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MARX
Marx
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Karl Marx nasceu em
L Tréves, Alemanha, em uma família de origem hebraica que havia
renunciado à religião devido às leis
anti-semitas então vigentes no Palatinado. Depois de se diplomar
pela Universidade de Berlim, empregou-se como jornalista e em
pouco tempo tornou-se redator da
Reinische Zeitung (Gazeta Renana).
Expulso da Prússia em conseqüência de suas idéias revolucionárias, emigrou para Paris, onde teve
o ensejo de conhecer o francês
Proudhon e o russo Bakunin - expoentes do movimento anarquistae, principalmente, Friedrich Engels, que seria seu amigo, adepto e
colaborador por toda a sua vida.
Durante a sua permanência na capital francesa, escreveu os Manuscritos Econômico-Filosóficos
(1844),
que, porém, jamais publicou. Expulso também de Paris.fugiu para
Bruxelas, onde, em 1848; publicou Fotografia eleMarx.
O Manifesto do Partido Comimista,
em colaboração com Engels.
Forçado a deixar a Bélgica, encontrou refúgio definitivo e~ Londres. Com a aj~da econ~:r:r:ica.~~ ~ngels
manteve a sua numerosa família e conseguiu termmar, apesar das dificuldades, o vasto programa de pesquisas de histôria, ~olí~ica e econof~ia que daria origem ao Capital, a monumental obra cUJOpnmerro volume saiu em .186:
(os outros dois foram publicados postumamente por Engels). Marx ah?u a
pesquisa teórica uma intensa atividade de organizador político que culmmou
em 1864 com a fundação da Primeira Internacional dos Trabalhadores.
Obras: Teses sobre Feuerbach (1845); A Sagrada Familia (1845); A Ideologia Alemã (1846); A
Miséria da Filosofia (1847); Manifesto do PartidQ Comunis~a (l8~8); Critica da EconomIa Política (1859); Critica do Programa de Cotha (1975); O Capltal (três volumes, respecnvamente publicados
A história é luta
de classes
1818-1883
em 1867, 1885 e 1894).
ANTOLOGIA ILUSTRADA DE FILOSOFIA
394
o PROBLEMA
possível definir a lei do desenvolvimento da história?
A TESE
O Manifesto elo Partielo Comunista (do
qual foram extraídos os textos apresentados nesta
antologia) representa o mais perfeito exemplo de
divulgação do Materialismo Díalético, o coração
da doutrina marxista. De um lado, segundo Marx,
a interpretação da história exige a adoção de um
critério materialista, pois o motor do desenvolvimento histórico reside nas condições econômicas
concretas, e não nas convicçõesideais, nas normas
jurídicas ou nas batalhas políticas. Por outro lado,
todavia, a evolução das estruturas produtivas não
É
176
se dá segundo esquemas mecanicistas, mas acompanhando as leis da dialética descobertas por He. gel (ver item 157). O mundo feudal, o capitalismo
burguês e a futura sociedade comunista são respectivamente a tese, a antitese e a síntese de uma
tríade dialética global. Todo momento histórico
possui uma identidade própria específica, mas desenvolve no seu interior aquelas contradições que,
com o tempo, produzirão a sua superação. Logo,a
dialética hegeliana deve ser mantida, mas invertida, colocando como sujeito do movimento histórico real não o Espírito, a Idéia ou o Absoluto, mas
o desenvolvimento da economia.
6 A história de todas as sociedades que existiram até hoje é a
história das lutas de classes. Homem livre e escravo, patrício
e plebeu, barão e servo da gleba, membro da corporação e
aprendiz, resumindo, opressor e oprimido, estiveram em
constante oposição uns contra os outros; conduziram uma luta ininterrupta, aberta ou disfarçada, uma luta que- por vezes
terminou na transformação revolucionária da sociedade inteira, ou então com a ruína comum das classes em luta.
Todahistóriase reduz à luta
de classes.
Nas mais longínquas épocas da história encontramos quase
sempre uma completa articulação da sociedade em diversas ordens ou estados, uma gama multiforme de posições sociais. Temos patrícios, cavaleiros, plebeus e escravos na antiga Roma;
senhores feudais, vassalos, membros das corporações, aprendizes e servos da gleba na Idade Média; e mais, encontramos
em cada uma dessas classes posições sociais particulares.
