Revista Observatório da Diversidade Cultural
Volume 01, nº 01 (2014)
www.observatoriodadiversidade.org.br/revista
ARTE1 E ARTESANATO NO INSTITUTO CULTURAL INHOTIM2:
Construindo uma relação a partir dos princípios da nova Museologia Social
Keila Almeida Gonçalves3
Sofia Lorena Vargas Antezana4
Resumo
Por meio da nova Museologia Social, altera-se a relação entre o espaço museal e o território no qual este
encontra-se inserido. E, dentro desse cenário, o foco de atuação do museu se desloca da conservação
para o indivíduo e às comunidades, sendo a promoção social desses, seu maior objetivo. Analisar as
ações desenvolvidas pelo Instituto Cultural Inhotim junto ao Grupo de Artesanato, utilizando como
referência a relação entre a Arte Contemporânea e o Artesanato à luz das novas atribuições museais,
é o objetivo desse texto.
Palavra-Chave: Artesanato, Instituto Cultural Inhotim, Museologia Social.
Abstract
Through the New Social Museology, the relationship between the museum space and its territory
changes. And, within this scenario, the focus of the museum moves from conservation to the individual
and the communities, social promotion being its biggest goal. The goal of this article is to analyze the
actions developed by the Inhotim Cultural Institute with the Artisan Group, utilizing as a reference the
relationship between Contemporary Art and the Artisan inspired by new museum attributions.
Key-Words: Artisan, Inhotim Cultural Institute, Social Museology.
1 Embora a pesquisa integre outros movimentos de arte, para esse artigo, nos restringimos somente a Arte Contemporânea,
uma vez que o Inhotim possui em seu acervo, somente peças relacionadas a esse movimento.
2 Esse artigo restringe-se somente as observações relacionadas às ações da Diretoria de Inclusão e Cidadania junto ao Grupo
de Artesanato.
3 Graduanda do 8º período em Serviço Social, com Ênfase em Arte e Cultura pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais. Bolsista de pesquisa FAPEMIG no Instituto Cultural Inhotim, desde maio de 2013. E-mail: [email protected]
4 Mestre em História pela Universidade Federal de Minas Gerais. Analista de Projetos no Instituto Cultural Inhotim. E-mail:
[email protected]
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1. INTRODUÇÃO
Esse texto integra a pesquisa, em fase de realização, dentro do Instituto Cultural Inhotim, em parceria
com a FAPEMIG, tendo como tema “A Arte do Artesanato para o Desenvolvimento Humano, Social e
Econômico”. Portanto, as conclusões apresentadas restringem-se a dois grupos de artesanato, dos 12
grupos/associações que o Instituto Inhotim fomenta, na região do Vale do Paraopeba.
Destarte, para esse artigo, propomos discorrer somente sobre alguns aspectos, restringindo-nos
a uma análise preliminar acerca da efetivação dos princípios museais, tendo como recorte as ações
desenvolvidas pela Diretoria de Inclusão e Cidadania junto aos artesãos que integram o Grupo de
Artesanato5, apontando então como esses sujeitos6 se apropriam e dialogam com o espaço, no seu
fazer artesanal. Para que isso seja possível, traçaremos uma relação entre a Arte Contemporânea e
o Artesanato, buscando elementos que podem fortalecer a prática museal dentro desse cenário, em
especial, no trabalho com os artesãos.
A Diretoria de Inclusão e Cidadania encontra-se inserida dentro do Instituto Cultural Inhotim, uma entidade
privada, sem fins lucrativos, situada na cidade de Brumadinho. Referência em Arte Contemporânea, o
Inhotim combina arte e natureza numa área de 110 hectares de visitação, possuindo um amplo acervo
de obras de artes e botânica. Para firmar seu comprometimento com o desenvolvimento da cidade,
desenvolve ações sociais e culturais internas e externas à comunidade. Essas ações são executadas, em
sua maioria, pela Diretoria de Inclusão e Cidadania, em parceria com as demais diretorias, poder público
e privado em conformidade com a população. Nossa proposta é abordar, ainda que incipientemente, as
ações executadas no projeto desenvolvido com artesãos de Brumadinho e seu entorno7.
