AS ATIVIDADES LÚDICAS E A PESSOA PORTADORA DE HANSENÍASE
Gustavo Ramos Melo1
Simone de La Rocque Cardoso2
Resumo
Este estudo trata da ludicidade na vida das pessoas com hanseníase. A
hanseníase
doença
infectocontagiosa
promove
grandes
seqüelas
biopsicossociais aos indivíduos portadores da mesma. A proposta das
atividades lúdicas como coadjuvante do tratamento de doenças
estigmatizantes, como a Hanseníase, é fundamental para o sucesso do
paciente, haja vista que tais atividades possuem a magia do encantamento, da
alegria, do riso, do prazer. Assim, esta pesquisa objetivou verificar a
importância das atividades lúdicas para pessoas com hanseníase. A pesquisa
é caracterizada como bibliográfica, delineado a partir do enfoque empírico
analítico, numa abordagem qualitativa. Utilizou-se de recursos bibliográficos
para a coleta de dados e a análise se fez a partir da analise de conteúdo. Os
resultados obtidos permitiram um panorama a cerca dos benefícios das
atividades lúdicas para pessoas portadoras de hanseníase. Conclui-se então,
que o presente estudo amplia os conhecimentos na área e possibilita maior
reflexão sobre a contribuição do profissional de Educação Física, através da
ludicidade no tratamento de pessoas portadoras de hanseníase.
Palavras-Chaves: Atividades Lúdicas; Benefícios; Hanseníase.
Introdução
Dos tempos bíblicos ao período moderno, a hanseníase foi descrita
sendo uma doença que causava horror por conta da aparência física do doente
não tratado. Por muitos anos, os portadores da doença foram chamados de
“leprosos”. Isolados do convívio social e familiar, os hansenianos amargaram
ao longo de anos esse estigma preconceituoso. Essa marca fisicamente
presente nas feridas e nos membros desfigurados do doente e incorporada à
sua identificação lançou a doença no lado mais obscuro da sociedade
(OPROMOLLA, 1981).
Com o passar dos anos as maneiras de tratar o hanseniano evoluíram, o
tratamento deixou de ser observado somente apenas pelo isolamento e os
medicamentos, passando a observar o paciente como um todo, levando em
1
Graduando em Licenciatura Plena em Educação Física da Universidade do Estado do Pará.
Professora orientadora da pesquisa. Graduada em Educação Física, pela Escola Superior de Educação
Física. Mestre em Motricidade Humana.
2
consideração seus abalos físicos, psicológicos, sociais e econômicos. Nesse
sentido, o êxito do tratamento depende da confiança do paciente, da equipe de
saúde envolvida e a incorporação de novas técnicas. Isto requer estratégias
especiais,
envolvimento
profissional,
conhecimentos
particularizados,
disponibilidade de tempo.
Na área da saúde o profissional de Educação Física pode contribuir no
tratamento do indivíduo com hanseníase através de várias atividades físicas,
entre elas uma que se sobressai frente à capacidade de integrar e estabelecer
relações interpessoais, além da promoção do condicionamento físico, somados
a seus benefícios psicológicos e físicos, é a atividade lúdica.
O incremento do lúdico no tratamento do indivíduo portador de
hanseníase é fulcral ao nível em que as atividades lúdicas possuem a magia do
encantamento, do prazer, da satisfação, resultando assim em uma forma
diferenciada e humanizada de tratamento. Dessa maneira, oferecer atividades
como o jogar, o brincar, o competir e o cooperar, juntamente com o tratamento
medicamentoso convencional, pode ajudar a pessoa com hanseníase a
minimizar os problemas de autoestima, preconceito social e conseqüentemente
fazê-lo sentir-se mais feliz psicológica e socialmente.
A partir dos estudos bibliográficos a cerca das atividades lúdicas e da
hanseníase, observou-se a necessidade em elencar os benefícios das
atividades para os portadores de hanseníase. Assim, esta pesquisa objetivou
verificar a importância de atividades lúdicas, como o jogo, a dança, a ginástica
para todos, e os alongamentos recreativos, como elementos coadjuvantes no
tratamento para pessoas com hanseníase. Este estudo buscou a produção de
conhecimento cientifico a cerca do tema abordado, além de propor um novo
olhar através do lúdico, para a atuação do profissional de Educação Física,
culminando em uma abordagem diferenciada a respeito do tratamento do
individuo portador de hanseníase.
