ALMEIDA JR. E A PRODUÇÃO DE MODELOS PAULISTAS DE ENSINO HIGIÊNICO E RENOVADOR: PARTICIPAÇÕES EM ENCONTROS CIENTÍFICOS DAS DÉCADAS DE 1920 A 1940 Luciana Maria Viviani Geisiele da Silva Marchan Universidade de São Paulo – Brasil [email protected] [email protected] Palavras chave: intelectuais da educação; higienismo; renovação do ensino Antônio de Almeida Jr. (1892-1971) foi um educador e médico brasileiro com uma vida profissional expressiva em várias áreas de atuação, na medicina, educação, direito e gestão pública. Participou da administração estadual, na esfera educacional e da saúde, ocupando cargos de grande prestígio, e fez parte do grupo conhecido como renovadores do ensino de São Paulo, sendo inclusive signatário do Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, de 1932, movimento que intencionava instaurar profundas mudanças sociais no estado de São Paulo e no país, sempre mediadas pela instituição escolar. Neste trabalho pretende-se verificar a atuação de Almeida Jr. em movimentos de intervenção social ligados à área educacional, associados à estratégias de produção e divulgação de preceitos de ensino higiênicos e renovadores. Especial atenção será dada à posição de vanguarda que se pretendia conferir ao estado de São Paulo no campo médico e educacional. Neste estudo são focalizadas nove participações suas em eventos científicos nas décadas de 1920 a 1940, sediados, em sua maioria, no eixo Rio de Janeiro – São Paulo. Seis dessas comunicações foram posteriormente republicadas em livro (duas delas parcialmente), juntando-se à grande quantidade e diversidade de publicações de autoria de Almeida Jr. ao longo de toda a sua vida profissional. Sua produção se constituiu em um extenso conjunto de livros didáticos, artigos, teses, pareceres, relatórios, registros de discursos e palestras, indicando que o impresso pedagógico foi por ele utilizado como estratégia de legitimação de sua posição social privilegiada como médico, educador e gestor, bem como integrante do grupo que pretendia implementar o ensino público, universal, leigo e inovador no estado. A década de 1920 foi marcada, no campo educacional, pela convivência de tendências educacionais representadas por setores sociais distintos, o que originou uma série de debates e reflexões na área. Nesse movimento também foram encampadas discussões provenientes dos campos higienista e eugenista, nesse momento com algum nível de associação de propostas, como a vinculação do saneamento ambiental ao melhoramento da raça. Havia grande diversidade de concepções teóricas relacionadas à hereditariedade sendo trabalhadas aqui no país, algumas delas conferindo-lhe grande importância no processo de formação do indivíduo e da espécie (ou das raças). Alguns autores conferiam ênfase às influências ambientais na formação do indivíduo, e em especial à educação, no sentido de veicular os preceitos eugênicos e sua relevância. De toda essa discussão nasceram associações, movimentos e encontros de educadores em conferências de ensino, bem como a implementação de reformas em vários estados brasileiros. Elementos culturais europeus e americanos foram tomados por reformadores de ensino em vários níveis de apropriação e recriação para promoverem propostas de intervenção social e de produção de novas culturas escolares que pudessem superar o que se consideravam graves problemas de nossa população, que estariam impedindo o progresso e a civilização do país. Um aspecto desse problema seria o analfabetismo, que alcançava, naquele momento, taxas alarmantes em todo o país, 64,9% da população de mais de 15 anos, segundo o recenseamento de 1920 (Brasil, 1920). Esse problema foi alvo de uma grande reforma do ensino paulista, proposta em 1920 por Sampaio Dória, então Diretor Geral da Instrução Pública, na tentativa de ampliar o acesso ao ensino primário e diminuir as taxas de analfabetismo em São Paulo (58,5% da população de mais de 15 anos, segundo o mesmo recenseamento). A redução do ensino primário de quatro para dois anos, entre outras medidas, causou grande polêmica no meio educacional, desencadeando inúmeras críticas e discussões e incrementando ainda mais os debates na área. Em 1921, Epitácio Pessoa, presidente da República, convocou uma primeira reunião nacional de educação, a Conferência Interestadual de Ensino Primário, com representantes dos estados, realizada no Rio de Janeiro, em que foram discutidas as questões do analfabetismo e da nacionalização da escola primária. Após o debate de seis temas de estudo, as conclusões apoiaram o ponto de vista do governo federal, de intervir nos estados e assumir a responsabilidade de auxiliá-los na difusão do ensino elementar, visto que não estavam conseguindo diminuir as taxas de analfabetismo (Nagle, 2001). Em 1924 foi criada a Associação Brasileira de Educação (ABE), a primeira sociedade de educadores em caráter nacional, que promoveu debates, conferências e palestras em vários estados, especialmente em seu departamento carioca, e em âmbito nacional, por meio das Conferências Nacionais de Educação. Segundo Marta de Carvalho (1998), essas conferências foram as principais instâncias nacionais de organização do movimento que tomava a educação como área aglutinadora para a superação de problemas do país. Outro aspecto considerado como empecilho para o progresso da população brasileira no início do século passado era sua condição de saúde. Políticas nacionais e estaduais de saneamento e de saúde pública foram implementadas por influência da atuação médica, de forma a ampliar a intervenção estatal na sociedade. Com o apoio das elites, impulsionadas por questões de consciência social, foi possível prevenir e combater as doenças contagiosas que assolavam o país, levando a uma situação menos ameaçadora para essas elites (Hochman, 1998). Em meio a muitos debates sobre a conveniência de políticas regionalistas ou da integração de ações sanitárias no país, criou-se em 1920 o Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP), conferindo cargos a muitos sanitaristas militantes à época. Ao longo da década de 1920, os estados aumentaram seus investimentos em saúde pública, a