INTEGRAÇÃO DO CONCEITO DE ENVELOPE SOLAR NA LEGISLAÇÃO URBANA PARA ECONOMIA DE ENERGIA NO SETOR RESIDENCIAL Eleonora Sad de Assis, Roberta Vieira Gonçalves de Souza, Jussara Grosch Ludgero Ramos, Valesca Brandão Cerqueira Coimbra, Stael de Alvarenga Pereira Costa Escola de Arquitetura da Universidade Federal de Minas Gerais, rua Paraíba, 697, CEP 30130-140, Belo Horizonte, MG, e-mails: [email protected]; [email protected] [email protected]; [email protected]; [email protected] Abstract: In Brazil, the residential sector is the second in consumption of electricity, which is in good part used for water heating. Considering the potential of the solar energy for this final use and its great availability in the Brazilian territory, particularly in the state of Minas Gerais, actions should be implemented for the diversification of the energy matrix in this sector. This paper presents an experience of regulation at the urban scale, guaranteeing the solar access in each lot in order to make possible the use of systems of thermal solar conversion. This was made through the integration of the concept of solar envelope to the law of land use and occupation. The case of the city of Paracatu, MG, is taken as example, showing the viability of the approach. Copyright © 2007 CBEE/ABEE Keywords: solar envelope, urban legislation, solar energy. Resumo: O setor residencial é o segundo maior consumidor nacional de eletricidade, sendo boa parte dessa energia usada para aquecimento de água. Considerando o potencial da energia solar para esse fim e sua grande disponibilidade no território brasileiro, particularmente no estado de Minas Gerais, ações devem ser implementadas para a diversificação da matriz energética nesse setor. Aborda-se, neste trabalho, uma experiência de regulamentação à escala urbana, garantindo o acesso ao sol em cada lote de modo a viabilizar o uso de sistemas de conversão solar térmica. Isso foi feito através da integração do conceito de envelope solar à lei de uso e ocupação do solo. O caso do município de Paracatu, MG, é tomado como exemplo, mostrando a viabilidade da aplicação. Palavras Chaves: envelope solar, legislação urbana, energia solar. 1 INTRODUÇÃO O adensamento e verticalização dos grandes centros urbanos acaba por comprometer o acesso das edificações ao sol e à luz, muitas vezes com sérias conseqüências quanto a aspectos sanitários e de habitabilidade dos ambientes interiores. Por outro lado, a necessidade atual de diversificação da matriz energética urbana, principalmente considerando o elevado consumo de eletricidade do parque edificado, aponta para o grande potencial de uso da energia solar (segundo dados de BRASIL, 2005, cerca de 44,2% da energia elétrica produzida no país em 2004 foi consumida pelos edifícios, sendo que quase a metade desse percentual se deve ao consumo do setor residencial). O potencial de uso da energia solar deve ser também considerado tendo em vista que cerca de 70% do tecido urbano é constituído por edifícios residenciais, onde o consumo desagregado por usos finais indica que 24% a 46% da energia elétrica é usada para aquecimento de água (JANNUZZI e SCHIPPER, 1991; PEREIRA, 2002). Assim, é necessário desenvolver instrumentos de regulação do uso do solo que evitem que uma edificação lance sombras indesejáveis sobre outra, possibilitando o uso generalizado da energia solar para aquecimento de água em ambiente urbano. II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 1 Este trabalho apresenta uma aplicação do conceito de envelope solar integrado à morfologia urbana na elaboração da legislação urbanística, com vistas ao atendimento desses requisitos. 