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ÉPICA GREGA: HOMERO
Comportamentos na paz e na guerra
Violação do juramento: a busca da glória individual (Ilíada 4.68–128)
Assim falou Hera e imediatamente o pai dos homens e dos deuses, dócil, dirigiu a Atena estas palavras
aladas:
— Vai sem demora ao campo de batalha de troianos e aqueus e faz com que os troianos, diante dos
aqueus ufanos da vitória, sejam os primeiros a violar seus juramentos.
Com esses dizeres, incitou Atena, já impaciente. De um salto, precipitou-se ela das cabeceiras do
Olimpo. Assim como um bólide, enviado pelo filho do ardiloso Cronos como um prodígio a marinheiros ou
a um vasto acampamento de tropas, brilha e despede mil fagulhas, assim Palas Atena saltou sobre a terra e
arrojou-se no meio dos exércitos. Muda admiração dominou os espectadores, troianos domadores de cavalos
e aqueus de belas grevas, e cada qual repetia, olhando para o vizinho:
— Sem dúvida, ou a renhidíssima guerra e as funestas refregas continuarão ou será estabelecida a
amizade entre os dois povos, por Zeus, árbitro da guerra para os homens.
Assim repetia cada aqueu e cada troiano. A deusa, semelhante a um guerreiro, embarafustou pela
multidão dos troianos na forma de Laodoco, filho de Antenor, robusto lanceiro, em busca de Pândaro, rival
dos deuses. E encontrou o irreprochável e aguerrido filho de Licaon em pé, no meio das vigorosas tropas
armadas de escudo que o tinham seguido desde as margens do Esepo. Em pé a seu lado, disse-lhe estas
palavras aladas:
— Queres obedecer-me, preclaro filho de Licaon? Atreve-te, então, a desfechar sobre Menelau uma
flecha rápida; e de todos os troianos alcançarás reconhecimento e glória, sobretudo do príncipe Alexandre,
que não tardará em dar-te magníficos presentes, ao ver o belicoso Menelau, filho de Atreu, subjugado por tua
seta, subir a triste pira. Vamos, atira no ilustre Menelau e promete a Apolo filho do lobo,1 glorioso arqueiro,
uma ilustre hecatombe de cordeiros primigênios, quando regressares à casa, na sagrada cidade de Zélia.
Por que arriscar a vida? A fala de Sárpedon (Ilíada 12.310–28)
Entretanto, os troianos e o ilustre Heitor ainda não teriam, pelo menos então, rompido a porta do muro
e sua longa tranca sem o auxílio de Sarpédon, que seu pai, o prudente Zeus, lançou contra os Argivos como
um leão contra bois de recurvados cornos. Este logo se cobriu de bem proporcionado escudo, bonito, de
bronze forjado; o artífice forjara o bronze e, no interior, costurara numerosas peles de bois, com varetas de
ouro aplicadas no fundo circular. Coberto com essa adarga e brandindo duas lanças, avançou Sarpédon como
um leão crescido nas montanhas, privado por muito tempo de carne e cujo coração viril, para agarrar
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Λυκηγενής, “filho da Lícia”; a cidade de Patara, na Ásia menor, fundada por Pataro, filho de Apolo, tinha um oráculo
do deus. Epítetos relacionados são λυκοκτόνος, “matador de lobo” e Λύκειος (de Λῠκία “Lícia”, λύκος “lobo” ou
λύκη “luz da manhã”?).
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carneiros, o leva a penetrar até em uma sólida habitação. Embora encontre junto do estábulo os pastores, com
seus cães e chuços, vigiando à volta do rebanho, não se afasta sem primeiro tentar o ataque: ou arrebata a
presa de um salto ou é ferido na primeira investida pelo dardo despachado por mão pronta. Assim, então, o
coração de Sarpédon, rival dos deuses, impeliu-o a saltar sobre a muralha e a romper-lhe os parapeitos. Logo
se dirigiu a Glauco, filho de Hipóloco:
— Glauco, por que nos honram na Lícia, a nós mais do que aos outros, oferecendo-nos sempre os
lugares mais ambicionados, os melhores pedaços de carne, as taças mais cheias? Por que nos olham todos
como a deuses? Por que possuímos, às margens do Xanto, extensas herdades, formosas por seus vergéis e
por suas terras de trigo? Agora devemos, na primeira fila dos lícios, em pé, afrontar a ardente batalha, para
que entre os lícios rigorosamente encouraçados se diga: “Não é sem glória que nossos reis governam a lícia;
comem gordos carneiros, com vinhos escolhidos, doces como o mel; mas seu vigor também é excelente,
visto que combatem na primeira fila dos lícios”. De fato, meu bom amigo, se, fugindo a esta guerra,
fôssemos para sempre isentos da velhice e da morte, eu mesmo não combateria na primeira fila e não te traria
à batalha gloriosa; mas, visto que de todo modo as divindades da morte se erguem aos milhares diante de nós
— e escusado é para um humano fugir ou evitá-las — vamos! Ganhemos a glória ou demo-la a ganhar.
