AS ATIVIDADES LÚDICAS E A PESSOA PORTADORA DE HANSENÍASE Gustavo Ramos Melo1 Simone de La Rocque Cardoso2 Resumo Este estudo trata da ludicidade na vida das pessoas com hanseníase. A hanseníase doença infectocontagiosa promove grandes seqüelas biopsicossociais aos indivíduos portadores da mesma. A proposta das atividades lúdicas como coadjuvante do tratamento de doenças estigmatizantes, como a Hanseníase, é fundamental para o sucesso do paciente, haja vista que tais atividades possuem a magia do encantamento, da alegria, do riso, do prazer. Assim, esta pesquisa objetivou verificar a importância das atividades lúdicas para pessoas com hanseníase. A pesquisa é caracterizada como bibliográfica, delineado a partir do enfoque empírico analítico, numa abordagem qualitativa. Utilizou-se de recursos bibliográficos para a coleta de dados e a análise se fez a partir da analise de conteúdo. Os resultados obtidos permitiram um panorama a cerca dos benefícios das atividades lúdicas para pessoas portadoras de hanseníase. Conclui-se então, que o presente estudo amplia os conhecimentos na área e possibilita maior reflexão sobre a contribuição do profissional de Educação Física, através da ludicidade no tratamento de pessoas portadoras de hanseníase. Palavras-Chaves: Atividades Lúdicas; Benefícios; Hanseníase. Introdução Dos tempos bíblicos ao período moderno, a hanseníase foi descrita sendo uma doença que causava horror por conta da aparência física do doente não tratado. Por muitos anos, os portadores da doença foram chamados de “leprosos”. Isolados do convívio social e familiar, os hansenianos amargaram ao longo de anos esse estigma preconceituoso. Essa marca fisicamente presente nas feridas e nos membros desfigurados do doente e incorporada à sua identificação lançou a doença no lado mais obscuro da sociedade (OPROMOLLA, 1981). Com o passar dos anos as maneiras de tratar o hanseniano evoluíram, o tratamento deixou de ser observado somente apenas pelo isolamento e os medicamentos, passando a observar o paciente como um todo, levando em 1 Graduando em Licenciatura Plena em Educação Física da Universidade do Estado do Pará. Professora orientadora da pesquisa. Graduada em Educação Física, pela Escola Superior de Educação Física. Mestre em Motricidade Humana. 2 consideração seus abalos físicos, psicológicos, sociais e econômicos. Nesse sentido, o êxito do tratamento depende da confiança do paciente, da equipe de saúde envolvida e a incorporação de novas técnicas. Isto requer estratégias especiais, envolvimento profissional, conhecimentos particularizados, disponibilidade de tempo. Na área da saúde o profissional de Educação Física pode contribuir no tratamento do indivíduo com hanseníase através de várias atividades físicas, entre elas uma que se sobressai frente à capacidade de integrar e estabelecer relações interpessoais, além da promoção do condicionamento físico, somados a seus benefícios psicológicos e físicos, é a atividade lúdica. O incremento do lúdico no tratamento do indivíduo portador de hanseníase é fulcral ao nível em que as atividades lúdicas possuem a magia do encantamento, do prazer, da satisfação, resultando assim em uma forma diferenciada e humanizada de tratamento. Dessa maneira, oferecer atividades como o jogar, o brincar, o competir e o cooperar, juntamente com o tratamento medicamentoso convencional, pode ajudar a pessoa com hanseníase a minimizar os problemas de autoestima, preconceito social e conseqüentemente fazê-lo sentir-se mais feliz psicológica e socialmente. A partir dos estudos bibliográficos a cerca das atividades lúdicas e da hanseníase, observou-se a necessidade em elencar os benefícios das atividades para os portadores de hanseníase. Assim, esta pesquisa objetivou verificar a importância de atividades lúdicas, como o jogo, a dança, a ginástica para todos, e os alongamentos recreativos, como elementos coadjuvantes no tratamento para pessoas com hanseníase. Este estudo buscou a produção de conhecimento cientifico a cerca do tema abordado, além de propor um novo olhar através do lúdico, para a atuação do profissional de Educação Física, culminando em uma abordagem diferenciada a respeito