EDITORIAL “F reud vive. Uma das razões pela qual acho que ele está vivo é o número de obituários escrito sobre ele.” Esta afirmação de Peter Gay – numa reportagem publicada na revista Veja de 19 de maio último – encontra sua verificação plena no nosso país. O encontro de mais de seiscentas pessoas em Porto Alegre, organizado pela APPOA, em outubro passado, convocando diversas disciplinas para debater as conseqüências que, para o sujeito, acarretam as transformações recentemente operadas no valor simbólico do trabalho; o encontro no Rio de Janeiro sobre psicanálise de crianças, em agosto de 98, com mais de oitocentos colegas; o recente – aconteceu em Recife na terceira semana de junho - V Forum Brasileiro de Psicanálise organizado por 23 instituições psicanalíticas do Brasil sobre o desamparo com a participação de 700 psicanalistas. A constância da presença de mais de 200 pessoas (entre educadores e psicanalistas) no seminário mensal de clínica do Lugar de Vida no Instituto de Psicologia da USP já no seu terceiro ano consecutivo. A proliferação de cursos de pós graduação em teoria psicanalítica em qualificadas universidades nas mais importantes cidades do país. A recente reunião de centos de colegas psicanalistas, psicólogos, psiquiatras e historiadores ao redor da presença de Elizabeth Roudinesco – historiadora da psicanálise -. A convocatória de diversos seminários com centos de colegas para o próximo mes de agosto, nas mais diversas cidades com a participação de Rolando Chemama, Charles Melman, Marie Cristine Laznik, Jean Jacques Rassial, Juan David Nassio, Isidoro Vegh, Gerárd Pommier, Eric Porge. Como já o vem fazendo regularmente ao longo das últimas décadas, vários colegas de nossa Instituição, e outros como, notadamente, Ivã Corrêa, Jacques Laberge, Eduardo Vidal, Cristina Kupffer, Aurélio de Sousa, Marcos do Rio Teixeira, Euvaldo Mattos, Urania Tourinho Peres, Ricardo Goldenberg, Rodolfo Ruffino, Octávio de Sousa, entre muitos outros. Estes são alguns dos indicadores que, entre dezenas de eventos e encontros como os aqui brevemente mencionados, demonstram a vigorosa atividade que a psicanálise – especialmente a claramente comprometida com a leitura de Freud e Lacan - provoca em torno de sua transmissão e seus efeitos na clínica e na cultura contemporánea. Certamente, a constante atividade C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 1 EDITORIAL NOTÍCIAS de estudo, pesquisa, debate e trabalho clínico que desdobram regularmente ao redor de 250 colegas na APPOA, mais os colegas do Espaço Psicanalítico de Ijuí, os grupos de estudo de Caxias, de Chapecó, de Santa María, de São Leopoldo, de Rio Grande, e de outras cidades de Rio Grande do Sul, formam parte dessa “usina” de reflexão crítica, transformação da clínica e torsão necessária do discurso social, que a produção freudianolacaniana tem sustentado nesta segunda metade do século. As conseqüências disso ? : Uma maior aproximação à verdade que, se não tem efeitos tecnológicos (como aquelas minúsculas “verdades objetivas”), certamente tem efeitos éticos. Uma tangência com o real que, se não poupa todo sofrimento (como a ciência promete mas não cumpre) ao menos coloca o sintoma do sujeito no viés de seu próprio desejo, ou seja, no máximo de liberdade – e no mínimo de dor - à que ele pode aspirar. ATIVIDADE ABERTA DO SEMINÁRIO MEMÓRIAS Receberemos no dia 30 de agosto o artista plástico Richard John que apresentará um pouco de sua trajetória de produção artística. Teremos a oportunidade de debater com ele algumas preocupações presentes em seu trabalho e que estamos desenvolvendo no seminário: a questão da origem, a função da memória e o lugar da imagem. Richard John apresentou ano passado sua dissertação de mestrado no Instituto de Artes UFRGS intitulada: As Faces da Origem: Morfologias possiveis para uma poética das identificações. Convidamos a todos para esta interlocução que certamente será promissora. Dia: 30 de agosto Hora: 21 horas Local: Sede da APPOA Ana Costa, Edson Sousa, Lucia Pereira EXERCÍCIOS CLÍNICOS No mês de junho, tivemos a estréia de um novo lugar de trabalho na APPOA, que denominamos de Exercícios Clínicos. Desse acontecimento pode-se pensar muitas coisas, que certamente irão se desdobrando ao longo dos próximos encontros. Uma das questões, diz respeito à indagação sobre o que se transmite numa apresentação pública de casos. Se pudéssemos situar um “pai primevo” seria certamente Charcot e a exibição do corpo histérico. No caso, a “exibição” produzia uma determinada unidade curiosa: a platéia consistia num desdobramento do corpo histérico, como sacrifício necessário à autorização do mestre. Os Exercícios Clínicos introduziram um “mediador” entre o real da clínica (que fica como resto para o analista) e a necessidade de exibição (que todos temos, por sinal). Procede-se da seguinte maneira: o analista que tenha uma indagação de sua prática, que queira tornar pública, convida um ou dois colegas a quem dirige sua questão. Esses colegas têm a função de “mediadores”, ou seja, de transmitir a questão, sem respondê-la, aos outros que escutam (no caso, o 2 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 3 público). Assim, não se trata de um debate de “saberes”, como ocorre numa apresentação pública de mesa redonda. A transmissão que se produz aí, evoca, em cada um dos que escutam, o retorno do impossível que caracteriza sua própria prática. O tema desse primeiro encontro dizia respeito aos efeitos do pedido de abstinência na clínica com drogaditos. Pode-se deduzir os efeitos do que tenha sido a transmissão no encontro, na medida em que se chegou à enunciação, ao final, do que é o princípio que faz funcionar uma análise: a necessidade de abstinência do analista, em relação ao que o provoca a passar ao ato com seu paciente. ROLAND CHEMAMA UM QUESTIONAMENTO LACANIANO NA ATUALIDADE O trabalho com o psicanalista Roland Chemama parte da iniciativa de Instituições Psicanalíticas e Universitárias para discutir questões contemporâneas da clínica psicanalítica. Essa proposta enlaça a própria clínica, a instituição e conseqüentemente, a transmissão da psicanálise. Com esse intuito, teremos momentos diferenciados, mas partindo sempre do exame da incidência das mudanças culturais nas configurações psicopatológicas. Na atualidade, essas constatações nos chegam através da clínica, como, por exemplo, no estudo de casos de neurose obsessiva em mulheres, nos quais a “bela histérica” cede lugar à eficiente obsessiva. Para tanto, é preciso retomar a metapsicologia freudiana e seus conceitos, como a clivagem do eu e a técnica psicanalítica. Algumas ponderações sobre o Brasil também se viabilizam, partindo da concepção de Chemama, de que alguns autores advindos da sociologia e antropologia - os quais escreveram sobre o Brasil - criaram um “romance nacional” ou mito coletivo da representação que o País compõe de si mesmo, gerando efeitos sobre o sujeito, o grupo produtor dessa representação e a prática da psicanálise. 4 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 CAXIAS DO SUL 12/08 – 19h e 30min – Discussão Clínica: Neurose obsessiva feminina hoje Local: Hotel Cosmos – Rua 20 de setembro, 1563 Inscrições: Sede da APPOA Valores: associados da APPOA - R$ 45,00 / não associados - R$ 50,00 PORTO ALEGRE – APPOA 14/08 – 15h e 30 min Reunião do Cartel do Interior, com apresentação de um caso clínico por parte de um membro do Cartel e discussão com R. Chemama Local e inscrições: Nova Sede da APPOA Valor: R$ 15,00 – (vagas limitadas) 17/08 – 18h – Reunião da Mesa Diretiva (aberta a membros e participantes da APPOA), com participação de R. Chemama. Entre outros assuntos, serão discutidos os possíveis projetos de trabalho entre AFI e APPOA. Local: Nova Sede da APPOA 17/08 – 20h e 30min – Reunião exclusiva para membros e participantes da APPOA, com intervenção de R. Chemama sobre o tema: O pai e o mestre na transmissão da psicanálise. Local: Nova Sede da APPOA 18/08 – 20h e 30min – Conferência: Indagações sobre o Brasil e sua aposta para a psicanálise Local: Hotel Everest – Salão Rio Grande do Sul – Rua Duque de Caxias, 1357 Valores: Associados da APPOA - (cada atividade) - R$ 20,00 Associados da APPOA - (duas atividades) - R$ 30,00 Estudantes de graduação por conferência - R$ 22,00 Profissionais por conferência - R$ 35,00 Inscrições e informações: sede da APPOA C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 5 NOTÍCIAS CARTEL BRASIL 500 ANOS MUDANÇA DE ENDEREÇO Ieda Prates da Silva informa seu e-mail: [email protected] Luisa M. Surreaux informa o endereço do seu consultório, Rua Nova York, 10/705 Rosane Monteiro Ramalho informa seu e-mail: [email protected] Ligia Gomes Víctora informa o novo endereço do Consultório: R. Joaquim Nabuco, 15 (esquina Lima e Silva), conjunto 204. 6 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 7 SEÇÃO TEMÁTICA SEÇÃO TEMÁTICA 500 ANOS RE-INVENTANDO UM BRASIL CONTINUAÇÃO DA BIBLIOGRAFIA N o início deste ano, visando ao futuro aniversário de quinhentos anos do descobrimento do Brasil e antecipando o tema do Congresso da APPOA do ano 2000, iniciamos o cartel sobre este tema. As discussões cada vez contam com maior número de participantes, e têm nos estimulado a pesquisar, a trocar idéias, e a trabalhar. Temas como a questão do Outro e a função da lei, as marcas do simbólico, implícitas na língua, no sentimento de nacionalidade, na marginalidade, na “malandragem”, o racismo “cordial” (existe?!), a miscigenação entre as raças; e por outro lado, o imaginário do corpo/terra do Brasil, e a linguagem das artes – são alguns dos tópicos debatidos nesse espaço. Neste número do Correio trazemos uma mostra do caminho que iniciamos a trilhar, tanto pelos textos de Roland Chemama e Ângela Jesuíno Ferretto, de Paris (que na França participam do ciclo de conferências-debates: “A questão do Outro na América Latina”), quanto dos colegas Carmen Backes, Alfredo Jerusalinsky, Conceição Beltrão e Mario Fleig. Estes trabalhos nos apresentam um olhar sobre as questões da brasilidade, do descobrimento ao contemporâneo; modulado pelos efeitos da prática psicanalítica. A particularidade desta seção temática é que ela inaugura uma troca de publicações com os colegas da AFI, através do Cartel da América Latina. Em função da discussão temática comum, os textos deste número serão lançados também em francês. Além disto, pretendemos que este seja o primeiro passo de uma série que antecipará nosso Congresso. BIBLIOGRAFIA CALLIGARIS, Contardo. Hello Brasil! notas de um psicanalista europeu viajando ao Brasil. São Paulo. Editora Escuta;1991. PRADO, Paulo. Retrato do Brasil: ensaio sobre a tristeza brasileira. São Paulo. Companhia das Letras, 1997. Ligia Gomes Victora e Robson de Freitas Pereira 8 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 9 CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil? SEÇÃO TEMÁTICA ONDE SE INVENTA O BRASIL?1 Roland Chemama Tradução de Francisco Settineri D e início, se vocês permitem, gostaria de propor uma questão pré via. De que modo estou autorizado a falar desses problemas es senciais, relativos ao Brasil, problemas que anunciamos no breve texto que vocês sem dúvida leram2? Fui algumas vezes ao Brasil, aprendo a sua língua, mas não reconheço em mim nenhuma competência particular, e tenho muito poucos conhecimentos. A única coisa, então, que poderia me autorizar, é que o Brasil me põe a trabalhar. Quando um psicanalista se acha confrontado com um tema que o faz trabalhar, o efeito desse encontro é que ele pode retomar, um pouco como um analisante, algumas questões sem dúvida essenciais para todos nós. Espero que seja evidente que é disso que se trata. Aliás, eu e Angela Jesuíno-Ferretto tivemos diversas discussões, em que propusemos juntos alguns problemas. E depois combinamos que, pelo fato de que eu iria falar de questões talvez menos precisas do que ela, eu falaria primeiro. De que iremos falar? Lembremos o próprio título do ciclo: o Outro na América Latina. Não se trata apenas de nos perguntarmos como funciona a dimensão do Outro na América Latina, mas também de ver como o que pode se passar nesse ou naquele país pode interrogar nossa representa1 Esse texto reproduz uma conferência feita na Maison de l’Amérique Latine, em Paris, em 17 de maio de 1999, no quadro de um ciclo sobre “o Outro na América Latina”. Esta exposição foi seguida de uma exposição feita por Angela Jesuíno-Ferretto. 2 Eis o texto que anunciava as duas exposições: Tornou-se banal perguntar-se sobre o que, no Brasil, poderia constituir uma lei simbólica. Deve-se denunciar, como às vezes se faz, uma carência que seria claramente visível, tanto no nível social como na esfera privada? Tentar-se-á antes fazer valer, tanto nos escritos eruditos como no discurso corrente, o que poderia constituir uma outra forma de sustentar RSI: mestiçagem dos corpos, mistura de imaginários, sincretismo religioso, romance nacional ou mito coletivo. 