A luta de Heitor e Aquiles: como enfrentar a morte (Ilíada 22.38–130)
O velho Príamo foi o primeiro a ver Aquiles, resplandecente, na corrida pela planura, como o astro
que surge no outono (seu claro luar brilha entre os astros numerosos durante o curso da noite) e que se chama
o cão de Órion. Resplende, mas é mau sinal: traz muitas febres aos míseros humanos; assim brilhava o
bronze no peito de Aquiles que corria. Gemeu o velho; golpeou a cabeça com as mãos levantadas para o alto;
despedindo fundos gemidos, gritava, suplicando ao filho; mas este se quedava diante da porta, firmemente
disposto a combater Aquiles. E o ancião disse-lhe estas palavras tocantes, estendendo as mãos:
— Heitor, não esperes sozinho, meu filho, sem companheiro, esse homem, para que não alcances logo o
destino fatal, vencido pelo filho de Peleu: pois é bem mais forte do que tu, o miserável! Pudesses ser tão caro
aos deuses quanto a mim! Não tardariam os cães e os abutres a devorá-lo, estendido no chão, e uma dor terrível
me deixaria as entranhas. Foi ele que me privou de muitos filhos valentes, matando-os ou mandando-os vender
em ilhas distantes. Agora mesmo, dois de meus filhos, Licaon e Polidoro, já os não posso ver (embora os
troianos se tenham reagrupado na cidade), os que para mim pariu Laótoe, soberana entre as mulheres. Se ainda
estiverem vivos no acampamento inimigo, depois, ao preço do bronze e do ouro, os libertaremos. Há riquezas
entre nós; o velho e ilustre Altes deu-as em grande quantidade à filha. Mas se já estiverem mortos, nas moradas
de Hades, grande será a dor de meu coração e da mãe deles, de nós que os procriamos. Entretanto, o sofrimento
será menos durável para o resto do povo se não morreres tu também, vencido por Aquiles. Passa para dentro
dos muros, meu filho, a fim de salvares troianos e troianas, de não proporcionares uma grande glória ao filho de
Peleu e de não perderes tu mesmo a doce existência. Apieda-te também de minha desgraça, de mim que ainda
conservo o juízo, desgraçado que o Pai, filho de Cronos, fará perecer medonhamente, no limiar da velhice,
depois de haver visto tantos males – os filhos mortos, as filhas arrastadas, as câmaras devastadas, as criancinhas
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despedaçadas contra o solo, em terrível carnificina, e as noras arrastadas pelas mãos funestas dos Aqueus! A
mim mesmo, por último, na porta exterior, os cães sanguinários me farão pedaços, quando alguém, com o
bronze agudo, tendo-me ferido de perto ou de longe, houver arrancado a vida a meus membros, esses mesmos
cães que alimentei em meu palácio, porteiros que vivem de minha mesa e que, tendo bebido o meu sangue,
com o coração enraivecido, ficarão deitados diante das portas. A um jovem convém perfeitamente – morto por
Ares, rasgado pelo bronze agudo – jazer estendido: até em seu cadáver é belo tudo o que pode aparecer. Mas
quando é a cabeça grisalha, o queixo grisalho, as partes de um velho degolado que os cães ultrajam, nada há
mais lamentável entre os míseros mortais.
Disse o velho e, com as mãos, arrancava os cabelos que lhe branqueavam na cabeça; mas não
persuadiu o coração de Heitor. Sua mãe, de outro lado, lamentava-se, derramando lágrimas. Abrindo as
vestes, com a mão apresentava os seios e, banhada em pranto, disse estas palavras aladas:
— Heitor, meu filho, respeita isto e tem piedade de mim. Se alguma vez te apresentei este seio que faz
esquecer as penas, não o esquece, meu filho. Rechaça o inimigo, mas no interior das muralhas; não afrontes
aquele miserável! Se ele te matar, sequer poderemos chorar-te em um leito, filho querido – eu, que te dei à luz,
e tua mulher rica de presentes. Bem longe de nós, junto dos vasos argivos, serás devorado pelos rápidos cães.
