ECONOMIA GLOBAL, MERCADORIZAÇÃO E INTERESSES COLECTIVOS CICLO INTEGRADO DE CINEMA, DEBATES E COLÓQUIOS NA FEUC DOC TAGV / FEUC 2008 - 2009 SESSÃO 3 NOSSO PÃO QUOTIDIANO ECONOMIA GLOBAL, MERCADORIZAÇÃO E INTERESSES COLECTIVOS CICLO INTEGRADO DE CINEMA, DEBATES E COLÓQUIOS NA FEUC DOC TAGV / FEUC 2008 - 2009 http://www4.fe.uc.pt/ciclo_int/ SESSÃO 3 ECONOMIA GLOBAL, AGRICULTURA E MEIO AMBIENTE 10 DE NOVEMBRO DE 2008 10 DE NOVEMBRO DE 2008 AUDITÓRIO DA FACULDADE DE ECONOMIA 15:00 HORAS CONFERÊNCIAS DE JAN TOPOROWSKI (SOAS, LONDRES) OLIVEIRA BAPTISTA (ISAUT, LISBOA) COMENTÁRIOS DE JOSÉ REIS (FEUC) ANTÓNIO GAMA (FLUC) TEATRO ACADÉMICO DE GIL VICENTE 21:15 HORAS FILME/DOCUMENTÁRIO NOSSO PÃO QUOTIDIANO (2005) DE NIKOLAUS GEYRHALTER COMENTADOR ESPECIAL PARA O FILME NASCIMENTO COSTA (FMUC) DEBATE COM JAN TOPOROWSKI OLIVEIRA BAPTISTA JOSÉ REIS ANTÓNIO GAMA © Nosso Pão Quotidiano, 2005. © Nosso Pão Quotidiano, 2005. SPECIAL JURY AWARD, JORIS IVENS COMPETITION 2005 AMSTERDAM INTERNATIONAL DOCUMENTARY OFFICIAL SELECTION 2006 NEW YORK FILM SCIENCE & RELIGION PRIZE 2006 VISIONS DU RÉEL BEST FILM 2006 ECOCINEMA FILM FESTIVAL GRAND PRIZE 2006 PARIS FESTIVAL INTERNATIONAL OF FILMS ON THE ENVIRONMENT ECOCAMERA AWARD 2006 RENCONTRES INTERNATIONALES DU DOCUMENTAIRE DE MONTRÉAL NOMINEE, 2006 PRIX ARTE EUROPEAN FILM ACADEMY © Nosso Pão Quotidiano, 2005. © Nosso Pão Quotidiano, 2005. PARTE I NOSSO PÃO QUOTIDIANO : ALGUMAS QUESTÕES 1. SINOPSE Nosso Pão Quotidiano [Alemanha/Áustria, 2005, 92`] Realização de Nikolaus Geyrhalter Em espaços fechados, tão esterilizados quanto o são as fábricas de processamento por computador, frangos são abertos e atentamente monitorizados. Um tubo enorme suga salmões para fora de um fiord. Enormes dentes de metal arrancam e mastigam campos de girassóis que atingiram a maturação graças ao uso intensivo de produtos químicos. Frangos são cortados e porcos estripados em segundos, enquanto que as vacas levam um pouco mais de tempo: é a agricultura de alta tecnologia, a produção industrial de alimentos. O filme Nosso Pão Quotidiano (Our Daily Bread) mostra os locais em que os alimentos são produzidos: paisagens surrealistas plastificadas e optimizadas para os tractores e restantes máquinas agrícolas, salas limpas localizadas em instalações frigoríficas industriais, concebidas para assegurar a eficácia logística, e máquinas que exigem materiais uniformes para um processamento sem quebras. O que poderia pensar-se fazer parte do domínio da ficção científica é agora a própria realidade. A nossa alimentação é produzida em espaços espectaculares que raramente são vistos. Aqui há muito pouco espaço para os humanos, que parecem alheios a tudo isto: pequenos e vulneráveis, apesar de se adaptarem o melhor que podem, com 7 roupas especiais, protectores de ouvidos e capacetes. Estão em determinados locais da cadeia de produção, a realizar trabalhos para os quais ainda não se conseguiram inventar máquinas. O homem interfere o menos possível no processo de fabrico. Quando um trabalhador faz uma pausa para se alimentar, essa acção parece dar azo a um contraste absurdo, mas isso é simultaneamente uma referência à principal finalidade destas fábricas aparentemente utópicas. Continuamente enquadrado e com elevada precisão, o encaminhamento de cada produto revela a eficácia máxima do sistema e, como produto já limpo, é visualizado nos écrans com uma mistura de fascinação e de horror. O filme Nosso pão quotidiano mostra a produção industrial como um reflexo dos valores da nossa sociedade: abundância produzida de forma rápida por uns quantos especializados. Dispensando comentários e entrevistas explicativas, o filme converte-se num sonho inquietante: um grande festival de imagens, em que um olhar fixo persistente é acompanhado pelo ruído ensurdecedor das máquinas hidráulicas – somente o cacarejar incómodo dos frangos se lhe sobrepõe. Pessoas, animais, colheitas e máquinas desempenham um papel de apoio na logística deste sistema que suporta o nível de vida da nossa sociedade. O filme é um convite dirigido ao nosso sentido de curiosidade, ao nosso desejo de saber o fundo das coisas, de olhar, escutar e ficar estupefacto, de associar e de pensar como é a civilização actual. Somente depois de a vermos através dos nossos olhos é que podemos acreditar como ela é. O filme é um quadro em grande formato de uma estética nem sempre fácil de digerir, mas que retrata algo em que todos participamos. Uma experiência pura, meticulosa, do melhor que já foi feito e que permite a cada um dos nós formar ideias e retirar conclusões. Disponível em: www.ourdailybread.at 8 2. ENTREVISTA A NIKOLAUS GEYRHALTER P.O que e que o motivou a fazer este filme ? R. Basicamente, eu faço filmes de que eu próprio goste para mim mesmo. Estou fascinado por zonas e áreas que as pessoas normalmente não vêem. Foi o caso com Pripyat e com Elswere e a produção de alimentos faz também parte de um sistema fechado de que as pessoas apenas têm vagas ideias. As imagens conhecidas e mostradas de uma pequena quinta com uma batedeira para a manteiga e com uma variedade de animais já não tem nada a ver com os lugares de onde vêm a nossa alimentação, hoje. Existe um tipo de alienação relativamente à criação dos nossos alimentos e aos métodos de trabalho utilizados e é por aí que devemos avançar. P. Nosso pão quotidiano, tal como todos os outros seus filmes não apresenta voz sobreposta como comentários, e nem sequer tem qualquer entrevista… R. Imagino sempre os meus filmes a serem feitos também com cenas acompanhadas de entrevistas. Neste caso, somente o mundo do trabalho é mostrado. As pessoas trabalham em espaços que estão vazios e não há muito a falar enquanto trabalham. No início fizemos uma série de entrevistas. Durante a montagem, verificou-se que as entrevistas perturbavam e interrompiam a percepção do filme. Decidimos então uma forma mais radical e a mais apropriada para o tipo de filmagens que foram feitas. A intenção era mostrar as actuais situações de trabalho e dar suficiente espaço para reflexão e associações de ideias em longas sequências. Os espectadores mergulharão nestas imagens e formarão as suas opiniões. P. Não há nenhuma informação a propósito de empresas específicas ou dados. R. É irrelevante para este filme se a companhia que produz pintainhos está na Áustria, Espanha ou na Polónia, ou quantos porcos são tratados cada ano nos grandes matadouros. Na minha opinião isto deve ser feito por jornalistas e pela televisão, não por um filme. Penso também que as coisas ficariam demasiado fáceis 9 para mim como cineasta se aí colocasse a informação. (…). Neste filme, um olhar para além das estruturas é permitido, o tempo é expresso pelo som e pelas imagens e é possível pensar acerca do mundo onde a nossa alimentação é produzida e que é normalmente ignorado. P. Teve dificuldade em conseguir autorização para filmar? R. Nalguns casos foi mesmo muito fácil, porque as empresas estavam muito orgulhosas do que faziam, pelas inovações e pelos processos de trabalho, pela segurança nos produtos, e queriam participar na feitura do filme. Havia também algumas pessoas nestas empresas que viam a alienação dos consumidores a partir da alimentação como um problema uma vez que os consumidores não têm nenhuma ideia acerca destas questões. Por outro lado, havia muitas empresas receosas da publicidade a partir do que é que um filme destes poderia mostrar. Globalmente, existem sempre os escândalos e eles podiam pensar: se isto serve para criar um escândalo então eles devem rebentar com a concorrência. P. Mas a intenção deste filme não é descobrir escândalos… R. Com ele pretende-se juntar e tornar acessíveis imagens deste sector, deste mundo, de uma forma tão objectiva quanto possível. O que torna isto fascinante são as máquinas e o sentido do que elas são capazes de fazer, do espírito humano e da sua capacidade de invenção e organização, mesmo em espaços fechados cheios de horror e de insensibilidade. Vegetais e animais são exactamente tratados como quaisquer outros bens e o seu funcionamento suave é extremamente importante. A mais importante coisa é como os animais podem nascer, crescer e serem mantidos de modo o mais eficiente e o mais barato possível, como os tratar de modo a chegarem frescos e em boas condições quando chegam aos matadouros, e com os níveis de medicamentação e de hormonas anti stress na carne abaixo dos limites legais. Ninguém se preocupa se viveram bem. Se quer criar um escândalo, o que é mais que justificado, então tem que ir mais longe do que está a pensar. Porque então isto transforma-se no escândalo sobre a forma como vivemos, porque a sua 10 economia, a sua desumana eficiência está numa relação directa, recíproca, com o nosso estilo de vida em sociedade. Nada está errado quando se afirma: “compre produtos orgânicos! Coma menos carne”. Mas ao mesmo tempo é um tipo de desculpa, porque uma vez que todos nós, diariamente, nos satisfazemos com os proveitos da automação, da industrialização e da globalização o que afecta muito mais que a própria alimentação. P. O que é que pretende com este título do filme Nosso pão quotidiano, será que seja compreendido como uma associação à religião? R. O título refere-se à nossa história cultural e por causa da associação à religião, o efeito aparece sempre mais forte, tendo em conta a forma como as pessoas cuidam dos seus recursos e do seu bem estar. Sempre pensei em ir mais longe e a próxima linha poderá ser: e desculpem-nos os nossos erros. Mas também se refere ao ganho do nosso pão diário, à normalidade das nossas vidas e à questão do que as pessoas fazem nos seus empregos e de que como isto mudou. Quem comanda as máquinas, quem controla os processos - e quem escava a terra com picaretas ou apanha os pepinos com as suas mãos vazias? Como é que o nosso pão diário é distribuído na Europa? P. Acha que o filme representa também um pouco da história contemporânea? R. Assim penso. Também olho o meu filme como material de arquivo que se conservará por 50 a 100 anos, visto, e penso: “ então já fizeram como se tenham voltado atrás”ou ainda “ eles ainda estão a fazer desta mesma maneira”. Isto é como se alguma coisa se tenha parado ou iniciado. Formalmente, tento que seja tanto quanto possível intemporal, a intenção não é dizer que é assim que deve ser visto. Para mim é importante que um filme capte um certo ponto no tempo, um pedaço da história. Isto é especificamente verdade. Disponível em www.ourdailybread.at 11 3. ENTREVISTA COM WOLFGANG WIDERHOFER, EDITOR DO FILME P. Trabalhou com Gehyrhalter desde o seu primeiro filme tendo montado todos os seus filmes. Nosso pão quotidiano é, de dado ponto de vista, bastante diferente dos seus filmes anteriores. Não há qualquer entrevista, qualquer retrato, que são elementos importantes nos outros seus filmes. R. Foi uma experiência fascinante quando descobrimos durante o processo de montagem que assim era melhor para o tratamento do tema e das imagens. O facto é que os locais, como Gehyrhalter os mostrou, têm uma fictícia qualidade em termos de utopia e são bastante impressionantes e significativos por si mesmos. Por outro lado, o processo de produção, a arquitectura industrial, os horários e a quantidade de trabalho humano que pode ser obtida até quase se chegar à exaustão estabelece e determina o papel desempenhado pelo homens e pelas mulheres naqueles lugares. As imagens, elas próprias, já dizem tudo o que, sem nenhuma explicação ou comentário em forma de entrevista, é necessário. Uma entrevista poderia ser uma tentativa de re-individualizar o processo industrial, o que retira toda a individualidade. Pode-se dizer que nós escolhemos o vazio horroroso do silêncio. P. O filme não acompanha conjuntamente pessoas e locais, segue uma lógica diferente. R. Trata-se de mais um episódica agradável