Em todos os períodos históricos
existiuuma c/assedominante e
uma explorada.
A moderna sociedade burguesa, nascida do declínio da sociedade feudal, não superou os conflitos de classe. Apenas deu
origem a novas classes, novas condições de opressão, novas
formas de luta em lugar das antigas.
o advento da burguesia.
A n()~?? época, a _~poca da burguesia, caracteriza-se por ter
simplificado os antagonismos de classe. A sociedade cada vez
mais se divide em dois grandes campos inimigos, em duas
grandes classes que se enfrentam diretamente: burguesia e
proletariado ...
o capitalismosimptificou a
estruturasocial:duas c/asses
somente, burguesia e proletariado,
disputam o poder entre si.
A burguesia desempenhou um importante papel revolucionário na história. A burguesia, onde quer que tenha chegado
ao poder, demoliu todas as relações feudais e patriarcais. Desfez impiedosamente
os multiformes vínculos feudais que
prendiam os homens aos seus superiores naturais, e não deixou nenhum outro vínculo entre homem e homem senão o
frio interesse ou o insensível pagamento em espécie.
o papel revolucionárioda
burguesia.
395
ANTOLOGIA ILUSTRADA DE FILOSOFIA
•
J
i
_ ;
MARX
A burguesia desmistificou a
ideologia religiosa medieval.
Transformou a família numa
empresa econômica.
o ativismo
burguês transformou o
mundo inteiro.
A dinâmica expansionista do
capitalislTlO submete a sociedade
inteira a um processo de
contínua transformação.
MARX
Ela afogou nas águas geladas do cálculo os sagrados temores do fervor religioso, da exaltação cavalheiresca e ela melancolia pequenó-burgiiesa: Fez ela dignidade pessoal uma ilusão
e, no lugar das liberdades garantidas, gratuitas e plenamente
adquiridas, colocou apenas a inconsciente liberdade de comércio. Em uma palavra, substituiu a exploração velada por ilusões religiosas e políticas pela exploração fria, direta e aberta.
A burguesia despojou de sua auréola todas as atividades até
então tidas como veneráveis e encaradas com religioso temor.
Transformou em trabalhadores assalariados o médico, o advogado, o padre, o poeta e o cientista.
de morte para todas as nações civilizadas; e são indústrias que
não processam apenas matérias-primas provenientes do interior, mas também matérias-primas vindas de zonas muito remotas, e cujos produtos industriais não são consumidos somente no próprio país, mas também, simultaneamente, em todas as partes do mundo.
A burguesia arrancou o véu das patéticas e sentimentais relações familiares, atribuindo a elas relação puramente econõmica.
A burguesia mostrou como a manifestação da força bruta,
que a reação tanto admira na Idade Média, encontra o seu
complemento na mais indolente preguiça. Foi a primeira a demonstrar o poder da atividade humana. Realizou portentos
maiores que as pirâmides do Egito, os aquedutos romanos e as
catedrais góticas, comandou movimentos maiores que as migrações de povos ou as cruzadas.
A burguesia não pode existir sem revolucionar continuamente os instrumentos de produção, logo, as relações de produção, logo, todas as relações sociais. Ao contrário, manter
inalterado o antigo modo de produção era a primeira condição de existência para todas as classes industriais anteriores.
A contínua subversão da produção, o abalo permanente de todas as relações sociais, a eterna incerteza e o movimento perene diferenciam a época dos burgueses de todas as outras.
Todas as relações rígidas e enferrujadas, com o seu séquito de
veneráveis concepções e representações, foram dissolvidas, e
as recém-formadas envelhecem antes de se fossilizar. Todas
as coisas estáveis e pertencentes às ordens evaporam, todas as
coisas sagradas são profanadas, e os homens, finalmente, são
obrigados a considerar friamente as suas relações recíprocas,
a sua posição na vida.
