Karem Pollyana Pereira Neves de Barros
Psicóloga Clínica. Pós-Graduanda em Psicologia Clínica Infantil pela Faculdade do Vale do Ipojuca
(FAVIP),Caruaru, Pernambuco. E-mail: [email protected].
A MENINA D'ÁGUA: UM CASO CLÍNICO À LUZ DA PSICANÁLISE
“O sujeito, se pode parecer servo da linguagem, o é mais ainda de um
discurso no movimento universal do qual seu lugar está já inscrito no
momento do seu nascimento, ainda que somente fosse sob a forma de seu
nome próprio”
(LACAN, 1989, p. 475 apud FARIA, 1994, p.38).
Resumo
O presente artigo propõe-se a relatar o caso clínico, à luz da perspectiva psicanalítica, de uma menina de
pouco mais de dois anos de idade que tinha a hidrocefalia marcando a sua existência. A analisante estava colada à
sua mãe pelo significante água (hidro), numa relação simbiótica na qual participava de um pacto inconsciente
com o Outro materno, de responder ao desejo deste, funcionando, assim, como seu objeto fálico fantasmático. O
processo analítico incluiu a presença das figuras parentais, que foram escutadas analiticamente. Na análise, a
partir da mediação da função paterna, a Menina D'água pode ter a possibilidade de ir elaborando a separação
simbólica da mãe, libertando-se do gozo materno, se inscrevendo num significante do Nome-do-Pai e, enfim,
constituindo-se enquanto sujeito do desejo.
Palavras-chave: Clínica Psicanalítica Infantil. Relação Simbiótica Mãe-Criança. Função Paterna. Separação
Simbólica.
Abstract
This article is going to report the clinical case, in a psychoanalytical perspective, about a girl of just over
two years of age who had hydrocephalus marking her existence. The analysand was glued to her mother by the
significant water (hydro), a symbiotic relationship in which unconscious attending a pact with the Maternal Other
to respond to her desire, functioning, as well as her fantasmatic phallic object. The analytical process included the
presence of parental figures, which were heard analytically. In the analysis of mediation from the father's role, the
Menina D'água may be able to go elaborating the symbolic separation from the mother, releasing from the
mother's joy, enrolling in a significant Name of the Father, and finally while acts as subject of desire.
Keywords: Children's Psychoanalytical Clinic. Symbiotic Relationship Mother-Child. Father's Role. Symbolic
Separation.
VEREDAS FAVIP - Revista Eletrônica de Ciências - v. 4, n. 2 - julho a dezembro de 2011
A MENINA D'ÁGUA: UM CASO CLÍNICO À LUZ DA PSICANÁLISE
1 INTRODUÇÃO
O surgimento da Psicanálise com crianças é marcado por dois registros históricos: “o historial clínico da
fobia do pequeno Hans (1909) e a observação que Freud fez de seu neto de 18 meses [...] (1919), que remete à
experiência do fort-da, em que ele faz referência à questão do brincar como atividade psíquica que indica seu
acesso à simbolização [...]” (SOARES et al, 2008, p. 21). Através do caso do pequeno Hans, relato clínico de um
menino de 05 anos, Freud abordou a questão da neurose na infância.
Na clínica psicanalítica infantil, surgida a partir de Freud, entende-se que o sujeito do inconsciente não
tem idade, que é o sujeito da palavra (RAYMUNDO, 2008). Neste contexto, a criança é percebida como sujeito
do inconsciente, atravessado por uma cadeia de significantes que lhe representa e pelo desejo do Grande Outro.
Esta clínica defende que frente ao conflito que pode advir da relação da criança com as figuras parentais,
ela, para dar conta, pode fazer surgir a solução sintomática como uma saída para atenuá-lo. Ocupando um
determinado lugar na dinâmica familiar, a criança pode ser compreendida como o representante do sintoma
familiar (OLIVEIRA et al, 1994).
Nesse sentido, Lacan (2003 apud SOARES, 2008) compreende que o sintoma da criança responde ao que
existe de sintomático na estrutura familiar, concebendo-o como sua verdade. Ele aborda três verdades: a verdade
do casal parental, a verdade do fantasma da mãe, e aquela de seu desejo quando seu filho encarna o objeto. A
representação é, portanto, de uma dessas verdades (JERUSALINSKY, 1997 apud MORGENSTERN et al,
2008).
Assim, nesta clínica não se busca a supressão do sintoma representado por uma criança, mas, sim,
desvelar o que ela procura expressar a partir dele. O sintoma da criança é, então, uma atuação vinculada aos seus
conteúdos inconscientes, os quais estão diretamente ligados às figuras parentais. Dependendo da dinâmica, esse
sintoma pode vir a ser um real no corpo, ou seja, uma inscrição da letra no corpo em detrimento de um sintoma
metáfora. Cabe, pois, ao analista, por meio de uma atenção flutuante, atentar-se para o sintoma representado pela
criança sem se delimitar para um único aspecto.
Então, a partir do sintoma, a criança é levada para alguém que, supostamente, dará conta dele, uma vez
que a família não encontra mais meios próprios para solucioná-lo. A criança chega ao analista levada por uma
queixa, a qual deverá ser desvelada em demanda (aquilo que está por trás da queixa) como condição para a
transformação. Para tanto, a criança tem de ser escutada e lançada ao seu próprio discurso (doar lugar de sujeito de
linguagem à criança), já que ela vem materializada no discurso do Outro. Esse Outro também precisa ser escutado
(condição indispensável à compreensão analítica de como a criança está representada na trama parental), pois seu
discurso revela os significantes do sintoma que a criança representa, isto é, aquilo que não consegue simbolizar
(OLIVEIRA et al, 1994).
Na psicanálise com crianças, os pais devem, então, ser recebidos e escutados analiticamente, uma vez
que, conforme Salzberg, (2002), é impossível isolar a criança de seus pais ou daqueles que sustentam e cumprem
essa função. O discurso parental é importante, não como simples informe anamnético, mas como revelação das
fantasias e do inconsciente que perpassam a relação parental com a criança.
Esta Clínica Psicanalítica Infantil vem, ao longo do tempo, ampliando seu espaço de atuação e
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intervenção e, com isso, doando lugar de sujeito desejante à criança. Nesse ínterim, o estudo pretende apresentar
um caso clínico de uma menina de pouco mais de dois anos de idade que tinha a hidrocefalia marcando sua
existência, e, que, vivenciava uma relação de colagem com sua genitora. Para isso, busca-se compreender essa
relação simbiótica entre mãe-criança; identificar o significante mestre que perpassa o caso; e demarcar a
importância da presença da figura paterna (lei do pai) na relação mãe-criança.
O estudo de caso, “A Menina D'água”, a que se propõe esse trabalho, é resultado da experiência clínica
vivenciada durante o período de um ano. O processo analítico se deu mediante atendimentos realizados no Centro
de Atendimento Social (CASA), da clínica de Psicologia da Faculdade do Vale do Ipojuca (FAVIP), com o caráter
de atividade curricular para a disciplina de Estágio Específico em Psicologia Clínica de Base Psicanalítica.
2 MÉTODO
No campo metodológico, o trabalho refere-se, quanto aos fins, a uma pesquisa explicativa, porque além
de descrever o caso clínico, explica-o, tornando os seus aspectos clínicos inteligíveis. Quanto aos meios,
configura-se por um estudo de caso por seu caráter de profundidade e detalhamento (VERGARA, 2003). Este
estudo de caso que se intitula “A Menina D'água” é fruto de sessões realizadas na linha de Psicanálise de
orientação lacaniana, no estágio curricular do curso de Psicologia da FAVIP, no qual uma criança de pouco mais
de dois anos foi atendida durante o período de um ano no Centro de Atendimento Social (CASA), da Clínica de
Psicologia da Faculdade do Vale do Ipojuca (FAVIP).
Em relação ao instrumental, foram utilizados recursos lúdicos, como pinturas, desenhos, etc. No tocante
à técnica, foi utilizada predominantemente a associação livre em sintonia com a transferência, atenção flutuante e
interpretação analítica. Em relação aos procedimentos, teve-se, por um lado, a exploração teórica de textos acerca
da clínica psicanalítica e, especificamente, a infantil, e, por outro, a realização de atendimentos semanais. Ambos
os polos, teoria e prática, desdobraram-se a partir da supervisão clínica.
