viagem .......... 99 Mapa 07 – Praça N. Sª. da Boa Viagem e Parque Dona Lindu.................................................. 131 15 SUMÁRIO INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 16 CAPÍTULO I: ANVERSOS DO CARTÃO-POSTAL ......................................................... 20 1.1 O cartão-postal: o documento, a paisagem e a paisagem de cartão-postal............................ 21 1.2 Debatendo o cartão-postal .................................................................................................. 27 1.3 Um direcionamento teórico para levar a paisagem ao cartão-postal .................................... 43 1.4 O cartão-postal como suporte de estudo do espaço e da paisagem urbana ........................... 47 1.5 Destinos do cartão-postal ................................................................................................... 53 CAPÍTULO II: AS TRANSFORMAÇÕES NA PAISAGEM E A REVELAÇÃO DE NOVOS E CADA VEZ MAIS VELHOS ATRIBUTOS............................. 65 2.1 Fases de um cartão-postal................................................................................................... 66 2.2 Partindo do Recife em sentido à Boa Viagem..................................................................... 66 2.3 O monumento sagrado e sua evocação no cartão-postal: apontamentos históricos sobre a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.................................................................................. 79 2.4 Apresentando a morfologia da paisagem a partir da leitura da planta do Povoado da Boa Viagem em 1870...................................................................................................................... 85 2.5 Nasce um cartão-postal moderno........................................................................................ 92 CAPÍTULO III: REVELANDO FRENTES E DECIFRANDO OUTROS LADOS DA PAISAGEM DA PRAÇA DE BOA VIAGEM.......................................... 122 3.1 Uma visão geral a partir da fachada panorâmica do bairro de Boa Viagem ......................... 123 3.2 A especulação imobiliária no espaço cartão-postal ............................................................. 126 3.3 Em busca da datação de cartões-postais da Praça de Boa Viagem....................................... 133 3.4 Conhecendo algumas inesperadas e outras inoportunas visões do entorno da Praça de Boa Viagem .................................................................................................................................... 145 3.5 Algumas últimas notas acerca das intervenções no entorno da Praça de Boa Viagem ......... 154 CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................. 160 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................. 164 16 Introdução Figura 01: Brasil turístico:Vista aérea de Boa Viagem. Recife. Brascard [127-]. 1 cartão-postal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor. 17 Os cartões-postais são importantes fontes de imagens, de registros temporais e espaciais para subsidiar a leitura e compreensão da história das cidades. Registrando panoramas de determinado recorte espacial em diversos períodos e em distintas escalas de tempo, fornecem caminhos que possibilitam acompanhar os movimentos dinâmicos que configuram a complexidade do urbano. Colecionados de forma articulada findam por se constituir em um repositório documental da gênese e evolução dos fragmentos da cidade. É um elemento textual que permite revisitar e reencontrar elos que podem ajudar a recuperar a “memória histórica” dos espaços. Uma pesquisa que toma o cartão-postal como suporte de estudo, necessita estar atenta à articulação que permite remontar o processo da paisagem como um quebra-cabeça complexo, que além de precisar e justapor cada peça deve contextualizar as suas formações. Portanto, os detalhes que revelam mudanças ou permanências no quadro paisagístico são importantes fontes para a interpretação das transformações ocorridas e captadas através das imagens veiculadas nos cartões-postais. A reflexão teórica e metodológica aqui desenvolvida, escolheu o cartão-postal como suporte para estudo e compreensão da paisagem, e selecionou como objeto empírico desse estudo, a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem, Recife-PE (Mapa 1), para assim, analisá-la enquanto componente dos recortes contemplados nos cartões-postais. A Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem além de ser classificada como Zona de Preservação Rigorosa e Zona Especial do Patrimônio Histórico-Cultural, tem estampado o título de cartão-postal do bairro de Boa Viagem, um distinto bairro da cidade do Recife. Essa pesquisa se interessou em resgatar a paisagem da praça, e em verificar o porquê dela ostentar e sustentar a referência de cartão-postal, mesmo se observando no seu entorno, práticas que contradizem a idéia de paisagem ideal que o senso comum normalmente vincula ao “espaço cartão-postal”1. Nesse sentido buscou-se um diálogo que envolveu a categoria espaço, o conceito de paisagem e a idéia de cartão-postal, todos condensados no intuito de apreender a constituição da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem enquanto um recorte seletivo do espaço geográfico. Os passos desse debate, também envolveram o estudo histórico do universo 1 A noção de “espaço cartão-postal”, para um melhor esclarecimento, pode ser definido nesse primeiro instante do texto, a partir da concepção descrita por Glória da A. Alves: “Lugares com belas paisagens urbanas que no Centro [mas não apenas no Centro] chamam a atenção pelos monumentos, praças, edifícios com valor artístico e histórico, que serviriam como “lugares a serem visitados pelo turista”, onde fotografias podem ser tiradas como prova da presença e visita ao lugar. É um lugar para não permanência, só para passagem”. ALVES, Glória da Anunciação. São Paulo uma cidade global. In: Ana Fani Alessandri Carlos; Carles Carreras;. (Org.). Urbanização e mundialização: estudos sobre a metrópole-. São Paulo: Contexto, 2005, v. , p. 144-145. 18 empírico, englobando um recorte temporal com início no ano de 1707, quando ocorreu a doação de terras para a construção do monumento religioso que deu origem ao povoado e a Praça de Boa Viagem e estendendo-se até o ano de 2007, quando a paisagem da praça estava em pleno processo de transformações. Mapa 1 Mapa de Localização da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem Bairro de Boa Viagem - Recife - PE - Brasil - 2007 0 4 - Recife R. B ar ão de R. d Cana l 0 1 - 0 1 - 100 0 100 Km 0 4 - 0 6 - 0 0 os N aveg ante s a d Av. Boa e B Via oa gem Vi ag em de Se tubal 0 4 - Pernambuco R. Dr .N Souz a Leã o ilo Do rnela Praça Nossa s Senhora da Boa Viagem 0 180 mMeters # Bairro de Boa Viagem Pr ai 2 0 2 4 Km Kilometers Brasil 0 2 - 0 2 - N 800 0 800 1600 Km Kilometers 90 90 0 4 - 0 6 - Fonte: Carta de Nucleação Centro - Departamento de Informações Muncipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco / IBGE - Base Digital do Brasil - 1:1.000.0000 Elaboração de Mapa: Aline B. de Lima / Anderson Alves dos Santos O resultado dessa reflexão foi a percepção de uma temporalidade da Praça de Boa Viagem enquanto figurada em cartões-postais e a distinção das ações que a promovem como espaço de destaque no contexto da cidade. Portanto, a partir do conhecimento da constituição da praça e da história dos cartões-postais, pôde-se concluir que ao menos dois agentes foram determinantes para a permanência de sua constituição e divulgação enquanto um recorte de paisagem de destaque: o primeiro foi o Estado, através das intervenções urbanas e o segundo foi a técnica de impressão, que possibilitou maior acesso aos cartões. Essas conclusões se delinearam no decurso da análise das informações coletadas sobre os principais temas elencados (paisagem, cartão-postal, Praça de Boa Viagem). Assim foi feita uma considerável revisão bibliográfica e documental, e realizado um expressivo banco de informações e de registros iconográficos. Demais informações foram obtidas em fontes de registros técnicos (planos municipais), científicos (publicações acadêmicas), literários e 19 artísticos (quadros, poesias, ensaios), além de jornais e revistas. Também se recolheram alguns depoimentos realizados por usuários da praça e se realizaram vários trabalhos de campo, que possibilitaram ao pesquisador um entendimento mais aproximado das práticas desenroladas no entorno da praça. As discussões da pesquisa foram divididas em três capítulos. No capítulo I, intitulado “Anversos do cartão-postal”, foi realizado um debate sobre a utilização do cartão-postal como um possível recurso para a pesquisa nas ciências humanas, em especial para a Geografia. Com esse intuito, realizou-se um levantamento de alguns principais autores que contemplaram o tema em suas pesquisas. Também se delimitou as influências teóricas, para adiante sugerir o cartão-postal como um auxiliar do estudo da paisagem e do espaço urbano. Em seguida, relatou-se um pouco do histórico do cartão-postal enquanto veículo de comunicação, tendo em vista o objetivo de revelá-lo como um importante suporte de estudo da cidade. No capítulo II, definido como “As transformações na paisagem e a revelação de novos e cada vez mais velhos atributos”, privilegiou-se o estudo da formação da paisagem da praça enquanto inserida no processo de evolução da Cidade do Recife, frisando-se as fases em que a Praça de Boa Viagem foi mais representada em cartões-postais. Nesse tópico se tem destacado a influência da igreja, ali existente, para a formação do primitivo povoado, que por sua vez, tem a paisagem resgatada a partir de um mapa publicado no ano de 1870. A abordagem empreendida nesse capítulo demonstra algumas tendências que possibilitaram uma melhor visualidade da praça no decorrer da constituição do bairro de Boa Viagem enquanto núcleo moderno da cidade. No capítulo III, denominado “Revelando frentes e decifrando outros lados do cartãopostal da Praça de Boa Viagem”, é feito um debate sobre os efeitos da especulação imobiliária sobre o estímulo da confecção de paisagens ao modo de cartões-postais. Em seguida realizase um resgate da paisagem da Praça de Boa Viagem através das ações realizadas pelo poder público, ao longo das décadas em que a praça ganhou mais evidência nos cartões-postais circulados. Encerra-se esse capítulo demonstrando duas formas de ver a paisagem, uma a partir da visualização do caráter da exclusão social sofrida pela população de rua presente no logradouro, outra, a partir dos projetos que deverão ser implantados no entorno da praça. Na conclusão, relata-se algumas considerações teóricas em torno dos debates levantados no decorrer dos capítulos, com o enfoque dado na utilização do postal enquanto suporte para a pesquisa e nos estudos dos recortes do espaço comumente adjetivados como cartões-postais da cidade. 20 Capítulo 1 Anversos do cartãocartão-postal Figura 2: “Máquina de vender cartões-postais no início do século (1906)”. ROBERTO, Y. Os anos dourados do cartão-postal: catálogo da exposição – do acervo particular da autora – Realizada no Itanhangá Golf Club. Rio de Janeiro: 1988 21 1.1 O cartão-postal: o documento, a paisagem e a paisagem de cartãopostal. O geógrafo Pierre George no seu livro, Os Métodos da Geografia expõe que “a natureza da Geografia implica, por si mesma, a de seus documentos”2. Para ele, o campo de interesse da Geografia é heterogêneo e universal e sua atenção vai para todos os elementos de um estado de fato e de todos os fatores susceptíveis de promover mutações perceptíveis no momento presente ou em curto espaço de tempo. Para tanto, o autor descreve que o processo mental encontra-se dividido em duas partes, dois tempos, o da “situação e evolução” e o da “determinação das dimensões”. De acordo com George, o “primeiro tempo é o da observação em seu sentido mais claro; o segundo, o da avaliação quantitativa”3. A partir dessa reflexão metodológica acerca de conhecimento geográfico, P. George indaga se é possível a aplicação desse modelo no trato do documento, como se verifica no trecho a seguir: Mas será que o geógrafo só deve recorrer a uma metodologia específica, a da estatística e do cálculo, no momento em que a medida vai entrar em ação? Em outras palavras, será que os métodos quantitativos se aplicam, no caso, a um material documentário verdadeiramente geográfico ou será que a missão dos geógrafos consiste apenas em reunir com a finalidade de compor uma imagem geográfica, uma documentação cuja essência não seja necessariamente geográfica?4 Essa pergunta feita por Pierre George provoca uma série de outros questionamentos, como por exemplo o que significa documentos “verdadeiramente” geográficos? Para George, a documentação utilizada pelos geógrafos pode ser classificada em duas séries, a primeira reúne os documentos tradicionais da Geografia, como mapas geográficos, monografias locais ou regionais e os estudos de síntese, a segunda congrega documentos não necessariamente ligados à Geografia, mas fundamentais para o seu entendimento, como mapas especiais (mapas geológicos, meteorológicos), compilações estatísticas, estudos econômicos, pesquisas sociológicas e etnológicas.5 Pela classificação elencada por Pierre George pode-se perceber que o cartão-postal não integra uma fonte de documentação possível à Geografia, sobretudo porque na sua abordagem o autor enfatiza documentos tradicionais dessa ciência e defende que “não existe nenhum 2 GEORGE, Pierre. Os métodos da Geografia. São Paulo: DIFEL, 1978. p. 19. Ibid. p. 19. 4 Ibid. p.20. 5 Ibid. p.47. 3 22 método geográfico para a abordagem dos dados sociais, econômicos, demográficos e culturais” e ainda que “os métodos das diversas ciências humanas não conduzem a finalidade geográfica”.6 Mesmo considerando apenas esses documentos tradicionais, esse clássico autor da Geografia contribui com a reflexão dessa pesquisa, ao destacar que a análise do visível e do invisível no procedimento geográfico, por sua própria natureza, deve ser compreendida a partir de “comportamentos mentais diferenciados”. Além disso, considera que a Geografia é diversa pelas formas de conhecimento que utiliza, onde os meios de investigação do invisível fazem parte de um conjunto diferenciado de ciências. O autor exemplifica que a paisagem é um objetivo visível da Geografia, mas que necessita do invisível para sua compreensão, como se pode observar: O visível por excelência é a paisagem, reconhecida como objeto essencial da curiosidade e do estudo geográficos. A paisagem é uma resultante de legados ou de forças atuais ou do passado as quais, em si mesmas, fogem ao domínio do visível: são elas tanto as longas seqüências dos acontecimentos geológicos ou históricos, como fluxos de capitais ou das redes de comando e de decisão ligadas às estruturas. Entretanto, a paisagem só poderá ser qualificada e classificada numa topologia geográfica se forem levados em conta todos os elementos invisíveis que lhe conferem sentido. A observação propõe problemas que só poderão ser resenhados numa imagem sintética explicativa passível de classificação em escala zonal, regional ou local, se recorrermos ao conhecimento do invisível.7 Sobre essa reflexão pierregeorgeana, Ruy Moreira afirma que ela “evidencia senão o entendimento pelos clássicos de que por trás dos olhos que contemplam a paisagem está a subjetividade humana” 8. Dessa maneira, o estudo da paisagem remete-se a uma análise que deve dialogar com o cenário avistado e com quem o observa, inscrevendo vontades, desejos, fetiches entre outras emoções. Contudo, na apreciação da paisagem tanto na dimensão morfológica e na subjetiva, deve-se ser considerado os limites da opinião individual e a necessidade de explanar o conteúdo histórico que define um dos sentidos mais profundos da paisagem, pois como bem observa Milton Santos “a paisagem é o resultado de uma acumulação de tempos”9. E sobre a prudência que o geógrafo e outros interessados devem considerar, quando diante de uma paisagem, esse autor complementa: 6 GEORGE, op. cit. p.35 Ibid. p. 22 8 MOREIRA, Ruy. Assim se passaram dez anos: A Renovação da Geografia no Brasil no Período 1978-1988. GEOgraphia. Rio de Janeiro, ano 2, n. 3, p 27-49, 2000. 9 SANTOS, Milton. Pensando o Espaço do homem. São Paulo: Ed. Hucitec, 1982. p.54. 7 23 Diante de uma paisagem, ou nossa vontade de apreendê-la se exerce sobre conjuntos que nos falam à maneira de cartões-postais, ou então nosso olhar volta-se para objetos isolados. De um modo ou de outro, temos a tendência de negligenciar o todo; mesmo os conjuntos que se encontram em nosso campo de visão nada mais são que frações de um todo.10 Milton Santos ao exprimir precaução por causa dos limites conferidos ao observador quando diante de uma paisagem, chama a atenção para a similaridade que essa categoria tipicamente geográfica tem com o cartão-postal, um elemento que a corrente pesquisa acredita ser útil como objeto documental, inclusive para a própria análise da paisagem. O autor insinua ser de comum conhecimento que os cartões-postais comportam imagens que podem ser um fragmento descontextualizado da realidade e diante dessa afirmativa ele elabora a comparação que convida o examinador da paisagem a olhá-la de maneira diferente de como se faz com o cartão-postal. É concordável que assim como a paisagem que necessita de uma diversidade de elos para sua compreensão, o cartão-postal também assume limites, pois entender a totalidade que dá existência à globalidade de suas significações segundo Moraes, “envolve imagem, mensagem, remetente, destinatário e contexto”11. Para esse autor, quando o cartão-postal é interpretado no seu “todo significativo”, leva-se em conta diferentes remetentes e situações, a particularidade do “cartão-postal em si” e a “singularidade de um momento especial”12. Portanto, as concepções de paisagem e de cartão-postal têm algo mais em comum do que os limites que os estigmatizam (como divulgadores de uma realidade deformada), ou que os singularizam no campo da arte. Enquanto objeto de investigação científica, o cartão-postal e a paisagem pertencem a uma ambiência que consente orientá-los como temas que se complementam. Desse modo, assim como se pode utilizar o cartão-postal como suporte de estudo da paisagem, essa última pode aperfeiçoar a explicação do primeiro. Além disso, na medida em que a paisagem é dinâmica e o postal é estático, a paisagem pode ajudar a reinterpretar o contexto em que está inserido o cartão. E ao alcance em que o postal é colecionado e a paisagem esquecida, o cartão pode ajudar a reencontrar paisagens. O aprofundamento do estudo das inter-relações entre paisagem e cartão-postal, tem o objetivo de fornecer meios de melhor interpretar a paisagem por via do postal enquanto suporte de estudo e igualmente valoriza o cartão-postal como elemento documental no campo das ciências humanas. Essa prática metodológica invoca o exercício interdisciplinar, pois 10 Ibid. p. 35. MORAES, Marcos Antônio de (org.). “Tudo está tão bom, tão gostoso...” Postais a Mário de Andrade. São Paulo: Hucitec-Edusp, 1993. p.xii. 12 Ibid. p. xii. 11 24 além da explanação da paisagem, e em especial da paisagem urbana, carecer da opinião de campos como a Geografia, o Urbanismo, a Arte e a História, o entendimento do cartão-postal como recurso para a pesquisa deve recorrer aos campos citados, mais a Sociologia e ao estudo da Fotografia. O perfil interdisciplinar assumido pela pesquisa não deve ser compreendido como o desejo de se realizar uma síntese dos conhecimentos relevantes aos temas abordados. A idéia é desenvolver uma relação mais aproximada com outras disciplinas partindo da iniciativa de compreender o espaço geográfico e a paisagem, à medida que também se tentará contribuir com a compreensão teórica do cartão-postal e sua utilização científica. Essa prática se realiza sob a motivação de que “a própria Geografia pode contribuir para a evolução conceitual de outras disciplinas”13 e na idéia de que o postal “de imagem em imagem se foi fazendo a reportagem do quotidiano, da realidade, da história, do espaço e do tempo” 14, ou ainda sob o auspício de que o cartão postal é um “apreciável instrumento de educação social, um mestre diligente de História, Geografia e Arte, com o mundo inteiro por discípulo”15. É nessa troca de saberes que se edificará a interdisciplinaridade da pesquisa. A problematização que pretende aglutinar os temas cartão-postal e paisagem, condensando-os em um “universo” tem como face primordial o desígnio de auxiliar na análise e compreensão da paisagem e do espaço geográfico, na apreciação das manifestações do urbano e na investigação das transformações ocorridas na cidade. Esse caráter transconceitual absorvido pela pesquisa, emerge da idéia de que a paisagem confeccionada como frente de um cartão-postal, funde-se em uma destacada impressão do espaço geográfico. Essa impressão teria a função de realçar alguns recortes do espaço urbano que referencia a atuação da sociedade na construção e na seleção de alguns de seus conceitos e imagens ao longo do tempo. Dessa forma, a concepção de cartão-postal se expande no seu sentido mais global, de objeto iconográfico, à noção que atribui a determinadas paisagens a função de representar e qualificar o espaço em meio a sua diversidade natural e arquitetônica. Sendo assim, no conjunto dos locais e objetos que definem o espaço pela paisagem, o cartão-postal assume o papel de ser o mais notável, ou um dos mais aparentes. Se, por exemplo, pensarmos em alguma paisagem, é possível que de imediato se ative na memória uma ou outra imagem, 13 SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Edusp, 2004. p.137. CUSTÓDIO, Jorge. In: GRUNER, Klaus Werner. Recordando Portugal em antigos bilhetes postais. Catálogo da exposição organizada por Yolanda Roberto Marketing & Projetos Culturais e apresentada no Paço Imperial. Introd. Jorge Custódio. Rio de Janeiro: 1989, p. 13. 15 OLIVEIRA, apud BELCHIOR (1986, p.7). BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Introdução. In. BERGER, Paulo. O Rio de Ontem no Cartão-postal (1900-1930). 2.ed. Rio de Janeiro: Rioarte. 1986. p. 83. 14 25 típica de cartões-postais, afixada como seu referencial. Essas imagens podem, por exemplo, mencionar a história, a geografia, ou uma tendência da organização de uma cidade e, sobretudo, são um convite à pesquisa. Portanto, a compreensão do cartão-postal denota um duplo sentido, desse modo se discrimina que concebendo o cartão-postal como uma referência espacial, a reflexão teórica e metodológica aqui em discurso, toma como objeto a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem e ao passo em que se concebe o cartão-postal como um documento iconográfico, esse trabalho o utiliza como um suporte de estudo, importante para a decodificação da paisagem que representa a Praça de Boa Viagem e o seu entorno. Os conceitos constituídos pela sociedade, conceito do moderno16, do civilizado17, do progresso técnico18, se manifestam na paisagem que se deixa mirar, demonstrando as conquistas e as elaborações de um momento vivenciado por alguns grupos sociais, ou mesmo permitindo enxergar os detalhes que reexplicam suas formas de um modo mais crítico. Essa revisão da paisagem, intermediada pela compreensão dos ideais compostos na cidade, ao mesmo tempo em que glorifica alguns recantos do espaço urbano, também contesta uma imagem atribuída a determinadas localidades por alguns extratos da sociedade. A paisagem de cartão-postal que tem a qualidade de assumir várias faces se torna um pouco mais evidente através do conhecimento desses conceitos estabelecidos. É certo que as vendas que impõe o “invisível”19, aos detalhes mais explicativos da paisagem não extinguem a capacidade de elaboração de outros conceitos de espaço, de cidade e de paisagem, fundamentados nos vínculos de solidariedade, amizade e afetividade. Essas formas herdadas do cotidiano podem imprimir mais qualidades onde se vive e ao que se vê, do que a mera contemplação de formas ornadas em função da exuberância, do poder, da opulência e do progresso. O vislumbramento da paisagem que remete ao observador vínculos 16 Para Marshall Berman a visão da vida moderna sofre uma bifurcação, de um lado o material, do outro o espiritual. Nesse sentido, modernismo e modernização ganham acepções diferenciadas, no primeiro está presente a idéia de espírito puro, desenvolvidos a partir de imperativos artísticos e intelectuais, no segundo existe um complexo de estruturas e processos materiais (políticos, econômicos e sociais). Para o autor “esse dualismo, generalizado na cultura contemporânea, dificulta nossa apreensão de um dos fatos mais marcantes da vida moderna: a fusão de suas forças materiais e espirituais, a interdependência entre o indivíduo e o ambiente moderno”. BERMAN, Marshall. Tudo o que sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 151. 17 De acordo com Nobert Elias “O conceito de civilização refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nível da tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, as idéias religiosas e aos costumes”. ELIAS, Nobert. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Tradução: Ruy Jungmann. 1v. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. p.23. 18 Segundo Milton Santos “As características da sociedade e do espaço geográfico, em um dado momento de sua evolução, estão em relação com um determinado estado das técnicas[...] Cada período é portador de um sentido, partilhado pelo espaço e pela sociedade, representativo das formas como a história realiza as promessas da técnica. SANTOS, op. cit. 2004, p. 171. 19 Relembrando Pierre George (1978). 26 de pertencimento, diferente do que é imposto pela lógica formal da sociedade, recria uma imagem de cidade, e também chama a atenção para a necessidade da acessibilidade a essa cidade por via da constituição de uma paisagem democrática. O cartão-postal tem a função de reproduzir imagens da cidade por via da ilustração que comporta e que, por sua vez, é uma representação estática da paisagem. Ele divulga nas mais vastas distâncias, as paisagens destacadas, impressionando quem o recebe, pois o material observado sempre tende a provocar uma imagem positiva do que está sendo representado20. Mas ele também permite a elaboração de uma descrição pelo remetente, que alguns autores acreditam geralmente se ligar à imagem formal da ilustração. E por fim ele documenta todas essas apreensões e comunicações, guardando para a posteridade um acervo de temas possíveis de serem estudados. Eis onde reside a importância do estudo do cartãopostal e sua teorização para se entender a paisagem, o espaço e as práticas na cidade. Os postais os quais essa pesquisa se interessa são aqueles que ilustram as imagens do espaço urbano, especialmente os postais da cidade do Recife e do bairro de Boa Viagem. São postais que mostram a expansão da cidade para sua parte sul, exibindo arruamentos, edificações, traçados típicos de um bairro que na década de 1920 era considerado como um “pittoresco suburbio balneario”21 do Recife. O que se demonstra é a formação do espaço construído e natural, ocupado com objetos artificiais e naturais por vezes não mais existentes na paisagem de alguns postais mais atuais, mas ocasionalmente persistentes, resistentes, revelando-se verdadeiras rugosidades22. Todavia, uma coleção de imagens não traduz definitivamente a paisagem, nem a memória histórica dos espaços. Além disso, não se pode esquecer que o cartão-postal é, sobretudo, o resultado de uma percepção, por isso funde-se de subjetividades, seja por parte de quem executa a fotografia, escolhendo ângulos apropriados, horários e técnicas mais convencionais, ou por quem contrata o fotógrafo para executar estas tarefas. Sobre o assunto Boris Kossoy relata: O chamado documento fotográfico não é inócuo. A imagem fotográfica não é um simples registro fisicoquímico ou eletrônico do objeto fotografado: qualquer que seja o objeto da documentação não se pode esquecer que a fotografia é sempre uma representação a partir do real intermediada pelo 20 Borges afirma ser o postal incapaz de comportar algo feio ou desagradável, para ela, “a expressão parece um cartão-postal sempre se refere a um ideal de belo consagrado pelas artes plásticas greco-romana e renascentista”. BORGES, Maria Eliza Linhares. História e Fotografia. Belo Horizonte: Editora Autentica, 2005.p. 60. 21 A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 2, s/p, ago. 1924. 22 “As Rugosidade são o espaço construído, o tempo histórico que se transformou em paisagem, incorporado ao espaço”. SANTOS, 2004, op. cit. p. 173. 27 fotógrafo que a produz segundo sua forma particular de compreensão daquele real, seu repertório, sua ideologia. A fotografia é, como já vimos reiteradas vezes, o resultado de um processo de criação/construção técnico cultural e estético elaborado pelo fotógrafo. A imagem de qualquer objeto ou situação documentada pode ser dramatizada ou estetizada, de acordo com a ênfase pretendida pelo fotógrafo em função da finalidade ou aplicação a que se destina.23 Sob esse aspecto, o postal pode se mostrar mascarado, impresso com intencionalidades que apenas uma análise consciente pode depurar. Portanto, a partir dos destaques realizados sob o postal, e do percebido contraponto entre permanências e mudanças no quadro paisagístico, foi necessário para complementar a sua análise, a utilização de outros recursos iconográficos e outras fontes de dados como recortes de jornais, revistas, documentos oficiais, entre outros, que colaboram para o melhor entendimento das transformações sofridas pelo espaço estudado. Além dos cartões-postais e de seu enriquecimento através de outras fontes, sentiu-se necessidade de contextualizar as imagens à mostra nos recursos iconográficos disponíveis, a fim de também entender nesses recortes, os aspectos socioculturais representados. Assim, nessa tentativa de decifração da dinâmica das paisagens, demonstrando a atuação do homem, transformando, valorizando, valorando o espaço e avivando a paisagem sob um tempo às vezes não mais perceptível pela visão, procurou-se destacar os possíveis detalhes reveladores do momento social em que se compuseram as ilustrações postais. Esses detalhes se exprimiram nas observações dos modos de vestir da população, da maneira de usar o tempo, no destaque dos lugares preferencialmente ocupados e nos mais variados estilos e tendências guiadas pelos conceitos predominantes de cada época. 1.2 Debatendo o cartão-postal A utilização do cartão-postal como suporte de pesquisa é tema debatido e registrado em alguns trabalhos de autores como Gilberto Freyre, Marcos Antonio de Moraes, Maria Eliza de Linhares Borges, Nelson Schapochnik, Carlos Cornejo e João Emilio Gerodetti, Boris Kossoy e Pedro Karp Vasquez, dentre outros. Nos trabalhos desses autores está o consenso do cartão-postal como importante recurso documental e possível suporte para a pesquisa. 23 KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 3 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 5152. 28 Nas abordagens apresentadas, ora o destaque é dado à fotografia, ora ao verso, por vezes, a ambos. O foco do interesse pode está no destinatário que recebe o postal como lembrança de parente ou amigo distante, ou no remetente que escreve o cartão, registrando subjetividades de interesses diversos. O interesse do pesquisador aponta a metodologia como o postal pode ser utilizado. Outro ponto em comum que pode ser destacado no trato do cartão-postal, independente do campo científico que o utiliza, é a curiosa trajetória do pesquisador na composição de um acervo, o que geralmente consiste em trabalho difícil, demorado e oneroso, quando a pesquisa não nasce de um acervo preexistente e acessível. As fontes de pesquisa surgem em lugares por vezes inusitados, como antiquários, leilões, bibliotecas, mercados públicos, feiras de “troca-troca”, acervos iconográficos de órgãos de pesquisa, coleção de cartófilos, bancas de jornal e revista e acervos pessoais. Para cada uma dessas fontes, surge um tipo de dificuldade para aquisição ou até mesmo, para a simples consulta do cartão-postal. Pelo fato da maioria dos cartões-postais não serem datados, a dificuldade de situar uma imagem ao momento de sua apreensão pelo fotógrafo desponta como outro desafio ao pesquisador. Um cartão pode ser adquirido e enviado em um momento muito posterior ao instante fotográfico representado nele, fazendo com que a data assinalada no verso, não corresponda a origem da imagem apresentada no postal. O cartão que nunca foi utilizado não pode precisar uma determinada data, há até mesmo, cartões que aparecem sem a denominação dos lugares que apresentam. A suposição sobre a relevância, ou o valor do cartão-postal enquanto objeto de pesquisa foi tema elencado por Gilberto Freyre no livro Ordem e Progresso24 e no seu ensaio Informação, Comunicação e Cartão-postal25, em que o autor afirma não constar em suas leituras que “já se tenha realizado ou publicado estudo sobre assunto aparentemente tão frívolo ou insignificante”26. A partir dessas verificações sobre o cartão-postal como instrumento e objeto de estudo registrado nessa publicação de 1978 de Freyre, Marcos Antônio de Moraes27 considerou ser este pesquisador o primeiro no Brasil a revelar um microcosmo sobre esse documento iconográfico tão pouco utilizado pelos estudiosos das coisas sociais. 24 FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso: Processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre, aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república. 6. ed. São Paulo: Global, 2004. (1° edição em 1959) 25 FREYRE, Gilberto. Informação, Comunicação e Cartão-postal. In: Alhos e Bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce a cachaça; de José Lins do Rego ao cartão-postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. p. 146-161. 26 Ibid. p. 146. 27 MORAES, op. cit. 1993. 29 Em Ordem e Progresso Gilberto Freyre afirmou que “os postais foram uma das expressões mais vivas da sociabilidade brasileira no começo do século XX”28 e partindo do exemplo do jovem Emílio Cardoso Ayres, filho de tradicional família pernambucana e estudante do colégio inglês Saint Joseph’s, que apreciava receber e colecionar postais, um gosto diga-se característico da época vivida no Brasil, o autor relatou alguns temas fotográficos circulados em cartões-postais e provavelmente colecionados no período: Eram cartões de vistas de cidades ou de paisagens, os do Brasil requintandose em exibir aspectos do novo Rio de Janeiro ou do novo Manaus ou do novo Belém ou do novo São Paulo – aspectos de cidades em processo de industrialização: a Avenida Central, o Palácio Monroe, o Pavilhão Mourisco, o teatro da capital do Amazonas, a Catedral do Pará, o Viaduto do Chá, o Porto de Manaus, os bondes elétricos de Belém, trechos da estrada de Ferro Paulista. Mas também postais com figuras coloridas de noivos, de mulheres bonitas, de crianças louras, de camponesas européias.29 Relembrando outros locais e edificações tão característicos do país, na outra publicação o autor complementa: Quem conseguia convencer um brasileiro daqueles dias eufóricos que o Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Avenida Central, a Avenida BeiraMar, [...], não eram tanto quanto o Pão de Açúcar, o Corcovado, a Cascatinha da Tijuca, o Parque Rodrigo Alves de Belém do Pará, a Estação Ferroviária Central do Recife, o então novo elevador de Salvador da Bahia, valores nacionais, como Santos Dumont, que faziam a Europa curvar-se ante o Brasil? É curioso notar que o português, uma vez fixado no Brasil, deixouse contagiar por esse narcisismo brasileiro de que o cartão-postal foi veículo; e veículo por vezes brilhante, colorido, festivo.30 Esse levantamento dos símbolos mais característicos de um período de quando o país estava em vias do processo de modernização, foi bem difundido pelos cartões-postais, que possibilitaram na época aos brasileiros e aos estrangeiros, mostrarem o progresso do Brasil e a assimilação da civilização nos moldes das nações mais em voga. Conforme Freyre, os postais foram o veículo do narcisismo brasileiro, um meio de mostrar os valores nacionais ao mundo. E esse entusiasmo sobre as aparências das cidades do Brasil, pode ser lido na literatura de adjetivos sintéticos que se escreve nos versos dos cartões-postais: “Suntuoso”, “Magnífico”, “Grandioso”, são as qualidades designadas pelos remetentes para completar a percepção da imagem veiculada na frente do cartão. 28 FREYRE, 2004, op. cit. p. 755. Ibid. p. 754. 30 FREYRE, 1978, op. cit. p. 152. 29 30 Apesar de fazer referência à importância atribuída aos postais e de chamar a atenção para sua importância no início do século XX, em Ordem e Progresso Freyre aprofunda-se pouco no tema, fazendo algumas citações retiradas do verso de cartões, com temas variados da intimidade e dos costumes brasileiros. O autor introduz a descrição da sua visita à Feira da Ladra que será mais bem narrada alguns anos mais tarde, e também dá início ao uso do cartão-postal como substituto da carta, uma metodologia em que contempla o cartão-postal como instrumento de pesquisa e que igualmente é mais bem detalhada no ensaio Informação, Comunicação e Cartão-postal. Em Alhos e Bugalhos Freyre toma como referência os anúncios contidos em jornais, revistas e almanaques e esquadrinha o valor informativo ou sugestivo que o cartão-postal pode fazer interessar a distintos cientistas sociais. Ao fazer a comparação entre o anúncio de jornal e o cartão-postal, disserta: O Anúncio de Jornal está reabilitado como testemunho de valor informativo ou sugestivo – informático até tanto para o sociólogo, o psicólogo, o antropólogo, o lingüista, o economista, como para o historiador. Valioso inclusive – o brasileiro – como contribuição para o abrasileiramento da língua portuguesa: a cotidiana e até a literária. Será que se pode dizer o mesmo, ou quase o mesmo, do cartão-postal? Será, também ele, valioso sobre esses vários aspectos pelo que pode informar, sugerir ou revelar de reação a um meio, a um acontecimento, a uma personalidade em foco, da parte de quem rapidamente o escreveu, servindo-se, por vezes, de estímulo pictórico ou fotográfico do verso do cartão?31 O interesse do sociólogo pernambucano pelos postais surgiu quando em viagem à Europa, visitou a Feira da Ladra, em Lisboa, e lá conseguiu comprar alguns exemplares de cartões-postais com ilustrações da Amazônia brasileira quando se vivia o período áureo da borracha. Seu interesse principal no postal residiu no significado histórico, sociológico, ou psicossocial que se poderia apreender com a leitura dos textos presentes no verso do cartão. Através da coleção de postais encontrada e adquirida, ele pretendia identificar o perfil dos imigrantes que escreviam de Manaus ou de Belém para seus parentes residentes na Europa. Freyre se dizia sugestionado pela pesquisa que havia sido desenvolvida por Thomas e Znaniecki, onde os autores utilizaram cartas de imigrantes poloneses residentes nos Estados Unidos e que foram endereçadas aos seus familiares e amigos na Polônia. Todavia, cartas como as utilizadas por Thomas e Znaniecki que contemplassem a comunicação dos que iam aventurar uma vida nova na Amazônia brasileira, a procura das oportunidades na indústria e no comércio, eram difíceis de serem encontradas tanto no Brasil como em Portugal, porque, 31 FREYRE, 1978, op. cit. p.146. 31 para o autor, tanto o brasileiro como o português, quase não guardam cartas antigas. E assim, ao invés de encontrar cartas, ele se deparou com variados cartões-postais, os quais muitos se valiam mesmo como cartas e concluiu que “guardados por colecionadores de vistas pitorescas ou arcaicas, o cartão-postal se mostra mais resistente que as simples cartas à chamada ação destruidora do tempo”. Dessa forma, o autor substituiu a carta pelo cartão-postal em sua pesquisa, reverenciando-o como um possível objeto de estudo: [...] não há matéria, por mais aparentemente inócua, que não guarde em si alguma coisa susceptível de ser útil a um pesquisador das coisas sociais, interessado em captar significados de interesse humano, escondidos em insignificâncias, em trivialidades e nos desdenhosamente denominados pequenos nadas. Não é só romancistas à inglesa que pode encontrar pequenos tesouros nesses pequenos nadas: também o pesquisador social, quer seja antropólogo ou sociólogo, psicólogo ou historiador. 32 Segundo o referido autor, o cartão-postal só sobreviveu às cartas, por causa de suas vistas coloridas e do entusiasmo dos colecionadores, todavia estava menos interessado, como mesmo disse, nessas “exterioridades não desprezíveis”. O seu interesse pelo pitoresco das vistas, pelo tropical das paisagens, foi menos motivador do que o uso do postal como substituto das cartas, ou melhor, o verso do cartão era inicialmente para onde estava voltada sua atenção. Era na correspondência pessoal, íntima e particular que Gilberto Freyre estava a fim de consultar, coisa que já havia algum tempo que tentava reunir, mas sem obter muito êxito, portanto a sua estratégia ao adquirir os cartões com os vendedores da Feira da Ladra, foi simular interesse na imagem postal, mas de fato, a leitura do verso era o seu objetivo. Além disso, seu interesse estava sugestionado pelos estudos de Thomas e Znanieck, pela “história íntima” de Goncourt e pela “sociologia do cotidiano” de Georges Balandier, através dos quais parecia acreditar que com a análise e interpretação desse tipo de correspondência particular, poderia descobrir verdadeiros sentimentos e atitudes desses imigrantes, perante as novas realidades em que se depararam no Brasil. Os imigrantes ao se defrontarem com o Brasil e em especial com a Amazônia brasileira, entravam em contato com um novo mundo de instituições, pessoas, condições de vida, natureza, arquitetura e alimentação, que eles faziam questão de apresentar a seus conhecidos distantes, especialmente por via do cartão-postal. Assim, através do postal, esse lúdico veículo de comunicação, os imigrantes, sobretudo os mais jovens e entre esses jovens alguns cultos, como Freyre pôde observar através do uso da gramática e de expressões mais 32 FREYRE, 1978, op. cit. p. 148. 32 polidas, se comunicavam com seus conterrâneos. Esses jovens mostravam ou falavam por meio do postal, entre outros temas, sobre o banho de chuveiro, dizendo que faz bem á saúde o banho diário; sobre a floresta amazônica, contando que seus perigos não são conhecidos na cidade; sobre as “lindas caboclas de olhos oblíquos e cabelo muito liso”; da poesia de Olavo Bilac; das doenças tropicais que a higiene conterá; da exuberante fauna e das comidas típicas do Amazonas.33 Os imigrantes lusitanos no norte do Brasil também mostravam aos seus parentes, o progresso e a modernidade na Amazônia do início do século XX. Progresso e modernidade à mostra no postal e, estampados em construções da engenharia moderna, na urbanização e na arquitetura. A suntuosidade, por exemplo, do Teatro de Manaus, bem como a “modernice” apresentada por quartéis, monumentos, diques, docas e outras edificações, que gravados no postal tinham a função de impressionar os entes distantes, mostrando as cidades brasileiras, como Manaus e Belém que competiam e até mesmo se destacavam do que se poderia observar nas cidades do Porto e Lisboa. Alguns mais entusiastas chegaram a chamar Manaus de “a nova Paris”. Resumindo e interpretando as idéias colocadas por Gilberto Freyre, presume-se que o cartão-postal está intimamente ligado à cultura ocidental, é um portador de símbolos do desenvolvimento da civilização. São pequenos retalhos onde se conserva o “tempo perdido”, fundamento potencial de pesquisas a serem desenvolvidas. Protegidos pela ilustração e conservados por colecionadores, se revelam como continente de preciosas informações, de belas figuras de objetos, de pessoas e paisagens característicos de um lugar. O postal pode ser um desmistificador de realidades, como tentaram fazer muitos dos imigrantes na Amazônia brasileira nos grandes dias da borracha, nas correspondências com seus familiares e amigos na Europa, mostrando várias qualidades do lugar onde estavam morando. As identificações de determinados detalhes e formas da cidade, bem como a descrição da importância de certos equipamentos para alguns indivíduos ou grupos, são minúcias que estão presentes nos cartões-postais e que podem estimular estudos sob diferentes enfoques. Por exemplo, analisando os escritos de Freyre, pode-se realçar que o postal tem a propriedade de identificar a memória de tempos e traçados da cidade, passados e às vezes instintos. O cartão-postal traz consigo uma fotografia resistente ao tempo e que representa, entre variados motivos, a configuração de paisagens e de elementos que enfatizam a singularidade de locais bem definidos. Esses locais à mostra nos postais colecionados, quando resistem aos 33 FREYRE, 1978, op. cit. p. 146-161. 