UNIVERSIDADE FEDERAL DA PARAÍBA
CENTRO DE CIÊNCIAS EXATAS E DA NATUREZA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM GEOGRAFIA
Dissertação de Mestrado
Frente, Verso e Reverso de um Cartão-postal:
Leituras de paisagens da Praça Nossa Senhora da Boa Viagem - Recife - PE
Dissertação apresentada ao Programa de
Pós-graduação
em
Geografia
da
Universidade Federal da Paraíba como
parte dos requisitos para obtenção do título
de Mestre em Geografia.
João Pessoa – 2007
2
S237f
UFPB/BC
Santos, Anderson Alves dos
Frente, verso e reverso de um cartão-postal:
leituras de paisagens da Praça Nossa Senhora da Boa
Viagem – Recife - PE / Anderson Alves dos Santos –
João Pessoa, 2007.
170 p. : il.
Orientador: Raimundo Barroso Cordeiro Júnior.
Dissertação (Mestrado) – UFPB / CCEN.
1. Geografia Humana 2. Paisagem 3. Espaço
Urbano 4. Cartão-postal 5. Praça Nossa Senhora da Boa
Viagem 6. Bairro de Boa Viagem 7. Cidade do Recife.
CDU: 911.3 (043)
3
Anderson Alves dos Santos
Frente, Verso e Reverso de um Cartão-postal:
Leituras de paisagens da Praça Nossa Senhora da Boa Viagem - Recife - PE
Banca examinadora:
_____________________________________________________
Profº. Dr. Raimundo Barroso Cordeiro Jr. (orientador)
Departamento de História – UFPB
_____________________________________________________
Profª. Dr. Doralice Sátyro Maia (co-orientadora)
Departamento de Geografia - UFPB
_____________________________________________________
Profª. Dr. Maria de Fátima F. Rodrigues (examinadora interna)
Departamento de Geografia - UFPB
_____________________________________________________
Profª. Dr. Edvânia Tôrres Aguiar Gomes (examinadora externa)
Departamento de Geografia - UFPE
João Pessoa – 2007
4
5
6
À minha mãe
Dona Del,
pelo seu entusiasmo contagiante
em aprender e estudar.
7
AGRADECIMENTOS
Primeiramente a Deus por me conceder uma existência interessante.
A minha mãe Dona Del por todo zelo e amor.
Ao meu pai José Alves pela confiança e por ter financiado os custos dos meus estudos e de
outros sonhos.
Ao meu irmão Júnior que foi o principal motivador da minha escolha pela Geografia,
agradeço por me apontar esse norte.
A minha cunhada Nalva por aquela farofa que só ela faz e as minhas lindas sobrinhas e
afilhadas Evelyn e Ellen, por preencher nossas vidas com mais beleza e alegria.
A Aline, geógrafa do meu mundo, agradeço por muitos dos momentos em que você se dispôs
a pensar comigo. Obrigado por prestar seu tempo e sua atenção em favor desse trabalho. Sou
grato por você estar ao meu lado quando mais precisei de companhia. Eu lhe agradeço pelo
seu amor, pelo seu carinho e por sua generosidade.
Ao seu Fernando, dona Adaluza e a minha cunhada Fernanda, por todo apoio que me foi
dado, sempre de forma gratuita e amável.
A professora Edvânia Tôrres que testemunhou meus primeiros erros e acertos na Geografia,
com quem iniciei as reflexões acerca do que significa o cartão-postal para essa pesquisa.
Agradeço por soprar o balão de minhas idéias e por me encorajar a pensar diante dessa
Geografia tão rica em espaço.
Ao professor Raimundo Barroso, por ter aceitado me orientar apenas conhecendo o projeto.
Meu louvor pela sua forma sempre polida de encarar as dificuldades da pesquisa científica e
meus agradecimentos por toda a confiança depositada em mim.
A professora Doralice Sátyro, agradeço por todas as suas contribuições em favor desse
trabalho, também agradeço por me acolher no seu grupo de pesquisa e por me apresentar
leituras e reflexões sempre muito interessantes.
A professora Fátima Rodrigues, por sua atenção e por sua torcida em ver essa pesquisa ser
bem realizada. Sou grato pelos seus apoios e também pelos ótimos trabalhos de campo que
me possibilitaram conhecer um pouco do mundo dos assentamentos rurais.
A professora Maria Franco por sua disponibilidade em ajudar e ouvir os alunos da pósgraduação, agradeço-lhe pelas salutares contribuições.
Aos demais professores da pós-graduação com quem aprendi bastante no decorrer das
disciplinas e no cotidiano, sempre trocando boas idéias, meus agradecimentos a Dada, Emília
de Rodat, Ariane Sá, Valéria de Marco, Eduardo Viana, Carlos Augusto, Sergio Alonso, todos
8
esses professores com quem tive contato durante o curso, e a Sônia, secretária da coordenação
do mestrado, a quem agradeço pela maneira sempre simpática e solícita em nos atender.
A todos os amigos da pós-graduação, João Tavares, Ednalva, Ivanalda, Avani, Emanuel,
Napoleão, Fabiano e Luciano.
Aos novos amigos com quem tenho um carinho todo especial: a Rute e Amanda, pela
deleitosa convivência; a Araci pelo seu jeito meigo e gostoso de fazer a gente se sentir bem e
a Rita (futura Prefeita de Coremas) por nos fazer sorrir com suas histórias e contos.
Ao Alex, que muitas vezes me socorreu quando o computador falhou, agradeço pela amizade
desse paraibano arretado.
Aos velhos amigos da graduação na UFPE e do PET, Eduardo Nunes (Mago), pela boa
amizade que nutrimos; a Andrezza Monteiro, Pedro Nóbrega, Paulo Alves e Alan pela torcida
e apoio; ao Paulo Tavares e Lutero, pelos saudosos sarais no laguinho da UFPE, boas
saudades!
Aos professores do período da graduação os quais tenho grande apreço e que me motivaram a
enveredar no universo da Geografia: Caio Maciel, Vanice Selva, Lucivânio Jatobá, Jorge
Santana, Hernani e Tânia Bacelar.
Ao pessoal do Arquivo Público Jordão Emereciano pela disponibilidade e pela flexibilidade
no horário em me mandar embora, e aos funcionários do Museu da Cidade do Recife, da URB
e da EMLURB.
Aos moradores do bairro de Boa Viagem que me concederam suas palavras e experiências
sobre a “pracinha” e à população em situação de rua que se dispuseram em me contar um
pouco de suas práticas cotidianas.
A Capes por me conceder a bolsa de mestrado.
E a todos que de alguma maneira contribuíram para realização dessa pesquisa.
9
Todo o estado de alma é uma passagem. Isto é, todo o estado de alma é não só representável
por uma paisagem, mas verdadeiramente uma paisagem. Há em nós um espaço interior onde
a matéria da nossa vida física se agita. Assim uma tristeza é um lago morto dentro de nós,
uma alegria um dia de sol no nosso espírito. E - mesmo que se não queira admitir que todo o
estado de alma é uma paisagem - pode ao menos admitir-se que todo o estado de alma se
pode representar por uma paisagem. Se eu disser "Há sol nos meus pensamentos", ninguém
compreenderá que os meus pensamentos são tristes.
Fernando Pessoa
10
RESUMO
Os cartões-postais são importantes fontes de imagens, de registros temporais e espaciais para
subsidiar a leitura e compreensão da história das cidades. Registrando panoramas de
determinado recorte espacial em diversos períodos e em distintas escalas de tempo, fornecem
caminhos que possibilitam acompanhar os movimentos dinâmicos que configuram a
complexidade do urbano. Colecionados de forma articulada findam por se constituir em um
repositório documental da gênese e evolução dos fragmentos da cidade. É um elemento
textual que permite revisitar e reencontrar elos que podem ajudar a recuperar a “memória
histórica” dos espaços. Desse modo, a pesquisa sob o título, Frente, verso e reverso de um
cartão-postal utiliza o cartão-postal como um suporte de estudo para compreensão da
paisagem urbana e seleciona como objeto de estudo, a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem,
Recife-PE, para assim, analisá-la enquanto componente dos recortes contemplados nos
cartões-postais. Portanto, tem-se aqui descrito um debate sobre a utilização do cartão-postal
como um possível recurso para a pesquisa nas ciências humanas, em especial para a Geografia
e o levantamento de alguns principais autores que contemplaram o tema em suas pesquisas.
Em seguida, relatou-se um pouco do histórico do cartão-postal enquanto veículo de
comunicação, tendo em vista o objetivo de revelá-lo como um eficiente suporte de estudo das
paisagens da cidade e também uma sinopse histórica da Praça de Boa Viagem enquanto
espaço cartão-postal, inserido no processo de evolução da própria Cidade do Recife. Também
foi contemplado um debate sobre os efeitos da especulação imobiliária sobre o estímulo da
confecção de paisagens ao modo de cartões-postais, seguido de um resgate da paisagem da
praça de Boa Viagem através das ações implementadas pelo poder público ao longo das
décadas em que a praça ganhou mais evidência nos cartões-postais circulados. E como
contrapondo da idéia que um cartão-postal evoca, demonstrou-se o lado reverso da paisagem
a partir da visualização da população com caráter da exclusão social presente no entorno do
logradouro. Diante dessa exposição, pode-se afirmar que assim como a Praça de Boa Viagem
e o mobiliário que a compõe, nenhum elemento ou objeto do espaço está isolado, pois cada
qual está contido numa totalidade que explica muitos dos seus significados. Contudo esses
elementos ou objetos, apesar de pertencerem a um universo de ações comuns, tendem a ser
observados de maneira individualizada, desconsiderado-se, muitas vezes, o contexto ao qual
está imerso. Essa talvez seja uma causa do cartão-postal ser apontado como continente de
apenas um lado, para alguns, um lado perverso, para outros, o postal teria unicamente a face a
ser celebrizada. De maneira comum, as duas abordagens de compreensão do cartão-postal,
assimilam a idéia de que nele há uma aparência que se impõe como significado dominante.
Todavia, como o limite da paisagem é manifesto nas capacidades do observante, o alcance do
postal pode ser medido através da habilidade que ele tem de convencer e de incitar os
sentimentos, assim a perversidade ou o encantamento provocado pela imagem ou pela
paisagem de cartão-postal, pode também depender de quem o observa.
Palavras-chaves: paisagem, cartão-postal, espaço urbano, Praça N. Sª. da Boa Viagem.
11
ABSTRACT
Postcards are important sources of images, temporary and space registers to grant the reading
and comprehension of the history in the cities. They also register a scenery of some spaces ad
newspapers in several periods in different time scales, they also show ways that permits to
follow a dynamic movement and setups the complexity of the urban cities. Collected and
linked in an specific shape, It constitutes a documental file of the genesis and evolution for the
city fragments. It is a literal element that allows to re-visit and re-encounter chains that can
help to recover the "historical memory" of space. Therefore, the research under the title,
front, overleaf and hide place of the postcard, is used as a study support to understand the
urban landscape and selects as the study object, " Nossa Senhora da Boa Viagem" square
RECIFE-PE. Thus, to analyse as parts of ads newspapers seen on the postcards. Therefore, we
have over here, a written debate about the use of a postcard as a possible resource to
researchers to the human sciences, in special to Geography, and some mains authors datas,
had seen these themes their researches. Then, it was shown a little about the history of
postcards as a way of communication, taken into account the aim to reveal them as an
efficient study support to the city landscape and also a historic synopsis of "Boa Viagem"
square as a postcard space. Including it to the evolution process to the city itself RECIFE. It
was also a debate about the effects of real estate speculation of different shapes of landscapes
into the postcards, showing the view of "Boa Viagem" square. Through some actions by the
public power Government along some decades whrere the squares were more used into the
postards by the market.It showed its hidden side view from the social exclusion seen in
downtown. In face of this exhibition, it can be confirmed to " Boa Viagem" square, to real
estate and other places, they are not isolated, because each of them is linked as a whole where
they explain ist meaning. Thus, all these objects and elements, despite of to belong a universe
of common actions, tend to be observed most of the times isolated. Not taking into account
the context where it is included. This is perhaps the cause like the ostcards are being used just
one side back as a continent. For some people, a bad side, for others, good. In a certain
commmon point of view, the studies and researchers of postcards show an appearance of a
power importance. Although, this limited landscape is made public the capacity to the
observer. The range of postcards can be measured by the abilities they haveto convince and
stimulate the feelings, also emphasized bad and good charming provoked by the image or the
landscape of postcard. It also depends on the point of view to whom observes them.
Key words: landscape, postcard, urban space, N. Sª. da Boa Viagem square.
12
LISTA DE SIGLAS
AMABV – Associação dos Moradores e Amigos de Boa Viagem
APBS – Associação dos Moradores do Pina, Boa Viagem e Setúbal.
APEJE – Arquivo Público Estadual Jordão Emereciano.
EMLURB - Empresa Municipal de Limpeza e Urbanização
FCPP – Federação das Colônias de Pesca de Pernambuco.
Fundaj – Fundação Joaquim Nabuco.
MCR – Museu da Cidade do Recife
RMR – Região Metropolitana do Recife.
URB - Empresa de Urbanização do Recife
ZPR – Zona de Preservação Rigorosa.
13
ÍNDICE DE FIGURAS
FIGURA 1: Vista aérea de Boa Viagem ................................................................................... 16
FIGURA 2: Máquina de Vender cartões-postais (1906) ........................................................... 20
FIGURA 3: Capa da Revista de Pernambuco em 1925 ............................................................. 65
FIGURA 4: Ilha do Nogueira ................................................................................................... 71
FIGURA 5: Caminhos da Boa Viagem (Afogados) ................................................................. 73
FIGURA 6: Avenida Ligação................................................................................................... 76
FIGURA 7: A Ponte do Pina .................................................................................................... 78
FIGURA 8: Reforço da Ponte do Pina...................................................................................... 78
FIGURA 9: Escultura da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem........................................... 80
FIGURA 10: Povoado de Boa Viagem..................................................................................... 86
FIGURA 11: Alguns Aspectos do rio Jordão............................................................................ 91
FIGURA 12: Alguns Aspectos do rio Jordão............................................................................ 91
FIGURA 13: Bilhete-Postal praia em Boa Viagem................................................................... 93
FIGURA 14: Avenida Beira Mar ............................................................................................. 97
FIGURA 15: Inauguração da Avenida Beira Mar..................................................................... 98
FIGURA 16: Projeto de palacete.............................................................................................. 102
FIGURA 17: Projeto de palacete.............................................................................................. 102
FIGURA 18: Terminal de Boa Viagem em construção............................................................. 105
FIGURA 19: Inauguração da Linha de Boa Viagem................................................................. 106
FIGURA 20: Inauguração da Linha de Boa Viagem................................................................. 107
FIGURA 21: Cassino de Boa Viagem ...................................................................................... 109
FIGURA 22: Cartão-postal do Hotel Boa Viagem, avistando-se pracinha ............................... 114
FIGURA 23: Frente de cartão-postal de Praia do Recife circulado no ano de 1958................... 117
FIGURA 23.i: Verso de cartão-postal de Praia do Recife circulado no ano de 1958 ................. 117
14
FIGURA 24: Vista aérea de Boa Viagem ................................................................................. 122
FIGURA 25: Cartão-Postal Brasil turístico .............................................................................. 125
FIGURA 26: Fachada aérea do edifício.................................................................................... 127
FIGURA 27: Varanda do edifício............................................................................................. 127
FIGURA 28: Falso projeto circulado de um futuro cartão-postal de Boa Viagem ..................... 130
FIGURA 29: Praça e Igreja de Boa Viagem ............................................................................. 134
FIGURA 30: Praça e Igreja N. Sra. Da Boa Viagem ............................................................... 139
FIGURA 31: Igreja e praia de Nossa Senhora da Boa Viagem ................................................. 141
FIGURA 32: Vista noturna da Praça de Boa Viagem ............................................................... 142
FIGURA 33: Praça de Boa Viagem.......................................................................................... 145
FIGURA 34: Artesanato na areia de Boa Viagem..................................................................... 153
FIGURA 35: Foto do calçadão destruído pelo mar ................................................................... 157
FIGURA 36: Folder da proposta da Associação dos Barraqueiros para a ciclovia..................... 158
FIGURA 37: Quadro da Feira Artesanato da Praça de Boa Viagem.......................................... 160
ÍNDICE DE MAPAS
Mapa 01 - Localização da área de estudo ................................................................................. 18
Mapa 02 - Bairro do Pina e arredores ....................................................................................... 72
Mapa 03 - Acesso entre os bairros do Recife, Pina e Boa Viagem ............................................ 77
Mapa 04 - Povoado de Boa Viagem – Recife – PE – 1870 ....................................................... 87
Mapa 05 - Projeto de Planta da Boa Viagem e Projeto de Arruamento – Recife – PE – 1870.... 88
Mapa 06 - Avenida Boa Viagem entre o bairro do Pina e a Praça N. Sª. da Boa Viagem .......... 99
Mapa 07 – Praça N. Sª. da Boa Viagem e Parque Dona Lindu.................................................. 131
15
SUMÁRIO
INTRODUÇÃO...................................................................................................................... 16
CAPÍTULO I: ANVERSOS DO CARTÃO-POSTAL ......................................................... 20
1.1 O cartão-postal: o documento, a paisagem e a paisagem de cartão-postal............................ 21
1.2 Debatendo o cartão-postal .................................................................................................. 27
1.3 Um direcionamento teórico para levar a paisagem ao cartão-postal .................................... 43
1.4 O cartão-postal como suporte de estudo do espaço e da paisagem urbana ........................... 47
1.5 Destinos do cartão-postal ................................................................................................... 53
CAPÍTULO II: AS TRANSFORMAÇÕES NA PAISAGEM E A REVELAÇÃO DE
NOVOS E CADA VEZ MAIS VELHOS ATRIBUTOS............................. 65
2.1 Fases de um cartão-postal................................................................................................... 66
2.2 Partindo do Recife em sentido à Boa Viagem..................................................................... 66
2.3 O monumento sagrado e sua evocação no cartão-postal: apontamentos históricos sobre a
Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.................................................................................. 79
2.4 Apresentando a morfologia da paisagem a partir da leitura da planta do Povoado da Boa
Viagem em 1870...................................................................................................................... 85
2.5 Nasce um cartão-postal moderno........................................................................................ 92
CAPÍTULO III: REVELANDO FRENTES E DECIFRANDO OUTROS LADOS DA
PAISAGEM DA PRAÇA DE BOA VIAGEM.......................................... 122
3.1 Uma visão geral a partir da fachada panorâmica do bairro de Boa Viagem ......................... 123
3.2 A especulação imobiliária no espaço cartão-postal ............................................................. 126
3.3 Em busca da datação de cartões-postais da Praça de Boa Viagem....................................... 133
3.4 Conhecendo algumas inesperadas e outras inoportunas visões do entorno da Praça de Boa
Viagem .................................................................................................................................... 145
3.5 Algumas últimas notas acerca das intervenções no entorno da Praça de Boa Viagem ......... 154
CONSIDERAÇÕES FINAIS................................................................................................. 160
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .................................................................................. 164
16
Introdução
Figura 01: Brasil turístico:Vista aérea de Boa Viagem. Recife. Brascard [127-]. 1 cartão-postal: color.
Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor.
17
Os cartões-postais são importantes fontes de imagens, de registros temporais e
espaciais para subsidiar a leitura e compreensão da história das cidades. Registrando
panoramas de determinado recorte espacial em diversos períodos e em distintas escalas de
tempo, fornecem caminhos que possibilitam acompanhar os movimentos dinâmicos que
configuram a complexidade do urbano. Colecionados de forma articulada findam por se
constituir em um repositório documental da gênese e evolução dos fragmentos da cidade. É
um elemento textual que permite revisitar e reencontrar elos que podem ajudar a recuperar a
“memória histórica” dos espaços.
Uma pesquisa que toma o cartão-postal como suporte de estudo, necessita estar atenta
à articulação que permite remontar o processo da paisagem como um quebra-cabeça
complexo, que além de precisar e justapor cada peça deve contextualizar as suas formações.
Portanto, os detalhes que revelam mudanças ou permanências no quadro paisagístico são
importantes fontes para a interpretação das transformações ocorridas e captadas através das
imagens veiculadas nos cartões-postais.
A reflexão teórica e metodológica aqui desenvolvida, escolheu o cartão-postal como
suporte para estudo e compreensão da paisagem, e selecionou como objeto empírico desse
estudo, a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem, Recife-PE (Mapa 1), para assim, analisá-la
enquanto componente dos recortes contemplados nos cartões-postais.
A Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem além de ser classificada como Zona de
Preservação Rigorosa e Zona Especial do Patrimônio Histórico-Cultural, tem estampado o
título de cartão-postal do bairro de Boa Viagem, um distinto bairro da cidade do Recife. Essa
pesquisa se interessou em resgatar a paisagem da praça, e em verificar o porquê dela ostentar
e sustentar a referência de cartão-postal, mesmo se observando no seu entorno, práticas que
contradizem a idéia de paisagem ideal que o senso comum normalmente vincula ao “espaço
cartão-postal”1.
Nesse sentido buscou-se um diálogo que envolveu a categoria espaço, o conceito de
paisagem e a idéia de cartão-postal, todos condensados no intuito de apreender a constituição
da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem enquanto um recorte seletivo do espaço
geográfico. Os passos desse debate, também envolveram o estudo histórico do universo
1
A noção de “espaço cartão-postal”, para um melhor esclarecimento, pode ser definido nesse primeiro instante
do texto, a partir da concepção descrita por Glória da A. Alves: “Lugares com belas paisagens urbanas que no
Centro [mas não apenas no Centro] chamam a atenção pelos monumentos, praças, edifícios com valor artístico e
histórico, que serviriam como “lugares a serem visitados pelo turista”, onde fotografias podem ser tiradas como
prova da presença e visita ao lugar. É um lugar para não permanência, só para passagem”. ALVES, Glória da
Anunciação. São Paulo uma cidade global. In: Ana Fani Alessandri Carlos; Carles Carreras;. (Org.).
Urbanização e mundialização: estudos sobre a metrópole-. São Paulo: Contexto, 2005, v. , p. 144-145.
18
empírico, englobando um recorte temporal com início no ano de 1707, quando ocorreu a
doação de terras para a construção do monumento religioso que deu origem ao povoado e a
Praça de Boa Viagem e estendendo-se até o ano de 2007, quando a paisagem da praça estava
em pleno processo de transformações.
Mapa 1
Mapa de Localização da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem
Bairro de Boa Viagem - Recife - PE - Brasil - 2007
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Fonte: Carta de Nucleação Centro - Departamento de Informações Muncipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM
SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco / IBGE - Base Digital do Brasil - 1:1.000.0000
Elaboração de Mapa: Aline B. de Lima / Anderson Alves dos Santos
O resultado dessa reflexão foi a percepção de uma temporalidade da Praça de Boa
Viagem enquanto figurada em cartões-postais e a distinção das ações que a promovem como
espaço de destaque no contexto da cidade. Portanto, a partir do conhecimento da constituição
da praça e da história dos cartões-postais, pôde-se concluir que ao menos dois agentes foram
determinantes para a permanência de sua constituição e divulgação enquanto um recorte de
paisagem de destaque: o primeiro foi o Estado, através das intervenções urbanas e o segundo
foi a técnica de impressão, que possibilitou maior acesso aos cartões.
Essas conclusões se delinearam no decurso da análise das informações coletadas sobre
os principais temas elencados (paisagem, cartão-postal, Praça de Boa Viagem). Assim foi
feita uma considerável revisão bibliográfica e documental, e realizado um expressivo banco
de informações e de registros iconográficos. Demais informações foram obtidas em fontes de
registros técnicos (planos municipais), científicos (publicações acadêmicas), literários e
19
artísticos (quadros, poesias, ensaios), além de jornais e revistas. Também se recolheram
alguns depoimentos realizados por usuários da praça e se realizaram vários trabalhos de
campo, que possibilitaram ao pesquisador um entendimento mais aproximado das práticas
desenroladas no entorno da praça.
As discussões da pesquisa foram divididas em três capítulos.
No capítulo I, intitulado “Anversos do cartão-postal”, foi realizado um debate sobre a
utilização do cartão-postal como um possível recurso para a pesquisa nas ciências humanas,
em especial para a Geografia. Com esse intuito, realizou-se um levantamento de alguns
principais autores que contemplaram o tema em suas pesquisas. Também se delimitou as
influências teóricas, para adiante sugerir o cartão-postal como um auxiliar do estudo da
paisagem e do espaço urbano. Em seguida, relatou-se um pouco do histórico do cartão-postal
enquanto veículo de comunicação, tendo em vista o objetivo de revelá-lo como um importante
suporte de estudo da cidade.
No capítulo II, definido como “As transformações na paisagem e a revelação de novos
e cada vez mais velhos atributos”, privilegiou-se o estudo da formação da paisagem da praça
enquanto inserida no processo de evolução da Cidade do Recife, frisando-se as fases em que a
Praça de Boa Viagem foi mais representada em cartões-postais. Nesse tópico se tem
destacado a influência da igreja, ali existente, para a formação do primitivo povoado, que por
sua vez, tem a paisagem resgatada a partir de um mapa publicado no ano de 1870. A
abordagem empreendida nesse capítulo demonstra algumas tendências que possibilitaram uma
melhor visualidade da praça no decorrer da constituição do bairro de Boa Viagem enquanto
núcleo moderno da cidade.
No capítulo III, denominado “Revelando frentes e decifrando outros lados do cartãopostal da Praça de Boa Viagem”, é feito um debate sobre os efeitos da especulação imobiliária
sobre o estímulo da confecção de paisagens ao modo de cartões-postais. Em seguida realizase um resgate da paisagem da Praça de Boa Viagem através das ações realizadas pelo poder
público, ao longo das décadas em que a praça ganhou mais evidência nos cartões-postais
circulados. Encerra-se esse capítulo demonstrando duas formas de ver a paisagem, uma a
partir da visualização do caráter da exclusão social sofrida pela população de rua presente no
logradouro, outra, a partir dos projetos que deverão ser implantados no entorno da praça.
Na conclusão, relata-se algumas considerações teóricas em torno dos debates
levantados no decorrer dos capítulos, com o enfoque dado na utilização do postal enquanto
suporte para a pesquisa e nos estudos dos recortes do espaço comumente adjetivados como
cartões-postais da cidade.
20
Capítulo 1
Anversos do cartãocartão-postal
Figura 2: “Máquina de vender cartões-postais no início do século (1906)”.
ROBERTO, Y. Os anos dourados do cartão-postal:
catálogo da exposição – do acervo particular da autora –
Realizada no Itanhangá Golf Club. Rio de Janeiro: 1988
21
1.1 O cartão-postal: o documento, a paisagem e a paisagem de cartãopostal.
O geógrafo Pierre George no seu livro, Os Métodos da Geografia expõe que “a
natureza da Geografia implica, por si mesma, a de seus documentos”2. Para ele, o campo de
interesse da Geografia é heterogêneo e universal e sua atenção vai para todos os elementos de
um estado de fato e de todos os fatores susceptíveis de promover mutações perceptíveis no
momento presente ou em curto espaço de tempo. Para tanto, o autor descreve que o processo
mental encontra-se dividido em duas partes, dois tempos, o da “situação e evolução” e o da
“determinação das dimensões”. De acordo com George, o “primeiro tempo é o da observação
em seu sentido mais claro; o segundo, o da avaliação quantitativa”3. A partir dessa reflexão
metodológica acerca de conhecimento geográfico, P. George indaga se é possível a aplicação
desse modelo no trato do documento, como se verifica no trecho a seguir:
Mas será que o geógrafo só deve recorrer a uma metodologia específica, a da
estatística e do cálculo, no momento em que a medida vai entrar em ação?
Em outras palavras, será que os métodos quantitativos se aplicam, no caso, a
um material documentário verdadeiramente geográfico ou será que a missão
dos geógrafos consiste apenas em reunir com a finalidade de compor uma
imagem geográfica, uma documentação cuja essência não seja
necessariamente geográfica?4
Essa pergunta feita por Pierre George provoca uma série de outros questionamentos,
como por exemplo o que significa documentos “verdadeiramente” geográficos? Para George,
a documentação utilizada pelos geógrafos pode ser classificada em duas séries, a primeira
reúne os documentos tradicionais da Geografia, como mapas geográficos, monografias locais
ou regionais e os estudos de síntese, a segunda congrega documentos não necessariamente
ligados à Geografia, mas fundamentais para o seu entendimento, como mapas especiais
(mapas geológicos, meteorológicos), compilações estatísticas, estudos econômicos, pesquisas
sociológicas e etnológicas.5
Pela classificação elencada por Pierre George pode-se perceber que o cartão-postal não
integra uma fonte de documentação possível à Geografia, sobretudo porque na sua abordagem
o autor enfatiza documentos tradicionais dessa ciência e defende que “não existe nenhum
2
GEORGE, Pierre. Os métodos da Geografia. São Paulo: DIFEL, 1978. p. 19.
Ibid. p. 19.
4
Ibid. p.20.
5
Ibid. p.47.
3
22
método geográfico para a abordagem dos dados sociais, econômicos, demográficos e
culturais” e ainda que “os métodos das diversas ciências humanas não conduzem a finalidade
geográfica”.6
Mesmo considerando apenas esses documentos tradicionais, esse clássico autor da
Geografia contribui com a reflexão dessa pesquisa, ao destacar que a análise do visível e do
invisível no procedimento geográfico, por sua própria natureza, deve ser compreendida a
partir de “comportamentos mentais diferenciados”. Além disso, considera que a Geografia é
diversa pelas formas de conhecimento que utiliza, onde os meios de investigação do invisível
fazem parte de um conjunto diferenciado de ciências. O autor exemplifica que a paisagem é
um objetivo visível da Geografia, mas que necessita do invisível para sua compreensão, como
se pode observar:
O visível por excelência é a paisagem, reconhecida como objeto essencial da
curiosidade e do estudo geográficos. A paisagem é uma resultante de legados
ou de forças atuais ou do passado as quais, em si mesmas, fogem ao domínio
do visível: são elas tanto as longas seqüências dos acontecimentos
geológicos ou históricos, como fluxos de capitais ou das redes de comando e
de decisão ligadas às estruturas. Entretanto, a paisagem só poderá ser
qualificada e classificada numa topologia geográfica se forem levados em
conta todos os elementos invisíveis que lhe conferem sentido. A observação
propõe problemas que só poderão ser resenhados numa imagem sintética
explicativa passível de classificação em escala zonal, regional ou local, se
recorrermos ao conhecimento do invisível.7
Sobre essa reflexão pierregeorgeana, Ruy Moreira afirma que ela “evidencia senão o
entendimento pelos clássicos de que por trás dos olhos que contemplam a paisagem está a
subjetividade humana” 8. Dessa maneira, o estudo da paisagem remete-se a uma análise que
deve dialogar com o cenário avistado e com quem o observa, inscrevendo vontades, desejos,
fetiches entre outras emoções. Contudo, na apreciação da paisagem tanto na dimensão
morfológica e na subjetiva, deve-se ser considerado os limites da opinião individual e a
necessidade de explanar o conteúdo histórico que define um dos sentidos mais profundos da
paisagem, pois como bem observa Milton Santos “a paisagem é o resultado de uma
acumulação de tempos”9. E sobre a prudência que o geógrafo e outros interessados devem
considerar, quando diante de uma paisagem, esse autor complementa:
6
GEORGE, op. cit. p.35
Ibid. p. 22
8
MOREIRA, Ruy. Assim se passaram dez anos: A Renovação da Geografia no Brasil no Período 1978-1988.
GEOgraphia. Rio de Janeiro, ano 2, n. 3, p 27-49, 2000.
9
SANTOS, Milton. Pensando o Espaço do homem. São Paulo: Ed. Hucitec, 1982. p.54.
7
23
Diante de uma paisagem, ou nossa vontade de apreendê-la se exerce sobre
conjuntos que nos falam à maneira de cartões-postais, ou então nosso olhar
volta-se para objetos isolados. De um modo ou de outro, temos a tendência
de negligenciar o todo; mesmo os conjuntos que se encontram em nosso
campo de visão nada mais são que frações de um todo.10
Milton Santos ao exprimir precaução por causa dos limites conferidos ao observador
quando diante de uma paisagem, chama a atenção para a similaridade que essa categoria
tipicamente geográfica tem com o cartão-postal, um elemento que a corrente pesquisa acredita
ser útil como objeto documental, inclusive para a própria análise da paisagem. O autor insinua
ser de comum conhecimento que os cartões-postais comportam imagens que podem ser um
fragmento descontextualizado da realidade e diante dessa afirmativa ele elabora a comparação
que convida o examinador da paisagem a olhá-la de maneira diferente de como se faz com o
cartão-postal.
É concordável que assim como a paisagem que necessita de uma diversidade de elos
para sua compreensão, o cartão-postal também assume limites, pois entender a totalidade que
dá existência à globalidade de suas significações segundo Moraes, “envolve imagem,
mensagem, remetente, destinatário e contexto”11. Para esse autor, quando o cartão-postal é
interpretado no seu “todo significativo”, leva-se em conta diferentes remetentes e situações, a
particularidade do “cartão-postal em si” e a “singularidade de um momento especial”12.
Portanto, as concepções de paisagem e de cartão-postal têm algo mais em comum do
que os limites que os estigmatizam (como divulgadores de uma realidade deformada), ou que
os singularizam no campo da arte. Enquanto objeto de investigação científica, o cartão-postal
e a paisagem pertencem a uma ambiência que consente orientá-los como temas que se
complementam. Desse modo, assim como se pode utilizar o cartão-postal como suporte de
estudo da paisagem, essa última pode aperfeiçoar a explicação do primeiro. Além disso, na
medida em que a paisagem é dinâmica e o postal é estático, a paisagem pode ajudar a
reinterpretar o contexto em que está inserido o cartão. E ao alcance em que o postal é
colecionado e a paisagem esquecida, o cartão pode ajudar a reencontrar paisagens.
O aprofundamento do estudo das inter-relações entre paisagem e cartão-postal, tem o
objetivo de fornecer meios de melhor interpretar a paisagem por via do postal enquanto
suporte de estudo e igualmente valoriza o cartão-postal como elemento documental no campo
das ciências humanas. Essa prática metodológica invoca o exercício interdisciplinar, pois
10
Ibid. p. 35.
MORAES, Marcos Antônio de (org.). “Tudo está tão bom, tão gostoso...” Postais a Mário de Andrade. São
Paulo: Hucitec-Edusp, 1993. p.xii.
12
Ibid. p. xii.
11
24
além da explanação da paisagem, e em especial da paisagem urbana, carecer da opinião de
campos como a Geografia, o Urbanismo, a Arte e a História, o entendimento do cartão-postal
como recurso para a pesquisa deve recorrer aos campos citados, mais a Sociologia e ao estudo
da Fotografia.
O perfil interdisciplinar assumido pela pesquisa não deve ser compreendido como o
desejo de se realizar uma síntese dos conhecimentos relevantes aos temas abordados. A idéia
é desenvolver uma relação mais aproximada com outras disciplinas partindo da iniciativa de
compreender o espaço geográfico e a paisagem, à medida que também se tentará contribuir
com a compreensão teórica do cartão-postal e sua utilização científica. Essa prática se realiza
sob a motivação de que “a própria Geografia pode contribuir para a evolução conceitual de
outras disciplinas”13 e na idéia de que o postal “de imagem em imagem se foi fazendo a
reportagem do quotidiano, da realidade, da história, do espaço e do tempo” 14, ou ainda sob o
auspício de que o cartão postal é um “apreciável instrumento de educação social, um mestre
diligente de História, Geografia e Arte, com o mundo inteiro por discípulo”15. É nessa troca
de saberes que se edificará a interdisciplinaridade da pesquisa.
A problematização que pretende aglutinar os temas cartão-postal e paisagem,
condensando-os em um “universo” tem como face primordial o desígnio de auxiliar na análise
e compreensão da paisagem e do espaço geográfico, na apreciação das manifestações do
urbano e na investigação das transformações ocorridas na cidade. Esse caráter transconceitual
absorvido pela pesquisa, emerge da idéia de que a paisagem confeccionada como frente de um
cartão-postal, funde-se em uma destacada impressão do espaço geográfico. Essa impressão
teria a função de realçar alguns recortes do espaço urbano que referencia a atuação da
sociedade na construção e na seleção de alguns de seus conceitos e imagens ao longo do
tempo.
Dessa forma, a concepção de cartão-postal se expande no seu sentido mais global, de
objeto iconográfico, à noção que atribui a determinadas paisagens a função de representar e
qualificar o espaço em meio a sua diversidade natural e arquitetônica. Sendo assim, no
conjunto dos locais e objetos que definem o espaço pela paisagem, o cartão-postal assume o
papel de ser o mais notável, ou um dos mais aparentes. Se, por exemplo, pensarmos em
alguma paisagem, é possível que de imediato se ative na memória uma ou outra imagem,
13
SANTOS, Milton. Por uma Geografia Nova. São Paulo: Edusp, 2004. p.137.
CUSTÓDIO, Jorge. In: GRUNER, Klaus Werner. Recordando Portugal em antigos bilhetes postais.
Catálogo da exposição organizada por Yolanda Roberto Marketing & Projetos Culturais e apresentada no Paço
Imperial. Introd. Jorge Custódio. Rio de Janeiro: 1989, p. 13.
15
OLIVEIRA, apud BELCHIOR (1986, p.7). BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Introdução. In. BERGER, Paulo.
O Rio de Ontem no Cartão-postal (1900-1930). 2.ed. Rio de Janeiro: Rioarte. 1986. p. 83.
14
25
típica de cartões-postais, afixada como seu referencial. Essas imagens podem, por exemplo,
mencionar a história, a geografia, ou uma tendência da organização de uma cidade e,
sobretudo, são um convite à pesquisa.
Portanto, a compreensão do cartão-postal denota um duplo sentido, desse modo se
discrimina que concebendo o cartão-postal como uma referência espacial, a reflexão teórica e
metodológica aqui em discurso, toma como objeto a Praça Nossa Senhora da Boa Viagem e
ao passo em que se concebe o cartão-postal como um documento iconográfico, esse trabalho o
utiliza como um suporte de estudo, importante para a decodificação da paisagem que
representa a Praça de Boa Viagem e o seu entorno.
Os conceitos constituídos pela sociedade, conceito do moderno16, do civilizado17, do
progresso técnico18, se manifestam na paisagem que se deixa mirar, demonstrando as
conquistas e as elaborações de um momento vivenciado por alguns grupos sociais, ou mesmo
permitindo enxergar os detalhes que reexplicam suas formas de um modo mais crítico. Essa
revisão da paisagem, intermediada pela compreensão dos ideais compostos na cidade, ao
mesmo tempo em que glorifica alguns recantos do espaço urbano, também contesta uma
imagem atribuída a determinadas localidades por alguns extratos da sociedade. A paisagem de
cartão-postal que tem a qualidade de assumir várias faces se torna um pouco mais evidente
através do conhecimento desses conceitos estabelecidos.
É certo que as vendas que impõe o “invisível”19, aos detalhes mais explicativos da
paisagem não extinguem a capacidade de elaboração de outros conceitos de espaço, de cidade
e de paisagem, fundamentados nos vínculos de solidariedade, amizade e afetividade. Essas
formas herdadas do cotidiano podem imprimir mais qualidades onde se vive e ao que se vê,
do que a mera contemplação de formas ornadas em função da exuberância, do poder, da
opulência e do progresso. O vislumbramento da paisagem que remete ao observador vínculos
16
Para Marshall Berman a visão da vida moderna sofre uma bifurcação, de um lado o material, do outro o
espiritual. Nesse sentido, modernismo e modernização ganham acepções diferenciadas, no primeiro está presente
a idéia de espírito puro, desenvolvidos a partir de imperativos artísticos e intelectuais, no segundo existe um
complexo de estruturas e processos materiais (políticos, econômicos e sociais). Para o autor “esse dualismo,
generalizado na cultura contemporânea, dificulta nossa apreensão de um dos fatos mais marcantes da vida
moderna: a fusão de suas forças materiais e espirituais, a interdependência entre o indivíduo e o ambiente
moderno”. BERMAN, Marshall. Tudo o que sólido se desmancha no ar: a aventura da modernidade. Tradução
de Carlos Felipe Moisés e Ana Maria L. Ioriatti. São Paulo: Companhia das Letras, 1987. p. 151.
17
De acordo com Nobert Elias “O conceito de civilização refere-se a uma grande variedade de fatos: ao nível da
tecnologia, ao tipo de maneiras, ao desenvolvimento dos conhecimentos científicos, as idéias religiosas e aos
costumes”. ELIAS, Nobert. O Processo Civilizador: uma história dos costumes. Tradução: Ruy Jungmann. 1v.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed., 1994. p.23.
18
Segundo Milton Santos “As características da sociedade e do espaço geográfico, em um dado momento de sua
evolução, estão em relação com um determinado estado das técnicas[...] Cada período é portador de um sentido,
partilhado pelo espaço e pela sociedade, representativo das formas como a história realiza as promessas da
técnica. SANTOS, op. cit. 2004, p. 171.
19
Relembrando Pierre George (1978).
26
de pertencimento, diferente do que é imposto pela lógica formal da sociedade, recria uma
imagem de cidade, e também chama a atenção para a necessidade da acessibilidade a essa
cidade por via da constituição de uma paisagem democrática.
O cartão-postal tem a função de reproduzir imagens da cidade por via da ilustração
que comporta e que, por sua vez, é uma representação estática da paisagem. Ele divulga nas
mais vastas distâncias, as paisagens destacadas, impressionando quem o recebe, pois o
material observado sempre tende a provocar uma imagem positiva do que está sendo
representado20. Mas ele também permite a elaboração de uma descrição pelo remetente, que
alguns autores acreditam geralmente se ligar à imagem formal da ilustração. E por fim ele
documenta todas essas apreensões e comunicações, guardando para a posteridade um acervo
de temas possíveis de serem estudados. Eis onde reside a importância do estudo do cartãopostal e sua teorização para se entender a paisagem, o espaço e as práticas na cidade.
Os postais os quais essa pesquisa se interessa são aqueles que ilustram as imagens do
espaço urbano, especialmente os postais da cidade do Recife e do bairro de Boa Viagem. São
postais que mostram a expansão da cidade para sua parte sul, exibindo arruamentos,
edificações, traçados típicos de um bairro que na década de 1920 era considerado como um
“pittoresco suburbio balneario”21 do Recife. O que se demonstra é a formação do espaço
construído e natural, ocupado com objetos artificiais e naturais por vezes não mais existentes
na paisagem de alguns postais mais atuais, mas ocasionalmente persistentes, resistentes,
revelando-se verdadeiras rugosidades22.