despeito dos esforços federais em manter e ampliar sua estrutura e sua atuação, como criação de escolas para formação de médicos e enfermeiras, organização de serviços de estatística, divulgação popular de preceitos de higiene etc. Para Gilberto Hochman (1998), o caso do estado de São Paulo, com situação sanitária privilegiada, e já com um serviço de saúde bem organizado, antes mesmo das ações federais na área, não representava um conflito entre o regionalismo e os processos de integração, mas sim um processo que favoreceu ações públicas em seus vários aspectos. Já na década de 1910 o estado implementou várias campanhas voltadas para áreas urbanas e rurais, muitas delas por meio de acordos realizados diretamente com a Fundação Rockefeller. Na década seguinte, um grupo de jovens médicos bolsistas da Fundação Rockefeller trouxeram dos Estados Unidos novas concepções que foram implementadas mediante sua atuação na Sociedade Brasileira de Higiene, que propunha soluções alternativas para a necessária jornada do país rumo ao progresso. Paula Souza, participante desse mesmo grupo, assumiu a direção do Serviço Sanitário e do Instituto de Higiene de São Paulo, e uma nova reforma sanitária concretizou várias das idéias do grupo, não mais centradas no saneamento do meio e em campanhas sanitárias, mas orientadas para a profilaxia, por meio do trabalho de educação e conscientização sanitária realizado em centros de saúde. Os procedimentos utilizados estavam baseados na persuasão dos indivíduos, com os serviços de educação e propaganda tomando importância (Campos, 2002). Assim, foram propostas várias ações pelo Departamento de Saúde do Estado de São Paulo, que mantinha uma seção de propaganda e educação sanitária para publicar e distribuir gratuitamente livros, cartilhas e folhetos, bem como promover palestras e programas de rádio. Um curso de educadoras sanitárias foi idealizado, para promover a educação integral de crianças, dentro de um modelo de vida civilizada em suas várias dimensões, atingindo também suas famílias. Para Heloísa Rocha (2003), as professoras foram escolhidas como participantes preferenciais do curso para atender a falta de enfermeiras daquele momento, além de apresentarem a formação pedagógica necessária para trabalhar no âmbito higiênico educativo. Esse curso e a preferência pelas professoras foi apenas uma das formas de interação entre a área médica higienista e a área educacional, cujos profissionais atuavam em prol da modernização do país segundo modelos semelhantes, associação que também se manifestou pala inserção de conteúdos e disciplinas relativas a esse campo do conhecimento no ensino primário e normal, bem como pela publicação de periódicos e pelo debate público em associações e eventos científicos. Os eventos nas duas áreas, com participação de educadores e médicos, se multiplicaram e se mantiveram importantes por várias décadas. Como exemplo pode-se citar os Congressos Brasileiros de Saúde Pública, que começaram a ser realizados em 1923 e se mantiveram até a década de 1980 (Campos, 2002), e as Conferências Nacionais de Educação, que receberam a participação de muitos médicos e vários de seus temas eram relativos à defesa de preceitos higiênicos. Almeida Jr. foi um dos profissionais que bem representou essa associação e atuação conjunta de médicos e educadores, pela sua formação, como normalista e médico, e também por sua atividade profissional nas duas áreas. No início da década de 1920, era bolsista da Fundação Rockefeller junto ao Instituto de Higiene e apoiava o grupo paulista que buscava uma solução para os problemas nacionais, com base nas idéias higienistas americanas. Estava se formando em medicina, apresentando como tese o estudo intitulado Saneamento pela educação e um pouco antes havia ministrado aulas de Biologia e Higiene na Escola Normal do Braz, o que indicava o seu bom trânsito nas duas esferas. Ao final da década de 1920, processos de disputa pelo controle do sistema escolar paulista colocaram em campos opostos modelos pedagógicos que se pretendiam modernos, com claras vantagens para aqueles inspirados em princípios da escola nova. Os chamados renovadores do ensino construíram o discurso segundo o qual eram eles próprios os propagadores da pedagogia moderna, ficando a denominação pejorativa de pedagogia tradicional para as elaborações de seus opositores, muitos deles ligados ao movimento católico e defensores do ensino particular e diferenciado para os dois sexos. A importância da instituição escolar tornava-se cada vez maior pela adesão ao discurso que afirmava ser a formação do indivíduo dada pela conjunção de influências hereditárias e ambientais, em uma pedagogia científica que não mais se limitava às determinações naturais, que poderiam provocar degenerescência e deformação. Para Marta Carvalho (1997), a partir dos anos 1920 torna-se cada vez mais relevante a crença na possibilidade de educar a criança, em uma visão otimista que se baseava largamente na racionalização das relações sociais, em uma “metáfora dos ritmos impostos aos corpos e às mentes pela vida moderna, império da indústria e da técnica” (p. 280). Na década de 1930, a atuação de Almeida Jr. como educador se amplia consideravelmente, incluindo a gestão do sistema educacional paulista, inúmeras publicações e participações em eventos científicos, inclusive a abertura da 6ª Conferência Nacional de Educação, realizada no Ceará, digna de nota pela já referida importância como evento aglutinador de iniciativas que objetivavam profundas intervenções sociais. Nessa época, inúmeros decretos apontavam a responsabilidade de órgãos públicos ora de uma área, ora de outra, ou ambas, para a organização e controle da educação sanitária escolar (Lima, 1985). Essas disputas se prolongaram ainda por muito tempo em um momento de instabilidade política e administrativa. A partir de 1930 o governo federal promove iniciativas direcionadas a setores sociais, intensificadas após 1937, com o Estado Novo. Em 1938, foi promulgado um decreto que subordinava os serviços de saúde escolar ao Departamento de Educação o que, segundo Lima (1985), trouxe como