Origem, evolução histórica, características clinicas e dermatológicas da hanseníase.
Conhecida há mais de três ou quatro mil anos na Índia, China e Japão, a
hanseníase já existia no Egito quatro mil e trezentos anos antes de Cristo,
segundo um papiro da época de Ramsés II (Serviço Nacional de Lepra, 1960).
Há evidências objetivas da doença em esqueletos descobertos no Egito,
datando do segundo século antes de Cristo.
Citações sobre a “Doença de Hansen” 3 também são feitas na Bíblia
Sagrada (1992), entretanto, estas são confusas. Encontra-se, nos capítulos 13
e 14 do Levítico, o termo hebreu tsaraath ou saraath para designar afecções
impuras. Estes termos foram traduzidos como lepra em vários idiomas, sem
que se possa afirmar com certeza o seu significado original. Em hebraico,
significavam uma condição de pele dos indivíduos ou de suas roupas que
necessitava purificação. Opromolla (1981) nos coloca que aqueles que
apresentavam o tsaraath deveriam ser isolados até que os sinais desta
condição desaparecessem. Ainda conforme a Bíblia, o tsaraath na pele dos
judeus seria manchas brancas deprimidas em que os pêlos também se
tornavam brancos.
Segundo
Opromolla
(1981),
admite-se
que
a
hanseníase
era
desconhecida na Europa na época de Hipócrates (467 a.C.). Nos trabalhos do
"Pai da Medicina" não há referências a qualquer condição que se
assemelhasse àquela doença. Se aceita que as tropas de Alexandre “O
Grande”, quando retornaram à Europa depois da conquista do mundo então
desconhecido, tenham trazido indivíduos contaminados com a doença nas
campanhas da Índia (300 a.C.).
Nas Américas a hanseníase data aproximadamente dos séculos XVI e
XVII com a vinda dos colonizadores, pois não há evidências da existência da
moléstia entre as tribos indígenas do Novo Mundo (Opromolla, 1981 e 2000).
Conforme dados do Serviço Nacional de Lepra (1960) e Opromolla
(2000), nos Estados Unidos foram os franceses, fundadores do Estado de
Louisiana, que trouxeram a doença. Na América do Sul ela veio,
provavelmente, com os colonizadores espanhóis e portugueses, pois os
primeiros doentes de hanseníase observados na Colômbia eram de origem
espanhola. Ainda segundo dados do Serviço Nacional de Lepra (1960), alguns
autores atribuíram ao “Mal de Hansen” as figuras de mutilações encontradas
em vasos da época pré-colombiana.
3
“Doença de Hansen” foi o termo utilizado por especialistas durante anos para designar a hanseníase.
Assim como em outras regiões da América, não havia hanseníase entre
os indígenas brasileiros. A doença entrou no Brasil, por vários pontos do litoral,
com os primeiros colonizadores portugueses, principalmente açorianos, e para
sua disseminação contribuíram os escravos africanos, advindos para o Brasil.
Entretanto,
outros
povos
europeus
também
colaboraram
para
sua
disseminação posteriormente (Monteiro,1987). Para Opromolla (2000), o papel
desempenhado pelos escravos na introdução da hanseníase no Brasil é
discutível, pois era difícil a negociação de africanos que apresentassem lesões
cutâneas.
No Brasil, os primeiros casos da doença foram notificados no ano de
1600, na cidade do Rio de Janeiro, onde, anos mais tarde, seria criado o
primeiro lazareto4. Opromolla (1981 e 2000) nos diz que os primeiros
documentos que atestam a existência da hanseníase no território brasileiro
datam dos primeiros anos do século XVII, tanto que em 1696 o governador
Artur de Sá e Menezes procurava dar assistência, no Rio de Janeiro, aos
doentes já então em número apreciável. Após os primeiros casos no Rio de
Janeiro, outros focos da doença foram identificados, principalmente na Bahia e
no Pará.