Assim ambos, carpindo-se, dirigiam-se ao filho com muitas súplicas; mas não moviam o coração de
Heitor. Este esperava o prodigioso Aquiles, que se aproximava. Assim como a serpente da montanha, na
cova, espera um homem – farta de perigosas peçonhas, penetra-a uma bile terrível e lança olhares pavorosos,
enrolada à volta da toca –, assim Heitor, possuído de insaciável ardor, não recuava. Encostara o escudo
brilhante a uma saliência da muralha e, atormentado, dizia à sua grande alma:
— Ai de mim! Se eu transpuser estas portas e estes muros, Polidamas será o primeiro a cobrir-me de
censuras, ele que me sugeriu trazer os troianos para a cidade, no princípio desta noite funesta em que se
levantou o divino Aquiles. Mas não o ouvi, e sua sugestão era bem melhor. Agora que perdi as tropas por
minha presunção, receio os troianos e as troianas de véus roçagantes, que alguém me diga sem me valer:
“Heitor, por confiar em suas forças, perdeu as tropas.” Assim falarão. E para mim será muito preferível ter
enfrentado e matado Aquiles antes de voltar, ou morrer às suas mãos, gloriosamente, diante da cidade. E se
eu depusesse o escudo bojudo no centro e o robusto capacete e, encostando a lança ao muro, me adiantasse
ao encontro do irreprochável Aquiles e lhe prometesse Helena e com ela seus bens, e quantos trouxe
Alexandre para Troia, nos ocos navios, origem da disputa? E se eu prometesse dá-los aos atridas e partilhar
com os aqueus tudo o que se esconde ainda nesta cidade? E se depois eu arrancasse o juramento dos troianos,
prestado pelos anciãos, de nada ocultar, mas de entregar a metade de todos os bens que encerra a encantadora
cidade? Mas por que meu coração se detém em considerar essa ideia? Não lhe supliquemos; ele não terá por
mim respeito nem piedade e me matará desarmado, como a uma mulher, porque eu terei largado as armas.
Agora já não há meio algum de conversar com ele, do alto de um carvalho ou de um rochedo, como o rapaz e
a moça, o rapaz e a moça que conversam entre si. Mais vale, nesta contenda, lançar-se quanto antes um
contra o outro. Logo saberemos a qual dos dois o Olímpio oferecerá a glória.
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A guerra cordial: Glauco e Diomedes (Ilíada 6)
Entretanto, Glauco, filho de Hipóloco, e o filho de Tideu adiantaram-se juntos entre os dois exércitos,
ardendo por combater. Quando se aproximaram, marchando um sobre o outro, disse Diomedes bom para o
grito de guerra:
— Quem és tu, valentíssimo guerreiro entre os mortais? Até agora ainda não te vi no combate que dá a
glória. Hoje, entretanto, excedes a todos em atrevimento, esperando minha lança, que projeta comprida
sombra. Infortunados são aqueles cujos filhos afrontam meu ardor! Se és um imortal descido do céu,
confesso que não combaterei os deuses celestes. […] Mas se és um dos mortais que comem os frutos da
terra, aproxima-te, para chegares mais depressa a teu fim.
Respondeu o ilustre filho de Hipóloco:
— Filho magnânimo de Tideu, por que me interrogas sobre meu nascimento? Assim como nascem as
folhas, assim nascem os homens. Folhas há que o vento espalha sobre a terra, mas outras produz a floresta
poderosa, quando volve a primavera. O mesmo se dá com os homens: nasce uma geração, outra se acaba.
Mas se, não obstante, queres conhecer exatamente meu nascimento (muitos homens o conhecem), ouve lá:
há uma cidade, Éfira, nos confins da terra de Argos, nutriz de cavalos, onde viveu Sísifo, o mais hábil dos
homens. Sísifo, filho de Éolo, teve por filho Glauco, e Glauco gerou o irreprochável Belerofonte, a quem os
deuses deram beleza e sedutora virilidade… [paranarrativa: a história de Belerofonte e sua mudança para a
Lícia] … Então, reconhecendo nele bom rebento de um deus, reteve-o o rei em seu país, deu-lhe sua filha e a
metade de todas as honras reais. Os Lícios ofereceram-lhe um domínio mais formoso que os outros, rico em
vergéis e terras aráveis, para que nele vivesse. A mulher do esclarecido Belerofonte deu-lhe três filhos,
Isandro, Hipóloco e Laodâmia. Laodâmia dormiu com Zeus, o prudente, e pariu Sarpédon, rival dos deuses,
galeado de bronze. Mas quando o mesmo Belerofonte incorreu no ódio de todos os numes, pôs-se a errar
sozinho pelos campos de Ale, roendo o próprio coração, evitando as pegadas dos homens. Isandro, seu filho,
foi morto por Ares, insaciável de guerra, enquanto pugnava contra os gloriosos Sólimos. Irritada contra
Laodâmia, Ártemis, a deusa das rédeas de ouro, matou-a. Hipóloco gerou-me; dele pretendo haver nascido.
Enviou-me a Troia, e recomendou-me instantemente que fosse sempre excelente e me avantajasse aos outros,
que nunca desmentisse a raça de meus pais, sem comparação os melhores de Éfira e da vasta Lícia. Eis aí
meu nascimento, e a linhagem da qual me envaideço de pertencer.
