Universidade Estadual de Maringá
29 de Junho a 02 julho de 2015
ISSN 2236-1855
DE CASA À ESCOLA: A EDUCAÇÃO E OS COFLITOS INTERCULTURAIS
NA FORMAÇÃO DO MENINO ALFREDO
Maria do Socorro Pereira Lima (UFPA)1
[email protected]
Laura Maria Araújo Alves (UFPA)2
[email protected]
Introdução
O artigo teve como objetivo compreender os conflitos interculturais do personagem
Alfredo em Vila de Cachoeira, bem como refletir sobre o seu ponto de vista sobre a educação
desse lugar que o motivam querer fugir para estudar na cidade de Belém para ascender
socialmente.
Este artigo faz parte de uma pesquisa histórico-literária que analisa a infância e a
criança na literatura produzida na Amazônia paraense, tendo como fonte de análise duas obras
literárias, sendo que o romance Chove nos campos de Cachoeira é uma dessas obras.
O objeto de pesquisa está inserido no campo temático da história social da infância na
Amazônia, fundamentada na concepção de infância enquanto construção histórica, definindo
de diferentes formas e em diferentes sociedades, feita, portanto, de “singularidades a partir
das transformações sociais, de seus códigos de classes de idade, associada a um sistema de
status e papel” (KUHLMANN JR., 1998, p. 16).
No interior desse campo temático, o conceito de representação na perspectiva de
Roger Chartier é tido como o mais apropriado para a compreensão desse objeto que aceita a
literatura como “instrumento de um conhecimento mediador que faz ver um objeto ausente
através da substituição por uma imagem capaz de reconstituí-lo em memória e de figurá-lo
como ele é” (CARTIER, 1990, p. 20).
Desse modo, para o alcance do objetivo central, a discussão atravessa pelo ponto de
vista do narrador sobre os aspectos que giram em tono do personagem Alfredo, sua vida na
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Doutoranda do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Ciências da Educação –ICED/UFPA, da linha de
pesquisa Educação, Cultura e Sociedade.
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Professora Drª do Programa de Pós-Graduação do Instituto de Ciências da Educação –ICED/UFPA, da linha de
pesquisa Educação, Cultura e Sociedade.
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Vila de Cachoeira, as questões que interferem no deslocamento do personagem para a ideia
fixa de querer sair do lugar e ir estudar na cidade de Belém.
A obra Chove nos campos de Cachoeira é um romance moderno que ganhou o
primeiro lugar no concurso Vecchi Dom Casmurro de Literatura, em 1940, tendo sua primeira
edição publicada em 1941 pela mesma editora.
Chove nos campos de Cachoeira
Chove nos Campos de Cachoeira é um romance moderno escrito pelo paraense
Dalcídio Jurandir, entre os anos de 1929 a 1939, com memória deslocada para as duas
décadas iniciais do século XX, quando já se instalava no estado do Pará a crise na produção
gomífera. O escritor ambienta seus personagens na Vila de Cachoeira do Ararí, no
arquipélago marajoara, onde ele nasceu e viveu até os doze anos.
De um modo geral a obra denuncia a miséria em que vive os moradores da Vila de
Cachoeira, onde a falta de infraestrutura básica, as péssimas condições de atendimento à
saúde pública, a proliferação de doenças, a fome e a péssima qualidade da educação fazem do
espaço um caos em plena e exuberante Amazônia.
Uma Amazônia derruída, sem perspectivas, atônita após a derrocada de um
ciclo econômico que ergueu palácios, teatros, palacetes; que deu ares
europeus às altas temperaturas locais. Enfim, uma Amazônia nada
misteriosa, uma região específica, obviamente com suas singularidades, mas
na qual se cumpriu um ciclo cuja queda revelou-nos a fragilidade de nosso
sistema de produção da borracha (MARLI FURTADO, 2002, p.12).
A impressão passada por Marli Furtado sobre o contexto histórico e político da obra
não se difere das imagens dos personagens que são igualmente derruídos pela falta de
perspectiva de uma vida melhor na Vila de Cachoeira. As identificações desses personagens
estão relacionadas aos grupos familiares a que cada pertence.