ideia, uma introspecção, uma análise , em termos espaciais e temporais. Uma análise que também compreende vários ciclos. O filme inclui diversos temas sem os mencionar explicitamente. O trabalho repetitivo, o automatismo, a produção industrial e a brutalidade que isto envolve, a moralidade que se mostra quando os animais são mortos e assim sucessivamente. Um certo número de discursos e abordagens são explicitadas no filme mas não de modo a que os espectadores ao saírem do cinema possam dizer: “ aprendi isto e que isto é o que tenho que fazer” .Penso que filmes a darem instrução em como se deve agir são enfadonhos e presunçosos. Tendemos a ter cuidado com 12 as analogias ou com os conceitos e tentámos montar o filme de modo a criar um abertura de espaços em que muitas coisas possam ser projectadas. Neste sentido é um filme arriscado. P. O que é que não oferece resposta simples R. Não. Este é acerca da experiência, um olhar que se preocupa primeiro com as pessoas e depois com as máquinas, que pode mostrar entusiasmo e ao mesmo tempo ser crítico, que não diferencia entre o bem e o mal, mas que pode também ser destruído pelo seu entusiasmo. Pode ser errado dizer que Nosso pão quotidiano é exactamente acerca do horror e do espectáculo da produção da indústria alimentar. Penso que também é um filme positivo acerca da existência humana. Gostamos de inventar e construir máquinas que podemos olhar como maravilhas, ou que repentinamente se transformam em ameaça. Penso que há alguma coisa de criança acerca do filme globalmente, com momentos surreais quase como num sonho: um desconcertante fluxo de imagens. P. E como é que isto soa apropriado? R. Cada imagem tem som, lembro-me quando as seleccionámos. E, à parte o simples contraste entre pesado e leve, certos contrastes e estruturas sonoras geram certas atmosferas acústicas e encorajam as associações. O facto é que o som abafado de uma máquina possa, por vezes, assemelhar-se a qualquer coisa de orgânico, vivo. Ora este som indica qualquer coisa para além da imagem: quando um avião se abaixa ao nível do campo de espargos nas suas costas isto faz-nos lembrar um mundo mais amplo, algo mais global. Quando o filme, por exemplo, começa é criada uma atmosfera de claustrofobia e, durante algum tempo, nada lá fora, nada no céu é visível, mas o som ruidoso diz-nos alguma coisa acerca dos espaços internos. P. E então, repentinamente este espaço abre-se: os moinhos de vento tornam-se visíveis e gradualmente repara-se que se está perante um campo de batatas. Uma mudança abrupta de dentro para fora, uma audaciosa evasão, um grande número de associações… 13 R. O corte elimina as barreiras do pensamento expressas pela imagem e abrenos uma nova linha de pensamento. Na minha opinião, pode-se sempre considerar o que é um certo corte pode envolver. O que é uma ligação, uma analogia, um contraste total, uma contradição ? Penso que é uma questão a ver em cada corte. P. Os longos planos de indivíduos a comerem representam cortes claramente distintos, claramente contrastantes. R. De facto há momentos extremamente importantes: alguém está exactamente sentado ali, a comer. Isto leva o espectador a olhar para ele ou ela, em dois sentidos: não só porque a pessoa está sentada aqui e estamos a vê-la de frente e podemos questionarmos sobre o que está a pensar e qual é o seu papel no sistema mas também no sentido cinematográfico, em que o fluxo da narrativa foi parado durante este corte. E temos assim tempo para pensar. Sem que nenhuma informação me seja dada a partir daí. Estes cortes, esta paz, faz com que tudo se torne mais claro. A dimensão da quantidade de pessoas situadas neste processo de processo de trabalho repetitivo, de quanto ele é extenuante, pesado, rápido, como numa cadeia de montagem. Isto cria um importante contraste. P. Não assistiu às filmagens. Não considera esta situação uma desvantagem? R. Não considero isto uma desvantagem. Vejo, analiso, interpreto as imagens tanto quanto me é possível, e penso no que é necessário para a história e para o filme, penso no que é que é melhor para tudo isto.. Eu, e por fim a audiência, devemos ser capazes de nos orientarmos a nós mesmos face às imagens. Temos que compreender o ponto de vista, onde está a câmara, como é que a imagem é composta e a composição das imagens de Nicolaus Geyrhalter é, ao mesmo tempo, sempre clara e complexa. Mas não temos necessariamente que compreender tudo o que é que está a acontecer. Com este filme penso que é muito importante que não se compreenda um certo número de coisas e assim as associações são possíveis, cada um de nós espectadores tem as suas ideias e experiências pessoais e evita os preconceitos, as ideias e a informação simplista dada acerca do mundo. Penso 14 mesmo que é uma das linhas mais ricas do filme. Está cheio de momentos que nos dão a oportunidade de associação de ideias. P. O filme não explica o mundo R. Eu considero que em todo o caso se trata uma questionável intenção. Vejo este filme como um lugar, um lugar de utopia em que nós entramos no início e deixamo-lo no fim – e o facto de que este lugar de utopia ser a nossa realidade corrente torna de novo mais claro e de novo ao longo do filme. O facto é que torna acessível a base dos nossos padrões de vida sociais, com todas as suas consequências. O facto de que, como espectador se estar à mercê da sequência de imagens e das ilações a que podem conduzir, mas em que estas não são oferecidas explicitamente, penso que é bom. E isto não significa ser educacional, ou moralista ou purista, mas sim que se trata de um confronto aberto com o filme e com as possibilidades e os critérios que este oferece Disponível em: www.ourdailybread.at 4. PISTAS DE ANÁLISE, QUESTÕES PEDAGÓGICAS A Mecanização no seu excesso Nosso pão quotidiano é o fruto de um trabalho de dois anos passados a observar os métodos de trabalho mais inovadores em termos de produtividade “dos gigantes” da indústria alimentar. Uma constatação se impõe imediatamente: o olhar que nos dá o filme sobre a realidade de um sector económico que conhecemos muito mal (porque muito secreto) obriga-nos a ir bem mais para além da imagem da pequena exploração agrícola desenhada sobre a embalagem da embalagem de manteiga. Vemos, assim, como as vacas leiteiras são encaminhadas (através dos tapetes rolantes) até às ordenhadoras automáticas do grande centro industrial tão sofisticado quanto asseptizado que as acolhe (a limpeza clínica dos lugares visitados 15 pela câmara reflecte, à perfeição, as preocupações e normas sanitárias da União Europeia). Mais distante, assistimos ao nascimento de um vitelo por cesariana, à inseminação artificial das vacas, à rega por robot das culturas em estufa (um só carro circula entre os alinhamentos de propágulos), à colheita mecanizada das azeitonas (um tractor equipado de uma pinça gigante agarra o tronco da árvore e agita-o vigorosamente), à ceifa industrial dos trigos (várias ceifeiras a trabalhar em simultâneo ), ao arranque em grande escala dos campos de batatas, à embalagem assistida dos frutos, ao corte feito por serra automática dos porcos e ao abate dos bovinos em cadeias de produção, à evisceração automatizada dos salmões, à colheita do sal com a ajuda de uma escavadora numa mina situada a várias dezenas de metros debaixo da terra, à pulverização por avião de produtos químicos sobre campos de girassóis (a imagem recorda-nos com um sentido bem a propósito a cena onde James Stewart é metralhado por um bimotor na Morte aos estojos de Alfred Hitchcock. Os produtos, tal como as balas, serão eles anunciadores da morte ?)… O homem desnatura-se No meio deste sistema de produção intensiva onde a mecanização tem o valor da rentabilidade (cada gesto, cada momento da cadeia de exploração é calculado, racionalizado, optimizado) aparecem alguns homens e mulheres, raros resgatados de um mundo que quebrou a relação física que o unia à natureza que o alimenta. O que choca aqui, é o facto de quase nunca se verem os trabalhadores (que só não deixaram de asseguram a partir de agora as tarefas que a máquina não sabe ainda executar) em contacto directo com os animais que estão a sua guarda ou com a terra que exploram. Melhor, eles apenas são os instrumentos indiferentes de um universo concentracionário (o protótipo são os frangos criados em aviário) onde a vigilância e o controlo a cada etapa do processo de criação constituem a regra de ouro do lucro (recolha regular dos cadáveres de frangos para evitar as doenças, por exemplo). Animais e vegetais são transformados, calibrados, torcidos, inchados, para corresponder às normas definidas pelo sistema com o propósito de um maior lucro: os bois, criados por hormonas de crescimento, atingem tamanhos monstruosos; o gesto de procriação dos animais é ele próprio desviado e guiado (o esperma dos bois 16 excitados artificialmente é recolhido para a inseminação artificial); os pintainhos, escolhidos sem rigor, são projectados como bolas de ténis no final de um percurso violento sobre tapetes rolantes; os leitões, inseridos à força em recipientes para serem sujeitos ao suplício de um secador higiénico, etc. Espaço vital mínimo, criação na obscuridade total, condições de transportes pavorosas, sevícias corporais para acelerar a produtividade (utilização de um chicote eléctrico para orientar mais rapidamente os porcos para o matadouro), o animal que sujeito a um enorme stress constante não é mais do que uma simples mercadoria como qualquer outra. Então, o homem torcionário ? Homem carrasco (veja-se a cena onde um trabalhador mata fisicamente bovinos amedrontados)? Homem vítima do seu sistema, absurdo e artificial, que quebra o necessário equilíbrio do mundo vivo da natureza? A ruptura com a natureza que nos alimenta A disjunção da relação entre homem e os animais ou entre homem e a terra é o reflexo de uma sociedade em vias de desumanização. Uma sociedade robotizada, sistematizada, preocupada fundamentalmente com a eficácia e a rentabilidade. Longos os planos fixos sobre os trabalhadores ao centro, ocupados a comerem sozinhos e em silêncio, chocam pela sua ausência de emoção. Para tanto, devese aí ver o novo rosto, eminentemente pesaroso, de uma sociedade, a nossa, ( insistimos nós ) que perde a sua alma? A banalidade do gesto necessário para a vida e a frontalidade teimosa da imagem parecem em todo o caso, expressar o que o filme nos dá a ver. O apetite do homem está a devorá-lo a ele mesmo… O filme que é em si somente uma sucessão de planos fixos (admiravelmente enquadrados) referencia mesmo muito esta perda de referências do homem com o seu ambiente. Assim neste quase silêncio religioso em que se desenrolam os 92 minutos do filme (cf. a conotação do título. Evocação do que é tão elementar como sagrado?). Nenhum discurso explicativo se sobrepõe às imagens, nenhum subtítulo vem traduzir as magras palavras que trocam os trabalhadores. O barulho das máquinas e os gritos de temor dos animais constituem a única respiração sonora desta superpotência industrial. A ausência de comunicação 17 verbal seria ela, afinal, a sequência lógica da ruptura da ordem natural das coisas? Aqui, a força ontológica da sequência dos planos tem o valor de comentário se não mesmo de argumento. Utilizando a neutralidade, a frieza das imagens, a simetria impecável dos quadros, a qualidade fotogénica dos lugares filmados (a câmara de Geyrhalter chega a tornar-se estética e fascinante) dirigem-se tanto ao nosso entendimento como à nossa sensibilidade. A sua beleza gélida que se pode tomar como uma preocupação de neutralidade do cineasta torna-se, pela sua aplicação e pela sua constância, a manifestação da fealdade moral do sistema, do seu cinismo frio e duro como a limpidez cortante das imagens. Nosso pão quotidiano defende, por conseguinte, em surdina, um dispositivo alimentar com a dimensão humana e, para isso, abre o debate. Philippe Leclercq, Mécanisation à outrance, Disponível em : www.cndp.fr/actualites/eleve/cine/C20070314.htm5. 