UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE
FACULDADE DE EDUCAÇÃO
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO
JULIANA FALCÃO DE OLIVEIRA CRUZ
ESPORTE E EDUCAÇÃO: A QUEM INTERESSA A REALIZAÇÃO DOS
MEGA EVENTOS ESPORTIVOS NO RIO D E JANEIRO?
Niterói
2013
Juliana Falcão de Oliveira Cruz
ESPORTE E EDUCAÇÃO: A QUEM INTERESSA A REALIZAÇÃO DOS
MEGAEVENTOS ESPORTIVOS NO RIO DE JANEIRO?
Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em
Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito
parcial para obtenção do Grau de Mestre. Campo de
Confluência: Trabalho e Educação.
Orientadora: Prof.ª Drª Lia Vargas Tiriba
Niterói
2013
Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá
C957
Cruz, Juliana Falcão de Oliveira.
Esporte e educação: a quem interessa a realização dos megaeventos
esportivos no Rio de Janeiro? / Juliana Falcão de Oliveira Cruz. – 2013.
133 f.
Orientador: Lia Vargas Tiriba.
Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense,
Faculdade de Educação, 2013.
Bibliografia: f. 117-122.
1. Esporte. 2. Evento especial. 3. Educação. 4. Contradição.
I. Tiriba, Lia Vargas. II. Universidade Federal Fluminense. Faculdade
de Educação. III. Título.
CDD 796
1. 371.010981
Dedico àqueles que têm sido diretamente
afetados com o processo de preparação
da cidade para a realização dos
Megaeventos esportivos.
Dedico a todos que tomaram as ruas
cariocas em defesa da população da
cidade do Rio de Janeiro.
Dedico ao professor Vitor Marinho de
Oliveira, “in memorian”, pela sua
influência em mais este trabalho e por
seu incentivo para a realização do
mesmo.
AGRADECIMENTOS
Aos meus pais Misamée e Nelson, que me deram condições de estudar e principalmente
me deram o que nenhum título daria: amor, princípios e valores que, sem os quais, eu
não seria metade do que sou e não teria metade do que tenho;
Aos meus irmãos Nelson e Fabiana e minha avó Idmê pelo apoio e por compreenderem
minha ausência nesses últimos dois anos;
Aos professores do campo de pesquisa Trabalho-Educação: Ronaldo Rosas Reis, Eunice
Trein e José Rodrigues por tudo que me ensinaram no decorrer desses dois anos. Em
especial, aos professores José Rodrigues e Eunice pelas orientações sempre valiosas e
motivantes, ainda que por meio de críticas construtivas;
Aos professores André Malina, Angela Barreto e Zuleide Silveira, por terem aceitado
compor a banca da minha defesa de dissertação, e pelas contribuições, rigidez e afeto na
construção dessa dissertação;
Ao professor Vitor Marinho de Oliveira não só por sua influência á Educação Física
Humanista, mas também por seu incentivo na minha formação acadêmica e por ter
composto parte da minha banca de mestrado.
Aos meus amigos de turma, Érika Pelucci, Regiane Costa Santos, Maria Clara, Gregório
Albuquerque, Lícia da Hora, Renata Nunes e Ana Isabel, pelas trocas de experiências,
pela cumplicidade e construção do conhecimento;
Aos secretários Fátima e Fábio, responsáveis pelo bom andamento das atividades de
pós- graduação e sempre nos transmitindo paz;
A todos meus amigos e amigas, pelos incentivos, mensagens, empréstimo de material..
por todas as contribuições afetivas e produtivas;
Ao Maurício, pelo companheirismo durante parte da produção deste trabalho;
E a todos que de alguma forma, em algum momento me incentivaram, me apoiaram.
A educação é a atividade de um sujeito que, ao enfrentar o
desafio de mudar o mundo, enfrenta também, o desafio de
promover sua própria transformação.
Leandro Konder – 1992 p. 17
RESUMO
Esta pesquisa teve como objetivo geral analisar contradições entre capital e trabalho
presentes em escolinhas esportivas dos projetos sociais, que surgiram após a escolha do
Rio de Janeiro para sediar a Copa do Mundo de Futebol e posteriormente, as
Olimpíadas. Tendo em conta o processo de reordenamento da cidade do Rio de Janeiro
para sediar tais eventos, investigamos como a proposta de Megaeventos esportivos se
relaciona com ações esportivas voltadas para os filhos da classe trabalhadora. Para
tanto, buscamos analisar determinada conjuntura e suas particularidades dentro de uma
totalidade mais ampla e naquilo que é a estrutura da sociedade brasileira. Sendo nosso
campo empírico o Projeto Rio em Forma Olímpico, em execução na favela Cidade de
Deus. Entendemos que essa particularidade ganha densidade histórica somente se
estiver articulada e inserida no bojo de reformas mais amplas na sociedade. Ao buscar
revelar a quem, de fato, interessa os Megaeventos esportivos de 2014 e 2016,
desvelamos que a propaganda oficial, junto ao corporativismo do Estado, aliados à
atividade de (dês)informação da mídia leva a maioria da população não apenas a
endossar o discurso oficial, mas também a entender que tais eventos “são benéficos”
para a classe trabalhadora, em geral, particularmente porque “gera emprego e executa
projetos sociais” . Como metodologia, utilizamos a revisão bibliográfica referente à
problemática sugerida, tendo como base o materialismo histórico para nos ajudar a
compreender diversas dimensões da realidade que envolve o objeto da pesquisa. Por
meio da análise teórica construímos nosso conhecimento sobre contradições entre
capital e trabalho, trabalho e educação e consumo, inerentes à sociedade capitalista.
Foram utilizados como instrumentos de análise da pesquisa de característica empírica os
meios de comunicação, além de entrevista semi-estrurada no Projeto Rio em Forma
Olímpico. Como poderá ser visto no decorrer deste trabalho, não se trata de ser contra o
esporte, contra as práticas esportivas ou contra os Megaeventos, a competição, etc.
Queremos dizer que não é por atenderem à necessidades do capital que a realização dos
Megaeventos e suas interlocuções sejam negativas. Todavia, considerando a relação
trabalho e educação e a importância do diálogo com as teorias pedagógicas, uma vez
que todas elas pertencem a um campo em comum – o da formação humana – faz-se
relevante pensar acerca dos projetos sociais articulados por processos educativos, seus
valores, e perspectivas, objetivos e métodos, contextualizando a realidade desses
projetos em relação às suas propostas.
Palavras – Chave: Megaeventos esportivos – educação - contradições
ABSTRACT
The general objective of this research was analyze the contradictions between capital
and work, found at the social project’s “junior soccer schools”, came after Rio de
Janeiro have been chosen to host the World Cup and the Olympics. Considering the
reordering process of Rio de Janeiro city in order to host these events, we've
investigated how the sporting megaevents proposal are associated with sporting actions
aimed to working class kids. Therefore, we seek to analyze particular conjuncture and
its peculiarities inside a large totality and what is the structure of Brazilian society. Our
empirical field is the “Rio em Forma Olímpico” project, running into City of God
community. We understand that this peculiarity gains historical density only if
articulated and inserted at the bunt of largest society reforms. In seeking to reveal to
whom, in fact, the interests of sports mega-events in 2014 and 2016, unveil the official
propaganda, with the corporatist state, combined with the activity of (dis) information
media takes the majority of the population not only to endorse the official discourse, but
also to understand that such events "are beneficial" for the working class in general,
particularly because "generates jobs and run social projects." The methodology used
was the literature review related to the problem suggested, based on historical
materialism to help us understand the different dimensions of reality that involves the
object of research. Through theoretical analysis we build our knowledge about
contradictions between capital and labor, work and education and consumption inherent
in capitalist society. Were used as instruments of analysis of empirical research feature
the media, as well as semi-estrurada Project in Rio in Olympic shape. As can be seen in
the course of this work, it is not to be against the sport, from sports practices or against
Mega Events, competition, etc.. We mean that it is not meet the needs of capital that the
realization of mega-events and their dialogues are negative. However, considering the
relationship between work and education and the importance of dialogue with
pedagogical theories, since they all belong to a common field - the human formation - it
is relevant to think about the social projects articulated by educational processes, their
values and perspectives, objectives and methods, contextualizing the reality of these
projects
in
relation
to
their
proposals.
Key - Words: Megaeventos sports - education - contradictions
SUMÁRIO
RESUMO
ABSTRACT
INTRODUÇÃO ............................................................................................................12
Objetivo ..........................................................................................................................14
Relevância do estudo.......................................................................................................15
Metodologia.....................................................................................................................19
CAPÍTULO I:
REFERENCIAL TEÓRICO ...........................................................................................24
CAPÍTULO II
OS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS COMO UMA QUESTÃO ECONÔMICOSOCIAL .........................................................................................................................28
2.1
-
Da
conjuntura/estrutura
atual
do
modo
de
produção
capitalista.........................................................................................................................30
2.2.
-
Questões
econômico-sociais:
Porque
nos
envolvemos
com
o
Esporte?...........................................................................................................................38
2.3 – Os Megaeventos esportivos no Brasil.....................................................................41
2.4 – A Preparação da cidade: a “cidade maravilhosa” entra em campo....................... 49
2.5 – Megaeventos esportivos e Ideologia.......................................................................55
CAPÍTULO III
PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA PARA A REALIZAÇÃO DOS MEGAEVENTOS
ESPORTIVOS:
É
POSSÍVEL VIRAR
O JOGO
DO
MERCADO?
.........................................................................................................................................60
3.1 – Trabalho e Educação – estratégias no campo educacional como forma de
gerenciamento do capital.................................................................................................60
3.2 – O Rio de Janeiro Olímpico – esporte e/ou prática esportiva “formando
campeões”........................................................................................................................67
3.3 – Trabalho, Esporte e Educação – estratégias de gerenciamento do capital para além
de uma partida justa.........................................................................................................71
CAPÍTULO IV
APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS............................................................85
4.1-
Rio
em
Forma:
driblando
a
adversidade
do
capital
................................................................................................................................. 85
4.1.1- Contradições e Projetos Sociais........................................................................... 87
4.1.2 – Diário de Campo................................................................................................. 91
4.1.2.1 – Primeiros contatos........................................................................................... 91
4.1.2.2 – Embates para a realização do Projeto: a disputa por alunos ............................94
4.1.2.3 - Mudança de local de realização das aulas.........................................................95
4.1.2.4 – Cidade de Deus e de quem mais?................................................................... 98
CONSIDERAÇÕES FINAIS .....................................................................................111
REFERÊNCIAS ..........................................................................................................117
ANEXOS ..................................................................................................................... 123
1-
INTRODUÇÃO
A presente dissertação se insere no contexto de preparação para os dois mais
importantes Eventos Esportivos do Mundo: a Copa do Mundo de Futebol, em 2014 e
dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos, em 2016. A cidade do Rio de Janeiro será uma
das 12 cidades brasileiras que sediarão a referida Copa e será a cidade sede dos Jogos
Olímpicos e Paraolímpicos. Não se trata, nesse estudo, de julgar as vantagens e
desvantagens da realização de tais eventos no Brasil, mas de tecer uma análise das
maneiras contraditórias pelas quais a organização desses eventos repercute no dia a dia
da população do Rio de Janeiro. E, em especial, compreender a dimensão educativa dos
projetos sociais que vêm sendo construídos e desenvolvidos ao longo do processo de
preparação para a realização desses eventos.
Refletir sobre o esporte pressupõe analisar a relação entre prática desportiva e
vida social, considerando que, historicamente, os Megaeventos têm se constituído como
instâncias de controle social (no sentido de amenização de conflitos), manutenção do
status quo e aparato político, revelando diversas contradições na nossa sociedade. Como
Marx, Engels, Harvey, Milton Santos, nos explicitam em diversas obras, e como
veremos no decorrer deste trabalho, as contradições entre capital e trabalho vêm sendo
historicamente materializadas nos espaços urbanos.
O ser humano é produto de determinações culturais, biológicas, sociais,
econômicas e políticas. Se atentarmos à dimensão política da realidade, poderemos
discutir a dinâmica sociocultural em que estamos inseridos, e na qual estamos sendo
construídos e construindo. Assim, poderemos avançar na compreensão do princípio
cultural que transforma o esporte e o lazer em mercadoria.
Ao analisar a relação entre prática desportiva e vida social, podemos inferir que
a histórica utilização dos eventos desportivos de massa constitui-se como instrumento
de controle social e estratégia mercadológica para “vender / afirmar a imagem” da
cidade sede do evento, como cidade Olímpica.
Desde os anos 1990, o “país do futebol” almeja também ser o país do esporte,
mesmo que somente por meio do senso comum. Sendo a cidade do Rio de Janeiro um
cartão postal, porta de entrada para os turistas, e por isso mesmo a “vitrine do Brasil”,
nada mais natural do que os esforços iniciais serem concentrados nesta cidade. O Rio de
Janeiro, neste sentido, passa a adotar o esporte como referencial no imaginário coletivo.
Os campeonatos de esportes de areia foram importantes para dar visibilidade a esta
transformação: os jogos de vôlei e futebol de areia, disputados por ídolos das versões
convencionais desses esportes, tendo como pano de fundo o mar das praias cariocas,
contribuiu para que a vocação esportiva da cidade deixasse de ser prerrogativa de
estádios como o Maracanã, e se concretizasse em diferentes pontos da cidade. Iniciativa
viabilizada pela grande mídia, que passou a transmitir esses eventos com regularidade,
tornando-os populares e atraindo o capital internacional para a cidade, tudo isso
capitaneado pelo governo. Esta “política de incentivo ao esporte” atinge seu ponto alto
com a conquista de sediar os Megaeventos.
A título de exemplo, desde a conquista do Brasil para sediar a Copa do Mundo
de Futebol e logo depois, a conquista da cidade do Rio de Janeiro para sediar os Jogos
Olímpicos e Paraolímpicos, têm surgido inúmeros projetos sociais direcionados para a
classe trabalhadora. Estes projetos vão desde a profissionalização para o exercício de
atividades necessárias para a realização dos eventos, como cursos de inglês para
atendimento aos turistas, até escolinhas de esporte.
As escolinhas esportivas apresentam diversas propostas pedagógicas. Essas
propostas variam entre formação de atletas, como o Programa Petrobras Esporte &
Cidadania, até a socialização dos alunos pelo esporte, como o Projeto Rio em Forma
Olímpico. Em relação ao primeiro Projeto, cabe destacar, apenas como ilustração, que
foi lançado em agosto de 2011 um edital de Seleção Pública para este Programa que
prometeu investir R$ 30 milhões no período de dois anos em ações voltadas ao
desenvolvimento de crianças e adolescentes por meio do esporte, alinhados aos
princípios de inclusão, educação integral, cidadania e diversidade. A iniciativa é uma
parceria da Petrobras com o Ministério do Esporte. No lançamento da seleção pública o
discurso do presidente da Estatal, Renato de Souza Duque foi: “Para a companhia, antes
de qualquer resultado ou medalha está o atleta e, antes do atleta, estão crianças e jovens
que se formam na escola. Além disso, o investimento em esporte educacional poderá
contribuir para o surgimento de novos atletas.” 1
Projetos como este, são anunciados com uma dupla função, ainda que
implementados de forma superficial, em termos de organização e distribuição de
recursos, de objetividade, etc. Uma de “preparar” as novas gerações de atletas do futuro,
1
Ver em: http://www.petrobras.com.br/selecaoppec/home/
sendo uma espécie de “celeiro” de novos talentos; a outra função atribuída a esses
projetos sociais esportivos é a de que eles representam uma forma de “afastar” os jovens
da criminalidade e das drogas. Esses sentidos e “funções” que os projetos sociais
propõem são divulgados diariamente nos principais meios de comunicação e em
manifestações públicas de seus dirigentes. Observamos que esses discursos têm sido
bem recebidos pela sociedade.
Partimos do pressuposto que os projetos sociais constituem-se em programas de
lazer e/ou oportunidade de formação profissional para essa parcela da população,
carente de acesso a atividades de lazer, decorrente dos conflitos e das relações sociais da
nossa sociedade desigual2; podendo dessa forma, manter a ordem social vigente, sem
por em risco a manutenção do status quo. E também, há de se considerar que estes
projetos vêm atuar positivamente na questão psicológica desses indivíduos no que se
refere à elevação da autoestima e sentimento de pertencimento à sociedade, daqueles
que são excluídos/marginalizados pelo modelo econômico.
Diante desse pressuposto e tendo em conta o processo de reordenamento da
cidade do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol, cabe
investigar o seguinte problema de estudo:
Como a proposta de Megaeventos se relaciona com ações esportivas voltadas
para os filhos da classe trabalhadora a partir de uma visão materialista histórica?
1- OBJETIVO
Analisar contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas
dos projetos sociais que atendem crianças em idade escolar é o objetivo desse estudo.
Para tanto, elencamos como objetivos específicos: a) Investigar ações educativas e de
investimento em infraestrutura da cidade, que resultam da parceria público-privada; b)
Desvelar as condições objetivas e subjetivas, bem como as condições materiais em que
se realizam as práticas pedagógicas em escolinhas esportivas na comunidade Cidade de
Deus.
2
Aqui, referenciamos a teoria formulada por Trótski, lei do desenvolvimeno desigual e combinado. Essa
teoria designa a mistura no processo de desenvolvimento de aspectos avançados e atrasados em muitos
países, especialmente os periféricos do sistema mundial, nos quais um setor moderno pode conviver com
o mais atrasado, embora este funcionando como freio daquele, mas ainda assim, convivem de maneira
combinada, resultando numa formação social particular, porém única.
2- RELEVÂNCIA DO ESTUDO
Como já dito, a questão dos Megaeventos tornou-se objeto de algumas políticas
públicas. Assim, embora as políticas públicas sejam determinadas pela classe
dominante, é possível que esses projetos sociais, possam vir a contribuir de forma
significativa
para
o
desenvolvimento
humano
nas
comunidades
onde
são
implementados. Mas para tanto, as suas metas precisam ser cumpridas. Também é
válido ressaltar que o professor ou o responsável pela unidade pode, em seu trabalho,
buscar desvelar as contradições sociais, e ser mais do que um formador de atletas. Dessa
forma, acreditamos que o professor pode ir além de um transmissor e/ou reprodutor de
valores consensuais, podendo colaborar na formação de indivíduos conscientes acerca
das contradições que o cercam, para poder intervir na direção de seus interesses de
classe.
É relevante nos aprofundarmos nos conceitos de essência e aparência dos
Megaeventos esportivos. Pois quando a corporação do capital difunde as idéias dos
Megaeventos, apresentando os mesmos como discurso único, essa é a sua aparência,
não os explica por completo, e assim se torna forte. Essa temática (ou essas idéias
difundidas) legitimam-se quando o que é apresentado parece ser a resolução para tudo.
Entretanto a aparência (o fenômeno) dos Megaeventos esportivos não pode ser atribuída
à totalidade, pois é apenas uma parte da totalidade.
Em busca da compreensão da totalidade em que estão inseridos os Megaeventos
esportivos, elegemos o autor Kosik (1995), para discutir o processo de inversão da
realidade via ideologia. Com base na categoria da ideologia de Marx, Kosik (1995)
propõe analisar os fenômenos operados na superfície da realidade, já que estes podem
vir esconder, e mesmo ajudar a revelar dialeticamente a totalidade investigada, pois
segundo ele “o fenômeno indica a essência e ao mesmo tempo a esconde” (p. 11).
Através de sua obra, Dialética do Concreto, Kosik (1995) colabora na
compreensão da práxis marxista e apresenta indagações sobre o trabalho, a consciência
e a economia, por meio das análises do fenômeno e da essência e da
pseudoconcreticidade. De acordo com este autor:
Captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como
a coisa em si se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele
se esconde. Compreender o fenômeno é atingir a essência. Sem o fenômeno,
sem a sua manifestação e revelação a essência seria inatingível. (p. 16).
A temática dos Megaeventos esportivos apresenta-se através de sua aparência
porque sua essência é não se explicar. É um projeto publicitário que envolve a mídia
corporativa, o que faz por tentar convencer a sociedade de que os Megaeventos não
apresentam contradições.
Nosso desafio é perceber as contradições presente no discurso e nas práticas dos
educadores e os participantes do Projeto Rio em Forma Olímpico. Em que medida os
participantes se “beneficiam” do Projeto Social?
De acordo com Kosik (1995):
A existência real e as formas fenomênicas da realidade são diferentes e,
muitas vezes, absolutamente contraditórias com a lei do fenômeno, com sua
estrutura e, conseqüentemente, com seu núcleo interno essencial e com seu
conceito correspondente. Por sua vez, o mundo da pseudoconcreticidade,
plano da manifestação fenomênica, refere-se ao ambiente cotidiano e à
atmosfera comum da vida humana, com regularidade, imediatismo e
evidência, assumindo um aspecto aparentemente independente e, por isso,
naturalizado, no qual a diferença entre fenômeno e essência desaparece. Ele
possui, assim, uma estrutura própria, que pode ser descrita, sem, contudo,
captar a relação entre o mundo fenomênico (pseudoconcreticidade) e a
essência (realidade). (p.19)
Podemos comparar esse mesmo processo de o plano da manifestação
fenomênica ocultar a diferença entre aparência e essência, ao processo de preparação da
cidade para a realização dos Megaeventos esportivos. Ao mesmo tempo em que na
superfície fenomênica podemos visualizar, através das propagandas de cunho político e
dos discursos midiáticos, “benefícios” para a sociedade, como: limpeza urbana, futuras
melhorias no trânsito, geração de empregos e oportunidades de aperfeiçoamento
profissional, etc., ou seja, “benefícios” que nada mais são do que a obrigação do Estado.
Estes aspectos envolvidos no mundo da pseudoconcreticidade não permitem vislumbrar
a contradição que estes Megaeventos trazem para a classe trabalhadora, expressa na
essência da política neoliberal. De outra parte, o plano do cotidiano de lutas em que vive
o trabalhador, oculta e desvela a concreticidade.
Assim, vemos gradativamente a transformação dos direitos do cidadão em
serviços ao cidadão, evidenciando cada vez mais o desmantelamento do estado de
direito. Vemos o processo de privatização da res publica, da coisa pública (seja por
meio de concessões, fundações, “Organizações Sociais de Interesse Público”, ou
processo de privatização por dentro das políticas públicas), justificado por uma suposta
melhoria na qualidade dos serviços prestados. Entretanto, a realidade não justifica esse
pragmatismo discursivo por parte do governo, principalmente se observarmos os
resultados obtidos com esse tipo de política.
A manifestação fenomênica do processo que antecede a realização dos
Megaeventos mantém relações com a totalidade social em que vivemos. Dessa forma,
Kosik (1995) nos aconselha a destruir a pseudoconcreticidade através da crítica
revolucionária da práxis humana na perspectiva de que o homem é produtor da sua
realidade e de que:
A diferença entre a realidade natural e a realidade humano-social está em que
o homem pode mudar e transformar a natureza; enquanto pode mudar de
modo revolucionário a realidade humano-social porque ele próprio é
reprodutor desta última realidade (p.18).
Conforme nos reporta Konder (2002), Marx tinha convicção de que a teoria,
com seu potencial crítico, precisava desempenhar um papel decisivo. E para isso
precisava sensibilizar setores da sociedade dispostos a acolhê-la, desenvolvê-la na ação,
traduzi-la na prática. Nesse sentido, a classe trabalhadora seria a classe dos sujeitos
propensos a agir na direção almejada. Ainda segundo Konder:
Marx estava convencido de que sem ir à raiz da alienação, era impossível
encaminhar eficazmente a luta para superá-la. Com o movimento operário se
tornava possível para o pensamento fundar uma postura revolucionária nova
e viabilizar a construção de uma alternativa à sociedade hegemonizada pela
burguesia. Pela sua inserção na nova ação histórica transformadora, o
pensamento podia alcançar uma compreensão da realidade que reagiria às
distorções ideológicas e fortaleceria as ações desalienadoras no mundo
alienado (p.35).
De acordo com as questões levantadas no decorrer deste trabalho relacionadas à
formação e manutenção da hegemonia, notamos que a apropriação da cultura do
esporte, que envolve sentimentos de superação, beleza, emoção, é um meio bastante
eficaz na construção e manutenção da hegemonia. Já que o modo de vida na sociedade
capitalista retira do trabalhador e dos filhos da classe trabalhadora, em parte, a sua
capacidade criativa, o seu desenvolvimento, fazendo com que o indivíduo3 reproduza
sua existência mecanicamente, a fim de apenas para suprir as necessidades básicas de
existência, e talvez, as necessidades impostas pelo mercado.
Conforme nos alerta
Manacorda (2008), o modo de produção capitalista suga do trabalhador a sua força
produtiva, que acumula a riqueza da sociedade, que lhe devolve um salário mínimo,
uma formação mínima, permitindo-lhes desenvolver suas pontecialidades minimamente.
Dessa maneira, o trabalhador vive diariamente para (re) produzir sua existência e
o esporte aparece em suas vidas, como momento de lazer. Ou seja, o capitalismo, em
suas relações de exploração, apropriou-se do lazer e o transformou em mercadoria.
3
Sobre a questão de cidadania, adoto as observações de José Rodrigues em: Qual democracia, qual
cidadania, qual educação?
Assumindo a necessidade humana de se praticar atividades físicas e sua associação com
o lazer, o capital tende a controlá-las. Considerando a grande influência do capital sobre
o Estado e suas políticas públicas, a classe dominante discorre de meios que
determinam quais esportes serão facultados à classe trabalhadora.
Os diversos projetos sociais vêm surgindo nas últimas décadas, como uma das
maneiras de mecanismo de redução dos antagonismos entre as classes sociais, questão
essa que trataremos no primeiro capítulo. Atualmente, os projetos esportivos sociais
encontram-se em efervescência na cidade do Rio de Janeiro que se prepara urbano,
social, cultural e economicamente para a realização de Megaeventos esportivos. A rua
que durante várias gerações, foi o espaço do encontro, do brincar, vem perdendo essa
posição devido aos fenômenos como a ocupação habitacional desordenada, o aumento
da especulação imobiliária e também pelo crescimento da violência e sua percepção
sensacionalista. Para os filhos da classe dominante, a rua pode ser substituída por
espaços privados de convivência e desenvolvimento, como, dentre outros, as escolinhas
esportivas. Mas para os filhos da classe trabalhadora, o tempo livre ou passa a ter um
sentido utilitário ou tornam-se necessárias atividades visando afastá-los das ruas,
entendidas como fonte de marginalização e vícios.
Entendendo o fenômeno Copa do Mundo e Olimpíadas como parte da totalidade
social, é preciso levar em consideração as mediações que envolvem as contradições do
sistema capitalista. No que diz respeito ao debate em relação à sociedade que
almejamos, faz-se necessário superar as posições idealistas que vem limitando a
interpretação da realidade. Conforme nos reporta Kosik (1995), a práxis utilitária
imediata e o senso comum que corresponde a essa práxis colocam o homem em
condições de orientar-se no mundo, mas não proporcionam a compreensão das coisas da
realidade. Segundo ele:
A práxis de que se trata neste contexto é historicamente determinada e
unilateral, é a práxis fragmentária dos indivíduos na divisão do trabalho, na
divisão da sociedade em classes e na hierarquia de posições sociais que sobre
ela se erguem. Nesta práxis se forma tanto determinado ambiente material do
individuo histórico, quanto a atmosfera espiritual em que a aparência
superficial da realidade é fixada como o mundo da pretensa intimidade, da
confiança e da familiaridade em que o homem se move “naturalmente” e com
que tem de se avir na vida cotidiana (p. 14).
Ao analisar os discursos oficiais, buscamos revelar os interesses políticoeconômicos que constituem a agenda governamental em prol do “desenvolvimento
social” através do esporte, em geral, e dos Megaeventos, em particular. Dessa forma,
procuramos evidenciar as arbitrariedades praticadas neste processo, bem como a falta de
transparência na concepção e execução desta agenda. Enquanto representante dos
cidadãos, estaria mesmo o governo agindo em benefício da população? A quem
realmente interessa a realização dos Megaeventos?
3- METODOLOGIA
Para compreender o fenômeno Copa do Mundo e Olimpíadas, também contamos
com as produções dos autores da área da Educação Física que fundamentam suas
práticas pedagógicas no materialismo histórico, como Vitor Marinho de Oliveira,
Hajjime Nozaki, Marcelo de Paula Melo e Adriana Machado Penna, reivindicando suas
práxis transformadoras, revolucionando a maneira de pensar/fazer a Educação Física.
Embora não tendo o marxismo como opção político-epistemológica, outros
autores contribuem para problematizar a compreensão do mundo em que vivemos. Entre
outros, citamos José Rodrigues Alvarenga Filho, autor que analisa o que chamou de
“questões sobre a tríade segurança pública – mídia – produção de subjetividades na
cidade do Rio de Janeiro no primeiro semestre do ano de 2007”, período que antecede a
realização dos Jogos Pan Americanos na cidade do Rio de Janeiro; e Alba Zaluar, que
na década de 1980 investigou as organizações populares e os significados da pobreza na
favela Cidade de Deus.
De acordo com o objetivo proposto, organizamos o estudo em quatro capítulos.
No primeiro capítulo trazemos o referencial teórico que o fundamenta. No segundo
capítulo abordamos a questão econômica brasileira e os Megaeventos esportivos como
mecanismo de fortalecimento/desenvolvimento econômico do país. Embora saibamos
que a prosperidade econômica vivida pelo Brasil nos últimos anos, além de pouco
contribuir para a diminuição do abismo entre as classes sociais, não tem relação direta
com os Megaeventos esportivos. Para identificar as contradições entre capital e trabalho
do processo que antecede oficialmente a realização dos Megaeventos na cidade do Rio
de Janeiro, acreditamos ser relevante analisar a conjuntura atual do modo de produção
capitalista e as mudanças no mundo do trabalho que culminaram hoje no modelo de
acumulação flexível. Assim, entendendo os Megaeventos esportivos como parte da
totalidade do sistema capitalista, podemos dizer que eles são mediações do capital e
vêm apresentando cada vez mais uma função de reprodução no mundo globalizado, se
reproduzindo e reproduzindo a força de trabalho através de diferentes estratégias. Dessa
forma, trabalhamos neste capítulo com a categoria da ideologia, em Marx, como forma
de compreender a concepção de uma Educação Esportiva funcional à manutenção do
modo de produção capitalista, disseminado pelas políticas educacionais e sociais
recentes.
O conceito de ideologia, em Marx, parte da relação que o autor atribui entre esta
e o conceito de alienação, que por sua vez, liga-se ao trabalho. A ideologia é um dos
conceitos fundamentais da filosofia de Karl Marx, embora ele não tenha sido o autor
desse conceito. Na filosofia de Marx a ideologia está relacionada á distorção na
construção do conhecimento, inevitável nas condições da divisão social da sociedade e
consequentemente do trabalho.
No decorrer deste trabalho, não somente neste capítulo, também mencionamos
alguns autores marxistas que, trataram da concepção de Marx sobre a ideologia, de
acordo com sua visão de mundo. Esses autores acrescentaram à concepção de Marx,
características daquilo que se considerou superado e/ou procurou eliminar ou substituir
alguma colocação do pensador socialista.
Enfatizamos, também nesse segundo capítulo, que a análise dos Megaeventos é
importante para compreendermos este fenômeno em sua totalidade, os interesses
antagônicos envolvidos e desenvolvidos e suas contradições, bem como suas
repercussões na vida da classe trabalhadora. Adotamos ainda como fonte de pesquisa no
segundo capítulo, os estudos da autora Adriana M. Penna, que aborda a questão dos
Megaeventos esportivos sob a ótica materialista; e os estudos de Anne-Marie
Broudehoux sobre a arquitetura do espetáculo integrado na Olimpíada de Pequim (local
onde foi realizada a penúltima Olimpíada). Esta autora argumenta que os mega projetos
arquitetônicos contribuíram para legitimar as estruturas de poder autocráticas da China
pós-socialista, servindo como instrumento de criação de imagem e propaganda estatal e
desviando a atenção popular das mazelas sociais causadas pelo processo de
reurbanização. E, por outro lado, destaca que essa espetacularização, suscitou diversas
formas de contestação popular aos discursos hegemônicos.
Nesse segundo capítulo também ressaltamos que os eventos em grande massa
materializam um processo de formação do indivíduo. Sendo assim, os Megaeventos
esportivos acabam por ter uma função social, política e ideológica de inculcar, desde
sua criação, via política educacional, a concepção de mundo e sociedade segundo a
ideologia que direciona as ações do poder público. Tratamos da questão ideológica
relacionada à utilização da marca Megaeventos esportivos como mecanismo de tentativa
de crescimento econômico do país.
Dessa forma, o terceiro capítulo visa trazer à superfície ações dos empresários e
parcerias público-privadas nesse processo que antecede oficialmente a realização dos
Megaeventos na cidade do Rio de Janeiro. Além da visceral experiência empírica de
residir no Rio de Janeiro, utilizamos como fonte de estudo a dissertação de Mestrado de
Marcelo Paula Melo, que discute como o aprofundamento do projeto neoliberal incidiu
no campo das políticas públicas de esporte. Para desvelar a relação de interesses
políticos e econômicos do poder público e dos empresários quanto aos Megaeventos,
analisamos o Dossiê 4elaborado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares dos
Megaeventos e o relatório sobre os
Olimpíadas
2016,
impactos da Copa do Mundo 2014 e das
realizado
pelo
Instituto
de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de
Janeiro.
Abordaremos também no terceiro capítulo, as relações financeiras entre o Estado
e a sociedade civil, por meio das parcerias público-privadas. O poder constituído,
munido de um discurso nacionalista, tenta persuadir que o esporte é a solução para os
problemas sociais do país. Um consenso em torno dos Megaeventos foi criado, embora
as últimas semanas5 tenham evidenciado o quanto a tentativa de construção desse
consenso era frágil e questionável.
Também acompanhamos, através dos meios de comunicação, as ações dos
empresários e do poder publico, sem desconsiderar aquelas ações que “tropeçamos” no
dia a dia.
O quarto capítulo traz o trabalho de campo desenvolvido no Projeto Rio em
Forma Olímpico, na Cidade de Deus, analisando, através de relato, a história da
comunidade e o funcionamento do referido projeto. Analisar o cotidiano da ação
educativa à luz do materialismo histórico pressupõe uma visão de mundo em que o
pesquisador e o objeto não se constituem partes isoladas, estanques no processo do
desvelamento do real objeto. E, nesse processo, à medida que o pesquisador e o objeto
4
Vale registrar que um Dossiê não conta especificamente como referencial teórico, mas as informações
contidas nele foram de grande relevância para este trabalho, já que o mesmo abordava questões de
denuncia, apresentando uma realidade sobre os processos de realização dos Jogos Pan Americanos, que
não foram divulgados na grande mídia, e só trouxe, ao público, o lado positivo do esporte.
5
A partir do episódio de aumento nas tarifas das passagens de ônibus em várias cidades brasileiras, o
povo foi às ruas protestar. Nesse processo de protestos, manifestações, deram-se conta de que enquanto
vários serviços de direito nosso, como saúde, educação, moradia, qualidade no transporte público vem
sendo violados, há um grande investimento na obras e estádios para recebermos os Megaeventos
esportivos. Incluímos esta nota por ocasião da revisão do texto realizada após a defesa da dissertação.
se fundem, são as categorias dialéticas que dão transparência para o entendimento da
multiplicidade de fatores que condicionam o real concreto.
Sobre a história da comunidade da Cidade de Deus, utilizamos como referencial
os estudos de Alba Zaluar. Conforme já tenha dito, embora não se paute em recorte
materialista, elegemos esta autora, porque ela traz elementos para refletir sobre o
trabalho, a vida familiar, lazer, e religião dos moradores da referida comunidade. Além
disso, analisamos a atual geografia e estatísticas da Cidade de Deus.