10 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 ção do Outro. Esse Outro, como vocês sabem, podemos entendê-lo em diversos sentidos. Digamos pelo menos que se trata do lugar do significante, mas também do lugar da lei. O que dizer disso, a partir do Brasil? Vocês sabem, sem dúvida, que já existem muitos estudos que colocaram em destaque certas particularidades do laço simbólico no Brasil. São às vezes textos de psicanalistas, mas também livros de historiadores, de sociólogos, de antropólogos. Na primeira categoria destes eu situaria o livro de Sérgio Buarque de Holanda, Raízes do Brasil. É notável ver com que clareza Sérgio Buarque de Holanda põe em destaque certos traços da cultura brasileira que podem nos interrogar como psicanalistas. Esses traços se ordenam em torno da noção do “homem cordial”. É uma noção bem conhecida, mais que é preciso não compreender apressadamente. Ela designa, por certo, as qualidades de afabilidade, de hospitalidade e de generosidade. Porém, para o próprio autor a cordialidade se opõe antes de mais nada à “polidez”. A polidez comporta regras, eventualmente ritos, em todo caso uma certa forma de compulsão. Quanto à cordialidade, ela se concebe antes como a expressão de uma emoção direta e viva. Sérgio Buarque vai mostrar, a partir disso, o quanto o brasileiro é habitualmente rebelde a tudo aquilo que pode lhe surgir como uma convenção social. Poder-se-ia segui-lo no detalhe, e em particular no detalhe da língua, no emprego muito corrente dos diminutivos, dos prenomes, do tuteamento. O mais importante, para nós, talvez seja a idéia segundo a qual trata-se, em todos os casos, de reduzir ao mínimo a distância que pode separar um sujeito do outro. A inimizade pode ser, aliás, nesse sentido tão “cordial” como a amizade. O que é rejeitado, em contrapartida, é tudo aquilo que não poderia ser reconduzido à esfera do íntimo, do familiar, do privado. Em suma, trata-se sempre de fazer do outro um semelhante. Vê-se o quanto todo laço parece antes dever assumir uma forma imaginária, vê-se o quanto o lugar parece estreito para os laços simbólicos. No que concerne aos psicanalistas, devo dizer que aprendi bastante ao ler a pequena obra de Contardo Calligaris, que se chama Hello Brasil!, e C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 11 SEÇÃO TEMÁTICA que infelizmente não possui tradução francesa. Contardo Calligaris, que se interroga igualmente sobre a questão da lei simbólica no Brasil, remonta à colonização, a um colonizador que procurava antes gozar do corpo de uma nova terra que estava à sua disposição, do que transmitir um imperativo paterno (o de seu país de origem), um imperativo que teria limitado seu gozo. É verdade que Contardo Calligaris distingue o colonizador do colono, que veio posteriormente, e que buscava, antes de gozar, ser reconhecido, obter um nome. Ocorre que o que predomina, segundo ele, no Brasil, é a esperança de realizar o sonho de um gozo absoluto, esperança que não poderia fundar um verdadeiro imperativo simbólico. Aliás, parece-me que não se deveria esquecer um outro aspecto dessa questão, sobre o qual Calligaris insiste de saída. Aquilo de que, de acordo com ele, o Brasil seria carente, a partir do momento em que o colonizador procura gozar, e não transmitir uma lei, aquilo, pois, de que é carente, é também um significante que teria valor de significante nacional, um traço que cada um poderia reconhecer como tal. Para Contardo Calligaris, a ausência desse traço, ou melhor, desse um traço, é que compromete a possibilidade de uma umtegração. Vocês entendem o jogo de palavras: não se trataria de uma dificuldade de integração, uma dificuldade em uniformizar as diversas etnias que compõem o Brasil, trata-se de uma dificuldade relativa ao próprio um. Deve-se então ficar nisso? Não o creio, e não penso, aliás, que essa seja a última palavra das obras que acabo de citar. Mas me parece, sobretudo, que a própria existência de obras desse tipo nos fornece um elemento de resposta às questões que tentamos propor. O que quero dizer? Pois bem, penso que é tempo, sem dúvida, de formular aqui a minha hipótese, hipótese que hoje quero sustentar. O que gostaria de dizer, a propósito do Brasil, é que ele não nos confronta com o que seria uma pura carência no nível da lei simbólica. Ele nos faz, antes, ver como, no lugar em que a lei simbólica surge como precária, podem se constituir formações substitutivas. Estas podem ser de diversas ordens, e tentaremos dar uma idéia delas. Pareceu-me que o que poderia assumir o valor de formações substitutivas de uma lei simbólica no 12 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil? Brasil, seriam de início essas elaborações de alcance teórico, essas obras de sociólogos ou de historiadores, por que não de psicanalistas, também, obras que contribuem para a produção daquilo que eu poderia chamar de romance nacional ou de mito coletivo. Vou tentar explicitar tudo isso. Porque, de saída, dar a essas obras um valor desse gênero? É que, me parece, elas desempenham um papel bem diferente de um papel meramente teórico. Sérgio Buarque sublinhou o lugar que os intelectuais podem ter na sociedade brasileira. Por certo, ele mesmo pode às vezes falar desse lugar de uma maneira crítica, sublinhando o fato de que esses intelectuais desenvolvem freqüentemente um pensamento afastado da realidade. Mas isso não reduz nem um pouco a importância do que está aqui em jogo. Tudo se passa como se uma sociedade cujos marcos simbólicos precisamente não estão bem assegurados, uma sociedade que se pergunta sobre sua identidade, devesse forçosamente ir buscar em alguns autores importantes, mas também em todos aqueles que se inspiram neles, uma representação de si mesma que pudesse aliviar a própria carência. É preciso destacar, nesse sentido, o fato de que o atual presidente do Brasil é ele próprio um intelectual formado na reflexão sociológica. Eu não esconderei de vocês que a questão “onde se inventa o Brasil?” pode remeter, entre outras coisas, ao título de uma conferência que ele pronunciou no Instituto Rio Branco, na época em que era Ministro das Relações Exteriores do Brasil. Essa conferência se intitulava, com efeito: Livros que inventaram o Brasil. Esses livros são sobretudo os de Gilberto Freyre, de Sérgio Buarque de Holanda e de Caio Prado Júnior. Parece-me que o título da conferência de Fernando Henrique Cardoso fala bastante bem do papel que ele reconhecia a eles. Esses livros sem dúvida não criam o Brasil em sua realidade social e econômica. Mas eles criam a representação que o Brasil dá de si mesmo, e sabe-se que uma representação não deixa jamais de ter efeitos sobre o indivíduo ou sobre o grupo social que a produz. Aliás, para falar dessa representação, eu utilizo precisamente as expressões “romance nacional”, ou ainda “mito coletivo”. Estou bem consciente de que isso arrisca parecer metafórico. Digamos que eu tente apre- C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 13 SEÇÃO TEMÁTICA ender, de modo talvez analógico, algo que conhecemos bem em nossos tratamentos, mas que também possui, sem dúvida, uma realidade no nível social. Vocês sabem que Freud fala de romance familiar a propósito do que a criança pode imaginar de suas origens. Ela não seria a filha de seus pais, teria uma origem mais prestigiosa, real, por exemplo. Ou ainda, ela seria o fruto de uma aventura amorosa secreta de sua mãe, etc. A esse respeito, então, eu colocaria em destaque não o caráter errôneo dessas representações, mas seu valor fantasmático. Trata-se de uma construção imaginária que vem sempre responder a um desejo, ou sustentar um desejo. Em suma, trata-se de um fantasma. Ora, quando se lê, por exemplo, o livro de Gilberto Freyre, Casa Grande e Senzala, que em francês recebeu o nome de “Maîtres et esclaves” (Senhores e Escravos), tem-se a forte impressão, para além da seriedade de suas referências históricas, de se descobrir um texto que pode ter um valor fantasmático dessa ordem. Charles Melman falava, a esse respeito, de uma “obra lírica sobre o nascimento do Brasil”. Esse livro, ele dizia, “conta que o Brasil é o fruto de um português lúbrico, que só pensava naquilo, e de uma bela índia besuntada de vermelho, e que penteava delicadamente os cabelos na água de um rio”. É verdade que isso é perfeitamente legível no livro de Freyre, e pode-se mesmo ir além. Freyre faz também, de fato, a genealogia do próprio português, este ser metade europeu, metade africano. Assim, antes mesmo de falar da bela índia – a mãe do brasileiro – ele evoca sua avó paterna, essa “mourisca encantada”, “tipo delicioso de mulher morena de olhos negros, totalmente envolta em um misticismo sexual”, etc. Eu encurto a descrição, não falo em particular do que se poderia chamar de tio judeu do colonizador português, mas retornaremos ao que o romance nacional tende a estabelecer. Falei aliás de mito coletivo, e a própria expressão poderia parecer curiosa. Virgínia Hasenbalg me fez saber de um artigo de Carlos Hasenbalg, que se chama “Entre o mito e os fatos: racismo e relações raciais no Brasil”. Carlos Hasenbalg, que fala de mito a propósito do tema da democracia racial no Brasil, diz que utiliza esse termo “para lembrar a distância entre representação e realidade” e não “para fazer referência à noção antropoló- 14 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil? gica de mito”. É certo que também não pretendo analisar aqui um mito à maneira dos antropólogos. Mas ocorre que Lacan disse que o complexo de Édipo tinha valor de mito, e que ele igualmente fez menção daquilo que ele chama de “o mito individual do neurótico”. O mito, para ele, é pensado como expressão, expressão de uma verdade que não poderia ser dita de outro modo. A verdade assume a forma de uma ficção, ou, melhor ainda, de uma série de ficções pelas quais um sujeito - por exemplo o pequeno Hans elabora sua história. Em suma, o mito carregaria o traço de uma questão não resolvida, mas de uma questão que está, por assim dizer, em andamento. Eu diria, então, que ele pode carregar esse traço para um povo, do mesmo modo que para um sujeito. Vocês vêem que eu inverto aqui o sentido da importação do conceito. O que é que, no Brasil, tem valor de mito coletivo? Pois bem, sem dúvida, antes de mais nada, precisamente a questão da mestiçagem, à qual já comecei a fazer alusão. A mestiçagem é por certo uma realidade no Brasil, e sabe-se que complexidade ela pode ter, pois o Brasil é feito, em graus diversos, de uma miscigenação muito grande entre brancos, negros e índios. Porém, o que pode antes nos ocupar é que ela assume uma dimensão imaginária particular, a de representar o que haveria de específico na nação brasileira.. Ela a assume nessas obras às quais já fiz alusão, mesmo na de Caio Prado Júnior, apesar de sua orientação marxista. Nesse sentido, ela representa um valor, uma representação do que os brasileiros consideram como bom em seu próprio país. Eu poderia citar, por certo, longas páginas a propósito dessa exaltação da mestiçagem, nesses autores aos quais já me referi, ou em outros, mais contemporâneos, como Da Matta. É preciso destacar que esse tema vai bem além do que se poderia crer inicialmente. A mestiçagem é igualmente a coexistência, em uma mesma cultura, de palavras, de objetos, de costumes oriundos dos índios, dos africanos, dos europeus. A idéia, ainda mais precisamente, é de que as crenças e os costumes se misturam intimamente, e Angela irá nos falar disso a propósito do sincretismo religioso. Mas C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 15 SEÇÃO TEMÁTICA pode-se igualmente lembrar a imagem que Da Matta fornece a partir do que ele considera como o prato nacional brasileiro: o feijão-com-arroz, em que o negro e o branco se misturam em um só prato, uma massa indiferenciada. Entretanto, é preciso dizer, de imediato, que essa representação da mestiçagem é muitas vezes denunciada, não sem razão, como exageradamente otimista, do mesmo modo que, aliás, a representação que a acompanha, a de uma democracia racial no Brasil. É por isso que se fala de mito no sentido de uma mistificação. Esse mito seria feito para esconder as profundas diferenças sociais entre os grupos raciais, que não seriam tão misturados como se diz. Foram criticadas igualmente as conseqüências políticas de um tal mito. Pôde-se assim destacar, a partir de diversas pesquisas, que mesmo quando os negros e os mestiços tomam consciência de uma situação desfavorável, eles rejeitam a idéia de que uma solução poderia ser propiciada pela ação de um movimento no qual somente eles participassem. Do mesmo modo, o fim das injustiças deve se inscrever no quadro de um povo pensado antes em sua unidade do que em suas contradições. O que pensar de tudo isso? Parece-me que a posição do analista não pode ser aqui de denunciar a mentira, como se tratasse apenas de um falso semblante que não tivesse nenhuma consistência. É claro que é preciso antes considerar que esse mito exprime e produz algo de essencial para o sujeito brasileiro. É sobre isso que eu poderia ser tentado a retomar, mas sem dúvida desviando um pouco, o que Melman tinha dito sobre o discurso do mestre no colonialismo. Eu não terei tempo de explicar, para os que talvez não a conheçam, a formalização lacaniana do discurso do mestre. Digamos que se, em todo discurso, é preciso distinguir de um lado um lugar de onde isso comanda, e de outro um lugar em que isso deve obedecer, Melman afirma que no colonialismo uma barra vem separar esses dois lugares. Em suma, esses dois lugares seriam mais claramente opostos do que em outras formas de organização social. Ora, se é incontestável que a história brasileira mostra bem um 16 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 CHEMAMA, R. Onde se inventa o Brasil? enfrentamento, às vezes violento, entre o colonizador branco e o índio, assim como, por certo, entre o branco e o escravo negro, parece-me que esse enfrentamento não se dava, ao mesmo tempo, sem uma certa proximidade entre aquele que dominava e o que era dominado. Essa proximidade, e podemos certamente criticar suas formas, quando se tratava, por exemplo, de utilizar sexualmente a mulher de cor, ou ainda de usar o pequeno escravo negro como saco de pancadas do jovem senhor branco. Mas me parece que ela deixa sua marca no próprio sujeito brasileiro. Em suma, haveria bem uma barra entre a posição do senhor e a do escravo, mas essa barra poderia igualmente estar situada no interior de um mesmo sujeito. Por exemplo, nesse ou naquele caso, o negro constitui, em um sujeito brasileiro branco, o que é ao mesmo tempo rejeitado e buscado inconscientemente, o que constitui o objeto de uma fascinação tanto real quanto não pode ser aparente. Ora, dispomos de um conceito para pensar o que vem separar, em um mesmo sujeito, duas correntes psíquicas diferentes, é o de clivagem. É preciso então pensar o mito da mestiçagem a partir desse conceito de clivagem. Por certo, ele vem denegar diferenças sociais que não são negligenciáveis. Mas ele só tem essa função. Ele dá, sem dúvida, um equivalente daquilo que constitui uma falha no nível de um significante da umtegração. A questão poderia ser, aliás, para os que estão habituados a esse tipo de formulação, a questão poderia ser, pois, saber se essa suplência é da ordem do imaginário ou do “sinthoma”. Uma outra questão, mas desta é Angela que falará, seria saber se a alteridade denegada não retornaria de maneira persecutória. De qualquer modo, o mito da mestiçagem parece bem ter por função principal responder à questão da identidade. É preciso então tentar ser um pouco mais preciso sobre essa questão. Sabe-se que, com muita freqüência, quando um povo procura forjar sua identidade, ou se confortar em uma identidade, ele o faz opondo-se a seus vizinhos mais próximos. A dimensão do Outro é então lançada sobre a dimensão do estrangeiro, e é a xenofobia que vem para o primeiro plano. Parece-me que este não é o caso do Brasil. É significativo, nesse sentido, C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 17 SEÇÃO TEMÁTICA que o modernismo, que orientou por muito tempo a vida intelectual, tenha constituído ao mesmo tempo uma recuperação da memória nacional e uma abertura para a modernidade européia. Pôde-se às vezes criticar a representação da relação com o outro que existe nos Manifestos antropofágicos. Todos