Da população que transita na narrativa, as crianças se destacam como a imagem do
descaso público, pois, no início do século XX, a história aponta o quanto se investiu na
infância brasileira, tanto na saúde como na educação das crianças, a lembrar das ações dos
médicos higienistas, das construções de grupos escolares, institutos e asilos para abrigar
crianças órfãs e desvalidas (RIZZINI, 2008).
As características verossímeis desses personagens apontam para o pensamento de
Umberto Eco (1994, p. 24) sobre “[...] a obra de ficção nos encerra nas fronteiras de seu
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mundo e, de uma forma ou de outra, nos faz levar a sério”. Nesse sentido, a obra nos propõe
várias reflexões sobre a sociedade da Vila de Cachoeira que vive numa Amazônia totalmente
contrastante ao imaginário que dela se faz quando associada à exuberância dos rios, da fauna
e das florestas.
Na obra, as crianças são sujeitos oriundos de famílias desestruturadas, que lutam
diariamente para sobreviverem à fome e desviarem todos os dias da morte que sonda a vida
das pessoas, pela proliferação de doenças que acometem principalmente a população infantil,
sem falar que nas crianças pedintes, ou na falta de sobras de comidas, matavam passarinhos
para comê-los assados. Representam, portanto, uma infância distinta daquela que na Belle
Époque ganhou tanto valor na sociedade moderna.
Chove nos campos de Cachoeira é narrado em vinte capítulos, por um narrador em
terceira pessoa que muito se utiliza do discurso indireto livre e do monólogo interior,
conferindo densidade psicológica às personagens. O narrador usa como fio condutor dois
personagens um adulto (Eutanázio) e um infantil (Alfredo). A presença desses dois
protagonistas oscila por toda a narrativa. Várias histórias perpassam aos olhos desses dois
personagens envolvidos com questões e conflitos existências, medos, sonhos, desilusões. No
decorrer da narrativa, a jornada do menino em busca de uma educação de qualidade na cidade
de Belém do Pará, ganha destaque.
Na perspectiva de que a infância está intimamente ligada ao contexto histórico,
geográfico, econômico e cultural e de classes nas sociedades, este artigo objetiva discutir os
problemas que afetam a identidade do personagem Alfredo, com destaque para a educação
formal como uma porta de entrada a um mundo longe de Cachoeira.
Alfredo e sua conflituosa infância
Segundo Bachelard (1996), a infância é um estágio da vida, no qual se pode conhecer
a solidão e o silêncio, elementos que ajudam na descida ao fundo de nós mesmos, em “nossa
vida primitiva”. Na infância, segundo esse autor, a criança também pode conhecer a
infelicidade pelos interditos dos adultos, visto que os primeiros anos de infância deixam
marcas indeléveis.
Talvez o estudo de Bachelard sobre a infância nos ajude a compreender os conflitos
identitários do personagem Alfredo, que vive em constante estado de recolhimento da
realidade dos homens comuns que habitam o romance Chove nos campos de Cachoeira.
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Alfredo é um menino inteligente e de espírito questionador, mas solitário e
amargurado com a vida. Uma das coisas que o incomoda é o fato de ele ser filho de um
homem branco, o Major Alberto e Dona Amélia, que além de negra não era casada com o
Major e por isso, temia que ela fosse confundida com “as moças da rua da Palha”, onde
residia a prostituta do romance. Envergonhava-se, portanto, da condição da mãe que além de
negra não tinha estudo como o pai.
Os problemas de Alfredo não se limitam à sua identidade materna, sente-se também
diferente e inferior das outras crianças porque ele sofre de paludismo, tem marcas de feridas
nas pernas, mas que, contraditoriamente, se sente superior às crianças pobres que pediam
sobras de comida na porta do chalé, onde ele mora com a família. Enfim, Alfredo tinha
dificuldade de se incluir em sua própria família e em algum grupo de moradores de
Cachoeira, apesar de ser um menino que não precisasse pedir esmolas como os outros
meninos sujos de pé no chão que matavam a fome comendo passarinhos assados.