O Grupo de Artesanato - como denominaremos neste artigo - é composto em sua grande maioria por
mulheres, que trabalham elaborando peças artesanais, expressões significativas do artesanato no Vale
do Paraopeba. Esse grupo se reúne no espaço do Inhotim, onde são realizadas oficinas de capacitação
que buscam promover a formação humana, social, cultural e econômica, por meio de ações que
dialoguem com as especificidades culturais desses sujeitos.
Os argumentos apresentados neste trabalho, a título didático, estão organizados, primeiramente pela
concepção de desenvolvimento relacionado à Arte, ao Artesanato e à cultura. No segundo momento,
discorreremos sobre as novas atribuições museológicas, à luz da integração dos sujeitos no espaço
museal, sua participação na construção e no desenvolvimento local – tanto no nível restrito ao museu
quanto à comunidade -, na preservação e difusão cultural.
5 Embora o Grupo de Artesanato seja composto por artesãos residentes em outras cidades, para a análise desse artigo, realizaremos nossas observações no campo abrangente, onde alcance o grupo como um todo, além de dar ênfase ao Grupo Descoberta, dado seus objetos artesanais possuírem relação com a botânica do Inhotim e o fato de não terem aceitado a proposta
do Inhotim, em se formalizar. O outro grupo que daremos ênfase é o Grupo Verde Marinhos, cuja produção expressa a identidade quilombola e foi acompanhado pelo Inhotim, onde foi desenvolvido um trabalho, capacitando-os e formalizando-os.
6 Para efeito de recorte, sempre ao citar sujeitos, consideramos os artesãos inseridos nas ações desenvolvidas pela Diretoria
de Inclusão e Cidadania do Instituto Cultural Inhotim.
7 Nesse Grupo participam artesãos das cidades de Brumadinho, Igarapé, Moeda. Inclusive, comunidades rurais, como
Marinhos.
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Dentro desse mesmo tópico, abordaremos o espaço do Inhotim, como um lugar que promove o diálogo
entre a Arte Contemporânea e o Artesanato – por meio dos sujeitos que compõe o Grupo de artesanato
-, observando como o grupo se apropria do museu, as relações que são estabelecidas entre eles e o
Inhotim, sob a ótica da nova Museologia Social.
A metodologia adotada para o presente artigo pauta-se na leitura de pressupostos teóricos que versam
sobre os conceitos de Cultura, Desenvolvimento, Arte Contemporânea, Artesanato e Diversidade
Cultural. Para além da questão conceitual, adotamos a metodologia participativa junto aos artesãos,
seguido de encontros e reuniões que contaram com a presença do Grupo de Artesanato, poder público
local e demais agentes.
2. ARTE, ARTESANATO, CULTURA E DESENVOLVIMENTO
Na contemporaneidade, é impossível nos referirmos ao conceito de desenvolvimento, sem associá-lo
as abordagens da pobreza e da desigualdade. Dentro dessa discussão, o economista indiano Amartya
Sen (2000) representa um significativo avanço no debate, ao acrescentar a liberdade e as capacidades
no corpo da temática. Seu conceito introduz variáveis mais amplas, chamando a atenção para o fato
de que as pessoas podem sofrer privações em diversas esferas da vida e, portanto, para o ganhador
do prêmio Nobel de Economia em 1999, “ser pobre não implica somente privação material, mas as
privações sofridas determinarão o posicionamento dos cidadãos nas outras esferas.”
No âmbito dessa discussão, observa-se que o desenvolvimento humano apresenta-se de forma orgânica,
incorporando o todo humano – social, econômico, cultural. Portanto, dentro desse trabalho, consideramos
o desenvolvimento humano essencial para traçar a relação entre a Arte e o Artesanato, sob a perspectiva
da nova Museologia Social, concernente à concepção de cultura8, compreendida como expressão da
diversidade cultural e imprescindível na formação humana, seja individual e/ou coletiva.