Todavia, uma coleção de imagens não traduz definitivamente a paisagem, nem a
memória histórica dos espaços. Além disso, não se pode esquecer que o cartão-postal é,
sobretudo, o resultado de uma percepção, por isso funde-se de subjetividades, seja por parte
de quem executa a fotografia, escolhendo ângulos apropriados, horários e técnicas mais
convencionais, ou por quem contrata o fotógrafo para executar estas tarefas. Sobre o assunto
Boris Kossoy relata:
O chamado documento fotográfico não é inócuo. A imagem fotográfica não
é um simples registro fisicoquímico ou eletrônico do objeto fotografado:
qualquer que seja o objeto da documentação não se pode esquecer que a
fotografia é sempre uma representação a partir do real intermediada pelo
20
Borges afirma ser o postal incapaz de comportar algo feio ou desagradável, para ela, “a expressão parece um
cartão-postal sempre se refere a um ideal de belo consagrado pelas artes plásticas greco-romana e renascentista”.
BORGES, Maria Eliza Linhares. História e Fotografia. Belo Horizonte: Editora Autentica, 2005.p. 60.
21
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 2, s/p, ago. 1924.
22
“As Rugosidade são o espaço construído, o tempo histórico que se transformou em paisagem, incorporado ao
espaço”. SANTOS, 2004, op. cit. p. 173.
27
fotógrafo que a produz segundo sua forma particular de compreensão
daquele real, seu repertório, sua ideologia. A fotografia é, como já vimos
reiteradas vezes, o resultado de um processo de criação/construção técnico
cultural e estético elaborado pelo fotógrafo. A imagem de qualquer objeto ou
situação documentada pode ser dramatizada ou estetizada, de acordo com a
ênfase pretendida pelo fotógrafo em função da finalidade ou aplicação
a que se destina.23
Sob esse aspecto, o postal pode se mostrar mascarado, impresso com
intencionalidades que apenas uma análise consciente pode depurar. Portanto, a partir dos
destaques realizados sob o postal, e do percebido contraponto entre permanências e mudanças
no quadro paisagístico, foi necessário para complementar a sua análise, a utilização de outros
recursos iconográficos e outras fontes de dados como recortes de jornais, revistas,
documentos oficiais, entre outros, que colaboram para o melhor entendimento das
transformações sofridas pelo espaço estudado.
Além dos cartões-postais e de seu enriquecimento através de outras fontes, sentiu-se
necessidade de contextualizar as imagens à mostra nos recursos iconográficos disponíveis, a
fim de também entender nesses recortes, os aspectos socioculturais representados. Assim,
nessa tentativa de decifração da dinâmica das paisagens, demonstrando a atuação do homem,
transformando, valorizando, valorando o espaço e avivando a paisagem sob um tempo às
vezes não mais perceptível pela visão, procurou-se destacar os possíveis detalhes reveladores
do momento social em que se compuseram as ilustrações postais. Esses detalhes se
exprimiram nas observações dos modos de vestir da população, da maneira de usar o tempo,
no destaque dos lugares preferencialmente ocupados e nos mais variados estilos e tendências
guiadas pelos conceitos predominantes de cada época.
1.2 Debatendo o cartão-postal
A utilização do cartão-postal como suporte de pesquisa é tema debatido e registrado
em alguns trabalhos de autores como Gilberto Freyre, Marcos Antonio de Moraes, Maria
Eliza de Linhares Borges, Nelson Schapochnik, Carlos Cornejo e João Emilio Gerodetti,
Boris Kossoy e Pedro Karp Vasquez, dentre outros. Nos trabalhos desses autores está o
consenso do cartão-postal como importante recurso documental e possível suporte para a
pesquisa.
23
KOSSOY, Boris. Realidades e ficções na trama fotográfica. 3 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 5152.
28
Nas abordagens apresentadas, ora o destaque é dado à fotografia, ora ao verso, por
vezes, a ambos. O foco do interesse pode está no destinatário que recebe o postal como
lembrança de parente ou amigo distante, ou no remetente que escreve o cartão, registrando
subjetividades de interesses diversos. O interesse do pesquisador aponta a metodologia como
o postal pode ser utilizado.
Outro ponto em comum que pode ser destacado no trato do cartão-postal,
independente do campo científico que o utiliza, é a curiosa trajetória do pesquisador na
composição de um acervo, o que geralmente consiste em trabalho difícil, demorado e oneroso,
quando a pesquisa não nasce de um acervo preexistente e acessível. As fontes de pesquisa
surgem em lugares por vezes inusitados, como antiquários, leilões, bibliotecas, mercados
públicos, feiras de “troca-troca”, acervos iconográficos de órgãos de pesquisa, coleção de
cartófilos, bancas de jornal e revista e acervos pessoais. Para cada uma dessas fontes, surge
um tipo de dificuldade para aquisição ou até mesmo, para a simples consulta do cartão-postal.
Pelo fato da maioria dos cartões-postais não serem datados, a dificuldade de situar
uma imagem ao momento de sua apreensão pelo fotógrafo desponta como outro desafio ao
pesquisador. Um cartão pode ser adquirido e enviado em um momento muito posterior ao
instante fotográfico representado nele, fazendo com que a data assinalada no verso, não
corresponda a origem da imagem apresentada no postal. O cartão que nunca foi utilizado não
pode precisar uma determinada data, há até mesmo, cartões que aparecem sem a denominação
dos lugares que apresentam.
A suposição sobre a relevância, ou o valor do cartão-postal enquanto objeto de
pesquisa foi tema elencado por Gilberto Freyre no livro Ordem e Progresso24 e no seu ensaio
Informação, Comunicação e Cartão-postal25, em que o autor afirma não constar em suas
leituras que “já se tenha realizado ou publicado estudo sobre assunto aparentemente tão
frívolo ou insignificante”26. A partir dessas verificações sobre o cartão-postal como
instrumento e objeto de estudo registrado nessa publicação de 1978 de Freyre, Marcos
Antônio de Moraes27 considerou ser este pesquisador o primeiro no Brasil a revelar um
microcosmo sobre esse documento iconográfico tão pouco utilizado pelos estudiosos das
coisas sociais.
24
FREYRE, Gilberto. Ordem e Progresso: Processo de desintegração das sociedades patriarcal e semipatriarcal
no Brasil sob o regime de trabalho livre, aspectos de um quase meio século de transição do trabalho escravo para
o trabalho livre e da monarquia para a república. 6. ed. São Paulo: Global, 2004. (1° edição em 1959)
25
FREYRE, Gilberto. Informação, Comunicação e Cartão-postal. In: Alhos e Bugalhos: ensaios sobre temas
contraditórios, de Joyce a cachaça; de José Lins do Rego ao cartão-postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978.
p. 146-161.
26
Ibid. p. 146.
27
MORAES, op. cit. 1993.
29
Em Ordem e Progresso Gilberto Freyre afirmou que “os postais foram uma das
expressões mais vivas da sociabilidade brasileira no começo do século XX”28 e partindo do
exemplo do jovem Emílio Cardoso Ayres, filho de tradicional família pernambucana e
estudante do colégio inglês Saint Joseph’s, que apreciava receber e colecionar postais, um
gosto diga-se característico da época vivida no Brasil, o autor relatou alguns temas
fotográficos circulados em cartões-postais e provavelmente colecionados no período:
Eram cartões de vistas de cidades ou de paisagens, os do Brasil requintandose em exibir aspectos do novo Rio de Janeiro ou do novo Manaus ou do
novo Belém ou do novo São Paulo – aspectos de cidades em processo de
industrialização: a Avenida Central, o Palácio Monroe, o Pavilhão Mourisco,
o teatro da capital do Amazonas, a Catedral do Pará, o Viaduto do Chá, o
Porto de Manaus, os bondes elétricos de Belém, trechos da estrada de Ferro
Paulista. Mas também postais com figuras coloridas de noivos, de mulheres
bonitas, de crianças louras, de camponesas européias.29
Relembrando outros locais e edificações tão característicos do país, na outra
publicação o autor complementa:
Quem conseguia convencer um brasileiro daqueles dias eufóricos que o
Teatro Municipal do Rio de Janeiro, a Avenida Central, a Avenida BeiraMar, [...], não eram tanto quanto o Pão de Açúcar, o Corcovado, a
Cascatinha da Tijuca, o Parque Rodrigo Alves de Belém do Pará, a Estação
Ferroviária Central do Recife, o então novo elevador de Salvador da Bahia,
valores nacionais, como Santos Dumont, que faziam a Europa curvar-se ante
o Brasil? É curioso notar que o português, uma vez fixado no Brasil, deixouse contagiar por esse narcisismo brasileiro de que o cartão-postal foi veículo;
e veículo por vezes brilhante, colorido, festivo.30
Esse levantamento dos símbolos mais característicos de um período de quando o país
estava em vias do processo de modernização, foi bem difundido pelos cartões-postais, que
possibilitaram na época aos brasileiros e aos estrangeiros, mostrarem o progresso do Brasil e a
assimilação da civilização nos moldes das nações mais em voga. Conforme Freyre, os postais
foram o veículo do narcisismo brasileiro, um meio de mostrar os valores nacionais ao mundo.
E esse entusiasmo sobre as aparências das cidades do Brasil, pode ser lido na literatura de
adjetivos sintéticos que se escreve nos versos dos cartões-postais: “Suntuoso”, “Magnífico”,
“Grandioso”, são as qualidades designadas pelos remetentes para completar a percepção da
imagem veiculada na frente do cartão.
28
FREYRE, 2004, op. cit. p. 755.
Ibid. p. 754.
30
FREYRE, 1978, op. cit. p. 152.
29
30
Apesar de fazer referência à importância atribuída aos postais e de chamar a atenção
para sua importância no início do século XX, em Ordem e Progresso Freyre aprofunda-se
pouco no tema, fazendo algumas citações retiradas do verso de cartões, com temas variados
da intimidade e dos costumes brasileiros. O autor introduz a descrição da sua visita à Feira da
Ladra que será mais bem narrada alguns anos mais tarde, e também dá início ao uso do
cartão-postal como substituto da carta, uma metodologia em que contempla o cartão-postal
como instrumento de pesquisa e que igualmente é mais bem detalhada no ensaio Informação,
Comunicação e Cartão-postal.
Em Alhos e Bugalhos Freyre toma como referência os anúncios contidos em jornais,
revistas e almanaques e esquadrinha o valor informativo ou sugestivo que o cartão-postal
pode fazer interessar a distintos cientistas sociais. Ao fazer a comparação entre o anúncio de
jornal e o cartão-postal, disserta:
O Anúncio de Jornal está reabilitado como testemunho de valor informativo
ou sugestivo – informático até tanto para o sociólogo, o psicólogo, o
antropólogo, o lingüista, o economista, como para o historiador. Valioso
inclusive – o brasileiro – como contribuição para o abrasileiramento da
língua portuguesa: a cotidiana e até a literária. Será que se pode dizer o
mesmo, ou quase o mesmo, do cartão-postal? Será, também ele, valioso
sobre esses vários aspectos pelo que pode informar, sugerir ou revelar de
reação a um meio, a um acontecimento, a uma personalidade em foco, da
parte de quem rapidamente o escreveu, servindo-se, por vezes, de estímulo
pictórico ou fotográfico do verso do cartão?31
O interesse do sociólogo pernambucano pelos postais surgiu quando em viagem à
Europa, visitou a Feira da Ladra, em Lisboa, e lá conseguiu comprar alguns exemplares de
cartões-postais com ilustrações da Amazônia brasileira quando se vivia o período áureo da
borracha. Seu interesse principal no postal residiu no significado histórico, sociológico, ou
psicossocial que se poderia apreender com a leitura dos textos presentes no verso do cartão.
Através da coleção de postais encontrada e adquirida, ele pretendia identificar o perfil dos
imigrantes que escreviam de Manaus ou de Belém para seus parentes residentes na Europa.
Freyre se dizia sugestionado pela pesquisa que havia sido desenvolvida por Thomas e
Znaniecki, onde os autores utilizaram cartas de imigrantes poloneses residentes nos Estados
Unidos e que foram endereçadas aos seus familiares e amigos na Polônia. Todavia, cartas
como as utilizadas por Thomas e Znaniecki que contemplassem a comunicação dos que iam
aventurar uma vida nova na Amazônia brasileira, a procura das oportunidades na indústria e
no comércio, eram difíceis de serem encontradas tanto no Brasil como em Portugal, porque,
31
FREYRE, 1978, op. cit. p.146.
31
para o autor, tanto o brasileiro como o português, quase não guardam cartas antigas. E assim,
ao invés de encontrar cartas, ele se deparou com variados cartões-postais, os quais muitos se
valiam mesmo como cartas e concluiu que “guardados por colecionadores de vistas pitorescas
ou arcaicas, o cartão-postal se mostra mais resistente que as simples cartas à chamada ação
destruidora do tempo”. Dessa forma, o autor substituiu a carta pelo cartão-postal em sua
pesquisa, reverenciando-o como um possível objeto de estudo:
[...] não há matéria, por mais aparentemente inócua, que não guarde em si
alguma coisa susceptível de ser útil a um pesquisador das coisas sociais,
interessado em captar significados de interesse humano, escondidos em
insignificâncias, em trivialidades e nos desdenhosamente denominados
pequenos nadas. Não é só romancistas à inglesa que pode encontrar
pequenos tesouros nesses pequenos nadas: também o pesquisador social,
quer seja antropólogo ou sociólogo, psicólogo ou historiador. 32
Segundo o referido autor, o cartão-postal só sobreviveu às cartas, por causa de suas
vistas coloridas e do entusiasmo dos colecionadores, todavia estava menos interessado, como
mesmo disse, nessas “exterioridades não desprezíveis”. O seu interesse pelo pitoresco das
vistas, pelo tropical das paisagens, foi menos motivador do que o uso do postal como
substituto das cartas, ou melhor, o verso do cartão era inicialmente para onde estava voltada
sua atenção. Era na correspondência pessoal, íntima e particular que Gilberto Freyre estava a
fim de consultar, coisa que já havia algum tempo que tentava reunir, mas sem obter muito
êxito, portanto a sua estratégia ao adquirir os cartões com os vendedores da Feira da Ladra,
foi simular interesse na imagem postal, mas de fato, a leitura do verso era o seu objetivo.
Além disso, seu interesse estava sugestionado pelos estudos de Thomas e Znanieck, pela
“história íntima” de Goncourt e pela “sociologia do cotidiano” de Georges Balandier, através
dos quais parecia acreditar que com a análise e interpretação desse tipo de correspondência
particular, poderia descobrir verdadeiros sentimentos e atitudes desses imigrantes, perante as
novas realidades em que se depararam no Brasil.
Os imigrantes ao se defrontarem com o Brasil e em especial com a Amazônia
brasileira, entravam em contato com um novo mundo de instituições, pessoas, condições de
vida, natureza, arquitetura e alimentação, que eles faziam questão de apresentar a seus
conhecidos distantes, especialmente por via do cartão-postal. Assim, através do postal, esse
lúdico veículo de comunicação, os imigrantes, sobretudo os mais jovens e entre esses jovens
alguns cultos, como Freyre pôde observar através do uso da gramática e de expressões mais
32
FREYRE, 1978, op. cit. p. 148.
32
polidas, se comunicavam com seus conterrâneos. Esses jovens mostravam ou falavam por
meio do postal, entre outros temas, sobre o banho de chuveiro, dizendo que faz bem á saúde o
banho diário; sobre a floresta amazônica, contando que seus perigos não são conhecidos na
cidade; sobre as “lindas caboclas de olhos oblíquos e cabelo muito liso”; da poesia de Olavo
Bilac; das doenças tropicais que a higiene conterá; da exuberante fauna e das comidas típicas
do Amazonas.33
Os imigrantes lusitanos no norte do Brasil também mostravam aos seus parentes, o
progresso e a modernidade na Amazônia do início do século XX. Progresso e modernidade à
mostra no postal e, estampados em construções da engenharia moderna, na urbanização e na
arquitetura. A suntuosidade, por exemplo, do Teatro de Manaus, bem como a “modernice”
apresentada por quartéis, monumentos, diques, docas e outras edificações, que gravados no
postal tinham a função de impressionar os entes distantes, mostrando as cidades brasileiras,
como Manaus e Belém que competiam e até mesmo se destacavam do que se poderia observar
nas cidades do Porto e Lisboa. Alguns mais entusiastas chegaram a chamar Manaus de “a
nova Paris”.
Resumindo e interpretando as idéias colocadas por Gilberto Freyre, presume-se que o
cartão-postal está intimamente ligado à cultura ocidental, é um portador de símbolos do
desenvolvimento da civilização. São pequenos retalhos onde se conserva o “tempo perdido”,
fundamento potencial de pesquisas a serem desenvolvidas. Protegidos pela ilustração e
conservados por colecionadores, se revelam como continente de preciosas informações, de
belas figuras de objetos, de pessoas e paisagens característicos de um lugar. O postal pode ser
um desmistificador de realidades, como tentaram fazer muitos dos imigrantes na Amazônia
brasileira nos grandes dias da borracha, nas correspondências com seus familiares e amigos na
Europa, mostrando várias qualidades do lugar onde estavam morando.
As identificações de determinados detalhes e formas da cidade, bem como a descrição
da importância de certos equipamentos para alguns indivíduos ou grupos, são minúcias que
estão presentes nos cartões-postais e que podem estimular estudos sob diferentes enfoques.
Por exemplo, analisando os escritos de Freyre, pode-se realçar que o postal tem a propriedade
de identificar a memória de tempos e traçados da cidade, passados e às vezes instintos. O
cartão-postal traz consigo uma fotografia resistente ao tempo e que representa, entre variados
motivos, a configuração de paisagens e de elementos que enfatizam a singularidade de locais
bem definidos. Esses locais à mostra nos postais colecionados, quando resistem aos
33
FREYRE, 1978, op. cit. p. 146-161.
33
argumentos da modernidade que evocam mudanças, junto com demolições e cirurgias
urbanas, passam a polarizar atenções, que além de tenderem a verificar sua vocação turística,
se refazem como intenções históricas, sociológicas, geográficas, econômicas e arqueológicas.
Caso as atenções não se ativem sob esse patrimônio informal que são os cartõespostais, corre-se o risco de se verem extintas da paisagem, as formas perdidas para a
modernidade, assim como Edvaldo Arlégo34 relata ter acontecido com os Arcos do Bom
Jesus, da Conceição e de Santo Antônio no Recife, a Matriz do Corpo Santo também no
Recife e a Casa Navio no bairro de Boa Viagem, edificações características de tempos da
cidade.
Outro texto criativo e de interessante leitura que contempla a aplicação do cartãopostal como objeto de pesquisa foi escrito por N. Schapochnik35, nele o autor define o postal
interpretando a relação procedida entre a frente e o verso do cartão perante o remetente e o
destinatário da comunicação, lançando sua análise sobre esse colóquio onde o cartão é
intermediário e locutor. O autor introduz seu estudo assim:
Os cartões-postais são como um convite à viagem uma prenda delicada
àqueles que estão distantes. Imagens cuidadosamente escolhidas servem de
moldura, a juras de amor, reiteram plasticamente laços de amizade,
perplexidade e encantamento.
Impossível tentativa de enraizamento, o postal parece revelar o minucioso
trabalho que incide na conquista da paisagem pelo olhar do viajante. A
conjunção que se estabelece entre o texto e a imagem, sublinha a atitude
deliberada do remetente em persuadir o destinatário a compartilhar, ao seu
modo, o gosto da viagem. De uma maneira ou de outra, o cartão procura
estabelecer uma comunicação entre ausentes e assim restituir uma distância.
Uma vez atingido o seu destino postal, a viagem recomeça. Mas, agora, o
viajante é aquele que recebeu o cartão. Viagem virtual por mundos, com o
recurso dos fragmentos de imagens postais e da imaginação. Seria como se
lhe fosse dada a oportunidade de compartilhar as vacilações da significação,
a magia das perspectivas ou ainda as glórias da conquista de um novo
espaço. O realismo das imagens estampadas nos postais também cria uma
disposição que transfere o sentido do “eu li” para “eu vi”. A posse do cartão
daria ao destinatário a chance de sentir-se como Ulisses, Marco Pólo, Pero
Vaz de Caminha.36
Inicialmente Schapochnik valoriza a utilidade do postal como meio de comunicação,
mas daquele capacitado a transportar as emoções e de provocar a inveja aos que estão longe,
como descreveu Freyre e que o autor chamou de “prenda delicada”. Esse caráter lírico
atribuído ao postal, o conduz a aproximar pessoas, deixando mais ao alcance entes separados
34
ARLÉGO, Edvaldo. Recife de Ontem e de Hoje. Recife: Edições Edificante: s/a. s/p.
SCHAPOCHNIK, N. Cartões-Postais, Álbuns de Família e Ícones da Intimidade. In. NOVAES, F. (org.)
História da vida privada no Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 1998. 3 v.
36
Ibid. p. 424.
35
34
pelo tempo e pela distância. Para o autor, o cartão-postal é como um “convite à viagem”, uma
viagem nem sempre possível de acontecer, mas a imaginação excitada ao ler e ver o postal,
possibilita um reencontro com um amigo, irmão, amante ou filho, onde se testemunha os
vínculos sentimentais envolvidos entre esses laços. É como se o envio e o recebimento de um
simples postal permitissem uma permanência com o outro no universo do discurso textual e
imagético desse tipo de correspondência.
Suas reflexões acerca do cartão-postal vão ao encontro de algumas idéias freirianas,
onde esse autor parece influenciar seu trabalho, não apenas pelo fato do Schapochnik dedicar
algumas páginas do seu texto a descrever as descobertas do Gilberto Freyre na Feira da Ladra,
mas, sobretudo, pelo tom etnográfico que faz soar de sua pesquisa. O grande diferencial da
discussão apreciada entre esses dois autores é que além de valorizar os textos escritos no
verso dos cartões, Schapochnik aprofunda o estudo do conteúdo das imagens postais,
principalmente das ilustrações sob o tema das transformações urbanas, analisando e
apontando as expressões do progresso em cidades como Rio de Janeiro, São Paulo e estações
hidrominerais do século XIX, como Poços de Caldas.
Esse diferencial em Schapochnik é importante para essa pesquisa, como também para
outros campos do conhecimento, pois realça um outro foco de leitura do cartão-postal para
melhor interpretá-lo, o da imagem. Também sugere a necessidade de buscar em uma
diversidade de fontes de dados, os porquês da reprodução dos postais no período em que as
cidades exalavam ares modernos e os motivos da reprodutibilidade das fotografias de
específicos recortes dessas cidades. É por isso que o difícil ato de interpretar paisagens na
tentativa de decodificá-las para além do alcance de um simples olhar e a intenção de reanimar
um recorte espacial, não pode ser conseguido pelo simples colecionamento de cartões-postais
e sua justaposição. É preciso ir além do postal, enriquecendo-o com outros recursos que
possibilitem o reconhecimento de cenas passadas e do resgate da memória visual.
Na
hierarquia
dos
lugares
emblemáticos
da
cidade,
os
principais,
que
coincidentemente são os mais divulgados, são também os que mais a restringe, seja por
figurar o que à semelhança é também atributo de outras cidades, seja por reduzir a
luminosidade do conjunto da urbe. Podendo ser escolhido de maneira sutilmente arbitrária e
com argumentos fortemente direcionados, essas imagens da cidade podem ter a função de
reduzir uma paisagem no sentido de resumir, traduzir, exemplificar e orientar interpretações e
sentimentos sobre uma panorâmica retratada.
Para Schapochnik, os cartões-postais contribuíram para uma limitada apreensão da
paisagem, suscitando no expectador desde um estranhamento e distanciamento, ou o
35
surgimento de certa afeição pelo lugar retratado, mas a resolução dessas divergências
iniciadas ao contato com a paisagem de cartão-postal, parece findar quando o expectador
decide escrever no verso de um cartão pessoalmente escolhido, sua percepção sobre aquela
paisagem vista ou visitada por ele. Sobre essa relação entre remetente ou visitador,
destinatário, cartão-postal e paisagem retratada, o autor escreve:
Os cartões-postais corroboram uma compreensão redutiva da paisagem. Por
conseguinte, uma enquete realizada entre a população tenderá a reforçar a
crença na expressão de uma imagem-lembrança, quer uma obra, quer uma
paisagem, como o emblema da cidade. Dessa maneira, São Paulo é a avenida
Paulista, o Rio de Janeiro é o Pão de Açúcar, Ouro Preto é a obra de
Aleijadinho, Salvador é o Pelourinho, Manaus é o Teatro Nacional, etc.
Refiguradas nos postais, as imagens da cidade proporcionam uma percepção
afetiva estética dos monumentos e paisagens, denotando o processo de
interiorização e familiaridade com o local. A dispersão e o estranhamento
inicialmente suscitado no viajante são substituídos na comunicação postal
por um desejo de se inscrever na paisagem impessoal mediante a escolha de
uma imagem que expresse um vínculo aninhante, um elo de pertença,
sobrecarregado ainda por um apelo que demanda reconhecimento: “Eu
existo, eu estou aqui, eu penso em você, gostaria que você se lembrasse de
mim”. Portanto, ao escrever um cartão-postal, o indivíduo se desenvolve em
sua subjetividade.37
Schapochnik deduz que os postais identificam símbolos característicos da cidade que a
singulariza, mas que também tendem a reduzir sua compreensão. Ele afirma que cada
localidade tem uma paisagem, ou monumento que identifica a cidade e que podem ser
apontados pela população, sendo revelados como “uma imagem-lembrança”. Essa imagemlembrança quando presente no cartão-postal reafirma o lirismo do lugar, estimulando o
sentimento de pertencimento e a altivez pelo reconhecimento pessoal da paisagem. Assim, ao
escrever no verso do cartão o remetente expõe a vontade de vincular-se à paisagem postal,
demonstrando e compartilhando com outros essa sua nova conquista. Igualmente ao
destinatário que pode se sentir como os grandes literatos dos descobrimentos, o remetente
pode se sentir como o próprio descobridor.
A autor acima citado refere-se sempre ao remetente de cartões-postais como sendo
aquele que se depara com uma paisagem nova, um local não conhecido por ele, ou
turisticamente bem divulgado. Mas ao tratar dos postais circulados no Rio de Janeiro e em
São Paulo no período das suas primeiras grandes transformações urbanas, é importante
considerar que o perfil do cartão-postal e sua relação com o cidadão também passariam por
mudanças. Era a modernidade com suas novidades, com suas obras arquitetônicas, que
37
SCHAPOCHINK, op. cit. p.426.
36
chegara para transformar quase tudo e se inscrever à frente da imagem da cidade. Nesse
contexto, a concepção de paisagem de cartão-postal estendeu-se à própria cidade onde se
morava, ou melhor, aos seletos recantos reformados e embelezados. O cidadão passou a
conviver com uma estética que só conhecia através de cartões-postais ou de viagens. A sua
cidade naquele instante acabara de se elevar a cartão-postal, e as novas formas dela, que
passaram a ser ilustradas em cartões, também poderiam ser orgulhosamente contempladas
pessoalmente. Porém a parte não embelezada da cidade, confrontava-se com a idealização de
uma imagem oficial, pretendida pela elite e arquitetada pelo Estado, por isso recebeu
raríssima atenção fotográfica.
Schapochnik faz referência ao Rio de Janeiro novecentista sob a administração do
prefeito Pereira Passos, quando a cidade passou por uma grande reforma urbana, aplicando-se
o projeto de higienização e saneamento, que atingiu o porto e a construção de avenidas e
jardins. O ideal buscado era o de transformar o Rio de Janeiro em uma “Europa possível”, um
procedimento em que dissolver as formas antigas parecia mesmo mais importante do que
construir o novo. Sobre esse assunto o autor expõe: “A condenação dos hábitos e costumes
ligados pela memória quer à velha sociedade imperial quer às tradições populares, deveriam
dar lugar a um novo padrão de sociabilidade burguês emoldurado num cenário suntuoso”38.
Para o autor, esse processo era uma conseqüência da mudança da produção da riqueza e do
poder no Brasil República, que gerou o acesso e a promoção de profissionais relacionados às
atividades liberais e além disso, as relações entre esses grupos ascendentes se firmavam num
cenário onde o “individualismo” e o “arrivismo” se consagravam.
Citando Nicolau Sevcenko, Schapochnik exemplifica a reação das classes
conservadoras perante aquelas mudanças ocorridas: “tentativa – vitoriosa ao fim – de
restabelecer uma titularia honorífica, dado que a República extinguira a antiga nobreza, e o
estabelecimento de um verdadeiro culto da aparência exterior, com vistas a qualificar de
antemão cada indivíduo”39. Certamente a qualificação transmitida às pessoas também se
estendeu aos espaços, fazendo surgir à necessidade de um novo arranjo espacial, de uma
paisagem remodelada e tendente à exuberância. Seguramente a constituição de algumas
paisagens excelentes da cidade, não pôde contemplar a um mesmo tempo,
distintos e
indistintos cidadãos, pois elas mostraram através dos argumentos que a ergueram, um
ambiente para a elite. Apesar da origem e da finalidade, essas paisagens passaram a existir
38
39
SCHAPOCHNIK, op. cit. p. 439.
SENCENKO apud SCHAPOCHNIK, op. cit, p. 440.
37
com a força de se fazer imprimir como símbolo da cidade em que todos residem e que outros
devem copiar.
Era a Belle Èpoque carioca que se iniciou no final do século XIX e que estimulara
outros ares à cidade. Inspirada em Paris, a cidade do Rio Janeiro deu o primeiro grande
exemplo ao Brasil de embelezamento, riqueza, prosperidade e civilização, ícones mais
significativos desse período. Foi no Rio onde se deu início a prática dos amplos projetos de
modernização urbana decorrido entre os anos de 1902 e 1906 na administração do então
prefeito Pereira Passos. Essas reformas urbanas, em seguida influenciaram outras capitais que
se destacavam por seu crescimento econômico como São Paulo, que passaria a ser o outro
importante exemplo de remodelação urbana, além de Manaus, Belém, Curitiba, Porto Alegre,
Salvador e Recife40.
Entre as construções realizadas na época das grandes reformas urbanas no Rio de
Janeiro, destaca-se a Avenida Central que sobrepôs a arquitetura colonial, trazendo consigo
outros equipamentos como edifícios públicos que ainda hoje testemunham seu sucesso através
dos cartões-postais.
A Capital Federal possuía agora um bulevar verdadeiramente "civilizado" –
duas muralhas paralelas de edifícios que refletiam o máximo de bom gosto
existente - e um monumento ao progresso do país. Os cartões-postais
mostravam que determinados prédios particulares, como o do Jornal do
Commercio, atraíam a atenção geral, mas a imaginação popular era
dominada pelo conjunto de edifícios públicos localizados na extremidade sul
da avenida: o Teatro Municipal (1909), o Palácio Monroe (1906), a
Biblioteca Nacional (1910) e a Escola Nacional de Belas-Artes (1908),
graças à magnífica vista das fachadas proporcionadas pela própria avenida.
Estes efeitos nada tinham de acidentais.41
No decurso do surgimento dessas obras arrebatadoras das atenções na cidade42 o
discurso sobre o espaço urbanizado ganhava cada vez mais um ar de comparação, era
necessário que as cidades brasileiras viessem a se assemelhar a uma paisagem mais próxima
da qual se poderia enxergar na capital federal da época e de Paris. Ao exemplo da Avenida
Atlântica do Rio de Janeiro, no Recife foi construída na década de 1920, a “Avenida Beira-
40
FOLLIS, Fransérgio, Modernização urbana na Belle Èpoque paulista. São Paulo: Editora UNESP, 2004. p.
16.
41
Ibid. p. 84.
42
Sobre esses monumentos contemplados em cartões-postais ver: BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Lembrança
da Exposição do Rio de Janeiro no Centenário da Independência do Brasil: 7 de setembro de 1922. Coleção
Yolanda Roberto; introdução e texto Elysio de Oliveira Belchior; catálogo da esposição organizada por Yolanda
Roberto Marketing & Projetos Culturais Ltd. e apresentada no Museu da Imagem e do Som. Rio de janeiro:
1992.
38
Mar”43, hoje conhecida como Avenida Boa Viagem, um dos principais corredores urbanos da
cidade e famoso cartão-postal. A partir de um artigo escrito por Luiz Cedro na Revista de
Pernambuco durante as obras de melhoramentos do Recife, onde se enquadrava a abertura da
“Avenida Beira-Mar”, pode-se ter uma idéia das influências absorvidas:
Entre os melhoramentos, que a actual administração, vae dotando o Recife,
aquelle a que a minha capacidade de admirar é mais sensível, declaro sem
rebuço, - é a Avenida Beira-Mar.
Eu não podia comprehender que uma cidade como esta flagellada pelas
ardências do sol tropical, não recolhesse, senão alguns proveitos do
privilegio da sua situação á beira mar. Ora, podese dizer sem receio de
exagero, que não há no mundo cidade marinha que prese da sua civilização
que não tenha a sua avenida ou o seu passeio a beira mar.
Para não sahir do Brasil, vemos, por exemplo, Santos, onde a solicitude das
suas administrações, se esmerou em tornar encantadoras as suas praias.
No Rio de Janeiro, o bairro de Copacabana é a sua joia mais cara. Os poucos
metros que restam da Avenida Atlântica são vendidos a dez contos cada um.
E’ que da collaboração da Natureza com a engenharia de Frontin sahiu
aquella maravilha que todos nós conhecemos.
[...]
Entretanto, Recife a que não falta que chame de “Veneza Americana” e
realmente, prestigiada pela visinhança do Atlântico, não possuia, até agora,
uma avenida, um passeio, uma rua ao menos, a beira-mar. Ao contrario. O
velho sobrado, na orla do caes, desde o Brum até a ponta da rua de Santa
Rita Nova sempre deram, irreventemente, as costas para o mar. Pouco nos
importava que do mar viesse a vistas incomparáveis dos seus aspectos, os
primeiros raios da luz matutina, as brisas frescas do largo, as sombras da
tarde.
[...]
Faça-se, portanto, uma avenida, e uma avenida á beira-mar. Porque,
francamente, o que possuímos, até aqui, não são senão ruas mais ou menos
largas. De avenidas, somente os nomes.
Nem uma recta de transito livre onde se ponha a correr um outomovel, dez
minutos, a fio, sem parar. Poucas são as ruas que não tem o seu cotovello,
em que o trafego é, absolutamente, atroóz e afflictivo.
[...]
Mas, ante-hotem resolvi conhecer a Avenida Beira-Mar, visualmente. A
tarde estava exatamente quente. No azul metallico o sol dardejava. Tomei
um outomovel e parti. Passada a rua Imperial e já na estrada Saturnino de
Brito, (demos ás cousas os verdadeiros nomes) o espaço se descampou.
[...]
O outomovel vorou a curva e na Avenida Beira-Mar começou a correr...
Passei, então, a imaginar as casas construídas, uma arquitetura interessante,
de accôrdo com a belleza da paysagem.
E que proveito para a cidade possuir mais grande pulmão como um desafogo
e refrigeiro, nos mezes de estio! Permittam-me, assim, que eu louve esse
relevante emprheendimento do governo e confie na iniciativa dos
particulares, no sentido de facilitar o empenho do poder publico.
43
Esse trabalho preserva o português original dos textos e vocábulos citados.
39
Mot de la fin: Para evitar quaesquer duvidas sobre a sinceridade deste
artigo, declaro que não possuo, por emquanto, nenhum terreno na Avenida
Beira-Mar...44
O trecho acima citado dá um exemplo das influências que estimularam os
direcionamentos das obras executadas na cidade do Recife da década de 1920.
Ainda com relação às transformações sofridas pela cidade do Rio do Janeiro, Amara
Rocha concorda que “O pequeno trecho reformado adquiria o caráter de cartão-postal da
capital, divulgando um padrão de modernização que deveria ser seguido pelo resto do país.45
E prudentemente enfatiza que o paradigma da modernidade exposto no Rio de Janeiro que
passou a exercer influência no cotidiano carioca e em várias cidades brasileiras se referia
exclusivamente à nova avenida e seu entorno. O restante da cidade que a autora denomina de
a “outra”, onde residia e exercia suas atividades a maioria da população, “era sempre
representada como algo lúgubre, fadado a extinção”46. Rocha conclui que o entusiasmo
imediato mais a expectativa vindoura de mais melhoramentos, eram na verdade, as
características positivas das reformas constituídas.
Na cidade de São Paulo, nos primeiros momentos de sua modernização, também
aconteceu a captura de suas novas formas a fim de divulgá-las no plano internacional47. O
grande representante entre os elaboradores de cartões-postais desse período foi o fotógrafo
Guilherme Gaensly(1843-1928) que começou a fazer imagens de São Paulo a partir de 1890.
Os motivos de suas fotos postais permeavam, sobretudo, sobre a arquitetura moderna
financiada pelo café, presentes em locais estratégicos da cidade. Segundo Boris Kossoy, no
acervo fotográfico revelado por Gaensly nem se cogitavam assuntos que não fossem
panorâmicas destacadas da cidade para serem divulgados em cartões-postais ou para serem
publicados em outro meio impresso. Ainda segundo Kossoy, jamais se encontrou fotos dos
bairros operários e das moradias de trabalhadores na obra de Gaensly. Ele lamenta a falta
desses registros, que certamente serviriam como importante fonte documental para o estudo
das habitações e da vida de uma expressiva parcela da população. Para Boris Kossoy, “Os
postais não eram apenas veículos de correspondência, mas, também, instrumento de
44
CEDRO, Luiz. A Avenida Beira-Mar. Revista de Pernambuco. Recife, n. 5, s/p, nov. 1924.
ROCHA, Amara Silva de Souza. A sedução da luz: eletrificação e imaginário no Rio de Janeiro da Belle
Èpoque. Revista de História Regional, Ponta Grossa, v. 2, n. 2, p.51-82, 1997.
46
ROCHA, op. cit. p.51.
47
KOSSOY, op. cit. p. 69.
45
40
propaganda, particularmente no caso de vistas das cidades”48. E fugindo da regra seguida
pela maioria dos fotógrafos o autor cita:
Foram raros os fotógrafos que tomaram fotos das ruas de São Paulo àquela
época. Um deles foi o italiano Vicenzo Pastore (1865-1918) que,
contemporaneamente a Gaensly, registrou também aspectos do movimento
das ruas, não apenas as do comércio “chique” mas as dos bairros mais
populares, ou então tomadas nas imediações da estação da Luz, ou nos
arredores do comércio atacadista. Imagens preciosas posto que captadas de
perto, no interior do fato, inusitadas na iconografia fotográfica paulista do
princípio de século XX. Ao contrário das imagens higienizadas de Gaensly,
deixou Pastore um importante registro da aparência dos vendedores
ambulantes, meninos engraxates, velhos e mulheres em trajes simples, gente
humilde, gente do povo, fosse eles imigrantes ou nativos, pessoas que
também viveram e trabalharam na capital paulista, imagens que estabelecem
– em relação aos conhecidos cartões postais esteticamente produzidos com a
finalidade de propaganda -, um importante contraponto histórico e
sociológico para os estudos da cidade naquele período.49
É curioso realçar que esse lado reverso do cartão-postal tem a característica de
permanecer ocultado e que ele não é, de modo algum, o foco dos temas inseridos no cartãopostal, ao contrário do que aconteceu, por exemplo, com a propaganda. Elysio Belchior relata
que “entre a publicidade e o cartão-postal ocorreu um caso de amor a primeira vista” e
complementa o autor:
Todas as novas características presentes em um cartão-postal incentivaram
seu uso para a publicidade comercial ou institucional. De um lado o cartãopostal ao levar a mensagem diretamente ao destinatário dava-lhe caráter
pessoal, com todos os efeitos psicológicos que desperta. De outra parte, os
postais iludiram seu destino efêmero ao serem incorporados a coleções, onde
permaneceriam por mais tempo produzindo seus efeitos publicitários, até se
transformarem em mensagem vivas do passado, ao alcance de quem as
aprecia e nelas sabe ver maneiras de ver, pensar e viver dos nossos
antepassados.50
Desenvolviam-se em um dos lados do cartão-postal, temas como envolvendo
utilidades do lar, iluminação elétrica, artigos de perfumaria, acessórios para vestuários,
grandes magasins, bebidas do cotidiano (chá, café, leite), bebidas alcoólicas (vinhos, runs,
licores, cervejas), águas minerais, remédios, hotéis, restaurantes, espetáculos, tabaco,
48
Ibid. p. 69.
Ibid. p. 70.
50
BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Publicidade: uma história de sucesso. Coleção Yolanda Roberto;
introdução e texto Elysio de Oliveira Belchior, versão Lia Rothier, Catálogo da Exposição organizada por Y. R.
Marketing & Projetos Culturais Ltd., e apresentada nos espaços e jardins do BNDES, Parque do Largo da
Carioca – ME. Rio de Janeiro: 1996. p. 6.
49
41
automóveis e acessórios, festas e exposições, turismo, companhias (marítimas, de aviação),
jogos esportivos, além da propaganda política.
Em outra publicação, Elysio Belchior conclui que no período quando não existiam a
radiofoto, a televisão, a internet, nem revistas fartamente ilustradas, nasceu o cartão-postal, ao
qual o autor atribui a responsabilidade de também ter sido um “fator de expansão do próprio
comércio através da publicidade impressa e de seu uso como fácil meio de comunicação entre
fornecedor e comprador”51.
Portanto, a paisagem urbana é um dos temas entre outros abordados nas imagens
postais, contudo com a criação de novos cenários de cidade entre o final do século XIX e
início do século XX, como nos comprova os acervos de colecionadores, os livros sobre a
temática parecem ter sido muito influentes para consolidá-lo como tema principal. Ao cair no
gosto do povo, ávido de conhecer, ou de reconhecer-se naquelas imagens de cidades, de locais
turísticos, de panorâmicas em perspectiva, os postais acabaram por legar um importante
acervo sobre a constituição das cidades, conquistando admirável respeito pelo que pode
auxiliar no estudo da complexidade do processo urbano que constantemente desencadeia a
mudança, recupera heranças, ou firma tendências, processo anunciado na forma, no desenho e
no contraste das relações possíveis de serem observadas e analisadas através da paisagem.
Ao expor seletivas localidades como alegorias da cidade, os cartões-postais abrem
margens a percepções e rotulações das mais variadas e podem provocar apreensões
intermediadas pelos atributos especialmente selecionados para compor uma imagem da
cidade. Schapochnik chama a atenção para o fato, em que os argumentos conscientemente
intencionais e utilizados na composição do postal, não são inteiramente determinantes para o
desenvolvimento de vínculos desenvolvidos com a paisagem representada no postal ou
mesmo para o incremento das sensações experimentadas ao se visualizar um ambiente
rotulado de cartão-postal. Nesse processo que burla as intenções dos promotores e
especuladores dos cartões-postais, a escrita no verso do cartão seria a demonstração de uma
prática possível de fugir dos moldes estratégicos que permeiam a constituição da imagem de
cartão-postal. A leitura do verso do postal parece permitir identificar visões individuais que
podem confirmar a representação que se pretende atribuir à cidade, mas também pode decifrar
visões individuais que atribuem ao espaço retratado, qualidades nem sempre à mostra na
imagem e mais, possibilita aos indivíduos a exteriorização de sua forma de ver a paisagem, de
conceber a cidade e de se mostrar como alguém que possui experiência de viagens.