2 O CONCEITO DO ENVELOPE SOLAR E SUAS APLICAÇÕES O uso de ângulos de obstrução é antigo nas legislações de planejamento urbano, sendo também relevante na análise de desempenho do projeto de arquitetura quanto à acessibilidade ao sol e à luz natural (FAWCETT, 1983). A conjugação de ângulos de obstrução obtidos para todos os limites da área a ser projetada resulta no que se convencionou chamar de “envelope solar” da área. O envelope solar, gerado segundo certos critérios, forma um volume sobre o terreno dentro do qual o edifício deve ficar inserido, para não projetar sombras indesejáveis sobre a vizinhança. Não há, entretanto, acordo, na literatura corrente, sobre os critérios a utilizar para a geração dos ângulos de obstrução, havendo, além disso, uma série de métodos aparentemente diferentes para a formação do próprio envelope solar. Os critérios estão geralmente associados ao efeito bactericida do sol, às condições de conforto térmico no interior das edificações (critérios de desejabilidade e indesejabilidade da radiação solar direta sobre os planos do edifício) e ao aproveitamento da energia solar como fonte alternativa à energia operante (uso das envoltórias do edifício para instalação de sistemas conversores de energia). Os sistemas de conversão de energia solar, por sua vez, necessitam que suas superfícies coletoras fiquem livres da projeção de sombra de outros elementos da paisagem urbana durante um certo período ao longo do ano, estejam elas instaladas em qualquer das envoltórias da edificação. Por isso, a aplicação deste tipo de critério leva em conta apenas os extremos da trajetória local aparente do sol (os solstícios) e define um período diário de insolação cuja energia solar acumulada garanta a conversão que viabilize economicamente o uso do sistema. Knowles e Berry (1980) aplicaram este último critério para a geração de sua proposta de envelope solar, vinculandoo ao zoneamento urbano e definindo perfis diferentes de insolação para áreas residenciais e comerciais. Os autores demonstraram sua viabilidade de aplicação em áreas de densidade moderada de ocupação (cerca de 350 hab/ha). Do ponto de vista metodológico, existem duas formas principais de gerar um envelope solar. Numa delas, os ângulos de obstrução determinados são aplicados aos limites laterais, frontal e de fundos do lote ou área, formando planos imaginários cuja interseção determina o volume do envelope solar (figura 1). Este é o processo usado por Pereira (1994) e por Assis e Valadares (1994). O outro método, utilizado por Knowles e Berry (1980), aplica os ângulos de altura solar nos cantos das divisas do lote ou área, determinando o volume do envelope pelo cruzamento diagonal dos ângulos sobre o terreno (figura 2). Fig. 1 - Envelope solar segundo Pereira (1994) e Assis e Valadares (1994) Fig. 2 - Envelope solar segundo Knowles e Berry (1980) A aplicação do conceito de envelope solar traz algumas vantagens e alguns novos problemas para o planejamento urbano e projeto do edifício. Knowles e Berry (1980) enumeram como principais vantagens: • a redução dos gastos de energia nos edifícios e nos transportes. A economia de energia nos transportes parece resultar do aumento relativo das densidades de ocupação. Menores custos para aquecimento e/ou refrigeração dos edifícios, em função das densidades moderadas de assentamento, que expõem menos superfícies para as trocas térmicas que no caso de edificações muito isoladas; das baixas alturas resultantes para os edifícios comerciais, que necessitarão menos instalações verticais e, o mais importante para a redução de demanda de energia operante nos edifícios, que é a possibilidade efetiva de usar a energia solar, tanto por meios passivos quanto ativos, em densidades moderadas; • é uma forma de controle necessariamente sensível às condições específicas de cada lugar, sendo mais eficiente em sua perspectiva de conjunto que outras alternativas legais, tais como os acordos voluntários entre vizinhos. Além disso, representa uma mudança relativamente simples nas formas precedentes que definem gabaritos de altura e distância