UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE FACULDADE DE EDUCAÇÃO PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM EDUCAÇÃO JULIANA FALCÃO DE OLIVEIRA CRUZ ESPORTE E EDUCAÇÃO: A QUEM INTERESSA A REALIZAÇÃO DOS MEGA EVENTOS ESPORTIVOS NO RIO D E JANEIRO? Niterói 2013 Juliana Falcão de Oliveira Cruz ESPORTE E EDUCAÇÃO: A QUEM INTERESSA A REALIZAÇÃO DOS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS NO RIO DE JANEIRO? Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal Fluminense, como requisito parcial para obtenção do Grau de Mestre. Campo de Confluência: Trabalho e Educação. Orientadora: Prof.ª Drª Lia Vargas Tiriba Niterói 2013 Ficha Catalográfica elaborada pela Biblioteca Central do Gragoatá C957 Cruz, Juliana Falcão de Oliveira. Esporte e educação: a quem interessa a realização dos megaeventos esportivos no Rio de Janeiro? / Juliana Falcão de Oliveira Cruz. – 2013. 133 f. Orientador: Lia Vargas Tiriba. Dissertação (Mestrado) – Universidade Federal Fluminense, Faculdade de Educação, 2013. Bibliografia: f. 117-122. 1. Esporte. 2. Evento especial. 3. Educação. 4. Contradição. I. Tiriba, Lia Vargas. II. Universidade Federal Fluminense. Faculdade de Educação. III. Título. CDD 796 1. 371.010981 Dedico àqueles que têm sido diretamente afetados com o processo de preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos. Dedico a todos que tomaram as ruas cariocas em defesa da população da cidade do Rio de Janeiro. Dedico ao professor Vitor Marinho de Oliveira, “in memorian”, pela sua influência em mais este trabalho e por seu incentivo para a realização do mesmo. AGRADECIMENTOS Aos meus pais Misamée e Nelson, que me deram condições de estudar e principalmente me deram o que nenhum título daria: amor, princípios e valores que, sem os quais, eu não seria metade do que sou e não teria metade do que tenho; Aos meus irmãos Nelson e Fabiana e minha avó Idmê pelo apoio e por compreenderem minha ausência nesses últimos dois anos; Aos professores do campo de pesquisa Trabalho-Educação: Ronaldo Rosas Reis, Eunice Trein e José Rodrigues por tudo que me ensinaram no decorrer desses dois anos. Em especial, aos professores José Rodrigues e Eunice pelas orientações sempre valiosas e motivantes, ainda que por meio de críticas construtivas; Aos professores André Malina, Angela Barreto e Zuleide Silveira, por terem aceitado compor a banca da minha defesa de dissertação, e pelas contribuições, rigidez e afeto na construção dessa dissertação; Ao professor Vitor Marinho de Oliveira não só por sua influência á Educação Física Humanista, mas também por seu incentivo na minha formação acadêmica e por ter composto parte da minha banca de mestrado. Aos meus amigos de turma, Érika Pelucci, Regiane Costa Santos, Maria Clara, Gregório Albuquerque, Lícia da Hora, Renata Nunes e Ana Isabel, pelas trocas de experiências, pela cumplicidade e construção do conhecimento; Aos secretários Fátima e Fábio, responsáveis pelo bom andamento das atividades de pós- graduação e sempre nos transmitindo paz; A todos meus amigos e amigas, pelos incentivos, mensagens, empréstimo de material.. por todas as contribuições afetivas e produtivas; Ao Maurício, pelo companheirismo durante parte da produção deste trabalho; E a todos que de alguma forma, em algum momento me incentivaram, me apoiaram. A educação é a atividade de um sujeito que, ao enfrentar o desafio de mudar o mundo, enfrenta também, o desafio de promover sua própria transformação. Leandro Konder – 1992 p. 17 RESUMO Esta pesquisa teve como objetivo geral analisar contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas dos projetos sociais, que surgiram após a escolha do Rio de Janeiro para sediar a Copa do Mundo de Futebol e posteriormente, as Olimpíadas. Tendo em conta o processo de reordenamento da cidade do Rio de Janeiro para sediar tais eventos, investigamos como a proposta de Megaeventos esportivos se relaciona com ações esportivas voltadas para os filhos da classe trabalhadora. Para tanto, buscamos analisar determinada conjuntura e suas particularidades dentro de uma totalidade mais ampla e naquilo que é a estrutura da sociedade brasileira. Sendo nosso campo empírico o Projeto Rio em Forma Olímpico, em execução na favela Cidade de Deus. Entendemos que essa particularidade ganha densidade histórica somente se estiver articulada e inserida no bojo de reformas mais amplas na sociedade. Ao buscar revelar a quem, de fato, interessa os Megaeventos esportivos de 2014 e 2016, desvelamos que a propaganda oficial, junto ao corporativismo do Estado, aliados à atividade de (dês)informação da mídia leva a maioria da população não apenas a endossar o discurso oficial, mas também a entender que tais eventos “são benéficos” para a classe trabalhadora, em geral, particularmente porque “gera emprego e executa projetos sociais” . Como metodologia, utilizamos a revisão bibliográfica referente à problemática sugerida, tendo como base o materialismo histórico para nos ajudar a compreender diversas dimensões da realidade que envolve o objeto da pesquisa. Por meio da análise teórica construímos nosso conhecimento sobre contradições entre capital e trabalho, trabalho e educação e consumo, inerentes à sociedade capitalista. Foram utilizados como instrumentos de análise da pesquisa de característica empírica os meios de comunicação, além de entrevista semi-estrurada no Projeto Rio em Forma Olímpico. Como poderá ser visto no decorrer deste trabalho, não se trata de ser contra o esporte, contra as práticas esportivas ou contra os Megaeventos, a competição, etc. Queremos dizer que não é por atenderem à necessidades do capital que a realização dos Megaeventos e suas interlocuções sejam negativas. Todavia, considerando a relação trabalho e educação e a importância do diálogo com as teorias pedagógicas, uma vez que todas elas pertencem a um campo em comum – o da formação humana – faz-se relevante pensar acerca dos projetos sociais articulados por processos educativos, seus valores, e perspectivas, objetivos e métodos, contextualizando a realidade desses projetos em relação às suas propostas. Palavras – Chave: Megaeventos esportivos – educação - contradições ABSTRACT The general objective of this research was analyze the contradictions between capital and work, found at the social project’s “junior soccer schools”, came after Rio de Janeiro have been chosen to host the World Cup and the Olympics. Considering the reordering process of Rio de Janeiro city in order to host these events, we've investigated how the sporting megaevents proposal are associated with sporting actions aimed to working class kids. Therefore, we seek to analyze particular conjuncture and its peculiarities inside a large totality and what is the structure of Brazilian society. Our empirical field is the “Rio em Forma Olímpico” project, running into City of God community. We understand that this peculiarity gains historical density only if articulated and inserted at the bunt of largest society reforms. In seeking to reveal to whom, in fact, the interests of sports mega-events in 2014 and 2016, unveil the official propaganda, with the corporatist state, combined with the activity of (dis) information media takes the majority of the population not only to endorse the official discourse, but also to understand that such events "are beneficial" for the working class in general, particularly because "generates jobs and run social projects." The methodology used was the literature review related to the problem suggested, based on historical materialism to help us understand the different dimensions of reality that involves the object of research. Through theoretical analysis we build our knowledge about contradictions between capital and labor, work and education and consumption inherent in capitalist society. Were used as instruments of analysis of empirical research feature the media, as well as semi-estrurada Project in Rio in Olympic shape. As can be seen in the course of this work, it is not to be against the sport, from sports practices or against Mega Events, competition, etc.. We mean that it is not meet the needs of capital that the realization of mega-events and their dialogues are negative. However, considering the relationship between work and education and the importance of dialogue with pedagogical theories, since they all belong to a common field - the human formation - it is relevant to think about the social projects articulated by educational processes, their values and perspectives, objectives and methods, contextualizing the reality of these projects in relation to their proposals. Key - Words: Megaeventos sports - education - contradictions SUMÁRIO RESUMO ABSTRACT INTRODUÇÃO ............................................................................................................12 Objetivo ..........................................................................................................................14 Relevância do estudo.......................................................................................................15 Metodologia.....................................................................................................................19 CAPÍTULO I: REFERENCIAL TEÓRICO ...........................................................................................24 CAPÍTULO II OS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS COMO UMA QUESTÃO ECONÔMICOSOCIAL .........................................................................................................................28 2.1 - Da conjuntura/estrutura atual do modo de produção capitalista.........................................................................................................................30 2.2. - Questões econômico-sociais: Porque nos envolvemos com o Esporte?...........................................................................................................................38 2.3 – Os Megaeventos esportivos no Brasil.....................................................................41 2.4 – A Preparação da cidade: a “cidade maravilhosa” entra em campo....................... 49 2.5 – Megaeventos esportivos e Ideologia.......................................................................55 CAPÍTULO III PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA PARA A REALIZAÇÃO DOS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS: É POSSÍVEL VIRAR O JOGO DO MERCADO? .........................................................................................................................................60 3.1 – Trabalho e Educação – estratégias no campo educacional como forma de gerenciamento do capital.................................................................................................60 3.2 – O Rio de Janeiro Olímpico – esporte e/ou prática esportiva “formando campeões”........................................................................................................................67 3.3 – Trabalho, Esporte e Educação – estratégias de gerenciamento do capital para além de uma partida justa.........................................................................................................71 CAPÍTULO IV APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DOS DADOS............................................................85 4.1- Rio em Forma: driblando a adversidade do capital ................................................................................................................................. 85 4.1.1- Contradições e Projetos Sociais........................................................................... 87 4.1.2 – Diário de Campo................................................................................................. 91 4.1.2.1 – Primeiros contatos........................................................................................... 91 4.1.2.2 – Embates para a realização do Projeto: a disputa por alunos ............................94 4.1.2.3 - Mudança de local de realização das aulas.........................................................95 4.1.2.4 – Cidade de Deus e de quem mais?................................................................... 98 CONSIDERAÇÕES FINAIS .....................................................................................111 REFERÊNCIAS ..........................................................................................................117 ANEXOS ..................................................................................................................... 123 1- INTRODUÇÃO A presente dissertação se insere no contexto de preparação para os dois mais importantes Eventos Esportivos do Mundo: a Copa do Mundo de Futebol, em 2014 e dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos, em 2016. A cidade do Rio de Janeiro será uma das 12 cidades brasileiras que sediarão a referida Copa e será a cidade sede dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos. Não se trata, nesse estudo, de julgar as vantagens e desvantagens da realização de tais eventos no Brasil, mas de tecer uma análise das maneiras contraditórias pelas quais a organização desses eventos repercute no dia a dia da população do Rio de Janeiro. E, em especial, compreender a dimensão educativa dos projetos sociais que vêm sendo construídos e desenvolvidos ao longo do processo de preparação para a realização desses eventos. Refletir sobre o esporte pressupõe analisar a relação entre prática desportiva e vida social, considerando que, historicamente, os Megaeventos têm se constituído como instâncias de controle social (no sentido de amenização de conflitos), manutenção do status quo e aparato político, revelando diversas contradições na nossa sociedade. Como Marx, Engels, Harvey, Milton Santos, nos explicitam em diversas obras, e como veremos no decorrer deste trabalho, as contradições entre capital e trabalho vêm sendo historicamente materializadas nos espaços urbanos. O ser humano é produto de determinações culturais, biológicas, sociais, econômicas e políticas. Se atentarmos à dimensão política da realidade, poderemos discutir a dinâmica sociocultural em que estamos inseridos, e na qual estamos sendo construídos e construindo. Assim, poderemos avançar na compreensão do princípio cultural que transforma o esporte e o lazer em mercadoria. Ao analisar a relação entre prática desportiva e vida social, podemos inferir que a histórica utilização dos eventos desportivos de massa constitui-se como instrumento de controle social e estratégia mercadológica para “vender / afirmar a imagem” da cidade sede do evento, como cidade Olímpica. Desde os anos 1990, o “país do futebol” almeja também ser o país do esporte, mesmo que somente por meio do senso comum. Sendo a cidade do Rio de Janeiro um cartão postal, porta de entrada para os turistas, e por isso mesmo a “vitrine do Brasil”, nada mais natural do que os esforços iniciais serem concentrados nesta cidade. O Rio de Janeiro, neste sentido, passa a adotar o esporte como referencial no imaginário coletivo. Os campeonatos de esportes de areia foram importantes para dar visibilidade a esta transformação: os jogos de vôlei e futebol de areia, disputados por ídolos das versões convencionais desses esportes, tendo como pano de fundo o mar das praias cariocas, contribuiu para que a vocação esportiva da cidade deixasse de ser prerrogativa de estádios como o Maracanã, e se concretizasse em diferentes pontos da cidade. Iniciativa viabilizada pela grande mídia, que passou a transmitir esses eventos com regularidade, tornando-os populares e atraindo o capital internacional para a cidade, tudo isso capitaneado pelo governo. Esta “política de incentivo ao esporte” atinge seu ponto alto com a conquista de sediar os Megaeventos. A título de exemplo, desde a conquista do Brasil para sediar a Copa do Mundo de Futebol e logo depois, a conquista da cidade do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos, têm surgido inúmeros projetos sociais direcionados para a classe trabalhadora. Estes projetos vão desde a profissionalização para o exercício de atividades necessárias para a realização dos eventos, como cursos de inglês para atendimento aos turistas, até escolinhas de esporte. As escolinhas esportivas apresentam diversas propostas pedagógicas. Essas propostas variam entre formação de atletas, como o Programa Petrobras Esporte & Cidadania, até a socialização dos alunos pelo esporte, como o Projeto Rio em Forma Olímpico. Em relação ao primeiro Projeto, cabe destacar, apenas como ilustração, que foi lançado em agosto de 2011 um edital de Seleção Pública para este Programa que prometeu investir R$ 30 milhões no período de dois anos em ações voltadas ao desenvolvimento de crianças e adolescentes por meio do esporte, alinhados aos princípios de inclusão, educação integral, cidadania e diversidade. A iniciativa é uma parceria da Petrobras com o Ministério do Esporte. No lançamento da seleção pública o discurso do presidente da Estatal, Renato de Souza Duque foi: “Para a companhia, antes de qualquer resultado ou medalha está o atleta e, antes do atleta, estão crianças e jovens que se formam na escola. Além disso, o investimento em esporte educacional poderá contribuir para o surgimento de novos atletas.” 1 Projetos como este, são anunciados com uma dupla função, ainda que implementados de forma superficial, em termos de organização e distribuição de recursos, de objetividade, etc. Uma de “preparar” as novas gerações de atletas do futuro, 1 Ver em: http://www.petrobras.com.br/selecaoppec/home/ sendo uma espécie de “celeiro” de novos talentos; a outra função atribuída a esses projetos sociais esportivos é a de que eles representam uma forma de “afastar” os jovens da criminalidade e das drogas. Esses sentidos e “funções” que os projetos sociais propõem são divulgados diariamente nos principais meios de comunicação e em manifestações públicas de seus dirigentes. Observamos que esses discursos têm sido bem recebidos pela sociedade. Partimos do pressuposto que os projetos sociais constituem-se em programas de lazer e/ou oportunidade de formação profissional para essa parcela da população, carente de acesso a atividades de lazer, decorrente dos conflitos e das relações sociais da nossa sociedade desigual2; podendo dessa forma, manter a ordem social vigente, sem por em risco a manutenção do status quo. E também, há de se considerar que estes projetos vêm atuar positivamente na questão psicológica desses indivíduos no que se refere à elevação da autoestima e sentimento de pertencimento à sociedade, daqueles que são excluídos/marginalizados pelo modelo econômico. Diante desse pressuposto e tendo em conta o processo de reordenamento da cidade do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol, cabe investigar o seguinte problema de estudo: Como a proposta de Megaeventos se relaciona com ações esportivas voltadas para os filhos da classe trabalhadora a partir de uma visão materialista histórica? 1- OBJETIVO Analisar contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas dos projetos sociais que atendem crianças em idade escolar é o objetivo desse estudo. Para tanto, elencamos como objetivos específicos: a) Investigar ações educativas e de investimento em infraestrutura da cidade, que resultam da parceria público-privada; b) Desvelar as condições objetivas e subjetivas, bem como as condições materiais em que se realizam as práticas pedagógicas em escolinhas esportivas na comunidade Cidade de Deus. 2 Aqui, referenciamos a teoria formulada por Trótski, lei do desenvolvimeno desigual e combinado. Essa teoria designa a mistura no processo de desenvolvimento de aspectos avançados e atrasados em muitos países, especialmente os periféricos do sistema mundial, nos quais um setor moderno pode conviver com o mais atrasado, embora este funcionando como freio daquele, mas ainda assim, convivem de maneira combinada, resultando numa formação social particular, porém única. 2- RELEVÂNCIA DO ESTUDO Como já dito, a questão dos Megaeventos tornou-se objeto de algumas políticas públicas. Assim, embora as políticas públicas sejam determinadas pela classe dominante, é possível que esses projetos sociais, possam vir a contribuir de forma significativa para o desenvolvimento humano nas comunidades onde são implementados. Mas para tanto, as suas metas precisam ser cumpridas. Também é válido ressaltar que o professor ou o responsável pela unidade pode, em seu trabalho, buscar desvelar as contradições sociais, e ser mais do que um formador de atletas. Dessa forma, acreditamos que o professor pode ir além de um transmissor e/ou reprodutor de valores consensuais, podendo colaborar na formação de indivíduos conscientes acerca das contradições que o cercam, para poder intervir na direção de seus interesses de classe. É relevante nos aprofundarmos nos conceitos de essência e aparência dos Megaeventos esportivos. Pois quando a corporação do capital difunde as idéias dos Megaeventos, apresentando os mesmos como discurso único, essa é a sua aparência, não os explica por completo, e assim se torna forte. Essa temática (ou essas idéias difundidas) legitimam-se quando o que é apresentado parece ser a resolução para tudo. Entretanto a aparência (o fenômeno) dos Megaeventos esportivos não pode ser atribuída à totalidade, pois é apenas uma parte da totalidade. Em busca da compreensão da totalidade em que estão inseridos os Megaeventos esportivos, elegemos o autor Kosik (1995), para discutir o processo de inversão da realidade via ideologia. Com base na categoria da ideologia de Marx, Kosik (1995) propõe analisar os fenômenos operados na superfície da realidade, já que estes podem vir esconder, e mesmo ajudar a revelar dialeticamente a totalidade investigada, pois segundo ele “o fenômeno indica a essência e ao mesmo tempo a esconde” (p. 11). Através de sua obra, Dialética do Concreto, Kosik (1995) colabora na compreensão da práxis marxista e apresenta indagações sobre o trabalho, a consciência e a economia, por meio das análises do fenômeno e da essência e da pseudoconcreticidade. De acordo com este autor: Captar o fenômeno de determinada coisa significa indagar e descrever como a coisa em si se manifesta naquele fenômeno, e como ao mesmo tempo nele se esconde. Compreender o fenômeno é atingir a essência. Sem o fenômeno, sem a sua manifestação e revelação a essência seria inatingível. (p. 16). A temática dos Megaeventos esportivos apresenta-se através de sua aparência porque sua essência é não se explicar. É um projeto publicitário que envolve a mídia corporativa, o que faz por tentar convencer a sociedade de que os Megaeventos não apresentam contradições. Nosso desafio é perceber as contradições presente no discurso e nas práticas dos educadores e os participantes do Projeto Rio em Forma Olímpico. Em que medida os participantes se “beneficiam” do Projeto Social? De acordo com Kosik (1995): A existência real e as formas fenomênicas da realidade são diferentes e, muitas vezes, absolutamente contraditórias com a lei do fenômeno, com sua estrutura e, conseqüentemente, com seu núcleo interno essencial e com seu conceito correspondente. Por sua vez, o mundo da pseudoconcreticidade, plano da manifestação fenomênica, refere-se ao ambiente cotidiano e à atmosfera comum da vida humana, com regularidade, imediatismo e evidência, assumindo um aspecto aparentemente independente e, por isso, naturalizado, no qual a diferença entre fenômeno e essência desaparece. Ele possui, assim, uma estrutura própria, que pode ser descrita, sem, contudo, captar a relação entre o mundo fenomênico (pseudoconcreticidade) e a essência (realidade). (p.19) Podemos comparar esse mesmo processo de o plano da manifestação fenomênica ocultar a diferença entre aparência e essência, ao processo de preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos. Ao mesmo tempo em que na superfície fenomênica podemos visualizar, através das propagandas de cunho político e dos discursos midiáticos, “benefícios” para a sociedade, como: limpeza urbana, futuras melhorias no trânsito, geração de empregos e oportunidades de aperfeiçoamento profissional, etc., ou seja, “benefícios” que nada mais são do que a obrigação do Estado. Estes aspectos envolvidos no mundo da pseudoconcreticidade não permitem vislumbrar a contradição que estes Megaeventos trazem para a classe trabalhadora, expressa na essência da política neoliberal. De outra parte, o plano do cotidiano de lutas em que vive o trabalhador, oculta e desvela a concreticidade. Assim, vemos gradativamente a transformação dos direitos do cidadão em serviços ao cidadão, evidenciando cada vez mais o desmantelamento do estado de direito. Vemos o processo de privatização da res publica, da coisa pública (seja por meio de concessões, fundações, “Organizações Sociais de Interesse Público”, ou processo de privatização por dentro das políticas públicas), justificado por uma suposta melhoria na qualidade dos serviços prestados. Entretanto, a realidade não justifica esse pragmatismo discursivo por parte do governo, principalmente se observarmos os resultados obtidos com esse tipo de política. A manifestação fenomênica do processo que antecede a realização dos Megaeventos mantém relações com a totalidade social em que vivemos. Dessa forma, Kosik (1995) nos aconselha a destruir a pseudoconcreticidade através da crítica revolucionária da práxis humana na perspectiva de que o homem é produtor da sua realidade e de que: A diferença entre a realidade natural e a realidade humano-social está em que o homem pode mudar e transformar a natureza; enquanto pode mudar de modo revolucionário a realidade humano-social porque ele próprio é reprodutor desta última realidade (p.18). Conforme nos reporta Konder (2002), Marx tinha convicção de que a teoria, com seu potencial crítico, precisava desempenhar um papel decisivo. E para isso precisava sensibilizar setores da sociedade dispostos a acolhê-la, desenvolvê-la na ação, traduzi-la na prática. Nesse sentido, a classe trabalhadora seria a classe dos sujeitos propensos a agir na direção almejada. Ainda segundo Konder: Marx estava convencido de que sem ir à raiz da alienação, era impossível encaminhar eficazmente a luta para superá-la. Com o movimento operário se tornava possível para o pensamento fundar uma postura revolucionária nova e viabilizar a construção de uma alternativa à sociedade hegemonizada pela burguesia. Pela sua inserção na nova ação histórica transformadora, o pensamento podia alcançar uma compreensão da realidade que reagiria às distorções ideológicas e fortaleceria as ações desalienadoras no mundo alienado (p.35). De acordo com as questões levantadas no decorrer deste trabalho relacionadas à formação e manutenção da hegemonia, notamos que a apropriação da cultura do esporte, que envolve sentimentos de superação, beleza, emoção, é um meio bastante eficaz na construção e manutenção da hegemonia. Já que o modo de vida na sociedade capitalista retira do trabalhador e dos filhos da classe trabalhadora, em parte, a sua capacidade criativa, o seu desenvolvimento, fazendo com que o indivíduo3 reproduza sua existência mecanicamente, a fim de apenas para suprir as necessidades básicas de existência, e talvez, as necessidades impostas pelo mercado. Conforme nos alerta Manacorda (2008), o modo de produção capitalista suga do trabalhador a sua força produtiva, que acumula a riqueza da sociedade, que lhe devolve um salário mínimo, uma formação mínima, permitindo-lhes desenvolver suas pontecialidades minimamente. Dessa maneira, o trabalhador vive diariamente para (re) produzir sua existência e o esporte aparece em suas vidas, como momento de lazer. Ou seja, o capitalismo, em suas relações de exploração, apropriou-se do lazer e o transformou em mercadoria. 3 Sobre a questão de cidadania, adoto as observações de José Rodrigues em: Qual democracia, qual cidadania, qual educação? Assumindo a necessidade humana de se praticar atividades físicas e sua associação com o lazer, o capital tende a controlá-las. Considerando a grande influência do capital sobre o Estado e suas políticas públicas, a classe dominante discorre de meios que determinam quais esportes serão facultados à classe trabalhadora. Os diversos projetos sociais vêm surgindo nas últimas décadas, como uma das maneiras de mecanismo de redução dos antagonismos entre as classes sociais, questão essa que trataremos no primeiro capítulo. Atualmente, os projetos esportivos sociais encontram-se em efervescência na cidade do Rio de Janeiro que se prepara urbano, social, cultural e economicamente para a realização de Megaeventos esportivos. A rua que durante várias gerações, foi o espaço do encontro, do brincar, vem perdendo essa posição devido aos fenômenos como a ocupação habitacional desordenada, o aumento da especulação imobiliária e também pelo crescimento da violência e sua percepção sensacionalista. Para os filhos da classe dominante, a rua pode ser substituída por espaços privados de convivência e desenvolvimento, como, dentre outros, as escolinhas esportivas. Mas para os filhos da classe trabalhadora, o tempo livre ou passa a ter um sentido utilitário ou tornam-se necessárias atividades visando afastá-los das ruas, entendidas como fonte de marginalização e vícios. Entendendo o fenômeno Copa do Mundo e Olimpíadas como parte da totalidade social, é preciso levar em consideração as mediações que envolvem as contradições do sistema capitalista. No que diz respeito ao debate em relação à sociedade que almejamos, faz-se necessário superar as posições idealistas que vem limitando a interpretação da realidade. Conforme nos reporta Kosik (1995), a práxis utilitária imediata e o senso comum que corresponde a essa práxis colocam o homem em condições de orientar-se no mundo, mas não proporcionam a compreensão das coisas da realidade. Segundo ele: A práxis de que se trata neste contexto é historicamente determinada e unilateral, é a práxis fragmentária dos indivíduos na divisão do trabalho, na divisão da sociedade em classes e na hierarquia de posições sociais que sobre ela se erguem. Nesta práxis se forma tanto determinado ambiente material do individuo histórico, quanto a atmosfera espiritual em que a aparência superficial da realidade é fixada como o mundo da pretensa intimidade, da confiança e da familiaridade em que o homem se move “naturalmente” e com que tem de se avir na vida cotidiana (p. 14). Ao analisar os discursos oficiais, buscamos revelar os interesses políticoeconômicos que constituem a agenda governamental em prol do “desenvolvimento social” através do esporte, em geral, e dos Megaeventos, em particular. Dessa forma, procuramos evidenciar as arbitrariedades praticadas neste processo, bem como a falta de transparência na concepção e execução desta agenda. Enquanto representante dos cidadãos, estaria mesmo o governo agindo em benefício da população? A quem realmente interessa a realização dos Megaeventos? 3- METODOLOGIA Para compreender o fenômeno Copa do Mundo e Olimpíadas, também contamos com as produções dos autores da área da Educação Física que fundamentam suas práticas pedagógicas no materialismo histórico, como Vitor Marinho de Oliveira, Hajjime Nozaki, Marcelo de Paula Melo e Adriana Machado Penna, reivindicando suas práxis transformadoras, revolucionando a maneira de pensar/fazer a Educação Física. Embora não tendo o marxismo como opção político-epistemológica, outros autores contribuem para problematizar a compreensão do mundo em que vivemos. Entre outros, citamos José Rodrigues Alvarenga Filho, autor que analisa o que chamou de “questões sobre a tríade segurança pública – mídia – produção de subjetividades na cidade do Rio de Janeiro no primeiro semestre do ano de 2007”, período que antecede a realização dos Jogos Pan Americanos na cidade do Rio de Janeiro; e Alba Zaluar, que na década de 1980 investigou as organizações populares e os significados da pobreza na favela Cidade de Deus. De acordo com o objetivo proposto, organizamos o estudo em quatro capítulos. No primeiro capítulo trazemos o referencial teórico que o fundamenta. No segundo capítulo abordamos a questão econômica brasileira e os Megaeventos esportivos como mecanismo de fortalecimento/desenvolvimento econômico do país. Embora saibamos que a prosperidade econômica vivida pelo Brasil nos últimos anos, além de pouco contribuir para a diminuição do abismo entre as classes sociais, não tem relação direta com os Megaeventos esportivos. Para identificar as contradições entre capital e trabalho do processo que antecede oficialmente a realização dos Megaeventos na cidade do Rio de Janeiro, acreditamos ser relevante analisar a conjuntura atual do modo de produção capitalista e as mudanças no mundo do trabalho que culminaram hoje no modelo de acumulação flexível. Assim, entendendo os Megaeventos esportivos como parte da totalidade do sistema capitalista, podemos dizer que eles são mediações do capital e vêm apresentando cada vez mais uma função de reprodução no mundo globalizado, se reproduzindo e reproduzindo a força de trabalho através de diferentes estratégias. Dessa forma, trabalhamos neste capítulo com a categoria da ideologia, em Marx, como forma de compreender a concepção de uma Educação Esportiva funcional à manutenção do modo de produção capitalista, disseminado pelas políticas educacionais e sociais recentes. O conceito de ideologia, em Marx, parte da relação que o autor atribui entre esta e o conceito de alienação, que por sua vez, liga-se ao trabalho. A ideologia é um dos conceitos fundamentais da filosofia de Karl Marx, embora ele não tenha sido o autor desse conceito. Na filosofia de Marx a ideologia está relacionada á distorção na construção do conhecimento, inevitável nas condições da divisão social da sociedade e consequentemente do trabalho. No decorrer deste trabalho, não somente neste capítulo, também mencionamos alguns autores marxistas que, trataram da concepção de Marx sobre a ideologia, de acordo com sua visão de mundo. Esses autores acrescentaram à concepção de Marx, características daquilo que se considerou superado e/ou procurou eliminar ou substituir alguma colocação do pensador socialista. Enfatizamos, também nesse segundo capítulo, que a análise dos Megaeventos é importante para compreendermos este fenômeno em sua totalidade, os interesses antagônicos envolvidos e desenvolvidos e suas contradições, bem como suas repercussões na vida da classe trabalhadora. Adotamos ainda como fonte de pesquisa no segundo capítulo, os estudos da autora Adriana M. Penna, que aborda a questão dos Megaeventos esportivos sob a ótica materialista; e os estudos de Anne-Marie Broudehoux sobre a arquitetura do espetáculo integrado na Olimpíada de Pequim (local onde foi realizada a penúltima Olimpíada). Esta autora argumenta que os mega projetos arquitetônicos contribuíram para legitimar as estruturas de poder autocráticas da China pós-socialista, servindo como instrumento de criação de imagem e propaganda estatal e desviando a atenção popular das mazelas sociais causadas pelo processo de reurbanização. E, por outro lado, destaca que essa espetacularização, suscitou diversas formas de contestação popular aos discursos hegemônicos. Nesse segundo capítulo também ressaltamos que os eventos em grande massa materializam um processo de formação do indivíduo. Sendo assim, os Megaeventos esportivos acabam por ter uma função social, política e ideológica de inculcar, desde sua criação, via política educacional, a concepção de mundo e sociedade segundo a ideologia que direciona as ações do poder público. Tratamos da questão ideológica relacionada à utilização da marca Megaeventos esportivos como mecanismo de tentativa de crescimento econômico do país. Dessa forma, o terceiro capítulo visa trazer à superfície ações dos empresários e parcerias público-privadas nesse processo que antecede oficialmente a realização dos Megaeventos na cidade do Rio de Janeiro. Além da visceral experiência empírica de residir no Rio de Janeiro, utilizamos como fonte de estudo a dissertação de Mestrado de Marcelo Paula Melo, que discute como o aprofundamento do projeto neoliberal incidiu no campo das políticas públicas de esporte. Para desvelar a relação de interesses políticos e econômicos do poder público e dos empresários quanto aos Megaeventos, analisamos o Dossiê 4elaborado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares dos Megaeventos e o relatório sobre os Olimpíadas 2016, impactos da Copa do Mundo 2014 e das realizado pelo Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Abordaremos também no terceiro capítulo, as relações financeiras entre o Estado e a sociedade civil, por meio das parcerias público-privadas. O poder constituído, munido de um discurso nacionalista, tenta persuadir que o esporte é a solução para os problemas sociais do país. Um consenso em torno dos Megaeventos foi criado, embora as últimas semanas5 tenham evidenciado o quanto a tentativa de construção desse consenso era frágil e questionável. Também acompanhamos, através dos meios de comunicação, as ações dos empresários e do poder publico, sem desconsiderar aquelas ações que “tropeçamos” no dia a dia. O quarto capítulo traz o trabalho de campo desenvolvido no Projeto Rio em Forma Olímpico, na Cidade de Deus, analisando, através de relato, a história da comunidade e o funcionamento do referido projeto. Analisar o cotidiano da ação educativa à luz do materialismo histórico pressupõe uma visão de mundo em que o pesquisador e o objeto não se constituem partes isoladas, estanques no processo do desvelamento do real objeto. E, nesse processo, à medida que o pesquisador e o objeto 4 Vale registrar que um Dossiê não conta especificamente como referencial teórico, mas as informações contidas nele foram de grande relevância para este trabalho, já que o mesmo abordava questões de denuncia, apresentando uma realidade sobre os processos de realização dos Jogos Pan Americanos, que não foram divulgados na grande mídia, e só trouxe, ao público, o lado positivo do esporte. 