Dentro desse universo, o acesso aos bens culturais9 pode ser considerado uma das principais ferramentas
da transformação humana, resultantes do desenvolvimento social de um povo e/ou nação. Inclusive, sua
contribuição envolve o reconhecimento da diferença como algo positivo; componente fundamental para
a construção da igualdade na diversidade. De forma que essa igualdade considere as características da
diversidade cultural sem sobrepor-se a ela. Nesse sentido, a cultura atua de forma dialética, representando
a identidade dos sujeitos e promovendo seu desenvolvimento (MIRANDA, 2010).
Assim sendo, compreender o papel da cultura na formação humana é de extrema relevância e, para
que isso seja possível, dentro do que nos propomos neste artigo, vamos conceituá-la. Afirmamos,
portanto, que o conceito de cultura é dinâmico, encontrando-se alicerçado no todo social, no
cenário das experiências materiais e concretas, na construção das subjetividades, podendo ser
8 Abarcamos todas as expressões de cultura, ou seja, a cultura popular, de massa, erudita, dentre outras.
9 Dentro da mesma perspectiva que nos referimos à cultura. Nesse sentido, por bens culturais, compreendemos toda expressão cultural produzida, consumida e reproduzida, independente de suas divisões e peculiaridades.
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evidenciada no resultado do nosso trabalho, conforme já afirmaram Netto e Carvalho (1989) e que
fora retratado por Ferreira (1997).
Dentro dessa perspectiva, portanto, ao nos referirmos à cultura, dentro dessa pesquisa, devemos levar
em consideração que, por cultura, entende-se todo (grifo nosso) processo humano que se constrói na
prática social. Consideramos assim, a cultura, em sua amplitude, como potencialmente construtora da
emancipação humana. Independente de que esta se dê por meio de expressões artísticas, produções
artesanais, bens materiais ou imateriais.
Ao considerar então, que a cultura permeia a existência do homem, inclusive, dentro do universo
do trabalho - entendendo o Artesanato como um trabalho individual e coletivo, resultado de uma
produção, carregada de significações simbólicas e concretas, além de saberes -, não seria equivocado
afirmar que o Artesanato, como expressão cultural e fruto do trabalho é um bem cultural, permeado
pela historicidade e tradição, contribuindo para o desenvolvimento dos sujeitos.
Portanto, a dinâmica das relações sociais construídas entre os artesãos, o Artesanato e o espaço do
Inhotim nos permite afirmar que ele é parte integrante da sociedade e que traz em si, elementos que
o habilitam a participar da tomada de consciência das comunidades. Leiam-se os grupos de artesãos,
produtores, trabalhadores, enfim, pessoas que compõem o território em questão.
Tendo como referência o papel da nova Museologia Social que consiste em integrar e aproximar os
sujeitos ao espaço museal, considerando a diversidade cultural dos envolvidos, no tópico abaixo,
faremos uma breve reflexão acerca da relação entre a Arte Contemporânea e o Artesanato, apontando os
possíveis atravessamentos entre a teoria e a prática sob a ótica das novas atribuições museológicas.
3. NOVA MUSEOLOGIA SOCIAL E INHOTIM: em busca da efetivação dos princípios sociais
A nova Museologia Social surge com propostas de atribuições sociais ao museu, acrescentando ainda
a atenção sobre o patrimônio cultural, onde o foco de atuação do museu se deslocará da conservação
para o indivíduo, as comunidades e a promoção social desses. Sobretudo, propondo novas formas de
atuação dos museus e das práticas museológicas voltadas para a intervenção social. Sendo o principal
aspecto a mudança no modelo de gestão, que integra a comunidade na administração e preservação
do seu patrimônio e da sua identidade cultural (DUARTE CÂNDIDO, 2007).
A partir dessa transformação, o museu passa a ser entendido como instituição capaz de promover
a preservação, a valorização da história, da memória e das tradições locais. Dessa forma, o museu
passa de espaço de contemplação para um instrumento capaz de promover a inclusão social e o
desenvolvimento individual e coletivo (DUARTE CÂNDIDO, 2007).