entre os edifícios, que não têm, em geral, comprometimento algum com as condições ambientais locais; • tem como característica não impor nenhuma restrição ao projeto do edifício em termos da forma de ocupação do solo. Além disso, estimula o uso de elementos arquiteturais, tais como pátios de iluminação, terraços, zenitais e novas concepções de janelas para o controle da insolação e iluminação, que podem produzir espaços de extraordinária qualidade e, ao mesmo tempo, mais eficientes do ponto de vista do consumo de energia. II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 2 Um dos principais problemas apontados é o grande impacto sobre o uso do solo, a densidade de construção e a valorização do solo urbano, de modo que o conceito deve ser tratado para chegar a um certo equilíbrio com as necessidades locais de desenvolvimento urbano. 3 METODOLOGIA DE APLICAÇÃO: O CASO DE PARACATU Na cidade de Paracatu, os levantamentos preliminares mostraram que as edificações têm sido construídas sem os afastamentos necessários em relação às divisas dos lotes, prejudicando as condições de conforto ambiental e de acessibilidade aos recursos naturais para o condicionamento natural (passivo) dos edifícios. Desse modo, o desenvolvimento das diretrizes para o plano diretor buscou disciplinar o processo de adensamento urbano, sem comprometer a permeabilidade do ambiente construído em relação à ventilação e à iluminação naturais, bem como preservando condições de acesso ao sol dos lotes urbanos para fins de conversão da energia solar para aquecimento de água, considerando a grande disponibilidade de radiação solar nessa região, em função de sua posição latitudinal e tipo climático. A consideração de critérios bioclimáticos no planejamento urbano requer uma abordagem sistêmica, onde as variáveis ambientais podem ser integradas nas escalas diversas do planejamento, desde os estudos para o macrozoneamento do município até as classificações de uso do solo e aos ordenamentos de assentamento. É nessa última etapa que a integração do conceito de envelope solar se mostra mais adequada e viável. Na escala dos estudos para o macrozoneamento urbano, foram feitos levantamentos dos parâmetros de direção e velocidade dos ventos, temperatura e umidade relativa das várias regiões urbanas, gerando um diagnóstico da situação urbana local que permitiu a caracterização ambiental de cada macro-região da cidade. Na etapa seguinte, o estudo da morfologia urbana permitiu identificar os vários tipos de tecidos urbanos existentes, definidos como “conjuntos de edificações com características de ocupação do solo, volumetria e estilos semelhantes” (Mouldon, 1999 apud COSTA, 2004: 121). A partir da identificação dos vários tipos locais de tecido urbano, foram levantados os tipos predominantes de lote em cada tecido, considerando-se os tamanhos (dimensões) mais freqüentes e as orientações principais com relação ao norte geográfico. Tais informações foram utilizadas para o estudo das condições mínimas de acessibilidade ao sol em cada uma dessas áreas, seguindo uma metodologia que fora desenvolvida anteriormente, para o caso de Belo Horizonte, por Assis e Valadares (1994). As condições de acessibilidade ao sol definem, para cada tipo e orientação de lote, o envelope solar, que é integrado aos modelos de assentamento de edificações a serem implantados na cidade, contribuindo para definir, na lei de uso e ocupação do solo, parâmetros urbanísticos tais como a altura máxima das edificações, os coeficientes de aproveitamento, as taxas de ocupação e os afastamentos mínimos das divisas dos lotes. 