51
Associação de Cartofilia do Rio de Janeiro. O comércio e o cartão-postal. SESC/ARRJ. Rio de Janeiro:
1997. p. s/p.
42
Moraes na introdução do livro que expõe uma série de 110 cartões-postais como meio
de compreender as relações de Mario de Andrade com seus amigos, relata que os cartõespostais são “recortes do real nada ingênuos”, com “foro próprio” e detentor de uma variedade
de significações52. Para Moraes, o postal é elaborado “no seio da epistolografia” e provoca a
confluência entre o momento e o local vivenciados pelo remetente e os exemplifica pela
ilustração na frente do cartão. O autor ainda afirma que no nível da interpretação científica, a
decifração dos conteúdos do cartão-postal deve ser realizada através do diálogo entre
diferentes disciplinas e critica o senso que julga a importância do cartão-postal apenas pelo
que ele destaca das paisagens do mundo, acusadas muitas vezes, de resumir um universo
elitista, ou burguês.
Assim como Mario de Andrade, Monteiro Lobato manteve uma relação estreita com
os cartões-postais, os quais legaram a outras gerações conhecer um pouco da intimidade
desses importantes autores do modernismo brasileiro. Dos postais recebidos por Mario de
Andrade ficaram testemunhos de sua relação com célebres artistas e intelectuais da semana de
arte moderna e um pouco da trajetória de quem vivenciou a vanguarda do modernismo sem
nunca ter viajado para a Europa53. Sobre Lobato, Lajolo e Tin54 disponibilizaram uma série de
postais que o criador do Sítio do Pica-Pau Amarelo usou para se corresponder com a sua
noiva. Através dos postais, Lobato dá um exemplo do tipo de literatura possível de se
desenvolver nesses objetos e enquanto remetente, o autor confirma a influência que a
ilustração desempenha no desenvolvimento da comunicação escrita55.
Assim como a paisagem e a fotografia, o cartão-postal pode também assumir uma
expressão ou face artística, seja pelo que o vocábulo sugere de subjetivo, seja por seu vínculo
com a foto ou pelas possibilidades de apreensões em que se deixa traduzir. Segundo Elysio
Belchior, o cartão-postal “consegue levar a arte ao quotidiano da vida”56. No poema a seguir
tem-se um exemplo:
52
MORAES, op. cit. p. xi.
MORAES, op. cit. p. xi.
54
LAJOLO, Marisa e TIN, Emerson. Organização, apresentação, transcrição e notas. In: LOBATO, Monteiro.
Quando o carteiro chegou... Cartões-postais a Purezinha.. São Paulo: Editora Moderna, 2006.
55
LOBATO, Monteiro. Quando o carteiro chegou... Cartões-postais a Purezinha. Organização e apresentação
de Marisa Lajolo; transcrição e notas de Emerson Tin. São Paulo: Editora Moderna, 2006.
56
BELCHIOR, 1996, op cit. p. 6.
53
43
CARTÃO POSTAL57
Desprende-se
do calçamento de pedras da rua antiga
uma espécie de fuligem
No quarto de hotel
um jornal jogado no sofá
as notícias descansam
Flores de plástico
na mobília século 19
Fora do quarto
um pouco mais abaixo
Ninguém se arrisca
na rua de mão única
do centro histórico
exceto
vulgívagas que vagam na noite
Um pouco mais à frente
Um corpo caído
no meio do asfalto
Pode-se indagar se o sujeito do poema olha um cartão-postal que acabara de receber,
ou se ele o observa da janela de um hotel.
1.3 Um direcionamento teórico para levar a paisagem ao cartão-postal
Paisagem é uma impressão simbólica do espaço geográfico. Sua composição emite
informações que quanto melhor forem conhecidas, mais entendível se torna o espaço. A
paisagem expressa e testemunha momentos da atuação do homem, regida entre outros
parâmetros, pelas tradições civilizadoras e por práticas culturais. É através do arranjo de seus
elementos, da combinatória de instantes deslumbrados e da análise das relações entre seus
diversos aspectos, que a paisagem se mostra como um quadrante do espaço geográfico
revelado.
A paisagem não se traduz totalmente numa única interpretação, fazendo do seu
desvendar, um aprendizado de múltiplas considerações. Os recortes do espaço, revelados sob
o aporte de alguma fundamentação teórica, conceitual ou subjetiva, são exemplos de ângulos
de visão, importantes para a decodificação e leitura da paisagem, no entanto, quando
57
MARQUES, Fabrício. Poesia. Ciência e Cultura, jan./mar. 2006, vol.58, no.1, p.64-64. ISSN 0009-6725. p
64.
44
analisados isoladamente, se revelam limitados à absorção total da significação de panorâmicas
avistadas. É a partir da junção e entendimento desses processos de visões, que a paisagem
pode se desvendar numa completude mais aproximada da realidade.
Uma paisagem nunca está completamente formada, menos em termos de significado
do que morfológico, explicando-se este último, pela possível conservação das formas
construtivas. A expressão “a mesma paisagem” traduz um nível de proximidade da aparência
de um mesmo recorte do espaço em momentos diferentes. Por se remeter a uma
generalização, tende ofuscar o movimento essencial de toda a paisagem: os contrapontos entre
permanências e mudanças. Todavia, apesar de ser genérica, pode confirmar afinidades,
encontros e desencontros de significados para diferentes pessoas.
Os elementos formadores da paisagem, ajuntados, em harmonia ou em desacordo,
estão sempre imersos numa confabulação, onde disposições e ordenamentos seguem a lógica
conflitante e dúbia de interesses que nunca se satisfazem, por vezes não se completam e
sempre são reeditados, gerando na paisagem, transformações, como impacto.
Em constante mutação e em ritmos variados, a paisagem se transforma, soma-se ou se
sobrepõe a outras formas, recriando aparências e significados. Como uma possibilidade, a
paisagem se realiza no movimento das tendências sócio-culturais, as quais selecionam os
retalhos ou os ângulos de paisagem a serem mais destacados, expressando-se em usos,
exibições e alterações mais ou menos contínuas.
As tendências e possibilidades da sociedade perante a paisagem ganham concretude, e
no tempo se afirmam ou se esvaem. Entretanto, a percepção e o entendimento desse processo
geralmente sucedem o evento. Imagine-se uma paisagem diante de um observador; nem
sempre as suas formas são recentes e nem mesmo autênticas do lugar. Mediados pelas
tendências sócio-culturais, os modos de ver mudam, adaptam-se, geram expectativas, numa
intenção de ajustes, pretendentes de se fazer enxergar mais longe, mas ao mesmo instante,
provocando limitações interpretativas. Portanto, a maneira de ver pode também se firmar ou
se esvair no tempo.
Presente num instante, num atual, em um círculo de idéias e ideais que podem não
explicar e justificar as formas hoje visíveis da paisagem, os observadores com maior ou
menor atenção, com objetivos diversos, cidadão comuns ou promotores do espaço, esquecidos
ou desconhecidos de um passado não vivido por eles, podem propor deturpadas interpretações
da paisagem. Essa lacuna se expressa muito bem na cidade, onde as transformações são
constantes, local em que a paisagem é consumida com mais velocidade e onde as mudanças
são mais fortes e ditadas mais necessárias do que a permanência e preservação da memória.
45
O tempo usado e determinado pela sociedade, nos mais variados recantos, apaga
visões, condena ao esquecimento cores, cheiros, práticas e pessoas característicos de uma
paisagem. Mesmo com a conservação do formato e do seu desenho, as paisagens também
mudam porque o homem se transforma e também esquece. Entre as lembranças perdidas
aponta-se as paisagens, expressas em traços e nas trajetórias de lugares avistados. Eis um dos
porquês da paisagem não poder ser apenas o que se abarca num simples olhar, o ser
verdadeiro da paisagem é um enorme conjunto de percepções, nem sempre documentadom
nem sempre lembrado.
Distingue-se que uma percepção ou compreensão de paisagem pode se impor sobre
algumas demais, empobrecendo, limitando, irracionalizando visões de mundo e adjetivando as
paisagens em bonitas, atraentes, afamadas ou como feias, antigas e antiquadas. Essas
poderosas percepções ou compreensões do real, com forte fundamento ideológico, se
vinculam a uma maneira de conceber o espaço urbano, impondo um imaginário de cidade e
um tipo de paisagem. Dessa maneira, paisagem e cidade se entrecruzam na articulação
política que planifica uma e a revela na outra e em razões, aportadas em argumentos,
intenções e sentimentos, carentes de revisão ou de visão.
Assim se faz necessário entender melhor a paisagem, decifrando seus conteúdos,
apreendendo em que e em quem ela se contém, apontando diferentes pontos de vistas,
sobretudo daqueles que vivem ou viveram a cidade e da cidade, permeando por intenções, por
fatos e acontecimentos, nas escalas dos grupos e do indivíduo, do aparente e do imaginário.
Estudar a paisagem urbana é uma maneira de entender a cidade, revelar lugares e suas
representações é encontrar e conversar com pessoas, além de procurar, nos mais frívolos
recursos, o seu entendimento. Compreender a paisagem é um exercício de se tentar enxergar
mais ao longe, é focalizar detalhes entendendo suas conexões com o horizonte mais aberto e é
também, por vezes, desconstruir-se, flexibilizando preconceitos, abrindo-se para novas teorias
e para a cultura.
As concepções que introduzem essa pesquisa se depreendem de leituras realizadas
acerca da paisagem, fundamentadas nos autores que constituíram bases teóricas e
metodológicas na história do pensamento geográfico, a partir de suas contribuições ao
entendimento da geografia das paisagens.
Um dos primeiros cientistas a empregar o conceito de paisagem em seus trabalhos,
ainda no século XVIII, foi o naturalista prussiano Alexander Von Humboldt (1769 – 1859).
Ele propôs que o geógrafo deveria observar os fatos que elaboravam uma paisagem e procurar
as causas que as determinaram, portanto o interessado na interpretação das paisagens deveria
46
estabelecer relações de causa e efeito. Com esta afirmativa Humboldt enunciara o princípio da
causalidade58, influenciando uma série de outros estudiosos preocupados com a questão do
método de interpretação do mundo.
Entre os cientistas que seguiram com os estudos da paisagem podem-se apontar:
Ferdinand von Richthofen que concebeu a superfície terrestre como a interação de diferentes
esferas: (atmosfera, litosfera, hidrosfera e biosfera); Otto Schüter (1872-1952) que insistiu na
adoção da paisagem como objeto da Geografia e criou o conceito de Kulturlandscharft;
Siegfried Passarge (1886-1958) o qual propôs um esquema descritivo geral com bastante rigor
sistemático sob o intuito de listar fatos dispostos em área,; E. Neef e G. Haase, os quais
valorizaram
a participação do homem na composição da paisagem e consideraram, além
dos fenômenos naturais, fenômenos sociais como população, estrutura social, tradições,
crenças, etc; V. V. Dokutchaev (1846 – 1903) que adotou do alemão o termo paisagem
(Landscharft) e cujas concepções se assemelhavam à tradição Humboldiana59.
Ainda se pode citar Carl Ortwin Sauer (1889-1975), que sob a influência da Geografia
européia possibilista, elaborou uma crítica ao determinismo ambiental chamando a atenção
para a devida organização do método utilizado na Geografia e para o esclarecimento da
natureza de seu objeto60. E também outro geógrafo alemão, o Gerhard Had, que compilou
onze tipologias abrangendo o entendimento da paisagem, entre elas, o “Quadro paisagístico
do vivenciado do vivido” que evoca o reconhecimento das práticas e teses do percurso da
Geografia ao longo de sua trajetória científica e seu diálogo com outros campos do
conhecimento61.
Mas além do conceito de paisagem, a categoria espaço também exerceu importante
influência para as análises até aqui afirmadas e trabalhadas no decorrer dos capítulos. Desse
modo, é preciso fazer uma distinção entre paisagem e espaço, justificando-se, como afirmou o
geógrafo Milton Santos, por uma necessidade epistemológica. Portanto, a pesquisa se
fundamenta na idéia de que “a paisagem é o conjunto de formas, que, num dado momento,
exprimem as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre homem e
natureza. O espaço são essas formas mais a vida que a anima”62. E segundo as relações entre
58
ANDRADE, Manoel Correia de. Geografia Econômica. 12. ed. São Paulo: Atlas. 1998. p.25.
SANTOS, Anderson Alves dos. O conceito geográfico de paisagem. Aula Magistral. Recife: UFPE, 2005.
60
SAUER, Carl O. A Morfologia da Paisagem. In: CORREA, Roberto Lobato; ROSENDAHL, Zeny. Paisagem,
Tempo e Cultura. 2. ed. Rio de Janeiro: EDUERJ, 2004.
61
GOMES, Edvânia Tôrres Aguiar. Recortes de Paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem geográfica.
São Paulo. USP, 1997. p.37. Tese de Doutoramento em Geografia.
62
SANTOS, Milton. A Natureza do Espaço: técnica e tempo, razão e emoção. 3. ed. São Paulo: HUCITEC,
1999. p. 103.
59
47
espaço e paisagem, intermediadas pela sociedade em movimento, Milton Santos novamente
pode fornecer uma referência:
A paisagem existe através de suas formas, criadas em momentos históricos
diferentes, porém coexistindo no momento atual. No espaço as formas de
que se compõem a paisagem preenche, no momento atual, uma função atual,
como resposta às necessidades atuais da sociedade. Tais formas nasceram
sob diferentes necessidades, emanaram de sociedades sucessivas, mas só as
formas mais recentes correspondem a determinações da sociedade atual.63
Portando, compreende-se que o espaço pode revelar tempos e lugares diversos, através
de paisagens as mais variadas e as mais desiguais. O papel dessa pesquisa é justamente
apreender e aprofundar a decodificação da paisagem geográfica.
1.4 O cartão-postal como suporte de estudo
do espaço e da paisagem urbana
O cartão-postal pode ser compreendido sob várias perspectivas. Aqui se destaca dois
enfoques apreendidos através dele. Inicialmente cartão-postal pode ser entendido como um
retângulo de papel, composto em um de seus lados por uma fotografia e onde o verso é
destinado à correspondência, ou o cartão-postal pode ser compreendido como uma referência
imagética e seletiva do espaço geográfico, em que se destaca o enquadramento da percepção
de um ou mais sujeitos a fim de selecionarem determinados recortes de paisagens para fazê-la
representar uma continuidade estética. Com base nesse último caso, o espaço, a paisagem ou
algum objeto destacado, podem ser comumente qualificados pelo vocábulo cartão-postal e,
confirmando ou não certo prosseguimento estético, esses recortes do espaço tenderão
freqüentemente a serem o marco inicial para a investigação científica, ou mesmo turística, de
seus traçados revelados em fotografias64.
63
Ibid. p. 104.
Dentre algumas denominações para o cartão-postal encontradas, destacam-se: “Cartão que tem uma fotografia
ou um desenho em uma das faces, ficando a outra face reservada à correspondência; coisa de aspecto muito
atraente como costuma ser a ilustração de um cartão-postal; símbolo visual mais característico de (algo)”.
HOUAISS, Antônio. Dicionário Houaiss da Língua Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2004./
“Cartão retangular, cuja remessa postal despensa o uso de envelope. Uma das faces traz uma foto de paisagem
turística ou qualquer outra ilustração e a outra, espaço reservado para correspondência, selo e endereçamento.
RABAÇA, Carlos Alberto; BARBOSA, Gustavo. Dicionário de Comunicação. São Paulo, 1987. / “Cartão com
dimensões em torno de 10 x 15cm, enviado pelo correio – Veículo de comunicação dirigida escrita, com toque
pessoal, valendo como uma mensagem “face a face”. ALMEIDA, Mauro. Dicionário Técnico da
Comunicação. Belo Horizonte, 1987.
64
48
O cartão-postal enquanto referência espacial permite traçar uma cartografia da cidade
destacando-se seus recantos mais iluminados ou mais representativos e também é um eficaz
instrumento na criação de uma imaginação de cidade. Todavia, em contrapartida e imanente
aos espaços privilegiados, os outros recantos da cidade menos iluminados e lembrados,
colaboram para uma melhor compreensão da generalidade daquelas imagens editadas
especificamente para fazer fixar olhares e pensamentos. Ao mesmo tempo em que o cartãopostal pode omitir outras realidades por meio do seu oferecimento como um produto, que é
também um conjunto de observações muito bem selecionadas, ele se completa com a
sobreposição dessas outras paisagens de um mesmo local. Mostrando diferentes momentos e
detalhes, postais e fotos antigas, recentes, amadoras, ou profissionais, exprimindo diversos
motivos, podem ajudar a recompor uma interpretação da valorização e juízo atribuídos a
paisagem de cartão-postal.
Os cartões-postais além de referências do espaço da cidade são marcadores do tempo,
pois ao exibir em uma de suas faces um evento da paisagem capturada em imagem e na outra
face, registrar em forma de texto as memórias de alguém postadas e endereçadas a outrem,
evocam uma representação do espaço e de um passado da cidade, bem como faz intuir um
presente, sob o qual o postal pode auxiliar a redescobrir. Na medida em que a paisagem está
em constante movimento e transformação, em comum acordo com a efemeridade do momento
presente, as imagens impressas nos cartões-postais tendem a distanciar-se da paisagem em
transformação, revelando interessantes detalhes, como as mudanças ou a adição de formas e
cores e a permanência ou resistência dos elementos que as compõem. Esse afastamento na
ordem da forma e do tempo que permite revisitar a paisagem, é possível ser melhor revelado
através dos cartões-postais.
O movimento que permite a notabilidade desses referenciais das cidades se depreende
da relação entre espaço, paisagem, fotografia e cartão-postal, onde o espaço à mostra na
paisagem é originalmente destacado por um olhar individual, logo depois capturado pela
objetiva da câmera fotográfica e em seguida revelado para circular e se fazer mostrar pelo
mundo afora. Aquele primitivo olhar lançado sobre a paisagem e que a revelou em imagem,
agora se oferece cordialmente e ao mesmo tempo em tom de imposição para apresentar um
fragmento estático do espaço, imbuído da capacidade de impressionar quem testemunha a
formosidade de uma bela paisagem existente. O cartão-postal nesse contexto e endereçado aos
amigos, familiares e outras pessoas queridas, no seu percurso, publica, divulga e reitera um
estatuto das paisagens mais fitadas por olhares fotográficos.
49
Para Borges, a partir do sucesso alcançado pelo cartão-postal, as lentes dos fotógrafos
passaram a mirar recortes de cidades já estimadas pelo desenvolvimento comercial,
reconhecimento histórico e paisagístico65. Dessa forma, o postal foi fixando uma diversidade
de temas rurais, urbanos, folclóricos, e de paisagens pitorescas, testemunhando uma série de
eventos e elementos possíveis de serem abordados como objeto de pesquisa. Fazendo uma
análise sobre a utilização do cartão-postal como um objeto de pesquisa, Borges destaca que
“Se os álbuns de família podem funcionar como fonte para o historiador problematizar temas
ligados à história da vida privada, os cartões-postais, hoje peças cruciais dos acervos das
cidades, são documentos que tanto informam quanto permitem a análise das representações do
espaço público”66.
Situada em uma das faces do cartão, a fotografia enfatiza os atributos da paisagem,
destacando-os e os fazendo ganhar evidência no competitivo mundo das imagens. Para
Roland Barthes, a identificação da notabilidade dos elementos a partir da foto, respeita um
processo onde “Em um primeiro tempo, a fotografia, para surpreender, fotografa o notável,
mas logo, por uma inversão conhecida, ela decreta notável aquilo que ela fotografa[...]”67.
Seguindo um semelhante percurso, o espaço pode herdar a luminosidade das ilustrações e das
imagens circuladas nos cartões-postais e, em um determinado momento, essa luminosidade se
torna própria do espaço. Além disso, como a parte observável do espaço se expressa na
paisagem, então o cartão-postal, como um emblema do espaço, se releva sobre ela.
Desse modo, a noção de paisagem de cartão-postal pode mesmo anteceder a fotografia
e guiar a ornamentação de alguns espaços, isso dependerá, sobretudo das ações coordenadas
em função de se produzir o espaço para um fim onde o “city marketing”68 e o turismo
assumem importância essencial.
Registrados em diversos ângulos e momentos, e muitas vezes compostos numa mesma
paisagem, equipamentos como praças, parques, ruas, avenidas, edifícios e objetos naturais
como o mar, o céu, as árvores, os rios e lagoas, são capturados pelas lentes das câmeras e
revelados em imagens fotográficas, das quais algumas serão mais valorizadas justamente
65
Além de outros “lugares que, por razões diversas iam se tornando cada vez mais objeto do desejo e das viagens
de lazer da burguesia da Belle Èpoque” BORGES, op. cit. p. 59.
66
Ibid. p. 62.
67
BARTHES, Roland. A Câmara Clara. Tradução de Júlio Castañon Gimarães. Rio de Janeiro: Nova
Fronteira, 1984. p.57.
68
“Nesse plano, o marketing urbano ‘deformado’ deve ser considerado como o resultado de uma tentativa de
influenciar não apenas investidores e turistas em potencial, mas toda uma opinião pública, formando uma
imagem de cidade conforme aos interesses e à visão de mundos dos grupos dominantes.” SOUZA, Marcelo
Lopes de. Mudar a Cidade: uma introdução crítica ao planejamento e à gestão urbanos. 3. ed. Rio de Janeiro:
Bertrand Brasil, 2004. p.303.
50
pelas características que comportam e que argumentarão em favor desses espaços como um
local turístico. No entanto, apesar da tendência de serem maquiados por técnicas fotográficas,
esses espaços quando visualizados na dimensão do cotidiano podem expressar, dependendo
do ponto de vista do analista, as contradições que o confrontam com muitas das imagens que
os representam.
Os espaços e a paisagem, quando compostos numa fotografia, passam a também fazer
parte de uma outra extensão, a do mundo das imagens. Cristalizados em um tempo datado,
alguns de seus elementos e detalhes se expõem à observação mais duradoura, mesmo que de
forma reduzida, pois a foto é a interrupção do processo que anima a paisagem e a armazena
para ser reproduzida. Os movimentos físicos dos elementos naturais e a circulação dos
agentes sociais são resumidos em um foco onde apenas a percepção de uma representação
plana dos objetos se disponibiliza a interpretações.
Pelo exposto vale a afirmativa: Cartão-postal é diferente de fotografia. Segundo
Barthes “a Fotografia é inclassificável porque não há qualquer razão para marcar tal ou tal de
sua ocorrência”69. Mas Kossoy afirma que:
As diferentes ideologias, onde quer que atuem, sempre tiveram na imagem
fotográfica um poderoso instrumento para a veiculação das idéias e da
conseqüente formação e manipulação da opinião pública, particularmente, a
partir do momento em que os avanços tecnológicos da indústria gráfica
possibilitaram a multiplicação massiva de imagens através dos meios de
informação e divulgação70.
Diante desse quadro, acredita-se que o cartão-postal se aproxima da fotografia
justamente porque refletem diferentes razões71. Portanto o postal e a fotografia enquadram-se
no campo da ideologia72, a mesma razão ideológica que constrói e planeja espaços e objetos,
“com o objetivo de aparentar uma significação que realmente não têm”73. Um importante
diferença entre fotografia e cartão-postal é que a foto com o tempo se desintegra e já o postal
tende a ser mais persistente que a foto, porque ele firma na coisa representada uma constante
69
BARTHES, op. cit. p.16.
KOSSOY, op. cit. p. 64.
71
É importante não confundir razão com linguagem, onde na foto e no postal podem ser expressiva, crítica,
artística e propagandística e, no caso do cartão, outras linguagens podem passar a compô-lo quando se tiver
escrito algo no seu verso.
72
Ideologia, no sentido discutido por Löwy, como: a) visão de mundo social, isto é, de um conjunto
relativamente coerente de idéias sobre o homem, a sociedade, a história, e sua relação com a natureza. b) visão
de mundo ligada a posições sociais, ou seja, aos interesses e à situação de certos grupos e classes sociais.
LÖWY, Michel. As aventuras de Karl Marx contra o barão de Münchhausen: marxismo e positivismo na
sociologia do conhecimento. Tradução: Juarez Guimarães e Suzanne Felicie Léwy. São Paulo: Editora Cortez,
2003, p.13.
73
SANTOS, 2004, op. cit. p.137-138.
70
51
situação de pose, evocando uma contínua atualização da reprodução da imagem do elemento
ou da paisagem.
A exceção que permite reavivar essas imagens reside no seu uso como despertar de
memórias, seja avivando as lembranças de quem realizou a foto, de quem viveu um lugar,
teve a oportunidade de visitá-lo, ou de algum modo testemunhou os locais fotografados. Daí a
importância que a fotografia dos lugares, sobretudo as amadoras, têm para os estudos das
paisagens, elas têm a característica de reativar a memória das experiências individuais e
coletivas, vividas em momentos que passaram a ser mais bem compreendidos e fixados
depois de observados através de uma foto pessoal mais antiga. De acordo com Maurice
Halbwachs, a memória ajuda a recompor os significados da paisagem:
Quando retornamos a uma cidade onde estivemos anteriormente, aquilo que
percebemos nos ajuda a reconstruir um quadro em que muitas partes estavam
esquecidas. Se o que vemos hoje tivesse que tomar lugar dentro do quadro
de nossas lembranças antigas, inversamente essas lembranças se adaptariam
ao conjunto de nossas percepções atuais. Tudo se passa como se
confrontássemos vários depoimentos. É porque concordam no essencial,
apesar de algumas divergências, que podemos reconstruir um conjunto de
74
lembranças de modo a reconhecê-lo.
Destacando-se dos conjuntos dos objetos, tem-se assim a idéia de que esses locais
mais figurados em cartões-postais e reconhecidos como tal, são marcos que situam
espacialidades em distintas escalas, por exemplo, um recorte de paisagem, ou um monumento
identificado como cartão-postal, pode representar uma georeferência para o bairro, a cidade, o
estado, o país e mesmo para o mundo. Dessa maneira a continuidade estética pretendida e
citada anteriormente, pode tender a se realizar de duas maneiras, primeiro pela tendência que
emana da paisagem destacada, de se fazer perceber na maior proporção possível de uma
delimitação territorial e secundariamente, e ainda de forma mais redutiva, o perfil estético
pode ser representado por monumentos ideológicos que tendem ao longo do tempo fixar um
conteúdo ao espaço na ordem da técnica, da política, da economia e da religião, assim como
são ou foi, entre outros, a Torre Eiffel, a Estátua da Liberdade, o World Trade Center e o
Cristo Redentor. Essas localidades se coligam por meio de uma função comum: identificam o
espaço através de um simples golpe de vista.
De um lado, ou do lado de fora, a fotografia, para o sujeito que a ver, ela ilustra um
tempo passado e um ângulo da paisagem, do outro lado, o lado de dentro, os sujeitos no seu
próprio tempo e sob os ângulos possíveis, olham, percebem, apreciam, ou depreciam as
74
HALBWACHS, Maurice. A memória coletiva. São Paulo: Vétice, Editora Revista dos Tribunais, 1990. p. 25.
52
paisagens. Através do impulso de suas pessoalidades ou acometidos pelas lembranças de
fotografias, cartões-postais tradicionais, ou pelas propagandas turísticas anteriormente
observadas, tendem mirar, com suas câmeras fotográficas, àquelas paisagens visitadas,
passando a recriá-las como objetos exteriores a sua realidade. Por mais realista que seja a
fotografia e mesmo o sujeito participando de sua composição, estando a paisagem ao segundo
plano, o resultado das fotografias reveladas é o exemplo emblemático da oposição entre o
estar do lado de dentro, visitando, pesquisando, observando os detalhes da paisagem, ou
participando do seu cotidiano e, reconhecê-lo apenas a partir de algumas imagens
fotográficas, com a sensação de estar do lado de fora, distante.
O cartão-postal no seu uso como meio de comunicação, evoca o diálogo entre
diferentes sujeitos e circunstâncias, mas o diálogo em que um primeiro plano se realiza entre
quem envia e quem recebe o postal, se complexifica e rearranja uma outra rede de
comunicação entre distintos agentes e elementos compositores do processo de afirmação do
cartão-postal. Sutilmente o fotógrafo, a imagem e o local, se intrometem na conversa,
utilizando uma linguagem paralela que se traduz em percepções de espaço e tempo. Nesse
outro nível de comunicação, o cartão-postal demonstra onde o remetente está e imprime a
vontade e o questionamento de quando o destinatário poderá ir. O recado no verso do cartão
pode ser um simples “Saudades!”, mas o que está dito no entrecruzamento dos outros textos
existentes no cartão-postal, é, sobretudo, um estímulo a também conhecer e estar por algum
momento naquele local destacado.
O perfil das paisagens impressas em imagens de cartões-postais tem a função de exibir
o que se pretende mostrar ou divulgar do espaço. Sob um enfoque enaltecedor, os elementos
destacados ganham visualidade, amplitude, ou mesmo são diminuídos. Diante do olhar nu,
enriquecido de esclarecimentos sobre a paisagem, essas impressões que a qualificam podem
atestar ou redefinir a monumentalidade do cartão-postal.
Olhar um cartão-postal incute a curiosidade de tentar entender sua formação, sua
constituição enquanto documento e como um dos símbolos mais característicos da cidade,
expondo as justificativas formais e informais, que o transformaram em um monumento e em
fonte histórica, sociológica e geográfica. Essas observações estimulam buscar na
informalidade das práticas da população e a partir dos seus dizeres, suas crenças, seu ócio e
nas perspectivas perante a cidade que aparece, o guia referencial e atrativo que leva as pessoas
a conhecerem pessoalmente certas paisagens da cidade, ou o que as motivam a chamar outros
à viagem, ou ainda a uma visita à cidade por via do convite selado, escrito e figurado no verso
de um cartão-postal.
53
1.5 Destinos do cartão-postal
O uso do cartão-postal, ao longo da sua existência, permeou motivos que
ultrapassaram a sua vocação de transmitir saudosas informações escritas sobre alguém, ou
sobre algum lugar. O cartão-postal reconhecido como objeto singelo, sutil, desinibido,
recheado de sentimentos nas suas dimensões, foi no início, estrategicamente usado como um
objeto repressor, assim como relata Vasquez:
Por ironia do destino, o cartão-postal, associado em nosso imaginário às
idéias de lazer, amor e felicidade, teve um começo trágico, no qual a
principal preocupação dos usuários era comunicar a parentes e amigos uma
75
única notícia urgente: ‘ainda estou vivo’.
Segundo o autor, algumas das primeiras utilizações maciças dos cartões-postais foram
associadas a cercos militares, a exemplo do cerco realizado à cidade de Estrasburgo e o cerco
de Paris, curiosamente “quando foram usados pela primeira vez cartões-postais na França”76.
Por ser uma correspondência aberta, onde a mensagem veiculada pode ser consultada por
qualquer um, o cartão-postal, com essa característica, despertou cedo seu uso estratégico
vinculado à censura.
A “pré-história do cartão-postal”77, segundo Victoriono de Miranda, baseado nos
estudos de Serge Zeyores78, remete-se aos antigos cartões de votos chineses e aos “billetes de
visite” circulados no século XVIII, os quais além de trazerem mensagens e ilustrações,
também circulavam abertos. Em 1861, na Filadélfia, Estados Unidos, J.P. Carlton resolveu
patentear um post card que teria sido o primeiro de uma grande série, entretanto só se tem
notícia de circulação desses post card apenas a partir de 1870, quando a patente já havia
passado para H. Lipman, e o cartão passou a ser editado com o título de “Lipma’s Post
Card”79.
75
VASQUEZ, P. K. Postaes do Brazil 1893-1930. Rio de Janeiro: Metalivros, 2002. p.26.
Ibid. p. 25.
77
MIRANDA, Victorio Coutinho Chermont. A memória paraense no cartão-postal (1900-1930). Rio de
Janeiro:Liney, 1986. p. 09.
78
ZEYONS, Serge. Les Carte Postales. Paris: Hachette, 1979.
79
De acordo com o autor “convém notar, já era de costume antigo valer-se dos Correios para circular vários tipos
de cartões: de visita, de felicitações, propaganda comercial, ilustrados ou nõa, com artísticas vinhetas, vistas
ptopográficas, cenas humorísticas, etc. Enfim, toda uma gma de ‘velhos papéis’, raridades que alcançam subidos
preços em leilões de Casas afamadas, procurados e considerados como precursores dos verdadeiros cartõespostais. E como seria de prever-se, o uso de exemplares semelhantes, apresentando votos, remonta aos chineses,
no século X...”. (BELCHIOR apud BERGER, 1986. p. 7.)
76
54
Contudo, o cartão-postal surgiu oficialmente durante o século XIX no império austrohúngaro, entrando em circulação pela primeira vez no dia primeiro de outubro de 1869. O
crédito pela invenção do cartão-postal foi concedido ao austríaco Emmanuel Hermann (18391920),
professor
de
economia
política
da
Academia
Militar
Wiener
Neustadt
que a 28 de janeiro de 1869 publicou no jornal “Die Neue Freie Presse”, o artigo intitulado
“Acerca de um novo meio de correspondência” 80, sugerindo às autoridades de seu país o uso
de cartões abertos para cartas de menor expressão que auxiliariam a redução dos custos das
correspondências e a simplificação da comunicação escrita.
A idéia publicada pelo professor Emmanuel Hermann se aproximara com bastante
semelhança da sugestão comentada pelo funcionário do correio alemão Heinrich von Stephan
(1831-1897). Herr Stephan havia sugerido em 1865, ou seja, quatro anos antes da publicação
do professor Hermann no Die Neue Freie Presse, o emprego de um cartão “já com o selo
impresso, o anverso reservado para o endereçamento e o verso destinado à correspondência”,
entretanto a proposta de Stephan chegou em um momento pouco oportuno, já que naquele
período o correio alemão e austríaco sofriam a influência da fragmentação política nesses
países.
Já o momento da sugestão do professor Hermann foi mais oportuno, pois se tornou
pública depois de ter sido criada a Confederação do Norte da Alemanha, levando à
padronização das tarifas e à edição dos primeiros selos unificados. Curiosamente o doutor
Heirich von Stephan foi nomeado diretor-geral do correio da confederação, que seriam os
primeiros passos para o surgimento da União Postal Geral da Alemanha em 1874.81
Para que o cartão-postal pudesse surgir e em pouco tempo se tornar tão usual e
popular, por um lado encurtando as distâncias entre as pessoas através da comunicação escrita
e por outro mostrando a moda, os lugares ou divulgando os pensamentos e ideologias
vigentes, foi preciso que alguns processos, sobretudo, técnico e organizacional, tivessem
alcançado certo desenvolvimento, preparando os meios necessários para que o cartão-postal
fosse revelado, assumindo as formas e funções as quais o caracteriza hoje em dia.
Entre os processos sob certo nível de desenvolvimento à época do surgimento do
cartão-postal e que colaboraram com destacada importância para ele alcançar o sucesso
obtido, cabe destacar a reforma no sistema de correio inglês a partir 1840, quando foram
80
Enquanto Belchior (apud BERGUER, 1986,. p.07) cita o dia 29 de janeiro de 1869 como data da publicação
da carta no “Dei Neue Frei Presse” e traduz o título da carta como “Uma nova forma de correspondência pelo
correio”, Vasquez (2002, p. 25) faz referência ao dia 28 e traduz o título da carta como “Acerca de um novo
meio de correspondência”.
81
VASQUEZ, op. cit. p. 28.
55
colocadas em prática, normas gerais que descomplicaram o envio e recebimento de cartas e
demais correspondências na Inglaterra.
Seguindo o exemplo inglês, vários outros países também realizaram a reforma postal e
abriram margem para a adoção do cartão-postal como veículo de comunicação. Até antes da
reforma inglesa a circulação das correspondências comprometia o destinatário, pois este
deveria arcar com os custos de receber uma carta, a qual não raramente poderia ser recusada
pelo motivo de não se ter o dinheiro necessário para pagar a postagem, que era cobrado pelo
próprio carteiro, sendo esse valor calculado em função da distância percorrida por ele.
Enquanto a maior parte da população ficava a disposição destes constrangimentos, os
membros do parlamento inglês tinham a autorização de enviar cartas que não precisavam ser
pagas pelo destinatário.
Sir Rowland Hill publicou em 1837 um artigo intitulado Post Offce Reform. Its
Important and Praticability (Reforma Postal. Sua Importância e Viabilidade). Ele escreveu
uma série de sugestões que poderiam facilitar o trabalho nos correios, bem como abrir
oportunidade para a socialização da comunicação através das cartas.
Entre as sugestões elencadas por Sir. Hill destaca-se o uso do peso da
correspondência, e não a distância percorrida para entregá-la, como padrão de cálculo para o
preço, como até hoje é efetuada a postagem das correspondências. Além disso, o valor a ser
pago, segundo o Sir Hill, deveria ser depositado pelo remetente no momento da postagem da
correspondência, pagando um preço acessível, que seria menos da metade do valor cobrado na
época, evitando dessa maneira os constrangimentos até então gerados pela cobrança ao
destinatário.82
As idéias excêntricas de Sir. Hill foram recebidas com aprovação e tornaram-se o foco
da organização dos correios britânicos a partir do dia 10 de janeiro de 1840, inaugurando,
dessa maneira, um método inovador de correspondência e de organização do sistema postal de
um país, possibilitando a criação de normas e de um vocabulário específico no domínio dos
correios, procedimentos que estimularam outros países a realizar sua reforma postal, tais
como a Rússia, a Finlândia e algumas outras nações germânicas. Segundo Vasquez esse
processo de aperfeiçoamento dos correios nesses países deu “início ao movimento que iria
culminar mais tarde no surgimento do cartão-postal na Áustria”83.
No período da sua origem, o cartão-postal assumiu formas diferentes da que
conhecemos hoje, até mesmo a concepção de frente e verso do cartão-postal era distinta da
82
83
VASQUEZ, op. cit. p. 27.
Ibid. p.28.
56
que entendemos atualmente. A questão da sua forma apenas foi resolvida em definitivo no
ano de 1902, a partir da idéia do editor inglês Frederick Hartmann, o qual desenhou o cartãopostal nos moldes que o concebemos hoje em dia. No sentido de fazer visualizar essa
transformação no formato do cartão-postal, Pedro Vasquez escreveu:
Nos primórdios do cartão-postal, a frente era a parte reservada ao
endereçamento, que ocupava toda uma face das primeiras CorrespondezKarte, emoldurada por um filetefiligranado, com o verso destinado à
correspondência. À medida que foram surgindo os primeiros postais
ilustrados do tipo ‘Gruss aus...’ (‘Saudações de...’) na Alemanha na década
de 1890 – logo seguidos por congêneres como os ‘Souvenir de...’, franceses,
ou os ‘Ricordi de...’, italianos, e os ‘Greetings from...’, ingleses –, a imagem
foi ocupando área cada vez maior de uma das faces, com uma pequena nesga
em branco reservada para uma mensagem mínima. Os usuários, atraídos pela
beleza das imagens de cunho turístico reproduzidas em tais cartões passaram
a considerar naturalmente à frente como essa face, onde a imagem era
impressa, embora as autoridades postais tivessem opinião contrária. Logo as
imagens tomaram conta de toda a superfície livre, obrigando o remetente a
redigir a mensagem na face de endereçamento ou então a escrever
diretamente sobre a imagem [...]84
O princípio que gerou o cartão-postal atrelava-se sobretudo à comunicação escrita,
rápida, objetiva e funcional. Além do mais, com a reforma do sistema postal, os correios
alcançaram uma notável eficiência, contribuindo ainda mais para essa vocação. Todavia surge
em cena, ou melhor, em um dos lados do cartão, a tendência de veicular imagens. Embora o
advento da ilustração como a frente do cartão-postal tenha sido bem aceita por alguns países,
foi, contraditoriamente assimilada lentamente pela Inglaterra, logo, quem estava na vanguarda
da modernização do sistema postal. Toda a questão circulava em torno da burocracia das
autoridades postais inglesas, que temiam perder o monopólio da produção dos cartões. A
confecção dos cartões-postais por editoras independentes só foi autorizada na Inglaterra em
primeiro de setembro de 1894 e nos Estados Unidos, que também inicialmente restringiu o
uso da imagem. A liberação para circulação dos cartões-postais, aconteceu apenas a primeiro
de julho de 189885.
A adoção da imagem no cartão-postal encerra sua forma definitiva, entretanto há uma
outra questão que é de interesse para essa reflexão sobre os motivos os quais possibilitaram o
surgimento do cartão-postal. O primeiro anteriormente exemplificado foi a reforma do
sistema postal. O segundo foi o surgimento da fotografia, um fato de ordem da técnica, que
precedeu o postal e se desenvolveu junto com ele. A fotografia permitiu ao cartão-postal,
84
85
Ibid. p.33-36.
Vasquez, op. cit. p. 28.
57
como já relatado por Freyre, resistir ao tempo, conservar-se enquanto documento histórico,
firmar-se como meio de comunicação e como veículo de propaganda das paisagens e lugares
turísticos.
Para Borges
86
, a partir da criação da Kodak ou instantâneo em 1888, por George
Eastman, alguns desenhistas e pintores franceses criaram o “cartão-postal ilustrado”. Segundo
a autora, esse rentável meio de utilização da máquina fotográfica portátil encontrado por esses
artistas, e que resultou na criação do postal-ilustrado, era uma forma de diálogo entre a
fotografia e a pintura. Por ser o cartão-postal fotográfico economicamente mais rentável,
conseguiu maior aceitação no mercado e conseqüentemente uma ampla popularização.
Quando o cartão-postal passa a ser utilizado, ainda sem a imagem87 impressa em uma
de suas faces, a técnica da fotografia completava 43 anos de sua invenção. Sua descoberta é
atribuída a Joseph Nicéphore Niépce (1765-1833), que pertencia a burguesia intelectual da
época, uma classe social que tinha o privilégio de poder retirar-se para suas terras e dedicar-se
às experiências científicas. Foi o que justamente fez Niépce, depois de retirar-se do exército
francês aos 40 anos, passou a se dedicar aos inventos técnicos.
As experiências de Niépce consistiram em imprimir uma imagem permanente, aos
moldes da litografia, mas com o auxílio da câmara escura. A câmera escura é responsável pela
projeção da imagem exterior sob uma superfície, permitida por um princípio ótico. As
experiências de Niépce caminharam para a captura da imagem, até que em 1826 depois de
colocar à mira da câmara escura uma placa de estanho com betume branco da Judéia que
endurecia ao contato com a luz, ele conseguiu revelar o que hoje é reconhecido como a
primeira fotografia, sob o processo que denominou de Heliografia. 88
Mesmo com os esforços de Niépce, a descoberta das imagens reveladas não tinha boa
qualidade visual e por isso não receberam tanta atenção, apenas alguns intelectuais e outros
homens de espírito progressista perceberam o valor da invenção, mas os comerciantes, por
exemplo, não viam na fotografia um investimento confiável e rentável89. A fotografia apenas
iria aguçar as idéias sobre sua viabilidade econômica a partir das adaptações da Heliografia de
86
BORGES , op. cit. 59.