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3.1. Nova Museologia Social e Inhotim: Contrastes na integração e promoção dos
sujeitos sociais
Considerando as características gerais da nova Museologia Social, temos como ponto de partida a
atuação do Inhotim junto aos grupos de artesãos que integram o projeto “Rede de Artesanato10”, que
fazem parte das ações desenvolvidas pela Diretoria de Inclusão e Cidadania.
Tendo como princípio promover o relacionamento com a comunidade e firmar seu compromisso
com o desenvolvimento social de Brumadinho, em 2007 a Diretoria de Inclusão e Cidadania é criada.
Desde então, trabalha dentro de quatro perspectivas: Música, Arte e Cultura no Vale do Paraopeba;
Desenvolvimento Territorial; Inhotim para Todos e Centro de Memória e Patrimônio – Cimp.
Um dos principais objetivos dessa diretoria é fortalecer o capital social do município, contando com
o apoio de lideranças e organizações comunitárias ou de natureza social. Todas as ações visam à
autonomia dos sujeitos, tendo as pessoas e os grupos sociais como centro e objeto de seu trabalho.
O grupo de artesãos em questão está inserido na ação programática “Desenvolvimento Territorial”
e conta com a participação de artesãos residentes à cidade de Brumadinho e seu entorno, inclusive
sujeitos que residem em comunidades quilombolas, como aqueles situados na comunidade rural de
Marinhos. A proposta de trabalho desenvolvido com este grupo visa à promoção de direitos sociais, o
desenvolvimento humano, social e produtivo de Brumadinho e região, caracterizando-se ainda como
uma forma de valorizar, respeitar e compartilhar o modo de vida de seus sujeitos, além do patrimônio
cultural e natural da região.
O Artesanato produzido pelas associações e profissionais individuais representa uma forma de geração de
renda, de socialização, de troca de saberes e experiências, sendo exposto nas associações, nos espaços culturais
de suas cidades, em feiras ao ar livre, bem como durante as oficinas que ocorrem no espaço do Inhotim.
Dentre as principais ações desenvolvidas pela Diretoria de Inclusão e Cidadania junto aos artesãos, as
oficinas “Troca de Saberes”, destacam-se seguidas por cursos de capacitação. Durante esses encontros,
os artesãos trocam informações, saberes e vivências. Circulam pelo espaço do museu, realizam visitas
mediadas ao acervo de Arte Contemporânea, participam de atividades culturais que estejam ocorrendo
na data e expõem seu Artesanato.
Nesse sentido, por meio dessas oficinas, realizadas a cada bimestre, percebemos que um dos
objetivos do museu é fortalecer a relação entre esses sujeitos, possibilitar interação e socialização do
grupo. Dar oportunidade para que esses sujeitos expressem sua cultura, apreendam novas técnicas
e saberes com o outro.
Porém, mensurar esses “saberes” torna-se algo complexo, pois cada grupo ali representado, possui
10 Anteriormente, o ajuntamento desse grupo era denominado como Rede de Artesanato, porém, a partir da reestruturação
que vem ocorrendo desde a troca de diretoria, ocorrida em setembro de 2013, um dos pontos que vem sendo transformados
é a compreensão de que não podemos considerar esse ajuntamento como uma rede.
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singularidades, fragilidades e barreiras internas que referem-se às relações estabelecidas com outros
sujeitos dentro de seu campo relacional no cenário de produção artesanal. Assim, ao ultrapassar os
portões do Inhotim, as relações já foram tecidas, construídas pelos próprios grupos seja em função da
matriz cultural, das experiências individuais, coletivas ou da própria representação simbólica que os
grupos fazem de si mesmos e dos outros.
Dentro dessa perspectiva, torna-se fundamental refletir sobre como o espaço museal do Inhotim,
orientado pelas ações da Diretoria de Inclusão e Cidadania podem ampliar, renovar, reinventar as
relações e representações do fazer artesanal dos grupos. Já que o espaço do museu é propício à reflexão
acerca da diversidade cultural, dos costumes, das tradições e das diferenças.
Para atingirmos as reflexões acima, faz-se necessário conhecer como essas relações são estabelecidas
dentro do âmbito do Inhotim. Serão elas de aproximação ou de distanciamento com o espaço? Como o
espaço museal do Inhotim é expresso e/ou refletido no objeto, no fazer artesanal? Essas são questões
que refletiremos dentro dos próximos subtópicos.
