ANÁLISE PALINOLÓGICA E DIATOMOLÓGICA EM SEDIMENTOS HOLOCÊNICOS DA
BAÍA DE MARAPANIM, ESTADO DO PARÁ
1
Cristina do Socorro Fernandes de Senna1; Fábio Campos Pamplona Ribeiro2; Rosildo Santos
Paiva3.
Coordenação de Ciências da Terra e Ecologia, MCT/MPEG([email protected]); 2 Pósgraduação em Botânica Tropical, UFRA/MPEG; 3 Departamento de Biologia, UFPA
Abstract. This paper goal to determine the pollen and diatom assemblages such as the
paleoenvironments that occurred in a Marapanim bay during the Holocene, on the last 7.000
years. Were analyzed abundance, composition and diversity of polinic types and diatoms along
sedimentary sequence with 528 cm length, obtained from Aranha Lake, estuary of Marapanim
River, Pará state, in the boundary mangrove/varzea, from Early Holocene. In correlation by
pollen and diatom assemblages, three biozones were defined: 1) mangrove dominated by
Rhizophora in a lower portion of core, while dominates the diatoms Paralia sulcata,
Thalassiosira leptopus and T. eccentrica; 2) igapó in a intermediary portion, compound mainly
by Symphonia, Dioclea and Mauritia/Mauritiela; the diatoms species dominant are Nitzschia
scalaris, Desmogonium guianense and Pinnularia viridis. 3) Avicennia + Rhizophora mangrove
jointly with varzea, compound by Machaerium, Euterpe, Hibiscus and Pterocarpus, in an upper
portion of sequence. Nevertheless, still in the last portion, the diatom assemblages indicated more
two biozones, where Eunotia flexuosa and E. curvata (112-46 cm) indicate more acidity of
environment, while in a upper portion (46-0 cm) E. flexuosa is less abundant, occurring with T.
eccentrica and P. sulcata indicating new marine/estuarine conditions. The richness and the
diversity (Shannon’s index) reached the highest values in the igapó, while the least values were
for the basal mangrove. Mangrove + varzea presented diversity approximated to igapó. Thus,
through pollen and diatom subfossil record, obtained quantitative estimative, from holocenic
history of neotropical coastal ecosystem in association with diverse others Amazon ecosystems.
Palavras-chave: Pólen, diatomáceas, Holoceno
1. Introdução
As mudanças paleoclimáticas e as
variações do nível do mar ocorridas na
passagem do Pleistoceno para o Holoceno
influenciaram fortemente a dinâmica
ambiental dos ecossistemas costeiros
amazônicos, notadamente os manguezais e
as restingas do setor Costa Atlântica do
Estado do Pará, fontes geradoras de recursos
naturais, onde a pesca tem um papel
fundamental no contexto ecológico e sócioeconômico regional. Os manguezais e
restingas, embora pouco estudados na costa
norte amazônica, são reconhecidos como
reservas ecológicas pelo Conselho Nacional
do Meio Ambiente-CONAMA, através da
resolução n° 04 de 18/09/1985 e como
patrimônio nacional pela Constituição
Federal de 1988.
Os manguezais ocorrem em planícies
lamosas, típicas de costas baixas tropicais,
bordejando as baías estuarinas e destacam-se
como unidade de paisagem na planície
costeira norte da América do Sul, geralmente
em contato com outros ecossistemas
costeiros ou continentais. As restingas,
típicas de planícies arenosas, sempre em
contato com o oceano Atlântico, ocorrem
notadamente, nos Estados do Pará e
Maranhão (Bastos et al. 2002). Savanas,
várzeas estacionais ou de maré, além de
pântanos (igapós), tipicamente continentais,
bordejam os manguezais, no interior dos
estuários, ocorrendo desde a Colômbia,
chegando ao limite oriental da região norte
do Brasil (Muller, 1959; Fromard et al.
1998; Schaeffer-Novelli & Cintrón, 1995;
Almeida, 1996; Senna et al., 2002).
Nos estudos paleoecológicos são
utilizados microfósseis com dimensões
máximas da ordem de 150µm, agrupados
sob a denominação de “palinomorfos”
(Bissa, 1998). Os estudos palinológicos
baseiam-se nas características morfológicas,
abundância e freqüência de ocorrência
desses palinomorfos para definir e
caracterizar os paleoambientes e a
paleovegetação
associada,
procurando
montar os processos de modificação de
ecossistemas face aos impactos naturais e
antrópicos.