Alguns dos primeiros cartões-postais traziam em uma das faces (reconhecida como frente, porque era onde se
escrevia o endereço) uma imagem que poderia ser um brasão, uma silhueta de alguém importante homenageado.
Onde se lê “ainda sem imagem” com referência ao cartão-postal se quer dar ênfase aos cartões predecessores, ou
os que antecederam os postais com forma definitiva como hoje os conhecemos, em que um dos lados é todo
ocupado por uma imagem fotográfica.
88
FREUND, Gisele. Fotografia e Sociedade. 2. ed. Tradução de Pedro Miguel Frade. Lisboa: Veja.1995.
89
Ibid. p 38.
87
58
Niépce, realizadas pelo pintor Deguerre, o qual batizou sua criação de daguerreótipo90. As
adaptações de Daguerre, apesar da complexidade no manuseio do equipamento,
possibilitaram a acessibilidade à fotografia. O processo pode ser descrito da seguinte forma:
1. polia-se perfeitamente uma lâmina de prata metálica que se encontrava
fundida a uma placa de cobre (com um polisoir) a fim de lhe dar um
brilho perfeito e de retirar de sua superfície as menores partículas que aí
poderiam se localizar;
2. colocava-se a placa em uma redoma, a qual era mantida sobre um
caixilho, e onde se aquecia cristais de iodo, cujo vapor, agindo sobre a
prata, combinava-se com o metal, formando uma camada amarela de
iodeto de prata. A lâmina estava assim sensibilizada;
3. colocava-se a placa no interior da câmera escura, a qual recebia a
imagem dos objetos externos através da objetiva. A luz, decompondo
proporcionalmente (de acordo com a intensidade dos raios luminosos
que atingiam a placa) o iodeto de prata, deixava registrada a imagem na
placa, embora ainda de forma latente e invisível;
4. após um determinado tempo de exposição – cerca de dez minutos em
pleno sol de verão, no período anterior ao aperfeiçoamento das lentes e à
utilização combinada de outros sais durante a sensibilização da lâmina –
a placa era retirada da câmera escura não apresentando até este momento
nenhuma imagem visível. Para fazer aparecer esta imagem, era
necessário submeter a placa à operação de revelação;
5. colocava-se então, novamente, a placa numa redoma, à pequena
distância de um banho de mercúrio aquecido a uma temperatura de
60°C. Os vapores de mercúrio, entrando em contato com o metal, se
condensavam unicamente sobre as partes atingidas pela luz. Tornava-se
visível, então, a imagem que se encontrava latente;
6. era necessário neste estágio fixar-se a imagem, o que se fazia
mergulhando a chapa numa dissolução de hipossulfito de sódio que,
dissolvendo o iodeto de prata não impressionado pela luz, tornava assim
a superfície insensível e portanto a imagem permanente. Às altas luzes,
correspondia na placa um depósito leitoso de mercúrio amalgamado; e às
sombras, a própria prata polida do fundo;
7. a seguir, procedia-se à lavagem com água e secagem sobre a lâmpada de
álcool.91
No momento em que o cartão-postal vem à tona, a fotografia já era uma realidade na
vida cotidiana. A daguerreotipia possibilitou o acesso à fotografia, tanto pela população em
geral, como pelas mais abastadas, que pareciam ver na nova descoberta, um dos momentos da
emergência de sua classe e também permitiu surgimento de uma nova profissão, o fotógrafo,
que de posse da técnica, poderia dar curso a sua vida, com a possibilidade mesmo de
90
Daguerreótipo: Imagem positiva direta em chapa de cobre, coberta de uma fina camada de prata,
cuidadosamente polida e sensibilizada com vapores de iodo. A imagem é revelada com vapores de mercúrio e
apresentada em caixilho hermeticamente fechado. MAUAD, Ana Maria. Entre retratos e paisagens: modos de
ver e representar no Brasil oitocentista. Revista Studium, Campinas, n. 2. Disponível em:
http://www.studium.iar.unicamp.br/15/01.html> Acesso em: 16 novembro 2006.
91
KOSSOY, Boris. Origens e Expansão da Fotografia no Brasil no Século XIX. Rio de Janeiro: FUNARTE,
1980. p. 13-14.
59
enriquecer. A estatística revela, por exemplo, que em 1850 existiam nos Estados Unidos dois
mil daguerreotipistas e em 1853 estimou-se em três milhões de fotografias tiradas em um ano,
estimando-se também que em 1850 os americanos tenham gasto de 8 a 12 milhões de dólares
com fotografias, tendo-se uma idéia do impacto que a daguerreotipia teve ao ser apresentada
nesse país a partir de 183992.
Apesar da popularidade da daguerreitipia ao processo, faltava-lhe desempenhar uma
questão essencial, permitir a reprodução de cópias de uma mesma imagem, além disso, a pose
perante o daguerreótipo era muito demorada, com uma duração da exposição entre 13 e 15
minutos, onde o modelo necessitava ser iluminado pela luz do sol, acarretando em incômodos
por vezes capturado pela fotografia, como a transpiração exagerada. Essa proeza da invenção,
que permitiu a realização de cópias e que terá mais tarde reflexos na imprensa e nos cartõespostais só foi colocada em prática a partir da descoberta do processo do colódio, realizado
pelo também pintor Le Gray, o qual substituiu as placas metálicas de Daguerre por negativos
em vidro, possíveis de serem duplicados. Esse processo possibilitou o desenvolvimento de
alguns ramos da indústria ligada ao retrato fotográfico, como a fabricação de aparelhos, a
confecção de molduras para álbuns, a composição de cartões-postais e a indústria química
vinculada à produção das placas sob o princípio de Le Gray. “Assim, pouco a pouco,
desaparecia a daguerreotipia e começava a história da fotografia propriamente dita” 93
Dessa maneira, expõe-se a idéia de que o cartão-postal surgiu em função do
desenvolvimento de dois processos, a organização dos correios no mundo e o
desenvolvimento da técnica fotográfica. Contudo, foram também necessárias algumas
articulações de cunho político para que o postal, nos moldes da noção contemporânea, viesse
se popularizar. A primeira articulação permitiu atribuir á fotografia, caráter público. A partir
de projeto de lei formulado por Arago, membro da Câmara dos Deputados e advogado
espontâneo da nova técnica, o Estado Francês foi convencido a adquirir a invenção, tornando
público o processo em agosto de 1839. Pela compra dos direitos à fotografia, o governo
francês passou a pagar uma renda vitalícia de seis mil francos a Daguerre e de quatro mil
francos ao filho de Niépce, pois esse havia falecido sem conseguir ver sua invenção
reconhecida.94
A fotografia estava assim destinada ao público, mesmo com vários outros
pesquisadores exigindo sua patente, ela permaneceu pública e seus posteriores
92
FREUND, op. cit. p. 42.
FREUND, op. cit. p. 43.
94
Ibid. p. 39.
93
60
aperfeiçoamentos técnicos colaboraram ainda mais para sua acessibilidade. Entretanto o
ingresso do cartão-postal no domínio público, no sentido de qualquer um poder produzi-lo ou
comercializá-lo, se deu como uma questão mais difícil do que o caso da fotografia, pois o
monopólio da produção dos cartões-postais pertencia ao Estado, o qual resistiu a adotar a
união entre o cartão-postal e a imagem fotográfica. Mas, aos poucos, a composição do cartãopostal junto com a fotografia passou a ser permitida pelos países e os cartões-postais passaram
a ser impressos por editores particulares. A Inglaterra, como já citado, autorizou a impressão
do cartão-postal junto com a imagem, em 1° de setembro de 1894, e os Estados Unidos
apenas em julho de 1898.95
No início da segunda metade do século a técnica da fotografia estava
suficientemente aperfeiçoada para já não exigir que os seus profissionais
devessem ter conhecimentos especiais. A fotografia tinha saído do domínio
da experimentação científica, os utensílios necessários eram fabricados por
indústrias especializadas. A preparação das soluções de revelação e de
fixação deixaria de exigir conhecimentos químicos particulares. Era possível
dotar-se de aparelhos de vários formatos nos estabelecimentos de um bom
número de fabricantes de óptica. Publicou-se toda uma série de manuais de
fotografia, acessíveis a todos os profanos, que forneciam a descrição exacta
dos processos. Podia instalar-se um estilo fotográfico por algumas centenas
de francos.96
Sobre essa união entre o cartão-postal e a fotografia, é interessante discutir que não se
deu arbitrariamente. A fotografia surgiu anos antes do postal, mas o seu encontro com este,
estava traçado como um destino. O retrato fotográfico segundo Giséle Freund é uma
manifestação correspondente a um estado particular da evolução da sociedade, pois a
fotografia teria designado a “ascensão da burguesia em direção a um maior significado
político e social”. O desenvolvimento técnico da fotografia, bem como, a dedicação de seus
executores, estão intimamente ligados para ela a um ato simbólico em que “os indivíduos da
classe social ascendente tornavam visível para si mesmo e para os outros a sua ascensão e se
classificavam entre os que gozavam de consideração social”97. A fotografia então, surge como
uma necessidade de figurar a ascensão das camadas burguesas, como necessidade de firmar-se
como uma classe que conquistara a própria representação.
Quando o professor Hermann ou o doutor Stephan imaginaram o cartão-postal,
certamente tiveram noção da importância social de sua invenção. Não se tem certeza se eles
previram a atratividade que aconteceria com a coexistência do postal e da fotografia, uma
95
Ibid; VASQUEZ, op. cit.
FREUND, op. cit. p. 48
97
Ibid. p. 45
96
61
atratividade energizada, sobretudo, por necessidade representacional de estratos de uma classe
social. E talvez nem mesmo Niépce e Daguerre tenham imaginado que aquelas imagens que
eles tanto quiseram imprimir e que povoaram o desejo de muitas famílias, agora também
poderiam viajar e se mostrar ao mundo.
Essa conjunção cartão-postal e fotografia rendeu bastantes atenções, assim, o postal
logo foi absorvido pela publicidade, passando a manter uma relação estreita com o turismo,
sendo o turismo bastante importante para seu desenvolvimento. Um dos primeiros a lançar o
postal turístico como vistas fotográficas foi o suíço François Borich, que conseguiu fazer
fortuna com as imagens editadas98.
Em decorrência do sucesso do cartão-postal, o século XX inicia-se reconhecido como
o período de ouro99 do cartão-postal que durará até o ano de 1925. Para esclarecer esse
fascínio, os dados estatísticos mostram que em torno de 1899 a produção de postais poderia
ser calculada da seguinte maneira: “Alemanha: 50 milhões de habitantes, 88 milhões de
postais; Inglaterra: 38,5 milhões de habitantes, 14 milhões de postais; Bélgica: 6,5 milhões de
habitantes, 12 milhões de postais; França: 838 milhões de habitantes, 8 milhões de postais”100.
Some-se a estes dados, referentes ao mesmo período, 33 revistas dedicadas aos
colecionadores de postais apenas na França, além de vários outros periódicos em diversos
países. Uma década depois desse levantamento, a França elevaria sua produção e passaria a
liderança com a cifra de 123 milhões de cartões-postais fabricados, e, além disso, se
contabilizariam 33 mil operários trabalhando nessa indústria101.
No Brasil, o primeiro “bilhete-postal” como assim foi chamado, só pôde circular em
território nacional a partir da autorização concedida pelo Decreto nº 7.695, de 28 de abril de
1880, executado por iniciativa do Ministro da Agricultura, Comércio e Obras Públicas,
Manuel Buarque de Macedo102. Luís Edmundo destaca um relato sobre a chegada e os
primeiros contatos com o cartão-postal que tiveram alguns cariocas do início do século XX.
O cartão-postal que, pelo começo do século, e mesmo até bem pouco antes
da Grande Guerra, é o de lírio que empolga o carioca, foi aqui introduzido
pelo Castro Moura, o que escreveu uma brochura satânica, em 97 ou em 98,
com o título Súplicas e Blasfêmias e que acabou trocando Apolo por
Mercúrio, e enriquecendo, a provar, de tal sorte, que a boa arte, neste país,
ainda é a de comprar por 2 e vender por 4... Chega Moura de Paris, com seus
98
Ibid. p.46
Também comumente citado como “Idade de ouro” do cartão-postal.
100
FREUND, op. cit. p.102
101
KYROU, Ado. L’Age d’or de la carte postale. Paris: André Balland Ed., 1996. p. 11. In: KOSSOY, Boris.
Realidades e Ficções na trama fotográfica. 3 ed. São Paulo: Ateliê Editorial, 2002. p. 64.
102
BELCHIOR, 1986, op. cit. p. 07.
99
62
primeiros cartões, em 1901. A novidade impressiona. Tão bela, porém, é a
apresentação desses postais, que muita gente os compra em séries, só para
encaixilhá-los. Um vidraceiro da Rua da Quitanda cria disposições artísticas
para a coleção das fotos em passe-partout de cores. A bela Otero, por
exemplo, em seis poses diversas, é um quadro para se dependurar abaixo do
espelho de Veneza, num salão...
Cabeças de Cléo de Merode surgem nos gabinetes de dentistas... E atrás de
Otero e de Cléo, todas as cocottes de França, com o nome por baixo, em
atitudes provocadoras e plásticas, mostrando a perna, o colo, o seio, e a fazer
o encanto das famílias.
A bem dizer, o delírio do bilhete postal ilustrado só começa a inquietar-nos
em 1904. Moda, a princípio, passa, depois, a obsessão.
Há postais em cartolina, platinografados, reproduzindo figuras célebres,
fixando paisagens, reproduzindo quadros conhecidos ou notáveis, com
versozinhos, pensamentos, frases sobre o amor, sobre a mulher, sobre a
felicidade... Os namorados preferem os que representam corpos que se
enlaçam, bocas que se beijam, acompanhados, sempre, de legendas patéticas,
como estas: Amor eterno! Sofro, mas, um dia serás minha! Quanto dói uma
saudade! Dou-te o meu coração e a minha vida!
Cartões há um de aspecto escultórico, feitos em crostas, em espantosos
relevos; chafarizes que deitam tiras de papel pelas bicas, fingindo água,
corações de veludo sangrando rosas vermelhas, pintadas a óleo ou a
aquarela...103
Para Gisele Freund, essa popularidade se expressa na razão de que “O sucesso do
postal funda-se também na recordação que se quer perpetuar, no sonho que se pode comprar a
bom preço, no voyeurismo e todos os seus sucedâneos, enfim na preguiça, já que um postal se
escreve mais depressa do que uma carta e, enfim, na mania das coleções”104.
E sobre o detalhamento das normas de utilização do cartão-postal no Brasil, tem-se
assim descrita por A. Vale Cabral dois anos depois da publicação do decreto que autorizou o
uso desse meio de comunicação no Brasil105:
A impressão destes bilhetes pertence ao Estado. O seu custo ou porte acha-se
declarado nas armas imperiais estampadas no ângulo direito superior. Três
são as classes destes bilhetes106:
1ª (De cor vermelha) Para a correspondência urbana, ao preço de 20 rs. os
simples e 40 rs. Os dúbios, isto é, com resposta paga.
2ª (De cor azul) Para a correspondência de interior das Províncias de todo o
Império: há simples. Que custam 50 rs. (metade do porte de uma carta
simples) e duplos a 100 rs.
103
EDMUNDO, Luiz. O Rio de Janeiro do meu tempo. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2003. p.
442-443.
104
FREUND, op. cit. p. 102.
105
BELCHIOR, 1986, op. cit. p. 07.
106
“O porte urbano de 20 rs. Foi introduzido depois do Decreto 7.695, que somente previa duas classes de
bilhetes: os para circulação interna (50 rs.) e os destinados ao exterior (80 rs.)”. CABRAL apud BELCHIOR,
1986, op. cit. p.13.
63
3ª (De cor laranja) Para a correspondência internacional com os países que
fazem parte da União Postal Universal custando os simples 80 rs., e o duplo
160 réis.
O bilhete duplo é destinado a obter-se resposta, sem dispêndio algum da
pessoa que a tenha de dar.
O expedidor de um bilhete duplo (isto é, com resposta paga) pode escrever
de antemão o seu endereço completo na fórmula – Resposta – que lhe deve
ser devolvida pelo destinatário do bilhete, com a respectiva resposta.
No anverso ou parte impressa só se escreve a tinta ou lápis ou mesmo
litografado ou impresso o nome da pessoa a quem é dirigido o bilhete, a
denominação do lugar, rua, praça, travessa, ladeira, morro, etc., e nº da casa.
No verso escreve-se a tinta, a lápis, litografado ou impresso, o recado, a
comunicação, ou o pedido que se tem a fazer, datando-se e assinando-se.
Os bilhetes postais são lançados nas caixas dos correios urbanas ou na geral,
sem envelope, abertos como são, podendo ser dobrados os duplos, mas de
modo que o endereço fique sempre para fora, e possa ser lido pelo carteiro
que o tiver de entregar, ou pelo empregado que tenha de expedi-lo.
O bilhete que contiver proposições indecentes, ofensivas aos bons costumes
e à moral pública, será destruído pela repartição dos correios.
Podem ser registrados estes bilhetes, opondo-se-lhes, neste caso, ao ângulo
esquerdo superior, os selos correspondentes ao registro, que será feito no
lugar respectivo.
O bilhete Resposta pode ser expedido ligado ao primitivo, ou separado, sem
que por isso pague coisa alguma.
Conquanto transitem abertos os bilhetes, gozam, contudo, da inviolabilidade
das cartas, e os carteiros e quaisquer outros empregados dos correios são
obrigados, sob as penas legais, a guardar inteiro segredo a respeito do
conteúdo dos mesmos bilhetes.107
O cartão-postal pode ser definido como o resultado obtido pela sociedade através do
encontro ou união, de processos técnicos e organizacionais desenvolvidos no seio de um
momento da sociedade a fim de se fazer representar imagética e descritivamente. A essa dupla
representação corresponde também uma dupla intervenção, a de quem emoldura o retângulo
de papel e seleciona a imagem revelada na frente do cartão-postal e a de quem descreve ou
narra suas experiências e percepções sobre a imagem destacada.
De todo esse processo resta o cartão-postal como testemunho do próprio movimento
que lhe deu consistência, mas essas evidências encontradas no cartão de papel não podem
falar por si só, nem mesmo o que está transcrito como correspondência no verso do cartão
pode revelar por completo o que ele quer dizer, por exemplo, através de sua imagem
comportada. Por falar nisso, a imagem que traz o cartão-postal dialoga com a percepção de
todos que a vêm e memorizada por esses olhares, essa imagem evoca o reconhecimento de
uma existência exterior ao da ilustração que quando revelada como paisagem, a lembrança
aponta para ela como aquela imagem anteriormente vista no cartão-postal. E é certo que a
107
CABRAL apud BELCHIOR, 1986, op. cit, p. 13.
64
concepção de uma estética das imagens postais também permite, ou mesmo estimula, associar
algumas paisagens enquanto passíveis de enquadramento fotográfico e veiculação postal.
Nesse contexto, o cartão-postal também assume um outro empenho, o de impregnar
nos próprios locais representados e monumentos ilustrados, um caráter permanente de cenário
a ser fotografado, diferente de outros recursos colecionáveis que tem como tema, ou um de
seus temas, a panorâmica paisagística e as ilustrações de elementos da paisagem108. O cartãopostal adere-se à paisagem como um verdadeiro convite à visita e reciprocamente a paisagem
à mostra no cartão convida aquele que a ver representada.
Como árbitro na escolha e revelação das cenas urbanas mais graciosas, o postal
preenchido de conhecimentos científicos, artísticos e por que não, do conhecimento advindo
da experiência, também convida a questionar essa estética reverenciada e a rever certos
elementos que deixaram de ser mostrados no momento da realização da foto que forma sua
frente. Dessa maneira, como todo recurso iconográfico, o cartão-postal pode ser muito bem
usado na pesquisa sobre a revelação mais detalhada dessas paisagens em que todos fazem
questão de testemunhar.
O próximo capítulo tratará da contextualização histórica e da formação da morfologia
de um quadrante de paisagem da Cidade do Recife, concebido como cartão-postal. Trata-se da
Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem, um dos cartões-postais mais divulgados e
conhecidos da capital pernambucana.
108
Como exemplo desses elementos colecionáveis ávido por pesquisas relacionados a temas geográficos tem-se:
os bilhetes de passagens de bondes e de barcas, as estampilhas (selos fiscais), etiquetas de caixas de fósforo
bilhetes de loterias, as cédulas de dinheiro, selos, folder turísticos, entre outros.
Sobre os bilhetes de loterias Wehrs afirma: “Das mais interessantes fontes iconográficas poderiam ser as
estampas dos bilhetes das loterias, já que vez ou outra neles vêm reproduzidos trechos paisagísticos”. WEHRS,
Carlos. Niterói: tema para colecionadores. Rio de Janeiro: Gráfica Portinho Cavalcanti Ltda., 1987.
65
Capítulo 2
As transformações na paisagem
e a revelação de novos
novos
e cada vez mais velhos atributos
Figura 3: Capa da Revista de Pernambuco. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 7, s/p, jan.
1925.
66
2.1 Fases de um cartão-postal
O atual bairro de Boa Viagem da Cidade do Recife teve uma mudança considerável no
decorrer de sua constituição. Pode-se distinguir pelo menos três fases de sua formação que
também compreendem a concepção dos seus recortes de paisagem enquanto cartão-postal. A
primeira fase refere-se a sua concepção como subúrbio balneário, definido pelo uso da praia
pelas famílias em busca dos banhos salgados, que tiveram início em fins do século XIX. A
segunda fase é marcada pelo período do projeto urbanístico empreendido durante o governo
de Sérgio Loreto a partir de 1922, quando também se assiste ao nascimento do núcleo
moderno, concluindo-se em meados da década de 1960. A terceira fase tem início no ano de
1965, quando Boa Viagem passou a figurar como o bairro economicamente mais valorizado
da cidade do Recife.
A seguir apresenta-se uma sinopse histórica do movimento que engloba a evolução da
cidade do Recife e a constituição do bairro de Boa Viagem. O foco da análise se debruça
sobre a visualização do percurso histórico da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem em
direção a sua compreensão como cartão-postal.
2.2 Partindo do Recife em sentido à Boa Viagem
Segundo Tadeu Rocha, o bairro do Recife sofreu duas grandes remodelações109, uma
no quarto decênio de século XVII e a outra no segundo decênio do século XX110. A primeira
transformação aconteceu durante a ocupação holandesa, com a construção da Cidade
Maurícia pelo Conde João Maurício de Nassau, o qual com os destroços da Cidade de Olinda
incendiada por motivo de defesa militar, edificou a Mauriciópole com ruas, praças, canais,
edifícios, armazéns de mercadorias e duas pontes, uma sobre o Rio Capibaribe e outra sobre o
Rio Beberibe, precursoras do que séculos mais tarde, será considerado principal cartão-postal
da Cidade do Recife. Sobre a origem mais remota dessas maravilhas do Recife, tem-se:
O que determinou a construção destas pontes foi o seguinte: sob o domínio
do rei de Espanha, governando o Brasil Albuquerque111, discutiu-se muitas
109
Essas grandes remodelações referidas por esse autor estão também associadas a obras de remodelação do
porto, que ao longo dos séculos sofreu significativas modificações. Entre os anos de 1814 e 1909, Gomes (1997,
p. 279-280) identificou 32 planos destinados ao melhoramento do porto do Recife. GOMES, Edivânia Tôrres
Aguiar. Recortes de Paisagens na Cidade do Recife: uma abordagem Geográfica. 1997. 300 f. Tese - Curso de
Geografia, FFLCH, Universidade de São Paulo - USP, São Paulo, 1997.
110
ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife. Recife: Mousinho Artefato de Papel Limitada, s/data, p. 19.
111
“Refere-se o autor a Matias de Albuquerque Coelho, irmão do donatário de Pernambuco. Durante a 1ª invasão
Holandesa, foi nomeado governador-geral do Brasil para substituir D. Diogo de Mendonça.” (BRANDÃO,
67
vezes se convinha abandonar-se Olinda, distante do porto e do acesso ao
mar, transferindo-se os seus moradores para o Recife e para a ilha de
Antônio Vaz. Para este fim, seria de grande vantagem unir-se a ilha ao
Recife, por se julgarem estes lugares inexpugnáveis por causa dos rios que
os cercam e da vizinhança do oceano. Ficou, porém, suspenso, sem nenhum
resultado, esse projeto, ou porque se temia, por imperícia da engenharia
militar ou da arte das fortificações, encetar tão importante cometimento, ou
porque se sentissem pesarosos os que se enlevavam com a amenidade de
Olinda. Desaconselhavam isto os portugueses, a quem parecia irrealizável
esta ligação das terras, em razão da violência do rio e da maré. Foram-lhes
da opinião mestres-de-obras assaz peritos, que se mandaram vir da
Espanha.112
A segunda grande modificação da paisagem recifense, citada por Tadeu Rocha e que
aconteceu durante a década de 1920, deu-se em decorrência das obras do porto que
transformou
o velho
núcleo, extraindo-lhe
a
aparência
tradicional.
Referindo-se
especificamente ao bairro do Recife, o autor descreve que nesse período foi implantada a
ampliação da península onde estava assentada a cidade e também colocada em prática às
obras que a transformaram em uma ilha. Foram abertas novas ruas e avenidas e a ocupação
das margens desses novos logradouros foi acompanhada do exercício de novos usos, onde ali
passou a ser dominante a ocupação por estabelecimentos bancários, escritórios, armazéns,
depósitos e repartições públicas dando outra face ao velho bairro. Além disso, o “centro
urbano”113 que ficava em torno do porto migrou para a ilha de Santo Antônio114.
Em consonância com a evolução da Cidade de Recife, o bairro de Boa Viagem só veio
passar por uma série de transformações significativas a partir dessa segunda grande
remodelação, ocorrida justamente no decorrer da década de 1920, durante a administração do
governador Sérgio Loreto, quando foi lançado um amplo projeto de governo que adotou
medidas como: a construção da Avenida Beira-Mar (futura Avenida Boa Viagem); fixação de
linhas e postes para bondes; fixação de suportes para luz elétrica; instalação de redes de
esgoto, abastecimento de água, linhas telefônicas no Bairro de Boa Viagem e criação de um
serviço de bondes ligando a Praça de Boa viagem ao centro da cidade do Recife, através de
três avenidas. A implantação do projeto de melhoramento e modernização do Recife exerceu
Cláudio. Notas do Tradutor. In: BARLÉU, Gaspar. O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício de Nassau:
História dos feitos recentes praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do ilustríssimo
João Maurício Conde de Nassau, etc. ; ora governador de Wesel, Tenente-General de cavalaria das Províncias
Unidas sob o príncipe de orange. Tradução: Cláudio Brandão. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial,
2005, p. 411).
112
BARLÉU, Gaspar. O Brasil Holandês sob o Conde João Maurício de Nassau: História dos feitos recentes
praticados durante oito anos no Brasil e noutras partes sob o governo do ilustríssimo João Maurício Conde de
Nassau, etc. ; ora governador de Wesel, Tenente-General de cavalaria das Províncias Unidas sob o príncipe de
orange. Tradução: Cláudio Brandão. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2005. p. 181.
113
O autor usa a expressão “centro urbano” quando é possível que esteja se referindo ao centro administrativo.
114
ROCHA, op. cit. p. 19.
68
também grande transformação na paisagem com o aterro de mangues e a demolição de
mocambos na medida em que a cidade crescia na direção ao povoado de Boa Viagem.
Na Cidade do Recife do fim do século XIX, o povoado de Nossa Senhora da Boa
Viagem é incorporado como um “nódulo periférico”, assim como o povoado de Nossa
Senhora da Piedade115, os quais foram beneficiados por se localizarem nas proximidades da
Estrada de Ferro do São Francisco, construída em 1858. De acordo com Noemia Maria
Zaidan, com a instalação do transporte público, também ocorreu a expansão da área urbana.
Desse modo os arrabaldes foram interligados a essas áreas, além disso, com a implantação de
uma estação ferroviária nas proximidades do povoado de Boa Viagem, possibilitou-se o uso
daquela localidade por habitantes ocasionais, bem como provocou o assentamento da
população “entre as diversas linhas [férreas] e além de seus terminais”116.
Mario Lacerda de Melo resume a situação desses povoados com relação ao contexto
do centro urbano, da seguinte maneira:
Adicionalmente aos tentáculos mais ou menos contínuos com os quais a
cidade se alongava em subúrbios de densidades também variadas, havia, nas
cercanias do Recife dos fins do século XIX, um conjunto de nódulos, ou
povoados periféricos, não raro dispostos ao longo das mesmas estradas que
serviam, nos seus trechos iniciais, linhas de cristalização do habitat
suburbano. Eram estradas, inclusive ferrovias, que partiam das áreas urbanas
e, depois de atravessar esses nódulos periféricos, dirigiam-se para o
interior117.
As atuais praias do Pina e Boa Viagem tinham grande parte de suas terras pertencentes
a uma propriedade denominada de Barreta que por sua vez estava localizada na “Praia da
Candelária”118. O acesso a esses lugarejos, antes da instalação da linha férrea e de ruas, era
realizado por rudimentares caminhos. No caso desse estudo, percebe-se importante o relato da
ligação entre o Povoado de Boa Viagem, precursor da formação e ocupação de um dos bairros
mais visualizados do Recife. O estudo sobre as ligações, os limites e as barreiras entre o
povoado e a cidade pode permitir uma visão mais depurada sobre a transformação e a
relevância tomadas pelas localidades consideradas mais distantes, conforme ratifica Horacio
115
Povoado originado mais ao sul do de Boa Viagem, correspondente ao inicio da ocupação do bairro de Piedade
que pertence ao município de Jaboatão dos Guararapes.
116
ZAIDAN, Noemia Maria. O Recife nos trilhos de bondes de burro 1871-1914. Dissertação de mestrado em
Desenvolvimento Urbano. Recife: UFPE, 1991. p. 51.
117
MELO, Mario Lacerda de. Metropolização e Subdesenvolvimento: o caso do Recife. Recife: UFPE, 1978,
p. 62.
118
A Praia da Candelária em meados do século XVII “compreendia tôda a costa que se estende desde o pontal do
Pina até a povoação das Candeias, que ficava compreendida naquela antiga extensão, e com a referida
denominação de Candelária”. COSTA, F. A. Pereira da. Anais Pernambucanos. v.7. Recife: FUNDARPE,
1983. (Col. Pernambucana, 2. fase). p. 106.
69
Capel ao afirmar que “La expansión de la ciudad se ve facilitada por los caminos
existentes[…] y dificultada por los límites y barreras, en un sentido amplio que incluye todos
aquellos obstáculos que se oponen a la expansión”119.
A idéia desse esboço histórico é tomar como referência o contexto da acessibilidade
entre esse núcleo de povoação originado no entorno da Igreja de Nossa Senhora da Boa
Viagem e o epicentro do espaço urbano, circunscrito pelo reconhecido Recife Antigo.
O antigo percurso entre o Recife e na época o distante lugarejo de Boa Viagem, que
estava a duas léguas do Recife, era considerado bastante difícil, pois para se chegar àqueles
povoados, em especial ao da Boa Viagem, partindo-se da cidade, era necessário dar início à
viagem com a travessia do rio Capibaribe, entre a Cabanga e a bacia hidrográfica do Rio Pina,
composta pelos rios Jordão, Pina e Tejipió.120 Desse modo, alguém que partisse da altura da
atual ponte da Boa Vista no centro da cidade, deveria, a bordo de uma canoa, percorrer o leito
do rio Capibaribe até a localidade denominada Paço da Barreta, que ficava nas imediações da
Ilha do Pina e dali seguiria a pé, a cavalo, ou a carroça em direção ao povoado da Boa
Viagem.
Historicamente, o Pina compreende o conjunto de antigas ilhas e sua formação
territorial atual se deve a junção dessas ilhas. Existem várias denominações de ilhas
possivelmente existentes onde hoje fica o bairro do Pina, como: Ilha da Barreta, do Pina, das
Cobras, dos Coqueiros, do Cheira-dinheiro e do Nogueira.
Flávio Guerra conta que existe uma controvérsia sobre a formação territorial do bairro
do Pina, que faz fronteira com o moderno bairro de Boa Viagem. De acordo com o autor, é
comum a discussão sobre se a ilha do Nogueira não foi, na verdade, a única que sempre
existiu, ou se ela realmente absorveu as demais. A fim de resolver esse impasse, o autor
descreve que a ilha do Nogueira pertencia ao senhor Antônio Nogueira de Figueiredo, que
quando nomeado sargento-mor, via carta-régia, também recebeu essa ilha como prenda, em
20 de dezembro de 1718. Já a ilha do Cheira-Dinheiro que se chamava assim em decorrência
do apelido de seu proprietário do final do século XVII, compreendia a parte do antigo Pontal
do Pina.
Fundamentada no “Diário” de viagem do Imperador D. Pedro II, em “Roteiros da
Costa do Brasil” de Vital de Oliveira, no “Dicionário Histórico e Geográfico” de Sebastião
Galvão e no testamento de José Bento Gonçalves, a pesquisa Flávio Guerra conclui que “está
119
CAPEL, Horacio. La morfologia de las ciudades. Barcelona (ES): Ediciones del Serbal, 2002. p. 84.
PIO, Fernando. Noticia histórica e sentimental da igrejinha de Nossa Senhora da Boa Viagem. Recife:
Imprensa Universitária, 1961.p.07.
120
70
provado até juridicamente que o que houve foi um ajuntamento das duas ilhas [do Nogueira e
Cheira-dinheiro], pelo entulhamento do braço da camboa, ou foz do riacho do Pina, com os
serviços para melhoramentos do Porto do Recife”121. Entre as citações que faz o autor com o
intuito de confirmar sua conclusão acerca da configuração territorial da Ilha do Pina, destacase a anotação realizada pelo o Imperador D. Pedro II em 1859 no seu diário de viagem:
Fui às seis visitar as obras do porto. Segui para a ilha do Nogueira, chamada
do Cheira-Dinheiro, no tempo dos holandeses, e aí vi os edifícios do
Lazareto, agora ocupado pelos náufragos ingleses na costa do Rio Grande do
Norte. A ilha do Pina, onde realmente está o Lazareto, já não é separada do
Nogueira, porque taparam a saída do rio do Pina, pertencendo esta aos
estabelecimentos de caridade, que a arrendaram, havendo um bom viveiro de
curimãs e tendo já nove mil coqueiros.122
Em 1876 Gustave Mermoud desenhou a ilha do Nogueira dando uma idéia da
diversidade de ilhas que se encontravam nessa localidade e de como era dificultado o acesso
àquela parte da cidade (Figura 4).
Flávio Guerra em referência a essa localidade destacou um informe geográfico que
dizia que a ilha do Nogueira estava localizada “na freguesia dos Afogados, junto a ilha do
Pina e que era bela a vista do mar, pelo seu extenso coqueiral”123.
Essa travessia no entorno da Ilha do Pina sempre foi um ponto determinante para a
conexão de Boa Viagem com a cidade do Recife e também com outras localidades
importantes. Todavia, as características naturais da ilha inicialmente dificultaram essa ligação.
Em 1923 a artista pernambucana Fedora Monteiro que foi agraciada com a “Grande
medalha de honra na Exposição municipal de 1917”, pintou o quadro “Caminhos da Bôa
Viagem (afogados)”124 (Figura 5), dando um outro exemplo de representação da paisagem
vislumbrada no caminho para aquele sugestivo e pitoresco arrabalde, uma paisagem repleta de
rios, riachos, ilhas, muita água, coqueiros e alguns mocambos.
121
GUERRA, Flávio. Velhas igrejas e subúrbios históricos. Departamento de documentação e cultura da
Cidade do Recife: Série evocações históricas do Recife. p. 251.
122
Ibid. p. 251.
123
Ibid. p. 251.
124
Revista Ilustração Brasileira, junho, 1924.
71
Figura 4: Ilha do Nogueira. Fonte: Arquivo Público Estadual Jordão Emericiano. Referência: M9G4 1682 1292.
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Figura 5: Caminhos da Boa Viagem (Afogados). Fonte: Revista Ilustração Brasileira. 1924. Autora: Fedora Monteiro
74
A praia de Boa Viagem era caminho de viajantes do sertão, uma praia semi-deserta,
onde pontualmente era possível observar vendas, vêndolas ou bodegas e também casas de
pasto e de repouso para os caminhantes e para os seus animais que iam para o “interior”.
Essas construções localizavam-se entre as primitivas estradas e a mata que era abundante
nesse litoral125.
Com a edificação da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem formou-se um núcleo
inicial de povoamento. Nas palavras de Fernando Pio “só depois de 1743 deixou a praia da
Boa Viagem de ser, apenas, caminho para o interior, começando então a ter certa vida própria
e a atrair forasteiros e romeiros para as cerimônias do culto de sua capelinha”126. Com a
construção da ponte Motocolombó no final do século XVII, em Afogados, a rota que levava
os viajantes ao sul da capitania pela orla, passando pela matriz de Boa Viagem, acabou por ser
desviada, sendo reduzido o fluxo de pessoas que utilizavam aquele povoado como ponto de
apoio, deixando assim de receber mais os caminhantes em trânsito. Contudo, essa mudança
provocada pela abertura dessa rota, possibilitou àquela localidade assumir o perfil dominante
de núcleo de povoação.
Outro impulso ocorrido por aqueles lados da cidade ocorreu a partir do ano de 1858,
quando foi construída a Estrada de Ferro do São Francisco, que passava a oeste da povoação
de Boa Viagem, ligando a cidade do Recife ao Cabo de Santo Agostinho. Tal ferrovia
possibilitou o uso do local pela população que na época assimilara a cultura dos “banhos
salgados”, que vieram substituir o típico banho de rio, comum entre a população que
veraneava às margens do Capibaribe.
Para chegar até às praias, as famílias moradoras do centro urbano, pegavam o trem e
desembarcavam na estação de Boa Viagem, que ficava nas imediações do final da atual rua
Barão de Souza Leão, na época conhecida como “Estrada da Bôa Viagem”. O percurso da
estação até a praia era feito a pé até o ano de 1895, quando foi instalado pela Companhia
Ferrocarril de Pernambuco um bonde puxado por burro, possibilitando o translado entre a
Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem e a parada ferroviária, sempre durante a estação
balneária127.
Um dos motivos do aumento da popularidade dos banhos salgados deu-se em virtude
da influência das idéias higienistas, que formaram importantes argumentos para as
125
COSTA, op. cit. p.45
PIO, op. cit. p. 08.
127
BARTHEL, Stela Gláucia Alves. Sociedade de classes, espaço urbano diversificado: a faixa de praia do
Recife. Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de Pernambuco. Recife, PIMES/UFPE. Recife, 1988.
p.42.
126
75
modificações na estrutura da cidade pelo poder público. Concomitantemente, o processo de
degradação ambiental causado pela poluição do rio Capibaribe pelas usinas de cana-de-açúcar
também provocou a diminuição do banho de rio, conforme destaca Vera Lúcia M. Melo:
As paisagens do rio também se apresentavam degradadas, como resultado da
poluição causada pelas usinas, que jogavam as suas caldas, ou o vinhoto no
rio, causando um grande impacto no meio fluvial[...] dessa forma a água do
rio foi deixando de ser utilizada, com as casas voltando-lhes as costas, pois,
desde o final do século XIX, os banhos de rio foram sendo substituídos pelo
banho de mar em Olinda[...] no século XX, a partir da década de 20, os
banhos de mar e o uso da praia com a finalidade terapêutica, de recreação e
de lazer, se tornaram corriqueiros, com os veraneios passando a ser feitos,
principalmente na praia de Boa Viagem, na zona sul da cidade. E, assim, a
água nobre, que antes era do rio, passou a ser a do mar.128
Foi nesse período de valorização dos banhos salgados que surgiram as primeiras casas
de veraneio.
A partir da década de 1920, Boa Viagem passou por uma série de mudanças que a
transformaram em uma extensão da malha urbana da cidade do Recife. Dentre as intervenções
do Estado que contribuíram para esse fenômeno, destaca-se a construção de três avenidas que
ligaria o Recife a seus subúrbios balneários, localizados na sua parte mais ao sul. Desse modo,
as praias do Pina e Boa Viagem tornam-se mais acessíveis à população que se adensava, no
início do século XX, sobretudo, nos bairros do Recife, Santo Antônio e Boa Vista, núcleo
central da cidade.
Com a construção das Avenidas Cabanga, Ligação (Figura 6) e Beira-Mar, atuais
Saturnino de Brito, Antônio de Góes e Boa Viagem, além da construção da Ponte do
Saneamento, antiga ponte do Pina (Figura 7 e Figura 8), a cartografia do espaço urbano
recifense ganhou um novo delineamento, com a valorização e uso da área por onde passaram
essas avenidas. Com esse novo desenho da cidade, o acesso à Boa Viagem estava
definitivamente consolidado e a área hoje conhecida como Pracinha de Nossa Senhora da Boa
Viagem também se firmava como um referencial do delineamento da cidade.
128
MELO, Vera Lúcia Mayrinck. A paisagem do rio Capibaribe: um recorte de significados e representações.
2003. 276 f. Tese – Curso de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, UFRJ, Rio de Janeiro 2003. p.
95-96.
76
Figura 6: “A AVENIDA LIGAÇÃO, que une a ponte do Pina ao inicio da avenida Beira-Mar. Ao centro, os postes
de cimento armado, ladeado pelos trilhos da futura linha de bondes. Aos lados, os passeios arborizados”. Fonte:
Revista de Pernambuco. Recife, n. 2, s/p, ago. 1924.
Mapa 03
Acesso entre os bairros do Recife, Pina e Boa Viagem
Acesso entre Recife, Pina e Boa Viagem
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Fonte: Carta de Nucleação Centro - Departamento de Informações Municipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM
SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007
78
79
No percurso do crescimento da Cidade do Recife, essas avenidas foram fundamentais
para o aumento da acessibilidade entre o histórico centro urbano e o núcleo de povoamento
que existira pelo menos desde as primeiras décadas do século XVIII, nas adjacências da Igreja
de Nossa Senhora da Boa Viagem. Por sua vez, esse templo religioso que exerceu importante
influência para composição do antigo povoado ao seu redor, também foi e é significante
porque possibilitou a constituição de um ponto de apoio aos viajantes que por ali passavam,
estimulou o uso daquela localidade como estação balneária e permitiu ao seu entorno a
concepção de espaço cartão-postal. Dai a sua importância enquanto elemento da paisagem
aqui estudada, no seu contexto histórico.