Disse, para alegria de Diomedes bom para o grito de guerra, que, plantando a lança na alma terra,
dirigiu-se amistosamente ao pastor de tropas:
— Com que, então, és meu hóspede por parte de nossos pais, hóspede antigo! Pois, outrora, o
irreprochável Belerofonte foi recebido no palácio do divino Eneu, onde ficou vinte dias. Trocaram belos
presentes de hospitalidade: obsequiou-o Eneu com brilhante cinturão de púrpura, ao passo que Belerofonte
lhe deu uma taça de ouro de duas asas, que, ao partir, deixei em casa. De Tideu, não me lembro: era muito
pequeno quando ele me deixou, ao tempo em que, diante de Tebas, pereceram as tropas acaias. Assim, agora,
seja meu hóspede querido em pleno país de Argos, que eu seja o teu na Lícia, quando eu visitar esse país.
Com nossas lanças, evitemo-nos um ao outro, mesmo na refrega. Numerosos são os troianos e aliados
ilustres que posso matar, quer mos apresente algum deus, quer os alcance na corrida; numerosos, para ti, são
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os aqueus que tens para despojar, os que puderes. Mas troquemos nossas armas, para que saibam também os
combatentes que nos gabamos de ser hóspedes por parte de nossos pais.
Isto dizendo, saltaram de seus carros, apertaram-se as mãos e juraram mútua fidelidade. E até nesse
momento Zeus, filho de Cronos, ofuscou o espírito de Glauco, que trocou suas armas com o filho de Tideu,
Diomedes, ouro por bronze, e cem bois por nove.
A guerra cordial: Ájax e Heitor (Ilíada 7)
Entre os dois exércitos, gritou Heitor:
— Escutai-me, troianos, e vós, aqueus de formosas cnêmides, para que eu vos diga o que no peito me
inspira o coração. O filho de Cronos, piloto supremo, não permitiu que se realizassem nossos juramentos.
Está meditando desgraças para nossos dois povos, e há de levá-la a cabo, até que tenhais conquistado a bem
fortificada Troia, ou vós mesmos sejais vencidos à beira de vossos navios, que sulcam os caminhos do mar.
Ora, entre vós se encontram os melhores dentre os panaqueus. Aquele cujo coração, neste momento, o anima
a medir-se comigo, venha até aqui, destaque-se da multidão, e seja vosso campeão contra o divino Heitor.
Eis o que proponho (e seja Zeus nossa testemunha) se me subjugar com o bronze de comprida ponta:
despoje-me das armas e carregue-as para os navios ocos; mas devolva meu corpo à minha casa, para que os
troianos e as mulheres dos troianos me concedam ao cadáver o lume da fogueira. Se eu o subjugar, e Apolo
me der o triunfo, despojá-lo-ei de suas armas, levá-las-ei à sagrada Ílion, e as suspenderei no templo de
Apolo, que fere ao longe; mas devolverei seu cadáver aos navios bem construídos, a fim de que o enterrem
os Aqueus cabeludos, e ergam-lhe um túmulo às margens do vasto Helesponto. E um dia dirá alguém, um
dos homens que hão de viver daqui a muito tempo, ao passar com um navio de numerosos remeiros pelo mar
avinhado: “Eís aí o túmulo de um guerreiro morto há muito, e que, outrora, apesar de sua coragem, foi
vencido pelo ilustre Heitor”. Assim dirão um dia, e minha glória jamais perecerá.
[… Menelau se apresenta, Agamenão o dissuade: “ele é melhor do que tu”; Nestor reclama que
ninguém se apresente, narra um grande feito seu de juventude: “ah! se eu fosse jovem!”; nove guerreiros se
apresentam, tira-se a sorte: Ajax…]
Aproximou-se Ajax, carregando o escudo qual muralha feita de bronze sobre sete couros de bois – que
lhe fabricara Tíquio, sem dúvida o melhor correeiro de Hila. Fizera-lhe o escudo cintilante de sete peles de
robustos touros, sobre as quais – com oitava camada – fixara o bronze. Com tal adarga diante do peito, o
filho de Télamon, Ajax, estacou próximo de Heitor e disse-lhe, ameaçador:
— Heitor, agora ficarás sabendo, frente a frente comigo, que ainda há entre os dânaos excelentes
guerreiros, além de Aquiles, rompedor de homens, coração de leão. No meio dos recurvos navios, cursores
do mar, ressentido com Agamenão, pastor de tropas, quedou-se ele; mas nós somos capazes de enfrentar-te, e
em grande número. Eia, começa o combate e a batalha.
Respondeu o grande Heitor de chispante gálea:
— Ajax, descendente de Zeus, filho de Télamon, chefe de tropas, não queiras experimentar-me como
imbele criança ou mulher que desconhece as coisas da guerra. Sei combater e trucidar, sei mover meu escudo
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de couro escuro à direita e à esquerda, por isso mesmo posso pelejar como homem invulnerável; sei atirar-me
ao estrondear das éguas rápidas e também sei, a pé, executar a dança do mortífero Ares. Mas não quero ferir
um homem como tu às escondidas, aguardando o momento azado; fá-lo-ei abertamente, se puder atingir-te.