3.2. Identidade e pertencimento: distanciamentos na relação entre a Arte Contemporânea e o Artesanato
Ao longo da pesquisa que vem sendo desenvolvida em parceria com a FAPEMIG, temos encontrado
algumas aproximações e distanciamentos entre a Arte e o Artesanato. Dentro do recorte da Arte
Contemporânea, partimos das características respectivas a identidade – ou a falta dela para alguns –,
destacando o fato dela estar ligada aos elementos da vida contemporânea, como aqueles provenientes
da tecnologia, da industrialização, do sistema capitalista e seus reflexos, bem como do perfil identitário
de uma população onde a diversidade e a pluralidade cultural podem ser visualizadas.
Constatamos então, que a Arte Contemporânea expressa as novas experimentações, se
caracterizando por sua hibridização e pela multiplicidade de expressões. E que, tais características
refletem o fato dela estar inserida num contexto globalizado, onde o diverso pode ser experimentado
por meio de trocas culturais facilitadas pela tecnologia, tecendo constantes diálogos que se unem
na teia da vida contemporânea.
No que tange ao Artesanato, entendemos que assim como a Arte, ele expressa as características de um
povo, sua história, memória e tradição, em prol do resgate, da afirmação e expressão da identidade
desses sujeitos. Nas palavras de Freitas:
Como materialização da forma de viver de um povo, o artesanato constitui-se num
objeto de pesquisa sociológica, reforçado também, pelo fato de ser uma técnica
passada de pais para filhos, resistindo ao progresso material, ao desequilíbrio
global (seja do ponto de vista ecológico ou econômico), ou ainda, por representar o
sentimento de identidade e de pertinência dos indivíduos (FREITAS, 2004).
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Considerando as colocações da autora, tendo em vista o contexto globalizado, podemos afirmar
que Arte e Artesanato sofrem o impacto da vida contemporânea. Cabendo a cada um, segundo
suas especificidades, exprimir a complexidade e a ambiguidade de uma identidade em contínua
transformação. Nesse sentido, pode-se afirmar que a identidade expressa por meio desses objetos
artesanais e artísticos revela o desenvolvimento dos indivíduos, seu posicionamento no espaço em que
encontram-se inseridos.
Conforme discorrido anteriormente, a nova Museologia Social parte do princípio de que cada grupo
social possui sua identidade – embora consideremos a identidade dinâmica -, sendo expressa por
diversas formas de produção, dentre elas, Arte e Artesanato. Dentro desse universo, valorizá-las,
resgatá-las, preservá-las e difundi-las, torna-se do interesse e da responsabilidade dos museus. Para
tanto, cabe a essa instituição integrar os sujeitos ao espaço museal, de forma que esses indivíduos
possam difundir a sua cultura.
Por meio do trabalho realizado pela Diretoria de Inclusão e Cidadania, com o grupo de artesãs,
“Verde Marinhos”, identificamos a responsabilidade social do Inhotim em prática, pois este grupo
foi acompanhado de perto, capacitado e formalizado por meio de uma associação. Essa associação
foi criada objetivando a produção de um artesanato identitário, capaz de retratar as tradições
culturais, o sentimento de pertencimento e a identidade quilombola das artesãs da comunidade
de Verde Marinhos.
Numa análise mais abrangente, ou seja, a partir das ações desenvolvidas junto ao Grupo de Artesanato,
percebemos a existência de uma identidade plural no artesanato local. Mesmo assim, embora as ações
do Inhotim sejam desenvolvidas objetivando a interação entre esses sujeitos, a Arte Contemporânea e
a botânica, até o momento, não apreendemos a efetivação dessas ações de forma abrangente.
Ademais, destacamos que a interação mais efetiva, ocorre em relação à botânica, mas quanto à
expressão de Arte Contemporânea, se demonstra incipiente. Sendo assim, constatamos que há
uma interação, mas há também, a necessidade de que essa seja transmitida a eles de forma mais
compreensível, reflexiva e, contínua, no sentido de possibilitar cada vez mais a aproximação entre o
espaço e os artesãos.