5. O TRIUNFO DA MÁQUINA Documentário. Surpreendente, perturbante, inesquecível, um filme que nos conduz para a parte da sombra que tínhamos escolhido não ver. Nosso pão quotidiano, de Nikolaus Geyrhalter. Longamente, muito longamente, um empregado de talho limpa a jacto duas carcaças suspensas. Eis-nos, pois, agora numa estufa. Depois, sobre vacas retidas por um dispositivo que não identificamos. Seguem-se porcos cativos num vagão plataforma enquanto que a paisagem desfila ao ritmo do comboio. Um sentimento de angústia invade-nos perante estas imagens em grande écran, metodicamente compostas como uma pintura hiper - realista, simétricas , frequentemente fixas, frontais, jogando com a duração, sem música, a ausência de sentido que vem da ausência de diálogo, de voz off ou mesmo da indicação dos lugares. Somos obrigatoriamente levados a defender a sua opinião enquanto que miríades de 18 pintainhos são como tantos grãos de areia tratados como tais. Um universo concentracionário, em certa medida. De repente, uma máquina de apanhar batatas sobre fundo de aerodínamos, uma outra que projecta os alimentos sobre os ruminantes no estábulo, uma cuja vento potente provoca a queda das azeitonas da oliveira, as vacas apresentadas ao touro sem que este possa depositar o seu sémen noutro lugar que não seja num tubo de ensaio. Cada plano traz-nos a sua surpresa. Durante dois anos, Nikolaus Geyrhalter, austríaco (as sombras de Michael Haneke e Ulrich Seidl estão aqui presentes), colocou a sua câmara no meio das estruturas dos maiores grupos europeus para realizar este filme - com o título que remete para o humor negro - sobre a industrialização da agro-alimentar. Estamos aquí na enunciação, não na denunciação. Nenhuma marca é visada, apenas a frieza, a desumanização de um mundo, o nosso, este em que nós comemos. É aterrorizador e fascinante ao mesmo tempo. E, além disso, é verdadeiro cinema. Que um campo de girassóis evoque Van Gogh e de repente um avião vem sulfatar, aparecido do filme Intriga Internacional , de Hitchcock. Há Charles Chaplin e os Tempos modernos, seguidamente Tati e Playtime. Eis que nosso pão quotidiano é, de facto, a actualização e, além disso, um documentário, da visão cubista do maquinismo que foi, no seu tempo, a de Fernand Léger, a de um universo onde toda e qualquer revolta está, a partir de agora, ausente. Alimentai-vos, não há nada a ver. A força do artista que nos deu este testemunho. O Sangue dos animais, de Franju, não está longe. Jean Roy, Le triomphe de la machine, L’Humanité, 14.03.07.Paris. 6. NOSSO PÃO QUOTIDIANO Durante dois anos, Nikolaus Geyrhalter colocou a sua câmara no centro da produção dos maiores grupos europeus agrícolas e filmou os empregados, os lugares e os diferentes processos de produção para realizar uma epopeia humana que interroga e implica intimamente cada espectador. 19 O realizador abre, assim, uma janela sobre a indústria alimentar da nossa civilização ocidental moderna, na qual a preocupação pelos níveis de produtividade a afasta de qualquer realidade humana. Esta desmesura da produtividade ultra intensiva onde a vida e a qualidade dos alimentos deixaram de ter a sua palavra é, final, apenas a resposta às nossas práticas inconscientes de sobre - consumidores. Nikolaus Geyrhalter constrói o seu filme em redor das realidades que não se vêem mas de que não se duvida, sem comentários, sem estar a tomar partido e sem propaganda. Uma sequência de planos frequentemente fixos e minuciosamente compostos, as imagens calmas e uma montagem fluida constituem um filme em que as imagens falam por si mesmas. “O realizador levanta o véu que nos separa dos bastidores onde se transforma a natureza para a conduzir até aos nossos pratos… Este espectáculo é ao mesmo tempo fascinante e aterrorizador porque nos obriga a olhar para o que todos nós suspeitamos sem realmente querer ver. Um dos melhores documentários do ano. Necessariamente, não se come da mesma maneira depois de o ter visto. ” Yann Arthus-Bertrand, Notre pain quotidien, Disponível em http://www.atmospheres53.org/film.php?f=363 7. NOSSO PÃO QUOTIDIANO: NA EXPLORAÇÃO AGRÍCOLA INDUSTRIAL EUROPEIA Le Monde, 13 de março de 2007, 15:51h Em o Nosso Pão Quotidiano, há em germe o pão, mas também o bife, croquetes de frango, os tomates, o bacon, o leite e a maçã, que um habitante de um qualquer país desenvolvido consome diariamente. Antes do supermercado ou do restaurante, existem os campos e a exploração 20 agrícola. Durante anos, através da União Europeia (Dinamarca, França, Alemanha, Espanha, Polónia), o documentarista austríaco Nikolaus Geyrhalter respigaram longos momentos nos estábulos, campos, matadouros, para mostrar como se faz viver e crescer plantas e animais que vão alimentar os homens. Fez um filme desconcertante, igualmente fascinante, que nos leva até à vertigem de tal modo consegue associar a beleza e o horror, a admiração e a repulsão. Há também o espectáculo gigantesco de uma estufa vazia, iluminada à noite, no meio de um deserto (sem dúvida em Andaluzia); ver-se-á enverdecer, florescer, encher-se de frutos (os pimentos), esvaziar-se de novo. E há o abate e o corte dos porcos, cuja cor roséa e ausência de pelagem nos fazem tanto assemelhar estas imagens aos Europeus e de tal modo que estas se tornam insuportáveis. È apenas disto que se fala em Nosso pão quotidiano, em imagens organizadas. Não há comentários, não há entrevistas. O filme assume um aspecto lúdico. Vê-se uma operação a realizar-se, quer esta seja a obra do homem ou da máquina. Para que servem estes espartilhos metálicos nos quais as trabalhadoras fecham os leitões? Provavelmente para manterem empresas de confecção como Naf Naf e congéneres enquanto estes são castrados. As sementeiras e as colheitas mobilizam máquinas tão complexas como especializadas das quais o destino mistificará o que permanece nas ceifeiras-debuladoras, os cereais. O medo e o encantamento Esta mistura de mistério e de força é tudo isto magnificado pelas posições, pelas opções, assumidas pelo seu realizador, Geyrhalter. Filma frequentemente em grandes planos fixos, compostos com clareza e com equilíbrio, que permitem englobar a repetição de um gesto, de uma operação. Um homem desce o caminho interminável aviário industrial esquadrinhando as gaiolas, e aí se fica muito tempo até se compreender que se estão a retirar os frangos que são abatidos diariamente. Esta frieza pode aparecer como um distanciamento. Pode-se também concebê-lo como uma mistura de medo e de cólera. 21 Sem que nunca se apague o encantamento, a sedução que suscita a maquinaria sofisticada da agricultura moderna (dir-se-ia que uma máquina foi inventada para cada operação, da apanha do pimento ou da recolha do esperma do touro), tomase consciência dos sacrifícios que implica a produção de massa. Não é somente a qualidade de ser vivo que é retirada aos animais, que não são mais que matériaprima. Mas os homens e mulheres de trabalho (a quem o realizador escolheu não dar a palavra) aparecem como elementos completamente intermutáveis. Podemos ter o prazer da carga estética deste filme e retirar a conclusão inversa, admitir que esta agricultura é a agricultura de que o nosso moderno tem necessidade. È uma virtude deixar ao espectador a liberdade total de pensamento. 8. O QUE HÁ PARA JANTAR?O QUE É QUE NÃO QUER SABER? New York Times Por Manohla Dargis Já anteriormente, no seu indispensável livro “The Omnívore’s Dilemma” Michael Pollan sugere que a única via para mudar os lamentáveis alimentares da América seria construir matadouros e fábricas de ovos com paredes de vidro. “Se há algum novo direito que nós precisemos de estabelecer,” escreve ele, “talvez isto seja um deles : o direito, quero eu dizer, a olhar.” Integrada nesta noção elegante, embora aparentemente simples, há uma curiosa noção: os americanos, embora cada vez mais bombardeados com a afluência de imagens, estão cada vez mais a perder a sua própria imagem. A sobrecarga visual completa da vida quotidiana, apesar de tudo, pode fazer com que cada um se sinta muito próximo do carácter de Malcom McDowell’s em A Laranja Mecânica de Kubrick, que é obrigado a ver uma cascata de imagens, incluindo as das atrocidades, com as suas pálpebras bem abertas. Mas enquanto nós nos podemos sentir oprimidos visualmente, muito na nossa vida quotidiana, como sublinha Pollan, permanece estrategicamente fora do nosso campo visual, do olhar, incluindo a forma como os 22 nossos alimentos chegam, na sua maneira lenta, à mesa de cada comensal. Se nós pudéssemos ver a vida animal e não apenas o pacote de carne no supermercado, se pudéssemos ver o trabalho e o seu desperdício, nós poderíamos mudar o conteúdo do que comemos e a forma como comemos. No seu magnífico documentário “Nosso pão quotidiano” o cineasta austríaco Nikolaus Geyrhalter faz exactamente o que Pollan nos propõe: ver, olhar. Tal como no “Omnívore’s dilemma,” (…) este documentário é um olhar muito seguro sobre a produção alimentar industrial desde o campo até à fábrica. Geyrhalter disse que está fascinado por “zonas e por pessoas de áreas que normalmente não são vistas.” O seu fascínio é o nosso ganho. O filme “Nosso Pão Quotidiano” pode ser extremamente difícil de ver com toda a atenção, mas a elegância formal do filme, a sua base moral e o seu ponto de vista intelectual altamente estimulante fazem dele um filme essencial. Cada um de nós é o que come e, como assim é, também nós somos o que temos a ousadia de olhar, de ver. Geyrhalter, no filme “Nosso pão quotidiano”, coloca-nos no interior de mundos de maravilhas e de terror Entre Outubro de 2003 e Outubro de 2005, ele e o seu grupo viajaram por toda a Europa gravando cenas a partir das quais, em termos de Pollan, se denomina a cadeia alimentar industrial. Nós podemos apenas supor em que ponto é que poderemos estar no continente europeu uma vez que Geyrhalter dispensou inclusive o trabalho de nos dar as indicações dos locais onde filma. De forma mesmo radical, não nos dá uma narração que nos dirija em qualquer um sentido óbvio; nem sequer traduz os fragmentos de conversa em alemão e em árabe que nós ouvimos, provavelmente porque estas vozes se fundem logo no ruído mecanizado e este é permanente. Considerando a homogeneidade de práticas na agricultura industrial, estas estratégias fazem o seu sentido. A cena da abertura de um homem de uniforme a lavar com uma mangueira o soalho, estando flanqueado por duas fileiras de porcos estripados, poderia ter sido feita em qualquer lugar no mundo moderno, da mesma maneira que a imagem das galinhas vivas que estão a ser 23 agarradas e puxadas por uma máquina e carregadas depois à mão em pequenas caixas no processamento e embalagem. O homem que bate com uma daquelas caixas fechadas na cabeça de uma galinha sacudindo-a freneticamente pela cabeça poderia ser francês ou austríaco; a nacionalidade aqui é tão irrelevante para os animais como o é para os consumidores que comprarão mais tarde a galinha depois de ter sido puxada, morta, limpa, tudo isto é o que nos mostra Geyrhalter , imagem a imagem. As cenas da matança no soalho são previsivelmente brutais, embora nem todas as razões sejam óbvias. Geyrhalter não vacila em mostrar-nos o pânico dos animais enquanto estes se dirigem para o espaço onde vão ser mortos ou para a barbárie das suas mortes. Há uma cena lancinante de uma mulher, sentada e, sem dúvida, sozinha a cortar os pescoços das galinhas que sobreviveram à primeira matança. Dela, são agora, realmente actos de misericórdia. Se ela esta a fazer o seu trabalho de modo correcto, as aves já estarão mortas quando forem massacradas e limpas, o que nem sempre é o caso nos matadouros industriais. A imagem desta mulher com estas aves mortas e com a sua faca, com o seu avental coberto de sangue a escorrer para o soalho onde dá forma a uma associação aquosa, torna toda e qualquer narrativa completamente supérflua. Nós não somos introduzidos no mundo desta mulher, mas a sua humanidade e o horror de seu trabalho são claramente visíveis. Há algo incrivelmente lamentável na sua própria solidão e que é acentuado pela esterilidade do seu ambiente de trabalho, com a sua iluminação doentia, as suas superfícies de metal e um incómodo zumbido mecânico. Igualmente perturbante é uma imagem gravada longe do soalho do matadouro, num um campo de terra batida em que uma mão cheia de máquinas ceifeiras-debulhadoras enormes avançam implacavelmente para a câmara. Como o faz ao longo de todo o filme, Geyrhalter sustém a imagem com planos relativamente longos o que nos dá a grande oportunidade de poder examinar tudo o que está dentro do plano em tempo real, incluindo a revelação surpreendente da pequena figura humana sentada dentro da cabine da enorme máquina agrícola, uma partícula da vida encerrada na maquinaria. 