Segundo a Organização Mundial da Saúde (2000) “a hanseníase é uma
doença infecciosa, crônica, de grande importância para a saúde pública devido
à sua magnitude e seu alto poder incapacitante, atingindo principalmente as
pessoas em faixa etária economicamente ativa comprometendo seu desenvolvimento profissional e/ou social”. O potencial incapacitante da hanseníase está
diretamente relacionado à capacidade do bacilo penetrar a célula nervosa e
também ao seu poder imunogênico.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, para fins terapêuticos, a classificação operacional baseada no número de lesões cutâneas. Os
casos com até cinco lesões são considerados Paucibacilares (PB) e aqueles
com mais de cinco lesões são os Multibacilares (MB).
A hanseníase é uma doença que se manifesta por meio de sinais e
sintomas dermato neurológicos como lesões de pele e de nervos periféricos,
principalmente nos olhos, nas mãos e nos pés. O seu diagnóstico é
essencialmente clínico e epidemiológico.
4
Local destinado a abrigar os doentes de Lázaro, lazarentos ou leprosos (Brasil, 1989).
De acordo com Virmond (1997) existem várias teorias sobre a forma de
transmissão da doença. A hipótese mais aceita é que uma pessoa doente, da
forma contagiosa, e não tratada elimina o bacilo para o meio externo infectando
outras pessoas. Para que essa transmissão ocorra, é necessário que haja
contato direto e prolongado com o doente não tratado.
O aparecimento da doença e suas diferentes manifestações clínicas
dependem da resposta do sistema imunológico do indivíduo, frente ao bacilo,
podendo ocorrer após um longo período de incubação, em média de dois a
sete anos.
Indivíduos que apresentam melhor resposta imunológica abrigam um
pequeno número de bacilos em seu organismo, insuficiente para infectar outras
pessoas. Estes indivíduos são os casos PB (Paucibacilares), não sendo este
tipo da doença considerada importante fontes de transmissão, devido à sua
baixa carga bacilar.
Um número menor de indivíduos apresenta uma resposta imunológica
pouco eficaz, permitindo que os bacilos se multipliquem em grande quantidade
em seu organismo. Estes indivíduos são os casos MB (Multibacilares),
considerados como fonte importante de infecção e manutenção da cadeia
epidemiológica da doença. Quando o doente inicia o tratamento, ele deixa de
ser transmissor, pois os bacilos são mortos nas primeiras doses da medição
(Virmond, 1997).
A hanseníase pode atingir pessoas de todas as idades e de ambos os
sexos, sendo a incidência maior em indivíduos do sexo masculino. Crianças
raramente são afetadas, no entanto, observa-se que quando crianças menores
de 15 anos adoecem há uma maior endemicidade da doença .
Geralmente a hanseníase manifesta-se por meio de lesões de pele com
diminuição ou ausência de sensibilidade ou lesões dormentes, em decorrência
do acometimento dos ramos periféricos cutâneos. As lesões mais comuns são
manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, alteração na cor da pele, pápulas,
lesão sólida, com elevação superficial e circunscrita, infiltrações, alteração na
espessura da pele, de forma difusa, tubérculos, nódulos (Ministério da Saúde,
2000).
Outros sintomas gerais precisam ser valorizados, tais como, edema de
mãos e pés, febre e artralgia, entupimento, feridas e ressecamento do nariz,
nódulos eritematosos dolorosos, mal estar geral, ressecamento dos olhos
(Ministério da Saúde, 2000).
Atividade física e a hanseníase.
O combate a hanseníase envolve uma equipe multidisciplinar, composta
por médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos. Porém
percebe-se a ausência do profissional de Educação Física com componente
constituinte da equipe. O educador físico pode e deve ser incorporada a equipe
de controle da hanseníase, pois, suas ações estariam centralizadas na
prevenção de incapacidades físicas, as quais por sua vez promovem abalos de
ordem biopsicossociais aos portadores da doença.