ColonialislTlO e globalização do
comércio aboliram as fronteiras
econômicas.
o impulso em direção a um mercado cada vez mais vasto para os seus produtos faz com que a burguesia se espalhe por toelo o globo terrestre. Deve estabelecer-se por toda parte, crescer por toda parte, desenvolver contatos por toda parte. A burguesia, por meio da exploração dos mercados mundiais, deu
um caráter cosmopolita à produção e ao consumo em todos os
países. Retirou, para grande pesar dos reacionários, a base nacional de baixo dos pés da indústria.
As matérias-primas, muitas vezes
localizadas nas zonas pobres do
planeta, tomam-se um problema.
As antiqúíssimas indústrias nacionais foram e continuam
sendo cotidianamente aniquiladas. São suplantadas por novas
indústrias, cujo surgimento se torna uma questão de vida ou
ANTOLOGIA ILUSTRADA DE filOSOFIA
f
396
J
Em lugar das antigas necessidades satisfeitas pela produção
nacional, surgem novas necessidades, que exigem produtos de
terras e climas mais distantes. Uma circulação e uma ínterdependência multilateral entre uma nação e outra substituem a
antiga auto-suficiência e o isolamento local e nacional.
A dimensão internacional da
economia toma relativo o
Estado nacional.
E, além das produções materiais, o mesmo verifica-se com as
produções do espírito. Os produtos do espírito de cada nação
tornam-se bem comum. A unilateralidade e a estreiteza nacional tornam-se cada vez mais impossíveis e das muitas literaturas nacionais e locais surge uma literatura mundial.
Acabam as culturas nacionais.
A burguesia arrasta para a civilização mesmo as nações mais
bárbaras. Fã-lo por meio do rápido aperfeiçoamento dos instrumentos de produção e do imenso progresso das comunicações. Os baixos preços dos seus produtos são a artilharia pesada com que destrói as fundações de todas as muralhas chinesas, vencendo o mais determinado ódio dos bárbaros pelos
estrangeiros. Obriga todas as nações, se não quiserem sucumbir, a adotar o modo de produção da burguesia, forçando-as a
abraçar a chamada civilização, ou seja, a se tornar burguesas.
Em uma palavra, cria um mundo à sua imagem e semelhança.
capitalismo agride e transforma a
economia de todos os povos.
A burguesia submeteu o campo ao poder da cidade. Gerou
grandes metrópoles, aumentou enormemente o número dos habitantes das cidades em relação ao campo e assim arrancou uma
grande parte da população do embrutecimento da vida rural.
A maciça transferência da
população do campo para os
centros industrializados e a crise
do mundo camponês.
Da mesma forma que subordinou o campo à cidade, a burguesia tornou o Oriente dependente do Ocidente, os povos
camponeses dependentes dos povos burgueses, as nações bárbaras ou sernibãrbaras dependentes da nações civilizadas.
o domínio
Cada vez mais a burguesia elimina a dispersão dos meios de
produção, da propriedade e da população. Aglomerou a população, centralizou os meios de produção e concentrou a propriedade em poucas mãos. A conseqüência inevitável foi a centralização política. Províncias independentes, quase que meramente confederadas, com diversos interesses, leis, governos
e tarifas aduaneiras foram reunidas em uma única nação, um
único governo, uma única lei, um único interesse de classe nacional, uma única barreira alfandegária.
o Estado capitalista
A burguesia, mesmo exercendo o domínio de classe há apenas um século, gerou forças produtivas colossais e mais nu-
o progresso tecnológico criou um
mundo novo.
397
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o
do Ocidente.
é centralizador.
ANTOLOGIA ILUsrRADA DE FILOSOFlA
1
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j
MARX
merosas que todas as gerações passadas em conjunto. Domínio das forças naturais, maquinãrios, aplicação da química à
. indústria e à agricultura, navegação a vapor, ferrovias, telégrafo elétrico, desbravamento de partes do mundo, navegabílídade dos rios, populações brotando da terra como por encanto:
que século, dentre os anteriores, teria suspeitado que no seio
do trabalho social dormitassem tais forças produtivas?
I
o capitalismo desenvolveu-se sobre
feudalismo.
As crisescíclicasda economia
atestam a crise do sistema
capitalista.
Diferentemente do pôssado, a
causa da crise é a superprodução
das mercadorias.