concordarão, de qualquer modo, que essa representação não comporta nenhuma rejeição do Outro. Eis, pois, o que gostaria de tentar dizer sobre o Brasil, sobre um certo número de discursos em que se inventa o Brasil. E acrescentaria ainda uma outra coisa, para concluir. Dado que sabemos que em nossas sociedades européias a lei simbólica também tende a se fragilizar, poderia ser o caso de que tivéssemos a aprender alguma coisa com um país como o Brasil, ou seja, com um país que teve de forjar uma representação de si que não era inicialmente evidente. É uma questão que deveria certamente ser retomada mais longamente. FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. OUTRO: INSTRUÇÕES DE USO 1 Angela Jesuino Ferretto G ostaria de começar com um pouco de literatura, com um pequeno trecho de Grande Sertão : Veredas. Primeiro porque é sempre um prazer ler e reler Guimarães Rosa, segundo porque é sempre muito instrutivo no que nos diz respeito. Para os que não conhecem este livro, vou me servir do prefácio da tradução francesa para situá-lo. Este prefácio escrito por Mario Vargas Lhosa coloca em evidência ao menos três leituras possíveis para este romance caudaloso, organizado entorno de um vasto monólogo proferido por Riobaldo, o narrador. Segundo Lhosa, este livro é ao mesmo tempo um romance de aventuras, um labirinto verbal e uma longa interrogação metafísica sobre o bem e o mal. Para o que nos interessa aqui, gostaria de me deter nesta última possibilidade de leitura visto que alguns críticos chegam a afirmar que « o verdadeiro tema de Grande Sertão : Veredas é a possesão diabólica ». É verdade como diz Lhosa que « o monólogo de Riobaldo reúne dúvidas e inquietudes, formula várias afirmações obscuras sobre a existência do demônio com quem o narrador fêz ou acreditou fazer ou quer fazer crer a seu ouvinte que ele concluiu um pacto ». « O espírito satânico de Riobaldo, continua Lhosa, se contenta em lançar de tempos em tempos, em geral nos momentos chaves da ação, um sinal furtivo mas indubitável, uma frase como uma fugitiva pata de bode, uma alusão ou uma lembrança flutuante tal um pronto cheiro de enxôfre que é o bastante para provocar um estremecimento, um arrepio indicando que alguma coisa ou alguém de intangível e no entanto de poderosamente real está ali, girando em volta ». 1 Conferência proferida na Maison de l’Amérique Latine em maio de 1999 junto com a conferência de R. Chemama : Aonde se Inventa o Brasil ? 18 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 19 SEÇÃO TEMÁTICA Eis aí em que contexto escolhi algumas linhas para introduzir minhas questões sobre o Outro no Brasil : « Hem ? Hem ? O que mais penso, testo e explico : todo-o- mundo é louco. O senhor, eu,nós, as pessoas todas. Por isso é que se carece principalmente de religião : para se desendoidecer, desdoidar. Reza é que sara da loucura. No geral. Isso é que é a salvação da alma... Muita religião, seu moço ! Eu cá não perco ocasião de religião. Aproveito de todas. Bebo água de todo rio... Uma só, para mim é pouca, talvez não me chegue. Rezo cristão, católico, embrenho a certo ; e aceito as preces de compadre meu Quelemém, doutrina dele de Cardéque. Mas, quando posso, vou no Mindumbim, onde um Matias é crente metodista : a gente se acusa de pecador, lê alto a Bíblia, e ora, cantando hinos belos deles. Tudo me quieta me suspende. Qualquer sombrinha me refresca. Mas é só muito provisório. Eu queria rezar - o tempo todo. Muita gente não me aprova, acham que lei de Deus é privilégios, invariável. E eu ! Bofe ! Detesto ! O que sou ? - o que faço, que quero, muito curial. E em cara de todos faço,executado. Eu ? - nõ tresmalho ! Olhe : tem uma preta, Maria Leôncia, longe daqui não mora, as rezas dela afamam muita virtude de poder. Pois a ela pago, todo mês - encomenda de rezar por mim um terço, todo santo dia, e, nos domingos, um rosário. Vale, se vale. Minha mulher não vê mal nisso. E estou, jámandei recado para uma outra, do Vau-Vau, uma Izina Calanga, para vir aqui, ouvi de que reza também com grandes meremências, vou efetuar com ela trato igual. Quero punhado dessas, me defendo em Deus, reunidas de mim em volta...Chagas de Cristo ! Viver é muito perigoso... querer o bem com demais força, de incerto jeito, pode já estar sendo se querendo o mal, por principiar ». Por que essa necessidade de reza ? O que o leva a beber água de todo rio ? Por que uma só reza, uma única religião não é o suficiente ? Viver é muito perigoso, nos lembra Riobaldo. Mas de onde vem este perigo que está em todo lugar e que mesmo um « querer o bem com demais força » pode despertar ? De quê seria preciso se proteger sem descanso? Sem descanso assegurar-se dos favores ? 20 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. Este tipo de questão não é uma exclusividade dos personagens de Guimarães Rosa. Ela reaparece com a mesma força em um romance bem recente - O Matador - de Patrícia Melo. Se desta vez se o narrador se questiona : « ...pensei que alguém, sei lá o quê, alguma coisa invisível poderia estar contra mim, eu acreditava nisso, no invisível, no inferno, eu batia na madeira três vezes, eu não passava embaixo de escada, eu não dava risada na sexta-feira, não usava o número 13, eu não jogava sal na mesa, eu não fazia nada disso. » Se ele tenta a seu modo rezar, apelar para a religião : « Resolvi procurar um pai-de-santo. Ele me mandou tatuar uma estrela de sete pontas no meu pau, vai doer, ele disse, você vai desmaiar de dor, mas é necessário fechar seu corpo. » Ele também responde : « Só há uma explicação :Destino. Antes da gente nascer, alguém, sei lá quem, talvez Deus, Deus define direitinho como é que vai foder a sua vida. É isso. Era a minha teoria. Deus só pensa no homem quando tem que decidir como é que vai destruí-lo. Quando ele não tem tempo, faz uma guerra, um furacão e mata um monte, sem ter que pensar em nada. Em mim, ele pensou . » Como vocês podem ver, viver é também aqui muito perigoso e ainda mais se eu suponho que o Outro quer acabar comigo. Será que podemos encontrar na clínica um eco deste Outro ameaçador esboçado na literatura ? Será que na clínica viver é tão perigoso quanto na ficção ? Na verdade o que a realidade clínica nos ensina, pelas articulações que ela revela, vem esclarecer a ficção. Eu tive como paciente há algum tempo atrás, uma jovem brasileira que vivia já a alguns anos em Paris e que veio me ver com uma questão bem particular : viver para ela era muito perigoso, mas não em todo lugar. Assim que ela desembarcava no Brasil, ela se sentia ameaçada de morte e assim que ela voltava para a França as ameaças pareciam se acalmar um pouco e quando isto não acontecia, quando a ameaça se fazia presente também na França, era antes uma ameaça de ordem sexual que vinha à C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 21 SEÇÃO TEMÁTICA tona. Por outro lado, todas as entrevistas que pude fazer com esta moça obdeceram a um roteiro idêntico : ela entrava no consultório e sem mais preâmbulos, me contava uma cena de violência da qual ela teria sido vítima no Brasil. Se a cena nunca era a mesma, a paciente assinalava a cada vez o caráter gratuito da violência que ela tinha sofrido.Estas cenas falavam de todos os clichês da violência social no Brasil : violência sexual, policial, roubo de criança na maternidade, ameaça de morte com um revólver, etc.. Talvez ainda uma observação : ao final destas poucas entrevistas, a paciente foi passar algum tempo no Brasil e de volta a Paris, ela veio me ver uma última vez para me dizer que as coisas andaram melhor do que das suas precedentes estadias no Brasil. Ela me explicou que ia bem e que não precisava mais de mim, o que não achei oportuno colocar em questão. Não preciso dizer que recebi esta paciente face a face, que ela me falava em português e que minha intervenção limitou-se a uma escuta que poderia qualificar de acolhedora. Gostaria no que diz respeito a este caso, insistir num único ponto : a circunscrição geográfica da ameaça de morte e sua báscula numa ameaça sexual. No Brasil, é sempre um homem, um pequeno outro que através de seu olhar é portador desta ameaça : alguém pode matá-la, sem razão, « de pura malvadeza » como ela mesmo diz. Porém esta idéia aparece num momento preciso de sua estória e num contexto particular. Ela estava na casa de sua mãe numa cidadezinha do interior do Brasil, onde ela encontrou sua irmã que se tratava com um pai-de-santo. Este pai-de-santo queria a todo custo que a paciente viesse « consultá-lo » dizendo-lhe que alguma coisa não andava bem para ela. A paciente recusa categoricamente e alguns dias depois, a ameaça faz sua primeira aparição. Por outro lado, o que ela descreve desta cidadezinha e também de sua mãe, corresponde a um mundo de assombrações, de fantasmas, de almas, de visões da Virgem Maria e de lobisomens. O que me parece importante assinalar no que diz respeito ao nosso tema desta noite, é que para esta moça o olhar de um homem toma no Brasil o sentido de uma ameaça de morte, enquanto que na França este olhar pode ser investido de um sentido sexual, nem que seja ainda sob a forma de uma ameaça. Podemos formular a hipótese que 22 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. além da geografia é sobretudo a mudança de língua que lhe permite fazer a partilha ou a barragem. Por exemplo : será que nesta língua, que não é a língua materna, todo este imaginário fantástico poderia se « implantar » ?A paciente responde : « acho que aqui ninguém acredita em alma ». A última observação concerne o desencadeamento desta estória : a moça recusa a ajuda de um pai-de-santo e, pronto ! Ela é ameaçada de morte ! Temos vontade de dizer que isso responde em outro lugar... Essa me parece, é toda a questão da estrutura dessa paciente : aonde isso responde ? Mas finalmente, quando é que se vai procurar um pai-de-santo no Brasil ? Quanto a isso, gostaria de me servir de uma pequena estória tirada desta vez da clínica da vida quotidiana no Brasil, uma estória muito interessante porque ela coloca em concorrência o pai-de-santo e o psicanalista. Trata-se de uma moça da burguesia branca de uma grande cidade brasileira que começou a ter uma série de acidentes domésticos o suficientemente graves para que ela temesse por sua vida. Ela decide então procurar um pai-de-santo e depois de algumas consultas, alguns banhos e algumas oferendas, tudo volta ao normal. Alguns anos depois, a mesma moça se encontrando num estado que chamaríamos de depressivo, vai consultar um psicanalista. Vocês vêem, Riobaldo tinha razão, bebe-se água de todos os rios ! Mas o que esta estória vem contar é que talvez não se vai consultar um pai-de-santo ou um psicanalista pelas mesmas razões ! O que é um pai-de-santo ? Em primeiro lugar, este termo é a tradução, que devemos ao sincretismo religioso, do termo yorubá : babalorixá . Esta tradução faz de cara uma equivalência entre os Orixás, os deuses da África, e os santos católicos. O babalorixá ou a ialorixá são os sacerdotes do Candomblé, religião afro-brasileira presente desde o século XVII no nosso território e de início proibida pela polícia, proibição vigente até por volta de 1950, para hoje florescer junto a todas as camadas sociais e a toda côr de pele, pelo menos numa certa parte do país. Não vale a pena aqui dar uma de antropólogo, mas é preciso ao menos um pouquinho de antropologia para que se possa compreender como isso funciona, porque formulo a hipótese de que a figura do Outro que o C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 23 SEÇÃO TEMÁTICA candomblé propõe é o emblema daquilo com o que lidamos na sociedade brasileira quer ela seja leiga ou católica. E penso que é justamente por isso que o candomblé dá certo. A primeira coisa a saber é que o candomblé é um mundo de hierarquias, comandado por regras severas, muito rico do ponto de vista ritual e litúrgico e reservado aos iniciados, em todo o caso no que concerne os cultos privados às divinidades. Segunda coisa boa a saber é que na África o Orixá é a aliança entre um antepassado longíquo, fundador da linhagem familiar e uma força da natureza. Neste sentido os Orixás são deuses de clãs que viveram a vida terrestre e que foram divinizados depois da morte. Quando se passa da África para o Brasil, os clãs desaparecem na confusão, na mistura das etnias já que a escravidão vem detruir a sociedade tribal. No Brasil, os Orixás parecem manter seus mitos de antepassados divinizados mas em contrapartida perdem suas características de chefe de linhagem para aparecerem então, únicamente, como personificação das diversas forças da natureza. Esta parece-me ser uma mudança importante na medida em que o sujeito no Brasil vai ter que se encarregar sózinho do culto do Orixá, o seu, em seu próprio nome. Não é mais a tarefa da família, do clã, mas encargo do indivíduo. No Brasil se o ritual dá lugar aos antepassados, o sujeito chega sem capital. A instauração dos antepassados da linnhagem é o resultado da iniciação. É preciso entender que no Brasil quando alguém chega por qualquer razão que seja no candomblé (e pode ser uma razão terrível como esta descrita por Roger Bastide : « você está doente de uma dessas doenças estranhas que lhe consomem como um monstro do interior, que lhe fazem rir ou chorar sem motivo ou correr como um louco ?É que um Orixá já preparou seu ninho nos ramos entrelaçados de sues órgãos ») a primeira questão colocada é a questão da filiação. De que « santo » ele é filho ? A quem pertence sua cabeça ? Podemos pensar que a partir deste momento instaura-se uma filiação mítica, mistica, redobrada pelo laço social estabelecido dentro do « convento » (pai-de-santo, mãe-de-santo, irmão de santo). Enfim uma filiação, uma árvore genealógica, mitos e legendas. 