2.3 O monumento sagrado e sua evocação no cartão-postal: apontamentos
históricos sobre a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem
Dentre os cartões-postais circulados nas últimas décadas do século XX e início do
século XXI, que contemplam o afamado Bairro de Boa Viagem, observa-se que entre os
ângulos mais valorizados pelos fotógrafos no intuito de produzir a ilustração postal avulta-se
o foco na Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Historicamente, a igreja ocupou uma posição estratégica com relação a Cidade do
Recife. Estando a onze quilômetros do centro urbano, correspondendo ao atual Recife Antigo
e bairros adjacentes, o templo religioso era considerado na referência das escalas da época de
sua origem, localizado em um sítio distante. Desse modo, a ocupação daquele arrabalde por
alguma população, possibilitou também seu uso pelos viajantes, que ali se abasteciam de
gêneros que eram cultivados, criados e comercializados nos arredores da Igreja.
Segundo Pereira da Costa, onde hoje está a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem
havia “um oratório, ou presepe, dedicado a Jesus, Maria e José”, construído pelos antigos
proprietários daquela localidade. Esse oratório seria então o marco inicial da origem do
povoado de Boa Viagem. 129
129
COSTA, Francisco Augusto Pereira da. Arredores do Recife. Recife: Fundação de Cultura da Cidade do
Recife: 1981. p. 46.
80
Figura 9: Escultura da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem em casca de cajazeira. Fonte: Feira de artesanato da
Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Arte de: Eliseu. Acervo do Autor
81
Corroboraram com a idéia de Pereira da Costa de que existia um oratório antecedendo
a construção da igreja, autores como José Batista dos Santos130, Antônio Barbosa131 e Flávio
Guerra132. No entanto, Fernando Pio contestou essa afirmativa alegando a falta de documento
comprobatório133.
Oficialmente, a origem da Igrejinha de Boa Viagem remonta a 6 de junho de 1707.
Esse marco inicial procede do registro de doação concedido por Balthazar da Costa Passos e
sua mulher Anna de Araujo da Costa ao padre Leandro Camello, de “cem braças da terra da
costa do mar de sua demarcação p. parte do sul e da pancada da costa do mar pa. Dentro até
hua legoa pr. donde corre o rio do Jordão aql. legoa he aq. fica logo pa. Dentro do combro
dareia do Mar fronteiro a venda do Piolho[...]”134. A doação dessas terras comprometia o
padre Leandro Camello da obrigação de erguer, a suas custas, uma capela para celebrar
missas com a invocação a Jesus, Maria e José. O ano 1707 está apregoado em alto relevo
acima da porta principal da igreja e muitos também comemoram a origem do bairro de Boa
Viagem no dia 6 de junho.
A invocação a Nossa Senhora da Boa Viagem, que batizou o primitivo povoado
desenvolvido naquela localidade, teve em seguida o seu prestígio estendido ao bairro, que
também emprestou o nome à praia, à avenida que margeia o bairro no seu limite com o mar e
à praça, que circunda o referido templo religioso.
Ainda no ano de 1707, especificamente no dia 27 de setembro, o irmão de Balthazar
da Costa Passos, Antônio da Costa Passos e a sua mulher Catharina de Sam Payo, moradores
do bairro de Santo Antônio, doaram ao padre Leandro Camello, morador de Nossa Senhora
dos Prazeres, “huas sortes de terras no lugar chamado Barreta na freguezia de Santo Amaro,
que partem da parte sul com Barthazar da Costa Passoas e da parte Norte com terras do
Posso”135. Eram mais outras cem braças de terras, que deveriam ser anexadas as anteriormente
doadas pelo Sr. Balthazar, irmão do Sr. Antônio, ao padre Leandro, onde este último deveria
erguer uma capela. Essas terras cedidas pelo Sr. Antônio e sua mulher deveriam dotar a
130
SANTOS, João Batista. Pernambuco histórico-turístico-folclórico. 1989. p 190.
BARBOSA, Antônio. Relíquias de Pernambuco: guia aos monumentos históricos de Olinda e Recife. São
Paulo: Ed. Fundo Educativo Brasileiro, 1993.
132
GUERRA, Op. cit.
133
PIO, op. cit. p. 10
134
Regto d’escriptra de doacção q. fazem Balthazar da Costa Passos e sua mer. de cem braças de terra na costa
do mar no lugar da barreta ao Pe. Leadro Camello em 1707 aos 6 de junho. (Ibid. p.99)
135
Regrto. da escriptra. de doação q. fazem Ant.º da Costa Passos e sua mer. ao revdo. Pe. Leandro Camello de
cem braças de terra em quadro. (Pio, op. cit. p. 101).
131
82
Capela do que ela necessitasse. Dessa maneira, as terras doadas passavam de maneira
irrevogável para o patrimônio do padre Leandro, todavia uma cláusula no documento de
doação destacava que no caso do referido padre não construir a Capela, a doação não teria
validade.
Quando Balthazar da Costa Passos faleceu, além de reiterar a doação realizada ainda
em vida, deixou constado no seu testamento uma esmola para a igreja referente a um terreno
calculado em 500 braças de terra, dessa forma, contribuiu com o aumento significativo do
patrimônio da Igreja. No trecho destacado a seguir, chamou a atenção o modo como se refere
a praia daquele balneário, “praia de Nossa Senhora da Boa Viagem”.
“Declaro que tenho hua sorte de terras no Combro da praia de Nossa
Senhora da Boa Viagem, a ql. consta de seis centas braças de q. tenho
feito de cem braças doacção a da. Snra. e pr. Escrita. que são as que
digo que sãos as em q. tem a sua Igreja pa. A parte do Norte e
correndo pa. a do sul ficão as quinhentas do Combro com trinta e
tantos pés de couqueiros. Aonde está uma caza de taipa de venda, em
q. antigame. morava Mel. Frz. Setuval, as quinhentas braças deixo pr.
esmola a sobreda. Nossa Snra.136
A invocação a Nossa Senhora da Boa Viagem associada à construção de um templo
religioso remonta a 1618, oriunda da gratidão dos religiosos aos navegantes que
disponibilizaram generosas esmolas para as reformas das estruturas da ermida de Santa
Catarina, nas proximidades de Lisboa. Em função da gratidão pelo marcante auxílio dos
navegantes no decorrer da reconstrução da capela, os religiosos concederam à igreja a
invocação de Boa Viagem. No Brasil, a ocorrência de igrejas sob a denominação da Santa
protetora dos viajantes aconteceu a partir do início do século XVIII, sendo a primeira igreja
inspirada na homenagem aos mareantes, edificada na cidade de Salvador, outra foi construída
na cidade de Belo Horizonte e assim como a do bairro de Boa Viagem na Cidade do Recife,
esses templos figuraram como um marco da ocupação daquelas cidades.
A mais remota notícia que se tem da existência da capela de Nossa Senhora da Boa
Viagem no arrabalde do Recife provém de um sermão proferido pelo cronista franciscano Frei
Antônio de Santa Maria Jaboatão na festa de São José intitulado: “Sermmão na Igreja da Boa
Viagem, na praia da Candelária, fazendo a festa anual o Reverendíssimo Ignácio Ribeiro
Noia, mestre da Capella, no ano de 1730”.
136
Ibid. p. 102 – 103.
83
A edificação da capela foi a prova do cumprimento do padre Leandro Camello para
com o compromisso assumido perante os irmãos Balthazar e Antônio da Costa Passos, mas
após edificado o templo religioso, foi necessário mantê-lo e suprir suas necessidades para a
celebração de missas, assim como esperavam os irmãos doadores das terras. O exemplo da
vontade de Balthazar Passos de que ocorressem as missas foi destacado em registro de
doação. Seu desejo era que fossem celebradas quatro capelas de missas por referência à alma
da “defunta” Maria Gomes de Mello, antiga proprietária das terras que foram doadas ao padre
Leandro. Balthazar supôs que a renda para a celebração dessas cerimônias poderia ser retirada
dos mais de trinta pés de coqueiro e de uma casa de taipa de venda que existiam nos arredores
da Igreja.
A partir de sua construção, a receita para a manutenção das missas teve várias origens,
como esmolas dos devotos, vendas de cocos, enterramentos na Igreja137, espórtulas de
batizados e pelo trabalho dos ermitões. Mas entre todas essas fontes, os mais confiáveis das
esmolas para a celebração do culto religioso “eram os donativos dos embarcadiços, dos
homens do mar e também dos viajantes do sertão”138. Fernando Pio descreve um balanço
referido a algumas esmolas:
Por rendimento das caixinhas nas mebarcações e igreja -18$520
Por esmola de hua embarcação - 1$280
Por esmola no patacho de João Ribeiro - 3$360
Por esmola que deo Manoel Madeira no seo barco - 5$000
Por esmola que deo o capitão do paquete João Oliveira - 20$000
Por esmola que se tirou na corveta do Cam. Felix Garcia - 5$680
Por esmola que se tirou no patacho de Luiz Ferra. Moura - 12$8000
Originalmente, a capelinha de Boa Viagem tinha uma simplória fachada, figurando,
uma “feição singela de igrejinha quase rural”, remetendo-se ao ano de 1864 a origem de sua
forma atual.
Com a construção da Igrejinha, a praia de Boa Viagem, antiga praia da Candelária e
depois Barreta, foi surgindo no seu entorno um humilde núcleo de povoamento, que além de
participar dos cultos sagrados proferidos no interior da igreja também em algumas épocas do
ano armavam animadas festas no exterior da capela, atraindo a visitação ao lugarejo. “As
137
Sobre o sepultamento em templos Freyre (2004, p. 526) relata que “Os mortos ficavam na companhia dos
vivos: até que os higienistas, já no segundo Império, começaram a perguntar: “até quando persistirá a triste
prerrogativa dos mortos envenenarem a vida dos vivos?”. Pimentel (apud Freyre, 2004, p. 563) destaca que “Só
em 1838 o Código Municipal do Rio de Janeiro consignou a proibição absoluta de enterramento dentro das
igrejas, ou nas sacristias, claustros dos conventos, etc”. FREYRE, Gilberto. Casa Grande & Senzala. Formação
da família brasileira sob regime da economia patriarcal. São Paulo: Global Editora, 2004.
138
PIO, op. cit. p. 23.
84
festas externas da ainda humílima capelinha de Nossa Senhora da Boa Viagem eram notáveis
acontecimentos sociais na vida simplória daquele velho e tão distante Recife do século
XVIII.”139
Essas festas populares passaram a atrair romeiros que motivaram a administração da
Igreja a construir casas para recebê-los, além de os cobrir de certo conforto com a
disponibilização de, por exemplo: “preguiceiros de couro cru, camas de couro cru, esteiras,
potes, panelas quartinhas”.140 Os romeiros parecem ter sido generosos com as esmolas
oferecidas à igreja e eram bem recebidos, apesar de alguns desses visitantes serem
considerados perigosos.
A presença dos grupos chamados de romeiros no entorno da igreja em determinados
períodos do ano, pode remeter a noção de romaria no sentido da peregrinação de devotos a
espaços sagrados. Contudo, José Antônio Gonçalves de Melo141 destaca que essas romarias
realizadas com destino a igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem devem ser compreendidas
sob o fato de que esses mareantes, homens do sertão e devotos, eram romeiros que buscavam
mais o profano das festas do que o sagrado evocado pelas missas. Assim, a ida à praia de Boa
Viagem atrela-se a idéia de que a igreja estava localizada a tal distância do centro da cidade
que visitá-la constituía-se numa verdadeira romaria com referência às escalas daquele tempo.
Revelada como um dos monumentos predominantes nos cartões, a Igrejinha de Boa
Viagem, como é popularmente conhecida, foi a responsável por centralizar atenções e
possibilitar a exibição e divulgação de sua praça. Hoje em dia, o entorno do mencionado
logradouro e do referido monumento, é composto por inúmeros e altíssimos edifícios, que
quando fotografados em combinação com o mar e o céu, igualmente à histórica igrejinha e a
lúdica praça, se compõem em cartões-postais, mas diferente dos vínculos histórico, religioso e
público, o que se pode ler subscrito em suas ilustrações são os signos da verticalização, de
uma das áreas mais caras da cidade e do status atribuído pela proximidade de elementos da
natureza.
139
PIO, op. cit. p. 39.
Ibid. p. 43.
141
MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diario de Pernambuco. Recife, 9 de jun., 1951.
140
85
2.4 Apresentando a morfologia da paisagem a partir da leitura da planta do
Povoado da Boa Viagem em 1870
Segundo Paulo Reynaldo Maia Alves, somente na década de 1940 pôde-se observar no
bairro de Boa Viagem a prática de parcelamento e conseqüentemente uma maior oferta de
terrenos, como se observa no trecho a seguir:
A pesar de todas las inversiones realizadas para la preparación de las
condiciones en términos de infraestructura y de optimación del área, y del
placer de los baños que ofrece el mar con sus piscinas naturales formadas
por los arrecifes próximos a la tierra, sólo en la década de los cuarenta se
observa la puesta en práctica del mecanismo de la parcelación y,
consecuentemente, la aparición de una mayor oferta de terrenos. La
transformación de las áreas de cocoteros en áreas de playa constituye una
considerable provisión de suelo a disposición del mercado inmobiliario.142
Conforme dados do 1º Distrito da Secretaria de Planejamento, publicados em carta
cartográfica apresentada por Duarte, sobre o parcelamento dos terrenos do bairro de Boa
Viagem, tem-se que já em 1930 ocorreu parcelamento em boa parte dos terrenos encontrados
após a área já parcelada imediatamente à beira mar143.
Todavia, já em 1870, Felix Ramos Lieutier desenhou um projeto de arruamento para o
povoado da Boa Viagem (Mapa 2; Mapa 3), o qual se assemelha bastante com o traçado atual
das avenidas, lotes e ruas, do entorno da pracinha de Boa Viagem, podendo-se constatar que a
grande diferença atualmente se encontra na indicação de que no decorrer dos anos o povoado
apenas ganhou novas ruas. Assim, tem-se descrito já no fim do século XIX, uma noção de
como se organizaria o traçado das ruas e avenidas que deveriam partir daquele povoado. O
antigo “Caminho do Sul” coincidiria com a Avenida Beira-Mar, a “Estrada de Bôa Viagem”
seria mais tarde definida pela rua Barão de Souza Leão, além de outras vias que tiveram seu
desenho influenciado pela configuração natural do sítio.
142
ALVES, Paulo Reynaldo Maia. Formación Espacial de los valores del suelo en el proceso de evolución
urbana de Recife (Brasil). Universitat Politècnica de Catalunya: Departament de Construciones
Arquitectòniques I. Barcelona, 2002. Tese de doutorado. p. 90.
143
DUARTE, Ana Tereza Sotero. As Relações Espaço-temporais no Processo de Estrutura da Paisagem
Urbana Recifense Estudo de Caso: O Bairro de Boa Viagem. Recife: UFPE, março de 1979. Anexo 11.
86
Figura 10: Povoado da Boa Viagem. Fonte: Arquivo Público Estadual Jordão Emericiano. Referência: M9G4 1678 1269.
Mapa 04
87
Antiga Estrada
do Recife
pelo Passo
da Barreta
O
Povoado de Boa Viagem
Recife - PE - 1870
Â
o
Capella de Nossa
Senhora da
Boa Viagem
L
Jord
ã
N
T
I
C
Cemitério Público
O
C
E
A
N
O
A
Ri
o
T
Ponte
70
0
70
N
140 m
Meters
Mapa 03
Legenda
Coqueiral
Rio Jordão
Cemitério
Estrada
Capela
Edificações
Oceano
FONTE: Arquivo Público Estadual João Emericiano / Departamento de Arquivo / Divisão de Arquivos Pernambucanos /
Seção de Documentos Especiais /Acervo Fotográfico / Plantas Arquitônicas Série - Obras Públicas Autor: Felix Ramos Lieutie
FUNDO: R. O. P. Referência: M9G4 1678 1269 Prancha: 1 Data Limite: 1870
Elaboração do mapa: Aline B. de Lima /Anderson Alves dos Santos
88
Mapa 05
Planta do Povoado de Boa Viagem e Projeto de Arruamento
Recife - PE - 1870
#
#
#
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#
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Tapagem
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I
Bacia de
Desembarque
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Cemitério
Público
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C
Antiga Estrada
do Recife
pelo Passo
da Barreta
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Â
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#
Terminal da Estação
da Boa Viagem
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Capella de Nossa
Senhora da
Boa Viagem
T
Linha de Bonde
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Ponte
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Jordã
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E
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70
0
70 m
#
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Legenda
Coqueiral
Estrada
Rio Jordão
Canal
#
Lotes
Projeto de
Arborização
Cemitério
Oceano
Edificações
Capela
FONTE: Arquivo Público Estadual João Emericiano / Departamento de Arquivo / Divisão de Arquivos Pernambucanos /
Seção de Documentos Especiais /Acervo Fotográfico / Plantas Arquitônicas Série - Obras Públicas
Autor: Felix Ramos Lieutier FUNDO: R. O. P. Referência: M9G4 1678 1269 Prancha: 1 Data Limite: 1870
Elaboração do mapa: Aline B. de Lima /Anderson Alves dos Santos
89
Esse traçado permaneceria intacto por muitos anos e as intervenções que viriam
colocá-lo em prática surgiriam cinqüenta anos mais tarde, quando no governo de Sergio
Loreto, decidiu-se levar a cabo o projeto de ligação entre o Recife e Boa Viagem.
A respeito da resistência do traçado previamente definido, o autor Horácio Capel ajuda
a refletir sobre a sua permanência:
La parcelación diferencia el espacio público del privado que va a venderse.
Se diseñan líneas divisorias, que muchas veces se mantienen durante años
sin materializarse pero que pasan a tener una fuerza enorme y que establecen
un trazado que es muy difícil de cambiar posteriormente. La modificación
del parcelario, si es importante, supone muchas veces el cambio en el mismo
trazado urbano.144
É interessante verificar que esse mapa de Lieitier se enquadra muito adequadamente
aos ângulos valorizados por alguns cartões-postais, sobretudo os que comportam fotografias
realizadas durante a década de 1990, como por exemplo, pelo fotógrafo Sérgio O. Rehder.
Dos traçados daquele mapa, destaca-se como principal referencial a Igreja de Nossa
Senhora da Boa Viagem, a qual nesse período já expunha as mesmas dimensões verificadas
hoje em dia. Através dessa planta cartográfica de 1870 se pôde sugerir a indicação de alguns
elementos presentes na paisagem do povoado de Boa Viagem em fins do século XIX.
Por meio da observação dos mapas confeccionados com base na planta de 1870, podese notar a existência, no passado, de algumas aglomerações e de construções, que podem ter
sido desde residências de pescadores, casas de romeiros, ou ainda vendas ou vendolas,
conforme relataram, Pereira da Costa, José Antonio Gonçalves de Melo e Fernando Pio.
A partir do enquadramento fixado pela planta é possível distinguir essas aglomerações
em quatro distintos núcleos obedecendo ao grau crescente de adensamento. Eles estariam
dispostos da seguinte forma: um núcleo estaria localizado ao norte da igreja, ocupando a área
em torno de onde hoje fica a Rua dos Navegantes e se estendendo pelo terreno do Park hotel
até as imediações da casa paroquial da igreja de Boa Viagem; um outro conjunto de poucos
lotes que estão destacados, estaria ao sul da Igreja. O segundo mais denso núcleo de lotes
demarcados se encontrava bem em frente à igrejinha e ocupava a área que toma todo o lado
do quarteirão onde existiu o hotel Boa Viagem, partindo do terreno daquele hotel até as
margens da hoje então Rua Setúbal. E por último, o mais expressivo núcleo em números de
lotes, podia ser visto às margens da chamada “antiga estrada do Recife pelo passo da Barreta”
que cortava todo o povoado àquela época (mapa 02).
144
CAPEL, Horacio. La morfologia de las ciudades. Barcelona (ES): Ediciones del Serbal, 2002. p. 81.
90
Também se pode destacar a existência de um cemitério nas imediações da Igreja de
Nossa Senhora da Boa Viagem, o qual foi instalado em um local chamado de “Sítio Pequeno
de Nossa Senhora” e teve suas obras concluídas em 4 de julho de 1869, funcionando até por
volta do ano de 1900 quando foi construído um outro cemitério “num sítio localizado no lugar
denominado de Setúbal” 145. A localização desse cemitério na atualidade corresponde a uma
distância de 250m (duzentos e cinqüenta metros) em linha reta a partir da parte mais extrema
dos fundos da igreja, seguindo o sentido norte e a mesma direção da Rua dos Navegantes.
Outro destaque para a planta são os primitivos caminhos por onde provavelmente
transitavam os viajantes e residentes do povoado. Entre os caminhos desenhados, um deles
recebe a denominação de “Antiga Estada do Recife pelo Paço da Barreta”.
Felix Lieutier originalmente desenhou a Praça de Boa Viagem com os limites bem
maiores do que tem hoje em dia. Segundo aquela planta, a praça deveria ocupar todo o sítio
que já ocupa, porém se estendendo até as margens do carnal de Setúbal, que acabara de
também ser projetado. A Av. Conselheiro Aguiar que delimita um dos lados da praça, não a
cortaria, mas teria na praça o limite exato de sua extensão. No local onde passa a avenida,
deveria ser plantada alguma vegetação, que por sua vez, se estenderia pelo restante da praça,
pelas margens do canal e pelos recantos externos do cemitério.
Dentre os elementos naturais em destaque, encontram-se a linha de praia, alguns
coqueiros e o rio Jordão. É interessante a constatação da presença do Rio Jordão tão próximo
à Igreja de Boa Viagem. Hoje, o manancial hídrico naquelas proximidades é denominado de
Canal de Setúbal e o Rio Jordão assumiu outra configuração, servindo como limite territorial
do bairro de Boa Viagem.
Por causa da conformação topográfica da planície pela qual transcorria o Rio Jordão,
com suave declividade no seu leito, ocorria a diminuição da velocidade do fluxo de suas
águas, causando o assoreamento do rio e o desenvolvimento de vegetação, que retinha ainda
mais a corrente fluvial. Conseqüentemente, formaram-se lagoas, algumas bem extensas.
Essas lagoas passaram a ser alvo de muitas críticas, pois se dizia que eram verdadeiros
viveiros de mosquitos, como o “anophelineos” causador do “impaludismo”, descrito em um
artigo na Revista de Pernambuco, que também defendia que o feitio natural do Jordão deveria
ser bem definido e que a formação das lagoas e dos “perigosos pântanos” era na verdade um
“triste aspecto” que comprometia as localidades em que o rio passava, como Prazeres e Boa
Viagem, bem como o uso pela população da praia “tão pittoresca e procurada”.
145
PIO, op.cit. p. 59-61.
91
Para conter esse “contraste desolador” foi colocado em prática, na década de 1920,
pelo Serviço de Saneamento Rural, a obra de desobstrução, retificação e desvio da direção do
curso do leito do rio146 (Figura 10; Figura 11). Desse modo o Rio Jordão que tinha seu curso
passando pelo povoado de Boa Viagem, sofreu uma considerável mudança em suas
características naturais.
Figura 11; Figura 12: “Alguns Aspectos do rio Jordão, após a desobstrucção e alongamento, realisados
pela Inspectoria de Saneamento Rural”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p, set. 1924.
De acordo com Antonio Martín, “En todas las épocas, los frentes de mar han facilitado
el trazado de calles paralelas al mar y otras perpendiculares”147. As características da linha de
costa da praia junto ao povoado da Boa Viagem pareceram ter estimulado a permanência
dessa tradição morfológica do desenho do Povoado de Boa Viagem a partir do plano
ortogonal148, como pode ser bem observado na planta (Mapa 03).
Mas assim como a regularidade do litoral tem influência sob a característica do plano
a ser desenhado, o autor também afirma que “los ríos favorecem planos regulares: de calles
paralelas al curso fluvial, cuando su recorrido es lineal”149 e como exemplo dessa tendência,
tem-se a passagem do irregular Rio Jordão por aquela localidade, uma distorção que deveria
ser corrigida com a realização de sua canalização, suavizando a irregularidade do arruamento.
146
SANEAMENTO DE BÔA VIAGEM: Desobstrução e rectificação do Jordão. Revista de Pernambuco.
Recife, n. 3, s/p, set. 1924.
147
MARTÍN, Antonio Z. El Espacio interior de la ciudad. Madrid: Editorial Síntesis, 1991. Colección
Espacios y Sociedades – Serie General, n° 12. p. 82.
148
Los planos en cuadrícula o damero se caracterizan por la disposición ortogonal de sus vilas; las calles se
cortan en ángulo recto. Estos modelos han sido utilizados desde la antigüedad a nuestros días en lugares muy
distintos, sobre todo para fundar ciudades y acometer ensanches de población, por su sencillez de trazado,
comodidad de reparto de lotes, igualdad de circustancias para todas las parcelas y facilidades para proseguir la
expansión de la ciudad. Sus principales inconvenientes son la proliferación de intersecciones que dificultan la
circulación y proyprician los accidentes de tráfico, y el alargamiento de las distancias, al cortarse las calles en
ángulo recto. Ibid. p. 78.
149
Ibid. p. 82.
92
Atualmente, nas imediações da pracinha de Boa Viagem se pode notar essa antiga
conformação do terreno. É fácil para quem passa ali, perceber certa sinuosidade das vias às
margens do Canal do Setúbal, precisamente em torno do cruzamento com a Avenida Barão de
Souza Leão. Esse movimento acontece por causa da antiga conformação dos meandros do Rio
Jordão, os quais influenciaram o atual Canal de Setúbal a assumir uma conformação
igualmente sinuosa nas proximidades da Praça de Boa Viagem.
2.5 Nasce um cartão-postal moderno
Nas primeiras décadas do século XX o povoado da Boa Viagem ainda era pouco
ocupado. Segundo Sebastião Galvão, em 1908, além da capela da Boa Viagem se contavam
nesse entorno um número de sessenta casas desalinhadas150. Um cartão-postal circulado nesse
período exemplifica a ocupação desse subúrbio balneário por algumas cabanas de palha e por
plantação de coqueiros (figura 12).
Sob a escarpa que delimita a linha de praia e de frente para o mar se podem observar
três cabanas alinhadas, a primeira cabana exemplifica uma construção bastante simples, onde
se utilizaram predominantemente palhas de coqueiro. Da segunda cabana observa-se um de
seus lados e um pouco da rústica cobertura. Já a terceira cabana, que segue enfileirada às
outras duas, apenas se pode inferir sua existência pela projeção da sua sombra sobre a
vegetação rasteira que as circundam. Através da constatação do sentido da sombra sugere-se
que a foto foi tirada em uma manhã de sol. Mais próximo ao fotógrafo, parece haver outra
cabana, porém mais recuada com relação às anteriormente descritas. No plano mais recuado,
no interior da plantação de coqueiros, observam-se dispostas nas aberturas intercaladas da
disposição simétrica do plantio, a existência de pelo menos três outras cabanas, as quais,
apesar de demonstrarem também terem sido construídas sob uma arquitetura artesanal,
aparentam terem sido mais aperfeiçoadas, com a adoção de uma cobertura de duas águas, feita
de palha, contudo sobre suas paredes não se conseguiu precisar de que material são
constituídas.
150
GALVÃO, Sebastição. Dicionário Histórico e Geográfico de Pernambuco...Apud. GUERRA, Flávio.
Velhas igrejas e subúrbios históricos. Departamento de documentação e cultura da Cidade do Recife: Série
evocações históricas do Recife p. 103.
93
Figura 13: Bilhete-postal: Praia em Bôa Viagem. Recife: Ramiro M. Costa & filhos, Libreria & Typografia. 1 cartão-postal:
preto e branco. Fonte: Acervo do autor.
94
Ainda segundo Sebastião Galvão, a povoação de Boa Viagem só tinha realmente vida
durante os meses de setembro até março, quando era aberta a temporada dos banhos salgados.
Esse período atraía a população à Boa Viagem em busca das características naturais da praia,
a qual era considerada baixa, rasa e o mar não era tão bravo como em outros locais da costa
do Recife. Quando se dava início à estação balneária, entrava em funcionamento a já citada
linha de bondes movidos à tração animal.
É importante frisar, nesse momento, quando a belle époque foi frustrada com a eclosão
da Primeira Guerra Mundial em 1914, deu-se também o “fim ao sonho dos postais”151, ou
seja, o período de ouro do cartão-postal foi interrompido, passando o postal a servir apenas
como meio de comunicação, por conseguinte perdendo a estima como objeto colecionável. Já
no contexto do Brasil, foi só durante a década de 1920 que se findou o período áureo do
cartão-postal152, e curiosamente, foi também durante a década 1920 quando a orla de Boa
Viagem deixou de figurar como sugestiva e pitoresca praia balneária e assumiu o título de
moderno cartão-postal da Cidade do Recife, adquirindo, desse modo, mais luminosidade no
contexto da cidade, como atesta os adjetivos sintéticos utilizados pela imprensa da época, em
referências a orla de Boa Viagem: “Bella”, “Linda”, “Formosa”, “Magestosa”153.
Nesse mesmo instante em que a orla de Boa Viagem passa a ser difundida como uma
nova e moderna face da Cidade do Recife, a confecção e uso dos bilhetes-postais ou cartões
ilustrados, entrava em declínio. Na proporção que ocorreu a redução do número de cartõespostais confeccionados, também houve decréscimo na sofisticação de sua reprodução,
tomando como exemplo a diminuição da prática da colorização artesanal da imagem postal,
acarretando como conseqüência “a produção fotográfica em preto e branco predominando de
forma avassaladora em toda a parte”154. Além disso, observou-se o retrocesso na utilização do
postal como objeto de estratégia, com “o predomínio da temática política, a serviço do
confronto ideológico, na Europa do entre-guerras”155.
Essa redução de ordem qualitativa e quantitativa na produção e utilização do cartãopostal se deu até fins da década de 1950, retomando fôlego na década seguinte, com a
utilização do off-set156 que possibilitou a reprodutibilidade em série do cartão-postal agora
com a impressão de suas imagens coloridas.
151
MIRANDA, op. cit. p.14.
BELCHIOR, op. cit. p. 07.
153
Revista de Pernambuco. 1924-1925.
154
MIRANDA,op. cit. p. 14.
155
ZEYUNS, Serge (apud MIRANDA, op. cit. p. 15.).
156
“a method of printing in which ink is put onto a metal plate, then onto a rubber surface and only then onto the
paper”. HORNBY, A. S. Oxford advanced learner’s dictionary. 7. ed. Oxford University Press. 2005. p. 1054.
152
95
Por tudo isso, a maioria dos cartões ilustrados com a imagem do bairro de Boa
Viagem, circulados entre as décadas de 1920 e 1960, além de serem considerados raros, são
encontrados, predominantemente, impressos em preto e branco. Só a partir de 1970, o número
de cartões-postais circulados com a imagem do bairro passa a ser bastante expressivo,
inclusive, as transformações na Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem podem ser muito bem
visualizadas a partir dos cartões-postais confeccionados a partir desse período.
A época de declínio do cartão-postal será, contraditoriamente, a mesma época em que
se dará uma grande revolução na fotografia, quando em 1924, na Alemanha, é fabricada a
máquina Ermanox, e a primeira máquina fotográfica portátil, a Leica de 1925, fato que é
considerado o marco da fotografia moderna e que possibilitou a melhora da qualidade da foto,
bem como a sua popularidade.
A notoriedade da fotografia renovava-se desde o início do século XX, sobretudo, sob a
idéia do uso artístico da fotografia com influência do Impressionismo, Surrealismo, Cubismo,
e o Dadaísmo. Também se passou a usar bastante a foto em periódicos impressos. No Brasil,
esse uso foi inaugurado pela Revista da Semana, de 1900, alcançando o ápice com a
publicação de O Cruzeiro fundada por Assis Chateubriand, em 1928. No caso do Recife, o
uso da foto pela imprensa também foi expressivo, o bom exemplo desse fato é o acervo
legado pela Revista de Pernambuco sobre a abertura da Avenida Beira-Mar, atual Avenida
Boa Viagem. Foi justamente nessa revista que se acharam destacadas, significantes imagens
fotográficas realizadas no entorno da Praça de Nossa Senhora de Boa Viagem, à época de sua
inauguração.
Percebe-se que à semelhança do Prefeito Pereira Passos, que fez questão de divulgar
em fotografias as transformações urbanas do Rio de Janeiro na primeira década do século XX,
o Governador Sergio Loreto, no Recife da década de 1920, também teve a sua disposição a
Revista de Pernambuco como meio para anunciar, descrever, ilustrar e justificar os projetos
urbanísticos realizados na sua gestão.
Com a intenção de demudar a imagem da capital pernambucana à luz da modernidade
celebrada em Paris, Londres, Rio de Janeiro ou Petrópolis157, a administração do governador
Sergio Loreto teve, então, como forte aliada no curso das discussões sobre a construção da
Avenida Beira-Mar, a Revista de Pernambuco, com seus artigos que sempre evocavam a
apologia às realizações do governo, recheada com imagens fotográficas que podem ser muito
bem enquadradas como ilustrações ao modo de cartões-postais.
157
Ver comparação em: A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.4. s/p, out. 1924.
96
Nas publicações da Revista de Pernambuco na década de 1920, realçou-se sempre o
clima de “labor progressista”158 em que se encontravam o Estado de Pernambuco e a Cidade
do Recife, junto a sua administração estadual que construía o Palácio da Justiça, o Quartel do
Derby e a Avenida Beira-Mar, considerada na época uma “admirável obra de saneamento e
esthetica urbana”159.
Os conceitos difundidos durante as primeiras obras de urbanização da praia de Boa
Viagem ou na sua iminência de se tornar moderno cartão-postal da Cidade do Recife, em
artigos publicados na Revista de Pernambuco e circulados nos anos de 1924 e 1925,
intitulavam-na como “pittoresco trecho do Recife”160, possuidora de um “terreno arenoso e
cheio de amfractuosidades”161, mas “uma das mais lindas praias do norte, com seu infindável
lençol de areia alva e sua bella moldura de coqueiraes”162, e “ uma estação balneraria de
primeira ordem, talvez, em todo paiz, a mais bella e a que maiores garantias naturaes offerece
aos banhistas”163.
Inclusive os próprios equipamentos transpostos para fazer parte da nova paisagem que
se delineou a frente da praia de Boa Viagem também assimilaram a concepção de belo ou
artístico e, no discurso inscrito na Revista de Pernambuco, esses novos elementos apareciam,
ao invés de algo estranho à paisagem, como um tanto que em harmonia com a beleza natural
que emanava daquele balneário. Sobre, por exemplo, a instalação dos postes (Figura 13) no
decurso da Avenida Beira-Mar, a Revista de Pernambuco destacou:
Ao centro, erguem-se, elegantes e majestosos, os postes da “Tramways”.
Construidos em cimento armado, o que é uma innovação digna de registro
pela diminuição do despendio e, sobretudo, porque, assim, resistirão ás
salitrosas virações marinhas, acompanham o curso da avenida, desde a
ligação da ponte do Pina, ao termino da grande arteria litoranea.164
158
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.2, s/p, ago. 1924.
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p. set. 1924.
160
UMA VISITA À FUTURA AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.1, s/p, jul. 1924.
161
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.2, s/p, ago. 1924.
162
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.4. s/p, out. 1924.
163
LINHAS DE BONDES DO PINA E BOA-VIAGEM. Revista de Pernambuco. Recife, n. 8, s/p, fev. 1925.
164
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n.2, s/p, ago. 1924.
159
97
Figura 14: “Outro aspeccto da futura artéria que vae ligar o Recife ao seu pittoresco suburbio
balneario”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife. ago, 1924.
Em 20 de outubro de 1924, mesmo antes da conclusão de suas obras, a Avenida Beira
Mar foi inaugurada pelo governo (Figura 14). Segundo artigo publicado no dia seguinte da
inauguração pelo Diário de Pernambuco, como cita Carlos B. Cavalcanti, primeiramente o
governador inaugurou dois armazéns no porto e depois partiu num bonde em direção ao Pina,
onde desceu e, junto com a comitiva, prosseguiu o percurso em automóveis, contemplando a
realização das obras da Avenida Beira Mar. Seguiram para as imediações da Igreja de Nossa
Senhora da Boa Viagem, sendo recepcionados no Cassino de Boa Viagem, com direito a
discursos, troca de presentes, champanhe francês, licores e uma mesa repleta de petiscos.
Apesar de toda essa expectativa acerca da construção da Avenida Beira Mar, muita
crítica também foi lançada perante a realização de suas obras, tanto que obrigou o governo a
sempre se defender através das publicações na Revista de Pernambuco. As críticas provinham
da opinião de que existiam outras prioridades e que os custos para se realizar um
empreendimento num local quase deserto, eram muito altos, além dos trechos da praia que se
verificavam insalubres por se ter o esgoto da cidade depositado ali in natura, impossibilitando
o banho e a pesca. Outras críticas mais sutis, reclamavam do mau cheiro que se desprendia
num largo trecho da praia, justamente por ocasião do esgoto que se encontrava despejado no
mar e também dos muitos mosquitos presentes, vetores de doenças nas áreas alagadiças
próximas à orla.
98
Os argumentos do governo pronunciados em alguns artigos da Revista de Pernambuco
pareciam assumir a característica de apaziguar aquelas críticas e de divulgar o acesso
promovido pelo Estado a um espaço a ser usado para o lazer e que estaria disponível a todas
as classes. Na realidade, o projeto de abertura da Avenida Beira-Mar beneficiou poucos
cidadãos. Na própria Revista de Pernambuco está registrado que apenas um único proprietário
reclamou indenização pela desapropriação de um pequeno terreno medindo 2.658 metros
quadrados 165, certamente todos sabiam quanto seriam valorizadas as suas propriedades depois
da abertura da avenida. Assim, o tema da Avenida Beira-Mar, passou, nessa publicação
oficial, a se relacionar com tudo o que pudesse convencer de que ela era uma realização útil e
indispensável a todos.
Figura 15: “A ‘limousine’ governamental no momento em que, acompanhada de grande cortejo,
conduzia s. exa. o sr. Governador do Estado atravez da Avenida Beira-Mar, por ocasião de ser
inaugurada a grande arteria litorânea”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 5, s/p, nov. 1924.
Como referência dos discursos veiculados pela Revista de Pernambuco, tem-se a
descrição realizada por Angéline Ladeyeso, que também é um exemplo de como parecia ser
prazeroso, para quem tinha a Europa como referência de civilização, olhar aquele novo
recanto da cidade embelezado com a moderna “providência techinica”.
165
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 3, s/p. set. 1924.
Mapa 06
99
Avenida Boa Viagem: extensão entre o bairro do Pina e a
Praça Nossa Senhora da Boa Viagem
O
c e
n o
A t
l â
n t
i c
o
Pina
Praça Nossa
Senhora da Boa
Viagem
Hotel Boa
Viagem
Avenida
Boa Viagem
N
300
0
300 600 mMeters
Fonte: Carta de Nucleação Centro
Departamento de Informações Municipais
da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM
SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007
100
Domingo passado fui á ilha do Pina para emprehender a minha excursão.
Comecei por me convencer que a pretendida ilha não passa de um simples
isthmo, pois, passada a grande ponte do Saneamneto, pizase, denovo, no
continente.
Graças á amabilidade do pessoal da administração das obras do porto, que
facilitou, a mim e ás pessoas que me acompanhavam, uma machina e um
pequeno bond para podermos visitar as obras em toda a sua extensão;
pudemos chegar até pertinho da igreja da Bôa Viagem.
Fiquei simplesmente maravilhada, contemplando a obra realizada!
Os innumeraveis coqueiros novos, que cobrem todo o campo ao longo da
bella estrada, a muralha de pedra que, se estende como uma fita deante da
vista, os pequenos passeios, calçados de pedra branca e preta, onde se acham
collocados os postes do bond, me faziam pensar no Passeio dos Inglezes, de
Nice... O mar azul, azul, do azul Mediterrâneo, excitava ainda mais a minha
imaginação e passei estar na Côte d’Azur!166
Angéline Ladeyeso ainda supôs um prognóstico acerca dos futuros equipamentos e
serviços que deveriam fazer parte desse novo e ousado empreendimento que chegara para
definir as novas aparências da cidade e que a deixaria mais próxima do que era, para a época,
um exemplo a ser seguido por uma praia balneária: “agora é necessário que os capitalistas se
occupem de crear ali hotéis, casas de banhos, cinemas, etc. para fazer de Bôa Viagem uma
praia moderna e ideal”167. Por fim ela parabeniza os pernambucanos pelo acesso conquistado
a sua bela praia de banhos: “Acceitem os meus sinceros parabéns, os pernambucanos, pois
têm agora um passeio esplendido, semelhante ao da Barra, na Bahia, porém bem mais largo, e
extenso e com uma linda e verdadeira praia de banhos”168.
E já nos primeiros instantes do projeto urbanístico que remodelou a orla de Boa
Viagem, o processo de apropriação dos terrenos à margem da Avenida Beira-Mar se deu por
palacetes ou vivendas dos distintos cidadãos da época, fenômeno também preconizado pela
Revista de Pernambuco ao divulgar a necessidade de se fomentar a instalação de vivendas e
casas de veraneio para a população que precisava aproveitar a temporada dos banhos
salgados. Assim, enquanto a avenida estava sendo construída, iam-se também projetando e
erguendo casas que ocupariam a margem da grande artéria, como se pode ver exemplificado
nos projetos de residência para os senhores José Marques de Oliveira e Raul Bandeira (Figura
15; Figura 16). Veja-se também nesse esclarecedor texto da Revista de Pernambuco sobre a
escassez de casas de veraneio em Boa Viagem.
166
LADEYESO, Angéline. Impressões sinceras sobre a Avenida Beira-Mar. Revista de Pernambuco. Revista,
n. 5, s/p, nov. 1924.
167
Ibid. s/p.
168
Ibid. s/p.
101
As praias de banho, como os jardins, os cinemas, os theatros fazem parte da
vida elegante da cidade.
Em todas as grandes capitaes, banhadas pelo mar, a estação balnearia
constitue uma necessidade pelo refugio que offerece á população, na época
de calor, e como meio therapeutico preconisado.
Na Europa, na América, como em toda parte, há pequenas cidades á beira
mar, que são verdadeiros centros de diversão, com elegantes habitações de
variados estylos para onde converge a população, em variadas épocas.
O brasileiro, soffrendo as inelemencias de um sol ardente, teve necessidade
de incluir a estação balnearia nos habitados da vida da cidade. De norte a sul
do paiz, existem praias de banhos magníficas que se distinguem pelo
colorido de sua paisagem.
Rio de Janeiro tem a realçar-lhe a belleza o apregoado encanto de suas
praias, - Copacabana, Leme, Paquetá e Leblon; S. Paulo tem, perto da
capital, para repouso de sua população as de José Menino e Guarujá, que
são o recreio da gente elegante da cidade.
As praias de Recife, somente agora, vão se modernizando.
De todas ellas que são em grande quantidade, Olinda e Bôa Viagem foram as
mais procuradas.
A primeira, por ser a mais próxima da cidade e dispõe de meios mais fáceis
de comunicação, e maior numero de edifícios conseguia maior concurrencia.
