PAULO FLORES
Novo álbum
O PAÍS QUE NASCEU MEU PAI
Lançamento em Angola
Outubro 2013
E porque nem tudo é só musica
Este trabalho, estas palavras, estas melodias e sonoridades são originalmente o que
me sobrou da perda de meu pai, da perda do meu pai e de todas as memórias que se
avivaram em mim depois dessa perda. Dos lugares, dos cheiros, do tempo que tinha
muito mais tempo dentro de si, mas principalmente das pessoas. Das pessoas de meu
pai, assim crédulas, próximas umas das outras. Avivaram-se memórias dos casamentos
de três dias em que o meu pai tocava (dj) nos quintais da cidade...
Luanda cidade que nos nasceu, que nos cuspiu e que nos renasceu tantas vezes, tantas
vezes nos sentimos assim...Vivos, mais uma vez e outra.
Este disco traduz os sons e os tons e os ritmos que me acordavam enquanto dormia
debaixo das mesas, os passos das pessoas na cadência da dança, o som do arrastar dos
passos vistos assim do avesso.
Este disco é originalmente do avesso. Do avesso porque foi assim que comecei a sentir
e a olhar a vida nestes quintais de três dias em que o meu pai era o artista da festa, o
“discotequeiro” e às vezes, quando a luz bazava em tempos de recolher obrigatório,
ele ficava horas contando histórias de acender os silêncios e tudo acontecia na mesma:
os flirts, as amizades que se consolidavam, as que acabavam, até à próxima festa, no
próximo fim-de-semana.
E do avesso porque era assim essa geração que fez a Angola livre.
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Lembro-me de ouvir jazz, funk, música latino-americana, semba, samba, tango, baião,
boleros, a rumba angolana, a rumba cubana, a bossa-nova... Era incrível essa geração e
a sua abertura para o mundo. Era incrível toda a predisposição para a miscigenação,
seja ela musical, poética, ou até amorosa.
Este disco é uma memória viva de toda essa geração que acreditava que seríamos “nós
todos”; negros, brancos e mulatos filhos do mesmo chão, a fazer a diferença. Já
éramos livres, agora faltava fazer o país de novo.
Este disco homenageia a memória de todos os pais deste país, todos aqueles que
foram (muitos escolheram ir), não queriam fazer parte, não queriam assistir
impotentes à metamorfose da identidade por eles libertada, quase como se tivessem
sido mudados apenas os donos; grandes quadros, grandes cérebros submersos numa
tristeza profunda... Deixaram-se ir de forma consciente pois não sabiam viver sem a
alegria de quem sonha que um dia teria necessariamente que ser “nós todos”.
Estas músicas, estas palavras, falam destas pessoas, ou da minha memória delas.
Este disco, são eles ainda tentando falar; homenagem sentida, sincera e merecida aos
pais do país que nasceu meu pai.
Paulo Flores
2013
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14. ainda o país que nasceu meu pai
[excerto/texto]
…
Vi nascer o meu pai
Da coisa mais certa
Numa proa do tempo com vento
Com a voz
Da esperança
A voz de um povo
Na melodia da noite
Na total utopia da Beleza
Sem tristeza
Com a certeza da vitória
Que pode ser incerta
Mas certeza de chegada
De um povo de história
Afinal isto não é poesia
São coisas da vida,
Da vida do país do meu pai
O país do meu pai
Tem cobiça, chiça
Nos chinelos dela tem semba
Pano não cai
Me leva, me baixa... Escorrega
Na terra do meu pai
Terra do som
Às vezes até o meu pai
Se esquece da sua avó linchada
Na fogueira do mundo fármaco
Do seu mais aluguer, mais recôncavo
Sabes pai, fazes-me falta
Tu e todos os kotas do teu tempo
Que se privaram por nós, para nós
Era pra ser nós todos
Os panos serviam como livros em estantes
Licença de ter memória constante
Alicerce da vida
Qual quê,
Nós todos, era pra ser nós todos
Letra: Paulo Flores e Ricardo Viegas de Abreu / Música: Paulo Flores e Simmons Massini
Produção, arranjos e performance: Simmons Massini | Arranjos vocais: Simmons Massini
e Paulo Flores | Paulo Flores, Simmons Massini: voz principal | Ricardo Viegas de Abreu: voz,
texto | Simmons Massini: baixo eléctrico, piano, teclados, guitarra, bateria, dikanza e shaker
adicional | Correia [Banda Movimento]: congas, dikanzas, latas e percussões
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PAULO FLORES
O PAÍS QUE NASCEU MEU PAI
[CD]
01. memória de café
Paulo Flores
02. me leva
Paulo Flores e Isabel Baptista / Paulo Flores e Tony Sá
03. mãe bondei o mister mouse
Paulo Flores
04. mamã lélé
Paulo Flores, Wilson Domingos e Sarissari Diniz / Paulo Flores e Tchoboly
05. cara da madona
Paulo Flores e Irina / Paulo Flores
06. mordida de cobra
Paulo Flores / Paulo Flores e Gerard Mendes
07. o país que nasceu meu pai
Paulo Flores
08. a carta (querida mãe)
Paulo Flores
09. trem da cidade
Paulo Flores
10. sou ninguém
Paulo Flores
11. mana bessa ngana
Octávio do Nascimento / Música Tradicional Angolana
12. rumba papá
Paulo Flores / Paulo Flores e dj Manya
13. batucada do desaturado
Paulo Flores
14. ainda o país que nasceu meu pai
Paulo Flores e Ricardo Viegas de Abreu / Paulo Flores e Simmons Massini
15. boda bonus track
Paulo Flores
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Aos meus tetranetos,
Meus queridos, quando pensei em vos escrever estas palavras, confrontei-me sempre com a
dúvida da utilidade do que neste momento faço; procurando, quem sabe, daqui a muitos anos,
fazer chegar a vós um pouco da nossa essência, da nossa raiz, da nossa abertura para o mundo
e também falar-vos da capacidade que, julgo eu, tínhamos de transformar as influências em
sonoridades próprias com as malhas dos guitarristas e as sub-frequências dos baixos e
percussões, criando uma moderna estética sonora e experimental de swing frenético, por
vezes parecendo querer apanhar a velocidade do tempo, mesmo em beat mais lento era pleno
de intensidade.