24 É difícil imaginar o que é que um comentário em voz-off poderia adicionalmente trazer-nos. Uma parte da grandiosidade do filme resulta da maneira como apresenta as imagens e as origens do seu significado, com tão fria determinação e mostrando mais do que avisando através dos longos planos de que Geyrhalter é um mestre e em que sublinha o fluxo contínuo e mecanizado do trabalho. Tal como o seu uso escrupuloso da perspectiva, em que dirige o nosso olhar para o centro de cada imagem, as imagens de sequência revelam a arte do cineasta assim como a sua clara posição ética . No filme Nosso pão quotidiano Geyrhalter quer-nos não somente para olhar o mundo que nós fizemos com cuidado e com consideração, mas contemplar igualmente uma realidade recentemente visível que é muito fácil de ignorar em toda a sua dimensão e impossível de não lhe dar uma olhadela. Manohla Dargis, What’s for Dinner? You Don’t Want to Know, New York Times, 24.11.06 9. A PROPÓSITO DNOSSO PÃO QUOTIDIANO, UM DOCUMENTÁRIO DE NIKOLAUS GEYRHALTER Quando o ser vivo é apenas matéria prima Por Françoise Nowak O filme Nosso pão quotidiano: um documentário sobre o mundo agroalimentar que revela um modo de produção e de criação onde a vida é apenas matéria prima… De que se deve tomar consciência que alimentar-se é também um acto político. O filme Nosso Pão Quotidiano, oferece-nos um tipo de repasto que a maior parte de nós ignora e que atinge o horror. Este documentário de 92 minutos projectanos para os bastidores do que se consome nas nossas mesas: estufas industriais regularmente desinfectadas por homens tapados com máscaras de gás, último grita 25 da moda, totalmente anónimos por detrás das suas combinação herméticas do estilo “lugares de experiência do mais alto”, laboratórios para excitar os touros e recolher o seu sémen, fábricas de frangos de crescimento controlado, que os mandam pelo ar como se fossem cuspo e os amontoam como se fossem lixo vulgar, industrias de charcutaria de leitão em cadeia, colheitas que mais parecem agressões, implacáveis, das grandes superfícies agrícolas por monstros muito potentes, “grandes bulldozers” a fazerem cair as azeitonas… Este filme aponta sobre as mais belas jóias tecnológicas e industriais europeias do sector agro-alimentar. Assim fazendo, dá-nos em espelho a imagem de uma sociedade produtivista onde o que é ser vivo, qualquer que seja a sua natureza - mesmo incluindo os humanos - não têm rigorosamente nenhum outro valor a não ser o de um produto comercial do qual se quer retirar um rendimento máximo e o mais rapidamente possível. O choque é duro. Ainda que se coma carne de boa vontade, e que não se tenha nada a ver com ser um defensor militante dos animais, como compreender que os fabricantes das máquinas, no entanto muito sofisticadas, que projectam a palha ou o alimento em boxes para os bovinos alinhados à perder de vista, não previram evitar fazê-lo “em cheia boca” destes ruminantes? É muito claro, no entanto, que estes animais se mexem todos os sentidos para tentarem evitar esta agressão inútil e chocante. Como explicar ainda que estas mesmas máquinas sejam promovidas na tribuna da empresa Kuhn, no âmbito de feiras consagradas ao maquinismo agrícola (como em Villepinte), apoiados nessas mesmas cenas de agressão, difundidas em contínuo pelos vídeos de demonstração? Como imaginar que gabinetes de estudos tenham aceite realizar autómatos tão sofisticados que deram lugar à criação de um ofício inteiramente: o “de cortador em cadeia de patas da frente de porco “? Para os eventuais amadores, eis “a ficha técnica”: ao longo do dia, seccionam-se estas patas através de grandes tesouras, ao ritmo da passagem automática e lancinante - exactamente à altura de cada um de nós - o tempo mínimo necessário - dos despojos destes porcos, bem a propósito 26 suspensos pelos seus pés por ganchos… O trabalho em cadeia, sabe-se, é já em si uma alienação, mas ter imaginado levá-lo a efeito sobre cadáveres, sejam eles de animais, exprime um desrespeito pelo ser vivo, que confina à vertigem. Ainda mais, como é que os engenheiros puderam inventar a noção de espaldeiras de legumes sem terra em que é suficiente puxar, no final da estação, como vulgares cortinas, sobre varões arranjados para este efeito? Certamente, o ganho em tempo e, por conseguinte, o lucro financeiro que daí resulta devem ser de grande dimensão: estes planos eliminam-se “numa volta da mão”, e preparar uma nova estação de cultura sobre cimento é tão rápido como fácil. Razias nos frangos Mas o desejo de inversão da relação que liga normalmente o homem à terra, subentendida neste método de trabalho é o testemunho de uma vontade todopoderosa dos mais inquietantes. Por fim, como é que outros profissionais passam encomendas de vastos sistemas automáticos de razias de frangos prontos a irem para a caçarola, em vastos em hangares… Todas as práticas fazem inevitavelmente pensar na doutrina que dominava nos campos da morte: aqueles que são mortos como aqueles que se empregam são, afinal, apenas matéria-prima. Recupera-se tudo o que pode ser “útil”, da maneira mais higiénica e sistemática coma tecnologia possível. Charlie Chaplin, autor dos filmes O Ditador e Os Tempos Modernos reconheceria certamente nisto, a conjunção das loucuras que denunciou naquelas duas obras proféticas. Nada de surpreendente, nestas condições, que o director tenha escolhido renunciar, no decorrer da realização do filme, a organizar entrevistas com os trabalhadores que filmou, para não perturbar a rodagem. Só o esquecimento da morte que se dá a si-mesmo fazendo-se ao mesmo tempo o instrumento e a vítima 27 de tal sistema, para sobreviver, pode permitir continuar a nele participar. Para estas pessoas, poder manterem-se no seu dia a dia, apesar das tarefas que lhes são impostas, não é certamente compatível com o falar disso. A cada um de nós, depois de ter visto este filme, cabe-nos não nos esquecermos disso, em contrapartida, quando fazemos as nossas compras. Françoise NOWAK Nikolaus Geyrhalter: um trajecto singular , da realização à distribuição Em cinco documentários, Nikolaus Geyrhalter criou uma assinatura. Análise das características desta produção atípica, que tem seduz um distribuidor atípico (tire-se-lhe chapéu). Quer se trate da sua maneira de trabalhar, ou a distribuição do seu último filme, pode-se dizer que Nikolaus Geyrhalter é um realizador atípico. Imprime em certa medida às suas obras - 5 documentários até agora - uma verdadeira marca de fábrica: pontos comuns notáveis, em todos os sentidos do termo. Em primeiro lugar, Geyrhalter escolhe mostrar lugares que normalmente nós não procuramos ver: lugares perigosos, lugares de actividades fechadas sobre elas próprias , lugares de atmosferas extremas…. Diz-se fascinado por este tipo de espaço, e ninguém duvida que escolha alguns nomeadamente pela forma da sua beleza que está ligada, por seu lado, à sua desmesura. Ninguém dúvida igualmente que se encontra a coragem para continuar a olhar as cenas frequentemente terríveis que desfilam sob os nossos olhos, nnosso pão quotidiano por exemplo - a sua última obra, datadas de 2005 - é nomeadamente graças a esta beleza. Uma beleza que o realizador revela pelas suas escolhas de ângulos e horas de filmagem. Além de um documentário, os filmes de Geyrhalter são também produções artísticas. Seguidamente, os filmes de N. Geyrhalter não comportam nem comentário, nem vozes off. Em O Nosso Pão Quotidiano “trata-se de mostrar situações de trabalho deixando, através de longas sequências, suficientemente espaço ao pensamento, às 28 associações de ideias. Os espectadores podem também mergulhar neste universo e fazer-se a sua própria opinião”, diz-nos o cineasta. Tudo está ligado Outra característica ainda: Geyrhalter instala-se longamente nos seus temas, fica o tempo suficiente para se de impregnar-se das atmosferas, para encontrar as pessoas, para sentir as situações. Nosso pão quotidiano levou-lhe dois anos de investigação e de reportagem. Françoise Novak, Dossier Agriculture. A propos de Notre pain quotidien , un film documentaire de Nikolaus Geyrhalter. Disponível em www.jne-asso.org/dossiers_agriculture.htm 29 © Nosso Pão Quotidiano, 2005. © Nosso Pão Quotidiano, 2005. PARTE II BRUNO PARMENTIER E A AGRICULTURA NO SÉCULO XXI 1. A AGRICULTURA FACE AOS NOVOS DESAFIOS DO MILÉNIO Agricultura, actividade milenária - tradicional se assim se pode dizer - sofreu na Europa uma mutação fantástica desde meados do século XX. Neste início do século XX, prepara-se para conhecer, de novo, uma metamorfose completa. Contrariamente a muitas outras mudanças que se realizam mas escondidas por detrás dos muros das fábricas e dos escritórios, estas desenrolam-se à luz do dia, sob os olhos dos não - agricultores, na frente deles e de um lado e do outro da estrada das férias. Têm por conseguinte todos a impressão de terem sido seus testemunhos, mas compreenderão eles o que estão a ver? Os Ocidentais comem todos os dias e sentem efectivamente que isto constitui uma mudança considerável; contudo, face às numerosas questões que se colocam relativas ao futuro da alimentação, tanto em termos de volumes disponíveis à escala do planeta como em termos da qualidade do que se come, hesita-se entre a mudança de hábitos e a nostalgia, o prazer e a cólera, “a negligência” e o desejo “de retomar a mão” sobre esta parte essencial da vida. Mas como continuar a ser objectivo numa matéria em que os sentidos, as necessidades, a educação, o instinto e a história pessoal são até este ponto solicitados? E, sobre este assunto, o que se lê e se ouve é correctamente incompreensível para aqueles, e são numerosos, que não têm a capacidade de se distanciarem suficientemente. 