Nosso método de trabalho foi o psicanalítico. Por isso, é pertinente discorrer sobre a compreensão que se
tem da Psicanálise. Nos escritos do Vocabulário da Psicanálise de Laplanche (2001, p. 384-385) há alguns níveis
para conceituar a Psicanálise, entre eles:
Um método de investigação que consiste essencialmente em evidenciar o significado inconsciente das
palavras, das ações, das produções imaginárias (sonhos, fantasias, delírios) de um sujeito. Este método
baseia-se principalmente nas associações livres do sujeito, que são a garantia da validade da interpretação
[...].
A Psicanálise é um método que favorece ao sujeito a consciência do seu material psíquico recalcado.
Portanto, trabalha com os conteúdos latentes, aqueles afetos recalcados que ficam imersos no inconsciente, os
quais “escapam” de lá em forma de sonhos, atos falhos, sintomas, etc., e, que, através da transferência e da
associação livre, são interpretados para possibilitar o insight. Trata-se de “[...] um trabalho que, sob a
transferência e através do discurso, irá buscar os significantes que marcam a história daquele que nos procura. É
desta forma que se fará possível um 'deciframento' do sintoma” (FARIA, 1994, p. 38, grifos da autora).
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A Psicanálise lacaniana trata os sintomas como expressões do inconsciente, e, como tais, não são
extirpados, são transformados simbolicamente. Este viés não entende o sintoma como patologia e busca a sua
implicação pelo sujeito – sujeito do desejo. Ou seja, “o método psicanalítico busca transformar o sintoma de um
sujeito que sofre numa pergunta sobre o porquê, o como e o para quê desse sofrimento” (SOARES et al, 2008, p.
9).
Por esse prisma, é possível perceber que a Psicanálise opera sobre uma fala, própria ao campo simbólico,
isto é, sobre o inconsciente por meio dos significantes que o sujeito carrega em sua história. Parte, então, da
linguagem que resta/sobra, constituindo os processos metafóricos. Assim, “[...] remete-nos, portanto, a um
trabalho com a fala em sua máxima especificidade, com a palavra tomada como significante, com a linguagem e
sua estrutura marcando a presença do inconsciente [...]” (FARIA, 1994, p. 38).
Nas formações do inconsciente, a linguagem é, portanto, constituinte e pode ter, então, valor de profecia
(significante). Isso ocorre quando ela tem um impacto, atingindo o sujeito em sua subjetividade. O significante é
aquilo que marca o sujeito e que é fornecido por meio da fala, principalmente do desejo daqueles que o rodeia –
“O significante é antes de tudo significante da falta no Outro” (KAUFMANN, 1996, p. 473). Por isso, o
significante é, enquanto representante do sujeito e causa de gozo, no cerne da Psicanálise, prevalente.
No método psicanalítico lacaniano, a linguagem e os significantes têm, em suma, papel predominante e
precisam ser investigados. Ou seja, é para o significante que a escuta psicanalítica se volta, de forma que através
da associação livre seja possível o desenrolar da rede de significantes que é interligada com o afeto recalcado e
que desta forma o sujeito tenha acesso à sua verdade inconsciente (QUINET, 2007), tratando o sintoma a fim de
transformar a economia de gozo do sujeito.
Enfim, o percurso metodológico e prático utilizado no caso clínico “A Menina D'água” teve como base os
pressupostos da Psicanálise, a fim de doar lugar de sujeito à analisante, implicando-a em seu processo,
desenrolado sua cadeia de significantes, assim, possibilitando a decifração de seu sintoma (dependência extrema
da figura materna em função da relação simbiótica que mantinha com esta), e, de responsabilizar seus genitores
por seus discursos e suas ações, tornado o obscuro familiar visível e capaz de ser transformado (mudança
subjetiva no enlace familiar). Essa Psicanálise, que lançamos mão, é, como nos diz Rodulfo (1990), antes de
qualquer coisa, doadora de lugar – lugar do sujeito. Uma psicanálise para quem gosta de se surpreender com os
detalhes.
3 ALGUMAS CONTRIBUIÇÕES TEÓRICAS
Inicialmente, é relevante destacar que para a criança, mesmo antes de seu nascimento, há uma história
que a situa em um lugar na família da qual ela fará parte (OLIVEIRA et al, 1994). Há uma trama simbólica na qual
a criança é inscrita antes de nascer e quando nasce já é marcada por uma linguagem, assim, “[...] [a] criança,
mesmo [...] recém-nascida, [...] embora ela ainda não faça uso da fala articulada, já se encontra desde o início no
universo da linguagem, ou seja, desde o início é afetada por ela” (FERREIRA, 2009, p. 75).
Essa criança passa meses no interior do corpo materno e mesmo após seu nascimento ela ainda é como
um fragmento do corpo da mãe. Assim, “a partir do corte do cordão umbilical, a mãe vê um outro em três
dimensões: real que escapa, objeto de suas fantasias imaginárias e continuador de uma filiação simbólica”
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(ARAÚJO, 2009, p. 137).
Nesse estágio inicial de relação objetal mãe-bebê, o que predomina é uma fusão entre os recursos
afetivos, psíquicos e físicos do bebê e a figura materna (SPITZ, 1955-56 apud ARANTES, 2002). Então, para
ilustrar essa relação, Winnicott afirma que:
Nesse primeiro momento, o bebê não se diferencia de sua mãe – ele se encontra totalmente fusionado a ela,
e por isso dizemos que não haveria uma indiferenciação entre eu e não-eu – o bebê tem, pois, a ilusão de
que sua mãe é uma extensão de si; portanto ela é concebida como um objeto subjetivo [...]: 'o bebê recebe
de um seio que faz parte dele e a mãe dá leite a um bebê que é parte dela mesma' (1997, p. 27 apud
CALLIA, 2008, p.139, grifos do autor).
Nesta etapa de desenvolvimento primitivo da criança, a mãe é a figura de suporte da relação amorosa
inicial, sendo, portanto, o objeto de necessidade e de apelo, que ora está presente ora está ausente. À essa figura
que aufere os cuidados maternos à criança, esta mostra sua dependência reagindo com angústia à sua ausência, a
qual é sentida como possibilidade de perda. Por isso, fala Ferreira (2009), a pulsão invocante faz parte das
relações iniciais mãe-bebê.
Conforme retrata Ferreira, (2009), recorrendo a Freud, o princípio do prazer domina o psiquismo no
início da vida e as primeiras vivências de satisfação vão determinar a experiência de satisfação e/ou insatisfação
na ausência do objeto de amor. Logo, a constituição subjetiva da criança encontra seus primórdios nessa relação
inicial entre a mãe e o bebê, durante a qual recebe os cuidados maternos.
Convém lembrar que, na verdade, nesse princípio de vida, a criança, que se encontra simbioticamente
ligada à figura materna, não tem objeto, ela é o objeto dessa mãe (SOARES et al, 2008). Assim, “[...] a relação
mãe-bebê comporta nuances, sutilezas que na maioria das vezes escapam à própria mãe, justo por se tratarem de
algo da ordem do inconsciente, mas que se dão a ver pela maneira como ela [...] concebe a maternidade
[...]”(BARBOSA, 2009, p. 150).
Nesse ínterim, é pertinente trazer uma breve contextualização acerca da constituição dos significantes
nessa fase da vida (infância). Dessa forma, Rodulfo (1990), reflete sobre tal constituição afirmando que o recémnascido não apenas se abalançará sobre o alimento, para tornar-se humano deve lançar-se também sobre o que se
nomeia como significante. É no meio em que vive, isto é, do mito familiar, que a criança retira os significantes.
Portanto, a condição necessária para se ir a busca dos significantes indispensáveis à constituição subjetiva é que
haja Outro enquanto corpo familiar, mito, arquivo, ou seja, que exista algo ou alguém que ofereça significantes,
que dê lugar. Tais significantes supõem mil fios do desejo que a ele convergem – é o desejo que circula no mito
familiar. Por isso não é qualquer palavra, gesto ou ato que se transformam em significante, é preciso ocorrer o
investimento desejante para se conseguir esse estatuto.