33 argumentos da modernidade que evocam mudanças, junto com demolições e cirurgias urbanas, passam a polarizar atenções, que além de tenderem a verificar sua vocação turística, se refazem como intenções históricas, sociológicas, geográficas, econômicas e arqueológicas. Caso as atenções não se ativem sob esse patrimônio informal que são os cartõespostais, corre-se o risco de se verem extintas da paisagem, as formas perdidas para a modernidade, assim como Edvaldo Arlégo34 relata ter acontecido com os Arcos do Bom Jesus, da Conceição e de Santo Antônio no Recife, a Matriz do Corpo Santo também no Recife e a Casa Navio no bairro de Boa Viagem, edificações características de tempos da cidade. Outro texto criativo e de interessante leitura que contempla a aplicação do cartãopostal como objeto de pesquisa foi escrito por N. Schapochnik35, nele o autor define o postal interpretando a relação procedida entre a frente e o verso do cartão perante o remetente e o destinatário da comunicação, lançando sua análise sobre esse colóquio onde o cartão é intermediário e locutor. O autor introduz seu estudo assim: Os cartões-postais são como um convite à viagem uma prenda delicada àqueles que estão distantes. Imagens cuidadosamente escolhidas servem de moldura, a juras de amor, reiteram plasticamente laços de amizade, perplexidade e encantamento. Impossível tentativa de enraizamento, o postal parece revelar o minucioso trabalho que incide na conquista da paisagem pelo olhar do viajante. A conjunção que se estabelece entre o texto e a imagem, sublinha a atitude deliberada do remetente em persuadir o destinatário a compartilhar, ao seu modo, o gosto da viagem. De uma maneira ou de outra, o cartão procura estabelecer uma comunicação entre ausentes e assim restituir uma distância. Uma vez atingido o seu destino postal, a viagem recomeça. Mas, agora, o viajante é aquele que recebeu o cartão. Viagem virtual por mundos, com o recurso dos fragmentos de imagens postais e da imaginação. Seria como se lhe fosse dada a oportunidade de compartilhar as vacilações da significação, a magia das perspectivas ou ainda as glórias da conquista de um novo espaço. O realismo das imagens estampadas nos postais também cria uma disposição que transfere o sentido do “eu li” para “eu vi”. A posse do cartão daria ao destinatário a chance de sentir-se como Ulisses, Marco Pólo, Pero Vaz de Caminha.36 Inicialmente Schapochnik valoriza a utilidade do postal como meio de comunicação, mas daquele capacitado a transportar as emoções e de provocar a inveja aos que estão longe, como descreveu Freyre e que o autor chamou de “prenda delicada”. Esse caráter lírico atribuído ao postal, o conduz a aproximar pessoas, deixando mais ao alcance entes separados 34 ARLÉGO, Edvaldo. Recife de Ontem e de Hoje. Recife: Edições Edificante: s/a. s/p. SCHAPOCHNIK, N. Cartões-Postais, Álbuns de Família e Ícones da Intimidade. In. NOVAES, F. (org.) História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 3 v. 36 Ibid. p. 424. 35 34 pelo tempo e pela distância. Para o autor, o cartão-postal é como um “convite à viagem”, uma viagem nem sempre possível de acontecer, mas a imaginação excitada ao ler e ver o postal, possibilita um reencontro com um amigo, irmão, amante ou filho, onde se testemunha os vínculos sentimentais envolvidos entre esses laços. É como se o envio e o recebimento de um simples postal permitissem uma permanência com o outro no universo do discurso textual e imagético desse tipo de correspondência. Suas reflexões acerca do cartão-postal vão ao encontro de algumas idéias freirianas, onde esse autor parece influenciar seu trabalho, não apenas pelo fato do Schapochnik dedicar algumas páginas do seu texto a descrever as descobertas do Gilberto Freyre na Feira da Ladra, mas, sobretudo, pelo tom etnográfico que faz soar de sua pesquisa. O grande diferencial da discussão apreciada entre esses dois autores é que além de valorizar os textos escritos no verso dos cartões, Schapochnik aprofunda o estudo do conteúdo das imagens postais, principalmente das ilustrações sob o tema das transformações urbanas, analisando e apontando as expressões do progresso em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e estações hidrominerais do século XIX, como Poços de Caldas. Esse diferencial em Schapochnik é importante para essa pesquisa, como também para outros campos do conhecimento, pois realça um outro foco de leitura do cartão-postal para melhor interpretá-lo, o da imagem. Também sugere a necessidade de buscar em uma diversidade de fontes de dados, os porquês da reprodução dos postais no período em que as cidades exalavam ares modernos e os motivos da reprodutibilidade das fotografias de específicos recortes dessas cidades. É por isso que o difícil ato de interpretar paisagens na tentativa de decodificá-las para além do alcance de um simples olhar e a intenção de reanimar um recorte espacial, não pode ser conseguido pelo simples colecionamento de cartões-postais e sua justaposição. É preciso ir além do postal, enriquecendo-o com outros recursos que possibilitem o reconhecimento de cenas passadas e do resgate da memória visual. Na hierarquia dos lugares emblemáticos da cidade, os principais, que coincidentemente são os mais divulgados, são também os que mais a restringe, seja por figurar o que à semelhança é também atributo de outras cidades, seja por reduzir a luminosidade do conjunto da urbe. Podendo ser escolhido de maneira sutilmente arbitrária e com argumentos fortemente direcionados, essas imagens da cidade podem ter a função de reduzir uma paisagem no sentido de resumir, traduzir, exemplificar e orientar interpretações e sentimentos sobre uma panorâmica retratada. Para Schapochnik, os cartões-postais contribuíram para uma limitada apreensão da paisagem, suscitando no expectador desde um estranhamento e distanciamento, ou o 35 surgimento de certa afeição pelo lugar retratado, mas a resolução dessas divergências iniciadas ao contato com a paisagem de cartão-postal, parece findar quando o expectador decide escrever no verso de um cartão pessoalmente escolhido, sua percepção sobre aquela paisagem vista ou visitada por ele. Sobre essa relação entre remetente ou visitador, destinatário, cartão-postal e paisagem retratada, o autor escreve: Os cartões-postais corroboram uma compreensão redutiva da paisagem. Por conseguinte, uma enquete realizada entre a população tenderá a reforçar a crença na expressão de uma imagem-lembrança, quer uma obra, quer uma paisagem, como o emblema da cidade. Dessa maneira, São Paulo é a avenida Paulista, o Rio de Janeiro é o Pão de Açúcar, Ouro Preto é a obra de Aleijadinho, Salvador é o Pelourinho, Manaus é o Teatro Nacional, etc. Refiguradas nos postais, as imagens da cidade proporcionam uma percepção afetiva estética dos monumentos e paisagens, denotando o processo de interiorização e familiaridade com o local. A dispersão e o estranhamento inicialmente suscitado no viajante são substituídos na comunicação postal por um desejo de se inscrever na paisagem impessoal mediante a escolha de uma imagem que expresse um vínculo aninhante, um elo de pertença, sobrecarregado ainda por um apelo que demanda reconhecimento: “Eu existo, eu estou aqui, eu penso em você, gostaria que você se lembrasse de mim”. Portanto, ao escrever um cartão-postal, o indivíduo se desenvolve em sua subjetividade.37 Schapochnik deduz que os postais identificam símbolos característicos da cidade que a singulariza, mas que também tendem a reduzir sua compreensão. Ele afirma que cada localidade tem uma paisagem, ou monumento que identifica a cidade e que podem ser apontados pela população, sendo revelados como “uma imagem-lembrança”. Essa imagemlembrança quando presente no cartão-postal reafirma o lirismo do lugar, estimulando o sentimento de pertencimento e a altivez pelo reconhecimento pessoal da paisagem. Assim, ao escrever no verso do cartão o remetente expõe a vontade de vincular-se à paisagem postal, demonstrando e compartilhando com outros essa sua nova conquista. Igualmente ao destinatário que pode se sentir como os grandes literatos dos descobrimentos, o remetente pode se sentir como o próprio descobridor. A autor acima citado refere-se sempre ao remetente de cartões-postais como sendo aquele que se depara com uma paisagem nova, um local não conhecido por ele, ou turisticamente bem divulgado. Mas ao tratar dos postais circulados no Rio de Janeiro e em São Paulo no período das suas primeiras grandes transformações urbanas, é importante considerar que o perfil do cartão-postal e sua relação com o cidadão também passariam por mudanças. Era a modernidade com suas novidades, com suas obras arquitetônicas, que 37 SCHAPOCHINK, op. cit. p.426. 36 chegara para transformar quase tudo e se inscrever à frente da imagem da cidade. Nesse contexto, a concepção de paisagem de cartão-postal estendeu-se à própria cidade onde se morava, ou melhor, aos seletos recantos reformados e embelezados. O cidadão passou a conviver com uma estética que só conhecia através de cartões-postais ou de viagens. A sua cidade naquele instante acabara de se elevar a cartão-postal, e as novas formas dela, que passaram a ser ilustradas em cartões, também poderiam ser orgulhosamente contempladas pessoalmente. Porém a parte não embelezada da cidade, confrontava-se com a idealização de uma imagem oficial, pretendida pela elite e arquitetada pelo Estado, por isso recebeu raríssima atenção fotográfica. Schapochnik faz referência ao Rio de Janeiro novecentista sob a administração do prefeito Pereira Passos, quando a cidade passou por uma grande reforma urbana, aplicando-se o projeto de higienização e saneamento, que atingiu o porto e a construção de avenidas e jardins. O ideal buscado era o de transformar o Rio de Janeiro em uma “Europa possível”, um procedimento em que dissolver as formas antigas parecia mesmo mais importante do que construir o novo. Sobre esse assunto o autor expõe: “A condenação dos hábitos e costumes ligados pela memória quer à velha sociedade imperial quer às tradições populares, deveriam dar lugar a um novo padrão de sociabilidade burguês emoldurado num cenário suntuoso”38. Para o autor, esse processo era uma conseqüência da mudança da produção da riqueza e do poder no Brasil República, que gerou o acesso e a promoção de profissionais relacionados às atividades liberais e além disso, as relações entre esses grupos ascendentes se firmavam num cenário onde o “individualismo” e o “arrivismo” se consagravam. Citando Nicolau Sevcenko, Schapochnik exemplifica a reação das classes conservadoras perante aquelas mudanças ocorridas: “tentativa – vitoriosa ao fim – de restabelecer uma titularia honorífica, dado que a República extinguira a antiga nobreza, e o estabelecimento de um verdadeiro culto da aparência exterior, com vistas a qualificar de antemão cada indivíduo”39. Certamente a qualificação transmitida às pessoas também se estendeu aos espaços, fazendo surgir à necessidade de um novo arranjo espacial, de uma paisagem remodelada e tendente à exuberância. Seguramente a constituição de algumas paisagens excelentes da cidade, não pôde contemplar a um mesmo tempo, distintos e indistintos cidadãos, pois elas mostraram através dos argumentos que a ergueram, um ambiente para a elite. Apesar da origem e da finalidade, essas paisagens passaram a existir 38 39 SCHAPOCHNIK, op. cit. p. 439. SENCENKO apud SCHAPOCHNIK, op. cit, p. 440. 37 com a força de se fazer imprimir como símbolo da cidade em que todos residem e que outros devem copiar. Era a Belle Èpoque carioca que se iniciou no final do século XIX e que estimulara outros ares à cidade. Inspirada em Paris, a cidade do Rio Janeiro deu o primeiro grande exemplo ao Brasil de embelezamento, riqueza, prosperidade e civilização, ícones mais significativos desse período. Foi no Rio onde se deu início a prática dos amplos projetos de modernização urbana decorrido entre os anos de 1902 e 1906 na administração do então prefeito Pereira Passos. Essas reformas urbanas, em seguida influenciaram outras capitais que se destacavam por seu crescimento econômico como São Paulo, que passaria a ser o outro importante exemplo de remodelação urbana, além de Manaus, Belém, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Recife40. Entre as construções realizadas na época das grandes reformas urbanas no Rio de Janeiro, destaca-se a Avenida Central que sobrepôs a arquitetura colonial, trazendo consigo outros equipamentos como edifícios públicos que ainda hoje testemunham seu sucesso através dos cartões-postais. A Capital Federal possuía agora um bulevar verdadeiramente "civilizado" – duas muralhas paralelas de edifícios que refletiam o máximo de bom gosto existente - e um monumento ao progresso do país. Os cartões-postais mostravam que determinados prédios particulares, como o do Jornal do Commercio, atraíam a atenção geral, mas a imaginação popular era dominada pelo conjunto de edifícios públicos localizados na extremidade sul da avenida: o Teatro Municipal (1909), o Palácio Monroe (1906), a Biblioteca Nacional (1910) e a Escola Nacional de Belas-Artes (1908), graças à magnífica vista das fachadas proporcionadas pela própria avenida. Estes efeitos nada tinham de acidentais.41 No decurso do surgimento dessas obras arrebatadoras das atenções na cidade42 o discurso sobre o espaço urbanizado ganhava cada vez mais um ar de comparação, era necessário que as cidades brasileiras viessem a se assemelhar a uma paisagem mais próxima da qual se poderia enxergar na capital federal da época e de Paris. Ao exemplo da Avenida Atlântica do Rio de Janeiro, no Recife foi construída na década de 1920, a “Avenida Beira- 40 FOLLIS, Fransérgio, Modernização urbana na Belle Èpoque paulista. São Paulo: Editora UNESP, 2004. p. 16. 41 Ibid. p. 84. 42 Sobre esses monumentos contemplados em cartões-postais ver: BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Lembrança da Exposição do Rio de Janeiro no Centenário da Independência do Brasil: 7 de setembro de 1922. Coleção Yolanda Roberto; introdução e texto Elysio de Oliveira Belchior; catálogo da esposição organizada por Yolanda Roberto Marketing & Projetos Culturais Ltd. e apresentada no Museu da Imagem e do Som. Rio de janeiro: 1992. 38 Mar”43, hoje conhecida como Avenida Boa Viagem, um dos principais corredores urbanos da cidade e famoso cartão-postal. A partir de um artigo escrito por Luiz Cedro na Revista de Pernambuco durante as obras de melhoramentos do Recife, onde se enquadrava a abertura da “Avenida Beira-Mar”, pode-se ter uma idéia das influências absorvidas: Entre os melhoramentos, que a actual administração, vae dotando o Recife, aquelle a que a minha capacidade de admirar é mais sensível, declaro sem rebuço, - é a Avenida Beira-Mar. Eu não podia comprehender que uma cidade como esta flagellada pelas ardências do sol tropical, não recolhesse, senão alguns proveitos do privilegio da sua situação á beira mar. Ora, podese dizer sem receio de exagero, que não há no mundo cidade marinha que prese da sua civilização que não tenha a sua avenida ou o seu passeio a beira mar. Para não sahir do Brasil, vemos, por exemplo, Santos, onde a solicitude das suas administrações, se esmerou em tornar encantadoras as suas praias. No Rio de Janeiro, o bairro de Copacabana é a sua joia mais cara. Os poucos metros que restam da Avenida Atlântica são vendidos a dez contos cada um. E’ que da collaboração da Natureza com a engenharia de Frontin sahiu aquella maravilha que todos nós conhecemos. [...] Entretanto, Recife a que não falta que chame de “Veneza Americana” e realmente, prestigiada pela visinhança do Atlântico, não possuia, até agora, uma avenida, um passeio, uma rua ao menos, a beira-mar. Ao contrario. O velho sobrado, na orla do caes, desde o Brum até a ponta da rua de Santa Rita Nova sempre deram, irreventemente, as costas para o mar. Pouco nos importava que do mar viesse a vistas incomparáveis dos seus aspectos, os primeiros raios da luz matutina, as brisas frescas do largo, as sombras da tarde. [...] Faça-se, portanto, uma avenida, e uma avenida á beira-mar. Porque, francamente, o que possuímos, até aqui, não são senão ruas mais ou menos largas. De avenidas, somente os nomes. Nem uma recta de transito livre onde se ponha a correr um outomovel, dez minutos, a fio, sem parar. Poucas são as ruas que não tem o seu cotovello, em que o trafego é, absolutamente, atroóz e afflictivo. [...] Mas, ante-hotem resolvi conhecer a Avenida Beira-Mar, visualmente. A tarde estava exatamente quente. No azul metallico o sol dardejava. Tomei um outomovel e parti. Passada a rua Imperial e já na estrada Saturnino de Brito, (demos ás cousas os verdadeiros nomes) o espaço se descampou. [...] O outomovel vorou a curva e na Avenida Beira-Mar começou a correr... Passei, então, a imaginar as casas construídas, uma arquitetura interessante, de accôrdo com a belleza da paysagem. E que proveito para a cidade possuir mais grande pulmão como um desafogo e refrigeiro, nos mezes de estio! Permittam-me, assim, que eu louve esse relevante emprheendimento do governo e confie na iniciativa dos particulares, no sentido de facilitar o empenho do poder publico. 43 Esse trabalho preserva o português original dos textos e vocábulos citados. 39 Mot de la fin: Para evitar quaesquer duvidas sobre a sinceridade deste artigo, declaro que não possuo, por emquanto, nenhum terreno na Avenida Beira-Mar...44 O trecho acima citado dá um exemplo das influências que estimularam os direcionamentos das obras executadas na cidade do Recife da década de 1920. Ainda com relação às transformações sofridas pela cidade do Rio do Janeiro, Amara Rocha concorda que “O pequeno trecho reformado adquiria o caráter de cartão-postal da capital, divulgando um padrão de modernização que deveria ser seguido pelo resto do país.45 E prudentemente enfatiza que o paradigma da modernidade exposto no Rio de Janeiro que passou a exercer influência no cotidiano carioca e em várias cidades brasileiras se referia exclusivamente à nova avenida e seu entorno. O restante da cidade que a autora denomina de a “outra”, onde residia e exercia suas atividades a maioria da população, “era sempre representada como algo lúgubre, fadado a extinção”46. Rocha conclui que o entusiasmo imediato mais a expectativa vindoura de mais melhoramentos, eram na verdade, as características positivas das reformas constituídas. Na cidade de São Paulo, nos primeiros momentos de sua modernização, também aconteceu a captura de suas novas formas a fim de divulgá-las no plano internacional47. O grande representante entre os elaboradores de cartões-postais desse período foi o fotógrafo Guilherme Gaensly(1843-1928) que começou a fazer imagens de São Paulo a partir de 1890. Os motivos de suas fotos postais permeavam, sobretudo, sobre a arquitetura moderna financiada pelo café, presentes em locais estratégicos da cidade. Segundo Boris Kossoy, no acervo fotográfico revelado por Gaensly nem se cogitavam assuntos que não fossem panorâmicas destacadas da cidade para serem divulgados em cartões-postais ou para serem publicados em outro meio impresso. Ainda segundo Kossoy, jamais se encontrou fotos dos bairros operários e das moradias de trabalhadores na obra de Gaensly. Ele lamenta a falta desses registros, que certamente serviriam como importante fonte documental para o estudo das habitações e da vida de uma expressiva parcela da população. Para Boris Kossoy, “Os postais não eram apenas veículos de correspondência, mas, também, instrumento de 44 CEDRO, Luiz. A Avenida Beira-Mar. Revista de Pernambuco. Recife, n. 5, s/p, nov. 1924. ROCHA, Amara Silva de Souza. A sedução da luz: eletrificação e imaginário no Rio de Janeiro da Belle Èpoque. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v. 2, n. 2, p.51-82, 1997. 46 ROCHA, op. cit. p.51. 47 KOSSOY, op. cit. p. 69. 45 40 propaganda, particularmente no caso de vistas das cidades”48. E fugindo da regra seguida pela maioria dos fotógrafos o autor cita: Foram raros os fotógrafos que tomaram fotos das ruas de São Paulo àquela época. Um deles foi o italiano Vicenzo Pastore (1865-1918) que, contemporaneamente a Gaensly, registrou também aspectos do movimento das ruas, não apenas as do comércio “chique” mas as dos bairros mais populares, ou então tomadas nas imediações da estação da Luz, ou nos arredores do comércio atacadista. Imagens preciosas posto que captadas de perto, no interior do fato, inusitadas na iconografia fotográfica paulista do princípio de século XX. Ao contrário das imagens higienizadas de Gaensly, deixou Pastore um importante registro da aparência dos vendedores ambulantes, meninos engraxates, velhos e mulheres em trajes simples, gente humilde, gente do povo, fosse eles imigrantes ou nativos, pessoas que também viveram e trabalharam na capital paulista, imagens que estabelecem – em relação aos conhecidos cartões postais esteticamente produzidos com a finalidade de propaganda -, um importante contraponto histórico e sociológico para os estudos da cidade naquele período.49 É curioso realçar que esse lado reverso do cartão-postal tem a característica de permanecer ocultado e que ele não é, de modo algum, o foco dos temas inseridos no cartãopostal, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com a propaganda. Elysio Belchior relata que “entre a publicidade e o cartão-postal ocorreu um caso de amor a primeira vista” e complementa o autor: Todas as novas características presentes em um cartão-postal incentivaram seu uso para a publicidade comercial ou institucional. De um lado o cartãopostal ao levar a mensagem diretamente ao destinatário dava-lhe caráter pessoal, com todos os efeitos psicológicos que desperta. De outra parte, os postais iludiram seu destino efêmero ao serem incorporados a coleções, onde permaneceriam por mais tempo produzindo seus efeitos publicitários, até se transformarem em mensagem vivas do passado, ao alcance de quem as aprecia e nelas sabe ver maneiras de ver, pensar e viver dos nossos antepassados.50 Desenvolviam-se em um dos lados do cartão-postal, temas como envolvendo utilidades do lar, iluminação elétrica, artigos de perfumaria, acessórios para vestuários, grandes magasins, bebidas do cotidiano (chá, café, leite), bebidas alcoólicas (vinhos, runs, licores, cervejas), águas minerais, remédios, hotéis, restaurantes, espetáculos, tabaco, 48 Ibid. p. 69. Ibid. p. 70. 50 BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Publicidade: uma história de sucesso. Coleção Yolanda Roberto; introdução e texto Elysio de Oliveira Belchior, versão Lia Rothier, Catálogo da Exposição organizada por Y. R. Marketing & Projetos Culturais Ltd., e apresentada nos espaços e jardins do BNDES, Parque do Largo da Carioca – ME. Rio de Janeiro: 1996. p. 6. 49 41 automóveis e acessórios, festas e exposições, turismo, companhias (marítimas, de aviação), jogos esportivos, além da propaganda política. Em outra publicação, Elysio Belchior conclui que no período quando não existiam a radiofoto, a televisão, a internet, nem revistas fartamente ilustradas, nasceu o cartão-postal, ao qual o autor atribui a responsabilidade de também ter sido um “fator de expansão do próprio comércio através da publicidade impressa e de seu uso como fácil meio de comunicação entre fornecedor e comprador”51. Portanto, a paisagem urbana é um dos temas entre outros abordados nas imagens postais, contudo com a criação de novos cenários de cidade entre o final do século XIX e início do século XX, como nos comprova os acervos de colecionadores, os livros sobre a temática parecem ter sido muito influentes para consolidá-lo como tema principal. Ao cair no gosto do povo, ávido de conhecer, ou de reconhecer-se naquelas imagens de cidades, de locais turísticos, de panorâmicas em perspectiva, os postais acabaram por legar um importante acervo sobre a constituição das cidades, conquistando admirável respeito pelo que pode auxiliar no estudo da complexidade do processo urbano que constantemente desencadeia a mudança, recupera heranças, ou firma tendências, processo anunciado na forma, no desenho e no contraste das relações possíveis de serem observadas e analisadas através da paisagem. Ao expor seletivas localidades como alegorias da cidade, os cartões-postais abrem margens a percepções e rotulações das mais variadas e podem provocar apreensões intermediadas pelos atributos especialmente selecionados para compor uma imagem da cidade. Schapochnik chama a atenção para o fato, em que os argumentos conscientemente intencionais e utilizados na composição do postal, não são inteiramente determinantes para o desenvolvimento de vínculos desenvolvidos com a paisagem representada no postal ou mesmo para o incremento das sensações experimentadas ao se visualizar um ambiente rotulado de cartão-postal. Nesse processo que burla as intenções dos promotores e especuladores dos cartões-postais, a escrita no verso do cartão seria a demonstração de uma prática possível de fugir dos moldes estratégicos que permeiam a constituição da imagem de cartão-postal. A leitura do verso do postal parece permitir identificar visões individuais que podem confirmar a representação que se pretende atribuir à cidade, mas também pode decifrar visões individuais que atribuem ao espaço retratado, qualidades nem sempre à mostra na imagem e mais, possibilita aos indivíduos a exteriorização de sua forma de ver a paisagem, de conceber a cidade e de se mostrar como alguém que possui experiência de viagens. 51 Associação de Cartofilia do Rio de Janeiro. O comércio e o cartão-postal. SESC/ARRJ. Rio de Janeiro: 1997. p. s/p. 42 Moraes na introdução do livro que expõe uma série de 110 cartões-postais como meio de compreender as relações de Mario de Andrade com seus amigos, relata que os cartõespostais são “recortes do real nada ingênuos”, com “foro próprio” e detentor de uma variedade de significações52. Para Moraes, o postal é elaborado “no seio da epistolografia” e provoca a confluência entre o momento e o local vivenciados pelo remetente e os exemplifica pela ilustração na frente do cartão. O autor ainda afirma que no nível da interpretação científica, a decifração dos conteúdos do cartão-postal deve ser realizada através do diálogo entre diferentes disciplinas e critica o senso que julga a importância do cartão-postal apenas pelo que ele destaca das paisagens do mundo, acusadas muitas vezes, de resumir um universo elitista, ou burguês. Assim como Mario de Andrade, Monteiro Lobato manteve uma relação estreita com os cartões-postais, os quais legaram a outras gerações conhecer um pouco da intimidade desses importantes autores do modernismo brasileiro. Dos postais recebidos por Mario de Andrade ficaram testemunhos de sua relação com célebres artistas e intelectuais da semana de arte moderna e um pouco da trajetória de quem vivenciou a vanguarda do modernismo sem nunca ter viajado para a Europa53. Sobre Lobato, Lajolo e Tin54 disponibilizaram uma série de postais que o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo usou para se corresponder com a sua noiva. Através dos postais, Lobato dá um exemplo do tipo de literatura possível de se desenvolver nesses objetos e enquanto remetente, o autor confirma a influência que a ilustração desempenha no desenvolvimento da comunicação escrita55. Assim como a paisagem e a fotografia, o cartão-postal pode também assumir uma expressão ou face artística, seja pelo que o vocábulo sugere de subjetivo, seja por seu vínculo com a foto ou pelas possibilidades de apreensões em que se deixa traduzir. Segundo Elysio Belchior, o cartão-postal “consegue levar a arte ao quotidiano da vida”56. No poema a seguir tem-se um exemplo: 52 MORAES, op. cit. p. xi. MORAES, op. cit. p. xi. 54 LAJOLO, Marisa e TIN, Emerson. Organização, apresentação, transcrição e notas. In: LOBATO, Monteiro. Quando o carteiro chegou... Cartões-postais a Purezinha.. São Paulo: Editora Moderna, 2006. 55 LOBATO, Monteiro. Quando o carteiro chegou... Cartões-postais a Purezinha. Organização e apresentação de Marisa Lajolo; transcrição e notas de Emerson Tin. São Paulo: Editora Moderna, 2006. 56 BELCHIOR, 1996, op cit. p. 6. 53 43 CARTÃO POSTAL57 Desprende-se do calçamento de pedras da rua antiga uma espécie de fuligem No quarto de hotel um jornal jogado no sofá as notícias descansam Flores de plástico na mobília século 19 Fora do quarto um pouco mais abaixo Ninguém se arrisca na rua de mão única do centro histórico exceto vulgívagas que vagam na noite Um pouco mais à frente Um corpo caído no meio do asfalto Pode-se indagar se o sujeito do poema olha um cartão-postal que acabara de receber, ou se ele o observa da janela de um hotel. 1.3 Um direcionamento teórico para levar a paisagem ao cartão-postal Paisagem é uma impressão simbólica do espaço geográfico. Sua composição emite informações que quanto melhor forem conhecidas, mais entendível se torna o espaço. A paisagem expressa e testemunha momentos da atuação do homem, regida entre outros parâmetros, pelas tradições civilizadoras e por práticas culturais. É através do arranjo de seus elementos, da combinatória de instantes deslumbrados e da análise das relações entre seus diversos aspectos, que a paisagem se mostra como um quadrante do espaço geográfico revelado. A paisagem não se traduz totalmente numa única interpretação, fazendo do seu desvendar, um aprendizado de múltiplas considerações. Os recortes do espaço, revelados sob o aporte de alguma fundamentação teórica, conceitual ou subjetiva, são exemplos de ângulos de visão, importantes para a decodificação e leitura da paisagem, no entanto, quando 57 MARQUES, Fabrício. Poesia. Ciência e Cultura, jan./mar. 2006, vol.58, no.1, p.64-64. ISSN 0009-6725. p 64. 44 analisados isoladamente, se revelam limitados à absorção total da significação de panorâmicas avistadas. É a partir da junção e entendimento desses processos de visões, que a paisagem pode se desvendar numa completude mais aproximada da realidade. Uma paisagem nunca está completamente formada, menos em termos de significado do que morfológico, explicando-se este último, pela possível conservação das formas construtivas. A expressão “a mesma paisagem” traduz um nível de proximidade da aparência de um mesmo recorte do espaço em momentos diferentes. Por se remeter a uma generalização, tende ofuscar o movimento essencial de toda a paisagem: os contrapontos entre permanências e mudanças. Todavia, apesar de ser genérica, pode confirmar afinidades, encontros e desencontros de significados para diferentes pessoas. Os elementos formadores da paisagem, ajuntados, em harmonia ou em desacordo, estão sempre imersos numa confabulação, onde disposições e ordenamentos seguem a lógica conflitante e dúbia de interesses que nunca se satisfazem, por vezes não se completam e sempre são reeditados, gerando na paisagem, transformações, como impacto. Em constante mutação e em ritmos variados, a paisagem se transforma, soma-se ou se sobrepõe a outras formas, recriando aparências e significados. Como uma possibilidade, a paisagem se realiza no movimento das tendências sócio-culturais, as quais selecionam os retalhos ou os ângulos de paisagem a serem mais destacados, expressando-se em usos, exibições e alterações mais ou menos contínuas. As tendências e possibilidades da sociedade perante a paisagem ganham concretude, e no tempo se afirmam ou se esvaem. Entretanto, a percepção e o entendimento desse processo geralmente sucedem o evento. Imagine-se uma paisagem diante de um observador; nem sempre as suas formas são recentes e nem mesmo autênticas do lugar. Mediados pelas tendências sócio-culturais, os modos de ver mudam, adaptam-se, geram expectativas, numa intenção de ajustes, pretendentes de se fazer enxergar mais longe, mas ao mesmo instante, provocando limitações interpretativas. Portanto, a maneira de ver pode também se firmar ou se esvair no tempo. Presente num instante, num atual, em um círculo de idéias e ideais que podem não explicar e justificar as formas hoje visíveis da paisagem, os observadores com maior ou menor atenção, com objetivos diversos, cidadão comuns ou promotores do espaço, esquecidos ou desconhecidos de um passado não vivido por eles, podem propor deturpadas interpretações da paisagem. Essa lacuna se expressa muito bem na cidade, onde as transformações são constantes, local em que a paisagem é consumida com mais velocidade e onde as mudanças são mais fortes e ditadas mais necessárias do que a permanência e preservação da memória. 45 O tempo usado e determinado pela sociedade, nos mais variados recantos, apaga visões, condena ao esquecimento cores, cheiros, práticas e pessoas característicos de uma paisagem. Mesmo com a conservação do formato e do seu desenho, as paisagens também mudam porque o homem se transforma e também esquece. Entre as lembranças perdidas aponta-se as paisagens, expressas em traços e nas trajetórias de lugares avistados. Eis um dos porquês da paisagem não poder ser apenas o que se abarca num simples olhar, o ser verdadeiro da paisagem é um enorme conjunto de percepções, nem sempre documentadom nem sempre lembrado. Distingue-se que uma percepção ou compreensão de paisagem pode se impor sobre algumas demais, empobrecendo, limitando, irracionalizando visões de mundo e adjetivando as paisagens em bonitas, atraentes, afamadas ou como feias, antigas e antiquadas. Essas poderosas percepções ou compreensões do real, com forte fundamento ideológico, se vinculam a uma maneira de conceber o espaço urbano, impondo um imaginário de cidade e um tipo de paisagem. Dessa maneira, paisagem e cidade se entrecruzam na articulação política que planifica uma e a revela na outra e em razões, aportadas em argumentos, intenções e sentimentos, carentes de revisão ou de visão. Assim se faz necessário entender melhor a paisagem, decifrando seus conteúdos, apreendendo em que e em quem ela se contém, apontando diferentes pontos de vistas, sobretudo daqueles que vivem ou viveram a cidade e da cidade, permeando por intenções, por fatos e acontecimentos, nas escalas dos grupos e do indivíduo, do aparente e do imaginário. Estudar a paisagem urbana é uma maneira de entender a cidade, revelar lugares e suas representações é encontrar e conversar com pessoas, além de procurar, nos mais frívolos recursos, o seu entendimento. Compreender a paisagem é um exercício de se tentar enxergar mais ao longe, é focalizar detalhes entendendo suas conexões com o horizonte mais aberto e é também, por vezes, desconstruir-se, flexibilizando preconceitos, abrindo-se para novas teorias e para a cultura. As concepções que introduzem essa pesquisa se depreendem de leituras realizadas acerca da paisagem, fundamentadas nos autores que constituíram bases teóricas e metodológicas na história do pensamento geográfico, a partir de suas contribuições ao entendimento da geografia das paisagens. Um dos primeiros cientistas a empregar o conceito de paisagem em seus trabalhos, ainda no século XVIII, foi o naturalista prussiano Alexander Von Humboldt (1769 – 1859). Ele propôs que o geógrafo deveria observar os fatos que elaboravam uma paisagem e procurar as causas que as determinaram, portanto o interessado na interpretação das paisagens deveria 46 estabelecer relações de causa e efeito. Com esta afirmativa Humboldt enunciara o princípio da causalidade58, influenciando uma série de outros estudiosos preocupados com a questão do método de interpretação do mundo. Entre os cientistas que seguiram com os estudos da paisagem podem-se apontar: Ferdinand von Richthofen que concebeu a superfície terrestre como a interação de diferentes esferas: (atmosfera, litosfera, hidrosfera e biosfera); Otto Schüter (1872-1952) que insistiu na adoção da paisagem como objeto da Geografia e criou o conceito de Kulturlandscharft; Siegfried Passarge (1886-1958) o qual propôs um esquema descritivo geral com bastante rigor sistemático sob o intuito de listar fatos dispostos em área,; E. Neef e G. Haase, os quais valorizaram a participação do homem na composição da paisagem e consideraram, além dos fenômenos naturais, fenômenos sociais como população, estrutura social, tradições, crenças, etc; V. V. Dokutchaev (1846 – 1903) que adotou do alemão o termo paisagem (Landscharft) e cujas concepções se assemelhavam à tradição Humboldiana59. Ainda se pode citar Carl Ortwin Sauer (1889-1975), que sob a influência da Geografia européia possibilista, elaborou uma crítica ao determinismo ambiental chamando a atenção para a devida organização do método utilizado na Geografia e para o esclarecimento da natureza de seu objeto60. E também outro geógrafo alemão, o Gerhard Had, que compilou onze tipologias abrangendo o entendimento da paisagem, entre elas, o “Quadro paisagístico do vivenciado do vivido” que evoca o reconhecimento das práticas e teses do percurso da Geografia ao longo de sua trajetória científica e seu diálogo com outros campos do conhecimento61. Mas além do conceito de paisagem, a categoria espaço também exerceu importante influência para as análises até aqui afirmadas e trabalhadas no decorrer dos capítulos. Desse modo, é preciso fazer uma distinção entre paisagem e espaço, justificando-se, como afirmou o geógrafo Milton Santos, por uma necessidade epistemológica. Portanto, a pesquisa se fundamenta na idéia de que “a paisagem é o conjunto de formas, que, num dado momento, exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e natureza. O espaço são essas formas mais a vida que a anima”62. E segundo as relações entre 58 ANDRADE, Manoel Correia de. Geografia Econômica. 12. ed. São Paulo: Atlas. 1998. p.25. SANTOS, Anderson Alves dos. O conceito geográfico de paisagem. Aula Magistral. Recife: UFPE, 2005. 60 SAUER, Carl O. A Morfologia da Paisagem. In: CORREA, Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeny. Paisagem, Tempo e Cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2004. 61 GOMES, Edvânia Tôrres Aguiar. Recortes de Paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem geográfica. São Paulo. USP, 1997. p.37. Tese de Doutoramento em Geografia. 62 SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 3. ed. São Paulo: HUCITEC, 1999. p. 103. 59 47 espaço e paisagem, intermediadas pela sociedade em movimento, Milton Santos novamente pode fornecer uma referência: A paisagem existe através de suas formas, criadas em momentos históricos diferentes, porém coexistindo no momento atual. No espaço as formas de que se compõem a paisagem preenche, no momento atual, uma função atual, como resposta às necessidades atuais da sociedade. Tais formas nasceram sob diferentes necessidades, emanaram de sociedades sucessivas, mas só as formas mais recentes correspondem a determinações da sociedade atual.63 Portando, compreende-se que o espaço pode revelar tempos e lugares diversos, através de paisagens as mais variadas e as mais desiguais. O papel dessa pesquisa é justamente apreender e aprofundar a decodificação da paisagem geográfica. 1.4 O cartão-postal como suporte de estudo do espaço e da paisagem urbana O cartão-postal pode ser compreendido sob várias perspectivas. Aqui se destaca dois enfoques apreendidos através dele. Inicialmente cartão-postal pode ser entendido como um retângulo de papel, composto em um de seus lados por uma fotografia e onde o verso é destinado à correspondência, ou o cartão-postal pode ser compreendido como uma referência imagética e seletiva do espaço geográfico, em que se destaca o enquadramento da percepção de um ou mais sujeitos a fim de selecionarem determinados recortes de paisagens para fazê-la representar uma continuidade estética. Com base nesse último caso, o espaço, a paisagem ou algum objeto destacado, podem ser comumente qualificados pelo vocábulo cartão-postal e, confirmando ou não certo prosseguimento estético, esses recortes do espaço tenderão freqüentemente a serem o marco inicial para a investigação científica, ou mesmo turística, de seus traçados revelados em fotografias64. 63 Ibid. p. 104. Dentre algumas denominações para o cartão-postal encontradas, destacam-se: “Cartão que tem uma fotografia ou um desenho em uma das faces, ficando a outra face reservada à correspondência; coisa de aspecto muito atraente como costuma ser a ilustração de um cartão-postal; símbolo visual mais característico de (algo)”. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2004./ “Cartão retangular, cuja remessa postal despensa o uso de envelope. Uma das faces traz uma foto de paisagem turística ou qualquer outra ilustração e a outra, espaço reservado para correspondência, selo e endereçamento. RABAÇA, Carlos Alberto; BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. São Paulo, 1987. / “Cartão com dimensões em torno de 10 x 15cm, enviado pelo correio – Veículo de comunicação dirigida escrita, com toque pessoal, valendo como uma mensagem “face a face”. ALMEIDA, Mauro. Dicionário Técnico da Comunicação. Belo Horizonte, 1987. 64 48 O cartão-postal enquanto referência espacial permite traçar uma cartografia da cidade destacando-se seus recantos mais iluminados ou mais representativos e também é um eficaz instrumento na criação de uma imaginação de cidade. Todavia, em contrapartida e imanente aos espaços privilegiados, os outros recantos da cidade menos iluminados e lembrados, colaboram para uma melhor compreensão da generalidade daquelas imagens editadas especificamente para fazer fixar olhares e pensamentos. Ao mesmo tempo em que o cartãopostal pode omitir outras realidades por meio do seu oferecimento como um produto, que é também um conjunto de observações muito bem selecionadas, ele se completa com a sobreposição dessas outras paisagens de um mesmo local. Mostrando diferentes momentos e detalhes, postais e fotos antigas, recentes, amadoras, ou profissionais, exprimindo diversos motivos, podem ajudar a recompor uma interpretação da valorização e juízo atribuídos a paisagem de cartão-postal. Os cartões-postais além de referências do espaço da cidade são marcadores do tempo, pois ao exibir em uma de suas faces um evento da paisagem capturada em imagem e na outra face, registrar em forma de texto as memórias de alguém postadas e endereçadas a outrem, evocam uma representação do espaço e de um passado da cidade, bem como faz intuir um presente, sob o qual o postal pode auxiliar a redescobrir. Na medida em que a paisagem está em constante movimento e transformação, em comum acordo com a efemeridade do momento presente, as imagens impressas nos cartões-postais tendem a distanciar-se da paisagem em transformação, revelando interessantes detalhes, como as mudanças ou a adição de formas e cores e a permanência ou resistência dos elementos que as compõem. Esse afastamento na ordem da forma e do tempo que permite revisitar a paisagem, é possível ser melhor revelado através dos cartões-postais. O movimento que permite a notabilidade desses referenciais das cidades se depreende da relação entre espaço, paisagem, fotografia e cartão-postal, onde o espaço à mostra na paisagem é originalmente destacado por um olhar individual, logo depois capturado pela objetiva da câmera fotográfica e em seguida revelado para circular e se fazer mostrar pelo mundo afora. Aquele primitivo olhar lançado sobre a paisagem e que a revelou em imagem, agora se oferece cordialmente e ao mesmo tempo em tom de imposição para apresentar um fragmento estático do espaço, imbuído da capacidade de impressionar quem testemunha a formosidade de uma bela paisagem existente. O cartão-postal nesse contexto e endereçado aos amigos, familiares e outras pessoas queridas, no seu percurso, publica, divulga e reitera um estatuto das paisagens mais fitadas por olhares fotográficos. 49 Para Borges, a partir do sucesso alcançado pelo cartão-postal, as lentes dos fotógrafos passaram a mirar recortes de cidades já estimadas pelo desenvolvimento comercial, reconhecimento histórico e paisagístico65. Dessa forma, o postal foi fixando uma diversidade de temas rurais, urbanos, folclóricos, e de paisagens pitorescas, testemunhando uma série de eventos e elementos possíveis de serem abordados como objeto de pesquisa. Fazendo uma análise sobre a utilização do cartão-postal como um objeto de pesquisa, Borges destaca que “Se os álbuns de família podem funcionar como fonte para o historiador problematizar temas ligados à história da vida privada, os cartões-postais, hoje peças cruciais dos acervos das cidades, são documentos que tanto informam quanto permitem a análise das representações do espaço público”66. Situada em uma das faces do cartão, a fotografia enfatiza os atributos da paisagem, destacando-os e os fazendo ganhar evidência no competitivo mundo das imagens. Para Roland Barthes, a identificação da notabilidade dos elementos a partir da foto, respeita um processo onde “Em um primeiro tempo, a fotografia, para surpreender, fotografa o notável, mas logo, por uma inversão conhecida, ela decreta notável aquilo que ela fotografa[...]”67. Seguindo um semelhante percurso, o espaço pode herdar a luminosidade das ilustrações e das imagens circuladas nos cartões-postais e, em um determinado momento, essa luminosidade se torna própria do espaço. Além disso, como a parte observável do espaço se expressa na paisagem, então o cartão-postal, como um emblema do espaço, se releva sobre ela. Desse modo, a noção de paisagem de cartão-postal pode mesmo anteceder a fotografia e guiar a ornamentação de alguns espaços, isso dependerá, sobretudo das ações coordenadas em função de se produzir o espaço para um fim onde o “city marketing”68 e o turismo assumem importância essencial. Registrados em diversos ângulos e momentos, e muitas vezes compostos numa mesma paisagem, equipamentos como praças, parques, ruas, avenidas, edifícios e objetos naturais como o mar, o céu, as árvores, os rios e lagoas, são capturados pelas lentes das câmeras e revelados em imagens fotográficas, das quais algumas serão mais valorizadas justamente 65 Além de outros “lugares que, por razões diversas iam se tornando cada vez mais objeto do desejo e das viagens de lazer da burguesia da Belle Èpoque” BORGES, op. cit. p. 59. 66 Ibid. p. 62. 67 BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Tradução de Júlio Castañon Gimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. p.57. 68 “Nesse plano, o marketing urbano ‘deformado’ deve ser considerado como o resultado de uma tentativa de influenciar não apenas investidores e turistas em potencial, mas toda uma opinião pública, formando uma imagem de cidade conforme aos interesses e à visão de mundos dos grupos dominantes.” SOUZA, Marcelo Lopes de. Mudar a Cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. p.303. 