_____________________________________Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal OS ASSENTAMENTOS SUBNORMAIS EM FEIRA DE SANTANA: O (RE)PENSAR DA GESTÃO PÚBLICA MUNICIPAL Maria Leny Souza Oliveira1 Eduardo Teles Andrade2 RESUMO – Descreve-se nesta pesquisa os assentamentos subnormais em Feira de Santana e a contribuição do governo municipal no desenvolvimento de ações humanizadoras. Palavras-chave: Gestão pública; assentamentos subnormais; gestão. ABSTRACT – This research describes the abnormal settlements in Feira de Santana, as well as the local City Hall contributions to develop humanizing actuions. Key Words :Public administration; abnormal settlements; management. Introdução A realidade dos assentamentos subnormais em Feira de Santana está a exigir um plano de ação governamental que canalize as potencialidades existentes, em benefício dos que neles habitam. Cabe ao gestor público, amparado em leis e diretrizes do uso e ocupação do solo, posicionar-se como agente de renovação das políticas públicas, promovendo e executando as atividades de gestão de interesses locais, visando alternativas para melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. A composição de um arrojado projeto que objetive o desenvolvimento continuado das moradias irregulares, transformando-as em espaços 1 Mestre em Administração e Comércio Internacional. Professora da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana e Professora da Universidade do Estado da Bahia. E-mail: [email protected] Graduado Administração com Habilitação em Recursos Humanos – Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. E-mail: [email protected] 2 ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 2 humanizados para uma boa moradia, deve, pois, constituir uma meta prioritária que venha a melhorar a vida de todas as comunidades aqui referidas. Cabe enfocar a participação do Gestor Municipal como fomentador de políticas públicas que visem tornar a vida dos moradores de áreas subnormais mais aprazível e saudável. Refletir sobre a participação do poder público local no desenvolvimento de políticas de infra-estrutura básica para os chamados assentamentos subnormais existentes na Cidade de Feira de Santana é o objetivo deste artigo. Nesta reflexão merecem destaque os Modelos de Gestão e a Gestão Pública, como também a Gestão Municipal e os assentamentos subnormais. Concepções sobre Modelos de Gestão e a Gestão Pública Os anos 1980 testemunharam a importação de várias técnicas de gestão para o setor público, mas, por trás dessa manifestação externa de mudanças, está o nascimento de novos conjuntos de idéias e crenças importantes na área administrativa. Tanto o surgimento de formas de classificação de grupos com base em diagnósticos (KIMBERLY 1989) quanto o das ações e idéias de gerenciamento para a qualidade total CENTRO DE AVALIAÇÃO DE POLÍTICAS E PRÁTICAS PÚBLICAS, 1994) foram vistos, por exemplo, como fenômenos “passageiros”, por trás dos quais, processos mais gerais com novos conjuntos de idéias gerenciais estão sendo transferidos para o setor público. Necessário se faz exemplificar alguns deles: a. um aumento dos controles financeiros; uma forte preocupação com a aximização do valor do dinheiro e com os ganhos em eficiência; b. obtenção de mais com menos; fortalecimento da função financeira; c. desenvolvimento de sistemas de custos e de informação mais sofisticados; ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 3 d. uma espinha dorsal administrativa geral mais forte; administração hierarquizada; estilo de trabalho do tipo “comando e controle”; claro e. estabelecimento de objetivos e monitoramento de desempenho; poder utorgado à administração superior; f. extensão da auditoria a aspectos tanto financeiros como profissionais; insistência em métodos mais transparentes para a análise de desempenho; ambientes e padrões de referência mais estandardizados; uso mais intenso de registros como forma de avaliar o desempenho profissional. A discussão sobre o modelo de gestão pública desenvolveu-se em países europeus e da América Latina, sendo que o processo evoluiu de forma crescente a partir dos anos 80. Atualmente, acredita-se em um novo redimensionamento no setor público, tanto no tocante a políticas públicas quanto