Trabalhamos com o Projeto Rio em Forma Olímpico, que atende crianças em
idade escolar, do Ensino Fundamental. Esse projeto é uma das ações desenvolvidas pela
Prefeitura do Rio de Janeiro, através da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer
(SMEL) e visa atender os moradores, dentro das próprias comunidades, oferecendo
atividades “contínuas e interligadas, voltadas a pretensão de caráter educativo, social,
cultural, ambiental, etc., articulando as demandas do esporte e lazer nas comunidades.”
(BARBOSA E BARROS, 2012, p. 2). Tal projeto tem como proposta: “Através de
atividades esportivas, de caráter educacional, contribuir para minimizar a evasão
escolar, estimular a melhora da qualidade de vida e potencializar o capital social dos
moradores das comunidades envolvidas, minimizando o estresse ao qual estão
submetidos” (Ibdem, p. 4). Contudo, de acordo com o site da SMEL, “O projeto está
focado nos valores emocionais e educacionais, capazes de serem mobilizados pelo
esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregando conhecimentos,
valores, condutas e comportamentos.” (http://www.rio.rj.gov.br/web/smel/). Isso nos
chama a atenção sobre o conceito de ideologia, no sentido de falseamento da realidade.
Utilizando-se de palavras de ordem, pautadas no senso comum, sem um
aprofundamento do que elas realmente significam no determinado contexto.
Observamos que esses discursos refletem o caráter ideologizado dos projetos sociais
com palavras como democracia e cidadania, todas de forma abstrata já que no nível
material o que prevalece é a desigualdade.
Nosso estudo busca analisar a organização do Projeto, em que condições os
atendidos, os sujeitos históricos do mesmo, se encontram, bem como buscar
compreender o que está por detrás do discurso estruturalista da realidade, onde o sujeito
é determinado pelas circunstancias em que vive e sobrevive.
Nossa análise se dá por meio da abordagem materialista histórica, por
acreditarmos que a relação trabalho e educação é construída histórica e socialmente
pelos seres humanos, e que esta construção é condicionada pelas relações sociais de
produção. É relevante mencionar Thompson (2001), que, em sua obra, valoriza a ação
humana explicitando que as determinações não são lineares, não precisam vir apenas de
“cima para baixo”, ou seja, as ações podem ser quebradas e as determinações virem,
também, de “baixo para cima”.
A pesquisa foi dividida em dois momentos: um momento teórico resultante de
revisão da literatura que responda a problemática aqui sugerida, tendo como base o
materialismo histórico de Marx e Engels, que, por meio da análise da realidade, nos
permite compreender as diversas determinações que formam a realidade. Assim, nessa
fase buscamos compreender as diversas dimensões/fios da realidade que envolve a
totalidade nosso objeto de pesquisa. Desse modo, por meio da análise teórica
construímos nosso conhecimento sobre as contradições entre capital e trabalho, trabalho
e educação e consumo, inerentes à sociedade capitalista. Foram utilizados como
instrumentos de análise para este momento da pesquisa os meios de comunicação que
traziam informações sobre ações dos empresários e do poder público, sem desconsiderar
as ações pelas quais “tropeçamos” no dia-a-dia da “cidade maravilhosa”, como obras
por toda a cidade, trânsito desviado, instituições parcialmente ou totalmente fechadas,
ou manifestações dos grupos que vão contra as maneiras pelas quais os governos
Estadual e Municipal têm investido na preparação da cidade para a realização dos
Megaeventos esportivos.
O outro momento da pesquisa refere-se a duas situações práticas, exploratórios,
baseados na contextualização da leitura, constituindo-se em trabalho de campo de
característica empírica. Neste trabalho de campo analisamos ações dos empresários para
a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro e as contradições
entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas dos projetos sociais que
atendem crianças em idade escolar, em especial no Projeto Rio em Forma Olímpico. É
importante ressaltar que embora a pesquisa seja dividida em momentos, tais momentos
são mesclados entre teoria e prática, pois a todo momento, o concreto social foi olhado a
partir da teoria, recuperando-se a unidade dialética teoria-prática.
Por fim, após apresentar e analisarmos os dados da pesquisa trazemos nossas
considerações sobre a mesma com a bibliografia utilizada.
Capitulo I
1- REFERENCIAL TEÓRICO
A pesquisa está fundamentada no materialismo histórico, cujos principais
elaboradores são Karl Marx e Friedrich Engels. Esses autores analisam a relação
conflituosa entre trabalho e capital, e as transformações no modo de produzir, e,
preocupados com o social e o coletivo, reconhecem e criticam a exploração humana.
Por que Marx e Engels nos ajudam a compreender a realidade que queremos desvendar?
Para Marx e Engels (1986), o homem necessita de três condições para fazer
história. Primeiro, a produção dos meios para satisfação das necessidades, ou seja, a
produção da própria vida material. Segundo, a satisfação das necessidades primeiras
conduziria a novas necessidades que se traduzem na ação e no instrumento de
reprodução dessas necessidades, constituindo-se o primeiro ato histórico. Em terceiro, é
a procriação, a reprodução dos homens na constituição da família. Essa família, que no
início constitui a única relação social, torna-se mais tarde, quando as necessidades
aumentadas criam novas relações sociais, uma relação secundária. Tais processos não se
dão isoladamente, mas simultaneamente, dentro do processo social. Assim, a produção
da vida irá se desenvolver e o somatório dessa produção se constituirá em forças
produtivas de um determinado modo de produção em uma determinada sociedade.
Em 1848, os filósofos alemães redigiram o Manifesto do Partido Comunista.
Seus objetivos eram revolucionar as ideias, mudar a forma de pensar a vida, de pensar a
sociedade, de pensar o trabalho (MARX; ENGELS, 2007). Embora esta e outras obras
estejam localizadas num determinado contexto histórico, e partindo de uma determinada
concepção da realidade, esses autores deixaram um legado de suma importância para a
humanidade. Suas teorias até hoje são utilizadas como de base para analisar os mais
diferentes aspectos da sociedade, pois se trata de um materialismo dialético em plena
interação com a história e seus agentes, o que o manteve perfeitamente funcional
enquanto instrumento de análise científica.
Assim, a ideia central do Manifesto é que a produção econômica e a estrutura
social decorrente dessa produção constituem, em cada época histórica, a base da história
política e intelectual dessa época; que, por conseguinte (desde a dissolução da
propriedade comum do solo dos tempos primitivos), toda história tem sido uma historia
de luta de classes, de luta entre classes exploradas e exploradoras, entre classes
dominadas e classes dominantes, nos diferentes estágios de seu desenvolvimento social.
Esta luta atingiu atualmente um estágio em que a classe explorada e oprimida (o
proletariado) encontra dificuldades em empunhar sua própria bandeira, dada a variedade
de mecanismos que a classe opressora (a burguesia) dispõe para evitar a emancipação
dos povos. Além de métodos mais diretos, como opressão militar, econômica e legal, o
capital dispõe de um aparato ideológico para garantir o modo de produção dominante. O
individualismo meritocrático incentivado pela indústria cultural vai se impondo à
identidade de grupo, fazendo com que as mudanças sejam buscadas a partir do
indivíduo, diminuindo assim, o poder de mobilização das massas, tendo como resultado
a naturalização das contradições mais abjetas que o sistema pode produzir.
Marx (2002) descreve a realidade das mulheres e das crianças, bem como as
excessivas horas de trabalho, más condições e insalubridade e os míseros salários pagos
aos trabalhadores, a questão da mais valia e o processo de alienação e controle social.
Em suas obras, Marx e Engels, defendem a abolição das classes sociais, por meio da
revolução da forma de produzir a vida e o trabalho. Assim, defendem que o
materialismo dialético situa-se na própria concepção ontológica de homem, que se
define não só pelo seu pensamento, mas pela produção de sua existência. Também
consideram que os fatores culturais, sociais, econômicos e políticos perpassam a relação
trabalho e educação. Pois, se por um lado é na dialética inerente à atividade humana do
trabalho que o homem transforma a natureza e por ela é transformado, por outro lado, as
circunstâncias em que determinada ação se inscreve não é pelo homem determinada,
embora ele também seja um criador de circunstância
(MARX e ENGELS, 1986).
Marx e Engels (1986) defendem que a ideologia, enquanto produção da mente
humana, não pode ser separada da questão política da dominação. Assim, nos lembram
que, em cada momento histórico, as ideias dominantes são as ideias da classe
dominante.
Observamos que a precarização do trabalho, em prol do lucro da classe
dominante, descrito e criticado por estes autores, atinge a totalidade da vida social e o
predomínio de valores mercantis e individualistas até os dias de hoje, e ocultam as
contradições da sociedade de classe. Vale ressaltar que a relação capital trabalho não se
dá apenas na dimensão do local de trabalho e das relações salariais, mas também das
relações sociais de produção e da reprodução da vida social.
Fundamentada no materialismo histórico Silveira, (2010) nos reporta que o
modo de produção capitalista subordina:
Por completo as necessidades humanas à reprodução de valor de troca, o que
de certa maneira, escapa em grau significativo do controle humano pelo fato
de as relações de produção do capital possuírem uma estrutura de controle,
tal que, historicamente, têm levado à sociedade, em geral, e a classe
trabalhadora, em particular, a se adaptar sucessivamente a seus diferentes
modelos de produção (p.15).
Para Marx e Engels (1986), a contradição entre burguesia e proletariado só
poderia ser destruída pelo fim dos interesses particulares de classe, ou seja, pelo fim das
classes. É por isso que afirmam ser o proletário não somente o sujeito de sua própria
libertação, mas principalmente o sujeito da libertação universal humana; é a classe que
tem a capacidade de caminhar para além de seus interesses particulares e, assim,
destruir a contradição de classes.
Atualmente, nos deparamos com hegemonia ideológica em relação a realização
dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro. Sendo assim, acreditamos que é
necessário debruçarmo-nos sobre esse assunto que se tornou objeto de políticas sociais,
educacionais e esportivas.
Na perspectiva de analisarmos a questão dos Megaeventos esportivos como um
exemplo de atuação do capital, tomamos como referência a categoria da ideologia, em
Marx, como forma de compreender a concepção de uma Educação Esportiva funcional
à manutenção do modo de produção capitalista, disseminado pelas políticas
educacionais recentes.
Ao revisitar as diversas expressões que a questão da ideologia veio assumindo,
na perspectiva da esquerda, desde Marx até o século XXI, Konder (2002), cita Stoppino,
que distingue a ideologia assumindo dois significados “forte” e “fraco”. Essa distinção
torna-se propícia para nosso entendimento sobre as maneiras pelas quais a temática dos
Megaeventos esportivos vem sendo divulgada pelos seus organizadores. Essa distinção
torna-se propícia para nosso entendimento já que o termo “ideologia” nos dias de hoje é
utilizado com diversas conotações. Assim, O significado fraco designa sistemas de
crença políticas, conjunto de ideias e valores visando orientar comportamentos coletivos
relativos à ordem pública. O significado forte refere-se, desde Marx, a uma distorção no
conhecimento. O autor entende que:
Entre os representantes – minoritários – da perspectiva que trabalha com
significado forte da ideologia se acham alguns teóricos convictamente
antimarxistas, para quem os instintos fundamentais da natureza humana são
muito mais fortes do que os fatores sociais e por isso, influem,
inevitavelmente, na psicologia dos indivíduos, induzindo-os a elaborar ou
adotar representações ideologicamente distorcidas da realidade política e
social (p. 10).
Assim, observamos um modelo de apropriação das relações sociais e de poder
que oferecem um caráter ideológico aos Megaeventos esportivos. Na aparência os
Megaeventos são apresentados como atraentes para sociedade, trazendo melhorias e
oportunidades para quem vive nas cidades que sediarão tais eventos; na essência o
processo de preparação da cidade para esta realização, tem trazido inúmeros transtornos
para os moradores que sediarão os Megaeventos esportivos, onde, para atender as
exigências do Comitê Olímpico Internacional e Federação Internacional de Futebol, a
rotina dessas cidades vem sofrendo diversas mudanças em suas ordens administrativa,
urbana, social, habitacional, educativa até mesmo esportiva, como veremos no decorrer
deste trabalho. O que nos faz entendê-los como negócio em boa parte do país, e o Rio
de Janeiro, como foco político e econômico.
Na perspectiva de compreender a experiência da classe trabalhadora nesse
processo de preparação para a realização dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro,
elegemos o autor Edward Palmer Thompson. Baseado no materialismo histórico,
Thompson investiga as práticas e discursos dos trabalhadores, descrevendo a
consciência de classe e as experiências vividas e encarnadas em termos culturais. Em
sua teoria defende que a classe não é construída somente em termos econômicos, pois se
baseia na construção histórica de experiência, visto que, grande parte dessa experiência
de classe determinou as relações produtivas dentro das quais os homens nascem e são
inseridos a ela de modo involuntário.
Para Thompson (2001), o estímulo antropológico não se traduz primordialmente
não na construção do modelo, mas na identificação de novos problemas, na visualização
de velhos problemas em novas formas, na ênfase em normas (ou sistemas de valores) e
em rituais, atentando para as expressivas funções das formas de amotinação e agitação,
assim como para expressões simbólicas de autoridade, controle e hegemonia.
O historiador marxista inglês nos ajuda a pensar o fazer-se da classe
trabalhadora, explicitando a classe como uma formação tanto econômica como cultural.
Por isso, enfatiza a questão da experiência humana e histórica que vão se tornando
costumes e tradições que são encarnadas na cultura. Ele defende que é preciso definir o
controle nos termos da hegemonia cultural sem renunciar ao intento da análise, mas
arquitetá-la por tópicos necessários: as imagens de poder e autoridade e as mentalidades
populares de subordinação. (THOMPSON, 1987).
Capítulo II
2
-
OS
MEGAEVENTOS
ESPORTIVOS
COMO
UMA
QUESTÃO
ECONÔMICO-SOCIAL
Uma visão histórica da educação indica como estivemos sempre preocupados
em formar determinado tipo de pessoa. Essas formações variam de acordo com as
diferentes exigências de diferentes épocas (SAVIANI, 1982). Vale ressaltar que o
processo de educação não se dá somente no âmbito escolar. Tendo em vista que somos
resultado das relações vividas em diversas instâncias sociais (escola, trabalho, família,
religião), o processo educativo ocorre no dia a dia, no conjunto das relações do ser
humano com a natureza e com os demais seres humanos. Ou seja, o homem é um ser
histórico cujas ações possuem intencionalidade, finalidade, e é através da associação
com os outros homens que ele desenvolve sua capacidade de criar cultura.
Segundo Medina (1989), fundamentado em Marx, a Educação não se realiza de
forma neutra e nem independente. Não ocorre prática educativa se permanecermos
distante dos costumes, das classes sociais, da política, de uma ética, de uma estética,
enfim, do contexto existencial mais amplo. Nessa perspectiva, Marx e Engels (1986)
defendem que a ideologia não pode ser separada da questão política da dominação.
Assim, nos lembram que, em cada momento histórico, as ideias dominantes são as
ideias da classe dominante.
Cabe observar, desse modo, que os Megaeventos esportivos não são algo novo,
tampouco, algo que abranja somente os atletas e pessoas ligadas ao esporte. De acordo
com Malina (2009):
O esporte, tal como outros fenômenos culturais humanos, estão circunscritos
em seu tempo histórico, e não podemos compreendê-lo fora dele. É por isso
que atualmente não podemos dissociá-lo da compreensão do modo de
produção capitalista, sob risco de entendermos o esporte em si, como um
fenômeno auto-explicável ou fora do seu tempo. É nas suas inter-relações
(com os fenômenos que não estão ‘dentro’ do esporte) que podemos tentar
entendê-lo (p. 27-28).
É pressuposto que os Megaeventos são mais uma forma de produção do capital
para explorar a mais valia6. É relevante então observar a história, destacando alguns dos
6
Mais-valia é o termo dado por Marx à diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago
ao trabalhador, que seria a base da exploração no sistema capitalista.
principais momentos do esporte e sua relação com o homem social para analisar as
contradições entre capital e trabalho nos processos de reordenamento da cidade do Rio
de Janeiro para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol.
Os Megaeventos esportivos nos remetem
à
ideia de formação do
indivíduo/cidadão através do esporte. Nesse sentido, esses eventos acabam por ter a
função política e ideológica de se fazer crer que, através da educação voltada para o
esporte, o indivíduo conseguirá, além de uma vida saudável, obter cidadania plena e
progresso material. Esta perspectiva é um tanto ilusória quando transportada ao contexto
das comunidades cariocas, onde o resultado das ações do poder público, voltadas à
educação em geral, tendem a ser minimizadas por alguns problemas persistentes: a falta
de continuidade de muitas dessas ações, ora por conta de violentas disputas pelo poder
dentro dessas comunidades, ora pela falta de vontade política.
Como poderá ser visto no decorrer desse trabalho, não se trata de ser contra o
esporte, contra as práticas esportivas ou contra os Megaeventos, a competição esportiva
etc. Queremos dizer que não é porque a realização dos Megaeventos e suas
interlocuções atendam às necessidades do capital, que é algo completamente negativo.
Todavia, considerando a relação trabalho e educação e a importância do diálogo com as
teorias pedagógicas, tendo em vista que todas pertencem a um campo em comum – o da
formação humana (ARROYO, 2005) – faz-se relevante pensar acerca dos projetos
sociais mediados pelos processos educativos, seus valores, perspectivas, objetivos e
métodos, contextualizando a realidade desses projetos em relação às suas propostas para
realização desses Megaeventos.
Quais as repercussões do processo de preparação da realização dos Megaeventos
esportivos na vida na cidade? De que forma a concepção de projetos sociais é funcional
à manutenção do modo de produção capitalista? O que ficou dos eventos anteriores? Os
discursos dos projetos sociais dizem atender às necessidades lúdicas de lazer das
crianças e jovens das periferias e das comunidades pobres, mas o que seria “atender as
necessidades” desta população? Será que a população foi consultada sobre o que “ela”
necessita?
Entendemos que é no mínimo forçoso advogarmos pelos Megaeventos
esportivos, na medida que necessidades mais imediatas de todas as camadas da
sociedade estão longe de ser satisfeitas. Numa realidade em que a educação pública
encontra-se precária, sistema público de saúde sucateado, o desemprego aumenta e o
emprego informal também aumenta, parece operar, conforme Marx (1991) uma
inversão das necessidades básicas, transformando-as em secundárias.
De acordo com Marinho (2010), também não podemos cair na contradição de
supervalorizar o processo de instrumentalização do esporte, considerando que os
Megaeventos sejam responsáveis pelas mazelas sociais. Assim, ele exemplifica:
Não foi a vitória brasileira na Copa do Mundo de 1970 que ratificou a
ditadura militar em que estávamos atolados. Mas fez parte do processo de
produção do consenso em torno da idéia de que vivíamos em um momento
glorioso de nossa história. Foi o período da construção de grandes Estádios,
como o de Erexim (RS), com capacidade para 45.000 espectadores. A cidade,
à época, não tinha tal população. (p.22).
Este capítulo, então, visa analisar os Megaeventos esportivos como uma questão
política-econômico-social; compreender as diversas dimensões/fios da realidade que
envolve a totalidade do objeto de pesquisa e seus aspectos ideológicos presente nos
discursos das políticas públicas relacionadas à realização dos Megaeventos esportivos
na cidade do Rio de Janeiro.
2.1 - Da conjuntura/estrutura atual do modo de produção capitalista
Para Marx e Engels (2007) o trabalho assalariado cria o capital. Isto é, a
propriedade que explora o trabalho assalariado só pode aumentar sob a condição de
produzir mais trabalho assalariado para voltar a explorá-lo. Segundo esses autores, em
sua forma atual, a propriedade se move entre esses dois termos antagônicos: capital e
trabalho. Assim, Marx e Engels (1986) ao mesmo tempo em que analisam o trabalho
como elemento humanizador, compreendem o trabalho como elemento que degrada a
existência humana (mediado pelas particularidades da sociedade capitalista). Dessa
forma, burguesia e proletariado formam uma unidade de opostos que ao mesmo tempo
se complementam (pois uma classe somente existe pela existência da outra) e se anulam
(pois lutam por interesses antagônicos).
Ao identificar as contradições entre capital e trabalho, trabalho e educação e
consumo, do processo que antecede oficialmente a realização dos Megaeventos na
cidade do Rio de Janeiro, e entendendo os Megaeventos esportivos como parte da
totalidade e mediação do sistema capitalista, pensamos ser possível comparar o discurso
do Projeto Rio em Forma Olímpico (um dos projetos esportivos que surgiram a partir da
data de escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de
2016) com a realidade do mesmo.
Para identificar tais contradições, pensamos ser relevante analisar a conjuntura
atual do modo de produção capitalista e as mudanças no mundo do trabalho que
culminaram hoje no modo de regime de “acumulação flexível” (HARVEY, 2008). Pois
entendendo os Megaeventos esportivos como parte da totalidade do sistema capitalista,
podemos partir do pressuposto que os Megaeventos são um exemplo de atuação do
capital e vêm apresentando cada vez mais uma função de reprodução hoje no mundo
globalizado, se reproduzindo e reproduzindo a força de trabalho através de diferentes
estratégias.
É relevante, nesse momento, retomarmos Marx e Engels (2007), que em 1848,
descreveram o funcionamento da crise do capital, para compreendermos o
funcionamento da atual crise mundial, bem como para compreendermos que tais crises
são cíclicas:
Assistimos hoje a um processo análogo. As condições burguesas de produção
e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna,
que fez surgir tão preciosos meios de produção e de troca, se assemelham ao
feiticeiro que não consegue mais dominar as potências infernais que evocou.
Há algumas décadas que a história da indústria e do comércio não é senão a
história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações
modernas de produção, contra o regime de propriedade que condicionam a
existência da burguesia e de sua dominação.
É suficiente mencionar as crises comerciais que, por sua periodicidade,
ameaçam cada vez mais a existência de toda sociedade burguesa. Cada crise
destrói regularmente não somente uma grande parte dos produtos fabricados,
mas também uma grande parte das forças produtivas já existentes. Nessas
crises irrompe uma epidemia social que, em qualquer outra época, teria
parecido absurda: a epidemia da superprodução (p.53).
E completam explicando a posição da sociedade nesse processo:
A sociedade se vê subitamente reconduzida a um estado de barbárie
momentânea; parece que uma carestia, uma guerra de extermínio lhe
tivessem cortado todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio
parecem aniquilados. E por que? Porque a sociedade possui demasiada
civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria,
demasiado comércio. As forças produtivas de que dispõem não favorecem
mais civilização burguesa e o regime da propriedade burguesa; pelo contrário
tornaram-se poderosas demais para esse regime que então passa a ser por elas
tolhido; e sempre que as forças produtivas sociais vencem esse obstáculo,
lançam na desordem toda a sociedade burguesa e ameaçam a existência da
propriedade burguesa. As relações burguesas se tornam demasiado estreitas
para conter a riqueza por ela gerada. E de que modo a burguesia poderá
suplantar essas crises? De um lado, destruindo pela violência uma massa de
forças produtivas; de outro, conquistando novos mercados e explorando mais
intensamente os antigos. Quais são os efeitos disso? A preparação de crises
mais gerais e mais poderosas e a diminuição dos meios de preveni-las. (p. 53)
Em cada período de crise, a sociedade passa por constantes ajustes, ou reformas,
no plano estrutural e superestrutural7, visando garantir a sobrevida ao sistema
capitalista. Atualmente, os referidos ajustes são representados pela reestruturação
produtiva e pelo neoliberalismo. Analisando a atual fase do modo de produção
capitalista, tendo em conta as mudanças que ao longo da história da humanidade vêm
ocorrendo no mundo do trabalho e que culminam hoje no modo regime de acumulação
flexível e, por consequência, na exigência da formação de um novo tipo de trabalhador
(HARVEY, 2008), podemos observar interesses do poder público para a produção dos
Megaeventos esportivos, em convergência com a manutenção do status quo e à geração
de lucro apenas para uma parcela da sociedade, como veremos no capítulo 2.
A manutenção do status quo está relacionada à capacidade de a classe dominante
articular coerção e consenso, o que desenvolve um nível de conformação bastante
observado principalmente na classe trabalhadora. As pessoas da classe menos
favorecida economicamente tendem a aceitar a impossibilidade de uma transformação
social, enquanto as pessoas das classes mais favorecidas tendem a reivindicar
privilégios e não apenas direitos, favorecendo a produção do consenso, “educando” as
massas trabalhadoras para o exercício da conformação. Com isso, toleram as políticas
privilegiáveis, a exploração do homem pelo homem, a aceitação das desigualdades
sociais, considerando-as justas e necessárias para a alocação e manutenção dos papéis
sociais (MARINHO, 2005). Sobre as classes mais favorecidas, conforme Soares (1992):
Seus interesses históricos correspondem à sua necessidade de garantir o
poder para manter a posição privilegiada que ocupa na sociedade. Sua luta é
pela manutenção do status quo. Não pretende transformar a sociedade
brasileira e nem abrir mão de seus privilégios (p. 22).
Sobre a manutenção do status quo e a necessária separação entre os direitos
sociais podemos citar Zaluar (1984):
A necessária separação entre os direitos sociais, ou seja, os direitos
à assistência estatal, ao salário mínimo nacional, a um padrão de vida
condigno, à educação livre, bem como o direito ao trabalho, de um lado, e os
direitos civis e políticos, e de outro, complicam o esquema dicotômico
particularista versus universalista. Pois os direitos sociais dos trabalhadores
colidem com os interesses materiais imediatos dos patrões ou os seus direitos
civis de montarem seus empreendimentos em liberdade, sem a intervenção do
Estado (p. 224).
7
Marx (1983) elaborou o conceito de estrutura e superestrutura para explicar as formações sociais. A
estrutura é composta pelas forças produtivas e pelas relações sociais de produção, que se constituem na
base sobre a qual as demais instituições são criadas. As ideologias políticas, concepções religiosas,
códigos morais e estéticos, sistemas jurídicos, sistemas de ensino, de comunicação, o conhecimento
filosófico e cientifico, entre outros formam a superestrutura.
Se refletirmos sobre o trajeto percorrido pela política pública educacional
brasileira, seus avanços e retrocessos, até chegar aos dias de hoje, veremos que a
educação influencia e é influenciada historicamente e de forma mediada em todas as
dimensões da sociedade. Essas políticas distintas de projetos societários e educacionais
vêm sendo defendidas divergentemente por grupos considerados progressistas e
conservadores, nas quais perante uma correlação de forças, na maioria das vezes
prevalece os interesses da classe dominante da sociedade, o que mantém e/ou aumenta a
desigualdade social (SAVIANI, 1982). Observamos que as últimas décadas têm trazido
grandes mudanças para a educação brasileira. Essas mudanças, que ainda obedecem aos
interesses de uma elite social, trazem consigo retrocessos que se reproduzem em toda a
sociedade, refletindo negativamente na qualidade de vida, no aumento da violência e na
manutenção da desigualdade social.
Embora nas favelas e nos bairros pobres da cidade, os efeitos da violência sejam
sentidos de maneira mais drástica, podemos dizer que os efeitos da violência
influenciam a dinâmica da vida social, gerando problemas para os moradores dos
bairros pobres e adjacências. Como exemplo, empresas que fazem entrega de
mercadorias em domicílio não entram em diversas favelas do Rio de Janeiro por
precaução ou pela própria experiência de ter sua mercadoria saqueada.
Frigotto (2005) analisa a natureza das principais mudanças na sociedade
nacional e internacionalmente, seu sentido dominante de exclusão e o amparo do projeto
educativo que se articula a esse processo. Através de um contexto que associa a
ideologia neoliberal aos processos de globalização do mercado ou “mundialização do
capital” (CHESNAIS, 1996), aumenta-se a concentração de riqueza, a exclusão social,
privatização e mercantilização da ciência e da tecnologia. Tendo como pano de fundo a
manutenção de uma política de cunho neoliberal para a diminuição de custos e a criação
de oportunidades de acesso ao sistema educacional público, a educação brasileira
vincula-se aos interesses da lógica do mercado. Conforme Frigotto (2005),
a função social da escola tem sido dominantemente enfraquecer as
perspectivas ético-políticas que afirmam a responsabilidade social, coletiva e
a solidariedade, e reforçar o ideário de uma ética individualista, privatista e
consumista. O objetivo é produzir um cidadão mínimo, consumidor passivo
que se sujeita a uma cidadania e democracia mínimas (p. 22).
Neste sentido, Mézáros (1981) afirma que a educação, sob a égide do capital,
possui duas funções: uma de produção das qualificações necessárias ao funcionamento
da economia, e a outra função, refere-se a formação de quadros e a elaboração dos
métodos para um controle político.
De acordo com Marx e Engels (2007), a economia é revolucionada
constantemente pelo capital. Assim, por meio da burguesia, o capital, engendra,
ciclicamente, mudanças nas relações de produção e nas relações sociais, fomentando
condições que possam enfraquecer sua superação.
Com a centralização das políticas educacionais pelo Ministério da Educação,
observa-se dois fenômenos distintos (contraditórios): Por um lado o Estado se
descompromete gradativamente com o financiamento da educação pública, sucateandoa cada vez mais, incentivando as instituições privadas privilegiando-as com generosos
recursos; de outro, o público vai se tornando o centro de tudo o que é ruim, segundo o
discurso dominante e o “privado”, de tudo o que é bom. Em uma sociedade neoliberal, o
acesso aos recursos privados de uma sociedade, depende da capacidade de cada um. Por
outro lado, os recursos públicos da sociedade dependem da necessidade. (APPEL, in
MOREIRA ; SILVA, 1995).
Em seu livro, A Condição Pós Moderna, David Harvey (2008) analisa a transição
de acumulação do capitalismo no final do século XX. No sistema econômico capitalista,
a influência da ação do Estado (ou das grandes corporações e instituições poderosas) e a
disciplinarização da força de trabalho com o objetivo de acumulação do capital,
implementaram no sistema binômio taylorista-fordista, uma nova organização de
trabalho que passou a ser cada vez mais hegemônica a partir da década de 1970, o
sistema de acumulação flexível do capital. Essas mudanças vêm ocorrendo como forma
de superar a crise do capital que vigorou entre a década de 1960 e 1970, quando surge
um novo regime de acumulação do capital, chamada por Harvey (2008) de acumulação
flexível.
O fordismo é ou foi não apenas modelo de acumulação capitalista, mas também
estratégia de reprodução da ordem capitalista o que implica a reprodução da força de
trabalho nas condições históricas – econômica, políticas, sociais e morais –
necessárias à perpetuação do sistema. Implica em estratégia de controle do proletariado.
Controle que combina repressão (estatal quando necessária e privada, no interior da
fábrica, cotidianamente) e ideologia. A ideologia de que o capitalismo permitiria à
classe operária um bom padrão de vida – com emprego estável, bons salários, boa
moradia, educação para os filhos, sistema de saúde e uma série de benefícios sociais
fornecidos pelo Estado e pelas corporações – ofusca a luta de classes integrando o
proletariado ao sistema.
Assim, o regime de acumulação flexível surge quando as contradições do
sistema de produção fordista chegou ao auge nos países centrais. Constatou-se que os
benefícios do “Estado de Bem Estar Social”, que já estava em decadência, não
chegavam a todos, e a classe trabalhadora continuava insatisfeita. De acordo com
Harvey (2008), uma das características do regime de acumulação flexível é a “intensa
compressão do espaço-tempo” que tem gerado “um impacto desorientado e disruptivo
sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe, bem como
sobre a vida social e cultural” (p. 257) Nas palavras de Harvey (2008),
A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do
envolvimento desigual, tanto entre regiões geográficas, criando, por exemplo,
um vasto movimento no emprego no chamado ‘setor de serviços’, bem como
conjuntos industriais completamente novos em regiões até então
subdesenvolvidas (p. 140).
Nesse caminho, o modelo de acumulação flexível gera mudanças. Diminuíram-se
os espaços para empregos estáveis, objetiva-se o rebaixamento do valor da força de
trabalho para se ampliar os mercados de consumo no contexto da crise de
superprodução, demandando-se a redução dos gastos públicos para viabilizar a redução
dos impostos dos ricos; nesse contexto, novas estratégias de submissão do proletariado
se fazem necessárias. A repressão continua a ser empregada e tende mesmo a ser
ampliada, mas a ideologia difundida muda. No lugar da adesão pela esperança de uma
vida boa e tranquila, com estabilidade de emprego, a ênfase na competição, na tese de
que não há como se assegurar os velhos direitos a todos e que cabe a cada indivíduo
preparar-se, qualificar-se, para manter-se na empregabilidade, tornando-se o mais
adaptável possível, de forma a conseguir transitar de uma função a outra e conseguir –
se não manter – conquistar novos empregos. De preferência que busque tornar-se um
empreendedor, pois não há mais lugar para os empregados acomodados à mesma
situação, é preciso buscar novos caminhos, arriscar-se no mercado, ser competitivo,
criativo, flexível.
A crise do emprego e as modificações do mundo do trabalho são decorrentes das
crises do modo de produção vigente, o modelo de acumulação flexível. Desenvolveu-se,
após a 2ª Guerra Mundial, predominantemente nos países europeus, sobretudo nos
países escandinavos, a Política do Estado de Bem Estar Social. Tal política põe o Estado
como agente de promoção social e organizador da economia, a fim de amenizar os
impactos do capital, adotando políticas pautadas na garantia de serviços públicos e
proteção à população. Mas como sempre acontece na história do capitalismo, a classe
trabalhadora logo se viu prejudicada com a decadência dessa política de estado, que foi
dando lugar ao neoliberalismo.
Em meio a tantas transformações pelas quais a sociedade vem passando no
decorrer da história da humanidade, uma característica parece muito comum ou
condutora desse processo. É a dominação da minoria em detrimento da grande massa
que, apesar dos direitos descritos na Constituição Federal brasileira promulgada em
1988, ficam dependendo de medidas assistencialistas. Observamos que a prática
educacional calcada na mercadoria ou na filantropia é uma forma de produzir o
consenso8. Nesse sentindo, essas medidas pretendem substituir o serviço público, cada
vez mais sucateado, por parcerias público-privadas. Assim, interesses privados são
favorecidos por isenções e favores, feitos em detrimento do interesse público.
Para Marx e Engels, Marx (1992) os verdadeiros problemas da humanidade não
são as ideias errôneas, mas as contradições sociais reais e que aquelas são consequência
destas. Os autores verificam que, na sociedade capitalista, enquanto os homens, em
consequência do seu limitado modo material de atividade são incapazes de resolver
essas contradições na prática, tendem a projetá-las nas formas ideológicas de
consciência, isto é, em soluções puramente espirituais ou discursivas que ocultam, ou
disfarçam, a existência e o caráter dessas contradições. Ocultando-as, a distorção
ideológica contribui para a sua reprodução e, portanto, serve aos interesses da classe
dominante.
Ao analisar a relação do esporte contemporâneo com o processo de alienação no
trabalho e de fortalecimento da ideologia dominante, Penna (2011), identificou que os
projetos de desenvolvimento do esporte no Brasil, têm participado do processo de
gerenciamento da crise do capital e do refluxo das lutas dos trabalhadores.
A crise do capitalismo na década de 1970 originou diversas mudanças do
paradigma capitalista. Contudo, o capital vem tentando manter-se hegemônico na
sociedade vigente. Esse período tem sido marcado pelas ações estatais flexibilizadoras
que vem afetando significativamente as políticas de cunho social e os investimentos
estatais nos setores produtivos e financeiros. Nesse caminho, a classe trabalhadora vem
8
Sobre esta questão ver: Pedagogia da Hegemonia (Neves, 2005).
sendo cada vez mais atingida, assistindo seus direitos, inclusive os básicos (saúde e
educação) serem retirados, em troca de privatizações desses serviços.