A segunda, apezar o pittoresco do seu panorama e de maior segurança contra
os accidentes na occasido do banho, constituiu um privilegio da classe
abastada, que suppria a falta de meios de locomoção pelo uso do automóvel.
Tanto uma como outra, porém, pecca pela deficiencia de habitação, pelo
exagerado custo dos alugueis e pela obrigação que assume o locador pelo
aluguel de 12 mezes.
Essa exigência dá logar a que a parte menos favorecida da fortuna procure
repouso em outras praias mais afastadas. Intalando embora com a falta de
conforto e difficuldade de conducção rapida para a cidade. Assim acontece
em Prazeres, Piedade, Venda Gende e Gaybú, Porto de Gallinhas, Cupê, etc.,
que são de preferencia procuradas pelos habitantes da zona rural.
Bôa Viagem será, incontestavelmente, a praia preferida.
A próxima inauguração do serviço de bondes, a sua situação única como
praia de banhos, protegida pelos arrecifes, o saneamento da zona, a
installação de luz e agua, a construção da soberba avenida que a prende á
nossa capital, são elementos seguros de seu repentino refugimento.
O momento aconselha grandes melhoramentos, procurando attrahir a
concurrencia para esse local. A instalação de estabelecimentos balneários,
por exemplo, com boas accomodações para famílias, seria um meio de
facilitar aos menos abastados os conforto das estações do verão, ao mesmo
tempo que substitue a escassez de casas e combate a ganância dos
senhorios.169
169
AS NOSSAS PRAIAS. Revista de Pernambuco. Recife, n.6, s/p, dez. 1924.
102
Figura 16: “Projeto do palacete que o sr. Dr. José Marques de Oliveira está construindo na Avenida
Beira-Mar”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924.
Figura 17: “Projeto de aprasivel vivenda, destinada à residência do sr. Raul Bandeira e que está em
construção na Avenida Baira-Mar”. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924.
103
Outro senhor chamado L. Gomide também deu seu testemunho sobre as impressões
criadas por quem se deparava especialmente com a nova Avenida Beira-Mar. Ele justificou a
necessidade dessa avenida para os pernambucanos, através de exemplos como da Avenida
Fou-Tcheou-Road de Shangai, da Avenida La Reine de Hong-Kon, a rua Felicidade em
Macau. Sugeriu a observação das experiências de países como Índia, China, que eram,
segundo o autor, avessos à modernidade, mas mesmo assim já tinham suas avenidas e
passeios à Beira-Mar e relatou a experiência que teve quando obteve pessoalmente a
comprovação do que representava a Avenida Beira-Mar na percepção de um estrangeiro:
Em dias do mez de agosto ultimo, achando-se accidentalmente a bordo de
um transatlantico acostado ao caes do Porto, fui apresentado a uma illustre
dama da aristocracia franceza, senhora de vasta cultura, conhecedora das
mais bellas e chics praias do mundo. Momentos antes havia ella regressado
de uma excursão pela Avenida Beira-Mar, até Bôa Viagem. Pedilhe a sua
impressão.
– “Merveilleuse! Merveilleuse!
A minha gentilissima interlocutora repetiu essa palavra com emphase,
durante uma entonação especial á voz, uma expressão viva ao seu olhar
fulgurante, uma contracção significativa aos seus finos e naerados labios.
Tudo isso catacterisava a admiração e o encantamento do seu fino espirito de
estheta que as suas palavras não chegam a traduzir.170
Ainda segundo L. Gomide o desfrute da praia de Boa Viagem era privilégio de “meia
dúzia de ricaços”, mas com a construção da Avenida Beira-Mar, possibilitou-se “Offerecer os
encantos de sua paisagem magnifica e o conforto de seus banhos a quantos queiram desfructar
os seus proventos”. Dando um exemplo do significado da posse do carro como distinção
social e a quem vinha imediatamente servir a abertura de uma grande avenida, Gomide
expressou que o rico continuou a usar a praia, mas agora transportado no seu luxuoso
automóvel e o pobre, “Aboletado no modesto carro da Tramways”. 171
“The Pernambuco Tramways and Power Cº. Ltd, sociedade anônima”, era a
concessionária dos serviços de viação, luz e telefone da Cidade do Recife e dos seus
subúrbios e tinha a sua sede em Londres. Todos os serviços de instalação das linhas e postes
para os bondes, de suportes para a luz elétrica e telefones para Boa Viagem ficaram a cargo
do governo do Estado, cabendo a Tamways indenizá-lo com as despesas feitas com os trilhos,
os postes e mais alguns outros acessórios usados no serviço de bondes.
170
GOMIDE, L. A Avenida Beira-Mar e o professor Loreto Filho. Revista de Pernambuco. Recife, n 17, s/p,
nov. 1925.
171
Ibid. s/p.
104
O local escolhido para ser o terminal dos bondes que ligaria o Recife ao seu pitoresco
balneário, foi justamente próximo à Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, o que por sua
vez acarretou a edificação da praça na época já chamada pela imprensa de “Praça de Bôa
Viagem”. A Revista de Pernambuco de outubro de 1925 publicou um mosaico de imagens das
obras realizadas do arrojado projeto do governo para aquela orla e dentre as figuras
destacadas, achou-se uma que representa a área do terminal provavelmente fotografado a
partir da torre da igreja, permitindo-se ver o telhado do templo num primeiro plano e em
seguida os trabalhos de instalação dos trilhos para os bondes junto com o primeiro projeto de
paisagismo desenhado para o local (Figura 17)
A Praça de Boa Viagem foi oficialmente apresentada ao público durante a
comemoração do terceiro aniversário do governo de Estado sob a administração de Sergio
Lorote, quando também se comemorou a inauguração da linha de bondes entre o Recife e Boa
Viagem. Nesse dia esteve presente um expressivo número de pessoas que partiram da Praça
da República, acompanhando a comitiva do governo pelo novo trajeto remodelado até o
“largo de Bôa Viagem”, como era também chamado o terminal dos bondes situado ao lado da
Igreja da Igreja de Nossa Senhora. Na ocorrência do solene ato inaugural da Praça de Boa
Viagem e das linhas de bonde, como registrado em fotografia publicada em outubro de 1925
na Revista de Pernambuco, pode-se notar a presença de um coreto bem ao centro da praça que
funcionou como tribuna de honra para as autoridades presentes no evento (Figura 18; Figura
19).
Como se percebe através da interpretação das imagens, os bondes chegaram ao “largo
de Bôa Viagem” percorrendo a linha mais próxima à praia. Alguns circundaram a praça,
estacionando ao seu redor. Ali se aglomerou o público para assistir ao ato de inauguração.
Todos muito bem vestidos, homens vestindo paletó, mulheres com vestidos longos, moças
com vestidos um pouco abaixo do joelho e crianças, com roupa tipo ‘marinheiro’ ou vestidas
como pequenos adultos. A maioria dos presentes utilizava chapéus, como era de costume,
especialmente se fossem chapéus importados da Europa, comercializados em casas especiais,
conhecidas como chapelarias.
105
Figura 18: Terminal de Boa Viagem em Construção. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 16 s/p, out. 1925.
106
Figura 19: Inauguração da Linha de Boa Viagem. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 17 s/p, nov. 1925.
Figura 20: Inauguração da Linha de Boa Viagem. Fonte: Revista de Pernambuco. Recife, n. 19 s/p, nov. 1925.
107
108
Agora, oficialmente espaço público, com bancos e um coreto na praça, com acesso
mais disponível por causa da oferta do serviço de bondes, com a instalação de todos os outros
equipamentos urbanos, o trecho balneário que compreendia o entorno da Igreja de Boa
Viagem ganhou nova organização e teve reforçada a função de concentrar nas suas
imediações, o seu uso pela população. Ao lado da praça, no terreno onde também existiu o
hotel Boa Viagem, havia na época o “Casino de Bôa Viagem” (Figura 20) chamado por Hilo
Lins e Silva de Clube de Boa Viagem, “cujo local se reunia a sociedade do Recife e reinava a
época do jogo de roleta entre os afeiçoados”172 que também poderiam usar os cassinos do
Grande Hotel, construído também nesse período, nas proximidades do Cais de Santa Rita, no
centro da cidade173.
Se comparada com outros espaços públicos existentes no Recife nessa segunda década
do século XX, a Praça de Boa Viagem não tinha tanta expressão, em termos de dimensão e de
adornamento. A praça do Derby, por exemplo, que também foi uma obra executada ao mesmo
instante que a abertura da Avenida Beira-Mar, era muito mais pomposa do que a pracinha do
terminal de bondes de Boa Viagem. Seu destaque está na localização e na presença da igreja,
um equipamento antigo que lhe deu origem.
O tecido urbano do Recife crescia e a Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, que já
dispunha de um posicionamento diferenciado no contexto da urbe, nesse momento, com o
traçado de uma nova e ampla via de circulação, com a construção de uma praça constituindo
um quarteirão no seu terreno e com a instalação de um terminal de passageiros, se tornou, de
forma ainda mais clara, uma referência espacial da cidade.
A partir dessas transformações, Boa Viagem ganhou uma dinâmica acelerada no
conjunto de sua organização. De pitoresco subúrbio balneário, passou a “lugar muito
aprazível, com esplendidas residências de verão”174. Segundo Ana Tereza Sotero Duarte175, o
bairro de Boa Viagem se firmará como área de veraneio apenas na década de 1940 e de
acordo com Paulo Reynaldo M. Alves, essa característica de distinto bairro de segunda
residência, consolida-se à época da Segunda Guerra Mundial, quando foram construídas
instalações militares e um hospital entre as igrejas de Boa Viagem e de Piedade, provocando a
necessidade de levantar casas para as pessoas que deveriam morar temporariamente nas
proximidades da base militar. Para o autor, essa instalação militar norte-americana, foi um
importante passo para a expansão da cidade na direção além do terminal de Boa Viagem e
172
SILVA, Hilo Lins e. Recife: conceitos e evocações. Recife: s/e,1984. p. 36.
PARAÍSO, Rostand. Tantas histórias a contar... Recife: Comunicarte, 1994. p. 72.
174
Prefeitura Municipal do Recife. Guia da Cidade do Recife. 1935. p. 23.
175
DUARTE, op. cit.
173
109
110
conclui: “Boa Viagem, en la década de los cuarenta, se consolida como área de segundas
residencias, tanto de los habitantes nativos que se desplazaban vacaciones, como de los
extranjeros que venían a pasar una temporada”176.
Vale destacar que no ano de 1940 o empresário Adelmar da Costa Carvalho resolveu
construir o que seria um verdadeiro palácio em formato de transatlântico, mas depois de
escutar os conselhos da esposa e do seu arquiteto, decidiu erguer um palacete em formato de
iate, o qual ficou popularmente conhecido como Casa Navio. Carlos B. Cavalcanti relata nos
seu livro, “O Recife e seus Bairros”, com base nos esclarecimentos de Napoleão Barroso:
A casa era perfeitamente equipada, sala de reuniões, suítes, quartos, cinemas,
salão de jogos, restaurante e até uma cabine de comando, com todos os
equipamentos originais de navio. Hospedaria de Governadores, Ministros
nacionais e estrangeiros, industriais e até o Presidente J. K. Foi Filmada pela
Metro Goldem Meyer de Hollywood para figurar em um filme e virou cartão
postal, sendo demolida, em 1981, para dar lugar a um moderno edifício.177
O bairro só ganhará aspecto de zona de primeira residência, segundo Alves178, nos
anos 1950. Já Duarte179 acredita que em meados dos anos 1950 ainda sequer pode se falar de
Boa Viagem como um bairro residencial permanente, “porém como uma fase de transição
para isto”. De acordo com Paulo R. M. Alves, a acessibilidade sempre foi um obstáculo para o
desenvolvimento de Boa Viagem. Dessa forma, o autor justifica que nos anos 1950 Boa
Viagem se consolidou definitivamente como área de primeira residência justamente por causa
da melhoria de sua acessibilidade, que teria melhorado com a construção em 1953 da ponte
Agamenon Magalhães e em 1958 com a implantação do aeroporto. Além disso, ocorreu a
substituição dos bondes por ônibus elétricos em 1955 e os melhoramentos executados na
Avenida Mascarenhas de Moraes180.
Citando artigo publicado no Diário de Pernambuco, com o título “Boa Viagem e sua
remota origem”, escrito por Napoleão Barbosa Braga, mas infelizmente sem trazer a data da
publicação, Paulo R. M. Alves descreve que uma das dificuldades que impediu o crescimento
de Boa Viagem para se constituir em um bairro de primeira residência foi a desmotivação dos
investidores com o insuficiente trânsito permitido através da antiga ponte entre o Recife e Boa
Viagem, que “estrangulava o tráfego”.
176
ALVES, op. cit. p. 90.
CAVALCANTI, Carlos Bezerra. O Recife e seus bairros. Recife: Câmara Municipal, 1998. p. 111.
178
ALVES, op. cit. p. 90.
179
DUARTE, op. cit. p. 100.
180
GOMES. op. cit. p. 273.
177
111
Em termos de uso, observavam-se os “aspectos do verão”181, registrados em
fotografias realizadas naquele período de transição que marcou o bairro como típico de
veraneio ou como predominantemente residencial. Por exemplo, em dezembro de 1947
ocorreu o Segundo Circuito Automobilístico na Avenida Boa Viagem. Os carros que vinham
da cidade por Afogados, porque a ponte do Pina, por onde passavam os bondes elétricos era
muito estreita182, durante a corrida partiam de algum ponto da Avenida Boa Viagem mais ao
sul da praça e dobravam justamente na hoje conhecida Rua Barão de Souza Leão. Nesse
ponto, aglomerava-se uma multidão para ver os carros chegando, alguns usavam as
arquibancadas instaladas ali próximo, outros se penduravam no telhado do Cassino de Boa
Viagem para ter uma melhor visão. Os carros deveriam correr em alta velocidade, pois se
colocava uma barricada de sacos de areia bloqueando a Avenida Boa Viagem, bem na esquina
onde os carros faziam a curva, para em seguida continuarem na direção da Rua Barão de
Souza Leão, sentido Canal de Setúbal. Esse evento de 1947 foi patrocinado pela Sinclar
Opaline Motor Oil183.
Em novembro de 1945, no ano de 1950 e no mês de janeiro de 1952, tem-se
registrado em fotos que ocorreram concursos de papagaios ou pipas na orla de Boa Viagem.
Parece ter sido um evento que reunia as famílias à beira mar para observar os papagaios serem
colocados para flutuar. Existiam vários tipos e formatos de papagaios, com aspecto de jacaré,
avião, morcego, de mulher usando biquíni e mulher de maeilot, de estrela, urna funerária,
águia, bandeira, além das pipas gigantes enfeitadas com listras ou em formato xadrez. Junto
ao vencedor do concurso de papagaios, as pessoas se deixavam fotografar enquanto outros
eram captados pela lente do fotógrafo, distraídos, olhando para o céu, vendo as pipas voarem.
Outro concurso de papagaios teve inscrições abertas pela Divisão de Turismo da
Prefeitura do Recife em 29 de outubro de 1964, quando se esperou um grande número de
inscritos, e no dia 12 de novembro “A Srta. Tereza Machado Brennand era eleita, a Miss
Papagaio, sob aclamação da multidão de banhistas e curiosos que se encontrava nas
imediações do edifício Acaiaca, na Boa Viagem”184.
Ainda se pode observar em algumas fotografias do acervo do Museu da Cidade do
Recife, referente à década de 1950, os jogos de vôlei, as corridas de bicicletas na Avenida Boa
Viagem, onde os ciclistas passavam bem em frente à pracinha, o banho de mar dos homens
181
Museu da Cidade do Recife. Setor de Iconografia. Referência: 00433.
GOMES, op. cit. p. 273.
183
Museu da Cidade do Recife. Setor de Iconografia. Referências: 00119 à 00129.
184
Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife. Boletim da Cidade do Recife. Recife: nº
63/169, Jan – Dez, 1957/1967.
182
112
vestidos com fantasias e roupas femininas, como o que aconteceu em fevereiro de 1964,
também em frente ao edifício Acaiaca.
Um bom relato sobre esse tempo em que Boa Viagem era predominantemente uma
praia de veraneio, nos oferece Rostand Paraíso no seu saudoso livro, “Antes que o tempo
apague”:
Aos domingos pela manhã, tínhamos o hábito de “pegar” uma praia.
Em geral, íamos a Olinda, nas proximidades do Carmo, ou Boa Viagem,
naquele trecho compreendido entre o Pina e o circular. As outras praias mais
distantes e de difícil acesso, eram inviáveis para quem não possuía carro. E
não eram muitos que, naquela época tinham esse privilégio.
Para irmos a Boa Viagem, tomávamos o bonde que, após atravessar a Ponte
do Pina antiga, nos deixava em plena Avenida, à beira mar. Ali, a mão era
dupla, os bondes indo até o circular e dali voltando, os trilhos sendo
separados pelos refúgios centrais cuja principal finalidade parecia ser a de
abrigar os postes que, em forma de T, sustentavam as luminárias e, também,
a rede de energização dos Bondes. Fazendo poso na casa do meu tio
Arnaldo, que morava no nº 3000, de frente para o mar, dali eu tomava o
caminho da praia e me juntava aos amigos para os habituais jogos de Vôlei e
de Futebol. Essas eram também grandes oportunidades para os namoros, na
maioria pouco duradouros, namorico de veraneio, já que, naquela época,
ninguém residia permanentemente em Boa Viagem, que era considerada
muito distante para moradia. Suas casas simples ou suntuosas, eram
ocupadas apenas nos fins de ano, para a temporada de verão, que se iniciava
em Dezembro ou Novembro e ia até o fim das férias escolares.
Era no fim do ano que as famílias começavam a chegar e nós ficávamos
atentos, observando as casas serem ocupadas, uma a uma, algumas sendo
ansiosamente esperadas por terem garotas bonitas e simpáticas que eram
sucesso entre a turma jovem. O fim da temporada marcava, também o da
grande maioria daqueles namoros que quando iniciados, já se sabia, duraria
apenas o veraneio, cada um voltando, depois, a seus afazeres habituais e às
suas residências, distantes umas das outras.
O “quente” era o Corta-Jaca, área que havia recebido essa denominação
ainda nos tempos em que era Governador de Pernambuco Carlos de Lima
Cavalcanti, que ali tinha uma bela casa a beira mar. Além do cargo que por
si só já justificava o grande número de bajuladores ao seu redor e daí o nome
de Corta-Jaca, dizia-se haver uma outra razão para aquela permanente corte
em torno do Governador: sua filha Risoleta, jovem, bonita e ainda solteira, a
atrair atenções dos principais partidos da cidade.
Concorridos jogos de Voleibol, quando os times eram divididos de forma a
que os casais jogassem juntos, a garota levantando para o namorado dessa
forma tentando consolidar a paquera.
Gostosas serenatas de fins-de-semana, quando a vigilância não era tão
rigorosa, já que delas ficavam encarregadas as próprias primas e irmãs elas
também com seus namorados, serenatas encerradas às primeiras horas da
madrugada, ao som de músicas que nos deixavam já saudosos (Maria
Betânia, Adios Pampa Mia...) principalmente quando o fim da temporada
estava se aproximando.
Inesquecíveis peladas de futebol, por trás do Aeroclube, quando ainda cedo,
antes que o sol esquentasse, nos reuníamos para dividirmos os times, o pior
ia sempre para o gol, ou para a esquerda – e aí se juntavam a nós, vindos de
113
memoráveis farras, ainda insones, Hugo do Peixe e o cronista locutor,
compositor e, acima de tudo boêmio, Antônio Maria.
Era com lágrimas nos olhos que nos despedíamos, ao fim da temporada,
daqueles amigos que conosco haviam compartilhado de tantos e tão
agradáveis momentos. Faziam planos de nos reunir novamente no ano
seguinte meãs nem sempre o destino permitia que isso acontecesse [...]185
Na década de 1950 ocorrerá uma série de eventos que marcará a paisagem do bairro de
Boa Viagem e um dos seus símbolos mais característicos, a pracinha do circular. Em outubro
de 1954, é inaugurado o hotel Boa Viagem, o primeiro a surgir naquele bairro (Figura 22). No
mesmo prédio do hotel, instalaram-se serviços como “restaurante, bar, sorveteria e serviços de
correio”186. Logo depois, surgiram outros prédios com o gabarito de altura diferenciado do
estilo de arquitetura que comumente se observava na orla. Assim, surgem os edifícios
Acaiaca, Califónia e o Holiday.
Em contrapartida ao surgimento do hotel e dos modernos edifícios também se
destacam na paisagem, ocupações ocorridas entre 1947 e 1950187. E além desse contraste,
surge no Pina, em 1955, um núcleo de cabarés188. Esse seria um indício de um fato que ainda
hoje em dia se pode ser observado na paisagem do bairro de Boa Viagem, a marcante
presença de mulheres se prostituindo nas suas principais avenidas, e mesmo morando, nos
atualmente degradados edifícios Califórnia e Holiday.
Em junho de 1958 aconteceu a inauguração da “Feira Livre no terminal da Bôa
Viagem”189, aspecto bastante interessante, pois a inauguração de uma feira livre em pleno
período de inverno, pôde significar necessidade de abastecimento a ser suprido pela
população já residente no local.
Nesse momento, a paisagem da orla, tomando às margens da avenida Boa Viagem e
suas principais vias de acesso, estava bastante mudada. E os referenciais culturais da cidade
também sofreram influências nesse período pós Segunda Guerra, com o modo americano de
enxergar o mundo se impondo diante à civilização ocidental.
Tadeu Rocha no seu livro “Roteiros do Recife” publicado em 1959, expressa e
preconiza um sentimento latente a ser manifesto após o reconhecimento de que Boa Viagem
mudou, não é mais aquela mesma praia de veraneio cheia de modernices, ainda preservada de
ares de balneário.
185
(PARAÍSO, Rostand, apud CAVALCANTI, op. cit. p. 112 –113)
SILVA, op. cit. p. 36.
187
GOMES, op. cit. p. 273.
188
ALVES, op. cit. p. 91.
189
Museu da Cidade do Recife. Setor de Iconografia. Referência: 4619 e 4620.
186
114
Figura 22: Cartão-postal do Hotel Boa Viagem, avistando-se a Praça de Nossa Senhora. Foto: Oliviera.
Acervo do Autor.
115
Seguimos, então, pela Av. Boa Viagem, tendo o casario à direita e uma faixa
branca de praia, beirando um mar muito verde, à esquerda. À altura do Posto
1, encontramos jangadas em repouso. Os pescadores que as conduzem são
uns verdadeiros heróis sem futuro. Elas ainda lhes deixam fisgar cavalas e
ciobas, garoupas e charéus. Mas, diante dos modernos barcos de pesca, as
jangadas não valem um caracol. A técnica vai afugenta-las dos nossos mares
e acabar com a intrepidez dos jangadeiros.190
Quando a Avenida Beira-Mar estava sendo construída surgiu uma discussão sobre a
afirmação do Dr. Saturnino de Brito acerca do perigo da pescaria nas proximidades do
emissor de esgoto. Era temido que com a abertura da avenida, a pesca se proliferasse ali.
Todavia, a fim de aclamar alguns interessados, a Revista de Pernambuco profetizou que “tudo
leva a crer que, tornando-se o Pina um ponto de mais fácil acesso, a população da cidade o
invadirá e irá impelindo para mais longe os pescadores”191.
Portanto, à medida que Boa Viagem ia adquirindo outros perfis, outros confrontos
também se delinearam nos seus terrenos, em desfavor da sua população pobre, como o que
aconteceu no bairro do Pina, no início da década de 1950, na localidade conhecida como
Areal Novo, envolvendo uma colônia de pescadores, o Estado e o mercado imobiliário. Nesse
conflito ficou comprovado que a colônia de pescadores que ficava numa área de interesse do
Estado, sofreu um incêndio intencional, atingindo barracas e jangadas, procedimento comum
utilizado pelos ditos proprietários de terras para eliminar os mocambos. O caso foi resolvido
em favor da colônia de pescadores, que recebeu a concessão da terra, mas como o local
permaneceu na mira de divergentes interesses, anos depois a Federação das Colônias de Pesca
de Pernambuco (FCPP) transferiu parcela da área para o Iate Clube de Pernambuco.
Apesar dos rumos que Boa Viagem estava prestes a tomar, alguns poetas, fotógrafos e
editores de cartões-postais, com suas percepções peculiares, não deixaram de registrar os
significados da jangada e dos pescadores para a paisagem na praia de Boa Viagem (Figura 23;
Figura 23.i). Sobre o tema, Gastão de Bettencourt diz que “As jangadas...como elas dão
singular beleza a estas praias! Vemo-las na Boa Viagem e noutros pontos onde o mar se
espreguiça”.192 O autor ainda resgata um poema de Adelmar Tavares, revelador de uma
paisagem cada vez mais rara:
190
ROCHA, Tadeu. Roteiros do Recife. p. 94.
A AVENIDA BEIRA-MAR. Revista de Pernambuco. Recife, n. 4, s/p, out. 1924.
192
BETTENCOURT, Gastão de. Os meus encontros com o Recife. Recife: Imprensa Oficial e Arquivo público
Estadual, 1958. p. 63.
191
116
“Lá vêm as jangadas, de velas inchadas,
Bojando de vento, branquinhas, no mar...
Meus Deus, minha terra! Meu Deus, vou chegar!
Olinda, distante, lá longe, aparece...
Lá está uma torre... Diviso o farol...
Lá vêm as jangadas branquinhas de sol...
Que céus diferentes” Tão verdes as águas!
Que leves osares, que gozo aspirar!
Escuto umas vozes que vêm das jangadas,
Conheço essas vozes que vêm das jangadas,
São dêsses Antonhos, e dêsses Messias,
Lourenços e Joças, Bastiões, Mizaéis,
De falas cantares, mas pulso de ferro
Que pula de tigre na ponta da faca,
E arrulha na viola que fazem chorar...”193
Segundo Carlos Bezerra Cavalcanti, nos anos 1960 o bairro de Boa Viagem “ainda era
misto de residencial e de boemia nos movimentados TIO PEPE, em frente ao hotel Boa
Viagem...ou em Boates como o SAMBURÀ”194. Contudo, é certo que nessa década cresce o
processo de especulação imobiliária na faixa de praia, inclusive englobando o entorno da
Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Associa-se a esse fato, o crescente número de novas
invasões no conjunto de terrenos do bairro de Boa Viagem e ação do Estado em retirar outras
ocupações, como o que aconteceu em junho de 1964, com a retirada das casas de taipa e palha
da Avenida Amazônia, atual Avenida Domingues Ferreira,195 marcando o contraste resultante
do processo de ocupação. Esta contradição será mais tarde observada na própria praça, a partir
da forte presença da população com caráter de exclusão social no local.
Em 1960 é derrubada a Ponte do Pina, porque suas estruturas já não mais ofereciam
segurança. Era sobre essa ponte que passava o bonde elétrico que levava e trazia as pessoas
entre o Recife e Boa Viagem. De certo modo, sua demolição também representa a transição
para um período onde Boa Viagem, além de considerado bairro moderno e aprazível, passa a
se distinguir do restante da cidade através do valor do solo, fato consolidado a partir de 1965,
quando apresenta o metro quadrado mais valorizado da cidade do Recife.
193
Ibid. p. 63.
CAVALCANTI, op. cit. p. 113.
195
Secretaria de Educação e Cultura da Prefeitura Municipal do Recife. Boletim da Cidade do Recife. Recife: nº
63/169, Jan – Dez, 1957/1967.
194
117
Figura 23; Figura 23.i: Frente e verso de cartão-postal de Praia do Recife circulado no ano de 1958.
Fonte: Acervo do autor.
118
Assim, Boa Viagem consolida-se como bairro urbano, com uma das populações mais
expressivas da cidade, revelando-se o bairro mais valorizado ou mais caro e com uma gama
de serviços disponíveis aos seus habitantes. É também nesse momento, que a técnica de
impressão em papel reavivou a circulação de cartões-postais, fazendo com que o bairro de
Boa Viagem, junto com seus símbolos mais característicos, passassem a ser mais registrados e
divulgados por esse recurso, como constatado pelo acervo de mais de 60 postais do referido
bairro colecionados por essa pesquisa.
Portanto, na década de 1970, além do aperfeiçoamento da técnica que permitiu a
reprodutibilidade do postal, com sua impressão em cores a custos mais reduzidos, o contexto
em que acenava Boa Viagem uma área privilegiada pelos investimentos estatais em infraestrutura, estimulou sua concepção enquanto espaço cartão-postal, exemplificado pelo
aumento significativo da representação do bairro naquele tradicional recurso, e também por
sua afirmação como bairro mais valorado da cidade, ostentando seus empreendimentos
imobiliários como representações simbólicas de sua paisagem196.
Durante os anos 1970, o bairro de Boa Viagem foi objeto de vários projetos urbanos,
atingindo o panorama investigado, com a implantação de redes de hotéis e de serviços ligados
ao turismo e a atender às classes média e alta, já ali moradoras, como registra Carlos Bezerra
Cavalcanti:
[...]o RECIFE PALACE, e o MAR HOTEL, o HOTEL SAVARONI, o
INTERNACIONAL LUCSSIM HOTEL, o JPM HOTEL, o VILA RICA e o
IDEALY HOTEL todos de 4 estrelas além de muitos outros de 2 e 3 estrelas
espalhados pelo bairro, assim como restaurantes de frutos do mar que é o
caso do BARGAÇO, Av. Boa Viagem nº 670, COSTA BRAVA, na Rua
Barão de Souza Leão nº 698 ou de cozinha internacional como o
“ADUARIUS” na Rua dos Navegantes nº 157, o “LE BUFFET”, na Rua do
Hospício n s 147-149 e o LE FONDUE na Av. Cons. Aguiar nº 3.500 e
outros de cozinha Italiana, Portuguesa, Japonesa e regional como “CASA
DE PEDRA” na Av. Boa Viagem, 4.520, DANADO DE BOM, na Rua José
Lopes e CASA MARINA na Av. Cons. Aguiar197.
Segundo Paulo R. M. Alves na década de 1970 “surge algún comercio en Pina y Boa
Viagem, cerca de la plaza de Boa Viagem, apenas dedicado a la venta de productos
alimenticios. Pero ese comercio de género alimenticio es el que conlleva el inicio de la
formación del comercio diversificado”. Mas como já se sabe, esse comércio de gêneros
196
SANTANA, Gisela Verri de. Habitação e vizinhança um estudo das relações sociais no espaço habitado
nos bairros de Boa Viagem e Casa Forte. Recife – Brasil. Dissertação de Mestrado da Universidade Federal de
Pernambuco. Recife, 1998. p. 76.
197
CAVALCANTI, op. cit. p. 113.
119
alimentícios surge desde 1958 com a constituição da feira livre na área da Praça de Boa
Viagem, e mesmo antes disso, a construção do hotel Boa Viagem, em 1954, trouxe para a área
do cartão-postal, uma rede de serviços, até então só disponível no centro da cidade.
O grande diferencial para as outras décadas reside na observação do expressivo
crescimento populacional por que passou Boa Viagem em 1970. Admitindo uma proporção de
habitantes mais do que duas vezes havia na década anterior, quando passou a contar com uma
população absoluta de 158.442 habitantes, significando o maior crescimento populacional
entre todos os bairros do Recife198.
A instalação de equipamentos urbanos e a oferta de serviços, também tiveram um
aumento significativo nesse período, com a implantação de supermercados, bancos, lojas de
decoração, restaurantes, agências de turismo, hotéis e butiques. Como exemplo dessa nova
realidade que se delineara, só em 1977, foram abertas 50 filiais de estabelecimentos no bairro
de Boa Viagem199 a fim de aproveitarem o mercado potencial de maior poder aquisitivo que
se constituía no bairro.
É nesse momento, quando Boa Viagem se consolida totalmente como bairro urbano,
que começaram a ser destruídos os palacetes erguidos para servir como casa de veraneio das
famílias mais abastadas do Recife a partir de 1922. Vivendas e palacetes que foram
arquitetados sob a medida dos recursos disponíveis entre os pernambucanos ilustres ou
emergentes, ávidos pelo uso daquele lado moderno da cidade. Dentre as construções que
resistiram ao tempo e aos ditames da produção do espaço, guiados pela especulação
imobiliária, poucos permaneceram intactos. Quando não foram demolidos para dar lugar a um
espigão, sofreram alterações para se adaptarem aos usos diferentes do residencial, ou como
casa de veraneio. Os casarões foram recoloridos, passaram a abusar da utilização do vidro e
da aclimatação através de condicionadores de ar. Desse modo, se transformaram em
restaurantes, clínicas, lojas de móveis e de roupas.
Ainda no final da década de 1970, começa a ser construído no bairro de Boa Viagem
um shopping de grande porte, que se beneficiou da existência de áreas disponíveis para
ocupação, também pela elevada renda média per capita apresentada pelos moradores e da
existência de infra-estrutura que permitia melhores condições de acesso ao bairro e ao novo
empreendimento.200
198
ALVES, op cit. p.94.
BARTHEL op. cit. p. 115.
200
PAIVA, Carla Souza de. O shopping center e produção de novas centralidades urbanas: o caso do
Shopping Center Recife. Recife. Mestrado em Desenvolvimento Urbano, 1996. Dissertação de Mestrado &
SANTANA, op. cit. p.110.
199
120
Nesse mesmo período, foram realizados alguns projetos urbanísticos, contemplando a
revitalização da faixa costeira. Como exemplo, foram colocados em prática o Plano de
Valorização Urbana, com objetivo de dotar Boa Viagem de uma variedade de equipamentos
urbanos e o Projeto Cura (Comunidade de Urbanização Acelerada) com a função de
impulsionar o potencial turístico de Boa Viagem, dotando o bairro de uma considerável rede
de hotéis, firmando-o, nos dizeres de José Batista dos Santos, como “ponto obrigatório de
turismo, zona de elegância, subúrbio dos mais luxuosos”201.
Essa nova fase de intervenção do Estado na promoção do espaço compreendido pelo
bairro de Boa Viagem, fez essa localidade ganhar outro novo e forte crescimento,
principalmente no que se refere à promoção imobiliária. Novamente o poder público atuou
investindo em infra-estrutura viária, possibilitando o aumento do fluxo entre Boa Viagem e
outras partes da região metropolitana que também cresciam. Assim se colocou em prática o
arrojado sistema viário que englobou a construção do viaduto Joana Bezerra, da Avenida
Herculano Bandeira e da Avenida Domingos Ferreira, que entre outros locais, ligaria Boa
Viagem ao bairro do Derby e à Cidade de Olinda.
Gisela V. de Santana, baseada em artigo publicado no Diário de Pernambuco202, revela
que em 1985 o preço do metro quadrado de área construída à beira mar de Boa Viagem
chegou a custar U$ 2.000. “Além disso, a lei em vigor na época (14.511/83), propunha um
coeficiente de aproveitamento do terreno que assegurava ao empreendedor um melhor retorno
de investimento do que o proporcionado em outras áreas da cidade”203.
Segundo a autora, ainda na segunda metade da década de 1980, o excessivo
adensamento contribuiu para o início de um processo de deflação do valor do metro quadrado
comercializado no bairro de Boa Viagem, ocasionado, entre outras questões, pela redução da
qualidade de vida em conseqüência da poluição e saturação da infra-estrutura204, atingindo
inclusive a paisagem do entorno da Praça de Boa Viagem, nesse instante reconhecido cartãopostal, nobilitado como Zona de Preservação Rigorosa (Z.P.R.).
No capítulo a seguir é realizada uma discussão sobre o papel da especulação
imobiliária como reprodutora da idéia de cartão-postal em benefício da agregação de valor ao
solo urbano e como um meio de promover a especulação. Ainda no rol do debate sobre a
promoção do espaço, citam-se algumas interferências do Estado, agindo como definidor das
201
SANTOS, João Batista. Pernambuco histórico-turístico-folclórico. s/e. 1989. p. 192.
Diário de Pernambuco – 02 de maio de 1990.
203
SANTANA, op. cit. 73.
204
No período em que a supra citada autora realizou seu trabalho, no ano de 1998, o preço do metro quadrado à
beira mar chegara a custar U$ 1.500.
202
121
formas da paisagem urbana. No cerne da questão do cartão-postal, aglutina-se o debate da
produção do espaço a alguns fatos que contradizem e desmascaram o movimento de criação
de imagens e idéias da cidade, tomando como foco do debate, a Praça de Nossa Senhora de
Boa Viagem.
122
Capítulo 3
Revelando frentes e decifrando outros lados
da Paisagem da Praça de Boa Viagem.
Viagem
Figura 24: Brasil turístico:Vista aérea da praia de Boa Viagem. Recife. Brascard [136-]. 1
cartão-postal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor.
123
3.1 Uma visão geral a partir da fachada panorâmica
do bairro de Boa Viagem
Como se sabe, o cartão-postal “foi imediatamente utilizado para fins publicitários”205
e mesmo antes da adoção da ilustração em um de seus lados, ele já havia se vinculado à
publicidade.206 Na medida em que os postais iam também fazendo sucesso por mostrar
ilustrações com panorâmicas das cidades em modernização, se tornaram um eficiente veículo
propagandístico da vida e do cenário urbanos. Quando ocorreu a redução da prática de
colecioná-los e de enviá-los pelos correios, a “febre” do cartão-postal já havia legado uma
preciosa herança dos seus dias de glória, deixando como testemunho, uma variedade de
paisagens as quais acabaram por assumir a própria aura do cartão-postal que continuaram a
ser registradas, reproduzidas e divulgadas através dos novos e diversos meios possibilitados
pelas inovações técnicas.
Assim, o cartão-postal assume um caráter de convite à viagem, mas se viajar, conhecer
os locais turísticos e, ter a chance de se deixar fotografar diante da paisagem de cartão-postal
é sinônimo de uma conquista apreciável, morar no próprio cartão-postal é verdadeiramente
um deslumbramento. Esse fascínio é muito bem conhecido e monitorado pelos promotores do
espaço urbano207, como se pode ver bem exemplificado através da propaganda imobiliária,
que abusa de ilustrações ao modo de cartões-postais, algumas vezes intitulando-a de “fachada
panorâmica”.
No contexto da propaganda imobiliária atual, a criação de uma imagem do imóvel é
imprescindível para a reprodução e capitalização do seu valor. Nesse sentido chama-se a
atenção para a idéia de que o estatuto de cartão-postal assumido por certas localidades atribui
status e concede evidência a esses isolados recortes do espaço urbano, agregando, dessa
forma, ainda mais valor de troca aos imóveis e ao solo. Por conseguinte, o espaço mantenedor
205
ROBERTO, Y. Os anos dourados do cartão-postal: catálogo da exposição – do acervo particular da autora
– Realizada no Itanhangá Golf Club. Rio de Janeiro: 1988. p. 20.
206
Sobre a adoção dos postais para fins publicitários antes da sua junção com a fotografia, Belchior (1996, p. 7)
destaca que “Entre a publicidade e o cartão-postal ocorreu um caso de amor a primeira vista. Quando este ainda
circulava sob a forma de inteiro postal, isto é, quando eram impressos somente pelos Correios dos países que o
adotaram, com uma face reservada para o nome e endereço e outra em branco, destinada a mensagem, os
cartões-postais passaram a receber neste último lado textos impressos ou manuscritos enviados firmas e seus
clientes, ou prováveis compradores, aos quais não faltam, por vezes, desenhos dos produtos oferecidos. Foi a
primeira fase da publicidade no cartão-postal.” BELCHIOR, op. cit. p.7
207
Os promotores do espaço urbano são os mesmo incentivadores da verticalização apontados por SOUZA op.
cit. e assinalados em: CORREA, Roberto Lobato. O espaço urbano. 4.ed. São Paulo: Editora Ática, 2003
124
do título de cartão-postal tende a se relacionar com essa sua representação sob uma
mutualidade que resulta em incitar o consumidor a desejar morar em um local privilegiado208.
Como maneira de estimular uma imagem dos lugares, no corrente caso, de um bairro,
é comum a propaganda imobiliária dar relevo aos elementos da natureza, adjetivando-os como
objetos próprios de uma ilustração de cartão-postal, oferecidos como mais um importante item
a ser apropriado pelo consumidor que compra um imóvel encarecido209. E como o solo,
através da especulação, tende a se tornar escasso, ao invés de se procurar outras áreas, tornase comum a construção sob o auspício da verticalização, fazendo surgir na paisagem, prédios
cada vez mais altos, em bairros como o de Boa Viagem, cada vez mais atribuído de elevado
valor de troca.
É interessante verificar que os conceitos de verticalização e de natureza acoplados à
paisagem urbana acabam por se encontrar com a noção de cartão-postal, por existir um limiar
bastante tênue entre a morfologia da paisagem representativa do status quo e a paisagem
“apropriada” a cartão-postal. Nesse contexto, o espaço produzido e tomado como um local
significativo da cidade, em termos de valoração econômica, ou como produto para a
especulação imobiliária, tem a forte tendência de requisitar o seu estatuto de cartão-postal.
Nesse movimento, o espaço urbano é atribuído de qualidades concedidas pela edificação de
símbolos e a partir da definição do desenho projetado para os recantos mais caros da cidade,
sendo esse desenho de cidade, reproduzido a fim de ilustrar a afirmação e a conquista de uma
tendência, que deve ser aceita pelo cidadão e comprada pelo consumidor210.
A citada verticalização causadora de forte impacto na paisagem urbana, para a
geógrafa Maria Adélia de Souza significa um resultado estratégico entre múltiplas formas do
208
Ver: BAUDRILLARD, Jean. A sociedade de consumo. Lisboa: Edições 70, 1995.
“Reclus (1886) coloca duas formas de apropriação da natureza pelos empreendimentos imobiliários: uma
direta e outra indireta. A apropriação da natureza, cada vez mais artificial, dá-se, como exemplo, nas costas
marinhas, nossos mais pitorescos penhascos e nossas mais charmosas praias, em muitas localidades,
monopolizada tanto pelos invejosos proprietários ou pelos especuladores que apreciam a beleza da natureza, em
muitas vezes, na mesma forma como um ‘cambista’ valora a barra de ouro. Em badalados lugares nas montanhas
uma similar forma de apropriação toma possessão dos habitantes: a paisagem é totalmente cortada em quadros e
vendidas em altas ofertas; casa curiosidade natural, a rocha, a caverna, a cachoeira, o glacial, tudo que faça o
som de um eco, pode tornar-se propriedade privada.” HENRIQUE, Wendel. O direito à natureza na cidade:
ideologias e práticas na história. Rio Claro: UNESP, 2004. Tese de Doutoramento em Geografia. p. 127.