24 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. Porém, qual é o papel do Orixá ? Trata-se de fazer com ele um pacto protetor mas o que é embaraçante é que esse deuses são ao mesmo tempo protetores e portadores de doenças. Eles são sempre mais ou menos ambivalentes. O Orixá pode trazer doença ou curar, ele é todo poderoso... quando ele não é homenageado sua ira pode ser desencadeada visto que ele só subsiste se for venerado, se recebe os alimentos sagrados que o tornam forte, se suas pedras são lavadas no sangue dos animais sacrificados, se ele encarna-se no corpo do « filho ou filha- de- santo » donde a importância do transe. A relação do sujeito com seu Deus funciona de cara a partir deste casal antinômico proteção/ perseguição cujo limite permanece muito frágil embora codificado. Dizia também que este mundo do candomblé fora dos cultos, das festas públicas,era reservado aos iniciados. Evidentemente, existem diferentes graus de iniciação mas me parece que o que é buscado nestes diferentes níveis de iniciação, é uma identificação máxima do fiel com o Orixá. Na verdade trata-se de imitar este Deus, de incorporá-lo, de ser seu cavalo, « cavalo do santo ». A cada grau da iniciação, estabelece-se um laço mais profundo entre o fiel e seu Orixá e quanto mais estreito é o laço, mais o fiel tem obrigações e tabus a respeitar. E ele que se cuide se ele não respeitar tudo isso ao pé da letra ! A partir do reconhecimento da filiação, trata-se de seguir à risca o que quer o Orixá, já que sabemos o que ele quer graças ao jôgo do Ifá e que uma vez que sabemos o que ele quer, podemos satisfazer seus desejos. O avesso da medalha, como se sabe, é que este Deus protetor que pode servir de guiar a cada encruzilhada em que a subjetividade está em jôgo, pode se revelar terrificante, se incompleto, se algo lhe falta. Creio então que o que o candomblé propõe deve sua eficácia ao fato que se aceitamos o culto dos Orixás, sabemos então exatamente a que santo nos devotar e que com isso conseguimos parar o motorzinho da paranóia. Dito de outra forma, o candomblé vem de uma certa maneira organizar, codificar, ritualizar esta perseguição, vem dar conta desta figura do Outro como ameaçadora - mas e sómente se - aceitamos por outro lado, vir moldar nosso eu inteiramente segundo a imagem deste Outro prêt-à-porter C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 25 SEÇÃO TEMÁTICA que é o Orixá. Ainda uma pequena observação sobre o candomblé para falar muito rapidamente do sincretismo religioso do qual ele foi objeto ou o fruto, já não sei muito bem.É verdade como disse antes, que este culto foi durante muito tempo proibido e que a religião católica era a única a ser admitida.Explicase então o sincretismo, que cria uma correspondência entre os deuses da África e os santos católicos, como sendo a única maneira de fazer sobreviver mesmo de forma mascarada, o culto dos Orixás. Porém os próprios antropólogos concordam em dizer que esta correspodência era baseada em detalhes superficiais que relacionavam certos aspectos característicos dos deuses com certos detalhes das imagens que representavam os santos. A assimilação era apenas aparente. O mais interessante é que os antropólogos chegam a dizer que uma vez suspensa a interdição do culto « os negros nascidos no Novo Mundo e criados num igual respeito pelas duas religiões terminaram por considerar o sincretismo afro-católico como sendo uma realidade ». A nuance me parece aqui digna de nota ! Então, será que com isso, com o candomblé e o sincretismo, podemos dizer que matamos dois coelhos com uma cajadada só ? Este longo caminho para sensibilizá-los a uma escritura que vocês já conhecem, escritura proposta por Charles Melman há dez anos atrás num texto que se chama Casa Grande e Senzala : S1 | S2 $|a Gostaria de retomar ainda uma vez esta escritura para me deter, no que diz respeito à questão do Outro na América Latina, neste corte entre S1 e S2 inscrito pela barra vertical. Atiro a atenção de vocês para o fato de que esta escritura não é a escritura de um discurso a mais e nem mesmo simplesmente de um discurso, pois ela não está apta a produzir laço social, o que é próprio de todo discurso. A meu ver, esta escritura seria antes a escritura da falência do discurso. Quando Melman comenta esta escritura ele diz o seguinte : « Neste dispositivo que eu escrevi no quadro, o Outro é sempre o grande Outro, sempre ameaçador, sempre habitado por forças obscuras que o mestre não conseguiu civilizar.Corro sempre o risco de ser absorvido 26 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. por ele, de ser engolido na sua guela. » Viver é muito perigoso e é preciso beber água de todo rio. Riobaldo tinha razão e o personagem de O Matador também. O que esta escritura permite articular a partir deste corte entre S1 e S2 é uma figura do Outro como ameaçador e compósito. Ameaçador pois S1 não está em relação com S2,não vem controlar as « forças obscuras », e compósito porque esta escritura vem instaurar uma heterotopia que Melman comenta largamente no texto intitulado O Complexo de Colombo e que ele analisa de uma maneira ainda mais radical em semináros mais recentes nos quais ele desenvole a idéia de que a América Latina é o futuro da Europa. Se admitimos a desagregação do Simbólico ou se vocês preferirem a falência do discurso em controlar o Real, a questão é para mim a de interrogar o lugar do Imaginário na subjetividade instaurada pela colonização. Este longo caminho pareceu-me impor-se para sensibilizá-los à maneira pela qual isso responde não só no Real mas também no registro do Imaginário. Podemos pensar que a questão do discurso sobre a mestiçagem, a mistura, seria uma maneira de responder a este corte entre S1 e S2 ? Uma maneira de se virar com isso ? De compor com isso ? Porque, na verdade, podemos pensar que é isso que vem manter a unidade nacional. O imaginário nacional é alimentado por esse discurso da mestiçagem. Como diz muito bem Darcy Ribeiro em O Povo Brasileiro, « a mestiçagem no Brasil não é punida, é louvada ». Ainda segundo ele, dada a transfiguração étnica imposta pela destribalização forçada do índio, pela desafricanização do negro e pela deseuropeização dos brancos, « estamos condenados a inventar uma nova etnicidade englobadora de todos eles ». Há também a questão da fortuna do Barroco na América Latina. Se « o Barroco coloca a questão do heterogêneo com a acuidade da ordem da razão » como nos dizia Christiane Lacôte em sua conferência, se a subjetividade barroca não pode ser pensada em termos de dialética, de contradição mas antes em termos de hiato, podemos compreender porque ele teve tanto êxito em nossas terras. Por outro lado, é preciso dar ouvidos ao que diz Lezama Lima se queremos compreender o lugar do barroco na América C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 27 SEÇÃO TEMÁTICA Latina. É preciso lê-lo, ele que chama o barroco americano « Nosso Senhor Barroco » e o erige em a « Arte da Contra-conquista ». E o que é a Arte da Contra- conquista ? É « a criação de uma cultura indo-afro-ibero-americana, que não anula mas que ao contrário amplia e reforça a cultura do Ocidente mediterrâneo na América. Trata-se de um barroco doloroso : ele se apresenta como uma abrogação sincrética, como lugar aonde os Deuses antigos podem encontrar o novo Deus católico e aonde o sexo pode se reconhecer na morte ». É também uma busca silenciosa da identidade nacional. Segundo Severo Sarduy, Lezama nunca pensou buscar fora da imagem o que constitui o substrato de Cuba. O projeto de Lezama é « construir um sistema poético fundado na imagem »., projeto no qual a única certeza é que « o impossível é englutido pela imagem como infinita possibilidade, pela luz do possível, sempre susceptível de se multiplicar em côr ». Será que podemos pensar então em termos de poder da imagem ?Será que é forçando a carta do imaginário que tentamos controlar este Real múltiplo em relação ao qual o verbo parece falhar ? Será que não é esta heterotopia que nos faz ter dois sobrenomes para no final das contas ser o nome o que conta ? Eu notava quanto a isto num outro trabalho, que o nome próprio no contexto da colonização parecia perder esta função de indicar um lugar originário do sujeito, de lhe garantir um lugar simbólico no Outro, como se não tivéssemos sido adotados numa operação simbólica de nominação. Acrescentava na mesma ocasião, que o apelo ao pai imaginário só podia ser então mais gritante. É disso que se trata nas rezas de Riobaldo ? É disso que se trata na proliferação das seitas no Brasil ? Se para nós, o início não era o verbo mas a falência do discurso que a colonização instala, o que dizer do depois ? Depois, é um laço social sustentado pela violência, é a tomada do poder com instrumentos reais, mas é também um Imaginário transbordante cujos efeitos penso que ainda não começamos a medir. O que está em jogo é a maneira como enoda-se RSI, e o papel que cada registro, Real, Simbólico e Imaginário passa a ter. A minha aposta é que talvez a escritura desse nó, quiçá particular, possa nos auxiliar numa leitura da nossa realidade clínica e social. 28 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. Gostaria de concluir com um comentário do poeta brasileiro Manoel de Barros sobre Guimarães Rosa : « Precisamos de um escritor como você, Rosa,para frear com a sua estética, sua linguagem calibrada, os excessos de natural. Temos que enlouquecer o nosso verbo, adoecê-lo de nós, a ponto que esse verbo possa transfigurar a natureza. Humanizá-la. » Quando li esse trecho pela primeira vez, fazem alguns anos, anotei num canto da página : a questão de Rosa é a de apreender o Real por um excesso de sentido, por um excesso de Imaginário injetado na língua ; é a questão do real que induz a forma literária. Vale,se vale. Paris,maio de1999. Bibliografia : Melman, Ch., Le complexe de Colomb, in D’Un inconscient pos-colonial s’il existe,Paris,AFI,1995 Melman, Ch., Casa Grande e Senzala in D’Un inconscient pos-colonial s’il existe,Paris,AFI,1995 Lacôte C.,Fortune du Baroque in D’Un inconscient pos-colonial s’il existe,Paris,AFI,1995 Bastide R., O Candomblé da Bahia, São Paulo, Editora Nacional, 1978 Bastide R.,Images du nordeste mystique en noir et blanc,Paris, Pandora Editions,1978 Fuentes C.,Le sourire d’Erasme, Paris, Gallimard,1992 Rosa, João Guimarães, Grande Sertão :Veredas,Rio de Janeiro, 1984 Rosa, João Guimarães,Diadorim, Paris, Albin Michel,1991 Barros, Manoel,O livro das Ignorãças, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 1994 Bonnefoy, Y.direção,Dictionnaire des mytologies, Paris, Flamarion,1981 Ribeiro, Darcy, O povo Brasileiro, Rio de Janeiro, 1990 Lima, JoséLezama, Oppiano Licario, Paris, Seuil,1991 Gruzinski, S., La pensée métisse, Paris, Fayard,1999 Melo, Patrícia, O Matador, São paulo, Companhia das Letras, 1995 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 29 SEÇÃO TEMÁTICA FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. “O QUE É SER BRASILEIRO 500 ANOS DEPOIS?” Carmen Backes “Seu filho, crioulo, nascido na terra nova, racialmente puro ou mestiçado, este sim, sabendo-se não-africano como os negros boçais que via chegando, nem branco, nem índio e seus mestiços, se sentia desafiado a sair da ninguendade, construindo sua identidade. Seria, assim, ele também, um protobrasileiro por carência.” Darcy Ribeiro E m fins do século XV, os povos peninsulares enfrentavam-se com uma campanha de expulsão das minorias étnicas e religiosas. Depois de ter convivido durante anos com diferenças de todas as ordens, o Tribunal do Santo Ofício da Inquisição encarregou-se de afugentar para o Novo Mundo aventureiros, comerciantes e conquistadores que, junto, trouxeram os impuros de sangue, os hereges, os desterrados. Os colonizadores impuseram ao Novo Mundo conquistado um sistema econômico – baseado na exploração –, dogmas religiosos e um estilo de vida, e também para cá transferiram suas leis discriminatórias: os chamados impuros, hereges e desterrados continuaram tão discriminados como no Velho Mundo, acrescidos aqui, ainda, dos índios e negros. A missão civilizadora a que os conquistadores se propuseram respondia a seus interesses de expansão econômica, que implicava a destruição do que se apresentava como diferente. O Brasil estaria, então – desde sempre e numa tentativa de livrar-se desses modelos discriminatórios dominantes –, defrontado com um grande desafio: construir uma sociedade onde os impuros, os diferentes, os outros, fossem todos iguais – como apregoava o espírito catequista e como ditava a herança deixada por espanhóis e portugueses que resistiram, não sucumbindo à dominação. Enfrentado com a intolerância que desejava preservar a identidade, a pureza da raça, entre outros aspectos, viu-se depois 30 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 com o mesmo destino: fundar uma identidade própria que se opusesse ao poder, ancorada em um traço de igualdade. Vários autores, de diferentes campos do saber, dedicaram-se à descrição do que é ser brasileiro, através da acentuação de alguma qualidade psicológica ou caracterológica. Por exemplo, a interpretação naturalista diz que o brasileiro é alegre, cordial, preguiçoso, malandro, pouco sério, contra a moral civilizada, em função de características de raça, sexualidade, entre outros. Já a interpretação histórico-crítica considera um único elemento, como por exemplo, o preconceito de raça, o patriarcado, a mentalidade colonial, para generalizar e garantir a identidade “original” brasileira. O que é ser brasileiro? Ser brasileiro é o mesmo que ser seringueiro, mineiro, carvoeiro. É aquele que explora o produto que lhe dá o nome. A origem da palavra brasileiro está na designação que se dá àqueles que exploravam o pau-brasil, donde também, depois, se originaria o nome Brasil. Porém, o nome Brasil já existia muito antes, por volta do Século IX, na cartografia européia que designava ser este o nome de uma ilha paradisíaca do Atlântico. Poder- se-ía argumentar, então, que associar o nome brasileiro ao ato de exploração, esquecendo que o nome Brasil já existia muito antes, seria atender a este caráter exploratório/capitalista que, muitas vezes, se insiste em colocar na origem da nação? Voltando à questão anterior: o que é dos brasileiros, na medida em que o produto que, supostamente, lhes dá o nome não existe mais? Essa é a pergunta de quem se vê acossado a dar conta de uma identidade nacional, partindo de uma extinção, uma falta, uma ausência. A busca de uma identidade nacional pode gerar saídas como a de rejeitar tudo o que é externo, com a conseqüente busca de uma originalidade interna. Mas, como diz Octavio Souza, “... a diferença não se presta a fundar identidades.” Essa identidade – baseada na diferença – seria buscada na contraposição ao modelo europeu: ser diferente dele, ou seja, rejeitar o que vem de fora e, talvez, na mesma medida, salientar ufanisticamente uma característica própria. A busca da identidade nacional baseada na diferença é, por vezes, levada a uma intensidade tal que alguns autores, como, por exemplo, C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 31 SEÇÃO TEMÁTICA DaMatta chegam a sugerir critérios quantitativos de comparação entre potenciais econômicos de diferentes países. De acordo com esses critérios, o que diferenciaria um inglês de um francês, por exemplo, seria unicamente o tamanho de seus cofres. O Brasil, segundo ele, deixaria sempre a desejar nos critérios quantitativos, mas teria a vantagem dos critérios qualitativos, que levariam