A livreconcorrênciaproduz um
sistema industrial caótico.
l
I
Todavia, vimos também que os meios de produção e de troca, base sobre a qual a burguesia se constituíra, foram gerados
na sociedade feudal. Em um dado estágio de desenvolvimento, esses meios de produção e de troca, os lugares nos quais a
sociedade feudal produzia e trocava, a organização feudal da
agricultura e da manufatura, em uma palavra, as relações feudais de propriedade, não corresponderam mais às forças produtivas já desenvolvidas. Dificultavam a produção, em vez de
ajudá-Ia a progredir, transformando-se em cadeias que deviam
ser rompidas, o que foi feito. Em seu lugar, surgiu a livre concorrência, com a sua constituição política e social relativa, e
com o predomínio econômico e político da classe burguesa,
a base das contradições do
Uma transformação semelhante
está por atacar o capitalismo,
I
burguesa. As relações burguesas tornaram-se muito estreitas para conter a riqueza por elas mesmas criadas.
Com que meios a burguesia supera as crises? De um lado,
com a destruição forçada de uma quantidade de forças produtivas; do outro lado, com a conquista de novos mercados e
a exploração mais radical elos antigos mercados. Com que
meios, então? Preparando crises mais violentas e gerais e reduzindo os meios para preveni-Ias As armas usadas pela burguesia para derrubar o feudalismo voltam-se agora contra a
própria burguesia.
Cadacrisecíc/ícaé provisoriamente
superada com o alargamento do
sistema capitalista,
A burguesia, porém, não só projetou as armas que a levarão
também os homens que manejarão essas armas: os trabalhadores modernos - os proletários.
o papel dos proletários,
'"
à morte; produziu
MATJ:IUAI.ISMOl'lISTÓ81(O-OIAiL.É1'I(O
.....
Designa a doutrina marxista segundo a qual as causasúltimas do devir histórico não são de natureza ideal ou espiritual, mas materiais,
sociais, económicas e produtivas. Com base no princípio de que não
é a consciência a determinar a existência, mas a existência a determinar a consciência. Ao contrário do materialismo tradicional, o de
Marx rejeita o determioismo,
acreditando que o processo do devir
histórico se desenvolve segundo o método da dialética hegelian,ã:
Um movimento semelhante desenvolve-se sob nossos olhos.
As relações burguesas de troca e de produção, as relações burguesas de propriedade, a sociedade burguesa moderna que
magicamente criou meios de produção e de troca tão poderosos fazem lembrar aquele feiticeiro que não é mais capaz de
controlar os poderes ocultos que ele mesmo invocou.
(R.SE;$.(iCL,I(ASPI;.SUPI58PRQQUçAo
.
Segundo Marx, o capitalismo desmoronará em conseqüência das
crises que periodicamente colocam em cheque a sua estabilidade.
Diferentemente das crises económicas do passado, as crises capitalistas têm origem não na pobreza, mas em um excesso de produção num determinado setor da economia, por sua vez originado
pela negação de qualquer forma de planificação econômica.
Há décadas a história da indústria e do comércio não é mais
que a história da revolta das modernas forças produtivas contra as modernas relações de produção e as modernas relações
de propriedade, que representam as condições essenciais de vida ela burguesia e do seu poder, Basta mencionar as crises comerciais, que no seu periódico e sempre ameaçador retorno colocam em questão a existência da sociedade burguesa inteira.
COMUNISMO
Ótermo refere-se à s()Cledéldesem dasses:"'log(), sem Estado - que
inevitavelmente seguirá a fase burguesa-capitalista da história, depois de uma fase intermediária temporária, a ditadura do proletariado. No comunismo não existirá mais a propriedade privada dos
meios de produção (as fábricas); a riqueza social será distribulda
com base no princípio: a cada um segundo a sua necessidade, de
Nas crises comerciais sáo regularmente destruídas não só uma grande parte dos produtos acabados, mas também as forças produtivas à disposição. Nas crises eclode uma epidemia
social que teria parecido um contra-senso em todas as épocas
anteriores. Improvisadamente, a sociedade vê-se devolvida a
uma condição de momentânea barbárie. Dir-se-ia que a carestia ou uma guerra de extermínio lhe tivesse cortado todos os
víveres; a indústria e o comércio parecem aniquilaelos; por
quê? Porque a sociedade possui demasiado comércio, demasiada indústria, demasiados víveres, demasiada civilização.
cada um segundo
as suas capacidades,
'I.:;;
8EVOL.uçAo
_-
.