Stein (2009) analisa a situação do processo saúde-doença, discutindo a
preocupação para o desenvolvimento de um trabalho voltado à prevenção, por
meio da educação para saúde e afirma que, para se ter alcance preventivo é
necessário compreender os três níveis de prevenção, que são apresentados
pela medicina como a prevenção primária; secundária e terciária. A autora
registra ainda que a Educação Física esteja presente neste processo da
seguinte forma:
Na prevenção primária a Educação Física pode atuar desenvolvendo
ações que apresentem regras sadias de vida, tanto fisiológica quanto
psicológica, como atividades prazerosas. Ela deve intervir antes que surja
algum problema, visando uma educação para a saúde. Na secundária, ela
pode atuar no prolongamento da prevenção primária, se esta não alcançar os
objetivos pretendidos; e na prevenção terciária, já atuaria no encaminhamento
aos especialistas para o tratamento e ou reabilitação das doenças (STEIN,
2009).
Entendemos que o profissional de Educação Física, sendo especialista
em atividades físicas em todas as suas manifestações como ginásticas,
exercícios físicos, jogos, desportos, lutas, danças, entre outros, deve auxiliar no
desenvolvimento da educação e saúde, contribuindo para a aquisição e/ou
restabelecimento de níveis adequados de desempenho e condicionamento
fisiocorporal das pessoas.
De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2002) atividade física
é qualquer atividade que tenha dispêndio de energia maior que em repouso.
Neste sentido a própria OMS (2002) recomenda que a prática regular de
atividades físicas auxiliam na prevenção de doenças, e consequentemente
melhora a qualidade de vida de seus praticantes.
Neste sentido, as atividades lúdicas assumem o papel de atividade
física. A prática de atividades físicas para portadores de hanseníase podem
auxiliar na prevenção de incapacidades físicas resultantes da doença, além de
serem de fundamental importância como elementos de socialização entre seus
praticantes.
Sobre as atividades lúdicas.
Ao longo do tempo o lúdico tem sido reconhecido como importante e
fundamental em todos os estágios da vida, sejam crianças, adultos ou idosos.
Assim, a ludicidade permeia intrinsecamente o nosso ser. Muito têm se
discutido a respeito da importância do lúdico na formação humana, autores
como Huizinga, Santos, Santin, Kishimoto, Negrine, vem escrevendo a respeito
da ludicidade nas diferenças etapas da vida e sua importância na formação
humana.
De acordo o dicionário Aurélio, a palavra "lúdico" encontra-se relativa a
jogos, brinquedos e divertimento ou brincadeiras, o que significa dizer que,
caracterizar o lúdico é falar dessas vertentes. Novamente, recorrendo ao
dicionário, o jogo é uma atividade física e mental organizada por sistema de
regras que definem a perda ou ganho; e o brinquedo, passatempo e
divertimento.
De acordo com Huizinga (2007) o termo lúdico provém:
[...] o latim cobre todo o terreno do jogo com uma única palavra:
ludos, de ludere, de onde deriva diretamente lusus. (...) embora
ludere possa ser usado para designar o salto dos peixes, o esvoaçar
dos pássaros e o borbulhar da águas, sua etimologia não parece
residir na esfera do movimento rápido, e sim na da não-seriedade, e
particularmente na da 'ilusão' e da 'simulação'. Ludos abrange os
jogos infantis, a recreação, as competições, as representações
litúrgicas e teatrais e os jogos de azar (p. 41).
Independente da faixa etária, o lúdico torna-se essencial na vida do ser
humano, o brincar, o sorrir, a alegria, tem sido esquecidos pela maioria da
população, reacender a chama do sorriso é fundamental para uma vida mais
humanizada.
As
implicações
da
necessidade
lúdica
extrapolaram
as
demarcações do brincar de forma voluntária, passando a necessidade básica
da personalidade, do corpo e da mente, o lúdico faz parte das atividades
essenciais da dinâmica humana. Em consonância com Santos, Oliveira (2011)
afirma:
O senso lúdico pode vir a desempenhar um papel fundamental, tanto
no inicio como no fim da vida, na constituição prazerosa e funcional de
um ambiente onde a pessoa se sinta “em casa”, interagindo com
maior espontaneidade e soltura. Quer em suas modalidades mais
corporais, agilizando esquema sensório motor, quer mais adiante, em
suas formas mais elaboradas, simbólicas, combinadas em diferentes
dosagens à utilização de regras, implícitas ou explícitas, o brincar
contribui decisivamente para o bem-estar físico e mental, de forma
complementar (p. 98).