Nesse contexto, podemos considerar que o sentido da realização dos
Megaeventos esportivos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, não é em sua essência
“tornar o país uma potência olímpica” ou investir no esporte, na educação e na saúde
como forma de crescimento do país, como discursado nas campanhas pro-Copa do
Mundo de Futebol e pró-Olimpíadas. Ressaltamos que a essência do fenômeno Copa do
Mundo e Olimpíadas repousa numa manobra para desafogar a crise, em geral, e reduzir
os antagonismos entre classes sociais, em particular.
De acordo com Penna (2011), atualmente o esporte tem se destacado por ser
funcional tanto ao mundo globalizado, quanto ao projeto imperialista9, estabelecendo-se
como instrumento de contenção de conflitos através do discurso em defesa da tolerância
e paz no mundo. Segundo Penna (2001):
As condições impostas pela fase monopolista do capitalismo ocultam a
natureza dialética do esporte transforma-o num instrumento eficiente ao
projeto dominante de incremento da alienação humana. O esporte, sob a
forma assumida na contemporaneidade, não contribui para o avanço da
formação da consciência da classe trabalhadora, pois vem colaborando para
adiamento do projeto de emancipação da humanidade. (p. 7).
Historicamente, podemos comparar a utilização do esporte como alienação
social à política do Pão e Circo- Lei criada na Roma Antiga pelo imperador Otávio, que
consistia em distribuir alimentos e planejar vários eventos (como guerra de gladiadores
no Coliseu, por exemplo) para os camponeses a fim de que eles não se rebelassem
contra o Imperador. O objetivo era alcançado, já que ao mesmo tempo em que a
população se distraía e se alimentava também esquecia os problemas e não pensava em
rebelar-se. Toda vez em que o país enfrenta alguma crise, a mídia reforça alguma
noticia cultural, como o revellion e o Carnaval, por exemplo, mas na maioria das vezes,
é o esporte quem comanda.
É importante observar que o objetivo de utilização do esporte como alienação
social, não se prende somente a distrair a população para a não rebelião. Constitui-se
também, numa forma de promoção política e consequentemente, manutenção das
classes sociais. Pois as grandes empresas e os governos (municipal, federal e estadual)
investem e patrocinam os projetos sociais. As empresas além de se promoverem, ficam
isentas dos impostos e o sistema, além de promover candidatos, isenta-se da sua real
obrigação.
9
Ver Harvey (2005): O Novo Imperialismo.
Ou seja, por trás dos discursos que remetem às conquistas sociais, os
Megaeventos esportivos se inserem num projeto de marketing que envolve grandes
corporações capitalistas no intuito de mascarar o que de fato é a sua essência: ideologia
que visa à manutenção do status quo.
Quando afirmamos ser o materialismo histórico a fundamentação teórica desta
dissertação estamos nos apropriando da posição marxista segundo a qual “não é a
consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência". Deste
modo, em nossa análise, partimos do pressuposto de que as repercussões acerca da
realização desses Megaeventos a serem realizados no Rio de Janeiro10 (entendidas
enquanto superestrutura, na terminologia marxista) são consequências das condições
econômicas da vida prática (entendidas, por sua vez, enquanto infraestrutura). Em
outras palavras, a atual ordem social estratificada em classes e a relação de oposição e
exploração entre estas determinam o método (tomado no seu sentido original, enquanto
“caminho”) na prática cotidiana na cidade.
2.2 – Questões econômico-sociais: Porque nos envolvemos com o Esporte?
Nas próximas linhas discutiremos a influencia do esporte na sociedade, pois
podemos notar que a população está, direta ou indiretamente, cada vez mais envolvida
com a preparação dos eventos esportivos. Isso se dá por questões de sobrevivência
(busca de oportunidades que venham gerar renda), pela descoberta ou redescoberta da
importância da atividade física e/ou pelo processo de reordenamento na vida na cidade.
Essas formas de envolvimento estão interligadas; todas elas envolvem sentimentos,
expectativas e uma forma de educação. Afinal, segundo Marx (1982) o homem é um ser
social e o modo de produção da vida material condiciona a consciência (vida social,
política e espiritual) dos seres humanos.
Vemos, cada vez mais, as escolas, as indústrias, o poder público, a mídia, a
classe trabalhadora, manifestando seus interesses e esforços para obter benefícios desse
contexto. Nesse sentido, temos notado que a cidade do Rio de Janeiro está se tornando
palco de valorização da atividade física. Podemos observar nas ruas e nos principais
veículos de comunicação, a supervalorização da prática esportiva, e a mistificação do
esporte como melhoria da qualidade de vida e promoção da “cidadania”. Essa falsa
10
O Rio de Janeiro será uma das 12 cidades brasileiras a sediar a Copa do Mundo de Futebol.
dicotomia entre cultura e produção, fomenta a ideologia de que o trabalho e o lazer são
instrumentos que, por si só, são capazes de conferir a todos a condição de cidadão,
independente de etnia, condição social, gênero, numa sociedade de classes e regulada
pelo mercado, em que ser “cidadão” é sinônimo de ser consumidor.
Vale lembrar que em 1848, Marx e Engels (2007) já haviam anunciado a relação
da produção e do consumo e a exploração do mercado mundial, conferindo um caráter
cosmopolita por parte da burguesia. Segundo Marx e Engles (2007): “impelida pela
necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre.
Necessita instalar-se em toda parte, explorar em toda parte, estabelecer relações em toda
parte.” (p. 51).
Ao acompanhar a história da humanidade, podemos apreciar o esporte e os
eventos esportivos sob diversos aspectos. Veremos momentos em que o “surgimento”
de atletas serviram de referência para futuras gerações, no que se refere à superação de
desafios e ascensão social, mesmo que nem todos conquistassem o “patamar superior”.
Também deve ser levada em consideração a utilização da imagem dos grandes atletas
como indicadores de valores e paradigmas ideológicos, como propaganda, defesa de
ideias e opiniões. Dessa forma, “O modelo do esporte de alto rendimento acaba tendo
maior visibilidade e, por isso, maior possibilidade de influenciar as práticas esportivas
cotidianas” (MELO 2005, p. 71). Ao mesmo tempo, podemos notar que a realização de
um grande evento esportivo não se limita e nem se esgota apenas no campo esportivo.
Muitas vezes, o esporte teve uma função ligada aos interesses políticos e
estratégicos das instituições sociais e dos Estados. Como podemos observar quando as
políticas públicas tentam aproximar educação e festividades esportivas, elas apresentam
uma finalidade que vai além dos discursos e das aparências, como por exemplo:
angariar recursos e ocultar os vínculos do Estado com a classe dominante, podendo
escamotear os conflitos sociais. O que podemos entender como parte do jogo capitalista,
dissimular, com a justificativa da vontade política, as lacunas não preenchidas por este
modelo econômico.
Ao examinar o papel da “arquitetura do espetáculo”11 na reurbanização de
Pequim em meio aos preparativos para sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de
2008, Anne-Marie Broudehoux (2010) avalia que:
A fantasmagoria do espetáculo da mercadoria se tornou um estratagema
mediante o qual o Capitalismo podia assegurar sua própria sobrevivência,
utilizando o consumo conspícuo e as falsas promessas da publicidade, as
vitrines e a abundância de mercadorias para despolitizar as massas e atribuirlhes um papel passivo nos assuntos públicos. Desse modo, uma das principais
funções do espetáculo da mercadoria consistiu em distrair a atenção popular
do debate público, com o intuito de intensificar o controle social, gerar
consenso e promover o consumo (p. 41).
Em suma, seja pelo eixo da socialização, pela idéia de promoção da saúde, pelo
lazer ou formação escolar, o esporte é parte integrante das relações econômico-sociais
que são hegemônicas em um determinado espaço/tempo histórico-cultural. De acordo
com Thompson (1987) não é possível dissociar cultura e economia. Assim, tratando-se
dos esportes, sobretudo os massificados, vemos o seu emprego dentro da ideologia
vigente, como fator de interação social, além de seu papel afirmativo nas relações de
classe. Thompson (1987):
É essencial manter presente no espírito o fato de os fenômenos sociais e
culturais não estarem ‘à reboque’, seguindo os fenômeno econômicos a
distância: eles estão em seu surgimento, presos na mesma rede de relações (p.
208)
É vasta a bibliografia que aborda o desenvolvimento do esporte e dos Jogos
Olímpicos. Esse desenvolvimento não é linear, nem é constituído de início, meio de fim.
Essas atividades fazem parte do contexto político, econômico e social. Como já dito o
esporte é parte integrante das relações sociais, econômicas e histórico-cultural.
Conforme Kosik (1995), “a essência se manifesta no fenômeno. O fato de a essência se
manifestar no fenômeno revela seu movimento e que ela não é inerte nem passiva.” (p.
15). Portanto, a essência do esporte não é inerte porque é histórica, e se é histórica está
em processo, em movimento.
A questão do esporte, corpo, cultura, educação, trabalho, economia, estão
interligados e fazem parte de uma totalidade concreta, contraditória e que vive em
constante movimento. Ao abordar questões fundamentais sobre a práxis marxista,
11
Anne-Marie Broudehoux refere-se ao “espetáculo” baseada em Guy Debord, que caracterizou a
sociedade capitalista como a “sociedade do espetáculo”, entendendo o espetáculo como uma manipulação
dos processos de criação de sentido para servir a produção de poder político e econômico.
consciência e economia, Kosik (1995) nos indica que para compreendermos o todo, é
necessário a decomposição do todo, analisando cada pedaço, conforme suas palavras:
Para nos aproximarmos da coisa e da sua estrutura e encontrar uma via de
acesso para ela, temos de nos distanciar delas. É sabido como é cansativo
elaborar cientificamente os acontecimentos contemporâneos, enquanto a
análise dos acontecimentos passados é relativamente mais fácil porque a
própria realidade já se incumbiu de fazer uma certa eliminação e “crítica”. (p.
28)
Antes de tratar dos Megaeventos esportivos que serão realizados no Brasil,
faremos referência à alguns deles ocorridos no Brasil. A análise sobre esses
Megaeventos é importante para compreendermos este fenômeno em sua totalidade, os
interesses antagônicos envolvidos e suas contradições, bem como suas repercussões na
vida da classe trabalhadora. Assim, através da abordagem histórica o pesquisador tem
acesso a como os Megaeventos são produzidos.
Não faremos uma análise histórica sobre os Megaeventos esportivos, que
ocorrem de dois em dois anos (a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos, que
ocorrem de quatro em quatro anos, deixando um espaço de dois anos ente cada
realização), variando seu local de realização. Pois em diversos momentos desse
trabalho, citaremos destaques de Megaeventos esportivos que elucidam as questões que
estão sendo apresentadas.
2.3 – Os Megaeventos esportivos no Brasil
Se trouxermos a discussão para o Brasil nos tempos atuais, podemos observar
diversas contradições, dentre elas: a utilização do esporte como meio de controle social,
como meio de segregação social (eventos elitizados com valores altíssimos, ao mesmo
tempo de eventos populares; atividades diferenciadas para a classe trabalhadora e para
os grandes empresários), mas também como meio de conquistas, ou de propostas de
geração de trabalho e renda para a classe trabalhadora, melhorias no funcionamento
estrutural da cidade etc. Podemos citar como exemplo de controle social, a Copa do
Mundo de 1970, na qual a campanha desportiva que conduziu ao tricampeonato
deliberadamente mascarou os conflitos sociais do regime autoritário militar.
A posição do então presidente Emilio Garrastazul Médici remetia à clássica
política romana do panis et circenses de satisfazer as necessidades imediatas da
população como forma de dirimir os ânimos contrários ao status quo. No Brasil, a
década de 1970 foi um período conturbado, marcado pela ditadura do regime militar,
instaurado em 1964. O período em que Médici presidiu o país é considerado o mais
repressivo da história do Brasil, resultando na morte e tortura de centenas de
oposicionistas, a maioria estudantes, que lutavam contra a “política de modernização”
do país, acusados de "subversão".
Vale observar que a Copa do Mundo de Futebol de 1970, foi realizada no
México. Mas o Brasil, já sediou outros Megaeventos desportivos como a Copa do
Mundo de 1950, e os Jogos Pan Americanos, em 2007. Tendo em vista que este último
Megaevento foi realizado recentemente, discorreremos mais sobre ele nesta dissertação.
Poucos registros se têm da Copa do Mundo de Futebol de 1950, mas vale dizer
que o Estádio Mário Filho, o Maracanã, que do segundo semestre de 2010 até o
primeiro semestre de 2013, esteve em período de reformas para adequações exigidas
pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), foi construído para este Megaevento.
As atuais reformas12, que estão sendo realizadas para atender as exigências da
Federação Internacional de Futebol, vêm sendo veementemente criticada pelos usuários
do Maracanã, além de estar custando bilhões dos cofres públicos. De acordo com o
Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das
Olimpíadas:
O Maracanã foi uma das principais obras já feitas no país. O “Maior do
Mundo” consagrou uma divisão setorial que já era encontrada nos principais
estádios: Geral, Arquibancada, Cadeiras Numeradas, Camarotes e Tribuna de
Honra, esta última reservada para autoridades e personalidades. Se, por um
lado, este desenho era uma representação da segregação econômica, social e
política do país, por outro, garantia a participação de todos na platéia do
mesmo espetáculo. [...] Arquibancada e Geral acomodavam 80% do público
(p.12).
Sobre a participação popular no Estádio, o mesmo Dossiê revela o que milhares
de brasileiros vivenciaram:
Durante décadas, estádios como o Maracanã e tantos outros pelo Brasil se
transformaram em espaços míticos que reuniram brasileiros de todas as
classes sociais. Avós, pais, filhos, netos e bisnetos comungaram da paixão
pelo futebol e da experiência festiva, musical e catártica de estar em um
estádio. Mais que isso, moldaram e evoluíram formas de torcer próprias de
cada região do Brasil, identidades culturais que nos marcam como brasileiros
e como sujeitos de nossos costumes e manifestações locais (p11).
12
O Maracanã reabriu em junho de 2013 para sediar alguns dos Jogos da copa das Confederações
realizada nas 12 cidades brasileiras que sediarão a Copa do Mundo de Futebol em 2014. E após a Copa
das Confederações voltou ás reformas.
Ainda de acordo com o Dossiê, o valor das obras estava estimado em 1 bilhão de
reais e após os Jogos de 2014, o Maracanã seria repassado à iniciativa privada. Esses
valores, diariamente, têm sido ultrapassados, as obras encontram-se atrasadas e o edital
de licitação do Estádio, encontra-se em vigor.
A controversa frase “aos amigos tudo, aos inimigos, a lei.”, a nosso ver descreve
as parcerias público-privadas (PPP’s), que segundo a ideologia dominante servem para
desonerar e dinamizar as ações do Estado. Na realidade concreta há uma distorção desse
processo, visto a grande influência no rumo das políticas públicas, por parte dos
“parceiros” do governo. Na cidade do Rio de Janeiro, tal distorção toma enorme
proporção, o que nos leva a questionar a legitimidade de muitas dessas PPP’s, como a
do Maracanã.
Já os Jogos Pan Americanos de 2007, em função da sua recente realização,
deixaram muitas marcas na história política, urbana, econômica e cultural na cidade do
Rio de Janeiro. A título de exemplo: Para a realização dos Jogos Pan Americanos, foi
ostentada a ideologia de que o Pan deixaria muitos legados sociais, inclusive a (re)
apropriação dos espaços urbanos, que foram construídos para as competições e que hoje
encontram-se praticamente abandonadas e sob o risco de serem demolidas por não
estarem de acordo com as regras para instalações para a realização das Olimpíadas, que
é um Megaevento de maior proporção, como o Parque Aquático Maria Lenk, na Barra
da Tijuca .
Esse Megaevento, realizado pela Organização Desportiva Pan–Americana
(ODEPA), ocorreu entre os dias 13 e 29 de julho de 2007, com a participação de 5662
atletas de 42 países do continente americano (América do Sul, América Central e
América do Norte), que disputaram 35 modalidades esportivas. A Organização
Desportiva Pan-Americana é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, sendo a
organizadora dos Jogos Pan-americanos Parapan-americanos e de outros eventos
olímpicos nas Américas e é a entidade que reúne os Comitês Olímpicos Nacionais dos
países do continente americano.
Com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Pan Americanos de 2007,
iniciou-se um processo de corrida contra o tempo para preparar a cidade. Além do
compromisso dos órgãos públicos em enquadrar a cidade nos requisitos exigidos pelo
Comitê Olímpico Internacional, as grandes empresas também buscaram suas formas de
lucrar com essa oportunidade. Assim, as empresas que mais sobressaíram foram aquelas
que formaram uma parceria com os órgãos públicos. Essas parcerias público-privadas,
bem como muitas outras questões negativas para a classe trabalhadora em relação aos
Jogos Pan Americanos, foram denunciadas por veículos de comunicação não
corporativos,
como
o
blog
A
verdade
sobre
o
Pan
(http://averdadedopan2007.blogspot.com.br/), que ainda no ano de 2007, foi “tirado” do
ar13.
Vale registrar que um blog não conta especificamente como referência para este
trabalho, mas as informações contidas nele são de grande relevância já que o mesmo
aborda questões de denuncia, apresentando fortes evidências sobre as irregularidades
nos processos de realização dos Jogos Pan Americanos, que não foram divulgados na
grande mídia. Pois a grande mídia priorizou valorizar, ao público, o lado positivo do
esporte e da realização de tal evento no Rio de Janeiro, deixando de fora (ou
distorcendo) dos noticiários as remoções, manifestações, problemas estruturais nas
obras, e o destino do “legado do Pan”.
Fundamentados em Marx, os pensadores Horkheimer e Adorno, desenvolveram
o conceito sobre a indústria cultural. Denunciaram o funcionamento dos meios de
comunicação de massa e a indústria do entretenimento como um sistema que não só
assegura a sobrevivência do capitalismo, mas também mantém sua função essencial em
sua preservação, reprodução e renovação. De acordo com Konder (2002), esses autores
marxistas, identificaram que a ideologia dominante investe na positividade porque está
empenhada em evitar que, pela negação, as pessoas tomem consciência de quanto o
quadro da realidade constituída é negativo.
Os principais veículos de comunicação, regulados pelas regras do mercado e
controlados por um grupo seleto de investidores privados, produziam reportagens sobre
o andamento das obras, segurança pública para atletas e turistas, os legados que o Pan
poderia deixar etc. Enfim, esses veículos de comunicação geraram um clima de
preocupação com a imagem da cidade perante aos organismos internacionais e uma
ideologia de progresso para a cidade e para a sociedade.
Diferentemente da tradicional ideologia do desenvolvimento nacional que
norteou as políticas públicas desde a Era Vargas (1930-1945) até o período da ditadura
militar, vemos aqui uma espécie de releitura neoliberal desta ideologia de Estado,
13
Apesar do site ter sido censurado, seu autor produziu um novo
blog
(http://rio2016blog.wordpress.com/a-verdade-do-pan-2007/) com o mesmo conteúdo, porém não
divulgou-o.
valendo-se do esporte como chamariz para investimentos privados nacionais e
internacionais.
Ao avaliar a questão da Chacina do Morro do Alemão, que ocorreu às vésperas
da realização do Pan Americano, Alvarenga Filho (2010) aponta um bom exemplo do
poder da mídia, influenciado pelo poder público, sobre as tantas contradições na
sociedade carioca em prol da realização deste Megaevento esportivo.
Segundo
Alvarenga Filho (2010):
Jornalistas supostamente preocupados com a crescente “onda de
criminalidade” na cidade, criaram um cenário no qual tornou-se urgente que
os organizadores dos jogos em parceria com as forças estaduais e federais
tomassem uma atitude quanto ao “risco” de um atentado durante o evento.
Atitude, neste caso, como sinônimo de repressão policial sobre as populações
pobres. (p. 36)
Ao discutir as questões da estrutura das sociedades contemporâneas à luz do
materialismo histórico, Lefebvre (1999) avalia que as pessoas consideram-se
reciprocamente apenas pela relação de utilidade. Assim, os mais fortes, os capitalistas,
apropriam-se de tudo. Portanto, o capital, propriedade direta ou indireta dos meios de
produção e das subsistências, é a arma da luta na guerra social. Ninguém se preocupa
com aquele que não tem capital nem dinheiro. Se este não encontra trabalho, pode
roubar, morrer de fome, segundo suas palavras: “a polícia vigiará para que ele morra de
uma maneira tranquila, sem ferir de nenhuma maneira a burguesia (p.16).
O complexo de favelas do Morro do Alemão é apenas um, de muitos, contrastes
urbanos e sociais da cidade do Rio de Janeiro. A cidade conhecida como “cidade
maravilhosa”, por suas paisagens e belezas naturais, também abriga territórios a serem
negados pela burguesia. São os espaços habitados pelas comunidades populares,
considerados como territórios de ausência de civilidade e urbanidade, tradicionalmente
vistos como locais de desordem, doença e vício (OBSERVATÓRIO DAS FAVELAS,
2007). É importante lembrar que, historicamente, os investimentos em habitação
popular são qualitativamente e quantitativamente insuficientes. Em contrapartida, os
investimentos para a realização dos Jogos Pan Americanos, ultrapassaram R$ 3,4
bilhões, como revela o já citado Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos
Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas:
No período dos Jogos Panamericanos de 2007, quando assistimos ao
desperdício de recursos públicos (de acordo com o TCU, mais de R$ 3,4
bilhões foram gastos de forma indevida, mas ninguém foi punido) em obras
superfaturadas que se transformaram em elefantes brancos e, tão ou mais
grave, o abandono de todas as “promessas” que geraram na sociedade,
expectativas de algum “legado social”. (p.84)
Mais adiante o mesmo Dossiê destaca que:
Se forem contabilizados os recursos investidos para a construção de
equipamentos para Copa e Olimpíadas, o país poderia diminuir o déficit
habitacional, ampliar o acesso aos serviços urbanos básicos, promover
melhorias socioambientais, programas de trabalho e renda, investir na saúde
pública e na educação. Além disso, poderia construir uma política esportiva
que promovesse o esporte amador, além do esporte de alto rendimento e não
beneficiar quem faz do esporte, fonte de acumulação de poder e de riquezas.
(p. 84).
Observamos, durante os Jogos Pan Americanos que as principais notícias
estavam vinculadas a esse período de festa para “o povo brasileiro”, comemoração,
torcida. Pouco, ou nada, foi noticiado sobre as principais necessidades da classe
trabalhadora, pouco se ouviu discursar em descaso do governo com a educação, com a
saúde, transporte público, com a segurança pública para os moradores da cidade do Rio
de Janeiro. A preocupação do governo com a segurança pública, saúde e transporte
público, estava associada à estadia dos turistas, bem como os membros dos organismos
internacionais. Assim, podemos dizer que nas principais áreas de realização das
competições e nas áreas de hotelaria e serviços associados, tudo funcionou muito bem
durante o referido período.
Prova de que a preocupação do Governo era apenas o “bem estar” dos turistas no
Rio de Janeiro, foi a maneira pela qual a questão do trafego foi momentaneamente
“resolvida”: foram criadas faixas seletivas nas principais vias do Rio de Janeiro, sendo
permitido o acesso somente dos carros oficiais e autorizados, sob pena de multa para
quem trafegasse na mesma sem autorização. Fora as escolas, que tiveram suas aulas
suspensas durantes todo o período dos Jogos, emendando depois, com as férias
escolares.
Vale lembrar que para esta realização, as ações dos três entes federativos tiveram
certo grau de articulação durante esse período. Tropas federais nas ruas, as escolas
ficaram sem aula (e por meio da inversão da realidade, os alunos achando que estavam
sendo beneficiados). Com isso o trânsito fluía melhor, os hospitais públicos tinham
médicos suficientes para atender aos turistas, as ruas e vias mais próximas aos hotéis e
locais de competição estavam todas policiadas etc. Tudo isso porque o Rio de Janeiro
recebeu muitos turistas e o Brasil precisa ser bem visto pelos outros países em prol das
relações internacionais e da economia do país.
A ideologização do Esporte é uma das mediações do capital que escamoteia as
outras demandas da classe trabalhadora. Mas nossa experiência em relação aos Jogos
Pan Americanos, em 2007, mostrou que as políticas públicas estiveram articuladas,
ainda que só para os turistas. No entanto, só poderemos desfrutar da saúde, educação,
emprego, esporte e tudo mais que atenda as demandas sociais, quando as políticas
públicas estiverem permanentemente articuladas. Pois como prova a nossa história, em
isolado essas políticas não são suficientemente efetivas para dar conta da enorme
demanda social.
Por que todo esforço para atender os turistas não é realizado diariamente para a
classe trabalhadora? Por que não se tem um número efetivo de médicos nos hospitais
públicos diariamente? Entendemos que estes espaços públicos, hoje estão precarizados
como parte da política governamental que segue desde os anos de 1980. Nesse sentido,
discursar sobre de saúde, educação e lazer para todos deve significar iniciar um
movimento maior da classe destituída para a recuperação formativa desses espaços.
Como nos reporta Broudehoux (2010):
O espetáculo é tão essencial para a nova economia urbana que um dos meios
mais eficazes para intensificar a imagem mundial de uma cidade é sediar
eventos globais, tais como mostras, conferencias e grandes competições
esportivas internacionais. Ser palco de eventos espetaculares de alta categoria
não só aumenta a visibilidade global ao promover a imagem da cidade como
um lugar vital e dinâmico, mas também contribui para legitimar
transformações em grande escala, permitindo aos governos locais alterar
prioridades na agenda urbana sem o escrutínio público a que normalmente
estão sujeitos (p. 42).
E para que isso fosse possível, o maior esforço veio da classe trabalhadora.
Como exemplos: o trânsito desviado; obras superficiais de “melhorias” na cidade para
facilitar o trânsito ou deixá-la mais bonita, escondendo a desigualdade social; crianças
sem escola; sem falar nos “os voluntários” do Pan, que foram incentivados a trabalhar
de graça, em troca de participações em eventos, como shows para o povo. Sabemos que
no interior do modo de produção capitalista, a desumanização do trabalhador é indicada
via trabalho, enquanto seu real processo de humanização passa pela redução de sua
jornada de trabalho por dia e sua imersão no lazer, e nesse caso, um lazer alienante.
De acordo com Mézáros (1981): a ideologia burguesa, desde Adam Smith, trata
os problemas da educação e do lazer em termos utilitários encarando: como “diversão
da mente”, destinada em parte a integrar o trabalhador à produção: seja pela restauração
de sua força física e/ou direcionando-o para o consumo, e em parte para mantê-lo longe
da “libertinagem, que representa desperdício.”
Nesse sentido vale nos reportar a (GOLDMAN apud PAIVA, 1998), que nos
lembra que o domínio das classes dominantes sobre, principalmente, os que participam
ativamente do processo produtivo está deslocado para o plano da violência intelectual e
da redução da atividade do campo da consciência, levando os indivíduos a se
preocuparem com o consumo.
Por que não houve uma dinamização do setor cultural que fornecesse
infraestrutura para assegurar o funcionamento dos Estágios e Vilas Olímpicas,
construídos com altíssimos e duvidosos custos para a realização dos Jogos Pan
Americanos? Por que os Estádios e Vilas Olímpicas que foram construídos com
altíssimos custos públicos, sob denúncias de ter sido desviado dinheiro de outras esferas
públicas, serão demolidos para ser construídos outros Estádios? Por que nos projetos de
reordenamento da cidade para a realização dos Megaeventos, não há participação da
comunidade? Se fosse mesmo para o bem estar social, como dizem nossos governantes,
o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes e o Governador do Estado do Rio de Janeiro,
Sérgio Cabral Filho, “uma conquista do carioca”, porque não desvincular a oferta de
atividades da relação custo/benefício que norteia a contabilidade financeira em
detrimento da contabilidade social?
Seguindo as palavras de Marinho (2010): “O consenso acontece pela adesão das
grandes massas sob orientação das classes proprietárias dos meios de produção” (p. 34).
Assim, o objetivo de utilização do esporte como controle social não se prende somente a
distrair a população, mas, sim, para manter um estado de contrarrevolução permanente e
estimular o consumo para fortalecer o mercado. Constitui-se também, numa forma de
promoção política e consequentemente, manutenção das classes sociais14. Segundo
Paiva (1998):
A concepção de mundo imposta sobre o indivíduo tem cada vez mais exigido
das instituições sociais uma atividade receptiva concentrada, que assegure a
permanência da classe dominante no poder. Para que isso aconteça se faz
necessário disseminar mecanismos homogeneizantes do comportamento
social de modo que todos apresentem os mesmos desejos, as mesmas
sensações, as mesmas reações as necessidades que lhes são impostas (p. 22).
A partir de uma visão marxista de mundo, lazer e trabalho são partes integradas
da totalidade do ser social e a liberdade, a luta pela superação no reino das necessidades.
Dessa maneira, o esporte, que possui características de luta, vitória, superação, emoção
e beleza, carrega consigo grande identificação com o indivíduo massificado na condição
de proletário, sempre em busca de superação das suas necessidades e em busca de uma
fuga da tensão diária. Nesse sentido, a ideologia dominante fomenta um forte apelo
14
Sobre coerção e consenso ver também em: Gramsci (1982): Os Intelectuais e a Organização da Cultura;
e Gramsci (2004): Cadernos do Cárcere volume II.
social através da beleza do esporte e da supervalorização dos grandes ídolos esportivos,
estimulando a sociedade voltada para o espetáculo, para o consumo. O esporte passa a
ser encarado como atividade com fim em si mesmo, favorecendo a ideologia neoliberal.
No liberalismo, o indivíduo é considerado responsável pelas mazelas sociais, ou seja,
não há uma análise crítica e radical da estrutura da sociedade capitalista. Assim, a
exploração capitalista do tempo que era (ou podia) para ser dedicado ao lazer, tem sido
levada ao domínio do espírito comercial e alienante (MÉZAROS, 2008). Em nosso
entender, o lazer nesse modelo de sociedade assume uma função ideológica
principalmente através da prática desportiva, introduzindo a indústria do e no esporte,
de modo a ratificar a divisão entre consumidores e os grandes nomes do esporte, que,
via de regra, superam os obstáculos por esforço próprio, e alcançam o pódium , o
sucesso.
Conforme nos reporta Marcelino apud Paiva (1998) podemos entender essa
mercantilização do lazer, como compensatória ou utilitarista. Visto que, dessa forma o
lazer é utilizado como meio de compensar a insatisfação e a alienação provocadas pelo
modelo de trabalho imposto pelo modo de produção capitalista, em que suas relações
são pautadas pelos valores do mercado, consumo, competição, livre da concorrência sob
a falsa ideia de liberdade.
2.4 - A preparação da cidade: a “cidade maravilhosa” entra em campo
É possível observar que com a escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI)
para cidade do Rio de Janeiro, sediar as Olimpíadas de 2016, as políticas publicas em
todas as esferas governamentais se voltaram para a supervalorização do esporte
brasileiro. Com a escolha do Rio de Janeiro em dois de outubro de dois mil e nove, o
prefeito da cidade, Eduardo Paes, decretou ponto facultativo para os funcionários
públicos. O acontecimento foi a notícia mais importante dos veículos de comunicação
daquele dia, apesar de consecutir na paralisação serviços públicos considerados
essenciais, como escolas e hospitais da rede pública municipal.
Em relação aos investimentos financeiros para a Copa do Mundo de 2014,
embora não seja nosso objetivo de pesquisa, é relevante relatar um estudo realizado no
primeiro semestre de 2011, pela Consultoria Legislativa do Senado Federal que
compara o investimento financeiro dos países-sedes em todas as intervenções que
levaram a rubrica de "obra da Copa" dada pelos comitês organizadores, para elucidar a
ideia de que o capitalismo se vale desses Megaeventos para sua reprodução. Conforme o
estudo, as Copas do Mundo, Japão e Coréia (2002), Alemanha (2006) e África do Sul
(2010) consumiram juntas, US$ 30 bilhões (US$ 16 bilhões, US$ 6 bilhões e US$ 8
bilhões, respectivamente), enquanto todas as Copas da história juntas teriam consumido
US$ 75 bilhões. Este mesmo estudo, divulgado na página virtual de Esportes15,
denuncia que no Brasil os gastos atuais, segundo as autoridades de governo e
empreiteiras envolvidas nas obras somam US$ 40 bilhões.
As manifestações em relação a realização dos Megaeventos a serem realizados
na cidade do Rio de Janeiro não são apenas as manifestações de ordem dominante
(embora estas sobressaiam). Há diversos grupos que vem apontando questionamentos e
insatisfações sobre as maneiras pelas quais a cidade vem se preparando para atividades
que os próprios moradores da cidade pouco ou nada usufruirão. Como exemplo,
podemos citar que no dia 30 de Julho de 2011 foi realizada uma festa para o sorteio das
eliminatórias da Copa do Mundo de 2014. A cerimônia ocorrida na Marina da Glória
foi restrita a um público selecionado, contando com a presença de dirigentes políticos e
esportivos de todo o mundo, incluindo a Presidente da República Dilma Rouseff e show
da cantora Ivete Sangalo. Essa festa foi realizada pela empresa Rede Globo16 e, segundo
Borges (2011), esta empresa recebeu dos Governos Estadual e Municipal, R$ 30
milhões para organização da cerimônia do sorteio das eliminatórias da Copa do Mundo
de 2014. Conforme as palavras de Borges:
Os R$ 30 milhões pagos pelos contribuintes servirão para remunerar a Geo
Eventos, empresa das Organizações Globo e do Grupo RBS. Ela foi
contratada com exclusividade pelo Comitê Organizador Local (COL) da
Copa do Mundo de 2014 para conseguir patrocínios para a tal festinha.
Vale destacar, que neste dia, cerca de mil manifestantes, do Comitê Popular da
Copa e Olimpíadas e outros movimentos, como os funcionários da rede estadual de
educação participaram do ato público “Marcha por uma Copa do Povo”. (ADUFF,
2011). No entanto, esta manifestação não foi divulgada nos principais veículos de
comunicação.
15
http://www.pi10.com.br/
Rede Globo é uma rede de televisão brasileira, fundada em 1965, na cidade do Rio de Janeiro (RJ),
pelo, então jornalista, Roberto Marinho. É assistida por 150 milhões de pessoas diariamente, sejam elas
no Brasil ou no Exterior por meio da TV Globo Internacional. A emissora é uma das maiores redes de TV
comercial do mundo e um dos maiores produtores de telenovelas, sendo parte do grupo empresarial
Organizações Globo.
16
Aqui cabe um parêntese. Para Thompson (2001), classe é, ou deveria ser, uma
categoria histórica descritiva de pessoas numa relação no decurso do tempo e das
maneiras pelas quais se tornam conscientes de suas relações, como se separam, unem,
entram em conflito, formam instituições e transmitem valores de modo classista. Nesse
sentido, classe é uma formação tão “econômica” quanto “cultural” (p. 260). Destarte,
esta situação reforça o que Thompson (2001) nos atenta para o fato de as alterações nas
relações produtivas serem vivenciadas na vida social e cultural, de “repercutirem nas
ideias e valores humanos e de serem questionadas nas ações, escolhas e crenças
humanas” (p. 263). As relações de poder, as formas de dominação e de organização
social têm sempre sido um desdobramento do conflito e não resultado das mudanças
involuntárias, embora elas introduzam novas forças em cena e modifiquem a correlação
de poder e riqueza entre classes sociais diversas.
A partir das contradições identificadas no contexto de preparação para os
Megaeventos esportivos, é possível desvelar as manobras do poder público, bem como
as parcerias público-privadas para o atendimento de interesses próprios, mesmo que
esses interesses atendam somente a uma parcela da sociedade, passando a ideia de que
todos serão beneficiados. Sendo assim, é importante investigar o que está por trás dos
discursos ideológicos, analisando sua essência, que, podem vir colaborar para a
manutenção do status quo, ou para uma práxis transformadora.