Destacam-se dentre os palinomorfos
terrestres, grãos de pólen de angiospermas e
gimnospermas, além de esporos de
pteridófitas, enquanto os palinomorfos
aquáticos incluem cistos de algas e
diatomáceas.
A Palinologia baseia seus estudos nas
características morfológicas e estruturais de
palinomorfos, que guardam fortes relações
ecológicas com os ecossistemas onde
ocorrem, estando bem preservados em
sedimentos de ambiente redutores. A análise
palinológica envolve princípios geológicos e
ecológicos em seus métodos de coleta,
análise e interpretação, imprescindíveis à
reconstituição ambiental (Ribeiro, 1994).
Este artigo objetiva conhecer a
palinoflora e diatomoflórula subfósseis, bem
como os paloambientes nos quais essas
assembléias foram depositadas, a partir da
análise palinológica de um testemunho
sedimentar, com 528 cm de espessura,
obtido na baía de Marapanim, Estado do
Pará, no limite mangue/várzea, datado do
Holoceno Inferior (Senna, 2002).
2. Área de Estudo
O setor Costa Atlântica do Estado do
Pará insere-se, em termos morfo-estruturais
e morfo-climáticos, no litoral de Rias e
Lençóis Maranhenses (Projeto RADAM,
1973), uma costa de submersão, baixa e
recortada, com características flúvioestuarinas, direção geral NW-SE, dominada
por marés, com baías estuarinas alongadas
(Senna, 1992).
O estuário do rio Marapanim (Figura 1)
localiza-se nas coordenadas geográficas 00°
30’ 00” a 001° 00’ 00” S e 047° 31’ 00” a
047° 45’ 00” W. apresenta baía de ampla
desembocadura, com características de
canais de maré, cuja influência da cunha
salina chega até 45 km continente adentro,
sendo composto por duas grandes formações
vegetais litorâneas: os manguezais e as
restingas, exclusivas da planície costeira.
Os manguezais são dominantes como
ecossistema, localizados, principalmente na
foz dos rios e áreas contíguas, bordejando
todo o estuário, geralmente ocupando os
bancos lamosos. As espécies dominantes são
Rhizophora mangle L. (Rhizophoraceae),
Avicennia
germinans
(L.)
Stearn
(Verbenaceae) e Laguncularia racemosa
(L.) Gaertn (Combretaceae), constituindo
árvores de porte elevadas (até 25 a 30
metros), distribuídas em forma de mosaicos
de vegetação e acompanhados de plantas
associadas, como o Achorosticum aureum e
Blechnum serrulatum (Costa Neto et al.,
2000).
As restingas, com registro atual de 420
espécies (Bastos, 2003) apresentam uma
gama diversificada de até sete comunidades
vegetais, guardando forte correlação com os
processos geológicos e geomorfológicos
costeiros, estabelecidas em flechas arenosas
atlânticas estreitas e alongadas, de direção
aproximada E-W, até 10 km de extensão,
diretamente em contato com o oceano
Atlântico.
Outras formações vegetais como
savanas, florestas paludosas (Figura 4) e
capoeiras,
embora
de
ambientes
continentais, sofrem indiretamente a
influência
marinha,
devido
à
sua
proximidade com o oceano, ou mesmo no
contato com as outras formações vegetais
típicas da costa paraense.
O clima é Tropical Úmido; pluviometria
de 2.880 mm; umidade anual de 80%;
temperatura média de 27,7 °C; amplitude
térmica de 9°C; com dominância de ventos
alíseos de NE. O regime de chuvas, em
termos de distribuição e freqüência, define
dois períodos distintos: 1) o período
chuvoso, estende-se de dezembro a maio,
com precipitações mais intensas nos meses
de fevereiro, março e abril; 2) O período
seco, que atinge os demais meses do ano,
porém os menores valores pluviométricos (<
60 mm) são registrados para os meses de
setembro, outubro e novembro (Santos et al.,
1992).
O arcabouço geológico é representado no
Cenozóico, pelos depósitos carbonáticos da
Formação Pirabas, originados a partir de
eventos transgressivos, datados do Mioceno.
Eventos regressivos posteriores originaram
os depósitos dos Sedimentos Barreiras
(Rossetti et al., 1989) de idade Mio-Plioceno
(Arai et al., 1988), além de unidades
geológicas do Quaternário como praias,
dunas e manguezais (Senna, 2002).