5 A partir do episódio de aumento nas tarifas das passagens de ônibus em várias cidades brasileiras, o povo foi às ruas protestar. Nesse processo de protestos, manifestações, deram-se conta de que enquanto vários serviços de direito nosso, como saúde, educação, moradia, qualidade no transporte público vem sendo violados, há um grande investimento na obras e estádios para recebermos os Megaeventos esportivos. Incluímos esta nota por ocasião da revisão do texto realizada após a defesa da dissertação. se fundem, são as categorias dialéticas que dão transparência para o entendimento da multiplicidade de fatores que condicionam o real concreto. Sobre a história da comunidade da Cidade de Deus, utilizamos como referencial os estudos de Alba Zaluar. Conforme já tenha dito, embora não se paute em recorte materialista, elegemos esta autora, porque ela traz elementos para refletir sobre o trabalho, a vida familiar, lazer, e religião dos moradores da referida comunidade. Além disso, analisamos a atual geografia e estatísticas da Cidade de Deus. Trabalhamos com o Projeto Rio em Forma Olímpico, que atende crianças em idade escolar, do Ensino Fundamental. Esse projeto é uma das ações desenvolvidas pela Prefeitura do Rio de Janeiro, através da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL) e visa atender os moradores, dentro das próprias comunidades, oferecendo atividades “contínuas e interligadas, voltadas a pretensão de caráter educativo, social, cultural, ambiental, etc., articulando as demandas do esporte e lazer nas comunidades.” (BARBOSA E BARROS, 2012, p. 2). Tal projeto tem como proposta: “Através de atividades esportivas, de caráter educacional, contribuir para minimizar a evasão escolar, estimular a melhora da qualidade de vida e potencializar o capital social dos moradores das comunidades envolvidas, minimizando o estresse ao qual estão submetidos” (Ibdem, p. 4). Contudo, de acordo com o site da SMEL, “O projeto está focado nos valores emocionais e educacionais, capazes de serem mobilizados pelo esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregando conhecimentos, valores, condutas e comportamentos.” (http://www.rio.rj.gov.br/web/smel/). Isso nos chama a atenção sobre o conceito de ideologia, no sentido de falseamento da realidade. Utilizando-se de palavras de ordem, pautadas no senso comum, sem um aprofundamento do que elas realmente significam no determinado contexto. Observamos que esses discursos refletem o caráter ideologizado dos projetos sociais com palavras como democracia e cidadania, todas de forma abstrata já que no nível material o que prevalece é a desigualdade. Nosso estudo busca analisar a organização do Projeto, em que condições os atendidos, os sujeitos históricos do mesmo, se encontram, bem como buscar compreender o que está por detrás do discurso estruturalista da realidade, onde o sujeito é determinado pelas circunstancias em que vive e sobrevive. Nossa análise se dá por meio da abordagem materialista histórica, por acreditarmos que a relação trabalho e educação é construída histórica e socialmente pelos seres humanos, e que esta construção é condicionada pelas relações sociais de produção. É relevante mencionar Thompson (2001), que, em sua obra, valoriza a ação humana explicitando que as determinações não são lineares, não precisam vir apenas de “cima para baixo”, ou seja, as ações podem ser quebradas e as determinações virem, também, de “baixo para cima”. A pesquisa foi dividida em dois momentos: um momento teórico resultante de revisão da literatura que responda a problemática aqui sugerida, tendo como base o materialismo histórico de Marx e Engels, que, por meio da análise da realidade, nos permite compreender as diversas determinações que formam a realidade. Assim, nessa fase buscamos compreender as diversas dimensões/fios da realidade que envolve a totalidade nosso objeto de pesquisa. Desse modo, por meio da análise teórica construímos nosso conhecimento sobre as contradições entre capital e trabalho, trabalho e educação e consumo, inerentes à sociedade capitalista. Foram utilizados como instrumentos de análise para este momento da pesquisa os meios de comunicação que traziam informações sobre ações dos empresários e do poder público, sem desconsiderar as ações pelas quais “tropeçamos” no dia-a-dia da “cidade maravilhosa”, como obras por toda a cidade, trânsito desviado, instituições parcialmente ou totalmente fechadas, ou manifestações dos grupos que vão contra as maneiras pelas quais os governos Estadual e Municipal têm investido na preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos. O outro momento da pesquisa refere-se a duas situações práticas, exploratórios, baseados na contextualização da leitura, constituindo-se em trabalho de campo de característica empírica. Neste trabalho de campo analisamos ações dos empresários para a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro e as contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas dos projetos sociais que atendem crianças em idade escolar, em especial no Projeto Rio em Forma Olímpico. É importante ressaltar que embora a pesquisa seja dividida em momentos, tais momentos são mesclados entre teoria e prática, pois a todo momento, o concreto social foi olhado a partir da teoria, recuperando-se a unidade dialética teoria-prática. Por fim, após apresentar e analisarmos os dados da pesquisa trazemos nossas considerações sobre a mesma com a bibliografia utilizada. Capitulo I 1- REFERENCIAL TEÓRICO A pesquisa está fundamentada no materialismo histórico, cujos principais elaboradores são Karl Marx e Friedrich Engels. Esses autores analisam a relação conflituosa entre trabalho e capital, e as transformações no modo de produzir, e, preocupados com o social e o coletivo, reconhecem e criticam a exploração humana. Por que Marx e Engels nos ajudam a compreender a realidade que queremos desvendar? Para Marx e Engels (1986), o homem necessita de três condições para fazer história. Primeiro, a produção dos meios para satisfação das necessidades, ou seja, a produção da própria vida material. Segundo, a satisfação das necessidades primeiras conduziria a novas necessidades que se traduzem na ação e no instrumento de reprodução dessas necessidades, constituindo-se o primeiro ato histórico. Em terceiro, é a procriação, a reprodução dos homens na constituição da família. Essa família, que no início constitui a única relação social, torna-se mais tarde, quando as necessidades aumentadas criam novas relações sociais, uma relação secundária. Tais processos não se dão isoladamente, mas simultaneamente, dentro do processo social. Assim, a produção da vida irá se desenvolver e o somatório dessa produção se constituirá em forças produtivas de um determinado modo de produção em uma determinada sociedade. Em 1848, os filósofos alemães redigiram o Manifesto do Partido Comunista. Seus objetivos eram revolucionar as ideias, mudar a forma de pensar a vida, de pensar a sociedade, de pensar o trabalho (MARX; ENGELS, 2007). Embora esta e outras obras estejam localizadas num determinado contexto histórico, e partindo de uma determinada concepção da realidade, esses autores deixaram um legado de suma importância para a humanidade. Suas teorias até hoje são utilizadas como de base para analisar os mais diferentes aspectos da sociedade, pois se trata de um materialismo dialético em plena interação com a história e seus agentes, o que o manteve perfeitamente funcional enquanto instrumento de análise científica. Assim, a ideia central do Manifesto é que a produção econômica e a estrutura social decorrente dessa produção constituem, em cada época histórica, a base da história política e intelectual dessa época; que, por conseguinte (desde a dissolução da propriedade comum do solo dos tempos primitivos), toda história tem sido uma historia de luta de classes, de luta entre classes exploradas e exploradoras, entre classes dominadas e classes dominantes, nos diferentes estágios de seu desenvolvimento social. Esta luta atingiu atualmente um estágio em que a classe explorada e oprimida (o proletariado) encontra dificuldades em empunhar sua própria bandeira, dada a variedade de mecanismos que a classe opressora (a burguesia) dispõe para evitar a emancipação dos povos. Além de métodos mais diretos, como opressão militar, econômica e legal, o capital dispõe de um aparato ideológico para garantir o modo de produção dominante. O individualismo meritocrático incentivado pela indústria cultural vai se impondo à identidade de grupo, fazendo com que as mudanças sejam buscadas a partir do indivíduo, diminuindo assim, o poder de mobilização das massas, tendo como resultado a naturalização das contradições mais abjetas que o sistema pode produzir. Marx (2002) descreve a realidade das mulheres e das crianças, bem como as excessivas horas de trabalho, más condições e insalubridade e os míseros salários pagos aos trabalhadores, a questão da mais valia e o processo de alienação e controle social. Em suas obras, Marx e Engels, defendem a abolição das classes sociais, por meio da revolução da forma de produzir a vida e o trabalho. Assim, defendem que o materialismo dialético situa-se na própria concepção ontológica de homem, que se define não só pelo seu pensamento, mas pela produção de sua existência. Também consideram que os fatores culturais, sociais, econômicos e políticos perpassam a relação trabalho e educação. Pois, se por um lado é na dialética inerente à atividade humana do trabalho que o homem transforma a natureza e por ela é transformado, por outro lado, as circunstâncias em que determinada ação se inscreve não é pelo homem determinada, embora ele também seja um criador de circunstância (MARX e ENGELS, 1986). Marx e Engels (1986) defendem que a ideologia, enquanto produção da mente humana, não pode ser separada da questão política da dominação. Assim, nos lembram que, em cada momento histórico, as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Observamos que a precarização do trabalho, em prol do lucro da classe dominante, descrito e criticado por estes autores, atinge a totalidade da vida social e o predomínio de valores mercantis e individualistas até os dias de hoje, e ocultam as contradições da sociedade de classe. Vale ressaltar que a relação capital trabalho não se dá apenas na dimensão do local de trabalho e das relações salariais, mas também das relações sociais de produção e da reprodução da vida social. Fundamentada no materialismo histórico Silveira, (2010) nos reporta que o modo de produção capitalista subordina: Por completo as necessidades humanas à reprodução de valor de troca, o que de certa maneira, escapa em grau significativo do controle humano pelo fato de as relações de produção do capital possuírem uma estrutura de controle, tal que, historicamente, têm levado à sociedade, em geral, e a classe trabalhadora, em particular, a se adaptar sucessivamente a seus diferentes modelos de produção (p.15). Para Marx e Engels (1986), a contradição entre burguesia e proletariado só poderia ser destruída pelo fim dos interesses particulares de classe, ou seja, pelo fim das classes. É por isso que afirmam ser o proletário não somente o sujeito de sua própria libertação, mas principalmente o sujeito da libertação universal humana; é a classe que tem a capacidade de caminhar para além de seus interesses particulares e, assim, destruir a contradição de classes. Atualmente, nos deparamos com hegemonia ideológica em relação a realização dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro. Sendo assim, acreditamos que é necessário debruçarmo-nos sobre esse assunto que se tornou objeto de políticas sociais, educacionais e esportivas. Na perspectiva de analisarmos a questão dos Megaeventos esportivos como um exemplo de atuação do capital, tomamos como referência a categoria da ideologia, em Marx, como forma de compreender a concepção de uma Educação Esportiva funcional à manutenção do modo de produção capitalista, disseminado pelas políticas educacionais recentes. Ao revisitar as diversas expressões que a questão da ideologia veio assumindo, na perspectiva da esquerda, desde Marx até o século XXI, Konder (2002), cita Stoppino, que distingue a ideologia assumindo dois significados “forte” e “fraco”. Essa distinção torna-se propícia para nosso entendimento sobre as maneiras pelas quais a temática dos Megaeventos esportivos vem sendo divulgada pelos seus organizadores. Essa distinção torna-se propícia para nosso entendimento já que o termo “ideologia” nos dias de hoje é utilizado com diversas conotações. Assim, O significado fraco designa sistemas de crença políticas, conjunto de ideias e valores visando orientar comportamentos coletivos relativos à ordem pública. O significado forte refere-se, desde Marx, a uma distorção no conhecimento. O autor entende que: Entre os representantes – minoritários – da perspectiva que trabalha com significado forte da ideologia se acham alguns teóricos convictamente antimarxistas, para quem os instintos fundamentais da natureza humana são muito mais fortes do que os fatores sociais e por isso, influem, inevitavelmente, na psicologia dos indivíduos, induzindo-os a elaborar ou adotar representações ideologicamente distorcidas da realidade política e social (p. 10). Assim, observamos um modelo de apropriação das relações sociais e de poder que oferecem um caráter ideológico aos Megaeventos esportivos. Na aparência os Megaeventos são apresentados como atraentes para sociedade, trazendo melhorias e oportunidades para quem vive nas cidades que sediarão tais eventos; na essência o processo de preparação da cidade para esta realização, tem trazido inúmeros transtornos para os moradores que sediarão os Megaeventos esportivos, onde, para atender as exigências do Comitê Olímpico Internacional e Federação Internacional de Futebol, a rotina dessas cidades vem sofrendo diversas mudanças em suas ordens administrativa, urbana, social, habitacional, educativa até mesmo esportiva, como veremos no decorrer deste trabalho. O que nos faz entendê-los como negócio em boa parte do país, e o Rio de Janeiro, como foco político e econômico. Na perspectiva de compreender a experiência da classe trabalhadora nesse processo de preparação para a realização dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro, elegemos o autor Edward Palmer Thompson. Baseado no materialismo histórico, Thompson investiga as práticas e discursos dos trabalhadores, descrevendo a consciência de classe e as experiências vividas e encarnadas em termos culturais. Em sua teoria defende que a classe não é construída somente em termos econômicos, pois se baseia na construção histórica de experiência, visto que, grande parte dessa experiência de classe determinou as relações produtivas dentro das quais os homens nascem e são inseridos a ela de modo involuntário. Para Thompson (2001), o estímulo antropológico não se traduz primordialmente não na construção do modelo, mas na identificação de novos problemas, na visualização de velhos problemas em novas formas, na ênfase em normas (ou sistemas de valores) e em rituais, atentando para as expressivas funções das formas de amotinação e agitação, assim como para expressões simbólicas de autoridade, controle e hegemonia. O historiador marxista inglês nos ajuda a pensar o fazer-se da classe trabalhadora, explicitando a classe como uma formação tanto econômica como cultural. Por isso, enfatiza a questão da experiência humana e histórica que vão se tornando costumes e tradições que são encarnadas na cultura. Ele defende que é preciso definir o controle nos termos da hegemonia cultural sem renunciar ao intento da análise, mas arquitetá-la por tópicos necessários: as imagens de poder e autoridade e as mentalidades populares de subordinação. (THOMPSON, 1987). Capítulo II 2 - OS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS COMO UMA QUESTÃO ECONÔMICO-SOCIAL Uma visão histórica da educação indica como estivemos sempre preocupados em formar determinado tipo de pessoa. Essas formações variam de acordo com as diferentes exigências de diferentes épocas (SAVIANI, 1982). Vale ressaltar que o processo de educação não se dá somente no âmbito escolar. Tendo em vista que somos resultado das relações vividas em diversas instâncias sociais (escola, trabalho, família, religião), o processo educativo ocorre no dia a dia, no conjunto das relações do ser humano com a natureza e com os demais seres humanos. Ou seja, o homem é um ser histórico cujas ações possuem intencionalidade, finalidade, e é através da associação com os outros homens que ele desenvolve sua capacidade de criar cultura. Segundo Medina (1989), fundamentado em Marx, a Educação não se realiza de forma neutra e nem independente. Não ocorre prática educativa se permanecermos distante dos costumes, das classes sociais, da política, de uma ética, de uma estética, enfim, do contexto existencial mais amplo. Nessa perspectiva, Marx e Engels (1986) defendem que a ideologia não pode ser separada da questão política da dominação. Assim, nos lembram que, em cada momento histórico, as ideias dominantes são as ideias da classe dominante. Cabe observar, desse modo, que os Megaeventos esportivos não são algo novo, tampouco, algo que abranja somente os atletas e pessoas ligadas ao esporte. De acordo com Malina (2009): O esporte, tal como outros fenômenos culturais humanos, estão circunscritos em seu tempo histórico, e não podemos compreendê-lo fora dele. É por isso que atualmente não podemos dissociá-lo da compreensão do modo de produção capitalista, sob risco de entendermos o esporte em si, como um fenômeno auto-explicável ou fora do seu tempo. É nas suas inter-relações (com os fenômenos que não estão ‘dentro’ do esporte) que podemos tentar entendê-lo (p. 27-28). É pressuposto que os Megaeventos são mais uma forma de produção do capital para explorar a mais valia6. É relevante então observar a história, destacando alguns dos 6 Mais-valia é o termo dado por Marx à diferença entre o valor produzido pelo trabalho e o salário pago ao trabalhador, que seria a base da exploração no sistema capitalista. principais momentos do esporte e sua relação com o homem social para analisar as contradições entre capital e trabalho nos processos de reordenamento da cidade do Rio de Janeiro para sediar as Olimpíadas e a Copa do Mundo de Futebol. Os Megaeventos esportivos nos remetem à ideia de formação do indivíduo/cidadão através do esporte. Nesse sentido, esses eventos acabam por ter a função política e ideológica de se fazer crer que, através da educação voltada para o esporte, o indivíduo conseguirá, além de uma vida saudável, obter cidadania plena e progresso material. Esta perspectiva é um tanto ilusória quando transportada ao contexto das comunidades cariocas, onde o resultado das ações do poder público, voltadas à educação em geral, tendem a ser minimizadas por alguns problemas persistentes: a falta de continuidade de muitas dessas ações, ora por conta de violentas disputas pelo poder dentro dessas comunidades, ora pela falta de vontade política. Como poderá ser visto no decorrer desse trabalho, não se trata de ser contra o esporte, contra as práticas esportivas ou contra os Megaeventos, a competição esportiva etc. Queremos dizer que não é porque a realização dos Megaeventos e suas interlocuções atendam às necessidades do capital, que é algo completamente negativo. Todavia, considerando a relação trabalho e educação e a importância do diálogo com as teorias pedagógicas, tendo em vista que todas pertencem a um campo em comum – o da formação humana (ARROYO, 2005) – faz-se relevante pensar acerca dos projetos sociais mediados pelos processos educativos, seus valores, perspectivas, objetivos e métodos, contextualizando a realidade desses projetos em relação às suas propostas para realização desses Megaeventos. Quais as repercussões do processo de preparação da realização dos Megaeventos esportivos na vida na cidade? De que forma a concepção de projetos sociais é funcional à manutenção do modo de produção capitalista? O que ficou dos eventos anteriores? Os discursos dos projetos sociais dizem atender às necessidades lúdicas de lazer das crianças e jovens das periferias e das comunidades pobres, mas o que seria “atender as necessidades” desta população? Será que a população foi consultada sobre o que “ela” necessita? Entendemos que é no mínimo forçoso advogarmos pelos Megaeventos esportivos, na medida que necessidades mais imediatas de todas as camadas da sociedade estão longe de ser satisfeitas. Numa realidade em que a educação pública encontra-se precária, sistema público de saúde sucateado, o desemprego aumenta e o emprego informal também aumenta, parece operar, conforme Marx (1991) uma inversão das necessidades básicas, transformando-as em secundárias. De acordo com Marinho (2010), também não podemos cair na contradição de supervalorizar o processo de instrumentalização do esporte, considerando que os Megaeventos sejam responsáveis pelas mazelas sociais. Assim, ele exemplifica: Não foi a vitória brasileira na Copa do Mundo de 1970 que ratificou a ditadura militar em que estávamos atolados. Mas fez parte do processo de produção do consenso em torno da idéia de que vivíamos em um momento glorioso de nossa história. Foi o período da construção de grandes Estádios, como o de Erexim (RS), com capacidade para 45.000 espectadores. A cidade, à época, não tinha tal população. (p.22). Este capítulo, então, visa analisar os Megaeventos esportivos como uma questão política-econômico-social; compreender as diversas dimensões/fios da realidade que envolve a totalidade do objeto de pesquisa e seus aspectos ideológicos presente nos discursos das políticas públicas relacionadas à realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro. 2.1 - Da conjuntura/estrutura atual do modo de produção capitalista Para Marx e Engels (2007) o trabalho assalariado cria o capital. Isto é, a propriedade que explora o trabalho assalariado só pode aumentar sob a condição de produzir mais trabalho assalariado para voltar a explorá-lo. Segundo esses autores, em sua forma atual, a propriedade se move entre esses dois termos antagônicos: capital e trabalho. Assim, Marx e Engels (1986) ao mesmo tempo em que analisam o trabalho como elemento humanizador, compreendem o trabalho como elemento que degrada a existência humana (mediado pelas particularidades da sociedade capitalista). Dessa forma, burguesia e proletariado formam uma unidade de opostos que ao mesmo tempo se complementam (pois uma classe somente existe pela existência da outra) e se anulam (pois lutam por interesses antagônicos). Ao identificar as contradições entre capital e trabalho, trabalho e educação e consumo, do processo que antecede oficialmente a realização dos Megaeventos na cidade do Rio de Janeiro, e entendendo os Megaeventos esportivos como parte da totalidade e mediação do sistema capitalista, pensamos ser possível comparar o discurso do Projeto Rio em Forma Olímpico (um dos projetos esportivos que surgiram a partir da data de escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016) com a realidade do mesmo. Para identificar tais contradições, pensamos ser relevante analisar a conjuntura atual do modo de produção capitalista e as mudanças no mundo do trabalho que culminaram hoje no modo de regime de “acumulação flexível” (HARVEY, 2008). Pois entendendo os Megaeventos esportivos como parte da totalidade do sistema capitalista, podemos partir do pressuposto que os Megaeventos são um exemplo de atuação do capital e vêm apresentando cada vez mais uma função de reprodução hoje no mundo globalizado, se reproduzindo e reproduzindo a força de trabalho através de diferentes estratégias. É relevante, nesse momento, retomarmos Marx e Engels (2007), que em 1848, descreveram o funcionamento da crise do capital, para compreendermos o funcionamento da atual crise mundial, bem como para compreendermos que tais crises são cíclicas: Assistimos hoje a um processo análogo. As condições burguesas de produção e de troca, o regime burguês de propriedade, a sociedade burguesa moderna, que fez surgir tão preciosos meios de produção e de troca, se assemelham ao feiticeiro que não consegue mais dominar as potências infernais que evocou. Há algumas décadas que a história da indústria e do comércio não é senão a história da revolta das forças produtivas modernas contra as relações modernas de produção, contra o regime de propriedade que condicionam a existência da burguesia e de sua dominação. É suficiente mencionar as crises comerciais que, por sua periodicidade, ameaçam cada vez mais a existência de toda sociedade burguesa. Cada crise destrói regularmente não somente uma grande parte dos produtos fabricados, mas também uma grande parte das forças produtivas já existentes. Nessas crises irrompe uma epidemia social que, em qualquer outra época, teria parecido absurda: a epidemia da superprodução (p.53). E completam explicando a posição da sociedade nesse processo: A sociedade se vê subitamente reconduzida a um estado de barbárie momentânea; parece que uma carestia, uma guerra de extermínio lhe tivessem cortado todos os meios de subsistência; a indústria e o comércio parecem aniquilados. E por que? Porque a sociedade possui demasiada civilização, demasiados meios de subsistência, demasiada indústria, demasiado comércio. As forças produtivas de que dispõem não favorecem mais civilização burguesa e o regime da propriedade burguesa; pelo contrário tornaram-se poderosas demais para esse regime que então passa a ser por elas tolhido; e sempre que as forças produtivas sociais vencem esse obstáculo, lançam na desordem toda a sociedade burguesa e ameaçam a existência da propriedade burguesa. As relações burguesas se tornam demasiado estreitas para conter a riqueza por ela gerada. E de que modo a burguesia poderá suplantar essas crises? De um lado, destruindo pela violência uma massa de forças produtivas; de outro, conquistando novos mercados e explorando mais intensamente os antigos. Quais são os efeitos disso? A preparação de crises mais gerais e mais poderosas e a diminuição dos meios de preveni-las. (p. 53) Em cada período de crise, a sociedade passa por constantes ajustes, ou reformas, no plano estrutural e superestrutural7, visando garantir a sobrevida ao sistema capitalista. Atualmente, os referidos ajustes são representados pela reestruturação produtiva e pelo neoliberalismo. Analisando a atual fase do modo de produção capitalista, tendo em conta as mudanças que ao longo da história da humanidade vêm ocorrendo no mundo do trabalho e que culminam hoje no modo regime de acumulação flexível e, por consequência, na exigência da formação de um novo tipo de trabalhador (HARVEY, 2008), podemos observar interesses do poder público para a produção dos Megaeventos esportivos, em convergência com a manutenção do status quo e à geração de lucro apenas para uma parcela da sociedade, como veremos no capítulo 2. A manutenção do status quo está relacionada à capacidade de a classe dominante articular coerção e consenso, o que desenvolve um nível de conformação bastante observado principalmente na classe trabalhadora. As pessoas da classe menos favorecida economicamente tendem a aceitar a impossibilidade de uma transformação social, enquanto as pessoas das classes mais favorecidas tendem a reivindicar privilégios e não apenas direitos, favorecendo a produção do consenso, “educando” as massas trabalhadoras para o exercício da conformação. Com isso, toleram as políticas privilegiáveis, a exploração do homem pelo homem, a aceitação das desigualdades sociais, considerando-as justas e necessárias para a alocação e manutenção dos papéis sociais (MARINHO, 2005). Sobre as classes mais favorecidas, conforme Soares (1992): Seus interesses históricos correspondem à sua necessidade de garantir o poder para manter a posição privilegiada que ocupa na sociedade. Sua luta é pela manutenção do status quo. Não pretende transformar a sociedade brasileira e nem abrir mão de seus privilégios (p. 22). Sobre a manutenção do status quo e a necessária separação entre os direitos sociais podemos citar Zaluar (1984): A necessária separação entre os direitos sociais, ou seja, os direitos à assistência estatal, ao salário mínimo nacional, a um padrão de vida condigno, à educação livre, bem como o direito ao trabalho, de um lado, e os direitos civis e políticos, e de outro, complicam o esquema dicotômico particularista versus universalista. Pois os direitos sociais dos trabalhadores colidem com os interesses materiais imediatos dos patrões ou os seus direitos civis de montarem seus empreendimentos em liberdade, sem a intervenção do Estado (p. 224). 7 Marx (1983) elaborou o conceito de estrutura e superestrutura para explicar as formações sociais. A estrutura é composta pelas forças produtivas e pelas relações sociais de produção, que se constituem na base sobre a qual as demais instituições são criadas. As ideologias políticas, concepções religiosas, códigos morais e estéticos, sistemas jurídicos, sistemas de ensino, de comunicação, o conhecimento filosófico e cientifico, entre outros formam a superestrutura. Se refletirmos sobre o trajeto percorrido pela política pública educacional brasileira, seus avanços e retrocessos, até chegar aos dias de hoje, veremos que a educação influencia e é influenciada historicamente e de forma mediada em todas as dimensões da sociedade. Essas políticas distintas de projetos societários e educacionais vêm sendo defendidas divergentemente por grupos considerados progressistas e conservadores, nas quais perante uma correlação de forças, na maioria das vezes prevalece os interesses da classe dominante da sociedade, o que mantém e/ou aumenta a desigualdade social (SAVIANI, 1982). Observamos que as últimas décadas têm trazido grandes mudanças para a educação brasileira. Essas mudanças, que ainda obedecem aos interesses de uma elite social, trazem consigo retrocessos que se reproduzem em toda a sociedade, refletindo negativamente na qualidade de vida, no aumento da violência e na manutenção da desigualdade social. Embora nas favelas e nos bairros pobres da cidade, os efeitos da violência sejam sentidos de maneira mais drástica, podemos dizer que os efeitos da violência influenciam a dinâmica da vida social, gerando problemas para os moradores dos bairros pobres e adjacências. Como exemplo, empresas que fazem entrega de mercadorias em domicílio não entram em diversas favelas do Rio de Janeiro por precaução ou pela própria experiência de ter sua mercadoria saqueada. Frigotto (2005) analisa a natureza das principais mudanças na sociedade nacional e internacionalmente, seu sentido dominante de exclusão e o amparo do projeto educativo que se articula a esse processo. Através de um contexto que associa a ideologia neoliberal aos processos de globalização do mercado ou “mundialização do capital” (CHESNAIS, 1996), aumenta-se a concentração de riqueza, a exclusão social, privatização e mercantilização da ciência e da tecnologia. Tendo como pano de fundo a manutenção de uma política de cunho neoliberal para a diminuição de custos e a criação de oportunidades de acesso ao sistema educacional público, a educação brasileira vincula-se aos interesses da lógica do mercado. Conforme Frigotto (2005), a função social da escola tem sido dominantemente enfraquecer as perspectivas ético-políticas que afirmam a responsabilidade social, coletiva e a solidariedade, e reforçar o ideário de uma ética individualista, privatista e consumista. O objetivo é produzir um cidadão mínimo, consumidor passivo que se sujeita a uma cidadania e democracia mínimas (p. 22). Neste sentido, Mézáros (1981) afirma que a educação, sob a égide do capital, possui duas funções: uma de produção das qualificações necessárias ao funcionamento da economia, e a outra função, refere-se a formação de quadros e a elaboração dos métodos para um controle político. De acordo com Marx e Engels (2007), a economia é revolucionada constantemente pelo capital. Assim, por meio da burguesia, o capital, engendra, ciclicamente, mudanças nas relações de produção e nas relações sociais, fomentando condições que possam enfraquecer sua superação. Com a centralização das políticas educacionais pelo Ministério da Educação, observa-se dois fenômenos distintos (contraditórios): Por um lado o Estado se descompromete gradativamente com o financiamento da educação pública, sucateandoa cada vez mais, incentivando as instituições privadas privilegiando-as com generosos recursos; de outro, o público vai se tornando o centro de tudo o que é ruim, segundo o discurso dominante e o “privado”, de tudo o que é bom. Em uma sociedade neoliberal, o acesso aos recursos privados de uma sociedade, depende da capacidade de cada um. Por outro lado, os recursos públicos da sociedade dependem da necessidade. (APPEL, in MOREIRA ; SILVA, 1995). Em seu livro, A Condição Pós Moderna, David Harvey (2008) analisa a transição de acumulação do capitalismo no final do século XX. No sistema econômico capitalista, a influência da ação do Estado (ou das grandes corporações e instituições poderosas) e a disciplinarização da força de trabalho com o objetivo de acumulação do capital, implementaram no sistema binômio taylorista-fordista, uma nova organização de trabalho que passou a ser cada vez mais hegemônica a partir da década de 1970, o sistema de acumulação flexível do capital. Essas mudanças vêm ocorrendo como forma de superar a crise do capital que vigorou entre a década de 1960 e 1970, quando surge um novo regime de acumulação do capital, chamada por Harvey (2008) de acumulação flexível. O fordismo é ou foi não apenas modelo de acumulação capitalista, mas também estratégia de reprodução da ordem capitalista o que implica a reprodução da força de trabalho nas condições históricas – econômica, políticas, sociais e morais – necessárias à perpetuação do sistema. Implica em estratégia de controle do proletariado. Controle que combina repressão (estatal quando necessária e privada, no interior da fábrica, cotidianamente) e ideologia. A ideologia de que o capitalismo permitiria à classe operária um bom padrão de vida – com emprego estável, bons salários, boa moradia, educação para os filhos, sistema de saúde e uma série de benefícios sociais fornecidos pelo Estado e pelas corporações – ofusca a luta de classes integrando o proletariado ao sistema. Assim, o regime de acumulação flexível surge quando as contradições do sistema de produção fordista chegou ao auge nos países centrais. Constatou-se que os benefícios do “Estado de Bem Estar Social”, que já estava em decadência, não chegavam a todos, e a classe trabalhadora continuava insatisfeita. De acordo com Harvey (2008), uma das características do regime de acumulação flexível é a “intensa compressão do espaço-tempo” que tem gerado “um impacto desorientado e disruptivo sobre as práticas político-econômicas, sobre o equilíbrio do poder de classe, bem como sobre a vida social e cultural” (p. 257) Nas palavras de Harvey (2008), A acumulação flexível envolve rápidas mudanças dos padrões do envolvimento desigual, tanto entre regiões geográficas, criando, por exemplo, um vasto movimento no emprego no chamado ‘setor de serviços’, bem como conjuntos industriais completamente novos em regiões até então subdesenvolvidas (p. 140). Nesse caminho, o modelo de acumulação flexível gera mudanças. Diminuíram-se os espaços para empregos estáveis, objetiva-se o rebaixamento do valor da força de trabalho para se ampliar os mercados de consumo no contexto da crise de superprodução, demandando-se a redução dos gastos públicos para viabilizar a redução dos impostos dos ricos; nesse contexto, novas estratégias de submissão do proletariado se fazem necessárias. A repressão continua a ser empregada e tende mesmo a ser ampliada, mas a ideologia difundida muda. No lugar da adesão pela esperança de uma vida boa e tranquila, com estabilidade de emprego, a ênfase na competição, na tese de que não há como se assegurar os velhos direitos a todos e que cabe a cada indivíduo preparar-se, qualificar-se, para manter-se na empregabilidade, tornando-se o mais adaptável possível, de forma a conseguir transitar de uma função a outra e conseguir – se não manter – conquistar novos empregos. De preferência que busque tornar-se um empreendedor, pois não há mais lugar para os empregados acomodados à mesma situação, é preciso buscar novos caminhos, arriscar-se no mercado, ser competitivo, criativo, flexível. A crise do emprego e as modificações do mundo do trabalho são decorrentes das crises do modo de produção vigente, o modelo de acumulação flexível. Desenvolveu-se, após a 2ª Guerra Mundial, predominantemente nos países europeus, sobretudo nos países escandinavos, a Política do Estado de Bem Estar Social. Tal política põe o Estado como agente de promoção social e organizador da economia, a fim de amenizar os impactos do capital, adotando políticas pautadas na garantia de serviços públicos e proteção à população. Mas como sempre acontece na história do capitalismo, a classe trabalhadora logo se viu prejudicada com a decadência dessa política de estado, que foi dando lugar ao neoliberalismo. Em meio a tantas transformações pelas quais a sociedade vem passando no decorrer da história da humanidade, uma característica parece muito comum ou condutora desse processo. É a dominação da minoria em detrimento da grande massa que, apesar dos direitos descritos na Constituição Federal brasileira promulgada em 1988, ficam dependendo de medidas assistencialistas. Observamos que a prática educacional calcada na mercadoria ou na filantropia é uma forma de produzir o consenso8. Nesse sentindo, essas medidas pretendem substituir o serviço público, cada vez mais sucateado, por parcerias público-privadas. Assim, interesses privados são favorecidos por isenções e favores, feitos em detrimento do interesse público. Para Marx e Engels, Marx (1992) os verdadeiros problemas da humanidade não são as ideias errôneas, mas as contradições sociais reais e que aquelas são consequência destas. Os autores verificam que, na sociedade capitalista, enquanto os homens, em consequência do seu limitado modo material de atividade são incapazes de resolver essas contradições na prática, tendem a projetá-las nas formas ideológicas de consciência, isto é, em soluções puramente espirituais ou discursivas que ocultam, ou disfarçam, a existência e o caráter dessas contradições. Ocultando-as, a distorção ideológica contribui para a sua reprodução e, portanto, serve aos interesses da classe dominante. Ao analisar a relação do esporte contemporâneo com o processo de alienação no trabalho e de fortalecimento da ideologia dominante, Penna (2011), identificou que os projetos de desenvolvimento do esporte no Brasil, têm participado do processo de gerenciamento da crise do capital e do refluxo das lutas dos trabalhadores. A crise do capitalismo na década de 1970 originou diversas mudanças do paradigma capitalista. Contudo, o capital vem tentando manter-se hegemônico na sociedade vigente. Esse período tem sido marcado pelas ações estatais flexibilizadoras que vem afetando significativamente as políticas de cunho social e os investimentos estatais nos setores produtivos e financeiros. Nesse caminho, a classe trabalhadora vem 8 Sobre esta questão ver: Pedagogia da Hegemonia (Neves, 2005). sendo cada vez mais atingida, assistindo seus direitos, inclusive os básicos (saúde e educação) serem retirados, em troca de privatizações desses serviços. Nesse contexto, podemos considerar que o sentido da realização dos Megaeventos esportivos no Brasil, em especial no Rio de Janeiro, não é em sua essência “tornar o país uma potência olímpica” ou investir no esporte, na educação e na saúde como forma de crescimento do país, como discursado nas campanhas pro-Copa do Mundo de Futebol e pró-Olimpíadas. Ressaltamos que a essência do fenômeno Copa do Mundo e Olimpíadas repousa numa manobra para desafogar a crise, em geral, e reduzir os antagonismos entre classes sociais, em particular. De acordo com Penna (2011), atualmente o esporte tem se destacado por ser funcional tanto ao mundo globalizado, quanto ao projeto imperialista9, estabelecendo-se como instrumento de contenção de conflitos através do discurso em defesa da tolerância e paz no mundo. Segundo Penna (2001): As condições impostas pela fase monopolista do capitalismo ocultam a natureza dialética do esporte transforma-o num instrumento eficiente ao projeto dominante de incremento da alienação humana. O esporte, sob a forma assumida na contemporaneidade, não contribui para o avanço da formação da consciência da classe trabalhadora, pois vem colaborando para adiamento do projeto de emancipação da humanidade. (p. 7). Historicamente, podemos comparar a utilização do esporte como alienação social à política do Pão e Circo- Lei criada na Roma Antiga pelo imperador Otávio, que consistia em distribuir alimentos e planejar vários eventos (como guerra de gladiadores no Coliseu, por exemplo) para os camponeses a fim de que eles não se rebelassem contra o Imperador. O objetivo era alcançado, já que ao mesmo tempo em que a população se distraía e se alimentava também esquecia os problemas e não pensava em rebelar-se. Toda vez em que o país enfrenta alguma crise, a mídia reforça alguma noticia cultural, como o revellion e o Carnaval, por exemplo, mas na maioria das vezes, é o esporte quem comanda. É importante observar que o objetivo de utilização do esporte como alienação social, não se prende somente a distrair a população para a não rebelião. Constitui-se também, numa forma de promoção política e consequentemente, manutenção das classes sociais. Pois as grandes empresas e os governos (municipal, federal e estadual) investem e patrocinam os projetos sociais. As empresas além de se promoverem, ficam isentas dos impostos e o sistema, além de promover candidatos, isenta-se da sua real obrigação. 