O acontecimentalizar nos modos de trabalhar, modos de subjetivar: por uma ontologia histórica Tania Mara Galli Fonseca♣ A problemática Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar tem se constituído, por alguns pares de anos, como plano de composição para o pesquisar de um coletivo de pesquisadores1. Sua duração encontra-se justaposta à multiplicidade interna imanente à problemática de pesquisa - virtual e contínua, irredutível ao número, como nos aponta Deleuze, em sua leitura de Bergson2. Ambos filósofos mostram-se sempre dispostos a nos salientar que as questões relativas ao sujeito e ao objeto devem ser colocadas mais em função do tempo do que do espaço. Desta forma e com base nesta inspiração, temos conduzido diversos projetos e atividades que privilegiam um olhar sobre formas institucionais e subjetivas sob a ação das vertigens das passagens, em momentos, pois, em que a própria história mostra-se corroída pelo tempo, fazendo-nos supor e levando-nos a pressentir a emergência de novas configurações sociais e subjetivas. Nosso olhar tem incidido sobre diversos campos empíricos açoitados pelo tempo da crise e da desrealização, sendo essa a tendência que transversalizou nosso projeto integrado Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no contexto da reestruturação produtiva (1997-2002)3 e que impulsiona, na atualidade, nossas pesquisas no âmbito dos Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no contexto da Reforma Psiquiátrica. Em nosso atual programa de investigação, buscamos cartografar movimentos dos sujeitos implicados na nova ordem psiquiátrica, dando a ver seus modos de resistir/ no sentido de reexistir, vinculados às suas estratégias de criação. Interessa-nos cultivar um olhar para dentro das dobras de um mundo a se constituir, atribuir sentido às ínfimas e imperceptíveis oscilações, buscar a vida em sua potência de construir saídas para o viver e para o desejo, mesmo que expressas em quase-manifestações. Julgamos que fazer incidir a pesquisa em campos devastados pela violência dos saberes e dos poderes de uma dada configuração social, ♣ Professora dos Programas de Pós-graduação em Psicologia Social e Institucional e de Infomática Educativa/ UFRGS 1 Refiro-me aqui ao grupo de pesquisadores Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar por mim coordenado e vinculado ao PPGPSI/UFRGS. Cito algumas de suas produções: Projeto de pesquisa integrado Modos de trabalhar, Modos de Subjetivar no contexto da reestruturação produtiva (1997-2001); projeto de pesquisa integrado Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no contexto da reforma psiquiátrica ( 2002- em curso); diversas dissertações de Mestrado orientadas pelo eixo da problemática Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar (produções desde 2000 ao momento atual, no âmbito do PPGPSI/UFRGS); Plano de estudos e atividades do meu próprio estágio pós-doutoral, realizadao em 2004, na Universidade de Lisboa. 2 Deleuze, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Ed. 34, 1999. p.28, 3 Os resultados destas pesquisas encontram-se publicados no livro Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar . Tempos de Reestruturação Produtiva: um estudo de caso. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2002. para observá-los em seus momentos de desinstitucionalização, pode nos levar a considerar o campo empírico como um plano de composição comparável ao deserto, de cujo revolvimento e desembrulhamento pode resultar a atualização de potências múltiplas que se encontram imantadas em sua memória-superfície. Falamos da liberação, portanto, da vida em sua nudez, ainda não materializada e não tornada saber, mas que ali se encontra, à espera de passagem e de agenciamento para a constituição de ‘um povo por vir’, tal como nos coloca Deleuze. Podemos pensar, de um modo especial, que se trata de colocar em análise o próprio coeficiente de transversalização concernente ao estado do social em momentos específicos de sua constituição e dos quais emergem provocações e tensões resultantes do continuado confronto entre as forças instituídas - próprias à conservação das formas históricas - e as forças instituintes - próprias à processualidade -, que formiga e pulsa nas figurações, pressionando a moldura das formas. Podemos caracterizar nossos estudos como orientados pela busca de conexões entre um dentro (as formas instituídas) e um fora (as forças instituintes que as dilatam e dilaceram), tratando-se de sondar modos de experimentar a diferenciação e espreitar a fluidificação das formas constituídas. Assim, no caso de nossa atual pesquisa, percorrer as trilhas da desospitalização e da desinstitucionalização do louco e da loucura - propostas e implementadas pela Reforma Psiquiátrica -, pode dar a ver e falar modos de se relacionar com a alteridade, possibilitando configurar práticas sociais, coletivas e individuais, governamentais ou não, e seus respectivos desdobramentos nos processos de subjetivação e objetivação. Partindo da noção de uma subjetividade fabricada e inscrita no social e no processo histórico e, considerando-a como efeito de uma processualidade complexa na qual diversos elementos – humanos e inumanos – se entrelaçam, sendo dotada de plasticidade e não determinada por alguma essência central e transcendente, a subjetividade é, aqui, colocada na perspectiva do tempo, sendo este considerado como multiplicidade virtual, como um todo aberto e extemporâneo. Ao referir-se ao homem, Nietzsche nos dizia algo que pode ser acolhido no contexto de nossa argumentação: “... o ainda não domado, o eternamente futuro, que não encontra sossego de uma força própria que o impele, de modo que seu futuro, uma espora, mergulha na carne de todo o presente”4. Assim, se o presente é perturbador e exige uma atenção redobrada, se os instrumentos até agora utilizados para mapeá-lo parecem insuficientes, se as forças que nos rodeiam e nos impelem a velocidades vertiginosas ainda não se fazem claras aos nossos olhos, temos, aí, razões para alçar-nos com mais garra à altura 4 apud Pelbart, Peter Pál. Prefácio. In: Fonseca, Tania Mara Galli e outra. Formas de ser a habitar a contemporaneidade. Porto Alegre: Editora da UFRGS, 2000. p. 11 desse desafio, pois é ainda com Deleuze que viemos a formular a necessidade de estar à altura do que nos acontece – eis a ética essencial. Desde este enfoque ético-estético, buscamos situar nossa produção em sintonia com o caráter de crítica ao instituído. Buscamos focar e intensificar-lhe a crise com vistas a potencializar, através da desnaturalização de suas referências identitárias, outras possibilidades