O mito familiar é, então, o lugar no qual se vão buscar os significantes que, inicialmente, é o corpo
materno. Dessa forma, tudo que a criança recebe do mito familiar, o qual não é exterior, em primeira instância, é
através do corpo da mãe. Enfim, para Rodulfo, 1990, a criança é inscrita/nomeada pelo Grande Outro que lhe
fornecerá os significantes que podem ou não lhe representar ou representá-la demasiadamente, e, conforme for a
dinâmica familiar, os significantes podem ser de vida ou de morte (destrutivo).
Tudo nos leva a crer que, como diz Ferreira (2009), o destino da criança como futuro sujeito depende da
sua relação com o Outro Primordial, que é aquele que desempenha a função materna. Nesse tocante, é refletido
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que:
[...] a função materna ocorre na medida em que a mãe se oferece como Outro, aquele que possui todos os
significantes, pelo menos no início. [...] a figura materna empresta os seus significantes para a criança e se
apresenta como inseparável, permitindo a formação de uma célula narcísica dentro da qual não há sensação
de falta, como se um e outro estivessem completos (OLIVEIRA et al, 1994, p. 26).
De acordo com essa exposição, na célula narcísica, que entendemos como relação de simbiose, não
existe incompletude e, por conseguinte, não há diferenciação entre a criança e a figura materna. Essa fase
simbiótica caracteriza-se exatamente por um estado indiferenciado entre a criança e sua mãe – a relação primária
é fusional, nesta a criança tem uma percepção da figura materna como parte de si. Trata-se de um processo no qual
a criança parece se oferecer como brinquedo erótico a sua mãe, tornando-a, na fantasia, fálica. Entretanto, a
criança fica a mercê do desejo materno, mas não consegue completar essa falta da mãe porque é uma completude
fantasiada. Visualizamos, então, que “a função materna não é um ato de volição, mas uma operação psíquica
inconsciente, cujos fantasmas maternos atravessam e determinam a conduta materna em relação ao filho”
(BARBOSA, 2009, p. 154). Através dessa operação, a atribuição de significantes é realizada.
A figura materna é muito importante na relação inicial com a criança, mas essa interação requer a
mediação da lei paterna para que seja possível o corte simbolicamente. Se essa lei se faz presente e consegue
realizar uma favorável castração simbólica na relação de colagem entre mãe e criança, sendo aceita e
internalizada, é provável que a criança vá se constituindo subjetivamente de uma forma mais saudável. Para
enfatizar tal importância, é pertinente afirmar que:
Estar sob a lei simbólica é estar sob o vigor da operação simbólica da castração. A lei simbólica é a lei do
pai, do pai conceituado pela Psicanálise. É bom lembrar que Pai, para Psicanálise, é entendido como o
terceiro elemento que irá cortar o vínculo simbiótico entre a mãe e seu bebê, tão necessário num primeiro
momento de uma estruturação psíquica, mas prejudicado se perpetuado. Pai é o representante da Lei. Lei
que interdita a folia inebriante entre a mãe e seu bebê; lei que impede que o desejo materno 'devore' seu
produto; [...] lei que convoca ao desejo, à singularidade, à apropriação do campo simbólico [...]. Lei que
instaura o espaço criador – espaço facilitador das operações simbólicas e criativas – bem como possibilita o
brincar, a aprendizagem, a construção da imagem corporal, as relações sociais e a cultura (TELES
CHAVES, 2009, p. 423).
Em suma, a criança se identifica com o Grande Outro que lhe lança no mundo a partir de seus próprios
significantes. Há uma identificação, como esclarece Bruder (2007), com o traço significante desse Outro
materno. A ele a criança fica alienada, podendo se dizer que ela é capturada pelo significante, ficando assujeitada
à sua primazia (LACAN, 1960/1998 apud BRUDER, 2007).
Conforme essa ideia, é concebível discorrer que o lugar desse Outro, que a mãe ocupa neste momento
inicial, oferece significantes através da linguagem e que o sujeito se submete a um dentre os vários significantes
que lhe são oferecidos por ela. A criança aparece primeiro no Outro, no primeiro significante unário, e sofre,
assim, determinações desse sistema simbólico que é a linguagem. Contudo, a criança necessita, após a fase inicial
de sua existência, separar-se de forma simbólica deste significante unário para constituir sua subjetividade (não
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mais alienada ao Outro materno) e ser inserida no seu próprio universo de linguagem, mas esse processo somente
é possível mediante a intervenção da lei paterna.
4 DISCUSSÃO DO CASO CLÍNICO
A Menina D'água é uma criança com pouco mais de dois anos de idade, filha caçula de uma prole de duas
meninas, que chegou à primeira sessão trazida e comentada por sua mãe. A queixa relatada pela genitora
correspondia à questão de a menina ter hidrocefalia. Conforme o seu discurso, devido a esse quadro clínico, a
menina não interagia com outras pessoas, entre adultos e crianças, somente com ela, a mãe. Também apresentava
medo da cor branca.
A hidrocefalia traduz-se por ser um acúmulo de líquido cefalorraquidiano ou dentro dos ventrículos
cerebrais. Popularmente, é conhecida como líquido na cabeça, água na cabeça, etc. Para fazer o escoamento do
excesso de líquido ventricular se utilizam de medidas como a adoção de válvulas para a drenagem desse líquido.
A hidrocefalia é o que circulava no discurso parental. É o significante que representava a Menina D'água.
A Menina D'água foi submetida a vários procedimentos clínicos desde o seu nascimento até pouco mais
de um ano. Logo de início, foi colocada em sua cabeça uma válvula para o escoamento do líquido. A partir daí, as
internações foram sucessivas (por rejeição da válvula e por outros agravamentos clínicos), e ela chegou a ficar
meses no hospital. Nesse período, em que esteve por um triz, a menina só ficou com sua genitora.
A genitora em determinado momento falou: “[Menina D'água] só fica comigo... quando eu saio, ela chora
muito o tempo todo até eu chegar... só que ela não pode chorar muito por causa da válvula” (o choro gera pressão
na cabeça). Decorrente de tal válvula, ela relatou que todos na família têm muito medo de a criança cair e bater
com a cabeça. Por isso acabam cedendo às vontades e caprichos dela, que chora/grita bastante quando é
1
contrariada. Disse a genitora: “Mas eu trato a [...] [Menina D'Água] igual à Gisele [sua primeira filha]... se não
pode não pode... eu brigo com ela também”. Conscientemente ela parecia acreditar nisso, mas o que se percebeu é
que a criança estava inscrita inconscientemente, a partir desse Outro, em um lugar que ela aceitava como seu
(SALZBERG, 2002).
A criança sempre se colocava na terceira pessoa, parecia ser para ela mesma um ser externo, e isso ocorria,
pelo o que se apresentava no setting, porque até então não havia uma separação entre seu corpo e o de sua mãe –
ela via a si mesma no corpo materno.
Quando convocada a falar, ela dirigia seu olhar à mãe. Ou seja, ainda não estava inserida num discurso
próprio, respondia à linguagem do Outro materno. As trocas de olhares com a genitora eram constantes, os quais
vinham acompanhados da murmuração de expressões entendidas somente pela mãe. Numa relação dual o
repertório particular se fazia presente. Assim, Barbosa (2009, p. 148-149) fala que nessa relação é comum haver o
“manhês”, isto é, a “[...] co-produção mãe-bebê em que a mãe fala e olha para o seu filho de uma maneira especial,
com uma prosódia particular [...]”. Por sua vez, o sujeito “[...] por capturar o gozo que sua presença causa no
Outro, lhe responde com suas vocalizações e gestos [...]” próprios à relação, proporcionando à mãe que goze
falicamente.
1
Os nomes utilizados são fictícios para preservar as identidades dos sujeitos.
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Quando foi pedido à genitora que se retirasse da sala, ela demonstrou apreensão e perguntou se era pra
dizer à criança; quando da afirmativa, ela disse para a menina que iria tomar água e que já voltava 'esquecendo'
sua bolsa na cadeira (ato falho = desejo inconsciente de permanecer lá). Pouco tempo depois, a sessão terminou e
ao levar a menina à mãe, esta parecia aflita e, embora a menina estivesse tranquila, sem uma 'lágrima' no rosto,
perguntou: “Ela chorou?!... ela conversou?!”. O fantasma materno se fez presente!