A vitória revolucionária do proletariado é uma inevitável etapa da
história. Nas palavras de Marx: "O progresso da indústria, do qual
a burguesia é veículo involuntário e passivo, substitui o isolamento
dos operários, por meio da concorrência, pela união revolucionária, por meio da associação, Assim, com o desenvolvimento da
grande indústria, de sob os pés da burguesia é retirado o próprio
fundamento pelo qual ela produz e compra produtos. Em primeiro
lugar, produz os seus coveiros. O seu decilnio e a vitória do proletariado são igualmente inevitáveis".
As forças produtivas à sua disposição não ajudam a incremental' mais as relações burguesas de propriedade; ao contrário, tornam-se poderosas demais para essas relações, passando a entravá-Ias; e, tão logo superam esses entraves, jogam a sociedade inteira no caos, colocam em perigo a existência da propriedade
ANTOLOGIA !LUSTFADA DE FILOSOFIA
MARX
399
398
1
Críse de superprodução
e
colapso do capitalismo.
ANTOLOGIA ILUSTRADA DE FILOSOFIA
s ,
MARX
MARX
o movimento
que abole o
estado de coisas existente
o PROBLEMA
Que motivos tomam necessário o
advento do comunismo?
A TESE
A classe burguesa nasce do interior do
mundo feudal, nega-o e supera-o, dando origem à
sociedade capitalista. Mas, pela lei do devir dialétíco, o desenvolvimento
do capitalismo comporta
o surgimento do proletariado e das contradições
que produzirão a sua superação. A sociedade comunista não nascerá em conseqüência de uma tensão ética ou utópica, de pregações moralistas con-
A luta operária nasce como
protesto individual e de grupo.
tra os desastres sociais produzidos pela propriedade privada, mas acabará inevitavelmente por se impor, como única solução possível do desenvolvimento histórico. Logo, a revolução proletária é absolutamente inevitável: não é um ato de justiça,
porque a classe operária não tem qualqLLerideal a
realizar, mas o necessário resultado do devir real
da história. O comunismo não é um ideal ao qual
a realidade terá que se conformar, mas o movimento real que abole o estado de coisas existente.
o O proletariado passa por diversos graus de desenvolvimento. A sua luta contra a burguesia começa com a sua existência.
Inicialmente, são os operários individualmente a lutar; depois,
os operários de uma fábrica; a seguir, os trabalhadores de um
setor, em um determinado lugar, contra os burgueses que os
exploram diretamente.
No inicio, osoperários identificam
nas máquinas o seuinimigo.
Não dirigem os seus ataques somente contra as relações burguesas de produção, destroem as mercadorias estrangeiras que
fazem concorrência às suas; quebram as máquinas; ateiam fogo às fábricas; procuram reconquistar posições já ultrapassadas do operário medieval. Nessa fase, os operários formam uma massa dispersa pela concorrência e espalhada por todo o
país. A coesão de um grande número de operários ainda não é
conseqüência de uma união, mas da união da burguesia, que,
para alcançar os próprios fins, deve colocar em movimento o
proletariado inteiro, e ainda é capaz de fazê-lo.
A luta operária, no seu início, ainda
é hegemonizada pela burguesia.
Nessa fase, portanto, os proletários não lutam contra os seus
inimigos, mas contra os inimigos dos seus inimigos, os restos
da monarquia absoluta, os proprietários fundíarios, os burgueses não industriais, os pequenos-burgueses. Assim, todoo movimento histórico está concentrado nas mãos da burguesia; cada vitória alcançada dessa forma é uma vitória da burguesia.
-~- O desenvolvimento da consciência
O proletariado, porém, não se limita a aumentar numericamente. Com o desenvolvimento da indústria, concentra-se em
massas cada vez maiores, a sua força cresce e ele a percebe. Os
interesses e as condições de vida no interior do proletariado
tornam-se cada vez mais idênticas. Ao mesmo tempo, o uso das
máquinas elimina todas as diferenças do trabalho e reduz o salário, quase por toda parte, a um nível uniformemente baixo.
igualitária.