31 Os franceses encontram-se, além do mais, numa época onde é de bom tom dissertar de modo catastrófico : o seu país seria amorfo, estaria em declínio, incapaz de reagir e superar os seus bloqueios. Gostam de se assustar e de se auto flagelar. No entanto, para incluir o título evocador de um livro recentemente publicado, poder-se-ia também interrogar “ porque é isto ainda não vai tão mal “1 e fazerem a lista das numerosas forças, reais ou latentes, e das esperanças que residem neste país, indiscutivelmente um dos mais dotados do planeta em matéria de agricultura e alimentação. É necessário tomar consciência em primeiro lugar que um medo ancestral o de não ter que comer já está hoje bem desaparecido. Bem poucos teriam a ideia, agora, como o faziam os seus avós de armazenar farinha, macarronetes, arroz, azeite e o açúcar em cada uma das crises internacionais. Quem poderia imaginar que o pão vai faltar na padaria ao lado ou o leite no supermercado? Agora ganha-se mesmo mais consciência a que ponto esta abundância é um acontecimento novo para a humanidade; para esta, alimentar-se sempre constituiu uma preocupação maior, diária, permanente, e o trabalho ligado à satisfação desta necessidade era a actividade principal para a maioria da população. A França, que hoje mostra uma agricultura largamente exportadora, mesmo assim conheceu onze períodos de forte escassez alimentar no século XVII, dezasseis no século XVIII, e dez ainda no século XIX. Mesmo no século XX, as duas guerras mundiais provocaram escassez e racionamentos: a geração entre duas guerras, que conheceu as privações da Segunda Guerra mundial, ficou, por muito tempo, traumatizada. Por volta de 1950, a França contava ainda 8 milhões de agricultores, os quais nem sempre chegavam a alimentar de forma correcta os 40 milhões de habitantes (ou seja cerca de cinco bocas por agricultor). E seguidamente, por 1 32 Patrick Viveret, Pourquoi çà ne va pas plus mal ?, Fayard, Paris,2003. maravilha do génio humano, a agricultura e a pecuária profissionalizaram-se, a sua produtividade decuplicou, e os franceses, bem assim como os seus vizinhos da Europa Ocidental e alguns raros outros países, terminaram por conhecer a abundância no fim do século XX. Em cinquenta anos, o número de camponeses franceses dividiu-se por dez, e hoje cada um de entre eles alimenta quase cem pessoas. A população hexagonal atinge os 60 milhões de habitantes, os agroindustriais exportam para todos os lados e ninguém sabe que fazer dos excedentes. O sector agro-alimentar constitui a principal fonte de divisas do país; neste domínio, a França é o segundo exportador mundial, e o primeiro per capita. Um sucesso completamente exemplar que lhe invejam numerosos países. Passou-se, no mesmo tempo, um acontecimento tão extraordinário quanto imprevisto: em vez de se reconhecer o mérito dos agricultores franceses, os seus concidadãos têm-nos caricaturado até ao ponto de verem neles verdadeiros “incapacitados”. Para muitos citadinos, que se alimentam três vezes por dia sem sequer pensarem nisso, a aproveitarem largamente as riquezas criadas pelo sector alimentar e que são cada vez mais numerosos a visitar o campo ou a nele se instalarem, os agricultores parecem agora desprovidos de qualquer qualidade de modernismo. Consideraram que fazem barulho com os seus tractores, com as suas regas ou com os seus animais, sujam as estradas, monopolizam a água, espalham ao longo do dia os produtos químicos suspeitos, poluem os rios, empestam a atmosfera, maltratam os animais, caçam sem eira nem beira, manipulam o ser vivo de maneira irresponsável, produzem uma alimentação de má qualidade, custam caro à Europa, e são constantemente pedinchões de subsídios. Pura caricatura certamente, mas que ilustra um fosso cultural crescente, uma ignorância profunda, uma forte ligeireza dos que nunca conheceram a fome e também a arrogância tradicional dos intelectuais. Observar-se-á contudo que para outros citadinos, preocupados com as questões da ecologia e cada vez mais críticos para com o seu próprio modo de vida são, pelo contrário, os agricultores que são “os verdades postmodernos” no momento decisivo do século, pela sua escolha de uma vida mais próxima 33 da natureza, mais equilibrada, que representa uma alternativa ao da cidade tornada demasiado alienante2. Em França, a questão alimentar que coloca hoje a maioria da população não é mais com efeito a questão do abastecimento (dado que não têm mais medo de faltar), mas muito mais a questão da qualidade. Mas que qualidade? Contrariamente à quantidade, aí está um conceito de difícil definição, de que cada um mantém uma interpretação pessoal, e mesmo assim esta é, de resto, bem diferente à semana, ao fim-de-semana e em férias. Cada um quer com efeito comer muito, simples, prático, verdadeiro, saboroso, equilibrado, são, natural, diversificado, produtos regionais, da sua terra, exótico, alimentação sanitariamente garantida, que não seja cara, etc. sem negligenciar o fim do fim: encontrando-se demasiado gordos, muitas pessoas querem primeiro emagrecer. Na época, não muito remota, em que se morria por volta da idade de cinquenta anos, depois de ter comido 50.000 vezes, se teve tal possibilidade, um francês procurava sobretudo prolongar os seus dias e ganhar alguns almoços suplementares. Doravante vivese até aos oitenta ou noventa anos, com a certeza de consumir 100.000 refeições, sem contar os aperitivos, cocktails, provas de degustação e outros consumos. De repente, os inconvenientes da abundância aparecem à luz do dia. A obesidade faz as devastações, as alergias e as intolerâncias desenvolvem-se, assim como as doenças raras (às vezes resultantes da longa exposição a produtos indesejáveis) e certas psicopatologias alimentares (bulimia, anorexia ou orthorexia). O conceito “de grande farra” fez larga concorrência ao de penúria, salvo para os clientes da associação dos Restajurants du Coeur e outras sopas populares, cada vez mais numerosas, é certo, mas que só excepcionalmente fazem as caixas dos media e dos magazines. E, contudo, podemos sem dúvida afirmar sem qualquer dúvida: nunca se comeu igualmente tão bem em França como hoje. 2 Sobre este tema, veja-se o excelente livro de Remi Mer, Le paradoxe paysan, Essai sur la communication entre agriculture et société, L’Harmattan, Paris,1999. Este conclui com uma frase que faço minha : » a profissão de camponês pode ainda levar a incarnar simbolicamente uma nova forma de modernidade. Depois do fim dos camponeses, o seu retorno? 34 Come-se bem, primeiro, do ponto de vista da segurança sanitária de base. Praticamente mais ninguém morre depois de comer a sopa, o que no entanto era um risco permanente há cerca de somente umas dezenas de anos. No entanto, quando ocorre uma intoxicação alimentar numa colectividade, propõem-se falar disso durante semanas. E que pensar da desproporção entre a inflação de comentários jornalísticos em redor das crises alimentares e a sua realidade objectiva em termos epidémicos: a doença das vacas loucas terá, no total, feito entre dez e quinze mortos, e, no momento em que este prefácio é concluído , “a gripe aviária” não fez nenhum. Os Franceses ganham três meses de esperança de vida todos os anos desde há várias dezenas de anos; cada geração é de 5 a 10 centímetros mais alta que a precedente e não é certamente com envenenamentos à mesa que se chega a este resultado. Mas come-se bem na França, igualmente, em termos de degustação. O mundo inteiro continua a provar e a elogiar a gastronomia hexagonal. Os franceses opõem-se ainda de maneira significativa à invasão “da má alimentação” desestruturada à americana. Os diferentes estratos de imigração, bem como o turismo no estrangeiro, levaram-nos a adoptar progressivamente diversas receitas estrangeiras, enriquecendo ainda grande diversidade do seu património culinário. E não esquecem as grandes empresas agro-industriais de alcance internacional: saboreiam-se iogurtes Danone e o vinho de Bordéus numa boa parte do planeta. Grandes cadeias de supermercados de origem hexagonal fornecem cada vez mais largamente o planeta, de São Paulo a Pequim. Ousemos, por conseguinte, uma afirmação que pode parecer feita a contracorrente, ou mesmo espantosa: apesar de todas as críticas (de que muitas são legítimas), apesar dos enervamentos e motivos de insatisfação, apesar de serem numerosas as imperfeições que subsistem, apesar da “comida de má qualidade”, apesar de estragos induzidos pelo progresso, apesar da verdadeira “epidemia” mundial de obesidade e da multiplicação dos cancros, nunca se come-se tão bem como agora. 35 A consciência deste progresso não deve por conseguinte fazer ceder o sector agrícola ao desânimo que frequentemente o mina, porque um novo desafio, todo ele também importante, complexo e vital espera-o, e face ao qual deverá uma vez mais demonstrar as suas capacidades de evolução. A agricultura no coração dos problemas vitais do século XXI O assunto deste livro é efectivamente a agricultura. Comecemos por uma primeira constatação: a abundância de produtos agrícolas e alimentares na Europa no final do século XX poderia constituir somente um parêntesis, e mesmo uma excepção única na história e na geografia da humanidade. Em matéria geográfica, como esquecer que cerca de 850 milhões de pessoas (dos 6,4 mil milhões) sofrem ainda da fome sobre o planeta? Aqui até 2050, a Terra contará 2 à 3 mil milhões de habitantes suplementares. A Europa, cuja população vai diminuir, não comerá adicionalmente mais nada e pode-se razoavelmente pensar que se auto fornecerá sem problemas. Mas a Ásia deverá, questão considerável, multiplicar a sua produção por 2,3. Quanto a África, deveria teoricamente quintuplicar a sua produção para prover às suas necessidades alimentares, pelo menos de acordo com as normas ocidentais, um desafio provavelmente impossível de assumir. Apesar do desenvolvimento avançado de uma parte do mundo, a acumulação insolente de riquezas, o progresso tecnológico e a emergência de uma forma de consciência mundial, cada vez mais pessoas correm o risco de terem fome no século XXI sobre este frágil planeta. No plano histórico, o homem fez, até agora, o mais simples: sabe produzir muitos bens alimentares aparentemente com eficácia.Mas esta eficácia continua a ser muito relativa porque se exerce e unicamente em condições favoráveis, onde os recursos são abundantes. As grandes quantidades de cereais, leite, carne, frutos, de 36 legumes, etc. que saem da terra utilizam com efeito muita água, energia, química, mecânica e a quase totalidade dos solos disponíveis. Produz-se “muito com muito”; e isto exigiu numerosos e pacientes esforços, mas não está fora de alcance… O homem deve agora aprender a produzir “ao mesmo tempo mais e melhor, mas com menos”: menos água, menos solo, menos energia, menos química, etc. Esta aposta não está ganha, muito longe disso, tanto mais quanto ainda que se degradaram mais os solos e os cursos de água, diminuiu-se perigosamente a biodiversidade e contribuiuse para o aquecimento do planeta e com consequências difíceis de prever. A sociedade ocidental estabeleceu igualmente regras de troca e de comércio internacional que tornam praticamente impossível a sobrevivência das agriculturas e dos agricultores de numerosos países do terceiro mundo e condenam-nos quer a uma extrema dependência, quer pura e simplesmente à fome. Além disso, o conjunto da humanidade poderá ter de enfrentar o regresso das grandes epidemias. Por último, a agricultura encontra-se hoje solicitada para uma contribuição nova e essencial, que não tem mais nada a ver com a alimentação: fornecer matérias-primas para a indústria, no sector da energia nomeadamente para assumir a substituição do petróleo. Será necessário por conseguinte imensamente trabalho, de inventiva e de investimentos para ter êxito nesta façanha. “Com base em certezas fundadas sobre análises e tomadas de posição fundadas sobre valores, o mundo pode sem dúvida alimentar o mundo, com condição de criar os meios necessários. Mas libertando todos os instintos de posse e de vitória, de dominação e de triunfo que o mercado desperta, corre-se o risco de tomar um caminho que torne a impossível a satisfação das necessidades humanas para metade da humanidade3 .” “Hoje, muito honestamente e do fundo de mim mesmo, dirijo-me à sociedade global e digo-lhe: têm necessidade da agricultura e não medem o risco que correm não lhe dando o lugar que ela merece e que lhe deve voltar a ser dado. Empenhemo-nos conjuntamente numa reflexão em que, porque terão tomado consciência da dimensão dos problemas que a vossa alimentação coloca, 3 Edgar Pisani, conclusão da primeira lição inaugural 2004 do grupo ESA (Escola Superior de Agriculture de Angers) Le monde pourra-t-il nourrir le monde, 37 em quantidade e qualidade, porque terão