em conta “a comida deliciosa, a música envolvente, a saudade que humaniza o tempo e a morte e os amigos que permitem resistir a tudo”. Ora, qualquer país poderia ser medido pelos critérios qualitativos, e não só o Brasil. Porém, o mais delicado dessa questão da qualidade é que ela faz retornar a fundação da identidade no exotismo, tema esse muito bem trabalhado por Octavio Souza em Fantasia de Brasil (1994). Haveria uma posição subjetiva que fosse comum a todos? Essa pergunta pareceria apontar diretamente para a busca da identidade, ainda que ela se fundasse em uma “posição subjetiva”, conceito esse que também precisaria ser melhor definido. Talvez pudéssemos pensar, não em dar uma resposta sobre a dúvida quanto à identidade, mas em fazer uma análise dos avatares identificatórios na história brasileira, levando em conta que o processo que resulta na homogeneização é uma empresa do poder, principalmente do colonialismo. Octavio Souza também comenta que “os diversos critérios propostos para o estabelecimento da identidade nacional ao longo da história nunca foram amplos o suficiente para incluir o diverso das manifestações culturais do país”. Caberia acrescentar ainda que, talvez mesmo sendo bastante amplos, não atingiriam esse “tipo ideal e total”. “A inscrição dos sujeitos, homens ou mulheres, no discurso do Outro, não é rigidamente fixada. Ela passa por modificações ao longo da história que (...) alteram certamente o uso da língua e, com isso, os lugares que a cultura confere aos sujeitos.” Que os brasileiros ocupem ora um lugar, ora outro “depende, em última instância, das ‘práticas falantes’, que, por sua vez, correspondem a tentativas de responder a deslocamentos ocorridos na sociedade ao longo do tempo – os quais, estes sim, escapam ao controle das vontades dos sujeitos.” (KEHL, 1998, p.29), 32 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. II “Uma coisa é saber da história segundo historiadores, e outra é vê-la através dos olhos que a viram.” Essa bela frase abre o catálogo alusivo à exposição da obra do pintor holandês Albert Eckhout (integrante da corte de Maurício de Nassau, que governou o Brasil entre 1637 e 1645), realizada na XXIV Bienal de São Paulo, que traz à tona, nas suas telas sobre o cotidiano brasileiro, todo o imaginário do nascedouro do Brasil e parte dessa história. Estes originais permanecem até hoje no Museu Nacional de Copenhague e são tidos, oficialmente, como o testemunho mais antigo que se conseguiu resgatar sobre os primórdios da colonização. “Não existem reencontros imediatos com o passado, como se este pudesse voltar no seu frescor primeiro, como se a lembrança pudesse agarrar uma substância, mas há um processo mediativo e reflexivo, um cuidado de fidelidade teológica e/ou política a uma promessa de realização sempre ameaçada, pois passada no duplo sentido de vergangen (passado/desaparecido).” (GAGNEBIN, 1996,p.17) Embora concordemos com Gagnebin, será que a busca ansiosa pelos originais, a procura do fato correto, a ânsia de saber o que realmente aconteceu, o resgate integral da história, sem permitir nenhuma invenção ou reformulação, também não diria respeito às atuais reescrituras da “fundação do Brasil”, junto com a “paixão pelas datas redondas” – quinhentos anos? A tela pintada “naquela época”, assim como os documentos rigorosamente resgatados e compilados, mais do que outras coisas, nos permitiriam visualizar aquelas imagens/memórias brasileiras. As lacunas que teriam ficado, obras do esquecimento ou do recalque, funcionando como verdadeiras manchas para uma imagem total, precisariam ser completamente preenchidas. Antes de Eckhout e mesmo antes do descobrimento, várias “imagens” nos são fornecidas sobre o nascimento da América e, posteriormente, do Brasil. A viagem de Colombo, iniciada em outubro de 1492, uma viagem reta, sempre para a frente, como a grande metáfora da modernidade, funcionando como paradigma para o sujeito moderno, igualmente diz respeito ao fim de um mundo fechado e ao abandono “da casa materna e C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 33 SEÇÃO TEMÁTICA paterna”. Usando essa metáfora filial, também poder-se-ia pensar no Estreito de Gibraltar como a alegoria da saída uterina. A descoberta do Novo Mundo já estava carregada, de antemão, de todo esse imaginário fantástico, cercado de imagens nebulosas e paradisíacas. As imagens, as fantasias, os fatos relatados, lidos ou transmitidos de geração para geração, as peças dos museus, dão conta da tentativa de restituição de um passado mais ou menos vergonhoso, mais ou menos brilhante, mais ou menos imperativo, mais ou menos cerceante para o sujeito. Esse é o grau de liberdade que resta a cada um: articular sua história de uma forma singular. Talvez se pudesse dizer que a escolha das imagens, dos fatos e das peças não depende do gosto ou da vontade... A busca incessante pela identidade pode ser contraposta com a questão da pregnância da imagem no Brasil. Para isso, são oportunas as palavras de SOUZA (1994, p.188-189): “... qualquer identidade só pode ser procurada no registro do visível, da mostração de uma uniformidade que, só podendo ser adquirida no regime do gozo, embota o fazer das pluralidades construtivas de qualquer sociedade. Oposta à requisição de identidade, coloca-se a possibilidade de referência ao ‘um’ nacional que, ocupando para a nação o lugar que o ideal de ego ocupa para o sujeito, inaugura um campo do dizer, e de todas as instâncias nas quais a pluralidade dos dizeres podem sustentar um fazer coletivo que leve em conta a comunidade de destino que nos faz povo, e não massa. No entanto, uma tal referência não pode ser buscada, nem muito menos mostrada, pois é apenas eficiente, não manifesta. É o caso de pararmos de querer ser brasileiros, pois brasileiros já somos, para o pior ou para o melhor. O importante é recusarmos expressar nossa singularidade de modo simplesmente visível. Não se trata de mostrar o que nos constitui, mas sim de falar a partir disso.” Segue SOUZA (1994) dizendo que identidade e imagem são solidárias, questões com as quais o brasileiro se vê às voltas, pareceria que desde seu “nascimento”. Porém, pode a imagem auferir identidade? Talvez somente na sua condição mimética que, evidentemente, não se reduz à imitação. A mímeses 34 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 FERRETO, A. J. Outro: instruções de uso. conquistada a partir do original europeu, talvez funcione como a “imagem apaziguadora”, da qual nos fala Caillois, ou seja, aquilo que buscamos para acalmar nossa ânsia pelo ser. Porém, o que também nos diz este autor, é que esta imagem alcançada só se consegue numa “despersonalização”, ou que, “a vontade do ser de perseverar em seu ser, se consome exaltando-se e o atrai já secretamente em direção à uniformidade que escandaliza sua imperfeita autonomia.” (CAILLOIS, 1986, p.68) Três dos quadros de Eckhout no catálogo citado não retratam a “natureza” do Brasil menino, mas sim a imagem de negros do Congo empertigados em roupas nobres européias – veludo com enfeites de ouro e prata, gibão de brocado e chapéu de pele de castor, ornado com plumas vermelhas. Estas pinturas, talvez, hoje, nos remetessem aos “napoleões retintos” do carnaval de Chico Buarque, numa referência às esdrúxulas cópias do modelo original. No retorno da corte de Nassau para a Holanda, sua casa em Haia – cuja construção iniciara antes da vinda ao Brasil – estava pronta. Pronta para a festa “em que índios tapuias, por ele trazidos, executaram, nus, danças selvagens que chocaram a modéstia puritana. (...) O salão de entrada tinha o teto pintado com as aves da terra [do Brasil] e, das paredes, pendiam os painéis de Eckhout.” (VALLADARES; M. F., 1998, p.22) BIBLIOGRAFIA: CAILLOIS, Roger. Mimetismo e Psicastenia Legendária. Che Vuoi?, São Paulo, v.1, n.0, 1986. DAMATTA, Roberto. O que faz o brasil, Brasil? Rio de Janeiro, Rocco, 1986. GAGNEBIN, J. M. Sete Aulas Sobre Linguagem, Memória e História. Rio de Janeiro, Imago, 1997. _________. História e Narração em W. Banjamin. São Paulo, Perspectiva, 1994. KEHL, Maria Rita. Deslocamentos do Feminino. Rio de Janeiro, Imago, 1998. RIBEIRO, Darcy. O Povo Brasileiro. São Paulo, Companhia das Letras, 1995. SOUZA, Octavio. Fantasia de Brasil. São Paulo, Escuta, 1994. VALLADARES, Clarival do Prado; MELLO FILHO, Luiz Emygdio de. Albert Eckhout : Presença da Holanda no Brasil, Século XVII. 3.ed. Rio de Janeiro, Alumbramiento, 1998. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 35 SEÇÃO TEMÁTICA BARROCO MISSIONEIRO: TRAÇOS QUE INVENTAM O BRASIL Conceição Beltrão e Mario Fleig A fundação simbólica do Brasil, objeto de extensos estudos, não é um feito unitário, mas se trata de um processo no qual devem ser consideradas muitas fundações, sustentadas pela matriz do discurso barroco, pelas utopias milenaristas que tomavam o espírito ibérico e pelas forças da Contra-reforma. Nossa pretensão não é fazer um ensaio histórico e muito menos antropológico, mas apenas levantar algumas hipóteses a respeito dos efeitos subjetivos da conquista espiritual da América através de uma pérola barroca que é o fantasma do missionário jesuíta, primeiro europeu a penetrar e se estabelecer no sul do Brasil. Embalados pelas ondas do Atlântico e sob à Instrução do Geral da Companhia de Jesus, Pe. Francisco de Borja, desembarcam nas terras do Novo Mundo os Jesuítas encarregados da Conquista Espiritual da América. Uma parte desse projeto de fundação, são os Trinta Povos da Província Jesuítica do Paraguai, que se localizava na Bacia do Rio do Prata e corresponde atualmente a parte do território do Paraguai, Brasil e Argentina. Esses povoados iniciam no século XVI (1607), em terras então pertencentes à Espanha, de acordo com a divisão determinada pelo tratado de Tordesilhas (1494), firmado entre as coroas ibéricas, e se encerra em decorrência do Tratado de Madrid (1750), com a redistribuição de territórios, que provoca o enfrentamento bélico dos indígenas contra os exércitos ibéricos unidos. O início do fim (1768) do projeto jesuítico se dá com a expulsão dos jesuítas e o genocídio dos índios catequizados. A conquista espiritual, protagonizada pelos jesuítas, contrariamente à conquista armada, se faz essencialmente pela persuasão. Quanto à questão da violência, podemos concordar com Hegel, que o encontro de culturas não acontece sem violência. Mas nesse encontro específico, temos de um lado as populações indígenas, povo semi-nômade, disperso e indefeso 36 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 BELTRÃO, C. e FLEIG, M. Barroco missioneiro... em decorrência da ação dos invasores e de outro lado o missionário jesuíta, cuja posição subjetiva já é antecipada por Francisco de Borja, quando alerta o Pe. Provincial sobre o fascínio pelo martírio e aconselha precauções: “Não se exponham facilmente a perigo notável de vida entre gente não conquistada, porque embora seja proveitoso para eles [os missionários] morrer logo nesta busca do divino serviço, não seria útil para o bem comum pela muita falta que há de operários (...).” (Suess, 1992, p. 562) A expressão “morrer logo nesta busca do divino serviço” destaca a dinâmica da entrega do corpo enquanto corpo crístico, e isso nos aponta para o elemento central da estrutura fantasmática barroca, e que perpassa igualmente a obra do Pe. Antonio Ruiz de Montoya, A conquista espiritual da América (1639), o texto mais antigo sobre o sul do Brasil, escrito em estilo barroco e fruto da ação efetiva em favor da libertação do índio. Esse texto era endereçado ao Rei de Espanha, para que autorizasse aos indígenas o uso de armamentos em defesa contra os ataques dos paulistas e encomendeiros espanhóis. Ao descrever o martírio do Pe. João del Castillo, Montoya não se poupa de detalhes sádicos, bem ao estilo corrente dos escritos da época, que se prestam a elevar ainda mais a alma ditosa do supliciado: “Cansaram-se os algozes em arrastá-lo, sem que se cansasse o santo em tormento tão cruel.” (p. 228). Em contrapartida, a morte no leito era indesejável, como ocorre com o Pe. Martinho Urtazun. “Lastimava-se por morrer em leito, que não passava de um colchãozinho e duma rede: o que ele julgava ser muito regalo, porque queria morrer arrastado e feito em pedaços por Jesus Cristo.” (p. 71) Alguns meses após sua morte, numa aparição para um missionário desesperançado diante dos trabalhos entre os gentios, animando-o a perseverar, lhe diz: “Desta glória gozam aqueles que trabalham por Deus.” (p. 72) Logo o outro goza quando está a serviço do Outro, quer seja na entrega do corpo na posição do missionário, apontada no texto de Borja, na expectativa de morte por martírio ou na intenção de conseguir que o indígena se entregue ao gozo de Deus, como aparece na carta do Pe. Roque C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 37 SEÇÃO TEMÁTICA Gonzalez, na qual escreve também que já tem ciência que vai ser martirizado: “Porque é certo que Nosso Senhor tomou este meio (o temor e medo do espanhol) por seus desígnios secretos para que esses pobres cheguem a seu conhecimento e se faça algo com eles. Não penso outra coisa em quase quarenta anos que lido com eles muito de perto.” (Suess, 1992, p. 968) Voltando aos fundamentos da constituição do fantasma missionário, na posição de conquistador espiritual, encontramos os elementos propostos pelo Concílio de Trento, que resultam na cena barroca. Como nos demonstra Cacho (1995), a posição conciliar sobre a necessidade das obras contra a justificação (isto é, a salvação do cristão) apenas pela fé (posição da Reforma) e sobre a iconografia religiosa determinam o surgimento do barroco. Desse modo, é explícita a relação entre a arte barroca e a militância católica da Contra-reforma: Afirmação da criatura, das obras e da tradição eclesial contra a posição luterana que propunha soli Deo, sola fides, sola Scriptura. Lacan propõe uma definição do barroco que vem em nosso auxílio: “O barroco é a regulação da alma pela escopia corporal.” (Lacan, p. 158) A escopia corporal é aquilo que aparece, que se faz visível através da encenação, da obra, enfim, da arte, é o que vai regular a alma, isto é, determinar a subjetividade barroca, seu ser. Não há oposição entre aparecer e ser. C. Lacôte (1995) retoma o barroco, mostrando como a aparência implica o ser, caracterizando uma concepção de verdade barroca que não exclui a aparência. A insistência da Contra-reforma nas obras e nos gestos estabelece uma seqüência lógica: imitar os gestos, fazer os gestos e induzir o ser. No barroco missioneiro, somente nas obras reconhecidas como de jesuítas, principalmente do Irmão Brassanelli, que esculpiu