Em outra sessão, a Menina D'água logo de início falou: “Mãinha tá tomando água”. Novamente a
genitora disse estar tomando água à criança! Mas, a que água essa mãe se referia? Havia um caráter de
equivocidade demarcando o significante água, o qual era definido pelo significante hidrocefalia, mostrando uma
de suas propriedades, a de que um significante se define por outro significante, além da propriedade de repetição,
demonstrado que o significante pertence a uma lei fechada, ou seja, o inconsciente sempre retorna às mesmas
coisas formando uma cadeia de significantes (QUINET, 2003).
Desde o início dos atendimentos, a Menina D'água recorria à pintura como busca por reordenar seu
mundo, sua vivência e a fazia como mensagem dirigida a alguém, expressando a sua relação com a mãe
(SOARES et al, 2008). Enquanto pintava, usando sempre muita tinta – a tinta era utilizada excessivamente – e
sem limite entre as muitas folhas de papel e a mesa, a criança ia representando em seu pintar o registro
simbolizado do seu mundo interno. Então, a brincadeira de pintar metaforizava a relação da menina com a figura
materna, a qual era permeada pelo significante água (líquido). Sendo assim, as pinturas pareciam ser expressões
dos fantasmas que circulavamm essa relação.
Muitas vezes dizia estar pintando um arco-íris e falava: “Painho tá no arco-íris se escondendo no carro...
mãinha se escondendo na janela... tem o sol”. A Menina D'água, na ausência da figura materna, parecia estar se
apropriando de um discurso próprio. Em algumas vezes falava que “tá pintando com branco”, elaborando, assim,
sua questão com a cor branca oriunda de suas várias passagens hospitalares, nas quais, essa cor foi predominante.
Mesmo quando pedia bonecas, falava que estas queriam pintar um arco-íris e assim distribuía folhas para
elas e as mandava pintá-lo. A menina parecia tentar sucessivamente fazer a água ir embora através do arco-íris,
como busca simbólica para libertar-se desse significante, mas havia algo que impedia. Como o arco-íris é
precedido pelo sol, surgindo após a chuva cessar, ou seja, após a água terminar, foi refletido que, como o sol é
símbolo do masculino, urgia na analisante a busca pela figura paterna, que parecia esconder-se naquela materna,
para fazer o corte nesse significante água que a mantinha na simbiose com a mãe.
Em sessão somente com a genitora, esta transpareceu aflição por ter deixado a menina e sua irmã na casa
da avó paterna. E foi para esse processo de deixá-las, especialmente em relação à analisante, que sua associação
discorreu de início. Apesar de ter dito à filha que iria sair e para onde, esperou a menina ficar distraída com
brinquedos e saiu 'escondida'. Quando lhe perguntado como era ter que, por algum tempo, deixar a Menina
D'água sobre os cuidados de outra pessoa, ela respondeu que para ela era 'normal', que não lhe 'angustiava',
porém algo escapava de sua resposta racional e ficava notória a sua aflição.
A genitora falou sobre o fato de a Menina D'água ainda mamar, disse ela: “O peito é para [...] [Menina
D'água] um consolo... só dorme no peito”. Enfatizou que ainda tinha bastante leite e falou que precisava tirar a
filha do peito porque ela era dependente dele, acrescentando: “Ela parece não me ver... só ver o peito”. A menina
se dirigia ao peito como algo pertencente a ela, afirmando que era seu. Através do ato de mamar, a criança se
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mantinha ligada corporalmente à mãe, assim, “[...] se um bebê pudesse falar, certamente diria que o ato mais
importante de sua vida é sugar o seio materno” (ARAÚJO, 2009, p. 37).
Entretanto, esse ato não pode ser prolongado além da necessidade; quando isso ocorre, parece indicar para
a dificuldade que têm criança e mãe de saírem da relação simbiótica. Dessa forma, Eric Laurent (2007, p. 33 apud
CHAVES, 2008, p. 78) aborda através de Lacan, no seminário 11, que “o corte não ocorre entre o seio e a criança,
mas sim entre o seio e a mãe [confronto da mãe com a castração]. Dito de outro modo, o seio se engancha no corpo
do sujeito, e não no corpo da mãe. Esse acoplamento da criança é o seu próprio ser.”
Parece ser o que acontecia com a Menina D'água. Ela era esse acoplamento por não haver separação entre
ela e o peito materno (distanciamento do corpo materno). A analisante tinha seus significantes nesse corpo
materno que lhe 'consolava' evitando seu 'choro' com seu próprio líquido (o leite) e, por conseguinte, não se
defrontava com a sua própria castração. Recordando Lacan (1991, p. 459, apud Meire, 2004), cita que “a
castração é idêntica ao desejo uma vez que desejo é falta”. No caso da Menina D'água, o que se percebeu é que sua
genitora não permitia que a falta se fizesse presente. Ela não se confrontava com a própria falta e, assim, a criança
ficava nesse lugar de desejo materno.
Ao associar livremente sobre sua vida a partir do casamento, a genitora lembrou que desejava muito
engravidar para 'preencher o vazio' de estar longe da família, já que toda ela morava em Recife e a genitora após o
casamento teve que passar a morar em Caruaru. Nesse sentido, Mannoni (1985 apud BARBOSA, 2009, p. 152,
grifo da autora) fala:
[...] na medida em que aquilo que deseja no decurso da gravidez é, antes de tudo, a recompensa ou a
repetição de sua própria infância, o nascimento de um filho vai ocupar um lugar entre os seus sonhos
perdidos: um sonho encarregado de preencher o que ficou vazio no seu próprio passado, uma imagem
fantasmática que se sobrepõe à imagem 'real do filho'.
Para Meire (2004), o falo vem ocupar este lugar vazio, que é para onde a mãe está olhando, como se fosse
um objeto que ela poderia ter e o qual lhe faria completa. Contudo, o falo marca exatamente o contrário, ou seja,
que não existe objeto para tamponar a falta, pois o falo é apenas um significante. Assim, deseja-se que o filho seja
aquele objeto que lhe falta e proporciona a sensação de completude – deseja-se que o filho seja o falo. Essa
vivência de completude (colagem imaginária à ilusão de completude) pode, como lembra Bruder (2007),
transformar-se em simbiose patológica, na qual a mãe toma posse da criança como parte de si para tamponar o
vazio e não consegue desprender-se dela, selando uma mútua dependência.
Em um dos seus relatos, em que falava sobre a história da menina – da gravidez, passando pelo impacto de
receber a notícia (de forma muito confusa e estranha) pelo saber médico de que seu bebê, que até então tinha seu
sexo desconhecido, tinha uma “doença neurológica irreversível”, ao processo de tratamento durante a gestação,
e, posteriormente, aos procedimentos cirúrgicos aos quais a criança foi submetida – a genitora enfatizou o
sucesso da primeira cirurgia para a colocação da válvula (aos dois dias de nascida) e verbalizou: “[...] [Menina
D'água], mesmo depois da cirurgia... com a cabecinha toda enfaixada... 'agarrou-se' no meu peito!”. Nesse
momento, foi lhe dito: “E parece estar agarrada até agora”. Risos da genitora e a afirmativa com um “É”.
Existia entre a Menina D'água e sua mãe uma ligação extremamente forte e, até então, indiferenciada,
configurando uma colagem – relação de simbiose na qual a criança estava no lugar do fantasma materno
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A MENINA D'ÁGUA: UM CASO CLÍNICO À LUZ DA PSICANÁLISE
atendendo ao desejo deste, ou seja, “o desejo é o desejo do outro” e a criança é determinada no seu inconsciente
pelo desejo desse Outro (LACAN apud LERUDE, 1991, p. 132).
Eis que ocorreu uma sessão bem peculiar com a Menina D'água e toda sua família (mãe, pai e irmã). O
genitor até então não havia participado de nenhuma sessão por questão de trabalho e a sua presença era muito
importante. A princípio, representado pela genitora (ela que disse que ele queria saber se a menina precisava ficar
mesmo sendo acompanhada por uma psicóloga), meio tímido e num lugar mais passivo, ele perguntou: “É... eu
queria saber se ela precisa ficar vindo e o que vai ser trabalhado com ela?”. Então foi lhe devolvido: “O que você
acha?”. Ele respondeu: “Eu acho que ela precisa mesmo pra ver se fica mais independente da mãe”. Novamente
questionou-se: “Tornar a menina mais independente é o que deve ser trabalhado aqui?”. Ele disse: “É”. A palavra
do Pai foi aceita, e, nesse exato momento, a queixa cedeu lugar à demanda de análise!