A caracterização geológico-geomorfológico
da
baía
de
Marapanim
permitiu
individualizar duas grandes unidades: O
Baixo Planalto Costeiro e a Planície Costeira
Holocênica (Silva, 1995). Os processos
geológicos e geomorfológicos explicam
tanto a natureza dos sedimentos que
constituem o substrato do manguezal, quanto
a morfologia e dinâmica costeira. Estes
processos e a natureza dos sedimentos
influenciam diretamente na circulação
superficial e intersticial das águas e na
diversidade e estrutura da vegetação.
3. Materiais e Métodos
3.1. Metodologia de campo
As coletas de amostras sedimentares no
campo foram realizadas através de técnicas
de testemunhagem vibratória, utilizando
tubos de alumínio de 6 m de comprimento e
7,5 cm de diâmetro, no Lago da
Aranha (LA), localizado no município de
Magalhães
Barata,
nas
coordenadas
geográficas de 00° 55’ Lat. S e 47° 41’ W
Gr. Segundo Mendes (1994), o equipamento
de amostragem consiste de um motor à
gasolina, que transmite vibrações a 700 rpm
a um cabeçote de aço, firmemente acoplado
a um tubo de alumínio. O princípio dessa
técnica baseia-se no fato de que as vibrações
transmitidas
ao
tubo
de alumínio
desagregam a areia e fluidizam a argila, que
aderem à parede do tubo, permitindo sua
inserção no pacote sedimentar.
3.2. Metodologia de laboratório
Para a abertura dos testemunhos foram
utilizadas calhas de madeira para fixá-los,
serra circular elétrica, serra manual de arco,
trena e máquina fotográfica. As seções
longitudinais denominadas de A e B, foram
cortadas pela serra circular elétrica.
A descrição do testemunho obedeceu a
observação
macroscópica
de
suas
características sedimentares com relação ao
tipo de sedimento, cor (Munsell, 1994),
textura,
granulometria,
estruturas
sedimentares físicas ou biogênicas, tipo de
contato,
grau
de
compactação
e
presença/ausência de matéria orgânica
(Senna, 2002). Quatro amostras para datação
foram retiradas.
3.3. Análise palinológica
A
análise
palinológica
(Salgado
Labouriau, 1984) foi utilizada na abordagem
paleoecológica, em amostras de sedimentos
lamosos, obtidos a partir de testemunhagem
vibratória (Mendes, 1994), no lago da
Aranha (000° 55’ S e 47° 41’ W Gr),
município de Magalhães Barata, para
identificar e quantificar os grãos de pólen e
esporos
incorporados
ao
substrato
sedimentar holocênico (Senna, 2002).
A extração de amostras sedimentares na
seção A foi realizada em intervalos de 10 cm
ao longo do testemunho, ou na mudança no
tipo de sedimento. O tratamento das
referidas amostras, em laboratório, obedeceu
a técnicas convencionais baseadas em
Salgado Labouriau & Rull (1986); Von Post
(ano) apud Faegri & Iversen (1950);
Erdtman (1952 1960); Faegri & Iversen
(1950). Quatro amostras sedimentares
coletadas ao longo do testemunho foram
datadas (Senna, 2002).
Na análise palinológica obtém-se a
identificação, descrição e contagem de tipos
polínicos (Salgado Labouriau & Rull, 1986),
sempre
comparando-os
aos
seus
equivalentes modernos, procurando sempre
chegar à categoria taxonômica mais baixa
possível (Salgado Labouriau, 1984). Para a
identificação, houve consulta à coleção de
pólen de referência do Laboratório de
Paleopalinologia/CCTE
e
de
Palinologia/CBO do Museu Paraense Emílio
Goeldi, além de consulta à literatura
especializada, como atlas palinológicos e
artigos especializados em palinotaxonomia e
paleoecologia de ecossistemas costeiros.
Os diagramas polínicos são elaborados
de acordo com as percentagens e
concentrações de palinomorfos (Salgado
Labouriau, 1979; Salgado Labouriau, 1984),
além da composição polínica, descrição
sedimentológica e datações radiocarbônicas,
permitindo individualizar ecozonas. Para o
tratamento estatístico dos dados e a
confecção do diagrama polínico, utiliza-se,
respectivamente, o programa Tilia e Tilia
Graph, desenvolvidos por Eric Grim, do
Illinois State Museum, USA.