o majestoso São Francisco de Borja, e nas esculturas indígenas copiadas de modelo europeu, encontramos as contorções de dor e êxtase. Entretanto, quanto mais o indígena se distancia do modelo, mais encontramos feições plácidas sem o enlevo do gozo frente à agonia, não conseguindo reproduzir o imaginário artístico da Contra-reforma. Esculpiam o que viam da santidade, 38 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 BELTRÃO, C. e FLEIG, M. Barroco missioneiro... nada mais que os padres em sua condição humana de pregação com seus pesados hábitos e seus gestos rituais. Os corpos e as vestes voluptuosas ficam por conta dos missionários. Se assim era, então o que sustentava a posição de poder dos missionários, mesmo sendo tão poucos em cada um dos Povos? Os indígenas, na descrição de Montoya, não eram nada ingênuos, tolos ou bons selvagens, mas homens espertos e capazes de perfídia, cujas elites negociaram, através dos missionários, a condição de súditos do Rei. Nos Trinta Povos não se encontrava a riqueza mineral que caracterizou o barroco tanto no restante do Brasil como em outras partes da América. Mesmo assim, a opulência arquitetônica foi construída, apesar da grande escassez de ferramentas. Consideramos que aquilo que sustenta por 150 anos esse projeto educacional diz respeito ao caráter fantasmático inscrito pelo missionário. Montoya refere episódios de chefes indígenas renegados que repetiam os rituais e gestos episcopais, em templos construídos fora dos redutos da catequese, em sincretismo com sua própria religião. Nos martírios descritos por Montoya, os índios rebeldes queriam destruir os objetos sagrados (a voz do missionário, os ornamentos e paramentos e igualmente os objetos do culto, como a patena e o cálice). Essas duas situações apontam para aquilo através do qual o poder dos missionários era sustentado: a voz e o escópico. Ao ler Montoya, encontramos a mesma fantasmática do missionário, em sua entrega sacrificial a Deus, também na descrição de casos particulares de possessão demoníaca, pequenos atos infracionais do cotidiano, induzidos por um demônio enganador, nos rituais de canibalismo dos indígenas, bem como na invasão de bandeirantes e encomendeiros, na captura de índios. Em todos esses relatos, retorna sempre o mesmo fantasma da escravidão, de um corpo despossuído de poder sobre seu destino e posto a serviço do gozo do Outro. Isso resulta numa posição de proteção diante do desamparo. Talvez seja pela mesma posição diante do desamparo que o indígena se deixava tomar pelo fantasmática barroca do missionário. Podemos lembrar também do que correntemente se chama a “conversão do duque de Gandía”, que ao ver os estragos que a morte produzira na beleza e juventude de Isabel de Portugal, imperatriz da Alemanha e rainha da C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 39 SEÇÃO TEMÁTICA Espanha, se firmou nele o propósito de renunciar ao mundo, vindo a ser São Francisco de Borja. A representação do êxtase, da agonia e da existência do cadavérico na morte, são elementos emergentes no imaginário do século XVI e que encontram sua representação nas artes, na literatura e no culto religioso. Frente a esse real, dá-se a entrega do corpo ao Outro, numa tentativa de garantir uma barreira simbólica através do bem e do belo. Duas formas de entrega do corpo ocorrem na conquista da América: a entrega pelo martírio ou a entrega no combate armado, como ocorrera também nas Cruzadas. Importa observar que em ambos os casos o europeu atravessou o oceano movido por essa mesma fantasmática. Essa é a regulação da subjetividade pela doutrina cristã que “não fala senão da encarnação de Deus num corpo, e supõe mesmo que a paixão sofrida por essa pessoa tenha constituído o gozo de uma outra.” (Lacan, 1982, p. 154) Entre outros tantos ditados populares semelhantes, há no Brasil um que diz: “Para que um goze, outro tem que sofrer”. Isso revela a lógica da alma barroca. Existe uma grande diferença entre ter construído o palco do cristianismo barroco e já ter nascido cristão e barroco. A história da fundação do Brasil nos remete ao problema da filiação na modernidade e ao problema crucial na clínica psicanalítica: onde não há um pai, é possível inventá-lo? O barroco missioneiro, e o mesmo também pode valer para o barroco no Brasil e na América, oferece uma escrita resultante da arte retórica, plástica e musical trazida pelo europeu que se compõe às formas peculiares de escrita tribal. A enebriante beleza da composição cênica do barroco, mesclada à primitividade do indígena artífice não deve nos paralizar num exame de suas manifestações no elo do imaginário. A exuberância do imaginário presentifica o real enquanto morte e desamparo, do europeu herdeiro das grandes pestes e do indígena confrontado com o risco das novas epidemias. A composição de tradições e referências antagônicas através do imaginário barroco permitiu o surgimento de novas formas de operação da função paterna. É isso que sustentou a comunidade missioneira, que não era uma “república guarani” e muito menos uma simples transposição de utopias renascentista, mas a construção de uma coletividade referida ao 40 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 BELTRÃO, C. e FLEIG, M. Barroco missioneiro... Rei e a Deus. É essa posição do Outro, enquanto aquilo que constitui o sujeito, nos permite ler a fantasmática do missionário: “Desta glória gozam aqueles que trabalham por Deus.” REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS CACHO, Jorge. “La grâce du baroque est-elle l’oeuvre torse du concile de Trente?” In: D’un inconscient post-colonial, s’il existe. Paris: AFI, 1995, p. 371-391. KERN, Arno Alvarez. Missões: uma utopia política. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1982. LACAN, Jacques. Mais, ainda. Seminário 20. Rio de Janeiro: Zahar, 1982. LACÔTE, Christiane. “Fortunes du Baroque”. In: D’un inconscient post-colonial, s’il existe. Paris: AFI, 1995, p. 325-345. LOYOLA, S. Inácio. Exercícios espirituais. Porto Alegre, 1966. RUIZ DE MONTOYA, Padre Antônio. A conquista espiritual. 2ª ed. Porto Alegre: Martins Livreiro, 1997. SUESS, Paulo. A conquista espiritual da América Espanhola. 200 documentos - Século XVI. Petrópolis: Vozes, 1992. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 41 SEÇÃO TEMÁTICA JERUSALINSKY, A. A psicanálise e o cocar... A PSICANÁLISE E O COCAR (OS LIMITES ÉTICOS DO DISCURSO COLONIAL) Alfredo Jerusalinsky N a obra de Jacques Lacan encontramos que o registro do real se verifica no impossível. Esse impossível, porém, não tem uma única acepção. A começar pelo impossível fáctico, que se encontra no conceito de prematuração, no escrito de O Estadio do Espelho onde o limite faz borda no corpo. A seguir pelo impossível ôntico do Seminário XI, onde a impossibilidade de junção entre ser e sentido da fundamento à teoria da alienação. O impossível lógico, no adendo ao Seminário da Carta Roubada, onde temos a combinatória lógica mínima de quatro como borda inferior a toda e qualquer possibilidade de operação significante. O impossível gnósico, no seminário O Saber do Psicanalista, onde fica clara a impossibilidade de junção entre saber e verdade – algo que já tinha ficado explícito no seu escrito Ciência e Verdade. E, por último o impossível ético, no que vai do Seminário XX à XXIII, da fronteira entre o sujeito e o gozo, até o limite de James Joyce para se representar na língua – reconhecendo nisso o antecedente da diferença entre a cegueira de Tiréssias e a de Èdipo no Seminário da Transferência, e da distancia entre o amor e o ato, no Seminário da Ética. Anotações prévias, essas, que nos servem de fundamento para propôr que quando o sujeito não pode suportar-se na ordem significante, ele passa ao ato, num confronto desigual com o impossível en todas as suas acepções. Ato que, nesse viés, constitui uma tentativa póstuma do sujeito de provocar no Outro o traço necessário – ou seja na posição certa – para assegurar sua persistência. Dito de outro modo, causar no Outro o eco (lálico) que testemunhe (no discurso) da extensão de sua presença subjetiva para além da existência de seu ser. Se, por um lado, é tal a perspectiva do mártir ou do herói, certamente é também a única alternativa da vítima encurralada nessa impossível escolha entre o abismo ou a loucura. Embora, é claro, sua opção pelo ato seja para ela mesma, contrariamente a do 42 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 mártir, mera resignação sem perspectiva. É exatamente nisso que reside a pequena diferença entre os atos de “entrega”, do Tché Guevara, no momento de sua execução, e o dos judeus do Holocausto no momento de entrada nos “banhos”. A pequena diferença, já que ambas passagens do sujeito se constituem no ato diante da impossibilidade de se sustentar numa fala diante o Outro. Essa mesma pequena diferença entre os 2000 tenochkas que nem tentaram fugir quando os conquistadores de Hernán Cortés os massacraram na Noite Triste de México, e o grito desafiante de Tupac Amarú quando os descendentes de Francisco Pizarro deram a ordem de partida aos quatro cavalos que o esquartejaram nas quatro direções do Perú. O desconhecido poeta que deixou sua testemunha sobre a Noite Triste no códice azteca “Tchilam-Balam”1, escreve: “... o sol já não era o sol, nem a lua era mais a lua. Eles haviam matado nossos deuses.” Revelava assim o drama do colonizado, sem pai nada fazia mais sentido. Não havia mais suporte para a função simbólica necessária que situava os homens e as coisas na cultura. Prestativos, os colonizadores, vão logo oferecer seu próprio pai. ou seja, seu próprio deus suposto mais sábio, mais verdadeiro, mais correto. Virão os mestres-missionários com seu onomástico de novos nomes para todo mundo. Com um novo mapa universal do corpo erótico. Com sua vacas, ferros e santos. E, sobre tudo, com as escrituras que contém todo o saber. Já não haverá lugar para as penas, os deuses-pássaros, ou os contos das sucuris. Quanto mais, a eles estará reservado um lugar nos musséus mas não mais nos céus. Lembrança exótica de até que extremos pode chegar o arbitrário do significante para situar a posição do pai, ou até mesmo de multiplicar-lo. 1 Códice que foi uma das poucas peças literárias produzidas pelos Aztecas que escapou da queima determinada pela igreja, e que foi encontrado, coberto de pô, na década de 1930 numa biblioteca da Bélgica, sem que ninguém possa dar conta de como foi parar ali. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 43 SEÇÃO TEMÁTICA Confrontado com tal estranhamento, até que ponto chega a certeza do colonizador acerca de seu próprio Deus ? Logo após as primeiras décadas de paranóia, surge a tolerância para a mixenagem dos símbolos. O barroco toma as frutas locais. Os santos mostram rostos de pretos e índios. O paraíso vira floresta. O diabo veste armadura. Tolerância ou dúvida ? A prática de terra arrasada e de extermínio que caracterizou a presença do colonizador em América à respeito da população que já se encontrava nestas terras, adquire algumas particularidades no que se refere à importação de escravos. Se no primeiro caso a única chance de substituir uma cultura por outra era a destruição da anterior, no segundo couve o recurso de distribuir os africanos pelos territórios escravagistas tomando a precaução de dispersar os das mesmas tribos. Impedia-se com isso que conservassem a referência à mesma língua e aos mesmos valores simbólicos, reduzindo desse modo a resistencia à cultura que o amo pretendia impôr. Mesmo os nomes eram trocados, incluíndo-se neles a referência ao amo ou à finca de sua pertença. Cuidadosamente era impedida a constituição da continuidade de uma filiação. E a sexuação tendia a ser substituida por uma prática sexual reprodutiva, exceto, é claro, quando se tratava de satisfazer o gozo do amo. Se estabelece assim uma re-montagem da cena feudal através da casa Senzala. O paizinho passa a ser o fazendeiro, que adquire poder mesmo sobre os padres, governando assim também a posição do DeusPai. A convocação da identificação ao amo fica assim irrecusável: privados de sua referência cultural inicial, sem nome, e sem Nome-do-Pai a não ser o do amo, produze-se inevitavelmente a troca de língua e a troca de religião. Curiosamente o fanatismo religioso é muito mais acirrado entre os escravos. Isso se explica pela peremptória necessidade de preencher o vazio deixado pelos seus deuses mortos. A ausência de nome leva a efeitos paradoxais, como por exemplo o acontecido na revolução negra de Haití. Após exterminar todos os brancos da ilha, os negros adotam o nome e sobrenome de seus antigos amos. Sabemos que os escravos desenvolveram formas culturais de resis- 44 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 JERUSALINSKY, A. A psicanálise e o cocar... tência à univocidade dessa identificação: o creol como nova lingua no Caribe, as práticas religiosas mixtas com forte conteúdo de justaposição de diversas culturas africanas (Umbanda, Candomblé, Vudú), e a re-introdução da prática das máscaras pela via do carnaval, a transformação da música e da gramática. No que diz respeito à colonização espanhola, a escasa importação de escravos e a prática de extermínio sistemático da população indígena impediú a constituição de formas resistenciais de cultura do colonizado originário, mas surgiú o gaúcho como forma de afirmação “nacional” da colónia contra a metrópole. Quando Charles Melman afirma a impossibilidade da passagem do significante que faz a referência ao nome (S 1), para o saber (S 2), no discurso colonial – no seu artigo sobre O Complexo de Colombo -2 justificando que na ausencia de pai, a claudicação da função simbólica levaria o colonizado a uma posição de loucura, já que se veria na necessidade de adotar como próprio um pai e um saber que não lhe são próprios, o que surge como questionamento é se na inversão da produção da posição psicótica, provocada pela resistência do colonizado e a dúvida do colonizador, não havería, à partir da terceira geração a produçõ de um novo eixo da cultura local. Eis aqui que queremos abrir uma novo capítulo para a análise da condição colonial do discurso. Até que ponto aquela dúvida do colonizador, articulada à resistência do colonizado abre as chances para uma nova cultura ? É claro que se viermos a responder de modo positivo a essa pergunta estaríamos diante da produção de novas formas de saber. De fato, a cultura européia tende a constituir-se ao redor de um pai único (o Papa é seu melhor testemunho) ordenando o discurso numa suposição de saber universal. A psicanálise, especialmente a partir de Lacan questiona a universalidade arsitotélica re-lançando a questão do pai e do mestre na sua singularidade. 