Disse e, tendo-a brandido, arremessou a comprida lança, que atingiu Ajax no terrível escudo, feito de
sete peles de bois, sobre o revestimento de bronze, que formava a oitava camada. Seis delas furou e rasgou o
bronze inflexível; mas, na sétima, estacou. Por seu turno, Ajax, descendente de Zeus, atirou o longo freixo, e
atingiu o filho de Príamo no escudo bem equilibrado. A pesada lança transfixou o escudo brilhante e o bem
trabalhado arnês, onde se cravou; de lado a lado, ao longo do flanco, rasgou a túnica. Mas Heitor,
esquivando-se, evitou a negra divindade.
Tendo retirado as lanças ao mesmo tempo com a mão, tombaram um sobre o outro, como leões
comedores de carne crua ou javalis cuja força é difícil de vencer. O filho de Príamo atingiu o meio do escudo
de Ajax com a lança; mas não lhe partiu o bronze, e a ponta se curvou. Num salto, golpeou Ajax o escudo de
Heitor; a lança atravessou-o, detendo de pronto o ímpeto do adversário, e produziu-lhe um talho no pescoço,
de onde jorrou um sangue negro. Mas Heitor de fúlgido capacete não deixou por isso de pelejar. Recuou,
pegou com a mão robusta uma pedra na planície, preta, tosca, grande, e com ela golpeou o terrível escudo de
Ajax, feito de sete peles de boi, na bossa do meio; e o bronze ressoou. Por sua vez, recolhendo uma pedra
ainda maior, arremessou-a Ajax fazendo-a girar e imprimindo-lhe força imensa. Quebrou-se o interior do
escudo ao choque dessa pedra, grande como mó de moinho; vergaram-se os joelhos de Heitor, que caiu de
costas, apertando o escudo ao peito. Mas, num átimo, Apolo o reergueu.
E com as espadas iam ferir-se de perto, não tivessem chegado os arautos, ministros de Zeus e dos
homens, um em nome dos troianos, outro em nome dos aqueus vestidos de bronze, Taltíbio e Ideu, prudentes
ambos. Entre os dois lutadores estenderam o cetro e, logo, falou o arauto Ideu, inspiradíssimo e sábio:
— Cessai, queridos filhos, de lutar e combater. Ambos sois amados de Zeus ajuntador de nuvens, sois
ambos bons lanceiros: disso sabemos todos. Mas já é noite velha, e convém obedecer à noite.
Ajax, filho de Télamon, respondeu:
— Ideu, a Heitor deves pedir que fale; foi ele quem provocou ao combate os mais valentes. Comece
ele, e eu, por certo, farei o que ele fizer.
O grande Heitor de fulgente capacete respondeu:
— Ajax, visto que um deus te deu tamanho, força e prudência, e que, por tua lança, excedes a todos os
aqueus, cessemos agora, por hoje, o combate e o morticínio; depois voltaremos a combater, até que uma
divindade decida e outorgue a um dos povos a vitória. A noite já desceu de todo, e convém obedecer à noite.
Desta maneira, alegrarás todos os aqueus, ao pé dos barcos, sobretudo teus parentes e companheiros, e eu, na
grande cidade do rei Príamo, alegrarei os troianos e as troianas de longo véu que, rezando por mim,
penetrarão no templo em que se reúnem os deuses. Entretanto, vamos dar um ao outro presentes gloriosos, a
fim de que todos, entre aqueus e troianos, digam: “é verdade que se bateram em virtude da discórdia que
devora o coração, mas separam-se de bom acordo e amigos”.
Dito isso, ofereceu a espada cravejada de prata, com a bainha e o primoroso boldrié; Ajax ofereceu-lhe
o cinturão, brilhante de púrpura.
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Hospitalidade: a recepção de Mentes (Atena) em Ítaca (Odisseia 1)
[Atena] desceu de um salto dos cimos do Olimpo e pousou no país de Ítaca, no vestíbulo de Odisseu,
na soleira do pátio; empalmava a lança de bronze, sob a figura dum estrangeiro, Mentes, caudilho dos táfios.
Deparou ali os arrogantes pretendentes, que se distraíam jogando gamão diante das portas, sentados sobre
couros de bois por eles próprios abatidos. Dos arautos e ativos criados, uns misturavam água ao vinho em
crateras, enquanto outros, com esburacadas esponjas, limpavam e achegavam as mesas e ainda outros
picavam carne abundante.