de seu vir-a-ser. Acreditamos que daí podem inventar-se linhas de fuga, cuja função não remete a fugir do mundo, mas pode fazer fugir certos mundos indesejáveis, construídos à base da vampirização das forças dos corpos e de seu conseqüente enfraquecimento vital. Assim é que, associamos o fazer científico ao fazer político, uma vez que falamos em uma produção interessada na própria dinâmica instituído-instituinte, apontando não para uma origem dos modos de ser e pensar, mas para o complexo de multiplicidades inscrito em sua fundação. Entendemos que conhecer não se refere à passagem de um não-saber ao saber, mas situa-se exatamente numa passagem desequilibrante e crítica em que se torna possível desembrulhar algo do nó problemático que constitui os objetos de nosso olhar, desenvelopálos, identificar-lhes as forças constituintes, rachá-los, não para neles encontrar o já conhecido e o familiar, mas para produzir-lhes novos sentidos: toque-agenciamento àqueles virtuais, ali depositados, ainda invisíveis, inauditos, imperceptíveis, mas que se encontram à espreita da oportunidade de vir a emergir e acontecer como parte de um possível outro futuro. Sabemos o quanto as ciências humanas e sociais têm se constituído a partir de ímpetos civilizatórios e “humanizadores”. A sua neutralidade em relação aos valores éticos e políticos dominantes já não pode, nos dias de hoje, ser sustentada. A crença na ciência como produtora de verdades absolutas e objetivas, verdades sem sujeito e sem referências mundanas, forjadas como universais e metafísicas, sofre abalos que impelem a razão a buscar a sua própria crítica.5 A tarefa de pensar o próprio pensamento tem ocupado muitos autores cujas contribuições conferem sustentação a novos paradigmas, levando-nos a mergulhar na crise da razão ocidental, no seio da qual se gestam pressupostos para se pensar sob os auspícios da complexidade, da incerteza e instabilidade6. Implica-se, desta forma, ciência e tempo levandonos a uma produção de conhecimentos que não pretende esgotar o real, mas que suporta e se deixa afetar pelos desconhecidos e pelos enigmas dele emanados. Autores como Michel 5 Foucault, Michel. Les mots et les choses. Paris: Gallimard. 1966. . ________. As palavras e as coisas. Lisboa: Edições 70. 1988. 6 Schnitman, Dora (org) Novos Paradigmas, Cultura e Subjetividade. Porto Alegre: Artes Médicas,1996. Foucault, Gilles Deleuze e Félix Guattari7 nos mostram que é no interior de tempos e espaços específicos que se gestam estratégias de controle da vida e do viver. Na perspectiva do campo Psi, campo já denominado por Foucault como aquele da “ortopedia moral”, também encontramos importantes interlocuções que apontam para uma significativa transformação de seus saberes e práticas. Recentes estudos da história da psicologia levam-nos a concebê-la como obra em aberto, constituída historicamente pelo cruzamento de saberes diversos.8 Contudo, falar em história aqui não nos prende à imagem de uma aspiral ascendente. A imagem da qual nos aproximamos é uma outra, a de rede que cresce segundo um princípio de conexão, sem que haja um centro unificador, um princípio teleológico. Conexões rizomáticas, em que as transformações têm lugar por todos os lados e se dão em direções múltiplas e divergentes. A história não progride na direção de uma objetividade crescente, mas bifurca-se na invenção de novos problemas. Em Michel Serres, encontramos uma mesma compreensão da história das ciências, quando ele nos diz: “Longe de traçar uma sucessão linear de aquisições contínuas e crescentes ou uma seqüência idêntica de bruscas rupturas, descobertas, invenções ou revoluções que precipitam no esquecimento um passado subitamente transformado, a história das ciências corre e flutua sobre uma rede múltipla e complexa, e caminhos acavalados e entrecruzados em nós, picos e encruzilhadas, pontos de intercâmbio nos quais se bifurcam uma ou várias vias. Uma multiplicidade de tempos diferentes, de disciplinas diversas, de idéias da ciência, de grupos, de instituições, de capitais, de homens em acordo ou em conflito, de máquinas e objetos, de previsões e acasos imprevistos compõem um tecido flutuante que representa de maneira fiel a história múltipla das ciências”9 . 7 Foucault, Michel. Em defesa da sociedade. São Paulo: Martins Fontes, 1999. Deleuze, Gilles. Instintos e Instituições. In: Escobar, Carlos Henrique (org). Dossier Deleuze. Rio:Hólon, 1991. Guattari, Félix. Caosmose. Um Novo Paradigma Estético.Rio:Ed. 34, 1992. Pelbart, Peter Pál. Vida Capital. Rio:Relume-Dumará, 2003. 8 Kastrup, Virginia. A psicologia na rede e os novos intercessores. In: Fonseca, Tnia Mara Galli. Et alii. (orgs). Formas de Ser e Habitar a contemporaneidade. Porto Alegre: Editora UFRGS, 2000. Jacó-Vilela, Ana Maria et alii. Clio-Psyché Ontem. Fazeres e Dizeres Psi na história do Brasil. Rio: RelumeDuramá. 2001. Jacó-Vilela, Ana Maria et alii. Clio-Psyché Hoje. Fazeres e Dizeres Psi na história do Brasil. Rio: Relume Duma´rá. 2001. Jacó-Vilela, Ana Maria et alii. Clio-Psyché Paradigmas. Historiografia, psicologia, subjetividades. Rio:Relume´Dumará, 2003. Jacó-Vilela, Ana Maria e Mancebo, Deise (orgs) Psicologia Social. Abordagens Sócio-históricas e desafios contemporâneos. Rio: EdUERJ, 1999 Fonseca, Tania Mara Galli. Epistemologia.. IN: Jacques, Maria da Graça et alii (orgs). Psicologia Social Contemporânea. Petrópolis/RJ: Vozes, 1998. p.36-48 Fonseca, Tania Mara Galli. 9 Serres, Michel (org) Historia de las ciencias – Prefácio. Madrid: Cátedra, 1991. p.13 É do interior de tais reflexões que emerge o nosso fazer científico, no qual se funda um modo de produção que coloca como questão ética as escolhas e as problematizações pertinentes ao campo da pesquisa e dos fazeres psi. Aqui, “fazer a psicologia”, também significa implicar-se na multiplicidade e heterogeneidade do empírico, detectando forças tendenciais, direção e movimentos que escapam ao plano das formas constituídas. Se as formas existentes e visíveis resultam de um agenciamento de fluxos heterogêneos, sendo atravessadas pela lógica do finito-ilimitado, não pertencendo, pois, à ordem do eterno, elas sofrem rupturas e podem ser desfeitas. Entende-se que o próprio mundo é movente, inscrevendo-se em uma ontologia complexa de duas faces: o plano da formas, o molar e outro, que lhe é coexistente, o das forças e agenciamentos, plano molecular. Se a Psicologia Social e Institucional toma para si a tarefa de pensar novas formas de subjetivar, conhecer e habitar a contemporaneidade, como é o caso da linha de pesquisa a que me filio em nosso Mestrado10, ela necessita de operadores e ferramentas