9 Ver Harvey (2005): O Novo Imperialismo. Ou seja, por trás dos discursos que remetem às conquistas sociais, os Megaeventos esportivos se inserem num projeto de marketing que envolve grandes corporações capitalistas no intuito de mascarar o que de fato é a sua essência: ideologia que visa à manutenção do status quo. Quando afirmamos ser o materialismo histórico a fundamentação teórica desta dissertação estamos nos apropriando da posição marxista segundo a qual “não é a consciência que determina a vida, mas a vida que determina a consciência". Deste modo, em nossa análise, partimos do pressuposto de que as repercussões acerca da realização desses Megaeventos a serem realizados no Rio de Janeiro10 (entendidas enquanto superestrutura, na terminologia marxista) são consequências das condições econômicas da vida prática (entendidas, por sua vez, enquanto infraestrutura). Em outras palavras, a atual ordem social estratificada em classes e a relação de oposição e exploração entre estas determinam o método (tomado no seu sentido original, enquanto “caminho”) na prática cotidiana na cidade. 2.2 – Questões econômico-sociais: Porque nos envolvemos com o Esporte? Nas próximas linhas discutiremos a influencia do esporte na sociedade, pois podemos notar que a população está, direta ou indiretamente, cada vez mais envolvida com a preparação dos eventos esportivos. Isso se dá por questões de sobrevivência (busca de oportunidades que venham gerar renda), pela descoberta ou redescoberta da importância da atividade física e/ou pelo processo de reordenamento na vida na cidade. Essas formas de envolvimento estão interligadas; todas elas envolvem sentimentos, expectativas e uma forma de educação. Afinal, segundo Marx (1982) o homem é um ser social e o modo de produção da vida material condiciona a consciência (vida social, política e espiritual) dos seres humanos. Vemos, cada vez mais, as escolas, as indústrias, o poder público, a mídia, a classe trabalhadora, manifestando seus interesses e esforços para obter benefícios desse contexto. Nesse sentido, temos notado que a cidade do Rio de Janeiro está se tornando palco de valorização da atividade física. Podemos observar nas ruas e nos principais veículos de comunicação, a supervalorização da prática esportiva, e a mistificação do esporte como melhoria da qualidade de vida e promoção da “cidadania”. Essa falsa 10 O Rio de Janeiro será uma das 12 cidades brasileiras a sediar a Copa do Mundo de Futebol. dicotomia entre cultura e produção, fomenta a ideologia de que o trabalho e o lazer são instrumentos que, por si só, são capazes de conferir a todos a condição de cidadão, independente de etnia, condição social, gênero, numa sociedade de classes e regulada pelo mercado, em que ser “cidadão” é sinônimo de ser consumidor. Vale lembrar que em 1848, Marx e Engels (2007) já haviam anunciado a relação da produção e do consumo e a exploração do mercado mundial, conferindo um caráter cosmopolita por parte da burguesia. Segundo Marx e Engles (2007): “impelida pela necessidade de mercados sempre novos, a burguesia invade todo o globo terrestre. Necessita instalar-se em toda parte, explorar em toda parte, estabelecer relações em toda parte.” (p. 51). Ao acompanhar a história da humanidade, podemos apreciar o esporte e os eventos esportivos sob diversos aspectos. Veremos momentos em que o “surgimento” de atletas serviram de referência para futuras gerações, no que se refere à superação de desafios e ascensão social, mesmo que nem todos conquistassem o “patamar superior”. Também deve ser levada em consideração a utilização da imagem dos grandes atletas como indicadores de valores e paradigmas ideológicos, como propaganda, defesa de ideias e opiniões. Dessa forma, “O modelo do esporte de alto rendimento acaba tendo maior visibilidade e, por isso, maior possibilidade de influenciar as práticas esportivas cotidianas” (MELO 2005, p. 71). Ao mesmo tempo, podemos notar que a realização de um grande evento esportivo não se limita e nem se esgota apenas no campo esportivo. Muitas vezes, o esporte teve uma função ligada aos interesses políticos e estratégicos das instituições sociais e dos Estados. Como podemos observar quando as políticas públicas tentam aproximar educação e festividades esportivas, elas apresentam uma finalidade que vai além dos discursos e das aparências, como por exemplo: angariar recursos e ocultar os vínculos do Estado com a classe dominante, podendo escamotear os conflitos sociais. O que podemos entender como parte do jogo capitalista, dissimular, com a justificativa da vontade política, as lacunas não preenchidas por este modelo econômico. Ao examinar o papel da “arquitetura do espetáculo”11 na reurbanização de Pequim em meio aos preparativos para sediar os Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2008, Anne-Marie Broudehoux (2010) avalia que: A fantasmagoria do espetáculo da mercadoria se tornou um estratagema mediante o qual o Capitalismo podia assegurar sua própria sobrevivência, utilizando o consumo conspícuo e as falsas promessas da publicidade, as vitrines e a abundância de mercadorias para despolitizar as massas e atribuirlhes um papel passivo nos assuntos públicos. Desse modo, uma das principais funções do espetáculo da mercadoria consistiu em distrair a atenção popular do debate público, com o intuito de intensificar o controle social, gerar consenso e promover o consumo (p. 41). Em suma, seja pelo eixo da socialização, pela idéia de promoção da saúde, pelo lazer ou formação escolar, o esporte é parte integrante das relações econômico-sociais que são hegemônicas em um determinado espaço/tempo histórico-cultural. De acordo com Thompson (1987) não é possível dissociar cultura e economia. Assim, tratando-se dos esportes, sobretudo os massificados, vemos o seu emprego dentro da ideologia vigente, como fator de interação social, além de seu papel afirmativo nas relações de classe. Thompson (1987): É essencial manter presente no espírito o fato de os fenômenos sociais e culturais não estarem ‘à reboque’, seguindo os fenômeno econômicos a distância: eles estão em seu surgimento, presos na mesma rede de relações (p. 208) É vasta a bibliografia que aborda o desenvolvimento do esporte e dos Jogos Olímpicos. Esse desenvolvimento não é linear, nem é constituído de início, meio de fim. Essas atividades fazem parte do contexto político, econômico e social. Como já dito o esporte é parte integrante das relações sociais, econômicas e histórico-cultural. Conforme Kosik (1995), “a essência se manifesta no fenômeno. O fato de a essência se manifestar no fenômeno revela seu movimento e que ela não é inerte nem passiva.” (p. 15). Portanto, a essência do esporte não é inerte porque é histórica, e se é histórica está em processo, em movimento. A questão do esporte, corpo, cultura, educação, trabalho, economia, estão interligados e fazem parte de uma totalidade concreta, contraditória e que vive em constante movimento. Ao abordar questões fundamentais sobre a práxis marxista, 11 Anne-Marie Broudehoux refere-se ao “espetáculo” baseada em Guy Debord, que caracterizou a sociedade capitalista como a “sociedade do espetáculo”, entendendo o espetáculo como uma manipulação dos processos de criação de sentido para servir a produção de poder político e econômico. consciência e economia, Kosik (1995) nos indica que para compreendermos o todo, é necessário a decomposição do todo, analisando cada pedaço, conforme suas palavras: Para nos aproximarmos da coisa e da sua estrutura e encontrar uma via de acesso para ela, temos de nos distanciar delas. É sabido como é cansativo elaborar cientificamente os acontecimentos contemporâneos, enquanto a análise dos acontecimentos passados é relativamente mais fácil porque a própria realidade já se incumbiu de fazer uma certa eliminação e “crítica”. (p. 28) Antes de tratar dos Megaeventos esportivos que serão realizados no Brasil, faremos referência à alguns deles ocorridos no Brasil. A análise sobre esses Megaeventos é importante para compreendermos este fenômeno em sua totalidade, os interesses antagônicos envolvidos e suas contradições, bem como suas repercussões na vida da classe trabalhadora. Assim, através da abordagem histórica o pesquisador tem acesso a como os Megaeventos são produzidos. Não faremos uma análise histórica sobre os Megaeventos esportivos, que ocorrem de dois em dois anos (a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos, que ocorrem de quatro em quatro anos, deixando um espaço de dois anos ente cada realização), variando seu local de realização. Pois em diversos momentos desse trabalho, citaremos destaques de Megaeventos esportivos que elucidam as questões que estão sendo apresentadas. 2.3 – Os Megaeventos esportivos no Brasil Se trouxermos a discussão para o Brasil nos tempos atuais, podemos observar diversas contradições, dentre elas: a utilização do esporte como meio de controle social, como meio de segregação social (eventos elitizados com valores altíssimos, ao mesmo tempo de eventos populares; atividades diferenciadas para a classe trabalhadora e para os grandes empresários), mas também como meio de conquistas, ou de propostas de geração de trabalho e renda para a classe trabalhadora, melhorias no funcionamento estrutural da cidade etc. Podemos citar como exemplo de controle social, a Copa do Mundo de 1970, na qual a campanha desportiva que conduziu ao tricampeonato deliberadamente mascarou os conflitos sociais do regime autoritário militar. A posição do então presidente Emilio Garrastazul Médici remetia à clássica política romana do panis et circenses de satisfazer as necessidades imediatas da população como forma de dirimir os ânimos contrários ao status quo. No Brasil, a década de 1970 foi um período conturbado, marcado pela ditadura do regime militar, instaurado em 1964. O período em que Médici presidiu o país é considerado o mais repressivo da história do Brasil, resultando na morte e tortura de centenas de oposicionistas, a maioria estudantes, que lutavam contra a “política de modernização” do país, acusados de "subversão". Vale observar que a Copa do Mundo de Futebol de 1970, foi realizada no México. Mas o Brasil, já sediou outros Megaeventos desportivos como a Copa do Mundo de 1950, e os Jogos Pan Americanos, em 2007. Tendo em vista que este último Megaevento foi realizado recentemente, discorreremos mais sobre ele nesta dissertação. Poucos registros se têm da Copa do Mundo de Futebol de 1950, mas vale dizer que o Estádio Mário Filho, o Maracanã, que do segundo semestre de 2010 até o primeiro semestre de 2013, esteve em período de reformas para adequações exigidas pela Federação Internacional de Futebol (FIFA), foi construído para este Megaevento. As atuais reformas12, que estão sendo realizadas para atender as exigências da Federação Internacional de Futebol, vêm sendo veementemente criticada pelos usuários do Maracanã, além de estar custando bilhões dos cofres públicos. De acordo com o Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas: O Maracanã foi uma das principais obras já feitas no país. O “Maior do Mundo” consagrou uma divisão setorial que já era encontrada nos principais estádios: Geral, Arquibancada, Cadeiras Numeradas, Camarotes e Tribuna de Honra, esta última reservada para autoridades e personalidades. Se, por um lado, este desenho era uma representação da segregação econômica, social e política do país, por outro, garantia a participação de todos na platéia do mesmo espetáculo. [...] Arquibancada e Geral acomodavam 80% do público (p.12). Sobre a participação popular no Estádio, o mesmo Dossiê revela o que milhares de brasileiros vivenciaram: Durante décadas, estádios como o Maracanã e tantos outros pelo Brasil se transformaram em espaços míticos que reuniram brasileiros de todas as classes sociais. Avós, pais, filhos, netos e bisnetos comungaram da paixão pelo futebol e da experiência festiva, musical e catártica de estar em um estádio. Mais que isso, moldaram e evoluíram formas de torcer próprias de cada região do Brasil, identidades culturais que nos marcam como brasileiros e como sujeitos de nossos costumes e manifestações locais (p11). 12 O Maracanã reabriu em junho de 2013 para sediar alguns dos Jogos da copa das Confederações realizada nas 12 cidades brasileiras que sediarão a Copa do Mundo de Futebol em 2014. E após a Copa das Confederações voltou ás reformas. Ainda de acordo com o Dossiê, o valor das obras estava estimado em 1 bilhão de reais e após os Jogos de 2014, o Maracanã seria repassado à iniciativa privada. Esses valores, diariamente, têm sido ultrapassados, as obras encontram-se atrasadas e o edital de licitação do Estádio, encontra-se em vigor. A controversa frase “aos amigos tudo, aos inimigos, a lei.”, a nosso ver descreve as parcerias público-privadas (PPP’s), que segundo a ideologia dominante servem para desonerar e dinamizar as ações do Estado. Na realidade concreta há uma distorção desse processo, visto a grande influência no rumo das políticas públicas, por parte dos “parceiros” do governo. Na cidade do Rio de Janeiro, tal distorção toma enorme proporção, o que nos leva a questionar a legitimidade de muitas dessas PPP’s, como a do Maracanã. Já os Jogos Pan Americanos de 2007, em função da sua recente realização, deixaram muitas marcas na história política, urbana, econômica e cultural na cidade do Rio de Janeiro. A título de exemplo: Para a realização dos Jogos Pan Americanos, foi ostentada a ideologia de que o Pan deixaria muitos legados sociais, inclusive a (re) apropriação dos espaços urbanos, que foram construídos para as competições e que hoje encontram-se praticamente abandonadas e sob o risco de serem demolidas por não estarem de acordo com as regras para instalações para a realização das Olimpíadas, que é um Megaevento de maior proporção, como o Parque Aquático Maria Lenk, na Barra da Tijuca . Esse Megaevento, realizado pela Organização Desportiva Pan–Americana (ODEPA), ocorreu entre os dias 13 e 29 de julho de 2007, com a participação de 5662 atletas de 42 países do continente americano (América do Sul, América Central e América do Norte), que disputaram 35 modalidades esportivas. A Organização Desportiva Pan-Americana é reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional, sendo a organizadora dos Jogos Pan-americanos Parapan-americanos e de outros eventos olímpicos nas Américas e é a entidade que reúne os Comitês Olímpicos Nacionais dos países do continente americano. Com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Jogos Pan Americanos de 2007, iniciou-se um processo de corrida contra o tempo para preparar a cidade. Além do compromisso dos órgãos públicos em enquadrar a cidade nos requisitos exigidos pelo Comitê Olímpico Internacional, as grandes empresas também buscaram suas formas de lucrar com essa oportunidade. Assim, as empresas que mais sobressaíram foram aquelas que formaram uma parceria com os órgãos públicos. Essas parcerias público-privadas, bem como muitas outras questões negativas para a classe trabalhadora em relação aos Jogos Pan Americanos, foram denunciadas por veículos de comunicação não corporativos, como o blog A verdade sobre o Pan (http://averdadedopan2007.blogspot.com.br/), que ainda no ano de 2007, foi “tirado” do ar13. Vale registrar que um blog não conta especificamente como referência para este trabalho, mas as informações contidas nele são de grande relevância já que o mesmo aborda questões de denuncia, apresentando fortes evidências sobre as irregularidades nos processos de realização dos Jogos Pan Americanos, que não foram divulgados na grande mídia. Pois a grande mídia priorizou valorizar, ao público, o lado positivo do esporte e da realização de tal evento no Rio de Janeiro, deixando de fora (ou distorcendo) dos noticiários as remoções, manifestações, problemas estruturais nas obras, e o destino do “legado do Pan”. Fundamentados em Marx, os pensadores Horkheimer e Adorno, desenvolveram o conceito sobre a indústria cultural. Denunciaram o funcionamento dos meios de comunicação de massa e a indústria do entretenimento como um sistema que não só assegura a sobrevivência do capitalismo, mas também mantém sua função essencial em sua preservação, reprodução e renovação. De acordo com Konder (2002), esses autores marxistas, identificaram que a ideologia dominante investe na positividade porque está empenhada em evitar que, pela negação, as pessoas tomem consciência de quanto o quadro da realidade constituída é negativo. Os principais veículos de comunicação, regulados pelas regras do mercado e controlados por um grupo seleto de investidores privados, produziam reportagens sobre o andamento das obras, segurança pública para atletas e turistas, os legados que o Pan poderia deixar etc. Enfim, esses veículos de comunicação geraram um clima de preocupação com a imagem da cidade perante aos organismos internacionais e uma ideologia de progresso para a cidade e para a sociedade. Diferentemente da tradicional ideologia do desenvolvimento nacional que norteou as políticas públicas desde a Era Vargas (1930-1945) até o período da ditadura militar, vemos aqui uma espécie de releitura neoliberal desta ideologia de Estado, 13 Apesar do site ter sido censurado, seu autor produziu um novo blog (http://rio2016blog.wordpress.com/a-verdade-do-pan-2007/) com o mesmo conteúdo, porém não divulgou-o. valendo-se do esporte como chamariz para investimentos privados nacionais e internacionais. Ao avaliar a questão da Chacina do Morro do Alemão, que ocorreu às vésperas da realização do Pan Americano, Alvarenga Filho (2010) aponta um bom exemplo do poder da mídia, influenciado pelo poder público, sobre as tantas contradições na sociedade carioca em prol da realização deste Megaevento esportivo. Segundo Alvarenga Filho (2010): Jornalistas supostamente preocupados com a crescente “onda de criminalidade” na cidade, criaram um cenário no qual tornou-se urgente que os organizadores dos jogos em parceria com as forças estaduais e federais tomassem uma atitude quanto ao “risco” de um atentado durante o evento. Atitude, neste caso, como sinônimo de repressão policial sobre as populações pobres. (p. 36) Ao discutir as questões da estrutura das sociedades contemporâneas à luz do materialismo histórico, Lefebvre (1999) avalia que as pessoas consideram-se reciprocamente apenas pela relação de utilidade. Assim, os mais fortes, os capitalistas, apropriam-se de tudo. Portanto, o capital, propriedade direta ou indireta dos meios de produção e das subsistências, é a arma da luta na guerra social. Ninguém se preocupa com aquele que não tem capital nem dinheiro. Se este não encontra trabalho, pode roubar, morrer de fome, segundo suas palavras: “a polícia vigiará para que ele morra de uma maneira tranquila, sem ferir de nenhuma maneira a burguesia (p.16). O complexo de favelas do Morro do Alemão é apenas um, de muitos, contrastes urbanos e sociais da cidade do Rio de Janeiro. A cidade conhecida como “cidade maravilhosa”, por suas paisagens e belezas naturais, também abriga territórios a serem negados pela burguesia. São os espaços habitados pelas comunidades populares, considerados como territórios de ausência de civilidade e urbanidade, tradicionalmente vistos como locais de desordem, doença e vício (OBSERVATÓRIO DAS FAVELAS, 2007). É importante lembrar que, historicamente, os investimentos em habitação popular são qualitativamente e quantitativamente insuficientes. Em contrapartida, os investimentos para a realização dos Jogos Pan Americanos, ultrapassaram R$ 3,4 bilhões, como revela o já citado Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas: No período dos Jogos Panamericanos de 2007, quando assistimos ao desperdício de recursos públicos (de acordo com o TCU, mais de R$ 3,4 bilhões foram gastos de forma indevida, mas ninguém foi punido) em obras superfaturadas que se transformaram em elefantes brancos e, tão ou mais grave, o abandono de todas as “promessas” que geraram na sociedade, expectativas de algum “legado social”. (p.84) Mais adiante o mesmo Dossiê destaca que: Se forem contabilizados os recursos investidos para a construção de equipamentos para Copa e Olimpíadas, o país poderia diminuir o déficit habitacional, ampliar o acesso aos serviços urbanos básicos, promover melhorias socioambientais, programas de trabalho e renda, investir na saúde pública e na educação. Além disso, poderia construir uma política esportiva que promovesse o esporte amador, além do esporte de alto rendimento e não beneficiar quem faz do esporte, fonte de acumulação de poder e de riquezas. (p. 84). Observamos, durante os Jogos Pan Americanos que as principais notícias estavam vinculadas a esse período de festa para “o povo brasileiro”, comemoração, torcida. Pouco, ou nada, foi noticiado sobre as principais necessidades da classe trabalhadora, pouco se ouviu discursar em descaso do governo com a educação, com a saúde, transporte público, com a segurança pública para os moradores da cidade do Rio de Janeiro. A preocupação do governo com a segurança pública, saúde e transporte público, estava associada à estadia dos turistas, bem como os membros dos organismos internacionais. Assim, podemos dizer que nas principais áreas de realização das competições e nas áreas de hotelaria e serviços associados, tudo funcionou muito bem durante o referido período. Prova de que a preocupação do Governo era apenas o “bem estar” dos turistas no Rio de Janeiro, foi a maneira pela qual a questão do trafego foi momentaneamente “resolvida”: foram criadas faixas seletivas nas principais vias do Rio de Janeiro, sendo permitido o acesso somente dos carros oficiais e autorizados, sob pena de multa para quem trafegasse na mesma sem autorização. Fora as escolas, que tiveram suas aulas suspensas durantes todo o período dos Jogos, emendando depois, com as férias escolares. Vale lembrar que para esta realização, as ações dos três entes federativos tiveram certo grau de articulação durante esse período. Tropas federais nas ruas, as escolas ficaram sem aula (e por meio da inversão da realidade, os alunos achando que estavam sendo beneficiados). Com isso o trânsito fluía melhor, os hospitais públicos tinham médicos suficientes para atender aos turistas, as ruas e vias mais próximas aos hotéis e locais de competição estavam todas policiadas etc. Tudo isso porque o Rio de Janeiro recebeu muitos turistas e o Brasil precisa ser bem visto pelos outros países em prol das relações internacionais e da economia do país. A ideologização do Esporte é uma das mediações do capital que escamoteia as outras demandas da classe trabalhadora. Mas nossa experiência em relação aos Jogos Pan Americanos, em 2007, mostrou que as políticas públicas estiveram articuladas, ainda que só para os turistas. No entanto, só poderemos desfrutar da saúde, educação, emprego, esporte e tudo mais que atenda as demandas sociais, quando as políticas públicas estiverem permanentemente articuladas. Pois como prova a nossa história, em isolado essas políticas não são suficientemente efetivas para dar conta da enorme demanda social. Por que todo esforço para atender os turistas não é realizado diariamente para a classe trabalhadora? Por que não se tem um número efetivo de médicos nos hospitais públicos diariamente? Entendemos que estes espaços públicos, hoje estão precarizados como parte da política governamental que segue desde os anos de 1980. Nesse sentido, discursar sobre de saúde, educação e lazer para todos deve significar iniciar um movimento maior da classe destituída para a recuperação formativa desses espaços. Como nos reporta Broudehoux (2010): O espetáculo é tão essencial para a nova economia urbana que um dos meios mais eficazes para intensificar a imagem mundial de uma cidade é sediar eventos globais, tais como mostras, conferencias e grandes competições esportivas internacionais. Ser palco de eventos espetaculares de alta categoria não só aumenta a visibilidade global ao promover a imagem da cidade como um lugar vital e dinâmico, mas também contribui para legitimar transformações em grande escala, permitindo aos governos locais alterar prioridades na agenda urbana sem o escrutínio público a que normalmente estão sujeitos (p. 42). E para que isso fosse possível, o maior esforço veio da classe trabalhadora. Como exemplos: o trânsito desviado; obras superficiais de “melhorias” na cidade para facilitar o trânsito ou deixá-la mais bonita, escondendo a desigualdade social; crianças sem escola; sem falar nos “os voluntários” do Pan, que foram incentivados a trabalhar de graça, em troca de participações em eventos, como shows para o povo. Sabemos que no interior do modo de produção capitalista, a desumanização do trabalhador é indicada via trabalho, enquanto seu real processo de humanização passa pela redução de sua jornada de trabalho por dia e sua imersão no lazer, e nesse caso, um lazer alienante. De acordo com Mézáros (1981): a ideologia burguesa, desde Adam Smith, trata os problemas da educação e do lazer em termos utilitários encarando: como “diversão da mente”, destinada em parte a integrar o trabalhador à produção: seja pela restauração de sua força física e/ou direcionando-o para o consumo, e em parte para mantê-lo longe da “libertinagem, que representa desperdício.” Nesse sentido vale nos reportar a (GOLDMAN apud PAIVA, 1998), que nos lembra que o domínio das classes dominantes sobre, principalmente, os que participam ativamente do processo produtivo está deslocado para o plano da violência intelectual e da redução da atividade do campo da consciência, levando os indivíduos a se preocuparem com o consumo. Por que não houve uma dinamização do setor cultural que fornecesse infraestrutura para assegurar o funcionamento dos Estágios e Vilas Olímpicas, construídos com altíssimos e duvidosos custos para a realização dos Jogos Pan Americanos? Por que os Estádios e Vilas Olímpicas que foram construídos com altíssimos custos públicos, sob denúncias de ter sido desviado dinheiro de outras esferas públicas, serão demolidos para ser construídos outros Estádios? Por que nos projetos de reordenamento da cidade para a realização dos Megaeventos, não há participação da comunidade? Se fosse mesmo para o bem estar social, como dizem nossos governantes, o prefeito do Rio de Janeiro Eduardo Paes e o Governador do Estado do Rio de Janeiro, Sérgio Cabral Filho, “uma conquista do carioca”, porque não desvincular a oferta de atividades da relação custo/benefício que norteia a contabilidade financeira em detrimento da contabilidade social? Seguindo as palavras de Marinho (2010): “O consenso acontece pela adesão das grandes massas sob orientação das classes proprietárias dos meios de produção” (p. 34). Assim, o objetivo de utilização do esporte como controle social não se prende somente a distrair a população, mas, sim, para manter um estado de contrarrevolução permanente e estimular o consumo para fortalecer o mercado. Constitui-se também, numa forma de promoção política e consequentemente, manutenção das classes sociais14. Segundo Paiva (1998): A concepção de mundo imposta sobre o indivíduo tem cada vez mais exigido das instituições sociais uma atividade receptiva concentrada, que assegure a permanência da classe dominante no poder. Para que isso aconteça se faz necessário disseminar mecanismos homogeneizantes do comportamento social de modo que todos apresentem os mesmos desejos, as mesmas sensações, as mesmas reações as necessidades que lhes são impostas (p. 22). A partir de uma visão marxista de mundo, lazer e trabalho são partes integradas da totalidade do ser social e a liberdade, a luta pela superação no reino das necessidades. Dessa maneira, o esporte, que possui características de luta, vitória, superação, emoção e beleza, carrega consigo grande identificação com o indivíduo massificado na condição de proletário, sempre em busca de superação das suas necessidades e em busca de uma fuga da tensão diária. Nesse sentido, a ideologia dominante fomenta um forte apelo 14 Sobre coerção e consenso ver também em: Gramsci (1982): Os Intelectuais e a Organização da Cultura; e Gramsci (2004): Cadernos do Cárcere volume II. social através da beleza do esporte e da supervalorização dos grandes ídolos esportivos, estimulando a sociedade voltada para o espetáculo, para o consumo. O esporte passa a ser encarado como atividade com fim em si mesmo, favorecendo a ideologia neoliberal. No liberalismo, o indivíduo é considerado responsável pelas mazelas sociais, ou seja, não há uma análise crítica e radical da estrutura da sociedade capitalista. Assim, a exploração capitalista do tempo que era (ou podia) para ser dedicado ao lazer, tem sido levada ao domínio do espírito comercial e alienante (MÉZAROS, 2008). Em nosso entender, o lazer nesse modelo de sociedade assume uma função ideológica principalmente através da prática desportiva, introduzindo a indústria do e no esporte, de modo a ratificar a divisão entre consumidores e os grandes nomes do esporte, que, via de regra, superam os obstáculos por esforço próprio, e alcançam o pódium , o sucesso. Conforme nos reporta Marcelino apud Paiva (1998) podemos entender essa mercantilização do lazer, como compensatória ou utilitarista. Visto que, dessa forma o lazer é utilizado como meio de compensar a insatisfação e a alienação provocadas pelo modelo de trabalho imposto pelo modo de produção capitalista, em que suas relações são pautadas pelos valores do mercado, consumo, competição, livre da concorrência sob a falsa ideia de liberdade. 2.4 - A preparação da cidade: a “cidade maravilhosa” entra em campo É possível observar que com a escolha do Comitê Olímpico Internacional (COI) para cidade do Rio de Janeiro, sediar as Olimpíadas de 2016, as políticas publicas em todas as esferas governamentais se voltaram para a supervalorização do esporte brasileiro. Com a escolha do Rio de Janeiro em dois de outubro de dois mil e nove, o prefeito da cidade, Eduardo Paes, decretou ponto facultativo para os funcionários públicos. O acontecimento foi a notícia mais importante dos veículos de comunicação daquele dia, apesar de consecutir na paralisação serviços públicos considerados essenciais, como escolas e hospitais da rede pública municipal. Em relação aos investimentos financeiros para a Copa do Mundo de 2014, embora não seja nosso objetivo de pesquisa, é relevante relatar um estudo realizado no primeiro semestre de 2011, pela Consultoria Legislativa do Senado Federal que compara o investimento financeiro dos países-sedes em todas as intervenções que levaram a rubrica de "obra da Copa" dada pelos comitês organizadores, para elucidar a ideia de que o capitalismo se vale desses Megaeventos para sua reprodução. Conforme o estudo, as Copas do Mundo, Japão e Coréia (2002), Alemanha (2006) e África do Sul (2010) consumiram juntas, US$ 30 bilhões (US$ 16 bilhões, US$ 6 bilhões e US$ 8 bilhões, respectivamente), enquanto todas as Copas da história juntas teriam consumido US$ 75 bilhões. Este mesmo estudo, divulgado na página virtual de Esportes15, denuncia que no Brasil os gastos atuais, segundo as autoridades de governo e empreiteiras envolvidas nas obras somam US$ 40 bilhões. As manifestações em relação a realização dos Megaeventos a serem realizados na cidade do Rio de Janeiro não são apenas as manifestações de ordem dominante (embora estas sobressaiam). Há diversos grupos que vem apontando questionamentos e insatisfações sobre as maneiras pelas quais a cidade vem se preparando para atividades que os próprios moradores da cidade pouco ou nada usufruirão. Como exemplo, podemos citar que no dia 30 de Julho de 2011 foi realizada uma festa para o sorteio das eliminatórias da Copa do Mundo de 2014. A cerimônia ocorrida na Marina da Glória foi restrita a um público selecionado, contando com a presença de dirigentes políticos e esportivos de todo o mundo, incluindo a Presidente da República Dilma Rouseff e show da cantora Ivete Sangalo. Essa festa foi realizada pela empresa Rede Globo16 e, segundo Borges (2011), esta empresa recebeu dos Governos Estadual e Municipal, R$ 30 milhões para organização da cerimônia do sorteio das eliminatórias da Copa do Mundo de 2014. Conforme as palavras de Borges: Os R$ 30 milhões pagos pelos contribuintes servirão para remunerar a Geo Eventos, empresa das Organizações Globo e do Grupo RBS. Ela foi contratada com exclusividade pelo Comitê Organizador Local (COL) da Copa do Mundo de 2014 para conseguir patrocínios para a tal festinha. Vale destacar, que neste dia, cerca de mil manifestantes, do Comitê Popular da Copa e Olimpíadas e outros movimentos, como os funcionários da rede estadual de educação participaram do ato público “Marcha por uma Copa do Povo”. (ADUFF, 2011). No entanto, esta manifestação não foi divulgada nos principais veículos de comunicação. 