O primeiro a avistá-la foi Telêmaco, de aspecto divino. Sentado entre os pretendentes, via em
imaginação o nobre pai chegar um dia, desbaratar os pretendentes pelo solar, impor respeito e reinar em sua
casa. Enquanto cismava nisso, sentado entre os pretendentes, avistou Atena; caminhou direto ao vestíbulo,
indignado no íntimo com o fato de um forasteiro aguardar tanto tempo à porta. Aproximou-se, apertou-lhe a
destra, recebeu sua lança de bronze e disse-lhe aladas palavras:
— Salve, estrangeiro! Seja bem-vindo a esta casa. Quando tiveres provado o nosso jantar, dirás o que
precisas.
Assim disse e indicou-lhe o caminho. Palas Atena seguiu-o. Uma vez entrados na alta mansão, ele
levou a lança e encostou-a numa alta coluna, num bem polido lanceiro, onde se alinhavam tantas outras
lanças do intrépido Odisseu, e levou Atena a sentar numa cadeira, que forrou com linho, bela obra de arte;
debaixo havia um escabelo para os pés. Para si colocou ao lado um divã marchetado, a distância do grupo
dos pretendentes, para que o forasteiro se deleitasse em vez de se aborrecer com um jantar turbulento na
companhia de descomedidos; queria também interrogá-la sobre o pai ausente.
Uma serva trouxe água lustral num belo gomil de ouro e despejou-a por sobre uma bacia de prata, para
que lavassem as mãos, e achegou-lhes uma mesa polida. A atenciosa despenseira trouxe e serviu o pão e
depois pratos numerosos, prodigalizando o que havia; um trinchão trouxe, erguidas, travessas de carnes
variadas, que lhes pôs diante e junto deles colocou taças de ouro; um arauto constantemente ia e vinha
servindo-lhes vinho.
Hospitalidade: recepção de Telêmaco em Esparta (Odisseia 4)
Chegaram à côncava Lacedemônia, de vales profundos, e guiaram para o solar do glorioso Menelau.
Encontraram-no dando em sua casa aos numerosos parentes o banquete nupcial de seu filho, assim como de
sua irrepreensível filha. Ele a estava enviando ao filho de Aquiles, o rompedor de fileiras inimigas, pois
outrora, em Troia, prometera e combinara que a daria e os deuses efetivavam o casamento. Então a enviava
com cavalos e carruagem em demanda da gloriosa cidade dos mirmídones, sobre quem reinava o noivo, e
fizera vir de Esparta a filha de Alector para o robusto Megapentes, dileto filho seu e de uma escrava; a
Helena os deuses não consentiram mais prole, depois que, no primeiro parto, deu à luz a amável filha
Hermíone, dotada ela beleza da áurea Afrodite.
Assim, banqueteavam-se, com alegria, no grande salão de alto teto, os vizinhos e parentes do glorioso
Menelau; entre eles cantava, dedilhando a lira, um aedo inspirado e, no meio dos convivas, dois acrobatas
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rodopiavam ao ritmo de seu canto. O nobre Telêmaco e o ilustre filho de Nestor pararam, detendo os cavalos
no átrio do solar. Saindo, viu-os o nobre Eteoneu, diligente servidor do glorioso Menelau; atravessou o salão
a dar a notícia ao pastor de guerreiros e, aproximando-se, proferiu aladas palavras:
— Menelau, progênie de Zeus, estão aí uns estranhos; são dois homens que aparentam ser da raça do
grande Zeus. Diga: devo desatrelar seus velozes cavalos ou mandá-los procurar outra casa que os hospede?
Com profunda indignação, respondeu-lhe o louro Menelau:
— Outrora, Eteoneu, filho de Boétoo, tu não eras tolo, mas andas agora dizendo parvoíces como uma
criança. Em verdade, se nós dois chegamos aqui, foi por termos comido inúmeras vêzes à mesa hospitaleira
de outras pessoas, à espera de que Zeus pusesse termo um dia a nosso infortúnio. Vai, desatrela os cavalos e
traze os estranhos aqui dentro, para se banquetearem.
Assim falou ele. O servidor, abalando pelo salão, chamou por outros fâmulos diligentes que o
seguissem. Desatrelaram os cavalos, que suavam sob o jugo, e amarraram-nos às manjedouras da estrebaria;
deitaram ali espelta e com ela misturaram cevada branca. Encostaram a carruagem ao muro interior e
conduziram os estranhos para dentro do divino solar.
Estes maravilharam-se passeando o olhar pelo palácio do rei descendente de Zeus; um resplendor
como o do sol ou da lua iluminava a casa de alto teto do glorioso Menelau. Após deliciarem os olhos nessa
contemplação, entraram nas polidas banheiras para lavar-se. Depois de os banhar e untar de óleo, as servas
enrouparam-nos de mantos e túnicas e eles foram tomar assento junto de Menelau, filho de Atreu. Uma
serva trouxe água lustral num belo gomil de ouro, despejou-a por sobre uma bacia de prata para que
lavassem as mãos e achegou-lhes uma mesa polida. A atenciosa despenseira trouxe e serviu o pão e depois
pratos numerosos, prodigalizando o que havia. Um trinchão trouxe, erguidas, travessas de carnes variadas,
que lhes pôs diante e junto deles colocou taças de ouro. Com um gesto de saudação, dirigiu-lhes a palavra
o louro Menelau:
— Servi-vos de comida e estai à vontade; quando tiverdes terminado, perguntaremos quem sois.