conceituais e metodológicos para sua abordagem como campo movente em diferenciação permanente. Neste sentido, os desafios conceituais e metodológicos transmutam-se em desafios éticos devido ao seu poder de conferir significação, organismo e subjetividade à produção desejante. Entendo que o atual projeto de pesquisa em desenvolvimento e acima referido tem se constituído, tanto como outros que já se concluíram ou estão a se fazer e que pertencem ao escopo do grupo de estudos e pesquisas Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar, fazem parte de nosso interesse pelas desterritorializações e rupturas e nos colocam como que a espreitar o nascimento de mundos, mesmo quando estes ainda se mostram informes e disjuntos. Para tornar possível nossa sensibilização para o plano das moléculas e das forças, entendemos que não bastam recursos racionais, lógicos e disciplinares, o que explica nossa busca de intercessores, termo aqui utilizado, no sentido deleuziano, de interferir, intervir, mais do seria tão somente articular e interagir. Buscamos produzir interferências no interior do próprio corpus de nossa disciplina, como se buscássemos fazer acontecer uma operação de fecundação. Intercessores como ferramentas que nos forçam a pensá-la e a problematizá-la, com vistas a produzir-lhe crítica, crise, desestabilização para novos porvires. A conexão com intercessores pertence ao domínio da diferenciação que não tende ao equilíbrio e difere daquela conjugação de dois domínios na constituição de um terceiro, que se espera estável. Não se trata de troca ou imitação, mas de operação de captura e busca de ressonâncias, 10 Mestrado em Psicologia Social e Institucional /UFRGS- Linha de Pesquisa:Modos de subjetivação contemporânea. passando a transmutação a ser recíproca, num jogo de interferências mútuas, envolvendo o intercessor e o campo por ele afetado.11 Nesta operação de fecundação que procuramos investir tanto no campo empírico quanto no científico que nos concernem, estranha e paradoxalmente, nos desalojamos de nossas certezas e verdades, processando transmutações subjetivas o que nos evidencia a indissociablidade do ato de conhecer daquele de criar, diferir e ultrapassarmo-nos. Da mesma forma, nosso posicionamento no campo da pesquisa, não concerne a uma posição superior de controle da produção em curso. Tornamo-nos produtos e produtores simultaneamente e sentimo-nos como que habitantes dos fluxos, emprestamo-lhes nosso próprio corpo e mente, nossas potencialidades para que se expressem e adquiram significação e existência. Neste processo de conhecer, fecundado também pela intuição e pelas sensibilidades do corpo12, damos à luz frutos da invenção, os quais, ao nascerem, não nos oferecem soluções aos problemas mas nos propõem perguntas e estranhamentos. Cognição encarnada, não recorrente a regras abstratas e tampouco a juízos morais. Cognição que nos termos de Francisco Varela13, mostra-se como combate à noção de mundo dado, descentrando-se da noção de um sujeito que passa a ser substituída pela de agente coletivo e processual, situandonos em um processo em que não há entidade substancial, um piloto ou centro de condução. Aqui, a produção de conhecimentos adquire uma conotação viva e vital, uma vez que se associa à aprendizagem do corpo para criar outras formas e outros mundos desde as rachaduras introduzidas no sistema cognitivo. É desta forma que Varela propõe sua tese de que a competência ética é o progressivo conhecimento da virtualidade do si-mesmo.14 Como pretendemos fazer notar, os argumentos até aqui desenvolvidos buscam ancorar um específico ponto de vista a respeito dos modos de produção no que tange à ciência Psi e à subjetividade. Ambas produções incidem, segundo nosso entender, no terreno das instituições e das práticas sociais, colocando em foco as tensões entre elas, uma vez que não nos afastamos da questão instituído/instituinte, binômio que se associa intimamente à pesquisa dos modos de subjetivação contemporâneos. É no âmbito desta linha de pesquisa que se tem discutido a respeito dos operadores conceituais e metodológicos que nos possibilitam focá-la em seus objetivos. É nesta linha e a partir dela que tem aportado e se produzido significativa 11 Passos, Eduardo e Barros, Regina Benevides de. A Construção do Plano da Clínica e o Conceito de Transdisciplinaridade. Rev. Psicologia:Teoria e Pesquisa, jan-abr 2000,v.16,n.1,pp71-79. Kastrup, Virginia. A Psicologia na rede e os novos intercessores. In: Fonseca, Tania Mara Galli et alii (org). Formas de ser a habitar a contemporaneidade. Porto Alegre:Ed. UFRGS, 2000, pp.13-26 12 Deleuze, Gilles A intuição como método. In: Deleuze, Gilles. Bergsonismo. São Paulo:Ed.34, 1999,pp.7-26 13 Varela, Francisco. Sobre a competência ética. Lisboa: Edições 70. 1995. 14 Idem, p.68 demanda proveniente de estudantes/pesquisadores, advindos de áreas como a da psiquiatria, medicina social, ciências sociais, administração, filosofia, artes, terapia ocupacional, fisioterapia, educação, além é claro, da própria psicologia. Tal demanda se traduz na opção de analisar práticas profissionais e institucionais vistas como produtoras de subjetividade à luz das ferramentas conceituais derivadas do aporte acima brevemente indicado. O atual projeto Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar no contexto da Reforma Psiquiátrica tem se constituído em uma espécie de atrator de nossa mais recente produção acadêmica e, por conseguinte, daquela referente aos nossos orientandos e bolsistas de Iniciação Científica15. Os desafios do referido enfoque têm nos impulsionado a referenciais teórico-metodológicos provindos da Filosofia da Diferença e da Esquizo-Análise os quais consideramos senão como desdobramentos diretos da Análise Institucional, seus afins e associados. É desde esta posição teórica que constituímos um importante eixo de nosso saber-fazer no âmbito da pós-graduação em Psicologia Social e Institucional. Ao tomar a subjetividade contemporânea como um problema, coloca-se a questão de sua plasticidade, de sua fabricação social e histórica e das forças que a configuram. Tal abordagem encontra ricas parcerias em outros campos de conhecimento, levando a uma ampliação do próprio campo Psi tomado também como historicamente produzido. É no ponto de intersecção com outros saberes e disciplinas que encontramo-nos com a filosofia, com as artes, com a história, com a política , com as ciências sociais, permitindo-nos configurar um corpus Psi 15 fecundado pela conexão com diversos domínios conexos. É na perspectiva da Relação de dissertações e pesquisas implicadas à temática: jan/2002- Autopoiese e sociedade na teoria dos sistemas vivos - Fábio Dal Molin. jan/2002- Plano Grupal como campo transdisciplinar: cartografando uma equipe de saúde - Carlos José Simões Ribeiro. abril/2003- Duas ou três idéias sobre o fazer psi e a pós-modernidade – Walter Firmo Cruz. abril/2003- In(ter)venções em campo de devastação: um problema e três estudos clínicos no pátio do Hospital Psiquiátrico São Pedro- José Ricardo Kreutz. nov/2003- Reciclando modos de trabalhar, modos de subjetivar: cartografia de uma nova suavidade – Selda Engelman. 