tomado consciência das questões que se colocam em termos ambientais, porque terão tomado consciência da medida dos riscos que fazem correr os desequilíbrios das sociedades rurais, a sociedade global, nacional, europeia e mundial terá interesse em abordar o problema agrícola de modo que esta subsista para a satisfazer, a ela, à sociedade global, e de modo a que o mundo agrícola encontre o seu lugar, também não um lugar de mendigos e de subvencionados mas um lugar essencial de actores num mundo moderno!4 ” Abramos os olhos: a agricultura pode muita coisa, excepto ser “antiquada, sem valor”. Vai retornar rapidamente mesmo ao centro das preocupações, a Norte como ao Sul. As sociedades urbanas vão muito rapidamente aperceber-se e a imagem da agricultura mudará, de novo, mais uma vez. Este sector é um dos guardiães da salvaguarda do planeta: deve alimentar os seus habitantes mas também, em breve, fazer rolar os seus automóveis, fornecer as fábricas e conservar as paisagens. Além disso, principal a via de saída industrial será muito possivelmente o desenvolvimento das técnicas procedentes da biologia, permitindo, por exemplo, criar vegetais capazes de crescerem em condições hostis (solos que contêm sal, água pouco abundante, temperaturas muito baixas, numerosos depredadores ou doenças, etc.) ou possuindo propriedades novas (melhor qualidade nutritiva ou energética, etc. “A civilização do ser vivo”, que está a começar a ver o dia, é por sua vez portadora de promessas extraordinárias e perigos consideráveis. Difícil ainda imaginar o que ocorrerá para a humanidade com a descriptagem do genoma, nomeadamente o humano. Representará uma retomada extraordinária em termos de progressos, que tornará caduca uma boa parte dos nossos temores actuais, ou, o que continua possível, será uma miragem perigosa levando a consequências desastrosas5? 4 Edgard Pisani, segunda lição inaugural 2994, grupo ESA, Produire et sauvegarder, 5 Para activar as imaginações e melhor assumir a medida das mudanças que poderiam aparecer em termos de agricultura e alimentação, o autor lançou um desafio em 2003 aos autores de ficção científica pedindo-lhes que escrevessem sobre o tema “ que comeremos nós em 2030, que cultivaremos nós em 2030?” O resultado, 18 livros, foi tema de uma antologia cativante que tenta reunir ciência e ficção, reunida por Daniel Conrad, Moissons futures,2050: a SF française se met à la table, La Découverte, Paris,2005 38 Este livro é o de um neófito apaixonado. O seu autor, urbano “puro açúcar”, decidiu recentemente juntar-se ao meio agrícola e agro-alimentar assumindo a direcção de uma escola de engenheiros agrícolas , persuadido que o século XXI será em especial o do ser vivo. Tem ouvido muito, lido e observado muito para tentar ter a sua ideia sobre estas questões, por sua vez, consideradas muito complexas e extremamente mediatizadas. O resultado desta reflexão é destinada a dar forma a dois ensaios de síntese sobre desafios alimentares “da civilização do ser vivo”, que serão legíveis pelos não-especialistas, frequentemente perdidos no meio das controvérsias sobre financiamento da Política agrícola comum europeia (PAC), OGM (organismos geneticamente modificados), os problemas de escassez de água, as energias renováveis, “a comida de má qualidade”, a obesidade, o bem-estar animal, a ajuda alimentar aos países do terceiro mundo assim como outros assuntos. A presente obra trata da preocupação “de alimentar” o conjunto do planeta, e nomeadamente das suas implicações tecnológicas, económicas e políticas. Uma segunda obra completará este propósito examinando as modalidades “de comer”, demorando-se sobre a cultura alimentar, a saúde, a relação cidade - campo, etc. O objectivo não é arriscarmo-nos se presunçosamente a escrever o que conviria fazer, mas sim o de esclarecer sobre o contexto e os desafios, e sobre o carácter globalizante de todos os problemas fundamentais que cada um de nós tem às vezes tendência a tratar separadamente. Não ensaios de tese por conseguinte, mas livros “pedagógicos” de vulgarização, tentando, mas modestamente, recrear relações entre o mundo da camponês, a agricultura e o resto da sociedade. Livros que tentam explicar às pessoas das cidades em que é que a agricultura se encontra mesmo no centro dos problemas do futuro. Livros que tentam igualmente mostrar aos agricultores que a crise actual será provavelmente curta, tanto a sociedade terá necessidade deles para produzir mais alimentos de qualidade, de energia, de fibras e outras matérias-primas para a indústria. Livros, por último, para todos os que se interessam pela solidariedade nacional e internacional, o humanitário, a ecologia, e que desejam re - situar ou re - motivar a sua acção. 39 Textos por último escritos voluntariamente com termos simples, compreensíveis por todos, e só com os números mais significativos. Os especialistas de todos os quadrantes encontrarão talvez esta obra um pouco simplista ; não é escrito para eles, mas para “o cidadão de base.”. Bruno Parmentier, Angers-Lavelane 2. ENTREVISTA COM BRUNO PARMENTIER Bruno Parmentier. Director da escola de agricultura da França. Fala sobre a controversa relação entre a fome e o etanol 22 de Abril de 2008 Laura Greenhalgh Nesta entrevista, aliás, Bruno Parmentier fala da chegada de novos contingentes populacionais, especialmente na Ásia e na África, do envelhecimento da população, que prolonga a vida alimentar, e da voracidade mundial por combustíveis, “o que fatalmente vai contrapor o depósito de gasolina do rico à mesa do pobre”. P. O senhor diz que não entendia de agricultura até chegar à direcção da ESA, em 2002. Em que é que a escola mudou a sua maneira de ver as coisas? R. Não venho do sector agrícola. Sou engenheiro de minas e economista. Depois de trabalhar em desenvolvimento agrário por quatro anos no México, na década de 70, experimentei editar livros, viver como jornalista, e só mais tarde é que aceitei a direcção da maior escola agrícola da França. Aceitei o cargo convencido de que a era do petróleo está no fim e que a biologia nos vai levar por caminhos melhores. O balanço dessas descobertas está no meu livro, Nourrir l’Humanité, que tem causado grande repercussão desde o seu lançamento. Não paro de dar entrevistas aqui como na Europa. 40 P. Porquê tanto interesse? R. Porque nenhuma perspectiva histórica nos dá a certeza de que todos teremos o que comer no futuro. E, se tomo a perspectiva geográfica, a constatação é amarga: a fome atinge 800 milhões de pessoas e há quase 1 bilião a comer muito mal. P. O que prevalece na sua análise sobre o futuro da alimentação: ameaças ambientais, transições demográficas, modelos económicos? R. Há uma conjunção de factores, mas, falemos em demografia. Garantir a nutrição de uma população em forte expansão é uma novidade radical para a humanidade. Até ao século XVI, a população mundial pouco evoluíra. Houve um crescimento suave nos séculos XVII e XVIII seguido de outro mais acentuado no século XIX, atingindo mais a Europa e a Ásia, e depois espalhou-se para outras partes. Em 1900 havia no planeta 1,8 bilião de habitantes, 50% dos quais comiam satisfatoriamente. Mas contavam-se 800 milhões de mal nutridos. Cinquenta anos mais tarde, portanto em 1950, éramos 2,8 biliões e havia perto de 800 milhões de pessoas com fome. Hoje somos 6,3 biliões e continuamos encontrando algo como 800 milhões de famintos. Ora, podemos fazer uma leitura optimista desses números: em um século, a humanidade conseguiu dar de comer a mais 4,5 biliões de pessoas. Belo resultado. Mas podemos observar com certo pessimismo essa estranha “lei” : qualquer que seja a população do planeta há sempre algo como 800 milhões a passar fome. É um número persistente. P. E o que deve se passar nos próximos 50 anos? R. A população deverá estabilizar-se entre 9 a 10 biliões de pessoas. Significa que acolheremos no planeta um bilião de novos asiáticos, cerca de 800 milhões de novos africanos, 400 milhões de novos latino-americanos. Então temos de nos colocar a questão: haverá alimento para todos? Se admitirmos que todos almejamos comer segundo os padrões ocidentais, com as dietas fortemente baseadas em produtos de origem animal, teremos então de dobrar a produção 41 agrícola do mundo, já que os animais comem como nós, humanos - consomem cereais e vegetais. E dobrar tendo em conta as disparidades existentes. Será preciso multiplicar por 5 a produção agrícola africana e por 1,9 a produção agrícola latino-americana, ao passo que será inútil aumentar a produção europeia, já que estamos a comer bem desde há bastante tempo e já não fazemos tantos filhos. Por isso, a nossa população está a declinar. P. Em termos globais, há disposição para pensar disparidades? R. Não há outro jeito! As soluções aplicadas para aumentar a produção de alimentos no século 20 certamente não irão funcionar no século XXI. É imperativo encontrar alternativas. À escala global, as nossas reservas de terras disponíveis para a agricultura são cada vez menores, em parte devido à urbanização. Continuamos a destruir as florestas a uma velocidade inaceitável para o equilíbrio ecológico, ou seja, à razão de 140 mil km² por ano. A equação que resulta disso é simples: em 1960, havia algo como um hectare para nutrir dois seres humanos. Hoje, tem-se em média um hectare para quatro, em 2050, um hectare para seis, e assim sucessivamente. A China hoje já lida com a relação de um hectare para oito indivíduos. P. Qual o pior impacto da escassez de água para a agricultura? R. A irrigação foi um meio de expansão agrícola largamente utilizado no século XX, permitindo-nos levar água para mais de 200 milhões de hectares. Não podemos depender da mesma estratégia. Olhe só o que vai acontecer: nos próximos tempos assistiremos a uma onda de reparação de barragens construídas há décadas atrás, cujas instalações têm uma duração limitada. E vamos ter de repará-las, sim, porque construir as novas custa caro e agora os lugares para as erguer são bem mais complicados. Além disso, não teremos como alimentar outras tantas barragens com essa rarefacção de água doce no planeta. A própria FAO estima que o patamar máximo de áreas irrigáveis não passará de 240 milhões de hectares nos próximos anos. É muito pouco. 42 P. O petróleo está mesmo no fim? R. É o que dizem os especialistas e isso tem a ver com a nossa mesa. As tecnologias agrícolas inventadas no século passado são muito utilizadoras de energia porque foram desenvolvidas numa época de petróleo barato. A mecanização da agricultura, a fabricação de fertilizantes e outros modos de produção dependem basicamente de energia. Hoje o preço mundial do petróleo atinge 90 USD por barril. A tendência de alta deve continuar e o impacto psicológico da cotação a romper o patamar dos 100 USD, já iminente, será bastante sensível. Gente mais jovem que eu verá o petróleo a 150 USD o barril. Isso tudo complica a vida dos 28 milhões de agricultores do mundo que dependem da mecanização do sector. Em contrapartida, cerca de 250 milhões de produtores rurais trabalham com energia animal e 1 bilião não têm nem animais nem tractores. Um bilião de produtores estão completamente à margem! Diante desse cenário, devemos nos perguntar: a agricultura, daqui para a frente, deve servir a produção de alimentos ou de energia? Veja que coincidência: 800 milhões de pessoas passam fome no planeta. E temos uma frota global de 600 milhões de automóveis e 200 milhões de camiões. O número é o mesmo: 800 milhões querem comida, 800 milhões querem combustível. E agora? P. Que aposta o senhor faz nos bio combustíveis? R. Não somos nada neste sector porque mal tomamos consciência do problema. O balanço energético revela fragilidades, a começar pelo facto de que ainda precisamos de um litro de petróleo para produzir três litros de bio combustível. O balanço territorial, esse então é uma aberração completa: em média, devemos reservar um hectare de terra para garantir o abastecimento de quatro ou cinco carros. Tentamos resolver o problema dos depósitos de gasolina oferecendolhes algo precioso para a dieta alimentar da humanidade, que é o cereal. Isso é uma loucura. A meu ver, o caminho mais aceitável é o do etanol brasileiro, feito da cana-de-açúcar. Mas, não posso deixar de me espantar: como é que um país como o Brasil, potência agrícola, ainda não consegue nutrir a sua população? 