SÉRIE ESTUDOS SETORIAIS NOTA TÉCNICA DEA 02/09 Caracterização do uso da Energia no Setor Siderúrgico brasileiro Rio de Janeiro Abril de 2009 Ministério de Minas e Energia SÉRIE ESTUDOS DE ENERGIA NOTA TÉCNICA DEA 02/09 GOVERNO FEDERAL Ministério de Minas e Energia Ministro Édison Lobão Secretário Executivo Márcio Pereira Zimmermann Caracterização do uso da Energia no Setor Siderúrgico brasileiro Secretário de Planejamento e Desenvolvimento Energético Altino Ventura Filho Empresa pública, vinculada ao Ministério de Minas e Energia, instituída nos termos da Lei n° 10.847, de 15 de março de 2004, a EPE tem por finalidade prestar serviços na área de estudos e pesquisas destinadas a subsidiar o planejamento do setor energético, tais como energia elétrica, petróleo e gás natural e seus derivados, carvão mineral, fontes energéticas renováveis e eficiência energética, dentre outras. Presidente Mauricio Tiomno Tolmasquim Diretor de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais Amilcar Guerreiro Diretor de Estudos de Energia Elétrica José Carlos de Miranda Farias Diretor de Estudos de Petróleo, Gás e Biocombustíveis Gelson Serva Diretor de Gestão Corporativa Ibanês César Cássel Coordenação Geral Mauricio Tiomno Tolmasquim Amilcar Guerreiro Coordenação Executiva Ricardo Gorini Equipe Técnica Jeferson Borghetti Soares Arnaldo dos Santos Junior José Manuel David José Mauro Campos Raymundo Aragão Neto Rogério Matos URL: http://www.epe.gov.br Sede SAN – Quadra 1 – Bloco B – Sala 100-A 70041-903 - Brasília – DF Escritório Central Av. Rio Branco, n.º 01 – 11º Andar 20090-003 - Rio de Janeiro – RJ Rio de Janeiro Abril de 2009 Ministério de Minas e Energia Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro i Ministério de Minas e Energia APRESENTAÇÃO A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) é empresa pública instituída nos termos da Lei n° 10.847, de 15 de março de 2004, e do Decreto n° 5.184, de 16 de agosto de 2004, vinculada ao Ministério de Minas e Energia (MME), tem por finalidade prestar serviços na área de estudos e pesquisas destinados a subsidiar o planejamento do setor energético, tais como energia elétrica, petróleo e gás natural e seus derivados, carvão mineral, fontes energéticas renováveis e eficiência energética, dentre outras. O presente texto insere-se no conjunto de notas técnicas produzidas pela Diretoria de Estudos Econômico-Energéticos e Ambientais da EPE que contemplam a análise de diversos temas ligados ao mercado de energia, com foco nas análises de demanda, recursos energéticos, economia da energia, evolução tecnológica, entre outros. Essas notas técnicas estão disponíveis no endereço eletrônico <http://www.epe.gov.br/Estudos>. Entre essas notas técnicas destacam-se os estudos setoriais, cujo principal objetivo é analisar as várias formas de uso da energia nos diferentes setores de atividade econômica. Esses estudos fornecem importante subsídio às projeções de demanda de energia, que, por sua vez, são utilizadas para a determinação das estratégias de expansão da oferta de energia no médio e no longo prazo. Nesse sentido, os estudos setoriais visam à compreensão da dinâmica de setores da atividade econômica, permitindo identificar processos vigentes nos mesmos, bem como potenciais processos de mudança com impacto nas trajetórias de demanda de energia, constituindo-se, portanto, em importante subsídio à elaboração do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) e do Plano Nacional de Energia de Longo Prazo (PNE), e servindo também de apoio a outros estudos da EPE. Com esse objetivo, um documento desta natureza cobre aspectos econômicos, energéticos, tecnológicos, logísticos e de infra-estrutura. Esta nota técnica em particular visa ao estudo do setor siderúrgico brasileiro. Seu objetivo é caracterizar o uso da energia neste setor de atividade, que responde por importante parcela do consumo de energia no país, tanto em termos de eletricidade quanto de combustíveis, com destaque para o carvão (mineral e vegetal). É obrigação registrar o agradecimento ao Instituto Brasileiro de Siderurgia (IBS), ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e à Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres (ABRACE), pela prestimosa colaboração concedida através de reuniões e discussões enriquecedoras. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro i Ministério de Minas e Energia Importa salientar também que, na elaboração deste trabalho, EPE contou com o apoio especializado de consultoria sobre o setor siderúrgico, realizado pela SETEPLA TECNOMETAL Engenharia, contratada especificamente para este fim, e serviço cuja excelência revelou-se de grande valia para o correto entendimento das especificidades do setor siderúrgico, nomeadamente no que se refere à caracterização das rotas tecnológicas e aos indicadores de consumo energético, bem como na avaliação das perspectivas de evolução de longo prazo deste segmento industrial. Por fim, estende-se o agradecimento à Associação Brasileira de Metalurgia, Materiais e Mineração (ABM), que disponibilizou à consultoria contratada dados e informações importantes, relativas a parâmetros técnicos das usinas siderúrgicas brasileiras. Na obstante as colaborações citadas, deve-se ressaltar que as considerações e os resultados apresentados nesta nota técnica são da total e exclusiva responsabilidade da EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro ii Ministério de Minas e Energia Série ESTUDOS SETORIAIS NOTA TÉCNICA DEA 02/09 Caracterização do uso da Energia no Setor Siderúrgico brasileiro SUMÁRIO 1. INTRODUÇÃO __________________________________________________1 2. PANORAMA DA INDÚSTRIA SIDERÚRGICA _____________________________7 2.1 PANORAMA MUNDIAL 7 2.2 PANORAMA NACIONAL 15 3. PROCESSO PRODUTIVO E PRODUTOS _______________________________25 3.1 PREPARAÇÃO DOS MATERIAIS 28 3.1.1 Aglomeração do minério de ferro 28 3.1.2 Coqueificação do carvão mineral 29 3.2 REDUÇÃO DO MINÉRIO DE FERRO 30 3.3 PRODUÇÃO DO AÇO (REFINO) 31 3.4 LINGOTAMENTO 33 3.5 LAMINAÇÃO 33 3.6 PRODUTOS SIDERÚRGICOS 34 4. MELHORES PRÁTICAS INTERNACIONAIS: O ESTADO DA ARTE_____________37 5. ROTAS TECNOLÓGICAS DA SIDERURGIA BRASILEIRA ___________________49 6. EXPANSÃO DA INDÚSTRIA SIDERÚRGICA BRASILEIRA, 2008-2025 _________53 6.1 CAPACIDADE INSTALADA DE PRODUÇÃO DE AÇO BRUTO 55 6.2 CAPACIDADE INSTALADA POR UNIDADE DO PROCESSO 56 Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro iii Ministério de Minas e Energia 7. INDICADORES DE CONSUMO ENERGÉTICO DA SIDERURGIA BRASILEIRA _____57 7.1 DADOS HISTÓRICOS DO CONSUMO DE ENERGIA 59 7.2 MATRIZ DE FLUXO DE MATERIAIS 61 7.3 MATRIZ DE CONSUMOS ENERGÉTICOS UNITÁRIOS (CONSUMOS ESPECÍFICOS DE ENERGIA) 63 7.4 COGERAÇÃO DE ELETRICIDADE 68 8. PERSPECTIVAS TECNOLÓGICAS ___________________________________71 8.1 EFICIÊNCIA ENERGÉTICA E EFICIÊNCIA NO USO DE MATERIAIS 72 8.2 FRONTEIRAS TECNOLÓGICAS DO PROCESSO SIDERÚRGICO 74 8.2.1 Fusão redutora 74 8.2.2 Altos-fornos eficientes 75 8.2.3 Lingotamento contínuo 75 8.2.4 Resíduos de plástico como redutor 76 8.2.5 Seqüestro de carbono 77 9. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ___________________________________79 Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro iv Ministério de Minas e Energia ÍNDICE DE TABELAS Tabela 1 – Produção de aço bruto, por país, 1997-2007 (106 t/ano) 8 Tabela 2 – Exportações líquidas de produtos acabados e semi-acabados de aço, por país, 1997-2006 11 (106 t/ano) Tabela 3 – Brasil - Produção de aço bruto, por empresa, 2001-2007 (10³ t) 15 Tabela 4 – Brasil - Produção de aço bruto, por tipo de aço, 2001-2007 (10³ t) 16 Tabela 5 – Brasil - Produção de aço bruto, por tipo de aciaria e de lingotamento, 2001-2007 (10³ t)16 Tabela 6 – Brasil - Produção de laminados por tipo e por empresa, 2001-2007 (10³ t) 17 Tabela 7 – Brasil - Produção de produtos semi-acabados para vendas, por empresa, 2001-2007 (10³ t) 18 Tabela 8 – Brasil - Produção de ferro-gusa por empresa, 2001-2007 (10³ t) 18 Tabela 9 – Brasil - Produção de ferro-esponja por empresa, 2001-2007 (10³ t) 19 Tabela 10 – Brasil - Balanço de sucata ferrosa, 2001-2007 (10³ t) 22 Tabela 11 – Brasil - Produção própria de coque por empresa, 2001-2007 (10³ t) 22 Tabela 12 – Brasil – Mercado de coque de carvão mineral, 2001-2007 (10³ t) 23 Tabela 13 – Brasil – Produção de produtos semi-acabados, 2002-2007 (10³ t) 23 Tabela 14 – Brasil – Produção de laminados por tipo, 2002-2007 (10³ t) 24 Tabela 15 – Unidades centrais da siderurgia 27 Tabela 16 – Intensidade Energética Total da Siderurgia, por rota tecnológica e por etapa do processo (valores por tonelada métrica) 38 Tabela 17 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Alto-forno + Forno a Oxigênio (valores por tonelada métrica) 40 Tabela 18 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Fusão Redutora + Forno a Oxigênio (valores por tonelada métrica) 43 Tabela 19 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Redução Direta + Forno Elétrico a Arco (valores por tonelada métrica) 46 Tabela 20 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Redução Direta (100% Sucata) + Forno Elétrico a Arco (valores por tonelada métrica) 48 Tabela 21 – Rotas tecnológicas das usinas siderúrgicas brasileiras (2008) 6 Tabela 22 – Capacidade de produção de aço bruto (10 t/ano) 51 55 6 Tabela 23 – Capacidade de produção de aço bruto, por rota (10 t/ano) 6 56 Tabela 24 – Capacidade de produção siderúrgica, por unidade (10 t/ano) 56 Tabela 25 – Consumo de energia no setor de ferro-gusa e aço, 2002 - 2007 (10³ tep) 60 Tabela 26 – Participação das fontes no consumo do setor siderúrgico, 2002 - 2007 (%) 60 Tabela 27 – Consumo de energia, produção física e consumo específico, 2002 - 2007 61 Tabela 28 – Autoprodução de eletricidade, 2002 – 2003 e 2005 - 2007 (GWh) 61 Tabela 29 – Matriz de fluxo de materiais (kg de material por tonelada de produto da unidade) 62 Tabela 30 – Matriz de fluxo de materiais (kg de material por tonelada de aço bruto) 63 Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro v Ministério de Minas e Energia Tabela 31 – Rota 1. Matriz de consumos energéticos unitários (GJ por tonelada de aço bruto) 64 Tabela 32 – Rota 2. Matriz de consumos energéticos unitários (GJ por tonelada de aço bruto) 66 Tabela 33 – Rota 3. Matriz de consumos energéticos unitários (GJ por tonelada de aço bruto) 67 Tabela 34 – Rota 1. Consumo e geração de eletricidade 68 Tabela 35 – Rota 2. Consumo e geração de eletricidade 69 Tabela 36 – Rota 3. Consumo e geração de eletricidade 69 Tabela 37 – Requisitos de consumo de energia para produção de ferro e aço 73 Tabela 38 – Perspectivas globais para novos processos de produção siderúrgicos (fusão redutora) 75 Tabela 39 – Perspectivas globais para novos processos de produção siderúrgicos (conformação direta do aço) 76 Tabela 40 – Perspectivas tecnológicas globais para a introdução de tecnologias na produção siderúrgica 78 ÍNDICE DE GRÁFICOS Gráfico 1 – Estágio de desenvolvimento do país versus grau de maturidade da indústria siderúrgica 2 Gráfico 2 – Produção mundial de aço bruto, 1950 – 2007 (106 t/ano) 8 6 Gráfico 3 – Produção total de aço bruto, por país, 1997-2007 (10 t/ano) 9 6 Gráfico 4 – Produção de aço bruto, por país, 2007 (10 toneladas) 10 6 Gráfico 5 – Brasil: Histórico do crescimento do mercado de aço, 1997-2007 (10 t/ano) 12 6 Gráfico 6 – Histórico do crescimento do mercado de aço para países selecionados, 1997-2006 (10 t/ano) 13 Gráfico 7 – Consumo aparente per capita de aço no Brasil e no Mundo, 2007 (kg/hab) 15 Gráfico 8 – Participação do carvão vegetal na produção de ferro-gusa (2007) 20 Gráfico 9 – Participação dos estados brasileiros no consumo de carvão vegetal (2007) 20 Gráfico 10 – Custos relativos da energia no estado de Minas Gerais 21 Gráfico 11 – Evolução da produtividade florestal no Brasil 21 Gráfico 12 – Participação dos laminados na produção total (laminados e semi-acabados) 23 Gráfico 13 – Distribuição setorial das vendas de produtos siderúrgicos (%), 2007 24 ÍNDICE DE FIGURAS Figura 1 – Destinação das exportações brasileiras de aço, 2007 14 Figura 2 - Indústria Siderúrgica: principais rotas tecnológicas 26 Figura 3 – Rota siderúrgica integrada (Grupo 1: Rotas 1 e 2) 50 Figura 4 – Rota siderúrgica semi-integrada (Grupo 2: Rota 3) 50 Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro vi Ministério de Minas e Energia 1. Introdução O aço, apesar da concorrência em diversos usos com outros materiais como plásticos, alumínio, outros metais, madeira e outros, permanece um material competitivo e dominante em muitas aplicações: indústrias de base, tais como transportes, construção civil, construção naval, aviação, máquinas e equipamentos, mineração e indústrias ligadas à produção e transporte de energia, que dependem fortemente das propriedades características do aço; bens de consumo duráveis, como automóveis e eletrodomésticos; objetos do uso cotidiano nas residências e escritórios. Embora o mercado de latas para bebida seja atualmente dominado pelo alumínio, o aço ainda é muito utilizado em latas para conservação de alimentos. Estes segmentos de mercado deverão garantir consumos crescentes no futuro, em parte alavancados pela expansão econômica dos países emergentes, nomeadamente Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul (BRICS). A atividade siderúrgica é tipicamente relacionada ao desenvolvimento econômico de um país, o que deriva da sua importância para a construção de infra-estrutura e produção de equipamentos para outros setores da economia. Assim, os principais mercados de produtos siderúrgicos se relacionam à indústria automobilística, à construção civil, manufatura de bens de capital, materiais de transporte, bens de consumo duráveis e infra-estrutura. O Gráfico 1 mostra uma representação estilizada da relação entre o estágio de desenvolvimento econômico de um país e a evolução de sua indústria siderúrgica. Como se pode observar, a taxa de crescimento da capacidade instalada da indústria siderúrgica tende a ser crescente com a expansão da renda do país, com desaceleração à medida que a infra-estrutura é construída e, em mercados maduros, este crescimento é declinante. A siderurgia é um dos segmentos mais energointensivos da indústria e o seu consumo específico de energia pode ser afetado por vários fatores, entre os quais se destacam: a rota tecnológica e os processos utilizados, o tipo e a qualidade dos materiais e energéticos utilizados e o mix de produtos produzidos. As fontes de energia e os materiais utilizados na produção siderúrgica variam em função dos processos tecnológicos utilizados. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 1 Ministério de Minas e Energia Gráfico 1 – Estágio de desenvolvimento do país versus grau de maturidade da indústria siderúrgica t/ano/$ investido Europa Central Primeiros tigres asiáticos China Índia América Latina Outros emergentes EUA Canadá Europa Ocidental Industrialização Pré-industrialização Pós-industrialização Transição PIB per capita Fonte: IBS (2008). As rotas tecnológicas para a produção do aço evoluíram muito ao longo do século XX, principalmente no pós-guerra, tendo sempre visado aumentar a produtividade e o retorno dos investimentos e, concomitantemente, tornar os processos siderúrgicos energeticamente mais eficientes. Outra tendência da siderurgia mundial tem sido a de procurar reciclar volumes crescentes de sucata ferrosa, que é reutilizada como matériaprima para a produção do aço. Embora a indústria do pós-guerra apresentasse elevados índices de produtividade, muitos dos processos produtivos utilizados, então, eram energeticamente pouco eficientes. De fato, ganhos mais significativos de eficiência energética na indústria passaram a ocorrer principalmente na segunda metade do século XX e, mais intensamente, a partir das últimas décadas, quando as preocupações com a questão energética, com a elevação dos preços dos energéticos e com as questões ambientais, passaram a ganhar importância crescente nas discussões técnicas setoriais, nas preocupações dos investidores e na opinião pública em geral. A produção de aço até o pós-guerra era dominada pelo processo Basic Open Hearth (BOH), que começou a ser substituído nas décadas de 50 e 60 pelo processo denominado Basic Oxygen Furnace (BOF), os chamados conversores a oxigênio, permitindo maiores percentuais de carga líquida e energia (calor) desta carga borbulhada pelo oxigênio no processo BOF, enquanto que, no processo BOH, parte do calor é gerado pelo consumo de óleo. Um dos principais processos siderúrgicos, com impacto no consumo de energia, Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 2 Ministério de Minas e Energia criados na era do pós-guerra, foi a aglomeração dos finos de minério de ferro, através das técnicas de sinterização e de pelotização, que não só aumentaram a eficiência química dos altos-fornos, permitindo melhor fluxo de gases e transferência de calor no alto-forno, como também fizeram com que diminuíssem os consumos específicos de coque e de outros materiais para a produção do metal quente. Mais recentemente, a tecnologia de lingotamento contínuo de placas e tarugos também trouxe implicações energéticas, eliminando o calor do reaquecimento do lingote e o consumo de energia elétrica na chamada laminação de desbaste. Os materiais básicos para a produção do aço são o minério de ferro, o carvão mineral coqueificável, o carvão vegetal e a sucata ferrosa. Existem abundantes reservas de minério no mundo que, no entanto, estão concentradas em relativamente poucos países. O Brasil possui uma das maiores reservas de minério do mundo que, juntamente com as reservas australianas, são as de melhor qualidade, com teor de ferro contido em torno de 65%. O processo de fabricação do aço é muito intensivo em capital. Os custos dos materiais e equipamentos utilizados na produção do aço são elevados, principalmente nas grandes usinas integradas, que incluem coqueria, sinterização ou pelotização, alto-forno e aciaria. Foi essa razão que levou ao incremento das chamadas mini-mills, usinas semi-integradas, geralmente de menor porte, com aciaria elétrica usando sucata como carga metálica. As aciarias elétricas podem operar em escala reduzida (unidades com capacidade inferior a 500 mil toneladas por ano), embora, atualmente, já existam plantas com capacidade superior a dois milhões de toneladas anuais. A indústria siderúrgica é grande consumidora de energia e de materiais e, também, é responsável por significativo volume de efluentes gasosos e líquidos, bem como de resíduos sólidos, especialmente nas etapas de coqueria, sinterização e alto-forno. Por isso, a indústria tem sido induzida a buscar processos mais eficientes e a reciclar produtos e subprodutos do processo. No que se refere à indústria siderúrgica, as vantagens comparativas do Brasil são evidentes, relativamente à maior parte dos países, em especial por possuir uma das maiores reservas de minério de ferro de boa qualidade do mundo. A indústria siderúrgica brasileira iniciou sua produção com a instalação, em 1921, da usina de Sabará, em Minas Gerais, de propriedade da Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. Em 1939, a companhia iniciou a produção de aço na usina de João Monlevade, também em Minas Gerais. Outro marco importante da siderurgia brasileira foi a instalação da Companhia Siderúrgica Nacional (CSN) em 1946, à época a maior usina siderúrgica integrada a coque da América Latina, financiada por fundos do governo e, parcialmente, por investimento americano. Ela Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 3 Ministério de Minas e Energia fez parte da política do Governo Getúlio Vargas, que tinha como meta o crescimento e a nacionalização da indústria de base brasileira, procurando reverter, neste caso, a dependência do País de produtos siderúrgicos importados. Em 1946, a CSN