50 pelas características que comportam e que argumentarão em favor desses espaços como um local turístico. No entanto, apesar da tendência de serem maquiados por técnicas fotográficas, esses espaços quando visualizados na dimensão do cotidiano podem expressar, dependendo do ponto de vista do analista, as contradições que o confrontam com muitas das imagens que os representam. Os espaços e a paisagem, quando compostos numa fotografia, passam a também fazer parte de uma outra extensão, a do mundo das imagens. Cristalizados em um tempo datado, alguns de seus elementos e detalhes se expõem à observação mais duradoura, mesmo que de forma reduzida, pois a foto é a interrupção do processo que anima a paisagem e a armazena para ser reproduzida. Os movimentos físicos dos elementos naturais e a circulação dos agentes sociais são resumidos em um foco onde apenas a percepção de uma representação plana dos objetos se disponibiliza a interpretações. Pelo exposto vale a afirmativa: Cartão-postal é diferente de fotografia. Segundo Barthes “a Fotografia é inclassificável porque não há qualquer razão para marcar tal ou tal de sua ocorrência”69. Mas Kossoy afirma que: As diferentes ideologias, onde quer que atuem, sempre tiveram na imagem fotográfica um poderoso instrumento para a veiculação das idéias e da conseqüente formação e manipulação da opinião pública, particularmente, a partir do momento em que os avanços tecnológicos da indústria gráfica possibilitaram a multiplicação massiva de imagens através dos meios de informação e divulgação70. Diante desse quadro, acredita-se que o cartão-postal se aproxima da fotografia justamente porque refletem diferentes razões71. Portanto o postal e a fotografia enquadram-se no campo da ideologia72, a mesma razão ideológica que constrói e planeja espaços e objetos, “com o objetivo de aparentar uma significação que realmente não têm”73. Um importante diferença entre fotografia e cartão-postal é que a foto com o tempo se desintegra e já o postal tende a ser mais persistente que a foto, porque ele firma na coisa representada uma constante 69 BARTHES, op. cit. p.16. KOSSOY, op. cit. p. 64. 71 É importante não confundir razão com linguagem, onde na foto e no postal podem ser expressiva, crítica, artística e propagandística e, no caso do cartão, outras linguagens podem passar a compô-lo quando se tiver escrito algo no seu verso. 72 Ideologia, no sentido discutido por Löwy, como: a) visão de mundo social, isto é, de um conjunto relativamente coerente de idéias sobre o homem, a sociedade, a história, e sua relação com a natureza. b) visão de mundo ligada a posições sociais, ou seja, aos interesses e à situação de certos grupos e classes sociais. LÖWY, Michel. As aventuras de Karl Marx contra o barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. Tradução: Juarez Guimarães e Suzanne Felicie Léwy. São Paulo: Editora Cortez, 2003, p.13. 73 SANTOS, 2004, op. cit. p.137-138. 70 51 situação de pose, evocando uma contínua atualização da reprodução da imagem do elemento ou da paisagem. A exceção que permite reavivar essas imagens reside no seu uso como despertar de memórias, seja avivando as lembranças de quem realizou a foto, de quem viveu um lugar, teve a oportunidade de visitá-lo, ou de algum modo testemunhou os locais fotografados. Daí a importância que a fotografia dos lugares, sobretudo as amadoras, têm para os estudos das paisagens, elas têm a característica de reativar a memória das experiências individuais e coletivas, vividas em momentos que passaram a ser mais bem compreendidos e fixados depois de observados através de uma foto pessoal mais antiga. De acordo com Maurice Halbwachs, a memória ajuda a recompor os significados da paisagem: Quando retornamos a uma cidade onde estivemos anteriormente, aquilo que percebemos nos ajuda a reconstruir um quadro em que muitas partes estavam esquecidas. Se o que vemos hoje tivesse que tomar lugar dentro do quadro de nossas lembranças antigas, inversamente essas lembranças se adaptariam ao conjunto de nossas percepções atuais. Tudo se passa como se confrontássemos vários depoimentos. É porque concordam no essencial, apesar de algumas divergências, que podemos reconstruir um conjunto de 74 lembranças de modo a reconhecê-lo. Destacando-se dos conjuntos dos objetos, tem-se assim a idéia de que esses locais mais figurados em cartões-postais e reconhecidos como tal, são marcos que situam espacialidades em distintas escalas, por exemplo, um recorte de paisagem, ou um monumento identificado como cartão-postal, pode representar uma georeferência para o bairro, a cidade, o estado, o país e mesmo para o mundo. Dessa maneira a continuidade estética pretendida e citada anteriormente, pode tender a se realizar de duas maneiras, primeiro pela tendência que emana da paisagem destacada, de se fazer perceber na maior proporção possível de uma delimitação territorial e secundariamente, e ainda de forma mais redutiva, o perfil estético pode ser representado por monumentos ideológicos que tendem ao longo do tempo fixar um conteúdo ao espaço na ordem da técnica, da política, da economia e da religião, assim como são ou foi, entre outros, a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade, o World Trade Center e o Cristo Redentor. Essas localidades se coligam por meio de uma função comum: identificam o espaço através de um simples golpe de vista. De um lado, ou do lado de fora, a fotografia, para o sujeito que a ver, ela ilustra um tempo passado e um ângulo da paisagem, do outro lado, o lado de dentro, os sujeitos no seu próprio tempo e sob os ângulos possíveis, olham, percebem, apreciam, ou depreciam as 74 HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vétice, Editora Revista dos Tribunais, 1990. p. 25. 52 paisagens. Através do impulso de suas pessoalidades ou acometidos pelas lembranças de fotografias, cartões-postais tradicionais, ou pelas propagandas turísticas anteriormente observadas, tendem mirar, com suas câmeras fotográficas, àquelas paisagens visitadas, passando a recriá-las como objetos exteriores a sua realidade. Por mais realista que seja a fotografia e mesmo o sujeito participando de sua composição, estando a paisagem ao segundo plano, o resultado das fotografias reveladas é o exemplo emblemático da oposição entre o estar do lado de dentro, visitando, pesquisando, observando os detalhes da paisagem, ou participando do seu cotidiano e, reconhecê-lo apenas a partir de algumas imagens fotográficas, com a sensação de estar do lado de fora, distante. O cartão-postal no seu uso como meio de comunicação, evoca o diálogo entre diferentes sujeitos e circunstâncias, mas o diálogo em que um primeiro plano se realiza entre quem envia e quem recebe o postal, se complexifica e rearranja uma outra rede de comunicação entre distintos agentes e elementos compositores do processo de afirmação do cartão-postal. Sutilmente o fotógrafo, a imagem e o local, se intrometem na conversa, utilizando uma linguagem paralela que se traduz em percepções de espaço e tempo. Nesse outro nível de comunicação, o cartão-postal demonstra onde o remetente está e imprime a vontade e o questionamento de quando o destinatário poderá ir. O recado no verso do cartão pode ser um simples “Saudades!”, mas o que está dito no entrecruzamento dos outros textos existentes no cartão-postal, é, sobretudo, um estímulo a também conhecer e estar por algum momento naquele local destacado. O perfil das paisagens impressas em imagens de cartões-postais tem a função de exibir o que se pretende mostrar ou divulgar do espaço. Sob um enfoque enaltecedor, os elementos destacados ganham visualidade, amplitude, ou mesmo são diminuídos. Diante do olhar nu, enriquecido de esclarecimentos sobre a paisagem, essas impressões que a qualificam podem atestar ou redefinir a monumentalidade do cartão-postal. Olhar um cartão-postal incute a curiosidade de tentar entender sua formação, sua constituição enquanto documento e como um dos símbolos mais característicos da cidade, expondo as justificativas formais e informais, que o transformaram em um monumento e em fonte histórica, sociológica e geográfica. Essas observações estimulam buscar na informalidade das práticas da população e a partir dos seus dizeres, suas crenças, seu ócio e nas perspectivas perante a cidade que aparece, o guia referencial e atrativo que leva as pessoas a conhecerem pessoalmente certas paisagens da cidade, ou o que as motivam a chamar outros à viagem, ou ainda a uma visita à cidade por via do convite selado, escrito e figurado no verso de um cartão-postal. 53 1.5 Destinos do cartão-postal O uso do cartão-postal, ao longo da sua existência, permeou motivos que ultrapassaram a sua vocação de transmitir saudosas informações escritas sobre alguém, ou sobre algum lugar. O cartão-postal reconhecido como objeto singelo, sutil, desinibido, recheado de sentimentos nas suas dimensões, foi no início, estrategicamente usado como um objeto repressor, assim como relata Vasquez: Por ironia do destino, o cartão-postal, associado em nosso imaginário às idéias de lazer, amor e felicidade, teve um começo trágico, no qual a principal preocupação dos usuários era comunicar a parentes e amigos uma 75 única notícia urgente: ‘ainda estou vivo’. Segundo o autor, algumas das primeiras utilizações maciças dos cartões-postais foram associadas a cercos militares, a exemplo do cerco realizado à cidade de Estrasburgo e o cerco de Paris, curiosamente “quando foram usados pela primeira vez cartões-postais na França”76. Por ser uma correspondência aberta, onde a mensagem veiculada pode ser consultada por qualquer um, o cartão-postal, com essa característica, despertou cedo seu uso estratégico vinculado à censura. A “pré-história do cartão-postal”77, segundo Victoriono de Miranda, baseado nos estudos de Serge Zeyores78, remete-se aos antigos cartões de votos chineses e aos “billetes de visite” circulados no século XVIII, os quais além de trazerem mensagens e ilustrações, também circulavam abertos. Em 1861, na Filadélfia, Estados Unidos, J.P. Carlton resolveu patentear um post card que teria sido o primeiro de uma grande série, entretanto só se tem notícia de circulação desses post card apenas a partir de 1870, quando a patente já havia passado para H. Lipman, e o cartão passou a ser editado com o título de “Lipma’s Post Card”79. 75 VASQUEZ, P. K. Postaes do Brazil 1893-1930. Rio de Janeiro: Metalivros, 2002. p.26. Ibid. p. 25. 77 MIRANDA, Victorio Coutinho Chermont. A memória paraense no cartão-postal (1900-1930). Rio de Janeiro:Liney, 1986. p. 09. 78 ZEYONS, Serge. Les Carte Postales. Paris: Hachette, 1979. 79 De acordo com o autor “convém notar, já era de costume antigo valer-se dos Correios para circular vários tipos de cartões: de visita, de felicitações, propaganda comercial, ilustrados ou nõa, com artísticas vinhetas, vistas ptopográficas, cenas humorísticas, etc. Enfim, toda uma gma de ‘velhos papéis’, raridades que alcançam subidos preços em leilões de Casas afamadas, procurados e considerados como precursores dos verdadeiros cartõespostais. E como seria de prever-se, o uso de exemplares semelhantes, apresentando votos, remonta aos chineses, no século X...”. (BELCHIOR apud BERGER, 1986. p. 7.) 76 54 Contudo, o cartão-postal surgiu oficialmente durante o século XIX no império austrohúngaro, entrando em circulação pela primeira vez no dia primeiro de outubro de 1869. O crédito pela invenção do cartão-postal foi concedido ao austríaco Emmanuel Hermann (18391920), professor de economia política da Academia Militar Wiener Neustadt que a 28 de janeiro de 1869 publicou no jornal “Die Neue Freie Presse”, o artigo intitulado “Acerca de um novo meio de correspondência” 80, sugerindo às autoridades de seu país o uso de cartões abertos para cartas de menor expressão que auxiliariam a redução dos custos das correspondências e a simplificação da comunicação escrita. A idéia publicada pelo professor Emmanuel Hermann se aproximara com bastante semelhança da sugestão comentada pelo funcionário do correio alemão Heinrich von Stephan (1831-1897). Herr Stephan havia sugerido em 1865, ou seja, quatro anos antes da publicação do professor Hermann no Die Neue Freie Presse, o emprego de um cartão “já com o selo impresso, o anverso reservado para o endereçamento e o verso destinado à correspondência”, entretanto a proposta de Stephan chegou em um momento pouco oportuno, já que naquele período o correio alemão e austríaco sofriam a influência da fragmentação política nesses países. Já o momento da sugestão do professor Hermann foi mais oportuno, pois se tornou pública depois de ter sido criada a Confederação do Norte da Alemanha, levando à padronização das tarifas e à edição dos primeiros selos unificados. Curiosamente o doutor Heirich von Stephan foi nomeado diretor-geral do correio da confederação, que seriam os primeiros passos para o surgimento da União Postal Geral da Alemanha em 1874.81 Para que o cartão-postal pudesse surgir e em pouco tempo se tornar tão usual e popular, por um lado encurtando as distâncias entre as pessoas através da comunicação escrita e por outro mostrando a moda, os lugares ou divulgando os pensamentos e ideologias vigentes, foi preciso que alguns processos, sobretudo, técnico e organizacional, tivessem alcançado certo desenvolvimento, preparando os meios necessários para que o cartão-postal fosse revelado, assumindo as formas e funções as quais o caracteriza hoje em dia. Entre os processos sob certo nível de desenvolvimento à época do surgimento do cartão-postal e que colaboraram com destacada importância para ele alcançar o sucesso obtido, cabe destacar a reforma no sistema de correio inglês a partir 1840, quando foram 80 Enquanto Belchior (apud BERGUER, 1986,. p.07) cita o dia 29 de janeiro de 1869 como data da publicação da carta no “Dei Neue Frei Presse” e traduz o título da carta como “Uma nova forma de correspondência pelo correio”, Vasquez (2002, p. 25) faz referência ao dia 28 e traduz o título da carta como “Acerca de um novo meio de correspondência”. 81 VASQUEZ, op. cit. p. 28. 55 colocadas em prática, normas gerais que descomplicaram o envio e recebimento de cartas e demais correspondências na Inglaterra. Seguindo o exemplo inglês, vários outros países também realizaram a reforma postal e abriram margem para a adoção do cartão-postal como veículo de comunicação. Até antes da reforma inglesa a circulação das correspondências comprometia o destinatário, pois este deveria arcar com os custos de receber uma carta, a qual não raramente poderia ser recusada pelo motivo de não se ter o dinheiro necessário para pagar a postagem, que era cobrado pelo próprio carteiro, sendo esse valor calculado em função da distância percorrida por ele. Enquanto a maior parte da população ficava a disposição destes constrangimentos, os membros do parlamento inglês tinham a autorização de enviar cartas que não precisavam ser pagas pelo destinatário. Sir Rowland Hill publicou em 1837 um artigo intitulado Post Offce Reform. Its Important and Praticability (Reforma Postal. Sua Importância e Viabilidade). Ele escreveu uma série de sugestões que poderiam facilitar o trabalho nos correios, bem como abrir oportunidade para a socialização da comunicação através das cartas. Entre as sugestões elencadas por Sir. Hill destaca-se o uso do peso da correspondência, e não a distância percorrida para entregá-la, como padrão de cálculo para o preço, como até hoje é efetuada a postagem das correspondências. Além disso, o valor a ser pago, segundo o Sir Hill, deveria ser depositado pelo remetente no momento da postagem da correspondência, pagando um preço acessível, que seria menos da metade do valor cobrado na época, evitando dessa maneira os constrangimentos até então gerados pela cobrança ao destinatário.82 As idéias excêntricas de Sir. Hill foram recebidas com aprovação e tornaram-se o foco da organização dos correios britânicos a partir do dia 10 de janeiro de 1840, inaugurando, dessa maneira, um método inovador de correspondência e de organização do sistema postal de um país, possibilitando a criação de normas e de um vocabulário específico no domínio dos correios, procedimentos que estimularam outros países a realizar sua reforma postal, tais como a Rússia, a Finlândia e algumas outras nações germânicas. Segundo Vasquez esse processo de aperfeiçoamento dos correios nesses países deu “início ao movimento que iria culminar mais tarde no surgimento do cartão-postal na Áustria”83. No período da sua origem, o cartão-postal assumiu formas diferentes da que conhecemos hoje, até mesmo a concepção de frente e verso do cartão-postal era distinta da 82 83 VASQUEZ, op. cit. p. 27. Ibid. p.28. 56 que entendemos atualmente. A questão da sua forma apenas foi resolvida em definitivo no ano de 1902, a partir da idéia do editor inglês Frederick Hartmann, o qual desenhou o cartãopostal nos moldes que o concebemos hoje em dia. No sentido de fazer visualizar essa transformação no formato do cartão-postal, Pedro Vasquez escreveu: Nos primórdios do cartão-postal, a frente era a parte reservada ao endereçamento, que ocupava toda uma face das primeiras CorrespondezKarte, emoldurada por um filetefiligranado, com o verso destinado à correspondência. À medida que foram surgindo os primeiros postais ilustrados do tipo ‘Gruss aus...’ (‘Saudações de...’) na Alemanha na década de 1890 – logo seguidos por congêneres como os ‘Souvenir de...’, franceses, ou os ‘Ricordi de...’, italianos, e os ‘Greetings from...’, ingleses –, a imagem foi ocupando área cada vez maior de uma das faces, com uma pequena nesga em branco reservada para uma mensagem mínima. Os usuários, atraídos pela beleza das imagens de cunho turístico reproduzidas em tais cartões passaram a considerar naturalmente à frente como essa face, onde a imagem era impressa, embora as autoridades postais tivessem opinião contrária. Logo as imagens tomaram conta de toda a superfície livre, obrigando o remetente a redigir a mensagem na face de endereçamento ou então a escrever diretamente sobre a imagem [...]84 O princípio que gerou o cartão-postal atrelava-se sobretudo à comunicação escrita, rápida, objetiva e funcional. Além do mais, com a reforma do sistema postal, os correios alcançaram uma notável eficiência, contribuindo ainda mais para essa vocação. Todavia surge em cena, ou melhor, em um dos lados do cartão, a tendência de veicular imagens. Embora o advento da ilustração como a frente do cartão-postal tenha sido bem aceita por alguns países, foi, contraditoriamente assimilada lentamente pela Inglaterra, logo, quem estava na vanguarda da modernização do sistema postal. Toda a questão circulava em torno da burocracia das autoridades postais inglesas, que temiam perder o monopólio da produção dos cartões. A confecção dos cartões-postais por editoras independentes só foi autorizada na Inglaterra em primeiro de setembro de 1894 e nos Estados Unidos, que também inicialmente restringiu o uso da imagem. A liberação para circulação dos cartões-postais, aconteceu apenas a primeiro de julho de 189885. A adoção da imagem no cartão-postal encerra sua forma definitiva, entretanto há uma outra questão que é de interesse para essa reflexão sobre os motivos os quais possibilitaram o surgimento do cartão-postal. O primeiro anteriormente exemplificado foi a reforma do sistema postal. O segundo foi o surgimento da fotografia, um fato de ordem da técnica, que precedeu o postal e se desenvolveu junto com ele. A fotografia permitiu ao cartão-postal, 84 85 Ibid. p.33-36. Vasquez, op. cit. p. 28. 57 como já relatado por Freyre, resistir ao tempo, conservar-se enquanto documento histórico, firmar-se como meio de comunicação e como veículo de propaganda das paisagens e lugares turísticos. Para Borges 86 , a partir da criação da Kodak ou instantâneo em 1888, por George Eastman, alguns desenhistas e pintores franceses criaram o “cartão-postal ilustrado”. Segundo a autora, esse rentável meio de utilização da máquina fotográfica portátil encontrado por esses artistas, e que resultou na criação do postal-ilustrado, era uma forma de diálogo entre a fotografia e a pintura. Por ser o cartão-postal fotográfico economicamente mais rentável, conseguiu maior aceitação no mercado e conseqüentemente uma ampla popularização. Quando o cartão-postal passa a ser utilizado, ainda sem a imagem87 impressa em uma de suas faces, a técnica da fotografia completava 43 anos de sua invenção. Sua descoberta é atribuída a Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833), que pertencia a burguesia intelectual da época, uma classe social que tinha o privilégio de poder retirar-se para suas terras e dedicar-se às experiências científicas. Foi o que justamente fez Niépce, depois de retirar-se do exército francês aos 40 anos, passou a se dedicar aos inventos técnicos. As experiências de Niépce consistiram em imprimir uma imagem permanente, aos moldes da litografia, mas com o auxílio da câmara escura. A câmera escura é responsável pela projeção da imagem exterior sob uma superfície, permitida por um princípio ótico. As experiências de Niépce caminharam para a captura da imagem, até que em 1826 depois de colocar à mira da câmara escura uma placa de estanho com betume branco da Judéia que endurecia ao contato com a luz, ele conseguiu revelar o que hoje é reconhecido como a primeira fotografia, sob o processo que denominou de Heliografia. 88 Mesmo com os esforços de Niépce, a descoberta das imagens reveladas não tinha boa qualidade visual e por isso não receberam tanta atenção, apenas alguns intelectuais e outros homens de espírito progressista perceberam o valor da invenção, mas os comerciantes, por exemplo, não viam na fotografia um investimento confiável e rentável89. A fotografia apenas iria aguçar as idéias sobre sua viabilidade econômica a partir das adaptações da Heliografia de 86 BORGES , op. cit. 59. Alguns dos primeiros cartões-postais traziam em uma das faces (reconhecida como frente, porque era onde se escrevia o endereço) uma imagem que poderia ser um brasão, uma silhueta de alguém importante homenageado. Onde se lê “ainda sem imagem” com referência ao cartão-postal se quer dar ênfase aos cartões predecessores, ou os que antecederam os postais com forma definitiva como hoje os conhecemos, em que um dos lados é todo ocupado por uma imagem fotográfica. 88 FREUND, Gisele. Fotografia e Sociedade. 2. ed. Tradução de Pedro Miguel Frade. Lisboa: Veja.1995. 89 Ibid. p 38. 87 58 Niépce, realizadas pelo pintor Deguerre, o qual batizou sua criação de daguerreótipo90. As adaptações de Daguerre, apesar da complexidade no manuseio do equipamento, possibilitaram a acessibilidade à fotografia. O processo pode ser descrito da seguinte forma: 1. polia-se perfeitamente uma lâmina de prata metálica que se encontrava fundida a uma placa de cobre (com um polisoir) a fim de lhe dar um brilho perfeito e de retirar de sua superfície as menores partículas que aí poderiam se localizar; 2. colocava-se a placa em uma redoma, a qual era mantida sobre um caixilho, e onde se aquecia cristais de iodo, cujo vapor, agindo sobre a prata, combinava-se com o metal, formando uma camada amarela de iodeto de prata. A lâmina estava assim sensibilizada; 3. colocava-se a placa no interior da câmera escura, a qual recebia a imagem dos objetos externos através da objetiva. A luz, decompondo proporcionalmente (de acordo com a intensidade dos raios luminosos que atingiam a placa) o iodeto de prata, deixava registrada a imagem na placa, embora ainda de forma latente e invisível; 4. após um determinado tempo de exposição – cerca de dez minutos em pleno sol de verão, no período anterior ao aperfeiçoamento das lentes e à utilização combinada de outros sais durante a sensibilização da lâmina – a placa era retirada da câmera escura não apresentando até este momento nenhuma imagem visível. Para fazer aparecer esta imagem, era necessário submeter a placa à operação de revelação; 5. colocava-se então, novamente, a placa numa redoma, à pequena distância de um banho de mercúrio aquecido a uma temperatura de 60°C. Os vapores de mercúrio, entrando em contato com o metal, se condensavam unicamente sobre as partes atingidas pela luz. Tornava-se visível, então, a imagem que se encontrava latente; 6. era necessário neste estágio fixar-se a imagem, o que se fazia mergulhando a chapa numa dissolução de hipossulfito de sódio que, dissolvendo o iodeto de prata não impressionado pela luz, tornava assim a superfície insensível e portanto a imagem permanente. Às altas luzes, correspondia na placa um depósito leitoso de mercúrio amalgamado; e às sombras, a própria prata polida do fundo; 7. a seguir, procedia-se à lavagem com água e secagem sobre a lâmpada de álcool.91 No momento em que o cartão-postal vem à tona, a fotografia já era uma realidade na vida cotidiana. A daguerreotipia possibilitou o acesso à fotografia, tanto pela população em geral, como pelas mais abastadas, que pareciam ver na nova descoberta, um dos momentos da emergência de sua classe e também permitiu surgimento de uma nova profissão, o fotógrafo, que de posse da técnica, poderia dar curso a sua vida, com a possibilidade mesmo de 90 Daguerreótipo: Imagem positiva direta em chapa de cobre, coberta de uma fina camada de prata, cuidadosamente polida e sensibilizada com vapores de iodo. A imagem é revelada com vapores de mercúrio e apresentada em caixilho hermeticamente fechado. MAUAD, Ana Maria. Entre retratos e paisagens: modos de ver e representar no Brasil oitocentista. Revista Studium, Campinas, n. 2. Disponível em: http://www.studium.iar.unicamp.br/15/01.html> Acesso em: 16 novembro 2006. 91 KOSSOY, Boris. Origens e Expansão da Fotografia no Brasil no Século XIX. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1980. p. 13-14. 59 enriquecer. A estatística revela, por exemplo, que em 1850 existiam nos Estados Unidos dois mil daguerreotipistas e em 1853 estimou-se em três milhões de fotografias tiradas em um ano, estimando-se também que em 1850 os americanos tenham gasto de 8 a 12 milhões de dólares com fotografias, tendo-se uma idéia do impacto que a daguerreotipia teve ao ser apresentada nesse país a partir de 183992. Apesar da popularidade da daguerreitipia ao processo, faltava-lhe desempenhar uma questão essencial, permitir a reprodução de cópias de uma mesma imagem, além disso, a pose perante o daguerreótipo era muito demorada, com uma duração da exposição entre 13 e 15 minutos, onde o modelo necessitava ser iluminado pela luz do sol, acarretando em incômodos por vezes capturado pela fotografia, como a transpiração exagerada. Essa proeza da invenção, que permitiu a realização de cópias e que terá mais tarde reflexos na imprensa e nos cartõespostais só foi colocada em prática a partir da descoberta do processo do colódio, realizado pelo também pintor Le Gray, o qual substituiu as placas metálicas de Daguerre por negativos em vidro, possíveis de serem duplicados. Esse processo possibilitou o desenvolvimento de alguns ramos da indústria ligada ao retrato fotográfico, como a fabricação de aparelhos, a confecção de molduras para álbuns, a composição de cartões-postais e a indústria química vinculada à produção das placas sob o princípio de Le Gray. “Assim, pouco a pouco, desaparecia a daguerreotipia e começava a história da fotografia propriamente dita” 93 Dessa maneira, expõe-se a idéia de que o cartão-postal surgiu em função do desenvolvimento de dois processos, a organização dos correios no mundo e o desenvolvimento da técnica fotográfica. Contudo, foram também necessárias algumas articulações de cunho político para que o postal, nos moldes da noção contemporânea, viesse se popularizar. A primeira articulação permitiu atribuir á fotografia, caráter público. A partir de projeto de lei formulado por Arago, membro da Câmara dos Deputados e advogado espontâneo da nova técnica, o Estado Francês foi convencido a adquirir a invenção, tornando público o processo em agosto de 1839. Pela compra dos direitos à fotografia, o governo francês passou a pagar uma renda vitalícia de seis mil francos a Daguerre e de quatro mil francos ao filho de Niépce, pois esse havia falecido sem conseguir ver sua invenção reconhecida.94 A fotografia estava assim destinada ao público, mesmo com vários outros pesquisadores exigindo sua patente, ela permaneceu pública e seus posteriores 92 FREUND, op. cit. p. 42. FREUND, op. cit. p. 43. 94 Ibid. p. 39. 93 60 aperfeiçoamentos técnicos colaboraram ainda mais para sua acessibilidade. Entretanto o ingresso do cartão-postal no domínio público, no sentido de qualquer um poder produzi-lo ou comercializá-lo, se deu como uma questão mais difícil do que o caso da fotografia, pois o monopólio da produção dos cartões-postais pertencia ao Estado, o qual resistiu a adotar a união entre o cartão-postal e a imagem fotográfica. Mas, aos poucos, a composição do cartãopostal junto com a fotografia passou a ser permitida pelos países e os cartões-postais passaram a ser impressos por editores particulares. A Inglaterra, como já citado, autorizou a impressão do cartão-postal junto com a imagem, em 1° de setembro de 1894, e os Estados Unidos apenas em julho de 1898.95 No início da segunda metade do século a técnica da fotografia estava suficientemente aperfeiçoada para já não exigir que os seus profissionais devessem ter conhecimentos especiais. A fotografia tinha saído do domínio da experimentação científica, os utensílios necessários eram fabricados por indústrias especializadas. A preparação das soluções de revelação e de fixação deixaria de exigir conhecimentos químicos particulares. Era possível dotar-se de aparelhos de vários formatos nos estabelecimentos de um bom número de fabricantes de óptica. Publicou-se toda uma série de manuais de fotografia, acessíveis a todos os profanos, que forneciam a descrição exacta dos processos. Podia instalar-se um estilo fotográfico por algumas centenas de francos.96 Sobre essa união entre o cartão-postal e a fotografia, é interessante discutir que não se deu arbitrariamente. A fotografia surgiu anos antes do postal, mas o seu encontro com este, estava traçado como um destino. O retrato fotográfico segundo Giséle Freund é uma manifestação correspondente a um estado particular da evolução da sociedade, pois a fotografia teria designado a “ascensão da burguesia em direção a um maior significado político e social”. O desenvolvimento técnico da fotografia, bem como, a dedicação de seus executores, estão intimamente ligados para ela a um ato simbólico em que “os indivíduos da classe social ascendente tornavam visível para si mesmo e para os outros a sua ascensão e se classificavam entre os que gozavam de consideração social”97. A fotografia então, surge como uma necessidade de figurar a ascensão das camadas burguesas, como necessidade de firmar-se como uma classe que conquistara a própria representação. Quando o professor Hermann ou o doutor Stephan imaginaram o cartão-postal, certamente tiveram noção da importância social de sua invenção. Não se tem certeza se eles previram a atratividade que aconteceria com a coexistência do postal e da fotografia, uma 95 Ibid; VASQUEZ, op. cit. FREUND, op. cit. p. 48 97 Ibid. p. 45 96 61 atratividade energizada, sobretudo, por necessidade representacional de estratos de uma classe social. E talvez nem mesmo Niépce e Daguerre tenham imaginado que aquelas imagens que eles tanto quiseram imprimir e que povoaram o desejo de muitas famílias, agora também poderiam viajar e se mostrar ao mundo. Essa conjunção cartão-postal e fotografia rendeu bastantes atenções, assim, o postal logo foi absorvido pela publicidade, passando a manter uma relação estreita com o turismo, sendo o turismo bastante importante para seu desenvolvimento. Um dos primeiros a lançar o postal turístico como vistas fotográficas foi o suíço François Borich, que conseguiu fazer fortuna com as imagens editadas98. Em decorrência do sucesso do cartão-postal, o século XX inicia-se reconhecido como o período de ouro99 do cartão-postal que durará até o ano de 1925. Para esclarecer esse fascínio, os dados estatísticos mostram que em torno de 1899 a produção de postais poderia ser calculada da seguinte maneira: “Alemanha: 50 milhões de habitantes, 88 milhões de postais; Inglaterra: 38,5 milhões de habitantes, 14 milhões de postais; Bélgica: 6,5 milhões de habitantes, 12 milhões de postais; França: 838 milhões de habitantes, 8 milhões de postais”100. Some-se a estes dados, referentes ao mesmo período, 33 revistas dedicadas aos colecionadores de postais apenas na França, além de vários outros periódicos em diversos países. Uma década depois desse levantamento, a França elevaria sua produção e passaria a liderança com a cifra de 123 milhões de cartões-postais fabricados, e, além disso, se contabilizariam 33 mil operários trabalhando nessa indústria101. No Brasil, o primeiro “bilhete-postal” como assim foi chamado, só pôde circular em território nacional a partir da autorização concedida pelo Decreto nº 7.695, de 28 de abril de 1880, executado por iniciativa do Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Manuel Buarque de Macedo102. Luís Edmundo destaca um relato sobre a chegada e os primeiros contatos com o cartão-postal que tiveram alguns cariocas do início do século XX. O cartão-postal que, pelo começo do século, e mesmo até bem pouco antes da Grande Guerra, é o de lírio que empolga o carioca, foi aqui introduzido pelo Castro Moura, o que escreveu uma brochura satânica, em 97 ou em 98, com o título Súplicas e Blasfêmias e que acabou trocando Apolo por Mercúrio, e enriquecendo, a provar, de tal sorte, que a boa arte, neste país, ainda é a de comprar por 2 e vender por 4... Chega Moura de Paris, com seus 98 Ibid. p.46 Também comumente citado como “Idade de ouro” do cartão-postal. 100 FREUND, op. cit. p.102 101 KYROU, Ado. L’Age d’or de la carte postale. Paris: André Balland Ed., 1996. p. 11. In: KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na trama fotográfica. 3 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 64. 102 BELCHIOR, 1986, op. cit. p. 07. 99 62 primeiros cartões, em 1901. A novidade impressiona. Tão bela, porém, é a apresentação desses postais, que muita gente os compra em séries, só para encaixilhá-los. Um vidraceiro da Rua da Quitanda cria disposições artísticas para a coleção das fotos em passe-partout de cores. A bela Otero, por exemplo, em seis poses diversas, é um quadro para se dependurar abaixo do espelho de Veneza, num salão... Cabeças de Cléo de Merode surgem nos gabinetes de dentistas... E atrás de Otero e de Cléo, todas as cocottes de França, com o nome por baixo, em atitudes provocadoras e plásticas, mostrando a perna, o colo, o seio, e a fazer o encanto das famílias. A bem dizer, o delírio do bilhete postal ilustrado só começa a inquietar-nos em 1904. Moda, a princípio, passa, depois, a obsessão. Há postais em cartolina, platinografados, reproduzindo figuras célebres, fixando paisagens, reproduzindo quadros conhecidos ou notáveis, com versozinhos, pensamentos, frases sobre o amor, sobre a mulher, sobre a felicidade... Os namorados preferem os que representam corpos que se enlaçam, bocas que se beijam, acompanhados, sempre, de legendas patéticas, como estas: Amor eterno! Sofro, mas, um dia serás minha! Quanto dói uma saudade! Dou-te o meu coração e a minha vida! Cartões há um de aspecto escultórico, feitos em crostas, em espantosos relevos; chafarizes que deitam tiras de papel pelas bicas, fingindo água, corações de veludo sangrando rosas vermelhas, pintadas a óleo ou a aquarela...103 Para Gisele Freund, essa popularidade se expressa na razão de que “O sucesso do postal funda-se também na recordação que se quer perpetuar, no sonho que se pode comprar a bom preço, no voyeurismo e todos os seus sucedâneos, enfim na preguiça, já que um postal se escreve mais depressa do que uma carta e, enfim, na mania das coleções”104. E sobre o detalhamento das normas de utilização do cartão-postal no Brasil, tem-se assim descrita por A. Vale Cabral dois anos depois da publicação do decreto que autorizou o uso desse meio de comunicação no Brasil105: A impressão destes bilhetes pertence ao Estado. O seu custo ou porte acha-se declarado nas armas imperiais estampadas no ângulo direito superior. Três são as classes destes bilhetes106: 1ª (De cor vermelha) Para a correspondência urbana, ao preço de 20 rs. os simples e 40 rs. Os dúbios, isto é, com resposta paga. 2ª (De cor azul) Para a correspondência de interior das Províncias de todo o Império: há simples. Que custam 50 rs. (metade do porte de uma carta simples) e duplos a 100 rs. 103 EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. p. 442-443. 104 FREUND, op. cit. p. 102. 105 BELCHIOR, 1986, op. cit. p. 07. 106 “O porte urbano de 20 rs. Foi introduzido depois do Decreto 7.695, que somente previa duas classes de bilhetes: os para circulação interna (50 rs.) e os destinados ao exterior (80 rs.)”. CABRAL apud BELCHIOR, 1986, op. cit. p.13. 63 3ª (De cor laranja) Para a correspondência internacional com os países que fazem parte da União Postal Universal custando os simples 80 rs., e o duplo 160 réis. O bilhete duplo é destinado a obter-se resposta, sem dispêndio algum da pessoa que a tenha de dar. O expedidor de um bilhete duplo (isto é, com resposta paga) pode escrever de antemão o seu endereço completo na fórmula – Resposta – que lhe deve ser devolvida pelo destinatário do bilhete, com a respectiva resposta. No anverso ou parte impressa só se escreve a tinta ou lápis ou mesmo litografado ou impresso o nome da pessoa a quem é dirigido o bilhete, a denominação do lugar, rua, praça, travessa, ladeira, morro, etc., e nº da casa. No verso escreve-se a tinta, a lápis, litografado ou impresso, o recado, a comunicação, ou o pedido que se tem a fazer, datando-se e assinando-se. Os bilhetes postais são lançados nas caixas dos correios urbanas ou na geral, sem envelope, abertos como são, podendo ser dobrados os duplos, mas de modo que o endereço fique sempre para fora, e possa ser lido pelo carteiro que o tiver de entregar, ou pelo empregado que tenha de expedi-lo. O bilhete que contiver proposições indecentes, ofensivas aos bons costumes e à moral pública, será destruído pela repartição dos correios. Podem ser registrados estes bilhetes, opondo-se-lhes, neste caso, ao ângulo esquerdo superior, os selos correspondentes ao registro, que será feito no lugar respectivo. O bilhete Resposta pode ser expedido ligado ao primitivo, ou separado, sem que por isso pague coisa alguma. Conquanto transitem abertos os bilhetes, gozam, contudo, da inviolabilidade das cartas, e os carteiros e quaisquer outros empregados dos correios são obrigados, sob as penas legais, a guardar inteiro segredo a respeito do conteúdo dos mesmos bilhetes.107 O cartão-postal pode ser definido como o resultado obtido pela sociedade através do encontro ou união, de processos técnicos e organizacionais desenvolvidos no seio de um momento da sociedade a fim de se fazer representar imagética e descritivamente. A essa dupla representação corresponde também uma dupla intervenção, a de quem emoldura o retângulo de papel e seleciona a imagem revelada na frente do cartão-postal e a de quem descreve ou narra suas experiências e percepções sobre a imagem destacada. De todo esse processo resta o cartão-postal como testemunho do próprio movimento que lhe deu consistência, mas essas evidências encontradas no cartão de papel não podem falar por si só, nem mesmo o que está transcrito como correspondência no verso do cartão pode revelar por completo o que ele quer dizer, por exemplo, através de sua imagem comportada. Por falar nisso, a imagem que traz o cartão-postal dialoga com a percepção de todos que a vêm e memorizada por esses olhares, essa imagem evoca o reconhecimento de uma existência exterior ao da ilustração que quando revelada como paisagem, a lembrança aponta para ela como aquela imagem anteriormente vista no cartão-postal. E é certo que a 107 CABRAL apud BELCHIOR, 1986, op. cit, p. 13. 64 concepção de uma estética das imagens postais também permite, ou mesmo estimula, associar algumas paisagens enquanto passíveis de enquadramento fotográfico e veiculação postal. Nesse contexto, o cartão-postal também assume um outro empenho, o de impregnar nos próprios locais representados e monumentos ilustrados, um caráter permanente de cenário a ser fotografado, diferente de outros recursos colecionáveis que tem como tema, ou um de seus temas, a panorâmica paisagística e as ilustrações de elementos da paisagem108. O cartãopostal adere-se à paisagem como um verdadeiro convite à visita e reciprocamente a paisagem à mostra no cartão convida aquele que a ver representada. Como árbitro na escolha e revelação das cenas urbanas mais graciosas, o postal preenchido de conhecimentos científicos, artísticos e por que não, do conhecimento advindo da experiência, também convida a questionar essa estética reverenciada e a rever certos elementos que deixaram de ser mostrados no momento da realização da foto que forma sua frente. Dessa maneira, como todo recurso iconográfico, o cartão-postal pode ser muito bem usado na pesquisa sobre a revelação mais detalhada dessas paisagens em que todos fazem questão de testemunhar. O próximo capítulo tratará da contextualização histórica e da formação da morfologia de um quadrante de paisagem da Cidade do Recife, concebido como cartão-postal. Trata-se da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem, um dos cartões-postais mais divulgados e conhecidos da capital pernambucana. 108 Como exemplo desses elementos colecionáveis ávido por pesquisas relacionados a temas geográficos tem-se: os bilhetes de passagens de bondes e de barcas, as estampilhas (selos fiscais), etiquetas de caixas de fósforo bilhetes de loterias, as cédulas de dinheiro, selos, folder turísticos, entre outros. Sobre os bilhetes de loterias Wehrs afirma: “Das mais interessantes fontes iconográficas poderiam ser as estampas dos bilhetes das loterias, já que vez ou outra neles vêm reproduzidos trechos paisagísticos”. WEHRS, Carlos. Niterói: tema para colecionadores. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda., 1987. 65 Capítulo 2 As transformações na paisagem e a revelação de novos novos e cada vez mais velhos atributos Figura 3: Capa da Revista de Pernambuco. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 7, s/p, jan. 1925. 66 2.1 Fases de um cartão-postal O atual bairro de Boa Viagem da Cidade do Recife teve uma mudança considerável no decorrer de sua constituição. Pode-se distinguir pelo menos três fases de sua formação que também compreendem a concepção dos seus recortes de paisagem enquanto cartão-postal. A primeira fase refere-se a sua concepção como subúrbio balneário, definido pelo uso da praia pelas famílias em busca dos banhos salgados, que tiveram início em fins do século XIX. A segunda fase é marcada pelo período do projeto urbanístico empreendido durante o governo de Sérgio Loreto a partir de 1922, quando também se assiste ao nascimento do núcleo moderno, concluindo-se em meados da década de 1960. A terceira fase tem início no ano de 1965, quando Boa Viagem passou a figurar como o bairro economicamente mais valorizado da cidade do Recife. A seguir apresenta-se uma sinopse histórica do movimento que engloba a evolução da cidade do Recife e a constituição do bairro de Boa Viagem. O foco da análise se debruça sobre a visualização do percurso histórico da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem em direção a sua compreensão como cartão-postal. 2.2 Partindo do Recife em sentido à Boa Viagem Segundo Tadeu Rocha, o bairro do Recife sofreu duas grandes remodelações109, uma no quarto decênio de século XVII e a outra no segundo decênio do século XX110. A primeira transformação aconteceu durante a ocupação holandesa, com a construção da Cidade Maurícia pelo Conde João Maurício de Nassau, o qual com os destroços da Cidade de Olinda incendiada por motivo de defesa militar, edificou a Mauriciópole com ruas, praças, canais, edifícios, armazéns de mercadorias e duas pontes, uma sobre o Rio Capibaribe e outra sobre o Rio Beberibe, precursoras do que séculos mais tarde, será considerado principal cartão-postal da Cidade do Recife. Sobre a origem mais remota dessas maravilhas do Recife, tem-se: O que determinou a construção destas pontes foi o seguinte: sob o domínio do rei de Espanha, governando o Brasil Albuquerque111, discutiu-se muitas 109 Essas grandes remodelações referidas por esse autor estão também associadas a obras de remodelação do porto, que ao longo dos séculos sofreu significativas modificações. Entre os anos de 1814 e 1909, Gomes (1997, p. 279-280) identificou 32 planos destinados ao melhoramento do porto do Recife. GOMES, Edivânia Tôrres Aguiar. Recortes de Paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem Geográfica. 1997. 300 f. Tese - Curso de Geografia, FFLCH, Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, 1997. 110 ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife. Recife: Mousinho Artefato de Papel Limitada, s/data, p. 19. 