novidade um maior poder de controle das atividades escolares por parte da administração educacional. A partir dos anos 1950 houve, no entanto, um declínio de importância da saúde escolar, com a gradual implementação de uma tendência assistencialista na iniciativa estatal. É justamente na década de 1930 que se concentram as fontes deste estudo, as participações de Almeida Jr. em eventos científicos. Dentro desse conjunto há duas participações na década de 1920, cinco na década seguinte e duas na década de 1940. Excetuando-se o trabalho de 1949, veiculado no Seminário Inter-Americano de Alfabetização e Educação de Adultos, realizado no Rio de Janeiro, todas as outras comunicações se inseriram em eventos científicos nacionais. Considerando esse material, foi possível elencar três temas referidos com maior freqüência: o debate sobre a escola primária, a educação higiênica e a assistência escolar. Escola primária Ao longo de quase três décadas de participações de Almeida Jr. em eventos científicos essa questão se faz presente, por meio da afirmação da necessidade de ampliar a instrução elementar para toda a população, com ensino gratuito e obrigatório oferecido pelo Estado. Tal iniciativa inseria-se no movimento conhecido como renovação da educação, que tomou importância a partir dos anos 1920, conforme já citado. A defesa da escola primária e, mais especificamente, de uma escola que tivesse determinadas características, não se restringiu às participações de Almeida Jr. em encontros científicos. A necessidade de alfabetizar a população já era defendida por ele desde 1920, já que participou do processo de elaboração da reforma Sampaio Dória. Raquel Gandini (2005) afirma que esse foi um dos principais assuntos de sua obra e, com base em análise de alguns de seus livros, aponta dois temas recorrentes. O primeiro foi o rendimento da escola primária, por meio da discussão das altas taxas de reprovações e do tresdobramento, funcionamento das escolas em três turnos, o que o levou a defender a ampliação da rede física de grupos escolares, bem como alguns parâmetros de qualidade de ensino. O segundo tema referia-se às questões políticas, quanto ao financiamento do ensino e ao clientelismo existente no sistema público educacional, em que argumentava ter havido omissão e desinteresse pela instrução elementar, por parte daqueles que se responsabilizavam pela gestão pública dos estados e da união, fossem liberais ou socialistas. O assunto também foi alvo da atuação de Almeida Jr. na gestão da rede de ensino paulista, que foi registrada nos Anuários de Ensino de 1935-6 e 1936-7, publicações sob a responsabilidade do então Diretor de Ensino de São Paulo. O ensino primário é abordado sob vários pontos de vista, tanto sob o aspecto administrativo como pedagógico, apresentando informações sobre o trabalho realizado, análises e sugestões para otimizar a escola primária, tratando inclusive de aspectos higiênicos e assistenciais, temas que foram abordados nas participações do autor em eventos científicos aqui focalizadas. Em 1949, no registro mais recente aqui analisado, Almeida Jr. continuava a manifestar-se pela ampliação da escola primária e contra o analfabetismo, no Seminário Inter-Americano de Alfabetização e Educação de Adultos, em que relatou a parte introdutória do tema, sobre as causas do déficit das redes de ensino primário. Os fatores elencados, associados uns aos outros, relacionavam-se à rarefação demográfica, insuficiência econômica, e desinteresse das chamadas “classes superiores” pelas “classes inferiores”, representadas pelos indígenas, negros, mestiços e população rural, ou até mesmo o propósito de manter essa população inculta, impedindo sua mobilidade social e o êxodo rural. A incultura atribuída aos pais seria outro fator a dificultar a instalação e manutenção de escolas, criando, em um círculo vicioso, mais incultura, ao veicular a idéia de que não há benefícios na instrução. Dentro dos objetivos deste trabalho, torna-se especialmente relevante a análise do trabalho apresentado cinco anos antes por Almeida Jr., no 8º Congresso Brasileiro de Educação, em que o autor faz o relatório de um dos temas do congresso, sobre tipos de prédios escolares. Em uma exposição inicial, discute os propósitos da escola primária, desde apenas ensinar a ler, escrever e contar, até o objetivo de desempenhar uma ampla função social. Dependendo da função pretendida para a escola, seria necessário um número maior ou menor de tipos de dependências e de mobiliário. Almeida Jr. coloca-se em defesa da escola que promova a assimilação social, o que demandaria a existência de pátios e salões de jogos, assim como defende as funções escolares assistenciais, levando à necessidade de cozinhas, refeitórios, gabinetes médicos e dentários, chuveiros etc. A abertura da escola à comunidade, em atendimento a propósitos sociais mais amplos, demandaria a disponibilização de bibliotecas, cinemas e salões de festas em horários alternativos. Os tipos de prédios a serem construídos dependeriam também das peculiaridades regionais, como a localização da escola, se rural ou urbana, as diferenças climáticas, a disponibilidade de recursos naturais e econômicos, o ambiente arquitetural da localidade etc. Essa diversidade de situações levou Almeida Jr. a ponderar que o importante seria fixar algumas normas gerais que permitissem a flexibilidade dos parâmetros de construção de prédios escolares, e que essas normas deveriam ser determinadas por uma equipe de profissionais técnicos de várias áreas, como pedagogia, administração, higiene e arquitetura. O resumo de apenas seis teses apresentadas ao tema foi avaliado como insuficiente e superficial, já que seria um assunto complexo, melhor analisado por uma equipe com profissionais de várias áreas, e também porque o maior problema naquele momento era a quantidade insuficiente de escolas, especialmente na zona rural, o que estaria esvaziando o debate sobre a qualidade e o aparelhamento dos prédios escolares. Na conclusão do relatório, Almeida Jr. reafirma a necessidade dos estados investirem no aumento de construções escolares, auxiliados pela