3.4. Análise diatomológica
Para a análise diatomológica, 55
subamostras de 8 cm3 de sedimento foram
extraídas do testemunho de sondagem, em
intervalos aproximados de 10 cm, sendo em
seguida dissolvidas em água destilada,
filtradas em rede com malha de 20 µm de
abertura para a eliminação de partículas
maiores e fixadas com formol neutro a 4%.
Para cada amostra, foram preparadas e
analisadas entre 5 e 10 lâminas
semipermanentes, contando-se para isto com
o auxílio de um microscópio binocular
OLYMPUS, Modelo CH30. A seguinte
literatura foi usada na identificação e
ecologia das diatomáceas: Cleve-Euler
(1953); Husted (1961,1966); Péragallo &
Péragallo (1897-1908); Moreira Filho et al.
(1990). Foi analisadas a diversidade (índice
de Shannon) e a riqueza (n° de espécies) ao
longo do testemunho. (Figs. 2 e 3). As
diatomáceas agrupadas dentro de dois
principais ambientes: (1) marinho/estuarino;
(2) limnético (água doce).
4. Resultados e Discussão
4.1. Polén
Foram individualizados, ao longo do
testemunho de sondagem, 105 tipos
polínicos, dos quais 74 foram identificados,
ao nível genérico, o que foi fundamental
para a definição de três biozonas
holocênicas. A família com mais tipos
polínicos foi Arecaceae, com 5 gêneros
identificados: Mauritia, Euterpe, Bactris,
Maximiliana e Geonoma, restando ainda 3
tipos sem identificação.
As
análises
palinológicas
individualizaram três biozonas, fortemente
relacionadas com as variações do nível do
mar durante o Holoceno.
No manguezal da seqüência sedimentar
inferior do lago da Aranha, composto de
sedimentos lamosos, os tipos polínicos
principais são Rhizophora e Laguncularia,
que compõem a palinoflora, onde o primeiro
é o mais abundante, com valores percentuais
variando de 68-92%. O segundo, bem menos
abundante, apresenta percentuais de 11-15%.
A diversidade é baixa (H´= 0,4) ao longo de
toda a biozona, ocorrendo as duas espécies
de mangue, praticamente. Os manguezais
foram datados de 6. 850 ± 40 anos A. P. até
4. 943 anos A.P. (idade interpolada).
O manguezal da base da seqüência,
embora dominado pelo gênero Rhizophora,
pouco abundante (68%), ocorre juntamente
com outros tipos polínicos arbóreos dos
táxons
Sapotaceae,
Dilleniaceae,
Melastomataceae, Symphonia, Stylosanthes,
Dioclea e Hyeronima, todos ocorrendo em
baixas quantidades (<5%), indicando a
proximidade de uma floresta paludosa
(igapó), provavelmente posicionada à
montante do estuário, substituída pelas
espécies arbóreas de mangue, em
conseqüência da subida do nível médio
relativo do mar (transgressão marinha). A
palinoflora apresenta uma composição de 24
espécies e a diversidade aumenta (H´=1,43).
Na seqüência intermediária, há uma forte
mudança na composição e abundância de
tipos polínicos, com brusca redução de
Rhizophora tipo, cujos valores percentuais
caem para 6-10%, Laguncularia tipo é
ausente, indicando expressivo impacto
ambiental no manguezal estabelecido,
ocorrendo sedimentos ricos em matéria
orgânica. Ao mesmo tempo, a composição
de grãos de pólen aumenta, mas a
abundância por táxon diminui. Dentre os 57
tipos polínicos, os táxons mais abundantes
são
Symphonia,
Cecropia,
Mabea,
Mauritia/Mauritiela,
Machaerium,
Annonaceae,
Dioclea,
Araceae
e
Mimosaceae, variando entre 6-13%,
bioindicadores de uma floresta paludosa,
mais conhecida regionalmente como igapó.
Outros táxons importantes, porém menos
abundantes são o Ilex (tipo 1), Byrsonima,
Cassia, Protium, Stylosanthes, Piperaceae,
com percentuais menores que 6%.