111 “Refere-se o autor a Matias de Albuquerque Coelho, irmão do donatário de Pernambuco. Durante a 1ª invasão Holandesa, foi nomeado governador-geral do Brasil para substituir D. Diogo de Mendonça.” (BRANDÃO, 67 vezes se convinha abandonar-se Olinda, distante do porto e do acesso ao mar, transferindo-se os seus moradores para o Recife e para a ilha de Antônio Vaz. Para este fim, seria de grande vantagem unir-se a ilha ao Recife, por se julgarem estes lugares inexpugnáveis por causa dos rios que os cercam e da vizinhança do oceano. Ficou, porém, suspenso, sem nenhum resultado, esse projeto, ou porque se temia, por imperícia da engenharia militar ou da arte das fortificações, encetar tão importante cometimento, ou porque se sentissem pesarosos os que se enlevavam com a amenidade de Olinda. Desaconselhavam isto os portugueses, a quem parecia irrealizável esta ligação das terras, em razão da violência do rio e da maré. Foram-lhes da opinião mestres-de-obras assaz peritos, que se mandaram vir da Espanha.112 A segunda grande modificação da paisagem recifense, citada por Tadeu Rocha e que aconteceu durante a década de 1920, deu-se em decorrência das obras do porto que transformou o velho núcleo, extraindo-lhe a aparência tradicional. Referindo-se especificamente ao bairro do Recife, o autor descreve que nesse período foi implantada a ampliação da península onde estava assentada a cidade e também colocada em prática às obras que a transformaram em uma ilha. Foram abertas novas ruas e avenidas e a ocupação das margens desses novos logradouros foi acompanhada do exercício de novos usos, onde ali passou a ser dominante a ocupação por estabelecimentos bancários, escritórios, armazéns, depósitos e repartições públicas dando outra face ao velho bairro. Além disso, o “centro urbano”113 que ficava em torno do porto migrou para a ilha de Santo Antônio114. Em consonância com a evolução da Cidade de Recife, o bairro de Boa Viagem só veio passar por uma série de transformações significativas a partir dessa segunda grande remodelação, ocorrida justamente no decorrer da década de 1920, durante a administração do governador Sérgio Loreto, quando foi lançado um amplo projeto de governo que adotou medidas como: a construção da Avenida Beira-Mar (futura Avenida Boa Viagem); fixação de linhas e postes para bondes; fixação de suportes para luz elétrica; instalação de redes de esgoto, abastecimento de água, linhas telefônicas no Bairro de Boa Viagem e criação de um serviço de bondes ligando a Praça de Boa viagem ao centro da cidade do Recife, através de três avenidas. A implantação do projeto de melhoramento e modernização do Recife exerceu Cláudio. Notas do Tradutor. In: BARLÉU, Gaspar. O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício de Nassau: História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau, etc. ; ora governador de Wesel, Tenente-General de cavalaria das Províncias Unidas sob o príncipe de orange. Tradução: Cláudio Brandão. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005, p. 411). 112 BARLÉU, Gaspar. O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício de Nassau: História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau, etc. ; ora governador de Wesel, Tenente-General de cavalaria das Províncias Unidas sob o príncipe de orange. Tradução: Cláudio Brandão. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005. p. 181. 113 O autor usa a expressão “centro urbano” quando é possível que esteja se referindo ao centro administrativo. 114 ROCHA, op. cit. p. 19. 68 também grande transformação na paisagem com o aterro de mangues e a demolição de mocambos na medida em que a cidade crescia na direção ao povoado de Boa Viagem. Na Cidade do Recife do fim do século XIX, o povoado de Nossa Senhora da Boa Viagem é incorporado como um “nódulo periférico”, assim como o povoado de Nossa Senhora da Piedade115, os quais foram beneficiados por se localizarem nas proximidades da Estrada de Ferro do São Francisco, construída em 1858. De acordo com Noemia Maria Zaidan, com a instalação do transporte público, também ocorreu a expansão da área urbana. Desse modo os arrabaldes foram interligados a essas áreas, além disso, com a implantação de uma estação ferroviária nas proximidades do povoado de Boa Viagem, possibilitou-se o uso daquela localidade por habitantes ocasionais, bem como provocou o assentamento da população “entre as diversas linhas [férreas] e além de seus terminais”116. Mario Lacerda de Melo resume a situação desses povoados com relação ao contexto do centro urbano, da seguinte maneira: Adicionalmente aos tentáculos mais ou menos contínuos com os quais a cidade se alongava em subúrbios de densidades também variadas, havia, nas cercanias do Recife dos fins do século XIX, um conjunto de nódulos, ou povoados periféricos, não raro dispostos ao longo das mesmas estradas que serviam, nos seus trechos iniciais, linhas de cristalização do habitat suburbano. Eram estradas, inclusive ferrovias, que partiam das áreas urbanas e, depois de atravessar esses nódulos periféricos, dirigiam-se para o interior117. As atuais praias do Pina e Boa Viagem tinham grande parte de suas terras pertencentes a uma propriedade denominada de Barreta que por sua vez estava localizada na “Praia da Candelária”118. O acesso a esses lugarejos, antes da instalação da linha férrea e de ruas, era realizado por rudimentares caminhos. No caso desse estudo, percebe-se importante o relato da ligação entre o Povoado de Boa Viagem, precursor da formação e ocupação de um dos bairros mais visualizados do Recife. O estudo sobre as ligações, os limites e as barreiras entre o povoado e a cidade pode permitir uma visão mais depurada sobre a transformação e a relevância tomadas pelas localidades consideradas mais distantes, conforme ratifica Horacio 115 Povoado originado mais ao sul do de Boa Viagem, correspondente ao inicio da ocupação do bairro de Piedade que pertence ao município de Jaboatão dos Guararapes. 116 ZAIDAN, Noemia Maria. O Recife nos trilhos de bondes de burro 1871-1914. Dissertação de mestrado em Desenvolvimento Urbano. Recife: UFPE, 1991. p. 51. 117 MELO, Mario Lacerda de. Metropolização e Subdesenvolvimento: o caso do Recife. Recife: UFPE, 1978, p. 62. 118 A Praia da Candelária em meados do século XVII “compreendia tôda a costa que se estende desde o pontal do Pina até a povoação das Candeias, que ficava compreendida naquela antiga extensão, e com a referida denominação de Candelária”. COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. v.7. Recife: FUNDARPE, 1983. (Col. Pernambucana, 2. fase). p. 106. 69 Capel ao afirmar que “La expansión de la ciudad se ve facilitada por los caminos existentes[…] y dificultada por los límites y barreras, en un sentido amplio que incluye todos aquellos obstáculos que se oponen a la expansión”119. A idéia desse esboço histórico é tomar como referência o contexto da acessibilidade entre esse núcleo de povoação originado no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem e o epicentro do espaço urbano, circunscrito pelo reconhecido Recife Antigo. O antigo percurso entre o Recife e na época o distante lugarejo de Boa Viagem, que estava a duas léguas do Recife, era considerado bastante difícil, pois para se chegar àqueles povoados, em especial ao da Boa Viagem, partindo-se da cidade, era necessário dar início à viagem com a travessia do rio Capibaribe, entre a Cabanga e a bacia hidrográfica do Rio Pina, composta pelos rios Jordão, Pina e Tejipió.120 Desse modo, alguém que partisse da altura da atual ponte da Boa Vista no centro da cidade, deveria, a bordo de uma canoa, percorrer o leito do rio Capibaribe até a localidade denominada Paço da Barreta, que ficava nas imediações da Ilha do Pina e dali seguiria a pé, a cavalo, ou a carroça em direção ao povoado da Boa Viagem. Historicamente, o Pina compreende o conjunto de antigas ilhas e sua formação territorial atual se deve a junção dessas ilhas. Existem várias denominações de ilhas possivelmente existentes onde hoje fica o bairro do Pina, como: Ilha da Barreta, do Pina, das Cobras, dos Coqueiros, do Cheira-dinheiro e do Nogueira. Flávio Guerra conta que existe uma controvérsia sobre a formação territorial do bairro do Pina, que faz fronteira com o moderno bairro de Boa Viagem. De acordo com o autor, é comum a discussão sobre se a ilha do Nogueira não foi, na verdade, a única que sempre existiu, ou se ela realmente absorveu as demais. A fim de resolver esse impasse, o autor descreve que a ilha do Nogueira pertencia ao senhor Antônio Nogueira de Figueiredo, que quando nomeado sargento-mor, via carta-régia, também recebeu essa ilha como prenda, em 20 de dezembro de 1718. Já a ilha do Cheira-Dinheiro que se chamava assim em decorrência do apelido de seu proprietário do final do século XVII, compreendia a parte do antigo Pontal do Pina. Fundamentada no “Diário” de viagem do Imperador D. Pedro II, em “Roteiros da Costa do Brasil” de Vital de Oliveira, no “Dicionário Histórico e Geográfico” de Sebastião Galvão e no testamento de José Bento Gonçalves, a pesquisa Flávio Guerra conclui que “está 119 CAPEL, Horacio. La morfologia de las ciudades. Barcelona (ES): Ediciones del Serbal, 2002. p. 84. PIO, Fernando. Noticia histórica e sentimental da igrejinha de Nossa Senhora da Boa Viagem. Recife: Imprensa Universitária, 1961.p.07. 120 70 provado até juridicamente que o que houve foi um ajuntamento das duas ilhas [do Nogueira e Cheira-dinheiro], pelo entulhamento do braço da camboa, ou foz do riacho do Pina, com os serviços para melhoramentos do Porto do Recife”121. Entre as citações que faz o autor com o intuito de confirmar sua conclusão acerca da configuração territorial da Ilha do Pina, destacase a anotação realizada pelo o Imperador D. Pedro II em 1859 no seu diário de viagem: Fui às seis visitar as obras do porto. Segui para a ilha do Nogueira, chamada do Cheira-Dinheiro, no tempo dos holandeses, e aí vi os edifícios do Lazareto, agora ocupado pelos náufragos ingleses na costa do Rio Grande do Norte. A ilha do Pina, onde realmente está o Lazareto, já não é separada do Nogueira, porque taparam a saída do rio do Pina, pertencendo esta aos estabelecimentos de caridade, que a arrendaram, havendo um bom viveiro de curimãs e tendo já nove mil coqueiros.122 Em 1876 Gustave Mermoud desenhou a ilha do Nogueira dando uma idéia da diversidade de ilhas que se encontravam nessa localidade e de como era dificultado o acesso àquela parte da cidade (Figura 4). Flávio Guerra em referência a essa localidade destacou um informe geográfico que dizia que a ilha do Nogueira estava localizada “na freguesia dos Afogados, junto a ilha do Pina e que era bela a vista do mar, pelo seu extenso coqueiral”123. Essa travessia no entorno da Ilha do Pina sempre foi um ponto determinante para a conexão de Boa Viagem com a cidade do Recife e também com outras localidades importantes. Todavia, as características naturais da ilha inicialmente dificultaram essa ligação. Em 1923 a artista pernambucana Fedora Monteiro que foi agraciada com a “Grande medalha de honra na Exposição municipal de 1917”, pintou o quadro “Caminhos da Bôa Viagem (afogados)”124 (Figura 5), dando um outro exemplo de representação da paisagem vislumbrada no caminho para aquele sugestivo e pitoresco arrabalde, uma paisagem repleta de rios, riachos, ilhas, muita água, coqueiros e alguns mocambos. 121 GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Departamento de documentação e cultura da Cidade do Recife: Série evocações históricas do Recife. p. 251. 122 Ibid. p. 251. 123 Ibid. p. 251. 124 Revista Ilustração Brasileira, junho, 1924. 71 Figura 4: Ilha do Nogueira. Fonte: Arquivo Público Estadual Jordão Emericiano. Referência: M9G4 1682 1292. i oO t on DR. i pi o eir . P. R R.Al m S ol im oe s y ue ir a eu Pomp G odo P al me Esp er Pca R. C . 4d eO DO M ut . R. P e vao Gal R. P M. Car RA B . R.S . M. Pca A lf . G. . R Pi nt o quei ra R. Je ric o R ua ru R. Cel R. Th eo do miro S el va . La m en h a R. Jo a o P. Co nc e ic ao O. R. ER R. CA M ARA Rua R. 18 c. R. C . P. T. R. B R. B atin . or b. R. B B ro atat . R. A r R. el .E. R.C ebe Ru a Eta pa s R. R.R.G. L. S OR IO EM L is . a .A n to ni n R.Br ra C a ma .C o ca R.Br st id e s RMJ MS R. Ad erba Lo B ento da G Fa ro ta R.S CK R. Paca e mb u rr os Ba R. .D AV ONA o Ca la d DE RS. ni d .V gi i l de a ma DINIZ U Sa o de QUE E RQU E S i lve li de O R. Br . M. A . a ve ir KE NNEDY J orda o io R. R io Ma ju R. R ra do io Colo R. R to i o Bon i R. R D.E .R. R. C el. R.S gt. S Bar bosa . Rua Rua Ru a ra R . 18 Ja li ti cy AO PU LH Si n es io de A raga o das nio da Vi al En tr a a Ho tr R. M ai s m i a M ON A CO AV . . S. RJ. . Co nd e Mar ian o R. Nor ue . PI JOR N G ei e iro or im da Jr . Dà O O do F i or fi i rg .D R Coq uei ral nte R.A.L.Mo co om D P ed an ue l R. M r tr . .Es .M R es oJ el R.J u v. F. O l iv . R. C on Viv J. Fa r ia ao C ava po li s R. Br asil ai afe so n R. C Car lso eiros Br a nd eao eg oL i ar R.D R. En g. es Pas sos MI GU lc an te R.P S C. a il v LI X FE f. Pr o R. R. e.A o Rua Ju li es . R. L EL .D R RI . C . AFO R.H. R. el .N R .N so n na la Avi O ua R Glac e Ru a T u r ia cu R. Mari apo li s R. Ap arec R. Ca id a mpo L ar g La v o i nia J TE R.M .A .C . F. de r Fa Me R. R. lo I O n Aze nho ve do R. Ar c ri Moa R. .A R 14 º Ru a B a . enr a eo li n do lm e id R.C . R.H. nd oA R. D R. B R. a M. J.C . o ci sc n el so N R. I NH A R. G al.X Pca av. I pi r Ba r a ng ros a Al v a .A . R or Tav ar es Sa or R. Dr .V adl ir hu Ca i ta o Le g ri a Hu n R. Ca r lo R. Ju da R nha Cu ra l io PA RQ A ra u jo DE AV . C EN na li a R. M . b. am ng Pca .C e ao .E R ar mo DO S N .C .E R . a I ta ua R Ru a RI L Jo se l an dia Ru a D ou tor Fa SO b. CR U Z UZ A R. V is c. de Inh a um a C ng. i ns . L S ev . R P ca. ng AN G ZA I no Jun . . a ei r i lv J. S R. VE A A NI D d o Ac A. re UL i a Lm so C el .S AV da Pça P az Lar go R. al ho Ca vr P. S M aj f ta .S R . er R. .G .S SR ao P au ntM. ar ol .A co s . LH SE N CO OM D R. L. Lem os O EI R Cid Poad r toe do R. Ba R.L .A . R. Cr i s op. AFO GA PA Z R. Z . O GU A . So l DA R IA ney DI M D is JAR W. 3§ OS u in o T. S .A q I A ER R Ru a FER Pca Ga lv. S r. TE GR . AD RA CO el . R. D J ardi m P AZ ALIFa b. MO ND A ES T . LA RG S GO IN F ig uei .IN DO TER M Ma r o cos ot ri . R. M agu ari R. Gu ar a ni R. I. R. P R. R.C de . B. R. . de D M hoa .U c R.A crit o Cav al can t e AS A/ NO ci a G. R. Pe . E uc il de s R. D emo AN TIG A ES TA Çà O DA D MA E R R A INH DO I A Ilha de Deu s .S R R.S b. . .V.M R .P. R ua R ES T . AF OG RUA DA Fa jao e sT . D eu e R d ua r G re . B R R. F . R.A lc . l ta Vo OND Fa b. UN OR TE m. Ad eli .A R ua R ol f W R. Prof. F. Cu ri o o en t rg Sa li va l S o me s Ca ave An a Ch R. val A der . se Gº .Jo EN R I A D EN AV EM UE Vil a SS CM .A r aci ai so R.E P ar R.M.P. L. R. 11 il e Pca . Sgt . ua R Wo lf . R elo ng .A i R st in . ugu Bal A . C. az c of . Pr R i nv Jo . .A. S R e ir a oce .D a A l ar ng. . C ova .A . N o ng .B rei .E ng ec R .E . R R .B ng .E Pca J. V R ei i ra .E R l iv Ho BO s p. A VIA d e G M l. O Ce .C. R R. Ca R. ip tI aja os i - R. Ja nd ai a AB ia ir me e l egr .A o .C ng S. d Ilh Des a do t ino Av R. jar R. R. Fco . R.A ug to .W os and G . F om §B Nov . .N . C op er ni c V o er ne UE .E R oa Pe ss e . .P . J.J R a Ru Mat T RA L . Filh B. ond o ir R. L R. Em i Av m ca tu oi ar os R R.5 de Torr N . de Li m a A E ng§. IR I B EIR R. s R. Ri o En s g§ .A l v. C. im ES T. IMB sa R. S.L R. 21D . ez . R.A prigio Al ves Am PIN A bo B ar Ma Ma mo re Ru aL aje s R. R.J aco Reis R. R. ar Ad io R. olfo Lib Ma no B ez a nio el er ra Rua And ra . Ca de r lo .A po R li s Ru aC a pit ao Ad ol f o Ta qui s . AV . J . ER .R NE S TO R . EP CA R VA LC A NT a- R. D r E .A . nd M. . A R zae lu. d .N a R el o es di i R. . L ar a M J ur go R em uim n a G ale a Re ir ere ua P R .J . a R lm aPa R. P d ir aja Ru aM a . CO CO .M L Dr. P LE R. BO EG IO ST G IO A A. VIA s MA GE ve RI. AZ . Ne M .P R. . z F . Do ca Cris o t O l RI o A . P mi e nte Lui .C R LO G San o t a Vi t i or a ar Am R. lv . Se R.Gal So uz a S q. F R. Sa nt O PI n. Mi de C ci C ar M am e uap ang DR PA t r R. Pin o Rua I . eol R.J . S. A M eD . d r.J. F. F. GA DO Mar ro n Fca C M . Az U ev S ed T C AR o av alc D ant ui na a Lim da e d .G . a V Saoil a de Ru a S t a. H el en M ig uel Ru a Rubi aca ea PIN H E IR O S FA C UN ULD IV ER ADE SO S Co n j. R Ca f es e s. opo lis s al e .S oi s .R R rit o A br eu Arita na Di di e Mano el R. ua R A RU R M . . Am R. Alm EST AN . T.F ALC A eia E Es tr a da I ta li a IB E IRA Rua IMB IR R.A Br a nca . Ma ia gir c.J de .B Ol i R. . AV . ve Mi ir ss R.P ion a ar or c io . G Alm al b . .M at os Lago Ara a d o ça J. A R. C a sa Me nel au R. E . Mo ntei AV EN ro IDA ir gu . bi ar r ni gn Jo aq D ona FE RM . t on io Ca rn R. An om ZA R. Dr. Vila Pin hei r os oel R od R od r i gu es ra l . R .A R a. e Rua an te sa Ro N TO AN E e Pe r ei ar R. Ip SO U Lun a A. Man Pca . IC ab R. O JO A R.B R. ern Ma . X. nd ar Go i m A RU . St R C av al c R.F ca .B und EI R A el i st a A RU NT OP RIO SH DE ly ue Rua Ru a ng aim R ra Be CI R. C . GA L. CE u de Ta RE ga Siti o G r and rmo R.G R. N. S. Ca . da m AV. R. M ar s Q. B AN DE I R A .F at elo da F ont e de Am st er o em Ca dr os das Ju Pu lso enc i or ce Cou RP. I. sn R. ar Ed i lb . L. Ba AV. rb E os NG a §. AL V ES ot n oH om N .S SH OP PIN eda G Ala m to an . C R R. JO A JA M AI CA R. An R. Br s.O on S R. eiro s Da ni el SA O R. Q Lea .S . o C ze MA ast . NG U R. F . Be . R.Jo n at E ja ra ES T . r ug ua RI RU A rte ir o ITA CA Ca .C . R.A R.P Viv Rua R.J.B. Li ra R.V . R.B. a se R. R AP CA . a RUA E JIQ UIA ti na gar Jo se Jo da C ost VI S d. R. U A AR l R. Me di na R. O a si s Te ju c up ap o os arr B o os utu R. V. . Fr L. R E va ua R Ru a Pe Jo R. J .C . . JO . D P AM Ru a It a ca re sco R. Ja Mu ri it b a AV RU A je R.Pa a R. Jo ra qua ra R. Ara Vila Mau ri ce ia R. Os. ri j. R. Ca C. R.Rin.V.F e rn an des R. J. Ba ra ta Mi l l et es abe .M R eto T .A N NE CRE VE D S O da B or ba . E. R Abr ant Ma no el L . Ba rros R R. P a les Do LE R R. A r ac at i R. Tan . R O DA EST no R. Al m ei Fab ir cia Ja ca n a Co rr e ia R. li vei ra ar e s R. Jo rn. C .d eO IB E IR A CLU R. T av TAM AN D Jor ge R. R. Jo se A. DE n it o a r ES T . MA NG UE I RA R. Jup a i ca R ira O il ve R. n. Te Fo n et s Ip ojuca Da ys Si m ao VIL A sia no . ez oq ue R. Juar e. R P RU A n ha as AN so R.Bez i T FA IG A B de ia S YO . pucaan L AN ack Sa ta . Bl C D A RH. q. de R. R. r uz .M A. Ru a R. Gra Mi nd elo nd ia . P r of DE R. UC Si l Lop es o iao e e Dam C o sm nh ao Ri o Ma ra R. ea l i R Ro Ru a io R. R FA V RE San to s in g Pca a Jac un d I ta im be aran ha ag a M / BE RO DO V IA RIO IMB IR R. nz R. F.V R. D. C. as R. C Ru a J orn R. P R.Cb. W . E . H. R. R ub ia ta ba R. Sd .G r ac . R. E m .C arv . l das F il h o Te ne nt e 12 § PM BAT PE R. Ru a Mi n ei r o la ai Far P. R.Q.B. R. R. . Go R.Dr mbi ra a Ibipit ub I rap ua I taca IT ANAGE Rio R. R. Doc e ns Fa ria upy R.T Or lea R. o ca Ba rr uj o .t Ar a R. P r R. U. . W . S. R. T. C. R.V M . . R. A B . . R. R. Da J. M. .N . R. Gl . R. L. M . R. B r .S. R. S G . . A. R. S B . . na te Via a r en R. P a Nost ra err R.T al aja ad Gu R. Ru a . M. Jo ao R. R. Mac ae Dan c F. R. . . F R.F an R. S im i ir Ib m a R. l and i Uber R. a t ma ari m Me Tu pare R. a Ru Iraq ue R. Pro f. Ca R. J. Pe re ti ao And rade s a Con Ign j . H An es ab . dre azz a ba J arat u R. R. . IA S R. e nvi . B R. Da R. R.S. N. NE VE S Bar ral de rn ande z eres Pra R.Ri o R. A.F. P. R.M. . R.L .P . Fe ap vl e s L O ET da R. A pi Ca R. Joa o DO Jo r n .A O. R.F . al s.A . Ca mar f. A . S ori an o EMI LE R.B. I. A.V id Mon R.C .A LU ZIA R.F .C. ub a O ON EL BRA CA na ce Lu R. R.P. O.R R. M RE ha es P. S AE S AV. ESTANC R.Mo caj NC . Pero IRA ba ES T .S . ES TA . R. F a R. T. Me lo EM D O OA RI J V. A r Bar e r iq u Hen TAN C U TO . R.J. R Pca Pca A R. Mq. It an ha em 18 R. J. P e sso R. Ic. R- e VI AD JEAN R. J. i as IP S EP Pq. Ro be rt nedy Ken J. R.E. Mag al O. R.A. L. R.R. es Gon cal v . R.L .R Mel o C. R. A. Vil a F ar I PS EP R. dos Pca P or ari aL ucia Mari a Luc ia R. B .M .B . ra s ern. Pca z i Va o 3¦ T r .F. M. VI A D U TO S SE AR ULI GU IM ot .r bl a . Vi E R PASQUAL INE FATIMA ma O LV A GA R. TO IO ON es o Marco nd Ru a Alfred l o Fi h R.P.G F . . i na ce l n Nelso BERT SE N.RO AV. Pro f . Av . C. R.J. E. SALDANHA AV. E .C. R. J. DO R.L au d. Cam. VIL A i vei r a st re co Arq .M DY E sd NNE Pca el Co l on ia as Mar A nton GOI S DE Bei rinh a .K E R. de O l R. I sab mar R. A l ago Al d e R ES R. A .C Al vo r a da Pca da SU D EN AV . P VIL SU A D RINHO DE M AA NE I UNDO R AM AV . Mel o s R. 3 1 NIC OLA R. AN T o. A L BU R. R. al n te OT E CAL DAS CA C R. S .L . R. T . .Li L.P Fa b. GR UN AL IM G E EN TO S in ho p . E.F R. Ca ap. R. C EL br So I SA B SE NA I eS o d. .G j .Ma R . l y e a nde r rd o W Ed ua Prof. r. Pe aA Ru . R a R. A. D. F i l ho R. Carp i na voe ri a Ca r o s tr Ca e od ar a . D. de V. ua R mba a IA S l o h Ru a Bor el son RUA SEN. ALBE RTO .N R io to d r . Me ba .D R A. Fre i Fe li x Ol i vo l ra l J. Ama M. ice nte ap. V R. C noe l re i Ma R. F Ag ui ar ap . M. R. C o ut i nh . F. Co R.Cap i vei ra u iza Ol R. L so Fr ag o l va ro R. A R. S AO T OR bo Pc a Olive A leix ir a o de Ari Ad olf o Ru a LW . L. RR E R. A .S R. G al. R. O. Sal az ar Pca b. Al os . . C R. A Car V ila de al x ei ra eS . Te i h ei r o ilv a R. B . Pi n R. A R. P N I R. R. M. al es R. C aca Cap u AR E ap. R. C R. P. R. R. S .B J at au a nr ba a b e R. Au ro ra C ac ot e GREG CAP . R. U. AV. go c o. Re R. F c. .C. Ro R.Cap noj os a t . J. I R. Sg em R. M.V . R.I . R.A. R. rl Ca R- 8 R. MET C.C ES R O .O . WER T. R EC NE U I O RB TE J IP Ar R.A .G. l. M. R. Ga . B.M. R.M. J pura R.A do S e na Pca o o Re g p .A . d R. Ca R. M xas pe u ssu re R.M r ap ua ar . . S ei .F . ap .C .A R.C .Me lo ap .C . F R.C . . C e rq ap . A R.C R.Sin d.B an c a rio s o v. V. R.G R. Gal. R. Jos eA R. Ana Pi e r s de Lus to sa Fel i cio R. Artu r B a rre to R. Ma j. R. A AV. CHICO MEND M ES en des RIO Xim bore Chi co buc a s da nca Ca m Cria Pca ta u da r acao Ca l. s .Bu tr . VilR. ae .Li no R d. Bo. Vsian T. L. R. R. C aci . IndR.C.S a R. C ati . us tr. Pca C aja . H eroi s Res . A. R Pca R.C . B ra nco Pca Be r n. V. Me lo e sq . R. P or es t a vad oel S al R. A .C r uz R. O . Pe s. S. T . AS SBO R. Sa nt a do C ap C. bi a r. R. A.M . N. R. G . HE LD / CB TU IDA CF N AV EN an ca ILA M an Flo r Rod r i gu e s RU F I NO .V DR R. R. R. P.P i nto LU Z R. J. Pi res . Ti nh .B. R or ao F. M ou ar AV. Ze Tab Ilha do R. ca aia res R.Sta. Mar AVENID A ia ene e G.d Ra ul 2§ JAR DIM Pca La Co run a Rua . Ir R os M at s at o . GM .M. R . .P R al et ub S R. Jo a Pça da s Cas u ari nas q uim AE DE RO PE C LU RN B AM E BU CO 16 DR . D IR CE U V. F ons Jo a o o mia R.Jo d Ba rros Ast org a R. N. 2§ Tr. R. R. AN GA R. A . b. RI T O de A sf Sou za oar EN CA N TA Ca va lc . R. Dr. A. DE B 34 .E . R es om G Jule s R.D. R. Pc a . R. N DA NI VE A P. DO R. I bi RUA R.Hon o r. MO Pça T. E. R. Sa o E. .C . ro ast C R.H .S . R.d o as a zon Am At ves ov . l Ma no e R. ra gue i Luiz ri o de de ap C i at o R . st ud E R. RA C A ua R R. Pa SUL Ri oj Jrd . A bel ar do VI A D U TO CA P . T EM UDO rra c. B rit o sto Au gu nh eli eb Ond ni o a R. A. .Fi hl tos R.S as B PON I R.A . B. . .l Co rio n. R.Ma NA R.J. R. C IAT E nto R. R. S AV. A R. J. T. or a Hen A sf Ho sp . UN IME D /R R. C. R. P. ENG. R. Pca A. E. Jorg e S. R. N. Bal tar C. J OS E Cer va n t es ECI FE EST EL ITA SO R.Go v. Rob .M CA R DO TE / JOA PO N OS LH OE de POE TA C R. R.Ala g. Pca B em . Ch or a Me ni no CI O R. Bi t . QU IM TO Jasm im R. Po r R. An e S. S.G do . D. R Pca F IC I NA S Se r gi o S A RU A O O 500 R. Al ba c o ra Be rnard es r SE a p ni do Mar j o R. B a de R. De fl i m res so P. R. Tv. CRU r nca A le E S. OR FL s do wa l Os MARIA NO D R. e og de im se d Jo or Am R. Ba rao Pr R. Ca m ba ra DR . JOSE . .Cam R Lore to J do FID EM ONC R. EL R. MA NO es a M ai BR TEI A SI LI MO A SA aq ue q ui m da rte ru re la d o Ma R. Pa R. Es pa R. Es t R. Se rra alv AV. nc Go Rui CI A PI NA DO us a R. Me d R. Dra ga o Pi res OS R. Go lfi nh o R. G.Kr. R. Art ur R.Parg o Ru a PA T CF EO D N EO BA a ga h l ae s to na Cap . . R s R. do ci s e di M uLce R. Ma t. CO OS C UT A INH R O R. do R. Marq ue s R. d os P ra ze r es V IA DU Afran o i ri de B ui m Joa q R. R. An t . Guimara es . i na rmP R.A l o R.Ja u . P Me R. Pc R. Br . as o a C o . M.A l oni po il R. R. J aZ s Ar ag -1 ua ri R. DIAS CO EL H I NA c on Ch a gi uel ho R. A. Orla n do Ba rb al Ho sp UN . IM CO ED 1 SA L E LE G SI IO AN O AN D U JO AQ UI M R. Dag ob e rt o R.J.R. R. L ui s Ho sp . ST A .H ELE NA P AI S S da n vi n Be R. P. LE IdeTEPca . M ir q ue An d. R. RI QU E O UA D DUR G. Frei tas R. Ant. ILH en . J. J. oi an G R. Do na RU A GE NE RA L SA N HE N R A . de Me dei ros R. D r. PA IS DO TO LO IAD U P AU /V OA O TE vi o r ame o Li v cd. d R. E. C. at s A. A. C. D. PA P AJ PI o si R.V de F rei R.PA IS SA ND U CA B CL ANG U BE A A.B eze San t os Lei te a icu b da C os ta ua R R. C. Al cid Le e al s ir a e Vi cen ci a Ru aP er e 26 A OC M R. tI a - J an R. Rua TE R N I T MIN E G AL JO R D A N E ACA E A ST O B EZ. ER RA A CO TU N EL SC I E NC E PTE . P RE F. E CH I Po lic Sant os S.C . LA R Ho sp A MA . S. RC OS rq . R. A a l do Re yn ouz a de S CO P. G ue MP r ra ES A Jrd . G i uba ui t . LIM A CA ST RO da ar BE ZE RR e l egr a .V.A R . biI ran dei Pca EC N IC A Ban AVENIDA R. N ova da C a b an ga Jit o L R. R. Bu ja ri R. Go t o R. N al n t ci o . Al IMP ERIA R. Je q Moç . Qui x a ada R EV ES FC AP AT IA ST JO R AN A R ga R. Iob i muta n Pc aP R rof ua J. S mith e ta ÇA Rime1§ JA RD t IM ua R R. J. S R. A . ILH A por a R.Pe. C. Bar. . M. d e Mat os E. NO BA LI RIO V. RE A BE I RA R. J. DIM Fa E IM RE CI FE AV . FR SP OR T CL UB DO p oa ba .Ta R e. R. C Nort an do . D. R. C R ai vi . R. Cai t it i .D R bi R. Ca mbu i Ru a D. TIRO CO QU E RE emo s ILH A Mar qu e s R. H . L DO C. E. CA B R.I . eca 7§ D DE EPO S EX SU P ITO R ER Ru a Ca C IT IME S.S NT O OSDO .N . / N E. R. Co m. A JA R T. Dr . do So uza CAN AL Al ba n o Es c ri to r R. A br eu R. Ta ba ai res R. Car ang uejo Ru a Rua Bairro do Pina e arredores uz Cr E do o t e Bec an stud AV . Rua . R Z A. DA CON RDI CO as a rt aM A d R. Ver do iz st a Vi R. Un . Tv. Ale g. R.Esp er. A tum Pca Ma c ei l O or .F R IAT CL E UB E RE as R RET BA H. .P . R r grei Ne te ns Af o R. da os s est . da R Pca R da as . R To bi r. C do Im ri sti na R. l . o F de . R o va l alm P a. St S. a abu co PT E. d es Ve r Her Ru a a ospi H VI STA J.N as ir a P en ach a do e. do br tem Se cio do R. R. R.F re i a Vi at RI T A Pca A. R. DA da re RID H buq R. . N ov a s reita Di n ha .Pe do h AU AV . N . .P R .d o . R am Livr R.do ai s . R SH OP . PIN TA G E S P OPU LA R D SAN TA DO A SOL i ao Un ade ud Sa ci oi sp Ho R RO C ri n e . R U A R. R Mat de Al R. Flo Pca R D. l R. da 500 FE R. o ES A YR o s seg So . RD CA . F. Cam ec D A Can AS I C P R. t a Ri e Jos as al cad C in ra A gu da s EM TU CI . R Pca BO A 4de o Bar 2 ai M . ret o R Pe R. au r . Pca .M e d de A ss i s pe rat ri z Pere PO BIS BO VIS A TA ES PI R SA AN R.N TO TO M. do NI O R. Te o . G al o R. S emea J. RUA CO MA L EG R I IO STA a Ru Pi nhe iro Pca V si c. a Mau S NT A DA . AV e Diqu do R. l de Pca i a Vd 5P R. ont 0 R. . Tv E RE S TAC CIFE A O Gl o r ia O TO da B. . . S. F Tv R. R. RU no el .Ma R. D ro ed P CO LE NO G IO BR EG A CE L ED PE IF. SE DE Ho Hosp sp . do . ST A .C PR OG AT AR R SH E S IN A BO O PA SI OSO R. AG ER V PING RP VI STA A E IX O P IA N A RU Os va dl o DA DE Pca Cru z SO LE R.Vit . R.Sar. or iz un . no tu il nda rof. R. P de s ta ati s R. B ao o a nda Br rd nr a ni o ero ria Ma O LC A FA a ol ni ITO BR no st i F au LO ME E O EI R Ru a Ru V as R. z. De Lul a C da S. do ai a Pr CA R MO Tv. R. E . IT R A a R. Ci n rt nI d Pca ep . da e nd . RCC .A. R R. R oda B. .I . que i ra R. Ca mp R. 1° M. Ros a rio Pca 17 RUA Camp C SIZ OLE G EN AN IO SILV EI RD O A M. R. Po mb Mq. R. os do co A RU Ge S. R. R. MAIO a Ru da . P. R N RR A a Ru C RU e go S oss el ho Co . AV o ra ld R. D do SU S SE SC E 13 Z Fu Re c. PT . E. R. M DE B RO TE M SE 12 MAU RI DE NAS S AU PT E. DE B . . a PT E. MA C ED O CIO Pç ad aR e pu blic RUA cao AV . MQ R. Vi g. . RA P . R. A . A. DE LO C. A C R. . R IA V. A do ia Gu .B. R sus Je B r. R io Pca DO RE LF A P O B oi ne R. R.E. do Tv . ua R Tir R nt Rua P ri Pca m av Oc i de nte RI A R. Mo d i nh o o We r nec k A O SB LI A es o Sa TU de ade T ri a den te s Ru a Pca IF E BS ER V AT . Pca A Osc rtu r ar R.O RE C DE M. D.J . R. da l oo Ap OR NA L RA + C vi PURCAD BL I O CO ci a er a CE NT RO SO AR R UN ADI IV O / ER SIT T V AM AR BU IA CO TE B ra R nco PA MINA SSA L GE D E IR OS rio OL I Ten o N DA R. To maz. R. Mo e da R. Ar . T. A . B A PO IA RO AU TV .J AM AR O Pca Fer A . r. DO / BA C DA RA DI O ndi GU AR DIA AR AP RI O D ES / E PE RN TV SE N AI 1000 mMeters R.A. M. Q UE I R. AS C BU AR t e Lei i ga d oV e GIN AS PE RN IO AM SA BU CA NT NO O R. F .V .S Mar . o oS an t o + + + + + + + + + + Pca al d Fonte: Carta de Nucleação Centro - Departamento de Informações Municipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007 QU ED E AU TI IF E CA go ER Dio I O MO XO TO n de R.Co n at i ba R.Ca ra na i R.Ma y . de R. M. R. S eb a sti a o G ran r ac at a Pe bra oi m a C ost C . .O R Griz . F. R Oia poq pa ira RI O R.Tu a Vic oso Ri o .T . R ia R. JOS E Mar Por da . Ru a na s . Pe a R.Mag no li a R. S t a. ha Ma rin gua R. A agi Ru a Arac ega N o br R d a Pa lm e ira C. R. O. R ua Pa d re JU ++ + + ++ CEMIT a i bec R. Mur IS R. G.G.S . RUA A uro Li ns ra ti ci c a An a R . P. R. M . MIN AL RA . DSo lEono po il s CR RO A O ar a C am R. IPO R ua R. F. DE GO CA te al IS A BE L Oi Rua AVE NI DA DO NA yres .A E. R. Anton io C. R.M. M. R.B.C arva P or l al C R.D. A.H. R. T en . a t. Lu R. B R. M. . t er la R. er rey va Si l R. Pn d. R. m ar ac a I ta eira C ach o R ua R. C . i a Alme d x an dre Ru a Al e . s R.L .T . Be rnar E C. Lo pe F. Po rtu ga Ep ti R.I . C. Vin ci R. L. d a R. Pr. Av . Ma .l Ru a J. R. B. Cos t io P nt on R .P res . ta Pe rne Cru z R. C . d e ira n de Ba ca B r an gu a A Fr R. Reg o R.S.E. R.R .I. R. A NT .G . R. Art h ur VA E SIL so a a So uz R.J.F . R. A Ru a Da. A ld a R.J.G. Pes R. A.R. R.O. R.J oa qu im R oi R. R io It oro ro O cea ni co K. R.D . R.F .F . e e ri a He nriqu R. S. M R .A . Ru a R ECI F Ru a AV.C . R.Dr. S. R . Sa n. Net o R. Si vl . B R. R . Ve r. os .C R odr S. R. il ve ra nia S A V. al en o Ju v. G R. .G ab . ta de a Ang el R. L .F . Pa ri s coi on Le R .En g§ JB .. C ava cl . .N . R .J s R. I sa be l R ua a Jos R. ha Ga ma R.G. D. AC Ni lo R.Cruz e a Ru R m q ui Joa .M R.G ra R. an R. R. P. C. gu st o M P ec r rtu A Au Ri o nd Lea Pr es. It aja i A reles i o Mei n U TH AR . R. F o gue s Pe dr eo l R. Ma rc R.E.C.M. M . . R.C.P. . Jr . R.M G . A. R. P R. R.S at urn eira io Ba nd R. Ota v R.S .L . of e Beb erib Per. Pr Gal va o ir a R ua AVE NID o More R. A lva r R .I t ap. da is d e Ass ra . R. B R ua . de oM oa R. J R.C .C . o o Pach ec N O IBS G Lea o R. A . Mi ran zon as eze .B ME Ca rn ei r o R. I . Ma gn R. Fe li x So uz R ua a eir R .B Pe R. S. R. P ort oE s d M adr i R. e S a A nda o RE va MA SC B ra MA L. S el R. Ani si o Jac y il o do R. Mac ha Ru a Heil o reto co Bar F ran ci s ma R. Ri o A R ua io ns T oca nt i R. Ri o R JO M Ba P esso M. R. is RIO A. ra L ima R. R. P e.L i ma R ua Heracl Pi nt o N HA S Vi c e nt e i R. Ro I ta j ub a R. T urim Ru a Joa o arr oq uim T eo dom i ro C R. M. i no M. R. Ale xan dr R .M Ru a i lva S da i or ir . rne ue Ca .Fig .P R.A SG T. a TO R. R. Ru a Ra po so A le Ru a DE on nd a ag Br or R .P oe ta o ao R .J . C arlo ma nha Le R. o bas ti a R. S.Se It a ub a R. H er ac RODRI GUES JOSE me id a Jo se Ho l emb a ch es gu Ro dri ag . Al J er o n mo i n i a i R. B .V . Gu ab ira Rua Bar ros R. Ru a h. de SI LV I NO V i rg MO R AE S . ENAU R. BLUM s Vil a nov a P r of ce R. I ta qu i Pa es D ia Ru a NGY R. eu R. Gag o Co utin ho o Ir in Ru a tu ba Ma c had Ru a Ru a J os e a R. Sgt. Silv io al do Vi truvi o os Ru a R. Eu ric o Tab ra sil e ir o . J ose B R. C.Mac R. Ar tu r Li c R io . S. B en edi ot Li ma R. POTE R.Uni f lo r de R. A ra ca R.Barr . Mo ns. r esi n a ana R. Osw R. Ga o r p. R. R. Tu rm . Ro ma Ju lh o ge on q. R.1 2 de c. Jor e Mo ura R.Jo vi IRA R ua ral d NO CULA HER b a as Cab RUA or t. O eso p o il s R. M.R. R.Cara ED e Pa z R. A bdi An gel o R. Carl os L . F . AC . RA C i ni o Pat roc R. Br. R. Ad. P H. F. leg. a Ru . R.J.d e O.Lima Fi lh o Mal . A RE CI FE IDA . A. UN S R. R.C d. iro a .da C B ANDE R.Co m. Mo ra es g. M a ir ade Pe na Fi l ho E LI M CA o E li si J oa o AVE N ID A Va p l ass o s Le a o de ar o Ba R. D a. C ar l os R ua Em i li o R. R. SI O R .Ir .A . R .J B ri g o se i da C. Ga ao ma Se R . S ver i no at . Tere z. R. S nt el m i e Ar n al d oP Ja pa ra na l Lu b am bo R. M a noe Lu i zF ig ue i r ed o . L. R. D r .O R. os R am R.B r .S GOE L upe rcio R. A . C. R. T er e R. R . E. B or J OS E i ca RA . F. R. C ap . F FE RR EI R. F .A. R. Te o R. J. Ma ria n e Li ns M ei ar er Ru a Va l d ir N o gu ei DE ONIO ANT Fco . U R.B. Rio l e- R. He nri qu N /C BT r uz HAES MAGAL Dr. CF Just AV. Dr. A de Ho ri z onte L ea l R. ba nal Lara n jeiras J oan a D'Arc Av. g re t R. pe N . R. L S. R. Gua rac i R. Mq .A RM G Gu araj u ba Ca R. R. R EP RM M RRV RUA ARA BAI AN L.E DSO Ru a R. V it RRA R. R . GA . . R. Ri ba s R. S ta R. C . F . R. o R.S gt . A Ru a ss os r qu e . R. D .M. P Fr. Pa . R. D .P.F H Ru a R. C.S.F eira egu .R belo s . D Ra ei ta R. J M. F. r a l. ros es R. G ar R. Dr. R.D R.E.B Gi l R Ro. . dos R. L. . S an .C to s R. M LI N S R. B.F. st . ele .C p. V ic am .S R. T. .X Am R. ho R.C . J.L. RET ar. Pin Al bu que I DA NA ZA Tav o . a F D. ni o R. F . M. E ST O R.C. Mo nt ei r R. ERN t in a i s R. El .A l me id a s Nov Mel o es N ord . Sil va fma n Ze f er Fi g ue S R. A nt a ME NELAU oe no R. OL IV IA GUE R. G. R. Cap . . R.C . J.P AV EN R. reir No rte P AULO .l G R.Ren K au PONT E Ga R. Da v id Te m ud o R. Ipua Sen .I P. Ca r a l i ra Band e R. to Cou ENON AGAM R. uba R.C .J.C JO PA . TA AV res RRC RA Se t Ru a . Tv. rin dad e O F. Fer R.Par. R.Pi .r AMA LH do R. C.A.R Rio R. A. d e R.Nov a R R. Ja ci a ra R.Pi r. A. R. do . l A oe M an R. A. do Lu en . Ru a T d. R. B. AR de Ma ria sco nci Fr a ei ra Sil v R UA S i lva R ua G 5 raz de ei l Ma a io o oa Uch nd gr e n l fr e Fco . os NU N ES R. Ca p .A Jaci r a I S C ap . Mac . LU o R.P. Un. R.Ant. TO r os B ar de R.D. QU I TE a R .N un es LV ES R. AB C R.Cb . ID A ue biq M oc am R. EL R. G ar ah l ei r J. G. I TO AV EN R. R.C. R. Di l erma no R ei s PONT E R.M ur ic i .l . De s.M A V. era ba Rua o R. Co rr e i Ub R ua R. J. J . Ne gr IO S ED ON G Be zer ra R. A .D uar te acon R. A. C Se r ro Ru a R ua . R. O R. D. H o nori t. ue qr u e Rua G ui ma ra es L. V. buq t. Pa c. Al R.J.Ca rl os R.I t. R. Ga l . Est. are la o ons IRA PE RE Ru a A. C. V Ap ol inar i Ru a Br R. Com. g§ .J os e io on Ant Cam p el R.M. R . En g§ . DA R. A J us . it no R uci la ndi a Cr OS D ANO v.de lb a rt o z R . Pi nt . R EM R. R ea e l za p ar En Ca du cos do R. Pa rai so Tv. R. Bi turi DE o Be co d e Sa R. Cap . AV . SAT. DE BR A S Tv.V . su ce sso ENH ra R.Cap iv a Sa L . AS CA R Ce sa r R .C ar R .D . Eu tro pio Ba nd ei ra M R.D r.J.C R. d o Ma ruim o da Si vl a MA L. il a R. d a V Gas R. Bo nTv. G . Ot avi oA rant es .M an P a o el di lh a s R ua R. C a be . RI O MO R A ES F gi ue ri ed oi R .A . Me n eze J. V. Men d on R. N ca a pol eao Ma c ed o T. R. P e. R. A. or fi r R. Cel .S ea bra co. P . R. E ng§ A. Li ma ir a . R. C. Hon R. F uza R. H .S o R. Dr R.H . C.A .R e . R. G s. al.C .L R. H a w ai RISM. Ch do F.M . R. P. T ei xeira RNRG. esp. Ru a eo to ni o Carn ei ro R. E . G. Ru a Eu na p. R. C an di nh Ru a a Lu zi .l R. C .do S u l R.B raga n ti na R.Pe .J. R R. Do m .T a M . R. D R.Pe. Azev ed o ng R ua .C Pr a ng of a. ac a .l R. Ru a Joa o li va R. Ba n d. R. Ol i m pio R. Lo uren co Tv.T ava o R .E R.A nt.A po d el o Af o n so R. G. R. A R. C. R e si RI O J. R.Ca ci mba o Jor n o R. R. Pa ul o NAT A R. A. B Lm i a C. o os La et dr os r es R LC Ru a An to ni o orge s JO R. Jos e SE R.Bal . amar RA U R. Gu. ha .A R. H. a L im P ref . RA DA E ST ndra de De me tri JO R.Con . X. Pe ce uB R. O.T uc. R. S R. Rea l V. Me l o zin R. B. T. R. Q ui RP C O R. C. V IANA R. Mi r an da R.Ves uv io R.Dr.A . F o. Ma ia R. 19 11 -red o R. It ei ra Me lo R.Jo a o M.L in s . Vi st a os il d a Co st a R .E ng .C ar na ub a RECI F E SM E V. Mel e Si l va A lf r ed o R.G . R. C an h. R. Cabo RVN SL. AC O DE R.Ol eg . Ma ria R. IA JI Q U e RU . R. G Dir s. o R. Ter P er R. Ur Ru a Bel em R. Ma d ei r a R. Carl R.D es. a it sta R. M. B eve do de Az s p. R.E .V . P er R.E. Su l y R.N ICOLAU R .J oaq Pom bo o Ago st Tv. do Ra po so L ei te Fe r e ir a R. L. Ru a I. Ru a T. R.T atui R. Ru a A. .I R.Cat al ao R. A zul T A m te n ci a R.A .F. R. J. Se l va . da H or io Fi gu e iR. do T ro e l xi o o t R. de M ou ra R. A ndre R.L .F .C.C Pe asi a l nd a i Ca bo Tv. B R. F r ei re Ru a Nov a Auro ra E d o Gu sma R. A. Bu R. J en os o eT R. A .L cil d e ite es R. R Z. odr R .M .O . S ob . F . R .P r. e.O . R. H R ol m . Tor i rei r o Go mes it o R. s Tv. c. R. D . V. P .M a rf R . V. C a . A RU F el xi o Mel r a R. 21 ant o ai a Camp o niz Mu do R. Pes N Az edo Ru a do Rua t oo Pe ix ia Ma r M. R. Anto ni o on de R. A ragu Ru a Tv. d o R. ao Jo guei B. R. de Me lo M R . . B. Ep am ch. S en . R.Gu ap. do s a mo do R R. de C. R . Jo ao A I NH RD S TA MU d os S or te Ru a . RB A No a R. Rea e l za Ca mp os 3 R. .N R.L ou re nc ar i mb R. La C. C. . R. Ma riste l Az ul dra R. Pe ti nga u ara R. G red o Ru aB r R. B oa .B R. T o A. H Pe sso a R.A lf Mo ra es dre R. ud n i o G N I IB AR PI B CA S ao rt i a R. TA RIO io na nc Ve de R. do Tv. ce do Ma o R. J. P o nc ia no R. V. R. Ca p. . ab R.T R. t a. R. S Cec. C arn eir R. It a la cy Le ie t Gerais e. R. P ass R. P T. B. R. El pi dio Cam ara ert o de Al ex an .K NL go R. Re Pa do ao E NC AN BE I R A R.J o r n. da Por J ere mi as PAUL O Roc ha a Ru TI AR O SC CI AN FR er n. R. J.B ara o R. B a to r i da Vi R. ia A ta naz R. H umb Ru a R. C a l A t. .A n R. da R. ca Cario do o . Bec r oq Mar a . R. A A V. P O RT . iz Di n an c. R.J A . . M. A .M AV ES AL V R. S to Ru a P. . r Ja r d im RU J. L uz S. W . . R. S G A. P R. F r ei Fr o t R . S. R. Ato r B om R. Re cif e MARCO a Alf a n de ga q ue Da mas co Jo ao s o la nh sta R.I . Ca C. Oliv . PT E. 6 D E R.I. R. A s. R. B ui AVE NID C. Is rae l Ve lha S. M . os R. Cam a rat ub a . AV rl e Bu R. M n i as C. RC N R .J. B ar r M. F . . S. ma Ar R. s n to Sa de a AV. C. a Rua ndo do R. d o Espe ran t o a HO EL M. n J ose R. do C l ub R.El vir a ao r ag A e. J. do R. P ir o R. Ri be Ru a D. Ca i sd d e De us i R. . Ro cha Ru a no E s . do de . RS L Mari ze P N R. Ru a O iba nd e R. Vi sco CO S PE A RA AR GU Ma dr e o R. R. Au ri in o e R. Es a t do Jr. . PTE R. U. i S R. R. d e Ros a R. Al f re do Ro li n R. M a dr P in N i nf as st avo R .P. das R. rt s ua L in oD ar o Alv l red f l. A Ce R. ca u rja Gu ir ck R ode es . ao R. D Ga lv R. B i t en E. c ou rt R. n Goi a ri Al eg R. DE t oi a P is Ma R. a r ent Fl o S ol e da AV. SAO A ng e lo da R. Gu Ma a R. R. R. S t o. a a Bo rj . R. Imbi tu ba Rua R. C ba ngu ot u Sa o a R. d .C a Li m co Bos iti R. L Rua e r s do Co nce i cao R. d a EL C O R. AN R. I AB S R. R. C. C. R. Escri t. mb Bo de . da R. J R.Cam po s R. S port qu Gi ri r t. R. Ma Se te R. Mar Bo io ri on e R. lo h ue Ri ac R. a Ta bai a Pet. TA VIS TvCN R. B . M ar q ue s AV. . RJG A B oes Si m a Lim R. J ar d im Mon te ri o R.C.do Bisp o L BE R .C . Ca rm o t ira s F ron e BOR . R. M B. Mu n zi A BO ISA RL R . O. ur upe DO P. F og o F I CA in gue s DA R. Ca Sa Rua BR R. R. D. Gra nd e RE S MA G.M . DOS C. RI N . P PT E . AV ge l R. da s Rua r Li a Av. R an di a M. D om RF M o RV . O R. do R. Catu r it e A Joa II R os Do m A LIM O ME L ri o Xa vi er Ol vi e i ra Ga ma R os E ND RA RI O U. VI EI RA PE NCI PR I MA R. s ol i It ap ua AV . P it a st a xa i s outo Mig ue l C ADE ha R. Roc o Tv. C RO S R. S t a¦ .P . R. M V EI O LI Rua Lima R. Dia PE. I mp e r ad o r P ed ro II de ra nd A ID R. o pit a Ca BA R G ardo Bern s r ei ra Fe DE R. arae Gu im ns oll i R. d o CO ha C un . R. S TIN S ana a e id A lm rt . C M. MA R Rua R. SUN R. As . r .R R.B AV. DE sta . Co R. A KI NG Ru TH ER E O ND SC . LU B. R. . . . M A S AUD en. do . P. L AS SU DA de TI N V.M i as o in d de C. r. J R. D ina arip R ua so Af on de M e lo R. tur r aA B r um EN AV ho Ju l Far e id a R. E. P AL AV . sto Ag o de A rl t inh o Co u 2 ri a Ar de V ei R. B. R. C 4 R. 2 R. R. RT E i R.M . J. NO R odr G oi t. E IR LI MO ge al d M AR l Mon AL AV . DA CA V J or Mapa 03 72 73 Figura 5: Caminhos da Boa Viagem (Afogados). Fonte: Revista Ilustração Brasileira. 1924. Autora: Fedora Monteiro 74 A praia de Boa Viagem era caminho de viajantes do sertão, uma praia semi-deserta, onde pontualmente era possível observar vendas, vêndolas ou bodegas e também casas de pasto e de repouso para os caminhantes e para os seus animais que iam para o “interior”. Essas construções localizavam-se entre as primitivas estradas e a mata que era abundante nesse litoral125. Com a edificação da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem formou-se um núcleo inicial de povoamento. Nas palavras de Fernando Pio “só depois de 1743 deixou a praia da Boa Viagem de ser, apenas, caminho para o interior, começando então a ter certa vida própria e a atrair forasteiros e romeiros para as cerimônias do culto de sua capelinha”126. Com a construção da ponte Motocolombó no final do século XVII, em Afogados, a rota que levava os viajantes ao sul da capitania pela orla, passando pela matriz de Boa Viagem, acabou por ser desviada, sendo reduzido o fluxo de pessoas que utilizavam aquele povoado como ponto de apoio, deixando assim de receber mais os caminhantes em trânsito. Contudo, essa mudança provocada pela abertura dessa rota, possibilitou àquela localidade assumir o perfil dominante de núcleo de povoação. Outro impulso ocorrido por aqueles lados da cidade ocorreu a partir do ano de 1858, quando foi construída a Estrada de Ferro do São Francisco, que passava a oeste da povoação de Boa Viagem, ligando a cidade do Recife ao Cabo de Santo Agostinho. Tal ferrovia possibilitou o uso do local pela população que na época assimilara a cultura dos “banhos salgados”, que vieram substituir o típico banho de rio, comum entre a população que veraneava às margens do Capibaribe. Para chegar até às praias, as famílias moradoras do centro urbano, pegavam o trem e desembarcavam na estação de Boa Viagem, que ficava nas imediações do final da atual rua Barão de Souza Leão, na época conhecida como “Estrada da Bôa Viagem”. O percurso da estação até a praia era feito a pé até o ano de 1895, quando foi instalado pela Companhia Ferrocarril de Pernambuco um bonde puxado por burro, possibilitando o translado entre a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem e a parada ferroviária, sempre durante a estação balneária127. Um dos motivos do aumento da popularidade dos banhos salgados deu-se em virtude da influência das idéias higienistas, que formaram importantes argumentos para as 125 COSTA, op. cit. p.45 PIO, op. cit. p. 08. 127 BARTHEL, Stela Gláucia Alves. Sociedade de classes, espaço urbano diversificado: a faixa de praia do Recife. Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, PIMES/UFPE. Recife, 1988. p.42. 126 75 modificações na estrutura da cidade pelo poder público. Concomitantemente, o processo de degradação ambiental causado pela poluição do rio Capibaribe pelas usinas de cana-de-açúcar também provocou a diminuição do banho de rio, conforme destaca Vera Lúcia M. Melo: As paisagens do rio também se apresentavam degradadas, como resultado da poluição causada pelas usinas, que jogavam as suas caldas, ou o vinhoto no rio, causando um grande impacto no meio fluvial[...] dessa forma a água do rio foi deixando de ser utilizada, com as casas voltando-lhes as costas, pois, desde o final do século XIX, os banhos de rio foram sendo substituídos pelo banho de mar em Olinda[...] no século XX, a partir da década de 20, os banhos de mar e o uso da praia com a finalidade terapêutica, de recreação e de lazer, se tornaram corriqueiros, com os veraneios passando a ser feitos, principalmente na praia de Boa Viagem, na zona sul da cidade. E, assim, a água nobre, que antes era do rio, passou a ser a do mar.128 Foi nesse período de valorização dos banhos salgados que surgiram as primeiras casas de veraneio. A partir da década de 1920, Boa Viagem passou por uma série de mudanças que a transformaram em uma extensão da malha urbana da cidade do Recife. Dentre as intervenções do Estado que contribuíram para esse fenômeno, destaca-se a construção de três avenidas que ligaria o Recife a seus subúrbios balneários, localizados na sua parte mais ao sul. Desse modo, as praias do Pina e Boa Viagem tornam-se mais acessíveis à população que se adensava, no início do século XX, sobretudo, nos bairros do Recife, Santo Antônio e Boa Vista, núcleo central da cidade. Com a construção das Avenidas Cabanga, Ligação (Figura 6) e Beira-Mar, atuais Saturnino de Brito, Antônio de Góes e Boa Viagem, além da construção da Ponte do Saneamento, antiga ponte do Pina (Figura 7 e Figura 8), a cartografia do espaço urbano recifense ganhou um novo delineamento, com a valorização e uso da área por onde passaram essas avenidas. Com esse novo desenho da cidade, o acesso à Boa Viagem estava definitivamente consolidado e a área hoje conhecida como Pracinha de Nossa Senhora da Boa Viagem também se firmava como um referencial do delineamento da cidade. 128 MELO, Vera Lúcia Mayrinck. A paisagem do rio Capibaribe: um recorte de significados e representações. 2003. 276 f. Tese – Curso de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Rio de Janeiro 2003. p. 95-96. 