43 P. Por que aprova a opção brasileira pelo etanol? R. Parece ser a mais sensata. Quero deixar claro: sou absolutamente a favor dos bio combustíveis. Mas absolutamente contrário à utilização dos cereais para produção de etanol. Cereal é um alimento de base. Nós, aqui na Europa, estamos a investir alto na produção de bio diesel, como aquele que é feito a partir da colza (canola). Tais iniciativas não me parecem satisfatórias porque exigem grandes áreas para o cultivo, muita água para irrigação e mantém-se essa relação maluca, que é gastar um litro de petróleo para produzir três litros de bio combustível. Já a cana oferece uma relação melhor, e não me parece que vá faltar açúcar para alimentação. Como também acho que não vão acabar com as florestas brasileiras. P. Mas isso se debate no Brasil hoje. A plantação em larga escala de cana poderia deslocar o gado para a Amazónia, o que não seria bom. Ouve-se muito esse tipo de crítica. R. Não creio nisso. É inegável que o etanol brasileiro tem vantagens: vem de uma planta que cresce rapidamente, não exige preparação da terra, o que em si significa economia de combustível, e é aproveitada literalmente até ao bagaço. Além de ter muita terra cultivável, o Brasil é um país que possui superfície de reserva para agricultura. O grande problema da cana-de-açúcar brasileira é social. Como erguer um programa ambicioso de etanol com os trabalhadores no campo ganhando mal, sem preparo, sem recursos, sem direitos? P. Por que o senhor joga duro com a utilização dos cereais para a produção de bio combustível? R. Veja a política agrícola do governo Bush. Os EUA têm um stock de excedentes de milho e até por isso querem convertê-lo em etanol. Só que, para atender à própria procura de energia, vão consumir o milho que hoje é base da alimentação do México. E os mexicanos vão pagar mais caro pelo que comem! Parece óbvio que um país não pode resolver a sua procura energética provocando a 44 fome noutro país. Nesse sentido é que traço um cenário sombrio, no qual o carro do rico vai disputar “o alimento” com a mesa do pobre. P. Então ponha na balança: de um lado, a comida, de outro, o combustível. O que vai pesar mais na busca por sustentabilidade? R. É possível prever que, em 50 anos, a Europa possa ter reduzido em 10% sua produção agrícola. Seremos menos numerosos e é certo que podemos cortar um pouco da nossa dieta. Por outro lado, estaremos mal em termos de energia fóssil, portanto os bio combustíveis serão estratégicos. Imagino que os nossos campos terão de ser reservados para a produção de cereais e que tenhamos de sair atrás dos bio combustíveis dos países temperados, chamados de “segunda geração”, que não exigem tanta água nem tanta energia. Já a Ásia, apesar dos progressos feitos, em especial na China e no Vietname, terá de enfrentar um crescimento populacional que vai complicar as coisas. Mas o grande problema da humanidade é a África. A população africana actual, de 800 milhões, deverá dobrar em pouco tempo, apesar das guerras, da penúria e da sida. Hoje, na África negra, 40% da população sofre de uma fome que é crónica. O que acaba servindo de caldo de cultura para ideologias extremistas. P. E a América Latina? R. Vai se sair melhor porque não deve adicionalmente ter mais do que 400 milhões de pessoas no próximo meio século, tem reservas de superfície e de água, sobretudo o Brasil. Porém, será que o clima democrático que se vê hoje no continente será um factor de coesão social e de eficácia produtiva no futuro? A reposta está nas mãos de vocês. P. A discussão combustível versus comida pende para o ideológico? R. O importante é que nos apercebamos dos grandes jogos. Como vamos tirar da terra comida e energia em abundância? Será preciso pragmatismo e alguma modéstia para encarar esse desafio. 45 P. No seu livro, em vários momentos o senhor trata do “medo de não ter nada para comer”. Isso é típico dos franceses e dos seus vizinhos europeus? R. Quando falta comida, nenhum problema é maior do que “ter o que comer”. Mas, quando há comida, então aparecem 50 novos problemas na vida da gente: o medo de engordar, de se envenenar, de envelhecer, a culpa de comer muito quando tantos têm fome... Na Europa Ocidental, a última vez que se viu a cara da fome foi na 2ª Guerra e hoje a maioria da população não lida com tais lembranças. Mas lida com esses 50 novos problemas. Certamente o declínio da religião, numa Europa secularizada, deu lugar a outros tipos de injunções colectivas. Por exemplo: assim como há o “ecologicamente correcto”, há também o “corporalmente correcto”. Temos de emagrecer, malhar, exibir boa forma física se quisermos merecer o respeito dos outros. P. Apesar das penúrias do passado, a França é vista como terra da abundância, onde se come bem e onde o sector agro-alimentar ainda atrai o maior volume de divisas para o país. R. De fato, parece que o mundo vem para cá para aprender esse bem comer. A verdade é que os franceses são muito exigentes nessa matéria e as suas agro indústrias souberam tirar partido da uma cultura local, transformando-a em negócio. Claro que se persistir a ideia de usar trigo, milho ou arroz para fazer bio combustíveis, velhos medos podem reaparecer. Em termos históricos, somos mais informados sobre penúrias do que sobre abundâncias. Há um ditado que diz: o peixe não sabe que está na água até ser pescado. Quando uma geração vive na abundância, ela não enxerga o contrário. E passa o tempo todo a reclamar ou entretendo-se com a infelicidade dos outros. É desconcertante constatar que as pessoas não são mais felizes na abundância do que na luta pela sobrevivência. 46 P. Pelos critérios ocidentais, seria desejável que todo indivíduo possa comer pelo menos três vezes por dia. Teremos de repensar esse critério no futuro? R. De fato, o desejável seria oferecer a todos os habitantes do planeta a possibilidade de comer três vezes ao dia. Mas, comer o quê e em que quantidade? Guardamos no nosso corpo a memória de penúrias do passado, por isso tendemos a comer mais do que o necessário: mais açúcar, mais gordura, quando a nossa vida ficou mais sedentária. Daí a obesidade crescer de forma alarmante, especialmente nas classes médias. Em quase todos os países do globo, vê-se um aumento estrondoso dos gordos. É um problema em escala mundial, de certa forma tão sério quanto a fome. P. Por quê? R. A procura crescente por produtos de origem animal é muito alta - isso, no conjunto da humanidade. Consumindo tais produtos, sobrecarregamos a agricultura porque, como já disse, os animais comem como nós. Só que a taxa de transformação na indústria ainda deixa muito a desejar: grosso modo, precisamos de 4 quilos de cereais para ter 1 quilo de frango, ou 12 quilos de cereais para ter 1 quilo de carne bovina. A necessidade de fomentar culturas vegetais tornou-se a prioridade. Enfim, devemos desenvolver a agriculturas pelo mundo todo, e não apostar apenas nas mais produtivas, como a do Brasil ou da Austrália. P. A população planetária aumenta não só pelas taxas de natalidade, altas em várias partes, mas também pelo aumento da expectativa de vida. Quanto mais se vive, mais se come. Isso entra nos seus cálculos? R. Sem dúvida. Na Europa, ao longo de meio século ganhamos três meses de esperança de vida por ano. 50% das crianças que nascem hoje na França serão centenárias. Então, vejamos: um europeu nos anos 50 iria consumir cerca de 50 mil refeições no decorrer da vida. O europeu nascido agora consumirá 100 mil. Isso traz desafios imensos para a quantidade de alimentos a produzir. E também 47 para a qualidade do que se come, afinal, os nossos corpos estarão expostos por mais tempo a processos de acumulação de toxinas. Muitas doenças aparecem quando o sujeito já fez umas 80 mil refeições. Antes não deveríamos nos preocupar com isso, agora temos. Não bastassem todos os desafios pela frente, a preocupação com a segurança e a pureza dos alimentos ainda vai nos atormentar muito. 3. PENÚRIA ALIMENTAR Século XXI será de penúria alimentara . O economista Bruno Paramentei diz que é preciso uma revolução para inverter a actual situação de crise mundial que faz subir o preço dos produtos alimentares. Crítico da produção de bio combustíveis de cereais e de oleaginosas, Parmentier afirma que a continuidade da produção vai converter-se em crimes. Georges Gobet, 25 de Abril de 2008, FrancePresse Tradução de Clara Allain Autor de um livro que faz barulho na Europa por dizer que o século 21 será uma era de penúria alimentar, o economista Bruno Parmentier diz que vai ser necessária uma revolução para inverter a actual crise mundial: na agricultura, no comércio, nos hábitos alimentares. Director da Escola Superior de Agricultura de Angers (ESA), a mais importante do sector em França, Parmentier critica as organizações internacionais que passaram anos a desestimular a produção agrícola e os bio combustíveis, mas isenta a produção de álcool no Brasil. Em entrevista à Folha, o autor de ‘Nourrir l’Humanité’ (Alimentar a humanidade) defendeu os subsídios aos produtores, disse que foi um ‘erro histórico’ confiar a negociação agrícola à OMC (Organização Mundial do Comércio) e questionou a ‘ contradição do Brasil, que se torna um grande exportador de alimentos, mas não consegue erradicar a fome. 48 Vejam-se trechos da entrevista, feita por email FOLHA- Teria sido possível evitar a crise actual? Resposta de BRUNO PARMENTIER - Com certeza. No meu livro, explico que o século XXI será de penúria alimentar. Por vários motivos. O esgotamento dos recursos naturais faz com que a revolução agrícola dos anos 1960, que usa muita terra, água e energia, não possa ser levada adiante num período de escassez. A química já deu à agricultura tudo o que podia no século XX, com os fertilizantes, os fungicidas, os insecticidas e os herbicidas. Hoje ela custa muito caro em termos de energia e acabou por poluir o solo e as águas. Em matéria agrícola, o século da química está a chegar ao fim e é preciso activar e desenvolver o da biologia. Só em 2007 o aquecimento global e as suas consequências para a agricultura passaram ao primeiro plano das preocupações globais. Será que a Austrália está a viver uma sucessão de azares com as suas estiagens repetidas, ou estará o fenómeno a tornar-se definitivo? A elevação acelerada do nível de vida nos países asiáticos industrializados provocou um enriquecimento dos hábitos alimentares, com a passagem para uma alimentação à base de produtos animais -carne na China e derivados do leite na Índia. A pressão que essas populações exercem sobre os recursos do planeta acentua-se rapidamente. O problema energético mundial já passou para o primeiro plano de maneira duradoura. Ele afecta a agricultura por duas vias: por um lado, porque a revolução tecnológica anterior era altamente consumidora de energia. Em segundo, porque se passou a exigir da agricultura que ela preencha os pratos e os tanques dos automóveis. É importante acabar imediatamente com esse erro histórico: não temos cereais e oleaginosas suficientes e queimá-los torna-se um crime. Destruímos sistematicamente todos os programas de apoio à agricultura produtora de alimentos em todo o mundo. O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional chegaram a impor essa via da redução alimentar como condição para a concessão de sua ajuda aos países endividados, incentivando-os apenas a produzir culturas industriais que lhes permitiriam obter nos mercados internacionais divisas para pagarem a sua dívida externa. FOLHA - É possível travar a alta dos preços de alimentos? 