as sociais. Para Robbins (1978) um modelo de gestão é a representação simplificada de algum fenômeno do mundo real. Relata este autor que os modelos são necessários porque ajudam na compreensão das relações complexas, do ponto de vista econômico. Isso pode ser, com freqüência, conseguido pelo uso de um modelo, a uma fração do custo dos outros métodos. E finaliza afirmando que os modelos de gestão podem substituir complexidade por simplicidade”. Maximiano (2000) contribui quando acrescenta que alguns elementos servem de base para influenciar o comportamento das pessoas nas famílias, grupos, organizações e sociedades. Esses elementos estarão sempre presentes em maior ou menor proporção, em todos os grupos sociais, e irão influenciar, diretamente, o modelo de gestão de uma organização, pois a mesma é interior e não imposta por regulamentos. Atualmente, observa-se o aumento da importância da Gestão Pública no desenvolvimento de uma localidade. A Administração Pública não representa um fim em si mesma e seu objetivo principal é a promoção do desenvolvimento municipal e do bem-estar da população. ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 4 Cada autor tem uma definição para a administração pública. Mas todas convergem para um ponto principal: atender as necessidades da coletividade. A administração pública envolve toda a estrutura estatal, prestando serviços com objetivos de satisfazer as necessidades da comunidade. Mello (1979) afirma que administrar é, principalmente, dirigir, ordenar e exercer a vontade com o intuito de alcançar um resultado útil, não significando, apenas, prestar serviço e executá-lo. Duez (1935) relata que a administração pública é a atividade estatal que deve atender as necessidades do povo de forma direta, contínua e permanente, e está sujeito à ordem jurídica vigente. A Gestão Pública e o seu Papel Perante a Comunidade A Constituição Federal, no seu artigo 29, assegura a autonomia dos municípios e, no artigo 30, estabelece, detalhadamente, a competência que lhes é devida. Vale ressaltar que compete ao Município, em comum com a União e o Estado, legislar sobre a proteção do meio ambiente e sobre o combate à poluição; fomentar a agropecuária, programas de construção de moradias e de melhoria de habitação e de saneamento básico; combater as causas da pobreza e da marginalização; dinamizar a educação para a segurança no trânsito. O gestor público não possui liberdade pessoal na Administração Pública. A Lei autoriza o que é permitido fazer. Na administração privada, é lícito fazer tudo o que a Lei não proíbe. Durante a década de 80, a organização e a administração dos serviços públicos britânicos foram alvo de constantes pressões por mudanças advindas de altos escalões governamentais. Como resultado, os tradicionais paradigmas organizacionais da empresa pública e os do padronizado e profissionalizado Ministério do Bem-Estar Social foram modificados com o advento de novas formas, papéis e culturas organizacionais. (FERLIE et al. 1996). ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 5 Com isso, tornou-se claro que essas organizações públicas de estilo arcaico também possuíam virtudes em seus vícios, com ênfase em processo adequado, igualdade de tratamento, probidade e responsabilidade. Como reestruturações semelhantes foram feitas em um grande número de diferentes unidades do serviço público, tornou-se claro que um fenômeno organizacional abrangente estava surgindo com freqüência, chamado, hoje, de “nova administração pública”. Coelho e Dowbor (apud CARNEIRO, 2002) defendem a abordagem social do desenvolvimento econômico, identificando como princípio básico da ação municipal a geração de emprego e renda. Dowbor afirma que o desenvolvimento tem como meta o homem e as necessidades da comunidade em sua maioria, envolvendo uma melhor qualidade de vida, descentralização de poder, utilização da tecnologia e dos serviços públicos. Moura (1997) relata, em seu trabalho “A Gestão do Desenvolvimento Local: estratégias e possibilidades de financiamento”, que, no Brasil, as agências governamentais de desenvolvimento surgiram baseadas em um paradigma que entendia o Estado como principal agente responsável pelo desenvolvimento. E que estas encaravam as desigualdades socioeconômicas