76 Figura 6: “A AVENIDA LIGAÇÃO, que une a ponte do Pina ao inicio da avenida Beira-Mar. Ao centro, os postes de cimento armado, ladeado pelos trilhos da futura linha de bondes. Aos lados, os passeios arborizados”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 2, s/p, ago. 1924. Mapa 03 Acesso entre os bairros do Recife, Pina e Boa Viagem Acesso entre Recife, Pina e Boa Viagem rn in o A v. S atu Bacia do Pina r i to eA nt Po de B Cabanga Iate Clube m ga on en eP nt Po M G lo e r ra ue hõ al ag au a A A v. n tô ni o de G óe s N 200 0 200 400 mMeters A v. B oa V ia gem Pina 77 Fonte: Carta de Nucleação Centro - Departamento de Informações Municipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007 78 79 No percurso do crescimento da Cidade do Recife, essas avenidas foram fundamentais para o aumento da acessibilidade entre o histórico centro urbano e o núcleo de povoamento que existira pelo menos desde as primeiras décadas do século XVIII, nas adjacências da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Por sua vez, esse templo religioso que exerceu importante influência para composição do antigo povoado ao seu redor, também foi e é significante porque possibilitou a constituição de um ponto de apoio aos viajantes que por ali passavam, estimulou o uso daquela localidade como estação balneária e permitiu ao seu entorno a concepção de espaço cartão-postal. Dai a sua importância enquanto elemento da paisagem aqui estudada, no seu contexto histórico. 2.3 O monumento sagrado e sua evocação no cartão-postal: apontamentos históricos sobre a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem Dentre os cartões-postais circulados nas últimas décadas do século XX e início do século XXI, que contemplam o afamado Bairro de Boa Viagem, observa-se que entre os ângulos mais valorizados pelos fotógrafos no intuito de produzir a ilustração postal avulta-se o foco na Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Historicamente, a igreja ocupou uma posição estratégica com relação a Cidade do Recife. Estando a onze quilômetros do centro urbano, correspondendo ao atual Recife Antigo e bairros adjacentes, o templo religioso era considerado na referência das escalas da época de sua origem, localizado em um sítio distante. Desse modo, a ocupação daquele arrabalde por alguma população, possibilitou também seu uso pelos viajantes, que ali se abasteciam de gêneros que eram cultivados, criados e comercializados nos arredores da Igreja. Segundo Pereira da Costa, onde hoje está a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem havia “um oratório, ou presepe, dedicado a Jesus, Maria e José”, construído pelos antigos proprietários daquela localidade. Esse oratório seria então o marco inicial da origem do povoado de Boa Viagem. 129 129 COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Arredores do Recife. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do Recife: 1981. p. 46. 80 Figura 9: Escultura da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem em casca de cajazeira. Fonte: Feira de artesanato da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Arte de: Eliseu. Acervo do Autor 81 Corroboraram com a idéia de Pereira da Costa de que existia um oratório antecedendo a construção da igreja, autores como José Batista dos Santos130, Antônio Barbosa131 e Flávio Guerra132. No entanto, Fernando Pio contestou essa afirmativa alegando a falta de documento comprobatório133. Oficialmente, a origem da Igrejinha de Boa Viagem remonta a 6 de junho de 1707. Esse marco inicial procede do registro de doação concedido por Balthazar da Costa Passos e sua mulher Anna de Araujo da Costa ao padre Leandro Camello, de “cem braças da terra da costa do mar de sua demarcação p. parte do sul e da pancada da costa do mar pa. Dentro até hua legoa pr. donde corre o rio do Jordão aql. legoa he aq. fica logo pa. Dentro do combro dareia do Mar fronteiro a venda do Piolho[...]”134. A doação dessas terras comprometia o padre Leandro Camello da obrigação de erguer, a suas custas, uma capela para celebrar missas com a invocação a Jesus, Maria e José. O ano 1707 está apregoado em alto relevo acima da porta principal da igreja e muitos também comemoram a origem do bairro de Boa Viagem no dia 6 de junho. A invocação a Nossa Senhora da Boa Viagem, que batizou o primitivo povoado desenvolvido naquela localidade, teve em seguida o seu prestígio estendido ao bairro, que também emprestou o nome à praia, à avenida que margeia o bairro no seu limite com o mar e à praça, que circunda o referido templo religioso. Ainda no ano de 1707, especificamente no dia 27 de setembro, o irmão de Balthazar da Costa Passos, Antônio da Costa Passos e a sua mulher Catharina de Sam Payo, moradores do bairro de Santo Antônio, doaram ao padre Leandro Camello, morador de Nossa Senhora dos Prazeres, “huas sortes de terras no lugar chamado Barreta na freguezia de Santo Amaro, que partem da parte sul com Barthazar da Costa Passoas e da parte Norte com terras do Posso”135. Eram mais outras cem braças de terras, que deveriam ser anexadas as anteriormente doadas pelo Sr. Balthazar, irmão do Sr. Antônio, ao padre Leandro, onde este último deveria erguer uma capela. Essas terras cedidas pelo Sr. Antônio e sua mulher deveriam dotar a 130 SANTOS, João Batista. Pernambuco histórico-turístico-folclórico. 1989. p 190. BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1993. 132 GUERRA, Op. cit. 133 PIO, op. cit. p. 10 134 Regto d’escriptra de doacção q. fazem Balthazar da Costa Passos e sua mer. de cem braças de terra na costa do mar no lugar da barreta ao Pe. Leadro Camello em 1707 aos 6 de junho. (Ibid. p.99) 135 Regrto. da escriptra. de doação q. fazem Ant.º da Costa Passos e sua mer. ao revdo. Pe. Leandro Camello de cem braças de terra em quadro. (Pio, op. cit. p. 101). 131 82 Capela do que ela necessitasse. Dessa maneira, as terras doadas passavam de maneira irrevogável para o patrimônio do padre Leandro, todavia uma cláusula no documento de doação destacava que no caso do referido padre não construir a Capela, a doação não teria validade. Quando Balthazar da Costa Passos faleceu, além de reiterar a doação realizada ainda em vida, deixou constado no seu testamento uma esmola para a igreja referente a um terreno calculado em 500 braças de terra, dessa forma, contribuiu com o aumento significativo do patrimônio da Igreja. No trecho destacado a seguir, chamou a atenção o modo como se refere a praia daquele balneário, “praia de Nossa Senhora da Boa Viagem”. “Declaro que tenho hua sorte de terras no Combro da praia de Nossa Senhora da Boa Viagem, a ql. consta de seis centas braças de q. tenho feito de cem braças doacção a da. Snra. e pr. Escrita. que são as que digo que sãos as em q. tem a sua Igreja pa. A parte do Norte e correndo pa. a do sul ficão as quinhentas do Combro com trinta e tantos pés de couqueiros. Aonde está uma caza de taipa de venda, em q. antigame. morava Mel. Frz. Setuval, as quinhentas braças deixo pr. esmola a sobreda. Nossa Snra.136 A invocação a Nossa Senhora da Boa Viagem associada à construção de um templo religioso remonta a 1618, oriunda da gratidão dos religiosos aos navegantes que disponibilizaram generosas esmolas para as reformas das estruturas da ermida de Santa Catarina, nas proximidades de Lisboa. Em função da gratidão pelo marcante auxílio dos navegantes no decorrer da reconstrução da capela, os religiosos concederam à igreja a invocação de Boa Viagem. No Brasil, a ocorrência de igrejas sob a denominação da Santa protetora dos viajantes aconteceu a partir do início do século XVIII, sendo a primeira igreja inspirada na homenagem aos mareantes, edificada na cidade de Salvador, outra foi construída na cidade de Belo Horizonte e assim como a do bairro de Boa Viagem na Cidade do Recife, esses templos figuraram como um marco da ocupação daquelas cidades. A mais remota notícia que se tem da existência da capela de Nossa Senhora da Boa Viagem no arrabalde do Recife provém de um sermão proferido pelo cronista franciscano Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão na festa de São José intitulado: “Sermmão na Igreja da Boa Viagem, na praia da Candelária, fazendo a festa anual o Reverendíssimo Ignácio Ribeiro Noia, mestre da Capella, no ano de 1730”. 136 Ibid. p. 102 – 103. 83 A edificação da capela foi a prova do cumprimento do padre Leandro Camello para com o compromisso assumido perante os irmãos Balthazar e Antônio da Costa Passos, mas após edificado o templo religioso, foi necessário mantê-lo e suprir suas necessidades para a celebração de missas, assim como esperavam os irmãos doadores das terras. O exemplo da vontade de Balthazar Passos de que ocorressem as missas foi destacado em registro de doação. Seu desejo era que fossem celebradas quatro capelas de missas por referência à alma da “defunta” Maria Gomes de Mello, antiga proprietária das terras que foram doadas ao padre Leandro. Balthazar supôs que a renda para a celebração dessas cerimônias poderia ser retirada dos mais de trinta pés de coqueiro e de uma casa de taipa de venda que existiam nos arredores da Igreja. A partir de sua construção, a receita para a manutenção das missas teve várias origens, como esmolas dos devotos, vendas de cocos, enterramentos na Igreja137, espórtulas de batizados e pelo trabalho dos ermitões. Mas entre todas essas fontes, os mais confiáveis das esmolas para a celebração do culto religioso “eram os donativos dos embarcadiços, dos homens do mar e também dos viajantes do sertão”138. Fernando Pio descreve um balanço referido a algumas esmolas: Por rendimento das caixinhas nas mebarcações e igreja -18$520 Por esmola de hua embarcação - 1$280 Por esmola no patacho de João Ribeiro - 3$360 Por esmola que deo Manoel Madeira no seo barco - 5$000 Por esmola que deo o capitão do paquete João Oliveira - 20$000 Por esmola que se tirou na corveta do Cam. Felix Garcia - 5$680 Por esmola que se tirou no patacho de Luiz Ferra. Moura - 12$8000 Originalmente, a capelinha de Boa Viagem tinha uma simplória fachada, figurando, uma “feição singela de igrejinha quase rural”, remetendo-se ao ano de 1864 a origem de sua forma atual. Com a construção da Igrejinha, a praia de Boa Viagem, antiga praia da Candelária e depois Barreta, foi surgindo no seu entorno um humilde núcleo de povoamento, que além de participar dos cultos sagrados proferidos no interior da igreja também em algumas épocas do ano armavam animadas festas no exterior da capela, atraindo a visitação ao lugarejo. “As 137 Sobre o sepultamento em templos Freyre (2004, p. 526) relata que “Os mortos ficavam na companhia dos vivos: até que os higienistas, já no segundo Império, começaram a perguntar: “até quando persistirá a triste prerrogativa dos mortos envenenarem a vida dos vivos?”. Pimentel (apud Freyre, 2004, p. 563) destaca que “Só em 1838 o Código Municipal do Rio de Janeiro consignou a proibição absoluta de enterramento dentro das igrejas, ou nas sacristias, claustros dos conventos, etc”. FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Formação da família brasileira sob regime da economia patriarcal. São Paulo: Global Editora, 2004. 138 PIO, op. cit. p. 23. 84 festas externas da ainda humílima capelinha de Nossa Senhora da Boa Viagem eram notáveis acontecimentos sociais na vida simplória daquele velho e tão distante Recife do século XVIII.”139 Essas festas populares passaram a atrair romeiros que motivaram a administração da Igreja a construir casas para recebê-los, além de os cobrir de certo conforto com a disponibilização de, por exemplo: “preguiceiros de couro cru, camas de couro cru, esteiras, potes, panelas quartinhas”.140 Os romeiros parecem ter sido generosos com as esmolas oferecidas à igreja e eram bem recebidos, apesar de alguns desses visitantes serem considerados perigosos. A presença dos grupos chamados de romeiros no entorno da igreja em determinados períodos do ano, pode remeter a noção de romaria no sentido da peregrinação de devotos a espaços sagrados. Contudo, José Antônio Gonçalves de Melo141 destaca que essas romarias realizadas com destino a igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem devem ser compreendidas sob o fato de que esses mareantes, homens do sertão e devotos, eram romeiros que buscavam mais o profano das festas do que o sagrado evocado pelas missas. Assim, a ida à praia de Boa Viagem atrela-se a idéia de que a igreja estava localizada a tal distância do centro da cidade que visitá-la constituía-se numa verdadeira romaria com referência às escalas daquele tempo. Revelada como um dos monumentos predominantes nos cartões, a Igrejinha de Boa Viagem, como é popularmente conhecida, foi a responsável por centralizar atenções e possibilitar a exibição e divulgação de sua praça. Hoje em dia, o entorno do mencionado logradouro e do referido monumento, é composto por inúmeros e altíssimos edifícios, que quando fotografados em combinação com o mar e o céu, igualmente à histórica igrejinha e a lúdica praça, se compõem em cartões-postais, mas diferente dos vínculos histórico, religioso e público, o que se pode ler subscrito em suas ilustrações são os signos da verticalização, de uma das áreas mais caras da cidade e do status atribuído pela proximidade de elementos da natureza. 139 PIO, op. cit. p. 39. Ibid. p. 43. 141 MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 9 de jun., 1951. 140 85 2.4 Apresentando a morfologia da paisagem a partir da leitura da planta do Povoado da Boa Viagem em 1870 Segundo Paulo Reynaldo Maia Alves, somente na década de 1940 pôde-se observar no bairro de Boa Viagem a prática de parcelamento e conseqüentemente uma maior oferta de terrenos, como se observa no trecho a seguir: A pesar de todas las inversiones realizadas para la preparación de las condiciones en términos de infraestructura y de optimación del área, y del placer de los baños que ofrece el mar con sus piscinas naturales formadas por los arrecifes próximos a la tierra, sólo en la década de los cuarenta se observa la puesta en práctica del mecanismo de la parcelación y, consecuentemente, la aparición de una mayor oferta de terrenos. La transformación de las áreas de cocoteros en áreas de playa constituye una considerable provisión de suelo a disposición del mercado inmobiliario.142 Conforme dados do 1º Distrito da Secretaria de Planejamento, publicados em carta cartográfica apresentada por Duarte, sobre o parcelamento dos terrenos do bairro de Boa Viagem, tem-se que já em 1930 ocorreu parcelamento em boa parte dos terrenos encontrados após a área já parcelada imediatamente à beira mar143. Todavia, já em 1870, Felix Ramos Lieutier desenhou um projeto de arruamento para o povoado da Boa Viagem (Mapa 2; Mapa 3), o qual se assemelha bastante com o traçado atual das avenidas, lotes e ruas, do entorno da pracinha de Boa Viagem, podendo-se constatar que a grande diferença atualmente se encontra na indicação de que no decorrer dos anos o povoado apenas ganhou novas ruas. Assim, tem-se descrito já no fim do século XIX, uma noção de como se organizaria o traçado das ruas e avenidas que deveriam partir daquele povoado. O antigo “Caminho do Sul” coincidiria com a Avenida Beira-Mar, a “Estrada de Bôa Viagem” seria mais tarde definida pela rua Barão de Souza Leão, além de outras vias que tiveram seu desenho influenciado pela configuração natural do sítio. 142 ALVES, Paulo Reynaldo Maia. Formación Espacial de los valores del suelo en el proceso de evolución urbana de Recife (Brasil). Universitat Politècnica de Catalunya: Departament de Construciones Arquitectòniques I. Barcelona, 2002. Tese de doutorado. p. 90. 143 DUARTE, Ana Tereza Sotero. As Relações Espaço-temporais no Processo de Estrutura da Paisagem Urbana Recifense Estudo de Caso: O Bairro de Boa Viagem. Recife: UFPE, março de 1979. Anexo 11. 86 Figura 10: Povoado da Boa Viagem. Fonte: Arquivo Público Estadual Jordão Emericiano. Referência: M9G4 1678 1269. Mapa 04 87 Antiga Estrada do Recife pelo Passo da Barreta O Povoado de Boa Viagem Recife - PE - 1870  o Capella de Nossa Senhora da Boa Viagem L Jord ã N T I C Cemitério Público O C E A N O A Ri o T Ponte 70 0 70 N 140 m Meters Mapa 03 Legenda Coqueiral Rio Jordão Cemitério Estrada Capela Edificações Oceano FONTE: Arquivo Público Estadual João Emericiano / Departamento de Arquivo / Divisão de Arquivos Pernambucanos / Seção de Documentos Especiais /Acervo Fotográfico / Plantas Arquitônicas Série - Obras Públicas Autor: Felix Ramos Lieutie FUNDO: R. O. P. Referência: M9G4 1678 1269 Prancha: 1 Data Limite: 1870 Elaboração do mapa: Aline B. de Lima /Anderson Alves dos Santos 88 Mapa 05 Planta do Povoado de Boa Viagem e Projeto de Arruamento Recife - PE - 1870 # # # # # # # # # # # # # # # # # Tapagem # # # I Bacia de Desembarque # # # # # Cemitério Público # # O # C Antiga Estrada do Recife pelo Passo da Barreta # T # # # # #  # # # # Terminal da Estação da Boa Viagem # # # # # # o # # Capella de Nossa Senhora da Boa Viagem T Linha de Bonde # # # Ponte # L Jordã o N # # # Ri A # # # # # # # # O # N # # # # # A # # # E # # # # C # # # O # N # # # # # 70 0 70 m # # # Legenda Coqueiral Estrada Rio Jordão Canal # Lotes Projeto de Arborização Cemitério Oceano Edificações Capela FONTE: Arquivo Público Estadual João Emericiano / Departamento de Arquivo / Divisão de Arquivos Pernambucanos / Seção de Documentos Especiais /Acervo Fotográfico / Plantas Arquitônicas Série - Obras Públicas Autor: Felix Ramos Lieutier FUNDO: R. O. P. Referência: M9G4 1678 1269 Prancha: 1 Data Limite: 1870 Elaboração do mapa: Aline B. de Lima /Anderson Alves dos Santos 89 Esse traçado permaneceria intacto por muitos anos e as intervenções que viriam colocá-lo em prática surgiriam cinqüenta anos mais tarde, quando no governo de Sergio Loreto, decidiu-se levar a cabo o projeto de ligação entre o Recife e Boa Viagem. A respeito da resistência do traçado previamente definido, o autor Horácio Capel ajuda a refletir sobre a sua permanência: La parcelación diferencia el espacio público del privado que va a venderse. Se diseñan líneas divisorias, que muchas veces se mantienen durante años sin materializarse pero que pasan a tener una fuerza enorme y que establecen un trazado que es muy difícil de cambiar posteriormente. La modificación del parcelario, si es importante, supone muchas veces el cambio en el mismo trazado urbano.144 É interessante verificar que esse mapa de Lieitier se enquadra muito adequadamente aos ângulos valorizados por alguns cartões-postais, sobretudo os que comportam fotografias realizadas durante a década de 1990, como por exemplo, pelo fotógrafo Sérgio O. Rehder. Dos traçados daquele mapa, destaca-se como principal referencial a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, a qual nesse período já expunha as mesmas dimensões verificadas hoje em dia. Através dessa planta cartográfica de 1870 se pôde sugerir a indicação de alguns elementos presentes na paisagem do povoado de Boa Viagem em fins do século XIX. Por meio da observação dos mapas confeccionados com base na planta de 1870, podese notar a existência, no passado, de algumas aglomerações e de construções, que podem ter sido desde residências de pescadores, casas de romeiros, ou ainda vendas ou vendolas, conforme relataram, Pereira da Costa, José Antonio Gonçalves de Melo e Fernando Pio. A partir do enquadramento fixado pela planta é possível distinguir essas aglomerações em quatro distintos núcleos obedecendo ao grau crescente de adensamento. Eles estariam dispostos da seguinte forma: um núcleo estaria localizado ao norte da igreja, ocupando a área em torno de onde hoje fica a Rua dos Navegantes e se estendendo pelo terreno do Park hotel até as imediações da casa paroquial da igreja de Boa Viagem; um outro conjunto de poucos lotes que estão destacados, estaria ao sul da Igreja. O segundo mais denso núcleo de lotes demarcados se encontrava bem em frente à igrejinha e ocupava a área que toma todo o lado do quarteirão onde existiu o hotel Boa Viagem, partindo do terreno daquele hotel até as margens da hoje então Rua Setúbal. E por último, o mais expressivo núcleo em números de lotes, podia ser visto às margens da chamada “antiga estrada do Recife pelo passo da Barreta” que cortava todo o povoado àquela época (mapa 02). 144 CAPEL, Horacio. La morfologia de las ciudades. Barcelona (ES): Ediciones del Serbal, 2002. p. 81. 90 Também se pode destacar a existência de um cemitério nas imediações da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, o qual foi instalado em um local chamado de “Sítio Pequeno de Nossa Senhora” e teve suas obras concluídas em 4 de julho de 1869, funcionando até por volta do ano de 1900 quando foi construído um outro cemitério “num sítio localizado no lugar denominado de Setúbal” 145. A localização desse cemitério na atualidade corresponde a uma distância de 250m (duzentos e cinqüenta metros) em linha reta a partir da parte mais extrema dos fundos da igreja, seguindo o sentido norte e a mesma direção da Rua dos Navegantes. Outro destaque para a planta são os primitivos caminhos por onde provavelmente transitavam os viajantes e residentes do povoado. Entre os caminhos desenhados, um deles recebe a denominação de “Antiga Estada do Recife pelo Paço da Barreta”. Felix Lieutier originalmente desenhou a Praça de Boa Viagem com os limites bem maiores do que tem hoje em dia. Segundo aquela planta, a praça deveria ocupar todo o sítio que já ocupa, porém se estendendo até as margens do carnal de Setúbal, que acabara de também ser projetado. A Av. Conselheiro Aguiar que delimita um dos lados da praça, não a cortaria, mas teria na praça o limite exato de sua extensão. No local onde passa a avenida, deveria ser plantada alguma vegetação, que por sua vez, se estenderia pelo restante da praça, pelas margens do canal e pelos recantos externos do cemitério. Dentre os elementos naturais em destaque, encontram-se a linha de praia, alguns coqueiros e o rio Jordão. É interessante a constatação da presença do Rio Jordão tão próximo à Igreja de Boa Viagem. Hoje, o manancial hídrico naquelas proximidades é denominado de Canal de Setúbal e o Rio Jordão assumiu outra configuração, servindo como limite territorial do bairro de Boa Viagem. Por causa da conformação topográfica da planície pela qual transcorria o Rio Jordão, com suave declividade no seu leito, ocorria a diminuição da velocidade do fluxo de suas águas, causando o assoreamento do rio e o desenvolvimento de vegetação, que retinha ainda mais a corrente fluvial. Conseqüentemente, formaram-se lagoas, algumas bem extensas. Essas lagoas passaram a ser alvo de muitas críticas, pois se dizia que eram verdadeiros viveiros de mosquitos, como o “anophelineos” causador do “impaludismo”, descrito em um artigo na Revista de Pernambuco, que também defendia que o feitio natural do Jordão deveria ser bem definido e que a formação das lagoas e dos “perigosos pântanos” era na verdade um “triste aspecto” que comprometia as localidades em que o rio passava, como Prazeres e Boa Viagem, bem como o uso pela população da praia “tão pittoresca e procurada”. 145 PIO, op.cit. p. 59-61. 91 Para conter esse “contraste desolador” foi colocado em prática, na década de 1920, pelo Serviço de Saneamento Rural, a obra de desobstrução, retificação e desvio da direção do curso do leito do rio146 (Figura 10; Figura 11). Desse modo o Rio Jordão que tinha seu curso passando pelo povoado de Boa Viagem, sofreu uma considerável mudança em suas características naturais. Figura 11; Figura 12: “Alguns Aspectos do rio Jordão, após a desobstrucção e alongamento, realisados pela Inspectoria de Saneamento Rural”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p, set. 1924. De acordo com Antonio Martín, “En todas las épocas, los frentes de mar han facilitado el trazado de calles paralelas al mar y otras perpendiculares”147. As características da linha de costa da praia junto ao povoado da Boa Viagem pareceram ter estimulado a permanência dessa tradição morfológica do desenho do Povoado de Boa Viagem a partir do plano ortogonal148, como pode ser bem observado na planta (Mapa 03). Mas assim como a regularidade do litoral tem influência sob a característica do plano a ser desenhado, o autor também afirma que “los ríos favorecem planos regulares: de calles paralelas al curso fluvial, cuando su recorrido es lineal”149 e como exemplo dessa tendência, tem-se a passagem do irregular Rio Jordão por aquela localidade, uma distorção que deveria ser corrigida com a realização de sua canalização, suavizando a irregularidade do arruamento. 146 SANEAMENTO DE BÔA VIAGEM: Desobstrução e rectificação do Jordão. Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p, set. 1924. 147 MARTÍN, Antonio Z. El Espacio interior de la ciudad. Madrid: Editorial Síntesis, 1991. Colección Espacios y Sociedades – Serie General, n° 12. p. 82. 148 Los planos en cuadrícula o damero se caracterizan por la disposición ortogonal de sus vilas; las calles se cortan en ángulo recto. Estos modelos han sido utilizados desde la antigüedad a nuestros días en lugares muy distintos, sobre todo para fundar ciudades y acometer ensanches de población, por su sencillez de trazado, comodidad de reparto de lotes, igualdad de circustancias para todas las parcelas y facilidades para proseguir la expansión de la ciudad. Sus principales inconvenientes son la proliferación de intersecciones que dificultan la circulación y proyprician los accidentes de tráfico, y el alargamiento de las distancias, al cortarse las calles en ángulo recto. Ibid. p. 78. 149 Ibid. p. 82. 92 Atualmente, nas imediações da pracinha de Boa Viagem se pode notar essa antiga conformação do terreno. É fácil para quem passa ali, perceber certa sinuosidade das vias às margens do Canal do Setúbal, precisamente em torno do cruzamento com a Avenida Barão de Souza Leão. Esse movimento acontece por causa da antiga conformação dos meandros do Rio Jordão, os quais influenciaram o atual Canal de Setúbal a assumir uma conformação igualmente sinuosa nas proximidades da Praça de Boa Viagem. 2.5 Nasce um cartão-postal moderno Nas primeiras décadas do século XX o povoado da Boa Viagem ainda era pouco ocupado. Segundo Sebastião Galvão, em 1908, além da capela da Boa Viagem se contavam nesse entorno um número de sessenta casas desalinhadas150. Um cartão-postal circulado nesse período exemplifica a ocupação desse subúrbio balneário por algumas cabanas de palha e por plantação de coqueiros (figura 12). Sob a escarpa que delimita a linha de praia e de frente para o mar se podem observar três cabanas alinhadas, a primeira cabana exemplifica uma construção bastante simples, onde se utilizaram predominantemente palhas de coqueiro. Da segunda cabana observa-se um de seus lados e um pouco da rústica cobertura. Já a terceira cabana, que segue enfileirada às outras duas, apenas se pode inferir sua existência pela projeção da sua sombra sobre a vegetação rasteira que as circundam. Através da constatação do sentido da sombra sugere-se que a foto foi tirada em uma manhã de sol. Mais próximo ao fotógrafo, parece haver outra cabana, porém mais recuada com relação às anteriormente descritas. No plano mais recuado, no interior da plantação de coqueiros, observam-se dispostas nas aberturas intercaladas da disposição simétrica do plantio, a existência de pelo menos três outras cabanas, as quais, apesar de demonstrarem também terem sido construídas sob uma arquitetura artesanal, aparentam terem sido mais aperfeiçoadas, com a adoção de uma cobertura de duas águas, feita de palha, contudo sobre suas paredes não se conseguiu precisar de que material são constituídas. 150 GALVÃO, Sebastição. Dicionário Histórico e Geográfico de Pernambuco...Apud. GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Departamento de documentação e cultura da Cidade do Recife: Série evocações históricas do Recife p. 103. 93 Figura 13: Bilhete-postal: Praia em Bôa Viagem. Recife: Ramiro M. Costa & filhos, Libreria & Typografia. 1 cartão-postal: preto e branco. Fonte: Acervo do autor. 94 Ainda segundo Sebastião Galvão, a povoação de Boa Viagem só tinha realmente vida durante os meses de setembro até março, quando era aberta a temporada dos banhos salgados. Esse período atraía a população à Boa Viagem em busca das características naturais da praia, a qual era considerada baixa, rasa e o mar não era tão bravo como em outros locais da costa do Recife. Quando se dava início à estação balneária, entrava em funcionamento a já citada linha de bondes movidos à tração animal. É importante frisar, nesse momento, quando a belle époque foi frustrada com a eclosão da Primeira Guerra Mundial em 1914, deu-se também o “fim ao sonho dos postais”151, ou seja, o período de ouro do cartão-postal foi interrompido, passando o postal a servir apenas como meio de comunicação, por conseguinte perdendo a estima como objeto colecionável. Já no contexto do Brasil, foi só durante a década de 1920 que se findou o período áureo do cartão-postal152, e curiosamente, foi também durante a década 1920 quando a orla de Boa Viagem deixou de figurar como sugestiva e pitoresca praia balneária e assumiu o título de moderno cartão-postal da Cidade do Recife, adquirindo, desse modo, mais luminosidade no contexto da cidade, como atesta os adjetivos sintéticos utilizados pela imprensa da época, em referências a orla de Boa Viagem: “Bella”, “Linda”, “Formosa”, “Magestosa”153. Nesse mesmo instante em que a orla de Boa Viagem passa a ser difundida como uma nova e moderna face da Cidade do Recife, a confecção e uso dos bilhetes-postais ou cartões ilustrados, entrava em declínio. Na proporção que ocorreu a redução do número de cartõespostais confeccionados, também houve decréscimo na sofisticação de sua reprodução, tomando como exemplo a diminuição da prática da colorização artesanal da imagem postal, acarretando como conseqüência “a produção fotográfica em preto e branco predominando de forma avassaladora em toda a parte”154. Além disso, observou-se o retrocesso na utilização do postal como objeto de estratégia, com “o predomínio da temática política, a serviço do confronto ideológico, na Europa do entre-guerras”155. Essa redução de ordem qualitativa e quantitativa na produção e utilização do cartãopostal se deu até fins da década de 1950, retomando fôlego na década seguinte, com a utilização do off-set156 que possibilitou a reprodutibilidade em série do cartão-postal agora com a impressão de suas imagens coloridas. 151 MIRANDA, op. cit. p.14. BELCHIOR, op. cit. p. 07. 153 Revista de Pernambuco. 1924-1925. 154 MIRANDA,op. cit. p. 14. 155 ZEYUNS, Serge (apud MIRANDA, op. cit. p. 15.). 156 “a method of printing in which ink is put onto a metal plate, then onto a rubber surface and only then onto the paper”. HORNBY, A. S. Oxford advanced learner’s dictionary. 7. ed. Oxford University Press. 2005. p. 1054. 152 95 Por tudo isso, a maioria dos cartões ilustrados com a imagem do bairro de Boa Viagem, circulados entre as décadas de 1920 e 1960, além de serem considerados raros, são encontrados, predominantemente, impressos em preto e branco. Só a partir de 1970, o número de cartões-postais circulados com a imagem do bairro passa a ser bastante expressivo, inclusive, as transformações na Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem podem ser muito bem visualizadas a partir dos cartões-postais confeccionados a partir desse período. A época de declínio do cartão-postal será, contraditoriamente, a mesma época em que se dará uma grande revolução na fotografia, quando em 1924, na Alemanha, é fabricada a máquina Ermanox, e a primeira máquina fotográfica portátil, a Leica de 1925, fato que é considerado o marco da fotografia moderna e que possibilitou a melhora da qualidade da foto, bem como a sua popularidade. A notoriedade da fotografia renovava-se desde o início do século XX, sobretudo, sob a idéia do uso artístico da fotografia com influência do Impressionismo, Surrealismo, Cubismo, e o Dadaísmo. Também se passou a usar bastante a foto em periódicos impressos. No Brasil, esse uso foi inaugurado pela Revista da Semana, de 1900, alcançando o ápice com a publicação de O Cruzeiro fundada por Assis Chateubriand, em 1928. No caso do Recife, o uso da foto pela imprensa também foi expressivo, o bom exemplo desse fato é o acervo legado pela Revista de Pernambuco sobre a abertura da Avenida Beira-Mar, atual Avenida Boa Viagem. Foi justamente nessa revista que se acharam destacadas, significantes imagens fotográficas realizadas no entorno da Praça de Nossa Senhora de Boa Viagem, à época de sua inauguração. Percebe-se que à semelhança do Prefeito Pereira Passos, que fez questão de divulgar em fotografias as transformações urbanas do Rio de Janeiro na primeira década do século XX, o Governador Sergio Loreto, no Recife da década de 1920, também teve a sua disposição a Revista de Pernambuco como meio para anunciar, descrever, ilustrar e justificar os projetos urbanísticos realizados na sua gestão. Com a intenção de demudar a imagem da capital pernambucana à luz da modernidade celebrada em Paris, Londres, Rio de Janeiro ou Petrópolis157, a administração do governador Sergio Loreto teve, então, como forte aliada no curso das discussões sobre a construção da Avenida Beira-Mar, a Revista de Pernambuco, com seus artigos que sempre evocavam a apologia às realizações do governo, recheada com imagens fotográficas que podem ser muito bem enquadradas como ilustrações ao modo de cartões-postais. 157 Ver comparação em: A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.4. s/p, out. 1924. 96 Nas publicações da Revista de Pernambuco na década de 1920, realçou-se sempre o clima de “labor progressista”158 em que se encontravam o Estado de Pernambuco e a Cidade do Recife, junto a sua administração estadual que construía o Palácio da Justiça, o Quartel do Derby e a Avenida Beira-Mar, considerada na época uma “admirável obra de saneamento e esthetica urbana”159. Os conceitos difundidos durante as primeiras obras de urbanização da praia de Boa Viagem ou na sua iminência de se tornar moderno cartão-postal da Cidade do Recife, em artigos publicados na Revista de Pernambuco e circulados nos anos de 1924 e 1925, intitulavam-na como “pittoresco trecho do Recife”160, possuidora de um “terreno arenoso e cheio de amfractuosidades”161, mas “uma das mais lindas praias do norte, com seu infindável lençol de areia alva e sua bella moldura de coqueiraes”162, e “ uma estação balneraria de primeira ordem, talvez, em todo paiz, a mais bella e a que maiores garantias naturaes offerece aos banhistas”163. Inclusive os próprios equipamentos transpostos para fazer parte da nova paisagem que se delineou a frente da praia de Boa Viagem também assimilaram a concepção de belo ou artístico e, no discurso inscrito na Revista de Pernambuco, esses novos elementos apareciam, ao invés de algo estranho à paisagem, como um tanto que em harmonia com a beleza natural que emanava daquele balneário. Sobre, por exemplo, a instalação dos postes (Figura 13) no decurso da Avenida Beira-Mar, a Revista de Pernambuco destacou: Ao centro, erguem-se, elegantes e majestosos, os postes da “Tramways”. Construidos em cimento armado, o que é uma innovação digna de registro pela diminuição do despendio e, sobretudo, porque, assim, resistirão ás salitrosas virações marinhas, acompanham o curso da avenida, desde a ligação da ponte do Pina, ao termino da grande arteria litoranea.164 158 A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.2, s/p, ago. 1924. A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p. set. 1924. 160 UMA VISITA À FUTURA AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.1, s/p, jul. 1924. 161 A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.2, s/p, ago. 1924. 162 A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.4. s/p, out. 1924. 163 LINHAS DE BONDES DO PINA E BOA-VIAGEM. Revista de Pernambuco. Recife, n. 8, s/p, fev. 1925. 164 A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.2, s/p, ago. 1924. 159 97 Figura 14: “Outro aspeccto da futura artéria que vae ligar o Recife ao seu pittoresco suburbio balneario”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife. ago, 1924. Em 20 de outubro de 1924, mesmo antes da conclusão de suas obras, a Avenida Beira Mar foi inaugurada pelo governo (Figura 14). Segundo artigo publicado no dia seguinte da inauguração pelo Diário de Pernambuco, como cita Carlos B. Cavalcanti, primeiramente o governador inaugurou dois armazéns no porto e depois partiu num bonde em direção ao Pina, onde desceu e, junto com a comitiva, prosseguiu o percurso em automóveis, contemplando a realização das obras da Avenida Beira Mar. Seguiram para as imediações da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, sendo recepcionados no Cassino de Boa Viagem, com direito a discursos, troca de presentes, champanhe francês, licores e uma mesa repleta de petiscos. Apesar de toda essa expectativa acerca da construção da Avenida Beira Mar, muita crítica também foi lançada perante a realização de suas obras, tanto que obrigou o governo a sempre se defender através das publicações na Revista de Pernambuco. As críticas provinham da opinião de que existiam outras prioridades e que os custos para se realizar um empreendimento num local quase deserto, eram muito altos, além dos trechos da praia que se verificavam insalubres por se ter o esgoto da cidade depositado ali in natura, impossibilitando o banho e a pesca. Outras críticas mais sutis, reclamavam do mau cheiro que se desprendia num largo trecho da praia, justamente por ocasião do esgoto que se encontrava despejado no mar e também dos muitos mosquitos presentes, vetores de doenças nas áreas alagadiças próximas à orla. 98 Os argumentos do governo pronunciados em alguns artigos da Revista de Pernambuco pareciam assumir a característica de apaziguar aquelas críticas e de divulgar o acesso promovido pelo Estado a um espaço a ser usado para o lazer e que estaria disponível a todas as classes. Na realidade, o projeto de abertura da Avenida Beira-Mar beneficiou poucos cidadãos. Na própria Revista de Pernambuco está registrado que apenas um único proprietário reclamou indenização pela desapropriação de um pequeno terreno medindo 2.658 metros quadrados 165, certamente todos sabiam quanto seriam valorizadas as suas propriedades depois da abertura da avenida. Assim, o tema da Avenida Beira-Mar, passou, nessa publicação oficial, a se relacionar com tudo o que pudesse convencer de que ela era uma realização útil e indispensável a todos. Figura 15: “A ‘limousine’ governamental no momento em que, acompanhada de grande cortejo, conduzia s. exa. o sr. Governador do Estado atravez da Avenida Beira-Mar, por ocasião de ser inaugurada a grande arteria litorânea”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 5, s/p, nov. 1924. Como referência dos discursos veiculados pela Revista de Pernambuco, tem-se a descrição realizada por Angéline Ladeyeso, que também é um exemplo de como parecia ser prazeroso, para quem tinha a Europa como referência de civilização, olhar aquele novo recanto da cidade embelezado com a moderna “providência techinica”. 165 A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p. set. 1924. Mapa 06 99 Avenida Boa Viagem: extensão entre o bairro do Pina e a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem O c e n o A t l â n t i c o Pina Praça Nossa Senhora da Boa Viagem Hotel Boa Viagem Avenida Boa Viagem N 300 0 300 600 mMeters Fonte: Carta de Nucleação Centro Departamento de Informações Municipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007 100 Domingo passado fui á ilha do Pina para emprehender a minha excursão. Comecei por me convencer que a pretendida ilha não passa de um simples isthmo, pois, passada a grande ponte do Saneamneto, pizase, denovo, no continente. Graças á amabilidade do pessoal da administração das obras do porto, que facilitou, a mim e ás pessoas que me acompanhavam, uma machina e um pequeno bond para podermos visitar as obras em toda a sua extensão; pudemos chegar até pertinho da igreja da Bôa Viagem. Fiquei simplesmente maravilhada, contemplando a obra realizada! Os innumeraveis coqueiros novos, que cobrem todo o campo ao longo da bella estrada, a muralha de pedra que, se estende como uma fita deante da vista, os pequenos passeios, calçados de pedra branca e preta, onde se acham collocados os postes do bond, me faziam pensar no Passeio dos Inglezes, de Nice... O mar azul, azul, do azul Mediterrâneo, excitava ainda mais a minha imaginação e passei estar na Côte d’Azur!166 Angéline Ladeyeso ainda supôs um prognóstico acerca dos futuros equipamentos e serviços que deveriam fazer parte desse novo e ousado empreendimento que chegara para definir as novas aparências da cidade e que a deixaria mais próxima do que era, para a época, um exemplo a ser seguido por uma praia balneária: “agora é necessário que os capitalistas se occupem de crear ali hotéis, casas de banhos, cinemas, etc. para fazer de Bôa Viagem uma praia moderna e ideal”167. Por fim ela parabeniza os pernambucanos pelo acesso conquistado a sua bela praia de banhos: “Acceitem os meus sinceros parabéns, os pernambucanos, pois têm agora um passeio esplendido, semelhante ao da Barra, na Bahia, porém bem mais largo, e extenso e com uma linda e verdadeira praia de banhos”168. E já nos primeiros instantes do projeto urbanístico que remodelou a orla de Boa Viagem, o processo de apropriação dos terrenos à margem da Avenida Beira-Mar se deu por palacetes ou vivendas dos distintos cidadãos da época, fenômeno também preconizado pela Revista de Pernambuco ao divulgar a necessidade de se fomentar a instalação de vivendas e casas de veraneio para a população que precisava aproveitar a temporada dos banhos salgados. Assim, enquanto a avenida estava sendo construída, iam-se também projetando e erguendo casas que ocupariam a margem da grande artéria, como se pode ver exemplificado nos projetos de residência para os senhores José Marques de Oliveira e Raul Bandeira (Figura 15; Figura 16). Veja-se também nesse esclarecedor texto da Revista de Pernambuco sobre a escassez de casas de veraneio em Boa Viagem. 166 LADEYESO, Angéline. Impressões sinceras sobre a Avenida Beira-Mar. Revista de Pernambuco. Revista, n. 5, s/p, nov. 1924. 167 Ibid. s/p. 168 Ibid. s/p. 101 As praias de banho, como os jardins, os cinemas, os theatros fazem parte da vida elegante da cidade. Em todas as grandes capitaes, banhadas pelo mar, a estação balnearia constitue uma necessidade pelo refugio que offerece á população, na época de calor, e como meio therapeutico preconisado. Na Europa, na América, como em toda parte, há pequenas cidades á beira mar, que são verdadeiros centros de diversão, com elegantes habitações de variados estylos para onde converge a população, em variadas épocas. O brasileiro, soffrendo as inelemencias de um sol ardente, teve necessidade de incluir a estação balnearia nos habitados da vida da cidade. De norte a sul do paiz, existem praias de banhos magníficas que se distinguem pelo colorido de sua paisagem. Rio de Janeiro tem a realçar-lhe a belleza o apregoado encanto de suas praias, - Copacabana, Leme, Paquetá e Leblon; S. Paulo tem, perto da capital, para repouso de sua população as de José Menino e Guarujá, que são o recreio da gente elegante da cidade. As praias de Recife, somente agora, vão se modernizando. De todas ellas que são em grande quantidade, Olinda e Bôa Viagem foram as mais procuradas. A primeira, por ser a mais próxima da cidade e dispõe de meios mais fáceis de comunicação, e maior numero de edifícios conseguia maior concurrencia. A segunda, apezar o pittoresco do seu panorama e de maior segurança contra os accidentes na occasido do banho, constituiu um privilegio da classe abastada, que suppria a falta de meios de locomoção pelo uso do automóvel. Tanto uma como outra, porém, pecca pela deficiencia de habitação, pelo exagerado custo dos alugueis e pela obrigação que assume o locador pelo aluguel de 12 mezes. Essa exigência dá logar a que a parte menos favorecida da fortuna procure repouso em outras praias mais afastadas. Intalando embora com a falta de conforto e difficuldade de conducção rapida para a cidade. Assim acontece em Prazeres, Piedade, Venda Gende e Gaybú, Porto de Gallinhas, Cupê, etc., que são de preferencia procuradas pelos habitantes da zona rural. Bôa Viagem será, incontestavelmente, a praia preferida. A próxima inauguração do serviço de bondes, a sua situação única como praia de banhos, protegida pelos arrecifes, o saneamento da zona, a installação de luz e agua, a construção da soberba avenida que a prende á nossa capital, são elementos seguros de seu repentino refugimento. O momento aconselha grandes melhoramentos, procurando attrahir a concurrencia para esse local. A instalação de estabelecimentos balneários, por exemplo, com boas accomodações para famílias, seria um meio de facilitar aos menos abastados os conforto das estações do verão, ao mesmo tempo que substitue a escassez de casas e combate a ganância dos senhorios.169 169 AS NOSSAS PRAIAS. Revista de Pernambuco. Recife, n.6, s/p, dez. 1924. 102 Figura 16: “Projeto do palacete que o sr. Dr. José Marques de Oliveira está construindo na Avenida Beira-Mar”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924. Figura 17: “Projeto de aprasivel vivenda, destinada à residência do sr. Raul Bandeira e que está em construção na Avenida Baira-Mar”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924. 