A genitora nada falou diante do pedido do pai por ser introduzido na 'relação dual entre ela e a filha'. Em
outras palavras, parecia que ele gritava: É preciso descolar minha filha dessa mulher para que eu possa ser seu pai!
Mas para ocorrer isso, era ele que tinha função determinante. Embora a genitora tenha comandado a sessão, o fato
de ela trazer o pai à cena enquanto uma atitude sua (ela disse que como o marido estava de férias pediu para ele lhe
acompanhar), foi uma passo fundamental para possibilitar o corte na relação simbiótica.
Ao falar sobre a criança, a genitora disse que ela lhe avisava quando ia fazer cocô, mas quando era xixi não
avisa. Ela estava tentando fazer a menina usar o peniquinho, mas resolveu não forçar porque, como disse o
médico, “o líquido do cérebro desce direto para a bexiga” e “por isso o xixi também passa direto”. Depois de falar
isso, a genitora começou a falar novamente sobre a questão de a menina continuar mamando.
Nesse momento, a criança, que estava pintando, sempre de forma ilimitada, pegou o copo com água que
ali estava por muito tempo sem ser usado e o derramou completamente em cima das pinturas – a Menina D'água
colocou a água abaixo e esta desceu/passou direto! Depois ficou mexendo nas pinturas já molhadas e fez um
'embrulho' com o papel toalha na tentativa de secar a água derramada. Após isso, perdeu o interesse pela pintura e
foi olhar os brinquedos na prateleira. Quando quis pegar um brinquedo, pediu à profissional e a transferência foi
manejada para seu pai. Ficou com este até o final da sessão.
Ainda sobre a amamentação, a genitora lembrou que levou à menina para uma nutricionista e esta a
mandou parar de dar o peito à criança. Disse a genitora: “Mas não é fácil! Ela é dependente do peito”! A menina só
dorme no peito e até pela madrugada acorda querendo peito. Apesar de comer todos os alimentos, a menina
passava horas no peito. Parece que veio à tona não só a dificuldade de a criança soltar-se do corpo materno, mas
deste autorizar essa separação. Assim, “[...] pode ser difícil para aquela [mãe] que não esteja bem posicionada na
estrutura simbólica, abrir mão daquilo que ela supõe completá-la” (BARBOSA, 2009, p. 148). A dificuldade era,
então, de confrontar-se com sua castração.
Em seu discurso, a genitora falou entusiasmada que em sua bolsa não havia nada seu, só coisas para as
filhas: “Eu levo tudo na bolsa porque se elas quiserem alguma coisa já tem lá... levo tudo que é para não faltar
nada!”. Nesse instante, a intervenção se fez presente: “É a mãe que não falta!”. Ela riu, ficou calada por alguns
segundos e disse: “É”.
Nesse sentido, Meire (2004), utilizando-se de Lacan, coloca que é preciso que a mãe seja má, no sentido
de não ser a mãe ideal, porque esta se torna um desastre. “A mãe tem de faltar de alguma forma para que o desejo
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Karem Pollyana Pereira Neves de Barros
possa aparecer [...]. Uma mãe é essencial enquanto faz obstáculo à mãe ideal” (MEIRE, 2004, p. 36). Segundo
ela, é preciso que esse lugar fique vazio para o papel do pai ter sentido. É por este lugar paterno que o pai da
Menina D'água parecia reivindicar – um apelo para barrar essa mãe.
Conforme Raymundo (2008), existem excessos que afetam a existência do sujeito desde os primeiros
momentos da vida. No caso da Menina D'água, o excesso de líquido no seu cérebro se presentificava no excesso
materno na criança, o qual se expressava na sua pintura com tintas. Havia um excesso de tinta demonstrando que
se tratava de um gozo ilimitado, caracterizado pelo recuo da função paterna (RAYMUNDO, 2008).
Nas sessões seguintes, a Menina D'água continuou expressando o excesso de mãe nas suas pinturas. Ela
não se continha em espalhar a tinta pelas muitas folhas e por toda mesa e passou a espalhar em si própria, como se
tentando demarcar o seu corpo. A presença do arco-íris era constante nas pinturas. Em uma dessas, a criança virou
os tubos para ver a tinta cair e com certa satisfação falou: “Tem muita tinta... tem é muita água... tem muita tinta
aqui... a tinta tá caindo... tem muita tinta.... a tinta tá descendo... Menina D'água vai tirar a água do tubo”. Ora
chamava a tinta de tinta, outrora a chamava de água, mostrando a equivocidade do seu significante água e o que a
tinta lhe representava. Quando perguntado onde ela estava (no arco-íris), ela respondeu: “Menina D'água tá na
piscina... tá no mar”.
Quando já não havia mais tinta nos tubos (tudo espalhado), ela pegou o copo com água e o virou/derramou
sobre a mesa com as folhas com as pinturas que lá estavam e disse rindo: “Tem muita água”. Foi lhe perguntado:
“Onde mais tem muita água”? Ela respondeu: “Na cabeça de [...] [Menina D'água]”. Então se indagou: “E a água
do copo passa direto como a água da sua cabeça”? “Passa direto”, disse ela.
Depois de derramar a água, ele espalhou tudo com as mãos por um tempo e em seguida pegou o papel
toalha que ali estava e disse que ia “secar a água”. Esfregando tal papel, falou que ia tirar a água. Ela fez um
embrulho do papel, o espremeu e disse que era uma flor. Mediante intervenção, verbalizou que a flor era dela e
que estava triste: “A flor tá triste”. Perguntou-se, então: “Por que ela está triste”? Respondeu: “Tem água”.
Com outro pedaço de papel toalha, fez outra flor e a colocou dentro da caixa de tintas, disse que estava
colocando no “fundo do mar”: “Menina D'água tá botando no fundo do mar pra mãinha ficar lá”. Ela fechou a
caixa e pôs alguns tubos vazios em cima dela. Parece que a menina tentava manter a mãe colada em si, não
permitindo que ela lhe escapasse. É como se ela estivesse buscando retornar para a vida intrauterina e lá
permanecer imersa, atendendo o desejo materno. Como ela estava sendo a extensão do corpo materno, não podia
distanciar-se dele. Portanto, esse agir da criança trazia algo que era significante para a sua análise.
A menina, após toda essa expressão, começou a chamar pela mãe. Mas antes do encerramento da sessão,
ela pediu para lavar as mãos. E, considerando a questão forte da água nesse caso, a menina foi levada para lavar as
mãos. Ela foi colocada sentada próxima à torneira e esta foi aberta. A menina ficou alguns instantes olhando a
água cair. Colocava e retirava as suas mãos de debaixo da torneira, fechava-a e a abria. Quando se tentava lavar
suas mãos, ela as tirava da água. Nessa dinâmica, em um momento ela fechou a torneira e quando foi aberta, ela
falou: “É pra fechar”! Quando se perguntou o porquê, imediatamente respondeu: “A água é pra mãinha!”. Parecia
surgir um conflito: a água precisava secar, mas não podia acabar porque ela era de sua mãe. Era o significante
água, enquanto líquido (simbolizado pelo leite materno), que mantinha criança e mãe numa relação simbiótica.
Era preciso que uma interdição fosse feita!
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A MENINA D'ÁGUA: UM CASO CLÍNICO À LUZ DA PSICANÁLISE
A genitora cuidava das filhas em função das suas próprias necessidades (seu fantasma). Em uma das
sessões, ela demonstrou muita preocupação em ter deixado sua outra filha do lado de fora e com pouco tempo de
início escutou um choro e pediu para ver se era a criança, e, ao verificar, constatou que a mesma estava tranquila,
sem choro e brincando.
Com isso, se percebeu a dificuldade que essa genitora tinha de se separar um pouco de suas filhas, parecia
que o choro era dela e não das meninas! Essa sua dificuldade foi pontuada, contudo, ela a colocava nas filhas, não
reconhecendo em si. A Menina D'água que pintava, com o constante excesso de tinta, derramou o copo com água
sobre a mesa e suas pinturas. Nesse momento foi pontuado: “A água que passa direto... a água que transborda
como o leite do peito... o excesso de tinta como o excesso de mãe”.