do tratamento do individuo portador de hanseníase. Origem, evolução histórica, características clinicas e dermatológicas da hanseníase. Conhecida há mais de três ou quatro mil anos na Índia, China e Japão, a hanseníase já existia no Egito quatro mil e trezentos anos antes de Cristo, segundo um papiro da época de Ramsés II (Serviço Nacional de Lepra, 1960). Há evidências objetivas da doença em esqueletos descobertos no Egito, datando do segundo século antes de Cristo. Citações sobre a “Doença de Hansen” 3 também são feitas na Bíblia Sagrada (1992), entretanto, estas são confusas. Encontra-se, nos capítulos 13 e 14 do Levítico, o termo hebreu tsaraath ou saraath para designar afecções impuras. Estes termos foram traduzidos como lepra em vários idiomas, sem que se possa afirmar com certeza o seu significado original. Em hebraico, significavam uma condição de pele dos indivíduos ou de suas roupas que necessitava purificação. Opromolla (1981) nos coloca que aqueles que apresentavam o tsaraath deveriam ser isolados até que os sinais desta condição desaparecessem. Ainda conforme a Bíblia, o tsaraath na pele dos judeus seria manchas brancas deprimidas em que os pêlos também se tornavam brancos. Segundo Opromolla (1981), admite-se que a hanseníase era desconhecida na Europa na época de Hipócrates (467 a.C.). Nos trabalhos do "Pai da Medicina" não há referências a qualquer condição que se assemelhasse àquela doença. Se aceita que as tropas de Alexandre “O Grande”, quando retornaram à Europa depois da conquista do mundo então desconhecido, tenham trazido indivíduos contaminados com a doença nas campanhas da Índia (300 a.C.). Nas Américas a hanseníase data aproximadamente dos séculos XVI e XVII com a vinda dos colonizadores, pois não há evidências da existência da moléstia entre as tribos indígenas do Novo Mundo (Opromolla, 1981 e 2000). Conforme dados do Serviço Nacional de Lepra (1960) e Opromolla (2000), nos Estados Unidos foram os franceses, fundadores do Estado de Louisiana, que trouxeram a doença. Na América do Sul ela veio, provavelmente, com os colonizadores espanhóis e portugueses, pois os primeiros doentes de hanseníase observados na Colômbia eram de origem espanhola. Ainda segundo dados do Serviço Nacional de Lepra (1960), alguns autores atribuíram ao “Mal de Hansen” as figuras de mutilações encontradas em vasos da época pré-colombiana. 3 “Doença de Hansen” foi o termo utilizado por especialistas durante anos para designar a hanseníase. Assim como em outras regiões da América, não havia hanseníase entre os indígenas brasileiros. A doença entrou no Brasil, por vários pontos do litoral, com os primeiros colonizadores portugueses, principalmente açorianos, e para sua disseminação contribuíram os escravos africanos, advindos para o Brasil. Entretanto, outros povos europeus também colaboraram para sua disseminação posteriormente (Monteiro,1987). Para Opromolla (2000), o papel desempenhado pelos escravos na introdução da hanseníase no Brasil é discutível, pois era difícil a negociação de africanos que apresentassem lesões cutâneas. No Brasil, os primeiros casos da doença foram notificados no ano de 1600, na cidade do Rio de Janeiro, onde, anos mais tarde, seria criado o primeiro lazareto4. Opromolla (1981 e 2000) nos diz que os primeiros documentos que atestam a existência da hanseníase no território brasileiro datam dos primeiros anos do século XVII, tanto que em 1696 o governador Artur de Sá e Menezes procurava dar assistência, no Rio de Janeiro, aos doentes já então em número apreciável. Após os primeiros casos no Rio de Janeiro, outros focos da doença foram identificados, principalmente na Bahia e no Pará. Segundo a Organização Mundial da Saúde (2000) “a hanseníase é uma doença infecciosa, crônica, de grande importância para a saúde pública devido à sua magnitude e seu alto poder incapacitante, atingindo principalmente as pessoas em faixa etária economicamente ativa comprometendo seu desenvolvimento profissional e/ou social”. O potencial incapacitante da hanseníase está diretamente relacionado à capacidade do bacilo penetrar a célula nervosa e também ao seu poder imunogênico. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda, para fins terapêuticos, a classificação operacional baseada no número de lesões cutâneas. Os casos com até cinco lesões são considerados Paucibacilares (PB) e aqueles com mais de cinco lesões são os Multibacilares (MB). A hanseníase é uma doença que se manifesta por meio de sinais e sintomas dermato neurológicos como lesões de pele e de nervos periféricos, principalmente nos olhos, nas mãos e nos pés. O seu diagnóstico é essencialmente clínico e epidemiológico. 4 Local destinado a abrigar os doentes de Lázaro, lazarentos ou leprosos (Brasil, 1989). De acordo com Virmond (1997) existem várias teorias sobre a forma de transmissão da doença. A hipótese mais aceita é que uma pessoa doente, da forma contagiosa, e não tratada elimina o bacilo para o meio externo infectando outras pessoas. Para que essa transmissão ocorra, é necessário que haja contato direto e prolongado com o doente não tratado. O aparecimento da doença e suas diferentes manifestações clínicas dependem da resposta do sistema imunológico do indivíduo, frente ao bacilo, podendo ocorrer após um longo período de incubação, em média de dois a sete anos. Indivíduos que apresentam melhor resposta imunológica abrigam um pequeno número de bacilos em seu organismo, insuficiente para infectar outras pessoas. Estes indivíduos são os casos PB (Paucibacilares), não sendo este tipo da doença considerada importante fontes de transmissão, devido à sua baixa carga bacilar. Um número menor de indivíduos apresenta uma resposta imunológica pouco eficaz, permitindo que os bacilos se multipliquem em grande quantidade em seu organismo. Estes indivíduos são os casos MB (Multibacilares), considerados como fonte importante de infecção e manutenção da cadeia epidemiológica da doença. Quando o doente inicia o tratamento, ele deixa de ser transmissor, pois os bacilos são mortos nas primeiras doses da medição (Virmond, 1997). A hanseníase pode atingir pessoas de todas as idades e de ambos os sexos, sendo a incidência maior em indivíduos do sexo masculino. Crianças raramente são afetadas, no entanto, observa-se que quando crianças menores de 15 anos adoecem há uma maior endemicidade da doença . Geralmente a hanseníase manifesta-se por meio de lesões de pele com diminuição ou ausência de sensibilidade ou lesões dormentes, em decorrência do acometimento dos ramos periféricos cutâneos. As lesões mais comuns são manchas esbranquiçadas ou avermelhadas, alteração na cor da pele, pápulas, lesão sólida, com elevação superficial e circunscrita, infiltrações, alteração na espessura da pele, de forma difusa, tubérculos, nódulos (Ministério da Saúde, 2000). Outros sintomas gerais precisam ser valorizados, tais como, edema de mãos e pés, febre e artralgia, entupimento, feridas e ressecamento do nariz, nódulos eritematosos dolorosos, mal estar geral, ressecamento dos olhos (Ministério da Saúde, 2000). Atividade física e a hanseníase. O combate a hanseníase envolve uma equipe multidisciplinar, composta por médicos, fisioterapeutas, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos. Porém percebe-se a ausência do profissional de Educação Física com componente constituinte da equipe. O educador físico pode e deve ser incorporada a equipe de controle da hanseníase, pois, suas ações estariam centralizadas na prevenção de incapacidades físicas, as quais por sua vez promovem abalos de ordem biopsicossociais aos portadores da doença. Stein (2009) analisa a situação do processo saúde-doença, discutindo a preocupação para o desenvolvimento de um trabalho voltado à prevenção, por meio da educação para saúde e afirma que, para se ter alcance preventivo é necessário compreender os três níveis de prevenção, que são apresentados pela medicina como a prevenção primária; secundária e terciária. A autora registra ainda que a Educação Física esteja presente neste processo da seguinte forma: Na prevenção primária a Educação Física pode atuar desenvolvendo ações que apresentem regras sadias de vida, tanto fisiológica quanto psicológica, como atividades prazerosas. Ela deve intervir antes que surja algum problema, visando uma educação para a saúde. Na secundária, ela pode atuar no prolongamento da prevenção primária, se esta não alcançar os objetivos pretendidos; e na prevenção terciária, já atuaria no encaminhamento aos especialistas para o tratamento e ou reabilitação das doenças (STEIN, 2009). Entendemos que o profissional de Educação Física, sendo especialista em atividades físicas em todas as suas manifestações como ginásticas, exercícios físicos, jogos, desportos, lutas, danças, entre outros, deve auxiliar no desenvolvimento da educação e saúde, contribuindo para a aquisição e/ou restabelecimento de níveis adequados de desempenho e condicionamento fisiocorporal das pessoas. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (2002) atividade física é qualquer atividade que tenha dispêndio de energia maior que em repouso. Neste sentido a própria OMS (2002) recomenda que a prática regular de atividades físicas auxiliam na prevenção de doenças, e consequentemente melhora a qualidade de vida de seus praticantes. Neste sentido, as atividades lúdicas assumem o papel de atividade física. A prática de atividades físicas para portadores de hanseníase podem auxiliar na prevenção de incapacidades físicas resultantes da doença, além de serem de fundamental importância como elementos de socialização entre seus praticantes. Sobre as atividades lúdicas. Ao longo do tempo o lúdico tem sido reconhecido como importante e fundamental em todos os estágios da vida, sejam crianças, adultos ou idosos. Assim, a ludicidade permeia intrinsecamente o nosso ser. Muito têm se discutido a respeito da importância do lúdico na formação humana, autores como Huizinga, Santos, Santin, Kishimoto, Negrine, vem escrevendo a respeito da ludicidade nas diferenças etapas da vida e sua importância na formação humana. De acordo o dicionário Aurélio, a palavra "lúdico" encontra-se relativa a jogos, brinquedos e divertimento ou brincadeiras, o que significa dizer que, caracterizar o lúdico é falar dessas vertentes. Novamente, recorrendo ao dicionário, o jogo é uma atividade física e mental organizada por sistema de regras que definem a perda ou ganho; e o brinquedo, passatempo e divertimento. De acordo com Huizinga (2007) o termo lúdico provém: [...] o latim cobre todo o terreno do jogo com uma única palavra: ludos, de ludere, de onde deriva diretamente lusus. (...) embora ludere possa ser usado para designar o salto dos peixes, o esvoaçar dos pássaros e o borbulhar da águas, sua etimologia não parece residir na esfera do movimento rápido, e sim na da não-seriedade, e particularmente na da 'ilusão' e da 'simulação'. Ludos abrange os jogos infantis, a recreação, as competições, as representações litúrgicas e teatrais e os jogos de azar (p. 41). Independente da faixa etária, o lúdico torna-se essencial na vida do ser humano, o brincar, o sorrir, a alegria, tem sido esquecidos pela maioria da população, reacender a chama do sorriso é fundamental para uma vida mais humanizada. As implicações da necessidade lúdica extrapolaram as demarcações do brincar de forma voluntária, passando a necessidade básica da personalidade, do corpo e da mente, o lúdico faz parte das atividades essenciais da dinâmica humana. Em consonância com Santos, Oliveira (2011) afirma: O senso lúdico pode vir a desempenhar um papel fundamental, tanto no inicio como no fim da vida, na constituição prazerosa e funcional de um ambiente onde a pessoa se sinta “em casa”, interagindo com maior espontaneidade e soltura. Quer em suas modalidades mais corporais, agilizando esquema sensório motor, quer mais adiante, em suas formas mais elaboradas, simbólicas, combinadas em diferentes dosagens à utilização de regras, implícitas ou explícitas, o brincar contribui decisivamente para o bem-estar físico e mental, de forma complementar (p. 98). Negrine (1998) afirma que a capacidade lúdica está diretamente relacionada a sua pré-história de vida. Acredita ser antes de mais nada, um estado de espírito e um saber que progressivamente vai se instalando na conduta do ser devido ao seu modo de vida. Segundo Negrine (1998), a ludicidade não é um comportamento inato, mas obtido de acordo com as influências adquiridas ao longo do processo de desenvolvimento e aprendizagem, e é