3.1 Estudo do período necessário de insolação e identificação dos ângulos de acessibilidade ao sol Segundo Knowles e Berry (1980), existem três modos de trabalhar com a conversão da energia solar no ambiente construído, que descrevem as relações entre o potencial de desenvolvimento urbano e uso do solo local, e o acesso solar. No caso de Paracatu, foi adotado o que os autores chamam de primeiro modo de conversão, ou seja, a conversão na cobertura. Este modo caracteriza a proteção da acessibilidade ao sol apenas nos telhados das edificações, o que permite o máximo de desenvolvimento urbano, em termos de verticalização e diminuição dos afastamentos entre os edifícios, mas, obviamente, o mínimo de conversão potencial de energia por unidade de volume de construção. Para viabilizar, na prática, a utilização de sistemas de conversão solar térmica existentes no mercado brasileiro com uma dada eficiência mínima, é necessário garantir um certo período de acessibilidade ao sol para cada lote na cidade, em função dos requerimentos do sistema. Para tanto, é necessário conhecer a disponibilidade local de radiação solar, principalmente no período do inverno. Com base nos dados de insolação da cidade (BRASIL, 1992), calculou-se a média mensal da radiação total no plano dos coletores (normalmente inclinados da latitude local mais 10o), utilizando simultaneamente o método apresentado por Duffie e Beckman (2006) [1] e a correlação de Bennett (1969), que parece ter melhor ajuste aos dados medidos em Minas Gerais. Considerando a temperatura média mensal local, os dados de um coletor solar classe B, o consumo de água quente médio de uma família de 4 pessoas, a temperatura interna da água no reservatório térmico constante de 45oC ao longo do ano e de banho também constante de 40oC, a eficiência desse sistema (fração anual) pode ser determinada. De acordo com a orientação da profa. Elizabeth Marques Duarte Pereira, a eficiência mínima adotada foi de 60%. Uma vez encontrada a condição de eficiência do sistema de 60%, verifica-se a correspondência da radiação solar total sobre o plano inclinado do coletor à radiação solar total sobre o plano horizontal, para o mês com a menor incidência de radiação solar, ou seja, junho, onde ocorre o solstício de inverno. Verificou-se, para o sistema de aquecimento solar indicado, a necessidade de garantir uma captação diária média da ordem de 11 MJ/m2 ou cerca de 3.000 W/m2 para que o sistema operasse com a eficiência adotada. Calculando a radiação total média horária no mês de junho, é possível determinar o período do dia que contém essa radiação necessária para garantir a II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 3 eficiência adotada. Uma vez determinados esses horários, pode-se extrair da carta solar local, ou através de cálculo, os ângulos de azimute (az) e de altura do sol (h), nesses horários. São estes ângulos que, aplicados aos grupos de orientação dos lotes, definirão em cada caso os respectivos envelopes solares. A figura 3 mostra os ângulos que definem a posição do sol em cada horário. 3.2 Integração aos parâmetros urbanísticos Os parâmetros urbanísticos determinam os critérios de uso e ocupação do solo e configuram os diversos modelos de assentamento urbano. Os principais são: área e testada mínimas de lote, taxa de ocupação, taxa de permeabilidade, afastamentos mínimos (frontal, lateral, fundos), altura máxima da edificação, número máximo de pavimentos, altura máxima na divisa e coeficiente de aproveitamento. A princípio, foram identificados os parâmetros urbanísticos de acordo com a morfologia urbana. A partir desse estudo foram criados os modelos de assentamento preliminares para cada zona urbana. Fig. 3 - Os ângulos de posição do sol Considerando, ainda, que o ângulo de altura solar não se transfere em verdadeira grandeza para os planos verticais sobre as linhas de divisa do lote, uma correção é necessária, de acordo com a orientação do lote, determinando, assim, os ângulos de altura solar corrigida (hc) sobre o terreno. Esses são os ângulos de obstrução que constituirão, enfim, os ângulos do envelope solar. Essa correção foi feita segundo o