A genitora, meio que surpresa, falou: “É mesmo... eu nunca tinha pensado nisso!”. Em seguida começou a
se queixar da menina por estar apresentando agressividade. Segundo ela, a criança de repente chegava perto dela
e começava a apertá-la. Diante disso, foi falado para a menina: “Parece que você está se sentindo meio apertada”?
A menina olhou para a mãe e riu.
Em mais uma sessão, a menina terminou sua pintura bem mais rápido que de costume e não pediu mais
tinta. Fez o movimento de derramar a água sobre a mesa e jogou todo o material no chão. Tentou secar a água da
mesa com o papel toalha. Foi lhe pontuado: “A água parece que ainda está passando direto”? A menina somente
riu. “De quem é essa água”? “É de mãinha”, respondeu. “E o que ela tem que fazer com água”? “Tem que
guardar”! No mesmo instante, a criança disse que estava secando a água. Então foi lhe perguntado: “Parece que a
água precisa ser secada”? A menina riu e olhou para a mãe. Foi pontuado: “Parece que água tem de ser secada,
mas ao mesmo tempo precisa ser guardada”? A criança riu e nada falou. “É o que acontece com o leito do peito”?
A genitora então falou que o leite estava diminuindo e pergunto-se a menina: “Parece que o leite está secando
como a água que você esta secando agora”? A menina responde: “Menina D'água tá secando”. Ela pediu para
lavar as mãos e disse para sua mãe esperar ali, onde estava, a qual reagiu com um “Tá certo”!
Ao sentir a água que caia da torneira, perguntou-se de quem era a água e ela respondeu que era dela e de
sua mãinha. Quando essa questão foi levada para o setting, a genitora pareceu não entender. Após a retirada da
genitora da sala, a Menina D'água brincou sem usar tinta, ela pediu os brinquedos e bonecos (as) para brincar de
casinha e se utilizou, pela primeira vez, do pronome “eu” (processo de individualização). Ela falou muito durante
a brincadeira, na qual incluiu somente seus pais e ela. Em cada cena da brincadeira, nomeava os personagens e na
última cena deixou seu pai caído no chão e se pôs no colo de sua genitora.
Um movimento importante ocorreu em sessão seguinte, na qual a Menina D'água foi atendida sozinha.
Ela terminou a pintura rapidamente, derramando a água sobre a mesa, jogando o material no chão e tentando
secar a água derramada. Ao papel toalha utilizado para secar a mesa nomeou como uma coruja que estava colada.
Perguntou-se: “Colada como você e sua mãe estão”? Ela sorriu e ficou num movimento de colar e descolar a
coruja da mesa, expressando exatamente seu conflito com a figura materna. Depois, pediu os brinquedos e
bonecos (as) para brincar. Dessa vez, incluiu sua irmã e se colocou junto a esta, deixando os pais juntos. Após essa
cena, não quis mais brincar e começou a dizer que queria a mãe.
Alguns dias após essa sessão, a estagiária recebeu uma ligação de uma funcionária da CASA pedindo para
ela entrar em contato com a genitora da Menina D'água, pois a mesma estava muito aflita porque a criança, depois
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da sessão, estava tendo febre e não queria mais mamar e que, portanto, estava querendo saber o que havia
acontecido. Entrou-se em contato com a supervisora do estágio, a qual orientou a levar todas as questões para o
setting e tranquilizou a situação, afirmando que tudo aquilo fazia parte do processo da criança, por ser difícil para
ela se descolar da mãe. Telefonou-se para a genitora e esta disse que a menina já estava melhor porque havia
'voltado a mamar' e foi lhe dito que tudo seria conversado na próxima sessão, com a presença da criança.
O momento da separação simbólica entre mãe e criança que vivem uma relação simbiótica é bastante
delicado ao trabalho clínico; é permeado por muitos impasses, como, por exemplo, o aparecimento de algum
sintoma somático na criança e a possibilidade, por exemplo, de abandono do tratamento, pelo difícil manejo da
situação (BRUDER, 2007).
A separação entre a Menina D'água e sua mãe denotava-se como problemática, algo a ser conseguido
somente com a mediação da função paterna. Ou seja, a intervenção da metáfora paterna era condição
imprescindível para a possibilidade de separação, e, por conseguinte, para a constituição subjetiva da analisante.
Tal separação era de fundamental importância, pois somente a partir dela é que era possível se vislumbrar o
momento da abertura do inconsciente, no qual se daria o corte nos significantes e a emergência do desejo.
Conforme Soares (2008, p. 38), “[...] a experiência da separação abre à criança uma possibilidade de
vivência [...]” para o seu próprio desejo. Como isso, a criança deixa de ter o seu desejo como desejo do Outro
(BRUDER, 2007). Então, somente por meio da separação (confrontação com a castração) é que a Menina D'água
conseguiria sair do lugar de alienação que o fantasma materno lhe prendia e buscar a parte perdida do seu ser – o
seu desejo.
Mas essa separação não era uma tarefa fácil porque a Menina D'água se apresentava como desejo da mãe,
como o objeto que 'podia completá-la naquilo que lhe faltava', dirigindo-se a esse Grande-Outro que tinha uma
falta e atendendo a indagação: o que o outro quer de mim? (MEIRE, 2004). Neste caso, o seu sintoma
correspondia à subjetividade da mãe. A criança se apresentava como o correlativo de um fantasma materno,
encarnando com seu próprio corpo o objeto da mãe e funcionando como o objeto que tamponava o desejo dela. De
acordo com essa autora, a criança tem que descobrir que não é suficiente para preencher o vazio materno – não é o
objeto adequado para acalmar essa falta. Para ela, se há alguma coisa que possa acalmar essa falta é
definitivamente o Nome-do-Pai.
Na sessão seguinte, a criança apresentou-se de forma descontraída, falando muito e brincando de
maneiras diversas. A genitora relatou o que havia acontecido com a menina (a presença de febre, entre 37 e 38
graus, e o não querer mamar por dois dias – nesse período pediu água na mamadeira e começou a dizer que
chupava chupeta) e o genitor, que estava presente, lembrou que a criança ficou por algum tempo deitada no sofá
olhando tristemente para a mãe (elaboração do luto pelo processo de separação da mãe que parecia se iniciar).
Então, foi pontuado que para a menina não era fácil se soltar da mãe, o que para esta parecia bem difícil
também. A genitora disse que para ela era 'tranquilo' e que apenas ficou preocupada, inclusive perguntou a menina
o que havia sido lhe falado na sessão que a deixou daquele jeito e nada foi respondido. A partir da colocação da
mãe, foram trazidas para o setting alguns dos seus movimentos que diziam o oposto a essa tranquilidade que
falava ter, porém, ela projetava a dificuldade na dependência que a menina tinha dela. Esta lembrou sobre a
questão da agressividade da menina para com ela, o que não ocorria com o pai. Parece que a criança estava tendo
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A MENINA D'ÁGUA: UM CASO CLÍNICO À LUZ DA PSICANÁLISE
que usar da agressividade para limitar o gozo materno.
O genitor falou que percebeu que a menina estava ficando mais com ele, sem o desespero pela mãe, e que
ela estava mamando menos. Quando solicitada a retirada da mãe, está verbalizou um “Tá certo!” e a menina
ensaiou um choro, mas se conteve e ficou com o pai. A partir desse atendimento, ficou claro que a Menina D'água
estava passando por um início processual de se descolar da mãe, a qual a mantinha simbioticamente ligada a si, e
que com a entrada do pai, ainda tímida, a criança podia se expressar mais e utilizar uma linguagem própria e não
ficar tão assujeitada à figura materna.
Entretanto, parecia que a genitora fazia um movimento contrário ao do descolamento entre ela e a criança,
o que pôde ser visualizado no setting. Em outra sessão, a menina seria atendida sozinha, mas a mesma, após
terminar sua pintura, começou a chamar insistentemente pela mãe, chegando a ensaiar um choro. A genitora foi,
então, convidada a entrar à sala e associou sobre as recentes atitudes da menina, como jogar a comida no chão,
morder seus seios e a agressividade, já relatada em momento anterior, o que demonstrava a relação ambígua da
criança com sua mãe (conflito) e com o alimento (extensão do leite materno).