103 Outro senhor chamado L. Gomide também deu seu testemunho sobre as impressões criadas por quem se deparava especialmente com a nova Avenida Beira-Mar. Ele justificou a necessidade dessa avenida para os pernambucanos, através de exemplos como da Avenida Fou-Tcheou-Road de Shangai, da Avenida La Reine de Hong-Kon, a rua Felicidade em Macau. Sugeriu a observação das experiências de países como Índia, China, que eram, segundo o autor, avessos à modernidade, mas mesmo assim já tinham suas avenidas e passeios à Beira-Mar e relatou a experiência que teve quando obteve pessoalmente a comprovação do que representava a Avenida Beira-Mar na percepção de um estrangeiro: Em dias do mez de agosto ultimo, achando-se accidentalmente a bordo de um transatlantico acostado ao caes do Porto, fui apresentado a uma illustre dama da aristocracia franceza, senhora de vasta cultura, conhecedora das mais bellas e chics praias do mundo. Momentos antes havia ella regressado de uma excursão pela Avenida Beira-Mar, até Bôa Viagem. Pedilhe a sua impressão. – “Merveilleuse! Merveilleuse! A minha gentilissima interlocutora repetiu essa palavra com emphase, durante uma entonação especial á voz, uma expressão viva ao seu olhar fulgurante, uma contracção significativa aos seus finos e naerados labios. Tudo isso catacterisava a admiração e o encantamento do seu fino espirito de estheta que as suas palavras não chegam a traduzir.170 Ainda segundo L. Gomide o desfrute da praia de Boa Viagem era privilégio de “meia dúzia de ricaços”, mas com a construção da Avenida Beira-Mar, possibilitou-se “Offerecer os encantos de sua paisagem magnifica e o conforto de seus banhos a quantos queiram desfructar os seus proventos”. Dando um exemplo do significado da posse do carro como distinção social e a quem vinha imediatamente servir a abertura de uma grande avenida, Gomide expressou que o rico continuou a usar a praia, mas agora transportado no seu luxuoso automóvel e o pobre, “Aboletado no modesto carro da Tramways”. 171 “The Pernambuco Tramways and Power Cº. Ltd, sociedade anônima”, era a concessionária dos serviços de viação, luz e telefone da Cidade do Recife e dos seus subúrbios e tinha a sua sede em Londres. Todos os serviços de instalação das linhas e postes para os bondes, de suportes para a luz elétrica e telefones para Boa Viagem ficaram a cargo do governo do Estado, cabendo a Tamways indenizá-lo com as despesas feitas com os trilhos, os postes e mais alguns outros acessórios usados no serviço de bondes. 170 GOMIDE, L. A Avenida Beira-Mar e o professor Loreto Filho. Revista de Pernambuco. Recife, n 17, s/p, nov. 1925. 171 Ibid. s/p. 104 O local escolhido para ser o terminal dos bondes que ligaria o Recife ao seu pitoresco balneário, foi justamente próximo à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, o que por sua vez acarretou a edificação da praça na época já chamada pela imprensa de “Praça de Bôa Viagem”. A Revista de Pernambuco de outubro de 1925 publicou um mosaico de imagens das obras realizadas do arrojado projeto do governo para aquela orla e dentre as figuras destacadas, achou-se uma que representa a área do terminal provavelmente fotografado a partir da torre da igreja, permitindo-se ver o telhado do templo num primeiro plano e em seguida os trabalhos de instalação dos trilhos para os bondes junto com o primeiro projeto de paisagismo desenhado para o local (Figura 17) A Praça de Boa Viagem foi oficialmente apresentada ao público durante a comemoração do terceiro aniversário do governo de Estado sob a administração de Sergio Lorote, quando também se comemorou a inauguração da linha de bondes entre o Recife e Boa Viagem. Nesse dia esteve presente um expressivo número de pessoas que partiram da Praça da República, acompanhando a comitiva do governo pelo novo trajeto remodelado até o “largo de Bôa Viagem”, como era também chamado o terminal dos bondes situado ao lado da Igreja da Igreja de Nossa Senhora. Na ocorrência do solene ato inaugural da Praça de Boa Viagem e das linhas de bonde, como registrado em fotografia publicada em outubro de 1925 na Revista de Pernambuco, pode-se notar a presença de um coreto bem ao centro da praça que funcionou como tribuna de honra para as autoridades presentes no evento (Figura 18; Figura 19). Como se percebe através da interpretação das imagens, os bondes chegaram ao “largo de Bôa Viagem” percorrendo a linha mais próxima à praia. Alguns circundaram a praça, estacionando ao seu redor. Ali se aglomerou o público para assistir ao ato de inauguração. Todos muito bem vestidos, homens vestindo paletó, mulheres com vestidos longos, moças com vestidos um pouco abaixo do joelho e crianças, com roupa tipo ‘marinheiro’ ou vestidas como pequenos adultos. A maioria dos presentes utilizava chapéus, como era de costume, especialmente se fossem chapéus importados da Europa, comercializados em casas especiais, conhecidas como chapelarias. 105 Figura 18: Terminal de Boa Viagem em Construção. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 16 s/p, out. 1925. 106 Figura 19: Inauguração da Linha de Boa Viagem. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 17 s/p, nov. 1925. Figura 20: Inauguração da Linha de Boa Viagem. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 19 s/p, nov. 1925. 107 108 Agora, oficialmente espaço público, com bancos e um coreto na praça, com acesso mais disponível por causa da oferta do serviço de bondes, com a instalação de todos os outros equipamentos urbanos, o trecho balneário que compreendia o entorno da Igreja de Boa Viagem ganhou nova organização e teve reforçada a função de concentrar nas suas imediações, o seu uso pela população. Ao lado da praça, no terreno onde também existiu o hotel Boa Viagem, havia na época o “Casino de Bôa Viagem” (Figura 20) chamado por Hilo Lins e Silva de Clube de Boa Viagem, “cujo local se reunia a sociedade do Recife e reinava a época do jogo de roleta entre os afeiçoados”172 que também poderiam usar os cassinos do Grande Hotel, construído também nesse período, nas proximidades do Cais de Santa Rita, no centro da cidade173. Se comparada com outros espaços públicos existentes no Recife nessa segunda década do século XX, a Praça de Boa Viagem não tinha tanta expressão, em termos de dimensão e de adornamento. A praça do Derby, por exemplo, que também foi uma obra executada ao mesmo instante que a abertura da Avenida Beira-Mar, era muito mais pomposa do que a pracinha do terminal de bondes de Boa Viagem. Seu destaque está na localização e na presença da igreja, um equipamento antigo que lhe deu origem. O tecido urbano do Recife crescia e a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, que já dispunha de um posicionamento diferenciado no contexto da urbe, nesse momento, com o traçado de uma nova e ampla via de circulação, com a construção de uma praça constituindo um quarteirão no seu terreno e com a instalação de um terminal de passageiros, se tornou, de forma ainda mais clara, uma referência espacial da cidade. A partir dessas transformações, Boa Viagem ganhou uma dinâmica acelerada no conjunto de sua organização. De pitoresco subúrbio balneário, passou a “lugar muito aprazível, com esplendidas residências de verão”174. Segundo Ana Tereza Sotero Duarte175, o bairro de Boa Viagem se firmará como área de veraneio apenas na década de 1940 e de acordo com Paulo Reynaldo M. Alves, essa característica de distinto bairro de segunda residência, consolida-se à época da Segunda Guerra Mundial, quando foram construídas instalações militares e um hospital entre as igrejas de Boa Viagem e de Piedade, provocando a necessidade de levantar casas para as pessoas que deveriam morar temporariamente nas proximidades da base militar. Para o autor, essa instalação militar norte-americana, foi um importante passo para a expansão da cidade na direção além do terminal de Boa Viagem e 172 SILVA, Hilo Lins e. Recife: conceitos e evocações. Recife: s/e,1984. p. 36. PARAÍSO, Rostand. Tantas histórias a contar... Recife: Comunicarte, 1994. p. 72. 174 Prefeitura Municipal do Recife. Guia da Cidade do Recife. 1935. p. 23. 175 DUARTE, op. cit. 173 109 110 conclui: “Boa Viagem, en la década de los cuarenta, se consolida como área de segundas residencias, tanto de los habitantes nativos que se desplazaban vacaciones, como de los extranjeros que venían a pasar una temporada”176. Vale destacar que no ano de 1940 o empresário Adelmar da Costa Carvalho resolveu construir o que seria um verdadeiro palácio em formato de transatlântico, mas depois de escutar os conselhos da esposa e do seu arquiteto, decidiu erguer um palacete em formato de iate, o qual ficou popularmente conhecido como Casa Navio. Carlos B. Cavalcanti relata nos seu livro, “O Recife e seus Bairros”, com base nos esclarecimentos de Napoleão Barroso: A casa era perfeitamente equipada, sala de reuniões, suítes, quartos, cinemas, salão de jogos, restaurante e até uma cabine de comando, com todos os equipamentos originais de navio. Hospedaria de Governadores, Ministros nacionais e estrangeiros, industriais e até o Presidente J. K. Foi Filmada pela Metro Goldem Meyer de Hollywood para figurar em um filme e virou cartão postal, sendo demolida, em 1981, para dar lugar a um moderno edifício.177 O bairro só ganhará aspecto de zona de primeira residência, segundo Alves178, nos anos 1950. Já Duarte179 acredita que em meados dos anos 1950 ainda sequer pode se falar de Boa Viagem como um bairro residencial permanente, “porém como uma fase de transição para isto”. De acordo com Paulo R. M. Alves, a acessibilidade sempre foi um obstáculo para o desenvolvimento de Boa Viagem. Dessa forma, o autor justifica que nos anos 1950 Boa Viagem se consolidou definitivamente como área de primeira residência justamente por causa da melhoria de sua acessibilidade, que teria melhorado com a construção em 1953 da ponte Agamenon Magalhães e em 1958 com a implantação do aeroporto. Além disso, ocorreu a substituição dos bondes por ônibus elétricos em 1955 e os melhoramentos executados na Avenida Mascarenhas de Moraes180. Citando artigo publicado no Diário de Pernambuco, com o título “Boa Viagem e sua remota origem”, escrito por Napoleão Barbosa Braga, mas infelizmente sem trazer a data da publicação, Paulo R. M. Alves descreve que uma das dificuldades que impediu o crescimento de Boa Viagem para se constituir em um bairro de primeira residência foi a desmotivação dos investidores com o insuficiente trânsito permitido através da antiga ponte entre o Recife e Boa Viagem, que “estrangulava o tráfego”. 176 ALVES, op. cit. p. 90. CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal, 1998. p. 111. 178 ALVES, op. cit. p. 90. 179 DUARTE, op. cit. p. 100. 180 GOMES. op. cit. p. 273. 177 111 Em termos de uso, observavam-se os “aspectos do verão”181, registrados em fotografias realizadas naquele período de transição que marcou o bairro como típico de veraneio ou como predominantemente residencial. Por exemplo, em dezembro de 1947 ocorreu o Segundo Circuito Automobilístico na Avenida Boa Viagem. Os carros que vinham da cidade por Afogados, porque a ponte do Pina, por onde passavam os bondes elétricos era muito estreita182, durante a corrida partiam de algum ponto da Avenida Boa Viagem mais ao sul da praça e dobravam justamente na hoje conhecida Rua Barão de Souza Leão. Nesse ponto, aglomerava-se uma multidão para ver os carros chegando, alguns usavam as arquibancadas instaladas ali próximo, outros se penduravam no telhado do Cassino de Boa Viagem para ter uma melhor visão. Os carros deveriam correr em alta velocidade, pois se colocava uma barricada de sacos de areia bloqueando a Avenida Boa Viagem, bem na esquina onde os carros faziam a curva, para em seguida continuarem na direção da Rua Barão de Souza Leão, sentido Canal de Setúbal. Esse evento de 1947 foi patrocinado pela Sinclar Opaline Motor Oil183. Em novembro de 1945, no ano de 1950 e no mês de janeiro de 1952, tem-se registrado em fotos que ocorreram concursos de papagaios ou pipas na orla de Boa Viagem. Parece ter sido um evento que reunia as famílias à beira mar para observar os papagaios serem colocados para flutuar. Existiam vários tipos e formatos de papagaios, com aspecto de jacaré, avião, morcego, de mulher usando biquíni e mulher de maeilot, de estrela, urna funerária, águia, bandeira, além das pipas gigantes enfeitadas com listras ou em formato xadrez. Junto ao vencedor do concurso de papagaios, as pessoas se deixavam fotografar enquanto outros eram captados pela lente do fotógrafo, distraídos, olhando para o céu, vendo as pipas voarem. Outro concurso de papagaios teve inscrições abertas pela Divisão de Turismo da Prefeitura do Recife em 29 de outubro de 1964, quando se esperou um grande número de inscritos, e no dia 12 de novembro “A Srta. Tereza Machado Brennand era eleita, a Miss Papagaio, sob aclamação da multidão de banhistas e curiosos que se encontrava nas imediações do edifício Acaiaca, na Boa Viagem”184. Ainda se pode observar em algumas fotografias do acervo do Museu da Cidade do Recife, referente à década de 1950, os jogos de vôlei, as corridas de bicicletas na Avenida Boa Viagem, onde os ciclistas passavam bem em frente à pracinha, o banho de mar dos homens 181 Museu da Cidade do Recife. Setor de Iconografia. Referência: 00433. GOMES, op. cit. p. 273. 183 Museu da Cidade do Recife. Setor de Iconografia. Referências: 00119 à 00129. 184 Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife. Boletim da Cidade do Recife. Recife: nº 63/169, Jan – Dez, 1957/1967. 182 112 vestidos com fantasias e roupas femininas, como o que aconteceu em fevereiro de 1964, também em frente ao edifício Acaiaca. Um bom relato sobre esse tempo em que Boa Viagem era predominantemente uma praia de veraneio, nos oferece Rostand Paraíso no seu saudoso livro, “Antes que o tempo apague”: Aos domingos pela manhã, tínhamos o hábito de “pegar” uma praia. Em geral, íamos a Olinda, nas proximidades do Carmo, ou Boa Viagem, naquele trecho compreendido entre o Pina e o circular. As outras praias mais distantes e de difícil acesso, eram inviáveis para quem não possuía carro. E não eram muitos que, naquela época tinham esse privilégio. Para irmos a Boa Viagem, tomávamos o bonde que, após atravessar a Ponte do Pina antiga, nos deixava em plena Avenida, à beira mar. Ali, a mão era dupla, os bondes indo até o circular e dali voltando, os trilhos sendo separados pelos refúgios centrais cuja principal finalidade parecia ser a de abrigar os postes que, em forma de T, sustentavam as luminárias e, também, a rede de energização dos Bondes. Fazendo poso na casa do meu tio Arnaldo, que morava no nº 3000, de frente para o mar, dali eu tomava o caminho da praia e me juntava aos amigos para os habituais jogos de Vôlei e de Futebol. Essas eram também grandes oportunidades para os namoros, na maioria pouco duradouros, namorico de veraneio, já que, naquela época, ninguém residia permanentemente em Boa Viagem, que era considerada muito distante para moradia. Suas casas simples ou suntuosas, eram ocupadas apenas nos fins de ano, para a temporada de verão, que se iniciava em Dezembro ou Novembro e ia até o fim das férias escolares. Era no fim do ano que as famílias começavam a chegar e nós ficávamos atentos, observando as casas serem ocupadas, uma a uma, algumas sendo ansiosamente esperadas por terem garotas bonitas e simpáticas que eram sucesso entre a turma jovem. O fim da temporada marcava, também o da grande maioria daqueles namoros que quando iniciados, já se sabia, duraria apenas o veraneio, cada um voltando, depois, a seus afazeres habituais e às suas residências, distantes umas das outras. O “quente” era o Corta-Jaca, área que havia recebido essa denominação ainda nos tempos em que era Governador de Pernambuco Carlos de Lima Cavalcanti, que ali tinha uma bela casa a beira mar. Além do cargo que por si só já justificava o grande número de bajuladores ao seu redor e daí o nome de Corta-Jaca, dizia-se haver uma outra razão para aquela permanente corte em torno do Governador: sua filha Risoleta, jovem, bonita e ainda solteira, a atrair atenções dos principais partidos da cidade. Concorridos jogos de Voleibol, quando os times eram divididos de forma a que os casais jogassem juntos, a garota levantando para o namorado dessa forma tentando consolidar a paquera. Gostosas serenatas de fins-de-semana, quando a vigilância não era tão rigorosa, já que delas ficavam encarregadas as próprias primas e irmãs elas também com seus namorados, serenatas encerradas às primeiras horas da madrugada, ao som de músicas que nos deixavam já saudosos (Maria Betânia, Adios Pampa Mia...) principalmente quando o fim da temporada estava se aproximando. Inesquecíveis peladas de futebol, por trás do Aeroclube, quando ainda cedo, antes que o sol esquentasse, nos reuníamos para dividirmos os times, o pior ia sempre para o gol, ou para a esquerda – e aí se juntavam a nós, vindos de 113 memoráveis farras, ainda insones, Hugo do Peixe e o cronista locutor, compositor e, acima de tudo boêmio, Antônio Maria. Era com lágrimas nos olhos que nos despedíamos, ao fim da temporada, daqueles amigos que conosco haviam compartilhado de tantos e tão agradáveis momentos. Faziam planos de nos reunir novamente no ano seguinte meãs nem sempre o destino permitia que isso acontecesse [...]185 Na década de 1950 ocorrerá uma série de eventos que marcará a paisagem do bairro de Boa Viagem e um dos seus símbolos mais característicos, a pracinha do circular. Em outubro de 1954, é inaugurado o hotel Boa Viagem, o primeiro a surgir naquele bairro (Figura 22). No mesmo prédio do hotel, instalaram-se serviços como “restaurante, bar, sorveteria e serviços de correio”186. Logo depois, surgiram outros prédios com o gabarito de altura diferenciado do estilo de arquitetura que comumente se observava na orla. Assim, surgem os edifícios Acaiaca, Califónia e o Holiday. Em contrapartida ao surgimento do hotel e dos modernos edifícios também se destacam na paisagem, ocupações ocorridas entre 1947 e 1950187. E além desse contraste, surge no Pina, em 1955, um núcleo de cabarés188. Esse seria um indício de um fato que ainda hoje em dia se pode ser observado na paisagem do bairro de Boa Viagem, a marcante presença de mulheres se prostituindo nas suas principais avenidas, e mesmo morando, nos atualmente degradados edifícios Califórnia e Holiday. Em junho de 1958 aconteceu a inauguração da “Feira Livre no terminal da Bôa Viagem”189, aspecto bastante interessante, pois a inauguração de uma feira livre em pleno período de inverno, pôde significar necessidade de abastecimento a ser suprido pela população já residente no local. Nesse momento, a paisagem da orla, tomando às margens da avenida Boa Viagem e suas principais vias de acesso, estava bastante mudada. E os referenciais culturais da cidade também sofreram influências nesse período pós Segunda Guerra, com o modo americano de enxergar o mundo se impondo diante à civilização ocidental. Tadeu Rocha no seu livro “Roteiros do Recife” publicado em 1959, expressa e preconiza um sentimento latente a ser manifesto após o reconhecimento de que Boa Viagem mudou, não é mais aquela mesma praia de veraneio cheia de modernices, ainda preservada de ares de balneário. 185 (PARAÍSO, Rostand, apud CAVALCANTI, op. cit. p. 112 –113) SILVA, op. cit. p. 36. 187 GOMES, op. cit. p. 273. 188 ALVES, op. cit. p. 91. 189 Museu da Cidade do Recife. Setor de Iconografia. Referência: 4619 e 4620. 186 114 Figura 22: Cartão-postal do Hotel Boa Viagem, avistando-se a Praça de Nossa Senhora. Foto: Oliviera. Acervo do Autor. 115 Seguimos, então, pela Av. Boa Viagem, tendo o casario à direita e uma faixa branca de praia, beirando um mar muito verde, à esquerda. À altura do Posto 1, encontramos jangadas em repouso. Os pescadores que as conduzem são uns verdadeiros heróis sem futuro. Elas ainda lhes deixam fisgar cavalas e ciobas, garoupas e charéus. Mas, diante dos modernos barcos de pesca, as jangadas não valem um caracol. A técnica vai afugenta-las dos nossos mares e acabar com a intrepidez dos jangadeiros.190 Quando a Avenida Beira-Mar estava sendo construída surgiu uma discussão sobre a afirmação do Dr. Saturnino de Brito acerca do perigo da pescaria nas proximidades do emissor de esgoto. Era temido que com a abertura da avenida, a pesca se proliferasse ali. Todavia, a fim de aclamar alguns interessados, a Revista de Pernambuco profetizou que “tudo leva a crer que, tornando-se o Pina um ponto de mais fácil acesso, a população da cidade o invadirá e irá impelindo para mais longe os pescadores”191. Portanto, à medida que Boa Viagem ia adquirindo outros perfis, outros confrontos também se delinearam nos seus terrenos, em desfavor da sua população pobre, como o que aconteceu no bairro do Pina, no início da década de 1950, na localidade conhecida como Areal Novo, envolvendo uma colônia de pescadores, o Estado e o mercado imobiliário. Nesse conflito ficou comprovado que a colônia de pescadores que ficava numa área de interesse do Estado, sofreu um incêndio intencional, atingindo barracas e jangadas, procedimento comum utilizado pelos ditos proprietários de terras para eliminar os mocambos. O caso foi resolvido em favor da colônia de pescadores, que recebeu a concessão da terra, mas como o local permaneceu na mira de divergentes interesses, anos depois a Federação das Colônias de Pesca de Pernambuco (FCPP) transferiu parcela da área para o Iate Clube de Pernambuco. Apesar dos rumos que Boa Viagem estava prestes a tomar, alguns poetas, fotógrafos e editores de cartões-postais, com suas percepções peculiares, não deixaram de registrar os significados da jangada e dos pescadores para a paisagem na praia de Boa Viagem (Figura 23; Figura 23.i). Sobre o tema, Gastão de Bettencourt diz que “As jangadas...como elas dão singular beleza a estas praias! Vemo-las na Boa Viagem e noutros pontos onde o mar se espreguiça”.192 O autor ainda resgata um poema de Adelmar Tavares, revelador de uma paisagem cada vez mais rara: 190 ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife. p. 94. A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924. 192 BETTENCOURT, Gastão de. Os meus encontros com o Recife. Recife: Imprensa Oficial e Arquivo público Estadual, 1958. p. 63. 191 116 “Lá vêm as jangadas, de velas inchadas, Bojando de vento, branquinhas, no mar... Meus Deus, minha terra! Meu Deus, vou chegar! Olinda, distante, lá longe, aparece... Lá está uma torre... Diviso o farol... Lá vêm as jangadas branquinhas de sol... Que céus diferentes” Tão verdes as águas! Que leves osares, que gozo aspirar! Escuto umas vozes que vêm das jangadas, Conheço essas vozes que vêm das jangadas, São dêsses Antonhos, e dêsses Messias, Lourenços e Joças, Bastiões, Mizaéis, De falas cantares, mas pulso de ferro Que pula de tigre na ponta da faca, E arrulha na viola que fazem chorar...”193 Segundo Carlos Bezerra Cavalcanti, nos anos 1960 o bairro de Boa Viagem “ainda era misto de residencial e de boemia nos movimentados TIO PEPE, em frente ao hotel Boa Viagem...ou em Boates como o SAMBURÀ”194. Contudo, é certo que nessa década cresce o processo de especulação imobiliária na faixa de praia, inclusive englobando o entorno da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Associa-se a esse fato, o crescente número de novas invasões no conjunto de terrenos do bairro de Boa Viagem e ação do Estado em retirar outras ocupações, como o que aconteceu em junho de 1964, com a retirada das casas de taipa e palha da Avenida Amazônia, atual Avenida Domingues Ferreira,195 marcando o contraste resultante do processo de ocupação. Esta contradição será mais tarde observada na própria praça, a partir da forte presença da população com caráter de exclusão social no local. Em 1960 é derrubada a Ponte do Pina, porque suas estruturas já não mais ofereciam segurança. Era sobre essa ponte que passava o bonde elétrico que levava e trazia as pessoas entre o Recife e Boa Viagem. De certo modo, sua demolição também representa a transição para um período onde Boa Viagem, além de considerado bairro moderno e aprazível, passa a se distinguir do restante da cidade através do valor do solo, fato consolidado a partir de 1965, quando apresenta o metro quadrado mais valorizado da cidade do Recife. 193 Ibid. p. 63. CAVALCANTI, op. cit. p. 113. 195 Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife. Boletim da Cidade do Recife. Recife: nº 63/169, Jan – Dez, 1957/1967. 194 117 Figura 23; Figura 23.i: Frente e verso de cartão-postal de Praia do Recife circulado no ano de 1958. Fonte: Acervo do autor. 118 Assim, Boa Viagem consolida-se como bairro urbano, com uma das populações mais expressivas da cidade, revelando-se o bairro mais valorizado ou mais caro e com uma gama de serviços disponíveis aos seus habitantes. É também nesse momento, que a técnica de impressão em papel reavivou a circulação de cartões-postais, fazendo com que o bairro de Boa Viagem, junto com seus símbolos mais característicos, passassem a ser mais registrados e divulgados por esse recurso, como constatado pelo acervo de mais de 60 postais do referido bairro colecionados por essa pesquisa. Portanto, na década de 1970, além do aperfeiçoamento da técnica que permitiu a reprodutibilidade do postal, com sua impressão em cores a custos mais reduzidos, o contexto em que acenava Boa Viagem uma área privilegiada pelos investimentos estatais em infraestrutura, estimulou sua concepção enquanto espaço cartão-postal, exemplificado pelo aumento significativo da representação do bairro naquele tradicional recurso, e também por sua afirmação como bairro mais valorado da cidade, ostentando seus empreendimentos imobiliários como representações simbólicas de sua paisagem196. Durante os anos 1970, o bairro de Boa Viagem foi objeto de vários projetos urbanos, atingindo o panorama investigado, com a implantação de redes de hotéis e de serviços ligados ao turismo e a atender às classes média e alta, já ali moradoras, como registra Carlos Bezerra Cavalcanti: [...]o RECIFE PALACE, e o MAR HOTEL, o HOTEL SAVARONI, o INTERNACIONAL LUCSSIM HOTEL, o JPM HOTEL, o VILA RICA e o IDEALY HOTEL todos de 4 estrelas além de muitos outros de 2 e 3 estrelas espalhados pelo bairro, assim como restaurantes de frutos do mar que é o caso do BARGAÇO, Av. Boa Viagem nº 670, COSTA BRAVA, na Rua Barão de Souza Leão nº 698 ou de cozinha internacional como o “ADUARIUS” na Rua dos Navegantes nº 157, o “LE BUFFET”, na Rua do Hospício n s 147-149 e o LE FONDUE na Av. Cons. Aguiar nº 3.500 e outros de cozinha Italiana, Portuguesa, Japonesa e regional como “CASA DE PEDRA” na Av. Boa Viagem, 4.520, DANADO DE BOM, na Rua José Lopes e CASA MARINA na Av. Cons. Aguiar197. Segundo Paulo R. M. Alves na década de 1970 “surge algún comercio en Pina y Boa Viagem, cerca de la plaza de Boa Viagem, apenas dedicado a la venta de productos alimenticios. Pero ese comercio de género alimenticio es el que conlleva el inicio de la formación del comercio diversificado”. Mas como já se sabe, esse comércio de gêneros 196 SANTANA, Gisela Verri de. Habitação e vizinhança um estudo das relações sociais no espaço habitado nos bairros de Boa Viagem e Casa Forte. Recife – Brasil. Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 1998. p. 76. 197 CAVALCANTI, op. cit. p. 113. 119 alimentícios surge desde 1958 com a constituição da feira livre na área da Praça de Boa Viagem, e mesmo antes disso, a construção do hotel Boa Viagem, em 1954, trouxe para a área do cartão-postal, uma rede de serviços, até então só disponível no centro da cidade. O grande diferencial para as outras décadas reside na observação do expressivo crescimento populacional por que passou Boa Viagem em 1970. Admitindo uma proporção de habitantes mais do que duas vezes havia na década anterior, quando passou a contar com uma população absoluta de 158.442 habitantes, significando o maior crescimento populacional entre todos os bairros do Recife198. A instalação de equipamentos urbanos e a oferta de serviços, também tiveram um aumento significativo nesse período, com a implantação de supermercados, bancos, lojas de decoração, restaurantes, agências de turismo, hotéis e butiques. Como exemplo dessa nova realidade que se delineara, só em 1977, foram abertas 50 filiais de estabelecimentos no bairro de Boa Viagem199 a fim de aproveitarem o mercado potencial de maior poder aquisitivo que se constituía no bairro. É nesse momento, quando Boa Viagem se consolida totalmente como bairro urbano, que começaram a ser destruídos os palacetes erguidos para servir como casa de veraneio das famílias mais abastadas do Recife a partir de 1922. Vivendas e palacetes que foram arquitetados sob a medida dos recursos disponíveis entre os pernambucanos ilustres ou emergentes, ávidos pelo uso daquele lado moderno da cidade. Dentre as construções que resistiram ao tempo e aos ditames da produção do espaço, guiados pela especulação imobiliária, poucos permaneceram intactos. Quando não foram demolidos para dar lugar a um espigão, sofreram alterações para se adaptarem aos usos diferentes do residencial, ou como casa de veraneio. Os casarões foram recoloridos, passaram a abusar da utilização do vidro e da aclimatação através de condicionadores de ar. Desse modo, se transformaram em restaurantes, clínicas, lojas de móveis e de roupas. Ainda no final da década de 1970, começa a ser construído no bairro de Boa Viagem um shopping de grande porte, que se beneficiou da existência de áreas disponíveis para ocupação, também pela elevada renda média per capita apresentada pelos moradores e da existência de infra-estrutura que permitia melhores condições de acesso ao bairro e ao novo empreendimento.200 198 ALVES, op cit. p.94. BARTHEL op. cit. p. 115. 200 PAIVA, Carla Souza de. O shopping center e produção de novas centralidades urbanas: o caso do Shopping Center Recife. Recife. Mestrado em Desenvolvimento Urbano, 1996. Dissertação de Mestrado & SANTANA, op. cit. p.110. 199 120 Nesse mesmo período, foram realizados alguns projetos urbanísticos, contemplando a revitalização da faixa costeira. Como exemplo, foram colocados em prática o Plano de Valorização Urbana, com objetivo de dotar Boa Viagem de uma variedade de equipamentos urbanos e o Projeto Cura (Comunidade de Urbanização Acelerada) com a função de impulsionar o potencial turístico de Boa Viagem, dotando o bairro de uma considerável rede de hotéis, firmando-o, nos dizeres de José Batista dos Santos, como “ponto obrigatório de turismo, zona de elegância, subúrbio dos mais luxuosos”201. Essa nova fase de intervenção do Estado na promoção do espaço compreendido pelo bairro de Boa Viagem, fez essa localidade ganhar outro novo e forte crescimento, principalmente no que se refere à promoção imobiliária. Novamente o poder público atuou investindo em infra-estrutura viária, possibilitando o aumento do fluxo entre Boa Viagem e outras partes da região metropolitana que também cresciam. Assim se colocou em prática o arrojado sistema viário que englobou a construção do viaduto Joana Bezerra, da Avenida Herculano Bandeira e da Avenida Domingos Ferreira, que entre outros locais, ligaria Boa Viagem ao bairro do Derby e à Cidade de Olinda. Gisela V. de Santana, baseada em artigo publicado no Diário de Pernambuco202, revela que em 1985 o preço do metro quadrado de área construída à beira mar de Boa Viagem chegou a custar U$ 2.000. “Além disso, a lei em vigor na época (14.511/83), propunha um coeficiente de aproveitamento do terreno que assegurava ao empreendedor um melhor retorno de investimento do que o proporcionado em outras áreas da cidade”203. Segundo a autora, ainda na segunda metade da década de 1980, o excessivo adensamento contribuiu para o início de um processo de deflação do valor do metro quadrado comercializado no bairro de Boa Viagem, ocasionado, entre outras questões, pela redução da qualidade de vida em conseqüência da poluição e saturação da infra-estrutura204, atingindo inclusive a paisagem do entorno da Praça de Boa Viagem, nesse instante reconhecido cartãopostal, nobilitado como Zona de Preservação Rigorosa (Z.P.R.). No capítulo a seguir é realizada uma discussão sobre o papel da especulação imobiliária como reprodutora da idéia de cartão-postal em benefício da agregação de valor ao solo urbano e como um meio de promover a especulação. Ainda no rol do debate sobre a promoção do espaço, citam-se algumas interferências do Estado, agindo como definidor das 201 SANTOS, João Batista. Pernambuco histórico-turístico-folclórico. s/e. 1989. p. 192. Diário de Pernambuco – 02 de maio de 1990. 203 SANTANA, op. cit. 73. 204 No período em que a supra citada autora realizou seu trabalho, no ano de 1998, o preço do metro quadrado à beira mar chegara a custar U$ 1.500. 202 121 formas da paisagem urbana. No cerne da questão do cartão-postal, aglutina-se o debate da produção do espaço a alguns fatos que contradizem e desmascaram o movimento de criação de imagens e idéias da cidade, tomando como foco do debate, a Praça de Nossa Senhora de Boa Viagem. 122 Capítulo 3 Revelando frentes e decifrando outros lados da Paisagem da Praça de Boa Viagem. Viagem Figura 24: Brasil turístico:Vista aérea da praia de Boa Viagem. Recife. Brascard [136-]. 1 cartão-postal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor. 123 3.1 Uma visão geral a partir da fachada panorâmica do bairro de Boa Viagem Como se sabe, o cartão-postal “foi imediatamente utilizado para fins publicitários”205 e mesmo antes da adoção da ilustração em um de seus lados, ele já havia se vinculado à publicidade.206 Na medida em que os postais iam também fazendo sucesso por mostrar ilustrações com panorâmicas das cidades em modernização, se tornaram um eficiente veículo propagandístico da vida e do cenário urbanos. Quando ocorreu a redução da prática de colecioná-los e de enviá-los pelos correios, a “febre” do cartão-postal já havia legado uma preciosa herança dos seus dias de glória, deixando como testemunho, uma variedade de paisagens as quais acabaram por assumir a própria aura do cartão-postal que continuaram a ser registradas, reproduzidas e divulgadas através dos novos e diversos meios possibilitados pelas inovações técnicas. Assim, o cartão-postal assume um caráter de convite à viagem, mas se viajar, conhecer os locais turísticos e, ter a chance de se deixar fotografar diante da paisagem de cartão-postal é sinônimo de uma conquista apreciável, morar no próprio cartão-postal é verdadeiramente um deslumbramento. Esse fascínio é muito bem conhecido e monitorado pelos promotores do espaço urbano207, como se pode ver bem exemplificado através da propaganda imobiliária, que abusa de ilustrações ao modo de cartões-postais, algumas vezes intitulando-a de “fachada panorâmica”. No contexto da propaganda imobiliária atual, a criação de uma imagem do imóvel é imprescindível para a reprodução e capitalização do seu valor. Nesse sentido chama-se a atenção para a idéia de que o estatuto de cartão-postal assumido por certas localidades atribui status e concede evidência a esses isolados recortes do espaço urbano, agregando, dessa forma, ainda mais valor de troca aos imóveis e ao solo. Por conseguinte, o espaço mantenedor 205 ROBERTO, Y. Os anos dourados do cartão-postal: catálogo da exposição – do acervo particular da autora – Realizada no Itanhangá Golf Club. Rio de Janeiro: 1988. p. 20. 206 Sobre a adoção dos postais para fins publicitários antes da sua junção com a fotografia, Belchior (1996, p. 7) destaca que “Entre a publicidade e o cartão-postal ocorreu um caso de amor a primeira vista. Quando este ainda circulava sob a forma de inteiro postal, isto é, quando eram impressos somente pelos Correios dos países que o adotaram, com uma face reservada para o nome e endereço e outra em branco, destinada a mensagem, os cartões-postais passaram a receber neste último lado textos impressos ou manuscritos enviados firmas e seus clientes, ou prováveis compradores, aos quais não faltam, por vezes, desenhos dos produtos oferecidos. Foi a primeira fase da publicidade no cartão-postal.” BELCHIOR, op. cit. p.7 207 Os promotores do espaço urbano são os mesmo incentivadores da verticalização apontados por SOUZA op. cit. e assinalados em: CORREA, Roberto Lobato. O espaço urbano. 4.ed. São Paulo: Editora Ática, 2003 124 do título de cartão-postal tende a se relacionar com essa sua representação sob uma mutualidade que resulta em incitar o consumidor a desejar morar em um local privilegiado208. Como maneira de estimular uma imagem dos lugares, no corrente caso, de um bairro, é comum a propaganda imobiliária dar relevo aos elementos da natureza, adjetivando-os como objetos próprios de uma ilustração de cartão-postal, oferecidos como mais um importante item a ser apropriado pelo consumidor que compra um imóvel encarecido209. E como o solo, através da especulação, tende a se tornar escasso, ao invés de se procurar outras áreas, tornase comum a construção sob o auspício da verticalização, fazendo surgir na paisagem, prédios cada vez mais altos, em bairros como o de Boa Viagem, cada vez mais atribuído de elevado valor de troca. É interessante verificar que os conceitos de verticalização e de natureza acoplados à paisagem urbana acabam por se encontrar com a noção de cartão-postal, por existir um limiar bastante tênue entre a morfologia da paisagem representativa do status quo e a paisagem “apropriada” a cartão-postal. Nesse contexto, o espaço produzido e tomado como um local significativo da cidade, em termos de valoração econômica, ou como produto para a especulação imobiliária, tem a forte tendência de requisitar o seu estatuto de cartão-postal. Nesse movimento, o espaço urbano é atribuído de qualidades concedidas pela edificação de símbolos e a partir da definição do desenho projetado para os recantos mais caros da cidade, sendo esse desenho de cidade, reproduzido a fim de ilustrar a afirmação e a conquista de uma tendência, que deve ser aceita pelo cidadão e comprada pelo consumidor210. A citada verticalização causadora de forte impacto na paisagem urbana, para a geógrafa Maria Adélia de Souza significa um resultado estratégico entre múltiplas formas do 208 Ver: BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1995. “Reclus (1886) coloca duas formas de apropriação da natureza pelos empreendimentos imobiliários: uma direta e outra indireta. A apropriação da natureza, cada vez mais artificial, dá-se, como exemplo, nas costas marinhas, nossos mais pitorescos penhascos e nossas mais charmosas praias, em muitas localidades, monopolizada tanto pelos invejosos proprietários ou pelos especuladores que apreciam a beleza da natureza, em muitas vezes, na mesma forma como um ‘cambista’ valora a barra de ouro. Em badalados lugares nas montanhas uma similar forma de apropriação toma possessão dos habitantes: a paisagem é totalmente cortada em quadros e vendidas em altas ofertas; casa curiosidade natural, a rocha, a caverna, a cachoeira, o glacial, tudo que faça o som de um eco, pode tornar-se propriedade privada.” HENRIQUE, Wendel. O direito à natureza na cidade: ideologias e práticas na história. Rio Claro: UNESP, 2004. Tese de Doutoramento em Geografia. p. 127. 210 Sobre a oposição entre cidadão e consumidor Milton Santos destaca: “O consumidor não é cidadão. Nem o consumidor de bens materiais, ilusões tornadas realidades como símbolos: a casa própria, o automóvel, os objetos, as coisas que dão status. Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo elitizado como o turismo e as viagens, os clubes e as diversões pagas; ou de bens conquistados para participar ainda mais do consumo, como a educação profissional, pseudo-educação que não conduz ao entendimento do mundo.” Santos, Milton. Espaço do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987. p. 41. 209 125 capital a fim de produzir o espaço urbano211, lançando imagens como essa do cartão-postal (Figura 24), em que se tem bem enquadrado a distinção das localizações, delimitadas tanto pela proximidade dos elementos naturais como pelos implementos organizados para melhor servir a área. O postal, nesse sentido, é o exemplo de onde se deve está, onde morar, aonde ir. Figura 25: Brasil turístico:Vista aérea da praia de Boa Viagem. Recife. Brascard [128-]. 1 cartão-postal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor. A verticalização é uma altiva realidade na parte sul da cidade do Recife, onde se encontra o bairro de Boa Viagem, tomando-se como marco do processo urbano nesse trecho da cidade, a construção do Hotel Boa Viagem. Como frisado no capítulo anterior, o hotel ficava localizado vizinho à Praça Salgado Filho (atual Praça Nossa Senhora da Boa Viagem) e foi inaugurado no mês de outubro de 1954, abrindo um novo período onde foram absorvidos os conceitos de construção pautados na verticalização. Por muitos anos, o hotel foi símbolo da modernidade que chegara aquele dito “subúrbio balneário”. Contudo, recentemente, no mês 211 A articulação estratégica a que a autora se refere se dá entre os capitais “fundiário, produtivo, imobiliário e financeiro. SOUZA, Maria Adélia A. de. A identidade da metrópole: a verticalização de São Paulo. São Paulo: Hucitec. Edusp, 1994. p. 135. 126 de junho de 2007 ele foi demolido, para dar lugar a dois grandes edifícios residenciais. Fenômeno que é na verdade, um choque para o observador da paisagem, para quem via nesse hotel uma referência espacial e mesmo para quem em visita à cidade se depara com a sobreposição de um edifício de 32 andares onde ficava o hotel Boa Viagem. Mas tudo parece acontecer muito rápido, o tempo que edifica e destrói os elementos da paisagem, dando-lhe outra feição, não dá chance para um último olhar, como atesta a Sra. Graça, moradora do bairro que declarou ter recolhido algumas assinaturas para que se preservasse o prédio mais antigo do Hotel Boa Viagem, apesar disso, o desejo de se levantar dois espigões foi mais veloz, mais atroz, do que essa vontade que o citadino tem de manter as paisagens e os monumentos da cidade, e de revê-los por uma última vez. Chance melhor certamente teve o Sr. José Cláudio que trabalhou entre os anos de 1977 e 1987 no almoxarifado do Hotel Boa Viagem e que só deixou de trabalhar lá quando conseguiu outro emprego, em um prédio logo atrás do hotel, onde vinte anos depois, ainda trabalha. O Sr. Cláudio é testemunha do período quando o hotel era bastante procurado. Segundo ele, “era um tempo bom, o hotel sempre lotado, era o melhor hotel, depois vieram os outros [...] aí foi ficando pra traz”212. 3.2 A especulação imobiliária no espaço cartão-postal O artifício de promover o espaço urbano incute, no cidadão, a necessidade de morar no local mais valorizado ou distinto, no contexto da cidade. Assim, o cidadão passa a ser atraído sob diversas maneiras, dentre elas, através da apelação à intitulação dos lugares, como nesse caso, à idéia de um bairro que seria também um cartão-postal. Todavia ao apropriarem-se do lugar onde passam a habitar ou transitar, e transformá-lo como espaço de sua vivência, o cidadão tende a se deparar com outras faces de sua vizinhança que só mesmo a rotina diária, de entrar e sair de casa, de ir à padaria, ao supermercado, à praça, ao ponto de ônibus, à praia, ao restaurante ou à feira, é que permitem a visualização e decifração de práticas exercidas, mas estrategicamente ocultadas. Um espaço cartão-postal pode declarar diferentes imagens, distintos conceitos e evocações. No caso do bairro de Boa Viagem, no decurso de sua formação enquanto cartãopostal, destaca-se que ele incorporou pelo menos três importantes concepções: a de subúrbio balneário, o de núcleo de modernização e a de espaço ultravalorizado. 212 Entrevistas concedidas em 10/06/2007. 127 Desse modo, Boa Viagem já foi cartão-postal por causa de suas belas paisagens naturais, por causa da presença de uma praia de águas calmas e mornas, do extenso coqueiral e da tranqüilidade que atraía as famílias a tomar os banhos salgados. Boa Viagem já foi cartão-postal por ser um ótimo local para veraneio, dispondo de boas residências à beira mar para esse fim. Com o acesso permitido pela instalação dos serviços de bondes e da abertura da Avenida Beira Mar, Boa Viagem mostrava-se como interessante e maravilhoso cartão-postal do Recife, onde se reuniam nos meses de verão as famílias e a rapaziada a fim de se conhecer, jogar vôlei, fazer lual e paquerar. Atualmente, Boa Viagem é cartão-postal por mostrar uma “fachada aérea” repleta de grandes edifícios e caríssimos apartamentos, servidos por amenidades como as águas mornas do Atlântico. E permanece cartão-postal, mesmo com a presença marcante nos seus logradouros, da população sofrendo com a exclusão social. A “fachada aérea” típica do cartão-postal, bem absorvida pela propaganda imobiliária, por um lado destaca alguns elementos que porventura encarece o imóvel e o solo, mas por outro, deixa de mostrar a exclusão social ocorrida do lado de fora dos grandes edifícios, presente na pracinha, na margem do canal ou na areia da praia e destacada pela a existência de mendigos, prostitutas e crianças cheirando cola. Nas figuras (24 e 25) se têm ilustradas a “fachada aérea” e a varanda, divulgadas pelo empreendimento imobiliário em construção onde ficava o hotel Boa Viagem, bem ao lado da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Pode-se notar na Figura 24, o prédio mais antigo do hotel preservado, mesmo com a construção do novo edifício, mas na verdade ele também foi demolido213. Figura 26 e Figura 27: Fachada aérea e varanda do Edifício Luiz Dias Lins da construtora Queiroz Galvão, em construção no local onde existiu o Hotel Boa Viagem, ao lado da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Fonte: <http:// www.queirozgalvao.com.br_incorporacao> (no destaque, Hotel Boa Viagem). 213 Ver destaque. 