Um dos grupos que manifestam posições contrárias às maneiras pelas quais a
cidade se prepara para os Megaeventos, formado pela Articulação Nacional dos
Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas, formulou um Dossiê sobre as violações
dos Megaeventos, revelando e denunciando as ações dos empresários, em parceria com
o poder público nesse processo de preparação da cidade para a realização da Copa do
Mundo de Futebol de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Ações essas que vão desde as
reformas milionárias dos Estádios até o controle dos patrocinadores para com a
organização do evento, exclusividade de venda de seus produtos e divulgação da
imagem.
O Estádio Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, além do gasto
excessivo com as obras e elevação dos valores dos ingressos, propõe uma reorganização
um tanto elitizada do Estádio, como: capacidade de público diminuída e setores
populares distintos. Sobre esse assunto, Os membros da Articulação Nacional dos
Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas manifestam sua opinião:
Sem a geral dos estádios, “assassinadas” arbitrariamente, morrem também
as manifestações populares bem-humoradas, que se consagraram ali. Sem as
arquibancadas, espaços de criação coletiva das torcidas, transformados em
setores de cadeiras numeradas com lugares marcados – inclusive com a
proibição de assistir o jogo em pé –, vão sendo inviabilizados elementos e
‘brincadeiras’ que só eram possíveis com a mobilidade dentro dos estádios,
como as coreografias, o baile de bandeiras nos bambus, os “bandeirões” e as
bandas musicais e baterias percussivas. O resultado de todo este processo,
observado de forma similar em todos os estádios da Copa, não é apenas o
afastamento das classes populares dos locais das partidas, mas também a
violenta asfixia de uma das mais ricas e autênticas manifestações da cultura
popular brasileira. (p.12).
O processo de remoção de determinadas comunidades para as instalações
Olímpicas encontra-se, atualmente, na essência do fenômeno. Além do propósito de
“higienização social” indica o uso futuro de terras de alto valor imobiliário ou onde o
Estado pretende repassar a mais-valia decorrente de seus investimentos à iniciativa
privada. Essa estratégia implica ainda a periferização das comunidades expulsas para
longe de suas redes de inserção econômica, social e cultural, via de regra em locais
carentes de serviços públicos, o que causa total transtorno ou impossibilidade de
assimilação, por exemplo, nos postos de saúde e escolas. (ARTICULAÇÃO
NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012).
De acordo com este Dossiê:
Os ex-moradores relatam que seus filhos não estão mais indo à escola, pois
são superlotadas nas novas localidades. Ainda, muitos reclamam ter perdido
seus empregos como consequência da própria remoção e necessidade de
deslocamento para outra comunidade longe do local de trabalho anterior . (p.
31)
Verificamos, assim, esse processo de deslocamento de famílias para outras
favelas17 sem muita estrutura, provoca a superlotação dos serviços básicos, que já nem
são adequados, como saneamento, saúde e educação. No que se refere à educação,
observa-se que esse processo pode gerar ausência de vagas ou queda da qualidade de
ensino provocada pela ampliação do número de alunos por sala de aula.
A experiência dos Jogos Pan Americanos de 2007, nos aponta para o interesse
empresarial
volátil/temporário
quanto
aos
investimentos:
grandes
projetos
arquitetônicos, como estádios e vilas olímpicas. Hoje, as principais obras do “legado”
do Pan encontram-se sucateadas, abandonadas ou em progressiva decadência. É o caso
17
Ressaltamos que optamos pelo uso da palavra “favela” ao invés de “comunidade”, por acharmos que a
primeira opção, ainda que carregue consigo certa carga pejorativa, é mais repleta de significado.
Enquanto a segunda opção é mais genérica, podendo ser usada para descrever outras formas de
organização comunitária que não tenham os elementos comuns a uma favela.
da Vila do Pan, que hoje se encontra parcialmente habitada, e seus moradores
encontram sérias dificuldades para manter a infraestrutura do local, projetado para ser
um condomínio de alto luxo, o que demanda altos gastos com manutenção. Outro
exemplo é o Estádio Olímpico João Havelange (Engenhão), inaugurado em 2007,
atualmente encontra-se interditado por conta de risco de desabamento. Em se tratando
do modelo de sociedade que vivemos (sociedade capitalista), é relevante destacarmos a
desigualdade em que se fundam as relações de produção, de modo a hierarquizar toda
sociedade segundo a identificação por um lado de capitalistas, empresários e por outro
lado, trabalhadores, operários, desempregados, subempregados.
Contudo, constata-se que a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do
Rio de Janeiro vem manter a ordem social, beneficiando apenas os grandes empresários
e o poder público. Em contrapartida, a prefeitura do Rio de Janeiro tem investido em
projetos que propõem “aproveitar o poder transformador dos Jogos Olímpicos e
Paraolímpicos Rio 2016 para promover conquistas sociais, benefícios duradouros e
melhorias
nas
condições
de
vida
da
população.”
(http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html).
Vale
ressaltar, como veremos no terceiro capítulo deste estudo, que nos portais eletrônicos do
governo municipal, criados com o objetivo de dar transparência ao uso dos recursos
públicos na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, as informações são insuficientes e
superficiais, e às vezes desatualizadas e contraditórias, dificultando o monitoramento
social e a análise aprofundada em torno dos gastos públicos.
Verificamos que as justificativas desses projetos sociais, que oferecem práticas
esportivas às crianças e jovens de favelas e bairros pobres, recaem sobre o que se pode
chamar de “ideologia salvacionista”. Verificamos também, que mesmo que esses
projetos apresentem, em sua proposta, um discurso social, valem-se do imaginário
social do esporte de alto rendimento.
Pode-se depreender, a partir daí, uma relação entre o espírito competitivo
exacerbado em eventos desportivos de larga escala, como as Olimpíadas e a Copa, e os
paradigmas neoliberais da competitividade individual e da prioridade dos resultados
(fins) sobre a própria prática desportiva (aqui compreendida como os meios).
Ghiraldelli (2004) descreve o período em que a tendência competitivista da
Educação Física teve seu auge. Foi durante o governo militar, que investiu na Educação
Física principalmente com o objetivo de formar um exército composto por jovens sadios
e fortes. Para isso, a escola seria o "celeiro de novos talentos". A maior meta desse
modelo era projetar cada vez mais a imagem do país através do desempenho dos seus
atletas. Por isso, as aulas de Educação Física da época começaram a contemplar o aluno
mais habilidoso em detrimento dos demais, cultuando o atleta como aquele que supera
todas as dificuldades e chega ao sucesso, ou seja, subir no pódio.
Além de já ter passado algumas décadas do auge desse modelo competitivista,
sabemos que ele continua presente, se não no Projeto Político Pedagógico, nas aulas de
Educação Física. Isso faz com que os muitos alunos sintam-se desestimulados, sempre
com medo de errar, frustrados, por nunca ser escolhido quando se tira o time, pela bola
nunca passar pelo seu pé ou pela sua mão, por saber que existe outro melhor e o melhor
não joga com o pior. E os mais habilidosos, se prendam apenas aquele momento do só
ganhar, sem aprender, sem trocar as experiências, sem viver o outro lado.
Vale ressaltar que uma sociedade que supervaloriza a vitória pode provocar
distorções no processo de desenvolvimento social, cultural e educacional (MEDINA,
1989). Marinho (1983) complementa essa observação quando nos diz que quando a
Educação Física é encarada essencialmente sob seu aspecto biológico, o professor de
Educação Física fica reduzido a um simplesmente a “um educador do físico”. Segundo
o autor: “o mecanismo não atende à sagrada individualidade das pessoas, coisificandoas.” (p. 90) E de certa forma é assim que a sociedade tem encarado a própria sociedade,
como produtos, por isso, valoriza-se que cada vez mais cedo, a criança se comporte
como adulto, perca sua liberdade, sua individualidade e entre num mundo competitivo,
valorizam-se mais os resultados do que o aprendizado.
Nesse sentido, Melo (2005) nos lembra das ações do Governo Vargas, no
período do Estado Novo, em que predominou a política esportiva voltada para o
discurso nacionalista em relação ao esporte. Assim, “as políticas esportivas deveriam ter
caráter moral e cívico através ‘potencial educativo’ do esporte” (p. 73). Portanto por
meio dessa ideologia educativa e salvacionista remetida ao esporte, conforme Arantes
apud Melo (2005):
Tudo vira luta por cidadania, incorporação de direitos, fortalecimento da
sociedade civil, espaços de interação, compromisso e participação cidadã.
Pautados em termos que remetem a sentidos vagos e imprecisos que podem
servir aos mais diversos projetos de sociedade. Isso pode confundir e educar
para um perigoso consenso incapaz de compreender os diferentes projetos de
sociedade, expressos sob uma aparente homogeneidade terminológica,
apontando para um projeto de sociedade neoliberal (p. 56).
De modo a explicitar a estrutura social em que o modo de produção capitalista é
forjado, conforme Paiva (1998) temos os seguintes elementos: ideologia, alienação,
classe social e hegemonia. Assim, através do aparato ideológico e repressivo, a classe
dominante assegura sua permanência no poder. Para que isso ocorra, a ideologia tornase fundamental para promover a aceitação natural das desigualdades sociais produzidas
pelo capital. Dessa maneira, a ação conjunta da ideologia e da alienação decorrentes do
trabalho exteriorizado é que produz o culto do indivíduo, em detrimento da coletividade.
De acordo com Medina (1989):
A tendência natural de qualquer sociedade – desenvolvida ou não – para
equilibrar seu funcionamento é a de padronizar seus valores, cobrando de
acordo com a estrutura e natureza de suas Instituições o cumprimento de
certas regras por parte das pessoas que compõem esta mesma sociedade (p.
20).
2.5 – Megaeventos esportivos e Ideologia
O termo ideologia, entendido como averbação de pressões deformadoras
atuando sobre o processo de elaboração do conhecimento, é um tema muito antigo. Foi
com Napoleão que este termo, inicialmente surgido com acepção positiva, ganhou
sentido negativo.
O filosofo socialista Fourier, a quem Marx pôde ter seu ponto de partida para sua
teoria crítica das ideologias, identificava nos livros uma atuação ideológica que
deformava a sensibilidade dos leitores, por meio de discursos moralistas
pretensiosamente racional e científico, que caluniava as paixões e dificultava a
compreensão dos homens por eles mesmos (KONDER, 2002).
O pensador socialista, Karl Marx, se dedicou a estudar as construções culturais
que ele sabia serem ideológicas, como a filosofia de Hegel, as teorias econômicas de
Adam Smith e de David Ricardo ou os romances de Blazac. Nas obras desses ideólogos,
cujas perspectivas encontravam-se sob os horizontes da burguesia, Marx encontrava
elementos de conhecimento, que o ajudavam a refletir criticamente sobre a sociedade de
seu tempo. Nas suas abordagens das construções culturais preocupava-se em incorporar
ao movimento do pensamento crítico, revolucionário, quaisquer elementos, mesmo e/ou
inclusive os elementos provenientes das obras de autores de inspiração conservadora,
que proporcionassem conhecimentos mais produtivos do que as futilidades
eventualmente encontráveis nos escritos de autores mais progressistas.
É relevante ratificar que para Marx a distorção ideológica não se reduz a uma
racionalização cínica dos interesses de uma determinada classe ou de um determinado
grupo. Muitas vezes a ideologia falseia as proporções na visão do conjunto ou deforma
o sentido geral do movimento de uma totalidade, no entanto, respeita a riqueza dos
fenômenos que aparecem nos pormenores. Também é importante lembrar que o que
Marx fez com seu conceito de ideologia foi alertar a seus contemporâneos e das várias
gerações que surgiram depois, que a questão da ideologia não comporta uma conclusão
(KONDER, 2002).
Fundamentado em Marx, Mannheim apud Konder (2002) aponta que as
ideologias são sempre conservadoras. Destarte, as ideologias expressam o interesse das
classes dominantes na estabilização da ordem. Assim, segundo Mannheim apud Konder
(2002):
Está implícita na palavra ideologia a noção de que, em certas situações, o
inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da
sociedade, tanto para si como para os demais, estabilizando-a, portanto
(p.70).
Não pretendemos em um subcapítulo, esgotar todas as implicações do conceito
de ideologia em Marx. Mas conhecer o conceito de ideologia em Marx e entender que a
concepção de ideologia da realidade favorece a manutenção da hegemonia, é importante
no avanço deste trabalho, e também para a compreensão das maneiras contraditórias
pelas quais a organização desses eventos repercute no dia a dia da população do Rio de
Janeiro. Portanto, a ideologia, ao mesmo tempo que revela alguns fatos, esconde outros.
Como nos reporta Kosik (1995), “mundo da pseudoconcreticidade tem como seu
elemento próprio um duplo sentido. O fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo,
a esconde” (p.15). Vale considerar que a concepção de ideologia nos traz elementos
para a análise da questão fundamental deste estudo.
Como dito no início deste estudo, uma visão histórica da educação mostra como
estivemos sempre preocupados em formar determinado tipo de ser humano. Os tipos de
formação variam de acordo com as diferentes exigências de época. Não diferente de
hoje, a educação, seja nos espaços escolares ou fora deles, sempre esteve dedicada às
“necessidades da sociedade”. Porém, falar em necessidades da sociedade é muito amplo,
já que a sociedade é divida em classes e dentre outros fatores, em valores econômicos e
de princípios. Sendo assim, as necessidades das classes sociais, se diferenciam:
Enquanto os interesses da classe trabalhadora correspondem à necessidade de
sobrevivência, à luta do cotidiano pelo direito ao emprego, ao salário, à educação, à
habitação, à alimentação, à saúde, ao transporte, às condições dignas de existência; Os
interesses da classe proprietária correspondem às necessidades de acumular riquezas,
gerar mais renda, ampliar o patrimônio etc. para continuar com esse status (SOARES, et
al, 1992).
Como nos reporta Marx e Engels (2007), na medida em que o capital cresce
também se desenvolve o proletariado, a classe de operários modernos, os quais só
vivem enquanto encontram emprego e só encontram emprego enquanto seu trabalho
aumenta o capital. Esses operários se vêem obrigados a vender sua força de trabalho dia
por dia, tornando-se uma mercadoria, um artigo de comércio como qualquer outro, e,
por conseguinte, estão expostos a todas as mudanças da concorrência, a todas as
flutuações do mercado.
Ao analisar o processo de trabalho no período de implementação do maquinário,
no século XVIII, Marx e Engels (2002) verificam que o advento da maquinaria teve o
sentido de intensificar o trabalho dos operários. Assim, o avanço das forças produtivas,
no caso da maquinaria, aprisionou o homem às suas condições de trabalho, implicando
aos mesmos a vender sua força de trabalho para suprir somente as suas necessidades
imediatas. Nossa pesquisa nos faz pensar que “na medida em que as minorias,
submetendo as maiorias a seu domínio, as oprimem, dividi-las e mantê-las divididas são
condição indispensável à continuidade de seu poder” (FREIRE, 2006, p. 160).
Verifica-se que o modo de produção capitalista tende a expropriar o trabalhador
das diversas dimensões. E apesar da dimensão cognitiva ainda pertencer a ele, existe
todo um aparato ideológico que é construído a partir da superestrutura do capital. Dessa
forma, na esfera do ócio, podemos encontrar alguns pressupostos que justificam a visão
utilitarista da realização dos Megaeventos esportivos.
Uma das importâncias do materialismo histórico reside na concepção segundo a
qual o ser humano se define não pelo seu pensamento, mas pela produção de sua
existência. Por “existência”, estamos nos remetendo à perspectiva marxista (da qual
anos depois se apropriaram os filósofos existencialistas) que remete “existir” à
“produzir”. O ser humano, ao contrário dos demais seres vivos, destaca-se por definir a
sua vida enquanto processo constante de produção: produção de valores, ideias, ordens
sociais. Como nos reporta SAVIANI (1982), o tempo todo somos sujeitos ou
testemunhas das experiências de atribuição de valores. Uma vez que a experiência
axiológica é uma experiência tipicamente humana, é a partir do conhecimento da
realidade humana que podemos entender a questão dos valores. Assim, o que é “bom”,
“justo”, “importante”, não são conceitos absolutos aos quais toda sociedade deveria
direcionar suas ações políticas ou individuais, mas são produções da própria sociedade –
ou, no contexto específico da sociedade capitalista, produções de uma classe dominante
com vistas à manutenção da ordem vigente.
As exigências e pressões do mundo do trabalho refletem a vida social, cultural,
educacional e política (e vice versa). Na sociedade da mundialização do capital elas se
apresentam
como
esferas
autônomas
(no
sentido
de
que
não
são
determinadas/determinantes umas sobre as outras), revelam-se fragmentadas, ignorando
o caráter humano e político destas relações, servindo ao capital. Contudo, a temática das
Olimpíadas e na Copa do Mundo de Futebol, por sua vez, não repousa somente na
relação entre o esporte e os eventos, mas, sobretudo no aspecto econômico permanece
neste último e na forma como tais condições econômicas e sociais acabam por
fundamentar os pressupostos pedagógicos políticos das Olimpíadas (metodologia,
projeto político-pedagógico, geração de trabalho e renda mediada por processos
educativos).
É devido a essa ideologia fomentada pelos nossos governantes e "seus parceiros
privados", que muitas vezes o professor de Educação Física, não consegue (ou tem um
trabalho muito maior) desenvolver um trabalho que venha realmente colaborar na
formação do aluno, no desenvolvimento dos aspectos cognitivo, motor e afetivo e junto
à equipe pedagógica, conscientizar da nossa realidade e o que podemos fazer para
mudá-la para mais justa.
Como já mencionado, os interesses para a supervalorização dos esportes aqui no
Brasil, são político e econômicos. Nesse sentido, os projetos sociais podem tornar-se um
veículo para reforçar a falsa ideia de que o esporte por si só é capaz de erradicar a
desigualdade social. Essa ideia vem sendo difundida pelas políticas publicas e pelos
principais meios de comunicação. Como ocorreu na série de reportagens da Rede Globo
sobre as Olimpíadas escolares no ano de 2012, na qual o discurso do jornalista deixou a
ideia de que o esporte por si só é capaz de promover o cidadão, sem levar em conta
outras questões necessárias para a formação do indivíduo, como veremos a seguir:
Em mais de 40.000 escolas do país inteiro 3000.000 crianças e adolescentes
estão envolvidos este ano com as Olimpíadas Escolares. Na última década o
crescimento desse time de brasileiros ajudou a abrir caminhos, a mudar vidas
e a formar campeões e cidadãos.18
18
Ver em: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-nacional/v/olimpiadas-escolares-crescem-eestudantes-comemoram-sucesso-no-esporte/1947325/
É pressuposto que por trás desses discursos há uma ideologia de salvação pelo
esporte. Ideologia essa que escamoteia o esporte como direito social público e fomenta a
ideia do esporte por si mesmo como o único responsável pela prevenção dos males
sociais.
Nesse contexto, Santos Júnior, Gaffney & Rodrigues, et al (2012), nos lembram
que no final de 2011 a prefeitura do Rio de Janeiro criou um fórum consultivo
denominado
Conselho da Cidade, alegando que sua criação estava relacionada à
Revisão do Plano Estratégico do Rio de Janeiro e que seus objetivos não se restringiam
aos aspectos relacionados à preparação da cidade para os Megaeventos. No entanto, esta
iniciativa do poder público municipal está de acordo com a criação de conselhos
consultivos que apresentando atuação limitada e a existência meramente formal no que
se refere à participação popular. Este conselho consultivo é formado por cerca de 150
celebridades, como atrizes, apresentadores de programas televisivos, empresários e
donos de populares clubes de futebol, dentre vários outros, o que demonstra uma
preocupação em legitimar decisões já tomadas perante a sociedade.
Consideramos que este é um bom momento para nos lembrarmos de Thompson
(2001), que junto aos historiadores da tradição marxista influenciados pelo conceito
gramsciano de hegemonia também tem investigado as formas de dominação e controle
de classe dominante. Segundo Thompson:
As pessoas vêm ao mundo cujas forma e relação parecem tão fixas e
imutáveis quanto o céu que nos protege. O “senso comum” de uma época se
faz saturado com uma ensurdecedora propaganda do staus quo, mas o
elemento mais forte dessa propaganda é simplesmente o fato da existência do
existente (2001, p. 239).
Também Thompson (2001) afirma que a transformação histórica acontece não
por uma dada “base” ter concebido a uma “superestrutura” correspondente, mas pelo
fato de “as alterações nas relações produtivas serem vivenciadas na vida social e
cultural, de repercutirem nas ideias e valores humanos e de serem questionadas nas
ações, escolhas e crenças humanas.” (p.263).
Assim, é interessante pensar quais são os interesses e os princípios que norteiam
o fenômeno Olimpíadas. Tendo em vista a questão da ideologia relacionada a utilização
da marca Megaeventos esportivos como um dos meios de produtividade do capital
abordado neste capítulo, analisaremos, a seguir, nossas observações sobre as ações dos
empresários e a parceria público-privada nesse processo que antecede oficialmente a
realização dos Megaeventos na cidade do Rio de Janeiro.
Capítulo III
3
-
PARCERIA
PÚBLICO-PRIVADA
PARA
A
REALIZAÇÃO
DOS
MEGAEVENTOS ESPORTIVOS: É POSSÍVEL VIRAR O JOGO DO
MERCADO?
Pratica-se a noção de responsabilidade social
das empresas articulando-se com ONG’s na
implementação de ações que podem sem problemas
cumprir funções do Estado. (MELO, 2005, p. 90).
A descrição acima, escrita por Marcelo Melo quando analisava as relações do
terceiro setor19 com as políticas esportivas, se encaixa perfeitamente neste capítulo do
nosso trabalho. Pois é dessa forma que vêm caminhando as relações público-privadas,
bem como se articula esse processo de reordenamento da cidade para atender as
demandas/exigências do Comitê Olímpico Internacional, nesse período que antecede a
realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro. Assim, se no
primeiro capítulo analisamos brevemente a crise econômica e a influência econômicosocial do esporte, neste capítulo, apresentaremos como essas questões se materializam
nas camadas mais pobres da sociedade, evidenciando que o sistema público utiliza os
projetos sociais, dando entender a essas camadas, de estarem dando-lhes assistência.
3.1 – Trabalho e Educação - estratégias no campo educacional como forma de
gerenciamento do capital
Na perspectiva de saída da crise, do modo de acumulação flexível, o sistema
público por meio de seus sucessivos governos vem adotando, nas últimas décadas os
postulados do neoliberalismo. E este modelo provoca e difunde a ideia de custos sociais
e humanos, principalmente da classe trabalhadora, que aprende a aceitar a condição
mínima de satisfação das suas necessidades básicas. A situação se agrava com a atual
crise econômica, internacional, na qual para socorrer os empresários e banqueiros, a
atual gestão do governo Federal corta verbas das áreas sociais.
19
Sobre o Terceiro Setor, ver Carlos Monaño: Terceiro Setor e Questão Social.
SILVEIRA (2010) identifica que esse processo de “redefinição do Estado” trás
consequências não só nas áreas econômica e política, mas também em toda dimensão
social do país. A referida autora nos reporta que:
Em tal contexto, é preciso ter clareza não apenas sobre as implicações
políticas neoliberais para os países da América Latina, em geral, e do Brasil,
em particular, que induzem o Estado, de maneira direta e indireta, a garantir a
continuidade do modo de reprodução do metabolismo social do capital, como
também, sobre a posição que ocupam dentro da nova ordem mundial (p. 65).
É pressuposto que a contínua e gradativa adoção de políticas neoliberais na
gestão de serviços públicos tende a minimizar a participação popular dos processos
decisórios, no contexto do Rio de Janeiro contemporâneo, especialmente no que tange
as intervenções urbanas para os Megaeventos. Conforme Melo (2005), a implementação
de ações sociais, por meio do que chamam de “parceiros”, sejam eles públicos ou
privados, podendo ser ampliado para a participação da sociedade/voluntariado, está em
consonância com as diretrizes e concepções acerca das políticas públicas no projeto
neoliberal.
Se situarmos, brevemente, o quadro econômico mundial contemporâneo e seus
reflexos no Brasil, e considerarmos que as implicações da crise do sistema econômico
internacional têm seus impactos sobre as nações como o Brasil e a América Latina em
diversas dimensões, veremos que esse processo trás inúmeras consequências no âmbito
da formação humana e das políticas públicas que envolvem as demandas da sociedade.
Observamos que no atual modelo de produção capitalista, no contexto de aplicação de
políticas neoliberais, o capital influencia/age sobre o campo educacional, no processo de
formação humana e no estímulo ao terceiro setor. Assim, através da análise sobre o
quadro econômico brasileiro, poderemos exemplificar como o capital trabalha e
reorganiza os Megaeventos esportivos em questão.
Associando a nossa realidade à avaliação de Apple apud Moreira e Silva (1995)
sobre a conjuntura econômica dos Estados Unidos, identificamos a mobilização do
governo em desqualificar a rede pública e seus servidores. Essa é uma maneira de
exportar a crise da economia para as escolas, ou seja, transferindo para a escola e outros
órgãos públicos, a culpa pelo desemprego e subemprego, pela perda da competitividade
econômica e pela suposta ruptura de valores e padrões tradicionais da família, da
educação e do trabalho. Dessa maneira, o público torna-se o centro de tudo o que é ruim
e o setor privado, ganha mais valor, o que acaba por provocar, não inocentemente, um
estímulo a terceirização das Instituições.
Os problemas que afetam nosso modelo de escola (repetência, evasão,
reprodução, retenção nas séries iniciais, distorção série-idade, etc) não estão isolados do
modelo de sociedade que temos. Consideramos que a incompatibilidade entre tempo de
infância e tempo de escola (ARROYO, 1987) é mais uma dicotomia produzida pelo
modo de produção que separa trabalho intelectual de trabalho manual, produção e
cultura, campo e cidade, corpo e mente.
A divisão entre mundo do trabalho e mundo da cultura no mundo capitalista é
reproduzida no interior da escola e na grande mídia, em que a formação/posição
positivista é hegemônica.
Malina e Azevedo (2011) destacam as medidas do novo liberalismo, visando
aumentar o lucro, sem risco de colapso:
Para alcançar competitividade é necessário haver cortes significativos nos
direitos sociais, e diminuição da mão-de-obra formalmente empregada. Com
isso, pretende-se que aumentem as margens de lucro das grandes empresas e,
em paralelo, estanquem a ideia de pleno emprego, geradoras de grandes
custos para essas empresas e para os governos (p. 7).
Esse tipo de manobra do governo é mais sério do que parece, pois além de
marcar o descompromisso com a educação do cidadão, que é um direito garantido pelas
leis que regem o país como, a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e
adolescente de 1990 (Lei nº 8069/90) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de
1996, sucateia-a e transfere para a sociedade essa tarefa de educar. Sociedade que vem
cada vez mais sendo alienada com auxílio da mídia e pelo sucateamento da cultura,
também manipulado pelo governo. Vale lembrar que nós da sociedade somos o
resultado do meio em que vivemos, somado a educação que recebemos, e a escola tem
um poder determinante nessa formação.
Conforme Apple (in MOREIRA, A. F.; SILVA, T. da, 1995) a aliança em favor
da restauração neoliberal insere a educação num conjunto mais amplo de compromissos
ideológicos, onde os objetivos para a educação são os mesmos que orientam suas metas
para a economia e bem estar social, entre eles, a redução da responsabilidade
governamental em relação às necessidades sociais. Dessa maneira, observamos que a
ideologia neoliberal vêm fomentando uma regressão explicitada pelo desmonte do
público e a metamorfose da educação de direito em serviço que se mercantiliza,
acompanhando e reforçando as novas formas do sistema capital.
O modelo de “acumulação flexível” tem trazido para a classe trabalhadora um
processo de terceirização de seus serviços, através de um processo de subcontratação
que não garante a esta classe, seus direitos trabalhistas conquistados com muita luta.
Vale observar que esse também tem sido o processo de geração de emprego em prol da
preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos, como nos mostra o
Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das
Olimpíadas (2012):
Se é verdade que os Megaeventos poderiam oferecer uma oportunidade para
a inclusão social dos trabalhadores, para a geração de empregos e a
ampliação de direitos, não tem sido essa a realidade brasileira. Sejam
operários empregados e sub-empregados nas grandes obras, como estádios e
rodovias, sejam trabalhadores informais reprimidos no exercício de sua
atividade econômica, observa-se um padrão de crescente precarização,
conduzido por empresas e consórcios contratantes – sob a omissão dos
órgãos fiscalizadores – pelo próprio Estado (p. 32).
Bracht (1997), ao analisar a socialização pelo esporte como uma forma de
controle e adaptação social, reproduzindo e reforçando a ideologia capitalista como algo
natural, afirma que:
Com visão de sociedade positiva respaldada na teoria Estrutural-funcionalista
da sociedade, a partir da qual os elementos isolados do sistema social como a
Educação, o Esporte, etc., podem ser descritos como funções do sistema. Eles
são importantes desde que tenham importância funcional para o sistema,
mantendo, portanto, sua estabilidade como unidade de funcionamento (p.60).
No Brasil, nas últimas duas décadas esse mesmo processo tem sido notável.
Como destaca Melo (2005) se referindo ao período de “afloramento” do neoliberalismo:
“como forma de enfrentar possíveis resistências, era preciso ‘demonizar’ o Estado, suas
empresas e seus funcionários”. Mais a frente ele especifica que:
Essa tarefa foi impulsionada com a adesão de setores majoritários da mídia,
políticos e intelectuais. Em contrapartida, era apresentada a eficácia gerencial
do mercado, e que por isso deveria gerenciar as empresas estatais
privatizadas. Isso também estende a uma alegada maior capacidade e
eficiência dos organismos na/da sociedade civil, que passariam a assumir a
implementação de políticas sociais, já que a burocracia estatal era ineficaz,
cara e lenta. Nota-se um crescente chamamento à participação de organismos
na sociedade civil por parte dos governantes e setores da mídia. Começa-se a
difundir a expressão terceiro setor para expressar que tais organismos, que
deveriam ser voltados para o interesse público. (p. 23).
De acordo com esse autor, diante desse projeto dominante de sociedade, as
relações travadas entre os diversos organismos na sociedade civil e ao que chamou de
aparelhagem estatal são representativas dessa natureza de atuação estatal, sobretudo no
que se refere à promoção e execução de políticas sociais. Segundo Melo (2005):
Isso se expressa na delegação da execução dessas políticas a organismos na
sociedade civil, que passam a ser conhecidos como componentes do chamado
terceiro setor. Nesse bojo, o esporte e o lazer ganham papel de destaque,
assim como há um crescimento dos chamados projetos sociais, nos quais
crianças e jovens pobres passam a ter acesso à prática esportiva e de lazer.
Torna-se característica comum que muitas ações governamentais sejam
executadas por ONG’s ou outras associações comunitárias, estabelecendo um
novo tipo de relação destas com a aparelhagem estatal. (p. 1).
No âmbito organizacional e institucional, a Educação Básica, de direito social de
todos, passa a ser cada vez mais compreendida como um serviço a ser prestado e
adquirido no mercado ou como filantropia, como se explicita por meio de campanhas
apelativas, sequenciais (FRIGOTTO, 2005) e apoiadas pela mídia. Podemos ilustrar
essa afirmação dando o exemplo do programa “Amigos da Escola”
20
, que vem com a
proposta de “voluntários suprir as carências da formação do aluno”, quando o governo
deveria investir na escola e no professor para que não houvesse carências realmente
existentes.
Observamos a contradição deste processo, citando Melo (2005):
No contexto de redução das possibilidades de acesso/permanência a muitos
direitos sociais, surge um número que se denominou “projetos sociais”
esportivos e/ou culturais, sobretudo em bairros populares e/ou favelas. O
discurso dominante é que, nesses projetos, principalmente os jovens e as
crianças pobres teriam acesso às práticas esportivas e/ou culturais, tendo
também suas possibilidades educativas ampliadas (p. 2).
Observamos o sucateamento das escolas tanto na sua estrutura física quanto na
pedagógica. Também observamos, mais uma vez, a Educação Física sendo direcionada
à posição de disciplina estruturante dos interesses que embalam os discursos e as
práticas dominantes. Estamos atentos as propagandas da chegada dos Megaeventos
esportivos na cidade com ideias de benefícios para a sociedade, ao mesmo tempo em
que a classe trabalhadora é diariamente exposta a todo tipo de violência e exposta a
medidas do que podemos chamar de higienização urbana.
Tommasi, Warde e Haddad (2000) analisam as políticas educacionais e a
influência do Banco Mundial na Educação dos países ditos em desenvolvimento no
contexto da economia mundial, que tem por objetivo regular o equilíbrio do mercado
financeiro, sem a real preocupação com a erradicação da pobreza (mesmo que esse seja
um dos principais discursos e uma das principais formas de manipular o mercado).
De acordo com os autores supracitados, segundo o Banco Mundial, sua
estratégia segue dois componentes: Estimular o trabalho e a educação, por intermédio
do processo de cooperação internacional, na forma de incentivos financeiros à educação
e de coalizões entre o Banco Mundial e as diversas regiões do Brasil, estão sendo
20
Amigos da Escola é um projeto criado pela Rede Globo (TV Globo e emissoras afiliadas) e estimula o
envolvimento e a participação de voluntários e entidades no desenvolvimento de ações educacionais e de
“cidadania”, em “benefício” dos alunos, da própria escola, de seus profissionais e da comunidade.
realizados projetos para expansão da oferta de ensino, inclusive no setor privado. Tendo
como pano de fundo a manutenção de uma política de cunho neoliberal para a
diminuição de custos e a criação de oportunidades de acesso ao sistema educacional
público.
Verificamos que no interior dessas ações se configura também um projeto
educativo que busca promover/ratificar – principalmente para aqueles que encontram-se
privados/excluídos da execução/promoção do acesso aos direitos sociais – valores e
saberes de acordo com o projeto neoliberal (MELO, 2005).
Portanto, através de
parcerias público-privadas, as grandes empresas e os governos (Municipal, Federal e
Estadual) investem e/ou patrocinam projetos sociais, que vão desde formação de
escolinhas esportivas até a qualificação dos trabalhadores para a geração de trabalho e
renda.
Conforme as análises de Barreto e Leher (2008) e Tommasi, Warde e Haddad
(2000), é interessante observar as propostas do Banco Mundial, analisar seus
documentos, e compreender o que realmente está por trás dos discursos e menções a
colaboração aos países ditos em desenvolvimento. Como já observamos não há
interesse, por parte do sistema dominante, em formar o cidadão emancipado e
consciente. Esse é um dos principais motivos pelos quais as transformações da educação
brasileira têm se intensificado constantemente desde a década de 1960, quando começou
a ser influenciada pelas políticas internacionais. As políticas educacionais que se
apresentam aos países ditos “em desenvolvimento” se encontram atreladas à agência de
crédito do Banco Mundial (BIRD)21, o qual vem interferindo diretamente na educação
brasileira por intermédio do processo de cooperação internacional, na forma de
incentivos financeiros à educação e de coalizões entre o Banco Mundial e as diversas
regiões do Brasil (TROTTE, apud SANTORO, TROTTE, FALCÃO, 2006). Nesse
sentido, Pinto (2002) afirma que:
A orientação educacional brasileira, principalmente a escolar, reafirmou seu
compromisso com os princípios liberais no sentido da qualificação dos
recursos humanos para o capital. É onde entram em cena as agências
internacionais de cooperação, quando a escola é comparada à empresa e a
educação se torna mercadoria. Assim o trabalho passa a ser visto como uma
mercadoria especial que também poderá ser vista como capital. (p. 14).