A biozona indica provável mudança do
nível relativo do mar, com o estabelecimento
de espécies arbóreas de igapó, em
substituição ao manguezal, evidenciando
uma regressão marinha, datada entre 4. 943
anos A.P. (idade interpolada) e 2. 350 ± 40
anos A.P. (Beta-157.300). A diversidade
aumenta fortemente (H´=3, 34), atingindo os
valores máximos para toda a seqüência. O
número de espécies chega ao máximo de 57.
A estreita relação entre a presença de
pólen de Symphonia e o igapó, já havia sido
observado por Müller (1959), para o delta do
Orinoco, onde sua ocorrência e distribuição
é limitada a curtas distâncias da planta mãe,
pois as correntes marinhas são hábeis no
transporte a curtas distâncias, devido ao
grande tamanho e peso do grão.
Uma nova e marcada mudança ambiental
ocorre a partir de 2. 350 ± 40 anos A.P.
(Beta-157.300),
com
o
manguezal
estabelecendo-se novamente em sedimentos
lamosos, em substituição ao antigo igapó, na
seqüência
superior
do
testemunho,
provavelmente associado a uma subida
relativa do nível médio do mar. A
palinoflora é composta pelos táxons
Avicennia e Rhizophora, com a dominância
da primeira, cuja abundância máxima é de
18%, enquanto a segunda chega a 17%.
Entretanto, o manguezal é misto, visto que
apresenta-se com outros tipos polínicos
como Ilex (tipo 2), Bignoniaceae,
Machaerium, Mauritia/Mauritiela, Hibiscus,
Euterpe, Pterocarpus e Sapotaceae, todos
abaixo
de
10%
de
abundância,
bioindicadores de florestas periodicamente
inundadas, as várzeas de maré da Amazônia.
A diversidade é próxima a do igapó
precedente (H´=3), ocorrendo 30 espécies.
Atualmente, o manguezal é ainda dominado
por Avicennia e juntamente com a várzea
integra a paisagem dominante, ao sul da área
de estudo, com a mesma composição de
espécies.
Na Costa Atlântica do Estado do Pará,
impactos naturais dos últimos 10.000 anos
(Holoceno) sobre a planície costeira são
evidenciados pelos estudos palinológicos no
lago do Crispim, Município de Marapanim
(Behling & Costa, 2001) e na península de
Bragança (Behling et al., 2001).
Segundo Behling & Costa (2001), há três
zonas paleoecológicas bem definidas pelas
associações de grãos de pólen em
sedimentos orgânicos do lago do Crispim.
Na zona inferior, datada entre 7.640 e 6.620
anos A.P., houve um contínuo aumento no
nível do Oceano Atlântico, levando à
formação de uma floresta densa e diversa,
provavelmente
ocupando
espaços
interdunares, representada por Symphonia,
Virola,
Mabea,
Moraceae/Urticaceae,
enquanto Byrsonima, Clusia e Copaifera,
espécies de restinga, cobriam a área do lago.
Entre 6.620 e 3.630 anos A.P., o
manguezal instalado próximo ao lago do
Crispim foi substituído por um ambiente
pantanoso de extensão variável, dominado
por
palmeiras
(Mauritia/Mauritiella),
revelando uma provável regressão do nível
relativo do mar.
A partir de 3.630 anos A.P até os dias
atuais, ocorreram mudanças ambientais
marcantes: os manguezais novamente
estabeleceram-se próximo ao lago do
Crispim, havendo a substituição de espécies
de palmeiras por uma cobertura herbácea,
com abundante pólen de Cyperaceae no
pântano. Além disso, florestas e restingas
que rodeavam o local, foram recobertas
principalmente por campos salinos. Há
também evidência de fogo nessa área,
revelada pela presença de abundantes
partículas carbonizadas.
A vegetação da península de Bragança
(Behling et al., 2001) também sofreu
modificações nos últimos 7.000 anos.
Manguezais de Rhizophora substituíram
florestas continentais, antes de 5.200 anos
A.P., alcançando as áreas mais elevadas da
península, sugerindo um nível marinho mais
alto que o atual. Durante o Holoceno Tardio,
entre 1.700 e 750 anos A.P., os manguezais
foram substituídos por campos salinos nas
maiores elevações devido a um provável
rebaixamento do nível relativo do mar
(Behling et al., 2001).