Como exposto, o espaço museal do Inhotim é permeado de complexidade, e desenvolver uma relação
entre os sujeitos e ele, exige continuidade, ações estratégicas no campo educacional e pedagógico.
Principalmente, quando considerada a necessidade de diálogo entre a identidade artesanal local e o
Inhotim, como expressão da Arte Contemporânea e desta com a diversidade cultural.
Das observações realizadas com os grupos nas oficinas, das conversas feitas com os mediadores de
Arte do Instituto e do Artesanato produzido, podemos pontuar que o caminho a ser percorrido é longo,
no sentido deles se apropriarem e interiorizarem do acervo que o Instituto abriga, no fazer artesanal.
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Exceção para o Grupo Descoberta11 que por meio da Técnica do Cobertor, desenvolvido em curso de
capacitação e design que o Inhotim promoveu, produz peças artesanais com elementos do acervo
botânico do museu. No entanto, ao retratar a Arte nos objetos artesanais, utilizam referências da Arte
Moderna e não da Contemporânea – o que confirma nossa observação, quanto a necessidade de
promover a interação com o espaço, aproximando esses sujeitos da Arte Contemporânea.
Assim, compreendemos que os projetos desenvolvidos pela Diretoria de Inclusão e Cidadania com o
grupo de Artesanato da região do Vale do Paraopeba devem caminhar, objetivando cada vez mais ações
que possibilitem o seu desenvolvimento, o seu fortalecimento e concomitantemente, construindo
aproximações do fazer artesanal com a Arte Contemporânea e com os demais acervos do instituto.
3.3. Tradição na contemporaneidade
Tendo a preservação da memória cultural como objeto social, a nova Museologia Social abrange
um olhar sobre a tradição12 cultural, pois estas estão vinculadas. Segundo item analisado dentro da
relação entre Arte e Artesanato, encontramos aproximações no sentido de que a tradição para ambas,
relaciona-se ao processo dialético de rupturas e permanências. Dentro desse universo, a tradição se
revela complexa, pois, ao manifestar a identidade desses sujeitos, ela não se encontra inerte, e assim,
moderniza-se, contextualiza-se.
Ao considerar a dialética de rupturas e permanências, deve-se esperar ainda – sem reservas -, que as
rupturas possam sugerir de forma negativa retrocessos e quebras de identidade. Contudo, desenvolverse é permitir o diálogo entre o tempo presente, passado e futuro e, logo, seu reflexo nas tradições. Isso
no âmbito da Arte ou Artesanato.
E, embora expresse a tradição e a memória de um povo, o Artesanato também se insere no contexto
de concorrência de mercado, vendo-se obrigado a adaptar-se às novas exigências do mundo
capitalista. Uma resposta interessante a essa demanda, é a introdução do design na elaboração das
peças (QUELUZ, 2005).
De acordo com Carmo (2011), a interferência do design no artesanato, pode atuar no sentido de
valorizar e reforçar as tradições regionais, a diversidade cultural, a identidade dos grupos sociais, a
habilidade dos artesãos e a qualidade e funcionalidade dos artefatos artesanais. Considerando uma
perspectiva possível e benéfica para o universo artesanal, que possibilita sua existência mercadológica
de forma mais competitiva.
Portanto, podemos afirmar que assim como a Arte Contemporânea, o Artesanato, ao longo da história,
tem se apropriado de adaptações, que englobam a utilização de novas técnicas, materiais e linguagens,
11 Associação de artesãos residentes em Brumadinho.
12 No campo da arte, a partir do século XVIII, busca-se o rompimento com a tradição da tintura a óleo, o naturalismo e a regra
de perspectiva dimensional. A dialética das rupturas e permanências, durante o processo de construção dessa identidade
ganha destaque no âmbito da tradição.
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sem, contudo, romper com suas representações e simbologias. No entanto, como apreendê-las dentro
do espaço do Inhotim, por meio de suas ações com o Grupo de Artesanato é uma pergunta que perpassa
nossa pesquisa.