união, municípios e particulares. Os vários departamentos de educação deveriam organizar serviços técnicos para estudar, organizar e executar os melhores tipos de prédios e aparelhamentos para cada região considerada. O que ele sugere é exatamente o que havia se concretizado em São Paulo alguns anos antes. Em 1933, Fernando de Azevedo, então Diretor da Instrução Pública de São Paulo, auxiliado por Almeida Jr, realizou uma reestruturação do ensino paulista, consubstanciada no Código de Educação do Estado de São Paulo e voltada a preceitos da educação renovada. Essa legislação previa a instalação de uma comissão permanente que organizaria e fiscalizaria a execução de um plano para solucionar progressivamente o problema das construções escolares, além de elaborar pareceres sobre as condições de uso desses prédios. Essa comissão, instituída em 1936, sob a coordenação de Almeida Jr., que então ocupava o cargo de Diretor de Ensino do Estado de São Paulo, foi formada por profissionais de diversas áreas – engenheiros, professores, arquitetos, médicos e representantes do governo estadual, e foi responsável por um plano de edificações e por uma normatização dessas construções, ainda que flexíveis, segundo alguns padrões de qualidade. A ação governamental, dada pela associação das Diretorias de Ensino e de Obras Públicas, resultou na construção de 40 prédios no interior do estado e 10 na capital (Almeida Jr., 1942, apud Almeida Jr, 1951). Verifica-se, portanto, que a sugestão de Almeida Jr. na conferência toma como padrão de excelência exatamente a sua atuação no estado de São Paulo, durante sua gestão como Diretor de Ensino, no sentido de criar comissões com profissionais técnicos de várias áreas que estabelecessem normas de qualidade com certa flexibilidade, a fim de contemplar a diversidade de situações existentes tanto nas grandes cidades como no ambiente rural, e também com as devidas considerações aos aspectos econômicos. Educação higiênica “O único aparelho em condições de difundir econômica e eficazmente a educação higiênica é a escola primária, por meio do respectivo professor” (Almeida Jr., 1929, p. 819) A defesa da escola primária gratuita e obrigatória, presente nos textos analisados, ao longo de todo o período considerado, se associava à necessidade de formação de indivíduos saudáveis, por meio da educação higiênica, que envolvia aspectos físicos, mentais e morais. Por envolver a formação de hábitos, deveria ser realizada na mais tenra infância, período em que se pensava existir grande maleabilidade psicológica. Esse processo de formação de hábitos só poderia se concretizar por meio da instituição escolar, já que as famílias pobres não eram consideradas capazes de realizar tal tarefa. A importância da educação higiênica escolar, já citada no início deste texto, se fez presente em várias participações de Almeida Jr. em eventos científicos, desde a década de 1920, período em que o autor escreve dois textos sobre a questão, ambos no Congresso Brasileiro de Higiene. Na terceira versão desse evento, realizada em São Paulo em 1926, constituiu-se em uma das 13 teses sobre o tema Formação de hábitos sadios nas crianças que, em seu conjunto de propostas para a educação higiênica apresenta, como afirma Gerson Lima (1985), um tom de catequese, estando as propostas dos vários autores bastante semelhantes entre si. O próprio Almeida Jr. admite esse direcionamento ao afirmar que todos concordavam com a importância da educação higiênica na escola elementar, mas poucos a colocavam em prática: Diante disso, nosso dever é irmos martelando na mesma tecla, com risco de nos tornarmos enfadonhos, mas dispostos a vencer. Já passou a época de discutir o assunto perante os higienistas. O que se faz mister, de agora em diante, é catequizar os educadores, a começar pelos mais altos, e organizar, na escola primária, o trabalho prático (1929, p. 820). De fato, nesse período, as ações que realmente se concretizavam eram muito restritas. Os estudos antropométricos, pesquisa de verminoses, escovação de dentes, revista diária do asseio corporal, aulas sobre higiene e outros preceitos indicados pelas teses do tema acima citado ficavam reduzidas às atividades de duas a três escolas, como ressalta Lima (1985). No entanto, o que chama a atenção na participação de Almeida Jr. é o direcionamento e enaltecimento das realizações paulistas, ainda que tidas como insuficientes em alguns aspectos. Para ele, um dos pontos importantes para a veiculação dos princípios de higiene na escola primária seria a formação de professores convencidos da importância social desses ensinamentos, e dispostos a veiculá-los, situação que em São Paulo foi por ele avaliada como excelente. Nas dez escolas normais existentes em 1926 havia conteúdos de higiene no último ano de curso, com duas aulas semanais, que talvez aumentassem para três, inclusive na Escola Normal do Braz, onde Almeida Jr. lecionava, e cujo programa é apresentado no texto. Outro problema seriam os professores em atividade, que não tinham recebido a formação adequada, o que poderia ser resolvido por orientações simples e pela consulta a bons livros didáticos. A proposta ressaltava o que já havia sido implementado anteriormente por Oscar Thompson, quando Diretor de Ensino de São Paulo, e apresentado como sugestão de encaminhamento: um curso intensivo de uma semana no Instituto de Higiene para inspetores, auxiliares de inspeção e diretores, que depois transmitiriam as diretrizes para os professores. Nesse mesmo texto do 3º Congresso Brasileiro de Higiene, Almeida Jr. relata a realização de um inquérito entre diretores de grupos escolares sobre o assunto, por meio do Instituto de Higiene, que apurou a aceitação da necessidade de disseminação de preceitos higiênicos, ainda que estes não fossem praticados de forma adequada nas escolas. As dificuldades elencadas pelos diretores indicam ausência de orientação, falta de horário específico para seu desenvolvimento, ficando o tema incluído no programa de Ciências Físicas e Naturais, e falta de materiais didáticos. Nesse último ponto Almeida Jr. ressalta a iniciativa do governo do estado de São Paulo