210
Sobre a oposição entre cidadão e consumidor Milton Santos destaca: “O consumidor não é cidadão. Nem o
consumidor de bens materiais, ilusões tornadas realidades como símbolos: a casa própria, o automóvel, os
objetos, as coisas que dão status. Nem o consumidor de bens imateriais ou culturais, regalias de um consumo
elitizado como o turismo e as viagens, os clubes e as diversões pagas; ou de bens conquistados para participar
ainda mais do consumo, como a educação profissional, pseudo-educação que não conduz ao entendimento do
mundo.” Santos, Milton. Espaço do Cidadão. São Paulo: Nobel, 1987. p. 41.
209
125
capital a fim de produzir o espaço urbano211, lançando imagens como essa do cartão-postal
(Figura 24), em que se tem bem enquadrado a distinção das localizações, delimitadas tanto
pela proximidade dos elementos naturais como pelos implementos organizados para melhor
servir a área. O postal, nesse sentido, é o exemplo de onde se deve está, onde morar, aonde ir.
Figura 25: Brasil turístico:Vista aérea da praia de Boa Viagem. Recife. Brascard [128-]. 1
cartão-postal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor.
A verticalização é uma altiva realidade na parte sul da cidade do Recife, onde se
encontra o bairro de Boa Viagem, tomando-se como marco do processo urbano nesse trecho
da cidade, a construção do Hotel Boa Viagem. Como frisado no capítulo anterior, o hotel
ficava localizado vizinho à Praça Salgado Filho (atual Praça Nossa Senhora da Boa Viagem) e
foi inaugurado no mês de outubro de 1954, abrindo um novo período onde foram absorvidos
os conceitos de construção pautados na verticalização. Por muitos anos, o hotel foi símbolo da
modernidade que chegara aquele dito “subúrbio balneário”. Contudo, recentemente, no mês
211
A articulação estratégica a que a autora se refere se dá entre os capitais “fundiário, produtivo, imobiliário e
financeiro. SOUZA, Maria Adélia A. de. A identidade da metrópole: a verticalização de São Paulo. São Paulo:
Hucitec. Edusp, 1994. p. 135.
126
de junho de 2007 ele foi demolido, para dar lugar a dois grandes edifícios residenciais.
Fenômeno que é na verdade, um choque para o observador da paisagem, para quem via nesse
hotel uma referência espacial e mesmo para quem em visita à cidade se depara com a
sobreposição de um edifício de 32 andares onde ficava o hotel Boa Viagem.
Mas tudo parece acontecer muito rápido, o tempo que edifica e destrói os elementos
da paisagem, dando-lhe outra feição, não dá chance para um último olhar, como atesta a Sra.
Graça, moradora do bairro que declarou ter recolhido algumas assinaturas para que se
preservasse o prédio mais antigo do Hotel Boa Viagem, apesar disso, o desejo de se levantar
dois espigões foi mais veloz, mais atroz, do que essa vontade que o citadino tem de manter as
paisagens e os monumentos da cidade, e de revê-los por uma última vez. Chance melhor
certamente teve o Sr. José Cláudio que trabalhou entre os anos de 1977 e 1987 no
almoxarifado do Hotel Boa Viagem e que só deixou de trabalhar lá quando conseguiu outro
emprego, em um prédio logo atrás do hotel, onde vinte anos depois, ainda trabalha. O Sr.
Cláudio é testemunha do período quando o hotel era bastante procurado. Segundo ele, “era
um tempo bom, o hotel sempre lotado, era o melhor hotel, depois vieram os outros [...] aí foi
ficando pra traz”212.
3.2 A especulação imobiliária no espaço cartão-postal
O artifício de promover o espaço urbano incute, no cidadão, a necessidade de morar no
local mais valorizado ou distinto, no contexto da cidade. Assim, o cidadão passa a ser atraído
sob diversas maneiras, dentre elas, através da apelação à intitulação dos lugares, como nesse
caso, à idéia de um bairro que seria também um cartão-postal. Todavia ao apropriarem-se do
lugar onde passam a habitar ou transitar, e transformá-lo como espaço de sua vivência, o
cidadão tende a se deparar com outras faces de sua vizinhança que só mesmo a rotina diária,
de entrar e sair de casa, de ir à padaria, ao supermercado, à praça, ao ponto de ônibus, à praia,
ao restaurante ou à feira, é que permitem a visualização e decifração de práticas exercidas,
mas estrategicamente ocultadas.
Um espaço cartão-postal pode declarar diferentes imagens, distintos conceitos e
evocações. No caso do bairro de Boa Viagem, no decurso de sua formação enquanto cartãopostal, destaca-se que ele incorporou pelo menos três importantes concepções: a de subúrbio
balneário, o de núcleo de modernização e a de espaço ultravalorizado.
212
Entrevistas concedidas em 10/06/2007.
127
Desse modo, Boa Viagem já foi cartão-postal por causa de suas belas paisagens
naturais, por causa da presença de uma praia de águas calmas e mornas, do extenso coqueiral
e da tranqüilidade que atraía as famílias a tomar os banhos salgados.
Boa Viagem já foi cartão-postal por ser um ótimo local para veraneio, dispondo de
boas residências à beira mar para esse fim. Com o acesso permitido pela instalação dos
serviços de bondes e da abertura da Avenida Beira Mar, Boa Viagem mostrava-se como
interessante e maravilhoso cartão-postal do Recife, onde se reuniam nos meses de verão as
famílias e a rapaziada a fim de se conhecer, jogar vôlei, fazer lual e paquerar.
Atualmente, Boa Viagem é cartão-postal por mostrar uma “fachada aérea” repleta de
grandes edifícios e caríssimos apartamentos, servidos por amenidades como as águas mornas
do Atlântico. E permanece cartão-postal, mesmo com a presença marcante nos seus
logradouros, da população sofrendo com a exclusão social.
A “fachada aérea” típica do cartão-postal, bem absorvida pela propaganda imobiliária,
por um lado destaca alguns elementos que porventura encarece o imóvel e o solo, mas por
outro, deixa de mostrar a exclusão social ocorrida do lado de fora dos grandes edifícios,
presente na pracinha, na margem do canal ou na areia da praia e destacada pela a existência de
mendigos, prostitutas e crianças cheirando cola.
Nas figuras (24 e 25) se têm ilustradas a “fachada aérea” e a varanda, divulgadas pelo
empreendimento imobiliário em construção onde ficava o hotel Boa Viagem, bem ao lado da
Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem. Pode-se notar na Figura 24, o prédio mais antigo do
hotel preservado, mesmo com a construção do novo edifício, mas na verdade ele também foi
demolido213.
Figura 26 e Figura 27: Fachada aérea e varanda do Edifício Luiz Dias Lins da construtora
Queiroz Galvão, em construção no local onde existiu o Hotel Boa Viagem, ao lado da Praça de Nossa
Senhora da Boa Viagem. Fonte: <http:// www.queirozgalvao.com.br_incorporacao> (no destaque,
Hotel Boa Viagem).
213
Ver destaque.
128
Sobre o processo de especulação imobiliária ocorrido em Boa Viagem, é
interessantemente observar que os próprios moradores do bairro podem ser classificados
como um dos seus principais críticos. Esse incômodo sentido pelos habitantes se encontra
bem exemplificado em alguns relatos divulgados no sítio da antiga Associação dos Moradores
e Amigos de Boa Viagem (AMABV), como mostram os comentários de alguns moradores
que entraram em contato com a associação:
Sou nascido e criado aqui, viajo muito, acho deplorável a voracidade das
construtoras, impondo a estupidez de espigões com 25-30 andares,
desnecessários ao Recife. Casa Forte já conseguiu controlar essa
especulação. Em terrenos limitados, tais edificações são cruéis, embora um
belíssimo negócio para construtoras: Trocam terreno por área construída,
pegam financiamento fácil e começam a vender unidades ainda na planta investindo quase nada, um caminhão, uma jamanta de dinheiro fácil!!! Os
moradores mais antigos é que se lascam. São centenas de famílias novas, a
virem brigar pelos precaríssimos fornecimentos de água podre da Compesa,
de energia da ex-Celpe, de linhas telefônicas da ex-Telpe, centenas de novos
elevadores a dificultar o precário atendimento dos fabricantes. Terrível é a
fase inicial de bate-estacas e fundações, o barulho infernal, durante alguns
meses. Estou sofrendo isso tudo, agora, com três espigões da Queiroz
Galvão próximo de onde moro ! Nythamar de Oliveira214.
Um outro morador também em contato com a AMABV relatou sua indignação com o
relato proferido pelo então presidente da Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de
Pernambuco, assim o morador escreveu:
Estou até agora indignado com a entrevista do novo presidente da
Ademi/PE, José Antônio de Lucas Simón, publicada no Diario de
Pernambuco, dia 14 de maio. Entre outras asneiras, o presidente da
Associação das Empresas do Mercado Imobiliário de Pernambuco declarou
que "a gente tem que esquecer essa idéia de cidade bucólica e tranqüila,
porque o Mundo saiu dessa idéia". É uma das frases mais infelizes que li nos
últimos anos. É a confissão declarada de culpa dos construtores do Recife
pelo caos urbano, adensamento habitacional, trânsito caótico, isolamento
social das pessoas, derrubada de árvores e outros crimes sociais e
ambientais, ocorridos nas últimas três décadas. Se as associações de
moradores das Graças, Casa Forte, Boa Viagem e outras mais tinham que
identificar um inimigo público pelos problemas que os bairros enfrentam,
encontraram no representante da categoria dos empresários da construção
civil, ou seria melhor dizer "os destruidores do verde e dos patrimônios
históricos do Recife". Arnaud Mattoso215
214
Declaração do morador Nythamar de Oliveira. Disponível em: <http://www.amaboaviagem.hpg.ig.com.br>.
Acesso em: 10 de junho de 2007
215
Declaração de Arnaud Mattoso. Disponível em: <http://www.amaboaviagem.hpg.ig.com.br>. Acesso em 17
de abril de 2006.
129
Mas um desabafo bastante contundente, e que teve mesmo aprovação, segundo
algumas comunicações publicadas pela AMABV, foi publicado no Jornal Folha de
Pernambuco, em artigo do então presidente licenciado da associação dos moradores Sr.
Adroaldo Figueiredo. No seu relato pode-se destacar problemas apontados que já foram
resolvidos, ao menos sob o ponto de vista dos moradores de Boa Viagem, como a questão do
transporte clandestino, que foi determinantemente proibido de circular no bairro. O texto do
senhor Adroaldo intitula-se “A desilusão em Boa Viagem”:
Já vai de longe o tempo em que morar em Boa Viagem era uma opção
acertada e tranqüila. Lixo, falta d’água, mendicância, assaltos, trânsito
caótico, prostituição na porta de casa, exploração comercial, aglutinação
urbana são uma das pontas do aicibergue que andam correnteza abaixo no
Bairro “Classe A” do Recife.
Com o policiamento escasso e mal distribuído é quase impossível ir a
padaria, supermercado ou farmácia a pé e voltar com o relógio, pulseira ou a
carteira. O trânsito sempre engarrafado, barulhento e ainda mais tumultuado
pelos “parasitas” que estão tomando posse das nossas ruas com os
transportes clandestinos. Calçadas e ruas esburacadas e tomadas por
automóveis, comércio ambulante por toda parte, já não são mais novidade.
Prostituição ao meio-dia e dia inteiro, e tudo sadomizado com hotéis de alta
rotatividade, que hoje fazem parte da paisagem do Bairro.
Na avenida Boa Viagem, além da vista para o mar, os moradores são
obrigados a conviver com um farto calendário de festas na orla, além de nos
intervalos entre elas, agüentar a “fuzaca” de filhinhos de papai tudo regado a
cerveja e espetinho, pegas de carros e motos envenenadas, pichações e um
vocabulário nada decente da galera que troca o dia pela noite e impede que
os moradores do afamado Bairro se arrisquem a sair de suas prisões de luxo
após ás 22:00h.
Quanto ao fim de semana é melhor arranjar outro programa que o de
freqüentar a praia do Bairro, tomada por ambulantes e a sujeira (o maior
banheiro público do Estado). Mais prudente é seguir rumo as praias do litoral
norte ou sul, mesmo porque nesses dias o líquido precioso (h²O) some das
torneiras e tem que ser importado em carros pipa, que fornecem água, nem
sempre, de procedência segura, é o drama de quem mora em Boa Viagem.
Pagar o mais caro aluguel, a mais cara prestação, o mais caro imposto
predial, o maior custo de vida e a menor tranqüilidade da paróquia. Estão aí
os arrastões que não me deixam mentir, pois já fazem parte do postal da
“doce” Boa Viagem,[grifo nosso] hoje tão amarga quanto o acre exalado
dos montes de lixo esquecidos ante as calçadas dos espigões, na maioria
deles com suas fossas estouradas, em simbiose com os desafortunados
catadores de lixo, que buscam no entulho o pão do sofrido dia. É a miséria
convivendo palmo a palmo em meio a selva de concreto erguida as margens
da atlântica praia poluída de Boa Viagem.216
Nesse artigo o autor ainda cita uma pesquisa realizada pela AMABV, com uma
amostragem de 500 consultas, tendo como resultado que pelo menos 60% dos entrevistados
manifestaram interesse em se mudar do bairro, devido às distorções observadas da qualidade
216
FIGUEIREDO, Adroaldo. Folha de Pernambuco. Cidadania 30/08/2002. A desilusão em Boa Viagem
130
do uso do bairro. O autor apontou como um principal problema, a realização do Recifolia,
mas essa questão também já foi resolvida, com a proibição do evento na orla do bairro, fato
que chama a atenção para outras problemáticas citadas como a questão do trânsito, da
prostituição, da violência e da mendicância.
Mais recentemente a especulação imobiliária deu uma surpreendente amostra de sua
vontade de fazer encarecer o metro quadrado comercializável do bairro de Boa Viagem. O
alvo dessa vez foi o entorno do futuro Parque D. Lindu, que será alocado entre a Avenida Boa
Viagem e a Rua Setúbal, a algumas quadras da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem.
Alguns corretores estavam usando ilustrações de falso projeto do arquiteto Oscar Niemeyer
para valorizar imóveis localizados nas proximidades do futuro parque (Figura 25). “A
ilustração que carrega a logomarca da prefeitura do Recife revela a existência de um viaduto
da Avenida Boa Viagem, que irá possibilitar a extensão de parque por baixo do viaduto até a
areia da praia e ainda um túnel na Rua Setúbal, no trecho que vai ser anexado ao parque”217.
A prefeitura e o escritório do arquiteto Oscar Niemeyer desmentiram imediatamente a autoria
do projeto. O verdadeiro projeto só foi divulgado no dia do aniversário da Cidade do Recife
em 12 de março de 2007.
Figura 28: Projeto circulado de um futuro cartão-postal do bairro de Boa Viagem, o Parque D. Lindu.
Fonte: Diário de Pernambuco. 28 de fevereiro de 2007.
217
Diário de Pernambuco. Vida Urbana. 28 de fevereiro de 2007.
131
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Fonte: Carta de Nucleação Centro Departamento de Informações Municipais da Fundação de Desenvolvimento Municipal - FIDEM
SEPLANDES Secretaria de Planejamento e Desenvolvimento Social - Pernambuco - 2007
132
A especulação imobiliária pode ser entendida como uma característica do lado reverso
do cartão-postal, pois é um fenômeno que ao mesmo instante em que evoca atenções por parte
do consumidor, mascara o entorno. Mascara o lado nefando da realidade. Do ponto de vista
do consumidor, um grande prédio pode significar um belo símbolo de status, sob a visão do
morador esse mesmo grande prédio pode não passar de mais um elemento descaracterizador
da paisagem mais original do bairro. Além disso, através da forma de ver de algumas classes
menos favorecidas, esse prédio, pode constituir-se em um bom ponto para se instalar uma
barraca para se vender frutas, ou então para se pedir esmolas, ou ainda para se cometer algum
furto.
Quem compra um apartamento em um bairro como o de Boa Viagem, deve saber que
morar no cartão-postal é também viver e ver diariamente uma paisagem de contraste, de um
lado os altos e caros edifícios, do outro, o grande número de pessoas que tenta sobreviver nas
ruas e praças. A conflitante paisagem delineia os rumos da cidade e em meio à propaganda
imobiliária nos jornais, se lê a notícia emblemática da contradição exposta no dia-a-dia de um
bairro considerado elitista: “Morreu, ontem, o universitário de 21 anos baleado, domingo, em
assalto durante partida de tênis, na orla de Boa Viagem. Mais esse homicídio expõe falhas no
policiamento do cartão-postal da cidade. Moradores e visitantes sentem na pele a
insegurança”.218
Ao visitar a Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem, um observador um pouco mais
atento poderá destacar na paisagem, situações que demonstram alguns contrastes assumidos
pelo bairro, que se chocam com algumas fases de sua história enquanto cartão-postal e em
especial, com sua situação mais atual, assumida após a década de 1965, quando passou a
ostentar o ícone de bairro mais valorizado da cidade. Mas o mesmo observador também
poderá se deparar com uma paisagem recheada de significado histórico, impregnado nos seus
monumentos.
Esses mesmos significados podem ser destacados via cartão-postal impresso,
possibilitando visá-los no decorrer do tempo e acompanhar a organização do espaço e a
preservação dos elementos que o formam e lhe dão sentido.
218
Jornal do Comércio. Primeira página. 21 de novembro de 2006.
133
3.3 Em busca da datação de cartões-postais da Praça de Boa Viagem
Como relatado no capítulo anterior, a confecção de cartões-postais ganhou novo
fôlego no mundo, a partir da década de 1960. Porém essa pesquisa constatou que os postais
com imagens do bairro de Boa Viagem são mais facilmente encontrados a partir da década de
1970, mesmo período em que foi implantado uma série de projetos urbanísticos, com recursos
públicos, que tiveram grande importância para o desenho da paisagem do bairro.
Portanto, a coexistência do beneficiamento da técnica de impressão à ofsete, junto com
a disponibilidade do Estado em dotar o bairro de Boa Viagem de equipamentos urbanísticos
numa escala de tempo cada vez menor, possibilitou legar à posteridade um bom acervo de
cartões-postais, com as mudanças ocorridas nessas últimas três décadas do século XX e
primeiros anos do século XXI.
Percebe-se que os fotógrafos e os editores de cartões-postais, demonstraram maior
motivação por registrar e continuar registrando determinados recortes de paisagem, buscando
com freqüência, valorizar ângulos previamente selecionados do bairro de Boa Viagem, como
a praia, a avenida, os edifícios, a igreja e a praça, que são os temas mais comuns.
De posse de um acervo de cartões-postais que revela as transformações por que passou
a praça, a partir da década de 1970, é possível distinguir ou identificar algum processo que
não se revela espontaneamente, que permite datar os cartões-postais e também demonstrar
alguns fatos e conflitos ocasionados no contexto da evolução do espaço, em função da
preservação de sua paisagem. Para isso, é necessário revelar alguns elementos da paisagem
através de variadas informações, para justapor coerentemente esses cartões-postais
reveladores de diferentes tempos.
O cartão-postal da (Figura 29), fotografado no final da década de 1970, mostra a Praça
de Boa Viagem figurando os traços do projeto desenhado pela arquiteta Gilda Pina (19601970). Entre os elementos que se destacam, percebe-se a presença de um componente
aquático na praça, localizado por atrás da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem. Várias
pessoas entrevistadas no decorrer da pesquisa e que vivenciaram a Pracinha de Boa Viagem
na década de 1970, comentaram sobre a existência de um tanque na praça, onde se criavam
tartarugas e para onde se levava as crianças para vê-las. O viveiro das tartarugas é uma das
referências que identifica a praça para alguns usuários desse período.
Uma prática que é também referência da praça no período em que esse postal foi
confeccionado é a ciranda, que segundo a Senhora Vera, vendedora de acarajé da Praça de
134
Boa Viagem, acontecia na parte da frente da praça, sempre aos sábados e domingos e quem
patrocinava o evento era a Prefeitura Municipal. Antes de começar a ciranda, um forrozeiro
contratado pelos próprios feirantes animava a praça, o forró começava por volta das 20h e
encerrava quando começava a ciranda que se prolongava até às 22h ou 22:30h. Ainda segundo
a senhora Vera, muitos turistas procuram saber da ciranda: “As pessoas que vem de fora
procuram muito a ciranda, quando chegam aqui sabem nem dizer o nome - aquela dança que
tem todo mundo segurando nas mãos – eu digo é a ciranda, não tem mais [...]”. E além da
ciranda, lembra a senhora Vera que havia mais diversão para as crianças, que podiam ver um
jacaré que era criado no interior da praça ou podiam andar num “burrinho” de um senhor que
circundava o local. 219.
Figura 29: Brasil: Praça e Igreja de Boa Viagem – Recife. São Paulo. Edicard. [700-58]. 1 cartãopostal: color. Fonte: Acervo Doralice S. Maia
O ângulo escolhido pelo fotógrafo, além da igreja e da sua praça, revela o entorno em
transformação, com edifícios e futuros hotéis em construção, como se pode destacar da
construção do segundo prédio do hotel Boa Viagem, no discreto detalhe à direita e das bases
do Fator Hotel, com a armação em ferros dos pilotis à mostra. A pouca densidade de prédios
verticalizados, permitia um melhor acesso à paisagem da linha de praia, pois o número de
219
Entrevista concedida em 2/03/2007.
135
casas era mais expressivo, assim a areia e a espuma formada pelas ondas do mar se estendia
num campo de visão mais extenso. À esquerda da foto, um prédio em construção chama a
atenção por se impor como o mais alto do entorno à época com 15 pavimentos, é o Edifício
Cidade Sul que teve a autorização da Prefeitura para ser construído no ano de 1979.
A confecção desse cartão-postal também exemplifica as ações empreendidas pelo
Estado através do Plano de Valorização Urbana de 1974, realizado com recursos do Banco
Nacional de Habitação (BNH). Dentre os trabalhos executados citam-se o alargamento da
Avenida Boa Viagem e o asfaltamento de 23 ruas no bairro, a arborização da orla e a
instalação do parque no pátio da igreja da Boa Viagem. Alguns anos depois, em 1977, foram
realizadas remoções de mocambos que ocupavam as margens do Canal de Setúbal220.
Na década de 1980 a pracinha ganha mais notoriedade, com a criação do decreto que
instituiu a inclusão da Igreja e da Praça Salgado Filho221, como Zona de Preservação Rigorosa
(Z.P.R.). Esse projeto recomendava a “preservação das características essenciais da matriz,
garantia da Praça Salgado Filho como domínio útil e exclusivo da matriz: desapropriando as
edificações existentes localizadas sobre a mesma”222. Desse modo, o decreto nº. 11.617 de 10
de julho de 1980, sancionado pelo prefeito Gustavo Krause ditou as seguintes normas
concernentes à Igreja e Praça de Boa Viagem:
Art. 1º - Fica instituída a Zona de Preservação Rigorosa constituída pelo
Sítio Histórico da Igreja de Nossa Senhora de Boa Viagem, classificado pelo
Plano de Preservação dos Sítios Históricos na categoria de “Edifícios
Isolados”.
Art. 2º - A Zona de Preservação Rigorosa – ZPR, que constitui o referido
Sítio, está delimitada pela planta 21/31 do PPSH, integrante deste Decreto, e
pela descrição do seu perímetro, conforme mapa na escala de 1: 2.000, cujo
perímetro estende-se à partir do ponto nº. 1, cruzamento do eixo da Rua Dr.
Nilo Dornelas câmara; deflete à direita, segundo o eixo desta rua, até atingir
o ponto nº. 3, no cruzamento com o eixo da Av. Boa Viagem; deflete à
direita, seguindo o eixo da Avenida, até o cruzamento com o eixo da Rua
Barão de Souza Leão, onde atinge o ponto nº. 4; deflete à direita, seguindo
este eixo, até atingir o ponto nº. 1, fechando assim o poligonal que define o
perímetro da área em apreço.
Art. 3º - Todas as intervenções na área interna à poligonal que define a ZPR,
deverão objetivar a restauração e/ou conservação da Igreja a qual deverá ser
única como edifício da ZPR.
§ único – É declarada “non aedificandi” toda a área restante do Sítio,
devendo ter a mesma, tratamento paisagístico.
Art. 4º. – Este Decreto entra em vigor na data de sua publicação.
Art. 5º. – Revogam-se as disposições em contrário.223
220
GOMES. op. cit. p. 274.
Referindo-se a Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem.
222
Decreto Municipal nº. 11.617 de 10 de julho de 1980.
223
Ibid.
221
136
Em 1985 Lúcia de Fátima M. M. Lima desenhou um projeto que previa uma grande
reforma da Praça de Boa Viagem, com a instalação de um play graund no lado da praça mais
próximo da Av. Boa Viagem. Essa área de lazer para crianças, teria gangorras, escorregos,
escada lateral, labirinto, balanços, remo-remo, carrossel e o piso que seria de areia de praia. A
arborização seria constituída de violetas, papoulas, coqueiros, bromélias, yurcas, agave,
amendoeiras, palmeira imperial e lírios do brejo. Todavia, o tanque com as tartarugas não
estava apresentado no projeto. O projeto concebia uma área para apresentações folclóricas e
previa a disposição de um estacionamento na parte posterior da praça, em torno das casas ali
existentes.224
Desde a década de 1970, a praça era conhecida pela presença da feira hippie que, era
uma feira mais simples onde os hippies vendiam o artesanato, sentados no chão da praça.
Segundo Sr. Gutembergue, proprietário de uma farmácia no local, os hippies deixaram de
freqüentar mais a Praça de Boa Viagem e migraram para a Cidade de Olinda. Ainda de acordo
com as lembranças do comerciante, que se interessa e coleciona algumas fontes históricas
sobre a Praça do Circular, além dos hippies, ele recorda de uma pessoa que vendia pastéis
numa Kombi, era o conhecido pastel do japonês.
Entre os anos de 1986 e 1988, já durante a gestão do Prefeito Jarbas Vasconcelos
coloca-se em prática o Projeto Cura-Beira-mar, quando foi “viabilizado tratamento
paisagístico para a orla marítima, implantados chuveiros públicos, reservatórios, etc”225. Em
1988 a prefeitura articulou um acordo para a reforma da Praça de Boa Viagem, prevendo a
transferência da feira de artesanato pra o interior da praça. O acordo foi expresso em
documento no dia 15 de junho desse ano e teve representação da Secretaria de Ação Social,
dos artesãos da Feira de Artesanato da Praça de Boa Viagem, da Fundação de Cultura da
Cidade, dos feirantes da Feira de Artesanato da praça e do Grupo de Moradores e Amigos da
Praça da Boa Viagem.
De acordo com o referido documento, a reforma seria realizada em duas fases, a
primeira compreenderia a parte à direita da praça, ao lado, como se referiu o documento, da
Av. Consellheiro Aguir226, enquanto as obras estivessem em andamento naquela parte da
praça, as feiras ocupariam a parte à esquerda da igreja, de frente à Av. Boa Viagem. Após o
224
LIMA, Lúcia de Fátima M. M. Praça do Circular de Boa Viagem: Planta de marcação e vegetação. Recife:
Prefeitura da Cidade do Recife. Secretaria de Transportes Urbanos e Obras. Empresa de Obras Públicas da
Cidade do Recife. Deptº. de Projetos e Controle Tecnológico. Divisão de Construção Civil, 1985.
225
GOMES, op. cit. p. 275.
226
Atualmente esse trecho é denominado de Rua Setúbal.
137
término da pintura do lado direito da praça, a feira passaria a ocupar definitivamente aquele
trecho.
A segunda fase da reforma se daria com a interferência na frente da praça, onde depois
de concluída, não deveria mais abrigar as Feiras de Artesanato e se destinaria apenas ao “lazer
comunitário moderado” de modo que não viesse acarretar a deterioração dos equipamentos e
jardins e nem provocar incômodo sonoro aos residentes na orla da praça. À prefeitura caberia
a fiscalização rigorosa para coibir a invasão permanente ou periódica de vendedores
ambulantes ou barraqueiros.
Em 1989, quando o Prefeito Joaquim Francisco assume o segundo mandato, dá curso
ao projeto de revitalização do Canal de Setúbal e ao Projeto Cura-Beira-mar227. Foi
justamente em 1989 quando foram constatadas algumas divergências entre a população e a
prefeitura sobre os direcionamentos dados à Praça de Boa Viagem, com as reformas e com o
disciplinamento do seu uso.
Em maio de 1989 foi enviado pelo Diretor-executivo Roberto José Marque Pereira,
um ofício ao então Presidente da URB na época, Roberto Andrade, para providenciar um
novo projeto, pelo fato da permanência da Feira de Artesanato na parte da frente da Praça de
Boa Viagem228. O referido ofício passou pela apreciação de vários responsáveis pela execução
das obras, como constatado nas notas manuscritas no verso do documento. Entretanto, quem
se manifestou de uma maneira mais completa e formal foi a arquiteta Elza Maria Ferreira, que
através de um documento em resposta ao oficio nº. 272/89, concluiu a partir de sua análise
técnica, que a permanência da feira na frente da igreja traria prejuízos tanto aos cofres da
prefeitura, quanto para a comunidade229.
Mas, em 19 de setembro do mesmo ano, outro ofício foi circulado entre o Diretorexecutivo Roberto José Marque Pereira, e o Presidente da URB, Roberto Andrade, em que o
primeiro relata que fora realizada uma reunião com os feirantes para informá-los que a feira
iria ser alocada na parte anterior da praça, fato que, segundo consta no ofício, não foi
positivamente acolhido pelos feirantes nem pelo Prefeito Joaquim Francisco, o qual sugeriu
acomodar as 60 barracas de comidas típicas na parte anterior da praça e as outras 160 no
segmento posterior230.
227
Ibid. p. 275.
Prefeitura da Cidade do Recife. Fundação de Cultura Cidade do Recife. Ofício nº. 272 de 24 de maio de
1989.
229
Projeto de Restauração da Praça de Boa Viagem. Análise técnica referente ao ofício nº. 272 de 24 de maio
de 1989.
230
Prefeitura da Cidade do Recife. Fundação de Cultura Cidade do Recife. Ofício nº. 565 de 19 de setembro de
1989.
228
138
Nesse mesmo ano de 1989, Frederico Pernambucano de Mello, então presidente do
Grupo de Moradores e Amigos da Praça da Boa Viagem, escreveu no Diário de Pernambuco
um artigo com o título “Na pracinha de Boa Viagem”, atinando para a importância histórica
dos monumentos ali existentes.
Li na coluna de João Alberto do dia 20 último que a prefeitura do Recife,
pela sua Secretaria de Ação Social, vai riscar a praça da Boa Viagem do
mapa da cidade, transformando-a num centro de comércio turístico a céu
aberto, com duzentas barracas para a venda de utensílios variados. Diz a
matéria, textualmente: “A feira se transformará num ponto de partida para o
desenvolvimento de um projeto que tem como objetivo transformar a praça
de Boa Viagem num ponto turístico”.
O chamado Terminal da Boa Viagem – como tenho insistido em vários
pronunciamentos pela imprensa nos últimos anos – é o chão mais sagrado
que há em nosso bairro [...]
Nada se impões mais à preservação, ao tratamento paisagístico e ao
ajardinamento de alce, que esses palmos generosos de terra, espécie de
capitólio a céu aberto sobretudo para os que, como eu, residem no bairro
desde menino [...]
A Prefeitura deve apoiar o comércio turístico, é certo. Mas nunca às custas
da extinção de uma praça. De qualquer praça, mesmo que não desfrute da
condição inquestionável de patrimônio histórico e artístico de que se orgulha
a praça da Boa Viagem. Praça tem que ver com o verde e o desfrute de
todos, não com barracas para o comércio privado de uns poucos. Não é pátio
da feira. Não pode sê-lo numa cidade que se ressente dramaticamente de
verde e ainda mais de civilização, como é o Recife. Permitir que se destrua, a
qualquer pretexto, o patrimônio histórico, é fomentar a barbárie. No Recife,
um pretexto tem estado sempre por trás das ações destrutivas, confundindose com o cabo da picareta [...]. O incentivo ao turismo – razão, em tese,
respeitável – aparece deformado em pretexto do dia. O biomo pretensamente
social que se ergue para encobrir novo golpe na memória da nossa cidade.
[...]
O grupo de Moradores e Amigos da Praça da Boa Viagem, que tenho a
honra de presidir, vem à luz para patentear que se opões, respeitosamente, a
qualquer medida que não diga respeito à restauração do logradouro, com o
retorno dos jardins outrora floridos e, acima de tudo, com a devolução do
respeito cívico que todo espaço germinal faz por merecer. Entendermos, os
do Grupo, que é pela postura civilizadora, mais que pela ação material, que
se há de legitimar o poder público. Frederico Pernambucano de Mello –
Recife.231
O artigo de Frederico Pernambucano de Mello gerou outros textos como resposta de
apoio, entre eles, um que recomendava a desapropriação e demolição de um restaurante e de
quatro lojas na área da praça232, projeto que a prefeitura resolveu levar a cabo, como consta
231
232
Diário de Pernambuco. Na pracinha de Boa Viagem. 26/11/1989
Diário de Pernambuco. Explode Coração. 03/12/1989.
139
em ofício datado de 08 de janeiro de 1990, destinado à moradora da Praça de Boa Viagem
Djanira de Souza Beirão233.
As obras da praça que estavam em andamento foram paralisadas por causa do impasse
da alocação da Feira de Artesanato, enquanto isso, um grupo de moradores encaminhou um
abaixo-assinado ao Prefeito Joaquim Francisco Cavalcanti, sugerindo que se deixasse livre
para o uso da população a parte da frente da praça e que se preservasse a feira no interior da
praça, no trecho entre a igreja e a Rua Setúbal234.
Dias antes de encaminharem o abaixo-assinado, as reivindicações realizadas pelos
moradores já haviam sido contempladas pelo Ofício nº. 003/90, mas uma Nota de 6 de
fevereiro235, do Gabinete do Prefeito, comenta que as obras estavam paralisadas e que se
fazia necessário agilizar as decisões, inclusive as ditadas pelo próprio.
Figura 30: Brasil turístico: Praça e Igreja N. Sra. Da Boa Viagem. Recife. Litoarte. [004-]. 1 cartãopostal: color. Fonte: Acervo do autor.
233
Prefeitura da Cidade do Recife. Secretaria de transportes urbanos e obras. Departamento de Ecologia.
Ofício nº 003 de 08 de janeiro de 1990.
234
Abaixo-assinado de 11 de janeiro de 1990.
235
Prefeitura da Cidade do Recife. Gabinete do Prefeito. Nota nº. 01/90.
140
Junto à nota, estava um croqui apontando o posicionamento das barracas do lado
esquerdo da igreja. A 08 de março de 1990, uma nota de rotina esclarece que a Fundação de
Cultura da Cidade do Recife negociou a divisão da feira, colocando 67 barracas no espaço
intermediário da praça236, assim a reforma da praça foi finalmente concluída, com detalhe da
implantação do gradil, previsto no Ofício nº 003 de 08 de janeiro de 1990 (Figura 30).
Durante o período em que se debateu o projeto de restauração da Praça de Boa
Viagem, novos edifícios residenciais e hotéis foram surgindo no seu entorno e a
funcionalidade de alguns equipamentos ali existentes ganharam outros direcionamentos,
sobretudo, a partir da constituição da Praça como ponto turístico. Desse modo, durante a
década de 1990, destaca-se a presença de boates de strip-tease e cabarés ligados ao turismo
sexual e ao tráfico de drogas, responsáveis pelas distorções de uso e “má fama da Pracinha de
Boa Viagem”.
Em outubro de 1993, para uma outra reforma da Praça de Boa Viagem, novo projeto
de paisagismo foi desenhado por Andréa Campos, junto com uma equipe técnica envolvendo
a assessora Janete Ferreira Miranda e as arquitetas Maria Inês de Oliveira Mendonça e Brena
Lúcia Aguiar Remígio. Nesse projeto, em que a arquiteta Maria Inês é comumente apontada
como a principal responsável, a Feira de Artesanato e a de Comidas Típicas são apresentadas
ocupando a parte à direita da igreja com 206 barracas. No setor à esquerda da igreja, onde
ficavam 67 barracas, foram plantados coqueiros e instaladas mesas e bancos de concreto
decorados com cerâmica.
O gradil foi retirado da parte da frente da praça e instalaram-se tubos de ferro
galvanizado, pintados com esmalte sintético. Esses tubos de ferro, junto com as mesas e
bancos no centro, são importantes elementos para a identificação e datação de alguns cartõespostais, se remetendo ao ano de 1994, quando foi executado o projeto.
Todavia, ainda existia um impasse a ser resolvido, o da demolição das casas existentes
no interior da praça, como havia sido previsto no ano de 1990 e mesmo comunicado a uma
das moradoras do local. No bojo dessa discussão, em 22 de fevereiro de 1994 a Sra. Cléa
Vasconcelos Brasileiro, proprietária da casa nº 16, da Pracinha de Boa Viagem, encaminhou
um texto comunicando a importância desse imobiliário para a preservação dos diversos
tempos de construção da cidade.
236
Prefeitura da Cidade do Recife. Gabinete do Prefeito. Nota de Rotina nº. 132/90.
141
A Sra. Cléa V. Brasileiro afirma que aquele edifício foi erguido nos anos 1935/36,
pelo engenheiro Amadeu Coimbra, utilizando o combogó como sistema construtivo, em
substituição ao tradicional tijolo de cerâmica.
De acordo com a Sra. Cléa, o engenheiro Amadeu Coimbra junto com outros dois
engenheiros, criou o combogó, que inicialmente não recebeu boa acolhida pelos proprietários.
Ela faz referência ao Recife dos anos trinta que vivia a efervescência dos ideários modernistas
e cita o nome do arquiteto Luiz Nunes, que depois de formado pela Escola de Belas Artes do
Rio de Janeiro, viria em 1934 para o Recife e num tabalho inovador, utilizaria o combogó na
caixa d’água de Olinda, inaugurando o seu uso como instrumento de ventilação.
O documento assinado pela Sra. Cléa foi encaminhado para análise e pronunciamento
pela Prefeitura Municipal, mas não se teve acesso à resposta oficial do órgão gestor. Contudo,
pelo que os cartões-postais registraram após a reforma de 1994, a casa nº 16 da Praça de Boa
Viagem, hoje conhecida como Casa Combogó, foi poupada da demolição (Figura 31).
Figura 31: Recife: Igreja e praia de Nossa Senhora da Boa Viagem. Recife: Dicol Recife. [10]. 1
cartão-postal: color. Foto: Jaime Ximenes Jr. Fonte: Acervo do autor.
Também em 1994 o sítio histórico da Praça de Boa Viagem, junto com a Matriz de N.
Srª. da Boa Viagem e o Obelisco, foram tombados pelo Estado237. E no ano de 1996, a Igreja
237
Por via do Decreto n° 17.671, inscrição nº. 12, Livro de Tombo III, processo Fundarp 2.5009/89.
142
de Boa Viagem passou a ser considerada Zona Especial de Preservação do Patrimônio
histórico e Cultural (ZEPH – 21), através da Lei Municipal nº 16.176/96 de Uso e Ocupação
do Solo, na categoria de edifícios isolados238.
A Pracinha de Boa Viagem desde 1994 até o ano de 2003, não passou por nenhuma
intervenção significativa que viesse a modificar e a marcar sua paisagem, apenas alguns
elementos foram alocados, como um posto policial e um outro posto de informações
turísticas, sendo o primeiro já presente na segunda metade da década de 1990 e o segundo
típico dos primeiros anos do século XXI. Portanto, a imagem da Praça de Boa Viagem do
início do novo milênio se assemelhava ao cartão-postal exemplificado na (Figura 32).
Figura 32: Brasil turístico: Vista noturna da Praça de Boa Viagem. Recife: Brascard. [170-]. 1 cartãopostal: color. Foto: Sérgio O. Rehder. Fonte: Acervo do autor.
238
Sobre os requisitos especiais para regulamentação da ocupação e aproveitamento nas Zonas Especiais de
Preservação Histórico-Cultural – ZEPH, da Igreja de Nossa Senha da Boa Viagem – ZEPH – 21 destacam-se: A
– Análise especial para cada casa a critério do órgão competente, objetivando a restauração, manutenção do
imóvel e/ou sua compatibilização com a feição do conjunto integrante do sítio, sendo permitida a demolição dos
imóveis cujas características não condizem com o sítio, ficando o parecer final a critério da CCU; B - Não serão
permitidas modificações no parcelamento do solo, inclusive remembramento e desmembramento, podendo haver
interligação entre os imóveis, desde que não interfira nas volumetria dos mesmos; C - Respeito à legislação
vigente, no tocante Às condições internas dos compartimentos; H - As condições internas dos compartimentos
das edificações originais quanto as dimensões, iluminação e ventilação serão objeto de análise especial pelo
órgão competente; S - Qualquer uso, é permitido, desde que não acarrete descaracterização no imóvel,
interferência no entorno e obedeça ao que determina esta lei; Z - As construções existentes poderão permanecer,
não sendo permitidos novos acréscimos e sendo eliminados seus elementos descaracterizantes
143
Observe-se no detalhe dos bares em frente à Igreja. O lote que eles ocupavam era bem
estreito, porém relativamente comprido. Em uma visita realizada a um desses bares, no ano de
2002, pôde-se observar que enquanto na frente funcionava o estabelecimento comercial,
comumente reconhecido como cabaré, ‘inferninho’, ponto de prostituição e de drogas, por trás
existia uma residência familiar. Para ir ao banheiro, era necessário passar pelo interior da
residência, até chegar ao sanitário, localizado nos fundos. Na oportunidade, pessoas sentadas
em sofás e cadeiras, assistiam à novela na sala de estar.
Em 11 de agosto de 2003 foram iniciadas outras obras de revitalização da Praça de
Nossa Senhora da Boa Viagem e áreas do seu entorno. A intervenção na Praça foi justificada
pelo Prefeito João Paulo, por ali ser um espaço que possui muitos problemas e sem disciplina
no tipo de serviço prestado.
De acordo com a pesquisa de opinião pública realizada pela Fundação Joaquim
Nabuco, solicitada pela Secretaria de Turismo e Esporte da Prefeitura da Cidade do Recife em
2001, a causa apontada pelos usuários, dos problemas gerados na Praça de Boa Viagem,
decorria da presença de bares e pontos de prostituição e também da presença, de quem a
pesquisa classificou de desocupados, como: cheira cola, meninos de rua, mendigos e bêbados.
Sendo uma das principais causas da baixa freqüência dos moradores do entorno, o sentimento
generalizado de insegurança239.
Também foi relatado através do citado levantamento, que os usuários cobraram a falta
de manutenção, dos cuidados com a limpeza e com o tratamento dos jardins. A falta de
atividades culturais como a antiga ciranda já comentada e também a inexistência de espaços
dirigidos às crianças, formam as principais questões coletadas pela pesquisa240.