A situação de Alfredo, no decorrer do romance se agrava, ao ponto de ele criar um
mundo imaginário de faz-de-conta que o desloca para o sonho de querer fugir do lugar e
estudar na cidade de Belém, cidade que ele imagina ser a mais linda, onde ele encontraria a
educação de qualidade que não tinha na Vila de Cachoeira e assim ascender socialmente.
Diante da situação que só lhe causava sofrimento, Alfredo tem como válvula de escape
um caroço de tucumã com quem brinca de estar no lugar dos sonhos, de estudar numa escola
de qualidade, enfim o caroço levava o menino para mundo totalmente diferente do mundo
real.
E Alfredo, maravilhado, contemplava o clarão na grande noite nos campos.
Ali estava todo o seu sonho da cidade de bondes elétricos, arraial de Nazaré,
largo da Pólvora, as lojas de brinquedos, a Torre de Malakof, das senhas
vermelhas. Aquele clarão chamava-o. Era o seu sonho de viagens
(JURANDIR, 1941, p. 130).
A citação descreve o plano de fuga do menino que era ir ao encontro do ausente em
Cachoeira. O menino queria fugir do paludismo, das marcas das feridas que o incomodavam
que o faziam se sentir inferior aos meninos de pernas limpas e de representantes de herdeiros
da riqueza como os meninos Tales de Mileto e Jamilo.
Entender esse personagem e concordar que crianças são sujeitos sociais e históricos,
marcadas, portanto, pelas contradições das sociedades em que estão inseridas (KHULMANN
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JR., 2004). Essa concepção é que nos leva a compreender a instabilidade de Alfredo que não
consegue se aceitar e nem se afeiçoar à sua gente, à sua cultura, à sua bondosa mãe que limpa
sua feridas, lhe salvara do afogamento no poço ou simplesmente por ser sua mãe, já que o pai
não largava os catálogos, livros e revistas que mandava buscar em Belém.
O menino, entre a casa e a escola, alimenta o sonho de romper com esse destino
indefinido e alterar o seu futuro na busca de imagens como as que são veiculadas pelos meios
de comunicação de massa, como as revistas, os jornais e os catálogos do personagem Major
Alberto, o seu instruído pai, e também por meio das narrativas das viagens realizadas por
outros personagens à cidade de Belém, narrativas sempre atravessadas por certa atmosfera de
maravilhoso.
Quero sair daqui! Quero estudar! Simplifica o sonho do menino que, por um lado se
sente inferior e por outro lado demonstra atitudes nada humildes quando declara que não
gosta das crianças pobres, dos meninos febrentos, que pedem esmolas, que “eram
amarelinhos, barrigudos, pedinchões”.
A formação educacional de Alfredo
A obra Chove nos campos de Cachoeira tem certo tom de denúncia posto que o autor
coloca em questão os problemas sociais graves que alteram o modo de vida do povo
ribeirinho que habita a fictícia Vila de Cachoeira, na ilha do Marajó. Nesse lugar, tudo é
contrastante ao período áureo da borracha que colocou a capital do Pará no topo da melhor
economia da sua história, nos finais do século XIX até por volta da primeira década do século
XX. Cachoeira está retratada nos anos 20, onde a crise da borracha afetava profundamente a
vida das pessoas e principalmente dos que, àquela época, habitavam nas ilhas aonde os
investimentos sequer chegaram no tempo da borracha. Em Cachoeira, a pobreza afeta a alma
e o corpo dos personagens, tornando-os emblemáticos.
Alfredo é um desses personagens emblemáticos, mas que consegue enxergar uma
saída para o mundo dos sonhos. Para ele, a educação o levará para longe de Cachoeira,
segundo o narrador.
De espírito questionador, Alfredo vê na educação ofertada em Cachoeira o atraso, a
falta de preparo dos professores, as condições precárias da escola, enfim, totalmente distante
de tudo o que se possa pensar como educação de qualidade.
