UNIVERSIDADE LUSÍADA DE LISBOA Faculdade de Arquitectura e Artes Mestrado Integrado em Arquitectura Os elementos da arquitectura: construção elementar Realizado por: João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe Orientado por: Prof. Doutor Arqt. Rui Manuel Reis Alves Constituição do Júri: Presidente: Orientador: Arguente: Prof. Doutor Arqt. Joaquim José Ferrão de Oliveira Braizinha Prof. Doutor Arqt. Rui Manuel Reis Alves Prof. Doutor Arqt. Bernardo d'Orey Manoel Dissertação aprovada em: 11 de Fevereiro de 2015 Lisboa 2014 U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A Faculdade de Arquitectura e Artes Mestrado Integrado em Arquitectura Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe Lisboa Dezembro 2014 U N I V E R S I D A D E L U S Í A D A D E L I S B O A Faculdade de Arquitectura e Artes Mestrado Integrado em Arquitectura Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe Lisboa Dezembro 2014 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe Os elementos da arquitectura: construção elementar Dissertação apresentada à Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa para a obtenção do grau de Mestre em Arquitectura. Orientador: Prof. Doutor Arqt. Rui Manuel Reis Alves Lisboa Dezembro 2014 Ficha Técnica Autor Orientador João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe Prof. Doutor Arqt. Rui Manuel Reis Alves Título Os elementos da arquitectura: construção elementar Local Lisboa Ano 2014 Mediateca da Universidade Lusíada de Lisboa - Catalogação na Publicação PEIXE, João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira, 1989Os elementos da arquitectura : construção elementar / João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe ; orientado por Rui Manuel Reis Alves. - Lisboa : [s.n.], 2014. - Dissertação de Mestrado Integrado em Arquitectura, Faculdade de Arquitectura e Artes da Universidade Lusíada de Lisboa. I - ALVES, Rui Manuel Reis, 1964LCSH 1. Arquitectura - Filosofia 2. Arquitectura - Composição, proporção, etc. 3. Construção civil 4. Le Corbusier, 1887-1965 - Crítica e interpretação 5. Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Arquitectura e Artes - Teses 6. Teses – Portugal - Lisboa 1. 2. 3. 4. 5. 6. Architecture - Philosophy Architecture - Composition, proportion, etc. Building Le Corbusier, 1887-1965 - Criticism and interpretation Universidade Lusíada de Lisboa. Faculdade de Arquitectura e Artes - Dissertations Dissertations, Academic – Portugal - Lisbon LCC 1. NA2500.P45 2014 Dedico esta dissertação de mestrado a João Adolfo de Oliveira Peixe e a Maria de Fátima Assenhas Bebiano. Pais, amigos e peças fundamentais no meu crescimento como homem e ser humano. A eles o meu muito obrigado pelo amor e apoio em todas as fases da minha vida. AGRADECIMENTOS Aos meus pais e irmão - Fátima, João e Francisco respectivamente -, não existindo a necessidade de pôr por palavras os meus sentimentos por eles, deixo aqui apenas um simples obrigado por fazerem parte da minha vida e serem o meu porto de abrigo. A todos os meus avós e tios que me viram crescer e que sempre me trataram como um filho. À Vitória e ao “Zé” pela casa quando criança e à Lurdes e ao João pela casa quando jovem adulto. Aos amigos que percorreram comigo este caminho pois a minha história não pode ser contada sem eles com um especial agradecimento à Mafalda. Aos amigos e colegas do Projecto Warehouse com os quais partilhei os meus primeiros sucessos e fracassos como arquitecto. Aos professores que de uma maneira ou outra me marcaram. Ao professor Rui Alves pela sua orientação e paciência ao longo desta dissertação. Ao fotógrafo Nelson Garrido e ao Plano B Arquitectura pelo material cedido. A todos eles – e àqueles que no momento em que escrevia este texto não se me ocorreram – um muito obrigado. APRESENTAÇÃO Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe No início do mês de Março de 2013, enquanto me encontrava a fazer projecto de 5º ano, fui convidado a entrar no colectivo de arquitectura Projecto Warehouse. O colectivo, fundado em Fevereiro desse mesmo ano por Ricardo Morais e Ruben Teodoro – também eles estudantes de arquitectura da Universidade Lusíada de Lisboa –, teve como objectivo ser uma ponte entre o final de curso e o mundo laboral. Ao princípio, apostou-se na realização de concursos de arquitectura mas, rapidamente, se começou a traçar um novo caminho: os projectos em colaboração. Posteriormente, foi através de uma dessas colaborações que surgiu a oportunidade de desenhar e construir o projecto da Cozinha Comunitária das Terras da Costa. A dissertação foi sendo elaborada enquanto me encontrava a coordenar – juntamente com Ricardo Morais, Ruben Teodoro e Sebastião de Botton – o projecto CCTC e, como tal, foi sendo cada vez mais “contaminada” com o trabalho que estava a realizar. Este facto levou a que procurasse entender melhor as origens do Homem constructor e os elementos da Arquitectura, presentes no primeiro Tratado de Arquitectura. Continuando na mesma linha de pensamento, tornou-se por de mais evidente que não poderia deixar de fora o arquitecto Le Corbusier e o seu sistema de normalização: Modulor. Deste modo, a dissertação que aqui se encontra recorda-nos as bases para a edificação das obras e apresenta quatro casos de estudo onde podemos “ler”, com alguma facilidade, essas mesmas bases. Palavras-chave: Vitrúvio, Elementos, Le Corbusier, Modulor, Desenho, Construção PRESENTATION The elements of architecture elements: elementary construction João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe At the beginning of March, 2013, while doing the project work of my fifth academic year, I was invited to join the collective that runs the architecture “Warehouse Project”. This collective was founded in February, 2013, by Ricardo Morais and Ruben Teodoro, both architecture students at Lusíada University, in Lisbon and its aim was to bridge the gap between the conclusion of the course and the real working environment. At the beginning the purpose was to candidate to architecture projects, but soon we started to draw a new plan: co-operation projects. Later it was due to one of these cooperations that we had the opportunity to design the project and build a communitarian kitchen in Terras da Costa. The essay was written at the same time I was coordinating the CCTC Project, together with Ricardo Morais, Ruben Teodoro and Sebastião de Botton, and so I was more and more influenced by the work I was doing. This reality made me have a better understanding of the origins of persons who build and the basic principles of architecture, existing in the first Architecture Treaty. Following the same train of thought it was clear I couldn´t leave out the architect Le Corbusier and his normalizing system: Modulor. Thus, this essay reminds us the principles of the process of constructing buildings and presents four study cases where we can easily “read” these same principles. Key Words: Vitrúvio, Elements, Le Corbusier, Modulor, Design, Construction LISTA DE ILUSTRAÇÕES Ilustração 1 – Ilustração da cabana primitiva (Eisen, 1755) 25 Ilustração 2 – Imagem da cidade de Uruk apresentado no documentário History of the World in Two Hours (J. Cohen, 2011) 26 Ilustração 3 – Ala egipcia do British Museum, Londres (Ilustração nossa, 2010) 28 Ilustração 4 – Cópia da escultura Doríforo, Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (Frantz, 2012) 29 Ilustração 5 – Interpretação do Cânone de Policleto segundo R. Tobin (Vitrúvio, 2006, p. 126) 29 Ilustração 6 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 56) 34 Ilustração 7 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 56) 35 Ilustração 8 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 57) 36 Ilustração 9 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 57) 37 Ilustração 10 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 57) 37 Ilustração 11 – Homem Bem Configurado (Vitrúvio, 2006, p. 127) 39 Ilustração 12 – Unidades de medida (Vitrúvio, 2006, p. 126) 40 Ilustração 13 – Homem Vitruviano (Da Vinci, 2005, p. 42) 42 Ilustração 14 – Le Corbusier a trabalhar no estúdio da rua Nungesser-et-Coli, Paris, 1960 (Le Corbusier, 2005, contracapa) 44 Ilustração 15 – Le Corbusier e a maqueta da Villa no Museum of Modern Art, Nova Iorque, 1935 (Le Corbusier, 2005, p. 43) 45 Ilustração 16 – Unité d’Habitation, Marselha (Ilustração cedida por Sebastião de Botton, 2013) 46 Ilustração 17 – O Modulor (Le Corbusier, 2010) 48 Ilustração 18 – Zona livre/Zona ocupada em França durante II Guerra Mundial (Gaba, 2008) 49 Ilustração 19 – Desenho nosso a partir do esquema rectificativo proposto por Elisa Maillard (Le Corbusier, 2010, p. 55) 51 Ilustração 20 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 56) 52 Ilustração 21 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 57) 53 Ilustração 22 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 58) 54 Ilustração 23 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 62) 56 Ilustração 24 – Tabela de equivalências entre o sistema métrico e o sistema pé-polegada (Le Corbusier, 2010, p. 77) 57 Ilustração 25 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 86) 58 Ilustração 26 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 86) 59 Ilustração 27 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 88) 59 Ilustração 28 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 88) 60 Ilustração 29 – Corbusier no interior do Cabanon (Le Corbusier, 2008, p. 657) 61 Ilustração 30 – Planta implantação (Barba, 2013) 62 Ilustração 31 – Desenhos técnicos (Le Corbusier, 2008, p. 654) 63 Ilustração 32 – Petit Cabanon (Martin-Gambier, 2006) 64 Ilustração 33 – Áreas programáticas e sistema de circulação (McMillan, 2012) 64 Ilustração 34 – Pequeno atelier em Roquebrune (Barba, 2013) 65 Ilustração 35 – Esquema combinando o Cabanon e o Modulor (Ilustração nossa, 2014) . 65 Ilustração 36 – Planta de Implantação (El Croquis 154, 2011, p. 227) 68 Ilustração 37 – Casas na Areia (Mateus Arquitectos, 2012, p. 79) 69 Ilustração 38 – Planta e corte longitodinal (Mateus Arquitectos, 2012) 70 Ilustração 39 – Um dos módulos de alvenaria com um quarto (Garrido, 2014) 71 Ilustração 40 – Módulo de madeira com dois quartos (Garrido, 2014) 72 Ilustração 41 – Interior dos quartos (Garrido, 2014) 72 Ilustração 42 – Vista para o interior do espaço comum (Garrido, 2014) 73 Ilustração 43 – Volatile (Meireles, 2013) 74 Ilustração 44 – Interior do espaço comum (Garrido, 2014) 74 Ilustração 45 – Construção das Cabanas no Rio (Garrido, 2014) 75 Ilustração 46 – Transporte e colocação das Cabanas no Rio (Garrido, 2014) 76 Ilustração 47 – Planta de Implantação (Mateus Arquitectos, 2013) 76 Ilustração 48 – Vista do pontão para as cabanas (Garrido, 2014) 77 Ilustração 49 – Quarto com zona de duche (Garrido, 2014) 78 Ilustração 50 – Quarto (Garrido, 2014) 78 Ilustração 51 – Cabanas no Rio (Garrido, 2014) 79 Ilustração 52 – Esquema nosso onde se encontra identificado o novo corpo e o campo visual oferecido a partir dos módulos (Mateus Arquitectos, 2012) 80 Ilustração 53 – Esquema nosso sobre proporções e simetrias (Mateus Arquitectos, 2012) 81 Ilustração 54 – Esquema nosso sobre proporções e simetrias (Mateus Arquitectos, 2012) 81 Ilustração 55 – Esquema nosso sobre simetrias e rotações (Mateus Arquitectos, 2012)82 Ilustração 56 – Apoios agrícolas das salinas do Samouco (Ilustração nossa, Novembro 2014) 84 Ilustração 57 – Esquema de localização dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Santa Rita, 2006,p. 104) 85 Ilustração 58 – Fundações dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Ilustração nossa, 2014) 85 Ilustração 59 – Estrutura das paredes dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Ilustração nossa, 2014) 86 Ilustração 60 – Construção do módulo dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Santa Rita, 2006, p. 105) 87 Ilustração 61 – Construção do módulo dos apoios agrícolas das salinas do Samouco Axonometria (Santa Rita, 2006, p. 104) 88 Ilustração 62 – Esquema nosso sobre simetria e disposição (Santa Rita, 2006, p. 104)89 Ilustração 63 – Apoios agrícolas das salinas do Samouco - Simetria (Ilustração nossa, Novembro 2014) 90 Ilustração 64 – Apoios agrícolas das salinas do Samouco - Disposição (Ilustração nossa, Novembro 2014) 90 Ilustração 65 – Vista aérea do bairro das Terras da Costa (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 92 Ilustração 66 – Desmantelamento da Casa do Vapor (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 94 Ilustração 67 – Limpeza do espaço (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 95 Ilustração 68 – Comunidade+Equipa (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 95 Ilustração 69 – Info Bairro+Caixa de Correio (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 96 Ilustração 70 – Workshop têxteis para a CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2014)97 Ilustração 71 – Centro de Cultura Libertária de Almada (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 98 Ilustração 72 – Reunião no primeiro módulo (Ilustração Ateliermob, 2014) 99 Ilustração 73 – Alguns intervenientes da segunda fase de construcção (Ilustração cedida por Samuel Boche, 2014) 100 Ilustração 74 – Reunião equipa de projecto nas Terras da Costa (Ilustração cedida por Martinho Pita, 2013) 102 Ilustração 75 – Reunião entre Comissão de Moradores e equipa de projecto Ateliermob+Warehouse (Ilustração Ateliermob, 2013) 103 Ilustração 76 – Esquema faseado do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 104 Ilustração 77 – Fotomontagem do módulo da cozinha do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 105 Ilustração 78 – Fotomontagens dos módulos cozinha+pórtico+lavadeiras do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 105 Ilustração 79 – Fotomontagem de todos os módulos do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 106 Ilustração 80 – Desenho técnico da primeira fase do projecto CCTC-Corte Construtivo (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) 107 Ilustração 81 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Plantas módulo inicial (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 108 Ilustração 82 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Alçado Sul (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 109 Ilustração 83 – Colocação da cobertura da segunda fase do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 110 Ilustração 84 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Módulo alimentação (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 111 Ilustração 85 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Estrutura zona polivalente (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 112 Ilustração 86 – Vista para a entrada da cozinha do projecto CCTC-Zona alimentação (Ilustração nossa, Setembro 2014) 113 Ilustração 87 – Fase 1 do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 114 Ilustração 88 – Fase 1 do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 115 Ilustração 89 – Fase 1 do projecto CCTC-Fundações (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 116 Ilustração 90 – Fase 1 do projecto CCTC-Estrutura metálica (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 117 Ilustração 91 – Fase 1 do projecto CCTC-Cofragem e blocos de betão (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 117 Ilustração 92 – Fase 1 do projecto CCTC-Fundações (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 117 Ilustração 93 – Fase 1 do projecto CCTC-Construção dos pórticos de madeira (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 118 Ilustração 94 – Fase 1 do projecto CCTC-Módulo polivalente (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 119 Ilustração 95 – Fase 1 do projecto CCTC-Equipa de projecto com alguns moradores (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) 120 Ilustração 96 – Fase 1 do projecto CCTC-Módulo polivalente terminado (Ilustração Projecto Warehouse, Março 2014) 121 Ilustração 97 – Fase 2 do projecto CCTC-Armazenamento da madeira (Ilustração Projecto Warehouse, Julho 2014) 122 Ilustração 98 – Fase 2 do projecto CCTC-Zona de corte (Ilustração Projecto Warehouse, Julho/Agosto 2014) 122 Ilustração 99 – Fase 2 do projecto CCTC-Desenhos e ferramentas (Ilustração Projecto Warehouse, Agosto 2014) 123 Ilustração 100 – Fase 2 do projecto CCTC-Zona polivalente (Ilustração cedida por Céline Lixon, Agosto 2014) 124 Ilustração 101 – Fase 2 do projecto CCTC-Aplicação do Viroc (Ilustração Projecto Warehouse, Agosto 2014) 125 Ilustração 102 – Fase 2 do projecto CCTC-Interior da cozinha+Zona de alimentação (Ilustração nossa, Setembro 2014) 125 Ilustração 103 – Fase 2 do projecto CCTC-Interior da cozinha (Ilustração nossa, Setembro 2014) 126 Ilustração 104 – Fase 2 do projecto CCTC-Jantar e festa (Ilustração cedida por Samuel Boche, Agosto 2014) 127 Ilustração 105 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 127 Ilustração 106 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 128 Ilustração 107 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 128 Ilustração 108 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 129 Ilustração 109 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 129 Ilustração 110 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 130 Ilustração 111 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 130 Ilustração 112 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 131 Ilustração 113 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) 131 Ilustração 114 – Fase 2 do projecto CCTC-Pavimento exterior (Ilustração Projecto Warehouse, Outubro 2014) 132 Ilustração 115 – Fase 2 do projecto CCTC-Ligações eléctricas (Ilustração Projecto Warehouse, Outubro 2014) 132 Ilustração 116 – Fase 2 do projecto CCTC-Verniz protector de madeira (Ilustração Projecto Warehouse, Outubro 2014) 133 Ilustração 117 – Fase 2 do projecto CCTC-Chafariz (Ilustração Projecto Warehouse, Novembro 2014) 133 Ilustração 118 – Inauguração do Projecto CCTC (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 134 Ilustração 119 – Inauguração do Projecto CCTC (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 134 Ilustração 120 – Relação de proporção (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 135 Ilustração 121 – Traçado inicial e relação de proporção para o primeiro módulo (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 136 Ilustração 122 – Desenho do pórtico tipo (cima) e de um dos pórticos da zona polivalente (baixo) (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 137 Ilustração 123 – Esquema do módulo da cozinha (Ilustração nossa, Dezembro 2014)138 Ilustração 124 – Esquema representando as distâncias entre pórticos de 1,5m e 1,65m (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 138 Ilustração 125 – Esquema representando a simetria do plano geral (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 139 Ilustração 126 – Esquema representando a simetria existente em cada módulo (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 139 Ilustração 127 – Esquema sobre alçado Sul (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 140 Ilustração 128 – Esquema sobre alçado Sul (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 140 Ilustração 129 – Esquema sobre planta de implantação final de projecto (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 141 Ilustração 130 – Esquema sobre planta de implantação final de projecto (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 142 Ilustração 131 – Camada arbórea (Ilustração nossa, 2012) 142 Ilustração 132 – Camada edificada (Ilustração nossa, 2012) 143 Ilustração 133 – Fotografias dos espaços interiores (Ilustração nossa, 2012) 143 Ilustração 134 – Esquema sobre plantas finais do piso 0 e 1 do corpo A e B (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 144 Ilustração 135 – Esquema sobre plantas finais do piso 1 e 2 dos corpos A e B (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 145 Ilustração 136 – Esquema sobre corte final do corpo A – Quarto da torre (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 145 Ilustração 137 – Esquema sobre o vão janela do corpo B (Ilustração nossa, Dezembro 2014) 146 Ilustração 138 – Planta dos quartos do novo corpo (Ilustração nossa, 2012) 146 Ilustração 139 – Alçado norte do novo corpo (Ilustração nossa, 2012) 146 Ilustração 140 – Corte transversal da topografia com o novo corpo (Ilustração nossa, 2012) 147 Ilustração 141 – Desenho técnico - Corte transversal de um dos quartos (Ilustração nossa, 2012) 147 Ilustração 142 – Maqueta 1.200 (Ilustração nossa, 2013) 148 Ilustração 143 – Esquema sobre simetria dos quartos (Ilustração nossa, 2014) 149 SUMÁRIO 1. Introdução 21 2. Antropometria na Arquitectura 23 2.1 Da cabana primitiva à antiguidade clássica 24 2.2 Os elementos da arquitectura 30 2.2.1 Livro I 33 2.2.2 Livro III 39 2.3 “O Modulor” 43 2.3.1 O arquitecto 44 2.3.2 A regra 49 2.3.3 Le Cabanon 61 3. Casos de estudo 3.1 Casas na Areia/Cabanas no Rio 3.1.1 Síntese 3.2 Apoios agrícolas das salinas do Samouco 3.2.1 Síntese 3.3 Projecto CCTC 67 68 80 83 89 91 3.3.1 Processo 92 3.3.2 Prosposta 102 3.3.2.1 Desenho 107 3.3.2.2 Construção 114 3.3.3 Síntese 4. Projecto de 5º ano – Pousada da Quinta da Ribafria 4.1 Síntese 135 141 149 5. Conclusão 151 Referências 153 Bibliografia 157 Os elementos da arquitectura: construção elementar 1. INTRODUÇÃO A dissertação que se apresenta, começa por demonstrar como a imagem do corpo humano serviu de base aos conceitos elementares da arquitectura. Quando estes conceitos foram reunidos e passados para formato físico, puderam começar a ser utilizados por qualquer pessoa como ferramentas guias na busca de uma arquitectura de excelência. Para melhor fundamentar o que anteriormente se referiu fez-se uma leitura critica a obras que na sua essência apresentam um ou vários elementos como é exemplo disso a simetria, proporção ou o sistema de normalização na ideia de construção modular. No último caso de estudo encontramos a aplicação destas mesmas bases arquitectónicas no desenho e construção de uma obra da qual se fez parte como um dos coordenadores de projecto. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 21 Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 22 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2. ANTROPOMETRIA NA ARQUITECTURA Neste primeiro capítulo iremos fazer referência à relação histórica entre o desenho do corpo humano e à sua aplicação na arquitectura ao longo do tempo. Poderemos constatar que tanto o homem comum como alguns dos maiores sábios “projectaram” as suas obras e realizaram as suas pesquisas auxiliando-se sempre de unidades de medidas corporais. Em primeiro lugar, devemos mencionar o percurso existente entre a primeira cabana primitiva até ao grandioso templo grego. Deste modo iremos perceber a importância que estes tiveram nos estudos arquitectónicos levados a cabo desse momento para a frente. De seguida, de um modo sucinto, visto tratar-se de um conjunto de livros bastante longos, referir os pontos pertinentes para esta dissertação sobre o primeiro tratado de arquitectura de que o homem tem conhecimento. Por último, expor a evolução que a ferramenta de normalização fornecida à arquitectura sofreu até chegar à imagem que conhecemos dela. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 23 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.1. DA CABANA PRIMITIVA À ANTIGUIDADE CLÁSSICA Antropometria é um dos ramos da Antropologia física/biológica que estuda o corpo humano, ou mais especificamente, as medidas físicas do corpo humano. Podemos constatar isso desmontando a palavra em duas partes: do grego anthropos, Homem, e metron, medida. Neste sub-capítulo iremos ver alguns momentos marcantes daquilo a que se pode chamar a “medida do Homem” na Arquitectura. Apesar do termo antropometria apenas ter sido inventado no séc. XVII, pelo naturalista alemão Johann Sigismund Elsholtz1, esta ciência, e a sua relação com a Arquitectura, já estava presente na História da humanidade há muito tempo. Para compreendermos melhor, devemos recuar até à altura em que os nossos antepassados saiam das cavernas. A origem lendária, quase mítica, da arquitectura, corresponde ao momento remoto do passado em que o até então homem das cavernas abandonou o seu refúgio natural e, entrelaçando ramos, árvores e folhagens, montou a primeira “cabana primitiva”. (Llera, 2006, p. 5) Em 1755, ano em que saiu a 2ª edição da publicação Essai sur l’Architecture de Laugier2, encontramos uma ilustração realizada por Charles Eisen3 daquilo que poderia ter sido a primeira cabana primitiva. ____________________________ Johann Sigismund Elsholtz (1623 – 1688) foi um Naturalista alemão que em 1654 publicou Anthropometria. O livro, que iria dar nome à ciência, estuda a relação percebida entre as proporções do corpo humano e da incidência de doenças. A obra beneficiou artistas, astrólogos e estudantes de medicina e fisionomia. 2 Marc-Antoine Laugier (1713 – 1769) foi um padre Jesuita e teórico de arquitectura de Manosque, Provence. 3 Charles-Dominique-Joseph Eisen (1720 – 1778) nasceu em Valenciennes mas foi em Paris que ganhou notoriedade. Foi pintor e ilustrador do Rei e desenhador mestre da Madame de Pompadour. 1 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 24 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 1 – Ilustração da cabana primitiva (Eisen, 1755) No momento em que o ser humano teve a necessidade de criar o seu primeiro abrigo, nasceu a compreensão da relação entre o que cria e para quem se cria. Com isto, queremos dizer que as medidas do corpo, neste caso altura e largura dos indivíduos, foram as primeiras “réguas” utilizadas no processo criativo. Desde aí até aos dias de hoje, este entendimento tem vindo a ser estudado e aperfeiçoado em prol da qualidade de vida de cada um. Podemos verificar essa evolução ao longo do tempo através das referências que nos foram deixadas, quer por obras edificadas ou vestígios destas, quer por textos ou desenhos de grandes mestres. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 25 Os elementos da arquitectura: construção elementar Colocando o ano 5000 a.C. como ponto seguinte nesta cronologia, podemos verificar que é por volta desta data que o Homem começa a erguer as primeiras cidades “ […] em terras da Mesopotâmia (Ur, Uruk) e Ásia Menor (Chatal Huyuk, Ebla, Mari), ou da Índia antiga (Mohenjo Daro, Harapa).” (Llera, 2006, p.5). O documentário History of the World in Two Hours, transmitido pelo History Channel, dá-nos uma imagem do que poderia ter sido Uruk4, permitindo ver a existência de uma organização no modo como se construía a cidade. Apesar da primeira cidade regular apenas aparecer no séc. V a.C., pela mão de Hipódamo de Mileto5, já havia a noção que ” […] o construtor primitivo converteu-se em arquitecto quando, além de resolver a necessidade mais imediata, a sua casa-refúgio, além de responder aos seus propósitos prácticos iniciais, construiu também casas e monumentos em honra dos deuses, […] ”. (Llera, 2006, p.5). Deste modo, compreendemos que o homem separou o sagrado do mundano utilizandose a si mesmo como referência. A casa para morar e o templo para adorar. Dois tipos distintos de edifício. Duas medidas diferentes, a mesma “régua”. Ilustração 2 – Imagem da cidade de Uruk apresentada no documentário History of the World in Two Hours (J. Cohen, 2011) ____________________________ Uruk foi uma das cidades mais antigas e importantes da Suméria – posterior Babilônia – situada a leste do Eufrates, na linha do antigo canal Nil a cerca de 225 km sul-sudeste de Bagdá. 5 Hipódamo de Mileto (498 – 408 a.C.) foi um arquitecto grego e é considerado o primeiro urbanista. Concebeu um plano urbano e a estrutura de uma cidade a partir de um ponto de vista que priveligiava a funcionalidade. As ruas largas que se cruzavam em ângulos rectos desenhadas por este demonstravam lógica, clareza e simplicidade. É deste modo que podemos associar o seu conceito arquitectónico com o pensamento da época: o plano em forma de tabuleiro de xadrez que reflecte as divisões lógicas e matemáticas pelas quais os filósofos e arquitectos se regiam. 4 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 26 Os elementos da arquitectura: construção elementar Na civilização egipcia vamos encontrar inúmeros exemplos significativos da importância dada ao templo em detrimento da casa. A arquitectura egipcia, com o seu carácter profundamente religioso, colocou a adoração aos deuses num patamar como até à data não se tinha visto. No tempo em que era atribuído carácter divino a alguns reis do Antigo Egipto o aparecimento de grandes estruturas para os honrar, a par dos deuses egipcios, era inevitável. Os templos e os monumentos funerários foram edificados utilizando como unidade de medida o cúbito, ou mais concretamente o cúbito real. Esta unidade é uma das mais antigas das quais se tem conhecimento e a sua aplicação ainda hoje é visível quando estudamos estruturas como a Grande Pirâmide. O cúbito, ou côvado como também pode ser chamado, é definido pelo comprimento do braço medido do cotovelo à extremidade do dedo médio estendido. Como já anteriormente referimos, o cúbito real era o “escolhido” e como o próprio nome indica era a medida do braço do rei egípcio actual. Naturalmente como a medida do braço de cada rei variava acabou por se encontrar um valor padrão de 52,4 centimetros que foi gravado numa barra de pedra. Quando existia a necessidade de medir comprimentos maiores os egipcios utilizavam cordas com nós com 5 cúbitos de diferença entre si. As obras arquitectónicas desta civilização que chegaram até aos nossos dias ainda hoje são foco de atenção e de admiração não só pela sua dimensão mas também pela sua qualidade construtiva. No que diz respeito às esculturas, os deuses podiam ser representados com corpo e cabeça humana, corpo humano e cabeça de animal ou sob a forma de animal, o que demonstra que, até mesmo as grandes divindades, eram criadas a partir da imagem humana. Este exemplo é o reflexo de que tudo o que imaginamos ou criamos tem uma base de referências por detrás, de modo consciente ou inconsciente. Uma árvore/um edifício, um pássaro/um avião, uma montanha/uma muralha, … “Architects don’t invent anything, they just transform reality.”6 ____________________________ 6 Citação do arquitecto Álvaro Siza Vieira (25 de Junho 1933 –). Os arquitectos não inventam nada, eles apenas transformam a realidade. (Tradução nossa) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 27 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 3 – Ala egipcia do British Museum, Londres (Ilustração nossa, 2010) Como podemos ver, a partir da unidade de medida e das esculturas anteriormente referidas, ao longo do tempo a relação entre a Arquitectura e a medida do Homem cada vez se torna mais próxima. Na realidade a primeira não pode existir sem a segunda. Apesar da civilização egipcia ter tido um grande destaque no que à arquitectura religiosa diz respeito, podemos considerar que foi o homem da Antiguidade Clássica que, com o seu templo, mais influênciou a arquitectura do ocidente. Este foi um momento na História de grandes descobertas e transformações, não só para as áreas artististicas mas também para as cientificas. Foi durante este período que se lançaram as bases para as primeiras cidades regulares, como referimos anteriormente, onde templo e casa cohabitavam. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 28 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ao mesmo tempo que se procurava conjugar a vida pública e a vida religiosa de um modo harmonioso, também no séc. V a.C., pela mão de Policleto7, o primeiro Cânone8 era criado. O aparecimento do primeiro sistema de proporções, centrado no ideal de beleza do Homem, viria a revolucionar a imagem da arquitectura. Esta era criada com grande rigor através de proporções matematicamente precisas que assentavam nos princípios de racionalidade, ordem, beleza e geometria. Ilustração 4 – Cópia da escultura Doríforo, Museu Arqueológico Nacional de Nápoles (Frantz, 2012) Ilustração 5 – Interpretação do Cânone de Policleto segundo R. Tobin (Vitrúvio, 2006, p. 126) ____________________________ Policleto (460 – 420/410 a.C.) foi um dos mais notáveis escultores da Grécia Antiga. Fundador do Classicismo escultórico, e apelidado de "Pai da Teoria da Arte" do Ocidente, ficou conhecido pelas suas esculturas de atletas e uma colossal estátua de Hera esculpida em marfim e ouro instalada no templo da deusa em Argos. Contudo, a sua fama derivou do seu tratado teórico intitulado Cânone e da escultura Doríforo, considerada por muito tempo como o ideal da beleza masculina, onde se encontrava presente o sistema de proporções do tratado referido anteriormente. 8 Cânone deriva da palavra grega kanon, que designa uma vara utilizada como instrumento de medida, e que normalmente se caracteriza como um conjunto de regras (ou, frequentemente, como um conjunto de modelos) sobre um determinado assunto. 7 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 29 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.2. OS ELEMENTOS DA ARQUITECTURA A arquitectura grega dividiu-se em três períodos distintos:o arcaico, o clássico e o helenístico. Estes diferenciavam-se pelas suas características estécticas e tecnológicas. Durante o período arcaico desenvolveram-se os princípios da arte grega e apareceram os elementos básicos das construções respectivos a esta civilização. Podia-se distinguir a arquitectura arcaica a partir da ordem presente nas colunas do edifício, sendo que existiam três ordens:dórica, jónica e corintia. O aspecto formal destas representava a sua identidade estilística. Posteriormente, foi durante o período clássico que se deu o apogeu da civilização grega. A evolução nas técnicas construtivas, o excelente domínio de materiais, a implementação de regras e os estudos anatómicos e geométricos levaram a que este fosse o período de ouro dos gregos no que à arquitectura dizia respeito. É de salientar que também foi um momento no qual outras áreas do conhecimento poderam desenvolver-se. Exemplo disso são a literatura, o direito, a filosofia, a astronomia, o comércio e as tácticas militares. Por último, o período helenístico é considerado um momento de “decadência” pois foi durante este que os gregos, ao espalharem a sua cultura por outras civilizações, acabaram por fundir ideias. Isto levaria à perda de identidade com alterações nas regras e ordens criadas anteriormente. O templo perdeu importância e o próprio cânone de beleza que existia foi substituído por outros. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 30 Os elementos da arquitectura: construção elementar O templo, um dos modelos mais importantes que a arquitectura grega transmitiu ao ocidente, foi o tipo de edifício que mais contribuiu para a evolução arquitectónica. Este representava a “morada” dos deuses e tinha como referência o Mégaron9 micénico. O edifício em planta dividia-se em pronaos10, naos11, aditon12 e opistódomo13. Circundando a estrutura central, por vezes tripartida onde não existia o aditon, encontrávamos o peristilo14. De seguida, e no que diz respeito ao alçado do edifício, podíamos verificar que este se dividia em três partes: base, estrutura e cobertura. Mais especificamente falamos do pódio ou pedestal onde assentava o templo, as colunas que o erguiam e o entablamento que a par do frontão davam forma ao topo da obra. Por último, é de salientar que este conceito tripartido, muito utilizado a partir deste período da História da arquitectura, voltava a aparecer na sub-divisão das colunas (base, fuste e capitel) e no entablamento (arquitrave, friso e cornija). Existiram vários tipos de templos e estes variavam segundo classificações de intercolúnios. Podiam distinguir-se pelo número de colunas na fachada, o número de filas de colunas, a distribuição destas e o espaçamento entre elas. Como referimos anteriormente, também se diferenciavam pela ordem arquitectónica ___________________________ 9 O Megaron era a sala principal que se encontrava nos palácios da Civilização Micénica. Habitualmente amplo e decorado, era o espaço onde ficava o trono do rei micênico. Este dividia-se em três partes: pórtico aberto colunado, o vestíbulo e a sala principal. 10 Pronaos era o nome dado à antecâmara que antecedia o naos, ou melhor, a zona de entrada do templo. Mais tarde o termo nártex irá substituir o anterior e consequentemente outros irão aparecer tais como: átrio, vestíbulo, galilé ou paraíso. 11 Naos ou Cella era o espaço onde se situava a estátua da divindade. Delimitado por quatro paredes sem janelas, este por vezes era organizado em três alas divididas por colunas. Em templos de grandes dimensões o naos podia funcionar como um pátio interior sem cobertura. 12 O Aditon ou Abaton era um espaço restricto onde apenas os sacerdotes podiam entrar. Estes realizavam o culto e/ou a colocação de oferendas nesta área. Este espaço tinha também a particularidade de funcionar de diferentes maneiras: como uma sub-divisão do naos aberta para ele, como uma câmara isolada no centro do naos ou como um nicho na parede posterior do naos. 13 O Opistódomo era a câmara oposta ao pronaos. Esta área podia funcionar por vezes como aditon e era onde se encontravam os tesouros do templo. 14 O Peristilo era o corredor que circundava a parte central do templo. Este era aberto lateralmente através de uma ou mais fiadas de colunas e encontrava-se coberto. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 31 Os elementos da arquitectura: construção elementar O percurso que anteriormente realizámos ao longo da História levou-nos a compreender melhor a importância da medida do Homem na evolução da arquitectura. Desde as civilizações mais remotas até aos imponentes gregos passaram-se centenas de anos e, com estes, saberes incontáveis. Tudo isto iria culminar nas bases para o primeiro tratado de arquitectura de que à memória. No século I a.C., pela mão “ […] do arquitecto e engenheiro romano Marco Vitrúvio Polião15 […] (Vitrúvio, 2006, p. 7), surge a primeira obra escrita e desenhada desta área do conhecimento da Antiguidade Clássica e a sua relação com o Homem. Este dava pelo nome de “De Architectura”16 e “ […] ao ser redescoberto no Renascimento, tornouse o texto fundador de um entendimento moderno da arquitectura e da construção. É a palavra primeira da arquitectura.” (Vitrúvio, 2006, p. 7). De seguida, devemos salientar que, por ser um tratado extremamente complexo e longo, já que foca vários temas relacionados com a arquitectura, iremos insidir a nossa atenção únicamente nos Livros I e III. Nestes iremos encontrar os requisitos que o autor considerava essenciais para se ser um arquitecto, os cânones que deveriam ser seguidos no modo de projectar e a relação entre as medidas do Homem e as regras anteriormente referidas. ___________________________ 15 Marcus Vitruuius Pollio (Marco Vitrúvio Polião) ou apenas Vitrúvio, visto que os restantes nomes não são totalmente certos, foi um dos expoentes máximo no que diz respeito à teorização da arquitectura da Antiguidade Clássica. Como podemos ver, na introdução da primeira tradução directa do texto latino para português do Tratado de Arquitectura realizado pelo Professor Justino Maciel, Vitrúvio era um engenheiro militar que participou nas campanhas de Júlio César. Este mantinha relações próximas com altas patentes militares e politicas e isto levou a que mais tarde oferece-se ao imperador Augusto a obra referida anteriormente. Foi também um homem de letras, filósofo, historiador da arte e teórico de deontologia. 16 “De Architectura”, Tratado de Arquitectura composto por Dez Livros, viria a ser traduzido do latim para o italiano (1521), francês (1547), alemão (1548), castelhano (1582), inglês (1791) e português (2007). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 32 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.2.1. LIVRO I No capítulo I do primeiro livro estão presentes as “condicionantes” do projectista e as regras arquitectónicas. O arquitecto deveria ser conhecedor de várias matérias e aplicalas não só na teoria como também na práctica. A ciência do arquitecto é ornada de muitas disciplinas e de vários saberes, estando a sua dinâmica presente em todas as obras oriundas das restantes artes. Nasce da prática e da teoria. A prática consiste na preparação contínua e exercitada da experiência, a qual se consegue manualmente a partir da matéria, qualquer que seja a obra de estilo cuja execução se pretende. Por sua vez, a teoria é aquilo que pode demonstrar e explicar as coisas trabalhadas proporcionalmente ao engenho e à racionalidade. (Vitrúvio, 2006, p. 30). Deste modo, não era possível a qualquer um ser arquitecto e ” […] antes só o deveriam ser aqueles que desde meninos, subindo por estes degraus das disciplinas e alimentados pela ciência da maioria das letras e das artes, atingissem o altíssimo templo da arquitectura.” (Vitrúvio, 2006, p. 34). O autor, ao mesmo tempo que condiciona, também adverte que “ […] em tão grande variedade de coisas, ninguém poderá conseguir perfeccionismo em cada uma delas, uma vez que tal depende, em suma, da capacidade de conhecer e de perceber as suas teorias.” (Vitrúvio, 2006, p. 35). De facto Vitrúvio considera que o arquitecto deveria ter um conhecimento médio das mais variadas artes e ciências, de maneira a que podesse julgar ou opinar sobre algo, sem cair no perfeccionismo relacionado com a práctica de apenas uma arte. O Tratado de Arquitectura é então escrito pelo cunho de alguém que se considera um “ […] arquitecto imbuído destes conhecimentos, […] “ (Vitrúvio, 2006, p. 36). Posteriormente, nesta obra iremos focar a nossa atenção no capítulo II do primeiro livro onde se encontram presentes as regras e definições da arquitectura. O autor é bastante claro e sintético no que diz respeito a este tema. “ Na realidade, a arquitectura consta de: ordenação, que em grego se diz táxis, disposição, à qual os Gregos chamam diathesis, euritmia, comensurabilidade, decoro e distribuição, este em grego dita oeconomia.” (Vitrúvio, 2006, p. 37). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 33 Os elementos da arquitectura: construção elementar A ordenação é a acção de pôr algo ou alguém em ordem e esta é a regra que procura a simetria. Para que tal possa acontecer, as diversas partes da obra devem estar relacionadas entre si, a partir de proporções matemáticas, assim como estas devem estar com o todo. Deste modo as partes e o todo farão sentido entre si. A ordenação define-se como a justa proporção na medida das partes da obra consideradas separadamente e, numa visão de totalidade, a comparação proporcional tendo em vista a comensurabilidade. É harmonizada pela quantidade, que em grego se diz posotes. Esta, por sua vez consiste em tomar módulos de porções da própria obra e na execução da totalidade desta, como base em cada uma das partes dos seus membros. (Vitrúvio, 2006, p. 37) Ilustração 6 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 56) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 34 Os elementos da arquitectura: construção elementar De seguida, a disposição, neste contexto, refere-se à colocação das diferentes partes do edifício de uma determinada forma que lhe pode conferir melhor ou pior qualidade. Existem três maneiras distintas para dispor as partes: icnografia, ortografia e cenografia. A primeira é a disposição através de um plano horizontal ou, mais vulgarmente chamado, de planta do edifíco. Por sua vez, a ortografia representa o plano vertical também conhecido por alçado. Por último, a cenografia diz respeito à projecção perspectiva da obra. A disposição, por sua vez, define-se como a colocação adequada das coisas e o efeito estético da obra com a qualidade que lhe vem dessas adequações. São estas as espécies de disposição, que em grego se dizem ideae:icnografia, ortografia, cenografia. (Vitrúvio, 2006, p. 37) Ilustração 7 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 56) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 35 Os elementos da arquitectura: construção elementar Continuando, a euritmia diz respeito à harmonia existente entre as diferentes partes quando estas estão bem proporcionadas entre si o que torna a obra agradável aos olhos. Esta encontra-se intimamente ligada com a comensurabilidade, ou melhor dizendo, com a simetria. A euritmia é a forma exterior elegante e o aspecto agradável na adequação das diferentes porções. Tal verifica-se quando as partes da obra são proporcionais na altura em relação à largura, nesta em relação ao comprimento, em suma, quando todas as partes correspondem às respectivas comensurabilidades. (Vitrúvio, 2006, p. 38) Ilustração 8 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 57) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 36 Os elementos da arquitectura: construção elementar Prosseguindo, a comensurabilidade, ou simetria como referimos anteriormente, encontra-se extremamente relacionada com o ideal de beleza que o Homem almeja alcançar. Isto deve-se ao facto de o corpo humano conter inúmeras euritmias as quais fazem as pessoas mais belas quanto mais simétricas estas forem entre si. Procura-se então que as obras arquitectónicas possuam também essa regra de modo a que se tornem mais “atraentes”. Por sua vez, a comensurabilidade consiste no conveniente equilíbrio dos membros da própria obra e na correspondência de uma determinada parte, entre as partes separadas, com a harmonia do conjunto da figura. Assim como no corpo humano existe a natureza simétrica da euritmia a partir do côvado, do pé, do palmo e de outras pequenas partes, o mesmo acontece no completo acabamento das obras. (Vitrúvio, 2006, p. 38) Ilustração 9 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 57) Ilustração 10 – Os elementos da arquitectura (Vitrúvio, 2006, p. 57) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 37 Os elementos da arquitectura: construção elementar Por último, devemos ainda salientar o decoro e a distribuição apesar de estes não se enquadrarem directamente com o tema da medida do Homem. O decoro pode ser entendido como o “acabamento” final que identifica as obras através de determinadas características. Exemplo disso era o facto de se levantarem templos de diferentes ordens consoante a divindade a que dizia respeito. A Minerva, a Marte e a Hércules levantam-se templos dóricos; […] a Vénus, a Flora, a Prosérpina e às Ninfas das Fontes parece que deverão ter as características próprias do género coríntio, […] templos jónicos a Juno, Diana, ao deus Líbero […] (Vitrúvio, 2006, p. 38) A distribuição “ […] é a repartição apropriada dos meios e do solo, assim como um equilíbrio económico nas contas de despesa das obras.” (Vitrúvio, 2006, p. 39). Este é um factor que deve ser realizado pelo arquitecto antes de começar a edificar seja o que for pois irá influênciar em grande escala o custo desta. Certamente se um edifício for construído com materiais que não existem no local este tornar-se-á muito mais dispendioso visto que estes terão de ser transportados até lá. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 38 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.2.2. LIVRO III Dando por terminados os capítulos que fazem referência aos requisitos do projectista e às regras que deveriam ser seguidas, iremos então passar a nossa atenção para o Livro III. Neste livro Vitrúvio diz-nos que “ A composição dos templos assenta na comensurabilidade, […] “ (Vitrúvio, 2006, p. 109), que por sua vez “ […] nasce da proporção, […] “ (Vitrúvio, 2006, p. 109) e que “ […] nenhum templo poderá ter esse sistema sem conveniente equilíbrio e proporção e se não tiver uma rigorosa disposição como os membros de um homem bem configurado.” (Vitrúvio, 2006, p. 109). Ilustração 11 – Homem Bem Configurado (Vitrúvio, 2006, p. 127) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 39 Os elementos da arquitectura: construção elementar Mais uma vez aqui encontramos a ligação entre a obra arquitectónica e as medidas corporais do Homem. No Capítulo I parágrafo 2 do referido livro o arquitecto apresentanos várias euritmias do corpo humano. Com efeito, a natureza de tal modo compôs o corpo humano que o rosto, desde o queixo até ao alto da testa e à raiz dos cabelos, corresponde à sua décima parte, e a mão distendida, desde o pulso até à extremidade do dedo médio, outro tanto; a cabeça, desde o queixo ao cocuruto, à oitava; da parte superior do peito, na base da cerviz, até à raiz dos cabelos, à sexta parte, e do meio do peito ao cocuruto da cabeça, à quarta parte. Por sua vez, da base do queixo à base das narinas vai a terça parte da altura do citado rosto, e do nariz, na base das narinas, ao meio das sobrancelhas, vai outro tanto; daqui até à raiz dos cabelos temos a fronte, que é também a terça parte. O pé, por seu turno, corresponde à sexta parte da altura do corpo; o antebraço, à quarta; o peito, também à quarta. (Vitrúvio, 2006, p. 109) Na realidade diversas partes do corpo humano foram utilizadas como unidades de medida visto que entre elas existia sempre uma relação de proporção. Exemplos disto são o dedo, o palmo, o pé e o côvado. Tal como Alberti17 referiu, a proporção pode ser definida como “ A relação das partes de uma determinada composição entre si e das partes com o conjunto” Ilustração 12 – Unidades de medida (Vitrúvio, 2006, p. 126) ___________________________ Leon Battista Alberti (1404 – 1472) foi um arquitecto italiano, autor, artista, teórico de arte, filósofo, pintor, músico, escultor e humanista. Personificou o ideal Renascentista do homem universal ou, por outras palavras, o individuo letrado e capaz em diversos campos das artes e das ciências. 17 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 40 Os elementos da arquitectura: construção elementar Como tal, e visto que o Homem Bem Configurado de Vitrúvio tinha este elemento capaz de unir as partes com o todo, também as obras arquitectónicas sagradas o deveriam ter. De modo semelhante, sem dúvida, os membros dos edificios sagrados devem ter em cada uma das partes uma correspondência de medida muito conformemente, na globalidade, ao conjunto da magnitude total. […] Portanto, se a natureza compôs o corpo do homem, de modo a que os membros correspondam proporcionalmente à figura global, parece que foi por causa disso que os Antigos estabeleceram que também nos acabamentos das obras houvesse uma perfeita execução de medida na correspondência de cada um dos membros com o aspecto geral da estrutura. Por conseguinte, se nos trasnmitiram regras para todas as construções, elas destinavam-se sobretudo aos templos dos deuses, porque as qualidades e os defeitos destas obras permanecem eternos. (Vitrúvio, 2006, p. 109-110) Foram inúmeros os casos em que partes do corpo humano foram utilizadas para definir ideias e objectos sendo que neste Tratado encontramos o exemplo do número perfeito procurado pelos matemáticos e do sistema monetário criado pelos Gregos e pelos Romanos. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 41 Os elementos da arquitectura: construção elementar Concluindo, esta pequena “leitura” de um dos mais importantes Tratados da história teve como objectivo apresentar os elementos essenciais da Arquitectura e a sua profunda relação com o Homem. Estes foram utilizados por inúmeras personalidades ao longo do tempo nos seus processos criativos. Um dos exemplos que podemos referir é o caso de Leonardo da Vinci18 e o seu não menos conhecido Homem Vitruviano. Ilustração 13 – Homem Vitruviano (Da Vinci, 2005, p. 42) ___________________________ Leonardo di ser Piero da Vinci (1452 – 1519) foi um dos maiores génios do Renascimento. Homem multi-facetado capaz em inúmeras artes e ciências. Pintor, ilustrador, inventor, professor eram apenas algumas das suas muitas ocupações. 18 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 42 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.3. “O MODULOR” “A única maneira que se tem de construir, a única maneira pela qual se pode dar origem ao edifício é através do mensurável. Louis Kahn” (Ching, 1999, p. 319) No seguimento do estudo dos elementos que constituem a arquitectura, retirados das medidas corporais, e a sua aplicação ao longo do tempo não poderíamos deixar de parte o contributo dado por Le Corbusier e as suas pesquisas sobre a ferramenta de normalização: O Modulor. A relação da arquitectura com a antropologia é relançada com a invenção da arquitectura moderna no início do século XX. É de facto uma figura humana – esguia, voluntariosa, heroica – que emerge habitando os desenhos de Le Corbusier. O Modulor, sistema de medida com referência nas proporções de um corpo imaginário, será mais tarde o culminar deste ciclo. Le Corbusier remete directamente para os elementos antropomórficos da arquitectura clássica que agora são redirecionados num sentido laico, com uma inclinação científica, como é suposto. (Figueira, 2011, p. 15) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 43 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.3.1. O ARQUITECTO Charles-Édouard Jeanneret, fora do âmbito da Arquitectura, é um nome pouco conhecido no mundo. Contudo, se este for substituído pelo pseudónimo Le Corbusier o público que conseguimos atingir torna-se de imediato muito mais abrangente. Sendo um dos homens que mais marcou a Arquitectura do século XX por ter conseguido “ […] condensar tão bem as esperanças e as desilusões da era industrial […] “ (Cohen, 2005, p. 7) seria impensável não ser parte integrante deste percurso que temos feito ao longo da História. Le Corbusier é um mestre incontestável da arquitectura. O seu lugar é indiscutível: é um dos grandes heróis da História da Arquitectura Moderna e da ocidentalização do mundo. A sua obra é extensa e multifacetada: projectos, edifícios, urbanismo, publicações, pintura, desenho, design. Há um grande corpo de conhecimento produzido por Le Corbusier, que se ampliou ao longo de décadas como referência/citação arquitectónica e pelo trabalho de investigadores que estudam a obra, biografia e as influências noutros autores. Corbu é incontornável. (Moreira, 2008, p. 156) Ilustração 14 – Le Corbusier a trabalhar no estúdio da rua Nungesser-et-Coli, Paris, 1960 (Le Corbusier, 2005, contracapa) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 44 Os elementos da arquitectura: construção elementar Este era capaz em inúmeras matérias e conseguia aplicá-las tanto na teoria como na práctica, muito à imagem do ideal de arquitecto invocado por Vitruvio muitos séculos atrás. Podemos afirmar isso pois foram muitas as obras deixadas por este tanto no campo da pintura, escultura, arquitectura e urbanismo como nos seus textos teóricos. Isto tudo fazia dele uma personagem fora de série e um Homem muito à frente do seu tempo. Contudo, alguém com a sua personalidade acabaria sempre por dividir o público sendo que para uns era considerado um visionário para outros um utopista ou, chegando mesmo a extremos, um louco. Exemplo disso foi quando “Face aos detractores da Unité d’habitation de Marselha, torna-se depois de 1945 o «louco» ou o «bruto» do «betão brutal», […] “ (Cohen, 2005, p. 14). Ao longo dos seus 77 anos de vida, Corbu, como era carinhosamente apelidado por alguns, “ […] construiu 75 edifícios em doze países e elaborou importantes projectos de urbanismo. Deixou 8000 desenhos, mais de 400 pinturas e quadros, 44 esculturas e 27 cartões de tapeçaria. ” (Cohen, 2005, p. 7). No campo das letras “ Escreveu 34 livros, num total de 7000 páginas, e centenas de artigos, deu conferências e tinha uma correspondência privada de perto de 6500 cartas, que acrescem às inúmeras cartas comerciais.” (Cohen, 2005, p. 7). De regresso ao campo arquitectónico, algumas obras, como é o caso da Villa Savoye e a Unité d’Habitation tornaram-se grandes ícones por terem sido edifícios conceptualizados a partir de novos princípios teóricos criados por Corbusier. A Villa Savoye foi projectada a partir dos cinco pontos da nova arquitectura proposta na obra teórica Vers une architecture do arquitecto franco-suiço a respeito da arquitectura moderna. Estas 5 caracteristicas eram plantas livres da estrutura, a construção sobre pilotis, um terraço-jardim, fachadas livres e janelas em fita. Ilustração 15 – Le Corbusier e a maqueta da Villa no Museum of Modern Art, Nova Iorque, 1935 (Le Corbusier, 2005, p. 43) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 45 Os elementos da arquitectura: construção elementar No que diz respeito à Unité d’Habitation vamos encontrar, para além dos 5 novos pontos, Le Modulor como base teórica para a sua concepção. Ilustração 16 – Unité d’Habitation, Marselha (Ilustração cedida por Sebastião de Botton, 2013) Pois bem, o que é então “Le Modulor”? E de que modo é que este se encontra integrado na dissertação que aqui se apresenta? Para melhor compreendermos isso devemos então recuar novamente um pouco no tempo. Ao longo da História muitos foram os homens que tentaram criar regras universais para as mais inúmeras artes e ciências de maneira a que qualquer ser humano à face da Terra tivesse a capacidade para as entender e colocar em práctica. Como exemplo podemos verificar isso através da música. Desde os tempos mais remotos que o Homem produzia sons como instrumento de comunicação. Estes sons foram evoluindo até ao momento em que se tornaram “sinais” e eram produzidos em momentos festivos, rituais ou até mesmo em alturas de guerra. Contudo existia um problema. Os sons podiam ser produzidos mas nunca reproduzidos de modo exactamente igual pois “O som é um fenómeno contínuo com uma transição ininterrupta do grave ao agudo.” (Le Corbusier, 2010, p. 31). Foi necessário esperar até ao século VI a.C. altura em que “ […] alguém se preocupou em tornar uma destas músicas permanentemente transmissível, de um modo que não fosse oral, ou seja em escrevê-la” (Le Corbusier, 2010, p. 32), João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 46 Os elementos da arquitectura: construção elementar Pitágoras19 foi o homem que conseguiu arranjar uma forma de escrever a primeira música e passa-la a outros baseando-se em dois pontos de apoio: a audibilidade humana e a matemática. Como é óbvio, o homem procurou sempre evoluir e melhorar o seu conhecimento. Neste sentido, Johann Sebastian Bach20 “ […] criou uma nova notação musical: «a gama temperada», uma nova e aperfeiçoada ferramente, que oferece à composição musical, de aí em diante, um forte impulso.” (Le Corbusier, 2010, p. 32-33). Esta nova ferramenta “ […] tem sido usada desde há três séculos, e provou que é capaz de expressar a maior subtileza do espírito: o pensamento musical – o de Johann Sebastian, de Mozart e Beethoven, de Debussy ou Stravinsky, de Satie ou Ravel, ou o dos compositores atonais dos nossos dias.” (Le Corbusier, 2010, p. 33). Como anteriormente pudémos constatar, e fazendo agora referência às regras arquitectónicas, as unidades de medida utilizadas na construção baseavam-se em medidas corporais do Homem. O selvagem, em todos os tempos e lugares, assim como o portador de remotas civilizações, o Egípcio, o Caldeu, o Grego, construíram e, por conseguinte, mediram. De que instrumento dispunham? De instrumentos eternos e permanentes, preciosos, uma vez que fazem parte da pessoa humana. Os seus nomes eram os seguintes: côvado, dedo, polegada, pé, palmo, passo, etc… Vamos directamente à questão: eram parte integrante do corpo humano e, por essa razão, estavam aptos para servir como medidas às cabanas, às casas e aos templos que havia que construir. (Le Corbusier, 2010, p. 35) Contudo, a 20 de Maio de 1875 o tratado internacional conhecido como Convention du Mètre foi assinado por 17 estados e deu início à utilização do metro como unidade de medida base. Isto viria a criar um “conflito” entre o sistema pé-polegada do mundo anglosaxónico e o novo sistema métrico. Um dia, porém, o pensamento laico prestou-se, por sua vez, a conquistar o mundo. […] Os especialistas da Convenção adoptaram uma medida concreta tão despersonalizada e desapaixonada que se tornou uma abstracção, uma entidade simbólica, o metro, a quadragésima milionésima parte do meridiano terreste. (Le Corbusier, 2010, p. 36) ___________________________ Pitágoras de Samos (571;570 a.C. – 497;496 a.C.) foi um filósofo e matemático grego. Sebastian Bach (31 de Março de 1685 – 28 de Julho de 1750) foi um cantor, compositor, cravista, pianista, maestro, organista, professor, violinista e violista oriundo do Sacro Império Romano-Germânico, actual Alemanha. 19 20 Johann João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 47 Os elementos da arquitectura: construção elementar Pois bem, este “conflito” faria com que Corbusier se interrogasse a respeito de tudo aquilo que foi edificado anteriormente. Será que por não existir uma regra comum a todos os projectos arquitectónicos estes perderiam parte do seu valor? Isto traz-me de volta ao tema do presente trabalho: será que se sabe que, no que diz respeito ao âmbito visual - as medidas -, as nossas civilizações ainda não chegaram ao patamar atingido pela música? Até agora, nado do que foi feito, construído, distribuído em comprimento, larguras ou volumes, beneficiou de uma medida equivalente àquela de que a música dispõe – uma ferramenta de trabalho ao serviço do pensamento musical. Terá então havido, em consequência dessa carência, uma perda para o espírito humano? (Le Corbusier, 2010, p. 33) Após reflectir, este considerou que isso não era verdade e que o objectivo de unificar as duas unidades de medida serviria sim para facilitar a comunicação entre culturas. Deste modo qualquer um poderia “ler” a arquitectura, estivesse esta desenhada através do sistema pé-polgada ou através do sistema métrico. Não me parece, uma vez que o Pártenon, os templos da Índia, as catedrais, assim como todas as preciosidades das recentes conquistas humanas - os mecanismos extraordinários nascidos durante o último século -, puderam assinalar a marcha do tempo. (Le Corbusier, 2010, p. 33) Foi então com isto em mente que o arquitecto franco-suiço procurou criar um canône capaz de unificar dois sistemas métricos tão distintos. Com esta nova “ […] gama de medidas visuais […] ” (Le Corbusier, 2010, pág. 34) seria possível unificar de uma forma harmonioza os dois sistemas que por si só eram inconciliáveis. O nome desta nova regra: Le Moduler. Ilustração 17 – O Modulor (Le Corbusier, 2010) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 48 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.3.2. A REGRA A Segunda Guerra Mundial viria a dividir a França em duas zonas, sendo que a Alemanha controlava a costa atlântica, a parte norte e ocidental do país, e o restante era administrado pelo Governo francês. Este acontecimento fez com que o atelier na Rua Sèvres se encontra-se fechado e durante esse período Corbusier não tivesse propostas para a Reconstrução21. Como tal, este enveredou por um caminho de estudo e pesquisa de onde viria a “nascer” O Modulor dentro da subsecção da normalização e construção. Eis a ocupação de Paris, e a França dividida em dois por uma fronteira. O meu atelier encontra-se encerrado desde 11 de Julho de 1940. Durante quatro anos, não me será confiado qualquer trabalho para a Reconstrução, o que me leva a uma actividade intensa de pesquisa doutrinal e, em particular, por encargo de uma associação fundada para esse efeito em 1942, a ASCORAL – cujas 11 secções e subsecções se reúnem, cada uma, duas vezes por mês, num lugar isolado, longe dos curiosos. Foi preparado o conteúdo de uma dezena de livros. A secção III, «Uma Ciência de Habitação», contemplava três subsecções: equipamento da habitação; normalização e construção; industrialização. (Le Corbusier, 2010, p. 53-54) Ilustração 18 – Zona livre/Zona ocupada em França durante II Guerra Mundial (Gaba, 2008) ___________________________ 21 Le Corbusier refere-se ao período histórico da reconstrução de França, em que se procurou reedificar o que havia sido destruído durante a Segunda Guerra Mundial. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 49 Os elementos da arquitectura: construção elementar Devido à guerra muitas foram as pessoas que se viram forçadas a sair das suas cidades e procurar abrigo noutras zonas. Este foi o caso do jovem Gérald Hanning22 que já trabalhava para o arquitecto franco-suiço há cerca de 5 anos. Visto que não existiam muitas possibilidades dentro do meio artístico durante o período em que o país se encontrava dividido este pediu a Corbusier que o incubi-se de algumas tarefas de modo a poder sentir-se ocupado. Foi então que o arquitecto, tendo conhecimento das capacidades do jovem, lhe encomendou o trabalho de criar uma norma para os objectos da construção dos edifícios, paralela áquela que a AFNOR23 estava a realizar. Contudo, esta diferenciava-se da segunda pois não se baseava exclusivamente da aritmética pura “ […] e um simples meio-termo entre as práticas e as ferramentas usadas por arquitectos, engenheiros e industriais.” (Le Corbusier, 2010, p. 54). Se a normalização prosposta pela AFNOR era arbitrária e pobre, seria então necessário conjugar a matemática com algumas características da natureza de maneira a obter algo funcional e ao mesmo tempo harmoniozo. As árvores, por exemplo, com o seu tronco, ramos, folhas e nervuras, demonstraram-me que as leis de crescimento e combinação podem e devem ser mais ricas e subtis. Deve existir uma relação matemática nestas coisas. O meu sonho é o de instalar, nas obras que mais tarde cobrirão o país, uma «grelha de proporções» - traçada sobre uma parede ou nela apoiada, feita de folhas de ferro soldadas -, que será a régua do estaleiro, a bitola que fornecerá uma série ilimitada de combinações e proporções. O pedreiro, o carpinteiro, o marceneiro, nela virão continuamente escolher as medidas para as suas obras, as quais, diversas e diferenciadas, serão testemunhos de harmonia. Este é o meu sonho. (Le Corbusier, 2010, p. 54-55) O arquitecto compreendeu que o corpo humano, o qual se encontra repleto de cânones como anteriormente visualizámos na obra de Vitruvio, aliádo a princípios matemáticos seria o ponto de partida para a normalização das obras arquitectónicas. Foi então com isto em mente que este transmitiu a informação necessária a Hanning. Considere o homem-com-o-braço-erguido, com 2,20 m de altura; insira-o em dois quadrados sobrepostos, de 1,10 m por 1,10 m; justaponha um terceiro quadrado aos dois primeiros. Este terceiro quadrado deverá dar-lhe a solução. O lugar do ângulo recto deve poder ajudá-lo a posicionar o terceiro quadrado. Com essa grelha de obra, pautada pelo ser humano instalado no seu interior, estou convencido de que chegará a uma série de medidas que conciliarão a estatura humana (o braço erguido) e a matemática… (Le Corbusier, 2010, p. 55) ___________________________ Hanning (1919 – 1980) formou-se em arquitectura e exerceceu a sua profissão em grande parte como urbanista. 23 A AFNOR é o acrónimo de Association française de normalisation (em português, Associação Francesa de Normalização). Trata-se de um organismo oficial francês, criado em 1926, que trata da normalização. 22 Gérald João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 50 Os elementos da arquitectura: construção elementar “ A 25 de agosto de 1943, chegava uma primeira proposta.” (Le Corbusier, 2010, p. 54) por parte de Hanning. Contudo,este não era o único a trabalhar no projecto de normalização. Na ASCORAL24, mais especificamente pela mão de Elisa Maillard25, também se procurava solucionar esse problema. “ A 26 de Dezembro de 1943, […] ” (Le Corbusier, 2010, p. 54) o novo esquema apresentado por esta rectificava algumas incoerências do anterior, sendo que nem mesmo este se encontrava ainda numa fase definitiva. Ilustração 19 – Desenho nosso a partir do esquema rectificativo proposto por Elisa Maillard (Le Corbusier, 2010, p. 55) ___________________________ 24 ASCORAL é o acrónimo de Assemblée de Constructeurs pour une Rénovation Architecturale (em português, Assembleia de Construtores para uma Renovação Arquitectónica). Esta associação nasce em Paris, em 1943, sob a iniciativa de Le Corbusier, em clandestinidade; trata-se de uma associação que tem como objectivo fomentar e orientar uma «Revolução Arquitectónica», constituindo de início um grupo de pressão, mas, posteriormente, também uma força de trabalho e de desenho, com um enorme poder doutrinário. 25 Elisa Maillard foi uma matemática que trabalhou na ASCORAL. Esta com os seus desenhos geométricos e e a sua pesquisa ajudaram no processo de criação do Modulor. Ligada ao Museu de Cluny e autora de um excelente trabalho sobre os traçados reguladores: Du nombre d’or, edição André Tournon et cie. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 51 Os elementos da arquitectura: construção elementar “Ao longo da linha g-i aparecem medidas significativas, cujas relações são infinitamente ricas, mas que não nos parecem ainda reflectir um sistema”. (Le Corbusier, 2010, p. 56). Ilustração 20 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 56) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 52 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 21 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 57) A partir deste momento foi possível resolver a incógnita inicial: “ […] inserir, em dois quadrados contíguos contendo um homem-com-o-braço-erguido, um terceiro quadrado no «lugar do ângulo recto» ” (Le Corbusier, 2010, p. 58) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 53 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 22 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 58) Apesar das pesquisas desenvolvidas por Hanning e Maillard começarem a dar frutos e ambos terem uma imagem do traçado bastante semelhante, o facto de partirem de pressupostos diferentes26 traria algumas dúvidas que só mais tarde seriam solucionadas. Na realidade, a “ […] GRELHA nasceu com algumas incertezas quanto aos pontos i e j.” (Le Corbusier, 2010, p. 59) mas ainda assim proporcionava segurança na “ […] determinação das dimensões dos objectos do projecto.” (Le Corbusier, 2010, p. 59). O que criámos, então, foi um elemento de superfície, uma grelha na qual a ordem matemática é relacionada harmonicamente com a estatura humana. Empregámo-la, mas continuámos insatisfeitos: falta-nos a definição do nosso descobrimento! (Le Corbusier, 2010, p. 59) Durante vários anos, Corbusier e os seus colaboradores “ […] – nomeadamente Gérald Hanning, Elisa Maillard, André Wogenscky, Jerzy Soltan, Marcel Py, André Maissonier e Justino Serralta.” (Le Corbusier, 2010, p. 10) procuraram aperfeiçoar as ideias originais. Este processo foi mais moroso do que aquilo que se pretendia devido às vicissitudes que se viviam no país durante esse período, as quais não permitiam um livre acesso de pessoas e de informação. ___________________________ 26 “O traçado de Hanning com base em duas diagonais do quadrado inicial. O traçado de Maillard com base na razão de Ø (que surge da primeira diagonal e conduz à implantação do ângulo recto gerador do ponto i).” (Sequeira, 2010, p.58). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 54 Os elementos da arquitectura: construção elementar O leitor deverá ter em mente as circustâncias nas quais decorreu esta investigação: a ocupação alemã de Paris, e a dispersão das pessoas ou a dificuldade em reuni-las. […] Nas reuniões diárias das várias comissões da ASCORAL, trabalhávamos à luz da vela, sem telefone nem aquecimento, por entre a poeira do atelier abandonado do nº35 da Rua de Sèvres. (Le Corbusier, 2010, p. 60) Enquanto decorria este processo, o arquitecto franco-suiço conseguia ao mesmo tempo obter informações sobre o trabalho que a AFNOR se encontrava a realizar pois um dos membros desta era também o “ […] director da secção III b da ASCORAL, […] ” (Le Corbusier, 2010, p. 61). Este, numa carta escrita a 16 de Outubro de 1943, passa a informação de que existia “ […] uma diferença fundamental entre o ponto de vista da ASCORAL […] ” (Le Corbusier, 2010, p. 61) e o da AFNOR pois “ […] enquanto uma pretende o-melhor-do-que-pode-ser; a outra pretende a-média-do-que-existe.” (Le Corbusier, 2010, p. 61). Era então possível verificar outra vez que apesar de ambas terem o mesmo objectivo cada uma procurava a partir de pressupostos diferentes. Posteriormente, a 30 de Março de 1945 o Departamento de Relações Culturais do Ministério dos Negócios estrangeiros pede a Corbusier “ […] para organizar e presidir uma missão de estudos arquitectónicos nos Estados Unidos, lugar aonde estava desejoso de levar a Grelha de Proporções, eventual instrumento de medida para a prefabricação.” (Le Corbusier, 2010, p. 61-62). Foi então neste momento que a Grelha passou a ter um valor humano e por conseguinte uma harmonia.27 Nessa altura, demos um valor humano à combinação geométrica descoberta, adoptando, para esse propósito, a altura de um homem de 1,75 m. Doravante, a Grelha está dimensionada: 175 – 216,4 – 108,2, conjunto de medidas do qual podemos identificar a série crescente Ø: 1,2,3,4,5,6, etc…onde: vê-se que se trata de uma série conhecida como «série de Fibonacci», na qual a adição de dois termos consecutivos proporciona o termo seguinte. (Le Corbusier, 2010, p. 62). ___________________________ de salientar que ao longo deste percurso se verificou que “ […] os quadrados inicias não são quadrados; um dos seus lados é seis milésimos maior que o outro…” (Le Corbusier, 2010, p. 263) tal como R. Taton identificou. Contudo, este facto não retira importância ou utilidade à Regra pois “ Na prática quotidiana, seis milésimos de um valor constituem o que se intitula uma quantidade negligenciável, que não se tem normalmente em conta; não é perceptível a olho nu” (Le Corbusier, 2010, p. 263) 27 É João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 55 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 23 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 62) A partir dessa altura a patente foi registada e a Regra de proporções, como mais tarde seria chamada graças a uma atenção feita por Soltan, começa a sua viagem transatlântica. Durante esta, a Regra vai sofrendo as transformações necessárias de modo a tornar-se aquilo a que hoje conhecemos como Modulor. Corbusier introduz números relacionadas com a estatura humana aos quadrados inicias tornando-os “ […] os pontos decisivos de limitação do espaço. São, portanto, antropocêntricos.” (Le Corbusier, 2010, p. 69). Podemos então afirmar que essa regra introduz o corpo humano nos seus pontos essenciais de ocupação do espaço e tem em conta a mais simples e essencial evolução matemática de um valor, a saber: a unidade, a sua duplicação e as duas secções de ouro, somadas ou subtraídas. […] Em primeiro lugar, classifiquei de série vermelha a série de Fibonacci resultante da razão Ø estabelecida sobre a unidade 108. Classifiquei de série azul, a que foi estabelecida sobre a sua duplicação, 216.Desenhei o homem de 1,75 m de altura, relacionado com quatro números: 0, 108, 175, 216. Em seguida coloquei a faixa vermelha à esquerda e a azul à direita, as séries de Ø tendendo para zero em baixo, e para o infinito em cima. (Le Corbusier, 2010, p. 70). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 56 Os elementos da arquitectura: construção elementar Os números anteriormente referidos representavam as dimensões fundamentais com que a regra começou a ser desenhada: a altura do plexo solar26, o topo da cabeça e a ponta dos dedos com o braço levantado. Contudo, estes ainda apresentavam dois problemas. O primeiro dizia respeito ao facto de os valores métricos terem a necessidade de ser arrendondados “ […] de modo a aproximá-los de alguns valores de uso corrente.” (Le Corbusier, 2010, p. 75). O segundo porque estes não eram números inteiros quando se fazia a transformação para o sistema pé-polegada. Foi então um dos colaboradores a trabalhar neste projecto que viria a solucionar ambos os problemas. Um dia, quando estávamos reunidos, absortos na procura de uma solução, um entre nós, Py, disse: «Os valores do Modulor, na sua forma actual, são determinados pela estatura de um homem de 1,75 m. Mas este valor diz respeito, sobretudo, a um tamanho francês. Não notou, nos policiais ingleses, que «os bons», como os polícias, por exemplo, têm sempre SEIS PÉS de altura?» Experimentámos aplicar essa bitola:seis pés = 6 x 30,48 = 182,88 centímetros. Para nossa alegria, diante dos nossos olhos, as graduações de um novo Modulor, baseado num homem de seis pés de altura, traduziram-se para «pés-polegadas» - e em todas as escalas – em números perfeitamente redondos! (Le Corbusier, 2010, p. 76). Ilustração 24 – Tabela de equivalências entre o sistema métrico e o sistema pé-polegada (Le Corbusier, 2010, p. 77) ___________________________ 28 O plexo solar, também conhecido como plexo celíaco, é uma complexa rede de neurônios que se encontra localizada atrás do estômago e embaixo do diafragma perto do tronco celíaco na cavidade abdominal a nível da primeira vértebra lombar (L1). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 57 Os elementos da arquitectura: construção elementar A partir deste momento, os problemas que ainda não permitiam ao Modulor ser o instrumento unificador das unidades de medida dissolveram-se. Esta prova superada trouxe-nos um benefício singular: sentimos que o Modulor resolveu automaticamente o diferendo mais perturbador, que separava os utilizadores do metro dos pé-polegada. Este diferendo é tão grave nos seus efeitos práticos, que estabelece uma barreira entre os técnicos e produtores que usam o sistema dos pés-polegadas e os que fazem caso do metro. A conversão dos cálculos de um sistema para o outro é uma operação assustadora e dispendiosa, tão delicada que torna estranhos os adeptos dos dois campos, de uma maneira ainda mais dura que a provocada pelas diferenças das línguas. (Le Corbusier, 2010, p. 77-78). Na realidade, este foi o ponto que deu origem à maioria dos desenhos sobre O Modulor que conhecemos hoje em dia. Nestes estão explícitas as regras matemáticas que possibilitaram a sua criação (secção de ouro e série de Fibonacci) e a sua aplicação na arquitectura. 1.º A Grelha dá três medidas 113, 70, 43 (em centímetros), que estão na razão Ø (secção de ouro); a série de Fibonacci dá: 43 + 70 = 113 ou 113 – 70 = 43. Adicionadas dão: 113 + 70 = 183, 113 + 70 + 43 = 226. 2.º Estas três medidas (113 – 183 – 226) são as que caracterizam a ocupação do espaço por um homem de seis pés. (Le Corbusier, 2010, p. 86). Ilustração 25 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 86) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 58 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 26 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 86) 3.º A medida 113 dá a secção de ouro 70, dando início a uma primeira série, denominada série vermelha 4 – 6 – 10 – 16 – 27 – 43 – 70 – 113 – 183 – 296, etc… A medida 226 (2 x 113) [o dobro] dá a secção de ouro 140 – 86, dando início à segunda série, denominada série azul 13 – 20,3 – 33 – 53 – 86 – 140 – 226 – 366 – 592… 4.º Alguns desses valores, ou medidas, podem ser consideradas particularmente relacionadas com a estatura humana. (Le Corbusier, 2010, p. 87) Ilustração 27 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 88) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 59 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 28 – Desenho nosso a partir de esquemas matemáticos de O Modulor (Le Corbusier, 2010, p. 88) Torna-se fascinante a partir de agora podermos observar na prática os estudos desenvolvidos por Matila Ghyka27, em 1927, sobre a “ […] TRÍADE – plexo solar, cabeça, ponta dos dedos (do braço erguido) – e da DUALIDADE – plexo solar e ponta dos dedos -, realidade dupla sem limite para a tríade na série vermelha, para a dualidade na série azul do Modulor.” (Le Corbusier, 2010, p. 87). Os últimos desenhos que aqui apresentamos são o resultado simplificado e prático de todo um processo muito mais complexo, como verificámos anteriormente. Estes são utilzados por inúmeras pessoas no campo da arquitectura e desenho de mobiliário como guias sem nunca ter uma função impositiva. O próprio Corbusier refere que O Modulor serve para facilitar o trabalho mas não deve ser encarado como a solução para todos os problemas e sempre que este não se adeque a alguma situação deve ser o autor a ter a capacidade crítica de não o seguir à risca. Aplicando a altercação ao objecto da presente investigação, escrevi espontaneamente: o Modulor não deve ser um deus inaudito, mas um simples instrumento para nos ajudar, para nos auxiliar a ultrapassar os terrenos pantanosos que nos dificultam a caminhada. O verdadeiro objectivo dos técnicos do design é o de compor, criar, inventar, encontrar, mostrar «o que vai nas entranhas», atingir a proporção,a poesia … O Modulor, instrumento de trabalho, prepara a pista, mas são vocês que correm, e não ele! A questão está precisamente aí. São vocês que correm! Há quem queira comprar na drogaria ou no vendedor de banha da cobra bruxarias que lhe dão talento ou génio! Pobres-diabos! Nada existe para além do que temos dentro de nós, e o Modulor «arruma a casa», mas nada mais. O que já é muito. (Le Corbusier, 2010, p. 207) ___________________________ Matila Ghyka (13 de Setembro de 1881 – 14 de Julho de 1965) foi um escritor, matemático, historiador, filósofo e diplomata romeno. O seu livro Esthétique des proportions dans la nature et dans les arts,onde este apresenta a existencia das proporções estéticas na natureza e nas artes, foi editado em várias línguas e ainda hoje influência inúmeras pessoas que estudam as regras matemáticas aplicadas no “desenho” do ser humano. 29 João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 60 Os elementos da arquitectura: construção elementar 2.3.3. LE CABANON Como podémos verificar no sub-capítulo anterior, a cabana primitiva foi evoluindo ao longo do tempo. Esta foi sendo “esculpida” e aperfeiçoada por grandes mestres deixando de ser apenas um edifício abrigo para se tornar num dos temas mais estudados e desejado pelos arquitectos. A respeito disso, Le Corbusier chega a considerar mesmo a cabana primitiva como qualificadora do “ […] homem como criador de geometria, como escrevia em 1928 em “Une Maison, un palais […] ” (Cohen, 2005, p. 63). Não é um pedaço de madeira, na sua forma e na sua força, não uma atadura, sem função precisa. O homem é um ecónomo. Não será um dia esta cabana o Panteão de Roma dedicado aos deuses? (Cohen, 2005, p. 63) Foi com isto em mente que o arquitecto viria em 1951/1952 a construir o seu próprio abrigo a que carinhosamente apelidou de “Le Cabanon”. Este pequeno projecto é hoje em dia, a par da Villa Savoye, um dos mais visitados. “La “cabaña” del Cap Martin es, junto con la Villa Savoye, el lugar más visitado de los construídos por Le Corbusier.” (Vedrenne, 2002, p. 18) e foi onde este desapareceu no mar em 27 de Agosto 1965 “[…] de cara al sol, […] en este lugar simple y perfecto.” (Vedrenne, 2002, p. 19). Ilustração 29 – Corbusier no interior do Cabanon (Le Corbusier, 2008, p. 657) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 61 Os elementos da arquitectura: construção elementar A obra foi edificada num sítio bastante familiar para o arquitecto: Roquebrune-CapMartin, na côte d’Azur. Este já tinha sido presença assídua na famosa casa E 1027 de Eileen Gray28 e Jean Badovici29 e passou algum tempo a reflectir sobre a melhor maneira de executar a sua cabana no terreno adjacente a esta. Le Corbusier esta familiarizado com Roquebrune-Cap-Martin, na côte d’Azur, onde tinha estado na casa E 1027, construída para Eileen Gray e Jean Badovici em 1927, onde mais tarde pintou alguns frescos controversos. Estudou no local, em 1948-1950, o projecto Roq, e passou algum tempo durante o Verão de 1949 no restaurante L’Étoile de mer, de Thomas Rebutato, para estudar o plano de Bogotá. Tendo-se tornado um frequentador do restaurante, executa as suas reflexões por meio da construção de uma cabana com troncos de madeira não preparados, a que foi apenas retirada a casca. (Cohen, 2005, p. 63) Ilustração 30 – Planta implantação (Barba, 2013) ___________________________ Eileen Moray Gray (9 Agosto 1878 – 31 Outubro 1976) foi uma designer de móveis, arquitecta e uma pioneira na arquitectura do movimento moderno. 31 Jean Badovici (6 Janeiro 1893 – 17 Agosto 1956) foi um arquitecto e crítico de arquitectura romeno a trabalhar em Paris. 