No fundo queria falar-vos das pessoas que fizeram essa música de Oiro, essa geração dos
quintais generosos em noites de recolher obrigatório.
“Era uma vez…num tempo nem tão distante assim”.
E de como podemos continuar a existir e até influenciar a estética do mundo, tantas vezes sem
reparar que ainda conseguimos ser matriz, assim pura.
Hoje que vos escrevo, queremos “ignorar a força dos desgostados”.
Hoje, do tempo onde vos escrevo, precisamos de paz nas nossas consciências. Precisamos da
ingenuidade de criança para recuperar mais rápido e nunca perder a capacidade de amar.
Precisamos esquecer a incompreensão dos homens.
Esta é a nossa oportunidade de viver a vida que nos deram, que “nos nasceram”.
Estar “aqui a fazer o som assim” como o país me pede,
“parece que eu tinha a certeza ainda”...
Lembrei-me desses kotas como o meu que nos deram esse nascer e ver a vida como só
assim…“Éramos da canjonja”, ”Filhos da esquindiva”.
Éramos e somos ninguém e ao contrário do que dizem sabemos ser ninguém como
poucos....Acho que já não queríamos ser nomes nem estados nem aqueles por quem se
espera. Acho que nós só queríamos “orgulho na carapinha”.
Amor entre todos de todas as tonalidades e proveniências que fizeram desse lugar o nosso
lugar.
A maka mesmo é que não faço ideia de que forma vocês falarão, se essa gravação e estas
palavras chegarem a vocês. Poderia falar em português correto, mas nem mesmo sei como se
fala ou escreve corretamente nos meus dias.
Então ficam essas “iluminuras” em forma de canções, que talvez vos ajudem, ou quem sabe
vos confundam mais ainda.
Mas o mambo é esse, é essa procura de todas as tonalidades do nosso ser mais íntimo, mais
resplandecente.
“Nós todos…era pra ser nós todos”.
Paulo Flores
2013
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CRÉDITOS
O PAÍS QUE NASCEU MEU PAI
Produção musical
Paulo Flores
Produção executiva
Hilberto Liberato, Paula Nascimento
Gravação
Fernando Gomes, estúdio Gravisom
Gravação de cordas
Joaquim Monte, estúdio Namouche
Gravação [Ainda O País Que Nasceu Meu Pai]
Gravação Paulo Flores e Ricardo Viegas de Abreu
Fernando Gomes, estúdio Gravisom
Gravação Simmons Massini
Firmino Andrade, estúdio CT-1 Studios/RNA
Simmons Massini, estúdio Enter Studios
Gravação de percussões
Firmino Andrade, estúdio CT-1 Studios/RNA
Gravação [Mamã Lélé]
Tchobari Produtora
Misturas
Fernando Gomes e Paulo Flores, estúdio Gravisom
temas: 2, 3, 5, 6, 7, 8, 10, 11, 12, 13, 14, 16
Jorge Cervantes, estúdio Andinos
temas: 1, 9, 15
Tchoboly, Tchobari Produtora
tema: 4
Masterização
Fernando Gomes, estúdio Gravisom
Fotografia
Cassiano Bamba
Cortesia
Colecção Nuno Pimentel
Conceito e Direcção de Arte
Kiluanji Kia Henda
Design Gráfico
Sérgio Duque
www.pauloflores.com
Fotografia Campanha de Promoção: ©Rui Sérgio Afonso
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Press Release "O País Que Nasceu Meu Pai"