128 Sobre o processo de especulação imobiliária ocorrido em Boa Viagem, é interessantemente observar que os próprios moradores do bairro podem ser classificados como um dos seus principais críticos. Esse incômodo sentido pelos habitantes se encontra bem exemplificado em alguns relatos divulgados no sítio da antiga Associação dos Moradores e Amigos de Boa Viagem (AMABV), como mostram os comentários de alguns moradores que entraram em contato com a associação: Sou nascido e criado aqui, viajo muito, acho deplorável a voracidade das construtoras, impondo a estupidez de espigões com 25-30 andares, desnecessários ao Recife. Casa Forte já conseguiu controlar essa especulação. Em terrenos limitados, tais edificações são cruéis, embora um belíssimo negócio para construtoras: Trocam terreno por área construída, pegam financiamento fácil e começam a vender unidades ainda na planta investindo quase nada, um caminhão, uma jamanta de dinheiro fácil!!! Os moradores mais antigos é que se lascam. São centenas de famílias novas, a virem brigar pelos precaríssimos fornecimentos de água podre da Compesa, de energia da ex-Celpe, de linhas telefônicas da ex-Telpe, centenas de novos elevadores a dificultar o precário atendimento dos fabricantes. Terrível é a fase inicial de bate-estacas e fundações, o barulho infernal, durante alguns meses. Estou sofrendo isso tudo, agora, com três espigões da Queiroz Galvão próximo de onde moro ! Nythamar de Oliveira214. Um outro morador também em contato com a AMABV relatou sua indignação com o relato proferido pelo então presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco, assim o morador escreveu: Estou até agora indignado com a entrevista do novo presidente da Ademi/PE, José Antônio de Lucas Simón, publicada no Diario de Pernambuco, dia 14 de maio. Entre outras asneiras, o presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco declarou que "a gente tem que esquecer essa idéia de cidade bucólica e tranqüila, porque o Mundo saiu dessa idéia". É uma das frases mais infelizes que li nos últimos anos. É a confissão declarada de culpa dos construtores do Recife pelo caos urbano, adensamento habitacional, trânsito caótico, isolamento social das pessoas, derrubada de árvores e outros crimes sociais e ambientais, ocorridos nas últimas três décadas. Se as associações de moradores das Graças, Casa Forte, Boa Viagem e outras mais tinham que identificar um inimigo público pelos problemas que os bairros enfrentam, encontraram no representante da categoria dos empresários da construção civil, ou seria melhor dizer "os destruidores do verde e dos patrimônios históricos do Recife". Arnaud Mattoso215 214 Declaração do morador Nythamar de Oliveira. Disponível em: <http://www.amaboaviagem.hpg.ig.com.br>. Acesso em: 10 de junho de 2007 215 Declaração de Arnaud Mattoso. Disponível em: <http://www.amaboaviagem.hpg.ig.com.br>. Acesso em 17 de abril de 2006. 129 Mas um desabafo bastante contundente, e que teve mesmo aprovação, segundo algumas comunicações publicadas pela AMABV, foi publicado no Jornal Folha de Pernambuco, em artigo do então presidente licenciado da associação dos moradores Sr. Adroaldo Figueiredo. No seu relato pode-se destacar problemas apontados que já foram resolvidos, ao menos sob o ponto de vista dos moradores de Boa Viagem, como a questão do transporte clandestino, que foi determinantemente proibido de circular no bairro. O texto do senhor Adroaldo intitula-se “A desilusão em Boa Viagem”: Já vai de longe o tempo em que morar em Boa Viagem era uma opção acertada e tranqüila. Lixo, falta d’água, mendicância, assaltos, trânsito caótico, prostituição na porta de casa, exploração comercial, aglutinação urbana são uma das pontas do aicibergue que andam correnteza abaixo no Bairro “Classe A” do Recife. Com o policiamento escasso e mal distribuído é quase impossível ir a padaria, supermercado ou farmácia a pé e voltar com o relógio, pulseira ou a carteira. O trânsito sempre engarrafado, barulhento e ainda mais tumultuado pelos “parasitas” que estão tomando posse das nossas ruas com os transportes clandestinos. Calçadas e ruas esburacadas e tomadas por automóveis, comércio ambulante por toda parte, já não são mais novidade. Prostituição ao meio-dia e dia inteiro, e tudo sadomizado com hotéis de alta rotatividade, que hoje fazem parte da paisagem do Bairro. Na avenida Boa Viagem, além da vista para o mar, os moradores são obrigados a conviver com um farto calendário de festas na orla, além de nos intervalos entre elas, agüentar a “fuzaca” de filhinhos de papai tudo regado a cerveja e espetinho, pegas de carros e motos envenenadas, pichações e um vocabulário nada decente da galera que troca o dia pela noite e impede que os moradores do afamado Bairro se arrisquem a sair de suas prisões de luxo após ás 22:00h. Quanto ao fim de semana é melhor arranjar outro programa que o de freqüentar a praia do Bairro, tomada por ambulantes e a sujeira (o maior banheiro público do Estado). Mais prudente é seguir rumo as praias do litoral norte ou sul, mesmo porque nesses dias o líquido precioso (h²O) some das torneiras e tem que ser importado em carros pipa, que fornecem água, nem sempre, de procedência segura, é o drama de quem mora em Boa Viagem. Pagar o mais caro aluguel, a mais cara prestação, o mais caro imposto predial, o maior custo de vida e a menor tranqüilidade da paróquia. Estão aí os arrastões que não me deixam mentir, pois já fazem parte do postal da “doce” Boa Viagem,[grifo nosso] hoje tão amarga quanto o acre exalado dos montes de lixo esquecidos ante as calçadas dos espigões, na maioria deles com suas fossas estouradas, em simbiose com os desafortunados catadores de lixo, que buscam no entulho o pão do sofrido dia. É a miséria convivendo palmo a palmo em meio a selva de concreto erguida as margens da atlântica praia poluída de Boa Viagem.216 Nesse artigo o autor ainda cita uma pesquisa realizada pela AMABV, com uma amostragem de 500 consultas, tendo como resultado que pelo menos 60% dos entrevistados manifestaram interesse em se mudar do bairro, devido às distorções observadas da qualidade 216 FIGUEIREDO, Adroaldo. Folha de Pernambuco. Cidadania 30/08/2002. A desilusão em Boa Viagem 130 do uso do bairro. O autor apontou como um principal problema, a realização do Recifolia, mas essa questão também já foi resolvida, com a proibição do evento na orla do bairro, fato que chama a atenção para outras problemáticas citadas como a questão do trânsito, da prostituição, da violência e da mendicância. Mais recentemente a especulação imobiliária deu uma surpreendente amostra de sua vontade de fazer encarecer o metro quadrado comercializável do bairro de Boa Viagem. O alvo dessa vez foi o entorno do futuro Parque D. Lindu, que será alocado entre a Avenida Boa Viagem e a Rua Setúbal, a algumas quadras da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Alguns corretores estavam usando ilustrações de falso projeto do arquiteto Oscar Niemeyer para valorizar imóveis localizados nas proximidades do futuro parque (Figura 25). “A ilustração que carrega a logomarca da prefeitura do Recife revela a existência de um viaduto da Avenida Boa Viagem, que irá possibilitar a extensão de parque por baixo do viaduto até a areia da praia e ainda um túnel na Rua Setúbal, no trecho que vai ser anexado ao parque”217. A prefeitura e o escritório do arquiteto Oscar Niemeyer desmentiram imediatamente a autoria do projeto. O verdadeiro projeto só foi divulgado no dia do aniversário da Cidade do Recife em 12 de março de 2007. Figura 28: Projeto circulado de um futuro cartão-postal do bairro de Boa Viagem, o Parque D. Lindu. Fonte: Diário de Pernambuco. 28 de fevereiro de 2007. 217 Diário de Pernambuco. Vida Urbana. 28 de fevereiro de 2007. 131 Mapa 07 R.Fco. Barros R.Ce l. Darwin SOUZA LEA O . Lu - R. P R. Joao Dias . Teixeira R. Ch arl es zian a Serg io C ar dim R. Dr. Nilo D. C . DE Pca N.S. da R.D .Us in h R. J o A. Pas sos R. P rof. SCOLA MERICANA O ECIFE o R. V . M are s Lea l Mari o R. R. L. H. de C astr o R.J.E. de Lima Sil v a e Diog ene BO A Aug u sto Luiz I. P. Melo Set A Pro f. ON H R ua Parque Dona Lindu VIS CO ND E D E J EQ UIT INH Rua N R.J ean A aio r A VE NID Arm and oS .M elo R.M .S. M u ba l E SO UZ A r. s Lin s R.Is.Magal. VIA G EM R. Z ae l Romeu O c e a n o Pimentel A VE NID A R. Luiz daba se M. O IT A AP a Nu nes R.A qui- A t l â n t i c o R. J os e Para is HA ZIN ZU Boa Viagem VIE. C.J .K. GOM ES C. A ssis ral Cab R. DR . Gemba R. He iji R.Lib ia o nte R.Com . . p. A. Alv R. Co m R. F. Jose Farias da Si lva rt cou elm R. B R. A.Cos ta A. . R. J. D te Vice n on. P r a Praça Nossa Senhora da Boa Voagem e Parque Dona Lindu Me r mo z 90 0 90 180 mMeters R. Joa o C. A yr e s Fonte: Carta de Nucleação Centro Departamento de Informações Municipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007 132 A especulação imobiliária pode ser entendida como uma característica do lado reverso do cartão-postal, pois é um fenômeno que ao mesmo instante em que evoca atenções por parte do consumidor, mascara o entorno. Mascara o lado nefando da realidade. Do ponto de vista do consumidor, um grande prédio pode significar um belo símbolo de status, sob a visão do morador esse mesmo grande prédio pode não passar de mais um elemento descaracterizador da paisagem mais original do bairro. Além disso, através da forma de ver de algumas classes menos favorecidas, esse prédio, pode constituir-se em um bom ponto para se instalar uma barraca para se vender frutas, ou então para se pedir esmolas, ou ainda para se cometer algum furto. Quem compra um apartamento em um bairro como o de Boa Viagem, deve saber que morar no cartão-postal é também viver e ver diariamente uma paisagem de contraste, de um lado os altos e caros edifícios, do outro, o grande número de pessoas que tenta sobreviver nas ruas e praças. A conflitante paisagem delineia os rumos da cidade e em meio à propaganda imobiliária nos jornais, se lê a notícia emblemática da contradição exposta no dia-a-dia de um bairro considerado elitista: “Morreu, ontem, o universitário de 21 anos baleado, domingo, em assalto durante partida de tênis, na orla de Boa Viagem. Mais esse homicídio expõe falhas no policiamento do cartão-postal da cidade. Moradores e visitantes sentem na pele a insegurança”.218 Ao visitar a Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem, um observador um pouco mais atento poderá destacar na paisagem, situações que demonstram alguns contrastes assumidos pelo bairro, que se chocam com algumas fases de sua história enquanto cartão-postal e em especial, com sua situação mais atual, assumida após a década de 1965, quando passou a ostentar o ícone de bairro mais valorizado da cidade. Mas o mesmo observador também poderá se deparar com uma paisagem recheada de significado histórico, impregnado nos seus monumentos. Esses mesmos significados podem ser destacados via cartão-postal impresso, possibilitando visá-los no decorrer do tempo e acompanhar a organização do espaço e a preservação dos elementos que o formam e lhe dão sentido. 218 Jornal do Comércio. Primeira página. 21 de novembro de 2006. 133 3.3 Em busca da datação de cartões-postais da Praça de Boa Viagem Como relatado no capítulo anterior, a confecção de cartões-postais ganhou novo fôlego no mundo, a partir da década de 1960. Porém essa pesquisa constatou que os postais com imagens do bairro de Boa Viagem são mais facilmente encontrados a partir da década de 1970, mesmo período em que foi implantado uma série de projetos urbanísticos, com recursos públicos, que tiveram grande importância para o desenho da paisagem do bairro. Portanto, a coexistência do beneficiamento da técnica de impressão à ofsete, junto com a disponibilidade do Estado em dotar o bairro de Boa Viagem de equipamentos urbanísticos numa escala de tempo cada vez menor, possibilitou legar à posteridade um bom acervo de cartões-postais, com as mudanças ocorridas nessas últimas três décadas do século XX e primeiros anos do século XXI. Percebe-se que os fotógrafos e os editores de cartões-postais, demonstraram maior motivação por registrar e continuar registrando determinados recortes de paisagem, buscando com freqüência, valorizar ângulos previamente selecionados do bairro de Boa Viagem, como a praia, a avenida, os edifícios, a igreja e a praça, que são os temas mais comuns. De posse de um acervo de cartões-postais que revela as transformações por que passou a praça, a partir da década de 1970, é possível distinguir ou identificar algum processo que não se revela espontaneamente, que permite datar os cartões-postais e também demonstrar alguns fatos e conflitos ocasionados no contexto da evolução do espaço, em função da preservação de sua paisagem. Para isso, é necessário revelar alguns elementos da paisagem através de variadas informações, para justapor coerentemente esses cartões-postais reveladores de diferentes tempos. O cartão-postal da (Figura 29), fotografado no final da década de 1970, mostra a Praça de Boa Viagem figurando os traços do projeto desenhado pela arquiteta Gilda Pina (19601970). Entre os elementos que se destacam, percebe-se a presença de um componente aquático na praça, localizado por atrás da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Várias pessoas entrevistadas no decorrer da pesquisa e que vivenciaram a Pracinha de Boa Viagem na década de 1970, comentaram sobre a existência de um tanque na praça, onde se criavam tartarugas e para onde se levava as crianças para vê-las. O viveiro das tartarugas é uma das referências que identifica a praça para alguns usuários desse período. Uma prática que é também referência da praça no período em que esse postal foi confeccionado é a ciranda, que segundo a Senhora Vera, vendedora de acarajé da Praça de 134 Boa Viagem, acontecia na parte da frente da praça, sempre aos sábados e domingos e quem patrocinava o evento era a Prefeitura Municipal. Antes de começar a ciranda, um forrozeiro contratado pelos próprios feirantes animava a praça, o forró começava por volta das 20h e encerrava quando começava a ciranda que se prolongava até às 22h ou 22:30h. Ainda segundo a senhora Vera, muitos turistas procuram saber da ciranda: “As pessoas que vem de fora procuram muito a ciranda, quando chegam aqui sabem nem dizer o nome - aquela dança que tem todo mundo segurando nas mãos – eu digo é a ciranda, não tem mais [...]”. E além da ciranda, lembra a senhora Vera que havia mais diversão para as crianças, que podiam ver um jacaré que era criado no interior da praça ou podiam andar num “burrinho” de um senhor que circundava o local. 219. Figura 29: Brasil: Praça e Igreja de Boa Viagem – Recife. São Paulo. Edicard. [700-58]. 1 cartãopostal: color. Fonte: Acervo Doralice S. Maia O ângulo escolhido pelo fotógrafo, além da igreja e da sua praça, revela o entorno em transformação, com edifícios e futuros hotéis em construção, como se pode destacar da construção do segundo prédio do hotel Boa Viagem, no discreto detalhe à direita e das bases do Fator Hotel, com a armação em ferros dos pilotis à mostra. A pouca densidade de prédios verticalizados, permitia um melhor acesso à paisagem da linha de praia, pois o número de 219 Entrevista concedida em 2/03/2007. 135 casas era mais expressivo, assim a areia e a espuma formada pelas ondas do mar se estendia num campo de visão mais extenso. À esquerda da foto, um prédio em construção chama a atenção por se impor como o mais alto do entorno à época com 15 pavimentos, é o Edifício Cidade Sul que teve a autorização da Prefeitura para ser construído no ano de 1979. A confecção desse cartão-postal também exemplifica as ações empreendidas pelo Estado através do Plano de Valorização Urbana de 1974, realizado com recursos do Banco Nacional de Habitação (BNH). Dentre os trabalhos executados citam-se o alargamento da Avenida Boa Viagem e o asfaltamento de 23 ruas no bairro, a arborização da orla e a instalação do parque no pátio da igreja da Boa Viagem. Alguns anos depois, em 1977, foram realizadas remoções de mocambos que ocupavam as margens do Canal de Setúbal220. Na década de 1980 a pracinha ganha mais notoriedade, com a criação do decreto que instituiu a inclusão da Igreja e da Praça Salgado Filho221, como Zona de Preservação Rigorosa (Z.P.R.). Esse projeto recomendava a “preservação das características essenciais da matriz, garantia da Praça Salgado Filho como domínio útil e exclusivo da matriz: desapropriando as edificações existentes localizadas sobre a mesma”222. Desse modo, o decreto nº. 11.617 de 10 de julho de 1980, sancionado pelo prefeito Gustavo Krause ditou as seguintes normas concernentes à Igreja e Praça de Boa Viagem: Art. 1º - Fica instituída a Zona de Preservação Rigorosa constituída pelo Sítio Histórico da Igreja de Nossa Senhora de Boa Viagem, classificado pelo Plano de Preservação dos Sítios Históricos na categoria de “Edifícios Isolados”. Art. 2º - A Zona de Preservação Rigorosa – ZPR, que constitui o referido Sítio, está delimitada pela planta 21/31 do PPSH, integrante deste Decreto, e pela descrição do seu perímetro, conforme mapa na escala de 1: 2.000, cujo perímetro estende-se à partir do ponto nº. 1, cruzamento do eixo da Rua Dr. Nilo Dornelas câmara; deflete à direita, segundo o eixo desta rua, até atingir o ponto nº. 3, no cruzamento com o eixo da Av. Boa Viagem; deflete à direita, seguindo o eixo da Avenida, até o cruzamento com o eixo da Rua Barão de Souza Leão, onde atinge o ponto nº. 4; deflete à direita, seguindo este eixo, até atingir o ponto nº. 1, fechando assim o poligonal que define o perímetro da área em apreço. Art. 3º - Todas as intervenções na área interna à poligonal que define a ZPR, deverão objetivar a restauração e/ou conservação da Igreja a qual deverá ser única como edifício da ZPR. § único – É declarada “non aedificandi” toda a área restante do Sítio, devendo ter a mesma, tratamento paisagístico. Art. 4º. – Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação. Art. 5º. – Revogam-se as disposições em contrário.223 220 GOMES. op. cit. p. 274. Referindo-se a Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. 222 Decreto Municipal nº. 11.617 de 10 de julho de 1980. 223 Ibid. 221 136 Em 1985 Lúcia de Fátima M. M. Lima desenhou um projeto que previa uma grande reforma da Praça de Boa Viagem, com a instalação de um play graund no lado da praça mais próximo da Av. Boa Viagem. Essa área de lazer para crianças, teria gangorras, escorregos, escada lateral, labirinto, balanços, remo-remo, carrossel e o piso que seria de areia de praia. A arborização seria constituída de violetas, papoulas, coqueiros, bromélias, yurcas, agave, amendoeiras, palmeira imperial e lírios do brejo. Todavia, o tanque com as tartarugas não estava apresentado no projeto. O projeto concebia uma área para apresentações folclóricas e previa a disposição de um estacionamento na parte posterior da praça, em torno das casas ali existentes.224 Desde a década de 1970, a praça era conhecida pela presença da feira hippie que, era uma feira mais simples onde os hippies vendiam o artesanato, sentados no chão da praça. Segundo Sr. Gutembergue, proprietário de uma farmácia no local, os hippies deixaram de freqüentar mais a Praça de Boa Viagem e migraram para a Cidade de Olinda. Ainda de acordo com as lembranças do comerciante, que se interessa e coleciona algumas fontes históricas sobre a Praça do Circular, além dos hippies, ele recorda de uma pessoa que vendia pastéis numa Kombi, era o conhecido pastel do japonês. Entre os anos de 1986 e 1988, já durante a gestão do Prefeito Jarbas Vasconcelos coloca-se em prática o Projeto Cura-Beira-mar, quando foi “viabilizado tratamento paisagístico para a orla marítima, implantados chuveiros públicos, reservatórios, etc”225. Em 1988 a prefeitura articulou um acordo para a reforma da Praça de Boa Viagem, prevendo a transferência da feira de artesanato pra o interior da praça. O acordo foi expresso em documento no dia 15 de junho desse ano e teve representação da Secretaria de Ação Social, dos artesãos da Feira de Artesanato da Praça de Boa Viagem, da Fundação de Cultura da Cidade, dos feirantes da Feira de Artesanato da praça e do Grupo de Moradores e Amigos da Praça da Boa Viagem. De acordo com o referido documento, a reforma seria realizada em duas fases, a primeira compreenderia a parte à direita da praça, ao lado, como se referiu o documento, da Av. Consellheiro Aguir226, enquanto as obras estivessem em andamento naquela parte da praça, as feiras ocupariam a parte à esquerda da igreja, de frente à Av. Boa Viagem. Após o 224 LIMA, Lúcia de Fátima M. M. Praça do Circular de Boa Viagem: Planta de marcação e vegetação. Recife: Prefeitura da Cidade do Recife. Secretaria de Transportes Urbanos e Obras. Empresa de Obras Públicas da Cidade do Recife. Deptº. de Projetos e Controle Tecnológico. Divisão de Construção Civil, 1985. 225 GOMES, op. cit. p. 275. 226 Atualmente esse trecho é denominado de Rua Setúbal. 137 término da pintura do lado direito da praça, a feira passaria a ocupar definitivamente aquele trecho. A segunda fase da reforma se daria com a interferência na frente da praça, onde depois de concluída, não deveria mais abrigar as Feiras de Artesanato e se destinaria apenas ao “lazer comunitário moderado” de modo que não viesse acarretar a deterioração dos equipamentos e jardins e nem provocar incômodo sonoro aos residentes na orla da praça. À prefeitura caberia a fiscalização rigorosa para coibir a invasão permanente ou periódica de vendedores ambulantes ou barraqueiros. Em 1989, quando o Prefeito Joaquim Francisco assume o segundo mandato, dá curso ao projeto de revitalização do Canal de Setúbal e ao Projeto Cura-Beira-mar227. Foi justamente em 1989 quando foram constatadas algumas divergências entre a população e a prefeitura sobre os direcionamentos dados à Praça de Boa Viagem, com as reformas e com o disciplinamento do seu uso. Em maio de 1989 foi enviado pelo Diretor-executivo Roberto José Marque Pereira, um ofício ao então Presidente da URB na época, Roberto Andrade, para providenciar um novo projeto, pelo fato da permanência da Feira de Artesanato na parte da frente da Praça de Boa Viagem228. O referido ofício passou pela apreciação de vários responsáveis pela execução das obras, como constatado nas notas manuscritas no verso do documento. Entretanto, quem se manifestou de uma maneira mais completa e formal foi a arquiteta Elza Maria Ferreira, que através de um documento em resposta ao oficio nº. 272/89, concluiu a partir de sua análise técnica, que a permanência da feira na frente da igreja traria prejuízos tanto aos cofres da prefeitura, quanto para a comunidade229. Mas, em 19 de setembro do mesmo ano, outro ofício foi circulado entre o Diretorexecutivo Roberto José Marque Pereira, e o Presidente da URB, Roberto Andrade, em que o primeiro relata que fora realizada uma reunião com os feirantes para informá-los que a feira iria ser alocada na parte anterior da praça, fato que, segundo consta no ofício, não foi positivamente acolhido pelos feirantes nem pelo Prefeito Joaquim Francisco, o qual sugeriu acomodar as 60 barracas de comidas típicas na parte anterior da praça e as outras 160 no segmento posterior230. 227 Ibid. p. 275. Prefeitura da Cidade do Recife. Fundação de Cultura Cidade do Recife. Ofício nº. 272 de 24 de maio de 1989. 229 Projeto de Restauração da Praça de Boa Viagem. Análise técnica referente ao ofício nº. 272 de 24 de maio de 1989. 230 Prefeitura da Cidade do Recife. Fundação de Cultura Cidade do Recife. Ofício nº. 565 de 19 de setembro de 1989. 228 138 Nesse mesmo ano de 1989, Frederico Pernambucano de Mello, então presidente do Grupo de Moradores e Amigos da Praça da Boa Viagem, escreveu no Diário de Pernambuco um artigo com o título “Na pracinha de Boa Viagem”, atinando para a importância histórica dos monumentos ali existentes. Li na coluna de João Alberto do dia 20 último que a prefeitura do Recife, pela sua Secretaria de Ação Social, vai riscar a praça da Boa Viagem do mapa da cidade, transformando-a num centro de comércio turístico a céu aberto, com duzentas barracas para a venda de utensílios variados. Diz a matéria, textualmente: “A feira se transformará num ponto de partida para o desenvolvimento de um projeto que tem como objetivo transformar a praça de Boa Viagem num ponto turístico”. O chamado Terminal da Boa Viagem – como tenho insistido em vários pronunciamentos pela imprensa nos últimos anos – é o chão mais sagrado que há em nosso bairro [...] Nada se impões mais à preservação, ao tratamento paisagístico e ao ajardinamento de alce, que esses palmos generosos de terra, espécie de capitólio a céu aberto sobretudo para os que, como eu, residem no bairro desde menino [...] A Prefeitura deve apoiar o comércio turístico, é certo. Mas nunca às custas da extinção de uma praça. De qualquer praça, mesmo que não desfrute da condição inquestionável de patrimônio histórico e artístico de que se orgulha a praça da Boa Viagem. Praça tem que ver com o verde e o desfrute de todos, não com barracas para o comércio privado de uns poucos. Não é pátio da feira. Não pode sê-lo numa cidade que se ressente dramaticamente de verde e ainda mais de civilização, como é o Recife. Permitir que se destrua, a qualquer pretexto, o patrimônio histórico, é fomentar a barbárie. No Recife, um pretexto tem estado sempre por trás das ações destrutivas, confundindose com o cabo da picareta [...]. O incentivo ao turismo – razão, em tese, respeitável – aparece deformado em pretexto do dia. O biomo pretensamente social que se ergue para encobrir novo golpe na memória da nossa cidade. [...] O grupo de Moradores e Amigos da Praça da Boa Viagem, que tenho a honra de presidir, vem à luz para patentear que se opões, respeitosamente, a qualquer medida que não diga respeito à restauração do logradouro, com o retorno dos jardins outrora floridos e, acima de tudo, com a devolução do respeito cívico que todo espaço germinal faz por merecer. Entendermos, os do Grupo, que é pela postura civilizadora, mais que pela ação material, que se há de legitimar o poder público. Frederico Pernambucano de Mello – Recife.231 O artigo de Frederico Pernambucano de Mello gerou outros textos como resposta de apoio, entre eles, um que recomendava a desapropriação e demolição de um restaurante e de quatro lojas na área da praça232, projeto que a prefeitura resolveu levar a cabo, como consta 231 232 Diário de Pernambuco. Na pracinha de Boa Viagem. 26/11/1989 Diário de Pernambuco. Explode Coração. 03/12/1989. 139 em ofício datado de 08 de janeiro de 1990, destinado à moradora da Praça de Boa Viagem Djanira de Souza Beirão233. As obras da praça que estavam em andamento foram paralisadas por causa do impasse da alocação da Feira de Artesanato, enquanto isso, um grupo de moradores encaminhou um abaixo-assinado ao Prefeito Joaquim Francisco Cavalcanti, sugerindo que se deixasse livre para o uso da população a parte da frente da praça e que se preservasse a feira no interior da praça, no trecho entre a igreja e a Rua Setúbal234. Dias antes de encaminharem o abaixo-assinado, as reivindicações realizadas pelos moradores já haviam sido contempladas pelo Ofício nº. 003/90, mas uma Nota de 6 de fevereiro235, do Gabinete do Prefeito, comenta que as obras estavam paralisadas e que se fazia necessário agilizar as decisões, inclusive as ditadas pelo próprio. Figura 30: Brasil turístico: Praça e Igreja N. Sra. Da Boa Viagem. Recife. Litoarte. [004-]. 1 cartãopostal: color. Fonte: Acervo do autor. 233 Prefeitura da Cidade do Recife. Secretaria de transportes urbanos e obras. Departamento de Ecologia. Ofício nº 003 de 08 de janeiro de 1990. 234 Abaixo-assinado de 11 de janeiro de 1990. 235 Prefeitura da Cidade do Recife. Gabinete do Prefeito. Nota nº. 01/90. 140 Junto à nota, estava um croqui apontando o posicionamento das barracas do lado esquerdo da igreja. A 08 de março de 1990, uma nota de rotina esclarece que a Fundação de Cultura da Cidade do Recife negociou a divisão da feira, colocando 67 barracas no espaço intermediário da praça236, assim a reforma da praça foi finalmente concluída, com detalhe da implantação do gradil, previsto no Ofício nº 003 de 08 de janeiro de 1990 (Figura 30). Durante o período em que se debateu o projeto de restauração da Praça de Boa Viagem, novos edifícios residenciais e hotéis foram surgindo no seu entorno e a funcionalidade de alguns equipamentos ali existentes ganharam outros direcionamentos, sobretudo, a partir da constituição da Praça como ponto turístico. Desse modo, durante a década de 1990, destaca-se a presença de boates de strip-tease e cabarés ligados ao turismo sexual e ao tráfico de drogas, responsáveis pelas distorções de uso e “má fama da Pracinha de Boa Viagem”. Em outubro de 1993, para uma outra reforma da Praça de Boa Viagem, novo projeto de paisagismo foi desenhado por Andréa Campos, junto com uma equipe técnica envolvendo a assessora Janete Ferreira Miranda e as arquitetas Maria Inês de Oliveira Mendonça e Brena Lúcia Aguiar Remígio. Nesse projeto, em que a arquiteta Maria Inês é comumente apontada como a principal responsável, a Feira de Artesanato e a de Comidas Típicas são apresentadas ocupando a parte à direita da igreja com 206 barracas. No setor à esquerda da igreja, onde ficavam 67 barracas, foram plantados coqueiros e instaladas mesas e bancos de concreto decorados com cerâmica. O gradil foi retirado da parte da frente da praça e instalaram-se tubos de ferro galvanizado, pintados com esmalte sintético. Esses tubos de ferro, junto com as mesas e bancos no centro, são importantes elementos para a identificação e datação de alguns cartõespostais, se remetendo ao ano de 1994, quando foi executado o projeto. Todavia, ainda existia um impasse a ser resolvido, o da demolição das casas existentes no interior da praça, como havia sido previsto no ano de 1990 e mesmo comunicado a uma das moradoras do local. No bojo dessa discussão, em 22 de fevereiro de 1994 a Sra. Cléa Vasconcelos Brasileiro, proprietária da casa nº 16, da Pracinha de Boa Viagem, encaminhou um texto comunicando a importância desse imobiliário para a preservação dos diversos tempos de construção da cidade. 236 Prefeitura da Cidade do Recife. Gabinete do Prefeito. Nota de Rotina nº. 132/90. 141 A Sra. Cléa V. Brasileiro afirma que aquele edifício foi erguido nos anos 1935/36, pelo engenheiro Amadeu Coimbra, utilizando o combogó como sistema construtivo, em substituição ao tradicional tijolo de cerâmica. De acordo com a Sra. Cléa, o engenheiro Amadeu Coimbra junto com outros dois engenheiros, criou o combogó, que inicialmente não recebeu boa acolhida pelos proprietários. Ela faz referência ao Recife dos anos trinta que vivia a efervescência dos ideários modernistas e cita o nome do arquiteto Luiz Nunes, que depois de formado pela Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro, viria em 1934 para o Recife e num tabalho inovador, utilizaria o combogó na caixa d’água de Olinda, inaugurando o seu uso como instrumento de ventilação. O documento assinado pela Sra. Cléa foi encaminhado para análise e pronunciamento pela Prefeitura Municipal, mas não se teve acesso à resposta oficial do órgão gestor. Contudo, pelo que os cartões-postais registraram após a reforma de 1994, a casa nº 16 da Praça de Boa Viagem, hoje conhecida como Casa Combogó, foi poupada da demolição (Figura 31). Figura 31: Recife: Igreja e praia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Recife: Dicol Recife. [10]. 1 cartão-postal: color. Foto: Jaime Ximenes Jr. Fonte: Acervo do autor. Também em 1994 o sítio histórico da Praça de Boa Viagem, junto com a Matriz de N. Srª. da Boa Viagem e o Obelisco, foram tombados pelo Estado237. E no ano de 1996, a Igreja 237 Por via do Decreto n° 17.671, inscrição nº. 12, Livro de Tombo III, processo Fundarp 2.5009/89. 142 de Boa Viagem passou a ser considerada Zona Especial de Preservação do Patrimônio histórico e Cultural (ZEPH – 21), através da Lei Municipal nº 16.176/96 de Uso e Ocupação do Solo, na categoria de edifícios isolados238. A Pracinha de Boa Viagem desde 1994 até o ano de 2003, não passou por nenhuma intervenção significativa que viesse a modificar e a marcar sua paisagem, apenas alguns elementos foram alocados, como um posto policial e um outro posto de informações turísticas, sendo o primeiro já presente na segunda metade da década de 1990 e o segundo típico dos primeiros anos do século XXI. Portanto, a imagem da Praça de Boa Viagem do início do novo milênio se assemelhava ao cartão-postal exemplificado na (Figura 32). Figura 32: Brasil turístico: Vista noturna da Praça de Boa Viagem. Recife: Brascard. [170-]. 1 cartãopostal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor. 238 Sobre os requisitos especiais para regulamentação da ocupação e aproveitamento nas Zonas Especiais de Preservação Histórico-Cultural – ZEPH, da Igreja de Nossa Senha da Boa Viagem – ZEPH – 21 destacam-se: A – Análise especial para cada casa a critério do órgão competente, objetivando a restauração, manutenção do imóvel e/ou sua compatibilização com a feição do conjunto integrante do sítio, sendo permitida a demolição dos imóveis cujas características não condizem com o sítio, ficando o parecer final a critério da CCU; B - Não serão permitidas modificações no parcelamento do solo, inclusive remembramento e desmembramento, podendo haver interligação entre os imóveis, desde que não interfira nas volumetria dos mesmos; C - Respeito à legislação vigente, no tocante Às condições internas dos compartimentos; H - As condições internas dos compartimentos das edificações originais quanto as dimensões, iluminação e ventilação serão objeto de análise especial pelo órgão competente; S - Qualquer uso, é permitido, desde que não acarrete descaracterização no imóvel, interferência no entorno e obedeça ao que determina esta lei; Z - As construções existentes poderão permanecer, não sendo permitidos novos acréscimos e sendo eliminados seus elementos descaracterizantes 143 Observe-se no detalhe dos bares em frente à Igreja. O lote que eles ocupavam era bem estreito, porém relativamente comprido. Em uma visita realizada a um desses bares, no ano de 2002, pôde-se observar que enquanto na frente funcionava o estabelecimento comercial, comumente reconhecido como cabaré, ‘inferninho’, ponto de prostituição e de drogas, por trás existia uma residência familiar. Para ir ao banheiro, era necessário passar pelo interior da residência, até chegar ao sanitário, localizado nos fundos. Na oportunidade, pessoas sentadas em sofás e cadeiras, assistiam à novela na sala de estar. Em 11 de agosto de 2003 foram iniciadas outras obras de revitalização da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem e áreas do seu entorno. A intervenção na Praça foi justificada pelo Prefeito João Paulo, por ali ser um espaço que possui muitos problemas e sem disciplina no tipo de serviço prestado. De acordo com a pesquisa de opinião pública realizada pela Fundação Joaquim Nabuco, solicitada pela Secretaria de Turismo e Esporte da Prefeitura da Cidade do Recife em 2001, a causa apontada pelos usuários, dos problemas gerados na Praça de Boa Viagem, decorria da presença de bares e pontos de prostituição e também da presença, de quem a pesquisa classificou de desocupados, como: cheira cola, meninos de rua, mendigos e bêbados. Sendo uma das principais causas da baixa freqüência dos moradores do entorno, o sentimento generalizado de insegurança239. Também foi relatado através do citado levantamento, que os usuários cobraram a falta de manutenção, dos cuidados com a limpeza e com o tratamento dos jardins. A falta de atividades culturais como a antiga ciranda já comentada e também a inexistência de espaços dirigidos às crianças, formam as principais questões coletadas pela pesquisa240. A pesquisa realizada pela Fundaj concluiu que a praça é pouco freqüentada pelos moradores do entorno desse logradouro, principalmente pelos que residem no bairro há mais de 20 anos, pelas mulheres e pela população mais jovem. Ainda segundo essa instituição, os que conhecem e visitam esse logradouro com mais freqüência, teriam rendimentos mais baixos241 e segundo a experiência acumulada dessa pesquisa, através dos trabalhos de campo realizados, constatou-se a presença marcante de freqüentadores da praça oriundos de outros 239 NABUCO, Fundação Joaquim. Pesquisa de Opinião Pública: O Caso da Praça de Boa Viagem – Direcionamento de uso. Recife: outubro de 2001. 240 Ibid. 241 “Nota-se que os entrevistados com rendimentos mais baixos (até cinco salários mínimos) são os que mais visitam o logradouro (quase 2/3 das respostas nesse estrado, ou melhor, 65,5%, parcela que se reduz para cerca de 55% das respostas naqueles comicílios caracterizados por uma renda familiar acima de R$ 3.600,00 (20 salários mínimos)”. NABUCO, Fundação Joaquim. Pesquisa de Opinião Pública: O Caso da Praça de Boa Viagem – Direcionamento de uso. Recife: outubro de 2001. 144 bairros da RMR, como: Barra de Jangada, Candeias, Piedade, Prazeres, Imbura, Jordão, Cavaleiro, Casa Amarela, além de turistas provenientes de outros Estados e países. Em 11 de agosto de 2003 foi dado início às obras de revitalização da Praça de Boa Viagem, realizada pela Secretaria de Serviços Urbanos da Prefeitura da Cidade do Recife, tendo sido orçada no valor de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais). Os trabalhos estavam previstos para durar até outubro do mesmo ano, porém, estenderam-se até fevereiro de 2004, quando ao som de fogos, de uma orquestra, e após o discurso do prefeito João Paulo e de um morador de rua, foi reaberta a praça. Com a redefinição das formas da praça, a Feira de Artesanato retornou a ocupar dois de seus setores, sendo o artesanato, identificado pelas barracas verdes, comercializado predominantemente na parte à esquerda da igreja e as comidas típicas, nas barracas vermelhas, no setor à direita. O banheiro no interior da praça foi demolido e a Casa Combogó, já tendo seu reconhecimento por parte do Conselho Estadual de Cultura, foi aconselhada pela Empresa de Urbanização do Recife, a passar por uma restauração para concentrar as funções de posto policial, banheiro, posto de informações turísticas e administração da praça. Entretanto, esse último projeto não se consubstanciou e assim o posto policial permaneceu em trailer e um posto de informações turísticas foi construído próximo à feira de Comidas Típicas. O cartão-postal da (Figura 33), mostra as feições da praça após a conclusão da reforma de 2003. Detalhe para o fato de que quando a praça estava fechada para a reforma, o prédio mais alto, em último plano, também estava em construção, com nenhum acabamento na sua fachada. No decurso da obra, a praça ficou mais de seis meses fechada, fato que acarretou uma mudança da prática cotidiana exercida pela população que usa a praça pra diferentes fins. Essa constatação resulta dos trabalhos de campo, realizados na Praça de Boa Viagem no período de 2003 a 2007. Um dos objetivos dessas visitas in loco era verificar as territorialidades formadas ao longo do dia pela população, com destaque para a população em situação de rua, que chamou atenção pela presença constante, e por ser um fato ilustrativo e contraditório da imagem de cartão-postal. 145 Figura 33: Praça de Boa Viagem. Recife: Dicol. [171-]. 1 cartão-postal: color. Foto: Hans V. Manteuffel. Fonte: Acervo do autor. A seguir, encontram-se relatadas algumas experiências do contato realizado pelo pesquisador com essa população em situação de rua, com o objetivo de ampliar a compreensão dos significados desenrolados na Praça de Boa Viagem. 3.4 Conhecendo algumas inesperadas e outras inoportunas visões do entorno da Praça de Boa Viagem Entre os anos de 2003 e 2007 foram realizados vários trabalhos de campo à Praça de Boa Viagem, a fim de identificar as territorialidades formadas ao longo do dia pela população, com destaque para a população em situação de rua242, que chamou atenção pela sua presença 242 A experiência do trabalho de campo revelou a existência de pessoas que usam a Praça de Boa Viagem e seu entorno para pedir esmolas, no entando nem todos eram verdadeiramente moradores de rua. Por isso, tomou-se o cuidade de se referir à coletividades desses grupos como população em situação de rua. Maria Antonieta da Costa Vieira fornece uma explicação teórica sobre essa diversidade de agentes sociais vivendo no mundo da rua: “Seria possível identificar situações diferentes em relação à permanência na rua: ficar na rua – circunstancialmente; estar na rua – recentemente; ser de rua – permanentemente. O que unifica essa situação e permite designar os que a vivenciam como população de rua é o fato de que, possuindo condições de vida extremamente precárias, circunstancial ou permanentemente, utilizam a rua como abrigo ou moradia. VIEIRA, M. A. da C. et al. (org.). População de rua: quem é, como vive, como é vista. São Paulo: Hucitec. 1992. p. 94-93 146 constante, e por ser um fato ilustrativo e contraditório à imagem de cartão-postal. Assim, contatou-se que é praticamente impossível não se deparar com algum mendigo, garoto cheirando cola, alguma mulher com criança de colo ou pessoa idosa dormindo nas calçadas, principalmente no entorno da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem ou pedindo esmolas nos sinais de trânsito. Nas proximidades da Pracinha de Boa Viagem, é possível observar diferenças entre essas populações, onde alguns realmente moram nessas proximidades e outros usam a área em alguns determinados dias da semana. Como exemplo da presença dessa população nas imediações da Praça de Boa Viagem, pode-se citar o caso da senhora Joelma, que há alguns anos utiliza o entorno da praça para pedir esmolas. O relado da senhora Joelma, foi concedido no ano de 2003, quando tinha apenas 18 anos de idade e morava no bairro de Nova Descoberta, periferia da Região Metropolitana da Cidade do Recife. Ela vinha com seus dois filhos, sendo um de colo, seu esposo e irmãos, um de 17 e outro de 20 anos e eventualmente um vizinho adolescente. Enquanto a sra. Joelma ficava com as crianças nas proximidades do supermercado Bompreço, pedindo esmola sentada em uma calçada, os homens iam trabalhar como flanelinhas. Para eles, a periodicidade do uso da localidade como meio de levar a vida era inconstante, às vezes, vinham toda semana, ou quinzenalmente, mas quando resolviam sair de Nova Descoberta para a Praça de Boa Viagem, geralmente passavam vários dias, até mesmo mais de uma semana, sendo que nesses dias todos dormiam na rua. Enquanto a senhora Joelma relatava sua história, um homem no outro lado da rua olhava em sua direção e se comunicava com ela através de sinais. Era o seu esposo que não foi entrevistado porque a sra. Joelma afirmou que “ele não gosta dessas coisas” e em seguida pediu uma esmola ao pesquisador e licença para encerrar a conversa e continuar sua tarefa de pedir esmolas aos outros transeuntes. Um outro caso é o do Baiano, ex-menino-de-rua, filho de uma prostituta, condenado por latrocínio, que vivia nas imediações da Praça de Boa Viagem, sempre acompanhado de outros colegas. O contato com Baiano aconteceu em um trabalho de campo realizado em março de 2004. Ele se aproximou quando o autor da pesquisa conversava com alguns moradores de rua. Foi interessante a situação, porque se notou que o Baiano provocara certa aversão nos demais que ali se encontravam, tanto que aos poucos eles começaram a se distanciar. Curioso em saber o que se passava, Baiano perguntou o que o pesquisador queria na praça. Imediatamente ele ficou sabendo que todos conversavam sobre as dificuldades de se morar na rua. Nesse instante, demonstrando irritação, Baiano afirmou que para saber como é morar na rua “é preciso trocar o dia pela noite e a noite pelo dia”. Não se sabe bem se ele 147 estava drogado, ou se estava querendo parecer ameaçador, porque sempre falava num tom agressivo, parecendo querer intimidar o pesquisador e convidá-lo a ir embora. Apesar da situação, a conversa continuou e Baiano comentou que para se viver na rua é necessário respeitar algumas normas que ele mesmo chamou de “códigos da rua”. Ele ditou quatro códigos dos dez que disse que existiam, mas só se conseguiu registrar três. Os “códigos da rua” segundo o Baiano seriam: 1. Quem mora na rua não sabe o que é bom nem o que é ruim. É preciso passar um dia na rua com a gente. A dor ensina a parir; 2. O homem quando troca a noite pelo dia ou o dia pela noite ele fica furioso, fica agressivo, de matar e morrer. Pode matar até com um gargalo de garrafa; 3. Quem vive na rua é humilde. Nós não somos esmoléu, nós somos sofredores. Esmoléu é aquele que é deficiente, aquele que pede... No decorrer de conversa, Baiano também relatou que se chama assim porque é natural da Cidade de Salvador e que há um senhor que o prometeu uma passagem de ônibus para ele voltar para a terra natal. Ele contou que só estava esperando ganhar essa passagem para ir embora. As crianças e adolescentes em situação de rua formam um outro perfil de usuários da Praça de Boa Viagem e do seu entorno. É uma população que incomoda bastante os comerciantes da redondeza e os moradores. Essas crianças e adolescentes comumente apelidados de “cheira-cola”, por normalmente portarem pequenos recipientes, geralmente garrafas de água mineral vazia, com cola de sapateiros, estão sempre presentes nas redondezas da praça e são muitas vezes apontados como praticantes de delitos, como roubos, furtos e mesmo homicídios. Nos dias em que a feira de artesanato da praça está montada, a presença dos meninos de rua não é tão aparente, pois a repressão por parte dos seguranças particulares é ostensiva. Em dezembro de 2006, assistiu-se a uma cena de grande brutalidade. No momento em que o segurança expulsava, da área destinada a alimentação na praça, uma criança aparentando ter quatro anos de idade, prostrado diante dos olhares de alguns usuários que assistiram aquela infeliz atuação, o segurança resmungou em tom de esclarecimento, que aquela criança, de posse da sua chupeta e de uma boneca velha, oferecia perigo às carteiras dos turistas. No decorrer dos dias da semana, é constante a presença de crianças e adolescentes cheirando cola. Quando não estão ao redor da praça, nos entulhos da antiga boate Eclipse, ou nas proximidades do supermercado Bompreço, eles ficam à margem do Canal de Setúbal. 