2002/2005 – Desterritorializando o espaço-tempo da loucura, refere-se à pesquisa que toma o espaço físico arquitetônico do Hospital Psiquiátrico e seus atuais movimentos de ruptura como o modelo hospitalocêntrico, levando em consideração que a espacialização - sua organização e edificação - é considerada como prática discursiva estando impregnada de saberes e poderes a respeito da loucura. – Esta pesquisa teve como base o Memorial da Loucura do HPSP e contou com a participação dos acadêmicos de Psicologia e Luis Artur da Costa e Danichi Mizogouchi, bolsistas de Iniciação Científica, merecedores de Destaque nos dois últimos Salões de Iniciação Científica da UFRGS. Coloca-se, sobretudo, como dispositivo de integração com a Professora Ana Luisa Janeira tendo sido projetada para dar sustentação a um programa de intercâmbio entre pesquisadores da UL e da UFRGS, conforme programa de visitas da referida professora em períodos dos anos letivos 2001, 2002 e 2003 e da realização de estágio pós-doutoral da profa. Tania Mara Galli Fonseca na UL, em 2004. 2002-2005- De que corpo fala a nova política de atenção em saúde mental no Brasil? – Fabiana Tomazzoni Costa 2004-2006 – O sentido-resistência da Oficina de Criatividade em um contexto manicomial - Maria da Fátima Àvila subjetivação que nos interessa problematizar os modos de trabalhar. Pretendemos tornar visíveis as práticas manicomiais através da genealogia, que segundo Foucault, consiste em “uma forma de história que dê conta da constituição dos saberes, dos discursos, dos domínios de objeto, etc., sem ter que se referir a um sujeito, seja ele transcendente com relação ao campo de acontecimento, seja ele perseguindo sua identidade vazia ao longo da história”16. Analisar genealogicamente significa considerar o nosso campo empírico como uma superfície de inscrição dos jogos de saber-poder relativos a uma determinada época social. Matériamemória de modos de subjetivação, prodigioso plano de análise que nos leva a buscar o passado para encontrar respostas às interpelações do presente. Referimo-nos, aqui, a uma prática que nos transforma em atores de nosso próprio futuro, que toma o passado desde uma perspectiva poética, oracular, e que confere à história o caráter de obra de arte, porque ela pode nos servir de ferramenta para a construção do presente. Conectar o passado para dele extrair o a-histórico, ou seja , o devir como intempestivo, o devir como a própria vida em sua imprevisibilidade e inocência, devir como acaso e anti-memória17,pode justificar nosso uso da história. Uso que implica uma ação contra o presente, criação de uma outra atitude, de um outro ponto de vista que se mostra como condição e preparação à criação de novos mundos. Resistência afirmativa, vontade de outras coisas, bifurcação em relação às formas atuais do mundo e das subjetividades. Paradoxalmente, poderíamos pensar que, nesta abordagem, memorizar também significa esquecer, uma vez que não se trata de escavar no passado elementos para nutrir uma memória à serviço do ressentimento, construída no ódio à vida que pede passagem e na incapacidade de digerir e ultrapassar os sofrimentos. Não se trata de matar o presente em seu nascedouro, de cultivar um excesso de história e adoecer do passado já vivido. Trata-se de abrir-se ao eterno retorno da própria vida e não do vivido, acolher a repetição como afirmação da vida, como vontade de potência e abertura ao diferente e não como representação e devoção a formas passadas. É bem verdade, contudo, que não há possibilidade de viver apenas o novo, assim como seria impossível deixarmos de fazer história. Entendemos que o próprio novo se refere a uma recriação do passado, não podendo ser atribuído ao processo ex nihil. A repetição refere-se, pois, a uma problemática de dupla face, uma delas voltada para o passado, constituída pela busca de sua representação, no sentido de sua re-apresentação, e a outra, voltada para o devir, para o futuro, no sentido da criação de um novo a partir de recriação do 16 Foucault, Michel. Microfísica do Poder. Rio: Graal, 1979. p.7 Deleuze, G, e Guattari, F. Devenir-intenso, devenir-animal, devenir-imperceptible. In: Mil Meselas – Capitalismo Y Esquizofrebia. Valencia: Pré-textos, 1988.p293. 17 passado como virtualidade. Situamo-nos, mais uma vez, no âmbito da ontologia complexa a que anteriormente nos referimos. Repetição e diferença constituem-se, desta maneira, como o cerne da heterogênese de mundos e de sujeitos o que nos leva a convocar, mais uma vez, a competência ética proposta por Varela , como a capacidade de deixar-se diferir. As questões do tempo e da memória tornam-se importantes para o desenvolvimento de nossas pesquisas. O tempo, aqui, não se refere a uma cronologia, a uma sucessão linear de um passado em direção ao futuro, onde encontrará o progresso ou a decadência. Aqui, referimo-nos a um tempo não-reconciliado18, tempo como multiplicidade, tempo como virtualidade, como inconsciente criativo, tempo como rizoma, como rede, tempo paradoxal, que passa e não passa, tempo- massa-emaranhado, podendo concordar com Michel Serres quando diz: “Qualquer acontecimento da história é multitemporal, remete ao revolvido, ao contemporâneo e ao futuro simultaneamente. Tal ou qual objeto, esta ou aquela circunstância, são, pois, policrônicas, multitemporais, fazem ver um tempo amarrotado, multiplamente dobrado19”. Precisamos mergulhar em um tempo diferente do cronológico, tempo que não passa, tempo da duração, continente de estratégias e políticas de memória e de esquecimento, que se transmuta e cria - inchado pelo passado, a cada instante -, possibilidades e tendências de porvir. É neste sentido que Bergson nos diz que “a duração é o progresso contínuo do passado que rói o futuro e incha avançando. (...) é aquela que morde as coisas e nelas deixa a marca dos dentes”20. As referências que sustentam nossa argumentação encontram sua fundação no campo denominado Filosofia da Diferença que tem em Gilles Deleuze e Félix Guattari as principais contribuições. Da mesma forma, Michel Foucautl é convocado para entremear-se àqueles, dando ênfase às noções de saber-poder e genealogia. Partindo de uma posição crítica e construtivista, os filósofos franceses oferecem-nos uma perspectiva inovadora em relação à análise da subjetividade, ao tempo e à história O modo de produção da subjetividade se inscreveria como plano social e histórico, tendo como foco, antes do que os próprios sujeitos estes já considerados efeitos dos modos de subjetivação vigentes -, as condições que conferiram possibilidade de existência a determinadas formas de pensar, ser , conhecer, sentir e estar no mundo. 