15 http://www.pi10.com.br/ Rede Globo é uma rede de televisão brasileira, fundada em 1965, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), pelo, então jornalista, Roberto Marinho. É assistida por 150 milhões de pessoas diariamente, sejam elas no Brasil ou no Exterior por meio da TV Globo Internacional. A emissora é uma das maiores redes de TV comercial do mundo e um dos maiores produtores de telenovelas, sendo parte do grupo empresarial Organizações Globo. 16 Aqui cabe um parêntese. Para Thompson (2001), classe é, ou deveria ser, uma categoria histórica descritiva de pessoas numa relação no decurso do tempo e das maneiras pelas quais se tornam conscientes de suas relações, como se separam, unem, entram em conflito, formam instituições e transmitem valores de modo classista. Nesse sentido, classe é uma formação tão “econômica” quanto “cultural” (p. 260). Destarte, esta situação reforça o que Thompson (2001) nos atenta para o fato de as alterações nas relações produtivas serem vivenciadas na vida social e cultural, de “repercutirem nas ideias e valores humanos e de serem questionadas nas ações, escolhas e crenças humanas” (p. 263). As relações de poder, as formas de dominação e de organização social têm sempre sido um desdobramento do conflito e não resultado das mudanças involuntárias, embora elas introduzam novas forças em cena e modifiquem a correlação de poder e riqueza entre classes sociais diversas. A partir das contradições identificadas no contexto de preparação para os Megaeventos esportivos, é possível desvelar as manobras do poder público, bem como as parcerias público-privadas para o atendimento de interesses próprios, mesmo que esses interesses atendam somente a uma parcela da sociedade, passando a ideia de que todos serão beneficiados. Sendo assim, é importante investigar o que está por trás dos discursos ideológicos, analisando sua essência, que, podem vir colaborar para a manutenção do status quo, ou para uma práxis transformadora. Um dos grupos que manifestam posições contrárias às maneiras pelas quais a cidade se prepara para os Megaeventos, formado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas, formulou um Dossiê sobre as violações dos Megaeventos, revelando e denunciando as ações dos empresários, em parceria com o poder público nesse processo de preparação da cidade para a realização da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e das Olimpíadas de 2016. Ações essas que vão desde as reformas milionárias dos Estádios até o controle dos patrocinadores para com a organização do evento, exclusividade de venda de seus produtos e divulgação da imagem. O Estádio Mário Filho, mais conhecido como Maracanã, além do gasto excessivo com as obras e elevação dos valores dos ingressos, propõe uma reorganização um tanto elitizada do Estádio, como: capacidade de público diminuída e setores populares distintos. Sobre esse assunto, Os membros da Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas manifestam sua opinião: Sem a geral dos estádios, “assassinadas” arbitrariamente, morrem também as manifestações populares bem-humoradas, que se consagraram ali. Sem as arquibancadas, espaços de criação coletiva das torcidas, transformados em setores de cadeiras numeradas com lugares marcados – inclusive com a proibição de assistir o jogo em pé –, vão sendo inviabilizados elementos e ‘brincadeiras’ que só eram possíveis com a mobilidade dentro dos estádios, como as coreografias, o baile de bandeiras nos bambus, os “bandeirões” e as bandas musicais e baterias percussivas. O resultado de todo este processo, observado de forma similar em todos os estádios da Copa, não é apenas o afastamento das classes populares dos locais das partidas, mas também a violenta asfixia de uma das mais ricas e autênticas manifestações da cultura popular brasileira. (p.12). O processo de remoção de determinadas comunidades para as instalações Olímpicas encontra-se, atualmente, na essência do fenômeno. Além do propósito de “higienização social” indica o uso futuro de terras de alto valor imobiliário ou onde o Estado pretende repassar a mais-valia decorrente de seus investimentos à iniciativa privada. Essa estratégia implica ainda a periferização das comunidades expulsas para longe de suas redes de inserção econômica, social e cultural, via de regra em locais carentes de serviços públicos, o que causa total transtorno ou impossibilidade de assimilação, por exemplo, nos postos de saúde e escolas. (ARTICULAÇÃO NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012). De acordo com este Dossiê: Os ex-moradores relatam que seus filhos não estão mais indo à escola, pois são superlotadas nas novas localidades. Ainda, muitos reclamam ter perdido seus empregos como consequência da própria remoção e necessidade de deslocamento para outra comunidade longe do local de trabalho anterior . (p. 31) Verificamos, assim, esse processo de deslocamento de famílias para outras favelas17 sem muita estrutura, provoca a superlotação dos serviços básicos, que já nem são adequados, como saneamento, saúde e educação. No que se refere à educação, observa-se que esse processo pode gerar ausência de vagas ou queda da qualidade de ensino provocada pela ampliação do número de alunos por sala de aula. A experiência dos Jogos Pan Americanos de 2007, nos aponta para o interesse empresarial volátil/temporário quanto aos investimentos: grandes projetos arquitetônicos, como estádios e vilas olímpicas. Hoje, as principais obras do “legado” do Pan encontram-se sucateadas, abandonadas ou em progressiva decadência. É o caso 17 Ressaltamos que optamos pelo uso da palavra “favela” ao invés de “comunidade”, por acharmos que a primeira opção, ainda que carregue consigo certa carga pejorativa, é mais repleta de significado. Enquanto a segunda opção é mais genérica, podendo ser usada para descrever outras formas de organização comunitária que não tenham os elementos comuns a uma favela. da Vila do Pan, que hoje se encontra parcialmente habitada, e seus moradores encontram sérias dificuldades para manter a infraestrutura do local, projetado para ser um condomínio de alto luxo, o que demanda altos gastos com manutenção. Outro exemplo é o Estádio Olímpico João Havelange (Engenhão), inaugurado em 2007, atualmente encontra-se interditado por conta de risco de desabamento. Em se tratando do modelo de sociedade que vivemos (sociedade capitalista), é relevante destacarmos a desigualdade em que se fundam as relações de produção, de modo a hierarquizar toda sociedade segundo a identificação por um lado de capitalistas, empresários e por outro lado, trabalhadores, operários, desempregados, subempregados. Contudo, constata-se que a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro vem manter a ordem social, beneficiando apenas os grandes empresários e o poder público. Em contrapartida, a prefeitura do Rio de Janeiro tem investido em projetos que propõem “aproveitar o poder transformador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 para promover conquistas sociais, benefícios duradouros e melhorias nas condições de vida da população.” (http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html). Vale ressaltar, como veremos no terceiro capítulo deste estudo, que nos portais eletrônicos do governo municipal, criados com o objetivo de dar transparência ao uso dos recursos públicos na Copa do Mundo e nas Olimpíadas, as informações são insuficientes e superficiais, e às vezes desatualizadas e contraditórias, dificultando o monitoramento social e a análise aprofundada em torno dos gastos públicos. Verificamos que as justificativas desses projetos sociais, que oferecem práticas esportivas às crianças e jovens de favelas e bairros pobres, recaem sobre o que se pode chamar de “ideologia salvacionista”. Verificamos também, que mesmo que esses projetos apresentem, em sua proposta, um discurso social, valem-se do imaginário social do esporte de alto rendimento. Pode-se depreender, a partir daí, uma relação entre o espírito competitivo exacerbado em eventos desportivos de larga escala, como as Olimpíadas e a Copa, e os paradigmas neoliberais da competitividade individual e da prioridade dos resultados (fins) sobre a própria prática desportiva (aqui compreendida como os meios). Ghiraldelli (2004) descreve o período em que a tendência competitivista da Educação Física teve seu auge. Foi durante o governo militar, que investiu na Educação Física principalmente com o objetivo de formar um exército composto por jovens sadios e fortes. Para isso, a escola seria o "celeiro de novos talentos". A maior meta desse modelo era projetar cada vez mais a imagem do país através do desempenho dos seus atletas. Por isso, as aulas de Educação Física da época começaram a contemplar o aluno mais habilidoso em detrimento dos demais, cultuando o atleta como aquele que supera todas as dificuldades e chega ao sucesso, ou seja, subir no pódio. Além de já ter passado algumas décadas do auge desse modelo competitivista, sabemos que ele continua presente, se não no Projeto Político Pedagógico, nas aulas de Educação Física. Isso faz com que os muitos alunos sintam-se desestimulados, sempre com medo de errar, frustrados, por nunca ser escolhido quando se tira o time, pela bola nunca passar pelo seu pé ou pela sua mão, por saber que existe outro melhor e o melhor não joga com o pior. E os mais habilidosos, se prendam apenas aquele momento do só ganhar, sem aprender, sem trocar as experiências, sem viver o outro lado. Vale ressaltar que uma sociedade que supervaloriza a vitória pode provocar distorções no processo de desenvolvimento social, cultural e educacional (MEDINA, 1989). Marinho (1983) complementa essa observação quando nos diz que quando a Educação Física é encarada essencialmente sob seu aspecto biológico, o professor de Educação Física fica reduzido a um simplesmente a “um educador do físico”. Segundo o autor: “o mecanismo não atende à sagrada individualidade das pessoas, coisificandoas.” (p. 90) E de certa forma é assim que a sociedade tem encarado a própria sociedade, como produtos, por isso, valoriza-se que cada vez mais cedo, a criança se comporte como adulto, perca sua liberdade, sua individualidade e entre num mundo competitivo, valorizam-se mais os resultados do que o aprendizado. Nesse sentido, Melo (2005) nos lembra das ações do Governo Vargas, no período do Estado Novo, em que predominou a política esportiva voltada para o discurso nacionalista em relação ao esporte. Assim, “as políticas esportivas deveriam ter caráter moral e cívico através ‘potencial educativo’ do esporte” (p. 73). Portanto por meio dessa ideologia educativa e salvacionista remetida ao esporte, conforme Arantes apud Melo (2005): Tudo vira luta por cidadania, incorporação de direitos, fortalecimento da sociedade civil, espaços de interação, compromisso e participação cidadã. Pautados em termos que remetem a sentidos vagos e imprecisos que podem servir aos mais diversos projetos de sociedade. Isso pode confundir e educar para um perigoso consenso incapaz de compreender os diferentes projetos de sociedade, expressos sob uma aparente homogeneidade terminológica, apontando para um projeto de sociedade neoliberal (p. 56). De modo a explicitar a estrutura social em que o modo de produção capitalista é forjado, conforme Paiva (1998) temos os seguintes elementos: ideologia, alienação, classe social e hegemonia. Assim, através do aparato ideológico e repressivo, a classe dominante assegura sua permanência no poder. Para que isso ocorra, a ideologia tornase fundamental para promover a aceitação natural das desigualdades sociais produzidas pelo capital. Dessa maneira, a ação conjunta da ideologia e da alienação decorrentes do trabalho exteriorizado é que produz o culto do indivíduo, em detrimento da coletividade. De acordo com Medina (1989): A tendência natural de qualquer sociedade – desenvolvida ou não – para equilibrar seu funcionamento é a de padronizar seus valores, cobrando de acordo com a estrutura e natureza de suas Instituições o cumprimento de certas regras por parte das pessoas que compõem esta mesma sociedade (p. 20). 2.5 – Megaeventos esportivos e Ideologia O termo ideologia, entendido como averbação de pressões deformadoras atuando sobre o processo de elaboração do conhecimento, é um tema muito antigo. Foi com Napoleão que este termo, inicialmente surgido com acepção positiva, ganhou sentido negativo. O filosofo socialista Fourier, a quem Marx pôde ter seu ponto de partida para sua teoria crítica das ideologias, identificava nos livros uma atuação ideológica que deformava a sensibilidade dos leitores, por meio de discursos moralistas pretensiosamente racional e científico, que caluniava as paixões e dificultava a compreensão dos homens por eles mesmos (KONDER, 2002). O pensador socialista, Karl Marx, se dedicou a estudar as construções culturais que ele sabia serem ideológicas, como a filosofia de Hegel, as teorias econômicas de Adam Smith e de David Ricardo ou os romances de Blazac. Nas obras desses ideólogos, cujas perspectivas encontravam-se sob os horizontes da burguesia, Marx encontrava elementos de conhecimento, que o ajudavam a refletir criticamente sobre a sociedade de seu tempo. Nas suas abordagens das construções culturais preocupava-se em incorporar ao movimento do pensamento crítico, revolucionário, quaisquer elementos, mesmo e/ou inclusive os elementos provenientes das obras de autores de inspiração conservadora, que proporcionassem conhecimentos mais produtivos do que as futilidades eventualmente encontráveis nos escritos de autores mais progressistas. É relevante ratificar que para Marx a distorção ideológica não se reduz a uma racionalização cínica dos interesses de uma determinada classe ou de um determinado grupo. Muitas vezes a ideologia falseia as proporções na visão do conjunto ou deforma o sentido geral do movimento de uma totalidade, no entanto, respeita a riqueza dos fenômenos que aparecem nos pormenores. Também é importante lembrar que o que Marx fez com seu conceito de ideologia foi alertar a seus contemporâneos e das várias gerações que surgiram depois, que a questão da ideologia não comporta uma conclusão (KONDER, 2002). Fundamentado em Marx, Mannheim apud Konder (2002) aponta que as ideologias são sempre conservadoras. Destarte, as ideologias expressam o interesse das classes dominantes na estabilização da ordem. Assim, segundo Mannheim apud Konder (2002): Está implícita na palavra ideologia a noção de que, em certas situações, o inconsciente coletivo de certos grupos obscurece a condição real da sociedade, tanto para si como para os demais, estabilizando-a, portanto (p.70). Não pretendemos em um subcapítulo, esgotar todas as implicações do conceito de ideologia em Marx. Mas conhecer o conceito de ideologia em Marx e entender que a concepção de ideologia da realidade favorece a manutenção da hegemonia, é importante no avanço deste trabalho, e também para a compreensão das maneiras contraditórias pelas quais a organização desses eventos repercute no dia a dia da população do Rio de Janeiro. Portanto, a ideologia, ao mesmo tempo que revela alguns fatos, esconde outros. Como nos reporta Kosik (1995), “mundo da pseudoconcreticidade tem como seu elemento próprio um duplo sentido. O fenômeno indica a essência e, ao mesmo tempo, a esconde” (p.15). Vale considerar que a concepção de ideologia nos traz elementos para a análise da questão fundamental deste estudo. Como dito no início deste estudo, uma visão histórica da educação mostra como estivemos sempre preocupados em formar determinado tipo de ser humano. Os tipos de formação variam de acordo com as diferentes exigências de época. Não diferente de hoje, a educação, seja nos espaços escolares ou fora deles, sempre esteve dedicada às “necessidades da sociedade”. Porém, falar em necessidades da sociedade é muito amplo, já que a sociedade é divida em classes e dentre outros fatores, em valores econômicos e de princípios. Sendo assim, as necessidades das classes sociais, se diferenciam: Enquanto os interesses da classe trabalhadora correspondem à necessidade de sobrevivência, à luta do cotidiano pelo direito ao emprego, ao salário, à educação, à habitação, à alimentação, à saúde, ao transporte, às condições dignas de existência; Os interesses da classe proprietária correspondem às necessidades de acumular riquezas, gerar mais renda, ampliar o patrimônio etc. para continuar com esse status (SOARES, et al, 1992). Como nos reporta Marx e Engels (2007), na medida em que o capital cresce também se desenvolve o proletariado, a classe de operários modernos, os quais só vivem enquanto encontram emprego e só encontram emprego enquanto seu trabalho aumenta o capital. Esses operários se vêem obrigados a vender sua força de trabalho dia por dia, tornando-se uma mercadoria, um artigo de comércio como qualquer outro, e, por conseguinte, estão expostos a todas as mudanças da concorrência, a todas as flutuações do mercado. Ao analisar o processo de trabalho no período de implementação do maquinário, no século XVIII, Marx e Engels (2002) verificam que o advento da maquinaria teve o sentido de intensificar o trabalho dos operários. Assim, o avanço das forças produtivas, no caso da maquinaria, aprisionou o homem às suas condições de trabalho, implicando aos mesmos a vender sua força de trabalho para suprir somente as suas necessidades imediatas. Nossa pesquisa nos faz pensar que “na medida em que as minorias, submetendo as maiorias a seu domínio, as oprimem, dividi-las e mantê-las divididas são condição indispensável à continuidade de seu poder” (FREIRE, 2006, p. 160). Verifica-se que o modo de produção capitalista tende a expropriar o trabalhador das diversas dimensões. E apesar da dimensão cognitiva ainda pertencer a ele, existe todo um aparato ideológico que é construído a partir da superestrutura do capital. Dessa forma, na esfera do ócio, podemos encontrar alguns pressupostos que justificam a visão utilitarista da realização dos Megaeventos esportivos. Uma das importâncias do materialismo histórico reside na concepção segundo a qual o ser humano se define não pelo seu pensamento, mas pela produção de sua existência. Por “existência”, estamos nos remetendo à perspectiva marxista (da qual anos depois se apropriaram os filósofos existencialistas) que remete “existir” à “produzir”. O ser humano, ao contrário dos demais seres vivos, destaca-se por definir a sua vida enquanto processo constante de produção: produção de valores, ideias, ordens sociais. Como nos reporta SAVIANI (1982), o tempo todo somos sujeitos ou testemunhas das experiências de atribuição de valores. Uma vez que a experiência axiológica é uma experiência tipicamente humana, é a partir do conhecimento da realidade humana que podemos entender a questão dos valores. Assim, o que é “bom”, “justo”, “importante”, não são conceitos absolutos aos quais toda sociedade deveria direcionar suas ações políticas ou individuais, mas são produções da própria sociedade – ou, no contexto específico da sociedade capitalista, produções de uma classe dominante com vistas à manutenção da ordem vigente. As exigências e pressões do mundo do trabalho refletem a vida social, cultural, educacional e política (e vice versa). Na sociedade da mundialização do capital elas se apresentam como esferas autônomas (no sentido de que não são determinadas/determinantes umas sobre as outras), revelam-se fragmentadas, ignorando o caráter humano e político destas relações, servindo ao capital. Contudo, a temática das Olimpíadas e na Copa do Mundo de Futebol, por sua vez, não repousa somente na relação entre o esporte e os eventos, mas, sobretudo no aspecto econômico permanece neste último e na forma como tais condições econômicas e sociais acabam por fundamentar os pressupostos pedagógicos políticos das Olimpíadas (metodologia, projeto político-pedagógico, geração de trabalho e renda mediada por processos educativos). É devido a essa ideologia fomentada pelos nossos governantes e "seus parceiros privados", que muitas vezes o professor de Educação Física, não consegue (ou tem um trabalho muito maior) desenvolver um trabalho que venha realmente colaborar na formação do aluno, no desenvolvimento dos aspectos cognitivo, motor e afetivo e junto à equipe pedagógica, conscientizar da nossa realidade e o que podemos fazer para mudá-la para mais justa. Como já mencionado, os interesses para a supervalorização dos esportes aqui no Brasil, são político e econômicos. Nesse sentido, os projetos sociais podem tornar-se um veículo para reforçar a falsa ideia de que o esporte por si só é capaz de erradicar a desigualdade social. Essa ideia vem sendo difundida pelas políticas publicas e pelos principais meios de comunicação. Como ocorreu na série de reportagens da Rede Globo sobre as Olimpíadas escolares no ano de 2012, na qual o discurso do jornalista deixou a ideia de que o esporte por si só é capaz de promover o cidadão, sem levar em conta outras questões necessárias para a formação do indivíduo, como veremos a seguir: Em mais de 40.000 escolas do país inteiro 3000.000 crianças e adolescentes estão envolvidos este ano com as Olimpíadas Escolares. Na última década o crescimento desse time de brasileiros ajudou a abrir caminhos, a mudar vidas e a formar campeões e cidadãos.18 18 Ver em: http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-nacional/v/olimpiadas-escolares-crescem-eestudantes-comemoram-sucesso-no-esporte/1947325/ É pressuposto que por trás desses discursos há uma ideologia de salvação pelo esporte. Ideologia essa que escamoteia o esporte como direito social público e fomenta a ideia do esporte por si mesmo como o único responsável pela prevenção dos males sociais. Nesse contexto, Santos Júnior, Gaffney & Rodrigues, et al (2012), nos lembram que no final de 2011 a prefeitura do Rio de Janeiro criou um fórum consultivo denominado Conselho da Cidade, alegando que sua criação estava relacionada à Revisão do Plano Estratégico do Rio de Janeiro e que seus objetivos não se restringiam aos aspectos relacionados à preparação da cidade para os Megaeventos. No entanto, esta iniciativa do poder público municipal está de acordo com a criação de conselhos consultivos que apresentando atuação limitada e a existência meramente formal no que se refere à participação popular. Este conselho consultivo é formado por cerca de 150 celebridades, como atrizes, apresentadores de programas televisivos, empresários e donos de populares clubes de futebol, dentre vários outros, o que demonstra uma preocupação em legitimar decisões já tomadas perante a sociedade. Consideramos que este é um bom momento para nos lembrarmos de Thompson (2001), que junto aos historiadores da tradição marxista influenciados pelo conceito gramsciano de hegemonia também tem investigado as formas de dominação e controle de classe dominante. Segundo Thompson: As pessoas vêm ao mundo cujas forma e relação parecem tão fixas e imutáveis quanto o céu que nos protege. O “senso comum” de uma época se faz saturado com uma ensurdecedora propaganda do staus quo, mas o elemento mais forte dessa propaganda é simplesmente o fato da existência do existente (2001, p. 239). Também Thompson (2001) afirma que a transformação histórica acontece não por uma dada “base” ter concebido a uma “superestrutura” correspondente, mas pelo fato de “as alterações nas relações produtivas serem vivenciadas na vida social e cultural, de repercutirem nas ideias e valores humanos e de serem questionadas nas ações, escolhas e crenças humanas.” (p.263). Assim, é interessante pensar quais são os interesses e os princípios que norteiam o fenômeno Olimpíadas. Tendo em vista a questão da ideologia relacionada a utilização da marca Megaeventos esportivos como um dos meios de produtividade do capital abordado neste capítulo, analisaremos, a seguir, nossas observações sobre as ações dos empresários e a parceria público-privada nesse processo que antecede oficialmente a realização dos Megaeventos na cidade do Rio de Janeiro. Capítulo III 3 - PARCERIA PÚBLICO-PRIVADA PARA A REALIZAÇÃO DOS MEGAEVENTOS ESPORTIVOS: É POSSÍVEL VIRAR O JOGO DO MERCADO? Pratica-se a noção de responsabilidade social das empresas articulando-se com ONG’s na implementação de ações que podem sem problemas cumprir funções do Estado. (MELO, 2005, p. 90). A descrição acima, escrita por Marcelo Melo quando analisava as relações do terceiro setor19 com as políticas esportivas, se encaixa perfeitamente neste capítulo do nosso trabalho. Pois é dessa forma que vêm caminhando as relações público-privadas, bem como se articula esse processo de reordenamento da cidade para atender as demandas/exigências do Comitê Olímpico Internacional, nesse período que antecede a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro. Assim, se no primeiro capítulo analisamos brevemente a crise econômica e a influência econômicosocial do esporte, neste capítulo, apresentaremos como essas questões se materializam nas camadas mais pobres da sociedade, evidenciando que o sistema público utiliza os projetos sociais, dando entender a essas camadas, de estarem dando-lhes assistência. 3.1 – Trabalho e Educação - estratégias no campo educacional como forma de gerenciamento do capital Na perspectiva de saída da crise, do modo de acumulação flexível, o sistema público por meio de seus sucessivos governos vem adotando, nas últimas décadas os postulados do neoliberalismo. E este modelo provoca e difunde a ideia de custos sociais e humanos, principalmente da classe trabalhadora, que aprende a aceitar a condição mínima de satisfação das suas necessidades básicas. A situação se agrava com a atual crise econômica, internacional, na qual para socorrer os empresários e banqueiros, a atual gestão do governo Federal corta verbas das áreas sociais. 19 Sobre o Terceiro Setor, ver Carlos Monaño: Terceiro Setor e Questão Social. SILVEIRA (2010) identifica que esse processo de “redefinição do Estado” trás consequências não só nas áreas econômica e política, mas também em toda dimensão social do país. A referida autora nos reporta que: Em tal contexto, é preciso ter clareza não apenas sobre as implicações políticas neoliberais para os países da América Latina, em geral, e do Brasil, em particular, que induzem o Estado, de maneira direta e indireta, a garantir a continuidade do modo de reprodução do metabolismo social do capital, como também, sobre a posição que ocupam dentro da nova ordem mundial (p. 65). É pressuposto que a contínua e gradativa adoção de políticas neoliberais na gestão de serviços públicos tende a minimizar a participação popular dos processos decisórios, no contexto do Rio de Janeiro contemporâneo, especialmente no que tange as intervenções urbanas para os Megaeventos. Conforme Melo (2005), a implementação de ações sociais, por meio do que chamam de “parceiros”, sejam eles públicos ou privados, podendo ser ampliado para a participação da sociedade/voluntariado, está em consonância com as diretrizes e concepções acerca das políticas públicas no projeto neoliberal. Se situarmos, brevemente, o quadro econômico mundial contemporâneo e seus reflexos no Brasil, e considerarmos que as implicações da crise do sistema econômico internacional têm seus impactos sobre as nações como o Brasil e a América Latina em diversas dimensões, veremos que esse processo trás inúmeras consequências no âmbito da formação humana e das políticas públicas que envolvem as demandas da sociedade. Observamos que no atual modelo de produção capitalista, no contexto de aplicação de políticas neoliberais, o capital influencia/age sobre o campo educacional, no processo de formação humana e no estímulo ao terceiro setor. Assim, através da análise sobre o quadro econômico brasileiro, poderemos exemplificar como o capital trabalha e reorganiza os Megaeventos esportivos em questão. Associando a nossa realidade à avaliação de Apple apud Moreira e Silva (1995) sobre a conjuntura econômica dos Estados Unidos, identificamos a mobilização do governo em desqualificar a rede pública e seus servidores. Essa é uma maneira de exportar a crise da economia para as escolas, ou seja, transferindo para a escola e outros órgãos públicos, a culpa pelo desemprego e subemprego, pela perda da competitividade econômica e pela suposta ruptura de valores e padrões tradicionais da família, da educação e do trabalho. Dessa maneira, o público torna-se o centro de tudo o que é ruim e o setor privado, ganha mais valor, o que acaba por provocar, não inocentemente, um estímulo a terceirização das Instituições. Os problemas que afetam nosso modelo de escola (repetência, evasão, reprodução, retenção nas séries iniciais, distorção série-idade, etc) não estão isolados do modelo de sociedade que temos. Consideramos que a incompatibilidade entre tempo de infância e tempo de escola (ARROYO, 1987) é mais uma dicotomia produzida pelo modo de produção que separa trabalho intelectual de trabalho manual, produção e cultura, campo e cidade, corpo e mente. A divisão entre mundo do trabalho e mundo da cultura no mundo capitalista é reproduzida no interior da escola e na grande mídia, em que a formação/posição positivista é hegemônica. Malina e Azevedo (2011) destacam as medidas do novo liberalismo, visando aumentar o lucro, sem risco de colapso: Para alcançar competitividade é necessário haver cortes significativos nos direitos sociais, e diminuição da mão-de-obra formalmente empregada. Com isso, pretende-se que aumentem as margens de lucro das grandes empresas e, em paralelo, estanquem a ideia de pleno emprego, geradoras de grandes custos para essas empresas e para os governos (p. 7). Esse tipo de manobra do governo é mais sério do que parece, pois além de marcar o descompromisso com a educação do cidadão, que é um direito garantido pelas leis que regem o país como, a Constituição Federal de 1988, o Estatuto da Criança e adolescente de 1990 (Lei nº 8069/90) e a Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996, sucateia-a e transfere para a sociedade essa tarefa de educar. Sociedade que vem cada vez mais sendo alienada com auxílio da mídia e pelo sucateamento da cultura, também manipulado pelo governo. Vale lembrar que nós da sociedade somos o resultado do meio em que vivemos, somado a educação que recebemos, e a escola tem um poder determinante nessa formação. Conforme Apple (in MOREIRA, A. F.; SILVA, T. da, 1995) a aliança em favor da restauração neoliberal insere a educação num conjunto mais amplo de compromissos ideológicos, onde os objetivos para a educação são os mesmos que orientam suas metas para a economia e bem estar social, entre eles, a redução da responsabilidade governamental em relação às necessidades sociais. Dessa maneira, observamos que a ideologia neoliberal vêm fomentando uma regressão explicitada pelo desmonte do público e a metamorfose da educação de direito em serviço que se mercantiliza, acompanhando e reforçando as novas formas do sistema capital. O modelo de “acumulação flexível” tem trazido para a classe trabalhadora um processo de terceirização de seus serviços, através de um processo de subcontratação que não garante a esta classe, seus direitos trabalhistas conquistados com muita luta. Vale observar que esse também tem sido o processo de geração de emprego em prol da preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos, como nos mostra o Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas (2012): Se é verdade que os Megaeventos poderiam oferecer uma oportunidade para a inclusão social dos trabalhadores, para a geração de empregos e a ampliação de direitos, não tem sido essa a realidade brasileira. Sejam operários empregados e sub-empregados nas grandes obras, como estádios e rodovias, sejam trabalhadores informais reprimidos no exercício de sua atividade econômica, observa-se um padrão de crescente precarização, conduzido por empresas e consórcios contratantes – sob a omissão dos órgãos fiscalizadores – pelo próprio Estado (p. 32). Bracht (1997), ao analisar a socialização pelo esporte como uma forma de controle e adaptação social, reproduzindo e reforçando a ideologia capitalista como algo natural, afirma que: Com visão de sociedade positiva respaldada na teoria Estrutural-funcionalista da sociedade, a partir da qual os elementos isolados do sistema social como a Educação, o Esporte, etc., podem ser descritos como funções do sistema. Eles são importantes desde que tenham importância funcional para o sistema, mantendo, portanto, sua estabilidade como unidade de funcionamento (p.60). No Brasil, nas últimas duas décadas esse mesmo processo tem sido notável. Como destaca Melo (2005) se referindo ao período de “afloramento” do neoliberalismo: “como forma de enfrentar possíveis resistências, era preciso ‘demonizar’ o Estado, suas empresas e seus funcionários”. Mais a frente ele especifica que: Essa tarefa foi impulsionada com a adesão de setores majoritários da mídia, políticos e intelectuais. Em contrapartida, era apresentada a eficácia gerencial do mercado, e que por isso deveria gerenciar as empresas estatais privatizadas. Isso também estende a uma alegada maior capacidade e eficiência dos organismos na/da sociedade civil, que passariam a assumir a implementação de políticas sociais, já que a burocracia estatal era ineficaz, cara e lenta. Nota-se um crescente chamamento à participação de organismos na sociedade civil por parte dos governantes e setores da mídia. Começa-se a difundir a expressão terceiro setor para expressar que tais organismos, que deveriam ser voltados para o interesse público. (p. 23). De acordo com esse autor, diante desse projeto dominante de sociedade, as relações travadas entre os diversos organismos na sociedade civil e ao que chamou de aparelhagem estatal são representativas dessa natureza de atuação estatal, sobretudo no que se refere à promoção e execução de políticas sociais. Segundo Melo (2005): Isso se expressa na delegação da execução dessas políticas a organismos na sociedade civil, que passam a ser conhecidos como componentes do chamado terceiro setor. Nesse bojo, o esporte e o lazer ganham papel de destaque, assim como há um crescimento dos chamados projetos sociais, nos quais crianças e jovens pobres passam a ter acesso à prática esportiva e de lazer. Torna-se característica comum que muitas ações governamentais sejam executadas por ONG’s ou outras associações comunitárias, estabelecendo um novo tipo de relação destas com a aparelhagem estatal. (p. 1). No âmbito organizacional e institucional, a Educação Básica, de direito social de todos, passa a ser cada vez mais compreendida como um serviço a ser prestado e adquirido no mercado ou como filantropia, como se explicita por meio de campanhas apelativas, sequenciais (FRIGOTTO, 2005) e apoiadas pela mídia. Podemos ilustrar essa afirmação dando o exemplo do programa “Amigos da Escola” 20 , que vem com a proposta de “voluntários suprir as carências da formação do aluno”, quando o governo deveria investir na escola e no professor para que não houvesse carências realmente existentes. Observamos a contradição deste processo, citando Melo (2005): No contexto de redução das possibilidades de acesso/permanência a muitos direitos sociais, surge um número que se denominou “projetos sociais” esportivos e/ou culturais, sobretudo em bairros populares e/ou favelas. O discurso dominante é que, nesses projetos, principalmente os jovens e as crianças pobres teriam acesso às práticas esportivas e/ou culturais, tendo também suas possibilidades educativas ampliadas (p. 2). Observamos o sucateamento das escolas tanto na sua estrutura física quanto na pedagógica. Também observamos, mais uma vez, a Educação Física sendo direcionada à posição de disciplina estruturante dos interesses que embalam os discursos e as práticas dominantes. Estamos atentos as propagandas da chegada dos Megaeventos esportivos na cidade com ideias de benefícios para a sociedade, ao mesmo tempo em que a classe trabalhadora é diariamente exposta a todo tipo de violência e exposta a medidas do que podemos chamar de higienização urbana. Tommasi, Warde e Haddad (2000) analisam as políticas educacionais e a influência do Banco Mundial na Educação dos países ditos em desenvolvimento no contexto da economia mundial, que tem por objetivo regular o equilíbrio do mercado financeiro, sem a real preocupação com a erradicação da pobreza (mesmo que esse seja um dos principais discursos e uma das principais formas de manipular o mercado). De acordo com os autores supracitados, segundo o Banco Mundial, sua estratégia segue dois componentes: Estimular o trabalho e a educação, por intermédio