procedimento apresentado em Frota e Schiffer (1995). Assim, pode-se adotar diferentes ângulos de envelope para cada um dos grupos de orientação dos lotes. Aplicando os ângulos de altura solar corrigida nos sentidos transversal e longitudinal de um lote, obtémse, pela sua interseção, o envelope solar do lote, como mostra a figura 4 (nessa figura, convencionou-se que a aplicação dos ângulos ocorreria no ponto médio de cada linha de divisa do terreno e a partir de uma determinada altura. Tais convenções, na verdade, devem ser dispostas em lei). O estudo do envelope solar para cada agrupamento de lotes segundo sua orientação solar, derivou, por sua vez, alguns critérios de ocupação do lote, os quais tratam dos afastamentos da edificação em cada pavimento e da altura máxima que pode ser construída. Na integração das duas abordagens, os limites impostos pelo envelope solar foram cuidadosamente estudados com relação às características ambientais do macrozoneamento e às necessidades locais de desenvolvimento urbano, levando à adoção de outras referências para a aplicação dos ângulos do envelope, de modo a não haver tanta restrição à construção no lote, ao mesmo tempo preservando o período de insolação sobre a cobertura. Desse modo, os modelos de assentamento que permitiam a verticalização além do terceiro pavimento foram subdivididos conforme a orientação solar do lote, determinando valores de afastamentos gradativos em relação à altura da edificação. O próximo item mostra os resultados dessa integração. 4 RESULTADOS 4.1 Envelope solar resultante Paracatu está situada a uma latitude de 17,13o sul e longitude de 46,52o oeste, a uma altitude média de 711,40 m. Segundo os cálculos efetuados, a radiação solar diária média mínima sobre plano horizontal que a cidade recebe é de cerca de 4.047 W/m2, no mês de junho. Pesquisando-se o período do dia que contém os necessários 3.000 W/m2, encontrou-se, para essa cidade, o período de 9:30 h às 14:30 h, tempo solar verdadeiro, dia médio do mês de junho [2]. Esse é o período mínimo de proteção das coberturas das edificações contra o sombreamento indesejável das edificações vizinhas. Estes horários determinaram os ângulos de altura solar corrigida para a formação do envelope solar. Fig. 4 - Envelope solar sobre um lote ou terreno Analisando as condições de orientação solar da malha urbana de Paracatu, observou-se que se poderia agrupar o conjunto de regiões em basicamente 6 grupos de lotes II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 4 com orientações distintas, como mostra a Tabela 1. Em cada um desses grupos, adotou-se o ângulo azimutal central (que varia em mais ou menos 15o com os limites das orientações de cada grupo) como ângulo de referência de orientação da testada/fundo do lote para a pesquisa dos ângulos de altura solar corrigida. Tabela 1: Orientações Principais dos Lotes da Cidade de Paracatu (em graus) Ângulo azimutal da testada / fundo de lote Ângulo azimutal central para efeito de cálculo 0o a 30o 15º o o 45º o o 75º 30 a 60 60 a 90 o o 90 a 120 • para a divisa de fundos: idem à testada, considerando uma distância de 7,0 m da linha de divisa. A figura 5 mostra um exemplo de aplicação para o caso de um lote com orientação entre 60o a 90o com o norte geográfico (confira os ângulos do envelope solar para as linhas de testada/fundos e laterais na Tabela 2). 