4.2. Diatomáceas
A análise diatomológica mostrou forte
correlação com os dados palinológicos onde
também estiveram relacionadas com as
variações do nível do mar ocorridas no
Holoceno. Foi identificado um total de 73
espécies baseadas em 55 subamostras,
distribuídas em 5 ecozonas na coluna
estratigráfica,
relacionadas
aos
paleoambientes marinhos, estuarinos e
limnéticos, onde Paralia sulcata (Ehrenb)
Cleve, Nitzschia scalaris Ehrenb., Eunotia
flexuosa (Bréb.) Kütz e E. curvata (Kütz)
Lagerst. (Fig. 2). Destacaram-se pelos
maiores valores de abundância relativa e
freqüência.
Na ecozona basal (511-479 cm), datada
em de 6. 850 ± 40 anos A. P, Eunotia
flexuosa é abundante (71%), seguida de E.
monodon (27%) e E. curvata (20%),
indicando um ambiente limnético, com
riqueza (3-5 espécies) e diversidade
(H´=1,10) baixas.
Na ecozona seguinte (479-182 cm), a
riqueza (18-35 espécies) e a diversidade
(H´=2,72) crescem fortemente, ocorrem
diatomáceas de ambiente marinho/estuarino,
onde a assembléia é dominada por Paralia
sulcata (62%), Thallassiosira leptopus
(40%) e T. eccentrica (22%) - espécies
marinho/estuarinas – sugerindo condições
estuarinas associadas a uma transgressão
marinha, embora ocorram duas espécies
limnéticas pouco abundantes, mas muito
freqüentes (Eunotia flexuosa e N.
tryblionella Hantzsch.). Neste intervalo,
entre as espécies muito freqüentes, houve
um predomínio de espécies de ambiente
marinho/estuarino com algumas espécies de
ambiente limnético novamente sugerindo um
ambiente de salinidade mais elevada
tipicamente estuarino
Em seguida, ocorre nova ecozona (182112 cm), datada a partir de 4.939 anos A.P.
(idade interpolada) onde a freqüência de
espécies limnéticas aumenta, indicando
conseqüentemente, tanto a redução das
condições marinho/estuarinas, quanto da
salinidade, o que favoreceu a dominância de
Nitzschia scalaris (42%) – espécie limnética
podendo viver em ambientes levemente
salobros- indicando a transição entre o
ambiente marinho/estuarino e o limnético.
Neste intervalo, a riqueza (18-30 espécies)
mantem-se, porém a diversidade (H´=2,79) e
a equabilidade (S´=0,93) atingem os maiores
valores de toda a seqüência. Entre as
espécies muito freqüentes pertencem tanto
aos ambientes marinho/estuarinos quanto
limnéticos indicando também condições de
menor
salinidades
possivelmente
caminhando para o estabelecimento de
condições limnéticas.
A ecozona seguinte (112-46 cm), datada
a partir de 2.350 ± 40 anos A.P. (Beta157.300) limnética, onde a assembléia é
dominada por E. flexuosa (85%) e E. curvata
(30%) indicando que nível do mar estava
mais baixo que presente associado à uma
regressão marinha. Neste intervalo, ocorre o
predomínio de espécies limnéticas típicas de
ambientes ácidos tais como os gêneros
Eunotia e Pinnularia indicando um ambiente
limnético com pH ácido. Sendo um ambiente
muito específico, apenas algumas espécies
se adaptam a essas condições, em
conseqüência disto, ocorre uma redução da
riqueza (6-17 espécies) e da diversidade
(H´=1,52).
Na ecozona do topo (46-0 cm), datada a
partir de 953 anos A.P. (idade interpolada)
há um aumento equivalente na freqüência de
espécies marinha/estuarinas e limnéticas
indicando um ambiente com salinidade
moderada com dominância de E. flexuosa
(52%), Thalassiosira eccentrica (18%) e P.
sulcata (16%). Neste intervalo, riqueza (2129), diversidade (H´=2,59) voltam a subir, e
entre as espécies muito freqüentes pertencem
novamente
tanto
aos
ambientes
marinho/estuarinos
quanto
limnéticos
sugerindo um ambiente estuarino semelhante
ao da ecozona basal, porém, com salinidade
mais baixa, permitindo a coexistência de
organismos de ambos ambientes.
Souza (2003), estudando sedimentos de
Dois Irmãos – Recife, reconheceu uma flora
diatomológica caracterizada por táxons de
ambientes reconhecidamente limnéticos,
como Eunotia camelus, E. didyma, E.
femobirus, E. flexuosa, E. major, E.
zygodon, Frustulia rhomboides e Pìnnularia
stauroptera. Esta flora assemelha-se
fortemente, com a composição florística da
ecozona limnética encontrada no Lago da
Aranha- Magalhães.