inter-regionais como sério obstáculo à integração nacional e à sustentabilidade do crescimento do país. Desde o tempo da colonização, existiam as desigualdades nas taxas de acumulação de capital entre as diversas regiões do Brasil. Percebeu-se que tais desigualdades não poderiam ser reduzidas livremente pelas forças do mercado e que sua continuidade implicava uma disfunção sistêmica, e ameaçaria o equilíbrio e a harmonia do Estado e da sociedade. Apesar disso, a concentração territorial do desenvolvimento só começaria a ser modificada, de fato, nos anos 60 e 70, quando políticas creditícias e fiscais aliadas a programas de modernização da infra-estrutura de transportes e energia privilegiaram, ostensivamente, as regiões Norte e Nordeste e, mais tarde, permitiram o aproveitamento da fronteira agrícola do Centro-Oeste (CARNEIRO, 2002). No final dos anos 70, entrou em crise o mecanismo de financiar gastos e investimentos públicos, por meio de endividamento interno e externo, somando-se a esse ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 6 fato a revolução científica e tecnológica ao longo dos anos 80 e 90, quando se desencadeou uma radical globalização dos processos produtivos. Para um bom desempenho da função que lhe é devida, isto é, oferecer bens e serviços públicos à comunidade, exercendo atividades que irão aumentar o bem-estar da população, o município precisa organizar-se para alocar com eficiência,i efetividadeii e economicidadeiii, todos os recursos à sua disposição para, daí, originar a Administração Pública. A administração revela-se, na contemporaneidade, como uma das áreas de conhecimento humano mais impregnadas de complexidade e de desafios. Com base nesse modelo de humanismo das áreas subnormais, pode-se verificar que o Município de Feira de Santana apresenta um fenômeno de urbanização muito forte em sua administração. O município deve ser compreendido como o espaço físico onde se concretizam todas as ações, sejam elas da iniciativa pública ou privada, para melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Sendo assim, a boa atuação do gestor público municipal é de suma importância para promover o desenvolvimento econômico que refletirá diretamente na estrutura geral do país. a) A Gestão municipal e os assentamentos subnormais em Feira de Santana O desenvolvimento econômico local é fruto de um trabalho permanente, progressivo, continuado, no qual todos os envolvidos devem agir com persistência e determinação, onde os resultados devem ser conseqüência do esforço conjunto, motivado por estímulos os mais diferentes. Nessa tarefa, o poder público e a comunidade local são protagonistas e espectadores do sucesso e terão como meta comum a obtenção de melhores níveis de condição de vida e de prosperidade. Os problemas causados pelo elevado déficitiv habitacional de Feira de Santana se agravaram nos últimos anos com a retração das ações do governo federal no setor habitacional. Dessa forma, as famílias carentes, na busca de resolver suas necessidades ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 7 habitacionais, ocupam terrenos tanto públicos quanto de propriedade privada, localizados geralmente em áreas remanescentes de conjuntos habitacionais. Essas áreas, de modo geral, são inadequadas para moradia por localizarem-se próximas a mananciais hídricos (rios, lagoas, córregos e fontes), sem infra-estrutura básica e contaminadas pela poluição de esgotos e acúmulo de lixo, conforme dados da Secretaria Municipal de Planejamento de Feira de Santana (INFORMATIVO MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA, 2001). Esse tipo de subnormalidade habitacional apresenta-se de maneira alarmante, tanto pela quantidade de habitações nessa situação, quanto pelo seu nível de insalubridade. Tal forma de ocupação coloca em risco a integridade física dos moradores e de seu patrimônio. Além das implicações ambientais que normalmente atingem outras áreas, a maioria das favelas encontra-se em áreas de preservação ambiental ou próximas a mananciais hídricos e, em época de chuvas intensas, estão susceptíveis a inundações e alagamentos, conforme mostra a Figura 1. Figura 1: Relação das áreas subnormais existentes na Cidade de Feira de Santana: Loteamentos e Favelas Localidade