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“Que desânimo para Alfredo aquela escola do seu Proença” - anuncia o narrador no
capítulo “Caroço de tucumã” , que, por sinal, o menino tinha o tal caroço como amuleto
para se imaginar fora de Cachoeira. O seu Proença é definido pelo narrador como um homem
com um perfil de louco, cínico, gritava, dava gargalhadas, possuía olhos vidrados, ásperos e
ferozes que ficavam observando Flor lendo o “Tico-Tico” para os alunos.
Uma tarde, foi nos primeiros tempos de escola, Alfredo foi posto nu pelo seu Proença,
como afirma o narrador.
Uma tarde, foi nos primeiros tempos de escola, ele foi posto nu pelo Proença
[...] mas Flor, Flor, olha o pipi dele. O pipi Flor! [...] Era diante dos alunos.
[...]. E então Alfredo via nos olhos já definidos de Flor uma censura azul que
era para o menino qualquer coisa de humilhante, de cínico, de pior do que o
riso, o olhar, os gritos de Proença (JURANDIR, 1941, p.187).
Práticas dessa natureza eram comuns na escola do seu Proença. Além dessas
humilhações que as crianças sofriam, Alfredo questionava o método usado por seu Proença
em que castigos e atitudes como as descritas no excerto, talvez fossem os menos dolorosos
fisicamente, porque seu Proença ainda costumava deixar os alunos de joelhos e batia com
palmatória nas mãos das crianças.
Era preciso sair daquela escola do seu Proença, da tabuada, do argumento
aos sábados, da eterna ameaça da palmatória embora nunca tenha apanhado,
daqueles bancos duros e daqueles colegas vadios que todo dia apanham e
ficam de joelhos, daquela D. Flor (JURANDIR, 1941, p. 110-111).
Decorrente dessas ações “disciplinares”, Alfredo não via qualidade na educação
oferecida na Vila de Cachoeira, o que procede a percepção negativa do menino em relação a
esse espaço. No caminho de casa à escola todas as tardes, Alfredo “sentia uma preguiça, um
tédio, um desalento”. Tudo fazia com que Alfredo se “encharcasse de sonho, de
imaginações” (JURANDIR, 1941, p. 187). Sem qualquer motivação que viesse da escola,
Alfredo sonhava em sair de Cachoeira.
A escola do seu Proença é onde Alfredo teve sua primeira experiência como aluno de
uma instituição escolar, já que em sua casa tinha o acesso às leitura do pai, ouvia história
contadas por seu irmão Eutanázio e escutava as leituras dos livros que o seu Salú lia na sua
venda.
A educação na escola do seu Proença não se comparava aos grupos escolares que
foram implementados nos anos finais do século XIX e expandidos no início do século XX em
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vários municípios do Pará, sendo que na região do Marajó, o município de Muaná, foi um dos
municípios contemplado com a construção de um dos mais de trinta e seis grupos espalhados
por todo o estado na gestão do governador Augusto Montenegro (1901-1909).
Segundo Coelho (2009), as construções dos grupos escolares em Belém e nos
municípios do interior seguiam a mesma premissa da visibilidade do grupo José Veríssimo, o
primeiro grupo escolar inaugurado em 1900. Ou seja, os grupos deveriam ser vistos e
percebidos como um lugar apropriado para a educação, onde deveriam ser observadas todas
as exigências da higiene e da moderna pedagogia. Entretanto, essa premissa não se observa
nas escolas de Cachoeira, que funcionavam na casa dos professores, segundo pistas dadas
pelo narrador.