A pesquisa realizada pela Fundaj concluiu que a praça é pouco freqüentada pelos
moradores do entorno desse logradouro, principalmente pelos que residem no bairro há mais
de 20 anos, pelas mulheres e pela população mais jovem. Ainda segundo essa instituição, os
que conhecem e visitam esse logradouro com mais freqüência, teriam rendimentos mais
baixos241 e segundo a experiência acumulada dessa pesquisa, através dos trabalhos de campo
realizados, constatou-se a presença marcante de freqüentadores da praça oriundos de outros
239
NABUCO, Fundação Joaquim. Pesquisa de Opinião Pública: O Caso da Praça de Boa Viagem –
Direcionamento de uso. Recife: outubro de 2001.
240
Ibid.
241
“Nota-se que os entrevistados com rendimentos mais baixos (até cinco salários mínimos) são os que mais
visitam o logradouro (quase 2/3 das respostas nesse estrado, ou melhor, 65,5%, parcela que se reduz para cerca
de 55% das respostas naqueles comicílios caracterizados por uma renda familiar acima de R$ 3.600,00 (20
salários mínimos)”. NABUCO, Fundação Joaquim. Pesquisa de Opinião Pública: O Caso da Praça de Boa
Viagem – Direcionamento de uso. Recife: outubro de 2001.
144
bairros da RMR, como: Barra de Jangada, Candeias, Piedade, Prazeres, Imbura, Jordão,
Cavaleiro, Casa Amarela, além de turistas provenientes de outros Estados e países.
Em 11 de agosto de 2003 foi dado início às obras de revitalização da Praça de Boa
Viagem, realizada pela Secretaria de Serviços Urbanos da Prefeitura da Cidade do Recife,
tendo sido orçada no valor de R$ 300.000,00 (trezentos mil reais). Os trabalhos estavam
previstos para durar até outubro do mesmo ano, porém, estenderam-se até fevereiro de 2004,
quando ao som de fogos, de uma orquestra, e após o discurso do prefeito João Paulo e de um
morador de rua, foi reaberta a praça.
Com a redefinição das formas da praça, a Feira de Artesanato retornou a ocupar dois
de seus setores, sendo o artesanato, identificado pelas barracas verdes, comercializado
predominantemente na parte à esquerda da igreja e as comidas típicas, nas barracas
vermelhas, no setor à direita. O banheiro no interior da praça foi demolido e a Casa Combogó,
já tendo seu reconhecimento por parte do Conselho Estadual de Cultura, foi aconselhada pela
Empresa de Urbanização do Recife, a passar por uma restauração para concentrar as funções
de posto policial, banheiro, posto de informações turísticas e administração da praça.
Entretanto, esse último projeto não se consubstanciou e assim o posto policial permaneceu em
trailer e um posto de informações turísticas foi construído próximo à feira de Comidas
Típicas.
O cartão-postal da (Figura 33), mostra as feições da praça após a conclusão da reforma
de 2003. Detalhe para o fato de que quando a praça estava fechada para a reforma, o prédio
mais alto, em último plano, também estava em construção, com nenhum acabamento na sua
fachada.
No decurso da obra, a praça ficou mais de seis meses fechada, fato que acarretou uma
mudança da prática cotidiana exercida pela população que usa a praça pra diferentes fins. Essa
constatação resulta dos trabalhos de campo, realizados na Praça de Boa Viagem no período de
2003 a 2007. Um dos objetivos dessas visitas in loco era verificar as territorialidades
formadas ao longo do dia pela população, com destaque para a população em situação de rua,
que chamou atenção pela presença constante, e por ser um fato ilustrativo e contraditório da
imagem de cartão-postal.
145
Figura 33: Praça de Boa Viagem. Recife: Dicol. [171-]. 1 cartão-postal: color. Foto: Hans V.
Manteuffel. Fonte: Acervo do autor.
A seguir, encontram-se relatadas algumas experiências do contato realizado pelo
pesquisador com essa população em situação de rua, com o objetivo de ampliar a
compreensão dos significados desenrolados na Praça de Boa Viagem.
3.4 Conhecendo algumas inesperadas e outras inoportunas visões do
entorno da Praça de Boa Viagem
Entre os anos de 2003 e 2007 foram realizados vários trabalhos de campo à Praça de
Boa Viagem, a fim de identificar as territorialidades formadas ao longo do dia pela população,
com destaque para a população em situação de rua242, que chamou atenção pela sua presença
242
A experiência do trabalho de campo revelou a existência de pessoas que usam a Praça de Boa Viagem e seu
entorno para pedir esmolas, no entando nem todos eram verdadeiramente moradores de rua. Por isso, tomou-se o
cuidade de se referir à coletividades desses grupos como população em situação de rua. Maria Antonieta da
Costa Vieira fornece uma explicação teórica sobre essa diversidade de agentes sociais vivendo no mundo da rua:
“Seria possível identificar situações diferentes em relação à permanência na rua: ficar na rua –
circunstancialmente; estar na rua – recentemente; ser de rua – permanentemente.
O que unifica essa situação e permite designar os que a vivenciam como população de rua é o fato de que,
possuindo condições de vida extremamente precárias, circunstancial ou permanentemente, utilizam a rua como
abrigo ou moradia. VIEIRA, M. A. da C. et al. (org.). População de rua: quem é, como vive, como é vista. São
Paulo: Hucitec. 1992. p. 94-93
146
constante, e por ser um fato ilustrativo e contraditório à imagem de cartão-postal. Assim,
contatou-se que é praticamente impossível não se deparar com algum mendigo, garoto
cheirando cola, alguma mulher com criança de colo ou pessoa idosa dormindo nas calçadas,
principalmente no entorno da Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem ou pedindo esmolas
nos sinais de trânsito.
Nas proximidades da Pracinha de Boa Viagem, é possível observar diferenças entre
essas populações, onde alguns realmente moram nessas proximidades e outros usam a área em
alguns determinados dias da semana. Como exemplo da presença dessa população nas
imediações da Praça de Boa Viagem, pode-se citar o caso da senhora Joelma, que há alguns
anos utiliza o entorno da praça para pedir esmolas. O relado da senhora Joelma, foi concedido
no ano de 2003, quando tinha apenas 18 anos de idade e morava no bairro de Nova
Descoberta, periferia da Região Metropolitana da Cidade do Recife. Ela vinha com seus dois
filhos, sendo um de colo, seu esposo e irmãos, um de 17 e outro de 20 anos e eventualmente
um vizinho adolescente. Enquanto a sra. Joelma ficava com as crianças nas proximidades do
supermercado Bompreço, pedindo esmola sentada em uma calçada, os homens iam trabalhar
como flanelinhas. Para eles, a periodicidade do uso da localidade como meio de levar a vida
era inconstante, às vezes, vinham toda semana, ou quinzenalmente, mas quando resolviam
sair de Nova Descoberta para a Praça de Boa Viagem, geralmente passavam vários dias, até
mesmo mais de uma semana, sendo que nesses dias todos dormiam na rua.
Enquanto a senhora Joelma relatava sua história, um homem no outro lado da rua
olhava em sua direção e se comunicava com ela através de sinais. Era o seu esposo que não
foi entrevistado porque a sra. Joelma afirmou que “ele não gosta dessas coisas” e em seguida
pediu uma esmola ao pesquisador e licença para encerrar a conversa e continuar sua tarefa de
pedir esmolas aos outros transeuntes.
Um outro caso é o do Baiano, ex-menino-de-rua, filho de uma prostituta, condenado
por latrocínio, que vivia nas imediações da Praça de Boa Viagem, sempre acompanhado de
outros colegas. O contato com Baiano aconteceu em um trabalho de campo realizado em
março de 2004. Ele se aproximou quando o autor da pesquisa conversava com alguns
moradores de rua. Foi interessante a situação, porque se notou que o Baiano provocara certa
aversão nos demais que ali se encontravam, tanto que aos poucos eles começaram a se
distanciar. Curioso em saber o que se passava, Baiano perguntou o que o pesquisador queria
na praça. Imediatamente ele ficou sabendo que todos conversavam sobre as dificuldades de se
morar na rua. Nesse instante, demonstrando irritação, Baiano afirmou que para saber como é
morar na rua “é preciso trocar o dia pela noite e a noite pelo dia”. Não se sabe bem se ele
147
estava drogado, ou se estava querendo parecer ameaçador, porque sempre falava num tom
agressivo, parecendo querer intimidar o pesquisador e convidá-lo a ir embora. Apesar da
situação, a conversa continuou e Baiano comentou que para se viver na rua é necessário
respeitar algumas normas que ele mesmo chamou de “códigos da rua”. Ele ditou quatro
códigos dos dez que disse que existiam, mas só se conseguiu registrar três.
Os “códigos da rua” segundo o Baiano seriam:
1. Quem mora na rua não sabe o que é bom nem o que é ruim. É preciso
passar um dia na rua com a gente. A dor ensina a parir;
2. O homem quando troca a noite pelo dia ou o dia pela noite ele fica
furioso, fica agressivo, de matar e morrer. Pode matar até com um gargalo de
garrafa;
3. Quem vive na rua é humilde. Nós não somos esmoléu, nós somos
sofredores. Esmoléu é aquele que é deficiente, aquele que pede...
No decorrer de conversa, Baiano também relatou que se chama assim porque é natural
da Cidade de Salvador e que há um senhor que o prometeu uma passagem de ônibus para ele
voltar para a terra natal. Ele contou que só estava esperando ganhar essa passagem para ir
embora.
As crianças e adolescentes em situação de rua formam um outro perfil de usuários da
Praça de Boa Viagem e do seu entorno. É uma população que incomoda bastante os
comerciantes da redondeza e os moradores. Essas crianças e adolescentes comumente
apelidados de “cheira-cola”, por normalmente portarem pequenos recipientes, geralmente
garrafas de água mineral vazia, com cola de sapateiros, estão sempre presentes nas redondezas
da praça e são muitas vezes apontados como praticantes de delitos, como roubos, furtos e
mesmo homicídios.
Nos dias em que a feira de artesanato da praça está montada, a presença dos meninos
de rua não é tão aparente, pois a repressão por parte dos seguranças particulares é ostensiva.
Em dezembro de 2006, assistiu-se a uma cena de grande brutalidade. No momento em que o
segurança expulsava, da área destinada a alimentação na praça, uma criança aparentando ter
quatro anos de idade, prostrado diante dos olhares de alguns usuários que assistiram aquela
infeliz atuação, o segurança resmungou em tom de esclarecimento, que aquela criança, de
posse da sua chupeta e de uma boneca velha, oferecia perigo às carteiras dos turistas.
No decorrer dos dias da semana, é constante a presença de crianças e adolescentes
cheirando cola. Quando não estão ao redor da praça, nos entulhos da antiga boate Eclipse, ou
nas proximidades do supermercado Bompreço, eles ficam à margem do Canal de Setúbal.
148
À respeito do Canal de Setúbal, se torna importante relatar melhor as territorialidades
ali formadas que, por sua vez, têm ligação direta com os usos apreendidos na Praça de Boa
Viagem. Ao longo do Canal de Setúbal existe um trecho que chama a atenção da pesquisa
porque em determinados períodos delimitados pelo calendário das comemorações como Dia
das Mães, São João, Dia das Crianças, Natal e Réveillon, passa a ser ocupado por um
expressivo número de famílias, geralmente mulheres e crianças que se expõem nesse local em
troca de esmolas ou agrados. Quando as comemorações passam, os grupos que acampam nas
margens do canal vão embora.
Esse movimento de ocupação e retirada das margens do canal por algumas famílias
nessas datas específicas ocorre de forma bastante sazonal, acentuando diferenças
significativas na paisagem em curtos espaços de tempo. Se um dia no canal encontra-se com
uma densidade considerável da população em situação de rua, com barracas, caixotes e
papelões, em poucos dias é possível visualizar apenas os rastros deixados pela presença
desses grupos, como restos de cinza das fogueiras utilizadas para o preparo de comidas,
embalagens de alimentos como hambúrgueres e copos de refrigerante, doados pelos
transeuntes, armações de papelão utilizadas como abrigo e o gramado repisado.
Tomando como referência a parte do Canal de Setúbal simétrica à Praça de Boa
Viagem e estendendo a visualização até as proximidades no Mercado de Boa Viagem, podese notar que nesse trecho, além da sua ocupação durante aquelas citadas datas, percebe-se
uma mais permanente ocupação ao longo dos dias e do ano ali, pela população em situação de
rua.
Durante os seis meses em que a praça permaneceu fechada para reforma, entre os anos
de 2003 e 2004, esse trecho do canal passou a ser ocupado pelas mesmas pessoas que
normalmente poderiam ser vistas dormindo ou se reunindo em grupos na praça. Não foi difícil
destacar que as pessoas que durante o dia e à noite passaram a ocupar o canal eram as mesmas
que ficavam na praça, como se testemunhou durante várias visitas realizadas.
Certa vez, em trabalho de campo, o autor resolveu mapear o uso do tempo pelos
usuários da praça. O procedimento adotado seria destacar num mapa da área, as ocupações na
praça em diferentes horários, para tanto, precisou-se usar uma prancheta para dar mais apoio
durante as anotações. O fato é que ao ver um rapaz com uma prancheta em mãos, olhando
para todos os lados da praça, os moradores de rua apareceram aos montes achando que era
algum tipo de cadastro da prefeitura. Em meio às frases “Ei, é pra dar casa é?”. “O que que é
isso aí?”. “É pra trabalhar na obra é?. “Coloca aí que eu tô precisando de umas tábuas pro
meu barraco!”. Foi preciso esclarecer que o motivo das anotações naquela prancheta era
149
apenas para fins de uma pesquisa em Geografia, para que eles compreendessem que não era a
prefeitura que estava fazendo cadastro. A partir dessa situação, foi possível conversar um
pouco com esse grupo e assim conhecer um pouco mais sobre eles, presenciando cenas do
cotidiano, como por exemplo, o preparo de alimentos em fogueiras, realizado no próprio
Canal de Setúbal.
Quando a praça estava em reforma, os grupos formados na sua maioria por homens e
mulheres, que a usavam com mais freqüência, passaram a ocupar a área do canal que fica
exatamente em frente ao restaurante “O Laçador”. Alguns metros adiante, numa posição mais
simétrica à Praça de Boa Viagem e embaixo de amendoeiras, podia-se encontrar crianças,
adolescentes e algum jovem adulto que também a freqüentava, mas com menor freqüência.
O padre da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem, em entrevista, relatou que foi
feito um acordo com as pessoas que ficavam pedindo esmolas na porta da Igreja. O acordo
consistia no fim da ocupação das portas do templo, sob a condição da Igreja se comprometer
em doar uma “feirinha” para eles. De acordo com ele, os mesmos após receberem a “feirinha”
trocavam por bebida ou por cola. Para solucionar esse problema, a Igreja passou a oferecer em
associação com os bares que ficavam em frente a ela, almoço ou jantar às pessoas carentes
que ocupavam a Praça de Boa Viagem através da doação realizada por “padrinhos” ou
“madrinhas”. A Igreja também passou a fazer visitas nas residências de algumas pessoas em
situação de rua. Um dos objetivos era a inclusão de nove delas nos trabalhos de reforma que
estavam ocorrendo na praça de Boa Viagem, decorrente de uma ação social da Prefeitura do
Recife, que destinou parte das vagas dos trabalhadores da obra para pessoas carentes, que
receberam uma bolsa de 240 reais.243
O padre tem uma interessante visão acerca da ocupação do entorno da Praça de Boa
Viagem. Para ele, as pessoas que pedem esmolas nas proximidades da igreja moram longe,
sendo atraídas ao bairro de Boa Viagem por causa de sua referência, são poucos os que
realmente moram na praça, um ou dois, e o restante se sente atraído justamente por causa da
fama que Boa Viagem tem de ser um bairro rico.
Já com relação às concentrações observadas nas margens do Canal de Setúbal, o padre
deduzindo a origem daquelas pessoas afirmou serem moradores das favelas próximas.
Todavia, ainda segundo ele, os usuários da beira do canal não são conhecidos da igreja, “é um
outro público ou clientela”. “É um pessoal muito arisco e momentâneo”. Esse pessoal arisco e
com uma territorialidade momentânea, como exemplificou o mesmo, são justamente os jovens
243
Fonte: Entrevista com Wilson Luiz da Silva – Técnico em Edificações, integrante do projeto da Secretaria de
Desenvolvimento Econômico (SED). Data: 09 de janeiro de 2004.
150
e crianças vulgarmente conhecidos como cheira-cola. E o desconhecimento por parte da
Igreja dessa “clientela” ficou mais nítido quando se pôde observar durante a conversa com o
padre, um mapa emoldurado na parede de uma das salas da Igreja, representando a
delimitação da área de atuação das Igrejas de Nossa Senhora de Fátima e Nossa Senhora da
Boa Viagem. O Canal de Setúbal com suas margens é justamente a fronteira demarcadora dos
territórios responsáveis por cada paróquia e a responsabilidade de assistência à população
naquela área não é assumida por nenhum dos dois templos.
Assim o padre chamou a atenção para incidência da violência no entorno da Praça de
Boa Viagem, exemplificando com questões que vão desde o vandalismo até a prática de
homicídio. Ele falou dos garotos que arranham os carros dos fiéis e citou um episódio
bastante brutal, o caso da morte de um arquiteto na Avenida Domingos Ferreira por causa de
um celular que o bandido resolveu roubar. Por fim, o padre afirmou que os moradores de rua
não pedem esmola, “são de assaltar, de roubar ou matar”.
Apesar de algumas representações acerca dos moradores de rua, os intitularem como
marginais perigosos, aptos a todo tipo de barbaridade, acontece ali mesmo na praça uma
sociabilidade envolvendo moradores de rua e os moradores locais, com os comerciantes ou
com os empregados das lojas próximas à praça. Pode-se citar pelo menos dois exemplos
típicos. Havia um senhor com idade em torno de quarenta anos chamado “Chôla” que morava
nas imediações da praça de Boa Viagem, às vezes, ele dormia na praça, outras vezes embaixo
da marquise de uma loja de aluguel de carros, perto do Canal de Setúbal, mas diariamente
poderia ser encontrado na pracinha. Ele era uma espécie de office boy dos comerciantes locais
e de alguns moradores. Ia sempre ao supermercado fazer pequenas compras ou carregá-las
para alguma mulher. De tantas vezes que ia ao supermercado, acabava por fazer amizade com
os operadores dos caixas, os quais nos intervalos do trabalho, poderiam ir à Praça de Boa
Viagem e dar início a alguma conversa com Chôla. Sabe-se que Chôla tinha uma família, ele
certa vez comentou que havia visto um irmão seu nas imediações da praça, mas ele se
escondeu para não ser reconhecido pelo parente. Segundo Chôla, ele tinha alguns parentes que
moravam no residencial Don Helder Câmara, localizado na bairro de Piedade. Na primeira
metade de ano de 2007, Chôla foi atropelado nas imediações da praça e veio a falecer.
Segundo a senhora Zezita que trabalhou alguns anos numa pousada na Rua dos Navegantes,
alguns moradores arcaram com os custos do sepultamento do Chôla para que ele não fosse
tratado como indigente.
Um outro exemplo emblemático de morador de rua que exerce uma prática de
sociabilidade junto aos usuários da Praça de Boa Viagem e aos moradores e comerciantes
151
daquele entorno é o Sr. Antônio, popularmente conhecido apenas como Doutor. Ele mora na
praça. É o único morador de rua que sempre está na praça, mesmo em período de inverno ele
permanece lá, apenas se cobre com um plástico para se proteger da chuva. O Sr. Antônio que
é advogado de formação, mora na Praça de Boa Viagem há doze anos e dedica boa parte do
seu tempo à leitura de livros, revistas e jornais.
Pela manhã o Doutor tem acesso às notícias diárias através de jornal cedido pelos
jornaleiros que se reúnem na praça para organizar os fascículos a serem entregues no bairro de
Boa Viagem. Quando o hotel Boa Viagem ainda estava em pé, entre os anos de 2003 e 2004,
existia um morador no hotel que trabalhava com venda de carros e todos os dias descia para
pegar a parte dos classificados de automóveis com o Doutor, uma vez conseguiu-se observar
esse senhor dando um antiinflamatório para o Doutor que reclamava de dores.
O Doutor sempre surpreendeu com sua forma culta de falar de variados assuntos.
Sobre política, conhecimentos gerais, língua estrangeira, em especial, o francês. Ele gosta de
falar em francês e comumente repete a idéia de que não poderá conversar com as pessoas, se
não ler, por isso, se mantém sempre informado.
Durante as obras de requalificação da praça, o Doutor foi selecionado para trabalhar, e
no momento da solenidade de reabertura do logradouro, realizada pelo prefeito da Cidade do
Recife, João Paulo, ele foi escolhido para discursar para o público em nome de todos os
trabalhadores empregados no projeto da Secretaria de Desenvolvimento Econômico (SED),
que absorveu a mão-de-obra dos moradores de rua nos trabalhos executados na praça.
É certo que as questões que distorcem a idéia de paisagem de cartão-postal da Praça de
Boa Viagem como a especulação imobiliária, a prostituição, os moradores em situação de rua,
o comércio ambulante, a violência, dentre outros temas, são válidas de uma dissertação ou
tese que contemple o assunto mais profundamente.
O que se constata é o crescimento da cidade que dá linhas à história do bairro de Boa
Viagem. E nessa evolução da urbe, reluz a marca da pobreza que a própria sociedade e a
cidade criaram, baseadas num modo excludente de produzir seu espaço. Essa pobreza se
transforma num ruído que impede a comunicação visual pretendida pelos produtores do
espaço urbano, mas esse mesmo ruído também possibilita a visibilidade através da paisagem
de uma face da ação negligente da sociedade diante da produção do espaço urbano.
A imagem de cidade pretendida pelos promotores urbanos é aquela aos moldes de
belos cartões-postais ilustrados com imagens da cidade, onde o monumento e a paisagem
representados ganham ar de perfeição. Enquanto o ruído que deturpa, contradiz e clarifica a
pretensão elitista de algum recorte de paisagem urbana, se expressa no que se convenceu
152
chamar de lado reverso, que é também perverso. É a face da paisagem que melhor sintetiza as
conseqüências da civilização moderna, contudo, é um lado do cartão-postal que
corriqueiramente passa despercebido por precisar ser anulado ou inconcebível.
Portanto a presença na Praça de Boa Viagem do “Da Lua”, lavador de carros; do Sr.
José Ernesto Vanderlei, morador de rua mais conhecido como “Pingüim”; do Sr. Erasmo,
vendedor ambulante de suco de goiaba com leite e hambúrguer, residente no município de
Camaragibe, de outros ambulantes vendedores de frutas, ervas, de cartão-postal, caldo de
cana, CDs pirata, macaxeira e de água de coco; dos garotos de rua, das prostitutas e mendigos;
evidencia uma carência de políticas públicas destinadas a exercer impacto na vida dessas
pessoas que vivem da rua.
A presença dessas pessoas algumas vezes provoca o repúdio de outros usuários, como
foi percebido através dos relatos de moradores insatisfeitos com a diminuição no padrão da
qualidade de vida nesse bairro, por vezes associada à presença acentuada do setor informal e
suas características intrínsecas de pobreza. Todavia, essas pessoas, em seu cotidiano, não
deixam de compor a paisagem da praça e de seu entorno. Retratados poucas vezes em cartãopostal, por fotógrafos que através de sua sensibilidade, enxergam arte e beleza onde
comumente parece está expresso apenas a pobreza. Representam assim os chamados “tipos
populares do Recife” e ganham destaque na paisagem, onde comumente passam
desapercebidos, representando o pitoresco, o tradicional e mesmo a memória desses lugares.
No cartão-postal a seguir (Figura 34) uma vendedora ambulante pousa para um
fotógrafo enquanto parece descansar por um momento na areia da praia. Entre outros
produtos, ela vende artesanatos, como: chapéus de palha e objetos de decoração. Ao sentar
por um instante e alisar suavemente a areia, demonstra uma tranqüilidade incomum de quem
precisa caminhar sob o sol quente para vender os seus produtos. A imagem da vendedora
ambulante representada em cartão-postal é excepcional, pois geralmente, essa população de
vendedores ambulantes, tão presentes no entorno da Praça de Boa Viagem, representa o lado
reverso do cartão-postal e da cidade.
O reverso do cartão-postal é a própria paisagem em processo, é aquilo que pode fugir
do campo de visão. Evoca uma existência que muitas vezes incomoda, é considerada
inoportuna e ameaçadora. O que se apreende do reverso do cartão-postal abrange a arena do
território, pois compreende a ambiência da exclusão social alastrada nos interstícios da
paisagem, assim se escondendo ou fazendo parecer discreto. É esse lado reverso figurado pela
exclusão, animado pelos agentes distantes da opinião pública, que faz revelar, via cartãopostal, a face estanque do olhar tipo fotográfico do poder público, o qual algumas vezes age
153
muito mais como definidor de novas roupagens do espaço urbano, esquecendo que cada
retalho de paisagem da cidade é constituído de usos, importantes para o desenvolvimento do
cidadão.
Figura 34 : Brasil: Artesanato na areia de Boa Viagem. Recife: MCI-ME. 1 cartão-postal: color. Foto:
Michel C. Lardin. Fonte: Acervo do autor.
154
3.5 Algumas últimas notas acerca das intervenções
no entorno da Praça de Boa Viagem.
Como qualquer parcela do espaço, no cartão-postal pode se ter sobreposto tempos
diferentes, formas distintas das originais, além de usos e desejos conflitantes. É justamente
nesse instante que entram novamente em ação os promotores do espaço urbano, a fim de
conservarem o título do cartão-postal, ou de restabelecer a imagem de uma paisagem borrada
pelo próprio movimento de valorização e expansão da cidade.
No caso do bairro de Boa Viagem, na atualização de sua paisagem de cartão-postal,
observa-se uma interessante reformulação de conceitos sobre o que significa esse trecho da
cidade, uma verdadeira redefinição do discurso que envolve o bairro à necessidade de estar
sempre moderno nos usos dos materiais que compõem o primeiro plano de sua principal
imagem, ou seja, a aérea que compreende a avenida à beira mar, com a praia e o passeio de
um lado e as distintas edificações no lado oposto, além do realce no monumento histórico que
caracteriza as suas origens.
A exemplo das últimas discussões sobre o projeto de revitalização da orla do bairro de
Boa Viagem, ocorridas em audiências públicas244 junto a diferentes representantes da
comunidade que mora, trabalha, ou usa o bairro, foram apresentadas algumas propostas pela
empresa contratada através da EMLURB245 para programar os trabalhos de revitalização da
orla. A idéia da exposição como pronunciou o assessor executivo da Prefeitura da Cidade do
Recife, Amaro João da Silva, foi demonstrar como a orla se encontrava naquele momento e
como deveria ficar com a realização do projeto. Desse modo foram destacados alguns
problemas pelo arquiteto responsável.
Mas primeiramente, destaque-se então o conceito acenado pelo arquiteto contratado
pela prefeitura para apresentar o projeto de revitalização da orla de Boa Viagem:
O que foi pensado de forma macro como conceito de melhoria do espaço
urbano da orla – ela é por definição uma praia urbana e que vai se buscar
destacar os elementos naturais e construídos de forma harmoniosa, os
elementos naturais obviamente é a praia em si, a vegetação e os construídos
são a própria edificação e com isso a gente vai buscar a valorização do perfil
dessa orla, nós chamamos de sky line, através dos exemplares arquitetônicos
produzidos ao longo das décadas246.
244
Audiência pública ocorrida na Casa Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem em 08/03/2007.
Outros órgão envolvidos são, segundo um dos expositores(Amaro) é Secretaria de Serviços Públicos,
Secretaria de Planejamento “que é responsável pelo projeto como uma todo”
246
Jairo arquiteto responsável pelo projeto de revitalização da orla de Boa Viagem em
245
155
O cartão-postal enquanto representação do espaço público, com todas as suas funções
a servir os cidadãos, também absorve a característica que essencialmente o diferencia de
outros espaços, ele representa a imagem da urbe. Por isso, o interesse coletivo nessas áreas
deve residir na verificação de que o espaço público, assim como a Praça de Boa Viagem,
carece de atenções que não se deparem apenas com a mera especulação ou com projetos
distantes das características paisagísticas locais.
No certame dos argumentos que deverão justificar a remodelação na atual orla da praia
de Boa Viagem, foi proferido que seriam seguidos os princípios básico de “1) garantir acesso
de fluxos livres sem obstáculo a pedestre e usuário e 2) disciplinar os usos e promover a
limpeza visual urbana”. Desse modo, destacam-se os elementos citados na reunião que
deverão sofrer alguma intervenção e as propostas da reforma:
Calçadão como se verifica no trecho que fica em frente à Praça de Boa
Viagem. “A pista de “cuper”, ela é descontínua ao longo da orla, o que causa
desconforto” ao pedestre ou a quem pratica o “cuper”, passa a usar o
calçamento e não a faixa delimitada, além dos excessos de desvios em
função dos coqueiros.
Os coqueiros – são impróprios para calçadas com grande fluxo de pessoas,
não é o tipo de vegetação mais adequada, o risco de acidentes em função de
ter seus frutos grandes e pesados e o espaçamento e o tipo de copa produzem
pouca sombra, ou seja, não é a vegetação mais adequada para o conforto
térmico.
Ciclofaixa, ela é descontínua ao longo da orla também, isso causa
desconforto.
Os equipamentos imobiliários urbanos, você tem uma sobreposição de
equipamentos, isso causa obstáculos ao pedestre e poluição visual.247
Propostas da reforma:
Substituição do piso do calçadão por blocos intertravados de concreto, e por
que? Ele proporciona mais conforto, durabilidade, resistência à abrasão,
firmeza, melhores acabamentos e estética, tá?
A pista de “cuper” nós buscamos deixar ela mais retilínea e contínua em toda
orla
Estamos criando 481 vagas de estacionamento, sendo 385 para veículos
pequenos, 12 vagas para ônibus de turismo e 84 vagas preferenciais para
carga e descarga de coco e gelo.
247
Apresentação realizada em 08/03/2007 na Casa Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.
156
Padronização dos quiosques, com a padronização e substituição da coberta
de piaçava por telhas ecológicas, por questões de segurança e durabilidade.
Em função dessa acessibilidade de você permitir um maior fluxo é que vai
está sendo deslocados e reconstruídos alguns quiosques dentro do mesmo
padrão, ele só vai está sedo realocado para deixar o fluxo mais livre, mas no
mesmo posicionamento inclusive, na mesma localização que ele já
comercializa.
Posteamento, ele... está próximo ao meio fio, que nós chamamos de zona de
imobiliário urbano, é onde a gente vai está alocando imobiliário urbano
como: telefones públicos, lixeira, para livrar a maior parte da calçada para o
acesso dos usuários e do pedestre[...]
A nova iluminação proposta é uma nova iluminação para toda a orla mais
uniforme, homogênea que trará conforto e segurança aos usuários. Estão
sendo propostos também novos postes e luminárias que eles serão mais altos
e mais espaçados, dentro de uma...a cada 60 metros e com 20 metros de
altura. 248
É certo que esse projeto se choca com diferentes e divergentes modos de ver e viver a
cidade, cada grupo querendo colocar seus anseios, desejos, e conveniências à frente do
projeto. Nesse caso a postura da Prefeitura deve ser de mediadora entre as diversas opiniões
dos grupos que usam a praia e o entorno da Pracinha de Boa Viagem. Todavia a própria
Prefeitura, deixando-se representar por funcionários, empresas e políticos, nem sempre dá a
resposta mais convincente aos cidadãos. Por exemplo, quando questionado por uma
participante, sobre a implantação dos blocos intertravados no calçadão de Boa Viagem, em
substituição das pedras portuguesas, uma participante da audiência pública e moradora do
bairro obteve a seguinte resposta: “O bloco intertravado tem essa facilidade de você fazer um
desenho no piso, é uma questão mais estética, você pode colocar todos de uma cor, mas a
gente está trabalhando com três cores[...]”.
É válido lembrar que as pedras portuguesas também são apropriadas para a confecção
de desenhos no piso, além disso, é interessante frisar que o próprio calçadão é composto de
três cores, branca e azul escuro das pedras portuguesas e azul claro da pista de cuper. Ainda
assim, um outro debatedor, representante da prefeitura, complementou a explicação:
Isso foi uma concepção do projeto de Jairo para se aplicar o bloco
intertravado em substituição da pedra portuguesa, nós damos uma
manutenção anual nesse passeio que custa caro e pelo o que ela já
descaracterizou, a pedra portuguesa hoje aplicada não é pedra portuguesa de
origem que veio de Portugal, é uma pedra que já está sendo adaptada a nossa
região, então com facilidade ela se solta e tem várias queixas principalmente
248
Apresentação realizada em 08/03/2007 na Casa Paroquial da Igreja de Nossa Senhora da Boa Viagem.
157
das mulheres, aquelas mulheres, é difícil até a gente encontrar na Avenida
Boa Viagem, mas a questão de quem entra com salto, aí a dificuldade da
acessibilidade.
A discussão da “acessibilidade plena” pautada nessa argumentação não é
suficientemente convincente para justificar alguns pontos da pauta presentes no projeto
apresentado pela Prefeitura, isso porque a dificuldade das mulheres de salto alto de passear no
calçadão não engloba todas as questões que dizem respeito a acessibilidade de um lugar.
Além disso, o próprio autor da pesquisa perguntou para os expositores sobre qual o conceito
de acessibilidade compreendido e adotado pela Prefeitura. A resposta à indagação foi que a
acessibilidade concebida pelo projeto se pauta em uma série de conceituações normatizadas
pela a ABNT.
Uma outra questão é o alargamento do calçadão no trecho em frente à Praça de Boa
Viagem, que o projeto concebe como um “estrangulamento”, entretanto é importante frisar
que periodicamente o mar quando está em época de ressaca, normalmente transgride sua
variação normal e se choca com aquele trecho, por conseqüência é comum o calçadão ser
destruído pela força da maré justamente naquele ponto, como demonstrado na foto (Figura
34):
Figura 35: Foto do calçadão destruído pelo mar no ano de 2004. Fonte: Acervo do autor.
158
Existe também o interesse que não vai completamente de encontro à proposta da
prefeitura, apenas exige uma readequação na concepção do projeto original, como se pode
perceber na contestação realizada pela a Associação dos Barraqueiros de Coco do Recife, que
constatam que a criação da ciclofaixa significa : “Eliminação de estacionamento de veículos
acarretando diminuição dos freqüentadores da praia; Afastamento dos turistas pela dificuldade
de estacionamento de táxis, vans ou ônibus; Prejuízos sociais”249. Com isso, os Associação
dos Barraqueiros propuseram outras concepções de ciclofaixa, como se pode ver no seguinte
folder abaixo (Figura 35):
Figura 36: Folder da proposta da Associação dos Barraqueiros para a ciclovia
E voltando ao epicentro das discussões em torno das justificativas para a intervenções
na Praça de Boa Viagem, o mesmo conflito se redelineia entre os usuários da praia e da Praça
de Nossa Senhora da Boa Viagem. A exemplo do que foi registrado em pauta pela APBS –
Associação dos Moradores do Pina, Boa Viagem e Setúbal, é bem esclarecedor, com a
demonstração de alguns descontentamentos com a feira de artesanato existente na Pracinha. A
idéia geral defendida é:
A feira está totalmente desorganizada, ocupa, de forma inadequada, todo o
espaço da Praça, e o entorno da mesma, gerando desconforto e
constrangimento aos transeuntes, aos clientes, aos turistas, aos moradores da
região. Não há fiscalização , se houver, é ineficaz, tantas são as
249
Folder distribuído durante a primeira audiência pública sobre o “Projeto Orla”.
159
irregularidades observadas, em flagrante desrespeito à Legislação de Uso do
Espaço Público Urbano, e às Leis de Acessibilidade e Inclusão.250
Enquanto isso, o representante da Associação dos Flanelinhas demonstrava
preocupação com a instalação do novo estacionamento na orla, temendo a redução da renda
pela classe. E por outro lado, o lado do entorno da Praça de Boa Viagem, um número
expressivo de pessoas vivendo em estado degradante nas ruas, permanecia sem representação
e sem direito de voz naquela reunião, que tinha o objetivo latente de definir como se gastar os
milhões de reais dos cofres públicos, com a remodelação da orla de Boa Viagem, cartãopostal da cidade do Recife.
250
Ver Anexo: Pauta da reunião ordinária da APBS. Sede Local. 28 de fevereiro de 2007.
160
Considerações Finais
Figura 37:Quadro pintado por artista plástico da Feira de Artesanato da Praça de Boa Viagem.
Fonte: Acervo do autor.
161
Enquanto um recorte seletivo do espaço geográfico, o cartão-postal possui uma
memória histórica. Cada objeto do espaço, em especial os objetos artificiais, surgem num
momento que pode ser datado, revelando, desse modo, um processo. Já o cartão-postal
enquanto veículo de comunicação ou objeto de colecionamento, normalmente não traz a data
da confecção da ilustração, além disso, a data carimbada nele, refere-se apenas ao momento
da postagem nos correios, pelo remetente. De tal modo os postais são enviados e recebidos
figurando uma ilustração que pode não condizer com a composição da paisagem vislumbrada,
sendo o momento insinuado pela ilustração, um motivador de percepções acerca da paisagem
em destaque.
Assim como o cartão-postal pode inferir o juízo de paisagem ideal e demonstrar uma
paisagem incompleta ou interrompida, ele também pode ajudar a decifrar movimentos que
imprimem os aspectos, as formas e a rotina cotidiana dos espaços, os quais observados em
conjunto, traduzem-se em signos da paisagem.
A compreensão do percurso histórico do cartão-postal e o vislumbre nos processos e
técnicas que possibilitaram sua afirmação no mundo, como, por exemplo, a fotografia e o
sistema de correspondências, permitiram revisar a trajetória da utilização do postal enquanto
meio de comunicação, entendendo também a superação de um motivo inicial, a de utilização
do cartão como veículo de comunicação mais acessível. Portanto, o resgate histórico do
cartão-postal possibilitou visualizá-lo como um recurso passível de diferentes leituras e
interpretações.
Dentre as leituras possíveis de um cartão-postal, destacou-se nessa pesquisa, a adoção
do cartão como suporte de estudo do espaço e da paisagem urbana. Além disso, supôs-se que
uma paisagem além de representável através de uma imagem postal, pode mesmo ser
adjetivada como paisagem de cartão-postal, assumindo características que a diferencia de seu
entorno e de outros recortes da cidade. O diálogo sugerido no decorrer do texto, entre o
cartão-postal, como veículo de comunicação e como recorte seletivo do espaço geográfico,
sugeriu a visibilidade de fenômenos que traduzem a memória histórica dos espaços e também
as distorções e contradições presentes no cenário urbano.
No contexto dessa pesquisa e no que se refere ao entendimento do espaço cartãopostal, tomou-se como referência de análise a Praça de Nossa Senhora da Boa Viagem como
importante elemento focalizado no contexto da cidade do Recife. Como demonstram os
estudos das imagens da praça, contidas nos cartões-postais, elas evocam uma percepção dos
diferentes usos estabelecidos e ações depreendidas nesse logradouro, por isso, a seleção de
alguns cartões-postais afim de desvendar um processo, foi bastante importante para o
162
entendimento da formação da paisagem desse seleto recorte do espaço, comumente
emoldurado pelos fotógrafos e divulgado em delicados cartões-postais, os quais se revelaram
preciosos, por deixarem registrado diferentes tempos de uma mesma panorâmica da pracinha.
Nenhum elemento ou objeto do espaço está isolado, pois cada qual está contido numa
totalidade que explica muitos dos seus significados. Contudo esses elementos ou objetos,
apesar de pertencerem a um universo de ações comuns, tendem a ser observados de maneira
individualizada, desconsiderado-se, muitas vezes, o contexto ao qual estão imersos. Essa
talvez seja uma causa do cartão-postal ser apontado como continente de apenas um lado, para
alguns, um lado perverso, para outros, o postal teria unicamente a face a ser celebrizada. De
maneira comum, as duas abordagens de compreensão do cartão-postal, assimilam a idéia de
que nele há uma aparência que se impõe como significado dominante. Todavia, como o
limite da paisagem é manifesto nas capacidades do observante, o alcance do postal pode ser
medido através da capacidade que ele tem de convencer e de incitar os sentimentos, assim a
perversidade ou o encantamento provocado pela imagem ou pela paisagem de cartão-postal,
pode também variar de acordo com situação de quem o observa.
Foi sob a influência da concepção de que a compreensão da paisagem depende muito
mais das condições reais em que está imerso o observador, do que objetivamente está sendo
observado, que esse trabalho decidiu buscar se envolver com a o estudo histórico da Praça de
Boa Viagem e com o cotidiano desenrolado durante o processo de pesquisa. Essa
aproximação com a paisagem possibilitou a descrição de práticas que uma simples imagem
postal não é capaz de abarcar, como no caso da presença da população em situação de rua,
uma paisagem de contraste e constantemente presente na Praça de Boa Viagem.
Mas além dessa face severa da paisagem aqui chamada de lado reverso, a Praça de
Boa Viagem também se revelou uma importante referência da Cidade do Recife e do Bairro
de Boa Viagem. Sua memória histórica dá exemplos das trajetórias da cidade e ajuda a
explicar a incidência das imagens da praça veiculadas em cartões-postais.
O fato de a Praça de Boa Viagem ser um cartão-postal está também vinculado a sua
importância histórica. Por está localizada onde se desenvolveu o núcleo de povoamento
inicial, que deu origem a um dos bairros mais conhecidos do Recife, a praça ganha destaque
como memorial do espaço. Seu reconhecimento como representante da imagem da cidade
também se dá por a praça ter sido um ponto de convergência e de lembrança para quem
utilizava a praia, por exemplo, para os banhos salgados do início do século XX, para os jogos
de vôlei e corridas de carro da década de 1940, ou para as competições de ciclismo da década
1950.
163
A Praça de Boa Viagem é e deve permanecer cartão-postal, mas não sob os
argumentos da especulação imobiliária que se delineia no bairro a qual ela representa e que
ganhou força a partir de 1965. A Pracinha é cartão-postal pelo o que faz lembrar dos célebres
e saudosos tempos da cidade, da época dos bondes, quando faziam o circular exatamente ao
seu redor, do período quando a ciranda era tocada e dançada no seu interior e as famílias
podiam levar as crianças para ver as tartarugas do tanque que ficava por trás da igreja.
A Praça de Nossa Senhora de Boa Viagem é cartão-postal justamente porque é
detentora de uma importante memória histórica e as razões que deturpam a sua imagem ao
invés de serem ocultadas, devem ganhar mais atenção.
A luminosidade atribuída à Praça de Boa Viagem não deve ofuscar os problemas que
contradiz sua imagem postal. Se nesse espaço que invoca uma representatividade da urbe, há
cidadão em situação de risco, sem casa, sem alimentação, desprovido de educação e de
proteção, é preciso reescrever as percepções acerca desse logradouro. É necessário examinálo, na intenção de questionar se o que está à mostra em cartão-postal realmente se aproxima
do que se pode falar dele, e se a idéia que as suas ilustrações difundem, aproxima-se com o
que se pode sentir ao visitá-lo.
164
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