18 Neste sentido, esta teorização, “despsicologiza” a humanização dos Pelbart, Peter Pál. O tempo não-reconciliado. São Paulo:Perspectiva. 1998. __________. A nau do tempo-rei: sete ensaios sobre o tempo da loucura. Rio: Imago, 1993 19 Serres, Michel, Hermès V. Le passage du Nord-Ouest. Paris:Minuit,1982.p.72 In: Pelbart, Peter Pál. Rizoma Temporal. Revista Educação, Subjetividade e Poder.v.5, Porto Alegre/PPGPSI, 1998. p.62 20 Bergson, Henri. Evolução Criadora. Rio:Opera Mundi, 1971. p.44 e 78. indivíduos, ultrapassando e criticando os enfoques que a reduzem ao edipianismo e às cenas familiares afetivas precoces. A heterogênese é chamada para dar conta da caosmose, processo que inclui a invenção do mundo e dos sujeitos a partir de um conjunto de elementos - humanos e não-humanos -, cujos efeitos dependem das conexões estabelecidas entre estes, consideradas desde o plano das multiplicidades e das intensidades. A trama ontogenética engendradora das formas e dos seres existentes não permite falar em origem, uma vez que a concepção e existencialização está sempre referida a uma processualidade complexa não passível de ser reduzida à autoria de um único sujeito e tampouco de um único objeto. Estamos imersos em um processo de constituição do si e do mundo absolutamente sem objeto e sem sujeito, o que nos faz reportar a um plano de forças e intensidades, plano molecular e informe, caótico, de cuja organização e desacelerações emergem acontecimentos geradores de novos regimes de enunciação e visibilidade. Deste ponto de vista, a subjetividade é vista como fabricada, constituindo-se como efeito e contra-efeito dos saberes-poderes vigentes em dada situação. Da mesma forma, a produção científica é desacralizada em relação ao seu estatuto de verdade e, sendo re-lançada à processualidade que a tornou possível, se mostra como produção encarnada e efeito de certos regimes de poder, podendo colocar-se a seu serviço ou a eles resistir para a criação de novos caminhos. Entendendo-se que é sempre a partir do plano de composição imanente ao estado de coisas vigentes que se encontram as possibilidades de resistência e criação, pode-se pensar que este aporte filosófico rompe radicalmente com a transcendência, deslocando o ponto do nosso olhar para a própria imanência, o que passa a orientar nossos pressupostos por uma Psicologia da Singularização, que defende sua construção apoiada não em fundamentos que conduzam para uma ciência normativa, generalizante e universalizante, mas em fundações locais, específicas e únicas. A ética essencial neste paradigma refere-se ao modo de acolhimento que dá ao próprio processo de diferenciação das formas existentes que são, por sua vez, lançadas numa ontologia de dupla face: o plano instituído das formas e o plano instituinte das forças que as habitam. Tudo pertence à ordem do finito-ilimitado, sendo o mundo efeito da produção de um tempo criador, de uma evolução sem teleologia, sem objeto e sujeito, movida por forças e agenciadas por intercessores absolutamente intempestivos e múltiplos. Tempo-rei –Aion -, não reconciliado com a lógica do progresso, mas orientado para a expansão da vida e para a manifestação da multiplicidade que lhe concerne. As práticas sociais podem ser olhadas como as marcas dos dentes do tempo no corpo da história, como vestígios de uma herança que “não é uma aquisição, um bem que se acumula e solidifica: é antes um conjunto de falhas, de fissuras, de camadas heterogêneas que a tornam instável,e do interior ou debaixo, ameaçam o frágil herdeiro”21. Nelas se acumula uma memória social e coletiva, o que as inscreve na ordem não do tempo da sucessão linear e sim no da duração, entendida não como um instante que substitui outro instante, mas como “progresso contínuo do passado que rói o futuro e incha avançando”22 . Nesta perspectiva, o passado que incessantemente cresce, também se conserva indefinidamente. Acompanha-nos por inteiro a cada instante e acomoda-se como um revestimento, um lençol colado ao avesso de nosso corpo, que olha tanto para dentro como para fora, pele-cobertura-forro-membrana sensível, fronteira grudada aos próprios nervos, ossos e carne : eis o que chamamos de corpo , superfície subjetiva e singular, em constante atividade para resolver-se em relação a um determinado estado de forças em correlação que lhes são imanentes. Plano de composições do qual não basta conhecer-lhe as proveniências herdadas das vivências, enfim, daquilo que fomos e que está sempre ali, inclinado sobre o presente que se lhe vai juntar. É preciso que se considere também o afrontamento de suas marcas, seu estado de luta no jogo casual das dominações de umas sobre as outras. Olhar que leva em consideração a contínua erosão das regras sociais, não por guerras espetaculares de Estado, mas por práticas referidas como microbianas que se referem aos sujeitos sociais como terminais de consumo da rede de poderes-saberes, alocados no social como pontos moleculares a partir dos quais alguma fissura se alarga, outra é vedada, na interminável, labiríntica e impossível tarefa de estabelecimento do controle social a partir de um centro irradiador. Antes do que uma ampla e reta estrada, um labirinto, de muitas entradas, muitos feixes e bifurcações, impulsionados por um modo rizomático de expansão e conexão regido pela lógica do e,e,e e da fuga. Acontecimentalizar as práticas sociais refere-se ao que Foucault considera como um procedimento analítico e de produção de conhecimentos implicado a uma posição teóricopolítica de desnaturalização. Para o autor, a acontecimentalização aponta para uma ruptura evidente com a tendência de busca de uma constante histórica ou um traço antropológico ou ainda uma evidência se impondo da mesma maneira para todos. “Ruptura das evidências sobre as quais se apóiam nosso saber, nossos conceitos, nossas práticas”23. (...) “Consiste em reencontrar as conexões, os encontros, os apoios, os bloqueios, os jogos de força, as estratégias, etc. que, em dado momento, formaram o que, em seguida funcionará como evidência, universalidade, necessidade”.24 Procedimento de desmultiplicação causal que 21 ibidem, p.21 Bérgson, Henri. A Evolução Criadora. Rio de Janeiro: Ed. Delta 1964, p. 44. 