Ou seja, a educação é dada com uma proposta única de formar o cidadão “(con)
formado”, adaptado, produtivo, preparado para o mercado visando atendimento às
21
O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial foram criados após a Segunda Guerra
Mundial para “dinamizar” a economia capitalista. (MELO, 2005). Ver mais em Silveira (2011).
necessidades da classe proprietária, sem o compromisso com a formação consciente do
cidadão. Vale lembrar que “domesticar” o cidadão é muito interessante do ponto de
vista da lógica capitalista. Adam Smith, considerado o fundador da Economia Liberal
Clássica, segundo Marinho (2005), considerava que a classe trabalhadora não devia
receber a mesma educação que recebia as classes mais privilegiadas da sociedade. Para
ele, a educação para a chamada “gente comum” era importante apenas para que se
tornassem ordeiros e obedientes aos seus superiores hierárquicos. Além disso, defendia
que os trabalhadores não tinham muito tempo para desperdiçar à educação, pois desde
cedo precisariam encontrar ocupação profissional.
Portanto, a ciência é usada em todas as áreas da sociedade, na questão do
trabalho, por exemplo, a ciência é usada para aumentar a produtividade. A exemplo
disso podemos citar o desenvolvimento da maquina aumentou consideravelmente a
produção e diminuiu a importância do trabalhador, barateando a força de trabalho do
mesmo aumentando a mais valia.
Sobre as políticas públicas utilizarem a educação escolar visando o trabalho
como princípio educativo e não para transformar a sociedade mais justa, Saviani (2003)
nos lembra que a ciência diz respeito a uma parcela pequena da sociedade. De acordo
com suas palavras:
No ensino fundamental, o trabalho aparece de forma implícita. Nesse nível, o
trabalho orienta e determina o caráter do currículo escolar em função da
incorporação dessas exigências na vida da sociedade.
Para ele:
A escola elementar não precisa, então, fazer referência direta ao processo de
trabalho, porque ela se constitui basicamente como um mecanismo, um
instrumento, por meio do qual os integrantes da sociedade se aproximam
daqueles elementos também instrumentais para a sua inserção efetiva na
própria sociedade. Ou seja, aprender a ler, escrever e contar, além dos
rudimentos das ciências naturais e das ciências sociais, constituem prérequisitos para compreender o mundo em que se vive, inclusive para entender
a própria incorporação, pelo trabalho, dos conhecimentos científicos no
âmbito d’ ávida e da sociedade (Saviani, 2003, p. 136).
Outro exemplo de campanhas visando a “domesticação” do cidadão, campanhas
apelativas, sequenciais e apoiadas pela mídia, são os projetos sociais para as crianças e
adolescentes. Diante do cenário de precarização dos direitos básicos do “cidadão”, os
projetos também aparecem como maneira de suprir as lacunas de responsabilidade do
Governo. Esses projetos são de custo mais barato aos cofres públicos, já que além das
parcerias da iniciativa privada, o sistema de contratação dos profissionais não tem
vínculo empregatício e muitas vezes, nem a exigência de uma formação específica é
para atuar nesse trabalho, é exigida.
Lembremos que a prática educacional calcada na mercadoria ou na filantropia é
uma forma de se produzir o consenso. Ocultando as contradições da sociedade e criando
no indivíduo a consciência de adaptação, acomodação e imobilidade social, “educando”
as massas trabalhadoras para o exercício da tolerância, suportando as políticas
privilegiáveis, a exploração do homem pelo homem, a aceitação das desigualdades
sociais, considerando-as justas e necessárias para a alocação e manutenção dos papéis
sociais.
Contudo, verificamos que o Estado mínimo neoliberal vem mostrando-se
pequeno quando se trata de gerir recursos públicos para educação. Ao mesmo tempo,
mostra-se grande/máximo, forte e centralizado quando diz respeito a condução de suas
políticas para a realização dos Megaeventos esportivos. Portanto, diante da questão da
Copa do Mundo de Futebol de 2014 e Olimpíadas 2016, acreditamos que é necessário
debruçarmos sobre esse assunto difundido pelas políticas sociais, educacionais e
esportivas, tanto como elemento reprodutor dos ideais do sistema capitalista e/ou como
elemento para uma reflexão visando à práxis revolucionária no contexto da relação
trabalho/educação.
3.2- O Rio de Janeiro Olímpico – esporte e/ou prática esportiva “formando
campeões”
Com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Megaeventos esportivos cria-se
na sociedade duas ilusões: a primeira, de que a promoção de tais eventos é capaz de
tornar o Brasil uma potência olímpica, sendo essa, uma estratégia mercadológica e
midiática para “vender” o Rio de Janeiro como cidade Olímpica; a segunda, que mesmo
que tal projeto se realizasse, ele corresponderia a um desenvolvimento de iguais
proporções no âmbito da estrutura social. No nosso contexto, marcado pela divisão
social, nem todas as pessoas tem condições econômicas para adotar um estilo de vida
saudável, ter momentos de lazer. Há desigualdades estruturais, com raízes políticas,
econômicas e sociais que dificultam a adoção desses estilos de vida.
Nesse contexto, é importante refletir sobre algumas questões: O que é mais
importante para o Brasil? Ser uma potência Olímpica ou o desenvolvimento social do
país? Qual a importância dos Megaeventos esportivos para o povo brasileiro? Qual a
dimensão educativa dos projetos sociais, em especial das escolinhas esportivas que
surgiram nesse contexto de Megaeventos esportivos? Qual a influência da concepção de
Esporte disseminada pelas políticas públicas educacionais, e em especial, na formação
dos alunos matriculados nos projetos sociais esportivos?
De acordo com Melo (2005) a utilização de termos do mundo de esporte de alto
rendimento22 também se faz presente em instituições que teriam por princípio a
promoção do esporte como atividade de lazer. Esses programas, geralmente, valem-se
desse imaginário social que tem o esporte de alto rendimento, mesmo que sua proposta
apresentada não seja a de formação de novos atletas. Todavia, de acordo com Malina
(2009) apesar dos problemas de ordem socioeconômica, fruto da essência do modo de
produção capitalista, “não podemos deixar de compreender a importância do esporte e
da sua relação com o caráter humanista e prazeroso de sua prática.” (p. 26).
Vale atentar que a supervalorização da competição, encarando-a como fim em si
mesmo, reforça uma elitização social, caracterizando a competição e a superação
individual como valores fundamentais e desejados pela sociedade moderna. Coloca a
busca pelos melhores resultados nas competições a qualquer custo, tirando do esporte o
que ele tem de melhor: as superações, as conquistas, a atividade física em si, a
convivência, o aprender com o perder. Isso pode prejudicar o aluno e/ou o participante
dos projetos sociais, pois tira dele a oportunidade de vivenciar as práticas coletivas e
sociais e a descoberta, que colaboram na sua formação. Além de ser excluído por falta
de habilidade motora (através de um discurso neoliberal que diz que “a criança tem que
entender a realidade da sociedade”), ou por ser exaltado por suas habilidades, o que
também vale como uma exclusão e também não contribui para a formação integral do
aluno. Esse processo faz com que poucos professores, nesse caso os professores de
educação física e os professores que atuam como professores de educação física, mas
sem formação para tal, dêem prioridade à ensinar a pessoa, formando-a através de sua
experiência, conscientização e participação. Dessa forma, o aluno e/ou o participante
dos projetos sociais estará sempre em busca do vencer o outro. E o mais habilidoso será
valorizado apenas pela sua performance e não em sua totalidade, ou seja, não são
levados em conta todos os outros aspectos e benefícios da prática esportiva. Os menos
22
Esporte de resultado, praticado segundo regras formais, nacionais e internacionais. Tem como figura de
destaque a presença do atleta ou do atleta em formação. Realizada preferencialmente em instituições de
formação de atletas, clubes, associações específicas de treinamento
habilidosos não se sentirão parte do grupo e os “regulares” dificilmente terão interesse
nas atividades propostas.
Na perspectiva do capital, a escola como instituição vem produzindo tipos de
conhecimento, sem maiores comprometimentos com a omnilateralidade23 do ser
humano e, portanto, sem maiores preocupações com os aspectos mais significativos do
seu crescimento e desenvolvimento e, dessa forma, pouco contribuem para que os
alunos se realizem como pessoas. Medina (1989) defende que: “os homens como um
todo tem que se fazer sujeitos da história e não objetos. Devem fazer-se livres e não
alienados” (p.31).
Mesmo no caso do esporte de alto rendimento, o esporte profissional, onde os
objetivos se voltam para o rendimento e o resultado, a vida do ser humano não deveria
ficar comprometida. É preciso ter qualidade de vida e saber conviver, aprender com o
perder e não viver apenas como ‘robôs’ em busca dos records. (MEDINA, 1989).
Segundo alguns autores como Venâncio & Freire (2005), a competição está
constantemente presente na vida do ser humano. Para estes autores, a competição é a
situação na qual é realizada uma comparação do desempenho de uma pessoa ou de um
grupo a partir de um padrão já existente. Por um lado, a competição pode ser algo
positivo quando permite ao competidor superar limites externos ou mesmo internos a
ele. Por outro, a apropriação do produto da cultura em função das Olimpíadas, permite à
sociedade burguesa explorar a classe trabalhadora de diversas maneiras. Uma delas é a
de responsabilizar o indivíduo pelo seu próprio sucesso ou fracasso, reforçando a teoria
do capital humano ou a teoria da tábula rasa.
A título de explicação: A teoria do capital humano, criticada por Frigotto
(1989), estrutura-se a partir de uma leitura do sistema capitalista na qual não se
apreende que a história é feita dentro de relações sociais conflituosas, determinadas pela
apropriação desigual da riqueza. De acordo Marinho (2010) a Teoria da Tábula Rasa, do
Filósofo John Locke, destaca que o homem ao nascer, é como uma folha de papel em
branco e por isso, todos começam a vida no mesmo ponto, sem distinção de classe,
gênero, nem raça. E assim, as diferenças vão surgindo a partir de seu esforço próprio.
De acordo com Melo (2005):
23
O conceito de omnilateralidade é de grande importância para a reflexão em torno do problema da
educação em Marx, embora não haja em Marx uma definição precisa do conceito de omnilateralidade.
Esse termo refere-se a uma formação humana oposta à formação unilateral provocada pelo trabalho
alienado, pela divisão social do trabalho, pela reificação, pelas relações burguesas estranhadas, enfim.
A transformação do Brasil em potência esportiva requer um avanço
significativo nas condições de vida da população, já que assim novos
talentos, não apenas nos esportes, mas nas artes, ciências e afins, não se
perderão na luta pela existência contra a miséria (p. 78).
Por mais ilusórias que sejam estas aspirações referentes a realização dos
Megaeventos esportivos, interferem na educação de modos diversos, compreendendo
desde a redução de verbas para Educação em prol de obras de infraestrutura em
instalações olímpicas até o desvio do foco da formação omnilateral do aluno (como já
abordado, formação almejada por aqueles que adotam, em sua práxis pedagógica, o
referencial materialista histórico) para a formação do atleta especializado, passando pelo
desvio de obrigações do poder público que transfere a educação escolar para projetos
que isentam sua responsabilidade com a sociedade.
Vale mencionar que, de acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu
artigo 217, item II:
É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como
direito de cada um, observados: A destinação de recursos públicos para a
promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, par o
desporto de alto rendimento. (Capítulo III, Da Educação, da Cultura e do
Desporto; Seção III, do Desporto).
Os documentos relacionados à Educação Física, produzidos pelo Conselho
Federal de Educação Física (CONFEF), com o apoio do Ministério do Esporte e
Ministério da Educação defendem duas ideias diferentes, ambas em desencontro à
formação omnilateral do aluno. A primeira ideia difundida é do esporte como fator de
inclusão social e solucionador das questões culturais e educacionais e fomentador do
crescimento econômico do país. De fato, o Esporte e a atividade física como um todo
são importantes em qualquer etapa da vida. Contudo, o uso descontextualizado e
metodológico das técnicas com o fim em si mesmas anula seu real significado para o
desenvolvimento do ser humano, deixando escapar a visão clara da contribuição do
Esporte na totalidade do fenômeno humano (MEDINA, 1989). A segunda ideia é a de
tornar o Brasil uma potência Olímpica. Essa ideia, além de falaciosa, reforça uma
elitização social, caracterizando a competição e a superação individual como valores
fundamentais e desejados pela sociedade.
Concordamos que os esportes, bem como outras atividades, possibilitam
diversas formas de relações que contribuem para a construção de um projeto de
melhoria das condições gerais de vida. Mas, como nos reporta Melo (2005):
Mesmo assim, o caráter redentor de uma cidadania perdida e o
aproveitamento político disso como forma de obtenção do consenso não
podem ser desprezados. Não se trata de desconsiderar sua importância para a
vida das pessoas que estão sendo atendidas, já que para elas, num contexto de
poucas ações de lazer, pouco importa quem promove a possibilidade para
esta prática esportiva, se é o Estado, uma ONG, ou candidatos a cargo
político, visando ampliar/consolidar sua base política. O desafio é
compreender os aspectos políticos disso e sua vinculação/capacidade de dar
conta das metas que se propõe a atender (p. 80 e 81).
Nesse sentido nos reportamos a Marinho (2010) que defende que a prática de
atividades físicas pode ser benéfica dependendo da sua finalidade, segundo ele:
Superado o capitalismo, o Esporte pode causar um lugar de destaque social, a
começar pelo fato de que as oportunidades serão iguais. Todos terão
oportunidades de praticá-lo, sem interesses comerciais e/ou assistencialistas
(p. 26).
Portanto, entendemos que defender o esporte de alto nível e querer que todos
atinjam esse alto nível é inviável, se levarmos em consideração as características,
individuais e sociais. Mas, levar o esporte a todos e mostrar várias possibilidades da
prática esportiva, pode ser um bom meio de proporcionar ao aluno/participante de
projetos sociais esportivos a vivência em atividades de recreação e lazer, importantes
para o desenvolvimento integral do mesmo.
Assim, entendemos que o esporte é um relevante meio de contribuição para o
desenvolvimento integral do indivíduo. Mas sabemos que não é por meio do esporte,
por si só, que as necessidades do ser humanos serão supridas.
3.3 – Trabalho, Esporte e Educação - estratégias de gerenciamento do capital para
além de uma partida justa
Estudos sobre os impactos da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016
revelam os muitos indícios de transferência de recursos públicos para os agentes
privados, seja na contratação das grandes obras, seja no estabelecimento das várias
modalidades de parceria público privada24. Assim podemos deduzir que a importância
da realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro estaria menos
ligada à sua realização em si mesma, e mais ao processo de reestruturação da dinâmica
urbana na Cidade do Rio de Janeiro, legitimada e possibilitada pelos recursos alocados e
pelo discurso em torno das oportunidades de desenvolvimento econômico e do legado
que esses eventos podem supostamente deixar (SANTOS JÚNIOR, GAFFNEY &
RODRIGUES, et al 2012).
24
Ver mais em: http://www.observatoriodasmetropoles.net/download/Relat_RJ%202012.pdf
Nesse quadro, verificamos que diante de acordos político-econômicos, os
governos Federal, Estadual e Municipal, além de promover candidatos, isentam-se da
sua real obrigação de garantir os direitos fundamentais aos indivíduos. Todavia,
aparentemente os projetos sociais mediados/articulados/justificados por processos
educativos, têm funcionado consoante às necessidades de manutenção do modelo
econômico vigente, de modo a ratificar a formação acrítica dos participantes através da
subsunção cultural e esportiva. Investem nas “escolinhas de esportes” para colaborar
nesse controle, já que o participante fica limitado ao conhecimento que lhe é
transmitido.
Freire (2006) analisa a lógica capitalista, criticando a “educação bancária”,
utilizada como instrumento da opressão, na qual os alunos recebem o conteúdo como se
fossem depósitos, intencionalmente não estimulando sua “criticidade” e autonomia. O
mesmo defende a “dialogicidade” como essência da educação como prática da
liberdade. Sobre a educação bancária, ele explica:
Quanto mais se exercitarem os educandos no arquivamento dos depósitos que
lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica que
resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele, como
sujeitos. Quanto mais lhe imponha a passividade, tanto mais
ingenuamente,em lugar de transformar, tendem a adaptar-se ao mundo, à
realidade parcializada nos depósitos recebidos. Na medida em que esta visão
“bancária” anula o poder criador dos educandos ou o minimiza, estimulando
sua ingenuidade e não sua criticidade satisfaz aos interesses opressores (p.
69).
É preciso registrarmos a uma ação clara da prefeitura do Rio de Janeiro, a sua
parceria com a empresa Estrela na produção e vinculação de jogos que propagandeiam a
atual gestão governo do Rio de Janeiro, presidida pelo prefeito Eduardo Paes.
De acordo com o Sindicato dos Professores do Estado Rio de Janeiro
(SEPE/RJ):
A mega operação de valorização imobiliária em curso na cidade do Rio de
Janeiro. A própria prefeitura do Rio resolveu explicitar isso claramente ao
lançar o Banco Imobiliário Cidade Olímpica, produzido pela Estrela. Além
de licenciar a marca Cidade Olímpica, a prefeitura desembolsou 1 milhão de
reais por 20 mil unidades do jogo, que está sendo distribuído na rede
municipal de ensino. A partir de maio, a Estrela vai comercializar o produto
nas lojas. Nesta nova edição do jogo – que existe há décadas – em vez de
comprar imóveis em importantes ruas e avenidas da cidade, o jogador investe
em pontos turísticos tradicionais – como os Arcos da Lapa, Copacabana e o
Corcovado, mas também nas novas “marcas” da Rio Cidade Olímpica : o
Porto Maravilha, a Clínica da Família, o Bairro Carioca, os BRTS (vias
expressas de ônibus) , o Museu de Arte do Rio, o Museu da Imagem e do
Som etc. Nas cartas de sorte ou revés, que definem ganhos ou perdas no
patrimônio dos jogadores, há pérolas como “Seu imóvel foi valorizado com a
pacificação da comunidade vizinha. Receba R$ 75 mil.”
Como veremos no terceiro capítulo deste trabalho, em meio a falas, silêncios,
discursos propostas e embates políticos, encontramos algumas pistas que podem nos
levar a supor o que estaria por trás das medidas implementadas para a preparação da
cidade em relação à realização dos Megaeventos esportivos.
Parece-nos que há uma tentativa do poder público em escamotear o conflito de
classes sob o discurso de socialização via esporte. Discurso esse que oculta as raízes das
mazelas sociais, produzindo personalidades conformistas e com dificuldades de se
reconhecerem como sujeitos históricos.
Assim vemos tais medidas manifestando a orientação para a formação unilateral
do indivíduo, em detrimento de uma formação unitária, omnilateral, conforme
Manacorda (1991), capaz de propiciar um desenvolvimento multilateral, em todos os
sentidos das faculdades humanas e das necessidades produtivas, além das necessidades
de sua capacidade de sua satisfação.
Dessa forma a relação da Educação com o Esporte pode assumir uma função de
formação unilateral em que a condição de “sujeito social” é regulada pela participação
política consentida pela classe hegemônica em obediência aos seus interesses.
Malina (2009) afirma que:
Não basta que o Brasil seja uma potência olímpica ou que o esporte seja um
meio para retirar jovens da marginalidade, ou mesmo um modo de ascensão
ou mobilidade social. É necessário algo diferente. O esporte pode, por
exemplo, servir como meio de denuncia desses problemas globais. Os
dirigentes e governantes de nosso país não querem ver nas páginas dos
jornais a situação real do Brasil sendo denunciada pelos ‘ídolos’ do esporte,
pois eles precisam vender bem o esporte no mundo para atrair investimentos
(p. 23).
Como exemplo de esporte como instrumento de denúncia, podemos citar duas
situações, em contextos diferentes, em que isso aconteceu. Remetemos aos atletas César
Cielo (natação) e Sócrates (futebol).
O atleta de natação César Cielo, após ganhar uma medalha de ouro e uma
medalha de bronze, nas Olimpíadas de Pequim (2008) e, portanto, ganhando maior
visibilidade na imprensa brasileira, aproveitou o momento para queixar-se da
Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e dos seus patrocínios. Essa
declaração foi divulgada no jornal Globo Esporte. O nadador também mostrou-se
ressentido por sua conquista em Pequim não ter se revertido em bônus financeiro,
comparando com a atleta Maurren Maggi, ouro no salto em distância, também em
Pequim, que segundo ele, ganhou R$ 150 mil de premiações de seus patrocinadores.
Para César Cielo, com incentivos financeiros, teriam mais atletas se dedicando ao
esporte.
De acordo com suas palavras:
Paguei várias competições do meu bolso por ser atleta profissional. Às vezes,
os Correios dão uma grana, mas enrolam. De 2006 até o Pan-Americano,
meu pai bancou tudo. Só nesta temporada, já gastamos US$ 2.500 (cerca de
R$ 4 mil). Mas o cúmulo foi a cobrança da CBDA em cima dos pais sobre a
minha ida ao Planalto. Eu estava nos EUA, e a confederação ficava ligando
para
os
meus
pais,
atrapalhando
o
serviço
deles
(http://globoesporte.globo.com/platb/folego/2008/09/02/10-motivos-paranao-deixar-de-correr/).
O jogador de futebol, Sócrates, que marcou a história do futebol e da política
brasileira, lutou em defesa das “Diretas Já”, participando de comícios que pedia a volta
imediata das eleições para presidente do Brasil. Na época (em 1984), ele tinha uma
proposta para jogar na Fiorentina, da Itália e declarou ao público que se a eleição direta
para presidente fosse aprovada, não deixaria o Brasil para jogar na Itália. Naquele ano a
emenda constitucional que pedia a volta das eleições diretas para presidente acabou não
sendo aprovada no Congresso Nacional e Sócrates foi transferido para o clube italiano.
As eleições diretas para presidente do Brasil, enfim, ocorreram em 1989.
Contudo, sabemos que uma função política não se resume somente ao
desempenho eleitoral. A função política também busca identificar, no conjunto da
população, aquela parte que pode servir – para segurança das classes dominantes - de
amortecedor na luta de classes. Esse, muito utilizado através da cultura e da propaganda
de construção do consenso em torno da sociedade tal como ela está organizada.
Observamos que o processo de mercantilização, inclusive da vida humana, permanece
no seu aspecto reificado25, fazendo com que o trabalhador se encontre subsumido à ótica
do capital já que tudo nesse modo de produção vira mercadoria, sendo a do homem, a
sua força de trabalho.
Desde o momento em que foi anunciada a escolha do Brasil como sede da Copa
do Mundo de Futebol de 2014 e do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, a
grande imprensa, políticos e diversos analistas têm ressaltado as oportunidades da
ampliação dos investimentos nas doze cidades selecionadas para receber esses Eventos.
Destacando principalmente a possibilidade de se enfrentar seus problemas, como o da
mobilidade urbana e o da recuperação de espaços degradados para a habitação,
25
O termo reificação vem da palavra alemã “verdinglichung“, significando tranformar uma ideia em
coisa. No Marxismo o conceito designa uma forma particular de alienação, característica do modo de
produção capitalista. Implica a coisificação das relações sociais, de modo que a sua natureza é expressa
através de relações entre objetos de troca (ver fetichismo da mercadoria).
comércio e turismo, como é o caso da área central do Rio de Janeiro (SANTOS
JÚNIOR, GAFFNEY & RODRIGUES, et al 2012).
De acordo com o Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês
Populares da Copa e das Olimpíadas (2012) a questão das expectativas de
oportunidades financeiras e geração de empregos para a sociedade e inclusão social
através do esporte, se perdem diante da realidade. Pois de um lado, os trabalhadores
empregados, subempregados e trabalhadores informais têm trabalhado em empregos
diretos e indiretos gerados pela e para realização dos Megaeventos esportivos, em
condições precárias, conduzido por empresas e consórcios contratantes – sob a omissão
dos órgãos fiscalizadores – e pelo próprio Estado. Por outro lado, as grandes empresas,
em conivência com o governo e com a Federação Internacional de Futebol (FIFA),
conquistam as concessões de circulação do capital proporcionadas pelo Evento e não
pretendem permitir, nem ao menos, que pequenos comerciantes e empresas familiares,
tirem proveito das oportunidades que aparecerão.
Se voltarmos às palavras de Marx (1984) teremos que:
Toda produção capitalista, à medida que ela não é apenas processo de
trabalho, mas ao mesmo tempo processo de valorização do capital, tem em
comum o fato de que não é o trabalhador que usa as condições de trabalho,
são as condições de trabalho que usam o trabalhador (p. 43/44).
Vemos a vitória de um atleta ou de uma equipe trazendo lucros para as
instituições, por meio de poder e concessão de divulgação de produtos e serviços e
visibilidade para o país, conforme o discurso do até então ministro dos esportes, em
2004, citada por Melo (2005): “investir em esporte é um excelente negócio. Qual
empresa não deseja colar sua marca, sua imagem a um negócio que é identificado em
todo o mundo com vitória, beleza e solidariedade” (p. 91).
O atleta e o treinador acabam sendo explorados sob os moldes da mais-valia26,
questão essa que merece maior aprofundamento. Além da promoção social, as empresas
patrocinadoras de tais eventos, em acordo com o poder público, ficam isentas de seus
impostos. Exemplos desta afirmação tem sido divulgados em meios de comunicação
com menor circulação do que os da grande mídia. De acordo com o jornal virtual UOL:
Os organizadores da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, ganharam uma
isenção de impostos de cerca de R$ 3,8 bilhões do governo federal. O
benefício foi concedido por uma medida provisória (MP) assinada pela
26
Mais-valia é o termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho
produzido. Marx (2002) analisa a dialética da mais valia, afirmando que o sistema capitalista representa a
exploração do trabalhador por parte do dono dos meios de produção. Na disputa desigual e combinada
entre capital e proletário sempre o primeiro sai vencedor.
presidente Dilma Rousseff no último dia 10. A MP isenta de impostos
federais compras e contratação de serviços feitas pelo Comitê Olímpico
Internacional (COI), o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e
Paraolímpicos Rio-2016 e empresas ligadas às duas entidades. Beneficia até
patrocinadores dos Jogos. (http://esporte.uol.com.br/rio-2016/ultimasnoticias/2012/10/19/governo-federal-da-isencao-de-r-38-bilhoes-aorganizadores-da-olimpiada-de-2016.htm, acesso em: 19/10/2012)
Na mesma reportagem, o referido jornal destaca que:
A Medida Provisória prevê que não sejam taxadas pelo governo a importação
de medalhas, troféus, material promocional, bebidas, alimentos e bens
duráveis que custem até R$ 5 mil. A importação de equipamentos esportivos
serão isentas desde de que eles sejam reexportados após os Jogos ou doados
no Brasil. Operações de câmbio e seguro também não terão impostos
cobrados sobre elas.
Notamos um grande investimento do dinheiro público sendo direcionado para
uma política que vem atender somente a uma classe social e não para as políticas
necessárias, de fato, às demandas da classe trabalhadora da nossa da sociedade.
Também é observável que mesmo com esse grande investimento na promoção dos
Megaeventos esportivos, caberá à maioria da população, no máximo, a condição de
espectadora, dado o que segue abaixo:
Ao pesquisar os valores dos ingressos da Copa do Mundo de 2014, nos
deparamos, no site da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Federação
Internacional de Futebol (FIFA)27 com as regras para a emissão de ingressos. Mesmo
sem definição dos valores dos ingressos, já há pacotes de hospitalidade aos turistas, com
ingressos incluídos. Também pesquisamos os valores de ingresso para a Copa das
Confederações, que ocorrerá em junho de 2013 nas doze cidades brasileiras em que
serão realizadas a Copa do Mundo de Futebol, de 2014 e os preços variam de R$ 60,00
à R$ 684,00.
Outro exemplo é o caso do Estádio Mário Filho, o Maracanã, que neste
momento, encontra-se em período de reforma com recursos públicos e o Governo do
Estado já anunciou a intenção de entregá-lo a um concessionário privado após a Copa
de 2014 (SANTOS JÚNIOR, GAFFNEY & RODRIGUES, et. al. 2012).
De acordo com Melo (2005), o acesso diferenciado das classes sociais aos
diversos direitos sociais e bens culturais é marca registrada das sociedades divididas em
classes. A possibilidade de vivência esportiva não está imune a essa questão. Seja como
espectadora, seja como praticante, as condições dessa vivência se deterioram. A
mercantilização do esporte e dos espaços públicos de prática esportiva reduz a
27
http://pt.fifa.com/worldcup/index.html ; http://www.cbf.com.br/ , disponíveis em: março de 2013
existência desses espaços destinados à prática esportiva, como parques, praças, quadras
em condições de uso. Assim, o direito ao esporte, articulado ao direito à cidade,
encontra grandes dificuldades de realizar-se no contexto de uma formação social.
Observamos que o legado dos Megaeventos esportivos poderiam ser um
mecanismo de redução da desigualdade social de melhorara do convívio urbano. No
entanto, sua direção tem sido mais segregadora, excludente e seu legado pode deixar
uma dívida muito alta para a sociedade carioca.
Ainda que essa temática das ações dos empresários e do processo de
reordenamento da cidade do Rio de Janeiro em prol dos Megaeventos esportivos esteja
em constante movimento, em extrema efervescência, não podemos deixar de mencionar
as contradições que envolvem as obras do Estádio Mario Filho e redondezas. Este
Estádio foi construído para a realização da Copa do Mundo de Futebol de 1950. De
acordo com Melo (2005) para a construção do Estádio, houve a necessidade de
transferência da unidade militar, 1º Regimento de Carros de Combate (RCC), no terreno
que seria o Estádio, para outra área da cidade. Vemos atualmente a história se repetir,
onde, para a realização dos Megaeventos esportivos, a cidade passa por um processo de
reordenamento, muitas vezes de maneira arbitrária contra a classe trabalhadora.
Em Março de 2013 o governo do Estado do Rio de Janeiro lançou o edital28 de
licitação para a concessão do Maracanã. O referido edital menciona investimento de R$
594 milhões em obras que supostamente ainda precisam ser feitas. Entre essas obras
estão: a construção de um estacionamento, a demolição do parque aquático Julio
Delamare, do estádio de atletismo Célio de Barros e da Escola Municipal Friedenreich.
Sendo a reconstrução de cada um destes prédios, no lugar dos espaços demolidos,
obrigação do consórcio.
De acordo com o Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, o projeto feito pela
empresa IMX, do mega empresário Eike Batista, amigo pessoal do governador do
Estado do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, visa transformar o Maracanã em mais um
centro comercial lucrativo (com shopping, estacionamento, bares e restaurantes) na
cidade do Rio de Janeiro. A construção desse centro comercial “mais lucrativo para a
cidade” contará com espaços tradicionais na nossa cultura e esporte.
Para a realização deste centro comercial, que favorece apenas os grupos
empresariais, deverão ser demolidos o Estádio de Atletismo Célio de Barros e o Parque
28
Ver
em:
http://download.rj.gov.br/documentos/10112/1457028/DLFE58900.pdf/PPPCOMPLEXOMARACANAEditalVersaoFinal.pdf
Aquático Júlio Delamare. Dois dos principais centros de treinamento do esporte
brasileiro, deixando atletas olímpicos e paraolímpicos sem ter onde treinar e
interrompendo projetos sociais que atendem à comunidade local. Além das demolições
da Escola Municipal Friedenreich, que funciona há mais de 40 anos no Maracanã,
atende a cerca de 350 alunos e que é uma das dez melhores colocadas no IDEB em todo
o Brasil. Já o Museu do Índio, hoje ocupado por indígenas, deverá ser revitalizado e
transformado em Museu Olímpico.
É contraditório pensar que os bairros pobres e/ou favelas estão sendo
contempladas com projetos sociais esportivos: divulgados amplamente na mídia, como
o projeto Rio em Forma Olímpico, que foi usado até como forma de campanha política
para cargo de prefeito do Rio de Janeiro, que em 2012 reelegeu-se; ao mesmo tempo em
que atletas olímpicos, paraolímpicos, promissores de medalhas, que há muito se
dedicam ao esporte brasileiro estão perdendo seu espaço de treinamento. Também vale
lembrar que nesses espaços boa parte da população local vive do trabalho, como
comércios, além de serem atendidas com projetos sociais diversos.
Vale lembrar que desde 1920, com exceção dos jogos de 1928, Amsterdã, o
Brasil participa dos Jogos Olímpicos (“As Olimpíadas”). Também o Brasil é o único
país a ter participado de todas as competições da Copa do Mundo de Futebol, que teve
sua primeira Edição em 1930, no Uruguai. É relevante ressaltar que este Megaevento,
que ocorre de quatro em quatro anos, ficou sem duas edições durante o período da
Segunda Guerra Mundial. Na verdade existem outros Megaeventos esportivos que o
Brasil envia representantes, como a Copa do Mundo de diversas modalidades (exemplo:
Copa do Mundo de Judô, Copa do Mundo de Nado Sincronizado, entre outras); Jogo de
Inverno; Pan Americano. Mas a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos têm
maior visibilidade mundial e maior participação de países, de modalidades, etc. Como
pudemos observar nas últimas edições desses Megaeventos esportivos, determinadas
modalidades esportivas, principalmente e/ou especificamente aquelas que têm um (a)
atleta ou uma equipe promissores de medalha, emergem na mídia. Nesse caso, há uma
cobrança popular, midiática e dos patrocínios (quando se tem patrocínio) em cima dos
atletas. No entanto, ser atleta no Brasil, apesar de ser uma experiência única e muitas
vezes prazerosa, não é tarefa fácil. Faltam muitos investimentos e incentivos. Não há
facilidade em se encontrar local de treinamento adequado de baixo ou em custo, nem
sempre os profissionais estão preparados para este trabalho ou mesmo os profissionais
encontram tantas dificuldades, tendo que trabalhar em diversos lugares para a própria
sobrevivência que não dão conta de tanta dedicação a um esporte. O mesmo acontece
com os atletas.
Geralmente o caminho a ser percorrido pelo atleta vem da formação de base (a
primeira idade em que se “pode”, de acordo com os limites e possibilidade do corpo,
fisiologicamente, biomecanicamente e psicomotoramente falando, participar daquele
esporte), participações nas competições internas do clube ou da escolinha, competições
por categorias. E aos poucos, a partir da federação (ou em busca da federação),
aumentando o nível das competições, competições por clubes, por estados,
internacionais, etc.
Os atletas são jovens, precisam concluir sua formação escolar. Nem sempre são
oriundos de famílias em condição financeira suficiente que os permita somente estudar e
dedicar-se ao Esporte. Alguns precisam também ajudar na renda financeira familiar.
Além disso, quem arca com os custos das primeiras competições? E quando o atleta
conquista seu espaço no esporte dedicado, quem arca com as competições? (inscrição,
passagem, hospedagem)? Alimentação adequada, manutenção do espaço de treinamento
(quadra, pista, piscina, campo), manutenção do material de treinamento (bola, raquete,
etc), quem vai arcar? Quem financia os deslocamentos diários de treinamento (porque
nem sempre o atleta reside próximo ao local de treinamento e nem sempre a instituição
(clube) oferece alojamento)?
Podemos citar como exemplo, o caso do nadador olímpico Edvaldo Valério.
Considerado o primeiro nadador negro a participar dos Jogos Olímpicos, Edvaldo
Valério, conquistou a medalha de bronze nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, na
categoria revezamento 4x100m livre, junto aos nadadores Fernando Scherer, o Xuxa,
Gustavo Borges e Carlos Jayme. Apesar do feito, Valério sofreu para se manter no
primeiro escalão da natação brasileira. Ainda nadou por mais nove anos, mas sem o
apoio necessário. Antes de chegar as Olimpíadas, antes de conquistar a fama e ganhar
patrocínio, aos 16 anos, tinha uma rotina desgastante. Morador de Itapuã, na Bahia, ele
acordava de madrugada para treinar na piscina da Fonte Nova. O trajeto de quase 25
quilômetros era feito de ônibus. Da piscina, seguia para a escola e, em seguida, voltava
para casa. Pela tarde, nova viagem para mais um treinamento no Clube Olímpico de
Natação. Sem apoio de patrocinadores, o nadador contava com as rifas e colaborações
dos pais de colegas de piscina para pagar as viagens.