ao distribuir gratuitamente um livro sobre o amarelão, de Belisário Penna, e a Cartilha de higiene, sobre o qual afirma o autor: “livrinho de minha autoria, não resisto à vaidade de registrar o bom acolhimento que lhe dispensaram os professores, mais uma vez posto em evidência neste inquérito (1929, p. 825)”. Após mais algumas considerações sobre as necessidades da veiculação de preceitos higiênicos, Almeida Jr. conclui sua participação fazendo um apelo às autoridades de ensino de todo o país, em prol da promoção da educação higiênica na escola primária. Outras participações de Almeida Jr. nos encontros científicos revelam o mesmo tema da educação higiênica, como a abordagem da alimentação escolar. Nos anais do 1º Congresso Brasileiro de Higiene, há um registro mais voltado à pesquisa, com informações de investigações de autores americanos, sobre nutrientes e tipos ideais de alimentação infantil, bem como o relato de trabalhos desenvolvidos pelo próprio autor, em relação a planos de alimentação para um internato paulista e também para uma escola maternal, evidenciando a importância do leite ou, na sua ausência, das verduras na alimentação. O autor afirma que, na campanha que estava desenvolvendo em São Paulo pela educação higiênica, para difundir o tipo de alimentação correta entre as classes populares, evidenciou que na merenda escolar os alunos tinham alimentação inadequada e não apresentavam higiene para com os alimentos levados à escola. Entre as sugestões para superar os problemas da falta de alimentação ou de alimentação inadequada se destacavam o financiamento de estudos de higienistas brasileiros sobre a alimentação na infância e adolescência e a divulgação de noções de higiene alimentar por meio da escola primária. Almeida Jr. reafirmou em outro texto (1934b) a importância de ensinar às crianças como, quando e o que se deve comer, além de fornecer o alimento, já que a subnutrição do escolar teria como fator preponderante a deficiência alimentar quantitativa e qualitativa. Esse tema inicia-se comunicando a freqüência de 32% de subnutridos nas escolas onde trabalhavam médicos e educadoras sanitárias, indicando a associação com os dois fatores acima indicados e também com outros aspectos, como sífilis dos pais, adenoidismo, doenças das crianças, alcoolismo dos pais ou avós etc. Como conseqüência da subnutrição, Almeida Jr. levantou o problema do desenvolvimento da inteligência, citando vários estudos de autores dos Estados Unidos que indicavam problemas de rendimento escolar, comportamento e formação de personalidade associados à má nutrição. A falta de banho dos escolares também foi tema debatido por Almeida Jr., na Conferência Nacional de Proteção à Infância, em 1933, em momento posterior à saída do autor da diretoria do Serviço de Higiene e Educação Sanitária Escolar, onde permaneceu por seis meses. A importância do tema foi atribuída à deficiente orientação por parte dos pais e à falta de chuveiros nas residências, conforme já havia sido apontado em inquérito anterior de Paula Souza. A iniciativa de instalar chuveiros nas escolas foi justificada por ações semelhantes que estariam ocorrendo nos Estados Unidos e em vários países da Europa e ratifica mais uma vez a visão que se tinha das famílias, incapazes de manter e ensinar padrões higiênicos aos filhos, situação que deveria ser mudada. Ele registrou a sua campanha, nessa diretoria, em favor do banho escolar, comentando as diversas dificuldades encontradas em sua ação e como conseguiu superá-las, sem oferecer dados sobre a freqüência em que essa medida foi implementada. As dificuldades elencadas referiam-se a diretores que não visualizavam a importância social da mudança de hábitos higiênicos de estudantes e de suas famílias, dificuldades financeiras para a instalação de chuveiros nas escolas e a má vontade de alguns pais, que temiam ser considerados desleixados para com seus filhos se a medida do banho escolar fosse instituída. As educadoras sanitárias trataram de convencer alguns diretores teimosos e a questão financeira poderia ser resolvida pelas caixas escolares. Para conseguir o aval das famílias, Almeida Jr. sugeria o argumento de que as atividades físicas desenvolvidas durante o horário escolar, como ginástica, corrida e alongamento seriam responsáveis pela exigência do banho e de suas instalações escolares. Assistência escolar “Se cada pai, como delegado que é, da coletividade, assumisse e pudesse efetivamente desempenhar o encargo de educar e de assistir aos filhos, não existiria o problema da assistência ao escolar. Toda criança teria, no próprio lar, ou por iniciativa deste, através dos seus diferentes períodos de desenvolvimento, a educação, o agasalho, o alimento sadio, os cuidados físicos exigidos pelas vicissitudes do organismo” (Almeida Jr., 1934a, p. 529) Nesse trecho fica evidente a visão do autor sobre as famílias, que era também a de outros educadores conhecidos como renovadores do ensino. Na análise de Marcus Vinícius da Cunha (2000), a escola renovada colocava-se contra as famílias, mediante o discurso da superioridade da instituição escolar na tarefa educativa, em relação a quaisquer famílias, pois contava com profissionais especializados que dominavam saberes científicos sobre o corpo, a história, a sociedade e o psiquismo, sendo os únicos que poderiam direcionar os alunos para a atuação social adequada e requerida pela sociedade. Ao mesmo tempo, esse discurso solicitava a presença dos pais na escola, para que pudessem apreender a melhor forma de colaborar com a educação de seus filhos, ainda que dentro de certos limites. Nesse sentido, até mesmo a escola primária era considerada por Almeida Jr. como uma forma de assistência, instituição para a qual os pais deveriam obrigatoriamente enviar suas crianças, princípio legal cuja infração deveria ser punida com multa ou prisão (1934a). Apesar de existir essa orientação geral em relação a todas as famílias, independentemente de sua inserção social, uma atenção especial foi dedicada às crianças pobres, a partir do momento em que começaram a figurar nos bancos escolares, no sentido de assegurar sua assimilação