Negrine (1998) afirma que a capacidade lúdica está diretamente
relacionada a sua pré-história de vida. Acredita ser antes de mais nada, um
estado de espírito e um saber que progressivamente vai se instalando na
conduta do ser devido ao seu modo de vida.
Segundo Negrine (1998), a ludicidade não é um comportamento inato,
mas obtido de acordo com as influências adquiridas ao longo do processo de
desenvolvimento e aprendizagem, e é o resultado de uma cultura lúdica, que
por uns foi incentivada e por outros foi contestada. Completando os dizeres de
Negrine, Kishimoto (2002) diz:
[...] Mais importante que os adultos sejam pessoas que saibam jogar
é fundamental que se recupere o lúdico no universo adulto. ‘Saber jogar’ é mais do que mostrar algumas brincadeiras e jogos às crianças,
é sentir prazer no jogo (p.135).
Para Negrine (1998) as atividades de lazer, que envolvem recreação,
apresentam valores específicos que contaminam todas as fases da vida humana e não apenas a infância e adolescência como pensam muitos adultos. "É
necessário que o adulto reaprenda a brincar independente da idade. Brincar
não significa que o jovem ou o adulto volte a ser criança, mas é um meio pelo
qual o ser humano relaciona-se consigo mesmo, com os outros e com o contexto sócio cultural".
Na concepção de Negrine (1998), na atividade lúdica o homem não perde suas características de adulto sério e responsável, mas passa a dar mais
sentido e mais alegria à vida, pois durante a brincadeira libera-se e, consequentemente, ativa o pensamento e a memória. Assim, têm oportunidade de
ser mais criativo e de expandir emoções e sensações de prazer.
As atividades lúdicas podem ser consideradas como processos em que
envolvem o indivíduo e sua cultura, possuindo significado cultural marcante.
Através da brincadeira o indivíduo vai conhecer, aprender e se construir um ser
pertencente ao grupo. Pode-se dizer então que também são ações vividas e
sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição,
povoadas pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam
como teias urdidas com materiais simbólicos. Assim elas não são encontradas
nos prazeres estereotipados, no que é dado pronto, pois, estes não possuem a
marca da singularidade do sujeito que as vivencia (SANTIN, 1994).
Caminhos metodológicos.
A pesquisa é caracterizada como um estudo explicativo, pois visa
estabelecer uma relação de interpretação com os fatos através dos dados
obtidos, a abordagem do estudo é qualitativa. Como enfoque utilizou-se o
empírico analítico. De acordo com Teixeira (2008) trata da relação causal se
explicita no experimento, na sistematização e controle dos dados empíricos e
através das análises estatísticas e teóricas.
Iniciou-se o levantamento bibliográfico da pesquisa, fazendo-se a
aproximação com a temática das atividades física, ludicidade e hanseníase. A
identificação e a delimitação das fontes reduziram a pesquisa a autores de
leituras correntes, as obras de referencia, artigos científicos, teses e
dissertações com a temática das atividades lúdicas, os benefícios do lúdico
para o ser humano, as mazelas ocasionadas pela hanseníase, entre outros que
deram suporte a pesquisa, esta fase foi facilitada pela revisão bibliográfica
preliminar, após a seleção dos materiais fez-se primeiramente a leitura
exploratória para garantir uma visão total da obra. Logo após realizou-se a
leitura seletiva determinando os autores de contribuição significativa a
pesquisa, em seguida a leitura analítica nos auxiliou, por fim, sintetizou-se as
idéias dos materiais selecionados e através da leitura interpretativa ligar as
idéias dos autores com o problema da pesquisa, que constitui a última etapa
relacionada à leitura das fontes bibliográficas.
