UNIVERSIDADE ESTÁCIO DE SÁ EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOB A ÓTICA DOS ALUNOS DE UM CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE FABRINNY ARAUJO DA SILVA RIO DE JANEIRO 2011 2 FABRINNY ARAUJO DA SILVA EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOB A ÓTICA DOS ALUNOS DE UM CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Educação da Universidade Estácio de Sá como requisito parcial à obtenção do título de Mestre ORIENTADOR: Prof.ª Drª Láelia Carmelita Portela Moreira RIO DE JANEIRO 2011 4 O início dessa pesquisa, seu desenvolvimento e em quais circunstâncias se concretizou, confunde-se com outra história, bem mais pessoal e íntima. Há quase três anos atrás (assim como esse trabalho) nasceu aquela, que de uma forma maravilhosa mudaria minha vida completamente, me fazendo um ser mais completo e uma pessoa muito mais feliz e consciente das minhas responsabilidades, sonhos e realizações... Os três anos dedicados a essa pesquisa me possibilitaram aprender fatos que antes eu desconhecia relacionados ao chamado “conhecimento científico e acadêmico”. Porém, de uma forma muito mais profunda, nesses três anos após sua chegada aprendi lições e detalhes vitais para o “conhecimento interior”. Uma criança é feliz, pois acredita e vive tudo com intensidade, amor e extrema simplicidade... Por todas as noites que ao estar debruçado nos livros e artigos deixei de estar com ela... Por todas as ocasiões em que ao estar sentado ao computador pesquisando e estudando, quando ela me chamava, eu tive que (relutantemente) dizer não... Por todos os momentos em que ao pensar em desistir, por forças das circunstâncias, pelo desprazer de alguns poucos olhares reprovadores, pelo cansaço do trabalho ou pelo simples e puro desânimo, voltei atrás, pois seu sorriso me confortava... Não teria como não dedicar todos os esforços e tempo utilizados nesse trabalho a minha amada filha Nicolly. 5 AGRADECIMENTOS Agradeço a Deus em primeiro lugar, pois sem a vida dada por ele nada mais poderia existir; Aos meus Pais Luiz e Izabel e minha esposa Verônica, pelo apoio incondicional em todos os momentos que precisei, pois quando nos falta o chão são estes que continuam a estender a mão sem exigir nada em troca que não seja apenas a nossa felicidade; Aos Professores Dr. Tarso Bonilha Mazzotti e o Dr. Donaldo Bello de Souza por acreditarem no Projeto de Pesquisa na fase de seleção para o Mestrado; As Professoras Drª Alda Judith Alves-Mazzotti e a Drª Rita de Cássia Pereira Lima pela compreensão e confiança ao entrar no programa de Pós-Graduação em Educação da UNESA; Ao Prof. Dr. Victor de Araujo Novicki por todas as orientações, informações e conhecimentos passados no início da Pesquisa (muito obrigado mesmo); A todos os funcionários ligados ao programa de Educação da UNESA, em especial a Ana Paula, por todo empenho em ajudar e a solucionar as questões administrativas possibilitandome concentrar-me ao máximo nas questões acadêmicas do curso; As colaboradoras de minha empresa Vânia, Vanessa e Claudete pelo apoio nas atividades profissionais e eventuais idas a UNESA para me auxiliar em questões documentais; A Prof.ª Drª Elisângela da Silva Bernado pela excelente e preciosa ajuda na tabulação dos dados colhidos no questionário utilizando o programa SPSS/IBM na minha pesquisa; Aos Colegas da turma e da linha de pesquisa, em especial: Beatriz Alves, Dempson Ferreira, Inês Maria, Marlene Rosa, Marcos Conde, Maria das Dores, Sâmia Pedroza, Saulo Cesar, Sueli Coelho e Sueli Gomes pelo convívio, amizade e discussões enriquecedoras; A Direção do Colégio Pedro II, em especial a Profª Drª Lygia Vuyk de Aquino, Coordenadora do Curso Técnico em Meio Ambiente, que consentiu na realização da pesquisa e forneceu todo apoio necessário para sua realização; E finalmente, agradeço a minha Orientadora Profª Drª Láelia C. Portela Moreira pela paciência e forma como conduziu a orientação fornecendo todas as informações, conhecimentos e dicas necessárias para a finalização dessa pesquisa. 6 "É triste pensar que a natureza fala e que o gênero humano não a ouve." Victor Hugo 7 RESUMO SILVA, Fabrinny Araujo. Educação Ambiental sob a Ótica dos Alunos de um Curso Técnico em Meio Ambiente. Rio de Janeiro, 2011, Dissertação (Mestrado em Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação, Universidade Estácio de Sá, 2011. O presente trabalho analisa a percepção dos alunos do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II, situado na cidade do Rio de Janeiro, no que se refere às principais questões relacionadas com a Educação Ambiental. Privilegiou-se, nessa pesquisa, a análise da ótica dos egressos do curso sobre essa temática, e não a forma como essa prática educativa deve ser implementada em escolas e/ou cursos profissionalizantes. Por constar nos Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente do Ministério da Educação e Cultura (MEC), buscou-se observar até que ponto e grau se deram a compreensão e entendimento dos alunos em três eixos principais: Sustentabilidade, Meio ambiente e Educação Ambiental Crítica. Para tanto, utilizou-se uma abordagem metodológica com análises quantitativa e qualitativa. Os dados da investigação foram obtidos por meio de questionários e da análise documental. Foram analisados alguns dos principais documentos oficiais utilizados no mundo e no Brasil dentro da temática pesquisada, suas trajetórias, características, conflitos e consensos, destacando-se, em especial, a Educação Ambiental Crítica a qual busca tematizar não somente os ambientes naturais, mas principalmente as questões socioambientais, promovendo uma maior articulação entre o mundo natural e o mundo social. Os resultados obtidos indicaram que os alunos compreenderam até certo ponto alguns conceitos relacionados à Educação Ambiental, porém em outros evidenciaram desconhecimento e despreparo para a execução das atividades dessa prática educativa. Verificou-se também que os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação, para essa modalidade da Educação Profissional, não elencam a Educação Ambiental nas competências sugeridas para os egressos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente, apenas fazendo ligeira citação no contexto do documento. Os resultados obtidos evidenciam séria necessidade de mudanças em como se trata a Educação Ambiental no Ensino Profissionalizante no Brasil. Palavras-chave: Educação Ambiental; Ensino Profissionalizante; Sustentabilidade. 