ao projeto de desenvolvimento social rumo ao progresso e modernização do país. Essas famílias tinham hábitos muito diferentes daqueles que se pretendia disseminar para formar novas culturas e eram consideradas incapazes em todos os sentidos, até mesmo em fornecer às crianças os cuidados físicos e materiais que elas necessitavam em suas diferentes fases de desenvolvimento. Nesse caso, os maus exemplos domésticos poderiam inviabilizar os bons ensinamentos divulgados na escola, motivo pelo qual a escola deveria lutar contra a família de forma mais intensa, por meio da assistência infantil e também pelo contato com a família para a divulgação dessa nova mentalidade (Cunha, 2000). A assistência à criança pobre que, para Almeida Jr. se constituía na grande maioria das crianças, é bastante presente no material em análise, havendo inclusive a participação do autor em um evento especialmente dedicado a debater a questão assistencial, a Conferência Nacional de Proteção à Infância. Na primeira edição da Conferência, em 1933, o autor fez o encerramento e divulgou três temas, sobre alimentação escolar, assistência à criança considerada anormal e também um texto em que levantava opções de organização da assistência ao escolar, sob vários aspectos. Em várias passagens dos temas aí apresentados, abordou enfaticamente as iniciativas do Serviço de Higiene e Educação Sanitária Escolar, muitas delas sugeridas e praticadas pela atuação individual de diretores ou professores da rede. Deixava claro, no entanto, as dificuldades desse trabalho, com muitas idéias viabilizadas em pequena escala, devendo ser ampliadas para atender adequadamente a totalidade da população escolar. O autor levanta a importância da assistência moral para o filho do pobre, cuja freqüência à escola traria o benefício de retirá-lo das ruas por algumas horas, evitando o convívio com as terríveis condições morais da rua, representadas por intempéries, promiscuidade e falta de alimentação, que seriam causas de debilidade e moléstias. Isso ocorreria porque “a casa é apenas para dormir. Durante as longas horas de ausência às aulas, não o atraindo a penúria do lar, não o retendo a tristonha humildade do quintalejo escuro, chama-o a rua, irresistivelmente (1934a, p. 530)”. A assistência material incluía o fornecimento de roupas, calçados e “instrumentos de trabalho”, como cadernos, lápis e livros, assim como a distribuição de alimentos, leite ou, na maioria dos casos, a sopa escolar, oferecida gratuitamente para os que não pudessem pagar ou mediante uma taxa para os outros. Almeida Jr. trouxe ao seu texto o relato do processo de instituição da sopa escolar no 3º grupo escolar do Braz, com todas as dificuldades encontradas, mas com resultados bastante promissores para a escola, com melhorias no aproveitamento e na disciplina dos alunos. Por influência do diretor dessa escola, cujo relato em uma reunião de diretores de grupos escolares no Serviço de Higiene e Educação Sanitária Escolar foi muito aplaudido, outras 25 escolas instituíram a mesma prática (Almeida Jr., 1934b). Vale ressaltar o relato do autor quanto às providências do governo paulista para os casos mais graves de deficiência alimentar, as classes de saúde e a Escola de Saúde. As primeiras, agrupamentos de alunos com problemas alimentares, já diagnosticados e tratados pelo médico, que recebiam alimentação suplementar, banhos de sol, ginástica respiratória, descanso prolongado após as refeições e maior vigilância dos hábitos de higiene e à vida domiciliar. Naquele momento, havia 17 classes funcionando no estado, com o financiamento das caixas escolares e o auxílio das educadoras sanitárias. A Escola de Saúde, situada na região central da cidade e criada pela Cruzada Pró-Infância, com o apoio da prefeitura e do estado de São Paulo, atendia os alunos de escolas próximas para tratamento semelhante (1934b). Em outra tese apresentada nesse mesmo congresso, Almeida Jr. aborda a questão dos débeis mentais, que não poderia ser deixada de lado mesmo considerando a existência de dificuldades ainda maiores no ensino regular, para os alunos normais. Para evitar que os débeis fossem simplesmente eliminados das escolas ou que atrapalhassem o andamento do ensino, o autor propõe a sua organização em salas especiais, mediante rígidos procedimentos de recrutamento, com o auxílio de médicos, psicólogos e professores. Esse trabalho relatado na tese foi conduzido por um psiquiatra do Serviço de Higiene e Educação Sanitária Escolar, resultando na formação de duas classes de 15 alunos cada uma, que passariam pelo atendimento de médicos de várias especialidades, fariam um exame psiquiátrico e seriam ensinados por duas professoras que se dispuseram a realizar esse trabalho, mesmo sem qualquer especialização na área. Almeida Jr. afirmou que o ideal seria a criação de escolas para débeis mentais, ou então outras salas especiais, mas devido a problemas orçamentários, era o que o Serviço poderia colocar em prática naquele momento. Os serviços de assistência médica escolar foram relatados nesse texto nas duas vertentes existentes naquele momento: por um lado a inspeção médica e seleção de doentes, a cargo dos médicos da Diretoria Geral do Ensino; e, de outro, o tratamento clínico ou cirúrgico por parte dos médicos do Serviço Sanitário, sempre com o auxílio das educadoras sanitárias, que atuavam também em relação à melhoria da saúde bucal e ocular, ensinando às crianças o procedimento da escovação dentária, fazendo testes de visão etc. Um histórico da inspeção médica sanitária foi incluído no texto, indicando a existência de processos de disputas pelo controle da organização da educação sanitária escolar, entre profissionais da área médica sanitária e educacional. Os educadores que propugnavam a educação integral, incluindo, portanto, a assistência médica e higiênica ao aluno, como Almeida Jr., defendiam o controle desses serviços pela Diretoria de Ensino, e procuraram legitimar seus posicionamentos por meio de várias medidas, como a intensificação da ação da professora primária na educação sanitária, com a devida implementação de sua formação, havendo inserção de