2 “D’un Inconscient pós colonial, s’il exist” – Edição da Association Freudiènne Internationale com a colaboração da Maison de l’Amerique Latine – París – France. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 45 SEÇÃO TEMÁTICA A forclusão, quando ela opera – e certamente um processo de conquista e colonização é um desses casos – provém de um apagamento da função simbólica do significante na inscrição fantsmática da terceira geração de antecessores. Curiosamente, quando se trata da imigração assistimos ao mesmo fenômeno mas na sua inversa: a terceira geração aparece integrada na cultura local, abandonado as referências á cultura dos avôs. É assim que surgem os sujeitos que ocupam de um modo puramente simbólico os lugares intermediários entre a população originária da colónia e a imigração de colonizadores: o gaúcho como mixenagem dos colonizadores agricultores e os indios “pampas”, nómade mas trabalhador. Respresentante, sem dúvida – veja-se a historia da Revolução Farroupilha – de uma nova “nacionalidade”. É assim, também, que se produz a transformação da língua vinda da metrópole e que as práticas religiosas adquirem uma nova refrência mitológica. Que o colonizador resista o surgimento de novas formas de saber, e até mesmo a “deformação” que se opera na transmissão dos saberes originários da “madre pátria” demonstram que eles, nesse viés, estão mais do lado de uma lingua exercida como materna que numa posição precisamente paterna na transmissão. Por isso, cuando o colonizado recebe a transmissão de um saber, nem que seja o psicanalítico, sob a forma de um discurso materno, não pode fazer outra coisa senão barrar-lo, para que ele opere simbólicamente como uma nova forma de saber. E se o colonizador se agarra a sua suposta condição de mestre permanente, corresponde então o ato de seu corte, nem que os efeitos de esse ato devam esperar por uma terceira geração. 46 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 JERUSALINSKY, J. As crianças e o paraiso. AS CRIANÇAS E O PARAÍSO Julieta Jerusalinsky A o chegar em casa depois de assistir o filme “A vida é bela” encontro na porta o Jornal “Folha de São Paulo” que situa em primeiro plano uma foto de Pinochet e Margaret Thatcher. Alguns dias depois (24/ 3) a foto da capa é a de uma criança sentada diante de 2.100 cruzes depositadas diante do Parlamento em Londres para simbolizar as vítimas do exditador Augusto Pinochet. São nesses momentos que nos detemos a pensar o quê a produção artística denuncia de uma verdade social e o quê ela pode com isto nos ensinar, para além de uma forçada e pouco produtiva discussão a respeito de qual é “o melhor filme”. De fato, pudemos assistir por ocasião na última entrega do Oscar a 3 filmes: “A vida é bela”, “Central do Brasil” e “Filhos do Paraíso”, um italiano, um brasileiro e um iraniano respectivamente. Chama particularmente a atenção o fato de que três filmes, de três diferentes lugares do mundo, tenham situado simultaneamente no centro de sua produção artística a questão da infância. Mas não se trata de qualquer questão relativa á infância, porque cada um, a seu modo, fala-nos do lugar da criança diante de certos eventos históricos e sociais: o fascismo italiano, os efeitos da miséria que acaba por situar muitas crianças em uma exclusão social, e a violência e o rompimento de laço social com que se deparam as crianças do terceiro mundo. Sabemos que “ A vida é bela” é uma ficção, que o que ali ocorre seria impossível. Mas isso quer dizer que esse filme nos conte uma mentira? Ele nos fala da função dos adultos de manter a infância em um certo âmbito de proteção das violências do mundo. Será que isto é possível? A produção própria da infância é o brincar, é por meio do brincar simbólico que a criança pode ir elaborando as diferentes marcas que recebe da transmissão parental e do social. Freud fala-nos que se trata de realizar ativamente o que se viveu passivamente, e nisto o que está em jogo é a construção de uma versão própria desse sujeito face a essa transmissão. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 47 SEÇÃO DEBATES Melanie Klein vai nos dizer que o brincar na cena terapêutica com crianças é o que eqüivale à associação livre no adulto: ali ficam em jogo as redes de conexões significantes inconscientes. Ao observar o brincar simbólico de uma criança estamos diante de sua rede de representações. Mas o que diferencia a cena do brincar do fazer dos adultos? Justamente o brincar, o “faz de conta” se situa como um ensaio, uma produção que não implica o risco. Campo onde a criança pode ir jogando sua identificação, sua filiação e sua sexuação, sem ainda ter que de fato responder por elas diante do social. No faz de conta pode-se casar, ter filhos, ser bombeiro, super homem, pirata, odalisca, princesa, viajante do tempo, podese matar e morrer e começar tudo de novo. Pode-se parar a brincadeira na hora em que o lobo vai pegar a chapeuzinho se isto desperta certa angústia em sua representação. Mas não se trata de forma alguma de uma produção ingênua, pelo contrario, sabemos quanto o brincar das crianças denuncia – como uma produção do inconsciente- a verdade familiar e a verdade social. Por isso mesmo quando falamos de que os adultos oferecem as crianças certa proteção diante do sem sentido de alguns acontecimentos da vida ou da violência de alguns eventos, o que está em jogo é uma mentira? Se trata justamente de por uma verdade a funcionar mas com um certo anteparo simbólico, com alguns elementos que permitam à criança poder dar conta disso. Por exemplo, quando uma criança pergunta de onde veio e como nasceu será que é dos espermatozóides que está nos perguntando ou está nos perguntando o que ocorreu entre o pai e a mãe que fez com que ele nascesse. Em termos simbólicos o que é verdadeiro? Que o pai introduziu o pênis na vagina da mãe, e após certa fricção ejaculou sêmen liberando uma série de espermatozóides que fecundaram o óvulo? Ou que o pai gosta muito da mãe, que acha ela muito bonita e por isso o pai presenteou uma sementinha que se misturou com outra sementinha da mãe, fazendo um bebê pequeninho e como a mãe também gosta do pai e queria ter um filho com ele fez com que essa sementinha crescesse em sua barriga? Esta segunda explicação ainda que não contemple a organicidade 48 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 JERUSALINSKY, J. As crianças e o paraiso. real da relação sexual fala-nos dos elementos que estão em jogo nela, como a atração, e fala-nos também do laço que une um casal, o amor. Enfim, não é em sua descrição minuciosa que se encontra o suporte simbólico de um ato.Certamente esta explicação não será válida para sempre e a criança voltará a perguntar, e em outro momento talvez peça outro tipo de elementos. O fato é que isto produz um efeito bastante interessante, pois quando uma criança formula uma pergunta é porque está formulando hipóteses a respeito de um fato e requer de novos elementos para confirmar sua hipótese ou por perceber que há algum elemento que está criando desequilíbrio cognitivo. Muitas vezes as explicações mais minuciosas cientificamente,. longe de possibilitar à criança formular suas hipóteses, acabam por paralisar suas investigações. Quando o pai diz a Josué que o que ocorre no campo de concentração é um grande jogo onde alguns mandam, gritam, perseguem o que ele está dizendo é uma mentira absoluta? No fundo, o que está em jogo ali não é um grande jogo perverso –o do fascismo- onde se trata de usar o poder em benefício do seu próprio gozo subjugando os outro ao seu bel-prazer? Mas as crianças estão atentas, elas estão á captura do “sentido da vida” nos fatos e seus entreditos. Penso no Josué angustiado que em certo momento pergunta (no caminhão que os leva ao campo de concentração) para onde estão indo e diz ao pai – por seu lado, preocupado demais em evitar sofrimentos para levar a sério a angustia do filho- que não está gostando, que quer ir para casa que está na hora daquilo terminar. Por sinal, uma criança muito diferente daquela do maníaco final onde afirma, com aprovação da mãe, que venceram. Mas até que ponto um pai pode fazer a vida bela ao seu filho? Lembro de uma inscrição que foi anonimamente pichada na porta de uma instituição em Buenos Aires dedicada ao trabalho com os problemas da infância esta pichação dizia o seguinte: “ o morno vazio das coisas... assinado: os sujeitos”. Essa pichação, com a qual nos encontrávamos todos os dias que entrávamos e saíamos da instituição, revelava a nossa tarefa, pois justamente se há algo que diz respeito ao campo da infância ele tem a ver com tornar este vazio das coisas um pouco mais morno para que C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 49 SEÇÃO DEBATES um sujeito possa advir. Isso está num campo muito diferente do que tentar manter as crianças em uma espécie de paraíso. Sabemos dos desastrosos efeitos para uma criança quando os adultos ficam em uma posição de poupa-la de todo e qualquer sofrimento, imperativo ou proibições que implicam crescer. No âmbito dos problemas do desenvolvimento encontramos muitas vezes frases do tipo “coitadinho, já tem tantas dificuldades, para quê exigir-lhe algo mais? vamos deixar que seja feliz”. Ocorre que, deste modo, a criança termina por ficar excluída da lei que faz, de cada um, um sujeito com escolhas e que permite a inserção como cidadão: fora disso só resta um lugar para ela, o paraíso, o paraíso dos bobos. Resta ainda para outros - poupados de toda e qualquer desgraça da realidade- a tentativa desesperada de tentar convocar a lei pela realização de atos transgressores, para ver se nem que seja queimando índios esta lei comparece e permite o armado de uma borda entre o princípio do prazer e uma realidade perante a qual temos que nos responsabilizar por nossos atos. Em Praga, dentro do único cemitério destinado aos judeus que foram condenados a viver em regime de exclusão social no gueto, há, hoje em dia, uma exposição permanente de desenhos realizados por crianças no campo de Concentração de Terezim. Terezim, situado a 60 quilômetros de Praga funcionava como um campo de concentração de passagem, ou seja, como ante-sala da morte. Poucas crianças sobreviveram –de 15.000 que por ali passaram somente 100 saíram com vida, das outras não há nem túmulos. De algumas, ficou o testemunho em poesias e desenhos (muitos dos quais anônimos) que nos falam da saudade de casa, da família reunida em torno da mesa, de brincar no jardim, do sonhado reencontro com os pais, da sujeira, da fome, da tristeza, da doença, do que representava nesses tempos ser judeu, dessa filiação que levava o signo da morte. Uma criança deixou registrada a seguinte poesia: 50 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 JERUSALINSKY, J. As crianças e o paraiso. A BORBOLETA A última, precisamente a última. De um amarelo tão brilhante . Talvez se as lágrimas do sol tocassem a pedra branca... Tão, tão amarela Voava, se movia rapidamente em direção ao alto. Foi embora, certamente queria dar ao mundo um beijo de despedida. Faz sete dias que moro aqui Trancado neste gueto Mas encontrei a minha gente aqui, As flores e o branco galho da castanheira do pátio me chamam. Não tenho visto mas borboletas Aquela foi a última As borboletas não vivem aqui, no gueto. No campo de concentração de Terezim, além de crianças havia adultos, muitos dos quais notáveis intelectuais, artistas e cientistas do seu tempo. Esses adultos, preocupados com a depressão que tomou conta das crianças, passaram a lhes propor diferentes atividades, como teatro, jogos, oficinas de pintura e literatura, além de aulas das mais diferentes matérias escolares das quais as crianças viam-se privadas. Assim, as crianças de Terezim tiveram aulas com excelentes professores. Esses adultos, mesmo diante da morte, não renunciaram à sua transmissão, eles tentaram por todos os meios fazer a vida um pouco bela, pois sabiam que manter acesos os sonhos é o único modo de não ficar morto em vida. E, note-se bem que faziam isto, não desmentindo a verdade eminente da morte, não simplesmente acumulando as crianças de conhe- C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 51 SEÇÃO DEBATES cimentos que poderiam lhes ser úteis caso ficassem vivas, mas abrindo nesta transmissão o resguardo de espaços próprios da infância, onde elas pudessem elaborar seu sofrimento. Assim, na oficina de pintura de Friel Dicker-Brasdejs o que se ofertava era muito mais que papel e tinta (sempre bastante escassos, por sinal), mas a possibilidade de que as crianças, através da poesia ou pintura pudessem plasmar seus anseios, seus sofrimentos e suas fantasias. Contraditoriamente, esse esforço dos adultos inicialmente condenado e proibido, foi posteriormente aproveitada pelos nazistas como base para uma propaganda muito mais do que enganosa que situava Terezim como uma espécie de “Campo de concentração Modelo”. Nesses desenhos de crianças assassinadas, nos campos de concentração mantidos como museus, nos diferentes relatos, punições e investigações, podemos nos encontrar não só com restos do horror de uma guerra mas com o testemunho de quanto tempo se leva para purgar uma violência social tão terrível quanto a do nazismo. Por mais duro que seja, por mais tempo que leve, é justamente ao poder se contar e recontar essa história que se faz possível elaborá-la, ao invés de ficar somente na melancolia, no sem nome do sofrimento. Paradoxalmente, aqui, na América Latina, em países onde ocorreram verdadeiros genocídios, encontramos o ocultamento da verdade travestido de democracia. A lei do “punto final”, “obediência devida”, e “indulto” concedido aos torturadores, muito longe de esclarecer os eventos históricos e realizar alguma justiça que seja, estes procedimentos, ao impedir a elaboração de uma violência social, condenam a sociedade ao risco de sua repetição. Trata-se de um ponto final imposto onde não se deu lugar a elaboração de um texto. Durante os governos ditatoriais da América Latina muitos adultos foram mortos, muitas crianças ficaram sem pais, centenas também desapareceram1. Hoje em dia, diante de um sistema econômico mundial do qual uma grande maioria permanece excluída adultos e crianças continuam a ser exterminados de fome, de miséria, de doença e de pobreza. Crianças ficam a deriva diante de um laço social corroído onde, na maioria das ve- 52 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 JERUSALINSKY, J. As crianças e o paraiso. zes, não há ninguém que possa pegá-las pela mão e levá-las de volta a casa, presenteá-las com um peão e um trocadilho -como no filme “Central do Brasil”-, que possa diante de tantas perdas e privações devolver-lhes a dimensão da infância. É certo que se trata de uma infância na qual, se a vida tem algum brilho, não é em função da ignorância absoluta de todo e qualquer sofrimento, mas da beleza que provém de uma escolha realizada com a sustentação de valores éticos por parte dos adultos, ainda que diante das mais terríveis condições. E nisto os ensinamentos transmitidos aos dois Josués são muito diferentes. Tudo tem limite diz a amiga a Dora –no Filme Central do Brasil- quando esta troca uma criança por uma TV de 29 polegadas com controle remoto. Tudo tem limite até mesmo a fantasia! –poderíamos dizer também ao outro Josué- mas os finais premiados em Hollywood não querem saber nada disso. Para aqueles preocupados com as crianças a pergunta insiste... O que poderiam desenhar as crianças de rua? os filhos dos sem teto, os filhos dos sem terra, os filhos dos desaparecidos, as crianças exterminadas? Será que para estas crianças há ou poderá haver alguma vez borboletas amarelas? Será que elas tem preservada sequer a possibilidade de que com esta faltas posa se fazer poesia? BIBLIOGRAFIA Freud, Sigmund. Mais além do princípio do prazer, Obras Completas Klein, Melanie Psicoanálsis de Niños tomo 2 editorial Paidós O infantil Boletim da Associação Psicanalítica de Porto Alegre No hé visto mariposas por aqui, Publicação do Museu Judeu de Praga. 