Dito isso, tomou nas mãos o gordo lombo, que para ele fôra reservado por deferência, e serviu-os. Eles
levavam as mãos aos acepipes preparados e servidos. Depois de expulsarem de si o desejo de beber e comer,
Telêmaco falou ao filho de Nestor, aproximando a cabeça para não o ouvirem os demais:
— Filho de Nestor, caro ao meu coração, observa os reflexos de bronze por todo o ecoante salão, bem
como os de ouro, de electro, de prata e de marfim. Acho que a corte de Zeus Olímpio é por dentro tal e qual,
tão indescritível é esta copiosa riqueza; ao contemplá-la, a sua majestade me infunde respeito.
Enquanto ele falava, o louro Menelau o ouvia e, dirigindo-se a eles, proferiu aladas palavras:
— Caros filhos, mortal nenhum, asseguro-vos, pode rivalizar com Zeus, cujo solar e riquezas são
imperecíveis; dos homens talvez algum rivalizasse comigo em riquezas, talvez nenhum. Em verdade, muito
sofri e muito vaguei para, ao cabo de sete anos, chegar aqui com elas a bordo de meus barcos; andei por
Chipre, pela Fenícia e pelo Egito, visitei os Etíopes, os Sidônios, os Erembos e a Líbia, onde os chavelhos
despontam cedo nos cordeiros, pois as ovelhas dão cria três vêzes por ano. Lá nem o amo nem o pastor
carecem de queijo, de carne ou de saboroso leite; elas ininterruptamente oferecem leite à ordenha o ano
inteiro. Enquanto eu vagava por esses países acumulando copioso sustento, um outro assassinou meu irmão,
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a ocultas e de surpresa, por traição da malfadada esposa; por isso, nenhuma alegria me dá reinar nesta
opulência. De vossos pais, quem quer que eles sejam, talvez tenhais ouvido esta estória, pois muito e muito
sofri e deixei arruinar uma casa bem habitada, repleta de imensos tesouros. Oxalá vivesse eu em meu solar
apenas com a terça parte destes, mas estivessem salvos os homens que pereceram então no vasto país de
Troia, longe de Argos de ricas pastagens. Embora, porém, sentado nestes salões, muita vez eu chore e sinta
por todos eles — que ora desafogo o coração no pranto, ora paro de chorar, pois o gélido pranto não tarda a
saciar — por mais que os pranteie, a nenhum lamento tanto quanto a um, cuja lembrança me torna odioso o
sono e a comida, porque nenhum dos aqueus penou tanto quanto penou e sofreu Odisseu. Sina dele, porém,
eram as tribulações e a minha um perene pesar por ele, por estar ausente há tão longo tempo, sem nada
sabermos, nem se vive, nem se morreu. Choram-no, decerto, o velho Laertes, a constante Penélope e
Telêmaco, que ele deixou em casa recém-nascido.
Assim falou e suscitou em Telêmaco o desejo de chorar o pai; ao ouvir o nome de Odisseu, deixou
uma lágrima escorrer das pálpebras para o chão e com ambas as mãos ergueu diante dos olhos o manto de
púrpura. Reparando nisso, Menelau hesitou, em sua alma e seu coração, entre esperar que ele falasse do pai
ou interrogá-lo e prová-lo em tudo.
[Cf. recepção de Odisseu na Feácia (Odisseia 8): o choro como sinal de envolvimento e reconhecimento,
bem como a questão da honra e da glória nos insultos que Odisseu recebe do filho de Antínoo, desafiando-o
para os jogos]
Má hospitalidade: a “recepção” de Odisseu por Polifemo (Ilíada 9)
Mal raiou a filha da manhã, Aurora de róseos dedos, reuni os meus homens e disse ao grupo:
— Ficai aqui vós outros, meus leais companheiros, enquanto eu, com meu barco e meus tripulantes,
vou verificar como são aqueles homens. Serão cruéis, selváticos e iníquos? Ou de índole hospitaleira e
temente aos deuses?
Com essas palavras, embarquei e ordenei aos companheiros soltassem os proízes e subissem a bordo.