As crises cíclicas do capitalismo
aceleram a unificação do
proletariado.
De quando em quando os operários vencem, mas nunca de
modo definitivo. O resultado efetivo da sua luta não é o sucesso imediato, mas a união cada vez mais ampla dos operários,
promovida pelo crescimento dos meios de comunicação criados pela grande indústria, que colocam em contato operários
de diversas localidades. Essa ligação é necessária para centralizar, na luta de classes, a luta nacional e muitas lutas locais, sempre de caráter idêntico. Toda luta de classes, porém, é uma luta política. E a união que os burgueses da Idade Média levaram
séculos para alcançar, com as suas estradas vicinais, os proletários modernos conseguem em poucos anos com as ferrovias.
A centralização das lutas operárias é
tavorecida pela nova tecnologia
industrial e pela velocidade da
comunicação.
A organização dos proletários em classe e, logo, em partido
político, é constantemente destruída pela concorrência entre
os próprios operários. Mas renasce sempre, mais forte, mais
A tendência à formação de uma
c/assecompacta é irreversível.
A concorrência crescente dos burgueses entre si e as crises
comerciais que daí resultam tornam cada vez mais precário
o salário dos operários. O rápido desenvolvimento e o incessante aperfeiçoamento
das máquinas tornam inseguras as
suas condições de vida. Os choques entre um operário e um
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o marxismo wrará todas as
doenças (obra de frida
Kahlo, 1935) .
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burguês em particular adquirem cada vez mais o caráter de
choques entre duas classes. Assim, os operários formam coa"Iizões contra os burgueses, Reúnem-se para a manutenção elo
próprio salário. Fundam associações permanentes para se
abastecer em caso de revoltas. Aqui e ali a luta se acende sob
forma de rebelião.
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CEFET-Si01
UNID/\í.: [~ SERTAOZINHO
6; BUOTECA
ANTOLOGIA
ILUSTRADA
DE FILOSOFIA
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"1'.
MARX
MARX
sólida, mais poderosa. Aproveitando-se elas divisões internas
da burguesia, arranca o reconhecimento legal de interesses específicos dos operários. E este o caso da lei inglesa elas dez horas [N.D.T.: jornada de dez horas de trabalho].
A luta proletária beneficia-se das
insanáveis contradições internas da
burguesia.
As camadas médias tornam-se
proletárias.
A causa do proletariado atrai parte
da camada intelectual burguesa.
A uescente proletarização empurra
as camadas médias para o
conservadorismo.
o subproletariado
como massa de
manobra da burguesia.
Geralmente, os confrontos que de diversas maneiras se manifestam na velha sociedade favorecem o processo ele desenvolvimento do proletariado. A burguesia está continuamente em luta: no início contra a aristocracia; mais tarde contra setores da
própria burguesia cujos interesses entram em contradição com
o desenvolvimento da indústria; e, sempre, contra a burguesia.
de todos os países estrangeiros. Em todas essas lutas se vê forçada a recorrer ao proletariado, reivindicando a sua ajuda e trazendo-o, assim, para o movimento político. Portanto, ela mesma apresenta ao proletariado os elementos da sua própria formação cultural- ou seja, fornece-lhe as armas contra si mesma.
Além disso, como vimos, em conseqüência do progresso industrial, setores inteiros ela classe dominante caem no proletariado ou, pelo menos, têm suas condições de existência
ameaça das, fornecendo também ao proletariado inúmeros elementos formativos.
Finalmente, nas épocas em que a luta de classes se aproxima da sua definição, o processo de desagregação no interior
da classe dominante, no interior de toda a velha sociedade, assume um caráter tão agudo e violento que uma pequena parte da classe dominante dela se separa para se unir à classe revolucionária, a classe que traz o futuro em suas mãos. Assim,
do mesmo modo que no passado urna parte dos nobres se voltou para a burguesia, agora uma parte dos burgueses volta-se
para o proletariado, especialmente aquela parte de ideólogos
burgueses que alcançaram a compreensão teórica do movimento histórico no seu conjunto.