Torna-se importante ressaltar, como base na relação obra – autor, que Dalcídio
Jurandir, além de literato, foi jornalista e teve atuação significativa na área educacional como
inspetor de ensino e como secretário da Revista Escola, órgão do professorado estadual. Com
esse envolvimento, suas percepções do universo escolar são visíveis no seu registro literário
de uma modo geral e não só em Chove nos campos de Cachoeira, sem falar que esse tema
ocupa muito espaço nas obras, cujo tema é narrado a partir do ponto de vista do personagem
Alfredo na condução do narrador. Isso, portanto, influencia nos detalhes da sua escrita, que
faz o leitor compreender que a literatura desse escritor provoca inquietações, traduz
possibilidade, nos leva a ter “[...] o acesso à sintonia fina ao clima da época, o modo pelo qual
as pessoas pensavam o mundo, a si próprias, quais valores que giravam os seus passos, quais
os preconceitos, medos e sonhos [...]” (PESAVENTO, 2005, p. 28).
As inquietações de Alfredo com o ambiente escolar onde ele e as outras as crianças de
Cachoeira estudavam, os questionamentos sobre método de ensino, a utilidade do saber
institucionalizado e as referências ao sonho de educar-se para ascender socialmente, surgem
como discussões que possibilitam observar alguns dos conflitos e antagonismos no processo
de conformação social na fictícia Vila.
O contexto educacional retratado em Cachoeira está situado entre os anos 20 a 30, um
período marcado por uma série de acontecimentos intelectuais, culturais e políticos nos quais
sobressai a tensão entre a realidade agro - exportadora brasileira e as novas demandas de um
capitalismo urbano-industrial que se consolidava no Brasil e que interferiram na estrutura
educacional do país.
Segundo Romanelli,
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Essas emergentes questões político econômicas colocam em cheque certos
aspectos da estrutura educacional brasileira, destacando-se o número
insuficiente de escolas nas regiões rurais, os métodos de ensino baseados no
enciclopedismo e na generalidade dos conteúdos, a desarticulação entre os
saberes difundidos na escola e as necessidades do mundo do trabalho
(ROMANELLI, 1998, p. 94).
As questões apontadas nesse excerto podem ser reforçadas pelas percepções do
próprio Dalcídio sobre o que compreendia sobre o modelo de educação escolar no período
em que ele atuava na área, como expressado em artigo escrito na Revista Escola, em 1935.
A primeira coisa que se ensina á creança é o dever com a lettra grande. Mas
dever? Sim, um dever que é a ferrugem deprimindo, corroendo e destruindo
o vigor, a alegria e a saúde das creanças e dos adolescentes. O que se deve
fazer da creança é uma criatura humana. A educação não tem sido mais do
que um processo policial. Policiar é sempre mais fácil do que educar. Por
que educar é exigir a pensar e Anatole France dizia que muita gente não
gostava do Hamleto porque o merencoreo príncipe obrigava a pensar [...].
Educar é construir e hoje o processo é destruir e conservar em poeira, as
raridades inúteis ou ferozes como o Dogma, o Preconceito, o ensino
religioso e o collarinho de pontas viradas [...] (ESCOLA, 1935, p. 43).
Grande parte do que o artigo descreve recai no modelo de escola do seu Proença, onde
as crianças de Cachoeira estudavam. Como a escola funcionava na casa desse professor, a
ideia que passa e de se tratar de uma das escolas isoladas3 cujo governo republicano queria
eliminar para deixar somente os grupos escolares funcionando, o que aconteceu em muitos
municípios. Entretanto, esse modelo de escola ainda continuou funcionando em várias
localidades do interior paraense4, à época. Elas funcionavam numa casa alugada, onde apenas
um professor ministrava aula para alunos de diferentes idades e avanços também distintos.
Não está claro na obra, mas a escola do seu Proença passa essa ideia, pois não há
detalhes sobre a descrição física dessa escola e nem se funcionava em outros turnos além do
turno da tarde que Alfredo estudava, mas como os membros da família do professor, como é
3
O programa das escolas isoladas era composto pelo ensino de leitura, escrita, língua nacional, aritmética e
cálculo mental, de rudimentos de geografia e história pátria, da educação social e doméstica, de noções gerais
sobre higiene e profilaxia, canto e desenho, além de proporcionar ensino profissional, ao incluir estudos
elementares de agricultura e aprendizado dos ofícios mais comuns ao local de cada escola (PARÁ, 1929). 3.