30 Kathleen João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 62 Os elementos da arquitectura: construção elementar O arquitecto franco-suiço desenha um espaço no qual “As dimensões, que utilizam a gama do «Modulor», são minimizados, e ocupam no solo um quadrado de 3,66 metros de lado, sendo a altura, da base ao topo da cobertura inclinada, 2,66 metros” (Cohen, 2005, p. 63). Le Corbusier took all of forty-five minutes to sketch the plans for the rustic cabin he would build for himself, adjacente to L’Etoile de Mer.The Modulor provided all the proportions for the one-room, wood-framed petit cabanon, wich was a spartan, highly functional space in wich Le Corbusier and Yvonne could spend their vacations in absolute simplicity. Le Corbusier had the cabin’s structural elements prefabricated, and Thomas Rebutato installed the plumbing. Le Corbusier sketched the plans on 31 December 1951, and the Cabanon was ready for their August 1952 vacation, at a minimal cost. (Le Corbusier, 2008, p. 650)32 Ilustração 31 – Desenhos técnicos (Le Corbusier, 2008, p. 654) ___________________________ 32 Le Corbusier levou 45 minutos a esboçar os planos para a cabana que iria construir para si mesmo, adjacente ao L'Etoile de Mer. O Modulor forneceu todas as proporções para o quarto, com estrutura em madeira do petit cabanon, que era um espaço espartano, altamente funcional no qual Le Corbusier e Yvonne poderiam passar as suas férias na simplicidade absoluta. Le Corbusier tinha os elementos estruturais pré-fabricados e Thomas Rebutato instalou a canalização. Le Corbusier esboçou os planos em 31 de dezembro 1951, e o Cabanon estava pronto para as suas férias de agosto de 1952, a um custo mínimo. (Tradução nossa) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 63 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 32 – Petit Cabanon (Martin-Gambier, 2006) No que diz respeito ao interior, o arquitecto recorre novamente ao seu sistema de normalização para distribuir as áreas programáticas assim como a circulação dentro da cabana, sendo que estas áreas foram definidas de acordo com as medidas do Modulor. Ilustração 33 – Áreas programáticas e sistema de circulação (McMillan, 2012) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 64 Os elementos da arquitectura: construção elementar Para além do Cabanon Corbusier desenha ainda um pequeno atelier a poucos metros de distância onde este podia trabalhar tranquilamente durante o seu período de férias. ”For my personal use i have a château on the Côte d’Azur that measures 3,66x3,66 meters. It was for my wife, it was splendid, inside it was extravagantly confortable and nice. For my personal use, 13 meters away from this same château, next to a flowerbed, I have my own house, it measures 1,90x4 meters, it’s made of old planks put together, and it suits me just fine.” Interview with Georges Charensol, L’art modern, Radio France, 1962 (Le Corbusier, 2008, p. 652) Ilustração 34 – Pequeno atelier em Roquebrune (Barba, 2013) Por muitos considerado um projecto secundário na grande lista de obras realizadas pelo arquitecto, não deixa de ser um dos melhores exemplos da aplicação da ferramenta de normalização e que foi tão utilizada em edifícios de maior dimensão. Ilustração 35 – Esquema combinando o Cabanon e o Modulor (Ilustração nossa, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 65 Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 66 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3. CASOS DE ESTUDO Os casos de estudo presentes nesta dissertação procuram demonstrar a utilização das bases arquitectónicas vistas anteriormente na construção elementar. Devemos ter em atenção que os projectos que se seguem apresentam 3 usos distintos: habitações turísticas, estruturas de apoio à agricultura e um centro comunitário. Deste modo é possível verificar que seja qual for a função deve sempre existir uma consciência a priori dos elementos essenciais a uma boa prática arquitectónica. As obras estudadas também remetem para a ideia modular o que confere às partes um maior sentido de unidade. O primeiro caso de estudo são os projectos Casas na Areia e Cabanas no Rio que se enquadram no tema da recuperação de pré-existências tradicionais para a sua utilização no campo do turismo. Posteriormente, encontramos os Apoios Agrícolas das Salinas do Samouco que, como o próprio nome indica, são estruturas de apoio às práticas agriculas. Por último, no projecto Cozinha Comunitária das Terras da Costa é apresentado todo o processo levado a cabo desde a primeira ideia até o culminar da obra. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 67 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.1. CASAS NA AREIA/CABANAS NO RIO A primeira obra referida nesta dissertação, da autoria do atelier Aires Mateus, são as Casas na Areia. O arquitecto Manuel Aires Mateus, ao apresentar este projecto no II Congresso Internacional de Arquitectura y Sociedad, na conferência “Arquitectura: Lo común”, começa por dizer que aquilo que teve como ideia inicial ser uma casa de férias para um amigo, rapidamente se tornou num negócio turístico. Situado numa extensa área de areia na Comporta o projecto nasce num espaço onde já existiam edifícios tradicionais. Ilustração 36 – Planta de Implantação (El Croquis 154, 2011, p. 227) O primeiro objectivo foi aproveitar ao máximo as construções pré-existentes. A casa de madeira que se encontrava destruída foi substituída por uma nova, com a mesma área e o mesmo tipo de modelo, sendo apenas reposicionada no terreno. Quanto à outra, que fora construída de igual forma, apenas necessitou de ser recuperada. Numa segunda reflexão constatou-se que as duas casas de alvenaria, por terem sido utilizadas por pessoas que trabalhavam o campo, encontravam-se viradas a nascente onde se situa também a estrada. Visto que neste momento o seu uso mudou, os vãos foram virados para o interior do espaço turístico, como se pode ver na imagem seguinte. É João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 68 Os elementos da arquitectura: construção elementar também de salientar que são as coberturas em colmo que fazem uma ligação mais acentuada entre os edifícios de alvenaria e os de madeira. Ilustração 37 – Casas na Areia (Mateus Arquitectos, 2012, p. 79) No que diz respeito à imagem interior das casas existem duas versões distintas. Os edifícios de alvenaria e o novo de madeira, onde se encontram os quartos com casa de banho, apresentam um acabamento branco nas paredes e tectos, através da utilização de placas de gesso cartonado hidrófugo pintado de branco. Por outro lado, no espaço comum, onde se localiza a sala e a cozinha, mantém-se nas paredes e tectos a estrutura de madeira à vista. O projecto responde a condições muito particulares. Recupera construções préexistentes em madeira e alvenaria, unificando o conjunto com a cobertura em colmo. Desenha-se a partir das materialidades existentes em função de possibilidades de habitar. O programa propõe a recuperação de cada um dos volumes em alvenaria para quartos individuais, um dos volumes em madeira para dois quartos e outro para as áreas de convívio. (Mateus Arquitectos, 2012, p. 78). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 69 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 38 – Planta e corte longitudinal (Mateus Arquitectos, 2012) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 70 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 39 – Uma das casas de alvenaria com um quarto (Garrido, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 71 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 40 – Casa de madeira com dois quartos (Garrido, 2014) Ilustração 41 – Interior dos quartos (Garrido, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 72 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 42 – Vista para o interior do espaço comum (Garrido, 2014) Posteriormente, um dos elementos de maior interesse poético do projecto é o facto do pavimento dos espaços comuns ser de areia. O arquitecto Manuel Aires Mateus, na conferência anteriormente referida, fez menção que existiu a possibilidade da exposição do artista plástico brasileiro Cildo Meireles, que recentemente tinha visto no Tate Modern, ter “contaminado” esta ideia. A instalação artística Volatile, onde este apresenta uma sala fechada com uma luz ao fundo e pavimento de areia, remete-nos para um caminhar mais lento completamente diferente daquele a que estamos habituados. Neste projecto o arquitecto procura, através do prolongamento da areia do exterior para o interior, a ideia da continuidade das férias, ou como o próprio diz, o acelerar deste processo. A distribuição é feita pela rua, através do areal que liga todas as construções. Esta matéria, tratada, estende-se para o interior das áreas sociais procurando um conforto natural da condição já existente. A continuidade de um material tão forte como a areia do chão torna os espaços interiores numa outra escala e o habitar ganha uma poética própria de um tipo de uso pretendido. (Mateus Arquitectos, 2012, p. 78). João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 73 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 43 – Volatile (Meireles, 2013) Ilustração 44 – Interior do espaço comum (Garrido, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 74 Os elementos da arquitectura: construção elementar Posteriormente, no que respeita à seguinte obra devemos salientar que, apesar de ser um projecto de pequena escala, as Cabanas no Rio remetem-nos de imediato para um grande tema da arquitectura: a resistência. O arquitecto Manuel Aires Mateus ao apresentar esta obra no Ciclo de Conferências “La construcción de la Arquitectura”, no Colégio de arquitectos de Málaga, demonstra a importância que este tema tem não só para este projecto mas como para a arquitectura em geral. Para o arquitecto, a arquitectura tem de resistir e ser a arte da permanência em vez de ser a arte do efémero ou da moda. Contudo, também refere que aquilo que construímos nos dias de hoje já não possui a durabilidade das construções milenares, como são exemplo as pirâmides e as catedrais. Como tal, a permanência não deve continuar ligada à ideia física mas sim à própria ideia. Por outras palavras, a ideia que não é física tem a possibilidade de resistir muito mais do que o objecto em que esta se transformou. Dito isto, o lugar escolhido na Comporta para a implementação deste projecto apresenta características naturais de grande interesse turístico, quer pela sua proximidade ao rio quer pela sua localização isolada da movimentada vida urbana. Outro motivo preponderante, para que esta seja uma obra única, é o facto de ter sido pensada para um espaço num antigo porto palafita de madeira medieval. Aqui, encontramos então a resistência da identidade do lugar, superior a qualquer matéria física que a construiu. Por todos estes pontos, era evidente que esta seria uma área protegida onde não era possível construir nada. Deste modo, os arquitectos e o cliente encontraram a solução ideal ao comprarem duas pequenas cabanas, onde os pescadores guardavam os materiais de pesca, colocando no seu lugar, os dois novos módulos construídos em armazém e posteriormente transportados para lá. Estas cabanas em conjunto formam a unidade habitacional pretendida. Ilustração 45 – Construção das Cabanas no Rio (Garrido, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 75 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 46 – Transporte e colocação das Cabanas no Rio (Garrido, 2014) Ilustração 47 – Planta de Implantação (Mateus Arquitectos, 2013) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 76 Os elementos da arquitectura: construção elementar Os módulos encontram-se ligados entre si por um deck exterior de madeira que termina no início do pontão existente, dando lugar a uma continuidade entre todos os elementos do projecto. Uma das cabanas é um quarto com casa de banho e duche e a outra um espaço de estar com cozinha, sendo a forma de cada uma condicionada pelo seu uso. No módulo do quarto, com a necessidade de colocar a casa de banho, a fachada virada para o deck é mais larga do que a fachada onde encosta a cama. Por outro lado, na zona de estar acontece o oposto. A fachada menos larga é a que olha o deck, pois o espaço onde se situa toda a cozinha encontra-se ao fundo do módulo. Ilustração 48 – Vista do pontão para as cabanas (Garrido, 2014) A cabana do quarto é bastante versátil, permitindo que a zona de duche possa ser utilizada no interior ou, se aberta, no exterior. Sobre a cama, com o linho que desce do tecto, desenha-se uma segunda cabana transmitindo um sentimento de protecção aos utilizadores e o contraste entre o tecido e a madeira proporcionam uma nova atmosfera ao espaço. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 77 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 49 – Quarto com zona de duche (Garrido, 2014) Ilustração 50 – Quarto (Garrido, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 78 Os elementos da arquitectura: construção elementar Por último, é de referir que nada ficou ao acaso, pois aos desenhos dos telhados também foi conferida bastante importância. No módulo da cozinha, a cobertura abre-se para o rio e para a paisagem, enquanto que no quarto se fecha para esse mesmo lado, na procura de dar aos utilizadores maior privacidade. Ilustração 51 – Cabanas no Rio (Garrido, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 79 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.1.1. SÍNTESE Os projectos mencionados da autoria do atelier Aires Mateus remetem-nos para a ideia das cabanas primitivas. Contudo de primitivas estas obras não têm nada. São sim cabanas contemporâneas para um lote exclusivo da sociedade onde estes podem disfrutar de um “retorno” às origens primárias mas onde não faltam as comodidades da época presente. Estes projectos são também excelentes exemplos de construções elementares pois podemos ver inúmeras regras arquitectónicas na sua constituição. Em primeiro lugar podemos ver a disposição em que as Casas na Areia são pensadas para que de todos os campos visuais se tenha uma imagem agradável do conjunto com a envolvente. Ilustração 52 – Esquema nosso onde se encontra identificado o novo corpo e o campo visual oferecido a partir das casas (Mateus Arquitectos, 2012) Posteriormente verificámos que existiu a preocupação em proporcionar adequadamente as diferentes partes entre si bem como estas com o conjunto. De igual forma podemos constatar que existem linhas que criam simetrias e que dividem ao meio cada uma das casas de madeira. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 80 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 53 – Esquema nosso sobre proporções e simetrias (Mateus Arquitectos, 2012) Ilustração 54 – Esquema nosso sobre proporções e simetrias (Mateus Arquitectos, 2012) Do mesmo modo, as Cabanas no Rio apresentam-se como construções modulares simétricas no qual uma das cabanas sofreu uma rotação de 180º em relação à outra para poder servir o uso a que foi destinada. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 81 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 55 – Esquema nosso sobre simetrias e rotações (Mateus Arquitectos, 2012) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 82 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.2. APOIOS AGRÍCOLAS DAS SALINAS DO SAMOUCO A Fundação para a Protecção de Gestão Ambiental das Salinas do Samouco nasce quando o Estado português institui a 28 de Novembro o Decreto-Lei nº. 306/2000. A fundação foi criada com o objectivo de promover a conservação e manutenção das salinas do Samouco e estudar, promover e implementar a prática de um modelo socioeconómico de desenvolvimento sustentável para o Complexo das Salinas. O programa “Hortas Sociais de Alcochete” criado pela fundação procura ser um exemplo de um modelo socioeconómico eficiente. Neste estabelece-se uma relação entre o hortelão e a fundação através de um contrato anual regido por algumas normas bastante simples. A seleção dos candidatos baseia-se preferencialmente pela residência no concelho de Alcochete, o benefício de apoios sociais e a pessoas reformadas ou pensionistas. Foi então com o objectivo de apoiar este programa, ou mais especificamente as parcelas de terreno onde existe a produção de agricultura biológica, que nasceu o projecto Apoios Agrícolas das Salinas do Samouco. Este foi desenvolvido através de uma colaboração entre o arquitecto Ricardo Espírito Santo, responsável pelo master-plan do sítio, e o Plano B Arquitectura durante os anos de 2004 e 2005. Uma área original de 12.000 m2 foi dividida em 18 parcelas, com cerca de 300 a 500 m2, e nestes novos espaços foram então criados os 9 pequenos armazéns cada um com 24m2. Estes foram desenhados de forma simples e clara transmitindo homogeneidade ao entorno e sem que a sua presença fosse hostil. Os apoios, partindo desde logo de uma contenção de custos, têm na sua concepção a grande utilização de materiais provenientes da natureza, bem como a utilização de mão-de-obra e meios de produção local. Quando visitamos as Hortas Sociais de Alcochete e os armazéns agrícolas de apoio, a primeira impressão que retemos é a de estarmos perante uma obra feita de formas simples. Conhecendo os pressupostos teóricos e as circunstâncias anteriores à realização deste projecto, ficamos logo seduzidos pela aparente simplicidade da obra e pelo seu potencial alcance social. O projecto das Hortas Sociais foi realizado com baixos custos, recorrendo aos materiais endógenos e à mão de obra e meios de produção locais. Nada mais simples de arquitectar – clareza formal, natural sentido de composição e expressão verdadeira dos materiais e processos construtivos. (Santa Rita, 2006, p. 102) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 83 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 56 – Apoios agrícolas das salinas do Samouco (Ilustração nossa, Novembro 2014) Os armazéns, distribuídos de forma racional pelo terreno, apresentam-se como paralelepípedos retangulares onde é possível com facilidade reconhecer o conceito tripartido deixado pelo templo grego: base, estrutura e cobertura. A cobertura que confere uma imagem característica às obras encontra-se solta da estrutura permitindo assim uma ventilação natural. De igual forma o seu desenho em V, dado pela inclinação das águas para o meio do edifício, possibilitam a recolha das águas pluviais que posteriormente podem ser utilizadas na rega dos campos de cultivo. Os 9 armazéns, equidistantes entre si, são rigorosamente iguais e têm uma forma paralelepipédica de secção retangular, com um desenvolvimento longitudinal relativamente à estrada nacional e acessos. A cobertura solta-se do corpo para efeitos de ventilação natural e está desenhada em forma de «v», de modo a colher as águas pluviais para um tanque de rega dos campos de cultivo vizinhos. Os processos de construção são aditivos, onde se lê claramente cada parte da composição arquitectónica – a base, o corpo e a cobertura. (Santa Rita, 2006, p. 102) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 84 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 57 – Esquema de localização dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Santa Rita, 2006,p. 104) Em primeiro lugar, para a construção da base, as fundações foram feitas recorrendo à utilização de 10 sapatas de betão por módulo. Sobre estas assentou-se um embasamento feito com madeira de pinho e rematou-se o mesmo com material idêntico. Ilustração 58 – Fundações dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Ilustração nossa, 2014) Após isto as paredes feitas com fardos de palha foram construídas bem como o respectivo lintel, o seu remate e os aros dos portões de madeira de pinho que unem toda a estrutura. As paredes foram reforçadas com rede de galinheiro sendo que a imagem final destas deveu-se à aplicação de cal aérea e areia. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 85 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 59 – Estrutura das paredes dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Ilustração nossa, 2014) Posteriormente, sobre o corpo do edifício construiu-se uma estrutura inclinada de madeira, recorrendo-se ao mesmo tipo anteriormente referido, onde mais tarde se colocou a chapa metálica perfilada escolhida para servir de cobertura. Por ultimo, os portões dos armazéns foram criados. No espaço de um mês e recorrendo a mão-de-obra não especializada foi possível construir o primeiro módulo que serviu de protótipo para os restantes 8. Os materiais de construção são: betão ciclópico, blocos de cimento celular e brita de pedra nas fundações e pavimentos; madeira de pinho não tratado na estrutura e portadas; fardos de palha, corda, tela plástica, rede de galinheiro galvanizada, rebocos de cal com areias e agregados pozolânicos nas paredes; chapa galvanizada na cobertura; ferragens e parafusos de ferro galvanizado; e óleo queimado proveniente de máquinas agrícolas na protecção das madeiras. Foi preciso cerca de um mês e cinco operários não especializados, incluindo os autores – Arq. Ricardo Espirito Santo pela autoria do plano geral das Hortas Sociais e o Plano B pelo projecto dos armazéns -, para construir o primeiro módulo. Os restantes 8 módulos foram depois executados num só mês. (Santa Rita, 2006, p. 102) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 86 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 60 – Construção do módulo dos apoios agrícolas das salinas do Samouco (Santa Rita, 2006, p. 105) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 87 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 61 – Construção do módulo dos apoios agrícolas das salinas do Samouco - Axonometria (Santa Rita, 2006, p. 104) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 88 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.2.1. SÍNTESE A génese do projecto baseia-se em princípios simples mas essenciais em qualquer tipo de arquitectura. Os elementos da arquitectura, como é o caso da disposição e da simetria, aplicados a uma construção modular, presentes nesta obra são a par da distribuição, ou por outras palavras a utilização de materiais locais, “responsáveis” pela memória do Homem constructor. Para além das referências feitas anteriormente, é ainda de salientar que a grande maioria dos materiais ao serem biodegradáveis remetem-nos também em certa parte para o conceito de construção sustentável. Ao contrário do que se espera, dentro dos pequenos armazéns agrícolas não cheira a palha. Contas feitas, a palha é responsável por 83% da massa total de construção e contribui para a eco sustentabilidade do projecto. No entanto, os autores deste projecto deliberadamente optaram por não evidenciar o processo construtivo das paredes autoportantes de fardos de palha, impossibilitando uma colagem directa aos movimentos de arquitectura eco sustentável. Ainda assim é manifesto que este projecto se baseia nos principais paradigmas da sustentabilidade – reduzir, reciclar e reabilitar. Se observarmos melhor, os armazéns são construídos com materiais naturais com ciclo de vida bio sustentável (biodegradáveis); incorporam um mínimo de materiais transformados – materiais com níveis elevados de energia no processo de fabrico e de transporte até à obra –; e evitam o recurso a tecnologias de construção com elevados consumos energéticos baseadas nas estruturas de betão e aço ou nas alvenarias cerâmicas ou betão. A obra emprega os materiais de modo preciso e sensual, que nos lembra o Homem Construtor que desde o começo da civilização construiu com os materiais disponíveis na natureza, sugerindo também por essa via um modus operandi sustentável. (Santa Rita, 2006, p. 102) Ilustração 62 – Esquema nosso sobre simetria e disposição dos módulos (Santa Rita, 2006, p. 104) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 89 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 63 – Apoios agrícolas das salinas do Samouco - Simetria (Ilustração nossa, Novembro 2014) Ilustração 64 – Apoios agrícolas das salinas do Samouco - Disposição (Ilustração nossa, Novembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 90 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.3. PROJECTO CCTC “Exigimos de qualquer edifício que ele funcione a contento, que cumpra as finalidades a que foi destinado da melhor maneira possível; que ele fale com eficácia e diga aquilo a que foi destinado a dizer com as palavras mais adequadas possíveis; que tenha um bom aspecto e nos seja agradável pela sua presença, seja lá o que tenha a fazer ou a dizer” (Ching, 1999, p. 319) As Terras da Costa estão localizadas numa linha de terra entre a cidade e a arriba fóssil, entre a via-rápida e o oceano. Este projecto procura refutar a marginalização das Terras, fortalecendo a sua identidade e promovendo o relacionamento entre os cidadãos dentro e fora desta comunidade, capacitando-os a serem socialmente activos. Mais importante que tudo torna possível um diálogo não conflituoso com as instituições locais. Este projecto esforça-se por criar um centro comunitário que providencie uma resposta às diversas necessidades e expectativas desta população, oferecendo um espaço público multifuncional e intergeracional, trazendo acima de tudo a água a este bairro. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 91 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.3.1. PROCESSO A Cozinha Comunitária das Terras da Costa é o culminar de um processo complexo e moroso onde estiveram envolvidas inúmeras pessoas, quer a nível individual ou em grupo, e um número considerável de entidades, desde associações, empresas e fundações. Devido a isto, e de modo a não fugir ao cerne desta dissertação, iremos referir apenas parte da história sendo que o todo pode ser consultado em anexo. Ilustração 65 – Vista aérea do bairro das Terras da Costa (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) A ideia de realizar um projecto para as Terras da Costa teve o seu início em Junho de 2012 quando o Ateliermob33 foi convidado para o workshop “Noutra Costa” promovido pelo Departamento de Arquitectura e o Centro de Estudos de Arquitectura, Cidade e Território da Universidade Autónoma de Lisboa. A partir dai o atelier começou a colaborar com alguns representantes da UAL e membros das Fronteiras Urbanas34 que já se encontravam em actividade no terreno. O objectivo inicial foi a mediação entre as autoridades públicas e os moradores do bairro de modo a num futuro próximo conseguir descortinar uma solução para melhorar as condições de vida dos habitantes das Terras. _________________________ 33 O Ateliermob é uma plataforma multidisciplinar de desenvolvimento de ideias, investigação e projectos nas áreas da arquitectura, design e urbanismo. A empresa foi constituída em 2005, em Lisboa, como consequência de vários trabalhos realizados em parceria pelos seus sócios fundadores. O Ateliermob tem vindo a desenvolver projectos de várias escalas e tipologias, para entidades públicas e privadas. Em paralelo, tem desenvolvido algum trabalho de investigação de suporte à prática projectual, um blogue de arquitectura, design, urbanismo e diversas participações em concursos nacionais e internacionais. Actualmente, o Ateliermob é constituído por dois sócios – Andreia Salavessa e Tiago Mota Saraiva, e uma equipa de profissionais habilitados, associando-se sempre que possível a outras entidades e técnicos de modo a enriquecer e alargar o espectro multidisciplinar dos seus serviços. 34 As Fronteiras Urbanas foram um projecto académico focado na alfabetização que teve lugar no Bairro das Terras da Costa durante alguns anos. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 92 Os elementos da arquitectura: construção elementar Em Fevereiro de 2013 a população decidiu através de um processo participativo que a construção de uma cozinha comunitária seria o passo prioritário na melhoria das suas condições de vida, constituindo-se como um espaço que possa vir a ser partilhado por todos e gerido pelos moradores. Um lugar que possa oferecer condições básicas para estar e cozinhar colectivamente, com alguns pontos de água e combate a incêndio. Foi então necessário financiamento para que o projecto se pudesse realizar e, como tal, o Ateliermob procurou várias maneiras de o fazer, mantendo a Câmara Municipal de Almada sempre informada das suas diligências. Em Agosto desse mesmo ano surgiu a oportunidade de a cozinha começar a ganhar forma através da primeira doação realizada pela Casa do Vapor35. Membros do colectivo francês Exyzt36 iniciaram o desmantelamento desta instalação efémera na Cova do Vapor, freguesia da Trafaria, e decidiram então que as madeiras seriam reutilizadas na Cozinha Comunitária das Terras da Costa. Durante esta transição o Projecto Warehouse, que já havia participado do processo de construção e desmantelamento da Casa do Vapor, demonstrou interesse em fazer parte da fase seguinte na qual se tornou parceiro do Ateliermob. No mês seguinte, a nova equipa formada pelo Ateliermob, Projecto Warehouse e Casa do Vapor tiveram uma reunião com a Comissão de Moradores das Terras da Costa. A comissão foi formada para defender os interesses de todos os moradores do bairro e isso torna-se por demais evidente quando na sua constituição se encontram reunidos membros de etnia cigana e cabo-verdianos. Nesta reunião procurou-se perceber melhor de que modo é que o desenho da cozinha poderia influenciar e ser influenciado nas práticas que se iriam realizar e qual seria o melhor sitio para a sua construção. _________________________ 35 A Casa do Vapor foi fruto de uma parceria do coletivo Exyzt com a Associação Ensaios e Diálogos e a Associação de Moradores da Cova do Vapor. Era uma construção efémera que servia de ponto de encontro para a comunidade local e visitantes de fora. Foi criada como espaço de estímulo à partilha, à aprendizagem, à criação e à experimentação artística, que serviu de impulso à participação ativa e à valorização cultural da comunidade da Cova do Vapor. De Abril a Outubro de 2013 a Casa acolheu um programa cultural variado e abriu-se a todos como centro catalisador de ideias e incubadora de projetos individuais ou coletivos. A madeira utilizada neste projecto já tinha sido utilizada no projecto “Construir Juntos” em Guimarães em 2012 quando esta cidade foi Capital Europeia da Cultura. 36 Exyzt é um coletivo de artistas que funciona como uma “plataforma para a criação multidisciplinar” que pretende desafiar a visão de arquitetura como um campo independente da prática. Como alternativa, os EXYZT embarcam em projetos de arquitetura experimental construídos de forma colaborativa. Eles concebem e organizam cada projeto como um espaço de jogos onde hábitos culturais e histórias partilhadas podem conviver, relacionar-se e misturar-se. Em cada projeto procuram juntar os diferentes elementos de uma comunidade numa rede social que é convidada a habitar um espaço temporário. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 93 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 66 – Desmantelamento da Casa do Vapor (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) Após ouvir os intervenientes percebeu-se que a estrutura do edifício devia comportar a existência dos inúmeros “pedidos” e rapidamente a ideia inicial de cozinha evoluiu para um centro comunitário. O sítio para a sua edificação foi também escolhido num espaço que se encontrava cheio de entulho e lixo, por já ter sido ocupado anteriormente por algumas casas, e o qual se encontra num ponto referência para todos os que visitam o bairro. Na realidade umas das primeiras intervenções físicas foi precisamente a limpeza do espaço o que veio a reforçar as ligações e confiança entre os moradores e a nova equipa. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 94 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 67 – Limpeza do espaço (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) Ilustração 68 – Comunidade+Equipa (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 95 Os elementos da arquitectura: construção elementar Entre Novembro de 2013 e Fevereiro de 2014, após a Câmara Municipal de Almada anunciar a intenção de levar um ponto de água para mais próximo da comunidade caboverdiana e enquanto se esperava uma permissão formal para começar a fase de construção, a equipa multidisciplinar deu início a uma série de intervenções regulares. Estas, através de workshops e acções pontuais no novo espaço, procuraram manter o contacto com a comunidade de modo a que as relações formadas recentemente não se perdessem. A exemplo disso foi construído um painel informativo, onde a comunidade poderia não só recolher informações sobre o avanço do projecto mas também colocar ideias e eventos a acontecer no bairro. Ilustração 69 – Info Bairro+Caixa de Correio (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) Visto ainda não existirem ferramentas em número suficiente para que moradores e equipa de projecto pudessem trabalhar ao mesmo tempo algumas destas intervenções foram deixadas a cargo do Projecto Warehouse, sempre com o apoio incondicional da comunidade mantendo o espirito de participação activo. Um dos workshops que por outro lado possibilitou a adesão de várias pessoas foi a realização de têxteis para a cozinha. Este foi um dos que se manteve activo durante mais tempo chegando mesmo a realizar-se em simultâneo com a construção da primeira fase do projecto. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 96 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 70 – Workshop têxteis para a CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Durante este período os contactos com os poderes locais tornaram-se cada vez mais frequentes e a procura de apoios, financiamentos e parcerias foram uma prioridade para que o projecto pudesse crescer. Nas duas primeiras semanas de Março de 2014 a primeira fase de construção ficou concluída sendo que para isto a doação das madeiras por parte da Casa do Vapor foi fundamental. O contacto diário nesta fase foi fundamental para fortalecer a relação e a confiança entre a comunidade, a equipa do projecto e alguns voluntários. As Terras da Costa contaram também com a presença do realizador português Bruno Cabral, da produtora Garden Films, que procurou documentar não só o processo por de trás da Cozinha Comunitária como também as pessoas do bairro e as suas respectivas relações. Posteriormente, durante os meses de Abril e Maio, de modo a procurar dar continuidade ao projecto existiram vários workshops e eventos que trouxeram não só novos parceiros como uma maior difusão deste. Um exemplo disso foi o jantar de angariação de fundos realizado no Centro de Cultura Libertária de Almada onde se partilharam experiências e conhecimento entre a comunidade e os apoiantes do projecto. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 97 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 71 – Centro de Cultura Libertária de Almada (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Foram também vários os encontros no módulo recém-construído para se falar de temas relacionados com a logística e gestão a implementar no espaço comunitário bem como a realização de workshops. A exemplo disso, a presença da empresa SóSabão, que se disponibilizou a transmitir os seus conhecimentos na prática de produção de sabão ecológico, trouxe para o bairro uma nova consciência. A comunidade que utiliza desde sempre os tanques para lavar a roupa viram neste workshop uma forma de poderem continuar a faze-lo sem poluir os terrenos agrícolas envolventes. O projecto começou também a ser divulgado e apresentado em várias instituições de ensino, como foi o caso da Aula Aberta no Instituto Superior Técnico e a conferência realizada na Sociedade Nacional de Belas Artes, que o promoveram dando espaço depois ao debate sobre as dinâmicas sociais que se encontram envolvidas neste caso. Estes dois momentos foram palcos onde foi possível discutir a relação arquitecto/cliente, aqui bem diferente daquela que se coloca na maioria dos casos, pois aqui o cliente refere-se a um grande número de pessoas. Durante este período a empresa EUROSTAND tornou-se também uma nova parceira da Cozinha Comunitária. Esta ofereceu diversos materiais para as seguintes fases como João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 98 Os elementos da arquitectura: construção elementar foi o caso da iluminação exterior e interior de todo o projecto e alguns utilitários para o interior da cozinha. No início do mês de Maio os vereadores e o vice-presidente da Câmara Municipal de Almada foram conhecer o bairro das Terras da Costa, bem como a sua comunidade, e ver de perto o que de novo ali se fez. Numa reunião realizada no primeiro módulo, em que estiveram presentes todos os intervenientes do projecto até ao momento, discutiram-se várias ideias, foram ouvidos os vários pedidos por parte da comunidade e foi dada a garantia por parte dos responsáveis camarários de que o ponto de água chegaria antes do Verão de 2014. Ilustração 72 – Reunião no primeiro módulo (Ilustração Ateliermob, 2014) Após algumas semanas desta reunião, mais concretamente a meio do mês de Junho, o projecto da Cozinha Comunitária obteve resposta positiva ao pedido de financiamento por parte do Programa de Desenvolvimento Humano da Fundação Calouste Gulbenkian. Graças a este apoio foi possível continuar a construção das seguintes fases do projecto. A partir deste momento, o Projecto Warehouse começou a organizar a sua equipa, dando inicio a várias intervenções necessárias no terreno, e a confirmar os João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 99 Os elementos da arquitectura: construção elementar pedidos realizados às empresas com quem foi mantendo contacto ao longo dos meses que antecederam a resposta positiva de financiamento. Nas três primeiras semanas de Agosto de 2014 realizou-se então a segunda fase de construção na qual estiveram envolvidos mais intervenientes do que na primeira fase. Este facto deve-se à projecção que a Cozinha Comunitária foi ganhando ao longo do tempo e que levou a que todos os interessados se pudessem juntar à equipa, quer em questões constructivas ou contribuindo de outra forma. Ilustração 73 – Alguns intervenientes da segunda fase de construcção (Ilustração cedida por Samuel Boche, 2014) Aos vários voluntários que foram sendo confirmados pelo Projecto Warehouse para poderem ajudar ao longo das semanas ainda existiram outros que foram aparecendo inesperadamente no terreno simplesmente por terem ouvido ou visto algo a respeito do que ali se passava e ficaram interessados em envolver-se. Isto veio a criar um grupo multidisciplinar e multinacional visto existirem elementos de vários países. Graças a este precioso contributo de um sem número de pessoas incansáveis, a segunda fase do projecto ficou concluída dentro do prazo ficando a faltar apenas a colocação da cobertura em falta visto que esta só poderia chegar nos primeiros dias de Setembro. Nesta ponta final, já sem um grande número de voluntários, os membros do Projecto Warehouse e a sua equipa acabariam por coloca-la no seu respectivo lugar. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 100 Os elementos da arquitectura: construção elementar De seguida, e visto que este projecto é um processo continuo, a equipa irá procurar novas formas de melhorar as condições em torno da obra, como será o caso de uma zona para as crianças brincarem, e ainda a construção de uma sala para a comissão. De futuro, e tendo em vista que se encontram envolvidas inúmeras pessoas e entidades que não dizem respeito directamente à arquitectura desenhada e construída da obra, é de salientar que existirão novamente mais workshops e eventos. Estes irão funcionar de modo a dinamizar ainda mais este novo espaço e a manter os laços com a comunidade. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 101 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.3.2. PROPOSTA O projecto da Cozinha Comunitária começou a aparecer em desenho após se terem assimilado todas as ideias e sugestões feitas pela Comissão de Moradores numa relação entre arquitecto e cliente. Foram também inúmeras as visitas ao local por parte da Warehouse e a sua equipa multidisciplinar formada por Martinho Pita, Diana Pereira, Lícia Soldavini e Samuel Boche o que facilitou bastante as futuras fases de construção visto já existir uma grande leitura do espaço. Ilustração 74 – Reunião equipa de projecto nas Terras da Costa (Ilustração cedida por Martinho Pita, 2013) Compreendendo que este novo edifício deveria tornar-se num ponto de encontro ou numa referência para o bairro tornou-se por de mais evidente que após os primeiros desenhos e imagens 3D começarem a aparecer deveriam existir algumas reuniões com todos os intervenientes de modo a continuar a participação activa por parte da comunidade. Nestas foram discutidas as mais variadas questões desde a forma e função do edifício, ao faseamento do projecto e até mesmo o processo constructivo. Mais à frente é possível visualizar a evolução deste processo através de desenhos e fotografias visto que até mesmo em obra existiram algumas alterações projectuais. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 102 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 75 – Reunião entre Comissão de Moradores e equipa de projecto Ateliermob+Warehouse (Ilustração Ateliermob, 2013) A estrutura desenhada pelo Projecto Warehouse em colaboração com o Ateliermob e a Comissão de Moradores das Terras da Costa retraça a evolução das estruturas de bairros de génese ilegal, crescendo de acordo com novas necessidades e novos recursos. Um simples módulo de madeira é reproduzido quatro vezes permitindo uma série de equipamentos: uma cozinha fechada; uma cozinha aberta; uma zona de lavagem de roupa; um espaço de convívio; um parque infantil; etc. Esta estratégia permite a adaptação dos espaços aos desejos da comunidade dando também a flexibilidade necessária para organizar a zona de construção de acordo com os financiamentos e apoios disponíveis. Os quatro módulos são justapostos numa estrutura em forma de “u” criando assim uma zona verde no centro que funciona também como área protegida para o espaço infantil. Esta zona foi ganhando cada vez mais importância ao longo do projecto visto que existem cerca de 100 crianças no bairro sem um local próprio para brincar. Com esta forma é possível proporcionar-lhes isso ao mesmo tempo que se encontram mais seguras. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 103 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 76 – Esquema faseado do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 104 Os elementos da arquitectura: construção elementar Numa das primeiras reuniões realizadas para expor a ideia de projecto à Comissão de Moradores, para além dos desenhos esquemáticos das diferentes fases, foram também apresentados alguns desenhos 3D e as respectivas fotomontagens no sítio para uma melhor compreensão por parte de todos. Ilustração 77 – Fotomontagem do módulo da cozinha do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) Ilustração 78 – Fotomontagens dos módulos cozinha+pórtico+lavadeiras do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 105 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 79 – Fotomontagem de todos os módulos do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) Como anteriormente foi referido, existiram algumas alterações de projecto desde que os primeiros desenhos e imagens foram apresentados mas que em nada mudaram a ideia e imagem geral da obra. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 106 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.3.2.1. DESENHO O módulo base partiu de uma repetição de pórticos de madeira espaçados e travados entre si, sendo que se procurou manter sempre a mesma distância entre eles. Por sua vez, estes encontram-se apoiados sobre blocos de betão e de maneira a não permitir que a estrutura se pudesse mover têm também ganchos metálicos que agarram o bloco à viga do chão. Nos desenhos técnicos referentes à primeira fase é possível verificar que o peso da estrutura se encontra distribuído em dois blocos onde os pilares assentam e um terceiro que confere mais resistência à estrutura visto que reduz a deformação da viga. Ilustração 80 – Desenho técnico da primeira fase do projecto CCTC-Corte Construtivo (Ilustração Projecto Warehouse, 2013) Contudo, devido ao facto de a primeira fase se ter realizado com uma enorme contenção de custos e tendo por base apenas o apoio de algumas entidades anteriormente referidas, a angariação de algum dinheiro proveniente de eventos para o mesmo propósito e a doação por parte de apoiantes deste projecto, o primeiro módulo quando foi construído apenas apresentava dois blocos por pórtico. Estes foram colocados estrategicamente de modo a não permitir que existisse qualquer risco para os seus utilizadores e a estrutura foi sendo sempre testada ao longo de todo o processo para que caso existisse alguma fragilidade esta pudesse ser corrigida antecipadamente. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 107 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 81 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Plantas módulo inicial (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 108 Os elementos da arquitectura: construção elementar Já no que diz respeito à segunda fase, esta alteração deixou de existir passando a ser utilizados três blocos em vez de apenas dois como foi pensado nos primeiros desenhos. É de realçar também que os blocos de betão têm como objectivo principal impedir que a madeira entre em contacto directo com o solo, o que faria com que esta apodrecesse rapidamente. No próximo sub-capitulo, onde se fará referência à fase construtiva, será possível identificar melhor aquilo que dizemos anteriormente e observar as pequenas alterações que foram sendo realizadas. O objectivo de se realizar um projecto baseado na repetição de pórticos prendeu-se com o facto de não só permitir uma imagem homogénea, num sítio completamente desprovido de tal característica, como principalmente criar um processo construtivo de rápida execução. É de salientar que esta ordem em nada veio a empobrecer o projecto pois foi a partir desta que posteriormente foram sendo criadas as excepções, quer a nível de fachadas ou de vãos. Outro factor que à primeira vista poderia condicionar o projecto mas que em vez disso lhe proporcionou uma imagem muito mais apelativa foi o de existirem logo à partida madeiras com diferentes larguras. O primeiro módulo ao ser construído com madeiras reutilizadas apresenta na sua génese madeiras com 8, 10 e 12 cm de largura com diferentes comprimentos e em quantidades variáveis. Sendo que as que apresentavam maior grau de resistência eram as de 10 e 12 estas foram utilizadas na sua grande maioria na estrutura e nos respectivos travamentos relegando as de 8 e as restantes de 10 para fachadas e alguns acabamentos como frisos. Este feliz acontecimento permitiu novamente criar as excepções dentro da regra principalmente no que às fachadas diz respeito. A espessura destas era de 2,5 cm sendo que as pranchas utilizadas no pavimento tinham a espessura de 3,5 cm e largura aproximada de 35 cm. Ilustração 82 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Alçado Sul (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Nas fachadas procurou-se novamente, através da aplicação de três ritmos diferentes, proporcionar a excepção ou a “surpresa” dentro da regra. Sendo que o nível superior da João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 109 Os elementos da arquitectura: construção elementar fachada deveria ser sempre fechado e o inferior teria momentos fechados e outros abertos, coube ao nível intermédio apresentar a novidade. Ora nesta situação podemos constatar que existem momentos completamente fechados, outros totalmente abertos e uns terceiros onde foram utilizados brise-soleil para proteger o interior do edifício de algumas poeiras e principalmente do sol mas sem retirar na totalidade a vista para o exterior. Com o propósito de manter a mesma linha de pensamento, na segunda fase foram encomendadas madeiras com as mesmas características que as anteriores. Note-se que a olho nu é possível verificar quais são as novas pranchas e as antigas graças à notória diferença na sua cor muito por culpa do tempo e condições de secagem e do desgaste a que foram sujeitas. Durante o mês de Março de 2014, altura em que o primeiro módulo foi edificado, devido à escassez de financiamento a equipa foi unânime quando decidiu que o dinheiro angariado até à altura seria para colocar a cobertura na obra criando desde já um espaço aberto polivalente protegido da chuva. Os painéis sandwich da empresa Exemplo Concreto foram a opção escolhida para a cobertura por se apresentarem como a melhor solução tanto a nível de resistência, durabilidade e fácil execução como a nível monetário. De modo a proteger o isolamento das intempéries e fazer com que este dure mais tempo foi aplicada uma tinta protectora com a mesma cor do topo do painel de forma a não destoar do resto do projecto. Ilustração 83 – Colocação da cobertura da segunda fase do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 110 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 84 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Módulo alimentação (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 111 Os elementos da arquitectura: construção elementar Após o primeiro módulo ser construído tornou-se mais fácil numa seguinte fase replicar os módulos respectivos à zona de lavadeiras e de alimentação pois estes seguiam a mesma linha do primeiro. Contudo, as maiores dificuldades apareceram na grande zona polivalente de entrada, por apresentar pórticos com desenho diferente dos anteriores, e o interior da cozinha pela utilização de novos materiais e a complexidade de detalhes. Enquanto os pórticos iniciais respeitavam sempre o mesmo desenho, no qual a viga de topo se encontrava inclinada para criar a pendente necessária a um telhado de uma água, os pórticos da zona polivalente de entrada tinham a viga de topo horizontal sendo que cada pórtico teria uma altura distinta para permitir criar a respectiva pendente. Ilustração 85 – Desenho técnico da segunda fase do projecto CCTC-Estrutura zona polivalente (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) No que diz respeito ao interior da cozinha a equipa encontrou no Viroc a melhor solução para isolar as paredes permitindo apenas que os topos sul e norte destas ficassem desimpedidas para possibilitar uma melhor ventilação natural. Para que isto fosse possível sem retirar o sentido de protecção contra elementos exteriores optou-se por colocar uma segunda linha de tábuas, neste caso interiores, que se encontram desencontradas com as exteriores. Visto que esta parceria com a Viroc Portugal Investwood se concretizou já em fase de construção o estudo realizado para a sua aplicação deu-se no local de trabalho. Algumas das opções no que dizem respeito às portas, mesa rebatível, janela de correr, encaixes e mobiliário interior, apesar de terem sido previamente pensadas, acabaram por também sofrer alterações ao longo do processo construtivo. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 112 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 86 – Vista para a entrada da cozinha do projecto CCTC-Zona alimentação (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 113 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.3.2.2. CONSTRUÇÃO Foi então durante o mês de Março de 2014 que, após a Câmara Municipal ter dado o seu aval, que os elementos da Warehouse e a sua equipa puseram mãos à obra com os apoios e ajudas de que já dispunham. A doação de madeiras por parte do projecto Casa do Vapor foi fundamental nesta primeira fase visto ser a matéria-prima utilizada na obra. A grande maioria das ferramentas utilizadas durante todo o projecto foram ferramentas pessoais do carpinteiro Samuel Boche e de elementos do colectivo Warehouse, à excepção de enxadas, picaretas e pás disponibilizadas pela comunidade. Ilustração 87 – Fase 1 do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Graças ao percurso que se foi desenrolando ao longo dos meses que antecederam a fase de construção e às visitas constantes ao local de trabalho foi possível calendarizar com alguma precisão o tempo necessário para a executar. Do mesmo modo foram também distribuídas tarefas pelos vários membros o que tornou todo o processo mais eficiente. Estes dois factores permitiram economizar tempo que seria gasto mais tarde quando existia a necessidade de discutir algum problema construtivo ou alguma alteração projectual e nas duas primeiras semanas de Março dar por concluída a primeira fase. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 114 Os elementos da arquitectura: construção elementar Em primeiro lugar, existiu a necessidade de se limpar novamente o terreno visto que este já se encontrava coberto de vegetação e armazenar a madeira de uma forma eficiente. A madeira desta primeira fase ao estar a ser reutilizada pela terceira vez, visto já ter passado pelos projectos “Construir Juntos” em Guimarães e “Casa do Vapor” na Cova do Vapor, apresentou alguns desafios. Um dos maiores foi o facto de ter de existir por parte da equipa uma boa gestão quando se realizavam os cortes sobre as pranchas de modo a aproveitar o máximo destas. Outro factor que também teve alguma influência foi o desgaste que a maioria da madeira já tinha sofrido o que levou a que algumas se encontrassem inutilizáveis. Ilustração 88 – Fase 1 do projecto CCTC (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Contudo, e apesar de terem existido as dificuldades acima referidas, a quantidade fornecida para esta primeira fase foi suficiente para a construção do primeiro módulo que serviu também para que se iniciasse um hábito autónomo da comunidade na gestão deste novo espaço. De seguida, a equipa foi dividida em pequenos grupos de dois a três elementos em que cabia a cada um desses grupos uma tarefa específica. Foi criada uma equipa responsável pelo nivelamento do terreno e colocação dos blocos, outra para a João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 115 Os elementos da arquitectura: construção elementar construção das referidas sapatas de betão e uma terceira para a construção dos pórticos de madeira. A equipa responsável pela abertura dos buracos no terreno, onde se colocaram posteriormente os blocos de betão, recorreram ao Teorema de Pitágoras para encontrar o ângulo recto de onde iriam partir as linhas guias do projecto. Criando no início com fio um triângulo com 3,4 e 5 m de lado respectivamente encontraram-se as direcções desejadas e, após estas serem verificadas, esticaram-se paralelas e perpendiculares formando uma malha ortogonal. Esta malha serviu para delimitar o espaço da obra e para situar o local onde era necessário abrir os buracos. Procurou-se através deste método ser o mais preciso possível sendo que as distâncias entre blocos foram sempre confirmadas antes de colocar os próximos. Isto permitiu que não existissem erros ou que estes se situassem na casa do milímetro para que posteriormente ao assentar os pórticos estes se encontrassem paralelos entre si. Visto que o terreno não se encontrava nivelado foi necessário abrir buracos com diferentes profundidades de modo a que os blocos ficassem todos à mesma altura. Para tal recorreu-se a níveis de bolha com diferentes dimensões que permitiam perceber se os blocos se encontravam nivelados entre si e caso isso não acontecesse preenchia-se mais o buraco com brita ou retirava-se parte desta. No início, por cada buraco, foram utilizadas caixas de madeira com as dimensões dos blocos por serem mais leves e fáceis de mover e só na fase final é que se utilizaram as sapatas finais. Ilustração 89 – Fase 1 do projecto CCTC-Fundações (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Ao mesmo tempo que isto acontecia, a equipa responsável pelas sapatas encontravase dividida entre a construção de cofragens de madeira e a criação das estruturas metálicas em forma de gancho que iria unir os blocos à viga do chão. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 116 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 90 – Fase 1 do projecto CCTC-Estrutura metálica (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Ilustração 91 – Fase 1 do projecto CCTC-Cofragem e blocos de betão (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Por outro lado, numa óptica de cooperação, e sendo que nenhum dos elementos da equipa responsável pela construção do projecto tinha grande conhecimento no que à mistura necessária para fazer betão dizia respeito esta ficou a cargo de alguns moradores do bairro. Graças aos seus anos de experiência profissional, estes tornaram fácil o que à primeira vista parecia difícil para a equipa transformando uma mistura entre água, areia, brita e cimento nos blocos de betão necessários para o projecto. Ilustração 92 – Fase 1 do projecto CCTC-Fundações (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 117 Os elementos da arquitectura: construção elementar Por último, nestas primeiras acções no terreno, os pórticos de madeira foram sendo construídos e colocados no respectivo local. Para que tal funcionasse através de um método rápido e eficaz foi construído anteriormente um palco onde se puderam testar alguns protótipos e mais tarde replicar as estruturas uma a seguir à outra visto já existirem as marcações correctas. Ilustração 93 – Fase 1 do projecto CCTC-Construção dos pórticos de madeira (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Após o esqueleto do projecto se encontrar no respectivo lugar começou-se por dividir novamente a equipa em pequenos grupos. Graças ao trabalho de atelier realizado anteriormente cada pessoa já sabia com antecedência o que iria fazer ao longo de todo o processo construtivo e, caso raras excepções, manteve-se no seu posto de trabalho possibilitando uma melhor organização enquanto as tarefas foram decorrendo. Dito isto, foi criada uma equipa para a colocação do pavimento, outra para fazer as ligações entre pórticos e uma terceira responsável pela construção das fachadas. Apesar de as tarefas se realizarem em simultâneo nunca existiu a impossibilidade de prosseguir em qualquer uma delas por causa de outra e assim sendo nunca se quebrou a dinâmica de trabalho. De modo a criar uma obra segura, quer durante a fase de construção ou na fase final, procurou-se sempre construir o maior número de travamentos e estruturas temporárias. Algumas destas foram sendo retiradas à medida que se foi avançando no projecto, outras no final e ainda um pequeno número delas que apenas foi retirado ou substituído João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 118 Os elementos da arquitectura: construção elementar já na segunda fase do projecto. Devido à escassez de madeira optou-se por nesta primeira fase criar apenas um módulo aberto polivalente onde decorreram algumas actividades. A exemplo disso tivemos dentro da estrutura workshops, eventos festivos da comunidade, aulas dadas pelas Fronteiras Urbanas e algumas reuniões. Por último, e já sem a necessidade de incluir ao mesmo tempo toda a equipa no processo, colocou-se a cobertura do projecto. Os painéis foram sendo içados por alguns membros que se encontravam no solo enquanto os restantes os posicionaram no devido lugar. Ilustração 94 – Fase 1 do projecto CCTC-Módulo polivalente (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Como já anteriormente tínhamos referido, o facto de todos os dias das fases de construção existir um contacto entre moradores e equipa de projecto possibilitou fortalecer a relação que vinha sendo criada e aprofundar a confiança. A comunidade do bairro ao estar presente na obra e ao ser solicitada muitas vezes para ajudar, quer na construção ou em termos logísticos, foi ganhando um sentimento de posse para com esta nova estrutura que ali ia crescendo aos seus olhos. Este factor tornou-se bastante importante para que nascesse uma consciência que aquilo que ali estava a “aparecer” devia ser posteriormente mantido e cuidado por todos. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 119 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 95 – Fase 1 do projecto CCTC-Equipa de projecto com alguns moradores (Ilustração Projecto Warehouse, 2014) Após o primeiro módulo ser construído procurou-se limpar novamente o terreno em torno deste bem como guardar os vários utensílios e materiais que ainda se encontravam em bom estado para serem reutilizados. A exemplo disso guardou-se a areia, cimento e brita excedente, que posteriormente foi utilizada no início da segunda fase enquanto se esperava por outra carrada, os restos de madeira úteis, sendo que os inutilizáveis tornaram-se lenha, e o painel sandwich a mais. Colocou-se também uma pequena cerca em madeira no lado sul e poente do projecto de forma a criar um espaço desafogado em torno deste e uma certa distância para com o movimento dos carros. Um dos motivos destas acções prendeu-se muito com o facto de as crianças passarem grande parte do tempo a brincar em torno do projecto e existir a necessidade de retirar o maior número de objectos que as pudessem ferir. Outro foi a intenção de proporcionar um melhor aspecto geral à obra visto que, apesar desta não se encontrar finalizada, iria ficar parada por alguns meses até existir o financiamento necessário para lhe dar continuidade. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 120 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 96 – Fase 1 do projecto CCTC-Módulo polivalente terminado (Ilustração Projecto Warehouse, Março 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 121 Os elementos da arquitectura: construção elementar Na última semana de Julho voltou-se a preparar o terreno para a segunda fase de construção onde se contou mais uma vez com a ajuda de membros da comunidade e, agora neste caso com mais afluência, com o apoio de vários voluntários. Ilustração 97 – Fase 2 do projecto CCTC-Armazenamento da madeira (Ilustração Projecto Warehouse, Julho 2014) Em primeiro lugar houve a necessidade de organizar o espaço de armazenagem da madeira visto que a quantidade pedida para a continuação do projecto era bastante avultada. De seguida, montaram-se duas mesas de trabalho, protegidas do sol por uma grande estrutura coberta com lona, onde se colocaram as serras circulares com esquadria e criou-se um novo palco para a construção dos pórticos que veio substituir o antigo. Ilustração 98 – Fase 2 do projecto CCTC-Zona de corte (Ilustração Projecto Warehouse, Julho/Agosto 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 122 Os elementos da arquitectura: construção elementar Do mesmo modo existiu também a necessidade de construir mais cofragens para os blocos de betão e várias mesas de trabalho móveis onde se podiam realizar os mais variados trabalhos como medições, cortes com um grande número de ferramentas, desenhos, etc. Nesta altura a equipa já contava com mais um apoio por parte da empresa F.S.Silva que tornou possível a compra de ferramentas essenciais ao projecto a um preço acessível. Ilustração 99 – Fase 2 do projecto CCTC-Desenhos e ferramentas (Ilustração Projecto Warehouse, Agosto 2014) Após esta primeira semana de preparação voltou-se a recorrer à mesma estrutura utilizada anteriormente onde foram distribuídas tarefas pelas equipas previamente criadas. Graças ao grande número de voluntários foi possível formar grupos com um team líder, responsável por este, e 3 a 4 voluntários por cada tarefa. O team líder de cada grupo ao fazer parte da equipa do Projecto Warehouse e já ter trabalhado durante o mês de Março teve como principal objectivo guiar os restantes elementos de modo a que estes não só fossem capazes de cumprir o pedido mas também assimilassem os conhecimentos necessários a “ganharem” a sua independência. Ao longo da primeira semana deu-se prioridade à zona polivalente pois era aquela que apresentava maiores alterações em relação à primeira fase. Como anteriormente referimos foram utilizados 3 blocos de betão nas fundações, tal como se tinha pensado em primeira instância, e existiu a necessidade de desenhar os pórticos desta zona de forma individual pois todos apresentavam altura distinta. A ordem de trabalho foi pensada deste modo pois após estas maiores dificuldades serem ultrapassadas poderse-ia voltar ao mesmo formato de construção em série. Enquanto isto acontecia as restantes zonas de trabalho, ao não sofrerem qualquer tipo de alteração, visto seguirem a mesma linha estrutural do primeiro módulo, puderam seguir o percurso normal anteriormente estipulado. Posteriormente, quando os pórticos da zona polivalente já se João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 123 Os elementos da arquitectura: construção elementar encontravam todos no devido lugar iniciou-se à colocação do pavimento e o processo de fazer