Com a finalização da coleta de dados, dá-se inicio ao processo de
analise dos dados, na pesquisa optamos pela análise do conteúdo que, de
acordo com Moraes (1999):
A análise de conteúdo constitui uma metodologia de pesquisa usada
para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de
documentos e textos. Essa análise, conduzindo a descrições
sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, ajuda a reinterpretar as
mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados num
nível que vai além de uma leitura comum. Essa metodologia de
pesquisa faz parte de uma busca teórica e prática, com um
significado especial no campo das investigações sociais. Constitui-se
em bem ais do que uma simples técnica de análise de dados,
representando uma abordagem metodológica com características e
possibilidades próprias. (p.02)
A análise de Conteúdo utilizada seguiu todas as suas fases como a préanálise que incide na organização do material de acordo com o obtido, onde
foram analisadas as concepções sobre o lúdico, as características da
hanseníase e seu processo de evolução histórica, assim como também foram
estudadas as influências que as atividades lúdicas trariam ao portador de
hanseníase.
Partindo da pré-analise deu-se seguimento com a descrição analítica
que detalhou as informações coletado durante a investigação dando mais
fundamento ao que se foi pesquisado. Ao término dessas fases conclui-se com
a interpretação inferencial, a fim de aprofundar sobre a análise realizada e
assim identificar o que há por trás dos dados coletados.
Resultados obtidos.
A pesquisa recorreu a diversas fontes da literatura, entre livros, teses,
dissertações, periódicos, sites, jornais, entre outros, em busca de uma síntese
a respeito das atividades lúdicas e seus benefícios no tratamento de indivíduos
portadores de hanseníase.
Dentre as atividades lúdicas, destacam-se na literatura estudada, o jogo,
a dança, a ginástica para todos e os alongamentos recreativos. Huizinga (1990)
define jogo como: uma atividade voluntária que o homem exerce dentro de
determinados limites no tempo e no espaço. Segue regras livremente
consentidas, mas absolutamente obrigatórias dotadas de um fim em si mesmo.
Está sempre acompanhada de um sentimento de tensão e alegria, e da
consciência de se estar fazendo algo diferente do cotidiano.
O jogo é uma atividade que desperta o interesse de todos, tanto a quem
joga quanto quem vê. No jogo somos capazes de sentir emoções de diversas
magnitudes e sentidos, estabelecemos conexões entre a alegria e a tristeza,
ansiedade e o nervosismo, o ganhar e o perder. O jogo nos toca
profundamente, nos colocando em situações diferentes, nos preparando para o
novo e nos fortalecendo também para vida, a respeito disso Brotto (2002)
afirma que:
[...] temos no jogo uma oportunidade de nos expressarmos com um
todo harmonioso, um todo que nos integra virtudes e defeitos,
habilidades e dificuldades, bem como as possibilidades de aprender a
SER... por inteiro, podemos desfrutar da inteireza uns dos outro e
descobrir o jogo como um extraordinário campo para a descoberta de
si mesmo e para o encontro com os outros (p. 107).
Portanto, trabalhar o jogo com os indivíduos portadores de hanseníase
seriam uma forma de despertá-los através do brincar, para si própria, de
enxergar suas limitações não como uma sentença, mas sim como uma
adversidade que pode e deve ser superada.
Outra atividade que emaranhada no contexto lúdico vem ganhando
espaços em escolas, clubes e academias, diante de sua capacidade e
benefícios inquestionáveis é a dança. Desde o surgimento da humanidade, a
dança tem sido utilizada para vários fins, por diversas culturas do mundo. E
além do seu caráter funcional, a dança, como manifestação artística e lúdica,
oportuniza a comunicação e a expressão do praticante, traçando diálogos com
outras áreas de conhecimento.
A dança é muito mais do que a sua própria palavra inspira. Ela envolve
musica, som, ritmo, movimento, prazer, harmonia, intelecto, conhecimento,
descoberta, formação pessoal e, sobretudo educação para a vida (VERDERI,
2000).
Por ser uma atividade coletiva e lúdica, acredita-se que a dança seja um
instrumento
de
desenvolvimento
facilitação
da
nos
autoestima,
relacionamentos
da
autoconfiança
interpessoais,
no
e
de
do
senso
responsabilidade. Também proporciona benefícios físicos como: aumento da
resistência corporal, estética, postura e flexibilidade, além de contribuir para o
equilíbrio emocional dentro de um desenvolvimento do individuo como um todo.