iniciou a produção do coque metalúrgico e, no mesmo ano, foram ativados os altos-fornos e a aciaria. Com a entrada em operação, em 1948, da laminação, o País atingiu a autonomia na produção de ferro e aço. Na seqüência, ocorreu um forte ciclo de investimentos na indústria siderúrgica brasileira, com instalação de novas plantas siderúrgicas no País: Acesita (1953), Cosipa (1965) e Usiminas (1962). Com o crescimento da economia brasileira ao longo da década de 60, houve necessidade de aumento das importações de aço e, como conseqüência, foi criado em 1971 o Plano Siderúrgico Nacional (PSN), que deu início a um novo ciclo de expansão da siderurgia brasileira que tinha por meta quadruplicar a produção nacional de aço. Dessa forma, entre 1973 e 1986, foram realizados importantes investimentos nas expansões da CSN, da Usiminas e da Cosipa, na instalação da Usina Siderúrgica da Bahia (USIBA), a única planta siderúrgica no País que utilizava o processo de redução direta do minério de ferro à base do gás natural, e na instalação de duas novas grandes usinas siderúrgicas, a Companhia Siderúrgica de Tubarão (CST), em 1983, e a Açominas que iniciou operação em 1986. Ao longo da década de 80, houve uma retração do mercado interno de produtos siderúrgicos, em conseqüência da fraca expansão da economia, e a siderurgia brasileira iniciou um movimento no sentido de conquistar uma fatia do mercado externo. No entanto, o mercado mundial também estava desaquecido e se fechava através de medidas protecionistas, restritivas à importação. A siderurgia brasileira começou a vivenciar momentos difíceis. A partir do final da década de 80 e início da de 90, ocorre uma mudança significativa na organização empresarial da siderurgia brasileira. Integrado numa perspectiva global de que a forte presença do Estado na economia havia atingido o seu esgotamento, pensamento que perpassou a maioria das economias mundiais e provocou a reorganização empresarial de importantes setores da atividade econômica brasileira, tais como telecomunicações e energia elétrica, iniciou-se o processo de privatização do setor siderúrgico. Numa primeira fase, com início em 1988, foram privatizadas empresas de menor porte e, no período 19911993, seguiu-se a privatização de seis grandes companhias: Usiminas, CST, Acesita, CSN, Cosipa e Açominas. Nos primeiros anos do século XXI, a indústria siderúrgica priorizou investimentos em modernização tecnológica das usinas. Atualmente, o parque siderúrgico nacional é constituído por 25 usinas, sendo 10 integradas e 15 semi-integradas ou parcialmente Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 4 Ministério de Minas e Energia integradas, controladas por sete grupos empresariais: ArcelorMittal Brasil, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Gerdau, Usiminas, Votorantim, Valourec & Mannesman (V&M) do Brasil e Villares. No momento da elaboração do presente estudo (primeiro semestre de 2008), configuravase um novo ciclo de importantes investimentos na siderurgia brasileira para os próximos anos, que deveria mais do que dobrar a capacidade instalada de produção de aço em dez anos, tendo em vista, não só o mercado interno, mas, também, a exportação de semiacabados e produtos laminados. Porém, em função das atuais condições decorrentes da crise financeira internacional, o cenário de expansão da siderurgia aqui apresentado poderá sofrer alterações, principalmente no curto prazo, uma vez que alguns novos projetos poderão ser postergados, em virtude de uma provável desaceleração da demanda mundial. No entanto, ainda é prematura a avaliação sobre a extensão e a profundidade da crise, suas conseqüências sobre o crescimento da economia mundial e seus reflexos na expansão da indústria mundial e do setor siderúrgico brasileiro, em particular. Este relatório é composto, além desta Introdução, por sete outras seções: a Seção 2, que apresenta o panorama mundial e nacional da indústria; na Seção 3, descrevem-se o processo produtivo e as principais rotas tecnológicas da siderurgia; a Seção 4 trata das melhores práticas internacionais, em termos de eficiência energética; a Seção 5 contempla a descrição das principais rotas tecnológicas da siderurgia brasileira; na Seção 6, apresenta-se um cenário de expansão potencial do parque siderúrgico brasileiro; a Seção 7 ocupa-se da análise do consumo de energia na siderurgia, com base nos consumos unitários de materiais e nos consumos específicos de energéticos; e, finalmente, a seção 8 aborda questões relativas às perspectivas tecnológicas da indústria siderúrgica mundial. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 5 Ministério de Minas e Energia (Esta página foi intencionalmente deixada em branco para o adequado alinhamento de páginas na impressão com a opção frente e verso - “double sided”) Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 6 Ministério de Minas e Energia 2. Panorama da indústria siderúrgica 2.1 Panorama mundial O período compreendido entre os anos de 1950 e 1973 foi caracterizado por uma forte expansão da indústria siderúrgica mundial, quando a produção de aço bruto cresceu a um ritmo de 5,8% ao ano, passando de 190 para 696 milhões de toneladas anuais. Certa estagnação da indústria siderúrgica mundial foi registrada entre os anos 70 e 90, período em que houve os dois choques do preço do petróleo e a fragmentação da União Soviética, o que encareceu os custos da indústria, além de enfraquecer a demanda mundial de aço. Entre 1973 e 1998, a produção mundial de aço subiu, em média, 0,4% ao ano, atingindo 777 milhões de toneladas em 1998. A partir de então, a indústria siderúrgica mundial volta a apresentar altas taxas de crescimento apoiado principalmente na forte expansão da economia chinesa. Com isso, entre os anos de 1998 e 2007, houve incremento médio de 5,6% ao ano da produção mundial de aço bruto, atingindo em 2007 o montante de 1,3 bilhões de toneladas (Gráfico 2). A Tabela 1 mostra a evolução da produção anual de aço bruto entre 1997 e 2007, para os principais produtores mundiais em 2007. Os três países que mais se destacaram pelos incrementos em suas produções foram China, Índia e Ucrânia, que apresentaram os respectivos crescimentos de 16,2% a.a., 8,1% a.a. e 5,3% a.a. no período. O acréscimo médio anual da produção chinesa, no período 2000-2007, foi de 51,7 milhões de toneladas anuais, o que é bem superior à produção brasileira atual, e, nos últimos quatro anos, a expansão da produção chinesa foi inclusive mais acelerada, com uma média de 66,7 milhões de toneladas anuais. O Brasil, que em 1997 produziu 26,2 milhões de toneladas de aço bruto, alcançou um total de 33,8 milhões de toneladas em 2007, com crescimento médio de 2,6% ao ano neste período. Em 2007, a produção brasileira de aço bruto foi a nona maior no ranking mundial. A expansão da produção brasileira de aço bruto, em 2007, foi de 9,3%. Além disso, a produção em 2007 foi superior em 2,7% à maior produção atingida anteriormente, que foi de 32,9 milhões de toneladas em 2004. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 7 Ministério de Minas e Energia Gráfico 2 – Produção mundial de aço bruto, 1950 – 2007 (106 t/ano) 1.400 1.300 1.200 1.100 1.000 900 800 ANO PRODUÇÃO 1950 1960 1970 1980 1990 190 347 595 717 770 2000 2005 2006 2007 848 1.146 1.250 1.344 Crescimento Acelerado da China 2º Choque do Petróleo 1º Choque do Petróleo 700 Fragmentação da URSS 600 500 400 300 200 100 2006 2004 2002 2000 1998 1996 1994 1992 1990 1988 1986 1984 1982 1980 1978 1976 1974 1972 1970 1968 1966 1964 1962 1960 1958 1956 1954 1952 1950 0 Fonte: Reproduzido de Apresentação por Marco Polo de Mello Lopes, “Panorama do desenvolvimento da siderurgia brasileira”, Associação Brasileira de Metalurgia (ABM), XXXVIII SEMINÁRIO DE ACIARIA, maio de 2007. Disponível em: http://www.abmbrasil.com.br/cim/download/seminarioaciaria07palestraconvidada02.pdf. Atualização EPE. Tabela 1 – Produção de aço bruto, por país, 1997-2007 (106 t/ano) País 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 China 108,9 114,6 124,0 127,2 150,9 182,2 222,4 280,5 355,8 422,7 489,2 Japão 104,5 93,5 94,2 106,4 102,9 107,7 110,5 112,7 112,5 116,2 120,2 Estados Unidos 98,5 98,7 97,4 101,8 90,1 91,6 93,7 99,7 94,9 98,6 98,2 Rússia 48,5 43,8 51,5 59,1 59,0 59,8 61,5 65,6 66,1 70,8 72,2 Coréia do Sul 42,6 39,9 41,0 43,1 43,9 45,4 46,3 47,5 47,8 48,5 51,4 Alemanha 45,0 44,0 42,1 46,4 44,8 45,0 44,8 46,4 44,5 47,2 48,6 Índia 24,4 23,5 24,3 26,9 27,3 28,8 31,8 32,6 45,8 49,5 53,1 Ucrânia 25,6 24,4 27,5 31,8 33,1 34,1 36,9 38,7 38,6 40,9 42,8 Itália 25,8 25,7 24,9 26,8 26,5 26,1 27,1 28,6 29,4 31,6 32,0 Brasil 26,2 25,8 25,0 27,9 26,7 29,6 31,1 32,9 31,6 30,9 33,8 248,9 243,4 237,2 250,3 245,1 253,6 263,7 283,5 279,2 293,2 302,8 37,0 36,1 34,6 39,1 37,4 40,9 43,0 45,9 45,3 45,3 48,3 América [B] 166,5 166,1 164,6 174,5 157,2 163,8 169,2 179,9 172,9 177,0 181,1 Mundo [C] 799,0 777,3 789,0 847,7 850,3 903,9 969,7 1.068,7 1.146,2 1.250,0 1.344,3 Demais países América do Sul [A] Brasil/[A] (%) 70,7 71,3 72,3 71,2 71,5 72,5 72,4 71,7 69,8 68,2 70,0 Brasil/[B] (%) 15,7 15,5 15,2 16,0 17,0 18,1 18,4 18,3 18,3 17,5 18,7 Brasil/[C] (%) 3,3 3,3 3,2 3,3 3,1 3,3 3,2 3,1 2,8 2,5 2,5 Fonte: IISI e IBS. Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 8 Ministério de Minas e Energia Nos últimos dez anos, em torno de 70% da expansão da produção mundial de aço bruto é proveniente da China, aumentando expressivamente sua participação na indústria siderúrgica. A produção chinesa, que em 1997 correspondia a cerca de 14% do total de aço bruto produzido no mundo, alcançou o montante de 489 milhões de toneladas anuais em 2007, o que equivale a mais de 36% do total mundial (Gráfico 3). Gráfico 3 – Produção total de aço bruto, por país, 1997-2007 (106 t/ano) 1.600 Demais países Brasil 1.400 Itália 1.200 Ucrânia 1.000 Índia 800 Alemanha 600 Coréia do Sul Rússia 400 Estados Unidos 200 0 1997 Japão China 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: IISI e IBS. Elaboração EPE. Desde 2003, o Brasil, à semelhança de muitos outros países, vem perdendo participação na produção mundial de aço bruto, passando de 3,3% para 2,5% da produção mundial de aço bruto, em decorrência de uma estagnação de sua produção, aliada ao incremento acelerado da produção chinesa. O Brasil foi o nono maior produtor mundial de aço bruto em 2007 e o segundo maior produtor de aço bruto da América, atrás apenas dos Estados Unidos, que ocupa a terceira posição no ranking mundial (Gráfico 4). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 9 Ministério de Minas e Energia Gráfico 4 – Produção de aço bruto, por país, 2007 (106 toneladas) Irã Polônia Bélgica UK Canadá México Espanha França Taiwan Turquia Itália Brasil Ucrânia Alemanha Coreia do Índia Russia EUA Japão China 10,1 10,6 10,7 Produção 14,3 15,6 17,6 19,0 19,2 20,9 25,8 32,0 33,8 42,8 48,6 51,4 53,1 72,2 98,2 120,2 0 100 mundial total = 1.344 milhões toneladas 489,2 200 300 400 500 Fonte: IISI. Elaboração EPE. A Tabela 2 apresenta as exportações líquidas de produtos acabados e semi-acabados de aço para os anos entre 1997 e 2006. Apesar de se tratar de dados referentes a produtos acabados e semi-acabados, pode-se utilizá-los para comparação com a produção e o consumo aparente de aço bruto, uma vez que a maioria das usinas siderúrgicas atinge pelo menos o estágio do processo de produção correspondente aos produtos semi-acabados. Atualmente, o país que tem o maior saldo, em volume, no comércio exterior de produtos acabados e semi-acabados de aço bruto é a China, que disponibilizou 32,6 milhões de toneladas para os demais países em 2006, montante um pouco superior à produção brasileira nesse mesmo ano. Por outro lado, os Estados Unidos, também em 2006, importaram praticamente o mesmo volume disponibilizado pela China para atender integralmente a sua demanda interna. Outros países que também se destacaram pelo saldo positivo no volume de produtos acabados e semi-acabados de aço em 2006 foram o Japão (30,1 milhões de t), a Ucrânia (29,1 milhões de t), a Rússia (25,6 milhões de t) e o Brasil (10,7 milhões de t). Entretanto, o Brasil já alcançou saldos maiores, com um máximo em 2003, de 12,4 milhões de toneladas. É importante ressaltar que há uma dependência cada vez maior do conjunto dos “demais países” em relação aos dez maiores produtores mundiais de produtos acabados e semiacabados de aço bruto. O volume necessário para complementar a demanda desses países saltou de 20,3 milhões de toneladas, em 1997, para 83 milhões de toneladas em 2006, um crescimento de 16,9% ao ano. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 10 Ministério de Minas e Energia Tabela 2 – Exportações líquidas de produtos acabados e semi-acabados de aço, por país, 1997-2006 (106 t/ano) País China Japão Estados Unidos Rússia Coréia do Sul 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 -4,9 -7,5 -11,3 -9,7 -18,3 -22,6 -35,0 -13,1 0,1 32,6 16,5 20,1 21,3 23,4 25,4 31,9 30,5 30,6 26,8 30,1 -23,3 -33,2 -28,1 -29,0 -22,1 -24,6 -13,9 -24,9 -20,8 -32,6 22,0 20,8 24,7 24,6 22,5 25,5 24,9 26,3 26,3 25,6 1,9 14,8 4,8 2,4 3,2 -1,2 -1,6 -2,7 -2,7 -4,4 6,2 3,7 3,3 4,4 4,8 6,9 6,6 7,3 5,6 4,9 Índia -0,6 -1,0 0,2 1,2 1,4 1,8 3,0 2,7 0,7 1,2 Ucrânia 15,6 15,6 18,6 21,8 23,8 25,2 25,7 27,4 26,3 29,1 Itália -3,0 -5,6 -6,1 -5,2 -5,4 -5,2 -6,1 -5,9 -3,9 -6,9 Brasil 8,4 7,1 9,3 8,6 8,2 11,0 12,4 11,4 11,8 10,7 -20,3 -22,0 -21,5 -35,1 -35,6 -48,3 -46,0 -55,3 -62,3 -83,0 6,7 5,0 9,4 8,2 7,7 12,5 11,7 11,3 11,5 7,5 -14,9 -28,7 -18,2 -25,9 -18,8 -16,8 -5,7 -19,2 -15,5 -35,3 Alemanha Demais países América do Sul America Fonte: IISI. Elaboração EPE. O Gráfico 5 mostra a evolução da produção e do consumo aparente de aço bruto no Brasil, além das importações e das exportações brasileiras de produtos acabados e semi-acabados de aço entre 1997 e 2007. Neste período, a produção cresceu 2,6% ao ano, enquanto o consumo aparente teve um incremento médio maior, de 3,5% ao ano. Porém, como o volume de aço bruto produzido é bem superior ao do seu consumo aparente, as exportações líquidas aumentaram no período. Entre 1997 e 2007, as importações brasileiras de produtos acabados e semi-acabados de aço tiveram um aumento médio de 7,9% ao ano, passando de 753 mil para 1,6 milhão de toneladas, tendo atingido um máximo de 1,9 milhão de toneladas, em 2006. As exportações brasileiras apresentaram um crescimento médio anual, no período, de 1,2%, atingindo o volume máximo em 2003, de 13 milhões de toneladas, situando-se, em 2007, ao nível de 10,3 milhões de toneladas. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 11 Ministério de Minas e Energia Gráfico 5 – Brasil: Histórico do crescimento do mercado de aço, 1997-2007 (106 t/ano) 40 35 30 25 20 15 10 5 0 1997 1998 1999 Exportações 2000 2001 Importações 2002 2003 Produção 2004 2005 2006 2007 Consumo Aparente Nota: Os dados são relativos à produção de aço bruto, ao consumo aparente de produtos siderúrgicos e os dados de exportações e importações utilizados são referentes a produtos acabados e semi-acabados de aço. Fonte: IBS. Elaboração EPE. Para efeito comparativo, o Gráfico 6 apresenta, para o período de 1997 a 2006, a evolução das produções e dos consumos aparentes de aço bruto, além das importações e das exportações de produtos acabados e semi-acabados de aço bruto, referentes a seis países selecionados: China, Estados Unidos, Itália, Índia, Japão e Coréia do Sul. A China, que é o país com o maior consumo aparente de aço bruto do mundo, era importadora líquida de produtos do aço até 2004, mas passou a ser exportadora líquida a partir de 2005, quando sua produção passou a superar o consumo aparente de aço bruto. Assim como a China, a Índia atingiu recentemente um nível de produção que supre integralmente o seu consumo aparente, passando, assim, a ser exportadora líquida de aço. Por outro lado, a Coréia do Sul, que tinha uma produção que superava o seu consumo aparente de aço bruto até 2001, passou a ser importadora líquida de aço a partir de 2002. A Rússia e o Japão mantiveram-se, no período analisado, como grandes produtores de aço bruto, o que os colocava entre os países com os melhores saldos, em volume, das exportações líquidas de aço. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 12 Ministério de Minas e Energia Gráfico 6 – Histórico do crescimento do mercado de aço para países selecionados, 19972006 (106 t/ano) China Estados Unidos 450 120 400 100 350 300 80 250 60 200 150 40 100 20 50 0 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 Índia 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2002 2003 2004 2005 2006 2003 2004 2005 2006 Rússia 80 60 70 50 60 40 50 30 40 30 20 20 10 10 0 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 Japão 2001 Coréia do Sul 160 60 140 50 120 40 100 80 30 60 20 40 10 20 0 0 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 1997 1998 1999 2000 2001 2002 1 00 0 1 9 9 7 1 9 9 8 1 9 9 9 2 000 2 001 2 002 2 003 2 004 2 005 Exportações 2 006 Importações Produção Consumo Aparente Nota: Os dados relativos à produção e consumo aparente dizem respeito ao aço bruto, enquanto os dados de exportações e importações utilizados são referentes a produtos acabados e semi acabados de aço bruto. Fonte: IISI. Elaboração EPE. Já os Estados Unidos vêm se mantendo como os principais importadores mundiais de produtos acabados e semi-acabados de aço, pois ainda que tenham uma das maiores produções de aço bruto do mundo, ela não é suficiente para suprir o seu consumo aparente de aço bruto, o segundo maior consumo do mundo em 2006. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 13 Ministério de Minas e Energia O Brasil tem, neste sentido, características semelhantes às apresentadas pelo Japão e pela Rússia, já que produz muito mais aço do que o necessário para o seu consumo interno, assumindo um papel exportador deste importante insumo para a indústria mundial.A maioria das exportações brasileiras de aço (51,9% do total em 2007) é destinada aos demais países da América, sendo 62% deste montante destinado à América Latina e o restante exportado para a América do Norte. Outras localidades com destaque em relação ao volume de aço exportado pelo Brasil são a Europa (21,1% do total) e a Ásia (19,8%). A Figura 1 mostra a distribuição do destino das exportações brasileiras de aço em 2007, segundo a região. Figura 1 – Destinação das exportações brasileiras de aço, 2007 Fonte: Reproduzido de Apresentação por Marco Polo de Mello Lopes, “Panorama do desenvolvimento da siderurgia brasileira”, Associação Brasileira de Metalurgia (ABM), XXXVIII SEMINÁRIO DE ACIARIA, maio de 2007. Disponível em: http://www.abmbrasil.com.br/cim/download/seminarioaciaria07palestraconvidada02.pdf. Atualização EPE. O Gráfico 7 apresenta o consumo per capita de aço bruto em países selecionados da América Latina, da Europa, da Ásia e dos Estados Unidos para o ano de 2007. Nota-se que o consumo per capita de aço dos países da América Latina ainda se encontra muito abaixo dos valores verificados nos outros países analisados. No Brasil, o consumo per capita de aço em 2007 foi em torno de 115 quilogramas, muito abaixo do registrado na Coréia do Sul (1.136 kg/hab), o maior verificado, e mesmo inferior ao do México (167 kg/hab), o maior da América Latina, o que indica que ainda há um grande espaço para o crescimento da demanda de aço no País. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 14 Ministério de Minas e Energia Gráfico 7 – Consumo aparente per capita de aço no Brasil e no Mundo, 2007 (kg/hab) China 307 Japão 626 R.F. Alemanha 463 EUA 354 Espanha 556 Itália 628 Coréia do Sul 1.136 Argentina 116 México 167 Chile 161 Brasil Brasil 115 0 200 400 600 800 1.000 1.200 1.400 Fonte: IISI. Elaboração EPE. 2.2 Panorama nacional A produção siderúrgica nacional está concentrada em relativamente poucas empresas, sendo que cinco delas respondem por mais de 93% da produção de aço bruto. São elas: Belgo ArcelorMittal Brasil, CSN, CST Arcelor Brasil, Gerdau e Usiminas/Cosipa. O grupo Usiminas/Cosipa, maior produtor nacional de aço bruto, responde por cerca de 26% da produção nacional. A Tabela 3 mostra a evolução da produção de aço bruto por empresa nos últimos anos. Tabela 3 – Brasil - Produção de aço bruto, por empresa, 2001-2007 (10³ t) Empresa 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Acesita 786 709 749 835 753 810 797 Aços Villares 508 595 661 816 680 704 0 Barra Mansa 392 387 421 564 579 638 624 Belgo Arcelor Brasil 2.668 2.827 2.889 3.250 3.272 3.569 3.739 CSN 4.048 5.107 5.318 5.518 5.201 3.499 5.323 CST Arcelor Brasil 4.784 4.904 4.812 4.958 4.850 5.136 5.692 Gerdau 5.826 5.999 6.976 7.284 6.889 6.994 8.111 31 24 36 0 0 0 0 7.080 8.447 8.621 8.951 8.661 8.770 8.675 500 500 551 611 592 659 686 MWL Brasil Usiminas/Cosipa V&M do Brasil Villares Metais Total 94 105 113 122 133 122 135 26.717 29.604 31.147 32.909 31.610 30.901 33.782 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 15 Ministério de Minas e Energia No que diz respeito ao tipo de aço produzido, em torno de 90% da produção nacional é de aço carbono e os restantes 10% de aços ligados especiais, como se pode ver na Tabela 4. Tabela 4 – Brasil - Produção de aço bruto, por tipo de aço, 2001-2007 (10³ t) Tipo Aço carbono Aço ligado Total 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 25.187 27.897 285.959 30.401 29.145 27.555 30.199 1.530 1.707 2.188 2.508 2.465 3.346 3.583 29.604 288.147 32.909 31.610 30.901 33.782 26.717 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. A Tabela 5 mostra a estrutura da produção brasileira, por tipo de aciaria. Observa-se que a aciaria a oxigênio responde pela maior parcela da produção de aço (74% em 2007). O restante da produção provém quase todo de aciarias elétricas (24%), isto é, aciarias a forno elétrico a arco, e menos de 2% utilizam o chamado forno de energia otimizada (EOF). Por sua vez, o lingotamento contínuo respondeu por 93% das operações de lingotamento das siderúrgicas brasileiras em 2007. Tabela 5 – Brasil - Produção de aço bruto, por tipo de aciaria e de lingotamento, 20012007 (10³ t) 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 20.831 23.093 23.986 24.825 24.071 22.821 25.130 5.403 5.985 6.589 7.513 6.959 7.541 8.081 483 526 572 571 580 539 571 26.717 29.604 31.147 32.909 31.610 30.901 33.782 2.221 2.168 2.488 2.357 2.364 2.337 2.228 24.470 27.406 28.628 30.514 29.206 28.523 31.511 26 32 31 38 40 41 43 Aciaria Oxigênio (conversor LD)/BOF Elétrica EOF Total Lingotamento Convencional Contínuo Aço p/ Fundição Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. A produção brasileira de laminados, produto final da cadeia siderúrgica nas usinas integradas, atingiu 25,9 milhões de toneladas em 2007, das quais 61% de aços planos e 39% de aços longos. A produção de laminados expandiu, em média, 6,1% ao ano no período 2001-2007. A Tabela 6 mostra a evolução da produção, por empresa, de laminados no período, por tipo de produto (produtos planos e longos, aços carbono e aços especiais). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 16 Ministério de Minas e Energia Tabela 6 – Brasil - Produção de laminados por tipo e por empresa, 2001-2007 (10³ t) Empresa Produtos Planos Aços Carbono . Acesita . CSN . CST Arcelor Brasil . Usiminas/Cosipa Aços Especiais-Ligados 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 10.648 11.408 13.202 14.441 14.187 14.454 15.691 10.179 10.906 12.556 13.755 13.575 13.806 15.045 88 64 33 47 54 58 58 3.754 4.178 4.568 4.767 4.534 4.055 4.892 0 118 1.192 1.943 2.340 2.708 2.819 6.337 6.546 6.763 6.998 6.647 6.985 7.276 469 502 646 686 612 648 646 469 502 646 686 612 648 646 Produtos Longos 7.425 7.624 7.888 8.927 8.420 9.050 10.159 Aços Carbono . Acesita 6.793 6.980 7.140 8.050 7.728 8.346 9.170 . Aços Villares 140 142 137 182 143 132 - . Barra Mansa 352 355 396 453 446 505 536 2.632 2.733 2.676 3.110 3.010 3.318 3.482 . Belgo-Arcelor Brasil . Excell 17 0 0 0 0 0 3.336 3.429 3.616 3.981 3.813 4.054 4.772 315 319 313 322 313 333 376 1 2 2 2 3 4 4 632 644 748 877 692 704 989 3 1 0 0 0 0 - . Aços Villares 204 213 246 263 248 227 - . Gerdau 243 244 278 357 200 187 692 . V&M do Brasil 130 123 153 186 179 224 227 . Villares Metais 52 63 71 71 65 66 70 18.073 19.032 21.090 23.368 22.607 23.504 25.850 . Gerdau . V&M do Brasil . Villares Metais Aços Especiais-Ligados . Acesita Total Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. A produção de semi-acabados para venda, por empresa, evoluiu conforme apresentado na Tabela 7. Em 2007, 69% da produção de semi-acabados foi de placas e os 31% restantes constituídos por lingotes, blocos e tarugos. O maior produtor de placas foi a CST Arcelor Brasil, com 64% da produção, seguido do grupo Usiminas/Cosipa, com 22%. Por sua vez, a Gerdau respondeu por 93% da produção de lingotes, blocos e tarugos, seguida da Belgo Arcelor Brasil (4%) e da Siderúrgica Barra Mansa (3%). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 17 Ministério de Minas e Energia Tabela 7 – Brasil - Produção de produtos semi-acabados para vendas, por empresa, 2001-2007 (10³ t) Empresa Placas Acesita CSN CST Arcelor Brasil 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 5.937 6.883 5.352 5.701 4.186 4.095 4.275 0 11 0 5 0 0 0 257 457 447 388 165 243 325 4.742 4.865 3.553 2.966 2.422 2.372 2.742 Gerdau 451 275 212 1.171 326 316 267 Usiminas/Cosipa 487 1.275 1.140 1.171 1.273 1.164 941 1.780 1.978 2.677 2.450 2.443 2.252 1.886 Lingotes, Blocos e Tarugos Acesita 151 57 0 0 0 0 0 56 106 130 178 158 214 - Sid. Barra Mansa 0 0 0 74 87 86 47 Belgo-Arcelor Brasil 7 26 75 28 140 161 76 1.556 1.781 2.462 2.141 2.032 1.780 1.763 10 8 10 29 26 11 - 7.717 8.861 8.029 8.151 6.629 6.347 6.161 Aços Villares Gerdau V&M do Brasil Total Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. A produção de ferro-gusa brasileira é oriunda tanto das siderúrgicas integradas a coque, quanto dos denominados guseiros independentes que produzem apenas o ferro-gusa, para posterior utilização nas usinas siderúrgicas. A Tabela 8 apresenta a evolução, no período 2001-2007, da produção brasileira de ferrogusa, elemento principal na composição da carga metálica das aciarias nas usinas siderúrgicas integradas. Os guseiros independentes responderam, em conjunto, por cerca de 28% da produção de ferro-gusa em 2007 e, entre as empresas produtoras de aço, o maior produtor é o grupo Usiminas/Cosipa, que respondeu por 24% da produção nacional de gusa. Tabela 8 – Brasil - Produção de ferro-gusa por empresa, 2001-2007 (10³ t) Empresa 2001 2002 Acesita 610 536 589 641 628 702 689 Belgo-Arcelor Brasil 991 971 1.002 1.090 1.102 1.104 1.408 CSN 3.922 4.961 5.211 5.372 4.969 3.345 5.114 CST Arcelor Brasil 5.014 5.024 4.790 4.971 4.843 5.094 5.992 Gerdau 3.070 3.080 3.619 3.619 3.658 3.674 3.694 Usiminas/Cosipa 7.032 8.091 8.426 8.615 8.329 8.462 8.436 474 476 533 593 581 604 610 6.278 6.555 7.869 9.657 9.774 9.467 9.628 27.391 29.694 32.039 34.558 33.884 31.750 34.882 V&M do Brasil Guseiros Independentes Total 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 18 Ministério de Minas e Energia Por sua vez, existe um único produtor nacional de ferro-esponja, a Gerdau USIBA, que utiliza esse insumo como carga metálica na aciaria elétrica da usina. A produção da USIBA, no período 2001-2007, está apresentada na Tabela 9. Tabela 9 – Brasil - Produção de ferro-esponja por empresa, 2001-2007 (10³ t) Empresa 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Gerdau USIBA 340 361 410 440 411 376 362 Total 340 361 410 440 411 376 362 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. Juntamente com o minério de ferro, o carvão metalúrgico se constitui no principal insumo para a produção siderúrgica nacional, sendo quase a totalidade do mesmo oriundo de importações: em 2007, foram importados cerca de 14,9 milhões de toneladas de carvão metalúrgico para uma produção nacional de 144 mil toneladas. Do total de carvão metalúrgico consumido pelo setor, 10,4 milhões de toneladas foram processadas nas coquerias das usinas siderúrgicas brasileiras e 3,4 milhões de toneladas foram injetadas ou alimentadas diretamente nos altos-fornos. (EPE/MME, 2008)1. Outra característica específica da indústria siderúrgica brasileira é a participação do carvão vegetal na produção de gusa (Gráfico 8). A grande maioria dos guseiros independentes utiliza o carvão vegetal na produção do ferro-gusa. Em 2007, foi iniciada a produção de ferro-gusa a partir do coque na Usipar (Pará), no entanto ainda em volume não significativo quando comparado à produção total dos guseiros independentes. As principais características do carvão vegetal, em comparação com o coque, traduzem-se em menor estabilidade mecânica, conteúdo de cinzas muito inferior e conteúdo de material volátil muito superior. O uso de carvão vegetal em grandes alto-fornos é limitado por sua baixa resistência mecânica. Embora o uso de carvão vegetal não resulte em ganho de eficiência energética, ele pode reduzir significativamente as emissões de CO2, desde que sua produção seja feita de maneira sustentável. O estado de Minas Gerais, além de concentrar a maior parcela de produção siderúrgica por estado no Brasil, também é aquele que responde pelo maior consumo industrial de carvão vegetal (Gráfico 9). Este padrão de consumo é viabilizado devido aos custos de combustíveis praticados naquele estado (Gráfico 10), lembrando que o energético empregado tem que possuir propriedades redutoras aplicáveis ao processo siderúrgico. Outro fator que merece destaque é a elevação da produtividade florestal para a produção de carvão vegetal observada nos últimos anos. A expectativa para 2015 é de se atingir um valor em torno de 27 t/ha (Gráfico 11). 1 É importante ressaltar que os dados relativos ao carvão mineral constantes do Balanço Energético Nacional podem diferir dos divulgados por outros órgãos, por conta da metodologia utilizada nesta publicação, onde tais dados estão referenciados a um poder calorífico médio para determinado tipo de carvão. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 19 Ministério de Minas e Energia Gráfico 8 – Participação do carvão vegetal na produção de ferro-gusa (2007) Guseiros independentes 27,0% Carvão Vegetal Usinas integradas a coque 67,4% Usinas integradas a carvão vegetal 5,6% Nota: a produção dos guseiros independentes é hoje praticamente toda feita a partir do carvão vegetal, embora já tenha sido iniciada a produção de gusa a partir do coque na Usipar (Pará), porém em montante ainda pouco significativo quando comparado à produção total dos guseiros independentes. Fonte: V&M do Brasil (2008). Elaboração EPE. Gráfico 9 – Participação dos estados brasileiros no consumo de carvão vegetal (2007) ES (3%) Outros (6%) SP (3%) PA/MA (25%) MG (63%) Fonte: V&M do Brasil (2008). Elaboração EPE Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 20 Ministério de Minas e Energia Gráfico 10 – Custos relativos da energia no estado de Minas Gerais 35,0 31,1 30,0 26,4 25,0 22,6 20,5 20,2 20,0 14,8 15,0 11,5 10,0 7,5 5,0 sn at ur al Gá et or ta tr ão -r st ív el Al ca co m bu in er al m Ól eo vã o Ca r pe tr ó Co qu e m de et al le o úr gi co l ge ta ve Co qu e vã o Ca r Ma de ira de eu ca l ip to 0,0 Fonte: V&M do Brasil (2008). Elaboração EPE. Gráfico 11 – Evolução da produtividade florestal no Brasil 30 27,0 t madeira seca/ha/ano 25 19,8 20 15 10 5 8,3 9,9 1990 1998 2,2 0 1980 2007 2015 estimativa Fonte: V&M do Brasil (2008). Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 21 Ministério de Minas e Energia Na produção siderúrgica nacional, a sucata ferrosa utilizada como componente da carga metálica das aciarias é quase toda de origem nacional, seja oriunda de geração interna do próprio setor siderúrgico, como subproduto das plantas siderúrgicas, ou adquirida no mercado interno através de produtos descartados pelos consumidores. Em 2007, a geração interna de sucata pelas usinas siderúrgicas atingiu 2,9 milhões de toneladas e a aquisição no mercado interno foi de 6,3 milhões de toneladas. O consumo de sucata da indústria siderúrgica foi de 8,9 milhões de toneladas. O balanço de sucata, para o período 20012007, é apresentado na Tabela 10. Tabela 10 – Brasil - Balanço de sucata ferrosa, 2001-2007 (10³ t) Empresa 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Geração Interna 3.099 3.305 3.291 3.467 3.083 2.973 2.876 Aquisição no Mercado Interno 4.024 4.267 5.185 5.436 5.131 5.847 6.315 Consumo 7.074 7.320 8.128 8.487 8.125 8.544 8.853 Importações 11 13 50 68 92 56 46 Exportações 13 13 10 13 12 34 85 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. A Tabela 11 mostra a evolução da produção própria de coque por empresa siderúrgica a partir de carvão mineral importado. O maior produtor de coque é o grupo Usiminas/Cosipa, que respondeu, em 2007, por 35% da produção. Tabela 11 – Brasil - Produção própria de coque por empresa, 2001-2007 (10³ t) Empresa 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 CSN 1.696 1.738 1.689 1.688 1.666 1.477 1.671 CST Arcelor Brasil 1.626 1.535 1.779 1.815 1.818 1.795 2.699 Gerdau 1.151 1.154 1.151 1.141 1.129 1.137 1.169 Usiminas/Cosipa 2.963 2.928 2.847 3.206 3.127 3.084 2.976 Total 7.436 7.355 7.466 7.850 7.740 7.493 8.515 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. O consumo nacional de coque pela indústria siderúrgica já atingiu 9,5 milhões de toneladas, em 2003, sendo que, nesse mesmo ano, foi importado um montante de 2,6 milhões de toneladas de coque. A produção nacional, em 2007, foi de 8,5 milhões de toneladas, o consumo atingiu 9,5 milhões de toneladas (aproximadamente o mesmo nível de 2003) e a importação foi de 1,6 milhões de toneladas (Tabela 12). Existe ainda uma quantidade de coque adquirida pelas usinas siderúrgicas de outros produtores nacionais que, historicamente, era muito pequena, porém cresceu nos últimos dois anos, atingindo, em 2007, um montante de 1,0 milhão de toneladas. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 22 Ministério de Minas e Energia Tabela 12 – Brasil – Mercado de coque de carvão mineral, 2001-2007 (10³ t) Discriminação 2001 Importação Setor siderúrgico 2002 2003 2004 2005 2006 2007 1.618 2.084 2.639 2.046 1.560 1.501 1.626 Produção Própria 7.436 7.355 7.466 7.850 7.493 7.493 8.515 Consumo 8.121 8.939 9.528 9.475 9.062 9.057 9.498 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. Quanto ao tipo de produtos disponibilizados pela indústria siderúrgica brasileira, a participação dos produtos laminados, em relação ao total de laminados e semi-acabados, tem sido crescente nos últimos anos (Gráfico 12) e, em 2007, foi de aproximadamente 81%. Os produtos semi-acabados, respondendo pelos restantes 19%, apresentam predomínio das placas, com cerca de 69% em 2007 (Tabela 13). Finalmente, no que tange aos produtos laminados, predominam os aços planos (Tabela 14). Gráfico 12 – Participação dos laminados na produção total (laminados e semi-acabados) 85% 80,8% 80% 75% 70% 65% 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Fonte: IBS (2008). Elaboração EPE. Tabela 13 – Brasil – Produção de produtos semi-acabados, 2002-2007 (10³ t) Discriminação 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Placas 6.883 5.352 4.737 4.186 4.095 4.275 Lingotes, blocos e tarugos 1.958 2.677 2.450 2.443 2.252 1.886 Total 8.841 8.029 7.187 6.629 6.347 6.161 Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 23 Ministério de Minas e Energia Tabela 14 – Brasil – Produção de laminados por tipo, 2002-2007 (10³ t) Discriminação 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Produtos Planos 11.408 13.202 14.441 14.187 14.454 15.691 Produtos Longos 7.624 7.888 8.927 8.420 9.050 10.159 19.032 21.090 23.368 22.607 23.504 25.850 Total Fonte: Anuário Estatístico IBS - 2008. Por sua vez, o Gráfico 13 mostra a distribuição setorial das vendas de produtos siderúrgicos no ano de 2007, indicador que sinaliza os setores maiores consumidores de produtos do aço. Assim, o setor automobilístico e de autopeças respondeu por cerca de 19% das vendas diretas nesse ano, seguido pelo segmento de construção civil, com 13%, relaminação/trefilaria/forjaria, com 11%. Gráfico 13 – Distribuição setorial das vendas de produtos siderúrgicos (%), 2007 40% 30,9% 30% 20% 18,7% 13,2% 10% 10,6% 6,2% 5,5% 8,3% 6,4% Outros Distribuidores e Revendedores Tubos c/ costura Relaminação (fora do parque)+trefilaria arames+forjaria Utilidades domésticas e comerciais+embalagens e recipientes Construção civil Máq. e Equip. eletroeletrônicos e industriais Automobilístico+Autopeças (inclusive carrocerias) 0% Fonte: IBS (2008). Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 24 e Ministério de Minas e Energia 3. Processo produtivo e produtos O aço é uma liga de ferro e carbono, sendo o primeiro elemento obtido a partir de minérios de ferro encontrados na natureza, geralmente sob a forma de óxidos de ferro, e o segundo obtido a partir do carvão mineral ou vegetal. A produção siderúrgica contempla várias fases, a primeira das quais consiste na preparação dos materiais, essencialmente o minério de ferro e o carvão, para utilização como carga no processo. Nessa fase, procedese à aglomeração do minério que tem como objetivo dar uma conformação adequada à carga metálica que alimenta os altos-fornos, melhorando o seu rendimento, e pode ser realizada através de dois processos básicos, a sinterização e a pelotização. Por sua vez, o carvão mineral é transformado em coque metalúrgico nas coquerias. A segunda fase consiste na separação do metal (ferro) do minério, através de um processo de redução, para o qual existem basicamente três alternativas: alto-forno, redução direta e fusão redutora. Ressalta-se que o montante de redução via alto-forno representa mais de 90% do total da redução do minério de ferro. O processo mais conhecido de fusão redutora é o denominado COREX. Ao contrário do processo via alto-forno, o processo de fusão redutora utiliza diretamente o carvão mineral e o minério de ferro, sem necessidade das instalações de coqueificação e sinterização ou pelotização. A terceira fase, de refino, é realizada nas aciarias, onde é produzido o aço propriamente dito. Os dois principais tipos de aciaria são o conversor a oxigênio e o forno elétrico a arco (aciaria elétrica). As fases subseqüentes são o lingotamento e a laminação do aço. O processo de produção de aço, nas usinas siderúrgicas, segue basicamente duas rotas tecnológicas: o Usinas Integradas: as usinas integradas utilizam, para a redução do minério de ferro, os altos-fornos, que também são alimentados com o coque obtido a partir do carvão mineral nas coquerias, resultando o ferro-gusa que é transformado em aço líquido na aciaria, constituída de um forno a oxigênio, geralmente um conversor LD. o Usinas Semi-integradas: usinas que operam as fases de refino e laminação. O aço é obtido a partir da fusão de metálicos (sucata, gusa e/ou ferro esponja) e refinado em forno elétrico. A Figura 2 mostra, esquematicamente, as principais fases do processo produtivo de cada uma das duas principais rotas tecnológicas da siderurgia. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 25 Ministério de Minas e Energia Figura 2 - Indústria Siderúrgica: principais rotas tecnológicas Rota integrada Preparação de Materiais Minério de Ferro Carvão Coqueria Cal Pelotização Sinterização Minério Processado Coque Redução Alto-Forno Ferro-gusa Refino (Aciaria) Conversor a Oxigênio LD Aço Líquido Lingotamento Lingotamento Lingotamento contínuo Lingotes Fornos de reaquecimento Placas Blocos Tarugos Laminação Laminação a quente Laminação primária Laminação a frio Rota semi-integrada Materiais geralmente adquiridos de terceiros Ferro-gusa Refino (Aciaria) Sucata Ferro-esponja Forno Elétrico a Arco Aço Líquido Lingotamento Lingotamento Lingotamento contínuo Lingotes Fornos de reaquecimento Placas Blocos Tarugos Laminação Laminação a quente Laminação primária Laminação a frio Fonte: SETEPLA/TECNOMETAL engenharia. Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 26 Ministério de Minas e Energia A Tabela 15 mostra resumidamente as unidades centrais da siderurgia e seus respectivos objetivos. Tabela 15 – Unidades centrais da siderurgia Unidades Objetivo Minério de ferro Blendagem Mistura de tipos diferentes de minérios Aglomeração de finos, com produção de sínter Acerto da granulometria para carga nos altos-fornos Aglomeração de finos, com produção cativa de pelotas Carvão mineral ou vegetal Preparação de Matérias-Primas Mistura Mistura de tipos diferentes de carvão Coqueificação do carvão mineral Acerto de granulometria, retirada de umidade e de parte das cinzas Pulverização de finos para injeção Acerto granulométrico para injeção nos altos-fornos Preparação do carvão vegetal para carga nos altos-fornos Compactação e acerto de granulometria Fundentes Preparação de finos para input da sinterização Acerto de granulometria Preparação de ‘’grossos’’ para carga nos altos-fornos Acerto de granulometria Produção cativa de cal, em unidades de calcinação Redução de Ca2CO3 (calcário) para CaO (cal) Sucata ferrosa para aciaria Compactação Acerto de densidade para carga nos fornos das aciarias Corte Gás natural para redução direta Reforma Redução do minério de ferro Minério de ferro 2Fe2O3 + 3C = 4Fe + 3CO2 Em altos-fornos (produto: gusa) Redução pelo carbono do carvão Produto com C = ~ 3% Por redução direta (produto: ferro-esponja) Redução pelo carbono do gás Produto com C = ~ 1% (continua) Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 27 Ministério de Minas e Energia (continuação) Unidades Objetivo Injeção de O2 para diminuir o teor de carbono para até 0,2% Fabricação do aço Em Fornos Elétricos (EAF) Carga predominante sólida (sucata) Em Fornos (EOF) Carga mista (liquida + sólida) Metalúrgica Secundária (Forno Panela e Forno Químico) Refino do aço, adição de ligas, dessulfuração, desgaseificação Lingotamento de Aço Laminação e Acabamento Unidades acessórias Placas (largura ≥ espessura) Matéria-prima para laminação de planos Blocos e Tarugos (largura ≈ espessura) Matéria-prima para laminação de longos Laminação a Quente de Planos e Longos Produção de chapas grossas, finas a quente, vergalhões, barras, perfis, fio máquina e tubos sem costura. Laminação a Frio de Planos (Produção de chapas finas a frio) (espessura < 2 mim) Revestimento de Planos Estanhamento e cromagem de folhas (para latas) Galvanização de chapas (indústria automotiva, linha branca, construção) Trefilação de Longos Produção (a frio) de arames e derivados Subprodutos da Coqueria Produção de carboquímicos Central Termelétrica Produção de energia elétrica, com base nos gases internos de coqueria e altos-fornos Sistemas de Utilidades e Movimentação Interna Fábrica de Oxigênio Para utilização nos fornos da aciaria (instalações terceirizadas na área da usina) Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia, 2008. Elaboração EPE. 3.1 3.1.1 Preparação dos materiais Aglomeração do minério de ferro A primeira fase da cadeia de produção do aço, a partir do minério de ferro, consiste na aglomeração do minério, que é importante para conferir uma melhor uniformidade à carga que alimenta os altos-fornos, onde se dá a redução do minério, aumentando o rendimento do processo. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 28 Ministério de Minas e Energia Os dois processos habitualmente utilizados para a aglomeração do minério são a sinterização e a pelotização. Mais comumente, utiliza-se, como carga metálica do altoforno, uma mistura que poderá conter o chamado sínter (sinter-feed), pelotas, os granulados para alto-forno (granulados AF) e, ainda, sucata, em pequenas proporções. A sinterização utiliza o princípio da fusão incipiente para aglomerar a carga de material, promovendo uma mistura de finos de minério de ferro, finos de coque ou de carvão vegetal, de fundentes, de sínter de retorno e de água. A combustão do coque ou do carvão vegetal contido na carga fornece calor ao processo. Na pelotização, a força que promove a união dos finos de minério e a separação dos resíduos sólidos é a força capilar do conjunto material-água, em que a água exerce o papel de ligante. Algumas substâncias são adicionadas à mistura, como cal, para conferir maior plasticidade à pelota. As pelotas cruas são posteriormente submetidas a cozimento. 3.1.2 Coqueificação do carvão mineral Paralelamente à preparação do minério, nas usinas integradas, o carvão mineral é também submetido a um processo de beneficiamento, sendo transformado em coque metalúrgico, na unidade de coqueificação, denominada coqueria. Essa transformação do carvão em coque é feita por destilação em fornos de coqueificação a elevadas temperaturas, superiores a 1.000 oC, e na ausência de ar para evitar a combustão do carvão mineral, separando a matéria volátil do resíduo sólido com alta porcentagem de carbono que é o coque metalúrgico. Além do coque, que é o principal combustível e agente para a redução do minério de ferro nos altos-fornos das usinas integradas, resulta também o chamado gás de coqueria, constituído de hidrocarbonetos longos e simples, que é utilizado como combustível para aquecimento na própria coqueria e, parcialmente, no alto-forno e nos fornos de aquecimento. Durante o processo de coqueificação, além do gás de coqueria são recuperados ainda outros componentes orgânicos, entre os quais o óleo e outros produtos líquidos, para reutilização ou conversão em subprodutos para venda ou uso interno. Alguns dos componentes recuperados são considerados maléficos para a saúde e mesmo carcinogênicos e, conseqüentemente, requerem processamentos especiais. Além disso, os subprodutos da coqueria têm perdido valor ao longo do tempo e geralmente é antieconômico fazer a sua recuperação, porque muitos deles encontram substitutos concorrentes derivados do petróleo. Por essas razões e porque o processo de coqueificação do carvão mineral está sujeito a regulação ambiental severa, principalmente nos EUA e Europa, poderá ocorrer escassez do coque de carvão a nível mundial e a tendência é um deslocamento da produção para países em desenvolvimento. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 29 Ministério de Minas e Energia 3.2 Redução do minério de ferro A produção de ferro consiste na separação deste metal do minério. É o processo mais intensivo em capital e mais energointensivo da cadeia de produção do aço. A redução do minério pode ocorrer basicamente através de três alternativas: o A primeira delas envolve a produção de ferro-gusa em altos-fornos, que utiliza o coque de carvão mineral ou o carvão vegetal como redutor. Melhorias deste processo incluem, por exemplo: a injeção de carvão para deslocamento da demanda de coque, o uso de materiais refratários com melhores propriedades e/ou adoção de novas técnicas de controle de processo; o Outro processo utiliza normalmente o gás natural como redutor, sendo conhecido como processo de redução direta; o Finalmente, o processo conhecido como fusão redutora, objetiva produzir metal líquido diretamente a partir de finos ou concentrados de minério. Os fornos de fusão redutora utilizam geralmente carvão como combustível. Os três processos são distintos, tanto no que se refere à composição da carga que os alimenta, quanto no que diz respeito ao tipo de produto resultante. O alto-forno é o processo mais difundido na siderurgia brasileira para a redução do minério. É, geralmente, alimentado com uma carga metálica composta por granulados (granulados para alto-forno (AF)), sínter, pelotas e uma porcentagem de sucata de ferro. Esta carga metálica segue para o alto-forno, que é revestido internamente com materiais refratários, e onde se utilizam também, dependendo da planta, dois tipos de agentes redutores: coque de carvão mineral ou carvão vegetal. Ressalta-se que a grande maioria das usinas siderúrgicas integradas utiliza altos-fornos a coque. No alto-forno, através da introdução de ar pré-aquecido, dá-se a gaseificação do coque e esse gás, denominado gás de alto-forno, rico em monóxido de carbono (CO), é utilizado tanto como redutor quanto como combustível para produção do ferro-gusa, material que ainda contém muitas impurezas em sua composição e um teor de carbono elevado para se obter as propriedades desejadas dos aços comerciais. Assim, a redução do minério de ferro dá-se no interior do alto-forno, acompanhada de fluxos intensos de materiais e gases, resultantes de diferentes reações químicas que ocorrem simultaneamente em diversas regiões do interior do alto-forno. As temperaturas na câmara de combustão do alto-forno atingem valores da ordem de 1.000 a 1.250 oC. Novas tecnologias para o alto-forno incluem a injeção de carvão e gás natural para deslocar o coque, refratários com melhores propriedades e novas técnicas de controle do processo. Existe, também, a possibilidade de usar outros combustíveis, tais como resíduos de madeira ou plásticos. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 30 Ministério de Minas e Energia O forno de redução direta utiliza, como carga metálica, granulados de minério para redução direta (RD) ou pelotas e, como redutor, gás natural ou um redutor à base de carvão. Para ser economicamente viável, o processo de redução direta a gás natural depende do preço do gás que tem sofrido aumentos substanciais. O processo de fusão redutora, que representa uma nova geração de tecnologias de produção de ferro, tem como objetivo produzir metal líquido diretamente a partir de finos ou concentrados de minério. Os fornos de fusão redutora utilizam geralmente carvão como combustível, em vez de gás natural, em virtude da abundância do carvão no mundo e do seu custo relativamente baixo. O uso direto de carvão evita a necessidade do coque dos altos-fornos, uma commodity cara e com oferta cada vez mais limitada. Por sua vez, a possibilidade de usar finos ou concentrados de minério elimina custos de aglomeração por sinterização ou pelotização. Existem processos comercialmente disponíveis, como o COREX, que usa diretamente o carvão, porém utiliza pelotas ou granulados e produz energia em excesso que deve ser utilizada no próprio processo para que ele seja econômico. O desenvolvimento dos processos de fusão redutora caminha no sentido de buscar tecnologias de mais baixo custo, redução da necessidade de aglomeração dos finos de minério, flexibilidade de localização e alcance de escala econômica. As pesquisas buscam aperfeiçoar os fornos de fusão redutora, em particular o uso de novos refratários e sistemas de resfriamento de água energeticamente eficientes. 3.3 Produção do aço (refino) A produção do aço propriamente dito é feita nas chamadas aciarias. O principal objetivo do refino é modificar a composição química do metal para ajustá-lo à composição desejada para o aço, etapa que inclui a remoção de elementos desnecessários e a adição de outros. O refino é realizado em fornos especiais (chamados conversores) a oxigênio, dos quais o mais difundido é o chamado conversor LD, no caso da rota integrada de produção do aço, e o forno elétrico a arco, no caso da rota semi-integrada, através de reações químicas endotérmicas que utilizam, como fonte de energia, o próprio calor imanente do gusa líquido ou energia elétrica. Os objetivos da etapa de refino são o ajuste da quantidade de carbono, entre outros elementos de liga, à proporção necessária para a obtenção das propriedades desejadas, e a redução para níveis aceitáveis de elementos residuais, como fósforo, enxofre e nitrogênio. No caso da rota integrada, a carga do conversor a oxigênio, composta de gusa líquido proveniente de alto-forno, juntamente com minério, ferro fundido, sucata ferrosa, cal e fluorita, sofre um processo de alteração de composição química, com redução do teor de Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 31 Ministério de Minas e Energia carbono, através da injeção de oxigênio e adição de ferroligas, como o manganês, e outros elementos, como alumínio ou silício, resultando o aço. Geralmente, a carga metálica do conversor contém de 65 a 90% de ferro-gusa (em média 75%) e o restante da carga é essencialmente sucata ferrosa reciclada. É habitual, nas usinas integradas, existir uma segunda fase de refino, o refino secundário, também chamado de metalurgia de panela, que é realizado fora do equipamento de fusão (conversor a oxigênio) e tem por objetivo remover impurezas prejudiciais às características desejadas para o aço, que não puderam ser eliminadas no processo de fusão. As operações de refino secundário incluem normalmente os seguintes processos: o Desoxidação o Dessulfuração o Desgaseificação (remoção de hidrogênio e nitrogênio) o Acerto da composição química do aço o Descarburação o Alteração da morfologia das inclusões remanescentes Além do ajuste preciso das propriedades físico-químicas do aço, o refino secundário promove um aumento expressivo no rendimento dos processos de fusão. Na rota semi-integrada, as aciarias são constituídas por fornos elétricos a arco. Esses fornos elétricos podem funcionar com corrente alternada ou com corrente contínua. A carga metálica utilizada nos fornos elétricos é, geralmente, composta por um mix de ferroesponja e sucata ferrosa e, por vezes, também granulados, os chamados granulados para redução direta (granulados RD). Os primeiros fornos elétricos usavam corrente alternada e, só a partir da década de 80, é que os fornos a corrente contínua passaram a ganhar espaço. No forno a corrente alternada, o arco voltaico dá-se entre um dos seus três eletrodos e a carga metálica, enquanto que no forno a corrente contínua o arco é vertical, entre um único eletrodo e a carga metálica, conseqüentemente com menor consumo de eletrodos. O forno elétrico a arco começou a ser utilizado na rota tecnológica semi-integrada, principalmente, nas chamadas mini-mills. Inicialmente, as mini-mills basearam-se em premissas de reciclagem abundante e conseqüente disponibilidade de sucata ferrosa a baixo preço, plantas pequenas de baixo investimento compostas de um forno elétrico a arco. Nas décadas de 60 e 70, o forno elétrico a arco era utilizado somente para a produção de produtos longos e cresceu substituindo o forno do tipo open hearth, porém essa tecnologia passou a entrar, também, no mercado de produtos planos deslocando parte da produção à base do conversor a oxigênio. Tal como ocorre na rota integrada, nas usinas Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 32 Ministério de Minas e Energia semi-integradas também existe, geralmente, a fase de refino secundário do aço vazado dos fornos elétricos a arco. A eletricidade responde por cerca de 65% do consumo total de energia de um forno elétrico a arco. Os restantes 35% são oriundos de energia química gerada pela oxidação do carbono e do ferro e pelos queimadores de combustível. No parque siderúrgico brasileiro, cerca de 74% das aciarias utilizam conversores a oxigênio e, dos 26% restantes, a maioria (24%) são aciarias elétricas (fornos elétricos a arco), havendo, ainda, 2% de aciarias com fornos a energia otimizada (EOF). 3.4 Lingotamento Após a fase do refino, o aço já possui a composição química desejada e é submetido a um processo de conformação inicial, antes de passar à fase de laminação. O processo de solidificação mais comum é o lingotamento contínuo, que produz os semi-acabados (placas, blocos ou tarugos) a partir do aço líquido. No lingotamento convencional, o aço líquido é vazado nas chamadas lingoteiras e é resfriado tomando a forma de lingotes, que depois passam por fornos de reaquecimento que os preparam para serem laminados. Por sua vez, no lingotamento contínuo, o aço sai diretamente da aciaria para uma primeira fase de laminação, dispensando os fornos de reaquecimento. 3.5 Laminação Finalmente, tem lugar a última fase do processo siderúrgico, a laminação, em que o aço, em processo de solidificação, é submetido a tratamentos físicos e químicos visando conformá-lo mecanicamente às necessidades de suas aplicações. Nesta etapa são produzidas chapas grossas e finas, bobinas, vergalhões, tarugos, arames, perfilados, barras, fios etc. Os laminadores, no que se refere a condições operacionais, podem funcionar a quente ou a frio e, relativamente à forma dos produtos fabricados, podem ser classificados em planos ou longos, que incluem perfis, trilhos, arame, entre outros. O aço pode receber, ainda, tratamento de galvanização (ou zincagem), processo cuja finalidade é revestir a superfície da bobina laminada a frio com uma fina camada de zinco, para aumentar a resistência à corrosão, ou receber um revestimento de estanho e cromo para a produção, respectivamente, de folhas-de-flandres e folhas cromadas. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 33 Ministério de Minas e Energia 3.6 Produtos siderúrgicos Os produtos siderúrgicos podem ser classificados com base, tanto na sua composição química quanto na sua forma geométrica. Assim, é habitual classificá-los relativamente à sua composição química, nos seguintes tipos2: o Aços carbono: são aços ao carbono, ou com baixo teor de liga, de composição química definida em faixas amplas. o Aços ligados/especiais: são aços ligados ou de alto carbono, de composição química definida em estreitas faixas para todos os elementos e especificações rígidas. o Aços construção mecânica: são aços ao carbono e de baixa liga para forjaria, rolamentos, molas, eixos, peças usinadas etc. o Aços ferramenta: são aços de alto carbono ou de alta liga, destinados à fabricação de ferramentas e matrizes, para trabalho a quente e a frio, inclusive aços rápidos. Relativamente à forma, os produtos podem ser classificados em: Semi-acabados: produtos oriundos de processo de lingotamento contínuo ou de laminação de desbaste, destinados a posterior processamento de laminação ou forjamento a quente. o Placas o Blocos o Tarugos Produtos Planos: produtos siderúrgicos resultantes do processo de laminação, cuja largura é extremamente superior à espessura (L >> E), e são comercializados na forma de chapas e bobinas de aços carbono e especiais. Não revestidos, em "aços carbono" o ⇒ Bobinas e chapas grossas do laminador de tiras a quente LTQ (5 mm < E > 12,7 mm) ⇒ Bobinas e chapas grossas do laminador de chapas grossas LCG (E > 12,7 mm) ⇒ Bobinas e chapas finas laminadas a quente (BQ/CFQ) ⇒ Bobinas e chapas finas laminadas a frio (BF/CFF) Revestidos, em "aços carbono" o ⇒ Folhas para embalagem (folhas de flandres recobertas com estanho e folhas cromadas) ⇒ Bobinas e chapas eletro-galvanizadas 2 Conforme descrito em http://www.ibs.org.br/siderurgia_produtos_siderurgicos_geometrica.asp. Acesso em 29/01/2008. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 34 Ministério de Minas e Energia ⇒ Bobinas e chapas zincadas a quente ⇒ Bobinas e chapas de ligas alumínio-zinco ⇒ Bobinas e chapas pré-pintadas Em "aços especiais" o ⇒ Bobinas e chapas em aços ao silício (chapas elétricas) ⇒ Bobinas e chapas em aços inoxidáveis ⇒ Bobinas e chapas em aços ao alto carbono (C >= 0,50%) e em outros aços ligados Produtos Longos: produtos siderúrgicos, resultado de processo de laminação, cujas seções transversais têm formato poligonal e seu comprimento é extremamente superior à maior dimensão da seção, sendo ofertados em aços carbono e especiais. Em aços carbono o ⇒ Perfis leves (h < 80 mm) ⇒ Perfis médios (80 mm < h <= 150 mm) ⇒ Perfis pesados (h > 150 mm) ⇒ Vergalhões ⇒ Fio-máquina (principalmente para arames) ⇒ Barras (qualidade construção civil) ⇒ Tubos sem costura ⇒ Trefilados Em aços ligados / especiais o ⇒ Fio-máquina (para parafusos e outros) ⇒ Barras em aços construção mecânica ⇒ Barras em aços ferramenta ⇒ Barras em aços inoxidáveis e para válvulas ⇒ Tubos sem costura ⇒ Trefilados Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 35 Ministério de Minas e Energia (Esta página foi intencionalmente deixada em branco para o adequado alinhamento de páginas na impressão com a opção frente e verso - “double sided”) Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 36 Ministério de Minas e Energia 4. Melhores práticas internacionais: o estado da arte No sentido de contribuir para a análise energética do setor siderúrgico, apresentam-se, nesta seção, indicadores de consumo energético no setor, que correspondem aos melhores níveis de eficiência energética praticados pela indústria mundial, isto é, representam o atual estado da arte em termos de eficiência energética, de acordo com Worrell et al (2007). Os indicadores apresentados referem-se à denominada intensidade energética dos diferentes tipos de energético nas várias etapas da cadeia siderúrgica, isto é, ao consumo de energia por unidade física de produto3. A unidade de produto utilizada é, geralmente, a tonelada métrica de aço. Os valores da intensidade energética, em cada fase da indústria siderúrgica, são apresentados para quatro possíveis configurações de processo, isto é, quatro variantes de rota tecnológica. No que se refere às etapas de redução do minério e aciaria, as configurações consideradas são caracterizadas por: o Alto-forno e aciaria a oxigênio o Fusão redutora e aciaria a oxigênio o Redução direta (ferro-esponja + sucata) e aciaria elétrica o Redução direta (sucata) e aciaria elétrica Os valores de intensidade energética, para as quatro configurações, incluem duas hipóteses relativamente às etapas posteriores à produção do aço líquido na aciaria e que estão presentes na maioria das plantas siderúrgicas, principalmente nas usinas integradas. Dessa forma, consideram-se as etapas de lingotamento e laminação, com as seguintes alternativas: lingotamento contínuo/laminação a quente, lingotamento contínuo/laminação a frio e acabamento, e o denominado thin slab casting. A Tabela 16 mostra a intensidade energética total, por rota tecnológica e por etapa do processo siderúrgico, para as quatro alternativas de rota tecnológica consideradas. Conforme se observa, a rota tecnológica mais energointensiva é a fusão redutora combinada com aciaria a oxigênio e, naturalmente, a rota menos consumidora de energia corresponde à produção secundária de aço, a partir de sucata, associada à aciaria elétrica. 3 Neste caso, este indicador também pode ser denominado consumo específico de energia. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 37 Ministério de Minas e Energia Tabela 16 – Intensidade Energética Total da Siderurgia, por rota tecnológica e por etapa do processo (valores por tonelada métrica) Etapa Processo Preparação de Materiais (minério e carvão) Redução (fabricação do ferro) Refino - Aciaria (fabricação do aço) Lingotamento e Laminação Sinterização Redução Direta + Forno Elétrico Sucata + Forno Elétrico GJ/t GJ/t GJ/t GJ/t 1,9 1,9 0,6 Coqueificação 0,8 Alto-forno 12,2 Fusão Redutora Forno a Oxigênio 11,7 -0,4 -0,4 Forno Elétrico Refino 0,6 17,3 Redução Direta 2,5 0,1 2,4 0,1 Lingot. contínuo 0,1 0,1 0,1 0,1 Lamin. a quente 1,8 1,8 1,8 1,8 16,5 19,5 18,6 4,3 Lamin. a frio 0,4 0,4 Acabamento 1,1 1,1 18,0 21,0 18,6 4,3 0,2 0,2 0,2 0,2 14,8 17,8 16,9 2,6 Total Alternativa a: Lingot. e Lamin. Fusão Redutora + Forno Oxigênio Pelotização Sub-Total Laminação a frio e Acabamento Alto-forno + Forno Oxigênio Thin Slab Casting Total (Alternativa) Fonte: Ernst Worrell et al., World Best Practice Energy Intensity Values for Selected Industrial Sectors, June 2007. Elaboração EPE. Em seguida, faz-se uma análise mais detalhada dos consumos energéticos, para cada uma das quatro rotas tecnológicas consideradas, englobando as respectivas etapas e processos, e as intensidades energéticas por tipo de energético (fonte de energia). Rota tecnológica: Alto-forno + Forno a Oxigênio No caso da rota tecnológica de alto-forno combinado com forno a oxigênio, os números apresentados são baseados nas seguintes premissas: o Consumo de 1.389 t de sínter para a produção de 1 t de aço laminado a quente. o Carga metálica, do forno a oxigênio, constituída por 90% de ferro-gusa e 10% de sucata. o Consumo de 0,9923 t de ferro-gusa para a produção de 1 t de aço laminado a quente. o Consumo de 1,05 t de aço bruto para a produção de 1 t de aço laminado a quente. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 38 Ministério de Minas e Energia No alto-forno, o minério na forma de sínter ou pelotas é reduzido utilizando-se coque como redutor, juntamente com carvão injetado, resultando o ferro-gusa. Também se adiciona cal, que atua como fundente. O processo de redução do minério é a etapa mais energointensiva da produção de aço primário. O processo de aciaria, no forno a oxigênio, consiste essencialmente na injeção de oxigênio que oxida o carbono contido no metal quente (ferro-gusa). A carga metálica é composta em sua maior parte de ferro-gusa, geralmente com uma pequena porcentagem de sucata, que pode variar de 10% a 25%, sendo que no caso aqui considerado admitiu-se 10%. Esta etapa do processo siderúrgico não requer nenhum aporte líquido de energia4 e pode mesmo ser uma etapa exportadora líquida de energia na forma de gás de aciaria e vapor, podendo haver recuperação de gás e calor. As intensidades energéticas por etapa do processo e por energético são apresentadas na Tabela 17, onde se observa que a etapa da cadeia mais energointensiva é a redução do minério no alto-forno, cuja contribuição para a intensidade energética é de 12,2 GJ/t, isto é, em torno de 74% do consumo final energético total até a fase de laminação a quente. Por sua vez, o combustível responde por 90% deste consumo final energético total, a eletricidade por cerca de 6% e o oxigênio por 4%. O processo completo, incluindo laminação e acabamento, resulta em uma intensidade energética de 18,0 GJ/t, da qual o consumo de combustível responde por 87%, a eletricidade por 7% e o vapor e o oxigênio, cada um, por 3%. O processo de substituição das etapas de lingotamento e laminação pelo processo denominado thin slab casting reduz consideravelmente o consumo total energético da cadeia siderúrgica que, em lugar de 18,0 GJ/t, passaria a apresentar intensidade energética de 14,8 GJ/t, isto é, em torno de 18% inferior. Neste caso, as proporções de energéticos no consumo total são as seguintes: combustível, 90%; eletricidade, 5%; oxigênio, 4%; e vapor, 1%. 4 Não considerando a energia necessária para produção do oxigênio. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 39 Ministério de Minas e Energia Tabela 17 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Alto-forno + Forno a Oxigênio (valores por tonelada métrica) Etapa Processo Sinterização Preparação de Materiais (minério e carvão) Coqueificação Redução (fabricação do ferro) Alto-forno Forno a Oxigênio Aciaria (fabricação do aço) Refino Lingotamento Lingotamento Contínuo Planos (Strip) Laminação a quente Longos (Bars) Arames (Wire) Sub-Total (baseado em Longos (Bars)) Energético GJ/t Combustível 2,0 Vapor -0,2 Eletricidade 0,2 Total 1,9 Combustível 0,6 Vapor 0,1 Eletricidade 0,1 Total 0,8 Combustível 11,4 Vapor 0,4 Eletricidade 0,1 Oxigênio 0,2 Total 12,2 Combustível -0,7 Vapor -0,2 Eletricidade 0,1 Oxigênio 0,4 Total -0,4 Eletricidade 0,1 Total 0,1 Combustível 0,0 Eletricidade 0,0 Total 0,1 Combustível 1,3 Vapor 0,0 Eletricidade 0,3 Total 1,6 Combustível 1,6 Eletricidade 0,3 Total 1,8 Combustível 1,7 Eletricidade 0,4 Total 2,1 Combustível 14,9 Vapor 0,1 Eletricidade 0,9 Oxigênio 0,6 Total 16,5 continua Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 40 Ministério de Minas e Energia continuação Etapa Processo Laminação a frio Acabamento Total (baseado em Longos) Energético GJ/t Combustível 0,1 Vapor 0,1 Eletricidade 0,3 Total 0,4 Combustível 0,7 Vapor 0,3 Eletricidade 0,1 Total 1,1 Combustível 15,7 Vapor 0,5 Eletricidade 1,2 Oxigênio 0,6 Total 18,0 Alternativa: Lingotamento e Laminação Total (Alternativa) Thin Slab Casting Combustível 0,1 Eletricidade 0,2 Total 0,2 Combustível 13,4 Vapor 0,1 Eletricidade 0,7 Oxigênio 0,6 Total 14,8 Fonte: Ernst Worrell et al., World Best Practice Energy Intensity Values for Selected Industrial Sectors, June 2007. Elaboração EPE. Rota tecnológica: Fusão Redutora + Forno a Oxigênio Os processos de fusão redutora produzem ferro-gusa, prescindindo da necessidade de produção de coque, combinando a gaseificação do carvão com a redução do minério, utilizado normalmente na forma de pelotas. O processo de fusão redutora mais conhecido é o chamado processo COREX, que já se encontra em operação em plantas da África do Sul, Coréia do Sul e Índia, e com uma planta em construção na China. Esse processo utiliza, como carga metálica, aglomerados de minério que são pré-reduzidos por gases oriundos de um banho quente. O ferro pré-reduzido é, então, fundido. Ocorre excesso de gás que pode ser utilizado como combustível, para a produção de ferro-esponja ou para geração de energia elétrica. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 41 Ministério de Minas e Energia As plantas COREX em operação apresentam consumo líquido de energia semelhante ao da rota tecnológica do alto-forno. Embora a taxa de consumo de carvão seja mais elevada do que no alto-forno, um volume considerável de gás de processo é utilizado como combustível para geração de energia elétrica, através de uma turbina a ciclo de vapor convencional. Por sua vez, a aciaria a oxigênio opera de forma análoga à da rota alto-forno/forno a oxigênio. As intensidades energéticas por etapa do processo e por energético são apresentadas na Tabela 18, onde se pode observar que a etapa mais energointensiva da cadeia é a redução do minério por fusão redutora, cuja contribuição para a intensidade energética é de 17,3 GJ/t, isto é, em torno de 89% do consumo final energético total até a laminação a quente. Por sua vez, o combustível responde por 88% do consumo final energético total, a eletricidade por cerca de 5% e o oxigênio por 8%. O balanço de vapor é negativo, significando que o processo, como um todo, é ofertante líquido de vapor. O processo completo, incluindo laminação e acabamento resulta em uma intensidade energética de 21,0 GJ/t, da qual o consumo de combustível responde por 86%, a eletricidade por 6%, oxigênio por 7% e o vapor por 1%. O processo de substituição das etapas de lingotamento e laminação pelo processo denominado thin slab casting reduz consideravelmente o consumo total energético da cadeia siderúrgica que, em lugar de 21,0 GJ/t, passa a apresentar intensidade energética de 17,8 GJ/t, isto é, em torno de 15% inferior. Neste caso, as proporções de energéticos no consumo total são as seguintes: combustível, 88%; eletricidade, 4%; oxigênio, 9%; e vapor, -1%. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 42 Ministério de Minas e Energia Tabela 18 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Fusão Redutora + Forno a Oxigênio (valores por tonelada métrica) Etapa Preparação de Materiais (minério e carvão) Redução (fabricação do ferro) Processo Pelotização Fusão Redutora Forno a Oxigênio Aciaria (fabricação do aço) Refino Lingotamento Lingotamento Contínuo Planos (Strip) Laminação a quente Longos (Bars) Arames (Wire) Sub-Total (baseado em Longos (Bars)) Energético GJ/t Combustível 0,5 Eletricidade 0,1 Total 0,6 Combustível 15,9 Eletricidade 0,3 Oxigênio 1,2 Total 17,3 Combustível -0,7 Vapor -0,2 Eletricidade 0,1 Oxigênio 0,4 Total -0,4 Eletricidade 0,1 Total 0,1 Combustível 0,0 Eletricidade 0,0 Total 0,1 Combustível 1,3 Vapor 0,0 Eletricidade 0,3 Total 1,6 Combustível 1,6 Eletricidade 0,3 Total 1,8 Combustível 1,7 Eletricidade 0,4 Total 2,1 Combustível 17,2 Vapor -0,2 Eletricidade 0,9 Oxigênio 1,5 Total 19,5 continua Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 43 Ministério de Minas e Energia continuação Etapa Processo Laminação a frio Acabamento Total (baseado em Longos) Energético GJ/t Combustível 0,1 Vapor 0,1 Eletricidade 0,3 Total 0,4 Combustível 0,7 Vapor 0,3 Eletricidade 0,1 Total 1,1 Combustível 18,0 Vapor 0,2 Eletricidade 1,3 Oxigênio 1,5 Total 21,0 Alternativa: Lingotamento e Laminação Thin Slab Casting Total (Alternativa) Combustível 0,1 Eletricidade 0,2 Total 0,2 Combustível 15,6 Vapor -0,2 Eletricidade 0,7 Oxigênio 1,5 Total 17,8 Fonte: Ernst Worrell et al., World Best Practice Energy Intensity Values for Selected Industrial Sectors, June 2007. Elaboração EPE. Rota tecnológica: Redução Direta (60% ferro-esponja; 40% sucata) + Forno Elétrico a Arco As usinas a redução direta utilizam gás natural ou carvão como redutor. Em geral, a preferência é pelo gás natural quando este energético é disponível a preços competitivos. Geralmente, existe excesso de calor do forno, que é usado para gerar energia elétrica em uma turbina a ciclo de vapor convencional. Estima-se uma geração líquida de eletricidade em torno de 509 kWh/t de ferro-esponja. Nesta rota tecnológica, que utiliza sucata como carga metálica, são evitadas as etapas de coqueificação do carvão e de produção de ferro-gusa. Para a produção de aço, no forno elétrico a arco, a sucata é fundida e sofre um processo de refino usando corrente elétrica. A carga metálica pode ter uma proporção de ferro-esponja, no entanto isso faz aumentar Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 44 Ministério de Minas e Energia bastante o consumo de energia elétrica. Geralmente, utiliza-se mistura com ferro-esponja quando não existe disponibilidade de sucata de boa qualidade ou esta é muito cara. O caso aqui apresentado baseia-se em forno elétrico a arco com carga metálica constituída por 60% de ferro-esponja e 40% de sucata de alta qualidade. O consumo de eletricidade no forno elétrico é de 530 kWh/t de aço líquido e existe um consumo adicional, para limpeza do gás e o refino, de 65 kWh/t de aço líquido. O pré-aquecimento da sucata pode reduzir o consumo de eletricidade no forno elétrico em 40 kWh/t de aço líquido, reduzindo, dessa forma, o consumo total de eletricidade para um valor em torno de 555 kWh/t de aço líquido. As intensidades energéticas por etapa do processo e por energético são apresentadas na Tabela 19, onde se pode observar que a etapa da cadeia mais energointensiva é a redução direta do minério, cuja contribuição para a intensidade energética é de 11,7 GJ/t, isto é, em torno de 63% do consumo final energético total. Por sua vez, o combustível responde por 94% deste consumo final energético total, a eletricidade por cerca de 5% e o oxigênio por 2%. O balanço de vapor é negativo, significando que o processo, como um todo, é ofertante líquido de vapor. O processo de substituição das etapas de lingotamento e laminação pelo processo denominado thin slab casting reduz consideravelmente o consumo total energético da cadeia siderúrgica, que passa a apresentar intensidade energética total de 16,9 GJ/t. Neste caso, as proporções de energéticos no consumo total são as seguintes: combustível, 95%; eletricidade, 6%; oxigênio, 2%; e vapor, -1%. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 45 Ministério de Minas e Energia Tabela 19 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Redução Direta + Forno Elétrico a Arco (valores por tonelada métrica) Etapa Processo Sinterização Preparação de Materiais (minério) Pelotização Redução (fabricação do ferro) Aciaria (fabricação do aço) Lingotamento Redução Direta Forno Elétrico a Arco Lingotamento Contínuo Planos (Strip) Laminação a quente Longos (Bars) Arames (Wire) Sub-Total (baseado em Longos (Bars)) Energético GJ/t Combustível 2,0 Vapor -0,2 Eletricidade 0,2 Total 1,9 Combustível 0,5 Eletricidade 0,1 Total 0,6 Combustível 12,9 Eletricidade -1,2 Total 11,7 Combustível 0,6 Eletricidade 1,7 Oxigênio 0,3 Total 2,5 Combustível 0,03 Eletricidade 0,03 Total 0,1 Combustível 1,3 Vapor 0,02 Eletricidade 0,3 Total 1,6 Combustível 1,6 Eletricidade 0,3 Total 1,8 Combustível 1,7 Eletricidade 0,4 Total 2,1 Combustível 17,5 Vapor -0,2 Eletricidade 1,0 Oxigênio 0,3 Total 18,6 continua Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 46 Ministério de Minas e Energia continuação Etapa Processo Laminação a frio Acabamento Total (baseado em Longos) Energético GJ/t Combustível 0,1 Vapor 0,1 Eletricidade 0,3 Total 0,4 Combustível 0,7 Vapor 0,3 Eletricidade 0,1 Total 1,1 Combustível 18,3 Vapor 0,2 Eletricidade 1,4 Oxigênio 0,3 Total 20,2 Alternativa: Lingotamento e Laminação Total (Alternativa) Thin Slab Casting Combustível 0,1 Eletricidade 0,2 Total 0,2 Combustível 16,0 Vapor -0,2 Eletricidade 0,9 Oxigênio 0,3 Total 16,9 Fonte: Ernst Worrell et al., World Best Practice Energy Intensity Values for Selected Industrial Sectors, June 2007. Elaboração EPE. Rota tecnológica: Redução Direta (100% sucata) + Forno Elétrico a Arco Nesta rota tecnológica, que corresponde à chamada produção secundária de aço, isto é, a carga metálica utilizada é integralmente constituída por sucata, não existem as etapas de coqueificação do carvão e produção de ferro-gusa ou ferro-esponja, conseqüentemente o consumo de energia é muito reduzido. Para a produção do aço no forno elétrico a arco, a sucata é fundida e refinada, submetida a uma forte corrente elétrica. Existem variações desta rota que podem utilizar tanto corrente elétrica alternada quanto contínua. Além disso, pode ser injetado combustível para reduzir o consumo de eletricidade. A configuração considerada utiliza, como carga metálica, 100% de sucata. O processo consome 409 kWh/t de aço líquido no forno elétrico e 65 kWh/t de aço líquido para a limpeza de gases. O consumo de gás natural é de 0,15 GJ/t de aço líquido. O pré- Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 47 Ministério de Minas e Energia aquecimento da sucata pode reduzir o consumo de energia no forno elétrico em 70 kWh/t de aço líquido, reduzindo, dessa forma, o consumo total de eletricidade para 404 kWh/t de aço líquido. As intensidades energéticas por etapa do processo e por energético são apresentadas na Tabela 20, onde se pode observar que a intensidade energética é muito inferior, neste caso, às intensidades associadas às rotas anteriores. Isto é natural, tratando-se de produção secundária de aço, a partir da reciclagem da própria sucata ferrosa. A intensidade energética é de 4,3 GJ/t, caso se utilizem os processos de lingotamento e laminação convencionais, e, utilizando-se o processo thin slab casting, essa intensidade passa a ser de 2,6 GJ/t. Tabela 20 – Intensidade Energética para a Rota Tecnológica: Redução Direta (100% Sucata) + Forno Elétrico a Arco (valores por tonelada métrica) Etapa Aciaria (fabricação do aço) Lingotamento Processo Forno Elétrico a Arco Lingotamento Contínuo Planos (Strip) Laminação a quente Longos (Bars) Arames (Wire) Total (baseado em Longos) Energético GJ/t Combustível 0,6 Eletricidade 1,5 Oxigênio 0,3 Total 2,4 Combustível 0,03 Eletricidade 0,03 Total 0,1 Combustível 1,3 Vapor 0,02 Eletricidade 0,3 Total 1,6 Combustível 1,6 Eletricidade 0,3 Total 1,8 Combustível 1,7 Eletricidade 0,4 Total 2,1 Combustível 2,2 Eletricidade 1,8 Oxigênio 0,3 Total 4,3 Combustível 0,1 Alternativa: Lingotamento e Laminação Total (Alternativa) Thin Slab Casting Eletricidade 0,2 Total 0,2 Combustível 0,6 Eletricidade 1,7 Oxigênio 0,3 Total 2,6 Fonte: Ernst Worrell et al., World Best Practice Energy Intensity Values for Selected Industrial Sectors, June 2007. Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 48 Ministério de Minas e Energia 5. Rotas tecnológicas da siderurgia brasileira No caso específico do parque siderúrgico brasileiro, a maioria das usinas atualmente em operação pode ser classificada em dois grandes grupos e, tipicamente, em três principais rotas tecnológicas, conforme descrito a seguir. Grupo 1. Usinas integradas convencionais (Rotas 1 e 2) Este grupo engloba as usinas que fabricam o aço a partir do minério de ferro através da produção do ferro-gusa, produto da redução do minério em altos-fornos, que podem operar usando o coque de carvão mineral ou o carvão vegetal como redutor. A produção de aço é feita em aciaria a oxigênio, geralmente os chamados conversores LD (Figura 3). Considerase, ainda, uma subdivisão deste grupo em duas rotas tecnológicas: o Rota 1 - rota 100% integrada com coque próprio o Rota 2 – rota integrada sem coque próprio (coque adquirido de terceiros) Grupo 2. Usinas semi-integradas ou parcialmente integradas (Rota 3) Neste grupo, aqui também denominado de Rota 3, inserem-se as usinas siderúrgicas que produzem o aço a partir de insumos metálicos (sucata e gusa) predominantemente adquiridos de terceiros, utilizando aciaria elétrica. No Brasil, essas usinas têm como característica o fluxo produtivo esquematicamente apresentado na Figura 4. Na Tabela 21 apresenta-se a classificação das usinas existentes no parque siderúrgico brasileiro, de acordo com a rota tecnológica por elas adotada. Embora composta por um pequeno número de usinas (cinco), a Rota 1 responde pela maior parcela da capacidade instalada de produção de aço no País, atualmente em torno de 65% dessa capacidade de produção. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 49 Ministério de Minas e Energia Figura 3 – Rota siderúrgica integrada (Grupo 1: Rotas 1 e 2) Minério fino Fundentes Finos de coque Carvão mineral Sinterização Coqueria Coque Finos de coque Sinter Minério bitolado Carvão vegetal Carvão pulverizado Alto-forno Gusa líquido Calcinação Fábrica de oxigênio Aciaria a conversores Metalurgia secundária Lingotamento Cal Tarugos Placas Laminação Planos Laminação Longos (a quente) Trefilação (a quente e a frio) Revestimentos Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia. Elaboração: EPE. Figura 4 – Rota siderúrgica semi-integrada (Grupo 2: Rota 3) Ferro-esponja Sucata Gusa Aciaria elétrica Metalurgia Secundária Lingotamento Tarugos Laminação Longos Longos Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia. Elaboração: EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 50 Ministério de Minas e Energia Tabela 21 – Rotas tecnológicas das usinas siderúrgicas brasileiras (2008) Usinas Grupo1 Rota 1 Grupo 2 Rota 2 Rota 3 CST (ArcelorMittal Tubarão) Acesita (ArcelorMittal Inox Brasil) Cearense (Gerdau Longos) Açominas (Gerdau Açominas) Belgo Monlevade (ArcelorMittal Longos) Açonorte (Gerdau Longos) CSN (Cia. Siderúrgica Nacional) Divinópolis (Gerdau Longos) Cosigua (Gerdau Longos) Usiminas Ipatinga (Usiminas) Barão de Cocais (Gerdau Longos) Araçariguana (Gerdau Longos) Cosipa (Usiminas) V&M (V&M do Brasil) Guairá (Gerdau Longos) Riograndense (Gerdau Longos) Piratini (Gerdau Longos) Pindamonhangaba (Aços Villares) Mogi das Cruzes (Aços Villares) Sumaré (Villares Metais) Piracicaba (ex-Dedini) (ArcelorMittal Longos) Vitória (Cofavi) (ArcelorMittal Longos) Votoraço - Barra Mansa (Votorantim) Usiba (Gerdau Longos)1 Belgo Juiz de Fora (ArcelorMittal Longos)2 1 A Usiba utiliza redução direta a partir do gás natural e produz o ferro-esponja para consumo próprio. 2 A Belgo Juiz de Fora dispõe atualmente de produção cativa de gusa a carvão vegetal e coque. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia. Elaboração EPE. Ressalta-se que as fronteiras do denominado processo siderúrgico foram aqui consideradas conforme representado na Figura 3 e na Figura 4. Assim, a montante considerou-se a sinterização e a coqueria como pontos de partida e, a jusante, o processo termina com a laminação. É habitual essa delimitação do contorno do processo siderúrgico, uma vez que a sinterização e a coqueria, nas usinas 100% integradas, são fases processadas no interior da própria planta siderúrgica, enquanto que, por exemplo, a pelotização e a produção de ferroligas são processos externos. De fato, no caso brasileiro, a produção de pelotas é praticamente toda voltada para a exportação. A produção de ferroligas, importante insumo na composição de vários tipos de aço, também se dá em unidades industriais independentes das usinas siderúrgicas. Dessa forma, tanto o segmento de pelotização quanto o de ferroligas são normalmente objeto de estudos específicos. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 51 Ministério de Minas e Energia (Esta página foi intencionalmente deixada em branco para o adequado alinhamento de páginas na impressão com a opção frente e verso - “double sided”) Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 52 Ministério de Minas e Energia 6. Expansão da indústria siderúrgica brasileira, 2008-2025 Esta seção contempla um cenário de expansão potencial da siderurgia brasileira para o período 2008-2025, em termos não só da capacidade instalada de produção de aço, mas também da capacidade de produção das demais unidades produtivas da cadeia siderúrgica: sinterização, coqueria, alto-forno a coque e a carvão vegetal, aciaria (conversor LD e forno elétrico a arco) e laminação (planos e longos). As expansões consideradas referem-se a novas plantas e ampliações de usinas existentes. O cenário aqui apresentado representa uma visão indicativa de longo prazo da siderurgia brasileira construída pela EPE com o apoio de importantes elementos colhidos através de reuniões com o IBS, com a ABRACE e com o BNDES. A EPE contou, também, com uma consultoria especializada realizada pela SETEPLA TECNOMETAL engenharia, empresa que tem vasta experiência e reconhecida competência no setor. No entanto, vale ressaltar que os resultados e as considerações apresentadas nesta nota técnica são da integral e exclusiva responsabilidade da EPE. Esse cenário retrata uma posição definida no primeiro semestre de 2008, portanto anterior à eclosão da crise financeira internacional, contemplando a expansão do parque siderúrgico brasileiro num horizonte em torno de 18 anos. Nesse contexto, antevia-se um cenário econômico mundial em franca expansão e a expectativa de crescimento sustentado da economia nacional, a uma taxa próxima a 5% ao ano. Nesse ambiente, em função da grande vantagem competitiva do Brasil no que respeita à indústria siderúrgica e da política das grandes corporações do setor, direcionada para a instalação das novas plantas (greenfields) nos países em desenvolvimento, principalmente naqueles com recursos minerais e energéticos e com logística adequada, podia-se afirmar com segurança que o País acolheria uma expansão importante da indústria siderúrgica, já nos próximos anos, podendo mais do que dobrar a capacidade instalada em dez anos. De fato, configurava-se uma carteira significativa de projetos, alguns em fase adiantada de estudos e vários deles com financiamento praticamente equacionado. O cenário de expansão da indústria siderúrgica brasileira, dadas essas condições de contorno, afigurava-se extremamente promissor. Contudo, a crise financeira internacional, tornada evidente a partir do segundo semestre de 2008, cuja extensão e permanência é Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 53 Ministério de Minas e Energia ainda prematuro antevermos, veio trazer novos elementos no ambiente em análise que poderão, evidentemente, influenciar tal cenário. Apesar disso, acredita-se que o cenário de expansão da siderurgia apresentado preserva a sua atualidade como elemento de análise no médio e longo prazo, entendido como indicador de expansão potencial, perfeitamente factível em um ambiente de crescimento sustentado da economia nacional e internacional, podendo, no entanto, ser afetado por perturbações de curto prazo, decorrentes dos possíveis desdobramentos da crise econômico-financeira internacional. Dentre os projetos siderúrgicos de expansão da capacidade instalada aqui contemplados, alguns já se encontram em fase de implantação5. Outros poderão sofrer postergação de cronograma. Mas parece consensual que, assim que as condições internacionais retornarem a uma situação de normalidade e as economias se ajustarem novamente a uma trajetória de crescimento sustentado, não há como prescindir de significativa expansão da indústria siderúrgica mundial. Dessa forma, todos os projetos considerados deverão ser implantados, nos prazos adotados ou com alguma defasagem, que se supõe não muito significativa, a menos que se concretizasse uma forte e prolongada recessão ou estagnação mundial, o que não se afigura plausível. Passando à descrição do cenário, distinguiram-se três níveis de projetos de expansão da capacidade siderúrgica nacional. Enquadram-se no Nível 1 as expansões de unidades existentes e as novas plantas consideradas com maior probabilidade (empírica) de implantação no horizonte até 2015. O Nível 2 contempla projetos que ainda têm grande probabilidade de serem implantados até 2015 e quase certamente deverão ser instalados até 2020. Por último, o Nível 3 engloba aqueles projetos em estágio mais atrasado de estudos, a maioria dos quais só deverá entrar em operação após 2015 e, com maior probabilidade, após 2020. Os projetos de ampliação considerados neste estudo contemplam a definição da localização da planta, da rota tecnológica, dos produtos siderúrgicos e, muitas vezes, dos potenciais empreendedores. No que se refere a prazos de implantação, considerou-se, de uma forma geral, a seguinte curva de ramp-up: (i) ano t (início de implantação), 50% da capacidade; (ii) ano t+1, 80% da capacidade; (iii) ano t+2, 100% da capacidade. A grande maioria das novas plantas siderúrgicas deverá seguir a rota tecnológica integrada com altos-fornos a coque de carvão mineral ou a carvão vegetal e aciarias a oxigênio 5 Esse é, por exemplo, o caso da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA), joint-venture da VALE e da Thyssen-Krupp, em fase de instalação no município de Itaguaí, Rio de Janeiro. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 54 Ministério de Minas e Energia (conversores LD). De fato, estima-se que em torno de 2020 a Rota 1 represente cerca de 80% da capacidade de produção brasileira de aço bruto. No entanto, foram considerados também alguns projetos de produção de aço a partir da rota tecnológica baseada em aciaria elétrica, isto é, forno elétrico a arco com a maior parte da carga metálica adquirida de terceiros. Um exemplo deste último caso é a usina de Resende - RJ do grupo Votorantim, que já iniciou a construção, e que deverá atingir uma capacidade de 1,0 milhão de toneladas de produtos longos por ano. 6.1 Capacidade instalada de produção de aço bruto Embora se tenham admitido patamares qualitativamente distintos de plausibilidade para os três níveis de projetos de expansão considerados, dependendo inclusive do horizonte, de fato não foram atribuídas probabilidades aos diferentes níveis, apenas se procurou traduzir a sensibilidade de especialistas do setor, de uma forma qualitativa, com relação à viabilidade da instalação das plantas, de acordo com determinados cronogramas. Dessa forma, foram definidos cronogramas de implantação para os projetos de expansão da capacidade instalada siderúrgica brasileira, que resultaram no cenário resumido na Tabela 22, em termos da capacidade de produção de aço bruto, por tipo de aciaria. Como conseqüência, a taxa média anual de crescimento da capacidade instalada de produção de aço bruto situa-se em torno de 6%, no período 2008-2025. Tabela 22 – Capacidade de produção de aço bruto (106 t/ano) Projetos Rota (aciaria) 2007 2010 2015 2020 2025 30,9 35,0 50,5 50,5 50,5 9,8 10,3 12,5 12,5 12,5 40,7 45,3 63,0 63,0 63,0 Conversor a oxigênio (LD) - - 11,5 11,5 11,5 Forno elétrico - - 1,5 1,5 1,5 Subtotal (Nível 2) - - 13,0 13,0 13,0 Conversor a oxigênio (LD) - - 5,7 23,8 34,7 Forno elétrico - - 0,0 0,8 1,0 Subtotal (Nível 3) - - 5,7 24,6 35,7 30,9 35,0 67,7 85,8 96,7 9,8 10,3 14,0 14,8 15,0 40,7 45,3 81,7 100,6 111,7 24,1% 22,7% 17,1% 14,7% 13,4% Conversor a oxigênio (LD) Nível 1 Forno elétrico Subtotal (Nível 1) Nível 2 Nível 3 Conversor a oxigênio (LD) Total Forno elétrico Total % Aciaria elétrica Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia, com base em informações colhidas no IBS. Elaboração: EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 55 Ministério de Minas e Energia De acordo com as três rotas tecnológicas consideradas na seção 5, a capacidade instalada de produção de aço bruto evoluirá conforme indicado na Tabela 23. Tabela 23 – Capacidade de produção de aço bruto, por rota (106 t/ano) Rota tecnológica 2007 2010 2015 2020 2025 Rota 1 26,7 29,9 61,6 80,4 90,3 Rota 2 5,2 5,9 7,9 7,5 8,0 Rota 3 8,8 9,5 12,2 12,7 13,4 40,7 45,3 81,7 100,6 111,7 Total Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia, com base em informações colhidas no IBS. Elaboração: EPE. 6.2 Capacidade instalada por unidade do processo A partir do perfil tecnológico de cada projeto de expansão siderúrgica, em termos de rotas tecnológicas, unidades produtivas e produtos, estimou-se a capacidade instalada de cada unidade componente das usinas siderúrgicas, conforme apresentado na Tabela 24. Tabela 24 – Capacidade de produção siderúrgica, por unidade (106 t/ano) Unidade Produto 2007 2010 2015 2020 2025 Coqueria Coque 10,1 11,5 24,4 30,3 33,2 Sinterização Sínter 33,3 37,2 81,6 101,4 112,9 Alto-forno a Gusa 30,9 34,0 70,6 86,6 95,9 . coque Gusa 28,5 31,0 66,0 82,0 91,2 . carvão vegetal Gusa 2,4 3,0 4,6 4,6 4,6 Redução direta Ferro-esponja 0,5 0,5 0,5 0,5 0,5 Aciaria Aço bruto 40,7 45,3 81,7 100,6 111,7 . Conversores LD Aço bruto 30,9 35,0 67,7 85,8 96,7 . Forno elétrico Aço bruto 9,8 10,3 14,0 14,8 15,0 Laminados 28,5 35,0 53,2 58,0 60,5 Laminação Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia, com base em informações colhidas no IBS. Elaboração: EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 56 Ministério de Minas e Energia 7. Indicadores de consumo energético da siderurgia brasileira Esta seção ocupa-se da análise de indicadores, relativos ao consumo de energia na indústria siderúrgica brasileira, importantes na formulação de modelos de projeção da demanda de energia para este segmento industrial. O consumo de energia na indústria siderúrgica brasileira foi analisado à luz dos fluxos de materiais e de energéticos ao longo das diferentes fases da cadeia produtiva, para as principais rotas tecnológicas existentes no parque siderúrgico nacional. A consultoria realizada pela SETEPLA TECNOMETAL engenharia para a EPE levou em conta uma amostragem significativa de plantas siderúrgicas instaladas no País com o objetivo de elaborar estimativas representativas para os consumos unitários médios de materiais e de energéticos ao longo das várias fases do processo siderúrgico. Além disso, a partir de informações primárias do Balanço Energético Nacional (BEN), a EPE também realizou estimativas desses mesmos consumos unitários. Estabeleceu-se o confronto entre as estimativas obtidas por essas duas vias e buscou-se a consistência dos resultados. Dessa forma, foi possível definir consumos unitários médios de materiais e de energéticos associados às principais rotas tecnológicas da siderurgia brasileira. Ressalta-se que tais consumos unitários, representando uma média brasileira, não se aplicam necessariamente a usinas siderúrgicas individuais, dado que, mesmo dentro de uma única rota tecnológica, existe diferenciação de características de usina para usina. Vale tecer alguns comentários sobre o tipo de indicador de consumo energético utilizado neste estudo. De fato, a análise do uso da energia na indústria siderúrgica, bem como a avaliação do respectivo grau de eficiência energética, à semelhança de outros segmentos industriais, pode seguir duas abordagens alternativas: a utilização de indicadores energéticos de caráter econômico ou de indicadores energéticos de natureza física. Essas abordagens estão relacionadas a duas formas de representação do nível de atividade do segmento industrial: pelo nível de atividade econômica ou pelo nível de atividade física. A abordagem econômica considera a relação entre o consumo de energia e o correspondente valor adicionado (consumo de energia por unidade de valor adicionado). A outra alternativa, que foi a adotada no presente estudo, privilegia indicadores baseados em relações físicas, nomeadamente o consumo de energia por unidade de produção física (consumo de energia por tonelada de produto). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 57 Ministério de Minas e Energia Ambos os conceitos são freqüentemente referenciados, na literatura, como intensidade energética. Poder-se-ia dizer que o primeiro corresponde à intensidade energética econômica e o segundo à intensidade energética física. Qualquer das abordagens tem interesse específico, porém, em face dos objetivos do estudo, considerou-se mais apropriado utilizar, como indicador básico, a intensidade energética no sentido físico. Esta última é, também, habitualmente referida como consumo específico de energia ou consumo unitário de energia. E, sempre que no texto se mencionar a intensidade energética, será neste sentido. Como primeiro argumento para o uso deste tipo de indicador, destaca-se que, no detalhamento que se pretende conferir à análise da indústria siderúrgica, ou seja, a configuração tecnológica definida na seção 5, seria extremamente difícil obter dados relativos à contribuição das diferentes rotas tecnológicas para o valor adicionado do setor e, mais difícil ainda, se não impossível, separar as contribuições das diferentes fases do processo industrial. Além disso, os indicadores físicos do uso da energia na indústria apresentam outras vantagens, relativamente aos indicadores de natureza econômica, entre as quais se podem enumerar as seguintes: Eles aproximam-se mais de uma medida de eficiência técnica da indústria e, conseqüentemente, são mais facilmente relacionados ao desempenho tecnológico, podendo, assim, ser utilizados na análise do potencial de ganho de eficiência energética resultante da introdução de novas tecnologias; Tais indicadores não são afetados pela volatilidade e pelas variações cíclicas dos preços das commodities industriais, portanto sofrem menos influência das flutuações econômicas; Os desempenhos energéticos das diferentes fases do processo industrial podem ser analisados separadamente e os indicadores físicos permitem, também, levar em conta diferenças no mix de produtos, ao longo do tempo. É importante analisar os impactos de alterações no mix de produtos independentemente dos ganhos de eficiência técnica, dado que as condições de mercado podem mudar ao longo do tempo. (IEA, 2007). Inicialmente, na seção 7.1, apresentam-se dados históricos de consumo de energia no setor siderúrgico coletados pela EPE e pelo MME no Balanço Energético Nacional (BEN). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 58 Ministério de Minas e Energia 7.1 Dados históricos do consumo de energia Na estatística energética nacional divulgada no Balanço Energético Nacional (BEN), o setor siderúrgico brasileiro é considerado na parcela contábil de “Ferro-gusa e Aço”. É importante destacar que a classificação setorial adotada no BEN não apresenta correlação direta com a adotada pelo IBGE e Receita Federal, a Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE). Nesse sentido, de acordo com o publicado em versões anteriores do BEN, a classificação adotada obedeceria ao Código de Atividades da Receita Federal (Portaria 907, de 1989). Seriam considerados, portanto: “Siderurgia, excluindo: Produção de ferroligas em formas primárias e semi-acabadas; Produção de fundidos de ferro e aço; Produção de forjados de aço.” A produção siderúrgica brasileira tem grande representatividade no consumo de energia no país: cerca de 22% do consumo industrial total de energia em 2007 e em torno de 8,5% do consumo total de energia, segundo EPE/MME (2008). Entre os setores de consumo, é também o setor responsável pela maior parcela do consumo de carvão mineral com grau metalúrgico, bem como dos derivados correspondentes – gás de coqueria, coque de carvão mineral e alcatrão. No consumo de carvão vegetal, também foi responsável por mais de 76% do consumo final no mesmo ano. A Tabela 25 apresenta os dados referentes ao consumo de energia (exclusive energia elétrica) no Setor de Ferro-gusa e Aço, para o período compreendido entre 2002 e 2007. Por sua vez, na Tabela 26 pode-se observar a evolução da participação das principais fontes energéticas no consumo de energia. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 59 Ministério de Minas e Energia Tabela 25 – Consumo de energia no setor de ferro-gusa e aço, 2002 - 2007 (10³ tep) 2002 2003 2004 2005 2006 2007 900 911 936 1.113 1.105 1.214 1.902 2.182 2.455 2.374 2.352 2.516 35 36 40 44 40 14 105 117 79 82 107 145 81 82 56 100 85 88 Nafta 0 0 0 0 0 0 Querosene 2 1 1 1 1 0 879 972 1.037 1.016 980 1.039 0 0 0 0 0 0 Coque de carvão mineral 6.582 6.470 6.574 6.067 5.763 6.320 Eletricidade 1.289 1.382 1.452 1.397 1.452 1.579 Carvão vegetal 3.561 4.057 4.902 4.804 4.636 4.775 392 492 413 462 464 551 15.729 16.701 17.945 17.459 16.985 18.241 Fonte Gás natural Carvão mineral Óleo diesel Óleo combustível Gás liquefeito de petróleo Gás de coqueria Gás canalizado Alcatrão/outras sec. petróleo Total Fonte: EPE/MME (2008). Tabela 26 – Participação das fontes no consumo do setor siderúrgico, 2002 - 2007 (%) Fonte Gás natural Óleo combustível Gás de coqueria Coque de carvão mineral Eletricidade Carvão vegetal Outras Total 2002 5,7 0,7 5,6 41,8 8,2 22,6 15,3 100,0 2003 5,5 0,7 5,8 38,7 8,3 24,3 16,7 100,0 2004 5,2 0,4 5,8 36,6 8,1 27,3 16,5 100,0 2005 6,4 0,5 5,8 34,7 8,0 27,5 17,1 100,0 2006 6,5 0,6 5,8 33,9 8,5 27,3 17,3 100,0 2007 6,7 0,8 5,7 34,6 8,7 26,2 17,4 100,0 Fonte: EPE/MME (2008). O consumo específico de energia para a produção siderúrgica, definido como a energia necessária para produzir uma unidade de produto físico, que é uma medida de eficiência energética da indústria, pode ser afetado por vários fatores, entre os quais se destacam: a rota tecnológica e os processos utilizados, o tipo e a qualidade dos materiais e energéticos utilizados e o mix de produtos produzidos. As fontes de energia e os materiais utilizados na produção siderúrgica variam em função dos processos tecnológicos utilizados. O consumo específico de energia na indústria siderúrgica brasileira tem mostrado comportamento crescente ao longo dos últimos anos, em função principalmente da maior produção de laminados, registrando, porém, uma redução em 2007 (Tabela 27). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 60 Ministério de Minas e Energia Tabela 27 – Consumo de energia, produção física e consumo específico, 2002 - 2007 Variável Unidade 2002 2003 2004 2005 2006 2007 Consumo 10³ tep 15.729 16.701 17.945 17.459 16.985 18.291 Produção 10³ t aço 29.604 31.147 32.909 31.610 30.901 33.782 Consumo específico tep/t aço 0,531 0,536 0,545 0,552 0,550 0,540 Fonte: EPE/MME (2008). Com relação à autoprodução de energia elétrica, não são disponíveis séries históricas completas desagregadas por setor. A partir do arquivo disponibilizado pelo MME para contabilização da autoprodução, é possível compor uma série a partir de 1992. Os valores de 2002 a 2007 são apresentados na Tabela 28, com exceção de 2004, pela impossibilidade de recuperação dos dados primários desse ano utilizados na contabilização. Tabela 28 – Autoprodução de eletricidade, 2002 – 2003 e 2005 - 2007 (GWh) Fonte de geração 2002 2003 2005 2006 2007 288 448 432 559 464 Gás de alto-forno 3.095 3.128 3.800 3.278 2.906 Óleo combustível 46 40 1 28 59 Gás de coqueria 693 464 450 458 855 79 66 60 34 - 821 666 656 921 864 Óleo diesel - - 2 0 - Carvão vegetal - - 45 - - 5.022 4.812 5.446 5.278 5.149 Gás natural Alcatrão Hidráulica 1 Total 1 A autoprodução hidráulica aqui considerada incorpora a participação de usinas siderúrgicas em consórcios de geração hidroelétrica. Fonte: EPE/MME (2008). 7.2 Matriz de fluxo de materiais Nesta seção, apresentam-se os consumos unitários dos principais materiais utilizados nas diferentes fases do processo siderúrgico. Os resultados referem-se a valores médios da indústria siderúrgica brasileira. A Tabela 29 mostra a matriz típica resultante do fluxo de materiais na indústria siderúrgica, composta pelos consumos unitários médios de materiais por unidade de produto, em cada fase da cadeia produtiva. Assim, por exemplo, a coqueria consome cerca de 1.300 kg de carvão mineral para produzir uma tonelada de coque, o alto-forno a carvão vegetal consome 400 kg deste insumo para produzir uma tonelada de gusa, a aciaria a oxigênio consome em torno de 951 kg de gusa para produzir uma tonelada de aço, etc. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 61 Ministério de Minas e Energia Tabela 29 – Matriz de fluxo de materiais (kg de material por tonelada de produto da unidade) Unidade/Produto Materiais Carvão 1 Coqueria Sinteri zação Coque Sínter AF a carvão vegetal AF a coque Aciaria a oxigênio (LD) Gusa Aciaria elétrica Aço bruto 1.300 Minério 800 Retorno de finos 380 Moinha/Antracito 50 Fundentes 2 150 Carga metálica 1.630 1.630 . Sínter (80%) 1.304 1.304 326 326 . Minério ou pelota (20%) Coque 354 Finos de carvão 141 Carvão vegetal 400 Gusa 951 326 Sucata 138 761 55 55 Cal 1 Base úmida. 2 Calcário e cal fina. Nota: Valores médios Brasil. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. A partir do fluxo de materiais e dos respectivos consumos unitários por tonelada de produto da unidade, apresentados na Tabela 29, calculam-se os consumos unitários médios de materiais por tonelada de aço bruto, resumidos na Tabela 30. Assim, a título de ilustração, o consumo de carvão mineral por tonelada de aço pode ser calculado como o produto de três fatores: (1.300/1.000) x (354/1.000) x (951/1.000) = 0,438 t de carvão por tonelada de aço = 438 kg de carvão por tonelada de aço. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 62 Ministério de Minas e Energia Tabela 30 – Matriz de fluxo de materiais (kg de material por tonelada de aço bruto) Unidade/Produto Materiais Carvão 1 Coqueria Sinteri zação Coque Sínter 992 Retorno de finos 471 Moinha/Antracito 62 Gusa Aciaria elétrica Aço bruto 186 Carga metálica 1.550 1.550 . Sínter (80%) 1.240 1.240 310 310 . Minério ou pelota (20%) Aciaria a oxigênio (LD) 438 Minério Fundentes 2 AF a carvão vegetal AF a coque Coque 337 Finos de carvão 134 Carvão vegetal 380 Gusa 951 326 Sucata 138 761 55 55 Cal 1 Base úmida. 2 Calcário e cal fina. Nota: Valores médios Brasil. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. 7.3 Matriz de consumos energéticos unitários (consumos específicos de energia) Esta seção contempla estimativas para os consumos unitários (ou consumos específicos) de energia, relativos a cada rota tecnológica, por fase do processo, sendo os respectivos valores expressos em GJ por tonelada de aço bruto. Tais consumos unitários representam consumos médios estimados com base em amostras de usinas siderúrgicas representativas de cada uma das três rotas tecnológicas consideradas no parque siderúrgico brasileiro (seção 5). Neste sentido, os consumos unitários de energia também são comumente denominados, na literatura especializada, por intensidades energéticas ou consumos específicos de energia. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 63 Ministério de Minas e Energia Rota 1. Usinas integradas com coque próprio A Tabela 31 resume os consumos unitários de energia relativos à Rota 1, por fase do processo, em GJ por tonelada de aço bruto. Tabela 31 – Rota 1. Matriz de consumos energéticos unitários (GJ por tonelada de aço bruto) Coqueria Sinteri zação AF a coque Aciaria a oxigênio (LD) Coque Sínter Gusa Aço Energético Carvão Mineral Sistema Consumo Laminação Energético por e outros energético (GJ/t aço) Laminados Aço 15,35 15,35 Carvão Vegetal Finos de Carvão Coque Moinha/Antracito 4,10 4,10 10,60 10,60 1,75 Gás de Coqueria 0,67 Gás de Alto-forno 0,67 0,07 1,75 0,63 0,18 1,41 Gás de Aciaria Energia Elétrica 0,06 0,13 0,17 0,17 0,75 0,51 2,82 0,37 1,78 4,24 0,03 0,40 0,43 0,42 0,44 1,39 0,21 0,60 Oxigênio 0,39 Nitrogênio 0,22 Gás Natural 0,08 0,58 1,09 0,22 0,19 18,01 1,26 2,36 Outras Fontes Consumo Total (A) Gás gerado Coqueria 0,12 16,87 1,95 3,34 5,14 0,49 0,49 10,91 10,91 14,19 2,68 43.79 5,14 Eletricidade gerada (A) – (B) 1,63 3,28 Gás gerado Aciaria Geração Total (B) 0,66 3,28 Gás gerado AF Coque para AF 0,22 1,95 5,14 0,49 12,87 0,77 2,36 1,01 1,01 1,01 20,83 2,33 22,96 Nota: Valores médios Brasil, para a Rota 1. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. Dentre as rotas tecnológicas consideradas para o parque siderúrgico brasileiro, apenas a Rota 1 (seção 5) encontra paralelo em uma das rotas tecnológicas consideradas no estudo relativo às melhores práticas internacionais, a rota tecnológica “Alto-forno + Forno a oxigênio” (seção 4). Conforme apresentado, os consumos unitários por tonelada de aço bruto das usinas siderúrgicas mais eficientes do mundo, relativas a essa rota, são de 0,8 GJ na coqueria, 1,9 GJ na sinterização e 12,2 GJ no alto-forno. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 64 Ministério de Minas e Energia Os valores relativos aos consumos unitários médios de energia na sinterização e no altoforno das usinas brasileiras da Rota 1 são muito próximos das melhores práticas internacionais, isto é, tais usinas se apresentam muito eficientes no que diz respeito às fases de sinterização e de alto-forno. No entanto, aparentemente, poderia existir espaço para alguma melhoria de eficiência energética nas coquerias, bem como nas aciarias e nos processos de laminação do conjunto das siderúrgicas brasileiras. Mesmo assim, há que ter cuidado nessa comparação, tendo em vista que o paralelo entre a Rota 1 e a rota “Alto-forno + Forno a oxigênio”, considerada na seção 4, certamente não significa coincidência perfeita de processos e, por exemplo, etapas de laminação orientadas para produtos com características diferentes podem resultar em consumos de energia bastante diferenciados. Dessa forma, enquanto a melhor prática internacional para a rota “Alto-forno + Forno a oxigênio” registra um consumo total de energia em torno de 18 GJ/t de aço bruto, a média das usinas siderúrgicas brasileiras da Rota 1 registra um consumo de 23 GJ/t de aço bruto. Vale observar que a coqueria é tipicamente um centro de transformação de energia, onde ocorre a transformação do carvão mineral coqueificável em coque. O consumo médio de carvão nas coquerias das usinas integradas da Rota 1 representa 40,6 GJ por tonelada de coque produzido. As coquerias consomem também gás de coqueria e gás de alto-forno num montante total de 3,5 GJ/t de coque. Consomem, ainda, energia elétrica e outras fontes de energia em montantes de, respectivamente, 0,15 GJ/t de coque e 0,33 GJ/t de coque, totalizando 44,6 GJ/t de coque. Por outro lado, os montantes de coque e de gás de coqueria gerados nas coquerias dessas usinas representam, respectivamente, 28,9 GJ/t de coque e 8,7 GJ/t de coque. Nessas condições, o consumo líquido de energia nas coquerias situa-se em torno de 7,1 GJ/t de coque ou, equivalentemente, 2,7 GJ/ t de aço bruto. Rota 2. Usinas integradas sem coque próprio A Rota 2, composta de usinas integradas sem coque próprio, contempla tanto usinas com alto-forno a coque (adquirido de terceiros) quanto usinas com alto-forno a carvão vegetal, que têm no Brasil especial importância pela difusão deste tipo de alto-forno. A Tabela 32 resume os consumos unitários de energia relativos à Rota 2, em GJ por tonelada de aço bruto, por fase do processo. Por comparação com a Rota 1, o consumo energético unitário na Rota 2, de 28,9 GJ/t de aço, é muito inferior ao da Rota 1, de 43,8 GJ/t de aço. Conforme se pode observar na Tabela 31 e na Tabela 32, isso se deve, em grande parte, à ausência de coqueria na Rota 2, a qual apresenta um consumo médio de 16,9 GJ/t de aço na Rota 1. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 65 Ministério de Minas e Energia No entanto, o consumo líquido (consumo menos geração) é inferior na Rota 1: 23,0 GJ/t de aço contra 24,8 GJ/t de aço na Rota 2. Isso se deve essencialmente ao fato de que, na Rota 2, relativamente à Rota 1, se perde uma geração de gás e de coque, na coqueria, de 14,2 GJ/t de aço (3,3 GJ/t de aço, relativo à geração de gás de coqueria, e 10,9 GJ/t de aço, relativo á geração de coque). Além disso, a geração de gás de alto-forno por tonelada de aço é superior em cerca de 1,0 GJ, na Rota 1, e, na Rota 2, não existe geração de eletricidade. Uma vez que, nesta rota tecnológica, foram incluídas tanto usinas que utilizam o coque como redutor no alto-forno quanto usinas que fazem uso do carvão vegetal, os consumos unitários destes energéticos, apresentados na Tabela 32, representam valores médios relativos à atual configuração do parque siderúrgico brasileiro para o mix de usinas que se enquadram nesta rota. Nesse sentido, os resultados apresentados não contemplam explicitamente os consumos energéticos das usinas que utilizam apenas o coque, bem como daquelas que utilizam somente o carvão vegetal no alto-forno. Tabela 32: Rota 2. Matriz de consumos energéticos unitários (GJ/t de aço bruto) Energético Sinteri zação AF a coque AF a carvão vegetal Aciaria a oxigênio (LD) Sínter Gusa Gusa Aço Sistema Laminação Energético e outros Laminados Aço Consumo por energético (GJ/t aço) Carvão Mineral Carvão Vegetal Finos de Carvão 1,22 Coque 3,88 Moinha/ Antracito 10,68 10,68 2,86 4,09 3,88 0,79 0,79 Gás de Coqueria Gás de Alto-forno 0,09 0,75 1,49 0,12 1,32 0,63 0,06 0,16 0,09 0,30 0,93 0,30 4,40 Gás de Aciaria Energia Elétrica 1,83 Oxigênio 0,14 0,36 0,50 Nitrogênio 0,10 0,14 0,24 Gás Natural 0,15 0,06 Outras Fontes 0,18 0,14 0,10 1,12 0,18 0,57 Consumo Total (A) 1,12 6,49 16,23 1,25 2,89 2,48 1,63 2,48 1,63 4,01 14,60 0,35 2,14 0,93 28,90 Gás gerado Coqueria Gás gerado AF 4,11 Gás gerado Aciaria Eletricidade gerada Geração Total (B) (A) – (B) 1,12 4,11 1,25 2,89 0,93 24,79 Nota: Valores médios Brasil, para a Rota 2. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 66 Ministério de Minas e Energia Rota 3. Usinas semi-integradas ou parcialmente integradas A Tabela 33 resume os consumos unitários de energia relativos à Rota 3 (usinas semi ou parcialmente integradas com aciaria elétrica), por fase do processo, expressos em GJ por tonelada de aço bruto. Neste caso, tratando-se de produção secundária de aço com utilização de elevado percentual de sucata na carga metálica, o consumo energético unitário, de 8,8 GJ/t de aço, é muito inferior ao das Rotas 1 e 2. Contudo, o consumo da aciaria elétrica é significativamente maior (quase o triplo) do consumo da aciaria a oxigênio presente nas Rotas 1 e 2. Por essa razão, o consumo específico de energia elétrica é, também, superior neste caso. Tabela 33 – Rota 3. Matriz de consumos energéticos unitários (GJ por tonelada de aço bruto) Energético Aciaria elétrica Laminação Sistema Energético e outros Aço Laminados Aço Consumo por energético (GJ/t aço) Carvão Mineral Carvão Vegetal Finos de Carvão Coque Moinha/Antracito Gás de Coqueria Gás de Alto-forno Gás de Aciaria Energia Elétrica 1,69 Oxigênio 0,38 0,85 0,60 3,14 0,38 Nitrogênio Gás Natural 0,74 1,19 0,97 2,90 Outras Fontes 0,58 0,27 1,50 2,35 Consumo Total (A) 3,39 2,30 3,07 8,76 3,39 2,30 3,07 8,76 Gás gerado Coqueria Gás gerado AF Gás gerado Aciaria Eletricidade gerada Geração Total (B) (A) – (B) Nota: Valores médios Brasil, para a Rota 3. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 67 Ministério de Minas e Energia 7.4 Cogeração de eletricidade A cogeração de eletricidade no setor siderúrgico a partir de gases de processo (gases de coqueria, de alto-forno e de aciaria) é uma prática tradicional do setor. Atualmente, a capacidade instalada de cogeração do setor siderúrgico, no Brasil, situa-se em torno de 920 MW, o que, admitindo-se um fator de capacidade médio de 85%, permitiria gerar um montante de eletricidade um pouco superior a 6 TWh por ano. De acordo com os resultados da seção 7.3, as usinas siderúrgicas da rota tecnológica integrada com coqueria própria (Rota 1) possuem, em média, uma necessidade de aquisição de energia elétrica da ordem de 0,38 GJ/t aço bruto ou 106 kWh/t aço bruto, conforme explicitado na Tabela 34. Vale dizer, isso não significa que todas as usinas contempladas na Rota 1 sejam adquirentes líquidas de eletricidade. Ao contrário, existem casos de usinas que geram mais eletricidade do que a sua própria necessidade e que, portanto, são exportadoras líquidas de energia elétrica. Esta situação é comum em usinas integradas dedicadas à produção de placas, cuja cadeia produtiva termina, pois, nessa fase do processo produtivo siderúrgico. A ausência de laminação suprime uma fase eletrointensiva, conforme se pode observar na Tabela 31, o que, aliada a formas avançadas de cogeração, permite a geração de excedentes significativos de eletricidade. Tabela 34 – Rota 1. Consumo e geração de eletricidade GJ/t de aço kWh/t de aço Consumo (A) 1,39 387 Geração (B) 1,01 281 Saldo [(A) – (B)] 0,38 106 Nota: Valores médios Brasil, para a Rota 1. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. Por outro lado, as usinas classificadas na Rota 2, operem elas com alto-forno a coque ou com alto-forno a carvão vegetal, tradicionalmente não fazem a recuperação dos gases de alto-forno para a cogeração de eletricidade. Neste caso, o balanço “consumo x geração” de eletricidade mostra uma necessidade média de aquisição externa de eletricidade da ordem de 510 kWh/t de aço (Tabela 35). Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 68 Ministério de Minas e Energia Tabela 35 – Rota 2. Consumo e geração de eletricidade GJ/t de aço kWh/t de aço Consumo (A) 1,83 509 Geração (B) 0 0 1,83 509 Saldo [(A) – (B)] Nota: Valores médios Brasil, para a Rota 2. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. No caso da Rota 3 (usinas com aciaria elétrica), o balanço de energia elétrica registra necessidade de aquisição externa de energia da ordem de 870 kWh/t de aço (Tabela 36). Tabela 36 – Rota 3. Consumo e geração de eletricidade GJ/t de aço kWh/t de aço Consumo (A) 3,14 871 Geração (B) 0 0 3,14 871 Saldo [(A) – (B)] Nota: Valores médios Brasil, para a Rota 3. Fonte: SETEPLA TECNOMETAL engenharia (2008). Elaboração EPE. Em termos da expansão potencial do parque siderúrgico brasileiro, conforme mencionado na seção 6, admite-se como provável a predominância de novas usinas integradas a coque com coqueria própria (Rota 1), conseqüentemente a expansão da cogeração de eletricidade no setor deverá se aproximar mais do perfil representado na Tabela 34. Na verdade, esse potencial de cogeração deverá ser mesmo superior, levando-se em conta que boa parte das novas plantas siderúrgicas será voltada para a exportação de placas, prescindindo, portanto, da fase eletrointensiva de laminação. Em tais plantas é possível obter excedentes substanciais de geração de eletricidade, ao contrário do que ocorre com a média atual das usinas da Rota 1. Esse é o caso da usina, atualmente em implantação, da Companhia Siderúrgica do Atlântico (CSA) que, aliando forma avançada de cogeração com o fato da planta se destinar à produção de placas para exportação, permite a geração de significativo excedente de eletricidade. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 69 Ministério de Minas e Energia (Esta página foi intencionalmente deixada em branco para o adequado alinhamento de páginas na impressão com a opção frente e verso - “double sided”) Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 70 Ministério de Minas e Energia 8. Perspectivas tecnológicas As considerações apresentadas nesta seção tomam como base dois trabalhos com maior grau de cobertura sobre o tema recentemente publicados pela Agência Internacional de Energia (IEA): Energy Technology Perspectives 2006 (IEA, 2006) e Energy Technology Perspectives 2008 (IEA, 2008). Essas duas publicações utilizam uma abordagem das perspectivas tecnológicas com foco na eficiência energética e nas emissões de gases de efeito estufa. Com este objetivo, apresentam um panorama setorial detalhado das tecnologias atualmente em uso tanto nos setores produtores de energia quanto naqueles que são consumidores, bem como das perspectivas de longo prazo da evolução tecnológica para cada um desses setores. De acordo com esses documentos, a combinação de tecnologias energeticamente mais eficientes, com o uso de biomassa, a co-geração de energia, a otimização do ciclo de vida dos materiais e, em certos casos, o seqüestro de carbono, poderá resultar em reduções significativas tanto no consumo de energia quanto sobre o montante de emissões de CO2. Cabe destacar, porém, que a implementação de grande parte desse potencial apresenta custos mais elevados do que o esperado em um cenário tendencial de desenvolvimento mundial. A penetração das novas tecnologias na indústria terá papel importante nesse contexto. Ações de eficiência e de redução de emissões de CO2 em segmentos industriais energointensivos serão responsáveis por grande parcela de redução no consumo de energia e na emissão de gases de efeito estufa. No caso específico das emissões, além da penetração de tecnologias eficientes de produção, também o uso de tecnologias de seqüestro de carbono podem desempenhar papel importante. Entre os diversos segmentos industriais, a indústria siderúrgica é o segundo maior consumidor de energia e o principal setor emissor de CO2 no mundo. Em 2005, respondeu por cerca de 20% do uso de energia na indústria e por 30% das emissões, incluindo-se as coquerias e os altos-fornos. Por isso, é preocupação básica deste segmento investir em eficiência energética e na redução das emissões. As próximas seções serão dedicadas a resumir alguns dos principais aspectos apresentados nas mencionadas publicações da IEA, no que se refere às perspectivas tecnológicas da indústria siderúrgica mundial. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 71 Ministério de Minas e Energia 8.1 Eficiência energética e eficiência no uso de materiais O impacto da penetração de tecnologias mais eficientes de produção na indústria como um todo deve levar em consideração que diferenças de eficiência entre indústrias e mesmo entre plantas podem não ser diretamente comparáveis, o que somente poderia ser realizado através do isolamento do perfil tecnológico de cada indústria. Antes disso, existem efeitos relacionados à escala dos empreendimentos, o nível de disponibilidade e aproveitamento de resíduos térmicos, a qualidade do minério de ferro, o controle de qualidade realizado e demais questões operacionais específicas (IEA, 2006). Questões como essas tornam mais árdua a tarefa de estimativa de potenciais de conservação de energia. Para ilustrar concretamente estes aspectos, o estudo “Energy Technology Perspectives” da Agência Internacional de Energia (IEA, 2006) ilustra a influência da qualidade do recurso mineral empregado e a produtividade do forno sobre o rendimento do forno. Por exemplo, em mini-fornos, o aumento do conteúdo de ferro de 50% para 55% reduz o consumo específico de combustível de 0,75 para 0,6 t por tonelada do metal quente. Adicionalmente, um acréscimo da produtividade do alto-forno em 1-1,5 t/m³ reduz também o consumo de combustível de 0,75 para 0,6 t/t de metal quente. Entretanto, estes impactos não podem ser quantitativamente generalizados, devendo ser objeto de análises específicas. Além disso, outro aspecto que merece atenção refere-se ao fato de que a extensão de ganhos de eficiência da indústria siderúrgica deve ser analisada num contexto de trade off entre eficiência energética e estratégia ótima de negócio. Exemplificando, no caso da China e da Índia, plantas de pequena escala são utilizadas, sendo provavelmente elemento principal da estratégia de expansão nestes mercados, porque se ajustam melhor à estrutura dos mercados locais e permitem expansão a menores custos (uso de mini-fornos com fornos elétricos a arco). Em termos globais, a produção primária de aço demanda cerca de três vezes mais energia do que a produção secundária (reciclagem da sucata). Assim, substancial economia de energia pode ser obtida pela substituição do processo constituído por alto-forno e aciaria a oxigênio pelo uso de sucata em fornos elétricos a arco, com a ressalva da limitação de aplicação da sucata, tanto pela qualidade do produto final como pela disponibilidade, que é maior em países desenvolvidos, diferença que tende a desaparecer com o amadurecimento da economia. A seguir, podem-se observar os atuais requisitos de energia na produção siderúrgica vis-àvis os requisitos mínimos para esta produção, bem como as correspondentes emissões de CO2, de acordo com as fontes referidas na Tabela 37. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 72 Ministério de Minas e Energia Tabela 37 – Requisitos de consumo de energia para produção de ferro e aço Produto/Processo Energia (GJ/t) Emissões (t CO2/t) Atual Mínimo Atual Mínimo 13-14 10,4 1,45-1,56 1,16 Aço líquido (EAF) 2,1-2,4 1,6 0,36-0,42 0,28 Chapas finas a quente 2,0-2,4 0,9 0,11-0,13 0,05 Chapas finas a frio 1,0-1,4 0,02 0,17-0,24 0 Ferro-gusa líquido (5% C) Fonte: Fruehan et al (2000) apud IEA (2006). Nas últimas décadas, a expansão da produção siderúrgica mundial tem se dado, primordialmente, via forno elétrico a arco. Contudo, a rota via forno a oxigênio ainda é a mais utilizada mundialmente, principalmente devido a limitações de disponibilidade de sucata. A produção através de forno elétrico é mais comum nos EUA e na Europa, onde existe disponibilidade de montantes significativos de sucata. Embora o aço seja um dos materiais mais reciclados no mundo, ocorrem períodos de escassez de sucata em determinadas regiões e, nos países em desenvolvimento, essa escassez é praticamente sistêmica, não podendo prescindir-se da produção primária de aço. Quando se utiliza a sucata para produção de aço, elimina-se a parcela de consumo devido à redução do minério de ferro, estimada em 6,6 GJ/t de ferro, referente ao uso de hematita, a forma mais abundante de minério de ferro. É necessário destacar, porém, que existe limite para o grau de reciclagem, pois uma parcela da produção de ferro fica estocada como aparelhos e equipamentos em indústrias, residências e edificações, quanto pelo fato de que determinadas aplicações requerem graus de pureza diferenciados. Assim, as premissas de reciclagem devem ser coerentes com parâmetros tais como a taxa de depreciação da economia e o grau de reposição tecnológica. Além disso, muitas aplicações do aço requerem graus de pureza específicos e, normalmente, à utilização de sucata se associa redução da qualidade do aço. Estes dois aspectos justificam, per se, a análise mais cuidadosa dos limites de reciclabilidade do aço. As características do mercado também exercem impacto sobre o consumo de energia na indústria siderúrgica. Por exemplo, quanto mais fina a chapa de aço produzida, maior é a demanda de energia e, em certos casos, há a necessidade de operações adicionais para remoção de impurezas e redução do teor de carbono. Também há de se destacar o impacto do perfil de produção sobre o consumo energético. Enquanto o preço do aço cru situa-se em torno de US$ 150/t, o preço de materiais acabados fica em torno de US$ 300-700/t. Embora produtos mais complexos exijam maior conteúdo energético por tonelada, estes têm menor conteúdo energético por valor adicionado, ou seja, têm menor intensidade energética, no sentido econômico. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 73 Ministério de Minas e Energia Por outro lado, o consumo específico típico de carvão e coque em um alto-forno é de aproximadamente 0,55 t/t ferro-gusa, sendo o valor de 0,45 t/t ferro-gusa o consumo teórico mínimo. Em termos médios, este valor pode ser menor pelo emprego de carvão vegetal, no caso brasileiro. O uso de tecnologia de re-injeção de carvão permite reduzir o consumo de energia na etapa de produção de coque (em torno de 8 GJ/t de coque), uma vez que o carvão é injetado diretamente no alto-forno, substituindo, em parte, a necessidade do coque. Existem pesquisas para utilização de resíduos plásticos em substituição ao coque e ao carvão, mas sua disseminação depende de especificidades ligadas a cada aproveitamento, além de barreiras tais como: a legislação local para queima de resíduos, o controle de teor de PVC nos pellets de plástico, a obtenção de licença ambiental para queima de resíduos e o custo de capital para reconstruir o sistema de injeção de combustível no forno. 8.2 8.2.1 Fronteiras tecnológicas do processo siderúrgico Fusão redutora Usinas siderúrgicas de pequeno e médio porte podem tornar-se muito mais eficientes, através da nova configuração dos reatores destinados à fusão redutora, substituindo por um único processo as fases de preparação do minério (aglomeração), de coqueificação do carvão e de alto-forno de uma usina siderúrgica convencional. Além disso, a fusão redutora, com seus gases de processo mais ricos em CO2, poderá vir a ser uma tecnologia apropriada ao seqüestro de carbono. O estágio atual da tecnologia de fusão redutora é mais apropriado para plantas integradas de escala média, que se localizam, principalmente, em países em desenvolvimento. Configurações mais recentes da tecnologia de fusão redutora, como a tecnologia FINEX, em desenvolvimento pela POSCO na Coréia, têm como objetivo eliminar também a fase de aglomeração do minério. Recentemente, foi construída uma planta com capacidade instalada de 1,5 Mtpa. Outro processo de fusão redutora, denominado processo Hismelt, cuja primeira planta comercial está sendo construída na Austrália, e que utiliza finos de minério, poderá ter ainda um melhor balanço energético do que o processo FINEX. Os atuais processos de fusão redutora geram montantes substanciais de gases de processo, tipicamente o equivalente a cerca de 9 GJ/t de produto. A reutilização desses gases poderá conduzir a significativa redução das emissões de CO2. As expectativas da IEA com relação à penetração dos novos processos de fusão redutora, como o COREX e o FINEX na Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 74 Ministério de Minas e Energia indústria siderúrgica mundial, são apresentadas na Tabela 38. Com uma expansão significativa do processo de fusão redutora, menos energointensivo do que a maioria dos outros processos, poderá alcançar-se uma economia de energia da ordem de 10% a 20%, no período 2030-2050. Tabela 38 – Perspectivas globais para novos processos de produção siderúrgicos (fusão redutora) 2003-2015 2015-2030 2030-2050 P&D, demonstração e comercial Comercial Comercial Custo de capital (US$/t) 350 250 220 Economia de energia 0-5% 10-15% 10-19% Estágio de desenvolvimento Nota: investimento para novo alto-forno, bateria de coque e planta de sinterização ficam em torno de US$ 350/t de metal quente. Fonte: IEA (2006) 8.2.2 Altos-fornos eficientes No caso dos altos-fornos, pesquisas em curso sugerem que, se eles forem redesenhados para poder usar oxigênio em lugar de ar enriquecido e para reciclar gases de topo, poderá ser alcançada uma redução nas emissões de CO2 do alto-forno da ordem de 20% a 25%. São os chamados altos-fornos eficientes. Tanto a fusão redutora quanto os altos-fornos eficientes são tecnologias que poderão viabilizar o uso de técnicas de seqüestro do carbono. Estima-se que, com a utilização em larga escala dessas tecnologias, no ano de 2050, poderia ser evitado um montante de emissões globais de 200 Mt CO2 a 500 Mt CO2. 8.2.3 Lingotamento contínuo Atualmente, a maioria do aço produzido é submetida a um processo de lingotamento contínuo, transformando-se em blocos, placas e tarugos, que precisam ser reaquecidos para a laminação na forma final. O lingotamento contínuo integra o lingotamento e a laminação a quente do aço em uma única fase, eliminando a necessidade de reaquecimento do aço antes da laminação. Esta tecnologia contribui para a conservação de energia e reduz o investimento. A conservação de energia obtida com esta tecnologia pode chegar a algo em torno de 1GJ a 3 GJ por tonelada de aço. Ainda que na indústria siderúrgica brasileira o percentual de participação do uso do lingotamento contínuo seja elevado, cabe destacar que cerca de 7% da produção Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 75 Ministério de Minas e Energia nacional de aço bruto é realizada através de lingotamento convencional, onde pode haver espaço para ganhos de eficiência energética. Outra possibilidade de redução de consumo de energia na indústria siderúrgica envolve a aplicação de processos de moldagem ou conformação direta do aço. Correntemente, os metais são moldados em lingotes ou placas, com a necessidade de reaquecê-los novamente para a conformação do produto final. A chamada moldagem direta integra o processo de lingotamento e conformação em uma etapa, eliminando esta necessidade de reaquecimento. Um exemplo disso inclui a produção direta de placas planas com espessura de 1-10 mm, ao invés de produzi-lo com espessura entre 120-300 mm, com conformação posterior entre 1-10 mm. Neste caso, o potencial de economia de energia é estimado entre 1 e 3 GJ/t aço. Outro benefício é a economia indireta de energia, proporcionada pela redução de perdas de material. Entre os principais desafios desta tecnologia, estão a qualidade e a aplicação do produto nos usuários finais. Atualmente, o uso desta tecnologia é limitado grandemente a capacidades inferiores a 500 mil toneladas anuais, embora existam aplicações para um milhão de toneladas anuais (EIA, 2006). Tabela 39 – Perspectivas globais para novos processos de produção siderúrgicos (conformação direta do aço) 2003-2015 2015-2030 2030-2050 P&D, demonstração Comercial Comercial Custo de capital (US$/t) 200 150-200 150-200 Economia de energia 80% 90% 90% Estágio de desenvolvimento Nota: investimento para tradicional moldador contínuo e hot Rolling é em torno USD 70/t de metal quente maior do que a moldagem direta. Fonte: IEA (2006). 8.2.4 Resíduos de plástico como redutor Atualmente, o carvão e o coque de carvão mineral são os principais agentes redutores utilizados na produção do ferro, embora o uso de gás natural na produção de ferro-esponja esteja ganhando espaço. Também é utilizado o carvão vegetal, nomeadamente na América do Sul, em particular no Brasil, que é geralmente utilizado em fornos relativamente pequenos. A Alemanha e o Japão desenvolveram tecnologias para injeção de resíduos de plástico no alto-forno, como substituto do coque e do carvão, atuando inclusive como agente redutor. Geralmente, os resíduos de plástico necessitam de algum tratamento prévio, como um processo de pelotização, para serem utilizados como carga de alto-forno. Esses resíduos também podem ser adicionados aos fornos da coqueria. As experiências realizadas têm Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 76 Ministério de Minas e Energia mostrado que o uso de resíduos de plástico no forno da coqueria resulta em melhor estabilidade do processo do que a utilização desses resíduos no alto-forno como substituto do coque e do carvão. Por outro lado, o uso de resíduos de plástico na indústria siderúrgica compete com outros usos desse material, entre os quais se inclui a própria reciclagem do plástico, o seu uso em outras indústrias, como a indústria de cimento, e a incineração convencional para geração de calor ou eletricidade. A queima de resíduos de plástico emite CO2, seja ela feita em um incinerador de resíduos convencional ou em um alto-forno siderúrgico. No entanto, o montante de energia recuperado em um alto-forno é, geralmente, muito superior àquele recuperado por incineração convencional. Além disso, a injeção de resíduos de plástico substitui, parcialmente, o carvão do alto-forno, combustível este que produz elevadas emissões de CO2, contribuindo dessa forma para a redução das emissões totais de CO2. 8.2.5 Seqüestro de carbono O principal gás de efeito estufa emitido no processo siderúrgico é o dióxido de carbono (CO2). Os altos-fornos são a maior fonte de CO2 no processo siderúrgico, sendo os principais candidatos à aplicação de tecnologias de seqüestro de carbono. Cerca de 60% das emissões de CO2 da siderurgia estão contidas nos gases de processo dos altos-fornos. Os fornos de redução direta também são uma fonte de emissões, ainda que menos importante, embora possam, igualmente, ser candidatos ao seqüestro de carbono. Os montantes de emissão de CO2 associados à produção de uma tonelada de aço dependem da rota tecnológica utilizada. Nas plantas integradas, a maioria das emissões de CO2 (em torno de 70%) é proveniente da produção do ferro-gusa no alto-forno. Montantes inferiores de emissões de CO2 derivam da laminação e acabamento de produtos (12%), preparação do minério (12%) e da produção de eletricidade e oxigênio (7%). Nas usinas semi-integradas baseadas em sucata, o volume principal de emissões é proveniente do forno elétrico a arco (45%), laminação e acabamento (36%) e da produção de oxigênio e eletricidade (16%). Quanto ao seqüestro de carbono, é tecnicamente viável, através da utilização de tecnologias disponíveis, descarbonizar os gases de alto-forno antes de utilizá-los como combustível. Devido à baixa pressão do CO2 nos gases de alto-forno, a tecnologia de absorção é a mais adequada para fazer o seqüestro do carbono. O CO2 seqüestrado não poderá ser utilizado no processo siderúrgico e deverá ser transportado para ser utilizado em outra aplicação ou armazenado. Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 77 Ministério de Minas e Energia Os gases de alto-forno contêm, tipicamente, em torno de 20% de CO2 e 21% de CO por volume, sendo o restante basicamente composto de N2 (nitrogênio). A pressão desses gases é baixa, em torno de 2 a 3 bar. O CO2 pode ser capturado antes ou após a combustão dos gases. A concentração de CO2 após a combustão é em torno de 27% por volume, significativamente superior à dos gases de exaustão de centrais geradoras termelétricas. Outros processos em uma usina siderúrgica também podem ser candidatos à captura de CO2, pré ou pós-combustão. Por exemplo, os gases de exaustão de um forno a oxigênio contêm, tipicamente, 70% de CO e 16% de CO2. Por sua vez, a composição dos gases de alto-forno vem mudando, em virtude da crescente injeção de carvão, de gás natural e de resíduos de plástico. Como estes combustíveis tendem a reduzir a temperatura no alto-forno, esse efeito é compensado pela injeção de 50 kg a 75 kg de oxigênio por tonelada de aço. O enriquecimento, com a injeção de oxigênio, diminui a concentração de N2 nos gases de exaustão e aumenta a concentração de CO, de CO2 e de H2. Finalmente, na Tabela 40 podem ser observadas as perspectivas tecnológicas globais apresentadas pela IEA, para a indústria siderúrgica mundial no que tange às principais tecnologias com potencial de penetração futura na indústria siderúrgica mundial. Tabela 40 – Perspectivas tecnológicas globais para a introdução de tecnologias na produção siderúrgica 2003-2015 2015-2030 2030-2050 Comercial Comercial Comercial 50-55 50 50 5% 7% 10% Demonstração Comercial Comercial 60-70 60 55 50% 75% 90% Estudos Piloto/demonstração comercial Custo de capital (US$/t) n.d. 120 110 Redução de CO2 75% 80% 85% Tecnologia/Parâmetro Injeção de carvão Estágio de desenvolvimento Custo de capital (US$/t) Economia de energia Injeção de plástico Estágio de desenvolvimento Custo de capital (US$/t) Economia de energia Seqüestro/armazenamento de CO2 Estágio de desenvolvimento Fonte: IEA (2006) Nota Técnica DEA 02/09. Caracterização do uso da energia no setor siderúrgico brasileiro 78 Ministério de Minas e Energia 9. 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