1 Calcula-se, só na Argentina, que entre 15.000 e 30.000 adultos desapareceram. Há 195 de processos de crianças roubadas. Tem-se documentação de 250 jovens entre 15 e 18 anos desaparecidos, entre outros dados estarrecedores. Ver mas dados da CONADEP em www.nuncamais.arg C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 53 SEÇÃO DEBATES FAZER A AMÉRICA FAUSTO, Boris. (org.) Fazer a América. Cidade, editora, ano.???p. E ste livro originou-se do seminário “Fazer a América”, realizado pelo Memorial da América Latina em agosto de 1993, no qual reuniram-se especialistas em torno do tema “imigração em massa para a América Latina, ocorrido entre as últimas décadas do séc. XIX e as três primeiras do séc. XX”. Segundo o autor, o tema pode ser abordado a partir de enfoques diversos -, sempre buscando compreender as raízes mais profundas de um movimento migratório transoceânico, de dimensões até então desconhecidas -,tanto no que diz respeito às condições socioeconômicas existentes na Europa e no continente asiático quanto nos países de recepção, bem como adotar um enfoque micro-histórico, acompanhando-se trajetórias familiares nas duas pontas da cadeia migratória. Diante das múltiplas possibilidades de abordagem do tema da imigração, ele tentou evitar uma excessiva diversidade, tomando como vertente básica as etnias imigrantes e sugerindo um futuro estudo comparativo, ou caminhos para questões subjacentes - como a integração e a construção de novas identidades. O livro inicia com um texto de Herbert S. Klein1, questionando-se sobre o porquê das pessoas migrarem. Essa questão, segundo o autor, envolve o peso dos fatores de expulsão ou de atração e a maneira como se equilibram. Entretanto, salienta que a maioria dos migrantes não desejam abandonar suas casas nem suas comunidades. Se pudessem escolher, todos- com exceção dos poucos que anseiam por mudanças e aventuras - permaneceriam em seus locais de origem. 1 Professor de História da Colombia University. 54 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 RESENHA Assim, a migração, segundo ele, não começa até que as pessoas descubram que não conseguirão sobreviver com seus meios tradicionais em suas comunidades de origem. Num número menor de casos, dá-se a migração ou porque as pessoas são perseguidas por sua nacionalidade - como as minorias dentro de uma cultura nacional maior – ou por seu credo religioso minoritário (judeus, por exemplo) q é atacado pelo grupo religioso dominante. Cabe lembrar, como diz este professor, que desde o início, o Hemisfério Ocidental era exatamente o oposto da Europa em termos do relacionamento terra-trabalho. Quer dizer, na Europa, a terra era cara e a mãode-obra, barata. Na América, a terra era abundante e estava disponível. Entretanto, a mão-de-obra era escassa; portanto, cara. Poderíamos nos perguntar aqui, como poderia ser escassa se havia cerca de 50 milhões de índios na América em 1492? Ele nos diz que o isolamento das populações americanas, em relação às doenças européias significava que as doenças endêmicas comuns na Europa tornavam-se epidêmicas, quando infectavam os índios americanos (por volta de 1650, a população indígena americana reduziu-se a menos de cinco milhões). Outro aspecto interessante que este autor nos traz, é que o acesso à terra era possível não apenas em terras livres da fronteira, mas também nas regiões habitadas que produziam bens agrícolas para exportação. Mesmo em regiões com mão-de-obra barata contratada ou migração subsidiada e contratos fixos, era possível obter terra poucos anos após a migração inicial. Enfatiza aqui, que as condições locais de trabalho nas Américas determinaram os fluxos da imigração estrangeira e seus padrões finais de sucesso e que, portanto, “o desenvolvimento nas Américas está baseado grandemente nesta imigração ” O único grupo de imigrantes - neste caso, originalmente forçado que não alcançou o êxito possível pelas condições do mercado foi o dos africanos e seus descendentes. Cabe salientar, que existiu todo o tipo de preconceito contra todos os estrangeiros em todas as nações americanas, mas não era um discriminador tão impressionante quanto o preconceito racial. C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 55 O livro segue com textos interessantíssimos sobre a imigração européia na Argentina, com alguns indicadores estatísticos, dando mais subsídios para estudos e pesquisas. Em função de nosso congresso, me detive em alguns tópicos referentes à imigração no Brasil. Segundo estudos de Joaquim da Costa Leite2, na era das grandes migrações da segunda metade do século XIX e começos do século XX, a emigração portuguesa foi transatlântica, tendo o Brasil como destino principal e quase exclusivo (de 1855 a 1914, 1,3 milhões de saídas - sendo que 90% deles para o Brasil). No entanto, não podemos esquecer que, segundo o professor, as migrações não acontecem em função exclusiva da necessidade ou da oportunidade, mas, sim, da conjugação, em situações concretas, da necessidade com a oportunidade. Aponta que, numa observação empírica, a coincidência dos picos de imigração foi confirmada por uma análise mais cuidada, em que se demonstrou que as entradas de portugueses nos EUA, no Brasil e na Argentina não estavam correlacionadas entre si, mas com a imigração de outras origens à chegada a cada um dos países do continente americano. Variava no tempo, fundamentalmente, em resposta à atração das oportunidades nos países de destino. Quer dizer que apesar das dificuldades nas terras de origem, os emigrantes conseguiam esperar o melhor momento. Muito interessante, também, o movimento migratório japonês para o Brasil, contado por Célia Sakurai3 que se indaga sobre como imigrantes, com uma bagagem cultural e histórica tão diferente, poderiam vir a fazer parte do tecido social, sem entrar em conflito com a sociedade que os recebia. Ela diz que a imigração japonesa diferencia-se das outras que escolhem o Brasil, por se estruturar desde o início por meio de orientações, ajuda e gerência dos representantes do governo japonês. É uma imigração subsidiada e estimulada por ambas as pontas da corrente: Brasil e Japão, já que cada país tem os seus interesses próprios, que se coadunam com o 2 Professor da Universidade Nova de Lisboa (Faculdade de Economia) e Universidade de Aveiro. 3 Pesquisadora do IDESP (Instituto de Estudos Econômicos Sociais e Políticos de São Paulo) e do CEMI (Centro de Estudos Migratórios Internacionais), Unicamp. 56 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 momento histórico em que se desenrola. Alguns pontos que foram abordados neste texto: A pressão populacional do Japão, decorrente da elevação da qualidade de vida; o processo de inserção do Japão na economia mundial capitalista, com leis de incentivo a emigração oficial; a economia cafeeira do Brasil, necessitando de muita mão-de-obra; o terremoto de 1923; etc. E muitos outros aspectos da atuação japonesa a nível econômico e sociocultural, que permeaream o conjunto da sociedade brasileira, contribuindo de alguma forma na construção social do Brasil Moderno. É claro que houve uma reação contra a presença de japoneses, em decorrência da discussão européia em torno da questão racial e da eugenia. A miscigenação foi malvista pelos brancos, especialmente os norte-americanos, que segregavam espacialmente os japoneses em seu território. Este assunto tem repercussões no Brasil, onde a elite da recém proclamada república entende a necessidade de branqueamento da população como um ponto crucial para a conformação da nova nação. Então, o que dizer da introdução oficial de não-brancos num país onde a miscigenação entre brancos e negros é um problema para a época? Já em meados do século XIX havia surgido no Brasil uma discussão sobre a possibilidade de trazer trabalhadores de origem asiática para o país, no momento da pressão inglesa, para pôr fim ao tráfico de escravos africanos. Cogitou-se trabalhadores chineses como substitutos dos escravos africanos, mas, em vista de experiências em outras partes do mundo, temeram-se conflitos raciais e a degenerescência da população brasileira em contato com “raças inferiores”. O problema da substituição da mão-de-obra escrava foi resolvido com a arregimentação de imigrantes de origem européia, particularmente, os italianos e espanhóis para o Cento-sul do Brasil. O livro dá um panorama geral da imigração espanhola e suas repercussões no Brasil; fala um pouco da história dos Sírios e Libaneses e seus descendentes na sociedade paulista- em que nos fornece um bom exemplo de como os grupos étnicos estiveram distantes de se apresentar coesos. Para Oswaldo M.S.Truzzi4, seria mais real apreendermos as comuni3 Professor da UFSCar (Universidade Federal de São Carlos) e pesquisador do Idesp (Instituto de Estudos Econômicos, Sociais e Políticos de São Paulo) C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 57 dades de imigrantes como arenas disputadas, onde conviveram lado a lado pioneiros e recém-chegados, bem sucedidos, desafortunados e remediados, proprietários e trabalhadores, tradicionalistas e modernizadores. A colônia sírio-libanesa entendeu, rapidamente, que a verdadeira integração numa sociedade como a brasileira teria de passar, necessariamente pela mobilidade econômica e social. Neste sentido, revelaram-se bastante pragmáticos, assumiram uma postura agressiva, conquistadora, em relação a posições de maior prestígio na estrutura social; o livro segue falando da imigração dos judeus; italianos - sendo o maior grupo aportado no Brasil entre 1819 e 1940; imigração no Uruguai e Cuba. Não podemos deixar de nos deter um pouco na colonização alemã no Brasil, com o texto de Giralda Seyferth4. Lembrando-nos da introdução dos casais açorianos no Rio Grande do Sul e Santa Catarina, na segunda metade do século XVIII, como a primeira experiência de colonização com vistas ao desenvolvimento da agricultura e ao povoamento de território (dois mil casais vindos da ilhas Açores para o Rio Grande do Sul, entre 1734 e 1800). A relevância da imigração alemã não tem relação com a representavidade numérica, muito aquém dos contingentes oriundos de países latinos como a Itália, a Espanha e Portugal. Sua importância no contexto imigratório brasileiro tem a ver com a forma de participação no povoamento dos três estados do Sul, em zonas pioneiras, constituindo uma sociedade culturalmente diversa que, por sua especificidade étnica, visível também na organização comunitária dos imigrantes que se dirigiam para centros urbanos, chamou a atenção dos nacionalistas brasileiros e, inclusive, criou situações de conflito que perduraram até a década de 1940. Esta pesquisadora aponta que a política imigratória foi praticamente a mesma para todos - quer dizer, o modelo de povoamento e concessão de terras consignado em lei e imposto pelo Estado; as diferenças é que estão relacionadas com a influência de cada tradição nacional, refletidas na organização social e étnica. Entretanto, salienta que o critério mais carregado de significado simbólico ainda é a ancestralidade, ou seja, a “origem comum” que alimenta a crença no pertencimento a uma comunidade étnica. 58 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 Hoje, quando vemos centenas de seres humanos num vôo rumo a destino desconhecido, ou por pressões demográficas, degradação ambiental, pauperização absoluta ou relativa, guerras, aspiração legítima de viver segundo os padrões ocidentais, só confirmamos que não há nada que consiga conter o movimento migratório no mundo. Acredito que para os que ficam, também, há uma grande viagem de coragem e muitas conquistas. Pois há muito o que fazer nesta terra de 500 anos para nos defender de ter que rumar para um destino desconhecido e não pertencer mais à comunidade em que5 nascemos. Luzimar Stricher 5 Professora e pesquisadora do Programa de Antropologia Social do Museu Nacional do Rio de Janeiro C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 59 AGENDA AGOSTO - 1999 Dia ?? ??e ?? Hora Local Sede da APPOA 21h 20h30min Sede da APPOA ?? ??e ?? ?? e ?? 21h 20h 18h Sede da APPOA Sede da APPOA Sede da APPOA 12 e 26 ?? e ?? 20h 21h Sede da APPOA 11 18h 11 ?? 20h30min Sede da APPOA Sede da APPOA 21h ?? Sede da APPOA 14 06 15h30min Sede da APPOA 16h30min Sede da APPOA Confirmar na secretaria Sede da APPOA Sede da APPOA Atividade Reunião do Fórum Seminário “A dimensão trágica da psicanálise” - Responsável: Enéas Costa de Souza Reunião da Mesa Diretiva Reunião da Comissão de Biblioteca Seminário “Novos apontamentos para a clínica das psicoses” - Responsável: Alfredo Jerusalinsky Reunião da Comissão do Correio da APPOA Seminário “Memórias...” - Responsáveis: Ana Maria Medeiros da Costa, Edson Luiz André de Sousa e Lucia Serrano Pereira Seminário “A topologia fundamental de Jacques Lacan” - Responsável: Ligia Víctora Cartel Brasil 500 anos Reunião da Mesa Diretiva aberta aos membros da APPOA Relendo Freud e Conversando sobre a APPOA - Análise Finita e Infinita Cartel do Interior Cartel do Envelhecimento Cartel Preparatório para a Jornanda sobre Neurose Obsessiva PRÓXIMO NÚMERO ????? 60 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto1999 61 62 C. da APPOA, Porto Alegre, n. 71, agosto 1999