Identificado
na
fundamentação
deste
estudo,
uma
das
piores
consequências da hanseníase são as incapacidades físicas, isto faz com que o
individuo portador da doença fique impedido de executar simples tarefas da
vida diária, como por exemplo, lava louça, varrer a casa, subir escadas, além
de limitar um dos grandes direitos do individuo, que é o direito de ir e vir
previstos na Constituição da República Federativa do Brasil. Fatores estes que,
por sua vez promovem um abalo de ordem psicológica nas pessoas portadoras
de hanseníase incalculáveis, fazendo com que os mesmos tomem atitudes de
isolamento social, por sentirem-se incapazes.
Assim como forma de restabelecer e melhorar a capacidade física dos
portadores de hanseníase, a utilização dos alongamentos recreativos seria
fulcral, pois de acordo com Amerrican College Sport of Medicine (Colégio
Americano de Medicina do Esporte, 2002) atuam como elementos de
mobilização articular, óssea e muscular. Agindo no relaxamento muscular,
melhorando a consciência corporal, além de prevenirem lesões.
A ginástica para todos de acordo com a Confederação Brasileira de
Ginástica (2000) “essa é uma modalidade bastante abrangente que,
fundamentada nas atividades ginásticas como (Gin. Artística, Gin. Rítmica, Gin.
Acrobática, Gin. Aeróbica e Gin. de Trampolim), valendo-se também de vários
tipos de manifestações, tais como: danças, expressões folclóricas e jogos ,
expressos através de atividades lúdicas livres e criativas, objetiva promover o
lazer saudável, proporcionando bem estar físico, psíquico e social aos
praticantes,
favorecendo
a
performance
coletiva,
respeitando
as
individualidades, em busca da auto superação pessoal, sem qualquer tipo de
limitação para a sua pratica, seja quando às possibilidades de execução, sexo
ou idade, ou ainda quanto à utilização de elementos materiais, musicais e
coreográficos, havendo a preocupação de apresentar neste contexto, aspectos
da cultura nacional, sempre sem fins competitivos.”
Dentre
os
principais
objetivos
da
Ginástica
para
Todos,
podemos citar os seguintes: oportunizar a participação do maior número de
pessoas em atividade físicas de lazer fundamentadas nas atividades gímnicas
e lúdicas; integrar várias possibilidades de manifestações corporais às
atividades gímnicas; oportunizar a autosuperação sóciocultural entre os
participantes ativos ou não; manter e desenvolver o bem estar físico e psíquico
pessoal; promover uma melhor compreensão entre os indivíduos e os povos
em geral; oportunizar a valorização do trabalho coletivo, sem deixar de
valorizar a individualidade neste contexto; desenvolver a cultura através das
manifestações
folclóricas.
Desta
maneira
permite-se
ao
portador
de
hanseníase uma descoberta do artístico, sem preocupar-se com a aparência
física ou limitação para determinada ação.
Considerações finais.
Isolamento social, incapacidades físicas, preconceito, deformidades físicas, este é o cenário que no inicio deste estudo pensávamos em relação ao indivíduo portador de hanseníase. Com o passar da pesquisa e do contato com
materiais do estudo fui desmistificando a idéia aparentemente sombria passando para uma visão humana do portador da doença.
As mazelas biológicas, sociais, psicológicas e econômicas ocasionadas
pela moléstia afetam o portador de hanseníase em sua dimensão global. Desde o fazer as atividades simples da vida diária, até o seu relacionamento com
outro. Assim vislumbrar a possibilidade das atividades lúdicas no tratamento da
doença, como elemento facilitador para a auto superação, para a melhoria do
convívio social, melhoria das capacidades motoras, entre outras tornou elemento investigativo de estudo.
ADAMS (1999) recomenda que você ajude a manter sua saúde através
da alegria, do riso e da gentileza. Isso nos mostra a importância do lúdico, na
vida do individuo. Diz que, isso, vai causar uma devastação na indústria de tratamentos de saúde, porque esses itens não são cobertos pelos seguros. Fala
que, às vezes, o tratamento mais eficaz é a esperança, o amor, o relaxamento
e a simples alegria de viver.
Um dos fatores importantes, para a boa saúde é a auto estima: gostar de
você mesmo de uma forma carinhosa e sentir-se feliz em ser quem é. Se você
não aprendeu isso com seus pais ou com a sociedade, então escute e aceite
as palavras amorosas de seus amigos. Acredite que elas são precisas e fieis
ao descrevê-lo (ADAMS, 1999).