Na planície costeira da Cananéia –
Iguape (São Paulo), Ybert et al. (2003)
registraram a presença de espécies marinhas
somente em sedimentos basais, onde entre as
profundidades de 280 à 210 cm,
Actinoptychus
hookeri,
Actinoptychus
senarius,
Actinoptychus
splendens,
Actinoptychus
vulgaris,
Biddulphia
rhombus, Diploneis bombus, Nitzschia
panduriformes,
Polymixus
coronalis,
Raphoneis
sp.,
Thalassiosira
sp.,
Triceratium patagonicum indicam que o mar
atingiu a área de estudo a cerca de 5.7003.470 anos A.P., durante uma transgressão
formando na região uma lagoa utilizada
como importante fonte de alimento por
comunidades primitivas de pescadores –
coletores. Foram também encontradas
espécies de ambiente marinho litoral ou
estuarino (Cyclotella stylorum, Paralia
sulcata, Triceratium favus), continental,
estuarino ou salobro (Achnanthes brevipes,
A. longipes, Cyclotella striata, Surirella
rorata, Terpsinoe musica) e continental de
água doce (Eunotia diodon, Cocconeis
placentula). Em 3.400 anos A.P., a lagoa
secou e foi substituída por um pântano de
água doce (predominância de pólen de
espécies de pântano) devido ao baixo nível
do mar. Esta composição florístisca por sua
vez, possui forte correlação com as
composições encontradas nas ecozonas
marinho/estuarinas encontradas no Lago da
Aranha, tratando-se possivelmente, da
mesma província biogeográfica.
6. Conclusões
As análises conjuntas de grãos de pólen e
diatomáceas foram úteis na individualização
de ecossistemas costeiros e continentais ao
longo da seqüência sedimentar holocênica
do Lago da Aranha, uma vez que mostram
os processos de mudança ambiental tanto em
ambientes aquáticos (diatomáceas) como
terrestres (pólen).
Três paleozonas ecológicas foram
definidas através de análises palinológicas:
1) manguezal dominado por Rhizophora na
porção inferior do testemunho de sondagem;
2) igapó na porção intermediária, composto
principalmente por Symphonia, Dioclea e
Mauritia/Mauritiela; 3) manguezal de
Avicennia + Rhizophora, juntamente com
várzea, composta por Machaerium, Euterpe,
Hibiscus e Pterocarpus, na porção superior
da seqüência.
As análises diatomológicas corroboram
as análises palinológicas na individualização
de paleoecozonas do mesmo testemunho
para as porções basal e intermediária,
correlacionadas respectivamente às espécies
marinhas/estuarinas P. sulcata, T. leptopus e
T. eccentrica e espécies limnéticas N.
scalaris, D. Guianense e P. viridis.
Entretanto, as assembléias de diatomáceas
na porção superior do testemunho parecem
mostrar maior sensibilidade à diferenciação
ambiental, pois individualizaram mais duas
ecozonas, onde E. flexuosa e E. curvata
(112-46 cm) indicam maior acidez, enquanto
na porção superior E. flexuosa é menos
abundante, ocorrendo com T. eccentrica e P.
sulcata
indicando
novas
condições
estuarinas.
Análises palinológicas demonstraram
que os manguezais na planície costeira
amazônica ocorrem ao longo de toda a
coluna sedimentar estudada, graças as
características de dispersão pelo vento de
Rhizophora mangle (pólen anemófilo). As
condições redutoras do ambiente de
sedimentação mostram que os palinomorfos
encontram-se bem preservados ao longo do
testemunho de sondagem. Entretanto, notase nos diagramas de representação das
assemblages palinológicas de manguezal,
além de tipos polínicos bioindicadores de
vegetação de mangue, associações com
outros grãos de pólen pertencentes a
variados ecossistemas amazônicos como
igapós e várzeas.
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Fig. 1. Localização dos sítios com registros palinológicos na
Costa Atlântica do Estado do Pará.
Fig. 2. Riqueza das diatomáceas ao longo do
testemunho do Lago da Aranha.
Fig. 3. Diversidade das diatomáceas ao longo do
testemunho do Lago da Aranha
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ANÁLISE PALINOLÓGICA E DIATOMOLÓGICA EM