-Detodas as classes que hoje em dia se defrontam com a burguesia só o proletariado é uma classe realmente revolucionária. As demais se arruínam e morrem com a grande indústria;
o proletariado é o seu produto mais específico. As camadas
, médias, pequenos-industriais,
pequenos· comerciantes-artesãos, camponeses, combatem a burguesia para evitar o seu
próprio desaparecimento. Não são, portanto, revolucionárias,
mas conservadoras. Mais que isso, são reacionárias, porque
procuram fazer girar para trás a roda da história. Quando são
revolucionárias o são na iminência da sua passagem para o
proletariado - ou seja, não defendem os seus interesses presentes, mas os futuros, abandonando o seu próprio ponto de
vista para adotar o do proletariado.
o lúmpen proletariado, essa putrefação passiva das camadas
mais baixas da velha sociedade, pode ser arrastado para o movimento de uma revolução proletária. Mas, dadas as suas con-
ANTOLOGIA ILUSTRADA DE FILOSOFIA
402
dições de vida, estará mais inclinado a vender-se às maquina-
ções reacionárias.
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As condições de vida da velha sociedade já foram destruídas
pelas condições de viela do proletariado. O proletariado não
tem propriedade, as suas relações com a mulher e os filhos não
têm mais nada em comum com as relações familiares burguesas; o trabalho industrial moderno, a moderna submissão ao
capital, sempre idêntica, na Inglaterra como na França, na
América como na Alemanha, retira dele todo caráter nacional.
A lei, a moral, a religião são para ele simplesmente preconceitos burgueses, atrás dos quais se escondem outros tantos interesses burgueses.
As modificadas condições de vida
tornam o proletariado alheio à
ideologia burguesa.
Todas as classes anteriores que conquistaram o poder procuraram garantir as posições alcançadas, submetendo a sociedade inteira às condições ditadas por seus interesses. Os proletários podem conquistar as forças produtivas da sociedade
somente no momento em que abolirem esse específico sistema de apropriação e, portanto, o conjunto dos sistemas de
apropriação até então existentes. Os proletários nada têm de
seu para ser preservado, devendo destruir toda a segurança
privada e todas as garantias privadas até aqui existentes ..
o proletariado nada possui, nada
Todos os movimentos que tiveram lugar no passado eram
movimentos de minorias ou voltados para os interesses das
minorias. O movimento proletário é o movimento autõnomo
da imensa maioria no interesse da imensa maioria. O proletariado, a camada mais baixa da sociedade hodierna, não pode
se levantar, não pode se aprumar sem fazer desmoronar a superestrutura das camadas que formam a sociedade oficial.
A revolução proletária será a
primeira feita pela maioria.
Mesmo que não tenha esse conteúdo, a forma assumida pela luta dos proletários contra a burguesia é inicialmente nacional. O proletariado de cada país deve antes de tudo se desembaraçar da própria burguesia.
No início, a luta proletária pode ter
uma dimensão nacional.
Todas as sociedades que existiram até aqui, como vimos, se
fundaram no antagonismo entre classes que oprimem e classes oprímtdasCorrtudo,
para poder oprimir uma classe é pieciso garantir-lhe ao menos as condições de manutenção da sua
existência servil. O servo da gleba elevou-se, da sua servidão,
à dignidade de membro da Comuna, assim como o pequenoburguês, sob o jugo do absolutismo feudal, elevou-se à condição de burguês, O operário moderno, ao contrário, em vez de
elevar-se graças ao progresso da indústria, desce cada vez mais
abaixo das condições da sua classe. O operário torna-se pobre
e o pauperismo desenvolve-se ainda mais rapidamente do que
a população e a riqueza.
Sem revolução não existem
possibilidades de melhoria oara o
proleidfiiiúo. A tendênCia é o ...
empobrecimento progressivo.
Daí se deduz claramente que a burguesia não é capaz de
continuar por muito tempo como a classe dirigente da socie-
Um insustentável pauperismo da
massa é produto do capitalismo.
403
tem a perder, por isso vencera.
ANTOLOGIA ILUSTRADA DE fiLOSOFIA
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Texto XII