8 ABSTRACT SILVA, Fabrinny Araujo. Environmental Education under the Perspective of Students of a Technical Course in Environment Management. Rio de Janeiro, 2011, (Master’s Degree in Education). Postgraduate Program in Education, Estácio de Sá University, 2011. This paper aims at analyzing the way students of a Technical Course in Environment Management, in Colégio Pedro II (Pedro II School), located in Rio de Janeiro city, see and understand the main questions related to the Environmental Education field. The research carried herein focused on the perspective of the students of this subject who already finished the course, and not on the way how that educational practice should be implemented in schools and/or vocational courses. Once it is part of the National Curriculum Benchmarks for Professional Education in technical education – Professional field: Environment of the Ministry of Education and Culture (MEC), this paper intends to observe the level of comprehension and understanding of students in three main axes: Sustainability, Environment and Critical Environmental Education. Thus, a methodological approach with quantitative and qualitative analysis was used. Research data were obtained through survey and documental analysis. Some of the main official documents used throughout the world and in Brazil related to the theme presented herein were analyzed, as well as their trajectories, features, points in common and different points of view, stressing, mainly, Critical Environmental Education, which intends to thematize not only natural environments, but especially socio-environment issues, promoting a better interaction between natural world and social world. The achieved results indicated that the students could comprehend partially some concepts related to Environmental Education, but they also gave proofs of inability and unpreparedness to perform activities related to such subject. Another fact that could be noticed is that the National Curriculum Benchmarks for Education, regarding this area of Professional Education, do not consider Environmental Education as one of the competences suggested to those who already finished Technical Course in Environment Management, briefly mentioning the subject in the context of the document. The achieved results show an urgent need for changes regarding the importance given to Environmental Education in vocational courses in Brazil. Key words: Environmental Education; Vocational Courses; Sustainability. 9 LISTA DE FIGURAS Figura 01: Foto da Unidade de São Cristóvão do Colégio Pedro II ........................................ 22 Figura 02: Multidisciplinaridade - Gama de Disciplinas Simultâneas sem Relações entre as mesmas .................................................................................................................................... 73 Figura 03: Pluridisciplinaridade - Relação entre Disciplinas em um Nível somente e Objetivos Distintos .................................................................................................................................. 73 Figura 04: Interdisciplinaridade - Sistema de Dois Níveis e de Objetivos Múltiplos com Disciplinas Conexas ................................................................................................................ 74 Figura 05: Transdisciplinaridade - Sistema de níveis e de Objetivos Múltiplos; Coordenação ................................................................................................................................................. 75 10 LISTA DE GRÁFICOS Gráfico 01: Definição de Meio Ambiente ............................................................................... 86 Gráfico 02: Definição de Desenvolvimento Sustentável ......................................................... 88 Gráfico 03: Definição de Educação Ambiental ....................................................................... 89 Gráfico 04: Programas ou Campanhas de Educação Ambiental ............................................. 90 Gráfico 05: Diagnóstico Socioambiental Local/Regional ....................................................... 92 11 LISTA DE QUADROS Quadro 01: Principais Decretos Normalizadores da Educação Nacional................................. 48 Quadro 02: Divisão da Educação Profissional ........................................................................ 51 Quadro 03: Estabelecimentos e Matrículas da Educação Profissional de Nível Médio: Anos 2003 a 2005 .............................................................................................................................. 53 Quadro 04: Comparativo Entre os Decretos nº 2.208/97 e nº 5.154/2004 .............................. 55 Quadro 05: Matriz da Proposta Curricular por Competências para o Ensino Médio .............. 59 Quadro 06: Disciplinas de Formação Geral do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II ..................................................................................................................................... 