105º o o 135º o o 165º 120 a 150 150 a 180 A posição do sol nos horários-limite de exposição do lote à insolação para a latitude de Paracatu é determinada pelos seguintes ângulos: às 9:30 h, az = 43,6o e h = 35,2o; às 14:30 h, az = 316,8o e h = 35,5o [3]. Desse modo, adotando-se o ângulo azimutal central para cada grupo de lotes, encontram-se, por construção geométrica, os seguintes ângulos de altura solar corrigida (Tabela 2). Tabela 2: Ângulos de Envelope Solar (hc) para as Orientações mais Freqüentes dos Lotes em Paracatu Orientação azimutal da testada/ fundo de lote hc Testada/Fundo hc Laterais 0o a 30o 56o 39o 30o a 60o 88o 35o 60o a 90o 54o 40o 90o a 120o 39o 56o 120o a 150o 35o 88o 150o a 180o 40o 54o Na aplicação dos ângulos de envelope solar, foi considerado um modelo de edificação de referência com as características mínimas de 1 pavimento com pédireito de 3,0 m e afastamento das divisas laterais de 1,5 m. Convencionou-se, para o caso de Paracatu, que os ângulos de altura solar corrigida seriam aplicados do seguinte modo: • para as laterais: a partir do lote vizinho, na altura do pé-direito do 1o pavimento desta edificação de referência; • para a testada: a partir do lote vizinho, numa distância de 3,0 m da linha de divisa, na altura do pé-direito do 1o pavimento da edificação de referência; Fig. 5 – Exemplo de aplicação da linha limite referente ao ângulo de envelope solar para o caso de orientação do lote entre 60o a 90o com o norte geográfico (vide Tabela 2). 4.2 Modelos de assentamento resultantes Embora a proposta de lei de uso e ocupação do solo (L.U.O.S.) tenha respeitado a tendência de crescimento urbano, as formas de ocupação (basicamente as condições de adensamento e verticalização) foram determinadas de acordo com os requisitos de acesso ao vento, ao sol, à iluminação natural e à paisagem urbana, além dos outros critérios urbanísticos convencionais como trânsito, infra-estrutura, preservação histórica e cultural. Restringiu-se, por exemplo, o coeficiente de aproveitamento a valores até 1 (um), de modo a desestimular uma excessiva ocupação horizontal, que poderia afetar a ventilação urbana e a taxa de permeabilidade. Além disso, considerando que a cidade possui regiões com lotes muito pequenos, com áreas inferiores a 200 m2 e testada menor que 10 m, nessas regiões, recomendou-se a restrição a edificações de um único pavimento, havendo a necessidade de remembramento de lotes para a construção de mais de 1 pavimento e aplicação do envelope solar. A partir dos estudos de integração, foram então criados 15 modelos de assentamento para assegurar a ocupação adequada, sendo diferenciados, principalmente, pelas determinações do macrozoneamento e do envelope solar. Agruparam-se as regiões onde as orientações da malha urbana eram semelhantes, de modo que os parâmetros de ocupação com base no envelope solar pudessem ser generalizados e aplicados com mais facilidade. Os afastamentos mais restritivos em cada II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 5 grupo de orientações de lote foram respeitados, considerando que os estudos, para possibilitar tal generalização, foram feitos para uma variação de até 15o na orientação dos lotes. Cinco modelos de assentamento foram criados para possibilitar a verticalização em determinadas regiões. Os valores de afastamentos para os modelos verticais foram determinados para a altura máxima da edificação. Esses valores são mostrados na Tabela 3 adiante, onde se percebe bem o nível de detalhamento a que este tipo de abordagem pode chegar. Fig. 6 - Exemplo de edificação conforme parâmetros do modelo de assentamento para uma região de verticalização A figura 6 ilustra o resultado simulado de uma edificação projetada segundo um desses modelos verticais. Tabela 1: Os modelos de assentamento verticais propostos para a cidade na L.U.O.S. 2007 MODELO ÁREA DE LOTE TESTADA ORIENTAÇÕES DE LOTE + -15º MA V1 450 15 15, 45, 75 MA V2 450 15 105, 135, 165 MA V3 600 20 15, 45,75 MA V4 600 20 165 MA V5 600 20 105, 135 4.3 Nº DE PAVTOS. ALTURA MÁXIMA DA EDIFICAÇÃO AFAST. LATERAL AFAST. FRONTAL AFAST. FUNDOS com sombreamento em parte da cobertura 3 4 3 4 3 4 5 6 7 8 3 4 5 6 7 8 3 4 5 6 7 8 9,3 12,4 9,3 12,4 9,3 12,4 15,5 18,6 21,7 24,8 9,3 12,4 15,5 18,6 21,7 24,8 9,3 12,4 15,5 18,6 21,7 24,8 5 8,8 2,3 4,6 5 8,8 12,5 16,2 19,9 23,60 2,3 4,6 6,9 9,1 11,4 13,6 2,3 2,3 3,4 4,8 6,2 7,6 3 