as ligações definitivas entre estes. Ilustração 100 – Fase 2 do projecto CCTC-Zona polivalente (Ilustração cedida por Céline Lixon, Agosto 2014) Nesta altura as restantes equipas já se encontravam a colocar os blocos de betão e os respectivos pórticos na zona de alimentação onde anteriormente já se tinham feito as medições e abertos os buracos necessários. A par disto, a cozinha começou a ser fechada a partir da fachada poente e o seu interior a ser trabalhado. O Projecto Warehouse procurou construir a cozinha para que, quando esta se encontrasse aberta, permitisse a ideia de continuidade do interior para a zona de alimentação exterior, bem como não quebrar a relação entre quem cozinha e para quem se cozinha. Como tal, parte da fachada foi pensada como uma mesa rebatível para o interior da cozinha enquanto que de cada lado desta existiriam duas portas. Isto permitiu ter uma leitura abrangente de todo o espaço quando se encontrava totalmente aberto ao mesmo tempo que transmitia a ideia comunitária tão em voga neste projecto. Na construção destes elementos essenciais às já habituais fachadas com as tábuas de madeira de diferentes larguras foram aplicadas novos materiais como o viroc e, no caso da mesa, o acrílico transparente. Com esta combinação procurou-se estancar a entrada de poeiras ao mesmo tempo que se conferia robustez às estruturas. De igual forma, apesar de agora já só com o objectivo de travar as intempéries, as fachadas interiores foram cobertas João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 124 Os elementos da arquitectura: construção elementar pelo viroc. De modo a permitir uma melhor ventilação no interior da cozinha não foi aplicado o mesmo método nos topos das fachadas norte e sul colocando em vez disso uma segunda linha de tábuas desencontradas com as exteriores. Ilustração 101 – Fase 2 do projecto CCTC-Aplicação do Viroc (Ilustração Projecto Warehouse, Agosto 2014) Ilustração 102 – Fase 2 do projecto CCTC-Interior da cozinha+Zona de alimentação (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 125 Os elementos da arquitectura: construção elementar À medida que o trabalho foi decorrendo no interior da cozinha foi possível às restantes equipas progredir sem grandes problemas na construção da zona das lavadeiras e de alimentação visto já existir o conhecimento prévio para o fazer. É também de salientar que na altura da aplicação das fachadas os voluntários mais “assíduos” já se encontravam na posse de todas as faculdades para desempenharem o seu papel sem a necessidade de supervisão de algum membro da equipa de projecto. Isto permitiu que se pudesse despender mais tempo no interior da cozinha bem como contar quase exclusivamente com as aptidões do carpinteiro Samuel Boche para construir os elementos de maior complexidade e o mobiliário. A exemplo disso foi este que tornou possíveis dentro do prazo extipulado as janelas de correr viradas para a fachada norte, que para além de não ocuparem espaço no interior da cozinha também permitem uma rápida e eficiente passagem de comida para o grelhador. Foi ainda aplicado acrílico transparente, reutilizado das exposições realizadas pela empresa Eurostand, para isolar a fachada virada a sul permitindo ainda assim a entrada de luz de uma forma controlada através dos brise-soleil. Ilustração 103 – Fase 2 do projecto CCTC-Interior da cozinha (Ilustração nossa, Setembro 2014) O calendário de tarefas previamente pensado para o mês de Agosto foi finalizado exactamente no último dia de trabalho onde se procurou limpar novamente o terreno pelas mesmas razões anteriormente referidas. Procurou-se também transmitir uma imagem finalizada para o jantar de inauguração da segunda fase do projecto da Cozinha João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 126 Os elementos da arquitectura: construção elementar Comunitária das Terras da Costa que se realizou nessa noite onde equipa e comunidade puderam aproveitar em conjunto este novo núcleo do bairro. Ilustração 104 – Fase 2 do projecto CCTC-Jantar e festa (Ilustração cedida por Samuel Boche, Agosto 2014) Por último, e tendo em conta que só foi possível faze-lo no início de Setembro devido ao período de férias em Agosto da empresa, colocou-se a cobertura que se encontrava em falta e deu-se novamente o tratamento adequado com tinta para proteger o isolamento dos painéis. Neste dia estiveram presentes os membros da equipa de projecto e ainda alguns interessados em saber mais sobre a história do bairro e da Cozinha Comunitária. Ilustração 105 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 127 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 106 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) Ilustração 107 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 128 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 108 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) Ilustração 109 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 129 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 110 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) Ilustração 111 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 130 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 112 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) Ilustração 113 – Fase 2 do projecto CCTC (Ilustração nossa, Setembro 2014) Após este dia, durante os meses de Setembro e Outubro, foi disposto o pavimento em torno do projecto e as ligações eléctricas e do ponto de água foram feitas. Por último, durante o mês de Novembro o apoio dado pela empresa CIN permitiu que as madeiras fossem protegidas com verniz e o chafariz foi construído. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 131 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 114 – Fase 2 do projecto CCTC-Pavimento exterior (Ilustração Projecto Warehouse, Outubro 2014) Ilustração 115 – Fase 2 do projecto CCTC-Ligações eléctricas (Ilustração Projecto Warehouse, Outubro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 132 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 116 – Fase 2 do projecto CCTC-Verniz protector de madeira CIN (Ilustração Projecto Warehouse, Outubro 2014) Ilustração 117 – Fase 2 do projecto CCTC-Chafariz (Ilustração Projecto Warehouse, Novembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 133 Os elementos da arquitectura: construção elementar No dia 08 de Dezembro de 2014 foi “oficialmente” inaugurado o projecto Cozinha Comunitária das Terras da Costa num evento que contou com moradores, equipa de projecto e representantes da Camara Municipal de Almada e junta de freguesia da Costa da Caparica. Ilustração 118 – Inauguração do Projecto CCTC (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Ilustração 119 – Inauguração do Projecto CCTC (Ilustração nossa, Dezembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 134 Os elementos da arquitectura: construção elementar 3.3.3. SÍNTESE De todas as obras referidas nesta dissertação, a Cozinha Comunitária é o melhor e mais visível exemplo da aplicação dos elementos arquitectónicos para a génese e desenvolvimento de um projecto. Após se fazer a leitura das necessidades para o bairro, tornou-se por demais evidente que as linhas guias presentes no Tratado de Arquitectura e no Modulor seriam fundamentais para consolidar um edifício ordenado num sítio em que se construía com base nas necessidades do momento sem um plano maior em mente. Em primeiro lugar a escolha da madeira como material mais influente em todo a obra nasceu do aproveitamento de outros projectos próximos remetendo indirectamente para a distribuição. Devido ao seu carácter efémero a utilização deste material resolveu também o problema que se colocava naquele sitio onde não se podia construir nada definitivo devido às leis em vigor. Ainda dentro deste assunto, as pranchas de madeira de toda a estrutura apresentavam três larguras distintas – 8, 10 e 12 cm – onde existia uma relação de proporção entre elas que foi amplamente aproveitada no desenho das fachadas como poderemos ver mais à frente. Ilustração 120 – Relação de proporção 37 (Ilustração nossa, Dezembro 2014) _________________________ 37 Nota: Ao valor inicial é acrescentada ou subtraida uma fracção desse primeiro número necessária para chegar ao segundo número. Ex.: primeiro número 8 + metade do primeiro número 4 = segundo número 12. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 135 Os elementos da arquitectura: construção elementar Posteriormente desenhou-se o pórtico de madeira criando inicialmente um retângulo com três metros de largura e dois metros de altura. Este foi replicado as vezes necessárias para a construção dos módulos e cada cópia foi pensada para ser disposta de metro e meio em metro e meio. Tal como no caso do Modulor onde Le Corbusier refere que este “ […] não deve ser um deus inaudito, mas um simples instrumento para nos ajudar, […] ” (Le Corbusier, 2010, p. 207) também aqui o traçado inicial não foi levado ao extremo no desenho de todo o projecto existindo inúmeras alterações ao longo do percurso. É também de salientar que as medidas iniciais encontram-se proporcionadas entre si. Ilustração 121 – Traçado inicial e relação de proporção para o primeiro módulo 38 (Ilustração nossa, Dezembro 2014) As construções em madeira, apesar de parecerem ser de fácil execução e de traçado simples, exigem uma capacidade de visualização no espaço elevada. Note-se que no desenho de sistemas estruturais em madeira é necessário pensar o projecto peça a peça ao mesmo tempo que se descortina o melhor sistema de ligações entre cada uma delas e o todo. A acrescentar a isto tudo ainda podemos encontrar alguns problemas durante a fase de execução pois o material utilizado é formado por uma matéria heterogénea e anisotrópica39 que nem sempre corresponde ao desejado. _________________________ 38 Nota: Ao valor inicial é acrescentada ou subtraida uma fracção desse primeiro número necessária para chegar ao segundo número. 39 Anisotropia é a característica que uma substância possui em que uma certa propriedade física varia com a direção. No caso da madeira pode variar em 3 direcções: longitudinal, tangencial e radial. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 136 Os elementos da arquitectura: construção elementar Como anteriormente foi referido o retângulo inicial foi evoluindo até alcançarmos o desenho final dos pórticos que podemos ver na ilustração abaixo. Ilustração 122 – Desenho do pórtico tipo (cima) e de um dos pórticos da zona polivalente (baixo) (Ilustração nossa, Dezembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 137 Os elementos da arquitectura: construção elementar Para além disso a distância entre pórticos também foi variando consoante se iam desenhando as ligações entre estes e surgia a necessidade de se reforçar mais ou menos a estrutura. A exemplo disso o módulo da cozinha, o das lavadeiras e o da alimentação mantêm sempre a distância de 1,5 metros entre pórticos com a excepção das ligações feitas com a grande zona polivalente em que se deu um espaçamento de 1,65 metros. Esta zona pelo facto de ser totalmente aberta foi muito mais reforçada e tem espaçamentos compreendidos entre 1,56 e 1,38 metros aproximadamente. Ilustração 123 – Esquema do módulo da cozinha (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Ilustração 124 – Esquema representando as distâncias entre pórticos de 1,5m e 1,65m (Ilustração nossa, Dezembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 138 Os elementos da arquitectura: construção elementar De seguida, outros dos elementos arquitectónicos que podemos visualizar com facilidade ao longo do projecto é a simetria. Esta aparece no plano geral ou em particularidades dos módulos edificados tanto na estrutura como na fachada. Ilustração 125 – Esquema representando a simetria do plano geral (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Ilustração 126 – Esquema representando a simetria existente em cada módulo (Ilustração nossa, Dezembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 139 Os elementos da arquitectura: construção elementar Por último, encontramos um conceito tripartido inúmeras vezes no desenho das fachadas. Estas foram divididas em três partes e em cada uma delas foram utilizadas pranchas com as três larguras existentes de modo a criar uma imagem dinâmica. Com o mesmo objectivo foram desenhados três vãos distintos para que dentro de uma ordem extremamente racional pudessem existir momentos de excepção. Ilustração 127 – Alçado Sul (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Como anteriormente referimos existiram inúmeras alterações ao longo da construção do projecto e as fachadas não fugiram à regra como podemos ver na ilustração abaixo. Ilustração 128 – Alçado Sul (Ilustração nossa, Dezembro 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 140 Os elementos da arquitectura: construção elementar 4. PROJECTO 5ºANO – POUSADA DA QUINTA DA RIBAFRIA A Quinta da Ribafria situada em Lourel, concelho de Sintra, é um mundo à parte, envolto numa “concha”. Perdemos a noção do mundo exterior aos seus limites. Os ruídos são distintos, os odores parecem-nos mais intensos e não nos é possível visualizar toda a extensão da quinta de uma só vez. Ilustração 129 – Esquema sobre planta de implantação final de projecto (Ilustração nossa, Dezembro 2014) O nosso campo de visão vai sendo limitado pelas duas camadas que vão surgindo enquanto percorremos o espaço desde a cota inferior até à cota superior. A primeira é representada pela densidade arbórea que envolve toda a quinta e que nos impede de ver o edificado na sua totalidade. A segunda é o próprio edificado que funciona como muro e que separa o público do privado não permitindo uma transição directa para o percurso pensado para utilização dos funcionários da pousada. Foi no decorrer deste estudo que começou a surgir o conceito de camadas, muros, o que se deixa ver, o que se esconde, as permeabilidades tanto visuais como tácteis. O João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 141 Os elementos da arquitectura: construção elementar objectivo foi o de proteger ao máximo a identidade da quinta procurando esconder o programa de maior dimensão. Ilustração 130 – Esquema sobre planta de implantação final de projecto (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Ilustração 131 – Camada arbórea (Ilustração nossa, 2012) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 142 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 132 – Camada edificada (Ilustração nossa, 2012) O programa para este sítio compreende uma pousada com 30 quartos, um spa de uso a hóspedes e visitantes da quinta, um restaurante de autor e uma zona de eventos. Devido à escala do programa existiu a necessidade de desenhar novos volumes pois a área das pré-existências era insuficiente. Como tal, começou-se por estudar a fundo as possibilidades que as pré-existências podiam trazer ao projecto através do trabalho de amarelos e vermelhos e posteriormente procurar fazer a ligação com os novos volumes. Por marcarem a imagem e a história da quinta, as fachadas não foram alteradas sendo que apenas o interior dos edifícios foi parcialmente modificado. As alterações referidas disseram respeito à utilização de novas paredes interiores com o objectivo de adequar o antigo espaço a novos usos. Ilustração 133 – Fotografias dos espaços interiores (Ilustração nossa, 2012) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 143 Os elementos da arquitectura: construção elementar No corpo A foram aproveitados os espaços do piso 0 para se colocar a garrafeira e a copa para funcionários. Visto que esta tinha ligação directa com a cozinha do restaurante situada no piso 1 do corpo B procurou-se tirar o melhor proveito da situação recorrendo-se a esta para apoiar os pequenos-almoços que decorrem no piso 1 do corpo A. Ilustração 134 – Esquema sobre plantas finais do piso 0 e 1 do corpo A e B (Ilustração nossa, Dezembro 2014) O piso 1 do corpo A foi ainda aproveitado para lazer com um pequeno bar e zona de leitura enquanto que o corpo B foi pensado para recepção e sala de funcionários. Procurou-se redesenhar os interiores das pré-existências de modo a que se conseguisse separar ao máximo o público do privado. Por último, no piso 2 e 3 desenhou-se a sala de jantar, zonas de estar e 5 quartos privativos. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 144 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 135 – Esquema sobre plantas finais do piso 1 e 2 dos corpos A e B (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Ilustração 136 – Esquema sobre corte final do corpo A – Quarto da torre (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Posteriormente, a ideia de esconder os volumes de maior dimensão, como são o caso dos quartos e zona de spa, foi acentuada quando se decidiu enterra-los na topografia da quinta. Contudo, procurou-se manter a relação interior entre o novo e o existente e João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 145 Os elementos da arquitectura: construção elementar como tal o vão janela do corpo B tornou-se um elemento de enorme importância pois foi a partir dele que se criaram as ligações necessárias. Ilustração 137 – Esquema sobre o vão janela do corpo B (Ilustração nossa, Dezembro 2014) Ilustração 138 – Planta dos quartos do novo corpo (Ilustração nossa, 2012) O novo corpo enterrado, onde encontramos os 25 quartos restantes e o spa, foi desenhado para ter uma imagem de muro pré-existente da quinta. Para que isso acontecesse a fachada apenas apresenta alguns rasgos necessários para os acessos entre o exterior e o interior e grande parte dela está escondida na topografia. Ilustração 139 – Alçado norte do novo corpo (Ilustração nossa, 2012) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 146 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 140 – Corte transversal da topografia com o novo corpo (Ilustração nossa, 2012) Ilustração 141 – Desenho técnico - Corte transversal de um dos quartos (Ilustração nossa, 2012) Seguindo o muro, um pouco mais à frente está localizado o spa dentro da mesma linha de pensamento que os quartos anteriormente referidos. “Escavados” na terra e alimentados por uma luz que “escoa” dos pátios existentes estes espaços remetem para o mistério. Por último, a zona de eventos por apresentar um programa variado que algumas vezes poderia destoar da tranquilidade da pousada foi colocado num espaço afastado onde anteriormente se situava o edifício C. Esta foi pensada como uma secção de espaços interiores polivalentes os quais se podiam abrir e fechar consoante a necessidade assim o exigisse. Do edifício C apenas se aproveitou o seu desenho de ocupação no território pois a sua imagem não apresentava as mesmas características históricas e marcantes dos edifícios A e B. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 147 Os elementos da arquitectura: construção elementar Ilustração 142 – Maqueta 1.200 (Ilustração nossa, 2013) Entre a vegetação que cobre o palacete até aos muros de pedra que encontramos ao percorrer a quinta damos por nós “perdidos” nesta imensidão por descobrir. O mote de projecto foi esse mesmo: esconder. Esconder e descansar para que mais uma vez ao deambular pela quinta possamos sentir o impacto sensorial desta como se da primeira vez se trata-se. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 148 Os elementos da arquitectura: construção elementar 4.1. SÍNTESE O projecto da Pousada da Quinta da Ribafria pode ser visto nesta dissertação como um contraponto a todos os outros que vimos anteriormente. Podemos dizer isto pois o seu programa e a sua escala de construção ultrapassam largamente as das obras anteriores, não é baseado nos elementos arquitectónicos ou numa construção modular e o seu sistema estrutural não utiliza a madeira como material principal. Contudo, de uma maneira consciente ou inconsciente quando se desenha uma obra torna-se quase impossível não utilizar os elementos da arquitectura em algum momento do projecto. O caso presente não foi uma excepção e como tal ainda podemos ver o elemento da simetria no desenho dos quartos. Ilustração 143 – Esquema sobre simetria dos quartos (Ilustração nossa, 2014) João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 149 Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 150 Os elementos da arquitectura: construção elementar 5. CONCLUSÃO Concluindo, esta dissertação procurou demonstrar através da leitura das obras que os elementos arquitectónicos servem de linhas condutoras no desenho de projecto conferindo-lhe uma base de referência consolidada. É de salientar que os projectos foram escolhidos pela sua imagem clean onde podemos reconhecer a construção elementar com maior facilidade. Contudo, não se deve de qualquer modo cair no erro de considerar as obras simplórias, bem diferente de simples, pois apesar de a essência ser elementar a sua concepção tem um grau de complexidade bem distinto do que à primeira vista pode parecer. João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 151 Os elementos da arquitectura: construção elementar João Maria Assenhas Bebiano de Oliveira Peixe 152 Os elementos da arquitectura: construção elementar REFERÊNCIAS BARBA, Frederico García (2013) – Planta de Implantação. Arquiscopio [Em linha]. (03 Set. 2013). [Consult. 09 Dez. 2014]. 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