o resultado de uma cultura lúdica, que por uns foi incentivada e por outros foi contestada. Completando os dizeres de Negrine, Kishimoto (2002) diz: [...] Mais importante que os adultos sejam pessoas que saibam jogar é fundamental que se recupere o lúdico no universo adulto. ‘Saber jogar’ é mais do que mostrar algumas brincadeiras e jogos às crianças, é sentir prazer no jogo (p.135). Para Negrine (1998) as atividades de lazer, que envolvem recreação, apresentam valores específicos que contaminam todas as fases da vida humana e não apenas a infância e adolescência como pensam muitos adultos. "É necessário que o adulto reaprenda a brincar independente da idade. Brincar não significa que o jovem ou o adulto volte a ser criança, mas é um meio pelo qual o ser humano relaciona-se consigo mesmo, com os outros e com o contexto sócio cultural". Na concepção de Negrine (1998), na atividade lúdica o homem não perde suas características de adulto sério e responsável, mas passa a dar mais sentido e mais alegria à vida, pois durante a brincadeira libera-se e, consequentemente, ativa o pensamento e a memória. Assim, têm oportunidade de ser mais criativo e de expandir emoções e sensações de prazer. As atividades lúdicas podem ser consideradas como processos em que envolvem o indivíduo e sua cultura, possuindo significado cultural marcante. Através da brincadeira o indivíduo vai conhecer, aprender e se construir um ser pertencente ao grupo. Pode-se dizer então que também são ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, povoadas pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias urdidas com materiais simbólicos. Assim elas não são encontradas nos prazeres estereotipados, no que é dado pronto, pois, estes não possuem a marca da singularidade do sujeito que as vivencia (SANTIN, 1994). Caminhos metodológicos. A pesquisa é caracterizada como um estudo explicativo, pois visa estabelecer uma relação de interpretação com os fatos através dos dados obtidos, a abordagem do estudo é qualitativa. Como enfoque utilizou-se o empírico analítico. De acordo com Teixeira (2008) trata da relação causal se explicita no experimento, na sistematização e controle dos dados empíricos e através das análises estatísticas e teóricas. Iniciou-se o levantamento bibliográfico da pesquisa, fazendo-se a aproximação com a temática das atividades física, ludicidade e hanseníase. A identificação e a delimitação das fontes reduziram a pesquisa a autores de leituras correntes, as obras de referencia, artigos científicos, teses e dissertações com a temática das atividades lúdicas, os benefícios do lúdico para o ser humano, as mazelas ocasionadas pela hanseníase, entre outros que deram suporte a pesquisa, esta fase foi facilitada pela revisão bibliográfica preliminar, após a seleção dos materiais fez-se primeiramente a leitura exploratória para garantir uma visão total da obra. Logo após realizou-se a leitura seletiva determinando os autores de contribuição significativa a pesquisa, em seguida a leitura analítica nos auxiliou, por fim, sintetizou-se as idéias dos materiais selecionados e através da leitura interpretativa ligar as idéias dos autores com o problema da pesquisa, que constitui a última etapa relacionada à leitura das fontes bibliográficas. Com a finalização da coleta de dados, dá-se inicio ao processo de analise dos dados, na pesquisa optamos pela análise do conteúdo que, de acordo com Moraes (1999): A análise de conteúdo constitui uma metodologia de pesquisa usada para descrever e interpretar o conteúdo de toda classe de documentos e textos. Essa análise, conduzindo a descrições sistemáticas, qualitativas ou quantitativas, ajuda a reinterpretar as mensagens e a atingir uma compreensão de seus significados num nível que vai além de uma leitura comum. Essa metodologia de pesquisa faz parte de uma busca teórica e prática, com um significado especial no campo das investigações sociais. Constitui-se em bem ais do que uma simples técnica de análise de dados, representando uma abordagem metodológica com características e possibilidades próprias. (p.02) A análise de Conteúdo utilizada seguiu todas as suas fases como a préanálise que incide