Segundo a genitora, a menina estava exigindo o peito com autoridade e estava falando novas expressões,
como 'porque sim' e 'porque não'. A criança fez um desenho e disse que eram baleias, as nomeando conforme os
sujeitos de sua família (mãe, pai, irmã e ela), deixando a genitora surpresa, tanto por desenhar algo a mais do que
rabiscos e por nomear o desenho. Quando solicitado a retirada da genitora, a menina ensaiou um choro
novamente e não ficou na sala, demonstrando que, mesmo com seu crescimento subjetivo, ainda estava no lugar
do desejo materno, já que este era constantemente reforçado pela genitora.
Percebeu-se, em sessão seguinte, que quando acabava a tinta e que não havia mais água, pois a analisante a
derramava sobre a mesa, ela começava a chamar pela mãe e a chorar. Mediante tal observação, foi lhe perguntado
o que ela achava que poderia acontecer se a água secasse, e ela respondeu: “Mãinha não fica com [...] [Menina
D'água]”. Ela foi questionada: “A água é que liga vocês duas?”. Ela respondeu: “É a água!”.
Assim, viu-se que esse significante água estava, de fato, endereçado ao Outro materno, sendo ele,
portanto, que mantinha coladas criança e mãe. A Menina D'água estava alienada ao desejo inconsciente da mãe
por meio deste significante, o que estava associado (elo associativo) ao peito. Segundo discurso materno, a
menina, após mamar, pedia água muitas vezes, e ficava alternando entre o peito e água. No instante em que a
genitora falou isso, a analisante sentou-se no seu colo, agarrando-a, se esfregando em seu corpo e mexendo nos
seus seios, configurando, assim, um corpo e duas cabeças.
A dinâmica familiar na qual a Menina D'água estava inserida foi, então, aos poucos, sendo apreendida
com mais detalhes. A criança tinha seu significante mestre, água, encarnado no corpo materno, (aquele que se
repetia, mostrando que para algo ser significante, deve se repetir), que ora é um significante de vida, já que lhe
representa, outrora desliza para um significante avassalador/invasivo (RODULFO, 1990).
É interessante perceber que, neste caso, havia movimentos pelos quais se visualizava possibilidades de
uma separação como, por exemplo, o fato de a genitora ter procurado ajuda psi; de, em uma das sessões, ter
trazido, por atitude sua, o pai ao setting; de ter falado em sua busca pela independência da menina, etc. Todavia,
isso tudo ficava no campo consciente, quando o que a mantinha colada à menina dizia respeito a conteúdos
inconscientes, aos seus fantasmas. Ou seja, nada disso era suficiente para haver a separação/descolamento entre
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criança e mãe porque, ao que se mostrava, não havia ainda sustentação simbólica para tal feito, continuando a
indiferenciação.
Uma compreensão possível era que a genitora temia essa separação como temia o fato de a menina por
muito tempo ter ficado por um triz, em que a possibilidade de perda da filha lhe remetia ao seu próprio vazio, a sua
própria falta; a Menina D'água, por sua vez, também temia a separação, e sempre que era exposta a situações que
a representavam, ou seja, que representavam o corte na relação simbiótica com a mãe, era lançada para a primeira
cena traumática, seu nascimento, em que foi separada do corpo materno e submetida a vários procedimentos
clínicos, portanto, dolorosos e causadores de desamparo.
Parece-nos que a analisante estava emocionalmente presa a essa primeira cena traumática, a qual vinha à
tona por meio de elos associativos, fazendo-a reviver a angústia de desamparo, devido aos resíduos deixados,
sempre que confrontada com a possibilidade de separação. Por esse prisma, era preciso despender suporte
emocional não só a criança, mas a sua genitora também. Para tanto, a função paterna era essencial como
sustentação simbólica.
Com algum tempo, a Menina D'água se mostrou mais inserida num mundo de linguagem próprio, o que
poderia ser o corte na relação simbiótica. Todavia, alguns movimentos demonstravam que ela ainda permanecia
colada a mãe. Alguns fatos novos foram introduzidos na dinâmica familiar, como por exemplo, o processo de
escolarização da analisante e a questão de ela ter parado de mamar.
Sobre sua entrada à escola, a genitora relatou que a menina se mostrou super participativa nos
preparativos (compra de material escolar, etc.) e no próprio ritual diário de por a farda, arrastar a bolsa, etc. No
entanto, ao chegar à escola, não queria ficar, chorava desesperadamente, ia para a grade que conduzia à saída e a
balançava, gritando por ela (mãe). A genitora, que já havia ido embora às 'escondidas', era solicitada a voltar à
escola porque ninguém conseguia 'consolar' a menina. Parece que a genitora, com o seu fantasma, passou a
mensagem de que a criança não era capaz de sobreviver à sua ausência (a mãe que não falta), que separar-se um
pouco dela era para a menina algo insuportável, era algo avassalador.
A criança só fazia as atividades escolares se a mãe estivesse com ela na sala, não ficava 'sozinha' sem a
genitora. Era o confronto com a falta, agravada pelo corte do peito. A genitora chegou a ficar chateada com a
diretora da escola por esta lhe denominar de 'superprotetora', e, mediante intervenção, ela disse não se considerar
como tal e que queria a 'independência' da filha. Porém, quando as intervenções se dirigiam na busca por fazê-la
se implicar no seu discurso e no sintoma da filha, ela desviava do assunto, demonstrando a sua própria
dificuldade de se haver com sua falta.
Quanto à questão de a Menina D'água ter parado de mamar, foi preciso, para que isso viesse a acontecer,
que algo externo realizasse o corte radicalmente. A genitora só parou de dar o peito à menina porque precisou
passar por um procedimento cirúrgico para a retira de nódulos na região das axilas e o mastologista determinou
que ela teria que parar de amamentar. Mas, como ela mesma falou, não foi um processo fácil. De início, colocou a
dificuldade somente para a menina, mas depois admitiu que para ela também foi difícil, porém sempre remetendo
o sofrimento maior para a filha, que, segundo ela, ficou muito mal e não dormia direito. Acompanhado a esse
processo, a menina passou a tomar mais água (deslizamento), chupar chupeta (substituição ao sugar do peito), a
tomar mamadeira e a dormir (ainda em berço) no quarto com a irmã e não mais com a mãe.
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A MENINA D'ÁGUA: UM CASO CLÍNICO À LUZ DA PSICANÁLISE
A Menina D'água passou a não querer mais pintar nas sessões (parou de mamar, parou de pintar no
setting) e, em uma delas, brincou com peças de jogo de xadrez. Com uma peça, colocou-a em cima de umas
pinturas que ela trouxe de casa para mostrar e quando a peça ficava grudada, ela falava: “Colou!”. Quando a
tirava, falava: “Descolou!”. Então, entre outras intervenções, perguntou-se: “Como você e sua mãe, que estão
coladas, mas parece que estão começando a se descolar?”. Ela respondeu com um “É”. Após isso, ela rasgou as
pinturas e derrubou o jogo no chão. Com alguns instantes, a menina ficou parada atrás da porta da sala, olhando o
ambiente ao seu redor. Foi lhe dito que para ela realmente parecia não ser fácil se descolar da mãe, ela, então,
começou a chorar e a chamar pela genitora.
Movimentos semelhantes ocorreram em outras sessões. Ao entrar à sala, começava a dizer que queria
“mãinha” e chorava. Ao se ver sem a mãe no setting, se deparava com a falta ainda difícil de ser suportada, revivia
à primeira cena traumática de separação e surgia a angústia de desamparo. Apesar de ser lhe dito que era
importante para ela ficar um pouco sozinha naquele espaço, ela não se continha. O choro, que antes era presente,
mas não de forma tão constante e intensa, surgiu como substituição ao leite. Ou seja, era preciso algum líquido
(água) para lhe manter colada à mãe, na falta daquele do peito, ela estava produzindo as lágrimas. Essa questão
foi colocada para a analisante, a qual chorou ainda mais.
Em um desses episódios, ela pediu para tomar água e quando a genitora lhe levou, ela ficou olhando
tristemente para o filtro (relato da genitora). Essa dinâmica mostrou como era para a Menina D'água se confrontar
com sua própria falta, ela continuava tamponando a falta materna e, portanto, não conseguia se libertar do
significante água que a colava à mãe.