49 PARMENTIER - Sim, podemos sair desta crise, mas ela vai durar muito tempo. O Banco Mundial admitiu que se engana desde há 20 anos e que precisa fazer uma revisão completa de suas políticas para, a partir de agora, privilegiar o desenvolvimento da pequena agricultura alimentar. Isso pode produzir resultados, mas apenas dentro de vários anos – pelo menos entre cinco e dez. FOLHA - Qual é o impacto dos bio combustíveis nos preços dos alimentos? PARMENTIER - Para mim, até hoje o único impacto real e comprovado é o dos bio combustíveis norte-americanos à base de milho, que desde o início de 2007 provocaram um verdadeiro choque no México, quando o preço da tortilha teve um aumento de 50%. Mas, se continuarmos com essa política insensata de queimar cereais ou oleaginosos nos nossos motores, esse erro inicial dos agro combustíveis de primeira geração vai de fato converter-se em crime. FOLHA- E o álcool produzido no Brasil? PARMENTIER - Existe uma diferença essencial: no Brasil vocês já estão de certo modo nos bio combustíveis de segunda geração, ou seja, feitos a partir da planta inteira, a biomassa – logo, não a partir do grão. Me parece que vocês estão a indicar o caminho a seguir, e, é claro, a vossa produtividade é bem melhor que a nossa. Em contrapartida, observo que o Brasil, grande país agrícola, fortemente exportador, não consegue alimentar correctamente a sua própria população. O Brasil terá que resolver essa contradição: alimenta países muito distantes, enche muitos tanques de combustível, mas ainda há milhões de brasileiros que têm fome. FOLHA - Um acordo na Ronda de Doha poderia ajudar a resolver o problema, ao facilitar as relações comerciais? PARMENTIER - Nesse ponto, sou radical: o facto de a responsabilidade pela agricultura e a alimentação mundial ter sido tirada à FAO (Organização da ONU para Alimentação e Agricultura) para ser confiada a uma assembleia de 50 comerciantes, a OMC, é um erro histórico. Esta crise nos permite ver muito bem que os comerciantes são totalmente incapazes de resolver o problema da fome no mundo. Acreditar que comerciantes vão levar a povoados no fim do mundo produtos agrícolas que pesam muito, que apodrecem facilmente, para dá-los a pessoas que não têm dinheiro, é uma fraude intelectual. Não se pode alimentar a humanidade com os excedentes de produção de alguns países. Se o Brasil pode alimentar 50, 100 ou 150 milhões de pessoas além de sua própria população, tanto melhor - é um serviço verdadeiro que prestará à humanidade, e será bom para ele, que, de passagem, se enriquecerá. Mas estamos a falar hoje em 850 milhões de pessoas que passam fome, e muito provavelmente de outros 50, 100 ou 150 milhões a mais até ao final de 2008, sendo que a população mundial aumenta em 80 milhões de pessoas a cada ano. Não compreendo como é que as pessoas que raciocinam possam imaginar que esse comércio vá evitar as revoltas provocadas pela fome. Vejam o primeiro reflexo da acção dos grandes países exportadores de arroz que fecharam suas fronteiras e proibiram as exportações, para garantir a alimentação de suas próprias populações. No século XXI, depender de outros países para se alimentar é fazer uma aposta num futuro extremamente perigoso. É preciso reavaliar por completo a organização da agricultura mundial. Não há nada mais urgente que fechar as fronteiras, e organizar, nos países que têm fome, a mesma política que deu certo nos grandes países povoados que conseguiram alimentar- se, como os Estados Unidos, Europa e a China: fechar as fronteiras para proteger sua agricultura e dar apoio maciço a seu desenvolvimento. Mas isso não deve preocupar o Brasil: ele ainda terá por muito tempo compradores para seus produtos, pois vamos viver um período prolongado de penúria. FOLHA - Quais são as maiores ameaças à segurança alimentar? PARMENTIER - Estamos a chegar aos limites dos recursos do planeta, 51 tudo o que antes era abundante torna-se limitado. É preciso saber produzir com menos e parar de degradar o clima. O outro desafio é o de encontrar políticas de desenvolvimento da agricultura numa grande parte do planeta onde pura e simplesmente se parou de dar trabalho a camponeses. FOLHA - Os subsídios dos países ricos aos seus produtores contribuem para a alta dos preços de alimentos, como diz o presidente Lula? PARMENTIER - Não creio que as subvenções agrícolas realmente causem a insegurança alimentar. O problema é que apenas os países ricos têm condições de pagar uma verdadeira segurança alimentar. Mas pensar que os países mais pobres conseguirão exportar a sua produção agrícola para a Europa e para os Estados Unidos se todas as fronteiras forem abertas parece - me um engodo intelectual: eles não têm excedentes, e, quando produzem, a sua produtividade é muito menor. A solução é exactamente o inverso: é preciso generalizar a protecção da agricultura produtora de alimentos e a subvenção a essa agricultura. FOLHA - Estamo-nos a dirigir para uma mudança nos hábitos alimentares mundiais? PARMENTIER - Com certeza. É urgente acelerar o processo de transição alimentar. Dos 6,655 biliões de habitantes do planeta, 887 milhões são subnutridos e 1,12 bilião têm excesso de peso. Isso faz sentido? É preciso que os ricos comam menos carne e açúcar, mas também que centenas de milhões de pobres possam comer carne e açúcar de vez em quando. Produziremos mais, no total, no planeta, mas a divisão do que se produz acabará sendo melhor para a saúde de todos. Isso é de nosso interesse colectivo, é claro. Mas, além dessa mudança de hábitos alimentares, é preciso parar de desperdiçar. Como é possível que cause alegria no seu país, por exemplo, a abertura de restaurantes em que se paga um preço fixo ao entrar e a comida é ilimitada? Isso é provavelmente algo que tem suas raízes na cultura brasileira, mas que não corresponde de modo algum às exigências e aos desafios do século XXI. 52 PARTE III EPÍLOGO PARA UMA SEGURANÇA ALIMENTAR MUNDIAL As iniciativas tomadas para lutar contra a fome no mundo não devem terminar por criar novos desequilíbrios entre o Norte e o Sul. Aquando da sessão inaugural da Conferência de alto nível sobre a segurança alimentar em Roma a 3 de Junho, afirmei que “a solução estrutural para o problema da segurança alimentar no mundo, é o crescimento da produtividade e da produção nos países de baixos rendimento e de défice alimentar. Isto supõe soluções inovadoras e imaginativas. Será necessário desenvolver acordos de parceria entre, por um lado, os países que têm recursos financeiros e, por outro lado, os que têm terras, a água e os recursos humanos. Somente assim será possível assegurar relações internacionais equilibradas para um desenvolvimento agrícola sustentável”. É necessário reconhecer, com satisfação, que numerosas iniciativas têm sido tomadas recentemente neste sentido na América Latina, África, Ásia e na Europa de Leste, mas as modalidades da sua aplicação, em certos casos, são um motivo evidente de preocupação e exigem a adopção rápida de correcções adequadas. Com efeito, certas negociações conduziram a relações internacionais desequilibradas e no sentido de uma agricultura mercantil de curto prazo. O objectivo deveria ser a criação de sociedades mistas na qual cada parte traria uma contribuição em função da sua vantagem comparativa. Uma asseguraria o 53 financiamento, a capacidade de gestão e a garantia de um mercado para as produções. O outro forneceria as terras, a água e a mão-de-obra. As complementaridades na avaliação técnica, económica, contabilística, fiscal e jurídica bem como o conhecimento do ambiente ecológico, social e cultural constituiriam a base sólida de uma partilha dos riscos e dos benefícios numa cooperação de longa duração. O que se constata, contudo, é uma propensão à apropriação por uma das partes do que teria devido ser o contributo do outro parceiro. Compra de terras e de arrendamentos de longo prazo parece ter sido a preferência dos investidores estrangeiros. Mesmo em certos países onde a terra é um bem como qualquer outro, objecto de troca e de especulação ou refúgio contra a erosão monetária, as reivindicações e protestos dos trabalhadores agrícolas e das populações indígenas não são raras. Noutros casos, a apropriação e a distribuição das terras são fontes de conflitos latentes. Se acrescentarmos o valor emocional, ou mesmo místico, do que é um dos fundamentos da soberania nacional, imagina-se facilmente os riscos de explosão social quando esta soberania cai nas mãos de estrangeiros. Ora este problema é real à escala planetária se tivermos em conta a importância dos fundos especulativos (hedge funds) e o aumento do custo das terras num mundo que, daqui até 2050, deveria duplicar a sua produção para fazer face nomeadamente ao crescimento da população mundial e à procura dos países emergentes. A exploração dos recursos naturais com a única preocupação da rentabilidade financeira não é propícia ao tipo de produção que preserva a existências minerais e orgânicos das terras ou impede as queimadas e gera a desflorestação. Também não permite a utilização judiciosa dos adubos e dos pesticidas para evitar as poluições. Pacto neocolonial Não incentiva nem a coexistência entre “lavoura e pastorícia” nem a rotação das culturas propícia à luta biológica e às restituições dos elementos nutritivos gastos pelas plantas. Corre-se o risco de provocar a emergência 54 de um pacto neocolonial para o fornecimento de matérias primas sem valor acrescentado nos países produtores e com condições de trabalho inaceitáveis para os trabalhadores agrícolas. Convém por conseguinte evitar um mau uso de uma boa ideia. Estes investimentos estrangeiros directos na agricultura deveriam permitir gerar empregos, rendimentos e alimentos, favorecendo ao mesmo tempo a amizade entre os povos. É por isso que a FAO se empenhou numa reflexão sobre as condições de sucessos de parcerias internacionais na produção alimentar. Que garantias para ambas as partes, que factores motivadores? Que quadro jurídico? Que condições de produção, comercialização e transformação dos produtos? Que contrato social para os trabalhadores? Que benefícios económicos para os Estados, para os pequenos agricultores e para o sector privado? Tratar-se-á de responder à estas questões, após uma reflexão interdisciplinar interna e das consultas de peritos nos centros de excelência sobre estas questões, para organizar uma discussão intergovernamental no fórum neutro que é a FAO. A adopção, por consenso, de um quadro referencial internacional permitiria assim evitar os problemas que se perfilam no horizonte da segurança alimentar mundial e de aproveitar, com o sentido de equilíbrio, as oportunidades da procura agrícola crescente. “Governar é prever”, tanto no plano nacional como no plano internacional. Jacques Diouf, Pour une sécurité alimentaire mondiale, Paris, Setembro, 2008. 55 Ciclo Integrado de Cinema, Debates e Colóquios na FEUC DOC TAGV / FEUC 2008 - 2009 Economia Global, Mercadorização e Interesses Colectivos Textos seleccionados, traduzidos e organizados por: Júlio Mota, Luís Peres Lopes e Margarida Antunes A Comissão Organizadora agradece a colaboração de António Gama (FLUC) e Teresa Santos Ciclo organizado pelos docentes da disciplina de Economia Internacional da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra Colaboração do Núcleo de Estudantes de Economia da Associação Académica de Coimbra Apoio da Coordenação do Núcleo de Economia da FEUC Com o apoio das instituições: Reitoria da Universidade de Coimbra Teatro Académico de Gil Vicente Caixa Geral de Depósitos