Agrovila Alto Santana Alto do Papagaio Arco Íris Conceição I (N. Esperança) Conceição II Campo Limpo I Campo Limpo II (Rua Gonçalves Dias) Campo Limpo III George Américo Campo do Gado Novo Cidade Nova (Rua Gonçalves Dias) Jardim Icó Jardim Sucupira I Jardim Sucupira II Tipo Lot. rregular Lot. irregular Lot. irregular Lot.irregular Lot.irregular Lot. irregular Lot. irregular Lot. irregular Área de risco === === === === === === === === Nº habitantes 213 74 577 1.360 291 300 45 20 Lot. irregular Lot. irregular Lot. irregular Lot. irregular === === === === 18 3.200 315 80 Lot. irregular Lot. irregular Lot. irregular === === === 10 20 40 ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal Jussara I e II Lot. irregular === Morada das Árvores Lot. irregular === Mangabeira I,II,III, IV e VI Lot. irregular === Tomba I e II (Ildes Lot.irregular === Ferreira/Amazonas) Sub-Total 01 Aviário Lot. irregular Alagados Baraúna/Gabriela Lot. irregular Alagados Jardim Cruzeiro Lot. irregular Alagados Parque das Águas Lot. irregular Alagados Sub-Total 02 Total geral Fonte: Secretaria Municipal de Planejamento de Feira de Santana (2001). . 8 900 60 200 400 8.123 1.553 188 50 === 1.791 9.914 Na Cidade de Feira de Santana existem cerca de 40 invasões espontâneas e mais de 60 loteamentos para moradores carentes, sendo que a maioria deles são irregulares. Isso de acordo com o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano de Feira de Santana (2000). Estas têm sido as principais modalidades de ocupação em Feira de Santana, as invasões e os loteamentos clandestinos. Observa-se, então, um processo de periferização e favelização do município, cuja maior expansão encontra-se situada no vetor norte e em algumas áreas do vetor sul. Essas invasões irregulares são consideradas, pela Prefeitura Municipal de Feira de Santana, assentamentos subnormais, e é representativo o número de pessoas que neles estão incluídas. Existem hoje, na cidade, 27 favelas irregulares e clandestinas, com 23.000 casas edificadas, alojando uma parcela considerável da população, conforme dados da Secretaria de Planejamento de Feira de Santana (INFORMATIVO MUNICIPAL DE FEIRA DE SANTANA, 2001). É importante frisar que o Município de Feira de Santana não possui um controle eficaz nas áreas reconhecidas como subnormais. Ainda encontra-se em formação uma equipe multidisciplinar formada por profissionais de diversas áreas, que terão como missão identificar e quantificar prejuízos e custos de cada assentamento subnormal, que ações ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 9 deverão ser desenvolvidas para recuperação destas áreas, como também onde adquirir recursos necessários para a humanizá-las. De acordo com Carneiro (2002), o desenvolvimento de um município está ligado, diretamente, à gestão pública municipal, a quem cabe promover e executar as alternativas de melhoria de vida da população. As maiores taxas de crescimento populacional de Feira de Santana, em quase sua totalidade formada por famílias de média e baixa renda, estão significativamente nos bairros fora do anel de contorno, o que representa cerca de 70% do incremento entre os anos de 1991 e 1996, contra 30% dentro do anel (PLANO DIRETOR DE DESENVOLVIMENTO URBANO DE FEIRA DE SANTA, 2000). Entende-se ainda, que a população inserida na faixa de renda mínima não tem, em geral, condições de ter acesso à moradia pelos mecanismos normais de mercado, sendo a sub-habitação um aspecto estrutural da formação social da cidade. Feira de Santana possui uma taxa de urbanização bastante elevada, cerca de 87%, bem acima da média do estado, que é cerca de 64%. Conforme levantamento feito pela Secretaria Municipal de Planejamento de Feira de Santana (INFORMATIVO MUNICIPAL DE FEIRA DE SANATA, 2000), essa expansão, em direção à periferia, vem ocorrendo basicamente de maneira horizontal, provocando o aumento de demanda por gastos públicos em infra-estrutura. Feira de Santana é o município mais populoso do interior do estado, com mais de 480 mil habitantes, e tem apresentado, há vários anos, altos índices de crescimento populacional. O vigor de sua economia e a localização estratégica privilegiada atrai grande contingente populacional para a cidade, o que causa um grave problema de carência habitacional, principalmente para as famílias carentes que migram para a cidade, em busca de trabalho e moradia (IBGE, 2000). Percebe-se que Feira de Santana possui todo um aparato legal para disciplinar a ocupação do solo e facilitar a habitação de baixa renda. Em termos gerais, a aplicação desse aparato é observada, podendo utilizar, no seu exercício, o poder de polícia administrativa para o devido ordenamento do uso e ocupação do solo. O município dispõe, ainda, dos instrumentos de controle para a fiscalização e aplicação da lei 1615/92 – capítulo I art. 19. ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 10 A Lei de Ordenamento, Uso e Ocupação do Solo, dentro do seu Código de Obras, propõe parâmetros específicos para a população de baixa renda (conforme seção II do Código de Urbanismo e Obras do Município de Feira de Santana), conforme Lei 1615/1992), sem, no entanto, instituir as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS). Desta forma, contribui-se para a proliferação de assentamentos subnormais espalhados por todo o perímetro urbano. A legislação vigente foi revisada no Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano (PDDU), também financiado pelo – Programa de Desenvolvimento Urbano, (PRODUR). A Lei complementar 1612/92 do Código do meio ambiente, no seu anexo III elenca normas que, deverão ser obedecidas quando da construção de qualquer obra, caso contrário, será objeto da intervenção. Essas normas protegem e dão mais segurança às construções e à população: - As encostas desmatadas deverão ser imediatamente protegidas, através de mecanismos de fixação de solo; - não poderão ser prejudicadas as cotas de soleira, acessibilidade de pedestres e veículos, passeios, logradouros públicos, planos e programas já previstos; - não poderá haver bloqueio de drenagem pluvial, carregamento de matéria sólida para as vias públicas e acumulação das águas de chuva; - dever-se-á obedecer aos critérios estabelecidos para desmatamento e escavação, se for o caso; - o sistema de drenagem projetado para a terraplanagem, deverá se compatibilizar com a drenagem geral da área; - as construções não podem se realizar em terrenos: - alagadiço e sujeito a alagamentos e inundações; - aterrado com materiais nocivos à saúde, sem que seja previamente sanado; com declividade igual, ou superior a 30%, salvo se atendidas as medidas legais onde as condições geológicas não aconselhem as edificações; ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 11 - situado em área cuja poluição não ofereça condições sanitária suportáveis. Diante das evidências apresentadas, cabe salientar a necessidade da conscientização do gestor público no tocante ao papel que desempenha. Ou seja, chamar a atenção para a responsabilidade social que lhe compete no sentido de minimizar a vida dos moradores das localidades, aqui chamadas de assentamentos subnormais, uma vez que correspondem a um percentual bastante expressivo no âmbito da população da cidade de Feira de Santana. 3 Os Investimentos nas Áreas Subnormais do Município de Feira de Santana a)Programa habitar-Brasil (BID) De iniciativa do Governo Federal, o Programa Habitar-Brasil-Bid, que tem o apoio do Banco Interamericano de Desenvolvimento juntamente com a Prefeitura Municipal de Feira de Santana, firmaram convênio através da Caixa Econômica Federal. O valor desembolsado para o país é da ordem de 416 milhões de dólares, sendo 60% dos recursos provenientes do BID e 40% da União. Na Bahia serão aplicados quatro milhões de reais nas mesmas proporções. A Secretaria de Planejamento promoveu a hierarquização das áreas por meio de critérios técnicos, econômicos e sociais, de acordo com o Planejamento Estratégico Municipal de Assentamentos Subnormais (PEMAS), conforme parâmetros da Secretaria de Política Urbana da Secretaria de Desenvolvimento Urbano do Paraná (SEDUR/PR). Com esse programa, beneficia-se, segundo informa a Secretaria Municipal de Planejamento, para a primeira intervenção em Feira de Santana, as áreas da “Fonte de Lili”, e invasão da Anchieta. Os recursos previstos são da ordem de R$ 6,5 milhões (INFORMATIVO MUNICIPAL DE FEIRA DE SANATA, 2000). A intervenção será dividida em dois subprogramas: Subprograma de Desenvolvimento Institucional (DI) e Subprograma de Assentamentos Subnormais (UAS). ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 12 O primeiro subprograma de DI busca fortalecer a capacidade institucional da Prefeitura, por intermédio de treinamento e aperfeiçoamento de sua equipe técnica, de melhoria do sistema de coleta de informações da gestão, e controle de custos de criação, de banco de dados, e da implantação da política habitacional. Para Feira de Santana, foi definido, inicialmente, o valor de 600 mil reais, sem contrapartida do município. O segundo subprograma UAS executará projetos integrados de urbanização em áreas degradadas ou de risco, com 15% de contrapartida obrigatória do município(INFORMATIVO MUNICIPAL DE FEIRA DE SANATA, 2002). É grave a situação, no que se refere à questão habitacional e de infra-estrutura, no município de Feira de Santana. Observamos que, durante muitos anos, os gestores públicos municipais não se preocuparam em resolver essas questões, deixando no abandono total os moradores desses loteamentos e favelas irregulares. Sem nenhum sistema de fiscalização e orientação eficiente, a administração pública facilitou o surgimento das invasões que, hoje, somadas, representam uma grande área na extensão do município. Verifica-se um número alarmante desses loteamentos e favelas irregulares, reconhecidos pela Secretaria Municipal de Planejamento de Feira de Santana como assentamentos subnormais, espalhados por toda a cidade, a maior parte deles localizados em área de risco (sem o perigo de desmoronamentos e deslizamentos, mas, sujeitos a inundações e alagamentos) e de preservação ambiental. A característica principal dessas áreas é a carência de infra-estrutura básica, principalmente de rede de esgotamento sanitário, de abastecimento de água, de pavimentação de ruas, além da irregularidade da ocupação do solo. Conclusão O Municipio de Feira de Santana apresenta grave situação de subnormalidade habitacional, tanto pela qualidade de habitações nessa situação, como pelo nível de insalubridade e também pelas implicações ambientais, visto que a grande quantidade de ____________________________________________________________________________________________ Diálogos & Ciência – Revista Eletrônica da Faculdade de Tecnologia e Ciências de Feira de Santana. Ano I, n. 3, ago. 2003. ISSN 1678-0493 http://www.ftc.br/revistafsa ___________________________________ Os Assentamentos Subnormais em Feira de Santana: O (re)pensar da Gestão Pública Municipal 13 favelas erguidas na cidade encontram-se em regiões de preservação ambiental, ou próximas de mananciais hídricos e, em época de chuvas intensas, poderão sofrer inundações e alagamentos, com prejuízos para o patrimônio e para os habitantes desses locais. A própria localização do município é fator contributivo para que ocorram essas anormalidades, pois Feira de Santana funciona como centro emissor e receptor de migrantes de todo o Brasil. Esses movimentos migratórios são, em parte os responsáveis pela acelerada ocupação desordenada das áreas caracterizadas nesta pesquisa. É preciso que a gestão pública no município de Feira de Santana empenhe-se num trabalho alicerçado na excelência dos serviços que serão disponibilizados, no sentido de proporcionar condições para o exercício de uma gestão pública saudável que minimize custos e otimize benefícios, sintonizados com as novas técnicas gerenciais e as responsabilidades fiscais. Diante do apresentado, cabe o seguinte questionamento: Feira de Santana, cidade inserida no Nordeste brasileiro, próxima à capital do Estado da Bahia, maior entroncamento rodoviário do Norte do País, com todas as nuances aqui apresentadas, face a sua localização, poderá sedimentar uma gestão pública responsável, mantendo ativa a busca pela melhoria da qualidade de vida dos moradores das áreas que são o alvo deste estudo, mesmo diante de políticas com recursos cada vez mais escassos? Drucker (2001 p.24) salienta que “não há paises subdesenvolvidos e sim subadministrados”. Neste sentido recai sobre a administração pública municipal a tarefa de conduzir eficazmente os recursos escassos na perceptiva de torná-los exeqüíveis. Referências BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil, 24. ed. atual e ampl. 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