disciplinas afins no currículo da escola normal na década de 1930 (Viviani, 2007). Em 1933, Almeida Jr. defendia a implantação das clínicas escolares para esse atendimento, mas havia uma única clínica no centro da cidade, que não conseguia atender todos os casos, especialmente daqueles alunos residentes em bairros periféricos, o que levou ao encaminhamento de muitas crianças para outras instituições, como o Instituto de Higiene, a Cruzada Pró-Infância e a Santa Casa. A tuberculose também despertava a preocupação do autor, que ressaltava a atuação do Serviço Sanitário em campanhas de aplicação de testes e exames radiográficos em outras instituições públicas gentilmente disponibilizadas por seus responsáveis, já que o Serviço não dispunha do aparelhamento necessário para isso. Fica evidente que a ação do Serviço de Higiene e Educação Sanitária Escolar, sob a chefia de Almeida Jr., não detinha orçamento suficiente para implantar as novidades descritas nas comunicações científicas citadas, atuação esta que foi grandemente facilitada pelo contato que ele mantinha com os dirigentes de outras instituições, permitindo um mínimo de eficiência nesse serviço público. Essa questão é mencionada no texto em sinal de agradecimento às instituições e colegas e aparece como uma ação filantrópica: O Serviço não dispõe de aparelho para essa indispensável indagação [se o organismo infantil estaria se defendendo adequadamente do bacilo de Koch, pergunta que só os exames de raio X poderiam responder], mas a falta é suprida pela boa vontade do professor Paula Souza, que ofereceu a instalação do Instituto de Higiene; pela bondade do professor Raul Briquet, que permitiu a utilização do aparelho da clínica obstétrica, e pelo desprendimento do próprio Dr. Décio Queiroz Telles, que efetuou em seu gabinete, sem o menor ônus para o Estado nem para os escolares, a maioria das provas radiológicas. Os exames de laboratório, várias vezes requisitados, foram praticados solicitamente no Instituto Bacteriológico (1934a). O trecho citado, além de mencionar com gratidão as várias formas de colaboração, também cumpre a função de apontar as dificuldades encontradas no trabalho de gestão de Almeida Jr., bem como de relatar a superação de tais problemas, por meio do contato pessoal e profissional que mantinha com tais instituições e com seus responsáveis, reafirmando a boa posição social e profissional do autor. Paralelamente, Almeida Jr. propõe a adequação dos prédios escolares para permitir uma melhor assistência ao aluno, por meio da instalação de chuveiros para o banho escolar e de gabinetes para o tratamento médico e dentário. A idéia das clínicas escolares, de orçamento elevado, não estava sendo concretizada, ele então levantou essa outra opção de atendimento ao escolar, registrando nesse mesmo texto algumas idéias incipientes, de alguns diretores e professoras, que implantaram espaços para esse fim em suas próprias escolas. A defesa da existência de espaços escolares para a educação higiênica e para o tratamento médico e dentário viria a tomar maior importância para Almeida Jr. mais tarde, a partir de 1936, como Diretor de Ensino de São Paulo, quando atuou no planejamento e execução de projetos para prédios escolares (São Paulo, 1936). Assim como a proposta acima citada, das clínicas escolares, uma grande parte das idéias de Almeida Jr. envolvia grandes investimentos por parte do governo paulista, como o aumento do número de grupos escolares, com certas características que permitissem o ensino higiênico e renovado, escolas de saúde, escolas para débeis mentais, sanatórios para escolares tuberculosos ou, em um plano mais modesto, espaços nos prédios escolares já existentes para montar classes de saúde, gabinetes médicos e dentários, classes para débeis mentais, classes para tracomatosos (previstas no Código de Educação, de 1933), instalação de chuveiros e banheiros adequados. As propostas eram grandiosas e bastante custosas, mas estariam plenamente justificadas dada a importância da missão educativa para o país e, mais ainda, ao considerar a posição de São Paulo perante a nação. No discurso de sua posse como Diretor de Ensino, Almeida Jr. reafirmou seu desejo de “contribuir um pouco para manter o aparelho escolar paulista no alto nível que exigem, ao mesmo tempo, a tradição, a cultura e as possibilidades de São Paulo” (Anuário, 1936, p. 5). Qualquer que fosse a cultura, preferências pessoais e doutrinárias, dois sentimentos comuns deveriam irmanar a todos, que assim estariam prontos para a mesma luta. Os sentimentos, o amor à terra bandeirante e à criança das escolas, para manter bem alto o padrão do ensino público do estado. Para alcançar esse objetivo, ninguém se recusaria a qualquer esforço, pois “é mister que a criança que vive sob o céu paulista receba das gerações adultas uma educação condizente com o nosso grau de cultura. O bom nome do Estado e o bem estar de nossa infância se acham em grande parte dentro de nossas mãos” (Anuário, 1936, p. 5). Dadas as dificuldades de financiamento apontadas, a solução encontrada para financiar um mínimo de realizações foi o apelo às caixas escolares, que captavam doações de entidades particulares e das famílias dos alunos. Criadas em 1920, através da Reforma Sampaio Dória, para atender o escolar pobre, e pensadas inicialmente como centros municipais que receberiam dotações de órgãos estaduais, municipais e doações de particulares, na década de 1930 estavam instaladas em quase todas as escolas da capital e do interior, com a contribuição de professores, alunos e particulares (Almeida Jr., 1934a). As educadoras sanitárias também auxiliavam no recolhimento de doações em fábricas e casas de comércio. Essa era mais uma função colaborativa da família, desde que os valores direcionados às unidades escolares fossem empregados para concretizar o projeto dos educadores, sem interferência dos familiares. No encerramento da Conferência Nacional de Proteção à Infância, Almeida Jr. pondera que as participações dos diferentes estados referiam-se mais a aspirações que a realizações, dado que estas últimas estavam limitadas pelas possibilidades