148 À respeito do Canal de Setúbal, se torna importante relatar melhor as territorialidades ali formadas que, por sua vez, têm ligação direta com os usos apreendidos na Praça de Boa Viagem. Ao longo do Canal de Setúbal existe um trecho que chama a atenção da pesquisa porque em determinados períodos delimitados pelo calendário das comemorações como Dia das Mães, São João, Dia das Crianças, Natal e Réveillon, passa a ser ocupado por um expressivo número de famílias, geralmente mulheres e crianças que se expõem nesse local em troca de esmolas ou agrados. Quando as comemorações passam, os grupos que acampam nas margens do canal vão embora. Esse movimento de ocupação e retirada das margens do canal por algumas famílias nessas datas específicas ocorre de forma bastante sazonal, acentuando diferenças significativas na paisagem em curtos espaços de tempo. Se um dia no canal encontra-se com uma densidade considerável da população em situação de rua, com barracas, caixotes e papelões, em poucos dias é possível visualizar apenas os rastros deixados pela presença desses grupos, como restos de cinza das fogueiras utilizadas para o preparo de comidas, embalagens de alimentos como hambúrgueres e copos de refrigerante, doados pelos transeuntes, armações de papelão utilizadas como abrigo e o gramado repisado. Tomando como referência a parte do Canal de Setúbal simétrica à Praça de Boa Viagem e estendendo a visualização até as proximidades no Mercado de Boa Viagem, podese notar que nesse trecho, além da sua ocupação durante aquelas citadas datas, percebe-se uma mais permanente ocupação ao longo dos dias e do ano ali, pela população em situação de rua. Durante os seis meses em que a praça permaneceu fechada para reforma, entre os anos de 2003 e 2004, esse trecho do canal passou a ser ocupado pelas mesmas pessoas que normalmente poderiam ser vistas dormindo ou se reunindo em grupos na praça. Não foi difícil destacar que as pessoas que durante o dia e à noite passaram a ocupar o canal eram as mesmas que ficavam na praça, como se testemunhou durante várias visitas realizadas. Certa vez, em trabalho de campo, o autor resolveu mapear o uso do tempo pelos usuários da praça. O procedimento adotado seria destacar num mapa da área, as ocupações na praça em diferentes horários, para tanto, precisou-se usar uma prancheta para dar mais apoio durante as anotações. O fato é que ao ver um rapaz com uma prancheta em mãos, olhando para todos os lados da praça, os moradores de rua apareceram aos montes achando que era algum tipo de cadastro da prefeitura. Em meio às frases “Ei, é pra dar casa é?”. “O que que é isso aí?”. “É pra trabalhar na obra é?. “Coloca aí que eu tô precisando de umas tábuas pro meu barraco!”. Foi preciso esclarecer que o motivo das anotações naquela prancheta era 149 apenas para fins de uma pesquisa em Geografia, para que eles compreendessem que não era a prefeitura que estava fazendo cadastro. A partir dessa situação, foi possível conversar um pouco com esse grupo e assim conhecer um pouco mais sobre eles, presenciando cenas do cotidiano, como por exemplo, o preparo de alimentos em fogueiras, realizado no próprio Canal de Setúbal. Quando a praça estava em reforma, os grupos formados na sua maioria por homens e mulheres, que a usavam com mais freqüência, passaram a ocupar a área do canal que fica exatamente em frente ao restaurante “O Laçador”. Alguns metros adiante, numa posição mais simétrica à Praça de Boa Viagem e embaixo de amendoeiras, podia-se encontrar crianças, adolescentes e algum jovem adulto que também a freqüentava, mas com menor freqüência. O padre da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, em entrevista, relatou que foi feito um acordo com as pessoas que ficavam pedindo esmolas na porta da Igreja. O acordo consistia no fim da ocupação das portas do templo, sob a condição da Igreja se comprometer em doar uma “feirinha” para eles. De acordo com ele, os mesmos após receberem a “feirinha” trocavam por bebida ou por cola. Para solucionar esse problema, a Igreja passou a oferecer em associação com os bares que ficavam em frente a ela, almoço ou jantar às pessoas carentes que ocupavam a Praça de Boa Viagem através da doação realizada por “padrinhos” ou “madrinhas”. A Igreja também passou a fazer visitas nas residências de algumas pessoas em situação de rua. Um dos objetivos era a inclusão de nove delas nos trabalhos de reforma que estavam ocorrendo na praça de Boa Viagem, decorrente de uma ação social da Prefeitura do Recife, que destinou parte das vagas dos trabalhadores da obra para pessoas carentes, que receberam uma bolsa de 240 reais.243 O padre tem uma interessante visão acerca da ocupação do entorno da Praça de Boa Viagem. Para ele, as pessoas que pedem esmolas nas proximidades da igreja moram longe, sendo atraídas ao bairro de Boa Viagem por causa de sua referência, são poucos os que realmente moram na praça, um ou dois, e o restante se sente atraído justamente por causa da fama que Boa Viagem tem de ser um bairro rico. Já com relação às concentrações observadas nas margens do Canal de Setúbal, o padre deduzindo a origem daquelas pessoas afirmou serem moradores das favelas próximas. Todavia, ainda segundo ele, os usuários da beira do canal não são conhecidos da igreja, “é um outro público ou clientela”. “É um pessoal muito arisco e momentâneo”. Esse pessoal arisco e com uma territorialidade momentânea, como exemplificou o mesmo, são justamente os jovens 243 Fonte: Entrevista com Wilson Luiz da Silva – Técnico em Edificações, integrante do projeto da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SED). Data: 09 de janeiro de 2004. 150 e crianças vulgarmente conhecidos como cheira-cola. E o desconhecimento por parte da Igreja dessa “clientela” ficou mais nítido quando se pôde observar durante a conversa com o padre, um mapa emoldurado na parede de uma das salas da Igreja, representando a delimitação da área de atuação das Igrejas de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora da Boa Viagem. O Canal de Setúbal com suas margens é justamente a fronteira demarcadora dos territórios responsáveis por cada paróquia e a responsabilidade de assistência à população naquela área não é assumida por nenhum dos dois templos. Assim o padre chamou a atenção para incidência da violência no entorno da Praça de Boa Viagem, exemplificando com questões que vão desde o vandalismo até a prática de homicídio. Ele falou dos garotos que arranham os carros dos fiéis e citou um episódio bastante brutal, o caso da morte de um arquiteto na Avenida Domingos Ferreira por causa de um celular que o bandido resolveu roubar. Por fim, o padre afirmou que os moradores de rua não pedem esmola, “são de assaltar, de roubar ou matar”. Apesar de algumas representações acerca dos moradores de rua, os intitularem como marginais perigosos, aptos a todo tipo de barbaridade, acontece ali mesmo na praça uma sociabilidade envolvendo moradores de rua e os moradores locais, com os comerciantes ou com os empregados das lojas próximas à praça. Pode-se citar pelo menos dois exemplos típicos. Havia um senhor com idade em torno de quarenta anos chamado “Chôla” que morava nas imediações da praça de Boa Viagem, às vezes, ele dormia na praça, outras vezes embaixo da marquise de uma loja de aluguel de carros, perto do Canal de Setúbal, mas diariamente poderia ser encontrado na pracinha. Ele era uma espécie de office boy dos comerciantes locais e de alguns moradores. Ia sempre ao supermercado fazer pequenas compras ou carregá-las para alguma mulher. De tantas vezes que ia ao supermercado, acabava por fazer amizade com os operadores dos caixas, os quais nos intervalos do trabalho, poderiam ir à Praça de Boa Viagem e dar início a alguma conversa com Chôla. Sabe-se que Chôla tinha uma família, ele certa vez comentou que havia visto um irmão seu nas imediações da praça, mas ele se escondeu para não ser reconhecido pelo parente. Segundo Chôla, ele tinha alguns parentes que moravam no residencial Don Helder Câmara, localizado na bairro de Piedade. Na primeira metade de ano de 2007, Chôla foi atropelado nas imediações da praça e veio a falecer. Segundo a senhora Zezita que trabalhou alguns anos numa pousada na Rua dos Navegantes, alguns moradores arcaram com os custos do sepultamento do Chôla para que ele não fosse tratado como indigente. Um outro exemplo emblemático de morador de rua que exerce uma prática de sociabilidade junto aos usuários da Praça de Boa Viagem e aos moradores e comerciantes 151 daquele entorno é o Sr. Antônio, popularmente conhecido apenas como Doutor. Ele mora na praça. É o único morador de rua que sempre está na praça, mesmo em período de inverno ele permanece lá, apenas se cobre com um plástico para se proteger da chuva. O Sr. Antônio que é advogado de formação, mora na Praça de Boa Viagem há doze anos e dedica boa parte do seu tempo à leitura de livros, revistas e jornais. Pela manhã o Doutor tem acesso às notícias diárias através de jornal cedido pelos jornaleiros que se reúnem na praça para organizar os fascículos a serem entregues no bairro de Boa Viagem. Quando o hotel Boa Viagem ainda estava em pé, entre os anos de 2003 e 2004, existia um morador no hotel que trabalhava com venda de carros e todos os dias descia para pegar a parte dos classificados de automóveis com o Doutor, uma vez conseguiu-se observar esse senhor dando um antiinflamatório para o Doutor que reclamava de dores. O Doutor sempre surpreendeu com sua forma culta de falar de variados assuntos. Sobre política, conhecimentos gerais, língua estrangeira, em especial, o francês. Ele gosta de falar em francês e comumente repete a idéia de que não poderá conversar com as pessoas, se não ler, por isso, se mantém sempre informado. Durante as obras de requalificação da praça, o Doutor foi selecionado para trabalhar, e no momento da solenidade de reabertura do logradouro, realizada pelo prefeito da Cidade do Recife, João Paulo, ele foi escolhido para discursar para o público em nome de todos os trabalhadores empregados no projeto da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SED), que absorveu a mão-de-obra dos moradores de rua nos trabalhos executados na praça. É certo que as questões que distorcem a idéia de paisagem de cartão-postal da Praça de Boa Viagem como a especulação imobiliária, a prostituição, os moradores em situação de rua, o comércio ambulante, a violência, dentre outros temas, são válidas de uma dissertação ou tese que contemple o assunto mais profundamente. O que se constata é o crescimento da cidade que dá linhas à história do bairro de Boa Viagem. E nessa evolução da urbe, reluz a marca da pobreza que a própria sociedade e a cidade criaram, baseadas num modo excludente de produzir seu espaço. Essa pobreza se transforma num ruído que impede a comunicação visual pretendida pelos produtores do espaço urbano, mas esse mesmo ruído também possibilita a visibilidade através da paisagem de uma face da ação negligente da sociedade diante da produção do espaço urbano. A imagem de cidade pretendida pelos promotores urbanos é aquela aos moldes de belos cartões-postais ilustrados com imagens da cidade, onde o monumento e a paisagem representados ganham ar de perfeição. Enquanto o ruído que deturpa, contradiz e clarifica a pretensão elitista de algum recorte de paisagem urbana, se expressa no que se convenceu 152 chamar de lado reverso, que é também perverso. É a face da paisagem que melhor sintetiza as conseqüências da civilização moderna, contudo, é um lado do cartão-postal que corriqueiramente passa despercebido por precisar ser anulado ou inconcebível. Portanto a presença na Praça de Boa Viagem do “Da Lua”, lavador de carros; do Sr. José Ernesto Vanderlei, morador de rua mais conhecido como “Pingüim”; do Sr. Erasmo, vendedor ambulante de suco de goiaba com leite e hambúrguer, residente no município de Camaragibe, de outros ambulantes vendedores de frutas, ervas, de cartão-postal, caldo de cana, CDs pirata, macaxeira e de água de coco; dos garotos de rua, das prostitutas e mendigos; evidencia uma carência de políticas públicas destinadas a exercer impacto na vida dessas pessoas que vivem da rua. A presença dessas pessoas algumas vezes provoca o repúdio de outros usuários, como foi percebido através dos relatos de moradores insatisfeitos com a diminuição no padrão da qualidade de vida nesse bairro, por vezes associada à presença acentuada do setor informal e suas características intrínsecas de pobreza. Todavia, essas pessoas, em seu cotidiano, não deixam de compor a paisagem da praça e de seu entorno. Retratados poucas vezes em cartãopostal, por fotógrafos que através de sua sensibilidade, enxergam arte e beleza onde comumente parece está expresso apenas a pobreza. Representam assim os chamados “tipos populares do Recife” e ganham destaque na paisagem, onde comumente passam desapercebidos, representando o pitoresco, o tradicional e mesmo a memória desses lugares. No cartão-postal a seguir (Figura 34) uma vendedora ambulante pousa para um fotógrafo enquanto parece descansar por um momento na areia da praia. Entre outros produtos, ela vende artesanatos, como: chapéus de palha e objetos de decoração. Ao sentar por um instante e alisar suavemente a areia, demonstra uma tranqüilidade incomum de quem precisa caminhar sob o sol quente para vender os seus produtos. A imagem da vendedora ambulante representada em cartão-postal é excepcional, pois geralmente, essa população de vendedores ambulantes, tão presentes no entorno da Praça de Boa Viagem, representa o lado reverso do cartão-postal e da cidade. O reverso do cartão-postal é a própria paisagem em processo, é aquilo que pode fugir do campo de visão. Evoca uma existência que muitas vezes incomoda, é considerada inoportuna e ameaçadora. O que se apreende do reverso do cartão-postal abrange a arena do território, pois compreende a ambiência da exclusão social alastrada nos interstícios da paisagem, assim se escondendo ou fazendo parecer discreto. É esse lado reverso figurado pela exclusão, animado pelos agentes distantes da opinião pública, que faz revelar, via cartãopostal, a face estanque do olhar tipo fotográfico do poder público, o qual algumas vezes age 153 muito mais como definidor de novas roupagens do espaço urbano, esquecendo que cada retalho de paisagem da cidade é constituído de usos, importantes para o desenvolvimento do cidadão. Figura 34 : Brasil: Artesanato na areia de Boa Viagem. Recife: MCI-ME. 1 cartão-postal: color. Foto: Michel C. Lardin. Fonte: Acervo do autor. 154 3.5 Algumas últimas notas acerca das intervenções no entorno da Praça de Boa Viagem. Como qualquer parcela do espaço, no cartão-postal pode se ter sobreposto tempos diferentes, formas distintas das originais, além de usos e desejos conflitantes. É justamente nesse instante que entram novamente em ação os promotores do espaço urbano, a fim de conservarem o título do cartão-postal, ou de restabelecer a imagem de uma paisagem borrada pelo próprio movimento de valorização e expansão da cidade. No caso do bairro de Boa Viagem, na atualização de sua paisagem de cartão-postal, observa-se uma interessante reformulação de conceitos sobre o que significa esse trecho da cidade, uma verdadeira redefinição do discurso que envolve o bairro à necessidade de estar sempre moderno nos usos dos materiais que compõem o primeiro plano de sua principal imagem, ou seja, a aérea que compreende a avenida à beira mar, com a praia e o passeio de um lado e as distintas edificações no lado oposto, além do realce no monumento histórico que caracteriza as suas origens. A exemplo das últimas discussões sobre o projeto de revitalização da orla do bairro de Boa Viagem, ocorridas em audiências públicas244 junto a diferentes representantes da comunidade que mora, trabalha, ou usa o bairro, foram apresentadas algumas propostas pela empresa contratada através da EMLURB245 para programar os trabalhos de revitalização da orla. A idéia da exposição como pronunciou o assessor executivo da Prefeitura da Cidade do Recife, Amaro João da Silva, foi demonstrar como a orla se encontrava naquele momento e como deveria ficar com a realização do projeto. Desse modo foram destacados alguns problemas pelo arquiteto responsável. Mas primeiramente, destaque-se então o conceito acenado pelo arquiteto contratado pela prefeitura para apresentar o projeto de revitalização da orla de Boa Viagem: O que foi pensado de forma macro como conceito de melhoria do espaço urbano da orla – ela é por definição uma praia urbana e que vai se buscar destacar os elementos naturais e construídos de forma harmoniosa, os elementos naturais obviamente é a praia em si, a vegetação e os construídos são a própria edificação e com isso a gente vai buscar a valorização do perfil dessa orla, nós chamamos de sky line, através dos exemplares arquitetônicos produzidos ao longo das décadas246. 244 Audiência pública ocorrida na Casa Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem em 08/03/2007. Outros órgão envolvidos são, segundo um dos expositores(Amaro) é Secretaria de Serviços Públicos, Secretaria de Planejamento “que é responsável pelo projeto como uma todo” 246 Jairo arquiteto responsável pelo projeto de revitalização da orla de Boa Viagem em 245 155 O cartão-postal enquanto representação do espaço público, com todas as suas funções a servir os cidadãos, também absorve a característica que essencialmente o diferencia de outros espaços, ele representa a imagem da urbe. Por isso, o interesse coletivo nessas áreas deve residir na verificação de que o espaço público, assim como a Praça de Boa Viagem, carece de atenções que não se deparem apenas com a mera especulação ou com projetos distantes das características paisagísticas locais. No certame dos argumentos que deverão justificar a remodelação na atual orla da praia de Boa Viagem, foi proferido que seriam seguidos os princípios básico de “1) garantir acesso de fluxos livres sem obstáculo a pedestre e usuário e 2) disciplinar os usos e promover a limpeza visual urbana”. Desse modo, destacam-se os elementos citados na reunião que deverão sofrer alguma intervenção e as propostas da reforma: Calçadão como se verifica no trecho que fica em frente à Praça de Boa Viagem. “A pista de “cuper”, ela é descontínua ao longo da orla, o que causa desconforto” ao pedestre ou a quem pratica o “cuper”, passa a usar o calçamento e não a faixa delimitada, além dos excessos de desvios em função dos coqueiros. Os coqueiros – são impróprios para calçadas com grande fluxo de pessoas, não é o tipo de vegetação mais adequada, o risco de acidentes em função de ter seus frutos grandes e pesados e o espaçamento e o tipo de copa produzem pouca sombra, ou seja, não é a vegetação mais adequada para o conforto térmico. Ciclofaixa, ela é descontínua ao longo da orla também, isso causa desconforto. Os equipamentos imobiliários urbanos, você tem uma sobreposição de equipamentos, isso causa obstáculos ao pedestre e poluição visual.247 Propostas da reforma: Substituição do piso do calçadão por blocos intertravados de concreto, e por que? Ele proporciona mais conforto, durabilidade, resistência à abrasão, firmeza, melhores acabamentos e estética, tá? A pista de “cuper” nós buscamos deixar ela mais retilínea e contínua em toda orla Estamos criando 481 vagas de estacionamento, sendo 385 para veículos pequenos, 12 vagas para ônibus de turismo e 84 vagas preferenciais para carga e descarga de coco e gelo. 247 Apresentação realizada em 08/03/2007 na Casa Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. 156 Padronização dos quiosques, com a padronização e substituição da coberta de piaçava por telhas ecológicas, por questões de segurança e durabilidade. Em função dessa acessibilidade de você permitir um maior fluxo é que vai está sendo deslocados e reconstruídos alguns quiosques dentro do mesmo padrão, ele só vai está sedo realocado para deixar o fluxo mais livre, mas no mesmo posicionamento inclusive, na mesma localização que ele já comercializa. Posteamento, ele... está próximo ao meio fio, que nós chamamos de zona de imobiliário urbano, é onde a gente vai está alocando imobiliário urbano como: telefones públicos, lixeira, para livrar a maior parte da calçada para o acesso dos usuários e do pedestre[...] A nova iluminação proposta é uma nova iluminação para toda a orla mais uniforme, homogênea que trará conforto e segurança aos usuários. Estão sendo propostos também novos postes e luminárias que eles serão mais altos e mais espaçados, dentro de uma...a cada 60 metros e com 20 metros de altura. 248 É certo que esse projeto se choca com diferentes e divergentes modos de ver e viver a cidade, cada grupo querendo colocar seus anseios, desejos, e conveniências à frente do projeto. Nesse caso a postura da Prefeitura deve ser de mediadora entre as diversas opiniões dos grupos que usam a praia e o entorno da Pracinha de Boa Viagem. Todavia a própria Prefeitura, deixando-se representar por funcionários, empresas e políticos, nem sempre dá a resposta mais convincente aos cidadãos. Por exemplo, quando questionado por uma participante, sobre a implantação dos blocos intertravados no calçadão de Boa Viagem, em substituição das pedras portuguesas, uma participante da audiência pública e moradora do bairro obteve a seguinte resposta: “O bloco intertravado tem essa facilidade de você fazer um desenho no piso, é uma questão mais estética, você pode colocar todos de uma cor, mas a gente está trabalhando com três cores[...]”. É válido lembrar que as pedras portuguesas também são apropriadas para a confecção de desenhos no piso, além disso, é interessante frisar que o próprio calçadão é composto de três cores, branca e azul escuro das pedras portuguesas e azul claro da pista de cuper. Ainda assim, um outro debatedor, representante da prefeitura, complementou a explicação: Isso foi uma concepção do projeto de Jairo para se aplicar o bloco intertravado em substituição da pedra portuguesa, nós damos uma manutenção anual nesse passeio que custa caro e pelo o que ela já descaracterizou, a pedra portuguesa hoje aplicada não é pedra portuguesa de origem que veio de Portugal, é uma pedra que já está sendo adaptada a nossa região, então com facilidade ela se solta e tem várias queixas principalmente 248 Apresentação realizada em 08/03/2007 na Casa Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. 157 das mulheres, aquelas mulheres, é difícil até a gente encontrar na Avenida Boa Viagem, mas a questão de quem entra com salto, aí a dificuldade da acessibilidade. A discussão da “acessibilidade plena” pautada nessa argumentação não é suficientemente convincente para justificar alguns pontos da pauta presentes no projeto apresentado pela Prefeitura, isso porque a dificuldade das mulheres de salto alto de passear no calçadão não engloba todas as questões que dizem respeito a acessibilidade de um lugar. Além disso, o próprio autor da pesquisa perguntou para os expositores sobre qual o conceito de acessibilidade compreendido e adotado pela Prefeitura. A resposta à indagação foi que a acessibilidade concebida pelo projeto se pauta em uma série de conceituações normatizadas pela a ABNT. Uma outra questão é o alargamento do calçadão no trecho em frente à Praça de Boa Viagem, que o projeto concebe como um “estrangulamento”, entretanto é importante frisar que periodicamente o mar quando está em época de ressaca, normalmente transgride sua variação normal e se choca com aquele trecho, por conseqüência é comum o calçadão ser destruído pela força da maré justamente naquele ponto, como demonstrado na foto (Figura 34): Figura 35: Foto do calçadão destruído pelo mar no ano de 2004. Fonte: Acervo do autor. 158 Existe também o interesse que não vai completamente de encontro à proposta da prefeitura, apenas exige uma readequação na concepção do projeto original, como se pode perceber na contestação realizada pela a Associação dos Barraqueiros de Coco do Recife, que constatam que a criação da ciclofaixa significa : “Eliminação de estacionamento de veículos acarretando diminuição dos freqüentadores da praia; Afastamento dos turistas pela dificuldade de estacionamento de táxis, vans ou ônibus; Prejuízos sociais”249. Com isso, os Associação dos Barraqueiros propuseram outras concepções de ciclofaixa, como se pode ver no seguinte folder abaixo (Figura 35): Figura 36: Folder da proposta da Associação dos Barraqueiros para a ciclovia E voltando ao epicentro das discussões em torno das justificativas para a intervenções na Praça de Boa Viagem, o mesmo conflito se redelineia entre os usuários da praia e da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. A exemplo do que foi registrado em pauta pela APBS – Associação dos Moradores do Pina, Boa Viagem e Setúbal, é bem esclarecedor, com a demonstração de alguns descontentamentos com a feira de artesanato existente na Pracinha. A idéia geral defendida é: A feira está totalmente desorganizada, ocupa, de forma inadequada, todo o espaço da Praça, e o entorno da mesma, gerando desconforto e constrangimento aos transeuntes, aos clientes, aos turistas, aos moradores da região. Não há fiscalização , se houver, é ineficaz, tantas são as 249 Folder distribuído durante a primeira audiência pública sobre o “Projeto Orla”. 159 irregularidades observadas, em flagrante desrespeito à Legislação de Uso do Espaço Público Urbano, e às Leis de Acessibilidade e Inclusão.250 Enquanto isso, o representante da Associação dos Flanelinhas demonstrava preocupação com a instalação do novo estacionamento na orla, temendo a redução da renda pela classe. E por outro lado, o lado do entorno da Praça de Boa Viagem, um número expressivo de pessoas vivendo em estado degradante nas ruas, permanecia sem representação e sem direito de voz naquela reunião, que tinha o objetivo latente de definir como se gastar os milhões de reais dos cofres públicos, com a remodelação da orla de Boa Viagem, cartãopostal da cidade do Recife. 250 Ver Anexo: Pauta da reunião ordinária da APBS. Sede Local. 28 de fevereiro de 2007. 160 Considerações Finais Figura 37:Quadro pintado por artista plástico da Feira de Artesanato da Praça de Boa Viagem. Fonte: Acervo do autor. 161 Enquanto um recorte seletivo do espaço geográfico, o cartão-postal possui uma memória histórica. Cada objeto do espaço, em especial os objetos artificiais, surgem num momento que pode ser datado, revelando, desse modo, um processo. Já o cartão-postal enquanto veículo de comunicação ou objeto de colecionamento, normalmente não traz a data da confecção da ilustração, além disso, a data carimbada nele, refere-se apenas ao momento da postagem nos correios, pelo remetente. De tal modo os postais são enviados e recebidos figurando uma ilustração que pode não condizer com a composição da paisagem vislumbrada, sendo o momento insinuado pela ilustração, um motivador de percepções acerca da paisagem em destaque. Assim como o cartão-postal pode inferir o juízo de paisagem ideal e demonstrar uma paisagem incompleta ou interrompida, ele também pode ajudar a decifrar movimentos que imprimem os aspectos, as formas e a rotina cotidiana dos espaços, os quais observados em conjunto, traduzem-se em signos da paisagem. A compreensão do percurso histórico do cartão-postal e o vislumbre nos processos e técnicas que possibilitaram sua afirmação no mundo, como, por exemplo, a fotografia e o sistema de correspondências, permitiram revisar a trajetória da utilização do postal enquanto meio de comunicação, entendendo também a superação de um motivo inicial, a de utilização do cartão como veículo de comunicação mais acessível. Portanto, o resgate histórico do cartão-postal possibilitou visualizá-lo como um recurso passível de diferentes leituras e interpretações. Dentre as leituras possíveis de um cartão-postal, destacou-se nessa pesquisa, a adoção do cartão como suporte de estudo do espaço e da paisagem urbana. Além disso, supôs-se que uma paisagem além de representável através de uma imagem postal, pode mesmo ser adjetivada como paisagem de cartão-postal, assumindo características que a diferencia de seu entorno e de outros recortes da cidade. O diálogo sugerido no decorrer do texto, entre o cartão-postal, como veículo de comunicação e como recorte seletivo do espaço geográfico, sugeriu a visibilidade de fenômenos que traduzem a memória histórica dos espaços e também as distorções e contradições presentes no cenário urbano. No contexto dessa pesquisa e no que se refere ao entendimento do espaço cartãopostal, tomou-se como referência de análise a Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem como importante elemento focalizado no contexto da cidade do Recife. Como demonstram os estudos das imagens da praça, contidas nos cartões-postais, elas evocam uma percepção dos diferentes usos estabelecidos e ações depreendidas nesse logradouro, por isso, a seleção de alguns cartões-postais afim de desvendar um processo, foi bastante importante para o 162 entendimento da formação da paisagem desse seleto recorte do espaço, comumente emoldurado pelos fotógrafos e divulgado em delicados cartões-postais, os quais se revelaram preciosos, por deixarem registrado diferentes tempos de uma mesma panorâmica da pracinha. Nenhum elemento ou objeto do espaço está isolado, pois cada qual está contido numa totalidade que explica muitos dos seus significados. Contudo esses elementos ou objetos, apesar de pertencerem a um universo de ações comuns, tendem a ser observados de maneira individualizada, desconsiderado-se, muitas vezes, o contexto ao qual estão imersos. Essa talvez seja uma causa do cartão-postal ser apontado como continente de apenas um lado, para alguns, um lado perverso, para outros, o postal teria unicamente a face a ser celebrizada. De maneira comum, as duas abordagens de compreensão do cartão-postal, assimilam a idéia de que nele há uma aparência que se impõe como significado dominante. Todavia, como o limite da paisagem é manifesto nas capacidades do observante, o alcance do postal pode ser medido através da capacidade que ele tem de convencer e de incitar os sentimentos, assim a perversidade ou o encantamento provocado pela imagem ou pela paisagem de cartão-postal, pode também variar de acordo com situação de quem o observa. Foi sob a influência da concepção de que a compreensão da paisagem depende muito mais das condições reais em que está imerso o observador, do que objetivamente está sendo observado, que esse trabalho decidiu buscar se envolver com a o estudo histórico da Praça de Boa Viagem e com o cotidiano desenrolado durante o processo de pesquisa. Essa aproximação com a paisagem possibilitou a descrição de práticas que uma simples imagem postal não é capaz de abarcar, como no caso da presença da população em situação de rua, uma paisagem de contraste e constantemente presente na Praça de Boa Viagem. Mas além dessa face severa da paisagem aqui chamada de lado reverso, a Praça de Boa Viagem também se revelou uma importante referência da Cidade do Recife e do Bairro de Boa Viagem. Sua memória histórica dá exemplos das trajetórias da cidade e ajuda a explicar a incidência das imagens da praça veiculadas em cartões-postais. O fato de a Praça de Boa Viagem ser um cartão-postal está também vinculado a sua importância histórica. Por está localizada onde se desenvolveu o núcleo de povoamento inicial, que deu origem a um dos bairros mais conhecidos do Recife, a praça ganha destaque como memorial do espaço. Seu reconhecimento como representante da imagem da cidade também se dá por a praça ter sido um ponto de convergência e de lembrança para quem utilizava a praia, por exemplo, para os banhos salgados do início do século XX, para os jogos de vôlei e corridas de carro da década de 1940, ou para as competições de ciclismo da década 1950. 163 A Praça de Boa Viagem é e deve permanecer cartão-postal, mas não sob os argumentos da especulação imobiliária que se delineia no bairro a qual ela representa e que ganhou força a partir de 1965. A Pracinha é cartão-postal pelo o que faz lembrar dos célebres e saudosos tempos da cidade, da época dos bondes, quando faziam o circular exatamente ao seu redor, do período quando a ciranda era tocada e dançada no seu interior e as famílias podiam levar as crianças para ver as tartarugas do tanque que ficava por trás da igreja. A Praça de Nossa Senhora de Boa Viagem é cartão-postal justamente porque é detentora de uma importante memória histórica e as razões que deturpam a sua imagem ao invés de serem ocultadas, devem ganhar mais atenção. A luminosidade atribuída à Praça de Boa Viagem não deve ofuscar os problemas que contradiz sua imagem postal. Se nesse espaço que invoca uma representatividade da urbe, há cidadão em situação de risco, sem casa, sem alimentação, desprovido de educação e de proteção, é preciso reescrever as percepções acerca desse logradouro. É necessário examinálo, na intenção de questionar se o que está à mostra em cartão-postal realmente se aproxima do que se pode falar dele, e se a idéia que as suas ilustrações difundem, aproxima-se com o que se pode sentir ao visitá-lo. 164 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ANDRADE, Manoel Correia de. Geografia Econômica. 12. ed. São Paulo: Atlas. 1998. ALMEIDA, Mauro. Dicionário técnico da Comunicação. Belo Horizonte, 1987. ALVES, Glória da Anunciação. São Paulo uma cidade global. In: Ana Fani Alessandri Carlos; Carles Carreras;. (Org.). Urbanização e mundialização: estudos sobre a metrópole-. São Paulo: Contexto, 2005. ALVES, Paulo Reynaldo Maia. Formación espacial de los valores Del suelo en el proceso de avolución urbana de Recife (Brasil). Universitat politécnica de Catalunya. Barcelona: 2002. Associação de Cartofilia do Rio de Janeiro. O comércio e o cartão-postal. SESC/ARRJ. Rio de Janeiro: 1997. ARLÉGO, Edvaldo. Recife de Ontem e de Hoje. Recife: Edições Edificante: s/a. BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1993. BARLÉUS, Gaspar. O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício de Nassau: História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau, etc. ; ora governador de Wesel, Tenente-General de cavalaria das Províncias Unidas sob o príncipe de orange. Tradução: Cláudio Brandão. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005. BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Tradução de Júlio Castañon Gimarães. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1984. BARTHEL, Stela Gláucia Alves. Sociedade de classes, espaço urbano diversificado: a faixa de praia do Recife. Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, PIMES/UFPE. Recife, 1988. BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1995. BERGER, Paulo. O Rio de Ontem no Cartão-postal (1900-1930). 2.ed. Rio de Janeiro: Rioarte. 1986. BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Lembrança da Exposição do Rio de Janeiro no Centenário da Independência do Brasil: 7 de setembro de 1922. Coleção Yolanda Roberto; introdução e texto Elysio de Oliveira Belchior; catálogo da esposição organizada por Yolanda Roberto Marketing & Projetos Culturais Ltd. e apresentada no Museu da Imagem e do Som. Rio de janeiro: 1992. _______. Publicidade: uma história de sucesso. Coleção Yolanda Roberto; introdução e texto Elysio de Oliveira Belchior, versão Lia Rothier, Catálogo da Exposição organizada por 165 Y. R. Marketing & Projetos Culturais Ltd., e apresentada nos espaços e jardins do BNDES, Parque do Largo da Carioca – ME. Rio de Janeiro: 1996. _______. Introdução. In: BERGER, Paulo. O Rio de Ontem no Cartão-postal (1900-1930). 2.ed. Rio de Janeiro: Rioarte. 1986. BERMAN, Marshall. Tudo o que sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. BETTENCOURT, Gastão de. Os meus encontros com o Recife. Recife: Imprensa Oficial e Arquivo público Estadual, 1958. BORGES, Maria Eliza Linhares. História e Fotografia. Belo Horizonte: Editora Autentica, 2005. BOURDIEU, P. The logic of pratices. Stanford: Stanford Unoversity Press, 1980. BRANDÃO, Cláudio. Notas do Tradutor. In: BARLÉUS, Gaspar. O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício de Nassau: História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do ilustríssimo João Maurício Conde de Nassau, etc. ; ora governador de Wesel, Tenente-General de cavalaria das Províncias Unidas sob o príncipe de orange. Tradução: Cláudio Brandão. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005. CAPEL, Horacio. La morfologia de las ciudades. Barcelona (ES): Ediciones del Serbal, 2002. CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal, 1998. CARLOS, Alberto; BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. São Paulo, 1987. CEDRO, Luiz. A Avenida Beira-Mar. Revista de Pernambuco. Recife, n. 5, s/p, nov. 1924. COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. v.7. Recife: FUNDARPE, 1983. (Col. Pernambucana, 2. fase) CORREA, Roberto Lobato. O espaço urbano. 4.ed. São Paulo: Editora Ática, 2003. CUSTÓDIO, Jorge. In: GRUNER, Klaus Werner. Recordando Portugal em antigos bilhetes postais. Catálogo da exposição organizada por Yolanda Roberto Marketing & Projetos Culturais e apresentada no Paço Imperial. Introd. Jorge Custódio. Rio de Janeiro: 1989. DUARTE, Ana Sotero. As Relações Espaço-temporais no Processo de Estrutura da Paisagem Urbana Recifense Estudo de Caso: O Bairro de Boa Viagem. Recife: UFPE, março de 1979. EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. 166 ELIAS, Nobert. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Tradução: Ruy Jungmann. 1v. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Formação da família brasileira sob regime da economia patriarcal. São Paulo: Global Editora, 2004. ________. Ordem e Progresso. Processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal no Brasil sob o regime de trabalho livre, aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para o trabalho livre e da monarquia para a república. 6. ed. São Paulo: Global, 2004. _______. Alhos e bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce a cachaça; de José Lins do Rego ao cartão postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978. FOLLIS, Fransérgio. Modernização urbana na Belle Èpoque paulista. São Paulo: Editora UNESP, 2004. FREUND, Gisele. Fotografia e Sociedade. 2. ed. Tradução de Pedro Miguel Frade. Lisboa: Veja.1995. GEORGE, Pierre. Os métodos da Geografia. São Paulo: DIFEL, 1978. GOMES, Edvânia Tôrres Aguiar. Recortes de Paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem Geográfica. 1997. 300 f. Tese - Curso de Geografia, FFLCH, Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, 1997. GOMIDE, L. A Avenida Beira-Mar e o professor Loreto Filho. Revista de Pernambuco. Recife, n 17, s/p, nov. 1925. GRUNER, Klaus Werner. Recordando Portugal em antigos bilhetes postais. Catálogo da exposição organizada por Yolanda Roberto Marketing & Projetos Culturais e apresentada no Paço Imperial. Introd. Jorge Custódio. Rio de Janeiro: 1989. GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Departamento de documentação e cultura da Cidade do Recife: Série evocações históricas do Recife. HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vétice, Editora Revista dos Tribunais, 1990. HENRIQUE, Wendel. O direito à natureza na cidade: ideologias e práticas na história. Tese de Doutorado em Geografia. Rio Claro: UNESP, 2004. HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2004. HORNBY, A. S. Oxford advanced learner’s dictionary. 7. ed. Oxford University Press. 2005. KOSSOY, Boris. Origens e Expansão da Fotografia no Brasil no Século XIX. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1980. 167 _______. Realidades e Ficções na trama fotográfica. 3 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. KYROU, Ado. L’Age d’or de la carte postale. Paris: André Balland Ed., 1996. p. 11. In: KOSSOY, Boris. Realidades e Ficções na trama fotográfica. 3 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. LADEYESO, Angéline. Impressões sinceras sobre a Avenida Beira-Mar. Revista de Pernambuco. Revista, n. 5, s/p, nov. 1924. LAJOLO, Marisa e TIN, Emerson. Organização, apresentação, transcrição e notas. In: LOBATO, Monteiro. Quando o carteiro chegou... Cartões-postais a Purezinha.. São Paulo: Editora Moderna, 2006. LOBATO, Monteiro. Quando o carteiro chegou... Cartões-postais a Purezinha. Organização e apresentação de Marisa Lajolo; transcrição e notas de Emerson Tin. São Paulo: Editora Moderna, 2006. LÖWY, Michel. As aventuras de Karl Marx contra o barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na sociologia do conhecimento. Tradução: Juarez Guimarães e Suzanne Felicie Léwy. São Paulo: Editora Cortez, 2003. MARQUES, Fabrício. Poesia. Ciência e Cultura, jan./mar. 2006, vol.58, no.1, p.64-64. ISSN 0009-6725. MARTÍN, Antonio Z. El Espacio interior de la ciudad. Madrid: Editorial Síntesis, 1991. Colección Espacios y Sociedades – Serie General, n° 12. MAUAD, Ana Maria. Entre retratos e paisagens: modos de ver e representar no Brasil oitocentista. Revista Studium, Campinas, n. 2. Disponível em: http://www.studium.iar.unicamp.br/15/01.html> Acesso em: 16 novembro 2006. MELO, Mario Lacerda de. Metropolização e Subdesenvolvimento: o caso do Recife. Recife: UFPE, 1978. MELO, Vera Lúcia Mayrinck. A paisagem do rio Capibaribe: um recorte de significados e representações. 2003. 276 f. Tese – Curso de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Rio de Janeiro 2003. MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diário de Pernambuco. Recife, 9 de jun., 1951 MIRANDA, Victorio Coutinho Chermont. A memória paraense no cartão-postal (19001930). Rio de Janeiro:Liney, 1986. MOREIRA, Ruy. Assim se passaram dez anos: A Renovação da Geografia no Brasil no Período 1978-1988. GEOgraphia. Rio de Janeiro, ano 2, n. 3, p 27-49, 2000. MORAES, Marcos Antônio de (org.). “Tudo está tão bom, tão gostoso...”: Postais a Mário de Andrade. São Paulo: Hucitec-Edusp, 1993. 168 MUMFORD, Lewis. A cidade na história: suas origens, transformações e perspectivas. 4. ed. Tradução de Neil R. da Silva. São Paulo: Martins Fontes, 1998. MUSEU DA CIDADE DO RECIFE. Dados coletados no setor exposição / Fotos. NABUCO, Fundação Joaquim. Pesquisa de Opinião Pública: O Caso da Praça de Boa Viagem – Direcionamento de uso. Recife: outubro de 2001. OLIVEIRA, Alberto de. Pombos correios: notas quotidianas. Coimbra: F França Amado editor, 1913. p. 83. In: BERGER, Paulo. O Rio de Ontem no Cartão-postal (1900-1930). 2.ed. Rio de Janeiro: Rioarte. 1986. PAIVA, Carla Souza de. O shopping center e produção de novas centralidades urbanas: o caso do Shopping Center Recife. Recife. Mestrado em Desenvolvimento Urbano, 1996. PARAÍSO, Rostand. Tantas histórias a contar... Recife: Comunicarte, 1994. PIO, Fernando. Noticia histórica e sentimental da igrejinha de Nossa Senhora da Boa Viagem. Recife: Imprensa Universitária, 1961. RABAÇA, Carlos Alberto; BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. São Paulo, 1987. Revista Ilustração Brasileira. junho, 1924. ROBERTO, Y. Os anos dourados do cartão-postal: catálogo da exposição – do acervo particular da autora – Realizada no Itanhangá Golf Club. Rio de Janeiro: 1988. ROCHA, Amara Silva de Souza. A sedução da luz: eletrificação e imaginário no Rio de Janeiro da Belle Èpoque. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v. 2, n. 2, p.51-82, 1997. A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 2, s/p, ago. 1924. A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p, set. 1924. A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 5, s/p, nov. 1924. A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924. AS NOSSAS PRAIAS. Revista de Pernambuco. Recife, n.6, s/p, dez. 1924. LINHAS DE BONDES DO PINA E BOA-VIAGEM. Revista de Pernambuco. Recife, n. 8 s/p, fev. 1925. SANTANA, Gisela Verri de. Habitação e vizinhança um estudo das relações sociais no espaço habitado nos bairros de Boa Viagem e Casa Forte. Recife – Brasil. Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, 1998. 169 SANTOS, Anderson Alves dos; Doralice Sátyro Maia. O Cartão-postal como um Instrumento para o Ensino de Geografia. VI Encontro da Associação Nacional de PósGraduação e Pesquisa em Geografia. Fortaleza, 2005. SANTOS, Anderson Alves dos; GOMES, Edvânia Tôrres Aguiar. Frente e verso de um cartão-postal. In: VI Congresso Brasileiro de Geógrafos. Goiânia: Universitária da UFG, Goiânia, 2004. SANTOS, Anderson Alves dos. O conceito geográfico de paisagem. Aula Magistral. Recife: UFPE, 2005. _______. Paisagem e movimento em um cartão-postal: O Parque Solon de Lucena, João Pessoa-PB. In: Seminário Luso-Brasileiro-Caboverdiano, III Encontro Paraibano de Geografia e III Semageo - Semana de Geografia da UFPB, 2006, João Pessoa. SANTOS, João Batista. Pernambuco histórico-turístico-folclórico. Recife: s/d. 1989. SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 3. ed. São Paulo: HUCITEC, 1999. _______. Espaço do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987 _______. Pensando o Espaço do homem. São Paulo: Ed. Hucitec, 1982. _______. Por uma Geografia nova: da crítica da Geografia a uma Geografia crítica. 6. e.d. São Paulo: Edusp, 2004. SCHAPOCHNIK, N. Cartões-Postais, Álbuns de Família e Ícones da Intimidade In. NOVAES, F. (org.) História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 3 v. SILVA, Hilo Lins e. Recife: conceitos e evocações. Recife: s/e,1984. SOUZA, Maria Adélia A. de. A identidade da metrópole: a verticalização de São Paulo. São Paulo: Hucitec. Edusp, 1994. SOUZA, Marcelo Lopes de. Mudar a Cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. 3. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2004. SAUER, Carl O. A Morfologia da Paisagem. In: CORREA, Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeny. Paisagem, Tempo e Cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2004. VASQUEZ, P. K. Postais do Brazil 1893-1930. Rio de Janeiro: Metalivros, 2002 VIEIRA, M. A. da C. et al. (org.). População de rua: quem é, como vive, como é vista. São Paulo: Hucitec. 1992. WEHRS, Carlos. Niterói: tema para colecionadores. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda., 1987. 170 ZAIDAN, Noemia Maria. O Recife nos trilhos de bondes de burro 1871-1914. Dissertação de mestrado em Desenvolvimento Urbano. Recife: UFPE, 1991. ZEYONS, Serge. Les Carte Postales. Paris: Hachette, 1979.