Em uma das sessões, a genitora ao ir falar do Dia da Mulher, disse Dia das mães, cometendo um ato falho
que revelou sua relação inconsciente com a maternidade, a qual veio para 'preencher o seu vazio'. “Dia das
mães?”, perguntou-se. Ela, então, respondeu que se confundiu e que foi a segunda vez que aconteceu naquele dia.
Ao ser indagada acerca do 'vazio' (algo trazido por ela em outra sessão), ela começou a falar que com a primeira
filha não teve muito tempo para ser mãe, por isso delegou muitas de suas tarefas maternas, mas que com a
segunda era diferente. Ela era, com a Menina D'água, uma mãe em excesso para compensar a falta materna na
primeira filha. Isso foi pontuado e, para ela, que até então não havia pensado assim, fez sentido.
Durante as sessões, enquanto a genitora associava livremente, a menina desenhava e, algumas vezes,
brincava de casinha. Nas brincadeiras, colocava os pais deitados na cama com ela entre os dois, colocava-os
deitados em sofás diferentes, com ela ao lado da mãe, colocava a mãe presa dentro do guarda-roupa, etc. Através
dessas cenas, algumas intervenções eram feitas, sempre direcionadas para a colagem entre mãe e filha e a entrada
do pai.
Já nos desenhos, havia a presença dela e de sua mãe, do sol (figura masculina = apelo ao pai) e de uma flor
(aquela que deixava a genitora no fundo do mar). Em um dos desenhos, a mãe estava lhe dando tchau (tentativa de
separação); em outro, ela e a mãe eram a mesma pessoa (presença ainda da colagem); e, no terceiro, elas já eram
pessoas diferentes (voltava a simbolizar a separação); e por fim, a criança e sua mãe tiveram um lugar próprio
(novamente a tentativa de se separar simbolicamente da mãe, fazendo a diferenciação entre elas).
Contudo, apesar dessas tentativas de separação, para a Menina D'água era muito difícil vivenciar esse
corte, havia nela um sofrimento psíquico, o que só podia ser metaforizado pela função paterna. Como
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ressonância, a analisante começou a atuar transferencialmente com certa agressividade, representando sua
insatisfação em ser separada da mãe. Mas, como diz Bruder (2007), a criança atua num campo transferencial e o
analista lê o traço significante. Então, cabia aceitar a transferência e fazer a barreira, mediante intervenção da
função paterna, ao gozo.
Eis que ocorreu algo que demarcaria essa barreira ao gozo, e, por conseguinte, a mudança subjetiva na
dinâmica familiar: o pai foi 'desligado do trabalho'. Esse 'desligamento' surgiu no discurso da genitora, que usou
essa expressão: “Meu marido foi desligado da empresa”. A partir desse 'desligamento', o genitor pôde ser mais
inserido nas sessões, uma vez que ele não podia comparecer com frequência a elas por causa do trabalho.
A Menina D'água, com a presença mais acentuada da figura paterna, mostrou-se bem mais falante, a
referência a si na primeira pessoa tornou-se mais constante e começou a barrar o desejo materno (como, por
exemplo, não aceitava mais que a mãe escolhesse a roupa que ela ia vestir). Com a sua inserção, ele pôde
discorrer sobre sua posição na família, percebendo que até então cedia em suas decisões em prol da vontade das
filhas e da mulher, a qual programava as coisas por ele sem lhe comunicar previamente, bem como, falava
também por ele para as filhas. O lugar de Pai/Lei, estava vazio e, portanto, o gozo materno imperava.
Ele também pôde falar sobre a relação da Menina D'água com a mãe, concluindo que para sua esposa era
muito sofrido deixar a menina mais livre, sem depender tanto dela. Segundo ele, quando falava alguma coisa
nesse sentido para a esposa, ela irritada lhe dizia: “Ah, Marcos, também pra você é tudo fácil!”. Ela de fato dizia
nas entrelinhas que não era fácil pra ela se descolar da menina e abrir mão desse objeto que ilusoriamente lhe
completava.
Ele passou a levar a menina à escola e quando isso acontecia, ela não chorava, se despedia com beijinhos e
passava a aula toda sem chorar. Porém, quando era a genitora que ia levá-la, a Menina D'água quando chegava ao
corredor da escola começava a chorar muito.
Segundo ele, a genitora estava indo às 10h00 olhar como a menina estava mesmo sem ser solicitada pela
escola (ela havia dito em sessão que a professora havia pedido para ela ir) e quando ela chegava lá, a menina
iniciava outra sequência de choro. Ele a mandou parar de ir, caso fosse necessário, alguém da escola lhe chamaria
(a escola é bem próxima a residência da família). Com isso, a Lei se faz presente! O pai começou a limitar o gozo
materno e a fazer o corte na relação simbiótica, possibilitando o confronto com a castração.
O genitor tornou-se mais presente na família, exercendo sua função paterna. Ele passou a levar mais vezes
a menina à escola, e isso se revelou de fundamental importância como suporte simbólico para a criança no
processo de distanciamento do corpo materno. Certo dia, então, ele chegou à sessão muito animado e disse:
“Tenho uma novidade muito boa pra falar! [...] [Menina D'água] não está mais chorando na escola, mesmo
quando Kássia [genitora] vai levá-la! Ela, inclusive, foi a um passeio de trenzinho só com a professora e os
colegas e não chorou, o que antes seria impossível!”
Com o andamento do processo, a menina passou a sentir a falta do seu pai diante de sua ausência e, assim,
a se mostrar cada vez mais descolada da figura materna e, por conseguinte, inserida num mundo de linguagem
próprio, possibilitando-lhe certa independência (começou a fazer muitas coisas sozinhas que antes não
conseguia). A água, (que muitas vezes era representada pela tinta) que passava direto e se fazia presente em
excesso nas sessões, cessou definitivamente e como disse a analisante: “A água secou!”. Com isso, o xixi que
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também passava direto passou a ter outro destino: o peniquinho. Ademais, a genitora também pôde elaborar sua
dificuldade em separar-se da filha e passou a não reforçar mais a dependência da menina em relação a ela.
Assim, o 'desligamento' do pai do trabalho levou ao 'desligamento' entre mãe e criança e ao seu 'ligamento'
à menina – corte na relação simbiótica entre mãe e criança e inserção do Nome-do-Pai. A Menina D'água, então,
pôde iniciar seu processo de constituição como sujeito desejante. Ou seja, uma mudança na posição subjetiva
familiar foi anunciada!
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Esse caso clínico apresentado, “A Menina D'água”, mostra que a criança estava no lugar de objeto fálico
do fantasma materno e, de fato, desvelava a incompletude da mãe que a mantinha colada a si numa relação
simbiótica, da qual, ambas demonstraram a dificuldade de se soltarem por terem a fantasia de completude. O
sintoma da analisante tinha, portanto, uma implicação com a subjetividade da mãe – é possível visualizar que a
menina representava o sintoma materno cristalizado, atuando como falo para satisfazer o desejo da mãe.
Por isso, nossa pretensão, em linhas gerais, foi possibilitar que a criança descolasse dessa mãe a partir da
função paterna, fazendo o então furo ao gozo, para que, assim, a Menina D'água pudesse se desenvolver
subjetivamente de forma saudável. Esse processo não passou impune pela mãe, ela também se confrontou com
suas próprias questões.
Com a entrada paterna à cena, operando como Lei e realizando o corte ao gozo (simbiose), a mãe teve a
possibilidade de reorganizar suas demandas e não mais necessitar da criança como objeto de gozo, reconstruindo,
assim, sua posição em relação ao seu desejo, bem como, a posição da criança, libertando-a desse lugar de objeto
do Outro. Ou seja, a partir da modificação do lugar do pai, a criança teve a chance de sair do gozo do Outro
Primordial materno, que a prendia através do significante água, e se inscrever no significante do Nome-do-Pai,
constituindo-se enquanto sujeito do desejo.
Caso a díade mãe-criança permanecesse fechada, enquanto célula narcísica, e, a entrada da Lei não fosse
realizada, a Menina D'água continuaria colada à figura materna, numa relação de extrema dependência, na qual
ela era completada e completante. Como consequência, a criança poderia ficar presa nessa dinâmica psicotizante
e constituir-se subjetivamente de modo psicótico como efeito do não espaço para a falta, para o desejo e para a
simbolização. Continuaria, assim, alienada ao imaginário materno e à condição primitiva que este representa, por
não haver a separação simbólica.
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