Em entrevista ao programa de televisão, Globo Esporte, Valério revela:
Eu ganhei a medalha em 2000 e, na metade de 2001, já tinha perdido quase
todos os patrocinadores. Quando eu resolvi parar, foi justamente em função
disso. Morei os quatro últimos anos fora e, quando voltei para Salvador, foi
decidido a parar, porque eu não iria ficar batendo de porta em porta pedindo
patrocinador. Então preferi abandonar a natação e dar seguimento aos meus
estudos.29
Aqui, levantamos algumas questões referentes às condições de um atleta para
sobreviver ou vencer no esporte. Nem entramos na temática do indivíduo que por algum
motivo (paixão por determinada modalidade esportiva, inspiração em seu ídolo,
deslumbramento, indicação de algum adulto – muitas vezes o professor de Educação
Física -, possuir habilidade motora de acordo com tal modalidade, etc.). Nem entramos
no debate de quem “formará” esse atleta. Nem questionamos sobre o treinador, sobre o
professor da “escolinha esportiva”, ou sobre o professor da escola, embora em minha
opinião não deva ser essa a prioridade do professor de Educação Física escolar.
De acordo com Medina (1989), o professor, em especial, o professor de
Educação Física, tem uma função fundamental em revelar ao sujeito sua percepção
como um todo na sociedade, desvelando o mundo através da interação do sujeito com os
outros sujeitos. Ele afirma que:
Nós não temos um corpo; antes nós somos o nosso corpo, e é dentro de todas
as suas dimensões energéticas, portanto de forma global, que devemos buscar
razões para buscar uma expressão legítima do homem, através das
manifestações do seu pensamento, do seu sentimento e do seu movimento (p.
12).
O corpo é a expressão da cultura. Gestos e movimentos corporais são criados e
recriados pela cultura, passíveis de serem transmitidos através das gerações e imbuídos
de significados. Dentre as produções da cultura corporal algumas foram incorporadas
pela Educação Física em seus conteúdos; o jogo, o esporte, a dança, a ginástica e a luta.
Sendo assim, a área da Educação Física atualmente contempla múltiplos conhecimentos
produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento (DARIDO,
2003). De acordo com Marinho (2010) por mais que a manifestação observável da
Educação Física esteja no corpo, a sua práxis não pode ser analisada pela evidência
corporal. Consciente ou não, o professor de Educação Física está atendendo a todo o
ser. A ação é sobre o homem completo, o organismo total.
A Educação Física sendo uma disciplina de caráter teórico-prático que trata de
assuntos relativos à cultura do movimento humano, pode no seu corpo de conteúdos,
29
Ver em: http://globoesporte.globo.com/ba/noticia/2012/10/lembra-dele-longe-das-piscinasedvaldo-valerio-tenta-fortalecer-natacao.html acesso em: 07/10/2012.
abordar assuntos relacionados à saúde, valores éticos, sociais e políticos do corpo, da
atividade física e do esporte, bem como a própria prática dos esportes, das danças, das
lutas e dos jogos. Nesse sentido, os conhecimentos de natureza conceitual, pertinentes à
Educação Física devem ser significativos de forma que os alunos levem estes
conhecimentos para fora dos muros da escola. Ou seja, os conhecimentos vivenciados
na escola devem favorecer a autonomia do aluno considerando a visível importância do
aprendizado e da execução de uma leitura crítica, em razão de ela ser a entrada para o
processo de crescimento humano, desenvolver o aprofundamento da consciência desse
mesmo sujeito em formação, no sentido de ele vir a capturar o significado de tal
importância em sua particular existência (FREIRE, 1996).
É muito importante que o aluno se perceba enquanto sujeito histórico, e a
educação deve ter a função de formar o indivíduo crítico e consciente da realidade
social em que vive, para poder nela intervir na direção de seus interesses de classe.
Sendo assim, o professor visa trabalhar além da técnica esportiva, deve estimular a
descoberta do aluno, fornecendo elementos para assimilação consciente do
conhecimento, permitindo-o pensar autonomamente, já que a apropriação do
conhecimento é uma das formas de emancipação humana (SOARES, 1992).
Quando a Educação Física escolar prioriza o desporto, voltado apenas para a
performance, priorizando o desenvolvimento do treinamento físico, baseado na
fisiologia, biomecânica etc., ela perde seu sentido. Como a Educação Física escolar,
como sinônimo de desporto teria sentido se o treinamento fosse uma vez por semana
numa aula de 50 minutos dividida para no mínimo 30 alunos, cada um com sua
individualidade – biológica e social, sem material e espaço adequados, como é a
realidade de muitas escolas? Poderia até ser a receita para o insucesso, já que os alunos
podem frustrar-se em não conseguir chegar ao resultado desejado.
De acordo com Medina (1989) a falsa supervalorização do pensamento
competitivo, baseado na meritocracia, promovida pelas ideias dominantes de uma
sociedade tecnológica e cada vez mais tecnicista, amordaçada às nossas concretas
manifestações, impede ao mesmo tempo, as expressões mais livres e espontâneas do
movimento, do sentimento e do próprio pensamento, enquanto fenômenos tipicamente
humanos.
Contudo, a Educação Física como ato educativo relaciona-se com a
corporalidade e ao movimento do ser humano, o aprimoramento da criatividade, da
sensibilidade, da autonomia do ser humano em todos os níveis, por isso, através dela
busca-se transformar o mesmo. Ou seja, suas atividades são fundamentais nos 3
domínios do desenvolvimento humano, sendo eles: o motor, afetivo e cognitivo.
Quanto a utilização do esporte no âmbito escolar, Kunz (2000) defende que o
ensinar esportes na Educação Física escolar vai além da perspectiva puramente
instrumental e deve almejar um compromisso educacional mais abrangente, insistindo
numa formação da cidadania crítica e emancipada dos estudantes por meio do
desenvolvimento das competências objetiva, social e comunicativa. Marcando uma
educação que se desenvolve, se refaz e se realiza pela interação entre professores e
alunos, como ato de se entenderem, de dialogarem e de interagirem comunicativamente.
Em suma, a Educação esportiva não deve ser vista como área que restringe a
ensinar técnicas “corretas” dos esportes, da ginástica ou da dança, ou a que vai corrigir
ou refinar gestos, mas a área que vai partir da dinâmica cultural específica de seus
alunos no que se refere às questões do corpo, enfim, tornar o aluno um indivíduo
ominilateral, nas questões corporais. (DAÓLIO, 1995).
Não devemos diminuir/confundir a importância do treinador. O treinador de
determinada modalidade, que em minha opinião, deve ser um professor de Educação
Física, deve buscar cada vez mais o aperfeiçoamento do atleta naquela modalidade, bem
como ser capaz de encontrar as razões que levaram ao sucesso ou insucesso nas
competições.
Muitas vezes os discursos referentes ao “fracasso do Brasil no Esporte” recai
sobre as escolas, embora não seja função de responsabilidade das escolas, sobretudo das
escolas públicas, formar atletas. Cabe aqui algumas observações. No ano de 2009, a, até
então e atual, secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro, após a
contestação de um alto índice de analfabetismo funcional (o aluno sabe ler, mas, não
interpretar), decorrente de diversos outros retrocessos da educação, criou um sistema de
reforço escolar, no qual as aulas de reforço acontecem no horário das aulas de Educação
Física e Artes. Ademais, as escolas públicas do Rio de Janeiro não têm infra-estrutura
para treinar alunos, nem instalações adequadas, além de elevado de números de alunos
para cada professor.
Não se trata de negar a importância do esporte na escola, nem mesmo fora da
escola. Até por que o esporte, além de ser um conteúdo da disciplina de Educação
Física, é essencial no desenvolvimento dos três domínios do desenvolvimento humano.
Contudo, o uso descontextualizado e metodológico das técnicas com o fim em si mesmo
isenta o real significado para o desenvolvimento, deixando escapar a visão clara da
contribuição do esporte na totalidade do fenômeno humano (MEDINA,1989).
Diante do exposto, tudo indica que os projetos sociais esportivos sob
responsabilidade da prefeitura municipal do Rio de Janeiro funcionam não só como
complemento da educação escolar, mas também como preenchimento das lacunas
deixadas pelo Estado. Partindo dessa hipótese dedicamos nosso trabalho de campo ao
projeto Rio em Forma Olímpico, Projeto, parte integrante da política educacional, que
será apresentado no próximo capítulo.
Voltemos às contradições das obras do, e no entorno, do Maracanã. De acordo
com o resultado de 2011 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o IDEB, o
Estado do Rio de Janeiro foi um dos oito Estados (o único da Região Sudeste) que
menos de 50% dos municípios atingiram a nota seis, nota meta do IDEB para até 2021.
No do Rio de Janeiro, apenas 41,3% das cidades atingiram a meta30. As áreas onde as
escolas que apresentaram baixo desenvolvimento, foram contempladas com o projeto
denominado Escola do Amanhã. Este projeto visa reduzir a evasão escolar e melhorar o
desempenho de alunos através de educação em tempo integral com atividades como:
artes, esportes, reforço escolar para os alunos nos contra turnos, laboratórios de ciência,
além de salas de saúde, leitura e informática. Contraditoriamente, a Escola Municipal
Friedenreich, situada no Maracanã, que, como já mencionado, está entre as dez
melhores colocadas no ranking do IDEB em todo o Brasil, está na lista de instituições
que serão demolidas para as obras do Maracanã.
Vale mencionarmos o depoimento da mãe de um aluno da Escola Municipal
Friedenreich, cedido para o presente estudo:
Como mãe da escola municipal Friedenreich, não concordo com a sua
demolição, pois a mesma encontra-se em perfeito estado. Tenho certeza que
essa escola foi muito importante no desenvolvimento do meu filho, como ele
é uma criança com necessidades especiais, o trabalho que é feito de inclusão
não poderia ter sido melhor. Além de ser uma das melhores escolas do
Estado, por esse e por outros motivos, não aceito a demolição. Não agüento
ver meu filho perguntando onde vai estudar. Será que tudo isso é pelo
futebol? Ou pelo dinheiro? Então como brasileira carioca e usuária do
entorno do estádio do maracanã vejo a sua privatização como a maior
vergonha da copa do mundo no Brasil. Pois é lamentável como nossa cidade
está se transformando. Tudo pelos interesses de poucos, e nada pelo interesse
do povo, será que o futebol é feito mais importante que a educação? Será que
isso e culpa do futebol?
30
Ver mais em: http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=1045928
Sim, os governos Estadual e Municipal divulgam estar investindo nos projetos
olímpicos. Implantam projetos sociais esportivos e destroem locais que já formaram e
tinham condições de formar grandes atletas, como o José Telles da Conceição, a nossa
primeira medalha olímpica no atletismo; Aída do Santos, a primeira mulher a ficar em
quarto lugar na Olimpíada e a única mulher da delegação em Tóquio (1964) e a campeã
olímpica Maurren Maggi, ainda no auge da carreira e que vem atuando na luta a favor
da permanência do Estádio. Além da formação de atletas, esses espaços representam
áreas de lazer de baixo ou nenhum custo para os frequentadores. O poder público, ao
invés de incentivar o desenvolvimento dos desportos, optou por demolir locais
históricos e consagrados pelo esporte brasileiro, dando prioridade à construção de
estabelecimentos que só atendam a uma parcela da população. A opção do governo do
Rio de Janeiro (Estado e Município) em priorizar a infraestrutura de grandes estádios,
em detrimento a outros equipamentos esportivos, vem causando certa frustração em
relação às expectativas populares no que diz respeito aos Megaeventos, uma vez que as
prioridades nos investimentos não estão sendo conduzidas de modo transparente e
participativo (para não incidirmos em acusações pessoais).
Será que esses projetos que surgiram na efervescência dos Megaeventos
esportivos terão a mesma qualidade dos projetos que eram desenvolvidos no Estádio
Célio de Barros e no Parque Aquático Julio Delamare? Será que esses novos projetos
sociais terão continuidade após os Megaeventos esportivos? Quem irá sustentá-los?
Mais uma vez nos perguntamos, a quem interessa a realização dos Megaeventos
esportivos no Rio de Janeiro?
As parceiras público-privadas são defendidas por seus propositores como sendo
um caminho para melhoria dos resultados e dos serviços públicos, e diminuição dos
custos do sistema público para tais serviços. Pode-se dizer que essas ações se
configurem como uma face de implementação de políticas públicas por organismos
privados. Embora em momento algum o projeto Rio em Forma Olímpico se apresente
publicamente como parte do chamado terceiro setor.
Capítulo IV
4 – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS
4.1 - Rio em Forma: Driblando a Adversidade da Cidade do Capital31
“Somos instados a conviver alegremente nos estádios de
futebol, nos desfiles de escolas de samba e na nossa
cozinha. Mas vivemos em mundos separados, cada vez
mais longe um do outro. Comecei a me dar conta, por
esta forma violenta, da invisível e poderosa hierarquia
(ou separação de classes) da nossa sociedade. Que não
somos iguais nem perante a lei, nem perante a riqueza
produzida, já sabemos há muito tempo. O que não sabia
era que havia tantos obstáculos microscópicos a
entravar o contato social mais íntimo entre nós.”
(ZALUAR, 1984, p. 11)
Tendo em conta o objetivo da pesquisa - analisar as contradições entre capital e
trabalho presentes em escolinhas esportivas e projetos sociais que atendem crianças em
idade escolar - neste capítulo apresentaremos nossas observações do trabalho de campo,
desenvolvido no projeto Rio em Forma Olímpico, na Cidade de Deus, no período
compreendido entre Maio e Dezembro de 2012. No trabalho de campo analisamos a
história da comunidade e o funcionamento do referido Projeto. Pesquisar os
simbolismos dos projetos sociais implica a atividade de análise interpretativa. E isso
requer que conheçamos o significado o objeto, isto é, palavras e gestos e sua verdade
contextual.
A escolha de realizarmos nossa pesquisa no Projeto Rio em Forma Olímpico32,
se deu por 3 motivos: O primeiro motivo refere-se ao fato deste projeto caminhar junto
às escolas publicas, atendendo em várias comunidades da cidade do Rio de Janeiro; o
segundo motivo refere-se ao fato de o mesmo ter sido implantado em 2009 e estar em
constante crescimento aumentando o número de comunidades a serem atendidas; por
fim, o terceiro motivo se deve ao fato de o Projeto Rio em Forma Olímpico, apresentar,
em sua proposta, um discurso superficial, onde palavras de ordem como valores,
cidadania, democracia, etc, carecem de significado.
31
Cidade do Capital é o título do livro de Henri Lefevre que discute as questões da cidade à luz do
materialismo histórico.
32
Projeto está no anexo 2 do trabalho.
A pesquisa de campo será descrita por meio de linguagem coloquial e em forma
de relato. Abordaremos desde os primeiros contatos com a gestão do Projeto Rio em
Forma Olímpico, passando pelas trocas de mudanças de realização das atividades, até o
encerramento das atividades para o período de recesso das mesmas, o que coincide com
as férias escolares. Para a compreensão do Projeto Rio em Forma Olímpico na
comunidade Cidade de Deus, também será apresentado nosso estudo sobre a referida
comunidade. Tudo isso, nos permitirá compreender parte das contradições entre capital
e trabalho que envolvem e são envolvidas pelos Megaeventos esportivos de 2014 e
2016.
De acordo com Melo (2005) entendemos que discutir sobre esta ou qualquer
outra comunidade requer superarmos o olhar totalizante que a vê apenas pela ótica da
violência e/ou miséria. Não se tratando de negar a existência desses graves problemas,
mas sugerir que estes são fenômenos naturais, absolutizados, como muitas vezes fazem
as abordagens midiáticas.
A referida pesquisa realizou-se na unidade da comunidade da Cidade de Deus,
onde se localiza uma Escola do Amanhã. Por meio de observação e entrevistas semiestruturadas aos profissionais responsáveis pelo projeto (o professor e o instrutor) e da
análise dos documentos oficiais, comparando o discurso e a prática, pudemos analisar
seus objetivos e sua realização, bem como a relação entre o discurso do projeto e a
realidade do mesmo. Seguimos o seguinte roteiro para a realização da pesquisa semiestruturada:
12345678-
Função exercida
Carga Horária
Quantos alunos atende por turma ou por horário?
Há quanto tempo trabalha no projeto?
Como é desenvolvido o projeto educativo?
Qual sua relação com a comunidade em que trabalha?
O que você espera do projeto em relação a sua carreira?
O que você espera do projeto em relação à formação dos alunos?
Consideramos este tipo de abordagem, adequado por servir de instrumento para
registro da experiência do Projeto Rio em Forma Olímpico no contexto das Políticas
Públicas no município do Rio de Janeiro, de modo a denunciar/compreender a favor de
quem este projeto se insere.
Também nos baseamos na pesquisa de Zaluar (1984) para buscarmos discernir o
discurso do que foi dito publicamente ou nas conversas, do processo de comunicação
social com a comunidade, que segundo ela, não é uniforme e ininterrupto, ao contrário,
é pontilhado de interrupções, proibições, restrições ao dizer. Conforme suas palavras:
O acesso do pesquisador ao conhecimento que os agentes têm do mundo e da
sociedade, bem como do lugar que ocupam neles, é mediado por esse
discurso dirigido ao outro. Como as relações sociais que limitam, promovem
e permitem o discurso estão arranjadas segundo princípios que independem
da subjetividade dos agentes em interação, já que eles mesmos limitam e
condicionam esta interação, a atividade da pesquisa não é só interpretativa
(p.59).
Sobre a atividade de pesquisa, a autora explicita que:
Ela é crítica e explicativa também. Portanto, exige o distanciamento do
pesquisador e a atenção às condições sociais que limitam os discursos e, no
seu interior, impelem os agentes que a justifiquem, racionalizam, defendam
suas posições neste mundo de sentido nada consensual, feito de significados
em confronto, de redes simbólicas purificadas. Diante desses “textos”
variados, o distanciamento do pesquisador é o caminho para evitar que se
caia no relativismo absoluto ou no historicismo radical em que tudo é
particular, circunstancial e subjetivo. Isto é tão mais importante, quando se
sabe a forte atração que a idealização do popular como fonte de toda
sabedoria de todo o bem, como a esperança de redenção nacional, tem
exercido sobre a atividade intelectual mais recente nesse país (p. 59).
A proposta dessa pesquisa não foi de produzir um discurso panfletário ou
populista, mas de buscar suas identidades sociais definidas pelos próprios assistidos do
Projeto Rio em Forma Olímpico. Assim, o texto, em forma de narrativa e de relato,
apresenta-se dividido entre subjetivo e objetivo, não sendo imparcial ou neutro.
4.1.1 - Contradições e Projetos Sociais
Thompson (1981), através do princípio da dialética marxista da historicidade e
totalidade de todo fenômeno social, nos lembra que os eventos econômicos são também
eventos humanos, e, por sua vez, encontram-se entrelaçados com eventos sociais e
culturais. Ele defende que entender a experiência na vida de homens e mulheres reais
significa compreender o diálogo existente entre ser social e consciência social. Com
base no materialismo histórico, embora com alguns questionamentos, Thompson
empenha em recuperar a experiência empírica. O autor busca realizar uma
experimentação ligada à análise do contexto, procurando substituir a base da
superestrutura pela análise da consciência da classe operária. E assim, advoga que a
categoria experiência só pode ser entendida em junção com as outras categorias, como
cultura e classe.
Partindo do princípio de compreender a categoria experiência, em conjunto com
as categorias de classe e cultura, acreditamos ser importante avaliar as contradições
existentes nos discursos dos projetos sociais que surgiram com a efervescência da
preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos. Como já
mencionado, a prefeitura do Rio de Janeiro tem investido em projetos que propõem
“aproveitar o poder transformador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 para
promover conquistas sociais, benefícios duradouros e melhorias nas condições de vida
da
população.”
(http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html).
Que benefícios são esses? A população foi consultada sobre quais eram suas
reais necessidades? O Brasil está preparado para se tornar uma Potência Olímpica?
Faltam investimentos e muitos; atualmente há carências muito maiores nas escolas.
Mesmo que a escola e os projetos sociais estivessem “preparados” e que não houvesse
outras carências na escola e na sociedade, essa é a proposta da Educação Física?
Selecionar alunos? Excluir outros? Deveria ser uma facilidade o Rio de Janeiro sediar
esses eventos por estar preparado para isso e não o contrário. Será que esses
participantes dos projetos, de fato terão alguma oportunidade durante e depois da
realização desses eventos? Que oportunidades são estas? E depois da Copa e das
Olimpíadas, esses projetos continuarão funcionando?
De acordo com a apresentação da Prefeitura do Rio de Janeiro33, os principais
projetos e suas respectivas propostas, são: a) Morar Carioca – “Urbaniza as favelas, que
se tornarão bairros integrados à estrutura formal da cidade”; b) Ginásio Experimental
Olímpico – “Integra educação de excelência com treinamento esportivo de qualidade”;
c) Time Rio – “Auxilia a preparação de atletas com potencial de medalhas e fomenta a
prática esportiva entre a população através do contato com os ídolos”; d) Rio Criança
Global- “Universaliza o ensino da língua inglesa na rede pública municipal, com aulas
ao longo dos nove anos do ensino fundamental”; e, e) Rio em Forma Olímpico –
“Oferece ao cidadão acesso à prática esportiva orientada, gratuita e de qualidade, em um
raio de no máximo 2 km de distância de qualquer que seja a sua localização”.
O Projeto Rio em Forma Olímpico é um dos projetos da Secretaria Municipal de
Esporte e Lazer (SMEL), que há 23 anos é responsável pelo desenvolvimento das
políticas públicas de esportes e lazer da Prefeitura do Rio de Janeiro. Tal Projeto, que
33
http://www.cidadeolimpica.com.br/
atua como ação complementar a escola, configurando-se como espaço e tempo de lazer
para seus participantes, foi criado em 2009, e apresenta-se como um projeto que visa
atender, dentro das próprias comunidades, os moradores em atividades que fomentem a
qualidade de vida. Segundo o site da SMEL, o projeto “está focado nos valores
emocionais e educacionais capazes de serem mobilizados pelo esporte e o lazer, e
pretende através das suas atividades, agregar conhecimentos, valores, condutas e
comportamentos”. (http://www.rio.rj.gov.br/web/smel)
Os núcleos, locais de realização dos projetos, estão sendo implantados nas
comunidades que dispõem de espaços físicos que comportem as atividades e também
em áreas consideradas conflagradas, onde os alunos avaliados pela última prova do
Ministério da Educação (MEC)34 apresentaram baixo índice de desenvolvimento
educacional; priorizando assim, as áreas das Escola do Amanhã.
O projeto Escolas do Amanhã foi, criado em 2009 pela Secretaria Municipal de
Educação. O referido Projeto tem como objetivo reduzir a evasão escolar e melhorar o
desempenho de alunos que moram em áreas conflagradas da cidade. Entre as propostas
do projeto estão educação em tempo integral; artes, esportes, reforço escolar para os
alunos nos contra turnos, laboratórios de ciência, além de salas de saúde, leitura e
informática. Embora não sendo nossa área de estudo, vale mencionar que o projeto
Escolas do Amanhã, vem sendo muito criticado por aquelas que defendem uma
educação libertadora como mais um projeto que não cumpre o que propõe.
Tendo em conta as questões teórico-metodológicas apresentadas na construção
do objeto deste estudo, identificamos elementos da totalidade em que os Megaeventos
estão inseridos. Nesse caminho, adotamos a perspectiva do materialismo histórico por
este nos dispor de elementos para a compreensão do objeto de estudo em sua totalidade,
num exercício que parte do abstrato (real pensado) para o conhecimento real concreto.
É relevante analisar qual a relação das políticas públicas de educação com a
concepção de Educação Esportiva funcional ao modo de produção capitalista, pois os
discursos dos documentos dos projetos sociais esportivos são superficiais e
contraditórios. Ademais, observamos que a ideia e os discursos de inclusão e de
cidadania voltados para o desenvolvimento de necessidades lúdicas e de lazer da
população mais desfavorecida, parece-nos insuficiente numa perspectiva de ruptura do
34
A Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) são avaliações para
diagnóstico, em larga escala, desenvolvidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais
Anísio Teixeira (Inep/MEC). Têm o objetivo de avaliar a qualidade do ensino oferecido pelo sistema
educacional brasileiro a partir de testes padronizados e questionários socioeconômicos.
modelo socioeconômico. Essa ideia, apresentada como mera relação mecânica para
administrar as tensões oriundas das relações sociais de produção, não condiz na prática
com o apelo político da inclusão, até mesmo porque nossa sociedade é pautada na
exclusão35.
Verificamos, portanto a classe trabalhadora sendo excluída do sistema da
propriedade privada, e a classe dominante monopolizando diversas formas, senão todas
as formas, economicamente mais importantes da propriedade e impedido que a massa
dos trabalhadores participe da posse dos grandes meios de produção. Esses males do
sistema sobrecarregam a classe trabalhadora, o que pode provocar sua insurreição contra
esse sistema.
Ao abordar a questão da política habitacional no processo de remoção das
favelas para os conjuntos habitacionais na década de 1960, Zaluar (1984) aponta que
tanto nos textos acadêmicos quanto nas políticas adotadas, cuidava-se de levar em
consideração os interesses, desejos e reivindicações dos trabalhadores pobres como
meio de evitar tensões perigosas para a ordem social. Nesse caso, podemos entender que
a revolta da população de menor poder aquisitivo em perder seus espaços para a
realização dos Megaeventos esportivos também poderia gerar conflitos sociais.
Um exemplo dessa política de atender a população pobre como meio de controle
social e um exemplo de que determinações humanas não são lineares (e, por isso, não
precisam vir apenas de cima para baixo, ou seja, as ações podem ser quebradas e as
determinações virem, também, de baixo para cima) (THOMPSON, 2001), pode ser
mostrado a partir do relato de Zaluar (1984) quando refere-se a onda de saques à
supermercados ocorrida em 1983, com um duplo alvo:
O governo, que provocava a diminuição contínua do valor real dos salários
através dos reajustamentos menores do que a inflação, o estabelecimento
comercial que alterava os preços arbitrária e galopantemente. Como a medida
do valor real do salário está na quantidade de gêneros alimentícios que aquele
pode comprar e como é nas compras mensais nos supermercados que os
trabalhadores efetuam esse cálculo, os saques foram iniciados no mês em que
o feijão e o arroz sofreram um aumento de 30% sobre o preço anterior. De
mais a mais, os saques ocorreram quando estavam em discussão os decretos
que determinavam o aumento do salário a uma taxa inferior à da inflação
oficial, o que afetava cerca de 70% da população do conjunto da Cidade de
Deus. A “revolta” expressa nos saques era, então, dirigida ao governos como
uma mensagem: haviam chegado ao limite do suportável e não iam aceitar
nenhum sacrifício a mais em nome da crise ou dos interesses da nação (p.
161).
35
Sobre o binômio exclusão/inclusão, ver: Kuenzer (2005).
Acreditamos que essa política de considerar os interesses, desejos e
reivindicações dos trabalhadores pobres como meio de evitar tensões perigosas para a
ordem social e de atender a população pobre como meio de controle social, é uma das
intenções do Projeto Rio em Forma Olímpico. O referido Projeto apresenta em sua
proposta estar focado “nos valores emocionais e educacionais capazes de serem
mobilizados pelo esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregar
conhecimentos,
valores,
condutas
e
comportamentos”.
(http://www.rio.rj.gov.br/web/smel).
O que seriam “valores emocionais e educacionais capazes de serem mobilizados
pelo esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregar conhecimentos,
valores, condutas e comportamentos”? Como o projeto é realizado? Existe algum
acompanhamento do governo para o sucesso dos objetivos desse projeto? De onde vem
e como se dá o financiamento para o projeto (instalações, manutenção dos materiais,
acompanhamento dos alunos)? Quais são as expectativas dos alunos para a continuidade
do projeto após os Megaeventos esportivos? Quais são as expectativas dos profissionais
para a continuidade e sucesso do projeto?
A partir das contradições identificadas no contexto dos Megaeventos no Rio de
Janeiro, desenvolvemos a análise do Projeto Rio em Forma Olímpico, buscando
desvelar o que o programa traz em seu bojo enquanto política de educação e/ou de
esporte, e o significado que, cotidianamente, vem sendo construído.
4.1.2 – Do diário de campo
4.1.2.1- Primeiros contatos:
Durante a estruturação do projeto de dissertação a ser apresentado à “banca de
defesa de projeto”, iniciei os contatos com o Projeto Rio em Forma Olímpico. Fui
atendida na Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SEMEL/RJ), pelo gestor do
Projeto, Marcelo Leite, que me deu algumas informações sobre o mesmo e informações
referentes aos horários e locais das aulas, informações estas que estão no anexo deste
trabalho. A partir da autorização, via documentos oficiais, da minha Instituição de
Pesquisa, a Universidade Federal Fluminense, voltei ao mesmo para dar prosseguimento
à pesquisa. Com posse dos dias e horários e endereços das comunidades onde eram
realizados os projetos (também no anexo deste trabalho), fui à comunidade escolhida, a
Cidade de Deus. Como veremos adiante, esta comunidade é dividida em 14 áreas,
sendo, o Caratê, uma das áreas contempladas pelo Projeto Rio em Forma Olímpico.
Mas, para a minha surpresa, ao chegar ao Caratê, não encontrei o projeto em atividade.
A quadra estava lá, coberta e suja. A quadra fica em frente a sede da Unidade de Polícia
Pacificadora (UPP), mas também, para minha surpresa, não tinha policiais para dar essa
informação. Conversei com alguns moradores e nenhum sabia de atividades, alguns
diziam: “ah, de vez em quando tem alguma coisa na quadra sim”.
Tentei entrar em contato com o professor responsável (professor indicado na
planilha de endereços e horários de funcionamento das escolinhas), mas também não
consegui contato, pois o celular não foi atendido e o telefone fixo era da mãe do mesmo
que disse que o filho não mora lá.
Em suma, as primeiras informações não me pareciam nada animadoras, ninguém
da comunidade sabia dizer nada sobre o projeto. Fui embora, com a sensação de que
nesse contexto de projetos ditos sociais as políticas públicas são encaradas como forma
de esmola e por isso aqueles que deveriam ser atendidos por essas políticas, não lutam
para ter suas atividades garantidas. Adicionado à falta de controle dos recursos públicos,
a escolinha esportiva parece ser listada em um projeto da Secretaria Municipal de
Esporte e Lazer, mas não é detectada na comunidade. Fica visível certa a aproximação
ideológica com uma concepção não contestatória e sim de colaboração, como se não
existisse consciência do direito de reclamar por parte do próprio individuo que está
sempre numa situação/condição inferiorizada. Fiquei pensando se daria continuidade ao
meu objeto de pesquisa, levantando novas questões para esta pesquisa em função desse
novo dado, ou se desistiria do tema.
Nos dias que se prosseguiram insisti nas ligações ao professor até ser atendida.
A vida de um professor não é nada fácil. Certamente, para garantir sua sobrevivência,
trabalha excessivas horas semanais e em diversos espaços. O mesmo me informou que
justamente no sábado que fui ao projeto ele esteve doente e não foi ministrar aula. E que
os horários das aulas estavam desatualizados na planilha que recebi do gestor. Com a
atualização dos horários, voltei à campo. Chegando lá, me deparei com a faixa do
Projeto exposta na Quadra e fui conversar com o professor e a enfermeira, responsáveis
pelas aulas no Projeto Rio em Forma Olímpico. Para nossa surpresa o professor era meu
amigo antigo, o que facilitou a troca de informações.
Essa conversa informal me trouxe alguns questionamentos: Para que deve servir
uma enfermeira em um projeto como esse? Será esse mais um indício de tratar-se de um
"projeto assistencial". Será que é por isso que o denominam de "projeto social"? O
Projeto funciona nesses moldes: um professor formado em Educação Física e um staff36,
(conforme descrito na planilha de atividades) esse staff é um morador da comunidade
que não tem a formação em Educação Física. Nesse caso, a staff é uma enfermeira.
Dessa vez a quadra estava limpa. Eles relataram que sempre que chegam lá,
estendem a faixa do projeto na quadra (porque se deixar lá, a mesma aparece
danificada). Também me relataram que sempre que chegam à quadra, varrem a mesma.
O material da aula pode ser deixado na Sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP),
mas preferem levar e trazer o material todos os dias. Sobre a participação da UPP no
projeto, relataram que não há essa participação.
O Projeto é marcado para acontecer na Praça do Caratê, numa quadra conhecida
como “galpão”, às 3as e 5as das 07:00 horas às 09:00 horas e das 15:00 horas às 17:00
horas e aos sábados das 07:00 horas às 09:00 horas. Constituindo-se de aulas de
Ginástica para os adultos e Futebol para os alunos em idade escolar, sendo
aproximadamente 1 hora de aula cada modalidade. Os profissionais responsáveis pelas
aulas são um professor, que ministra as aulas e uma enfermeira, que faz um
acompanhamento das aulas e fornece auxilio ao professor. No anexo 3 deste trabalho,
constam as fichas de inscrição dos alunos do referido Projeto, ficha de chamada, ficha
de acompanhamento da pressão arterial dos adultos e ficha de planejamento das aulas.
Curioso foi que, enquanto conversávamos, a mesma moradora que disse desconhecer as
atividades na quadra, foi até o professor, abraçou-o, beijo-o e justificou sua ausência na
aula anterior. Compreendemos, assim, que a relação de confiança precisa ser
conquistada pelo pesquisador.
A Praça do Caratê é um espaço na Cidade de Deus que durante muitos anos,
abrigou o tráfico de drogas. É uma área descampada e de barro, onde muitos casebres
foram construídos em volta. Segundo relatos dos participantes do Projeto Rio em
Forma Olímpico, em 2009, o Governo Federal investiu na quadra que ali se encontra. É
uma quadra de futebol de salão, sem marcações e com boa iluminação. Vale citar parte
da minha monografia da Especialização em Educação Física Escolar, na qual relato o
dia da inauguração desta quadra:
Peço licença para ilustrar um dia que presenciei neste ano na Escola
Municipal que fica no final da minha rua, na Cidade de Deus. Neste dia, no
lugar da aula houve festa. A escola foi contemplada com a equipe do Prefeito
Eduardo Paes para a inauguração de uma quadra que, segundo ele haverá
36
Staff refere-se à pessoa responsável por apoiar e dar suporte às atividades desenvolvidas.
assistência social e aulas de esportes. Os alunos ficaram muito satisfeitos,
com a visita ilustre, com o lanchinho que receberam e sentindo-se assistidos
por ganharem festa e promessas de um futuro melhor. Curioso foi ver que a
escola recebeu um café da manhã super sofisticado e nos dias comuns não é
assim. (CRUZ, 2010, p. 26)
Vemos então, o poder público utilizando-se do esporte, reconhecido como
valioso na obtenção do consenso popular. Buscando apropriar-se das manifestações
populares e culturais proporcionadas pelo esporte, fomentando a idéia de que
ofereceriam maiores oportunidades àquela comunidade de participação em atividades
esportivas e de lazer.