3 3 3 3 3 3 3 3,5 5,8 3 3 3 3 4,3 7,2 3 3 3 5,6 9,3 13,0 3 3 3 4,1 3 3 3 4,3 6,5 8,8 3 3 4,6 7,5 10,3 13,2 3 4,1 7,8 11,5 15,2 18,9 Mapeamento para efeito de Lei de Uso e Ocupação do Solo O mapa de zoneamento final de uso e ocupação do solo (figura 7) traz a síntese da abordagem de integração. Nele percebe-se a subdivisão das zonas onde se inserem os modelos de assentamento, inclusive os modelos de assentamento verticais. Essa subdivisão ocorreu, portanto, com base tanto nas indicações do macrozoneamento urbano como em função das orientações diversas da malha urbana, que trazem aplicações diferenciadas do envelope solar. Na escala do macrozoneamento, dados climáticos existentes (estação meteorológica local) e pesquisados no ambiente intra-urbano resultam no diagnóstico ambiental da cidade e nas recomendações gerais de ocupação, o que pode ser visto com mais detalhe em Assis et al (2007). Ao nível do disciplinamento do uso e ocupação do solo, a aplicação do conceito de envelope solar aos modelos de assentamento, assegura a possibilidade de utilização da conversão solar, pelo menos, para o aquecimento residencial de água, contribuindo para a diversificação da matriz energética da cidade. A integração desses parâmetros bioclimáticos às escalas de planejamento visa, portanto, à melhoria das condições de conforto ambiental e economia de energia na cidade. II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 6 Fig. 7 - Mapa proposto de zoneamento de uso e ocupação do solo da cidade de Paracatu, 2007 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS A experiência de implementação do Estatuto das Cidades (Lei 10.257, de 10 de julho de 2001) no Brasil tem levado à percepção da grande deficiência de planejamento urbano e territorial em que se encontram os municípios e nossas cidades de médio e pequeno portes. Apesar de, em muitos casos, a urgência de se resolver as questões de falta de infra-estrutura e subhabitação se imponha a qualquer outra consideração, é preciso levar em conta que a solução setorial dos problemas tem se mostrado ineficaz no médio e longo prazos e, por outro lado, é preciso não esquecer que a dimensão planetária da chamada crise ambiental mostra a necessidade de desenvolver soluções locais comprometidas com o ambiente natural enquanto suporte da sociedade. Assim, não parece correto usar da situação de “país em desenvolvimento” para negligenciar a perspectiva de sustentabilidade das ações de planejamento, até porque a integração de novas questões, tais como a da energia e do conforto ambiental, tem tido impactos positivos na acessibilidade das populações mais carentes à infraestrutura e a melhor qualidade físico-ambiental urbana, em todos os países que adotaram políticas de melhoria da eficiência energética em suas cidades e edifícios. Esse estudo mostrou que é possível e viável a integração de parâmetros bioclimáticos, como o conceito de envelope solar , ao planejamento urbano de cidades de médio porte no país, como é o caso de Paracatu, com base em dados existentes de insolação da localidade e da tecnologia dos equipamentos de conversão solar térmica do mercado. Sobretudo, demonstrou-se a possibilidade de integração de metodologias distintas de planejamento urbano, que levaram a uma abordagem mais complexa do ambiente urbano, no sentido de que mais variáveis puderam ser consideradas simultaneamente no planejamento, resultando numa perspectiva mais totalizante do plano. Focalizou-se o resultado ao nível da lei de uso e ocupação do solo urbano, entretanto, as demais leis que formam o conjunto do plano diretor também têm um importante papel na promoção da melhoria das condições ambientais e de eficiência energética. Uma vez assegurada na L.U.O.S. a acessibilidade ao sol para manter a eficiência do sistema de conversão solar, cabe ao código de obras local prever a sua utilização nas várias