4
Segundo relatório apresentado ao senhor Presidente da República, pelo coronel Joaquim de Magalhães
Cardoso Barata – interventor federal (1944), até 1940, foram construídos trinta grupos escolares nas sedes dos
municípios do interior e dezesseis na cidade de Belém. Além desses grupos, ainda ficaram funcionando 250
escolas isoladas nas sedes dos municípios.
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o caso da Flor, sua enteada, presenciava as humilhações sofridas pelas crianças, é possível
que realmente se trate de uma das escolas isolada que restaram após o projeto de
implementação dos grupos escolares.
Dalcídio Jurandir considerava que a escola constituía espaço elevado de formação,
tanto na aquisição de conhecimentos quanto na formação de hábitos e valores, porém, via um
problema nesses preceitos em relação à realidade onde eles atuariam, como afirma:
[...] Não devemos manter o antagonismo entre a escola e o meio, a educação
e a vida. O problema educacional está ligado ao problema da miséria, da
fome, da pauperização das massas e da proletarização das populações
urbanas e rurais (A ESCOLA, 1935, p. 42).
Na citação, Dalcídio reforça que a instituição se encontrava sob o domínio de preceitos
e normatizações que a afastavam da realidade social, como seria o caso da escola do seu
Proença onde a educação era concebida como método disciplinar rigoroso e práticas de
humilhações às crianças.
Essas situações observadas por Alfredo o desmotivava e o impulsionada a sair do
lugar, que agregadas aos seus problemas interculturais, de não aceitar ser mestiço, mas ao
mesmo tempo não gostava de ser chamado de branco pelo menino Henrique, mas,
[...] - Não morava num chalé de madeira, assoalhado e alto? Era filho do
Major Alberto, tinha sapatos. Alfredo não comia passarinhos balados.
Quantas vezes Henrique não matou a fome com passarinhos de espeto?
(JURANDIR, 1941, p. 19).
Alfredo queria estudar, queria sair daquele lugar de qualquer jeito, e durante toda a
narrativa mostrou-se alucinado por esse desejo, se embebeu em sonho que foi a fuga que irá
acontecer com a ajuda da Dona Amélia, sua mãe. Porém, esse sonho só será materializado na
obra “Três casas e um rio”, que Dalcídio Jurandir escreveu após Chove nos campos de
Cachoeira.
Considerações finais
O objetivo de compreender os conflitos do personagem Alfredo e a sua visão de
educação como porta de entrada para um novo mundo distante da pobreza de Vila de
Cachoeira, nos faz refletir sobre a capacidade em o poder de mando que uma criança pode
demonstrar quando vê o mundo diferente de uma pessoa adulta.
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De acordo com as representações de infância que aparecem na obra, observamos que
Alfredo é uma criança que se diferencia das outras em vários aspectos que podem justificar o
seu comportamento em relação ao mundo que ele enxerga por lentes próprias, em que a
palavra conformação não faz parte do seu repertório comunicativo.
O olhar do menino para a realidade impregnada de miséria é o olhar do escritor para a
sua realidade onde a desigualdade social o impedia de realizar seus projetos, que também
seguiu passos semelhantes aos do personagem que queria estudar em Belém e ser reconhecido
como escritor, o que aconteceu.
Todavia, o personagem Alfredo talvez por influência do pai, o Major Alberto, ele
tenha se tornado um sujeito ambicioso e questionador, com razões de sobra para o que pensa
sobre a educação precária de Cachoeira, entretanto, isso não nos impede de acusá-lo de ser
transformar num sujeito insensível às miseráveis crianças que sobrevivem à miséria de
Cachoeira, sem discutir sobre o que ele pensa em relação a posição da mãe negra. Tais
atitudes revela que se trata de uma criança individualista, ambiciosa e até preconceituosa,
merecendo uma retratação por parte do seu criador, para evitar que o personagem perca o
lugar de herói no romance.
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