na organização do material de acordo com o obtido, onde foram analisadas as concepções sobre o lúdico, as características da hanseníase e seu processo de evolução histórica, assim como também foram estudadas as influências que as atividades lúdicas trariam ao portador de hanseníase. Partindo da pré-analise deu-se seguimento com a descrição analítica que detalhou as informações coletado durante a investigação dando mais fundamento ao que se foi pesquisado. Ao término dessas fases conclui-se com a interpretação inferencial, a fim de aprofundar sobre a análise realizada e assim identificar o que há por trás dos dados coletados. Resultados obtidos. A pesquisa recorreu a diversas fontes da literatura, entre livros, teses, dissertações, periódicos, sites, jornais, entre outros, em busca de uma síntese a respeito das atividades lúdicas e seus benefícios no tratamento de indivíduos portadores de hanseníase. Dentre as atividades lúdicas, destacam-se na literatura estudada, o jogo, a dança, a ginástica para todos e os alongamentos recreativos. Huizinga (1990) define jogo como: uma atividade voluntária que o homem exerce dentro de determinados limites no tempo e no espaço. Segue regras livremente consentidas, mas absolutamente obrigatórias dotadas de um fim em si mesmo. Está sempre acompanhada de um sentimento de tensão e alegria, e da consciência de se estar fazendo algo diferente do cotidiano. O jogo é uma atividade que desperta o interesse de todos, tanto a quem joga quanto quem vê. No jogo somos capazes de sentir emoções de diversas magnitudes e sentidos, estabelecemos conexões entre a alegria e a tristeza, ansiedade e o nervosismo, o ganhar e o perder. O jogo nos toca profundamente, nos colocando em situações diferentes, nos preparando para o novo e nos fortalecendo também para vida, a respeito disso Brotto (2002) afirma que: [...] temos no jogo uma oportunidade de nos expressarmos com um todo harmonioso, um todo que nos integra virtudes e defeitos, habilidades e dificuldades, bem como as possibilidades de aprender a SER... por inteiro, podemos desfrutar da inteireza uns dos outro e descobrir o jogo como um extraordinário campo para a descoberta de si mesmo e para o encontro com os outros (p. 107). Portanto, trabalhar o jogo com os indivíduos portadores de hanseníase seriam uma forma de despertá-los através do brincar, para si própria, de enxergar suas limitações não como uma sentença, mas sim como uma adversidade que pode e deve ser superada. Outra atividade que emaranhada no contexto lúdico vem ganhando espaços em escolas, clubes e academias, diante de sua capacidade e benefícios inquestionáveis é a dança. Desde o surgimento da humanidade, a dança tem sido utilizada para vários fins, por diversas culturas do mundo. E além do seu caráter funcional, a dança, como manifestação artística e lúdica, oportuniza a comunicação e a expressão do praticante, traçando diálogos com outras áreas de conhecimento. A dança é muito mais do que a sua própria palavra inspira. Ela envolve musica, som, ritmo, movimento, prazer, harmonia, intelecto, conhecimento, descoberta, formação pessoal e, sobretudo educação para a vida (VERDERI, 2000). Por ser uma atividade coletiva e lúdica, acredita-se que a dança seja um instrumento de desenvolvimento facilitação da nos autoestima, relacionamentos da autoconfiança interpessoais, no e de do senso responsabilidade. Também proporciona benefícios físicos como: aumento da resistência corporal, estética, postura e flexibilidade, além de contribuir para o equilíbrio emocional dentro de um desenvolvimento do individuo como um todo. Identificado na fundamentação deste estudo, uma das piores consequências da hanseníase são as incapacidades físicas, isto faz com que o individuo portador da doença fique impedido de executar simples tarefas da vida diária, como por exemplo, lava louça, varrer a casa, subir escadas, além de limitar um dos grandes direitos do individuo, que é o direito de ir e vir previstos na Constituição da República Federativa do Brasil. Fatores estes que, por sua vez promovem um abalo de ordem psicológica nas pessoas portadoras de hanseníase incalculáveis, fazendo com que os mesmos