23 Foucault, Michel. Estratégia, poder-saber. Organização e seleção de Manoel Barros de Motta. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2003, p.339. 24 idem 22 consiste não em analisar as práticas como um fato de instituição ou efeito de ideologia, mas desde os múltiplos processos de práticas simultâneas que concorreram para criar as condições de sua emergência. Neste sentido, trata-se de situar as práticas como emergentes de uma certa correlação de forças em um dado espaço-tempo social e atribuir-lhes uma múltipla causação, uma gênese complexa a partir de um determinado acontecimento do qual se produzem como um dos possíveis efeitos singulares. Trata-se de romper com a tendência de atribuição de causalidade única, para construir um “poliedro de inteligibilidade”, cujo número de faces não é previamente definido e nunca pode ser concluído. Trata-se, sobretudo, de operar um modo de análise que antes de se articular a uma analítica da verdade, conjuga-se a uma ontologia do presente, a uma ontologia de nós mesmos. Assim, a investigação científica que se propõe a analisar e articular práticas sociais, como é o caso de Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar, deve buscar saber a respeito das condições que, em dado momento, as tornaram aceitáveis e legítimas. “Trata-se de fazer a análise de um regime de práticas – as práticas sendo consideradas como o lugar de encadeamento do que se diz e do que se faz, das regras que se impõem e das razões que se dão, dos projetos e das evidências. (...) Analisar programações de conduta que têm, ao mesmo tempo, efeitos de prescrição em relação ao que se deve fazer e efeitos de codificação ao que se deve saber”25. Trata-se, pois, de expor à luz, objetivar, determinadas práticas que se contraem e escondem nas coisas e que nossa consciência não as concebe. Trata-se, sobretudo, de considerar que não há objetos naturais e tampouco coisas e que os objetos e as coisas não são senão os correlatos das práticas. Neste modo de operar a análise, “o que é feito, o objeto, se explica pelo que foi o fazer em cada momento da história; enganamo-nos quando pensamos que o fazer, a prática, se explica a partir do que é feito”26. Assim é que, em uma certa época, “o conjunto de práticas engendra (...) um rosto histórico singular (...); mas, em outra época, será um rosto particular muito diferente que se formará no mesmo ponto, e, inversamente, sobre um novo ponto, se formará um rosto vagamente semelhante ao precedente”27. Não há, através do tempo, evolução ou modificação de um mesmo objeto que brotasse sempre no mesmo lugar. As práticas não são, portanto, as coisas, mas estão nas coisas, apresentam-se sempre sob amplos drapeados e neles se ocultam como a parte imersa do iceberg, situando-se abaixo da linha de visibilidade. Pesquisá-las implica em desprendê-las das formas e dos objetos que 25 ibidem, p.338. Veyne, Paul. Como se escreve a história e Foucault revoluciona a história. Brasília: Ed. UnB, 1988, p.257. 27 idem, p.268-269 26 constituem. Conferir-lhes existência a partir daquilo que está feito e que dobra em si o que foi seu próprio fazer-se. Neste ponto, incide e ativa-se o olhar observador, para - em uma operação de desdobragem, rachadura ou estiramento -, dar a ver naquele organismo - então desdobrado e exposto -, as multitiplicidades que lhes são imanentes e que se encontram ali, tecidas tal como uma trama tão bem urdida a ponto de ser confundida como uma espécie de estrutura natural. O que importa na abordagem genealógica é evidenciar que extrair o fazer do feito, a evolução do evoluído, as virtualidades do atualizado, requer operações cognitivas que não se assentam tão somente em modos racionais. A razão fala sobre o que ignora, sobre objetivações que desconhece e atua sobre a forma, desde o seu exterior, tomando-a como um conjunto de relações entre os elementos da matéria bruta. É próprio da razão, portanto, uma relação externa com o objeto do qual tende a apreender o descontínuo e o imóvel. “A inteligência não é feita para pensar a evolução, no sentido próprio da palavra, isto é, a continuidade duma mudança que seja pura continuidade. (...) a inteligência tem a representação do devir como série de estados, cada um dos quais é homogêneo com ele próprio e por conseqüência não muda. (...) a inteligência deixa fugir o que há de novo em cada momento da história. Não admite o imprevisível ... não seria difícil descobrir que sua origem está na obstinação em tratar o vivo como se fosse inerte, e em pensar toda a realidade, por mais fluída que seja, sob a forma de sólido definitivamente fixado.(...) A inteligência é caracterizada por uma natural incompreensão da vida”28. Neste particular, torna-se importante lembrar que a temática Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar desdobra-se em diversos tempos, sendo que o seu primeiro corresponde à sua constituição como grupo de estudos e pesquisas, reconhecendo-se, então, como agenciamento maquínico de corpos. Daí, decorre que a articulação de tais corpos com os enunciados que produzem, faz emergir e funcionar uma espécie de dobradiça, cujas abas encontram-se unidas e articuladas pelo mesmo eixo-gonzo, ou seja, por um modo de fazer. Assim, o que interessa neste particular é assinalar, no âmbito deste agenciamento, mas debaixo da linha de visibilidade, um fazer dos corpos e dos saberes que requer mais do que uma catalogação das formas tomadas em suas diversidades e quantidades. O tornar visível aquilo que está dobrado no avesso das aparências requer, como nos mostra Deleuze através de 28 Bergson, Henri. A Evolução Criadora. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1964, p.175-176-177. Bergson, que à inteligência deve juntar-se a intuição, considerada esta última como a possibilidade de simpatia com objeto, a ponto de captar-lhe as tendências que o atravessam e regulam a sua existência e os seus devires. Tratar-se-ia da recorrência a uma memória contraída do corpo e do deslocamento dos objetos de sua instantaneidade ao que lhes confere uma duração no tempo. Operação cognitiva que nos leva a ultrapassar o estado da experiência em direção às condições da experiência. “Buscar a experiência em sua fonte...”29. Assim, o problema do conhecer implica sempre na convergência das duas abas da dobradiça: a da objetividade e a da subjetividade, a da observação externa e da observação interna, implicando-se a procedimentos que posicionam sujeito e objeto em enervante continuidade e reciprocidade. Fazer durar o objeto implica, paradoxalmente, decompô-lo, desmisturá-lo, liberá-lode seu estado presente. Trata-se de perseguir sua duração através das tendências múltiplas que o marcam e traçar sua continuidade e diferenciação contínua. Fazê-lo durar significa ativar suas virtuais multiplicidades para que se produza o seu próprio devir, pois, se um objeto dura, ele está sujeito a uma evolução que não se afetua de uma associação, mas sim de uma dissociação, de uma divergência de esforços. Com Bergson30, aprendemos que o movimento evolutivo da vida se processa como dispersão, sendo que a própria vida pode ser considerada como tendência que se desenrola em direções divergentes entre as quais o seu impulso se partilhará. É neste sentido que se implica o conhecer com a invenção da própria vida; conhecer cuja ética se entrelaça ao alargamento das possibilidades do olhar que analisa , à liberdade do corpo sensível e pensante e à astúcia da inteligência que fabrica instrumentos e meios para obter resoluções exitosas e autoorganizativas em meio às problematizações das conflitivas do existir. Conhecer arrasta, assim, o sujeito não apenas enquanto razão e funcionalidade. Este torna-se uma espécie de corpo-de-passagem às forças que o afetam e que pedem expressão objetiva. A objetivação, portanto, se efetua desde os filtros do sujeito conhecedor e das possibilidades que o mesmo oferece de deixar-se afetar pelo que se encontra invisibilizado, mas pulsante e efetivamente ativo no processo da ontogênese. Todo o conhecer torna-se assim criação do conhecedor e a regra a ser respeitada não se prende à busca e confirmação de verdades, mas expressa-se como expressão das explorações diversas no magma das forças que adentram e animam os corpos e constituem antes do que seus estados permanentes, suas tendências de devir. Modos de trabalhar, modos de subjetivar: dramáticas do uso de si 29 30 Deleuze, Gilles. Bergsonismo. São Paulo: Ed. 34, 1999, p.18. Bérgson, Henri. A Evolução Criadora. Rio de Janeiro: Ed. Delta, 1964. Pode-se vislumbrar as colocações anteriores como a organização de uma trama conceitual que se revela como uma das possibilidades de análise das relações entre o trabalhar e o subjetivar. Buscando reconhecer alguns de seus fios, tem-se claramente que os mesmos são constituídos de uma imaterialidade que, para se concretizar, precisa encontrar operadores: este é o caso do tempo, da história e da vida em seus processos de evolução criadora. Também pode ser o caso do próprio corpo, tornado, aqui, memória imemorial que, é, entretanto, constantemente ativada e revirada como uma massa de virtualidades. Se olharmos para os atos e enunciados produzidos pelos corpos, da mesma maneira concluiremos por sua natureza incorpórea, em que pese serem agidos por carne e osso. É assim que nos convém problematizar a questão do trabalhar e do subjetivar como processos inscritos no âmbito de modos de fazer a vida andar, de desenrolá-la e de inventar-lhe saídas diversas e originais. Os propósitos precedentes oferecem-nos materiais úteis para o desenvolvimento desta última seção que se propõe a distender algo da problemática Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar. Em que pese predominar um certo consenso social do trabalho social como constrangedor e operador de embrutecimento, escravidão e despersonalização31, ele é tomado, aqui, como um lugar adequado para se abordar o problema da subjetivação, uma vez que não se considera que apenas uma película superficial do indivíduo se faz presente, como que abandonada, na execução da tarefa. Também consideramos importante operar uma certa torção do olhar, fazendo-o pousar não no sujeito trabalhador, mas no processo de trabalho que o age e que se encontra em curso, processo que não se refere a uma natureza, mas que é considerado como efeito de práticas sociais relativas aos modos de produzir, distribuir e consumir num dado momento histórico. Desloquemo-nos, portanto, dos sujeitos trabalhadores para os modos de subjetivação produzidos nos contextos de trabalho. Olhemos o trabalho como atividade atravessada de história a qual, como nos alerta Yves Schwartz, “não é de uma ‘pequena história’ de que se trata, de uma história marcada pelo acaso das vidas individuais: nenhuma situação humana, sem dúvida, concentra, ‘carrega’ com ela, tantos sedimentos, condensações, marcas dos debates de história das sociedades humanas com elas mesmas, quanto as situações de trabalho; os conhecimentos colocados em obra, os sistemas produtivos, as tecnologias utilizadas, as formas de organização, os procedimentos escolhidos, os valores de uso selecionados e, por trás, as relações sociais que se entrelaçam e opõem os 31 Schwartz, Yves. Trabalho e Uso de si. Revista Pro-Posições. Unicamp/ Faculdade de Educação, nº32. Dez.2000. homens entre eles, tudo isto cristaliza produtos da história anterior da humanidade e dos povos”32. Contudo, mesmo concebendo que toda a forma de trabalho se encontra saturada de normas de vida, de formas de exploração da natureza e dos homens uns pelos outros, que se encontra, enfim, regrada e normatizada por saberes concentrados da história passada, não podemos atribuir a tal peso histórico uma função prescritiva unívoca que se torna capaz de determinar por si só o que vai se passar na atividade de trabalho. Consideramos que esta história depositada, com seus constrangimentos e recursos, é uma “parte inacabada”, incapaz de nos fazer compreender por ela mesma como nós produzimos a vida na atividade de trabalho. Desta forma, tomamos como referência que, se este concentrado de histórias vividas é sempre inacabado, algo continua a reescrever a história do trabalho, renormalizando constantemente o processo de produzir. Há recriação, reinvenção das práticas que, por sua vez, traçam novas marcas na história, apontando-nos para um processo histórico incessantemente revirado por este fazer experimental coletivo. Trabalhar, assim, refere-se também a um fazer a história desde a ótica de sua recriação permanente, abrindo-a para os fluxos do fora. Nesta atividade de trabalho e criação de normas para fazer o processo andar, supõe-se que o trabalho não se refere a uma simples aplicação de procedimentos pensados alhures. Consideramos que mesmo a aplicação de princípios técnico-científicos é sempre parte de uma reinvenção e que toda atividade de trabalho é sempre, mais ou menos, uma “dramática do uso de si”33. Reinventar as normas, trabalhar de um outro modo diferentemente do que está determinado e prescrito, significa sobretudo considerar que tal produção de saber começa nas profundezas do corpo, com