Para isso, temos que resgatar o cenário apresentado no subcapítulo anterior, quando destacamos
o trabalho do Inhotim, desenvolvido com o grupo “Verde Marinhos”. Por meio dessa experiência,
percebemos que o Instituto desenvolve ações que visam resgatar a identidade e a tradição desses
sujeitos e que os cursos de designer, costura e de liderança desenvolvido tanto com a comunidade
de Marinhos como os demais grupos de Artesanato, entre eles o Grupo Descoberta, dialogam com a
proposta da nova Museologia Social, qual seja, a inclusão dos grupos sociais na promoção e difusão
dos sujeitos no espaço museal.
Para além do que foi exposto, faz-se necessário pontuarmos alguns elementos identificados durante
as oficinas. Em outras palavras, embora tenhamos encontrado objetos artesanais que expressem a
tradição da região nesses encontros, as ações desenvolvidas, durante as oficinas presenciadas, ainda
devem abraçar a pluralidade da tradição cultural dos grupos de Artesanato com o acervo de Arte
Contemporânea e vice-versa.
E, em contrapartida, visualizamos uma tradição tão arraigada e firmada nesses sujeitos artesãos, que
se faz necessário criar mecanismos que permitam aproximar e contextualizar a tradição local com a
Arte Contemporânea, objetivando a integração entre o sujeito e o espaço. Ao introduzirmos o assunto
acerca da integração ou interação entre o artesão e o espaço, apresentamos nossas considerações
preliminares acerca das aproximações e distanciamentos entre a Arte Contemporânea, o Artesanato e
o Inhotim, sob a perspectiva dos princípios museais.
3.4. Interação: Princípio que se encontra na Arte Contemporânea, no Artesanato e
na Museologia Social
Integração. Relação. Interação. Serão palavras sinônimas? Consideraremos que essas palavras
ultrapassam o fato de serem sinônimas, pois traduzem princípios presentes na Arte Contemporânea, no
Artesanato e na nova Museologia Social. Sobretudo, como princípio fundamental da nova Museologia
Social, que, ao atribuir funções sociais ao museu, visa inserir sujeitos até então excluídos, na produção,
promoção e difusão do espaço museal, onde esses acrescentam sua cultura, incorporados de pluralidade
e especificidades, transmitindo-a por meio do espaço museal.
A Arte Contemporânea, por sua vez, busca promover a interação entre a obra, o espectador e o artista,
sendo essa característica a que consideramos como destaque. Portanto, subjetividade, experimentação
e interação, são fundamentos essenciais desse movimento. Sendo assim, alguns artistas são conhecidos
por trabalharem a relação entre o objeto e o observador participante e, dentre os principais integrantes
desse movimento podemos citar alguns que estão presentes no acervo artístico do Inhotim.
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Lygia Clark, propulsora do objeto relacional13, que no conjunto de sua obra faz com que a experiência
ultrapasse o limite perceptível, expandindo-se para as sensações, é uma dentre as artistas que possui
obras no espaço do Inhotim. Inclusive, podemos perceber em sua obra que esta não se encontrava
finalizada, dependendo assim da relação entre o espectador e o objeto a partir das sensações
produzidas. E, que nas palavras de Rolnik (2002):
É um algo mais que captamos para além da percepção (pois essa só alcança o visível)
e o captamos porque somos por ele tocados, um algo mais que nos afeta para além
dos sentimentos (pois esses só dizem respeito ao eu). “Sensação” é precisamente
isso que se engendra em nossa relação com o mundo para além da percepção e do
sentimento. Quando uma sensação se produz, ela não é situável no mapa de sentidos
de que dispomos e, por isso, nos estranha. Para nos livrarmos do mal-estar causado
por esse estranhamento nos vemos forçados a “decifrar” a sensação desconhecida,
o que faz dela um signo. Ora a decifração que tal signo exige não tem nada a ver com
“explicar” ou “interpretar”, mas com “inventar” um sentido que o torne visível e o
integre ao mapa da existência vigente, operando nele uma transmutação. Podemos
dizer que o trabalho do artista (a obra de arte) consiste exatamente nessa decifração
das sensações. É talvez nesse sentido que se pode entender o que quis dizer Cézanne
com sua idéia de que é a sensação o que ele pinta (ROLNIK, 2002).