do processo de cooperação internacional, na forma de incentivos financeiros à educação e de coalizões entre o Banco Mundial e as diversas regiões do Brasil, estão sendo 20 Amigos da Escola é um projeto criado pela Rede Globo (TV Globo e emissoras afiliadas) e estimula o envolvimento e a participação de voluntários e entidades no desenvolvimento de ações educacionais e de “cidadania”, em “benefício” dos alunos, da própria escola, de seus profissionais e da comunidade. realizados projetos para expansão da oferta de ensino, inclusive no setor privado. Tendo como pano de fundo a manutenção de uma política de cunho neoliberal para a diminuição de custos e a criação de oportunidades de acesso ao sistema educacional público. Verificamos que no interior dessas ações se configura também um projeto educativo que busca promover/ratificar – principalmente para aqueles que encontram-se privados/excluídos da execução/promoção do acesso aos direitos sociais – valores e saberes de acordo com o projeto neoliberal (MELO, 2005). Portanto, através de parcerias público-privadas, as grandes empresas e os governos (Municipal, Federal e Estadual) investem e/ou patrocinam projetos sociais, que vão desde formação de escolinhas esportivas até a qualificação dos trabalhadores para a geração de trabalho e renda. Conforme as análises de Barreto e Leher (2008) e Tommasi, Warde e Haddad (2000), é interessante observar as propostas do Banco Mundial, analisar seus documentos, e compreender o que realmente está por trás dos discursos e menções a colaboração aos países ditos em desenvolvimento. Como já observamos não há interesse, por parte do sistema dominante, em formar o cidadão emancipado e consciente. Esse é um dos principais motivos pelos quais as transformações da educação brasileira têm se intensificado constantemente desde a década de 1960, quando começou a ser influenciada pelas políticas internacionais. As políticas educacionais que se apresentam aos países ditos “em desenvolvimento” se encontram atreladas à agência de crédito do Banco Mundial (BIRD)21, o qual vem interferindo diretamente na educação brasileira por intermédio do processo de cooperação internacional, na forma de incentivos financeiros à educação e de coalizões entre o Banco Mundial e as diversas regiões do Brasil (TROTTE, apud SANTORO, TROTTE, FALCÃO, 2006). Nesse sentido, Pinto (2002) afirma que: A orientação educacional brasileira, principalmente a escolar, reafirmou seu compromisso com os princípios liberais no sentido da qualificação dos recursos humanos para o capital. É onde entram em cena as agências internacionais de cooperação, quando a escola é comparada à empresa e a educação se torna mercadoria. Assim o trabalho passa a ser visto como uma mercadoria especial que também poderá ser vista como capital. (p. 14). Ou seja, a educação é dada com uma proposta única de formar o cidadão “(con) formado”, adaptado, produtivo, preparado para o mercado visando atendimento às 21 O Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial foram criados após a Segunda Guerra Mundial para “dinamizar” a economia capitalista. (MELO, 2005). Ver mais em Silveira (2011). necessidades da classe proprietária, sem o compromisso com a formação consciente do cidadão. Vale lembrar que “domesticar” o cidadão é muito interessante do ponto de vista da lógica capitalista. Adam Smith, considerado o fundador da Economia Liberal Clássica, segundo Marinho (2005), considerava que a classe trabalhadora não devia receber a mesma educação que recebia as classes mais privilegiadas da sociedade. Para ele, a educação para a chamada “gente comum” era importante apenas para que se tornassem ordeiros e obedientes aos seus superiores hierárquicos. Além disso, defendia que os trabalhadores não tinham muito tempo para desperdiçar à educação, pois desde cedo precisariam encontrar ocupação profissional. Portanto, a ciência é usada em todas as áreas da sociedade, na questão do trabalho, por exemplo, a ciência é usada para aumentar a produtividade. A exemplo disso podemos citar o desenvolvimento da maquina aumentou consideravelmente a produção e diminuiu a importância do trabalhador, barateando a força de trabalho do mesmo aumentando a mais valia. Sobre as políticas públicas utilizarem a educação escolar visando o trabalho como princípio educativo e não para transformar a sociedade mais justa, Saviani (2003) nos lembra que a ciência diz respeito a uma parcela pequena da sociedade. De acordo com suas palavras: No ensino fundamental, o trabalho aparece de forma implícita. Nesse nível, o trabalho orienta e determina o caráter do currículo escolar em função da incorporação dessas exigências na vida da sociedade. Para ele: A escola elementar não precisa, então, fazer referência direta ao processo de trabalho, porque ela se constitui basicamente como um mecanismo, um instrumento, por meio do qual os integrantes da sociedade se aproximam daqueles elementos também instrumentais para a sua inserção efetiva na própria sociedade. Ou seja, aprender a ler, escrever e contar, além dos rudimentos das ciências naturais e das ciências sociais, constituem prérequisitos para compreender o mundo em que se vive, inclusive para entender a própria incorporação, pelo trabalho, dos conhecimentos científicos no âmbito d’ ávida e da sociedade (Saviani, 2003, p. 136). Outro exemplo de campanhas visando a “domesticação” do cidadão, campanhas apelativas, sequenciais e apoiadas pela mídia, são os projetos sociais para as crianças e adolescentes. Diante do cenário de precarização dos direitos básicos do “cidadão”, os projetos também aparecem como maneira de suprir as lacunas de responsabilidade do Governo. Esses projetos são de custo mais barato aos cofres públicos, já que além das parcerias da iniciativa privada, o sistema de contratação dos profissionais não tem vínculo empregatício e muitas vezes, nem a exigência de uma formação específica é para atuar nesse trabalho, é exigida. Lembremos que a prática educacional calcada na mercadoria ou na filantropia é uma forma de se produzir o consenso. Ocultando as contradições da sociedade e criando no indivíduo a consciência de adaptação, acomodação e imobilidade social, “educando” as massas trabalhadoras para o exercício da tolerância, suportando as políticas privilegiáveis, a exploração do homem pelo homem, a aceitação das desigualdades sociais, considerando-as justas e necessárias para a alocação e manutenção dos papéis sociais. Contudo, verificamos que o Estado mínimo neoliberal vem mostrando-se pequeno quando se trata de gerir recursos públicos para educação. Ao mesmo tempo, mostra-se grande/máximo, forte e centralizado quando diz respeito a condução de suas políticas para a realização dos Megaeventos esportivos. Portanto, diante da questão da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e Olimpíadas 2016, acreditamos que é necessário debruçarmos sobre esse assunto difundido pelas políticas sociais, educacionais e esportivas, tanto como elemento reprodutor dos ideais do sistema capitalista e/ou como elemento para uma reflexão visando à práxis revolucionária no contexto da relação trabalho/educação. 3.2- O Rio de Janeiro Olímpico – esporte e/ou prática esportiva “formando campeões” Com a escolha do Rio de Janeiro para sediar os Megaeventos esportivos cria-se na sociedade duas ilusões: a primeira, de que a promoção de tais eventos é capaz de tornar o Brasil uma potência olímpica, sendo essa, uma estratégia mercadológica e midiática para “vender” o Rio de Janeiro como cidade Olímpica; a segunda, que mesmo que tal projeto se realizasse, ele corresponderia a um desenvolvimento de iguais proporções no âmbito da estrutura social. No nosso contexto, marcado pela divisão social, nem todas as pessoas tem condições econômicas para adotar um estilo de vida saudável, ter momentos de lazer. Há desigualdades estruturais, com raízes políticas, econômicas e sociais que dificultam a adoção desses estilos de vida. Nesse contexto, é importante refletir sobre algumas questões: O que é mais importante para o Brasil? Ser uma potência Olímpica ou o desenvolvimento social do país? Qual a importância dos Megaeventos esportivos para o povo brasileiro? Qual a dimensão educativa dos projetos sociais, em especial das escolinhas esportivas que surgiram nesse contexto de Megaeventos esportivos? Qual a influência da concepção de Esporte disseminada pelas políticas públicas educacionais, e em especial, na formação dos alunos matriculados nos projetos sociais esportivos? De acordo com Melo (2005) a utilização de termos do mundo de esporte de alto rendimento22 também se faz presente em instituições que teriam por princípio a promoção do esporte como atividade de lazer. Esses programas, geralmente, valem-se desse imaginário social que tem o esporte de alto rendimento, mesmo que sua proposta apresentada não seja a de formação de novos atletas. Todavia, de acordo com Malina (2009) apesar dos problemas de ordem socioeconômica, fruto da essência do modo de produção capitalista, “não podemos deixar de compreender a importância do esporte e da sua relação com o caráter humanista e prazeroso de sua prática.” (p. 26). Vale atentar que a supervalorização da competição, encarando-a como fim em si mesmo, reforça uma elitização social, caracterizando a competição e a superação individual como valores fundamentais e desejados pela sociedade moderna. Coloca a busca pelos melhores resultados nas competições a qualquer custo, tirando do esporte o que ele tem de melhor: as superações, as conquistas, a atividade física em si, a convivência, o aprender com o perder. Isso pode prejudicar o aluno e/ou o participante dos projetos sociais, pois tira dele a oportunidade de vivenciar as práticas coletivas e sociais e a descoberta, que colaboram na sua formação. Além de ser excluído por falta de habilidade motora (através de um discurso neoliberal que diz que “a criança tem que entender a realidade da sociedade”), ou por ser exaltado por suas habilidades, o que também vale como uma exclusão e também não contribui para a formação integral do aluno. Esse processo faz com que poucos professores, nesse caso os professores de educação física e os professores que atuam como professores de educação física, mas sem formação para tal, dêem prioridade à ensinar a pessoa, formando-a através de sua experiência, conscientização e participação. Dessa forma, o aluno e/ou o participante dos projetos sociais estará sempre em busca do vencer o outro. E o mais habilidoso será valorizado apenas pela sua performance e não em sua totalidade, ou seja, não são levados em conta todos os outros aspectos e benefícios da prática esportiva. Os menos 22 Esporte de resultado, praticado segundo regras formais, nacionais e internacionais. Tem como figura de destaque a presença do atleta ou do atleta em formação. Realizada preferencialmente em instituições de formação de atletas, clubes, associações específicas de treinamento habilidosos não se sentirão parte do grupo e os “regulares” dificilmente terão interesse nas atividades propostas. Na perspectiva do capital, a escola como instituição vem produzindo tipos de conhecimento, sem maiores comprometimentos com a omnilateralidade23 do ser humano e, portanto, sem maiores preocupações com os aspectos mais significativos do seu crescimento e desenvolvimento e, dessa forma, pouco contribuem para que os alunos se realizem como pessoas. Medina (1989) defende que: “os homens como um todo tem que se fazer sujeitos da história e não objetos. Devem fazer-se livres e não alienados” (p.31). Mesmo no caso do esporte de alto rendimento, o esporte profissional, onde os objetivos se voltam para o rendimento e o resultado, a vida do ser humano não deveria ficar comprometida. É preciso ter qualidade de vida e saber conviver, aprender com o perder e não viver apenas como ‘robôs’ em busca dos records. (MEDINA, 1989). Segundo alguns autores como Venâncio & Freire (2005), a competição está constantemente presente na vida do ser humano. Para estes autores, a competição é a situação na qual é realizada uma comparação do desempenho de uma pessoa ou de um grupo a partir de um padrão já existente. Por um lado, a competição pode ser algo positivo quando permite ao competidor superar limites externos ou mesmo internos a ele. Por outro, a apropriação do produto da cultura em função das Olimpíadas, permite à sociedade burguesa explorar a classe trabalhadora de diversas maneiras. Uma delas é a de responsabilizar o indivíduo pelo seu próprio sucesso ou fracasso, reforçando a teoria do capital humano ou a teoria da tábula rasa. A título de explicação: A teoria do capital humano, criticada por Frigotto (1989), estrutura-se a partir de uma leitura do sistema capitalista na qual não se apreende que a história é feita dentro de relações sociais conflituosas, determinadas pela apropriação desigual da riqueza. De acordo Marinho (2010) a Teoria da Tábula Rasa, do Filósofo John Locke, destaca que o homem ao nascer, é como uma folha de papel em branco e por isso, todos começam a vida no mesmo ponto, sem distinção de classe, gênero, nem raça. E assim, as diferenças vão surgindo a partir de seu esforço próprio. De acordo com Melo (2005): 23 O conceito de omnilateralidade é de grande importância para a reflexão em torno do problema da educação em Marx, embora não haja em Marx uma definição precisa do conceito de omnilateralidade. Esse termo refere-se a uma formação humana oposta à formação unilateral provocada pelo trabalho alienado, pela divisão social do trabalho, pela reificação, pelas relações burguesas estranhadas, enfim. A transformação do Brasil em potência esportiva requer um avanço significativo nas condições de vida da população, já que assim novos talentos, não apenas nos esportes, mas nas artes, ciências e afins, não se perderão na luta pela existência contra a miséria (p. 78). Por mais ilusórias que sejam estas aspirações referentes a realização dos Megaeventos esportivos, interferem na educação de modos diversos, compreendendo desde a redução de verbas para Educação em prol de obras de infraestrutura em instalações olímpicas até o desvio do foco da formação omnilateral do aluno (como já abordado, formação almejada por aqueles que adotam, em sua práxis pedagógica, o referencial materialista histórico) para a formação do atleta especializado, passando pelo desvio de obrigações do poder público que transfere a educação escolar para projetos que isentam sua responsabilidade com a sociedade. Vale mencionar que, de acordo com a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 217, item II: É dever do Estado fomentar práticas desportivas formais e não formais, como direito de cada um, observados: A destinação de recursos públicos para a promoção prioritária do desporto educacional e, em casos específicos, par o desporto de alto rendimento. (Capítulo III, Da Educação, da Cultura e do Desporto; Seção III, do Desporto). Os documentos relacionados à Educação Física, produzidos pelo Conselho Federal de Educação Física (CONFEF), com o apoio do Ministério do Esporte e Ministério da Educação defendem duas ideias diferentes, ambas em desencontro à formação omnilateral do aluno. A primeira ideia difundida é do esporte como fator de inclusão social e solucionador das questões culturais e educacionais e fomentador do crescimento econômico do país. De fato, o Esporte e a atividade física como um todo são importantes em qualquer etapa da vida. Contudo, o uso descontextualizado e metodológico das técnicas com o fim em si mesmas anula seu real significado para o desenvolvimento do ser humano, deixando escapar a visão clara da contribuição do Esporte na totalidade do fenômeno humano (MEDINA, 1989). A segunda ideia é a de tornar o Brasil uma potência Olímpica. Essa ideia, além de falaciosa, reforça uma elitização social, caracterizando a competição e a superação individual como valores fundamentais e desejados pela sociedade. Concordamos que os esportes, bem como outras atividades, possibilitam diversas formas de relações que contribuem para a construção de um projeto de melhoria das condições gerais de vida. Mas, como nos reporta Melo (2005): Mesmo assim, o caráter redentor de uma cidadania perdida e o aproveitamento político disso como forma de obtenção do consenso não podem ser desprezados. Não se trata de desconsiderar sua importância para a vida das pessoas que estão sendo atendidas, já que para elas, num contexto de poucas ações de lazer, pouco importa quem promove a possibilidade para esta prática esportiva, se é o Estado, uma ONG, ou candidatos a cargo político, visando ampliar/consolidar sua base política. O desafio é compreender os aspectos políticos disso e sua vinculação/capacidade de dar conta das metas que se propõe a atender (p. 80 e 81). Nesse sentido nos reportamos a Marinho (2010) que defende que a prática de atividades físicas pode ser benéfica dependendo da sua finalidade, segundo ele: Superado o capitalismo, o Esporte pode causar um lugar de destaque social, a começar pelo fato de que as oportunidades serão iguais. Todos terão oportunidades de praticá-lo, sem interesses comerciais e/ou assistencialistas (p. 26). Portanto, entendemos que defender o esporte de alto nível e querer que todos atinjam esse alto nível é inviável, se levarmos em consideração as características, individuais e sociais. Mas, levar o esporte a todos e mostrar várias possibilidades da prática esportiva, pode ser um bom meio de proporcionar ao aluno/participante de projetos sociais esportivos a vivência em atividades de recreação e lazer, importantes para o desenvolvimento integral do mesmo. Assim, entendemos que o esporte é um relevante meio de contribuição para o desenvolvimento integral do indivíduo. Mas sabemos que não é por meio do esporte, por si só, que as necessidades do ser humanos serão supridas. 3.3 – Trabalho, Esporte e Educação - estratégias de gerenciamento do capital para além de uma partida justa Estudos sobre os impactos da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016 revelam os muitos indícios de transferência de recursos públicos para os agentes privados, seja na contratação das grandes obras, seja no estabelecimento das várias modalidades de parceria público privada24. Assim podemos deduzir que a importância da realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro estaria menos ligada à sua realização em si mesma, e mais ao processo de reestruturação da dinâmica urbana na Cidade do Rio de Janeiro, legitimada e possibilitada pelos recursos alocados e pelo discurso em torno das oportunidades de desenvolvimento econômico e do legado que esses eventos podem supostamente deixar (SANTOS JÚNIOR, GAFFNEY & RODRIGUES, et al 2012). 24 Ver mais em: http://www.observatoriodasmetropoles.net/download/Relat_RJ%202012.pdf Nesse quadro, verificamos que diante de acordos político-econômicos, os governos Federal, Estadual e Municipal, além de promover candidatos, isentam-se da sua real obrigação de garantir os direitos fundamentais aos indivíduos. Todavia, aparentemente os projetos sociais mediados/articulados/justificados por processos educativos, têm funcionado consoante às necessidades de manutenção do modelo econômico vigente, de modo a ratificar a formação acrítica dos participantes através da subsunção cultural e esportiva. Investem nas “escolinhas de esportes” para colaborar nesse controle, já que o participante fica limitado ao conhecimento que lhe é transmitido. Freire (2006) analisa a lógica capitalista, criticando a “educação bancária”, utilizada como instrumento da opressão, na qual os alunos recebem o conteúdo como se fossem depósitos, intencionalmente não estimulando sua “criticidade” e autonomia. O mesmo defende a “dialogicidade” como essência da educação como prática da liberdade. Sobre a educação bancária, ele explica: Quanto mais se exercitarem os educandos no arquivamento dos depósitos que lhes são feitos, tanto menos desenvolverão em si a consciência crítica que resultaria a sua inserção no mundo, como transformadores dele, como sujeitos. Quanto mais lhe imponha a passividade, tanto mais ingenuamente,em lugar de transformar, tendem a adaptar-se ao mundo, à realidade parcializada nos depósitos recebidos. Na medida em que esta visão “bancária” anula o poder criador dos educandos ou o minimiza, estimulando sua ingenuidade e não sua criticidade satisfaz aos interesses opressores (p. 69). É preciso registrarmos a uma ação clara da prefeitura do Rio de Janeiro, a sua parceria com a empresa Estrela na produção e vinculação de jogos que propagandeiam a atual gestão governo do Rio de Janeiro, presidida pelo prefeito Eduardo Paes. De acordo com o Sindicato dos Professores do Estado Rio de Janeiro (SEPE/RJ): A mega operação de valorização imobiliária em curso na cidade do Rio de Janeiro. A própria prefeitura do Rio resolveu explicitar isso claramente ao lançar o Banco Imobiliário Cidade Olímpica, produzido pela Estrela. Além de licenciar a marca Cidade Olímpica, a prefeitura desembolsou 1 milhão de reais por 20 mil unidades do jogo, que está sendo distribuído na rede municipal de ensino. A partir de maio, a Estrela vai comercializar o produto nas lojas. Nesta nova edição do jogo – que existe há décadas – em vez de comprar imóveis em importantes ruas e avenidas da cidade, o jogador investe em pontos turísticos tradicionais – como os Arcos da Lapa, Copacabana e o Corcovado, mas também nas novas “marcas” da Rio Cidade Olímpica : o Porto Maravilha, a Clínica da Família, o Bairro Carioca, os BRTS (vias expressas de ônibus) , o Museu de Arte do Rio, o Museu da Imagem e do Som etc. Nas cartas de sorte ou revés, que definem ganhos ou perdas no patrimônio dos jogadores, há pérolas como “Seu imóvel foi valorizado com a pacificação da comunidade vizinha. Receba R$ 75 mil.” Como veremos no terceiro capítulo deste trabalho, em meio a falas, silêncios, discursos propostas e embates políticos, encontramos algumas pistas que podem nos levar a supor o que estaria por trás das medidas implementadas para a preparação da cidade em relação à realização dos Megaeventos esportivos. Parece-nos que há uma tentativa do poder público em escamotear o conflito de classes sob o discurso de socialização via esporte. Discurso esse que oculta as raízes das mazelas sociais, produzindo personalidades conformistas e com dificuldades de se reconhecerem como sujeitos históricos. Assim vemos tais medidas manifestando a orientação para a formação unilateral do indivíduo, em detrimento de uma formação unitária, omnilateral, conforme Manacorda (1991), capaz de propiciar um desenvolvimento multilateral, em todos os sentidos das faculdades humanas e das necessidades produtivas, além das necessidades de sua capacidade de sua satisfação. Dessa forma a relação da Educação com o Esporte pode assumir uma função de formação unilateral em que a condição de “sujeito social” é regulada pela participação política consentida pela classe hegemônica em obediência aos seus interesses. Malina (2009) afirma que: Não basta que o Brasil seja uma potência olímpica ou que o esporte seja um meio para retirar jovens da marginalidade, ou mesmo um modo de ascensão ou mobilidade social. É necessário algo diferente. O esporte pode, por exemplo, servir como meio de denuncia desses problemas globais. Os dirigentes e governantes de nosso país não querem ver nas páginas dos jornais a situação real do Brasil sendo denunciada pelos ‘ídolos’ do esporte, pois eles precisam vender bem o esporte no mundo para atrair investimentos (p. 23). Como exemplo de esporte como instrumento de denúncia, podemos citar duas situações, em contextos diferentes, em que isso aconteceu. Remetemos aos atletas César Cielo (natação) e Sócrates (futebol). O atleta de natação César Cielo, após ganhar uma medalha de ouro e uma medalha de bronze, nas Olimpíadas de Pequim (2008) e, portanto, ganhando maior visibilidade na imprensa brasileira, aproveitou o momento para queixar-se da Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e dos seus patrocínios. Essa declaração foi divulgada no jornal Globo Esporte. O nadador também mostrou-se ressentido por sua conquista em Pequim não ter se revertido em bônus financeiro, comparando com a atleta Maurren Maggi, ouro no salto em distância, também em Pequim, que segundo ele, ganhou R$ 150 mil de premiações de seus patrocinadores. Para César Cielo, com incentivos financeiros, teriam mais atletas se dedicando ao esporte. De acordo com suas palavras: Paguei várias competições do meu bolso por ser atleta profissional. Às vezes, os Correios dão uma grana, mas enrolam. De 2006 até o Pan-Americano, meu pai bancou tudo. Só nesta temporada, já gastamos US$ 2.500 (cerca de R$ 4 mil). Mas o cúmulo foi a cobrança da CBDA em cima dos pais sobre a minha ida ao Planalto. Eu estava nos EUA, e a confederação ficava ligando para os meus pais, atrapalhando o serviço deles (http://globoesporte.globo.com/platb/folego/2008/09/02/10-motivos-paranao-deixar-de-correr/). O jogador de futebol, Sócrates, que marcou a história do futebol e da política brasileira, lutou em defesa das “Diretas Já”, participando de comícios que pedia a volta imediata das eleições para presidente do Brasil. Na época (em 1984), ele tinha uma proposta para jogar na Fiorentina, da Itália e declarou ao público que se a eleição direta para presidente fosse aprovada, não deixaria o Brasil para jogar na Itália. Naquele ano a emenda constitucional que pedia a volta das eleições diretas para presidente acabou não sendo aprovada no Congresso Nacional e Sócrates foi transferido para o clube italiano. As eleições diretas para presidente do Brasil, enfim, ocorreram em 1989. Contudo, sabemos que uma função política não se resume somente ao desempenho eleitoral. A função política também busca identificar, no conjunto da população, aquela parte que pode servir – para segurança das classes dominantes - de amortecedor na luta de classes. Esse, muito utilizado através da cultura e da propaganda de construção do consenso em torno da sociedade tal como ela está organizada. Observamos que o processo de mercantilização, inclusive da vida humana, permanece no seu aspecto reificado25, fazendo com que o trabalhador se encontre subsumido à ótica do capital já que tudo nesse modo de produção vira mercadoria, sendo a do homem, a sua força de trabalho. Desde o momento em que foi anunciada a escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo de Futebol de 2014 e do Rio de Janeiro como sede das Olimpíadas de 2016, a grande imprensa, políticos e diversos analistas têm ressaltado as oportunidades da ampliação dos investimentos nas doze cidades selecionadas para receber esses Eventos. Destacando principalmente a possibilidade de se enfrentar seus problemas, como o da mobilidade urbana e o da recuperação de espaços degradados para a habitação, 25 O termo reificação vem da palavra alemã “verdinglichung“, significando tranformar uma ideia em coisa. No Marxismo o conceito designa uma forma particular de alienação, característica do modo de produção capitalista. Implica a coisificação das relações sociais, de modo que a sua natureza é expressa através de relações entre objetos de troca (ver fetichismo da mercadoria). comércio e turismo, como é o caso da área central do Rio de Janeiro (SANTOS JÚNIOR, GAFFNEY & RODRIGUES, et al 2012). De acordo com o Dossiê preparado pela Articulação Nacional dos Comitês Populares da Copa e das Olimpíadas (2012) a questão das expectativas de oportunidades financeiras e geração de empregos para a sociedade e inclusão social através do esporte, se perdem diante da realidade. Pois de um lado, os trabalhadores empregados, subempregados e trabalhadores informais têm trabalhado em empregos diretos e indiretos gerados pela e para realização dos Megaeventos esportivos, em condições precárias, conduzido por empresas e consórcios contratantes – sob a omissão dos órgãos fiscalizadores – e pelo próprio Estado. Por outro lado, as grandes empresas, em conivência com o governo e com a Federação Internacional de Futebol (FIFA), conquistam as concessões de circulação do capital proporcionadas pelo Evento e não pretendem permitir, nem ao menos, que pequenos comerciantes e empresas familiares, tirem proveito das oportunidades que aparecerão. Se voltarmos às palavras de Marx (1984) teremos que: Toda produção capitalista, à medida que ela não é apenas processo de trabalho, mas ao mesmo tempo processo de valorização do capital, tem em comum o fato de que não é o trabalhador que usa as condições de trabalho, são as condições de trabalho que usam o trabalhador (p. 43/44). Vemos a vitória de um atleta ou de uma equipe trazendo lucros para as instituições, por meio de poder e concessão de divulgação de produtos e serviços e visibilidade para o país, conforme o discurso do até então ministro dos esportes, em 2004, citada por Melo (2005): “investir em esporte é um excelente negócio. Qual empresa não deseja colar sua marca, sua imagem a um negócio que é identificado em todo o mundo com vitória, beleza e solidariedade” (p. 91). O atleta e o treinador acabam sendo explorados sob os moldes da mais-valia26, questão essa que merece maior aprofundamento. Além da promoção social, as empresas patrocinadoras de tais eventos, em acordo com o poder público, ficam isentas de seus impostos. Exemplos desta afirmação tem sido divulgados em meios de comunicação com menor circulação do que os da grande mídia. De acordo com o jornal virtual UOL: Os organizadores da Olimpíada de 2016, no Rio de Janeiro, ganharam uma isenção de impostos de cerca de R$ 3,8 bilhões do governo federal. O benefício foi concedido por uma medida provisória (MP) assinada pela 26 Mais-valia é o termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor do trabalho produzido. Marx (2002) analisa a dialética da mais valia, afirmando que o sistema capitalista representa a exploração do trabalhador por parte do dono dos meios de produção. Na disputa desigual e combinada entre capital e proletário sempre o primeiro sai vencedor. presidente Dilma Rousseff no último dia 10. A MP isenta de impostos federais compras e contratação de serviços feitas pelo Comitê Olímpico Internacional (COI), o Comitê Organizador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio-2016 e empresas ligadas às duas entidades. Beneficia até patrocinadores dos Jogos. (http://esporte.uol.com.br/rio-2016/ultimasnoticias/2012/10/19/governo-federal-da-isencao-de-r-38-bilhoes-aorganizadores-da-olimpiada-de-2016.htm, acesso em: 19/10/2012) Na mesma reportagem, o referido jornal destaca que: A Medida Provisória prevê que não sejam taxadas pelo governo a importação de medalhas, troféus, material promocional, bebidas, alimentos e bens duráveis que custem até R$ 5 mil. A importação de equipamentos esportivos serão isentas desde de que eles sejam reexportados após os Jogos ou doados no Brasil. Operações de câmbio e seguro também não terão impostos cobrados sobre elas. Notamos um grande investimento do dinheiro público sendo direcionado para uma política que vem atender somente a uma classe social e não para as políticas necessárias, de fato, às demandas da classe trabalhadora da nossa da sociedade. Também é observável que mesmo com esse grande investimento na promoção dos Megaeventos esportivos, caberá à maioria da população, no máximo, a condição de espectadora, dado o que segue abaixo: Ao pesquisar os valores dos ingressos da Copa do Mundo de 2014, nos deparamos, no site da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e da Federação Internacional de Futebol (FIFA)27 com as regras para a emissão de ingressos. Mesmo sem definição dos valores dos ingressos, já há pacotes de hospitalidade aos turistas, com ingressos incluídos. Também pesquisamos os valores de ingresso para a Copa das Confederações, que ocorrerá em junho de 2013 nas doze cidades brasileiras em que serão realizadas a Copa do Mundo de Futebol, de 2014 e os preços variam de R$ 60,00 à R$ 684,00. Outro exemplo é o caso do Estádio Mário Filho, o Maracanã, que neste momento, encontra-se em período de reforma com recursos públicos e o Governo do Estado já anunciou a intenção de entregá-lo a um concessionário privado após a Copa de 2014 (SANTOS JÚNIOR, GAFFNEY & RODRIGUES, et. al. 2012). De acordo com Melo (2005), o acesso diferenciado das classes sociais aos diversos direitos sociais e bens culturais é marca registrada das sociedades divididas em classes. A possibilidade de vivência esportiva não está imune a essa questão. Seja como espectadora, seja como praticante, as condições dessa vivência se deterioram. A mercantilização do esporte e dos espaços públicos de prática esportiva reduz a 27 http://pt.fifa.com/worldcup/index.html ; http://www.cbf.com.br/ , disponíveis em: março de 2013 existência desses espaços destinados à prática esportiva, como parques, praças, quadras em condições de uso. Assim, o direito ao esporte, articulado ao direito à cidade, encontra grandes dificuldades de realizar-se no contexto de uma formação social. Observamos que o legado dos Megaeventos esportivos poderiam ser um mecanismo de redução da desigualdade social de melhorara do convívio urbano. No entanto, sua direção tem sido mais segregadora, excludente e seu legado pode deixar uma dívida muito alta para a sociedade carioca. Ainda que essa temática das ações dos empresários e do processo de reordenamento da cidade do Rio de Janeiro em prol dos Megaeventos esportivos esteja em constante movimento, em extrema efervescência, não podemos deixar de mencionar as contradições que envolvem as obras do Estádio Mario Filho e redondezas. Este Estádio foi construído para a realização da Copa do Mundo de Futebol de 1950. De acordo com Melo (2005) para a construção do Estádio, houve a necessidade de transferência da unidade militar, 1º Regimento de Carros de Combate (RCC), no terreno que seria o Estádio, para outra área da cidade. Vemos atualmente a história se repetir, onde, para a realização dos Megaeventos esportivos, a cidade passa por um processo de reordenamento, muitas vezes de maneira arbitrária contra a classe trabalhadora. Em Março de 2013 o governo do Estado do Rio de Janeiro lançou o edital28 de licitação para a concessão do Maracanã. O referido edital menciona investimento de R$ 594 milhões em obras que supostamente ainda precisam ser feitas. Entre essas obras estão: a construção de um estacionamento, a demolição do parque aquático Julio Delamare, do estádio de atletismo Célio de Barros e da Escola Municipal Friedenreich. Sendo a reconstrução de cada um destes prédios, no lugar dos espaços demolidos, obrigação do consórcio. De acordo com o Comitê Popular da Copa e das Olimpíadas, o projeto feito pela empresa IMX, do mega empresário Eike Batista, amigo pessoal do governador do Estado do Rio de Janeiro Sérgio Cabral Filho, visa transformar o Maracanã em mais um centro comercial lucrativo (com shopping, estacionamento, bares e restaurantes) na cidade do Rio de Janeiro. A construção desse centro comercial “mais lucrativo para a cidade” contará com espaços tradicionais na nossa cultura e esporte. Para a realização deste centro comercial, que favorece apenas os grupos empresariais, deverão ser demolidos o Estádio de Atletismo Célio de Barros e o Parque 28 Ver em: http://download.rj.gov.br/documentos/10112/1457028/DLFE58900.pdf/PPPCOMPLEXOMARACANAEditalVersaoFinal.pdf Aquático Júlio Delamare. Dois dos principais centros de treinamento do esporte brasileiro, deixando atletas olímpicos e paraolímpicos sem ter onde treinar e interrompendo projetos sociais que atendem à comunidade local. Além das demolições da Escola Municipal Friedenreich, que funciona há mais de 40 anos no Maracanã, atende a cerca de 350 alunos e que é uma das dez melhores colocadas no IDEB em todo o Brasil. Já o Museu do Índio, hoje ocupado por indígenas, deverá ser revitalizado e transformado em Museu Olímpico. É contraditório pensar que os bairros pobres e/ou favelas estão sendo contempladas com projetos sociais esportivos: divulgados amplamente na mídia, como o projeto Rio em Forma Olímpico, que foi usado até como forma de campanha política para cargo de prefeito do Rio de Janeiro, que em 2012 reelegeu-se; ao mesmo tempo em que atletas olímpicos, paraolímpicos, promissores de medalhas, que há muito se dedicam ao esporte brasileiro estão perdendo seu espaço de treinamento. Também vale lembrar que nesses espaços boa parte da população local vive do trabalho, como comércios, além de serem atendidas com projetos sociais diversos. Vale lembrar que desde 1920, com exceção dos jogos de 1928, Amsterdã, o Brasil participa dos Jogos Olímpicos (“As Olimpíadas”). Também o Brasil é o único país a ter participado de todas as competições da Copa do Mundo de Futebol, que teve sua primeira Edição em 1930, no Uruguai. É relevante ressaltar que este Megaevento, que ocorre de quatro em quatro anos, ficou sem duas edições durante o período da Segunda Guerra Mundial. Na verdade existem outros Megaeventos esportivos que o Brasil envia representantes, como a Copa do Mundo de diversas modalidades (exemplo: Copa do Mundo de Judô, Copa do Mundo de Nado Sincronizado, entre outras); Jogo de Inverno; Pan Americano. Mas a Copa do Mundo de Futebol e os Jogos Olímpicos têm maior visibilidade mundial e maior participação de países, de modalidades, etc. Como pudemos observar nas últimas edições desses Megaeventos esportivos, determinadas