tipologias de edifícios. Esta etapa não foi aqui abordada. Não se abordou também a responsabilidade da lei de parcelamento do solo em orientar os novos loteamentos urbanos para as melhores orientações ao sol, de modo a que as zonas de expansão urbana sejam criadas já dentro de parâmetros de melhor aproveitamento do solo, preservando seu valor econômico e a acessibilidade aos recursos ambientais para o conforto e eficiência energética. Como já comentado anteriormente, a aplicação do conceito de envelope solar traz restrições principalmente à verticalização das regiões urbanas. Um outro aspecto que pode trazer críticas à sua implementação é o grau de complexidade e detalhamento do zoneamento e dos modelos de assentamento resultantes. Entretanto, a massa técnica local pode ser treinada para lidar com o plano, devendo entendê-lo, sobretudo, como um instrumento de valorização profissional e de melhoria ambiental para a sua cidade. 6 REFERÊNCIAS Assis, E. S.; Ramos, J. G. L.; Souza, R. V. G.; Cornacchia, G. M. (2007) Aplicação de dados do clima urbano no desenvolvimento de planos diretores de cidades II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 7 mineiras. In: Encontro Nacional de Conforto no Ambiente Construído: Anais..., 9o, Ouro Preto: ANTAC/UFMG, 10 p. CD-ROM Assis, E. S.; Valadares, V. M. (1994) Modelo Matemático para a Determinação dos Recuos e Volumetria dos Edifícios, segundo Critérios de Insolação e Iluminação Natural. Relatório Técnico para Secretaria Municipal de Atividades Urbanas, Prefeitura de Belo Horizonte, Belo Horizonte. Bennett, I. 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Notas: [1] Para a aplicação do modelo de cálculo de radiação solar descrito em Duffie e Beckman (2006), com base no parâmetro medido de insolação, utilizou-se os coeficientes a e b da fórmula de Angström determinados para Brasília (DORNELAS et al, 2006), em função da proximidade das duas cidades e da falta de dados para Paracatu. [2] O dia médio de junho, segundo Duffie e Beckmann (2006) é o dia 10. [3] Esses ângulos não são exatamente simétricos em relação ao meio dia solar por causa do movimento de precessão da Terra. Agradecimentos: As autoras gostariam de agradecer a assessoria da profa. Elizabeth Marques Duarte Pereira e de sua equipe do Grupo de Estudos em Energia (GREEN Solar) da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, pelo apoio e orientação na determinação do período necessário de insolação para a garantia de eficiência de um sistema comercialmente acessível de aquecimento solar, que foi base para a determinação dos ângulos do envelope solar. Duffie, J. A. e Beckman, W. A. (2006) Solar Engineering of Thermal Processes. 3rd ed. New York: J. Wiley. Fawcett, W. (1983) A note on the obstruction angle model for block spacing, Building and Environment, vol. 18, p. 125-128. Frota, A. B.; Schiffer, S. R. (1995) Manual de Conforto Térmico. 2a edição, São Paulo: Nobel. Jannuzzi, G. M.; Schipper, L. (1991) The structure of eletricity in the Brazilian household sector, Energy Policy, November, p. 879-891. Knowles, R. L.; Berry, R. D. (1980) Solar envelope concepts: moderate density building applications. SERI/SP98155-1, Golden, Colorado, Solar Energy Research Institute. Pereira, A. C. R. (2002) Amostra e diagnóstico da situação de consumo energético do parque edificado residencial em Belo Horizonte. Belo Horizonte, 39 p. Monografia (Iniciação Científica, orientador: Eleonora Sad de Assis), Escola de Arquitetura da UFMG. Pereira, F. O. R. (1994) Uma Metodologia para Indicações de Ocupação do Ambiente Urbano: controle de obstrução do sol e da abóbada celeste. Florianópolis, 66 p. Monografia (Concurso para Professor Titular), Dep. Arquitetura e Urbanismo, Universidade Federal de Santa Catarina. II Congresso Brasileiro de Eficiência Energética - IICBEE. Todos os direitos reservados ABEE. IICBEE_ART172 - 8