Eles embarcaram sem demora, sentaram nos bancos e, dispostos em linha, feriram com os remos o mar
cinzento. Quando, enfim, chegamos ao lugar, pouco distante, vimos ali uma caverna numa extremidade, sobre
o mar; era alta, com uma abóbada de loureiros. Dormiam ali grande número de carneiros, ovelhas e cabras e um
alto aprisco fora construído em torno, com altas pedras fincadas no chão e com longos pinheiros e carvalhos de
alta copa. Era a morada de um homem monstruoso, que apascentava rebanhos, isolado e distante, sem comércio
com os outros; vivia arredado, sem rei nem roque; tinha, por sinal, a constituição de um monstro enorme; não
tinha a aparência de homem que come pão, mas a de um selvoso pico de alta montanha, que se avista apartado
dos outros. Ordenei, então, aos leais companheiros que permanecessem ali de guarda junto do barco, enquanto
eu, escolhendo doze dos mais bravos camaradas, me pus a caminho; levava comigo um odre de cabrim de
escuro vinho suave, que ganhara de Marão, filho de Evantes, sacerdote de Apolo… [paranarrativa sobre a
qualidade do vinho: caro presente]… Levei comigo um grande odre cheio desse vinho, bem como provisões
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num alforje; é que desde logo meu bravo coração pressentiu meu encontro com um homem revestido de grande
robustez, um selvagem sem noção de justiça nem de leis. A passos estugados alcançamos a caverna, não o
encontramos dentro; estava pastando seus gordos carneiros no relvedo. Entramos no antro e tudo observávamos
admirados. Os jacás estavam cheios de queijos; os redis, repletos de cordeiros e cabritos; estavam divididos por
idade; num lugar, as crias mais velhas; noutro, as do meio e num terceiro, as recém-nascidas. Transbordava
soro de todas as vasilhas lavradas, baldes e tarros em que ordenhava. Então, a primeira coisa que meus
companheiros disseram foi pedir-me que nos apossássemos de queijos, voltássemos em seguida à pressa para o
ligeiro barco, tangendo cabritos e cordeiros dos redis, e sulcássemos a água salgada. Eu, porém, não atendi —
palavra que seria bem melhor! Eu queria ver o homem em pessoa e se ele me daria presentes de hospitalidade.
Ai! não tardaria a aparecer, para desgosto de meus camaradas! Acendemos fogo, oferecemos um sacrifício e,
deitando mãos aos queijos, comemos. Ficamos ali dentro sentados até que ele chegou, tangendo o rebanho. […]
Depois de executar o seu trabalho atentamente, acendeu fogo; viu-nos então, e perguntou:
— Estranhos, quem sois? De onde vindes sulcando os úmidos caminhos? Ides a negócio determinado
ou errais à toa no mar, como os piratas que vagam arriscando a vida e levando a desgraça a terras alheias?
Assim falou e de novo o nosso animo se dobrou aterrado com o vozeirão profundo e aquela estatura
monstruosa. Apesar de tudo, eu lhe disse, em resposta, estas palavras:
— Nós somos aqueus; regressamos de Troia vagueando à mercê de ventos de toda sorte sobre o
grande abismo do mar; nossa intenção era ir para casa, mas tomamos rumo diferente, errando o caminho,
porque, parece, assim prouve a Zeus dispor. Prezamo-nos de ser homens de Agamêmnon, filho de Atreu,
cuja glória é hoje a maior debaixo do céu, por ter arrasado uma cidade tão grande e destruído um povo tão
numeroso. Nós, porém, chegados a tua presença, suplicamos aos teus joelhos, esperando que nos dês
gasalhado ou, de outra forma, nos dês os presentes que é de praxe dar aos hóspedes. Bem, poderoso senhor,
mostra respeito aos deuses; somos suplicantes; os suplicantes e os hóspedes estão sob o amparo de Zeus
Hospitaleiro, que acompanha os veneráveis forasteiros.
Assim falei e ele replicou-me prontamente, sem piedade na alma:
— És um ingênuo, estranho, ou vieste de longe, para me mandares temer ou evitar os deuses; os
ciclopes não fazem caso de Zeus, senhor da Égide, nem dos deuses bem-aventurados, porque, palavra!
somos muito mais fortes. Eu não pouparia a ti e a teus camaradas apenas para evitar o ódio de Zeus, salvo se
assim me pedisse o coração. Dize-me, porém, onde fundeaste o teu bem construído barco ao chegares, se na
extremidade da ilha ou aqui perto, para eu ter certeza.
Assim falou para experimentar-me, mas não me enganou; eu sabia demais. Respondi-lhe, porém, com
palavras astutas:
— Posidão, que a terra estremece, despedaçou meu barco de encontro aos penedos na orla de vossa
terra; […] eu, porém, e mais estes escapamos ao fim abismal.
Assim falei e ele nada me replicou, sem piedade na alma. Pôs-se de pé de um salto, estendeu as mãos
sobre meus companheiros e, agarrando dois duma vez, como se fossem cachorrinhos, esmagou-os de encontro
ao solo; os miolos escorreram pelo chão, umedecendo a terra. Ele os picou membro a membro, preparando a
refeição, e comeu, como um leão montês, as vísceras, as carnes e os ossos medulosos, sem deixar resto.
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Comportamento na guerra e na paz