modalidades esportivas, principalmente e/ou especificamente aquelas que têm um (a) atleta ou uma equipe promissores de medalha, emergem na mídia. Nesse caso, há uma cobrança popular, midiática e dos patrocínios (quando se tem patrocínio) em cima dos atletas. No entanto, ser atleta no Brasil, apesar de ser uma experiência única e muitas vezes prazerosa, não é tarefa fácil. Faltam muitos investimentos e incentivos. Não há facilidade em se encontrar local de treinamento adequado de baixo ou em custo, nem sempre os profissionais estão preparados para este trabalho ou mesmo os profissionais encontram tantas dificuldades, tendo que trabalhar em diversos lugares para a própria sobrevivência que não dão conta de tanta dedicação a um esporte. O mesmo acontece com os atletas. Geralmente o caminho a ser percorrido pelo atleta vem da formação de base (a primeira idade em que se “pode”, de acordo com os limites e possibilidade do corpo, fisiologicamente, biomecanicamente e psicomotoramente falando, participar daquele esporte), participações nas competições internas do clube ou da escolinha, competições por categorias. E aos poucos, a partir da federação (ou em busca da federação), aumentando o nível das competições, competições por clubes, por estados, internacionais, etc. Os atletas são jovens, precisam concluir sua formação escolar. Nem sempre são oriundos de famílias em condição financeira suficiente que os permita somente estudar e dedicar-se ao Esporte. Alguns precisam também ajudar na renda financeira familiar. Além disso, quem arca com os custos das primeiras competições? E quando o atleta conquista seu espaço no esporte dedicado, quem arca com as competições? (inscrição, passagem, hospedagem)? Alimentação adequada, manutenção do espaço de treinamento (quadra, pista, piscina, campo), manutenção do material de treinamento (bola, raquete, etc), quem vai arcar? Quem financia os deslocamentos diários de treinamento (porque nem sempre o atleta reside próximo ao local de treinamento e nem sempre a instituição (clube) oferece alojamento)? Podemos citar como exemplo, o caso do nadador olímpico Edvaldo Valério. Considerado o primeiro nadador negro a participar dos Jogos Olímpicos, Edvaldo Valério, conquistou a medalha de bronze nas Olimpíadas de 2000, em Sydney, na categoria revezamento 4x100m livre, junto aos nadadores Fernando Scherer, o Xuxa, Gustavo Borges e Carlos Jayme. Apesar do feito, Valério sofreu para se manter no primeiro escalão da natação brasileira. Ainda nadou por mais nove anos, mas sem o apoio necessário. Antes de chegar as Olimpíadas, antes de conquistar a fama e ganhar patrocínio, aos 16 anos, tinha uma rotina desgastante. Morador de Itapuã, na Bahia, ele acordava de madrugada para treinar na piscina da Fonte Nova. O trajeto de quase 25 quilômetros era feito de ônibus. Da piscina, seguia para a escola e, em seguida, voltava para casa. Pela tarde, nova viagem para mais um treinamento no Clube Olímpico de Natação. Sem apoio de patrocinadores, o nadador contava com as rifas e colaborações dos pais de colegas de piscina para pagar as viagens. Em entrevista ao programa de televisão, Globo Esporte, Valério revela: Eu ganhei a medalha em 2000 e, na metade de 2001, já tinha perdido quase todos os patrocinadores. Quando eu resolvi parar, foi justamente em função disso. Morei os quatro últimos anos fora e, quando voltei para Salvador, foi decidido a parar, porque eu não iria ficar batendo de porta em porta pedindo patrocinador. Então preferi abandonar a natação e dar seguimento aos meus estudos.29 Aqui, levantamos algumas questões referentes às condições de um atleta para sobreviver ou vencer no esporte. Nem entramos na temática do indivíduo que por algum motivo (paixão por determinada modalidade esportiva, inspiração em seu ídolo, deslumbramento, indicação de algum adulto – muitas vezes o professor de Educação Física -, possuir habilidade motora de acordo com tal modalidade, etc.). Nem entramos no debate de quem “formará” esse atleta. Nem questionamos sobre o treinador, sobre o professor da “escolinha esportiva”, ou sobre o professor da escola, embora em minha opinião não deva ser essa a prioridade do professor de Educação Física escolar. De acordo com Medina (1989), o professor, em especial, o professor de Educação Física, tem uma função fundamental em revelar ao sujeito sua percepção como um todo na sociedade, desvelando o mundo através da interação do sujeito com os outros sujeitos. Ele afirma que: Nós não temos um corpo; antes nós somos o nosso corpo, e é dentro de todas as suas dimensões energéticas, portanto de forma global, que devemos buscar razões para buscar uma expressão legítima do homem, através das manifestações do seu pensamento, do seu sentimento e do seu movimento (p. 12). O corpo é a expressão da cultura. Gestos e movimentos corporais são criados e recriados pela cultura, passíveis de serem transmitidos através das gerações e imbuídos de significados. Dentre as produções da cultura corporal algumas foram incorporadas pela Educação Física em seus conteúdos; o jogo, o esporte, a dança, a ginástica e a luta. Sendo assim, a área da Educação Física atualmente contempla múltiplos conhecimentos produzidos e usufruídos pela sociedade a respeito do corpo e do movimento (DARIDO, 2003). De acordo com Marinho (2010) por mais que a manifestação observável da Educação Física esteja no corpo, a sua práxis não pode ser analisada pela evidência corporal. Consciente ou não, o professor de Educação Física está atendendo a todo o ser. A ação é sobre o homem completo, o organismo total. A Educação Física sendo uma disciplina de caráter teórico-prático que trata de assuntos relativos à cultura do movimento humano, pode no seu corpo de conteúdos, 29 Ver em: http://globoesporte.globo.com/ba/noticia/2012/10/lembra-dele-longe-das-piscinasedvaldo-valerio-tenta-fortalecer-natacao.html acesso em: 07/10/2012. abordar assuntos relacionados à saúde, valores éticos, sociais e políticos do corpo, da atividade física e do esporte, bem como a própria prática dos esportes, das danças, das lutas e dos jogos. Nesse sentido, os conhecimentos de natureza conceitual, pertinentes à Educação Física devem ser significativos de forma que os alunos levem estes conhecimentos para fora dos muros da escola. Ou seja, os conhecimentos vivenciados na escola devem favorecer a autonomia do aluno considerando a visível importância do aprendizado e da execução de uma leitura crítica, em razão de ela ser a entrada para o processo de crescimento humano, desenvolver o aprofundamento da consciência desse mesmo sujeito em formação, no sentido de ele vir a capturar o significado de tal importância em sua particular existência (FREIRE, 1996). É muito importante que o aluno se perceba enquanto sujeito histórico, e a educação deve ter a função de formar o indivíduo crítico e consciente da realidade social em que vive, para poder nela intervir na direção de seus interesses de classe. Sendo assim, o professor visa trabalhar além da técnica esportiva, deve estimular a descoberta do aluno, fornecendo elementos para assimilação consciente do conhecimento, permitindo-o pensar autonomamente, já que a apropriação do conhecimento é uma das formas de emancipação humana (SOARES, 1992). Quando a Educação Física escolar prioriza o desporto, voltado apenas para a performance, priorizando o desenvolvimento do treinamento físico, baseado na fisiologia, biomecânica etc., ela perde seu sentido. Como a Educação Física escolar, como sinônimo de desporto teria sentido se o treinamento fosse uma vez por semana numa aula de 50 minutos dividida para no mínimo 30 alunos, cada um com sua individualidade – biológica e social, sem material e espaço adequados, como é a realidade de muitas escolas? Poderia até ser a receita para o insucesso, já que os alunos podem frustrar-se em não conseguir chegar ao resultado desejado. De acordo com Medina (1989) a falsa supervalorização do pensamento competitivo, baseado na meritocracia, promovida pelas ideias dominantes de uma sociedade tecnológica e cada vez mais tecnicista, amordaçada às nossas concretas manifestações, impede ao mesmo tempo, as expressões mais livres e espontâneas do movimento, do sentimento e do próprio pensamento, enquanto fenômenos tipicamente humanos. Contudo, a Educação Física como ato educativo relaciona-se com a corporalidade e ao movimento do ser humano, o aprimoramento da criatividade, da sensibilidade, da autonomia do ser humano em todos os níveis, por isso, através dela busca-se transformar o mesmo. Ou seja, suas atividades são fundamentais nos 3 domínios do desenvolvimento humano, sendo eles: o motor, afetivo e cognitivo. Quanto a utilização do esporte no âmbito escolar, Kunz (2000) defende que o ensinar esportes na Educação Física escolar vai além da perspectiva puramente instrumental e deve almejar um compromisso educacional mais abrangente, insistindo numa formação da cidadania crítica e emancipada dos estudantes por meio do desenvolvimento das competências objetiva, social e comunicativa. Marcando uma educação que se desenvolve, se refaz e se realiza pela interação entre professores e alunos, como ato de se entenderem, de dialogarem e de interagirem comunicativamente. Em suma, a Educação esportiva não deve ser vista como área que restringe a ensinar técnicas “corretas” dos esportes, da ginástica ou da dança, ou a que vai corrigir ou refinar gestos, mas a área que vai partir da dinâmica cultural específica de seus alunos no que se refere às questões do corpo, enfim, tornar o aluno um indivíduo ominilateral, nas questões corporais. (DAÓLIO, 1995). Não devemos diminuir/confundir a importância do treinador. O treinador de determinada modalidade, que em minha opinião, deve ser um professor de Educação Física, deve buscar cada vez mais o aperfeiçoamento do atleta naquela modalidade, bem como ser capaz de encontrar as razões que levaram ao sucesso ou insucesso nas competições. Muitas vezes os discursos referentes ao “fracasso do Brasil no Esporte” recai sobre as escolas, embora não seja função de responsabilidade das escolas, sobretudo das escolas públicas, formar atletas. Cabe aqui algumas observações. No ano de 2009, a, até então e atual, secretária de Educação do Município do Rio de Janeiro, após a contestação de um alto índice de analfabetismo funcional (o aluno sabe ler, mas, não interpretar), decorrente de diversos outros retrocessos da educação, criou um sistema de reforço escolar, no qual as aulas de reforço acontecem no horário das aulas de Educação Física e Artes. Ademais, as escolas públicas do Rio de Janeiro não têm infra-estrutura para treinar alunos, nem instalações adequadas, além de elevado de números de alunos para cada professor. Não se trata de negar a importância do esporte na escola, nem mesmo fora da escola. Até por que o esporte, além de ser um conteúdo da disciplina de Educação Física, é essencial no desenvolvimento dos três domínios do desenvolvimento humano. Contudo, o uso descontextualizado e metodológico das técnicas com o fim em si mesmo isenta o real significado para o desenvolvimento, deixando escapar a visão clara da contribuição do esporte na totalidade do fenômeno humano (MEDINA,1989). Diante do exposto, tudo indica que os projetos sociais esportivos sob responsabilidade da prefeitura municipal do Rio de Janeiro funcionam não só como complemento da educação escolar, mas também como preenchimento das lacunas deixadas pelo Estado. Partindo dessa hipótese dedicamos nosso trabalho de campo ao projeto Rio em Forma Olímpico, Projeto, parte integrante da política educacional, que será apresentado no próximo capítulo. Voltemos às contradições das obras do, e no entorno, do Maracanã. De acordo com o resultado de 2011 do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica, o IDEB, o Estado do Rio de Janeiro foi um dos oito Estados (o único da Região Sudeste) que menos de 50% dos municípios atingiram a nota seis, nota meta do IDEB para até 2021. No do Rio de Janeiro, apenas 41,3% das cidades atingiram a meta30. As áreas onde as escolas que apresentaram baixo desenvolvimento, foram contempladas com o projeto denominado Escola do Amanhã. Este projeto visa reduzir a evasão escolar e melhorar o desempenho de alunos através de educação em tempo integral com atividades como: artes, esportes, reforço escolar para os alunos nos contra turnos, laboratórios de ciência, além de salas de saúde, leitura e informática. Contraditoriamente, a Escola Municipal Friedenreich, situada no Maracanã, que, como já mencionado, está entre as dez melhores colocadas no ranking do IDEB em todo o Brasil, está na lista de instituições que serão demolidas para as obras do Maracanã. Vale mencionarmos o depoimento da mãe de um aluno da Escola Municipal Friedenreich, cedido para o presente estudo: Como mãe da escola municipal Friedenreich, não concordo com a sua demolição, pois a mesma encontra-se em perfeito estado. Tenho certeza que essa escola foi muito importante no desenvolvimento do meu filho, como ele é uma criança com necessidades especiais, o trabalho que é feito de inclusão não poderia ter sido melhor. Além de ser uma das melhores escolas do Estado, por esse e por outros motivos, não aceito a demolição. Não agüento ver meu filho perguntando onde vai estudar. Será que tudo isso é pelo futebol? Ou pelo dinheiro? Então como brasileira carioca e usuária do entorno do estádio do maracanã vejo a sua privatização como a maior vergonha da copa do mundo no Brasil. Pois é lamentável como nossa cidade está se transformando. Tudo pelos interesses de poucos, e nada pelo interesse do povo, será que o futebol é feito mais importante que a educação? Será que isso e culpa do futebol? 30 Ver mais em: http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=1045928 Sim, os governos Estadual e Municipal divulgam estar investindo nos projetos olímpicos. Implantam projetos sociais esportivos e destroem locais que já formaram e tinham condições de formar grandes atletas, como o José Telles da Conceição, a nossa primeira medalha olímpica no atletismo; Aída do Santos, a primeira mulher a ficar em quarto lugar na Olimpíada e a única mulher da delegação em Tóquio (1964) e a campeã olímpica Maurren Maggi, ainda no auge da carreira e que vem atuando na luta a favor da permanência do Estádio. Além da formação de atletas, esses espaços representam áreas de lazer de baixo ou nenhum custo para os frequentadores. O poder público, ao invés de incentivar o desenvolvimento dos desportos, optou por demolir locais históricos e consagrados pelo esporte brasileiro, dando prioridade à construção de estabelecimentos que só atendam a uma parcela da população. A opção do governo do Rio de Janeiro (Estado e Município) em priorizar a infraestrutura de grandes estádios, em detrimento a outros equipamentos esportivos, vem causando certa frustração em relação às expectativas populares no que diz respeito aos Megaeventos, uma vez que as prioridades nos investimentos não estão sendo conduzidas de modo transparente e participativo (para não incidirmos em acusações pessoais). Será que esses projetos que surgiram na efervescência dos Megaeventos esportivos terão a mesma qualidade dos projetos que eram desenvolvidos no Estádio Célio de Barros e no Parque Aquático Julio Delamare? Será que esses novos projetos sociais terão continuidade após os Megaeventos esportivos? Quem irá sustentá-los? Mais uma vez nos perguntamos, a quem interessa a realização dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro? As parceiras público-privadas são defendidas por seus propositores como sendo um caminho para melhoria dos resultados e dos serviços públicos, e diminuição dos custos do sistema público para tais serviços. Pode-se dizer que essas ações se configurem como uma face de implementação de políticas públicas por organismos privados. Embora em momento algum o projeto Rio em Forma Olímpico se apresente publicamente como parte do chamado terceiro setor. Capítulo IV 4 – APRESENTAÇÃO E ANÁLISE DE DADOS 4.1 - Rio em Forma: Driblando a Adversidade da Cidade do Capital31 “Somos instados a conviver alegremente nos estádios de futebol, nos desfiles de escolas de samba e na nossa cozinha. Mas vivemos em mundos separados, cada vez mais longe um do outro. Comecei a me dar conta, por esta forma violenta, da invisível e poderosa hierarquia (ou separação de classes) da nossa sociedade. Que não somos iguais nem perante a lei, nem perante a riqueza produzida, já sabemos há muito tempo. O que não sabia era que havia tantos obstáculos microscópicos a entravar o contato social mais íntimo entre nós.” (ZALUAR, 1984, p. 11) Tendo em conta o objetivo da pesquisa - analisar as contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas e projetos sociais que atendem crianças em idade escolar - neste capítulo apresentaremos nossas observações do trabalho de campo, desenvolvido no projeto Rio em Forma Olímpico, na Cidade de Deus, no período compreendido entre Maio e Dezembro de 2012. No trabalho de campo analisamos a história da comunidade e o funcionamento do referido Projeto. Pesquisar os simbolismos dos projetos sociais implica a atividade de análise interpretativa. E isso requer que conheçamos o significado o objeto, isto é, palavras e gestos e sua verdade contextual. A escolha de realizarmos nossa pesquisa no Projeto Rio em Forma Olímpico32, se deu por 3 motivos: O primeiro motivo refere-se ao fato deste projeto caminhar junto às escolas publicas, atendendo em várias comunidades da cidade do Rio de Janeiro; o segundo motivo refere-se ao fato de o mesmo ter sido implantado em 2009 e estar em constante crescimento aumentando o número de comunidades a serem atendidas; por fim, o terceiro motivo se deve ao fato de o Projeto Rio em Forma Olímpico, apresentar, em sua proposta, um discurso superficial, onde palavras de ordem como valores, cidadania, democracia, etc, carecem de significado. 31 Cidade do Capital é o título do livro de Henri Lefevre que discute as questões da cidade à luz do materialismo histórico. 32 Projeto está no anexo 2 do trabalho. A pesquisa de campo será descrita por meio de linguagem coloquial e em forma de relato. Abordaremos desde os primeiros contatos com a gestão do Projeto Rio em Forma Olímpico, passando pelas trocas de mudanças de realização das atividades, até o encerramento das atividades para o período de recesso das mesmas, o que coincide com as férias escolares. Para a compreensão do Projeto Rio em Forma Olímpico na comunidade Cidade de Deus, também será apresentado nosso estudo sobre a referida comunidade. Tudo isso, nos permitirá compreender parte das contradições entre capital e trabalho que envolvem e são envolvidas pelos Megaeventos esportivos de 2014 e 2016. De acordo com Melo (2005) entendemos que discutir sobre esta ou qualquer outra comunidade requer superarmos o olhar totalizante que a vê apenas pela ótica da violência e/ou miséria. Não se tratando de negar a existência desses graves problemas, mas sugerir que estes são fenômenos naturais, absolutizados, como muitas vezes fazem as abordagens midiáticas. A referida pesquisa realizou-se na unidade da comunidade da Cidade de Deus, onde se localiza uma Escola do Amanhã. Por meio de observação e entrevistas semiestruturadas aos profissionais responsáveis pelo projeto (o professor e o instrutor) e da análise dos documentos oficiais, comparando o discurso e a prática, pudemos analisar seus objetivos e sua realização, bem como a relação entre o discurso do projeto e a realidade do mesmo. Seguimos o seguinte roteiro para a realização da pesquisa semiestruturada: 12345678- Função exercida Carga Horária Quantos alunos atende por turma ou por horário? Há quanto tempo trabalha no projeto? Como é desenvolvido o projeto educativo? Qual sua relação com a comunidade em que trabalha? O que você espera do projeto em relação a sua carreira? O que você espera do projeto em relação à formação dos alunos? Consideramos este tipo de abordagem, adequado por servir de instrumento para registro da experiência do Projeto Rio em Forma Olímpico no contexto das Políticas Públicas no município do Rio de Janeiro, de modo a denunciar/compreender a favor de quem este projeto se insere. Também nos baseamos na pesquisa de Zaluar (1984) para buscarmos discernir o discurso do que foi dito publicamente ou nas conversas, do processo de comunicação social com a comunidade, que segundo ela, não é uniforme e ininterrupto, ao contrário, é pontilhado de interrupções, proibições, restrições ao dizer. Conforme suas palavras: O acesso do pesquisador ao conhecimento que os agentes têm do mundo e da sociedade, bem como do lugar que ocupam neles, é mediado por esse discurso dirigido ao outro. Como as relações sociais que limitam, promovem e permitem o discurso estão arranjadas segundo princípios que independem da subjetividade dos agentes em interação, já que eles mesmos limitam e condicionam esta interação, a atividade da pesquisa não é só interpretativa (p.59). Sobre a atividade de pesquisa, a autora explicita que: Ela é crítica e explicativa também. Portanto, exige o distanciamento do pesquisador e a atenção às condições sociais que limitam os discursos e, no seu interior, impelem os agentes que a justifiquem, racionalizam, defendam suas posições neste mundo de sentido nada consensual, feito de significados em confronto, de redes simbólicas purificadas. Diante desses “textos” variados, o distanciamento do pesquisador é o caminho para evitar que se caia no relativismo absoluto ou no historicismo radical em que tudo é particular, circunstancial e subjetivo. Isto é tão mais importante, quando se sabe a forte atração que a idealização do popular como fonte de toda sabedoria de todo o bem, como a esperança de redenção nacional, tem exercido sobre a atividade intelectual mais recente nesse país (p. 59). A proposta dessa pesquisa não foi de produzir um discurso panfletário ou populista, mas de buscar suas identidades sociais definidas pelos próprios assistidos do Projeto Rio em Forma Olímpico. Assim, o texto, em forma de narrativa e de relato, apresenta-se dividido entre subjetivo e objetivo, não sendo imparcial ou neutro. 4.1.1 - Contradições e Projetos Sociais Thompson (1981), através do princípio da dialética marxista da historicidade e totalidade de todo fenômeno social, nos lembra que os eventos econômicos são também eventos humanos, e, por sua vez, encontram-se entrelaçados com eventos sociais e culturais. Ele defende que entender a experiência na vida de homens e mulheres reais significa compreender o diálogo existente entre ser social e consciência social. Com base no materialismo histórico, embora com alguns questionamentos, Thompson empenha em recuperar a experiência empírica. O autor busca realizar uma experimentação ligada à análise do contexto, procurando substituir a base da superestrutura pela análise da consciência da classe operária. E assim, advoga que a categoria experiência só pode ser entendida em junção com as outras categorias, como cultura e classe. Partindo do princípio de compreender a categoria experiência, em conjunto com as categorias de classe e cultura, acreditamos ser importante avaliar as contradições existentes nos discursos dos projetos sociais que surgiram com a efervescência da preparação da cidade para a realização dos Megaeventos esportivos. Como já mencionado, a prefeitura do Rio de Janeiro tem investido em projetos que propõem “aproveitar o poder transformador dos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos Rio 2016 para promover conquistas sociais, benefícios duradouros e melhorias nas condições de vida da população.” (http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html). Que benefícios são esses? A população foi consultada sobre quais eram suas reais necessidades? O Brasil está preparado para se tornar uma Potência Olímpica? Faltam investimentos e muitos; atualmente há carências muito maiores nas escolas. Mesmo que a escola e os projetos sociais estivessem “preparados” e que não houvesse outras carências na escola e na sociedade, essa é a proposta da Educação Física? Selecionar alunos? Excluir outros? Deveria ser uma facilidade o Rio de Janeiro sediar esses eventos por estar preparado para isso e não o contrário. Será que esses participantes dos projetos, de fato terão alguma oportunidade durante e depois da realização desses eventos? Que oportunidades são estas? E depois da Copa e das Olimpíadas, esses projetos continuarão funcionando? De acordo com a apresentação da Prefeitura do Rio de Janeiro33, os principais projetos e suas respectivas propostas, são: a) Morar Carioca – “Urbaniza as favelas, que se tornarão bairros integrados à estrutura formal da cidade”; b) Ginásio Experimental Olímpico – “Integra educação de excelência com treinamento esportivo de qualidade”; c) Time Rio – “Auxilia a preparação de atletas com potencial de medalhas e fomenta a prática esportiva entre a população através do contato com os ídolos”; d) Rio Criança Global- “Universaliza o ensino da língua inglesa na rede pública municipal, com aulas ao longo dos nove anos do ensino fundamental”; e, e) Rio em Forma Olímpico – “Oferece ao cidadão acesso à prática esportiva orientada, gratuita e de qualidade, em um raio de no máximo 2 km de distância de qualquer que seja a sua localização”. O Projeto Rio em Forma Olímpico é um dos projetos da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SMEL), que há 23 anos é responsável pelo desenvolvimento das políticas públicas de esportes e lazer da Prefeitura do Rio de Janeiro. Tal Projeto, que 33 http://www.cidadeolimpica.com.br/ atua como ação complementar a escola, configurando-se como espaço e tempo de lazer para seus participantes, foi criado em 2009, e apresenta-se como um projeto que visa atender, dentro das próprias comunidades, os moradores em atividades que fomentem a qualidade de vida. Segundo o site da SMEL, o projeto “está focado nos valores emocionais e educacionais capazes de serem mobilizados pelo esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregar conhecimentos, valores, condutas e comportamentos”. (http://www.rio.rj.gov.br/web/smel) Os núcleos, locais de realização dos projetos, estão sendo implantados nas comunidades que dispõem de espaços físicos que comportem as atividades e também em áreas consideradas conflagradas, onde os alunos avaliados pela última prova do Ministério da Educação (MEC)34 apresentaram baixo índice de desenvolvimento educacional; priorizando assim, as áreas das Escola do Amanhã. O projeto Escolas do Amanhã foi, criado em 2009 pela Secretaria Municipal de Educação. O referido Projeto tem como objetivo reduzir a evasão escolar e melhorar o desempenho de alunos que moram em áreas conflagradas da cidade. Entre as propostas do projeto estão educação em tempo integral; artes, esportes, reforço escolar para os alunos nos contra turnos, laboratórios de ciência, além de salas de saúde, leitura e informática. Embora não sendo nossa área de estudo, vale mencionar que o projeto Escolas do Amanhã, vem sendo muito criticado por aquelas que defendem uma educação libertadora como mais um projeto que não cumpre o que propõe. Tendo em conta as questões teórico-metodológicas apresentadas na construção do objeto deste estudo, identificamos elementos da totalidade em que os Megaeventos estão inseridos. Nesse caminho, adotamos a perspectiva do materialismo histórico por este nos dispor de elementos para a compreensão do objeto de estudo em sua totalidade, num exercício que parte do abstrato (real pensado) para o conhecimento real concreto. É relevante analisar qual a relação das políticas públicas de educação com a concepção de Educação Esportiva funcional ao modo de produção capitalista, pois os discursos dos documentos dos projetos sociais esportivos são superficiais e contraditórios. Ademais, observamos que a ideia e os discursos de inclusão e de cidadania voltados para o desenvolvimento de necessidades lúdicas e de lazer da população mais desfavorecida, parece-nos insuficiente numa perspectiva de ruptura do 34 A Prova Brasil e o Sistema Nacional de Avaliação da Educação Básica (Saeb) são avaliações para diagnóstico, em larga escala, desenvolvidas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC). Têm o objetivo de avaliar a qualidade do ensino oferecido pelo sistema educacional brasileiro a partir de testes padronizados e questionários socioeconômicos. modelo socioeconômico. Essa ideia, apresentada como mera relação mecânica para administrar as tensões oriundas das relações sociais de produção, não condiz na prática com o apelo político da inclusão, até mesmo porque nossa sociedade é pautada na exclusão35. Verificamos, portanto a classe trabalhadora sendo excluída do sistema da propriedade privada, e a classe dominante monopolizando diversas formas, senão todas as formas, economicamente mais importantes da propriedade e impedido que a massa dos trabalhadores participe da posse dos grandes meios de produção. Esses males do sistema sobrecarregam a classe trabalhadora, o que pode provocar sua insurreição contra esse sistema. Ao abordar a questão da política habitacional no processo de remoção das favelas para os conjuntos habitacionais na década de 1960, Zaluar (1984) aponta que tanto nos textos acadêmicos quanto nas políticas adotadas, cuidava-se de levar em consideração os interesses, desejos e reivindicações dos trabalhadores pobres como meio de evitar tensões perigosas para a ordem social. Nesse caso, podemos entender que a revolta da população de menor poder aquisitivo em perder seus espaços para a realização dos Megaeventos esportivos também poderia gerar conflitos sociais. Um exemplo dessa política de atender a população pobre como meio de controle social e um exemplo de que determinações humanas não são lineares (e, por isso, não precisam vir apenas de cima para baixo, ou seja, as ações podem ser quebradas e as determinações virem, também, de baixo para cima) (THOMPSON, 2001), pode ser mostrado a partir do relato de Zaluar (1984) quando refere-se a onda de saques à supermercados ocorrida em 1983, com um duplo alvo: O governo, que provocava a diminuição contínua do valor real dos salários através dos reajustamentos menores do que a inflação, o estabelecimento comercial que alterava os preços arbitrária e galopantemente. Como a medida do valor real do salário está na quantidade de gêneros alimentícios que aquele pode comprar e como é nas compras mensais nos supermercados que os trabalhadores efetuam esse cálculo, os saques foram iniciados no mês em que o feijão e o arroz sofreram um aumento de 30% sobre o preço anterior. De mais a mais, os saques ocorreram quando estavam em discussão os decretos que determinavam o aumento do salário a uma taxa inferior à da inflação oficial, o que afetava cerca de 70% da população do conjunto da Cidade de Deus. A “revolta” expressa nos saques era, então, dirigida ao governos como uma mensagem: haviam chegado ao limite do suportável e não iam aceitar nenhum sacrifício a mais em nome da crise ou dos interesses da nação (p. 161). 35 Sobre o binômio exclusão/inclusão, ver: Kuenzer (2005). Acreditamos que essa política de considerar os interesses, desejos e reivindicações dos trabalhadores pobres como meio de evitar tensões perigosas para a ordem social e de atender a população pobre como meio de controle social, é uma das intenções do Projeto Rio em Forma Olímpico. O referido Projeto apresenta em sua proposta estar focado “nos valores emocionais e educacionais capazes de serem mobilizados pelo esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregar conhecimentos, valores, condutas e comportamentos”. (http://www.rio.rj.gov.br/web/smel). O que seriam “valores emocionais e educacionais capazes de serem mobilizados pelo esporte e o lazer, e pretende através das suas atividades, agregar conhecimentos, valores, condutas e comportamentos”? Como o projeto é realizado? Existe algum acompanhamento do governo para o sucesso dos objetivos desse projeto? De onde vem e como se dá o financiamento para o projeto (instalações, manutenção dos materiais, acompanhamento dos alunos)? Quais são as expectativas dos alunos para a continuidade do projeto após os Megaeventos esportivos? Quais são as expectativas dos profissionais para a continuidade e sucesso do projeto? A partir das contradições identificadas no contexto dos Megaeventos no Rio de Janeiro, desenvolvemos a análise do Projeto Rio em Forma Olímpico, buscando desvelar o que o programa traz em seu bojo enquanto política de educação e/ou de esporte, e o significado que, cotidianamente, vem sendo construído. 4.1.2 – Do diário de campo 4.1.2.1- Primeiros contatos: Durante a estruturação do projeto de dissertação a ser apresentado à “banca de defesa de projeto”, iniciei os contatos com o Projeto Rio em Forma Olímpico. Fui atendida na Secretaria Municipal de Esporte e Lazer (SEMEL/RJ), pelo gestor do Projeto, Marcelo Leite, que me deu algumas informações sobre o mesmo e informações referentes aos horários e locais das aulas, informações estas que estão no anexo deste trabalho. A partir da autorização, via documentos oficiais, da minha Instituição de Pesquisa, a Universidade Federal Fluminense, voltei ao mesmo para dar prosseguimento à pesquisa. Com posse dos dias e horários e endereços das comunidades onde eram realizados os projetos (também no anexo deste trabalho), fui à comunidade escolhida, a Cidade de Deus. Como veremos adiante, esta comunidade é dividida em 14 áreas, sendo, o Caratê, uma das áreas contempladas pelo Projeto Rio em Forma Olímpico. Mas, para a minha surpresa, ao chegar ao Caratê, não encontrei o projeto em atividade. A quadra estava lá, coberta e suja. A quadra fica em frente a sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), mas também, para minha surpresa, não tinha policiais para dar essa informação. Conversei com alguns moradores e nenhum sabia de atividades, alguns diziam: “ah, de vez em quando tem alguma coisa na quadra sim”. Tentei entrar em contato com o professor responsável (professor indicado na planilha de endereços e horários de funcionamento das escolinhas), mas também não consegui contato, pois o celular não foi atendido e o telefone fixo era da mãe do mesmo que disse que o filho não mora lá. Em suma, as primeiras informações não me pareciam nada animadoras, ninguém da comunidade sabia dizer nada sobre o projeto. Fui embora, com a sensação de que nesse contexto de projetos ditos sociais as políticas públicas são encaradas como forma de esmola e por isso aqueles que deveriam ser atendidos por essas políticas, não lutam para ter suas atividades garantidas. Adicionado à falta de controle dos recursos públicos, a escolinha esportiva parece ser listada em um projeto da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, mas não é detectada na comunidade. Fica visível certa a aproximação ideológica com uma concepção não contestatória e sim de colaboração, como se não existisse consciência do direito de reclamar por parte do próprio individuo que está sempre numa situação/condição inferiorizada. Fiquei pensando se daria continuidade ao meu objeto de pesquisa, levantando novas questões para esta pesquisa em função desse novo dado, ou se desistiria do tema. Nos dias que se prosseguiram insisti nas ligações ao professor até ser atendida. A vida de um professor não é nada fácil. Certamente, para garantir sua sobrevivência, trabalha excessivas horas semanais e em diversos espaços. O mesmo me informou que justamente no sábado que fui ao projeto ele esteve doente e não foi ministrar aula. E que os horários das aulas estavam desatualizados na planilha que recebi do gestor. Com a atualização dos horários, voltei à campo. Chegando lá, me deparei com a faixa do Projeto exposta na Quadra e fui conversar com o professor e a enfermeira, responsáveis pelas aulas no Projeto Rio em Forma Olímpico. Para nossa surpresa o professor era meu amigo antigo, o que facilitou a troca de informações. Essa conversa informal me trouxe alguns questionamentos: Para que deve servir uma enfermeira em um projeto como esse? Será esse mais um indício de tratar-se de um "projeto assistencial". Será que é por isso que o denominam de "projeto social"? O Projeto funciona nesses moldes: um professor formado em Educação Física e um staff36, (conforme descrito na planilha de atividades) esse staff é um morador da comunidade que não tem a formação em Educação Física. Nesse caso, a staff é uma enfermeira. Dessa vez a quadra estava limpa. Eles relataram que sempre que chegam lá, estendem a faixa do projeto na quadra (porque se deixar lá, a mesma aparece danificada). Também me relataram que sempre que chegam à quadra, varrem a mesma. O material da aula pode ser deixado na Sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), mas preferem levar e trazer o material todos os dias. Sobre a participação da UPP no projeto, relataram que não há essa participação. O Projeto é marcado para acontecer na Praça do Caratê, numa quadra conhecida como “galpão”, às 3as e 5as das 07:00 horas às 09:00 horas e das 15:00 horas às 17:00 horas e aos sábados das 07:00 horas às 09:00 horas. Constituindo-se de aulas de Ginástica para os adultos e Futebol para os alunos em idade escolar, sendo aproximadamente 1 hora de aula cada modalidade. Os profissionais responsáveis pelas aulas são um professor, que ministra as aulas e uma enfermeira, que faz um acompanhamento das aulas e fornece auxilio ao professor. No anexo 3 deste trabalho, constam as fichas de inscrição dos alunos do referido Projeto, ficha de chamada, ficha de acompanhamento da pressão arterial dos adultos e ficha de planejamento das aulas. Curioso foi que, enquanto conversávamos, a mesma moradora que disse desconhecer as atividades na quadra, foi até o professor, abraçou-o, beijo-o e justificou sua ausência na aula anterior. Compreendemos, assim, que a relação de confiança precisa ser conquistada pelo pesquisador. A Praça do Caratê é um espaço na Cidade de Deus que durante muitos anos, abrigou o tráfico de drogas. É uma área descampada e de barro, onde muitos casebres foram construídos em volta. Segundo relatos dos participantes do Projeto Rio em Forma Olímpico, em 2009, o Governo Federal investiu na quadra que ali se encontra. É uma quadra de futebol de salão, sem marcações e com boa iluminação. Vale citar parte da minha monografia da Especialização em Educação Física Escolar, na qual relato o dia da inauguração desta quadra: Peço licença para ilustrar um dia que presenciei neste ano na Escola Municipal que fica no final da minha rua, na Cidade de Deus. Neste dia, no lugar da aula houve festa. A escola foi contemplada com a equipe do Prefeito Eduardo Paes para a inauguração de uma quadra que, segundo ele haverá 36 Staff refere-se à pessoa responsável por apoiar e dar suporte às atividades desenvolvidas. assistência social e aulas de esportes. Os alunos ficaram muito satisfeitos, com a visita ilustre, com o lanchinho que receberam e sentindo-se assistidos por ganharem festa e promessas de um futuro melhor. Curioso foi ver que a escola recebeu um café da manhã super sofisticado e nos dias comuns não é assim. (CRUZ, 2010, p. 26) Vemos então, o poder público utilizando-se do esporte, reconhecido como valioso na obtenção do consenso popular. Buscando apropriar-se das manifestações populares e culturais proporcionadas pelo esporte, fomentando a idéia de que ofereceriam maiores oportunidades àquela comunidade de participação em atividades esportivas e de lazer. 