Encontramos ainda, obra do artista Hélio Oiticica, que, assim como Clark propõe que o espectador
torne-se participante e propositor da obra. Em análise sobre as obras desse artista, Favaretto (1992)
coloca que “as experiências não são meras obras, mas intervenções ativíssimas”. Vanguardista, Oiticica
inaugura em plena década de 1970, aquilo que viria se tornar conhecido como instalação.
Diferentemente, o Artesanato, desde sua gênese traduz a relação entre o artesão, o objeto e o
observador. Dessa forma, o Artesanato expressa uma interação que precede essa tríade (artesão,
objeto e observador), isto é, a relação que surge no ato da criação do objeto e que expressa a interação
entre o artesão e seu núcleo familiar, entre esse indivíduo e seu meio, seja ele físico, cultural ou das
relações sociais.
A partir dessas relações, ocorre a troca de vivências e saberes, que são embutidas durante a construção
do objeto artesanal. Porém, durante esse processo outras relações são impulsionadas, ampliando e
integrando outros sujeitos ao processo, como aqueles artesãos inseridos na produção.
Por fim, na exposição do objeto pode-se perceber que este impulsiona a construção de outras pontes,
acrescentando novos olhares advindos do observador e/ou comprador da peça. Assim, ocorrem novas
interações, com a presença de diversos personagens e suas subjetividades. Desde modo, não é apenas
o objeto que desloca-se geograficamente, mas os próprios sujeitos.
Não se trata de um produto finalizado, acabado, mas fruto de uma relação entre a identidade dos diversos
sujeitos que se desenvolvem continuamente, e que trocam experiências, dialogando por meio de um
13 Objeto Relacional é a designação genérica atribuída por Lygia Clark a todos os elementos que utilizava nas sessões de Estruturação do Self – trabalho praticado de 1976 a 1988, no qual culminam as investigações da artista que envolvem o receptor,
convocando sua experiência corporal como condição de realização da obra.
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espaço que apresenta um objeto artesanal. O objeto então poderá servir não apenas como utensílio
de uso doméstico, pessoal ou de alguma utilidade futura, mas, sobretudo, como uma peça agregada de
significados estéticos, criativos e simbólicos, elementos que nos remetem ao objeto de arte.
Considerando que as observações, neste artigo, são preliminares, sendo que as pesquisas e entrevistas de
campo com os grupos citados, Verde Marinhos e Grupo Descoberta serão realizadas e analisadas sob a
ótica da Museologia Social, destacamos que, somente a partir deste momento, teremos dados consistentes
para nos posicionarmos mais efetivamente, frente aos questionamentos apontados ao longo do artigo,
propondo, então, estratégias que respondam as observações e soluções indicadas ao longo do artigo.
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Encerrar nossas primeiras reflexões advindas das observações cotidianas no Inhotim, tendo em vista
que a pesquisa está em andamento, dificulta-nos acerca de um posicionamento estratégico, onde
possamos acrescentar possibilidades que funcionem como resultado para as questões levantadas.
Para que essas ações também alcancem sua efetividade integral, deve-se ainda considerar as
características relacionadas à tríade inter-relacional. Tendo como base essa tríade, novas ações devem
ser construídas, com vias a efetivação dos princípios museais, dentro da perspectiva da interação
e do observador participante, com vistas à promoção dos sujeitos, da diversidade cultural e do
desenvolvimento humano.
Concluímos então, que as ações realizadas com os grupos de artesanato devem ter uma interlocução,
com outras áreas do conhecimento do Instituto Inhotim, a fim de que o fortalecimento relacional entre
o espaço e esses grupos aconteça. Logo, o diálogo deve compreender a diversidade cultural, presente
no Artesanato local, bem como os elementos da Arte Contemporânea e os sujeitos que habitam esse
território, em prol do desenvolvimento humano.
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Revista Observatório da Diversidade Cultural
Volume 01, nº 01 (2014)
www.observatoriodadiversidade.org.br/revista
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Construindo uma relação a partir dos princípios da nova