tomem atitudes de isolamento social, por sentirem-se incapazes. Assim como forma de restabelecer e melhorar a capacidade física dos portadores de hanseníase, a utilização dos alongamentos recreativos seria fulcral, pois de acordo com Amerrican College Sport of Medicine (Colégio Americano de Medicina do Esporte, 2002) atuam como elementos de mobilização articular, óssea e muscular. Agindo no relaxamento muscular, melhorando a consciência corporal, além de prevenirem lesões. A ginástica para todos de acordo com a Confederação Brasileira de Ginástica (2000) “essa é uma modalidade bastante abrangente que, fundamentada nas atividades ginásticas como (Gin. Artística, Gin. Rítmica, Gin. Acrobática, Gin. Aeróbica e Gin. de Trampolim), valendo-se também de vários tipos de manifestações, tais como: danças, expressões folclóricas e jogos , expressos através de atividades lúdicas livres e criativas, objetiva promover o lazer saudável, proporcionando bem estar físico, psíquico e social aos praticantes, favorecendo a performance coletiva, respeitando as individualidades, em busca da auto superação pessoal, sem qualquer tipo de limitação para a sua pratica, seja quando às possibilidades de execução, sexo ou idade, ou ainda quanto à utilização de elementos materiais, musicais e coreográficos, havendo a preocupação de apresentar neste contexto, aspectos da cultura nacional, sempre sem fins competitivos.” Dentre os principais objetivos da Ginástica para Todos, podemos citar os seguintes: oportunizar a participação do maior número de pessoas em atividade físicas de lazer fundamentadas nas atividades gímnicas e lúdicas; integrar várias possibilidades de manifestações corporais às atividades gímnicas; oportunizar a autosuperação sóciocultural entre os participantes ativos ou não; manter e desenvolver o bem estar físico e psíquico pessoal; promover uma melhor compreensão entre os indivíduos e os povos em geral; oportunizar a valorização do trabalho coletivo, sem deixar de valorizar a individualidade neste contexto; desenvolver a cultura através das manifestações folclóricas. Desta maneira permite-se ao portador de hanseníase uma descoberta do artístico, sem preocupar-se com a aparência física ou limitação para determinada ação. Considerações finais. Isolamento social, incapacidades físicas, preconceito, deformidades físicas, este é o cenário que no inicio deste estudo pensávamos em relação ao indivíduo portador de hanseníase. Com o passar da pesquisa e do contato com materiais do estudo fui desmistificando a idéia aparentemente sombria passando para uma visão humana do portador da doença. As mazelas biológicas, sociais, psicológicas e econômicas ocasionadas pela moléstia afetam o portador de hanseníase em sua dimensão global. Desde o fazer as atividades simples da vida diária, até o seu relacionamento com outro. Assim vislumbrar a possibilidade das atividades lúdicas no tratamento da doença, como elemento facilitador para a auto superação, para a melhoria do convívio social, melhoria das capacidades motoras, entre outras tornou elemento investigativo de estudo. ADAMS (1999) recomenda que você ajude a manter sua saúde através da alegria, do riso e da gentileza. Isso nos mostra a importância do lúdico, na vida do individuo. Diz que, isso, vai causar uma devastação na indústria de tratamentos de saúde, porque esses itens não são cobertos pelos seguros. Fala que, às vezes, o tratamento mais eficaz é a esperança, o amor, o relaxamento e a simples alegria de viver. Um dos fatores importantes, para a boa saúde é a auto estima: gostar de você mesmo de uma forma carinhosa e sentir-se feliz em ser quem é. Se você não aprendeu isso com seus pais ou com a sociedade, então escute e aceite as palavras amorosas de seus amigos. Acredite que elas são precisas e fieis ao descrevê-lo (ADAMS, 1999). A brincadeira e o riso que a acompanha são grandes remédios. Estudos mostram que o riso alivia dor, diminui a tensão e estimula o sistema imunológico. A intenção e fazer com que o olho brilhe e o espírito sorria. As atividades lúdicas, tais como os elencados neste estudo, o jogo, a ginástica para todos, os alongamentos recreativos e dança são ações