4.1.2.2 - Embates para a realização do Projeto: a disputa por alunos Segundo o relato do professor, na mesma quadra onde é realizado o Projeto Rio em Forma Olímpico, também mais dois Projetos são realizados. Um constituído de aulas de Volei promovido pelo Serviço Social da Indústria (SESI) e um constituindo de aulas de Futsal também promovido pelo antigo Projeto SUDERJ, agora Projeto Rio 2016. O Projeto Rio 2016, é patrocinado pelo Deputado Estadual Domingos Brazão do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB) e o Projeto Rio em Forma Olímpico, pelo Vereador Luiz Antônio Guaraná, do mesmo partido. Nas aulas do período da manhã o Projeto Rio em Forma Olímpico funciona sem dificuldades, mas à tarde, ambos os projetos disputam o espaço na quadra e os alunos. Dessa forma, no dia da aula, o professor que mais atrair os alunos consegue ministrar as aulas. Os atrativos principais são carisma e uniforme. Esse processo acontece da seguinte forma: os professores chegam, mal se cumprimentam e se instalam. Separam a faixa de seu projeto e o material que será utilizado na aula. Aos poucos os alunos chegam, ou vão passando pela rua, ao se depararem com um dos professores, se aproximam. Assim, a aula começa quando um dos professores estiver com número suficiente para uma aula coletiva. Ainda assim, as aulas naquele local eram inexpressivas, com participação de cerca de 10 alunos. Dessa maneira, notamos que os projetos sociais apresentam-se como um investimento de forte apelo político eleitoral para estes partidos/candidatos. Nesse sentido, observamos que as comunidades passam a ser visadas em virtude das carências detectadas nas comunidades. Carências essas, oriundas do nosso modelo desigual de sociedade. Nesse contexto, podemos nos reportar ao que Paiva (2008) observou ao analisar o Programa do Clube Escolar. Segundo esta autora, a hierarquização social promovida pelo capital e sedimentada por um Estado clientelista que se pauta em ações isoladas, esporádicas e descontínuas, parece não contar com as contradições inerentes ao sistema econômico, que, ao mesmo tempo que se serve de mecanismos cujo papel é assegurar a hegemonia da classe dominante (escola, mídia, projetos sociais), administra outros que buscam se contrapor a estes (partidos, sindicatos, etc.). Além do embate político, podemos destacar outro embate. Devido às exigências necessárias para a participação dos alunos nas aulas (ficha de inscrição preenchida e assinada pelo responsável e atestado médico) e outros fatores que serão mais avaliados no decorrer da pesquisa, não há um controle do número dos alunos. São apenas 8 alunos inscritos no futebol, mas participando das aulas, segundo o professor, tem mais de 20 alunos. 4.1.2.3 - Mudança de local de realização das aulas Na semana seguinte, o professor me ligou dizendo que, em função do baixo número de alunos nas aulas de futebol e da concorrência com o Projeto Rio 2016, o Projeto Rio em Forma Olímpico estava sendo deslocado para outro bairro, a Boiúna, situada na Taquara. Nesse caso, prejudicando assim, as aulas de ginástica dos adultos, que atingiam um público de cerca de 40 adultos que participavam das aulas e mantinham ótimas relações com os profissionais, além da interação desses moradores um com o outro. De posse da lista de endereços e horários das escolinhas esportivas do Projeto Rio em Forma Olímpico, fui à outra unidade do Projeto, situada no centro da Cidade de Deus. Por ser no centro da comunidade não há condução (ônibus), fui de bicicleta (eu tinha lembranças do caminho, pois no ano de 2006, enquanto estava em formação da graduação em Licenciatura Plena em Educação Física, fiz estágio num Projeto Social neste mesmo lugar). Notei no caminho que as ruas em que os traficantes ficavam armados vendendo drogas, realmente não tinham mais esses traficantes. As ruas estavam muito enlameadas, embora não houvesse chovido nos últimos dias; pouquíssimos trechos asfaltados; entulhos de obras nas ruas. Obras da Prefeitura e obras particulares; A grande quantidade de lixo (desde sofá à garrafas Pet) e o derramamento de esgoto no rio, que divide a comunidade, em dois lados também era bastante notável; Outra observação a ser destacada, foram as placas de candidatos. Muitas placas de diversos candidatos a prefeitura e vereador de diversos partidos, expostos pelas ruas da comunidade. Chegando ao endereço, uma quadra ao lado da Associação de Moradores, conhecida como Campo do Lazer, no horário da aula, estava tendo jogo de futebol. Meninos e meninas jogando e os times diferenciados pelos coletes, e um homem apitando o jogo. O professor estava no canto da quadra. Foi fácil reconhecê-lo, pois ele estava com o uniforme de professor do Projeto Rio em Forma Olímpico. Dirigi-me até o mesmo, identificando-me como mestranda, autorizada pelo gestor do Projeto Rio em Forma Olímpico, Marcelo Leite realizar minha pesquisa lá. Ele foi receptivo e disse que aquela aula não era aula do Projeto Rio em Forma Olímpico, pois no horário de sua aula, também havia outra aula que não pertencia a nenhuma instituição e sim um trabalho voluntário que existe ali há mais tempo que o surgimento dos diversos projetos sociais que foram criados diante da efervescência dos Megaeventos esportivos. Também disse que a maioria dos alunos moram mais próximos a área do Caratê e como à tarde também têm mais dois projetos funcionando no Campo do Lazer, as aulas do Projeto Rio em Forma Olímpico acontecem, efetivamente, no Campo do Cruzeiro, outra quadra situada no Caratê. Observamos que a planilha da Secretaria Municipal de Esporte e Lazer sobre as Unidades do Projeto Rio em Forma Olímpico servem apenas como base de informações, pois o funcionamento das escolinhas esportivas dependem de outros fatores que fogem do alcance e do planejamento inicial da secretaria, sendo resolvido ou não pelos profissionais envolvidos. Nesse caso, no Campo do Lazer, as aulas estão marcadas na planilha para funcionar 3as, 5as e sábados, das 09:00 horas às 11:00 horas e das 14:00 horas às 16:00 horas, em todos esses horários sob a responsabilidade de um professor de Educação Física e um morador que não tem a formação de professor de Educação Física, mas atua como tal (na planilha ele aparece como: staff). No entanto, nesta unidade acontece da seguinte forma: 3as e 5as das 10:00 às 11:00 horas no Campo do Lazer, com cerca de 10 alunos assíduos e sob a responsabilidade de professor e do morador e das 14:00 às 16:00h. no Campo do Cruzeiro, com cerca de 30 alunos, entre meninos e meninas, sendo ao as 5as a participação do professor, pois às 3as ele tem outro compromisso. E aos sábados os profissionais levam os alunos do projeto para um campeonato de futebol em ter outras associações e federações independentes do Projeto Rio em Forma Olímpico. A prática de morador ministrar a aula no lugar do professor não é caso especial desse projeto social ou mesmo dessa comunidade. Visto que Melo (2005) revela que para dar funcionamento a Vila Olímpica da Maré, é implementado um programa de esporte chamado Esporte Comunitário. No qual no início desse programa, as aulas eram ministradas por ‘pessoas da Maré’, que de alguma forma já atuavam com esportes na comunidade, fosse tendo “escolinhas de futebol”, organizando campeonatos ou mesmo na condição de diretores de esportes nas associações de moradores. “Assim foram contratados no próprio bairro ou favela para atuarem como professores na Vila Olímpica da Maré (VOM)” (p. 137). Enquanto conversava com o professor, ia passando na rua uma mulher, bem vestida e com equipamentos de filmagem. Ela se aproximou e fez perguntas sobre o que estava acontecendo ali, se era projeto social, aula, etc. Identificando-se como funcionária da área de publicidade da empresa Light, segundo suas palavras, “estava procurando cenários interessantes para fazer um trabalho.” Aos pouco foi revelando do que se tratava sua intenção: era fazer a apresentação de um Projeto de sua empresa, a Light, nesse caso, queria entrevistar o autor do Projeto da Light na frente da quadra, utilizando a imagem dos alunos jogando bola como pano de fundo. Nesse momento, já eram duas estranhas por ali, eu e ela. Então, tanto o professor que estava ministrando a aula, tanto o outro responsável pelo andamento do Projeto Rio em Forma Olímpico, o morador da comunidade, se aproximaram. O professor do Projeto Rio em Forma Olímpico nos apresentou e explicou à eles quem era cada uma de nós. A princípio o professor/morador, o staff, à quem chamaremos de Júnior37 não foi muito receptivo, mas fui firme na minha apresentação, e o professor, à quem chamaremos de Leonardo, ajudou a esclarecer a minha atuação ali e para “amolecer” tive que dizer que também moro naquela comunidade. Usei um pouco da minha experiência de seis anos atrás sobre a maneira de falar, agir. Eles dispensaram a mulher e nós conversamos mais sobre a pesquisa de mestrado ser realizada naquele ambiente. A partir daí, fui ora encarada com desconfiança, ora encarada com esperança de ser ligada a políticos, podendo fazer uma nova parceria. Esse quadro retrata as reflexões sobre as necessidades e expectativas de classe, realizadas por Thompson (1981) para quem a vivência cotidiana de variadas situações 37 Com o objetivo de preservar os nomes dos profissionais, criamos nomes fictícios. Ao professor, chamaremos de Leonardo e ao staff, o morador que atua como professor, chamaremos de Júnior. por uma pessoa ou por um grupo de pessoas pode vir acompanhada de pensamentos e sentimentos que dão certo sentido, certo significado a estas mesmas situações. Júnior relatou que tem um projeto de capoeira para as crianças da comunidade Cidade de Deus, precisando apenas de um apoio político e financeiro. Ele acreditava que esse apoio poderia vir de mim. Em outro momento da realização do meu trabalho de campo, Júnior questionou-me sobre o quanto eu pagaria para estar ali, pesquisando sobre seus alunos (esse último caso, será melhor explicado no decorrer do trabalho, já que optei por escrever esse capítulo, em forma de relato). 4.1.2.4 - Cidade de Deus e de quem mais? Durante a realização da minha pesquisa de campo analisei o livro da Socióloga Alba Zaluar, intitulado A Máquina e a Revolta-As Organizações Populares e o Significado da Pobreza, escrito há 30 anos sobre a vida na comunidade da Cidade de Deus. Zaluar começa descrevendo seus primeiro passos naquela comunidade: Imagine-se estacionando seu carro particular na rua de um bairro de pobres cujo nome permanecia nas manchetes dos jornais como um dos focos da violência urbana, um antro de marginais e bandidos. Você não conhece ninguém que lhe possa indicar os caminhos e prestar-lhe as informações que necessita para mover-se em riscos desnecessários. Você nem sabe muito bem onde procurar o que tem em mente. Conhece apenas um jovem que lhe foi apresentado por um amigo comum, o qual lhe recomendou cautela. (ZALUAR, 1984, p.9) Apesar de já ter se passado 30 anos, senti a mesma sensação da autora, que nos agradecimentos destacou que durante o trabalho de campo enfrentou sozinha as dificuldades, tendo que desenvolver seus próprios métodos de descoberta e sobrevivência num mundo inicialmente desconhecido. A diferença é que a mesma ressaltou a ajuda que teve de muitos membros da comunidade para a realização da pesquisa e eu, talvez por não possuir tanta experiência nessa área e talvez por me deparar com novos dados (que serão abordados no decorrer deste capítulo), não consegui me sentir assim, à vontade durante o trabalho de campo. Zaluar (1984) destaca que suas entrevistas com os moradores foram realizadas quando já havia sido construída uma relação de familiaridade e confiança mútua entre ela e os moradores. Foi isso que possibilitou a liberação do pensamento crítico reprimido que chegava até ela como confidência. Mas deixou claro que o caráter individual das entrevistas não devem negar os processos sociais observados de constituição de formas coletivas de pensamento e ação. A Cidade de Deus está situada entre a Barra da Tijuca e Jacarepaguá, que são dois bairros de classe média e em processo de expansão mobiliária, devido à proximidade dos locais de realização das Olimpíadas de 2016. A comunidade que “nasceu” na década de 1960, como conjunto habitacional para abrigar famílias removidas de diversas favelas do Rio de Janeiro, hoje conta com uma população de 47.021 pessoas, em 15.501 domicílios, divididas em 14 áreas (Instituto Pereira Passos, com base em IBGE, Censo Demográfico (2010). De acordo com os indicadores socioeconômicos da Cidade de Deus, a comunidade vive com: 88,2 % de abastecimento de água adequado; 76,8 % de saneamento sanitário adequado e 89,9 % de coleta de lixo. Esses indicadores também revelam que 15,1 % da comunidade, maiores de 15 anos, são analfabetos. Segundo Zaluar (1984), a comunidade conhecida como Cidade de Deus, era divulgada como um antro de marginais e bandidos. Poucos, de fora se atreviam a ir lá. Essa má fama se deu por diversos fatores como ser um local de baixo poder aquisitivo, pela guerra entre quadrilhas de tráfico de drogas que dominaram a área principalmente a partir da década de 1970, e pela onda de saques aos supermercados, junto a outros grandes conjuntos habitacionais e os demais bairros pobres de grande concentração proletária. Hoje o quadro é outro, hoje a Cidade de Deus e outras comunidades são noticiadas (salvo alguns fatos) como local de povo batalhador, comunidade pacificada (ideia de polícia na comunidade é ideia de comunidade pacificada). Mas as ideias vendidas pelos principais veículos de comunicação e formuladas pelos governos, não são, na maioria das vezes, o que acontece na prática. Na década de 1980, a Cidade de Deus era vista como antro de bandidos, mas a realidade social era muito maior que um local de bandidos, apenas, como mostrou os estudos sobre os significados da pobreza de Zaluar (1984). Atualmente, a Cidade de Deus é vista como local de povo batalhador, mas também há bandidos e bandidagem. Ou seja, há sempre um processo de inversão da realidade sobre os fatos e fatores sociais. Dessa forma, nosso sentimento em pesquisar essa comunidade, se assemelha ao sentimento descrito pela autora, que revelou a importância de se ter a cautela ao pesquisar essa área. O acesso à Cidade de Deus aparentemente melhorou, algumas ruas (as principais) asfaltadas e um policiamento que dá algum tipo de segurança. Hoje muitas pessoas, de fora da Cidade de Deus, frequentam a mesma. Muitas Organizações Não Governamentais, projetos sociais, muita atenção política para o local. Na comunidade que se originou da vinda de outras comunidades 38, os moradores se conheciam entre si e viviam realidade social parecidas. Além disso, antes alguns moradores trabalhavam fora da comunidade, hoje tem gente de fora que vai trabalhar na mesma. E é esse aumento das visitações da comunidade, é que geram um certo medo, uma desconfiança mútua. Pois os moradores se conhecem entre si, mas não conhecem quem está entrando na comunidade e quais suas intenções. Já estão acostumados a serem enganados ou usados para campanhas de benefícios alheios, ou até a ter suas próprias regras de convivência. Outro fator que gera tamanha desconfiança é a relação com a violência. Violência essa que não vem só de bandidos disputando ponto de venda de drogas, vem de várias outras esferas sociais e experiências vivenciadas por eles; vem da omissão do Estado para com os serviços básicos determinados por lei: saúde, educação, cultura e esporte. Vem também do preconceito e da exclusão social. Por outro lado, quem não conhece a comunidade não sabe em quem poder confiar. É difícil saber ao certo quem é quem e o que cada um faz na Cidade de Deus. Por isso é preciso ter cautela. Parece que uma força maior, não quer que a Cidade de Deus seja mal noticiada. Então, os casos de homicídio tem sido abafados, os casos de corrupção têm sido abafados, qualquer caso que venha denegrir a imagem das esferas governamentais na comunidade são abafados. E quem vai confiar em um pesquisador? E qual pesquisador não deverá ter cautela ao pesquisar essa área? Nosso medo foi uma mistura de circunstâncias. O medo do desconhecido, o medo construído pela mídia de difundir a estiguimatização da pobreza e dos pobres, e o medo do silêncio. Seis anos antes da pesquisa, fui convidada à trabalhar num projeto social na Cidade de Deus. Refiro-me ao Projeto Segundo Tempo, realizado pelo Ministério dos Esportes. Naquela época, meus sentimentos se assemelhavam aos da autora Alba Zaluar (1984): O cenário com o qual me deparei não era totalmente desprovido de tranquilidade. De certos ângulos, parecia mesmo um calmo bairro de subúrbio, de intensa vida social entre vizinhos. Meninos correndo ou soltando pipa no telhado, donas-de-casa conversando no portão, homens jogando carteado na birosca, trabalhadores passando a caminho do trabalho e brincando com os conhecidos, os grupinhos na esquina, e tudo mais que já foi eternizado para nós nos sambas compostos pelos artistas populares. Mas a 38 A ocupação da Cidade de Deus ocorreu entre 1965 e 1968, sendo primeiramente invadida pelos flagelados das enchentes de 1966 para depois vir a abrigar oficialmente outros flagelados que vieram a ocupar 930 casas de triagem, isto é, de transição pelo conjunto, juntamente com favelados vindos de 63 favelas localizadas nas mais diferentes áreas da cidade. tensão era visível. Nos bêbados apedrejados, na mulher andando pela rua em meio à indiferença geral e, nas esquinas estratégicas, nos olhares atentos e avaliadores dos adolescentes que se encaminhavam para a vida que denominamos criminosa. Esses sinais de miséria social e moral eram sublinhados pela própria composição material do conjunto: ruas esburacadas, cheias de lama e de dejetos fétidos dos esgotos já arrebentados encaminham os passos de que por ela anda, especialmente as ruas mais interiores, menos freqüentadas (p.10). Além da visão inicial, a autora também descreve como se deu seus contatos iniciais com a comunidade. É possível identificar-se, nesse caso, com a descrição de Zaluar (1984) sobre sua vivência na pesquisa: No início fui poupada pela sorte de presenciar algum dos tiroteios que agitam esse quadro tão freqüentemente. Mas ouvi regularmente os comentários a seu respeito. Sendo estranha, a mulher de classe superior, era natural que despertasse a curiosidade neste cenário. E, sendo novata, ainda não havia aprendido que estar ali dentro, e não nas ruas ou nos ônibus da Zona Sul do Rio de Janeiro, era até certo ponto uma garantia de minha integridade física. Pois se eu estava ali era porque conhecia gente do local. Tinha imunidades morais e sociais (P. 10). Diferente de agora que já carrego comigo toda experiência que vivi no projeto passado e mais o fato de eu estar praticamente sozinha. Tivemos a autorização, e até incentivo, do gestor do Projeto Rio em Forma Olímpico para realizar a pesquisa, mas há uma boa distância entre a gestão e o projeto na comunidade. Compreender como se deu a criação/elaboração do Projeto, as articulações políticas empreendidas, a atuação de seus atores principais, bem como o projeto de sociedade explícito e implícito no mesmo, foi nosso desafio. Para a compreensão do funcionamento do Projeto Rio em Forma Olímpico no Campo do Cruzeiro, descreveremos, nas próximas linhas, os dias mais marcantes do trabalho de campo. *** Na 5ª feira, dia 31 de Maio, fui ao local indicado por eles, o Campo do Cruzeiro, desta vez, de fui carro, tentando me desviar dos buracos, pessoas, cavalos, porcos, carros (carros bem velhos e carros importados) e tratores, nas ruas estreitas, enlameadas e sem sinalização. Cheguei à quadra indicada por eles, e eles e os alunos estavam lá. Enquanto o staff ministrava a aula, eu observava e conversava com o professor. A aula foi composta de aquecimento em volta da quadra, atividades de “educativos39” e aprimoramento das técnicas e jogo. Havia uma ótima integração e respeito do professor e do staff com os alunos e dos alunos entre si. Nem todos estavam uniformizados, embora, todos tenham o uniforme. Segundo o professor Leonardo, os alunos valorizam o uniforme para sair e não para gastar jogando bola. 39 Consideramos “educativos” como movimentos fracionados que o aluno ou o atleta faz para melhorar a técnica do movimento de um determinado exercício. Sobre o uniforme, vemos que a roupa parece ser um objeto de manifestação da condição do indivíduo. Assim, distinguem seu modo de vestir em roupa para sair e se mostrar diferente e roupa para ficar em casa, com os outros nas mesmas condições cotidianas. Conforme Zaluar (1984), referindo-se às barreiras enfrentadas pelos jovens da Cidade de Deus: A barreira mais mencionada é a do preconceito e da imagem negativa dos moradores de locais que são considerados como antro de marginais e de bandidos. Aqui opera a identificação do trabalhador-bandido inversa, pois vem de fora: “vocês pobres são todos perigosos”. Um espelho negativo nesta fase da vida em que as identidades estão mal definidas e que, se eficaz, tornase um fator a mais na inclinação do jovem pelo crime. Um círculo vicioso que atua como obstáculo efetivo à obtenção de emprego e como mecanismo psicológico na construção da identidade do jovem (p. 154). Passados quase 30 anos, podemos dizer que andar com o uniforme do Projeto Rio em Forma Olímpico, ou somente a camisa do mesmo, chega a ser uma questão moral, uma maneira de mostrar virtudes de jovem responsável, de atleta. O espaço que eles utilizam é uma quadra de areia, cercada e com alguns buracos na cerca e descampada. Fica cerca de 200 metros do Rio e de um lixão. O professor Leonardo me informou, que em função do reordenamento da cidade para sediar as Olimpíadas, todo aquele espaço será removido e será construído um pouco mais adiante, uma espécie de clube esportivo para a comunidade. Segundo as informações que ele tem, o espaço de aulas só será removido quando o outro espaço estiver pronto. ***Cheguei às 09:40 h. e a aula ia começar. Tinham oito alunos, apenas um não uniformizado. O professor Leonardo foi ministrar a aula. O Júnior (morador e staff) ficou conversando comigo, o que me impediu de fazer anotações, suas falas me constrangiam e nos deram um certo medo. Ele demonstra desconfiança sobre mim, só “desarma” quando lembro-o que tenho a autorização do Marcelo Leite para estar ali. Uma das suas falas que me constrangeu, foi perguntar quanto eu ia pagar para estar ali, fazendo minha pesquisa. Apesar de ter respondido firme e simpática, o que eu já havia explicado várias vezes que estava ali fazendo minha pesquisa da dissertação de mestrado pela Universidade Federal Fluminense, com a autorização do Gestor do Projeto que ele trabalha, me sentia tolhida pelo Júnior. No entanto, a conversa com ele enriqueceu meus estudos, pois o que ele falava, ainda que numa perspectiva de intencionalidade na sua fala, me fez conhecer um pouco mais da comunidade e o do projeto Rio em Forma Olímpico na Cidade de Deus. Por exemplo, ele me relatou sobre sua preocupação em estar ali, se dedicando aos alunos, em tirá-los das ruas, pois o tráfico está voltando para a Cidade de Deus. Recentemente houve uma invasão da polícia numa favela chamada Jacaré e os bandidos de lá, se refugiaram na Cidade de Deus. Ele mencionou o filme Tropa de Elite II 40para me explicar como se dá o processo de uma comunidade bem policiada abrigar bandidos. Conforme o referido filme e conforme Zaluar (1984), a eficiência das quadrilhas em atrair crianças e jovens para o tráfico é vinculada por eles devido ao prematuro afastamento da mãe e de outros adultos responsáveis. Se pensarmos na nossa realidade, onde cada vez mais cedo precisamos assumir responsabilidades em prol da nossa sobrevivência, em virtude dos afazeres e das responsabilidades inerentes a realidade econômico-capitalista, ou onde, por este mesmo motivo, os pais possuem uma jornada excessiva de trabalho, compreenderemos melhor essa afirmativa. No ano de 2009, a Cidade de Deus foi contemplada, pelo Governo do Estado do Rio de Janeiro, com uma Unidade de Polícia Pacificadora (UPP). Através das Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs), o programa de pacificação nas comunidades tenta promover a aproximação entre a polícia e a população, e fortalecer programas sociais nas comunidades antes negligenciadas pelas esferas sociais como educação, saúde, cultura e segurança. A elaboração, organização e o trabalho da “inteligência” do Programa de Pacificação são feitos pela Secretaria de Segurança. Em princípio, as principais forças policiais do Rio de Janeiro (polícias civil e militar) são subordinadas à Secretaria, mas são principalmente dois departamentos da Polícia Militar que realizam o projeto da pacificação: o Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e as Unidades de Polícia Pacificadora (UPPs). A Cidade de Deus foi a segunda comunidade a entrar nesse processo, sendo a primeira, o Morro Santa Marta. Ao analisar as teorias sociais e os “pobres” como objeto, Zaluar (1984) alerta para tentativas do poder público em desviar das manifestações culturais da pobreza isolando os pobres a criando fronteiras ideológicas entre eles e o resto da sociedade. Acreditamos que essa seja também, a função das UPPs. Acreditamos também que essa seja a estratégia dos projetos sociais nas comunidades de baixo poder aquisitivo. Assim, vemos o esporte sendo incentivado nas favelas como fonte de enfrentamento dos males sociais, onde, como nos reporta Melo (2005) a concepção das políticas do esporte, nesse sentido deveriam voltar suas ações: Para projetos que, objetivamente, possam, em médio prazo, interferir em indicadores sociais, tais como a repetência, a evasão escolar, o envolvimento 40 Tropa de Elite I e II é um filme brasileiro de 2007 e 2010, respectivamente, dirigido por José Padilha, que tem como tema a violência urbana na cidade brasileira do Rio de Janeiro e as ações do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) e da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. de jovens em ato inflacionais, a prostituição, o trabalho infantil e o consumo de drogas (p.144). Não queremos minimizar a importância do esporte na sociedade e nem na vida do cidadão. Mas dessa forma, à ele parece ser atribuída uma função de redenção social, o que faz algumas pessoas terem a impressão de que ao esporte caberia fornecer à sociedade, os segmentos que estão em suas margens. Enquanto conversávamos, uma menina de 13 anos se juntou a nós. Ela havia acabado de acordar e por isso não estava na aula. Perdeu a hora da aula no Projeto porque havia ficado no bar até tarde porque “estava ficando” com um colega que tem namorada. Fiquei observando sua conversa com o professor Júnior que a orientava sobre as questões da adolescência. Em suas falas, não houve incentivo para que ela participasse da aula, também não foi mencionado a importância de praticar esporte e sim cobranças de que se ela não participasse da aula, estaria fora do campeonato. Notamos que o esporte aparece como “salvação” da falta de assistência do poder público, da pobreza entre as famílias, da polícia corrompida e das atrações e facilidades para o tráfico. Mas, nos perguntamos Como um programa com ranço conservador pode, concretamente, ser o portador de uma prática crítico-transformadora? A infância e adolescência são fases da vida, que salvo casos especiais em que as necessidades da vida impõem pular essas fases, é um período de grandes descobertas, amizades, aprendizados, desafios e experiências que constituem a personalidade do indivíduo. Por isso, é importante que o professor lembre que os alunos estão em fase de formação e seus ensinamentos têm grande influência. Quando essa influência ocorre de forma positiva pode trazer ao aluno, além das qualidades físicas e motoras, autonomia e liberdade. Quando negativa, estará contribuindo para colocar mais um cidadão domesticado na sociedade. Também é preciso lembrar que o professor não é o único responsável pela formação do aluno. A família deve ter um papel fundamental em constituir toda e qualquer educação, assegurando a ligação entre o afetivo e o cognitivo, assim como a transmissão dos valores e das normas. Também é importante frisar que é impossível transformar a sociedade sem se estabelecer relações com o poder público. Além do Rio em Forma Olímpico, o Projeto Rio 2016 também acontece naquela quadra, em dias diferentes (2ª, 4ª e 6ª) e os professores Leonardo e Júnior, são professores também desse Projeto. Os alunos são os mesmos. Aos finais de semana conseguem além dos dois Projetos, participar de campeonatos de futebol em outras comunidades. Como os professores são os mesmos e os alunos também, parece não haver um discernimento de um projeto e outro. O Professor Júnior disse estar há dois meses sem receber seu salário referente ao do Projeto Rio 2016. Ele elogia muito um projeto que participava antes do Rio em Forma Olímpico e Projeto Rio 2016 que é o Projeto Centro de Futebol Zico41 que era muito bem estruturado e dava mais condições aos alunos de persistirem nas aulas e de competir com direito a troféus, e medalhas. Criticou o Governo da Benedita da Silva, que no período de 2002, extinguiu vários projetos sociais no Estado do Rio de Janeiro. A remuneração dos professores do Projeto Rio em Forma Olímpico é feita através de carteira assinada, pela Organização Não Governamental denominada Solazer42, que patrocina o Projeto. Nesse sentindo, faz-se relevante as análises de Melo (2005) referente à implementação das ações nas vilas olímpicas, pela Secretaria Municipal de Esporte e Lazer, quando começava a seguir um novo modelo de gestão nesta área. Referindo-se ao convênio com as federações esportivas para gerir cada vila olímpica, por meio dos quais, a SMEL repassa verbas a esses organismos que contratavam cooperativas de mão-de-obra para executarem suas políticas. Assim: A partir das cooperativas, que empregavam moradores locais para executar ações nos projetos, estabelece-se uma relação clientelista quanto às possibilidades de emprego nos projetos, além de representar estratégias de precarização das relações de trabalho por não haver respeito aos direitos trabalhistas. Assim, os direitos como férias remuneradas, 13º salário, licença maternidade, entre outros, não faziam/fazem parte do cotidiano de grande parte dos trabalhadores das Vilas Olímpicas (p.162). As aulas ocorrem sempre da mesma maneira: aula estruturada em aquecimento, com corrida em volta da quadra; contestes (atividades em fila, sequenciadas e ritmadas) e “treino” (passes, exercícios para este esporte, como chutar a bola, cabecear, agarrar); pausa para o lanche; jogo (todos os alunos participam do jogo). A aula termina com uma conversa no final, chamada de “papo cabeça”. Na maioria das vezes essa conversa no final se restringe ao professor interagindo com o aluno sobre os principais acontecimentos recentes do futebol, o professor Júnior procura se inteirar sobre os jogos dos principais campeonatos e cobra dos alunos que saibam sobre isso. Mais uma vez o esporte confere uma dimensão pedagógica voltada para o talento esportivo, pela mística de vencer na vida através do esporte. Isso nos faz concluir que, embora nos discursos e 41 Ele não soube explicar os recursos desse projeto. Pesquisei sobre o mesmo, mas como não existe mais, não achei registros. 