4.1.2.2 - Embates para a realização do Projeto: a disputa por alunos
Segundo o relato do professor, na mesma quadra onde é realizado o Projeto Rio
em Forma Olímpico, também mais dois Projetos são realizados. Um constituído de
aulas de Volei promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI) e um constituindo de
aulas de Futsal também promovido pelo antigo Projeto SUDERJ, agora Projeto Rio
2016. O Projeto Rio 2016, é patrocinado pelo Deputado Estadual Domingos Brazão do
Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e o Projeto Rio em Forma
Olímpico, pelo Vereador Luiz Antônio Guaraná, do mesmo partido. Nas aulas do
período da manhã o Projeto Rio em Forma Olímpico funciona sem dificuldades, mas à
tarde, ambos os projetos disputam o espaço na quadra e os alunos. Dessa forma, no dia
da aula, o professor que mais atrair os alunos consegue ministrar as aulas. Os atrativos
principais são carisma e uniforme. Esse processo acontece da seguinte forma: os
professores chegam, mal se cumprimentam e se instalam. Separam a faixa de seu
projeto e o material que será utilizado na aula. Aos poucos os alunos chegam, ou vão
passando pela rua, ao se depararem com um dos professores, se aproximam. Assim, a
aula começa quando um dos professores estiver com número suficiente para uma aula
coletiva. Ainda assim, as aulas naquele local eram inexpressivas, com participação de
cerca de 10 alunos.
Dessa maneira, notamos que os projetos sociais apresentam-se como um
investimento de forte apelo político eleitoral para estes partidos/candidatos. Nesse
sentido, observamos que as comunidades passam a ser visadas em virtude das carências
detectadas nas comunidades. Carências essas, oriundas do nosso modelo desigual de
sociedade.
Nesse contexto, podemos nos reportar ao que Paiva (2008) observou ao analisar
o Programa do Clube Escolar. Segundo esta autora, a hierarquização social promovida
pelo capital e sedimentada por um Estado clientelista que se pauta em ações isoladas,
esporádicas e descontínuas, parece não contar com as contradições inerentes ao sistema
econômico, que, ao mesmo tempo que se serve de mecanismos cujo papel é assegurar a
hegemonia da classe dominante (escola, mídia, projetos sociais), administra outros que
buscam se contrapor a estes (partidos, sindicatos, etc.).
Além do embate político, podemos destacar outro embate. Devido às exigências
necessárias para a participação dos alunos nas aulas (ficha de inscrição preenchida e
assinada pelo responsável e atestado médico) e outros fatores que serão mais avaliados
no decorrer da pesquisa, não há um controle do número dos alunos. São apenas 8 alunos
inscritos no futebol, mas participando das aulas, segundo o professor, tem mais de 20
alunos.
4.1.2.3 - Mudança de local de realização das aulas
Na semana seguinte, o professor me ligou dizendo que, em função do baixo
número de alunos nas aulas de futebol e da concorrência com o Projeto Rio 2016, o
Projeto Rio em Forma Olímpico estava sendo deslocado para outro bairro, a Boiúna,
situada na Taquara. Nesse caso, prejudicando assim, as aulas de ginástica dos adultos,
que atingiam um público de cerca de 40 adultos que participavam das aulas e
mantinham ótimas relações com os profissionais, além da interação desses moradores
um com o outro.
De posse da lista de endereços e horários das escolinhas esportivas do Projeto
Rio em Forma Olímpico, fui à outra unidade do Projeto, situada no centro da Cidade de
Deus. Por ser no centro da comunidade não há condução (ônibus), fui de bicicleta (eu
tinha lembranças do caminho, pois no ano de 2006, enquanto estava em formação da
graduação em Licenciatura Plena em Educação Física, fiz estágio num Projeto Social
neste mesmo lugar). Notei no caminho que as ruas em que os traficantes ficavam
armados vendendo drogas, realmente não tinham mais esses traficantes. As ruas
estavam muito enlameadas, embora não houvesse chovido nos últimos dias;
pouquíssimos trechos asfaltados; entulhos de obras nas ruas. Obras da Prefeitura e obras
particulares; A grande quantidade de lixo (desde sofá à garrafas Pet) e o derramamento
de esgoto no rio, que divide a comunidade, em dois lados também era bastante notável;
Outra observação a ser destacada, foram as placas de candidatos. Muitas placas de
diversos candidatos a prefeitura e vereador de diversos partidos, expostos pelas ruas da
comunidade.
Chegando ao endereço, uma quadra ao lado da Associação de Moradores,
conhecida como Campo do Lazer, no horário da aula, estava tendo jogo de futebol.
Meninos e meninas jogando e os times diferenciados pelos coletes, e um homem
apitando o jogo. O professor estava no canto da quadra. Foi fácil reconhecê-lo, pois ele
estava com o uniforme de professor do Projeto Rio em Forma Olímpico. Dirigi-me até o
mesmo, identificando-me como mestranda, autorizada pelo gestor do Projeto Rio em
Forma Olímpico, Marcelo Leite realizar minha pesquisa lá. Ele foi receptivo e disse que
aquela aula não era aula do Projeto Rio em Forma Olímpico, pois no horário de sua
aula, também havia outra aula que não pertencia a nenhuma instituição e sim um
trabalho voluntário que existe ali há mais tempo que o surgimento dos diversos projetos
sociais que foram criados diante da efervescência dos Megaeventos esportivos. Também
disse que a maioria dos alunos moram mais próximos a área do Caratê e como à tarde
também têm mais dois projetos funcionando no Campo do Lazer, as aulas do Projeto
Rio em Forma Olímpico acontecem, efetivamente, no Campo do Cruzeiro, outra quadra
situada no Caratê.
Observamos que a planilha da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer sobre as
Unidades do Projeto Rio em Forma Olímpico servem apenas como base de
informações, pois o funcionamento das escolinhas esportivas dependem de outros
fatores que fogem do alcance e do planejamento inicial da secretaria, sendo resolvido ou
não pelos profissionais envolvidos. Nesse caso, no Campo do Lazer, as aulas estão
marcadas na planilha para funcionar 3as, 5as e sábados, das 09:00 horas às 11:00 horas
e das 14:00 horas às 16:00 horas, em todos esses horários sob a responsabilidade de um
professor de Educação Física e um morador que não tem a formação de professor de
Educação Física, mas atua como tal (na planilha ele aparece como: staff). No entanto,
nesta unidade acontece da seguinte forma: 3as e 5as das 10:00 às 11:00 horas no Campo
do Lazer, com cerca de 10 alunos assíduos e sob a responsabilidade de professor e do
morador e das 14:00 às 16:00h. no Campo do Cruzeiro, com cerca de 30 alunos, entre
meninos e meninas, sendo ao as 5as a participação do professor, pois às 3as ele tem
outro compromisso. E aos sábados os profissionais levam os alunos do projeto para um
campeonato de futebol em ter outras associações e federações independentes do Projeto
Rio em Forma Olímpico.
A prática de morador ministrar a aula no lugar do professor não é caso especial
desse projeto social ou mesmo dessa comunidade. Visto que Melo (2005) revela que
para dar funcionamento a Vila Olímpica da Maré, é implementado um programa de
esporte chamado Esporte Comunitário. No qual no início desse programa, as aulas eram
ministradas por ‘pessoas da Maré’, que de alguma forma já atuavam com esportes na
comunidade, fosse tendo “escolinhas de futebol”, organizando campeonatos ou mesmo
na condição de diretores de esportes nas associações de moradores. “Assim foram
contratados no próprio bairro ou favela para atuarem como professores na Vila
Olímpica da Maré (VOM)” (p. 137).
Enquanto conversava com o professor, ia passando na rua uma mulher, bem
vestida e com equipamentos de filmagem. Ela se aproximou e fez perguntas sobre o que
estava acontecendo ali, se era projeto social, aula, etc. Identificando-se como
funcionária da área de publicidade da empresa Light, segundo suas palavras, “estava
procurando cenários interessantes para fazer um trabalho.” Aos pouco foi revelando do
que se tratava sua intenção: era fazer a apresentação de um Projeto de sua empresa, a
Light, nesse caso, queria entrevistar o autor do Projeto da Light na frente da quadra,
utilizando a imagem dos alunos jogando bola como pano de fundo. Nesse momento, já
eram duas estranhas por ali, eu e ela. Então, tanto o professor que estava ministrando a
aula, tanto o outro responsável pelo andamento do Projeto Rio em Forma Olímpico, o
morador da comunidade, se aproximaram. O professor do Projeto Rio em Forma
Olímpico nos apresentou e explicou à eles quem era cada uma de nós. A princípio o
professor/morador, o staff, à quem chamaremos de Júnior37 não foi muito receptivo, mas
fui firme na minha apresentação, e o professor, à quem chamaremos de Leonardo,
ajudou a esclarecer a minha atuação ali e para “amolecer” tive que dizer que também
moro naquela comunidade. Usei um pouco da minha experiência de seis anos atrás
sobre a maneira de falar, agir. Eles dispensaram a mulher e nós conversamos mais sobre
a pesquisa de mestrado ser realizada naquele ambiente. A partir daí, fui ora encarada
com desconfiança, ora encarada com esperança de ser ligada a políticos, podendo fazer
uma nova parceria.
Esse quadro retrata as reflexões sobre as necessidades e expectativas de classe,
realizadas por Thompson (1981) para quem a vivência cotidiana de variadas situações
37
Com o objetivo de preservar os nomes dos profissionais, criamos nomes fictícios. Ao professor,
chamaremos de Leonardo e ao staff, o morador que atua como professor, chamaremos de Júnior.
por uma pessoa ou por um grupo de pessoas pode vir acompanhada de pensamentos e
sentimentos que dão certo sentido, certo significado a estas mesmas situações.
Júnior relatou que tem um projeto de capoeira para as crianças da comunidade
Cidade de Deus, precisando apenas de um apoio político e financeiro. Ele acreditava
que esse apoio poderia vir de mim. Em outro momento da realização do meu trabalho de
campo, Júnior questionou-me sobre o quanto eu pagaria para estar ali, pesquisando
sobre seus alunos (esse último caso, será melhor explicado no decorrer do trabalho, já
que optei por escrever esse capítulo, em forma de relato).
4.1.2.4 - Cidade de Deus e de quem mais?
Durante a realização da minha pesquisa de campo analisei o livro da Socióloga
Alba Zaluar, intitulado A Máquina e a Revolta-As Organizações Populares e o
Significado da Pobreza, escrito há 30 anos sobre a vida na comunidade da Cidade de
Deus. Zaluar começa descrevendo seus primeiro passos naquela comunidade:
Imagine-se estacionando seu carro particular na rua de um bairro de pobres
cujo nome permanecia nas manchetes dos jornais como um dos focos da
violência urbana, um antro de marginais e bandidos. Você não conhece
ninguém que lhe possa indicar os caminhos e prestar-lhe as informações que
necessita para mover-se em riscos desnecessários. Você nem sabe muito bem
onde procurar o que tem em mente. Conhece apenas um jovem que lhe foi
apresentado por um amigo comum, o qual lhe recomendou cautela.
(ZALUAR, 1984, p.9)
Apesar de já ter se passado 30 anos, senti a mesma sensação da autora, que nos
agradecimentos destacou que durante o trabalho de campo enfrentou sozinha as
dificuldades, tendo que desenvolver seus próprios métodos de descoberta e
sobrevivência num mundo inicialmente desconhecido. A diferença é que a mesma
ressaltou a ajuda que teve de muitos membros da comunidade para a realização da
pesquisa e eu, talvez por não possuir tanta experiência nessa área e talvez por me
deparar com novos dados (que serão abordados no decorrer deste capítulo), não
consegui me sentir assim, à vontade durante o trabalho de campo.
Zaluar (1984) destaca que suas entrevistas com os moradores foram realizadas
quando já havia sido construída uma relação de familiaridade e confiança mútua entre
ela e os moradores. Foi isso que possibilitou a liberação do pensamento crítico
reprimido que chegava até ela como confidência. Mas deixou claro que o caráter
individual das entrevistas não devem negar os processos sociais observados de
constituição de formas coletivas de pensamento e ação.
A Cidade de Deus está situada entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, que são
dois bairros de classe média e em processo de expansão mobiliária, devido à
proximidade dos locais de realização das Olimpíadas de 2016. A comunidade que
“nasceu” na década de 1960, como conjunto habitacional para abrigar famílias
removidas de diversas favelas do Rio de Janeiro, hoje conta com uma população de
47.021 pessoas, em 15.501 domicílios, divididas em 14 áreas (Instituto Pereira Passos,
com base em IBGE, Censo Demográfico (2010). De acordo com os indicadores
socioeconômicos da Cidade de Deus, a comunidade vive com: 88,2 % de abastecimento
de água adequado; 76,8 % de saneamento sanitário adequado e 89,9 % de coleta de lixo.
Esses indicadores também revelam que 15,1 % da comunidade, maiores de 15 anos, são
analfabetos.
Segundo Zaluar (1984), a comunidade conhecida como Cidade de Deus, era
divulgada como um antro de marginais e bandidos. Poucos, de fora se atreviam a ir lá.
Essa má fama se deu por diversos fatores como ser um local de baixo poder aquisitivo,
pela guerra entre quadrilhas de tráfico de drogas que dominaram a área principalmente a
partir da década de 1970, e pela onda de saques aos supermercados, junto a outros
grandes conjuntos habitacionais e os demais bairros pobres de grande concentração
proletária. Hoje o quadro é outro, hoje a Cidade de Deus e outras comunidades são
noticiadas (salvo alguns fatos) como local de povo batalhador, comunidade pacificada
(ideia de polícia na comunidade é ideia de comunidade pacificada).
Mas as ideias vendidas pelos principais veículos de comunicação e formuladas
pelos governos, não são, na maioria das vezes, o que acontece na prática. Na década de
1980, a Cidade de Deus era vista como antro de bandidos, mas a realidade social era
muito maior que um local de bandidos, apenas, como mostrou os estudos sobre os
significados da pobreza de Zaluar (1984). Atualmente, a Cidade de Deus é vista como
local de povo batalhador, mas também há bandidos e bandidagem. Ou seja, há sempre
um processo de inversão da realidade sobre os fatos e fatores sociais. Dessa forma,
nosso sentimento em pesquisar essa comunidade, se assemelha ao sentimento descrito
pela autora, que revelou a importância de se ter a cautela ao pesquisar essa área.
O acesso à Cidade de Deus aparentemente melhorou, algumas ruas (as
principais) asfaltadas e um policiamento que dá algum tipo de segurança. Hoje muitas
pessoas, de fora da Cidade de Deus, frequentam a mesma. Muitas Organizações Não
Governamentais, projetos sociais, muita atenção política para o local.
Na comunidade que se originou da vinda de outras comunidades 38, os moradores
se conheciam entre si e viviam realidade social parecidas. Além disso, antes alguns
moradores trabalhavam fora da comunidade, hoje tem gente de fora que vai trabalhar na
mesma. E é esse aumento das visitações da comunidade, é que geram um certo medo,
uma desconfiança mútua. Pois os moradores se conhecem entre si, mas não conhecem
quem está entrando na comunidade e quais suas intenções. Já estão acostumados a
serem enganados ou usados para campanhas de benefícios alheios, ou até a ter suas
próprias regras de convivência. Outro fator que gera tamanha desconfiança é a relação
com a violência. Violência essa que não vem só de bandidos disputando ponto de venda
de drogas, vem de várias outras esferas sociais e experiências vivenciadas por eles; vem
da omissão do Estado para com os serviços básicos determinados por lei: saúde,
educação, cultura e esporte. Vem também do preconceito e da exclusão social. Por outro
lado, quem não conhece a comunidade não sabe em quem poder confiar.
É difícil saber ao certo quem é quem e o que cada um faz na Cidade de Deus.
Por isso é preciso ter cautela. Parece que uma força maior, não quer que a Cidade de
Deus seja mal noticiada. Então, os casos de homicídio tem sido abafados, os casos de
corrupção têm sido abafados, qualquer caso que venha denegrir a imagem das esferas
governamentais na comunidade são abafados. E quem vai confiar em um pesquisador?
E qual pesquisador não deverá ter cautela ao pesquisar essa área? Nosso medo foi uma
mistura de circunstâncias. O medo do desconhecido, o medo construído pela mídia de
difundir a estiguimatização da pobreza e dos pobres, e o medo do silêncio.
Seis anos antes da pesquisa, fui convidada à trabalhar num projeto social na
Cidade de Deus. Refiro-me ao Projeto Segundo Tempo, realizado pelo Ministério dos
Esportes. Naquela época, meus sentimentos se assemelhavam aos da autora Alba Zaluar
(1984):
O cenário com o qual me deparei não era totalmente desprovido de
tranquilidade. De certos ângulos, parecia mesmo um calmo bairro de
subúrbio, de intensa vida social entre vizinhos. Meninos correndo ou soltando
pipa no telhado, donas-de-casa conversando no portão, homens jogando
carteado na birosca, trabalhadores passando a caminho do trabalho e
brincando com os conhecidos, os grupinhos na esquina, e tudo mais que já foi
eternizado para nós nos sambas compostos pelos artistas populares. Mas a
38
A ocupação da Cidade de Deus ocorreu entre 1965 e 1968, sendo primeiramente invadida pelos
flagelados das enchentes de 1966 para depois vir a abrigar oficialmente outros flagelados que vieram a
ocupar 930 casas de triagem, isto é, de transição pelo conjunto, juntamente com favelados vindos de 63
favelas localizadas nas mais diferentes áreas da cidade.
tensão era visível. Nos bêbados apedrejados, na mulher andando pela rua em
meio à indiferença geral e, nas esquinas estratégicas, nos olhares atentos e
avaliadores dos adolescentes que se encaminhavam para a vida que
denominamos criminosa. Esses sinais de miséria social e moral eram
sublinhados pela própria composição material do conjunto: ruas esburacadas,
cheias de lama e de dejetos fétidos dos esgotos já arrebentados encaminham
os passos de que por ela anda, especialmente as ruas mais interiores, menos
freqüentadas (p.10).
Além da visão inicial, a autora também descreve como se deu seus contatos
iniciais com a comunidade. É possível identificar-se, nesse caso, com a descrição de
Zaluar (1984) sobre sua vivência na pesquisa:
No início fui poupada pela sorte de presenciar algum dos tiroteios que agitam
esse quadro tão freqüentemente. Mas ouvi regularmente os comentários a seu
respeito. Sendo estranha, a mulher de classe superior, era natural que
despertasse a curiosidade neste cenário. E, sendo novata, ainda não havia
aprendido que estar ali dentro, e não nas ruas ou nos ônibus da Zona Sul do
Rio de Janeiro, era até certo ponto uma garantia de minha integridade física.
Pois se eu estava ali era porque conhecia gente do local. Tinha imunidades
morais e sociais (P. 10).
Diferente de agora que já carrego comigo toda experiência que vivi no projeto
passado e mais o fato de eu estar praticamente sozinha. Tivemos a autorização, e até
incentivo, do gestor do Projeto Rio em Forma Olímpico para realizar a pesquisa, mas há
uma boa distância entre a gestão e o projeto na comunidade.
Compreender como se deu a criação/elaboração do Projeto, as articulações
políticas empreendidas, a atuação de seus atores principais, bem como o projeto de
sociedade explícito e implícito no mesmo, foi nosso desafio. Para a compreensão do
funcionamento do Projeto Rio em Forma Olímpico no Campo do Cruzeiro,
descreveremos, nas próximas linhas, os dias mais marcantes do trabalho de campo.
*** Na 5ª feira, dia 31 de Maio, fui ao local indicado por eles, o Campo do
Cruzeiro, desta vez, de fui carro, tentando me desviar dos buracos, pessoas, cavalos,
porcos, carros (carros bem velhos e carros importados) e tratores, nas ruas estreitas,
enlameadas e sem sinalização. Cheguei à quadra indicada por eles, e eles e os alunos
estavam lá. Enquanto o staff ministrava a aula, eu observava e conversava com o
professor. A aula foi composta de aquecimento em volta da quadra, atividades de
“educativos39” e aprimoramento das técnicas e jogo. Havia uma ótima integração e
respeito do professor e do staff com os alunos e dos alunos entre si. Nem todos estavam
uniformizados, embora, todos tenham o uniforme. Segundo o professor Leonardo, os
alunos valorizam o uniforme para sair e não para gastar jogando bola.
39
Consideramos “educativos” como movimentos fracionados que o aluno ou o atleta faz para melhorar a
técnica do movimento de um determinado exercício.
Sobre o uniforme, vemos que a roupa parece ser um objeto de manifestação da
condição do indivíduo. Assim, distinguem seu modo de vestir em roupa para sair e se
mostrar diferente e roupa para ficar em casa, com os outros nas mesmas condições
cotidianas. Conforme Zaluar (1984), referindo-se às barreiras enfrentadas pelos jovens
da Cidade de Deus:
A barreira mais mencionada é a do preconceito e da imagem negativa dos
moradores de locais que são considerados como antro de marginais e de
bandidos. Aqui opera a identificação do trabalhador-bandido inversa, pois
vem de fora: “vocês pobres são todos perigosos”. Um espelho negativo nesta
fase da vida em que as identidades estão mal definidas e que, se eficaz, tornase um fator a mais na inclinação do jovem pelo crime. Um círculo vicioso
que atua como obstáculo efetivo à obtenção de emprego e como mecanismo
psicológico na construção da identidade do jovem (p. 154).
Passados quase 30 anos, podemos dizer que andar com o uniforme do Projeto
Rio em Forma Olímpico, ou somente a camisa do mesmo, chega a ser uma questão
moral, uma maneira de mostrar virtudes de jovem responsável, de atleta.
O espaço que eles utilizam é uma quadra de areia, cercada e com alguns buracos
na cerca e descampada. Fica cerca de 200 metros do Rio e de um lixão. O professor
Leonardo me informou, que em função do reordenamento da cidade para sediar as
Olimpíadas, todo aquele espaço será removido e será construído um pouco mais
adiante, uma espécie de clube esportivo para a comunidade. Segundo as informações
que ele tem, o espaço de aulas só será removido quando o outro espaço estiver pronto.
***Cheguei às 09:40 h. e a aula ia começar. Tinham oito alunos, apenas um não
uniformizado. O professor Leonardo foi ministrar a aula. O Júnior (morador e staff)
ficou conversando comigo, o que me impediu de fazer anotações, suas falas me
constrangiam e nos deram um certo medo. Ele demonstra desconfiança sobre mim, só
“desarma” quando lembro-o que tenho a autorização do Marcelo Leite para estar ali.
Uma das suas falas que me constrangeu, foi perguntar quanto eu ia pagar para estar ali,
fazendo minha pesquisa. Apesar de ter respondido firme e simpática, o que eu já havia
explicado várias vezes que estava ali fazendo minha pesquisa da dissertação de
mestrado pela Universidade Federal Fluminense, com a autorização do Gestor do
Projeto que ele trabalha, me sentia tolhida pelo Júnior. No entanto, a conversa com ele
enriqueceu meus estudos, pois o que ele falava, ainda que numa perspectiva de
intencionalidade na sua fala, me fez conhecer um pouco mais da comunidade e o do
projeto Rio em Forma Olímpico na Cidade de Deus.
Por exemplo, ele me relatou sobre sua preocupação em estar ali, se dedicando
aos alunos, em tirá-los das ruas, pois o tráfico está voltando para a Cidade de Deus.
Recentemente houve uma invasão da polícia numa favela chamada Jacaré e os bandidos
de lá, se refugiaram na Cidade de Deus. Ele mencionou o filme Tropa de Elite II 40para
me explicar como se dá o processo de uma comunidade bem policiada abrigar bandidos.
Conforme o referido filme e conforme Zaluar (1984), a eficiência das quadrilhas em
atrair crianças e jovens para o tráfico é vinculada por eles devido ao prematuro
afastamento da mãe e de outros adultos responsáveis. Se pensarmos na nossa realidade,
onde cada vez mais cedo precisamos assumir responsabilidades em prol da nossa
sobrevivência, em virtude dos afazeres e das responsabilidades inerentes a realidade
econômico-capitalista, ou onde, por este mesmo motivo, os pais possuem uma jornada
excessiva de trabalho, compreenderemos melhor essa afirmativa.
No ano de 2009, a Cidade de Deus foi contemplada, pelo Governo do Estado do
Rio de Janeiro, com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Através das Unidades
de Polícia Pacificadora (UPPs), o programa de pacificação nas comunidades tenta
promover a aproximação entre a polícia e a população, e fortalecer programas sociais
nas comunidades antes negligenciadas pelas esferas sociais como educação, saúde,
cultura e segurança. A elaboração, organização e o trabalho da “inteligência” do
Programa de Pacificação são feitos pela Secretaria de Segurança. Em princípio, as
principais forças policiais do Rio de Janeiro (polícias civil e militar) são subordinadas à
Secretaria, mas são principalmente dois departamentos da Polícia Militar que realizam o
projeto da pacificação: o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e as
Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A Cidade de Deus foi a segunda comunidade
a entrar nesse processo, sendo a primeira, o Morro Santa Marta.
Ao analisar as teorias sociais e os “pobres” como objeto, Zaluar (1984) alerta
para tentativas do poder público em desviar das manifestações culturais da pobreza
isolando os pobres a criando fronteiras ideológicas entre eles e o resto da sociedade.
Acreditamos que essa seja também, a função das UPPs. Acreditamos também que essa
seja a estratégia dos projetos sociais nas comunidades de baixo poder aquisitivo.
Assim, vemos o esporte sendo incentivado nas favelas como fonte de
enfrentamento dos males sociais, onde, como nos reporta Melo (2005) a concepção das
políticas do esporte, nesse sentido deveriam voltar suas ações:
Para projetos que, objetivamente, possam, em médio prazo, interferir em
indicadores sociais, tais como a repetência, a evasão escolar, o envolvimento
40
Tropa de Elite I e II é um filme brasileiro de 2007 e 2010, respectivamente, dirigido por José Padilha,
que tem como tema a violência urbana na cidade brasileira do Rio de Janeiro e as ações do Batalhão de
Operações Policiais Especiais (BOPE) e da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro.
de jovens em ato inflacionais, a prostituição, o trabalho infantil e o consumo
de drogas (p.144).
Não queremos minimizar a importância do esporte na sociedade e nem na vida
do cidadão. Mas dessa forma, à ele parece ser atribuída uma função de redenção social,
o que faz algumas pessoas terem a impressão de que ao esporte caberia fornecer à
sociedade, os segmentos que estão em suas margens.
Enquanto conversávamos, uma menina de 13 anos se juntou a nós. Ela havia
acabado de acordar e por isso não estava na aula. Perdeu a hora da aula no Projeto
porque havia ficado no bar até tarde porque “estava ficando” com um colega que tem
namorada. Fiquei observando sua conversa com o professor Júnior que a orientava
sobre as questões da adolescência. Em suas falas, não houve incentivo para que ela
participasse da aula, também não foi mencionado a importância de praticar esporte e
sim cobranças de que se ela não participasse da aula, estaria fora do campeonato.
Notamos que o esporte aparece como “salvação” da falta de assistência do poder
público, da pobreza entre as famílias, da polícia corrompida e das atrações e facilidades
para o tráfico. Mas, nos perguntamos Como um programa com ranço conservador pode,
concretamente, ser o portador de uma prática crítico-transformadora?
A infância e adolescência são fases da vida, que salvo casos especiais em que as
necessidades da vida impõem pular essas fases, é um período de grandes descobertas,
amizades, aprendizados, desafios e experiências que constituem a personalidade do
indivíduo. Por isso, é importante que o professor lembre que os alunos estão em fase de
formação e seus ensinamentos têm grande influência. Quando essa influência ocorre de
forma positiva pode trazer ao aluno, além das qualidades físicas e motoras, autonomia e
liberdade. Quando negativa, estará contribuindo para colocar mais um cidadão
domesticado na sociedade. Também é preciso lembrar que o professor não é o único
responsável pela formação do aluno. A família deve ter um papel fundamental em
constituir toda e qualquer educação, assegurando a ligação entre o afetivo e o cognitivo,
assim como a transmissão dos valores e das normas. Também é importante frisar que é
impossível transformar a sociedade sem se estabelecer relações com o poder público.
Além do Rio em Forma Olímpico, o Projeto Rio 2016 também acontece naquela
quadra, em dias diferentes (2ª, 4ª e 6ª) e os professores Leonardo e Júnior, são
professores também desse Projeto. Os alunos são os mesmos. Aos finais de semana
conseguem além dos dois Projetos, participar de campeonatos de futebol em outras
comunidades. Como os professores são os mesmos e os alunos também, parece não
haver um discernimento de um projeto e outro.
O Professor Júnior disse estar há dois meses sem receber seu salário referente ao
do Projeto Rio 2016. Ele elogia muito um projeto que participava antes do Rio em
Forma Olímpico e Projeto Rio 2016 que é o Projeto Centro de Futebol Zico41 que era
muito bem estruturado e dava mais condições aos alunos de persistirem nas aulas e de
competir com direito a troféus, e medalhas. Criticou o Governo da Benedita da Silva,
que no período de 2002, extinguiu vários projetos sociais no Estado do Rio de Janeiro.
A remuneração dos professores do Projeto Rio em Forma Olímpico é feita
através de carteira assinada, pela Organização Não Governamental denominada
Solazer42, que patrocina o Projeto. Nesse sentindo, faz-se relevante as análises de Melo
(2005) referente à implementação das ações nas vilas olímpicas, pela Secretaria
Municipal de Esporte e Lazer, quando começava a seguir um novo modelo de gestão
nesta área. Referindo-se ao convênio com as federações esportivas para gerir cada vila
olímpica, por meio dos quais, a SMEL repassa verbas a esses organismos que
contratavam cooperativas de mão-de-obra para executarem suas políticas. Assim:
A partir das cooperativas, que empregavam moradores locais para executar
ações nos projetos, estabelece-se uma relação clientelista quanto às
possibilidades de emprego nos projetos, além de representar estratégias de
precarização das relações de trabalho por não haver respeito aos direitos
trabalhistas. Assim, os direitos como férias remuneradas, 13º salário, licença
maternidade, entre outros, não faziam/fazem parte do cotidiano de grande
parte dos trabalhadores das Vilas Olímpicas (p.162).
As aulas ocorrem sempre da mesma maneira: aula estruturada em aquecimento,
com corrida em volta da quadra; contestes (atividades em fila, sequenciadas e ritmadas)
e “treino” (passes, exercícios para este esporte, como chutar a bola, cabecear, agarrar);
pausa para o lanche; jogo (todos os alunos participam do jogo). A aula termina com
uma conversa no final, chamada de “papo cabeça”. Na maioria das vezes essa conversa
no final se restringe ao professor interagindo com o aluno sobre os principais
acontecimentos recentes do futebol, o professor Júnior procura se inteirar sobre os jogos
dos principais campeonatos e cobra dos alunos que saibam sobre isso. Mais uma vez o
esporte confere uma dimensão pedagógica voltada para o talento esportivo, pela mística
de vencer na vida através do esporte. Isso nos faz concluir que, embora nos discursos e
41
Ele não soube explicar os recursos desse projeto. Pesquisei sobre o mesmo, mas como não existe mais,
não achei registros.
42
Ver site: http://www.solazer.org.br/
apresentações dos projetos, se enfatizasse que a formação de atletas não seria o objetivo
do projeto, suas preocupações e seus métodos demonstram o contrário.
Interessante observar a participação heterogênea, no sentido corporal, dos
moradores da Cidade de Deus nas aulas. Alunos com perfis físicos diversos. Altos,
baixos, velozes, mais hábeis, mais fortes etc., pensando no esporte como algo
profissional, mas também vivenciando o lazer do esporte. Refletindo, nesse sentindo,
uma forma de oportunizar a todos que quiserem participar das aulas.
Outro dado interessante mencionado pelo professor Júnior, foi seu orgulho de ter
participado com seus alunos dos diversos projetos sociais de alguns comerciais ou
homenagens a atletas na televisão, como: Homenagem aos 50 anos do jogador de
Futebol Pelé (em 2002 no programa do Faustão); comercial chamativo da Copa das
Favelas (em 2012); Homenagem ao jogador de Futebol Ronaldinho. E viva o esporte!
Sobre os lanches, nem todas as aulas tem lanche, mas água sempre tem. Um
galão de água ou garrafa de refrigerante com água, nos quais os alunos se aproximam e
bebem com a boca próxima ao gargalo, pois não há copos. Quando há bolinhos ou
biscoitinhos, suquinhos, os mesmos são conseguidos por meio de doações de padaria ou
mercados próximos. Os alunos comem, são orientados a jogar os restos no lixo, mas ao
não jogarem não são chamados a atenção e nem discute-se a importância de jogar lixo
no lixo, ou os malefícios de se jogar lixo nas ruas, nos rios.
Notamos que ao mesmo tempo que os professores Leonardo e Júnior se dedicam
ao que acreditam ser “o futuro dos alunos”, acomodam-se em seus próprios meios,
desacreditados com a política brasileira, com os serviços que lhe deveriam ser
oferecidos. Demonstrando a aceitação de explorados e esquecidos.
Sobre este dado, lembrei das palavras de Zaluar (1984) quando analisou “as
teorias sociais e os pobres: como objeto” (p. 35): Conforme a autora:
Como objeto de reflexão das teorias sociais, os “trabalhadores pobres”,
embora no centro das atenções de muitos, não ocuparam o lugar da
renovação ou da transformação. Ao contrário, sobre eles caiu grande parte da
culpa pela ausência de mudanças significativas e pela conseqüente
estagnação política e econômica nessas sociedades. Sua consciência foi
dissecada e qualificada em nome dos anseios por uma sociedade melhor. E a
conclusão, salvo variações menores, tem sido a de que sua pobreza coloca
obstáculos grandes à sua ação coletiva e autônoma, enquanto grupo social
organizado, e à sua visão crítica da sociedade, cujos grupos dominantes
empreendem em relação a eles inúmeras estratégias de dominação. Daí, os
“pobres” serem presas usuais do próprio imediatismo de suas reivindicações,
da fragmentação de seus interesses em demandas paroquiais e das crenças
irracionais na sorte ou em lideranças carismáticas na solução de seus
problemas. Nas dicotomias presentes nos estudos sobre seu papel político,
aos “pobres” urbanos coube carregar o peso do fisiológico em oposição ao
ideológico, do tradicional em oposição ao moderno, do atraso em oposição ao
avanço, do pessoal particularista em oposição ao impessoal universal e,
acima de tudo, do material imediato em oposição aos ideais mais amplos,
gerais e prementes da sociedade nacional (p. 35).
Nos encontramos, então, diante de uma distorção ideológica derivada da
fragmentação da comunidade humana. Os indivíduos que realizam determinada práxis
histórica não percebem de imediato as contradições existentes e a estrutura das coisas.
Dessa forma, o conhecimento adquirido de imediato no contato com a realidade é o do
senso comum e da prática utilitária que servem para socializar e administrar as coisas,
mas não proporcionam a compreensão da concreticidade dessa realidade observada.
Para Marx (1984) a realidade empírica é uma realidade escurecida pela ideologia,
entendida como uma “falsa” consciência que corresponde a um conjunto de idéias
especulativas e ilusórias que os homens formam sobre a realidade.
Como nos reporta Konder (2002):
A distorção ideológica derivaria, assim, da fragmentação da comunidade
humana, do fato de os homens não atuarem juntos. A atividade do homem
“se torna para ele um poder estranho, que se contrapõe a ele e o subjuga, em
vez de ser por ele dominado”. Os seres humanos não podem se reconhecer
coletivamente, de maneira imediata, no que fazem. E é a partir desse
“estranhamento” que o Estado se estrutura como “figura independente” e
assume o caráter de uma “comunidade ilusória” (p. 42).
Nesse contexto, acreditamos que seja importante a partir do modo de pensar
dialético, que leva em conta o movimento dos pares de forças opostas presentes na
realidade, elevar o empírico imediato ao concreto pensado.
***Dia de Chuva
Choveu a madrugada e de manhã. Cerca de 10 minutos antes do início da aula, a
chuva cessou. Até pensei que não fosse ter aula, já que além da quadra ser descoberta, o
acesso à mesma e dias de chuva fica mais difícil devido a lama e ruas às esburacadas.