que despertam o eu do indivíduo que pratica estas atividades. Santin (1994) relata que são ações vividas e sentidas, não definíveis por palavras, mas compreendidas pela fruição, povoadas pela fantasia, pela imaginação e pelos sonhos que se articulam como teias urdidas com materiais simbólicos. O indivíduo portador de hanseníase possui a necessidade de sentir-se útil, de vivenciar experiências novas, de reagir contra suas incapacidades físi cas. Com este estudo buscou-se sensibilizar os profissionais da saúde que os indivíduos portadores de hanseníase podem com as atividades lúdicas desenvolver suas habilidades físicas através dos movimentos lúdicos e da simbolização, como também ressignificar suas vivências, facilitando inúmeras descobertas de seu potencial criativo, tanto na qualidade de vida, como na manutenção dos movimentos motores, nos relacionamentos e solução de problemas. Nota-se que a autorealização é uma necessidade essencial de todas as pessoas, não importando a idade ou cultura, faltando apenas para isso haver oportunidade através de um facilitador, que sirva de estimulo quando se achem incapazes de por si mesmos, buscarem soluções para seus problemas de aprendizagem, como no caso, a busca da qualidade de vida através de brincadeiras. A ludicidade é uma necessidade do ser humano em qualquer idade, o desenvolvimento do aspecto lúdico viabiliza a participação, o crescimento pessoal e social como também ultrapassa desafios. Assim o tratamento do portador de hanseníase deve buscar um ambiente onde o paciente sinta-se a vontade, ambiente este que faça-o sentir-se útil, nesse sentido a promoção de atividades de cunho lúdico são essenciais para um melhor tratamento da hanseníase. Os jogos e brincadeiras estão presentes em todas as fases da vida do ser humano, tornando especial a sua existência. O lúdico se faz presente e acrescenta um ingrediente indispensável no relacionamento entre as pessoas. Jogando e brincando o ser humano terá oportunidades de desenvolver capacidades indispensáveis a sua futura atuação, tais como, a afetividade, o hábito de permanecer concentrados e outras habilidades perceptuais psicomotoras. Esses requisitos revestem-se de especial importância no ambiente onde o profissional de Educação Física vai trabalhar com as pessoas portadoras de hanseníase, porque diante dos mais diversos obstáculos e estado de ânimo frequentemente reduzido, o caráter das instalações, adquire uma função psíquica estimulante ou contrária. É preciso, portanto, cuidar melhor do ambiente de terapia. É dever dos profissionais da saúde considerar o lado humano dos problemas, permutando as atitudes mecanizadas e realizadas solitariamente por um contexto que lhe seja favorável a vivencia lúdica, que oportuniza situações estimulando desafios e ressalta a inquisição de novas competências e habilidades e de novos desafios para o melhor tratamento do indivíduo com hanseníase. Abstract RECREATING ACTIVITIES AND THE PERSON WITH LEPROSY. This study deals with the playfulness in the life of people with leprosy. Leprosy major infectious disease promotes biopsychosocial sequelae of individuals with the same. The proposal of recreational activities as an adjunct treatment of stigmatizing diseases as leprosy, is crucial to the success of the patient, considering that such activities have the spell of enchantment, joy, laughter, pleasure. Thus, this research aimed to verify the importance of recreational activities for people with leprosy. The research is characterized as literature, delineated from the empirical analytical approach, a qualitative approach. We used library resources for data collection and analysis was made from the analysis of content. The results allowed an overview about the benefits of recreational activities for people with leprosy. It follows then, that the present study extends the knowledge in the area and allows for greater reflection on the contribution of physical education professional, through the playfulness in the treatment of people with leprosy. Key Words: play activity; Benefits; leprosy. REFERENCIAS ADAMS, Patch. O Amor É Contagioso. 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