o que lhe é mais singular, com este impalpável da vida se fazendo no curso do tempo. Reinventar o modo de trabalhar, supõe sua contrapartida inexorável: a reinvenção de si. É neste sentido que, articular o trabalhar à subjetivação remete a operadores conceituais como o tempo, a história, o corpo, dispositivos que operam como intercessores no modo de produção do grupo de pesquisas Modos de Trabalhar, Modos de Subjetivar. Conceitos-ferramentas, através dos quais encontramos a possibilidade de dar a ver sujeito e mundo do trabalho mergulhados nos processos de caosmose dos quais figuram como efeitos finitos mas ilimitadamente reconfiguráveis. Alicerces de uma abordagem teóricometodológica que formula o encontro entre trabalhador e trabalho para além da lógica 32 33 idem Ibidem adaptativa, focalizando-a através dos parâmetros da potencialidade autopoiética dos corpos. Tal enfoque vitalista e criacionista da individuação permite-nos focalizar o sujeito e o mundo do trabalho como fulgurações fugidias de uma constelação de fatores humanos e inumanos em conexão. Processos que acoplam história e acontecer, regidos pelo condicional ‘se” e que investem na noção de corpo e tempo. O mundo é registrado para além de seu empírico, para além da linha de visibilidade de suas aparências, sendo concebido como transversalizado por uma reserva infinita que o transforma em trans-mundo, sem hierarquia de complexidade e da qual devém os seus entes que, como suas dobras, dele se estendem e redobram, produzindo individuações únicas e incomparáveis do plano finito-ilimitado. Referimo-nos, aqui, a um todo que é da ordem do tempo e que atravessa as formas instituídas e os modos de produzílas, impedindo-os de se considerarem como obra acabada e fechada em si mesma. “Bergson não cessará de dizer: o Tempo é o aberto, é o que muda e não pára de mudar de natureza a cada instante. É o todo, que não é um conjunto, mas a passagem perpétua de um conjunto a outro, a transformação de um conjunto num outro”34. No âmbito deste plano, são engendradas, por associações insuspeitadas, as práticas sociais do trabalho, como composições dinâmicas que se impregnam nas coisas como o próprio modo de fazê-las. Sujeito-mundo são considerados planos que se implicam e não pólos que se relacionam e interagem. Produção de dupla captura - trabalhador e trabalho animam as artes do fazer através de recombinações das experiências e dos saberes e de seu avançar incessante. Associa-se, neste particular, saúde e trabalho uma vez que aquela depende da possibilidade de ultrapassamento da norma que define o normal momentâneo, tolerando as infrações à norma habitual e instituindo novas regulações para novas situações. Saúde, portanto, associa-se às práticas de gestão do trabalho que se orientam para expandir a vida em sua multiplicidade; situa-se no âmbito coletivo e político e não se contrapõe à doença. Saúde afirma um processo de análise crítica que age sobre as forças que barram e constrangem a vida, significando, portanto, a afirmação do processo de trabalho como biopolítico, como ultrapassamento da noção de simples cumprimento de uma tarefa. O trabalhar implica nas ações do sujeito, tomadas como atividade criadora e corresponde ao que deve ser reajustado, imaginado, inventado na realização de algo que não poderia ser obtido pela execução estrita da organização prescrita. Experimentar os desafios desta equilibração instável, implica em usos de si, uma vez que o trabalho não existe isolado de um modo de extraí-lo do próprio corpo daquele que trabalha. Focalizando, portanto, os modos de subjetivar praticados no 34 Deleuze. Gilles. Conversações. Rio de Janeiro: Ed. 34, 1992 ,p.73. processo de trabalho vemos que a distância entre aquilo que se deve fazer e o trabalho real, efetivamente realizado pelo trabalhador, nos coloca em franca ruptura tanto com o modelo solipsista que se volta para o sujeito e supervaloriza as relações interpessoais, quanto com os pressupostos fisicalistas, cuja concepção reduz o ser humano a um operador, cujo comportamento é concebido como submetido a leis naturais imutáveis e a causas identificáveis. Acreditamos que sem a atividade do sujeito, não existe trabalho e que é impossível que os indivíduos se retenham ao que lhes é prescrito. Permanecer no prescrito é considerado “invivível”, segundo Schwartz35e o sujeito da atividade é colocado à prova em sua competência para fazer história que, sempre “inacabada”, é reescrita ao mesmo tempo em que se desdobra em outramento do sujeito e do mundo. Saberes do corpo, situados no plano não lingüístico , defrontados aos saberes acumulados de uma história coletiva operam o engendramento de um trabalhador que não pode ser considerado como uma massa mole em que se inscreve passivamente a memória dos atos a se reproduzirem. Sendo uso de si, o trabalho passa ao lugar de um problema, de uma tensão, de um espaço de possíveis, sempre a ser negociado. Não há execução, mas uso. O que é convocado no trabalho são recursos, capacidades vastas, competências, o que não se identifica com capacidade para realizar a tarefa. A competência diz o grau de apropriação dos saberes conceituais, mas fala, também, do grau de apreensão das dimensões históricas e do debate dos valores que se vê convocado num meio de trabalho. Portanto, a competência não se separa das condições que, no dia-a-dia, dão conta da nossa capacidade de viver, referindo-se a essa capacidade industriosa, essa combinatória problemática de ingredientes heterogêneos que não podem ser avaliados de forma objetiva e genérica.36 O trabalho efetivamente realizado, portanto, não pode ser reduzido a aspectos operatórios, pois inclui equívocos, limitações, variabilidade, criação, transgressões e também mobilização subjetiva. É ato de transformação do mundo e do sujeito. Do ponto de vista de nossa pesquisa e estudo, tem como abordagem privilegiada o seu próprio processo, o seu acontecer, o que nos conduz a problematizá-lo desde o campo operatório em que se inscreve, considerando o seu desenrolar no dia-a-dia, através de uma análise micropolítica que nos permita visibilizar e escutar as manobras criativas alojadas no seio das práticas, as quais, ao mesmo tempo que garantem a realização da obra, a impregnam com a poeira do tempo, situam sujeitos e objetos como processualidade em devir. 35 Shwartz, Yves. Conferência de Abertura do Seminário Trabalho e Saber realizado na UFES/Belo Horizonte em 12 de maio/2003. 36 Barros de Barros, Maria Elizabeth e Fonseca, Tania Mara Galli. Psicologia e processos de trabalho: um outro olhar. Revista Psico, Porto Alegre, v.35,n.2. pp.133-140. jul/dez.2004.