42 Ver site: http://www.solazer.org.br/ apresentações dos projetos, se enfatizasse que a formação de atletas não seria o objetivo do projeto, suas preocupações e seus métodos demonstram o contrário. Interessante observar a participação heterogênea, no sentido corporal, dos moradores da Cidade de Deus nas aulas. Alunos com perfis físicos diversos. Altos, baixos, velozes, mais hábeis, mais fortes etc., pensando no esporte como algo profissional, mas também vivenciando o lazer do esporte. Refletindo, nesse sentindo, uma forma de oportunizar a todos que quiserem participar das aulas. Outro dado interessante mencionado pelo professor Júnior, foi seu orgulho de ter participado com seus alunos dos diversos projetos sociais de alguns comerciais ou homenagens a atletas na televisão, como: Homenagem aos 50 anos do jogador de Futebol Pelé (em 2002 no programa do Faustão); comercial chamativo da Copa das Favelas (em 2012); Homenagem ao jogador de Futebol Ronaldinho. E viva o esporte! Sobre os lanches, nem todas as aulas tem lanche, mas água sempre tem. Um galão de água ou garrafa de refrigerante com água, nos quais os alunos se aproximam e bebem com a boca próxima ao gargalo, pois não há copos. Quando há bolinhos ou biscoitinhos, suquinhos, os mesmos são conseguidos por meio de doações de padaria ou mercados próximos. Os alunos comem, são orientados a jogar os restos no lixo, mas ao não jogarem não são chamados a atenção e nem discute-se a importância de jogar lixo no lixo, ou os malefícios de se jogar lixo nas ruas, nos rios. Notamos que ao mesmo tempo que os professores Leonardo e Júnior se dedicam ao que acreditam ser “o futuro dos alunos”, acomodam-se em seus próprios meios, desacreditados com a política brasileira, com os serviços que lhe deveriam ser oferecidos. Demonstrando a aceitação de explorados e esquecidos. Sobre este dado, lembrei das palavras de Zaluar (1984) quando analisou “as teorias sociais e os pobres: como objeto” (p. 35): Conforme a autora: Como objeto de reflexão das teorias sociais, os “trabalhadores pobres”, embora no centro das atenções de muitos, não ocuparam o lugar da renovação ou da transformação. Ao contrário, sobre eles caiu grande parte da culpa pela ausência de mudanças significativas e pela conseqüente estagnação política e econômica nessas sociedades. Sua consciência foi dissecada e qualificada em nome dos anseios por uma sociedade melhor. E a conclusão, salvo variações menores, tem sido a de que sua pobreza coloca obstáculos grandes à sua ação coletiva e autônoma, enquanto grupo social organizado, e à sua visão crítica da sociedade, cujos grupos dominantes empreendem em relação a eles inúmeras estratégias de dominação. Daí, os “pobres” serem presas usuais do próprio imediatismo de suas reivindicações, da fragmentação de seus interesses em demandas paroquiais e das crenças irracionais na sorte ou em lideranças carismáticas na solução de seus problemas. Nas dicotomias presentes nos estudos sobre seu papel político, aos “pobres” urbanos coube carregar o peso do fisiológico em oposição ao ideológico, do tradicional em oposição ao moderno, do atraso em oposição ao avanço, do pessoal particularista em oposição ao impessoal universal e, acima de tudo, do material imediato em oposição aos ideais mais amplos, gerais e prementes da sociedade nacional (p. 35). Nos encontramos, então, diante de uma distorção ideológica derivada da fragmentação da comunidade humana. Os indivíduos que realizam determinada práxis histórica não percebem de imediato as contradições existentes e a estrutura das coisas. Dessa forma, o conhecimento adquirido de imediato no contato com a realidade é o do senso comum e da prática utilitária que servem para socializar e administrar as coisas, mas não proporcionam a compreensão da concreticidade dessa realidade observada. Para Marx (1984) a realidade empírica é uma realidade escurecida pela ideologia, entendida como uma “falsa” consciência que corresponde a um conjunto de idéias especulativas e ilusórias que os homens formam sobre a realidade. Como nos reporta Konder (2002): A distorção ideológica derivaria, assim, da fragmentação da comunidade humana, do fato de os homens não atuarem juntos. A atividade do homem “se torna para ele um poder estranho, que se contrapõe a ele e o subjuga, em vez de ser por ele dominado”. Os seres humanos não podem se reconhecer coletivamente, de maneira imediata, no que fazem. E é a partir desse “estranhamento” que o Estado se estrutura como “figura independente” e assume o caráter de uma “comunidade ilusória” (p. 42). Nesse contexto, acreditamos que seja importante a partir do modo de pensar dialético, que leva em conta o movimento dos pares de forças opostas presentes na realidade, elevar o empírico imediato ao concreto pensado. ***Dia de Chuva Choveu a madrugada e de manhã. Cerca de 10 minutos antes do início da aula, a chuva cessou. Até pensei que não fosse ter aula, já que além da quadra ser descoberta, o acesso à mesma e dias de chuva fica mais difícil devido a lama e ruas às esburacadas. Estava indo e no caminho encontrei o Júnior (o professor morador). Perguntei se não teria aula e ele respondeu que estava tendo aula sim. Cheguei às 09:31 h e o professor Leonardo já estava na quadra com seis alunos, jogando o que na nossa cultura popular chamamos de “altinho”43. Sentei num banquinho do lado de fora da quadra e fiquei assistindo a aula. Às 09:50h o professor Leonardo deu inicio a um trabalho de técnicas, reproduzindo os exercícios mais importantes no futebol. Nesse momento chegou o professor Júnior. A 43 Atividade que envolve os fundamentos do futevôlei para a prática em círculo, sem número determinado de jogadores, com o objetivo de não deixar a bola cair, mantendo-a sempre no alto - daí a origem do nome. presença dele, sempre me inibe porque ele não entende minha função ali ou finge não entender. O professor Júnior começou participando da aula, depois ambos ficaram no canto da quadra conversando, mas o tempo todo atentos aos alunos, dando novos direcionamentos, corrigindo, conversando e dando dicas estratégicas de jogo. ***Como as aulas acontecem de manhã e à tarde (no contra turno escolar), nos dias em que eu não tinha aula no mestrado, ia aos dois turnos. Era interessante ver que à tarde o público era consideravelmente maior. Isso se dá porque à noite muitos alunos ficam na rua e não acordam cedo. (Cerca de dez alunos de manhã e cerca de vinte alunos à tarde). Ainda que a participação no turno da tarde seja maior, os números são muito abaixo que descrito na propaganda do Projeto Rio em Forma Olímpico, onde informam um número de 34 mil matriculados no Projeto, funcionando em 123 bairros da cidade. Além disso, para uma comunidade do tamanho da Cidade de Deus, que possui 17 escolas públicas, esse número de alunos é muito baixo. A questão do quantitativo real de diversos projetos sociais sempre foi controversa. Nota-se na prática cotidiana que os números oficiais divulgados não condizem com a realidade. Como um projeto de lazer nas comunidades, o Projeto Rio em Forma Olímpico deveria receber os alunos como defendeu Melo (2005) em relação aos alunos da Vila Olímpica da Maré: Não com o argumento de afastar as crianças das ruas, das drogas ou coisa parecida, mas para compreender que a vivência do esporte, das artes, da dança, da música e das outras práticas culturais é elemento indispensável à formação humana, implicando um projeto educacional ampliado. Não por seu ‘potencial salvacionista’, não por ser um disciplinador da infância e juventude, mas por ser um direito de fruição cultural do/no lazer. P. 151 Para ir à Campo nos dois turnos, passavas por determinadas ruas quatro vezes. Num dia o dono de um bar me parou, perguntou o que eu procurava ali. Por precaução eu levava o caderno em branco e as anotações que fazia, arrancava do caderno e deixava em casa. Nesse sentindo, vale mencionarmos a observação de Marx (1986) de que os verdadeiros problemas da humanidade não são as idéias errôneas, mas as contradições sociais reais e que aquelas são conseqüência destas. Zaluar (1984) nos atenta para as questões de socialização, que cabem à família diante do aumento da mesma e conseqüentemente da renda familiar, onde ocorre um afastamento dos pais num momento em que suas presenças são cruciais na formação de seus filhos: “Dada sua posição de principal agente da socialização, acabam por deixar os filhos longe de seu alcance e controle” (p. 96). Assim, crianças e adolescentes ficam mais expostos à outras atividades, seduzidos até pelos traficantes em troca de serviços com alguma remuneração, e longe da atividade educadora dos adultos. Observamos que nesse contexto, paira a ideia de uma linearidade entre a falta de opções de lazer e o ingresso dessas crianças e adolescentes em atividades criminosas. Conseqüentemente, paira a ideia de que o esporte, por si só, poderia coibir a entrada dos favelados no crime, como nos reporta Melo (2005) sendo “uma espécie de analgésico social, sempre numa perspectiva conservadora de controle social” (p. 82). Nos dias de muito Sol a presença na quadra chegava a ficar desagradável, mas acho que essa opinião é só minha, pois as aulas aconteciam normalmente. Digo desagradável porque o calor fazia com que o cheiro podre do rio aumentasse, e a sensação térmica era muito ruim. A quadra era descoberta, mas os alunos e professores estava lá, nada os tirava da aula. Os animais iam mais às ruas, certo dia, pisei nas fezes de um animal e nem soube identificar de que animal era. Se era do cavalo, se era do porco, do cachorro ou de gente, pois a quadra em si, era fechada, mas à volta não. Participar da aula parece tão bom para os moradores que um aluno de 12 anos que não tinha com quem deixar a irmã mais nova, de cinco anos, a levou junto, deixou-a sentadinha lá esperando a aula acabar. A prática de deixar os filhos pequenos com irmãos mais velhos é usual nas famílias de baixa renda, dada a necessidade de os responsáveis trabalharem fora para atender às necessidades da família, devido ao não investimento do poder público na educação, ou seja, a falta de assistência estatal, e dada não condição financeira de um pai ou uma mãe deixar seus filhos numa instituição de formação, seja um curso, uma escolinha esportiva etc. Assim, o projeto mostra-se importante para a comunidade não somente porque colabora no desenvolvimento motor e social dos participantes, mas também pela oportunidade de pais poderem deixar seus filhos enquanto realizam outras tarefas. A relação dos professores com os alunos, dos alunos com os professores e dos alunos com os alunos são de respeito e confiança. Os professores têm a preocupação com o “tirar os alunos das ruas” e o objetivo de “formar campeões”. Entre eles é visível a crença que se tem de vencer na vida através do esporte. O desejo de ficar famoso não só na comunidade era notável, principalmente na forma que levavam a sério cada etapa das aulas, bem como os outros processos envolvidos nesse contexto, como exame médico, jogos aos finais de semana (como já dito, esses processos se misturam a outro projeto social, não se prendendo ao Rio em Forma Olímpico). Nesse sentido, é válido nos reportamos a Melo (2005) que ao analisar o processo de implantação da Vila Olímpica da Maré, destaca que: Nessa concepção fica a impressão de que a juventude pobre tem quase uma tendência “natural”, um destino inevitável, a enveredar-se pelos caminhos das drogas e dos crimes, e que as políticas de esporte e lazer seriam relevantes para tentar “livrar” esses jovens desse “destino”. Uma visão preconceituosa, que tende a considerar o jovem pobre como sinônimo de criminoso em potencial (p.81). Também, observamos que na busca pela formação de atletas ou pela oportunidade de vir a ser um monitor do projeto, estão presentes elementos que buscam introduzir uma noção de empregabilidade na educação, como forma de justificar a inserção ou não do trabalhador no mundo do trabalho. Entendemos que os discursos ideológicos/assistencialistas de oferecer ao pobre oportunidade de emprego, ensinar uma ocupação, são tão bem feitos que nem todos conseguem enxergar o quanto vivemos numa sociedade segmentada. Sentimos falta de diálogos ou atividades mais transformadoras desta realidade social. Ou seja, senti falta de atividades dotadas de “sentido/significado onde se interpenetram, dialeticamente, a intencionalidade/objetivos do homem e as intenções/objetivos da sociedade” (SOARES, ET AL, 1992, p. 62). Não do diálogo em si, mas em vários momentos vimos que os professores tinham a oportunidade de conversar com os alunos, questões que agregassem valores às vidas deles fora do futebol, mas o foco de todas as aulas era apenas tecnicista. É possível completar a essa afirmação com a afirmação de Marinho (1983) destacando que não se deve excluir o desenvolvimento da aptidão física das preocupações da Educação Física e nem o desenvolvimento de habilidades motoras por intermédio dos jogos e esportes. Correr-seia o risco de descaracterizar a profissão. “O fundamental é que se compreenda que essas atividades são meios e não fins” (p. 89). De acordo com as observações de Medina (1989): Uma Educação Física preocupada exclusivamente com seus objetivos particulares, e conseqüentemente, desvinculada de suas finalidades mais gerais, não pode estar atendendo as nossas necessidades mais caras. Uma EF assim delineada estará procurando cuidar de um corpo isento de suas totais significações e, portanto, mentindo ao homem integral (p.64). Na nossa avaliação, todas as aulas eram bem estruturadas, mas com esse foco único de evitar que as crianças entrem nas drogas e com a formação de atletas. Quando um aluno se machucava o professor Júnior o tirava da aula e mandava sentar até passar a dor; também quando um aluno desrespeitava outro aluno ou as regras da aula, os professores o tiravam da aula. Notamos que algumas experiências são limitadas ao comando dos professores, que, em alguns casos, estão limitados às imposições da mídia, obedecendo aos padrões da sociedade, impostos pela cultura capitalista, formando cidadãos padronizados, domesticados, limitados e sem o conhecimento da sua própria história. Observamos que o professor é um trabalhador que vive em sociedade e compõe um coletivo social. De acordo com Malina e Azevedo (2011): Estas condições levam o professor a se sujeitar, seja com maior ou menor consciência, a exercer seu ofício muitas vezes sem critério teórico metodológico, tendo um grau de exigência que chega a ser desumano para com os atletas em formação (p.17). Citando Marx, esses autores completam que “diante da incompreensão da função social do seu trabalho, esse trabalhador re-produz uma prática alienada e alienante.” (p.17). Ainda de acordo com esses autores: No caso do professor é especialmente preocupante porque reduz a sua capacidade de intervenção diante do que deve ser produzido, por que, para que, como, quando; tornando incompreensível para si a função social do trabalho pedagógico que exerce. A capacidade de discernimento para produção de condições emancipatórias de vida humana também fica comprometida. (p.17). Diante das reflexões trazidas no decorrer deste trabalho, unindo formulações sobre o materialismo histórico e debatendo acerca da realidade brasileira, compreendemos que o Projeto Rio em Forma Olímpico não é fruto das conquistas e afirmação de um direito social, no caso o esporte e lazer, mas sim fruto da atuação de entidades caridosas que financiavam os projetos. No entanto, concordamos que tal projeto atenda uma parcela mínima da Cidade de Deus, tendo sua importância nas dimensões. Enquanto formação individual desenvolve as potencialidades humanas, bem como força, velocidade, coordenação motora, podal, fina, destreza, etc. e enquanto formação social ajuda o cidadão a estabelecer relações com o grupo a que ele pertence e o permite vivenciar as práticas da cultura corporal. Portanto, ainda que em caráter contraditório, o Projeto Rio em Forma Olímpico na Cidade de Deus é uma oportunidade de prática de atividades físicas e convívio social sob orientação de um profissional de educação física para crianças e adolescentes que geralmente não tem oportunidade de vivenciar práticas esportivas ou qualquer outra atividade cultural, fora da comunidade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Neste trabalho procuramos analisar as contradições da relação capital-trabalho que se evidenciam no processo de preparação da cidade do Rio de Janeiro para a realização da Copa do Mundo de Futebol e das Olimpíadas, os chamado Megaeventos esportivos, que acontecerão em 2014 e 2016, respectivamente. Em especial, buscamos compreender as formas pelas quais essas contradições se manifestam nas grandes obras, nos investimentos para desde a infraestrutura da cidade até escolinhas esportivas. Tendo em vista que esse processo é um exemplo de atuação/reprodução da mundialização do capital, pois o capital se reproduz e reproduz a força de trabalho através de diferentes estratégias, compreendemos que as contradições capital e trabalho são inerentes ao modo de produção capitalista. Assim, as políticas sociais, inclusive as assistencialistas, tendem amenizar tais contradições. Verificamos que assim como a falácia das conquistas sociais, os Megaeventos esportivos se inserem num projeto de marketing que envolve grandes corporações capitalistas no intuito de mascarar o que é de fato a sua essência: ideologia, segregação e desigualdade social. Durante toda a dissertação e no momento de finalização dessa dissertação, encontram-se em efervescência os aspectos degradantes do processo de reordenamento da cidade, e desocupações de famílias e atletas de suas moradias e locais de trabalho e de locais de treinamento, respectivamente. Assim, discursos do crescimento econômico e social, tem tomado a frente do desenvolvimento esportivo ou sociocultural ou socioterritorial. Nesse sentido, na nossa concepção de sociedade, de cidade, é de uma cidade não segmentada, uma cidade de direito, governada por todas as pessoas. Defendemos investimentos sim, mas investimentos que venham trazer melhorias, principalmente para quem vive (e/ou sobrevive) no Rio de Janeiro. Uma cidade boa para os Megaeventos esportivos tem que ser boa para quem habita diariamente nela. Adotamos o referencial materialista histórico por acreditarmos que a relação trabalho-educação é construída histórica e socialmente pelos seres humanos, e que esta construção é condicionada pelas relações sociais de produção, bem como acreditamos na importante relação recíproca do sujeito com o objeto. Faz-se necessário esclarecer que a presente análise passou pelo filtro de nossa visão de mundo e, em consequência pode não corresponder à literatura que outras pessoas venham fazer do referido projeto. Isso não invalida as contribuições que possa trazer para o campo educacional e do lazer. Dividimos a pesquisa em quatro momentos. Um momento teórico resultante de revisão da literatura que respaldem a condição problemática aqui sugerida, e duas partes empíricas, constituindo-se em trabalho de campo, analisando as ações dos empresários para a realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro, além da análise das contradições entre capital e trabalho presentes em escolinhas esportivas dos projetos sociais que atendem crianças em idade escolar, em especial no Projeto Rio em Forma Olímpico. MANACORDA (1991), em suas considerações sobre o aspecto pedagógico do pensamento marxista, nos aponta o conceito de omnilateralidade, em contraposição a tal perspectiva unilateral de educação. De acordo com o autor, Marx defende uma compreensão totalizante (omnilateral) das relações sociais como um todo e da Educação em particular, rompendo com as limitações ideológicas impostas ao homem na sociedade capitalista. Com vistas a alcançar esta compreensão omnilateral, almejada por nós, portanto, faz-se relevante analisar brevemente o quadro atual em que se encontra história da educação brasileira e suas implicações sociais, tendo como principais pontos de partida a construção e a manutenção da hegemonia das classes dominantes. No caso específico da Educação Física e dos Esportes no Brasil, a atual dissertação partiu da hipótese de que é possível observar uma forma própria de apropriação recente deste processo de subsunção aos paradigmas educacionais da estrutura capitalista: as Olimpíadas de 2016 e a Copa do Mundo de Futebol de 2014, a serem realizadas no Rio de Janeiro, impulsionaram a supervalorização da prática do esporte no âmbito escolar e nos projetos sociais mediados pela Secretaria de Educação e de Esporte e Lazer. Se por um lado o atual contexto de proximidade dos Megaeventos esportivos se refletiu em transformações que só fazem contribuir para o crescimento ou manutenção do controle social como um todo e com ênfase especial ao contexto pedagógico das aulas de Educação Física nas escolas formais e nas escolas esportivas, por outro lado este mesmo Evento pode contribuir (e vem contribuindo) para suscitar uma reflexão crítica a respeito do efeito de eventos desportivos de grande proporção na vida política e social das sociedades onde se inserem. A obscuridade e/ou a falta de aprofundamento nas questões que envolvem a realização dos Megaeventos e na totalidade do sistema político, pode traduzir numa prática social obscura, ultimamente mascarada pela ideia difundida pelas políticas sociais e educacionais e pela grande mídia, de transformação social através do esporte. Ao contrario, podemos e devemos não nos iludirmos com as ambiguidades do direcionamento político das ações do poder público e dos grandes empresários, que vem evidenciando um processo de alienação cultural e esportiva fomentando o pensamento liberal de que apesar do modelo excludente de sociedade, é possível a inclusão de todos, desde que o indivíduo se emprenhe para vencer, independente das circunstancias à sua volta. Buscamos, como nos reporta Gramsci apud NOZAK (2004), fazer com que a dialética materialista histórica torne-se práxis, para um movimento de ação e superação da realidade concreta, para além de sua simples compreensão, superando as posições idealistas, predominantes que se limitavam a interpretação da realidade. Acreditamos que o método da critica da economia política facilita o entendimento da complexa realidade em que se insere a pesquisa, já que busca ultrapassar os dados empíricos dessa realidade fenomênica. Diante do que foi exposto neste trabalho, sobre as contradições dos Megaeventos, grandes empresas em parceria com o poder público lucrando e o povo continuando oprimido, sobre as manobras do sistema político em sucatear a educação, e, sobre mídia e as políticas públicas, “educando” a sociedade para os moldes da hegemonia dominante, parece que fica claro o papel social dos projetos sociais. Acreditamos que os projetos sociais venham desvalorizar a luta de classes, sendo uma espécie de amortecedor de conflitos. É importante ressaltar que sendo ou não, esse papel social do projeto, o professor ou o responsável pela unidade pode, em seu trabalho, desvelar as contradições sociais, e ser mais do que um formador de atletas. O professor pode ir além de um transmissor e/ou reprodutor de valores consensuais, podendo ser um formador de indivíduos conscientes acerca das contradições que o cercam, crítico dos valores estabelecidos e transformador da ordem social. Nesse sentido Frigotto (2005) nos atenta a redefinirmos o papel do professor, nos desafiando para que: Não nos reduzamos a meros professores, mas nos constituamos em educadores, dirigentes e organizadores. Trata-se de articular os processos educativos, em todas as esferas da sociedade, a um projeto de sociedade inclusiva, solidária e radicalmente democrática. Isto tem como exigência o esforço de articular organicamente as relações pedagógicas específicas da escola com as dimensões pedagógicas das relações sociais de produção, as relações políticas e culturais. Isto implica lutar, no plano político, por um Estado que governe com as organizações da sociedade e para a sociedade e não em nome da sociedade, sem a sociedade e contra as maiorias. A construção da sociedade inclusiva e uma educação humanizadora não são feitas sem luta, clareza política e organização social (p. 25). Observamos que boa parte dos projetos sociais esportivos, criados nesse processo que antecede a realização dos Megaeventos esportivos no Rio de Janeiro, apresenta uma proposta que, no discurso anunciado comunica a necessidade de uma prática social emancipatória. Mas se não somos indivíduos emancipados em outras esferas sociais, não podemos nos emanciparmos através de projetos sociais patrocinados, justamente pelo poder dominante. As considerações apontam para ambiguidade do Projeto Rio em Forma Olímpico, sendo mais evidente o fato dele anunciar que seus objetivos estão voltados para “a construção da cidadania”, sem trabalhar sob uma perspectiva gnoseológica e/ou filosófica, uma teoria revolucionária que, quando esses indivíduos dela se apropriem, se transforme em força material. No caso das escolinhas esportivas com proposta de formação de atletas, seria mais justo uma proposta que viesse dar oportunidade ao aluno de participar/vivenciar práticas esportivas que além de colaborar significativamente no desenvolvimento afetivo, cognitivo e motor do ser humano, fazem parte da nossa cultura, independente da classe social? Seria mais justo, no lugar de promessas de ascensão social encoberta pela ascensão esportiva, ou seja, no lugar criar no indivíduo a ilusão de se tornar um atleta especializado deixar que isso aconteça (ou não) naturalmente? Evitando frustrações e/ou uma possível inversão de valores na busca exacerbada pela vitória, como vemos em diversos campeonatos – uso de dopping, treinamento excessivo prejudicial à saúde, humilhação do perdedor em detrimento da exaltação do vencedor, as rivalidades brutas entre atletas, rivalidades brutas entre torcidas? Por que esses projetos sociais oferecem apenas atividades que não necessitam, ou necessitam pouco, de material e espaço especializado? Não há recursos para diminuir ou quebrar o distanciamento entre as atividades que são praticadas pela elite/filhos da classe dominante? Porque não incluir as crianças, filhas da classe trabalhadora nas atividades esportivas de elite, junto com a elite? O caráter limitado e parcial da oferta de atividades pelos órgãos responsáveis tem direcionado os projetos em detrimento da identificação das necessidades por parte da comunidade que participa de sua construção diária. Também foi possível observar como a questão da ideologia por trás dos Megaeventos esportivos direciona a diferentes praticas sociais e a diferentes metodologias, dependendo da atuação/prática do professor, da equipe pedagógica, por exemplo: pode-se promover uma prática esportiva alienada ou promover/estimular a consciência crítica do aluno através de uma prática desportiva portadora de historicidade, e, portanto, produzida pelos homens sob determinadas circunstâncias. Contudo, verificamos que a questão da ideologia do desejo de ficar famoso. Não é só dos alunos, é do professor. Seja na inocência, seja no senso comum. É relevante lembrar que quando se trata de prática social voltada para os interesses da classe trabalhadora, nada se modifica por decreto, tampouco surge espontaneamente. Necessita-se de conhecimento político que fomente o reconhecimento por parte da classe de sua força para intervir no processo de libertação das consequências do capital. Isso não ocorre de forma linear, mecânica, muito menos está submetido à leis naturais. Assim como a falácia das conquistas sociais, os Megaeventos esportivos se inserem num projeto de marketing que envolve grandes corporações capitalistas no intuito de mascarar o que é de fato a sua essência: ideologia, segregação e desigualdade. Como observado no 3º capítulo, notamos que os projetos sociais apresentam-se como um investimento de forte apelo político eleitoral para estes partidos/candidatos. Nesse sentido, observamos que as comunidades passam a ser visadas em virtude das carências detectadas nas comunidades. Carências essas, oriundas do nosso modelo desigual de sociedade. Mas, nem por isso, o Projeto Rio em Forma Olímpico deixa de ter sua importância na comunidade da Cidade de Deus. Ou seja, mesmo que esses projetos sociais se constituam de uma concepção utilitarista de lazer e oportunidade de aprendizagem, podem também se constituir uma experiência de lazer e oportunidade para a classe trabalhadora na esfera pública. Dessa forma, identificamos a possibilidade de denunciar/refletir sobre a forma com que os projetos sociais são tratados pelo capital. Por conta de sua natureza crítica e por se tratar do homem inserido numa determinada dinâmica social, estando em constante movimento, transformando à realidade a sua volta e sendo por ela transformado sob condições não escolhidas por ele, este estudo não pretende ser conclusivo, tampouco se apresentar com uma visão única sobre o Projeto Rio em Forma Olímpico. O mesmo pode e deve servir como um meio para compreender as contradições promovidas pelo modo de produção capitalista, e denunciar o que se oculta nas iniciativas instauradas de cima para baixo no campo educacional e do lazer. O que ajudará a revelar a realidade velada por meio da ideologia dos Megaeventos esportivos. Assim, esperamos através deste trabalho termos conseguido facilitar o caminho para o entendimento dos conflitos, interesses, lutas, desafios e possibilidades que marcam o contexto da realização dos Megaeventos esportivos na cidade do Rio de Janeiro. REFERÊNCIAS: ADUFF – Seção Sindical do ANDES-SN / Boletim Eletrônico 02/08/2011 <http://aduff.org.br/_novosite/> ALVARENGA FILHO, J. R., A "Chacina do Pan" e a produção de vidas descartáveis na cidade do Rio de Janeiro: "Não dá pé, não tem pé, nem cabeça, não tem ninguém que mereça", Tese de Doutorado/ UFF, 2010. ARROYO, Miguel. Trabalho-Educação e teoria pedagógica. In: FRIGOTTO, Gaudêncio (org.). Educação e Crise do Trabalho: Perspectivas de Final de Século. Petrópolis: Vozes, 2005. ____________. Educação e exclusão da cidadania. In: BUFFA, Ester; ARROYO, Miguel; NOSELLA, Paolo. Educação e cidadania: quem educa o cidadão? São Paulo: Cortez, 1987. (Questões de Nossa Época, 19). ARTICULAÇÃO NACIONAL DOS COMITÊS POPULARES DA COPA E DAS OLIMPÍADAS, 2012 – Dossie Disponível em: <http://portalpopulardacopa.org.br/> BARBOSA E BARROS, Projeto Rio em Forma Olímpico. Secretaria de Esporte e Lazer, Prefeitura do Rio de Janeiro, 2012. BARRETO, Raquel Goulart; LEHER, Roberto. Do discurso e das condicionalidades do Banco Mundial, a educação superior "emerge" terciária. Revista Brasileira de Educação, v.13, n.39, p. 423-436, 2008. BRACHT, Valter, (1997) Sociologia crítica do esporte: uma introdução – Vitória: UFES, Centro de Educação Física e desporto, (1997). BRUDEHOUX, Anne Marie. Imagens do Poder: Arquiteturas do espetáculo integrado na olimpíada de Pequim, Journal of Architectural Education, vol. 63, nº 2, 2010, pp. 52‑62. CHESNAS, F. A Mundialização do Capital.São Paulo: Xamã, 1996. CRUZ, Juliana Falcão. O. À Procura de Espaços na Educação na Luta ContraHegemonica. In: Seminário Discente da Pós Graduação em Educação - UFF -, 2010, Niteroi. SEMINÁRIO DISCENTE PPGE_DAAT UFF 2010, 2010. FREIRE, Paulo. Pedagogia da autonomia: saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra; 1996. _____________. Pedagogia do Oprimido. Paz e Terra. 44ª. Edição. 2006 FRIGOTTO, Gaudêncio. A produtividade da escola improdutiva: um (re) exame das relações entre educação e estrutura econômica social e capitalista. São Paulo: Cortez, 1989. __________________ Mudanças societárias e as questões educacionais da atualidade no Brasil. Ciência & Opinião, Curitiba, v. 1 e 2, p. 15-28, 2005. GRAMSCI, Antonio. Os intelectuais e a Organização da Cultura. Rio de janeiro: Civilização Brasileira, 1982. __________________.Cadernos do Cárcere, volume 2; edição e tradução, Carlos Nelson Coutinho; co edição, Luiz Sérgio Henrique e Marco Aurélio Nogueira. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004 . HARVEY, David. O Novo Imperialismo 2. ed. São Paulo: Loyola, 2005. ______________ A condição pós-moderna. São Paulo: Loyola, 2008. Instituto Pereira Passos, com base em IBGE, Censo Demográfico (2010) KONDER, Leandro. O futuro da filosofia da práxis. 2. ed. Rio de Janeiro: Paz & Terra, 1992. _________________. A questão da ideologia. São Paulo: Companhia das Letras, 2002. KOSIK, Karel. Dialética do Concreto. Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1995. KUNZ, Elenor.Transformação didático-pedagógica do esporte. 2a.ed. Ijuí: Unijuí, 2000. KUENZER, Acácia Zeneida. Exclusão includente e inclusão excludente: a nova forma de dualidade estrutural que objetiva as novas relações entre educação e trabalho. In: LOMBARDI, José Claudinei; SAVIANI, Dermeval; SANFELICE, José Luís (Orgs.). Capitalismo, trabalho e educação. Campinas: Autores Associados, HISTEDBR, 2005. LEFBVRE, Henri. A cidade do capital. Rio de Janeiro: DP e A editora, 1999. LOWY, Michel. As aventuras de Karl Marx no país do BarãoMunchausen. São Paulo: Cortez, 2001. MALINA. André, CESÁRIO, Sebastiana. Esporte: Fator de Integração e Inclusão Social? Campo Grande, MS: UFMS, 2009. 164p. MALINA, André. ; AZEVEDO, Angela. O Esporte é um Fator de Integração Social? Apontamentos sobre a relação entre Os Limites do Esporte no Modo de Produção Capitalista e as possibilidades de uma Pedagogia do Esporte para a Formação Humana. In: Colóquio Nacional Marx e o Marxismo 2011: teoria e prática, 2011, NITERÓI - RJ. Marx e o Marxismo: teoria e prática, 2011. p. 02-03. MANACORDA, Mario Alighiero. O princípio educativo em Gramsci: americanismo e fordismo. Campinas: Alínea, 2008. ____________________________. Marx e a pedagogia moderna. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1991. MARINHO, Vitor. O Esporte Pode Tudo. 1. ed. São Paulo: Cortez, 2010. v. 1. 125p . ____________________________. Consenso e Conflito - Educação Física brasileira. 2. ed. Rio de Janeiro: Shape, 2005. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. Manifesto do partido comunista. São Paulo: Escala 2007. MARX, Karl. A maquinaria e a indústria moderna. O Capital. livro 1,vol. 1: RJ: Civiização Brasileira, XIII pp. 423-570, 2002. MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: HUCITEC, 1986. __________. MARX, Karl.Teses ad Feuerbach . In: A Ideologia Alemã I, Feuerbach. 8ª ed. São Paulo: Hucitec, 1992. _____________________. Manuscritos econômico-filosóficos. In: MARX, K. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. 5ª Edição. São Paulo: Nova Cultural, coleção Os Pensadores, 1991. _____________________. O Capital: Crítica da Economia Política. São Paulo: Abril Cultural, Tomo 2. 1984 _____________________. Contribuição à Crítica da Economia Política: São Paulo: Martins Fontes, 1983. _____________________. Para a Crítica da Economia Política. Salário, Preço e Lucro. O Rendimento e Suas Fontes. Coleção Os Economistas. São Paulo: Abril Cultural, 1982. MEDINA, João Paulo. A Educação Física cuida do corpo e... "mente". 8 ed. Campinas/P: Papirus, 1989. MOREIRA, Antonio Flávio; DA SILVA, Tomaz Tadeu. Currículo, cultura e sociedade. 2 ed. São Paulo: Cortez, 1995. MONTAÑO, Carlos. Terceiro Setor e questão social. Crítica ao padrão emergente de intervenção social. São Paulo, Cortez, 2002. MELO. Marcelo. Esporte e juventude pobre políticas públicas de lazer na Vila Olímpica da Maré. São Paulo: Autores Associados, 2005. MÉSZÁROS, Istvan. A Educação Para Além do Capital. São Paulo: Boitempo, 2008. MÉSZÁROS, István. Marx: A Teoria da Alienação . Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1981. NOZAKI, Hajime Takeuchi. Educação Física e reordenamento no mundo do trabalho: mediações da regulamentação da profissão. – Niterói: UFF, 2004. 3 p., 30cm. Tese de Doutorado (Doutorado em Educação) – Universidade Federal Fluminense, 2004. NEVES, Lúcia Maria Wanderley (org.). A nova pedagogia da hegemonia: estratégias do capital para educar o consenso . São Paulo: Xamã, 2005. OBSERVATÓRIO DAS FAVELAS. Legado social do XV jogos pan-americanos Rio 2007- diagnóstico social e esportivo de 53 favelas cariocas. PAIVA, Maria Fátima, Educação e Lazer: uma contribuição à análise do programa Clube Escolar (1993-1997), Universidade Federal Fluminense, UFF, Brasil, 1998. Dissertação Orientada por: Maria Ciavatta Franco. Bolsista do(a): Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior . Palavras-chave: Educação; lazer; trabalho; políticas públicas. Grande área: Ciências Humanas / Área: Educação. PENNA, Adriana Machado. Esporte contemporâneo: um novo templo do capital monopolista – 2011.172 f. Orientadora: Silene de Moraes Freire.Tese (Doutorado) – Universidade do Estado do Rio de Janeiro, Faculdade de Serviço Social. PINTO, Fabio Machado. A Prática de Ensino nos Cursos de Formação de Professores de Educação Física. In: VAZ, A. F.; SAYÃO, D. T.; PINTO, F. M. (Orgs.). Educação do Corpo e Formação de Professores: reflexões sobre a Prática de Ensino de Educação Física. Florianópolis: EDUFSC, 2002. SANTORO, Marco.; TROTTE, Sonia.; Falcão, Juliana. Parceria Universidade e Escola: a formação de professores em Educação Física. In: X ENFEFE, 2006, Niterói. Educação física escolar e lazer. Niterói : UFF, 2006. SANTOS JUNIOR, Orlando Alves dos; GAFFNEY, Christopher; RODRIGUES, Juciano Martins. et al. In: Observatório das Metrópoles. Projeto Metropolização e Megaeventos: os impactos da Copa do Mundo 2014 e das Olimpíadas 2016 Relatório Parcial. Rio de Janeiro. IPPUR/UFRJ, 2012. SAVIANI, Dermeval. O choque teórico da politecnia. Trabalho, Educação e Saúde. Rio de Janeiro: EPSJV, vol. 1, n. 1, mar., 2003. p.131-151. __________________. Educação: do senso comum à consciência filosófica. São Paulo: Cortez: Autores Associados, 1982. SOARES, Carmem Lucia. et al. Metodologia do Ensino de Educação Física. São Paulo: Cortez, 1992. SILVEIRA, Zuleide Simas da.Concepções de educação tecnológica na reforma da educação superior: finalidades, continuidades, e rupturas - estudo comparado Brasil e Portugal (1995-2010). Niterói, 2011. 445f. Tese (Doutorado em Educação). Faculdade de Educação, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2011. _____________________. Contradições entre capital e trabalho: concepções de educação tecnológica na reforma do ensino médio e técnico. 1ª. ed. São Paulo: Paco Editorial, 2010. v. 1. 300p . THOMPSON, Edward. Algumas Observações sobre Classe e 'Falsa Consciência'. In SILVA, Sérgio, (org.). As Peculiaridades dos Ingleses. Campinas, SP: Editora da Unicamp, 2001 ___________________. A formação da classe operária inglesa. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1987. ___________________. A miséria da teoria ou um planetário de erros. Rio de Janeiro: Zahar, 1981. TOMMASI, L. Financiamentos do Banco Mundial no setor educacional brasileiro: os projetos em fase de implementação. In: TOMMASI, L.; WARDE, M.J.; HADDAD, S. (Org.). O Banco Mundial e as políticas educacionais. 2. ed. São Paulo: Cortez, 1998. VENANCIO, Silvana; FREIRE, João Batista. O jogo dentro e fora da escola. Autores associados, Campinas/ SP, 2005. ZALUAR, Alba. A Máquina e a Revolta: As organizações populares e o significado da pobreza. São Paulo, 1894. Sites: <http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S1981-77462006000200012&script=sci_arttext> disponível em: 01/09/2013 <http://globotv.globo.com/rede-globo/jornal-nacional/v/olimpiadas-escolares-cresceme-estudantes-comemoram-sucesso-no-esporte/1947325/> disponível em: 14/05/2012 <http://www.pi10.com.br/portal/component/content/article/57-destaques/1091-copa-nobrasil-custa-mais-caro-que-as-tres-ultimas-edicoes-somadas> Disponível em: 29 de junho de 2011 <http://forum.esporte.uol.com.br/COB-quer-militarizar-o-esporte_t_312765> Disponível em: 7 de julho de 2011 <http://www.rio.rj.gov.br/web/smel> Disponível em: 10 de março de 2012 <http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html> 2012 <http://pt.fifa.com/mm/document/tournament/ticketing/01/53/63/65/2014fwcticketing_q uestions_version2_findocallcomments_11-02375_105_en_pt.pdf> Disponível em: 22 de março de 2013 http://pt.fifa.com/confederationscup/organisation/ticketing/news/newsid=2014104/index .html Disponível em: 20 de março de 2013 <http://esporte.uol.com.br/rio-2016/ultimas-noticias/2012/10/19/governo-federal-daisencao-de-r-38-bilhoes-a-organizadores-da-olimpiada-de-2016.htm> 19/10/2012 <http://www.transparenciaolimpica.com.br/desenvolvimento_social.html> em: 2011; 2012 e 2013 Disponível <http://www.rio.rj.gov.br/web/smel> Disponível em: maio de 2012 <http://globoesporte.globo.com/ba/noticia/2012/10/lembra-dele-longe-das-piscinasedvaldo-valerio-tenta-fortalecer-natacao.html> Disponível em: 07 de outubro de 2012 <http://www.rj.gov.br/web/seeduc/exibeconteudo?article-id=1045928> Disponível em: 08 de novembro de 2012 <http://www.solazer.org.br> disponível em: maio de 2012 <http://uppsocial.org/territorios/cidade-de-deus> Disponível em Fevereiro de 2013 <http://globoesporte.globo.com/platb/folego/10-motivos-para-nao-deixar-de-correr> Disponível em: 2de setembro de 2008. <http://www.petrobras.com.br/selecaoppec/home> Disponível em: abril de 2012 ANEXOS