econômicas de cada estado, mediante o financiamento do governo ou de particulares. Promovia, dessa forma, a necessidade de continuar envidando esforços para ampliar a assistência à criança, direcionada às seguintes diretrizes: centralidade das ações de proteção e estudo da infância, de forma ampla, incluindo as crianças anormais, pobres e pré-escolares, tendo em vista a formação do futuro trabalhador e levando em conta a instituição escolar como instrumento de aperfeiçoamento humano e como demanda de todos os setores laborais da sociedade. Considerações Finais Em todos esses encontros científicos, ao comunicar o trabalho desenvolvido em São Paulo na área de construções escolares, assistência e higiene escolar, Almeida Jr. promovia o que considerava ser um trabalho inovador e de excelência. Apesar dessas iniciativas não terem se expandido para toda a rede escolar paulista, as participações em foco contribuíram para a elaboração de representações modelares do ensino no estado de São Paulo, bem como para a sua vinculação à atuação de grupos conhecidos como renovadores do ensino. Suas participações foram orientadas não somente à divulgação das realizações paulistas, mas também para a propaganda das necessidades na área, pensadas de forma inovadora por Almeida Jr. Os espaços escolares com funções diferenciadas, os grupos com profissionais de várias áreas para organizar as construções escolares ou as inúmeras soluções para problemas financeiros foram algumas das idéias veiculadas nesses encontros científicos, direcionadas aos delegados que tivessem condições, em maior ou menor grau, de implementá-las em seus estados, ou mesmo de lutar, junto aos órgãos competentes, pela sua concretização, confirmando assim a condição modelar dos projetos paulistas. Paralelamente, Almeida Jr. atuou no sentido de reafirmar sua posição pessoal e profissional, mencionando suas realizações na gestão do serviço público na área da educação e da saúde, muitas vezes apresentadas como algo já bastante conhecido e desenvolvido anteriormente. A sua ligação com figuras representativas dessas duas áreas também foi registrada, indicando que seus contatos pessoais e sua expressiva experiência profissional possibilitavam uma maior eficiência dos órgãos públicos que chefiou. A defesa e a promoção das iniciativas e dos projetos a serem colocados em prática, segundo modelos paulistas, tocavam em questões políticas regionais, desestabilizadas na década de 1930 por ações centralizadoras da união, que receberam a crítica de Almeida Jr. No Ceará, na abertura do 6º Congresso da ABE, dois anos após a Revolução de 1932, Almeida Jr. se pergunta por que foi chamado para a palestra inicial, primeiramente com uma brincadeira: “Será para trazer aos círculos intelectuais de Fortaleza a oportunidade rara de certificar-se, com seus próprios ouvidos, de que em São Paulo já não se fala mais a língua portuguesa? (1951b, p. 161)”. Depois pondera que certamente os colegas sabiam que “São Paulo, agora como sempre, pode receber credenciais para falar em nome do Brasil, porque, a despeito de tudo, os paulistas, hoje como sempre, sentem em uníssono com os seus irmãos de todos os recantos do Brasil (1951b, p. 162)”. Apesar da tentativa separatista que havia culminado na Revolução de 1932, a continuidade da condição do estado de São Paulo como possível representante nacional foi ressaltada, bem como a necessidade de todos os estados se irmanarem em sentimentos e iniciativas em prol de toda a nação. Para ele, as verdadeiras ações centralizadoras deveriam se concretizar mediante o conhecimento recíproco entre estados, em congressos como aquele, com proposta “mais sagaz e mais profícua do que a imposição vã e irritante das legislações centralizadoras (1951b, p. 163)”. Nesse aspecto, apóia a idéia de um projeto de unificação nacional através da escola, presente no Manifesto dos Pioneiros da Educação Nova, conforme a análise de Marta Carvalho (1998), para quem a defesa da Federação e do descentralismo presente no Manifesto apontava para a um projeto cultural e político de unificação. No encerramento da Conferência Nacional de Proteção à Infância, Almeida Jr. ressalta a sua boa situação como educador e a destacada posição do estado de São Paulo na área, para justificar a sua escolha como intérprete dos delegados estaduais naquela cerimônia, em que agradeceu a homenagem e dedicou-a a uma figura modelar, José de Anchieta. Nessa passagem, a história e o pioneirismo de São Paulo foram evocados para lembrar a atuação de José de Anchieta, que “lançou o primórdio de nossa cultura educativa, ensinando a leitura e a moral cristã aos netos do grande cacique Tibiriçá, (...) ali, na colina que se soergue entre o Anhangabaú e o Tamanduateí, em plena selva bruta, [em que] os jesuítas edificaram, em 1554, a modesta choupana onde se instalou a primeira escola primária paulista” (p. 169). Almeida Jr. ressalta a atuação desbravadora do padre, superando todas as dificuldades, assim como ele próprio em sua vida profissional, indicando que havia uma luta a ser travada pela formação de indivíduos que pudessem construir um país moderno e progressista. Almeida Jr. associou essa figura simbólica da história paulista às origens da história da educação nacional, já que o considerou como protetor da infância brasileira, evidenciando assim a importância nacional dos acontecimentos paulistas, bem como o pioneirismo das ações educativas, higienizantes e de assistência à infância desenvolvidas no estado. A unificação acima citada se daria mediante a liderança de São Paulo e dos paulistas. Referências Fontes ALMEIDA JR., Antonio F. de. Alimentação na idade escolar e pré-escolar. In: Congresso Brasileiro de Hygiene, 1. 1923, São Paulo. Annaes do Primeiro Congresso Brasileiro de Hygiene. São Paulo: s.ed. 1923. p. 113-118. _______ Formação de habitos sadios nas crianças. In: Congresso Brasileiro de Hygiene, 3., 1926, São Paulo. Terceiro Congresso Brasileiro de Hygiene. São Paulo: São Paulo Editora, 1929. _______ Qual a maneira mais pratica de organizar a assistencia à criança, na idade escolar? 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