A brincadeira e o riso que a acompanha são grandes remédios. Estudos
mostram que o riso alivia dor, diminui a tensão e estimula o sistema imunológico. A intenção e fazer com que o olho brilhe e o espírito sorria.
As atividades lúdicas, tais como os elencados neste estudo, o jogo, a ginástica para todos, os alongamentos recreativos e dança são ações que despertam o eu do indivíduo que pratica estas atividades. Santin (1994) relata que
são ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas
pela fruição, povoadas pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se
articulam como teias urdidas com materiais simbólicos.
O indivíduo portador de hanseníase possui a necessidade de sentir-se
útil, de vivenciar experiências novas, de reagir contra suas incapacidades físi cas. Com este estudo buscou-se sensibilizar os profissionais da saúde que os
indivíduos portadores de hanseníase podem com as atividades lúdicas desenvolver suas habilidades físicas através dos movimentos lúdicos e da simbolização, como também ressignificar suas vivências, facilitando inúmeras descobertas de seu potencial criativo, tanto na qualidade de vida, como na manutenção
dos movimentos motores, nos relacionamentos e solução de problemas.
Nota-se que a autorealização é uma necessidade essencial de todas as
pessoas, não importando a idade ou cultura, faltando apenas para isso haver
oportunidade através de um facilitador, que sirva de estimulo quando se achem
incapazes de por si mesmos, buscarem soluções para seus problemas de
aprendizagem, como no caso, a busca da qualidade de vida através de brincadeiras.
A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade, o
desenvolvimento do aspecto lúdico viabiliza a participação, o crescimento
pessoal e social como também ultrapassa desafios. Assim o tratamento do
portador de hanseníase deve buscar um ambiente onde o paciente sinta-se a
vontade, ambiente este que faça-o sentir-se útil, nesse sentido a promoção de
atividades de cunho lúdico são essenciais para um melhor tratamento da
hanseníase.
Os jogos e brincadeiras estão presentes em todas as fases da vida do
ser humano, tornando especial a sua existência. O lúdico se faz presente e
acrescenta um ingrediente indispensável no relacionamento entre as pessoas.
Jogando e brincando o ser humano terá oportunidades de desenvolver
capacidades indispensáveis a sua futura atuação, tais como, a afetividade, o
hábito de permanecer concentrados e outras habilidades perceptuais
psicomotoras.
Esses requisitos revestem-se de especial importância no ambiente onde
o profissional de Educação Física vai trabalhar com as pessoas portadoras de
hanseníase, porque diante dos mais diversos obstáculos e estado de ânimo
frequentemente reduzido, o caráter das instalações, adquire uma função
psíquica estimulante ou contrária. É preciso, portanto, cuidar melhor do
ambiente de terapia. É dever dos profissionais da saúde considerar o lado
humano dos problemas, permutando as atitudes mecanizadas e realizadas
solitariamente por um contexto que lhe seja favorável a vivencia lúdica, que
oportuniza situações estimulando desafios e ressalta a inquisição de novas
competências e habilidades e de novos desafios para o melhor tratamento do
indivíduo com hanseníase.
Abstract
RECREATING ACTIVITIES AND THE PERSON WITH LEPROSY.
This study deals with the playfulness in the life of people with leprosy. Leprosy
major infectious disease promotes biopsychosocial sequelae of individuals with
the same. The proposal of recreational activities as an adjunct treatment of
stigmatizing diseases as leprosy, is crucial to the success of the patient,
considering that such activities have the spell of enchantment, joy, laughter,
pleasure. Thus, this research aimed to verify the importance of recreational
activities for people with leprosy. The research is characterized as literature,
delineated from the empirical analytical approach, a qualitative approach. We
used library resources for data collection and analysis was made from the
analysis of content. The results allowed an overview about the benefits of
recreational activities for people with leprosy. It follows then, that the present
study extends the knowledge in the area and allows for greater reflection on the
contribution of physical education professional, through the playfulness in the
treatment
of
people
with
leprosy.
Key Words: play activity; Benefits; leprosy.
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