Estava indo e no caminho encontrei o Júnior (o professor morador). Perguntei se não
teria aula e ele respondeu que estava tendo aula sim. Cheguei às 09:31 h e o professor
Leonardo já estava na quadra com seis alunos, jogando o que na nossa cultura popular
chamamos de “altinho”43.
Sentei num banquinho do lado de fora da quadra e fiquei assistindo a aula. Às
09:50h o professor Leonardo deu inicio a um trabalho de técnicas, reproduzindo os
exercícios mais importantes no futebol. Nesse momento chegou o professor Júnior. A
43
Atividade que envolve os fundamentos do futevôlei para a prática em círculo, sem número determinado
de jogadores, com o objetivo de não deixar a bola cair, mantendo-a sempre no alto - daí a origem do
nome.
presença dele, sempre me inibe porque ele não entende minha função ali ou finge não
entender. O professor Júnior começou participando da aula, depois ambos ficaram no
canto da quadra conversando, mas o tempo todo atentos aos alunos, dando novos
direcionamentos, corrigindo, conversando e dando dicas estratégicas de jogo.
***Como as aulas acontecem de manhã e à tarde (no contra turno escolar), nos
dias em que eu não tinha aula no mestrado, ia aos dois turnos. Era interessante ver que à
tarde o público era consideravelmente maior. Isso se dá porque à noite muitos alunos
ficam na rua e não acordam cedo. (Cerca de dez alunos de manhã e cerca de vinte
alunos à tarde). Ainda que a participação no turno da tarde seja maior, os números são
muito abaixo que descrito na propaganda do Projeto Rio em Forma Olímpico, onde
informam um número de 34 mil matriculados no Projeto, funcionando em 123 bairros
da cidade. Além disso, para uma comunidade do tamanho da Cidade de Deus, que
possui 17 escolas públicas, esse número de alunos é muito baixo.
A questão do quantitativo real de diversos projetos sociais sempre foi
controversa. Nota-se na prática cotidiana que os números oficiais divulgados não
condizem com a realidade. Como um projeto de lazer nas comunidades, o Projeto Rio
em Forma Olímpico deveria receber os alunos como defendeu Melo (2005) em relação
aos alunos da Vila Olímpica da Maré:
Não com o argumento de afastar as crianças das ruas, das drogas ou coisa
parecida, mas para compreender que a vivência do esporte, das artes, da
dança, da música e das outras práticas culturais é elemento indispensável à
formação humana, implicando um projeto educacional ampliado. Não por seu
‘potencial salvacionista’, não por ser um disciplinador da infância e
juventude, mas por ser um direito de fruição cultural do/no lazer. P. 151
Para ir à Campo nos dois turnos, passavas por determinadas ruas quatro vezes.
Num dia o dono de um bar me parou, perguntou o que eu procurava ali. Por precaução
eu levava o caderno em branco e as anotações que fazia, arrancava do caderno e deixava
em casa. Nesse sentindo, vale mencionarmos a observação de Marx (1986) de que os
verdadeiros problemas da humanidade não são as idéias errôneas, mas as contradições
sociais reais e que aquelas são conseqüência destas.
Zaluar (1984) nos atenta para as questões de socialização, que cabem à família
diante do aumento da mesma e conseqüentemente da renda familiar, onde ocorre um
afastamento dos pais num momento em que suas presenças são cruciais na formação de
seus filhos: “Dada sua posição de principal agente da socialização, acabam por deixar os
filhos longe de seu alcance e controle” (p. 96). Assim, crianças e adolescentes ficam
mais expostos à outras atividades, seduzidos até pelos traficantes em troca de serviços
com alguma remuneração, e longe da atividade educadora dos adultos. Observamos que
nesse contexto, paira a ideia de uma linearidade entre a falta de opções de lazer e o
ingresso dessas crianças e adolescentes em atividades criminosas. Conseqüentemente,
paira a ideia de que o esporte, por si só, poderia coibir a entrada dos favelados no crime,
como nos reporta Melo (2005) sendo “uma espécie de analgésico social, sempre numa
perspectiva conservadora de controle social” (p. 82).
Nos dias de muito Sol a presença na quadra chegava a ficar desagradável, mas
acho que essa opinião é só minha, pois as aulas aconteciam normalmente. Digo
desagradável porque o calor fazia com que o cheiro podre do rio aumentasse, e a
sensação térmica era muito ruim. A quadra era descoberta, mas os alunos e professores
estava lá, nada os tirava da aula. Os animais iam mais às ruas, certo dia, pisei nas fezes
de um animal e nem soube identificar de que animal era. Se era do cavalo, se era do
porco, do cachorro ou de gente, pois a quadra em si, era fechada, mas à volta não.
Participar da aula parece tão bom para os moradores que um aluno de 12 anos
que não tinha com quem deixar a irmã mais nova, de cinco anos, a levou junto, deixou-a
sentadinha lá esperando a aula acabar. A prática de deixar os filhos pequenos com
irmãos mais velhos é usual nas famílias de baixa renda, dada a necessidade de os
responsáveis trabalharem fora para atender às necessidades da família, devido ao não
investimento do poder público na educação, ou seja, a falta de assistência estatal, e dada
não condição financeira de um pai ou uma mãe deixar seus filhos numa instituição de
formação, seja um curso, uma escolinha esportiva etc. Assim, o projeto mostra-se
importante para a comunidade não somente porque colabora no desenvolvimento motor
e social dos participantes, mas também pela oportunidade de pais poderem deixar seus
filhos enquanto realizam outras tarefas.
A relação dos professores com os alunos, dos alunos com os professores e dos
alunos com os alunos são de respeito e confiança. Os professores têm a preocupação
com o “tirar os alunos das ruas” e o objetivo de “formar campeões”. Entre eles é visível
a crença que se tem de vencer na vida através do esporte. O desejo de ficar famoso não
só na comunidade era notável, principalmente na forma que levavam a sério cada etapa
das aulas, bem como os outros processos envolvidos nesse contexto, como exame
médico, jogos aos finais de semana (como já dito, esses processos se misturam a outro
projeto social, não se prendendo ao Rio em Forma Olímpico). Nesse sentido, é válido
nos reportamos a Melo (2005) que ao analisar o processo de implantação da Vila
Olímpica da Maré, destaca que:
Nessa concepção fica a impressão de que a juventude pobre tem quase uma
tendência “natural”, um destino inevitável, a enveredar-se pelos caminhos
das drogas e dos crimes, e que as políticas de esporte e lazer seriam
relevantes para tentar “livrar” esses jovens desse “destino”. Uma visão
preconceituosa, que tende a considerar o jovem pobre como sinônimo de
criminoso em potencial (p.81).
Também, observamos que na busca pela formação de atletas ou pela
oportunidade de vir a ser um monitor do projeto, estão presentes elementos que buscam
introduzir uma noção de empregabilidade na educação, como forma de justificar a
inserção ou não do trabalhador no mundo do trabalho. Entendemos que os discursos
ideológicos/assistencialistas de oferecer ao pobre oportunidade de emprego, ensinar
uma ocupação, são tão bem feitos que nem todos conseguem enxergar o quanto
vivemos numa sociedade segmentada.
Sentimos falta de diálogos ou atividades mais transformadoras desta realidade
social. Ou seja, senti falta de atividades dotadas de “sentido/significado onde se
interpenetram,
dialeticamente,
a
intencionalidade/objetivos
do
homem
e
as
intenções/objetivos da sociedade” (SOARES, ET AL, 1992, p. 62). Não do diálogo em
si, mas em vários momentos vimos que os professores tinham a oportunidade de
conversar com os alunos, questões que agregassem valores às vidas deles fora do
futebol, mas o foco de todas as aulas era apenas tecnicista. É possível completar a essa
afirmação com a afirmação de Marinho (1983) destacando que não se deve excluir o
desenvolvimento da aptidão física das preocupações da Educação Física e nem o
desenvolvimento de habilidades motoras por intermédio dos jogos e esportes. Correr-seia o risco de descaracterizar a profissão. “O fundamental é que se compreenda que essas
atividades são meios e não fins” (p. 89).
De acordo com as observações de Medina (1989):
Uma Educação Física preocupada exclusivamente com seus objetivos
particulares, e conseqüentemente, desvinculada de suas finalidades mais
gerais, não pode estar atendendo as nossas necessidades mais caras. Uma EF
assim delineada estará procurando cuidar de um corpo isento de suas totais
significações e, portanto, mentindo ao homem integral (p.64).
Na nossa avaliação, todas as aulas eram bem estruturadas, mas com esse foco
único de evitar que as crianças entrem nas drogas e com a formação de atletas. Quando
um aluno se machucava o professor Júnior o tirava da aula e mandava sentar até passar
a dor; também quando um aluno desrespeitava outro aluno ou as regras da aula, os
professores o tiravam da aula.
Notamos que algumas experiências são limitadas ao comando dos professores,
que, em alguns casos, estão limitados às imposições da mídia, obedecendo aos padrões
da sociedade, impostos pela cultura capitalista, formando cidadãos padronizados,
domesticados, limitados e sem o conhecimento da sua própria história. Observamos que
o professor é um trabalhador que vive em sociedade e compõe um coletivo social. De
acordo com Malina e Azevedo (2011):
Estas condições levam o professor a se sujeitar, seja com maior ou menor
consciência, a exercer seu ofício muitas vezes sem critério teórico
metodológico, tendo um grau de exigência que chega a ser desumano para
com os atletas em formação (p.17).
Citando Marx, esses autores completam que “diante da incompreensão da função
social do seu trabalho, esse trabalhador re-produz uma prática alienada e alienante.”
(p.17). Ainda de acordo com esses autores:
No caso do professor é especialmente preocupante porque reduz a sua
capacidade de intervenção diante do que deve ser produzido, por que, para
que, como, quando; tornando incompreensível para si a função social do
trabalho pedagógico que exerce. A capacidade de discernimento para
produção de condições emancipatórias de vida humana também fica
comprometida. (p.17).
Diante das reflexões trazidas no decorrer deste trabalho, unindo formulações
sobre o materialismo histórico e debatendo acerca da realidade brasileira,
compreendemos que o Projeto Rio em Forma Olímpico não é fruto das conquistas e
afirmação de um direito social, no caso o esporte e lazer, mas sim fruto da atuação de
entidades caridosas que financiavam os projetos. No entanto, concordamos que tal
projeto atenda uma parcela mínima da Cidade de Deus, tendo sua importância nas
dimensões. Enquanto formação individual desenvolve as potencialidades humanas, bem
como força, velocidade, coordenação motora, podal, fina, destreza, etc. e enquanto
formação social ajuda o cidadão a estabelecer relações com o grupo a que ele pertence e
o permite vivenciar as práticas da cultura corporal. Portanto, ainda que em caráter
contraditório, o Projeto Rio em Forma Olímpico na Cidade de Deus é uma oportunidade
de prática de atividades físicas e convívio social sob orientação de um profissional de
educação física para crianças e adolescentes que geralmente não tem oportunidade de
vivenciar práticas esportivas ou qualquer outra atividade cultural, fora da comunidade.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
Neste trabalho procuramos analisar as contradições da relação capital-trabalho
que se evidenciam no processo de preparação da cidade do Rio de Janeiro para a
realização da Copa do Mundo de Futebol e das Olimpíadas, os chamado Megaeventos
esportivos, que acontecerão em 2014 e 2016, respectivamente. Em especial, buscamos
compreender as formas pelas quais essas contradições se manifestam nas grandes obras,
nos investimentos para desde a infraestrutura da cidade até escolinhas esportivas. Tendo
em vista que esse processo é um exemplo de atuação/reprodução da mundialização do
capital, pois o capital se reproduz e reproduz a força de trabalho através de diferentes
estratégias, compreendemos que as contradições capital e trabalho são inerentes ao
modo de produção capitalista. Assim, as políticas sociais, inclusive as assistencialistas,
tendem amenizar tais contradições.
Verificamos que assim como a falácia das conquistas sociais, os Megaeventos
esportivos se inserem num projeto de marketing que envolve grandes corporações
capitalistas no intuito de mascarar o que é de fato a sua essência: ideologia, segregação
e desigualdade social. Durante toda a dissertação e no momento de finalização dessa
dissertação, encontram-se em efervescência os aspectos degradantes do processo de
reordenamento da cidade, e desocupações de famílias e atletas de suas moradias e locais
de trabalho e de locais de treinamento, respectivamente. Assim, discursos do
crescimento econômico e social, tem tomado a frente do desenvolvimento esportivo ou
sociocultural ou socioterritorial. Nesse sentido, na nossa concepção de sociedade, de
cidade, é de uma cidade não segmentada, uma cidade de direito, governada por todas as
pessoas. Defendemos investimentos sim, mas investimentos que venham trazer
melhorias, principalmente para quem vive (e/ou sobrevive) no Rio de Janeiro. Uma
cidade boa para os Megaeventos esportivos tem que ser boa para quem habita
diariamente nela.
Adotamos o referencial materialista histórico por acreditarmos que a relação
trabalho-educação é construída histórica e socialmente pelos seres humanos, e que esta
construção é condicionada pelas relações sociais de produção, bem como acreditamos
na importante relação recíproca do sujeito com o objeto.
Faz-se necessário esclarecer que a presente análise passou pelo filtro de nossa
visão de mundo e, em consequência pode não corresponder à literatura que outras
pessoas venham fazer do referido projeto. Isso não invalida as contribuições que possa
trazer para o campo educacional e do lazer.
Dividimos a pesquisa em quatro momentos. Um momento teórico resultante de
revisão da literatura que respaldem a condição problemática aqui sugerida, e duas partes
empíricas, constituindo-se em trabalho de campo, analisando as ações dos empresários
para a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro, além da
análise das contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas dos
projetos sociais que atendem crianças em idade escolar, em especial no Projeto Rio em
Forma Olímpico.
MANACORDA (1991), em suas considerações sobre o aspecto pedagógico do
pensamento marxista, nos aponta o conceito de omnilateralidade, em contraposição a tal
perspectiva unilateral de educação. De acordo com o autor, Marx defende uma
compreensão totalizante (omnilateral) das relações sociais como um todo e da Educação
em particular, rompendo com as limitações ideológicas impostas ao homem na
sociedade capitalista. Com vistas a alcançar esta compreensão omnilateral, almejada por
nós, portanto, faz-se relevante analisar brevemente o quadro atual em que se encontra
história da educação brasileira e suas implicações sociais, tendo como principais pontos
de partida a construção e a manutenção da hegemonia das classes dominantes. No caso
específico da Educação Física e dos Esportes no Brasil, a atual dissertação partiu da
hipótese de que é possível observar uma forma própria de apropriação recente deste
processo de subsunção aos paradigmas educacionais da estrutura capitalista: as
Olimpíadas de 2016 e a Copa do Mundo de Futebol de 2014, a serem realizadas no Rio
de Janeiro, impulsionaram a supervalorização da prática do esporte no âmbito escolar e
nos projetos sociais mediados pela Secretaria de Educação e de Esporte e Lazer.
Se por um lado o atual contexto de proximidade dos Megaeventos esportivos se
refletiu em transformações que só fazem contribuir para o crescimento ou manutenção
do controle social como um todo e com ênfase especial ao contexto pedagógico das
aulas de Educação Física nas escolas formais e nas escolas esportivas, por outro lado
este mesmo Evento pode contribuir (e vem contribuindo) para suscitar uma reflexão
crítica a respeito do efeito de eventos desportivos de grande proporção na vida política e
social das sociedades onde se inserem.
A obscuridade e/ou a falta de aprofundamento nas questões que envolvem a
realização dos Megaeventos e na totalidade do sistema político, pode traduzir numa
prática social obscura, ultimamente mascarada pela ideia difundida pelas políticas
sociais e educacionais e pela grande mídia, de transformação social através do esporte.
Ao contrario, podemos e devemos não nos iludirmos com as ambiguidades do
direcionamento político das ações do poder público e dos grandes empresários, que vem
evidenciando um processo de alienação cultural e esportiva fomentando o pensamento
liberal de que apesar do modelo excludente de sociedade, é possível a inclusão de todos,
desde que o indivíduo se emprenhe para vencer, independente das circunstancias à sua
volta. Buscamos, como nos reporta Gramsci apud NOZAK (2004), fazer com que a
dialética materialista histórica torne-se práxis, para um movimento de ação e superação
da realidade concreta, para além de sua simples compreensão, superando as posições
idealistas, predominantes que se limitavam a interpretação da realidade. Acreditamos
que o método da critica da economia política facilita o entendimento da complexa
realidade em que se insere a pesquisa, já que busca ultrapassar os dados empíricos dessa
realidade fenomênica.
Diante do que foi exposto neste trabalho, sobre as contradições dos
Megaeventos, grandes empresas em parceria com o poder público lucrando e o povo
continuando oprimido, sobre as manobras do sistema político em sucatear a educação, e,
sobre mídia e as políticas públicas, “educando” a sociedade para os moldes da
hegemonia dominante, parece que fica claro o papel social dos projetos sociais.
Acreditamos que os projetos sociais venham desvalorizar a luta de classes, sendo uma
espécie de amortecedor de conflitos. É importante ressaltar que sendo ou não, esse papel
social do projeto, o professor ou o responsável pela unidade pode, em seu trabalho,
desvelar as contradições sociais, e ser mais do que um formador de atletas. O professor
pode ir além de um transmissor e/ou reprodutor de valores consensuais, podendo ser um
formador de indivíduos conscientes acerca das contradições que o cercam, crítico dos
valores estabelecidos e transformador da ordem social.
Nesse sentido Frigotto (2005) nos atenta a redefinirmos o papel do professor,
nos desafiando para que:
Não nos reduzamos a meros professores, mas nos constituamos em
educadores, dirigentes e organizadores. Trata-se de articular os processos
educativos, em todas as esferas da sociedade, a um projeto de sociedade
inclusiva, solidária e radicalmente democrática. Isto tem como exigência o
esforço de articular organicamente as relações pedagógicas específicas da
escola com as dimensões pedagógicas das relações sociais de produção, as
relações políticas e culturais. Isto implica lutar, no plano político, por um
Estado que governe com as organizações da sociedade e para a sociedade e
não em nome da sociedade, sem a sociedade e contra as maiorias. A
construção da sociedade inclusiva e uma educação humanizadora não são
feitas sem luta, clareza política e organização social (p. 25).
Observamos que boa parte dos projetos sociais esportivos, criados nesse
processo que antecede a realização dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro,
apresenta uma proposta que, no discurso anunciado comunica a necessidade de uma
prática social emancipatória. Mas se não somos indivíduos emancipados em outras
esferas sociais, não podemos nos emanciparmos através de projetos sociais
patrocinados, justamente pelo poder dominante.
As considerações apontam para ambiguidade do Projeto Rio em Forma
Olímpico, sendo mais evidente o fato dele anunciar que seus objetivos estão voltados
para “a construção da cidadania”, sem trabalhar sob uma perspectiva gnoseológica e/ou
filosófica, uma teoria revolucionária que, quando esses indivíduos dela se apropriem, se
transforme em força material.
No caso das escolinhas esportivas com proposta de formação de atletas, seria
mais justo uma proposta que viesse dar oportunidade ao aluno de participar/vivenciar
práticas esportivas que além de colaborar significativamente no desenvolvimento
afetivo, cognitivo e motor do ser humano, fazem parte da nossa cultura, independente da
classe social? Seria mais justo, no lugar de promessas de ascensão social encoberta pela
ascensão esportiva, ou seja, no lugar criar no indivíduo a ilusão de se tornar um atleta
especializado deixar que isso aconteça (ou não) naturalmente? Evitando frustrações e/ou
uma possível inversão de valores na busca exacerbada pela vitória, como vemos em
diversos campeonatos – uso de dopping, treinamento excessivo prejudicial à saúde,
humilhação do perdedor em detrimento da exaltação do vencedor, as rivalidades brutas
entre atletas, rivalidades brutas entre torcidas?
Por que esses projetos sociais oferecem apenas atividades que não necessitam,
ou necessitam pouco, de material e espaço especializado? Não há recursos para diminuir
ou quebrar o distanciamento entre as atividades que são praticadas pela elite/filhos da
classe dominante? Porque não incluir as crianças, filhas da classe trabalhadora nas
atividades esportivas de elite, junto com a elite? O caráter limitado e parcial da oferta de
atividades pelos órgãos responsáveis tem direcionado os projetos em detrimento da
identificação das necessidades por parte da comunidade que participa de sua construção
diária.
Também foi possível observar como a questão da ideologia por trás dos
Megaeventos esportivos direciona a diferentes praticas sociais e a diferentes
metodologias, dependendo da atuação/prática do professor, da equipe pedagógica, por
exemplo: pode-se promover uma prática esportiva alienada ou promover/estimular a
consciência crítica do aluno através de uma prática desportiva portadora de
historicidade, e, portanto, produzida pelos homens sob determinadas circunstâncias.
Contudo, verificamos que a questão da ideologia do desejo de ficar famoso. Não é só
dos alunos, é do professor. Seja na inocência, seja no senso comum.
É relevante lembrar que quando se trata de prática social voltada para os
interesses da classe trabalhadora, nada se modifica por decreto, tampouco surge
espontaneamente. Necessita-se de conhecimento político que fomente o reconhecimento
por parte da classe de sua força para intervir no processo de libertação das
consequências do capital. Isso não ocorre de forma linear, mecânica, muito menos está
submetido à leis naturais.
Assim como a falácia das conquistas sociais, os Megaeventos esportivos se
inserem num projeto de marketing que envolve grandes corporações capitalistas no
intuito de mascarar o que é de fato a sua essência: ideologia, segregação e desigualdade.
Como observado no 3º capítulo, notamos que os projetos sociais apresentam-se
como um investimento de forte apelo político eleitoral para estes partidos/candidatos.
Nesse sentido, observamos que as comunidades passam a ser visadas em virtude das
carências detectadas nas comunidades. Carências essas, oriundas do nosso modelo
desigual de sociedade. Mas, nem por isso, o Projeto Rio em Forma Olímpico deixa de
ter sua importância na comunidade da Cidade de Deus. Ou seja, mesmo que esses
projetos sociais se constituam de uma concepção utilitarista de lazer e oportunidade de
aprendizagem, podem também se constituir uma experiência de lazer e oportunidade
para a classe trabalhadora na esfera pública. Dessa forma, identificamos a possibilidade
de denunciar/refletir sobre a forma com que os projetos sociais são tratados pelo capital.
Por conta de sua natureza crítica e por se tratar do homem inserido numa
determinada dinâmica social, estando em constante movimento, transformando à
realidade a sua volta e sendo por ela transformado sob condições não escolhidas por ele,
este estudo não pretende ser conclusivo, tampouco se apresentar com uma visão única
sobre o Projeto Rio em Forma Olímpico. O mesmo pode e deve servir como um meio
para compreender as contradições promovidas pelo modo de produção capitalista, e
denunciar o que se oculta nas iniciativas instauradas de cima para baixo no campo
educacional e do lazer. O que ajudará a revelar a realidade velada por meio da ideologia
dos Megaeventos esportivos. Assim, esperamos através deste trabalho termos
conseguido facilitar o caminho para o entendimento dos conflitos, interesses, lutas,
desafios e possibilidades que marcam o contexto da realização dos Megaeventos
esportivos na cidade do Rio de Janeiro.
REFERÊNCIAS:
ADUFF – Seção Sindical do ANDES-SN / Boletim Eletrônico 02/08/2011
<http://aduff.org.br/_novosite/>
ALVARENGA FILHO, J. R., A "Chacina do Pan" e a produção de vidas descartáveis
na cidade do Rio de Janeiro: "Não dá pé, não tem pé, nem cabeça, não tem ninguém
que mereça", Tese de Doutorado/ UFF, 2010.
ARROYO, Miguel. Trabalho-Educação e teoria pedagógica. In: FRIGOTTO,
Gaudêncio (org.). Educação e Crise do Trabalho: Perspectivas de Final de Século.
Petrópolis: Vozes, 2005.
____________. Educação e exclusão da cidadania. In: BUFFA, Ester; ARROYO,
Miguel; NOSELLA, Paolo. Educação e cidadania: quem educa o cidadão? São Paulo:
Cortez, 1987. (Questões de Nossa Época, 19).
ARTICULAÇÃO NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA E DAS
OLIMPÍADAS, 2012 – Dossie
Disponível em: <http://portalpopulardacopa.org.br/>
BARBOSA E BARROS, Projeto Rio em Forma Olímpico. Secretaria de Esporte e
Lazer, Prefeitura do Rio de Janeiro, 2012.
BARRETO, Raquel Goulart; LEHER, Roberto. Do discurso e das condicionalidades do
Banco Mundial, a educação superior "emerge" terciária. Revista Brasileira de Educação,
v.13, n.39, p. 423-436, 2008.
BRACHT, Valter, (1997) Sociologia crítica do esporte: uma introdução – Vitória:
UFES, Centro de Educação Física e desporto, (1997).
BRUDEHOUX, Anne Marie. Imagens do Poder: Arquiteturas do espetáculo integrado
na olimpíada de Pequim, Journal of Architectural Education, vol. 63, nº 2, 2010, pp.
52‑62.
CHESNAS, F. A Mundialização do Capital.São Paulo: Xamã, 1996.
CRUZ, Juliana Falcão. O. À Procura de Espaços na Educação na Luta ContraHegemonica. In: Seminário Discente da Pós Graduação em Educação - UFF -, 2010,
Niteroi. SEMINÁRIO DISCENTE PPGE_DAAT UFF 2010, 2010.
FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São
Paulo: Paz e Terra; 1996.
_____________. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra. 44ª. Edição. 2006
FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva: um (re) exame das
relações entre educação e estrutura econômica social e capitalista. São Paulo: Cortez,
1989.
__________________ Mudanças societárias e as questões educacionais da atualidade
no Brasil. Ciência & Opinião, Curitiba, v. 1 e 2, p. 15-28, 2005.
GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de janeiro:
Civilização Brasileira, 1982.
__________________.Cadernos do Cárcere, volume 2; edição e tradução, Carlos
Nelson Coutinho; co edição, Luiz Sérgio Henrique e Marco Aurélio Nogueira. 3ª ed.
Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004
.
HARVEY, David. O Novo Imperialismo 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005.
______________ A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2008.
Instituto Pereira Passos, com base em IBGE, Censo Demográfico (2010)
KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra,
1992.
_________________. A questão da ideologia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.
KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995.
KUNZ, Elenor.Transformação didático-pedagógica do esporte. 2a.ed. Ijuí: Unijuí, 2000.
KUENZER, Acácia Zeneida. Exclusão includente e inclusão excludente: a nova forma
de dualidade estrutural que objetiva as novas relações entre educação e trabalho. In:
LOMBARDI, José Claudinei; SAVIANI, Dermeval; SANFELICE, José Luís (Orgs.).
Capitalismo, trabalho e educação. Campinas: Autores Associados, HISTEDBR, 2005.
LEFBVRE, Henri. A cidade do capital. Rio de Janeiro: DP e A editora, 1999.
LOWY, Michel. As aventuras de Karl Marx no país do BarãoMunchausen. São Paulo:
Cortez, 2001.
MALINA. André, CESÁRIO, Sebastiana. Esporte: Fator de Integração e Inclusão
Social? Campo Grande, MS: UFMS, 2009. 164p.
MALINA, André. ; AZEVEDO, Angela. O Esporte é um Fator de Integração Social?
Apontamentos sobre a relação entre Os Limites do Esporte no Modo de Produção
Capitalista e as possibilidades de uma Pedagogia do Esporte para a Formação
Humana. In: Colóquio Nacional Marx e o Marxismo 2011: teoria e prática, 2011,
NITERÓI - RJ. Marx e o Marxismo: teoria e prática, 2011. p. 02-03.
MANACORDA, Mario Alighiero. O princípio educativo em Gramsci: americanismo e
fordismo. Campinas: Alínea, 2008.
____________________________. Marx e a pedagogia moderna. São Paulo: Cortez:
Autores Associados, 1991.
MARINHO, Vitor. O Esporte Pode Tudo. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2010. v. 1. 125p .
____________________________. Consenso e Conflito - Educação Física brasileira.
2. ed. Rio de Janeiro: Shape, 2005.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Escala
2007.
MARX, Karl. A maquinaria e a indústria moderna. O Capital. livro 1,vol. 1: RJ:
Civiização Brasileira, XIII pp. 423-570, 2002.
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: HUCITEC, 1986.
__________.
MARX, Karl.Teses ad Feuerbach . In: A Ideologia Alemã I, Feuerbach. 8ª ed. São
Paulo: Hucitec, 1992.
_____________________. Manuscritos econômico-filosóficos. In: MARX, K.
Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. 5ª Edição. São Paulo:
Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 1991.
_____________________. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril
Cultural, Tomo 2. 1984
_____________________. Contribuição à Crítica da Economia Política: São Paulo:
Martins Fontes, 1983.
_____________________. Para a Crítica da Economia Política. Salário, Preço e
Lucro. O Rendimento e Suas Fontes. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril
Cultural, 1982.
MEDINA, João Paulo. A Educação Física cuida do corpo e... "mente". 8 ed.
Campinas/P: Papirus, 1989.
MOREIRA, Antonio Flávio; DA SILVA, Tomaz Tadeu. Currículo, cultura e sociedade.
2 ed. São Paulo: Cortez, 1995.
MONTAÑO, Carlos. Terceiro Setor e questão social. Crítica ao padrão emergente de
intervenção social. São Paulo, Cortez, 2002.
MELO. Marcelo. Esporte e juventude pobre políticas públicas de lazer na Vila
Olímpica da Maré. São Paulo: Autores Associados, 2005.
MÉSZÁROS, Istvan. A Educação Para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2008.
MÉSZÁROS, István. Marx: A Teoria da Alienação . Rio de Janeiro: Zahar Editores,
1981.
NOZAKI, Hajime Takeuchi. Educação Física e reordenamento no mundo do trabalho:
mediações da regulamentação da profissão. – Niterói: UFF, 2004. 3 p., 30cm. Tese de
Doutorado (Doutorado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, 2004.
NEVES, Lúcia Maria Wanderley (org.). A nova pedagogia da hegemonia: estratégias do
capital para educar o consenso . São Paulo: Xamã, 2005.
OBSERVATÓRIO DAS FAVELAS. Legado social do XV jogos pan-americanos Rio
2007- diagnóstico social e esportivo de 53 favelas cariocas.
PAIVA, Maria Fátima, Educação e Lazer: uma contribuição à análise do programa
Clube Escolar (1993-1997), Universidade Federal Fluminense, UFF, Brasil,
1998.
Dissertação
Orientada
por:
Maria
Ciavatta
Franco.
Bolsista do(a): Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior .
Palavras-chave:
Educação;
lazer;
trabalho;
políticas
públicas.
Grande área: Ciências Humanas / Área: Educação.
PENNA, Adriana Machado. Esporte contemporâneo: um novo templo do capital
monopolista – 2011.172 f. Orientadora: Silene de Moraes Freire.Tese (Doutorado) –
Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Serviço Social.
PINTO, Fabio Machado. A Prática de Ensino nos Cursos de Formação de Professores
de Educação Física. In: VAZ, A. F.; SAYÃO, D. T.; PINTO, F. M. (Orgs.). Educação
do Corpo e Formação de Professores: reflexões sobre a Prática de Ensino de Educação
Física. Florianópolis: EDUFSC, 2002.
SANTORO, Marco.; TROTTE, Sonia.; Falcão, Juliana. Parceria Universidade e
Escola: a formação de professores em Educação Física. In: X ENFEFE, 2006, Niterói.
Educação física escolar e lazer. Niterói : UFF, 2006.
SANTOS JUNIOR, Orlando Alves dos; GAFFNEY, Christopher; RODRIGUES,
Juciano Martins. et
al.
In:
Observatório
das
Metrópoles.
Projeto Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa do Mundo 2014 e
das Olimpíadas 2016 Relatório Parcial. Rio de Janeiro. IPPUR/UFRJ, 2012.
SAVIANI, Dermeval. O choque teórico da politecnia. Trabalho, Educação e Saúde. Rio
de Janeiro: EPSJV, vol. 1, n. 1, mar., 2003. p.131-151.
__________________. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo:
Cortez: Autores Associados, 1982.
SOARES, Carmem Lucia. et al. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo:
Cortez, 1992.
SILVEIRA, Zuleide Simas da.Concepções de educação tecnológica na reforma da
educação superior: finalidades, continuidades, e rupturas - estudo comparado Brasil e
Portugal (1995-2010). Niterói, 2011. 445f. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade
de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011.
_____________________. Contradições entre capital e trabalho: concepções de
educação tecnológica na reforma do ensino médio e técnico. 1ª. ed. São Paulo: Paco
Editorial, 2010. v. 1. 300p .
THOMPSON, Edward. Algumas Observações sobre Classe e 'Falsa Consciência'. In
SILVA, Sérgio, (org.). As Peculiaridades dos Ingleses. Campinas, SP: Editora da
Unicamp, 2001
___________________. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e
Terra, 1987.
___________________. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro:
Zahar, 1981.
TOMMASI, L. Financiamentos do Banco Mundial no setor educacional brasileiro: os
projetos em fase de implementação. In: TOMMASI, L.; WARDE, M.J.; HADDAD, S.
(Org.). O Banco Mundial e as políticas educacionais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1998.
VENANCIO, Silvana; FREIRE, João Batista. O jogo dentro e fora da escola. Autores
associados, Campinas/ SP, 2005.
ZALUAR, Alba. A Máquina e a Revolta: As organizações populares e o significado da
pobreza. São Paulo, 1894.
Sites:
<http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-77462006000200012&script=sci_arttext>
disponível em: 01/09/2013
<http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-nacional/v/olimpiadas-escolares-cresceme-estudantes-comemoram-sucesso-no-esporte/1947325/> disponível em: 14/05/2012
<http://www.pi10.com.br/portal/component/content/article/57-destaques/1091-copa-nobrasil-custa-mais-caro-que-as-tres-ultimas-edicoes-somadas> Disponível em: 29 de
junho de 2011
<http://forum.esporte.uol.com.br/COB-quer-militarizar-o-esporte_t_312765>
Disponível em: 7 de julho de 2011
<http://www.rio.rj.gov.br/web/smel> Disponível em: 10 de março de 2012
<http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html> 2012
<http://pt.fifa.com/mm/document/tournament/ticketing/01/53/63/65/2014fwcticketing_q
uestions_version2_findocallcomments_11-02375_105_en_pt.pdf> Disponível em: 22 de
março de 2013
http://pt.fifa.com/confederationscup/organisation/ticketing/news/newsid=2014104/index
.html Disponível em: 20 de março de 2013
<http://esporte.uol.com.br/rio-2016/ultimas-noticias/2012/10/19/governo-federal-daisencao-de-r-38-bilhoes-a-organizadores-da-olimpiada-de-2016.htm> 19/10/2012
<http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html>
em: 2011; 2012 e 2013
Disponível
<http://www.rio.rj.gov.br/web/smel> Disponível em: maio de 2012
<http://globoesporte.globo.com/ba/noticia/2012/10/lembra-dele-longe-das-piscinasedvaldo-valerio-tenta-fortalecer-natacao.html> Disponível em: 07 de outubro de 2012
<http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=1045928> Disponível em:
08 de novembro de 2012
<http://www.solazer.org.br> disponível em: maio de 2012
<http://uppsocial.org/territorios/cidade-de-deus> Disponível em Fevereiro de 2013
<http://globoesporte.globo.com/platb/folego/10-motivos-para-nao-deixar-de-correr>
Disponível em: 2de setembro de 2008.
<http://www.petrobras.com.br/selecaoppec/home> Disponível em: abril de 2012
ANEXOS
Download

A quem interessa os megaeventos esportivos no Rio de Janeiro?