60 Quadro 07: Disciplinas de Formação Profissional do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II ....................................................................................................................... 61 Quadro 08: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Primeira Função ...................... 68 Quadro 09: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Segunda Função ...................... 69 Quadro 10: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Terceira Função ...................... 70 12 LISTA DE TABELAS Tabela 01: Informações Gerais dos Alunos ............................................................................. 79 Tabela 02: Atividades Extracurriculares ................................................................................. 81 Tabela 03: Disciplinas do Curso Técnico em Meio Ambiente ................................................ 81 Tabela 04: Funções e Sub-funções do Técnico em Meio Ambiente ....................................... 84 Tabela 05: Objetivos do Curso Técnico em Meio Ambiente .................................................. 93 Tabela 06: Avaliação das Competências Socioambientais ..................................................... 95 13 LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS CP II Colégio Pedro II EA Educação Ambiental EIA Estudos de Impactos Ambientais IE Instituições Educacionais MEC Ministério da Educação e Cultura MPMA Memória e Patrimônio do Meio Ambiente ONG Organizações Não Governamentais ONU Organização das Nações Unidas PCN Parâmetros Curriculares Nacionais PNEA Política Nacional de Educação Ambiental PNUMA Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente PROEJA Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação Jovens e Adultos PRONEA Programa Nacional de Educação Ambiental SEMA Secretaria Especial de Meio Ambiente TMA Técnico em Meio Ambiente UNESCO United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization 14 SUMÁRIO 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................. 15 1.1 ANTECEDENTES E OBJETIVOS DA PESQUISA ......................................................... 20 2 EDUCAÇÃO AMBIENTAL: TRAJETÓRIAS, CARACTERÍSTICAS E FUNDAMENTOS .................................................................................................................. 24 2.1 CONFERÊNCIAS INTERNACIONAIS RELACIONADAS À EDUCAÇÃO AMBIENTAL .......................................................................................................................... 27 2.2 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL ............... 31 2.3 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL ....................................................................... 36 2.3.1 Institucionalização da Educação Ambiental no Brasil ................................................... 38 2.3.2 Educação Ambiental na Educação Brasileira ................................................................. 40 3 EDUCAÇÃO PROFISSIONAL: HISTÓRICO, CONFLITOS E CONSENSOS ........ 46 3.1 ENSINO MÉDIO INTEGRADO A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL .............................. 52 3.2 COMPETÊNCIAS E QUALIFICAÇÕES PARA O MERCADO DE TRABALHO ...... 62 3.2.1 Competências do Técnico em Meio Ambiente ............................................................... 67 3.2.2 Educação Ambiental no Currículo do Técnico em Meio Ambiente. .............................. 72 4 EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOB A PERSPECTIVA DOS ALUNOS DO CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE DO COLÉGIO PEDRO II ...................................... 78 4.1 ASPECTOS GERAIS E RESULTADOS ......................................................................... 79 4.2 PERCEPÇÕES DOS ALUNOS DO CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE SOBRE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL .............................................................................................. 83 5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ............................................................................................. 97 REFERÊNCIAS ................................................................................................................. 104 15 1 INTRODUÇÃO Hoje devido às profundas mudanças que a natureza vem sofrendo, observa-se que as questões ambientais são debatidas em várias esferas sociais. Estes debates manifestam múltiplas visões, interesses e representações dos conceitos relacionados ao tema meio ambiente e objetivam contribuir para a superação dos desafios gerados pela atual crise ambiental. Dentro do espaço escolar não poderia deixar de ser diferente. Espera-se que a educação realize seu papel de favorecer o desenvolvimento cognitivo do educando, qualificando-o para o mercado de trabalho e preparando-o para o exercício da cidadania, o que incluiu o acesso ao conhecimento, debate e a elaboração de soluções dos conflitos e questões socioambientais. Esse tipo de educação, voltada especialmente para a elucidação de temas relacionados ao meio ambiente e sociedade denomina-se Educação Ambiental (EA)1. Por meio da Educação Ambiental, procura-se trabalhar a preservação da natureza e a conscientização das pessoas para com o uso sustentável dos recursos naturais disponíveis, e em anos recentes, buscou-se direcionar essa prática educativa para uma abordagem relacionada com as questões socioambientais. O Socioambientalismo considera o meio ambiente como espaço relacional em que a presença humana, longe de ser intrusa ou desagregadora, aparece como um agente que pertence à teia de relações da vida humana, social natural e cultural, interagindo com ela (LOUREIRO, 2004a). Educação Ambiental é o nome que historicamente se convencionou dar às práticas educativas relacionadas à questão ambiental. Adotou-se pela primeira vez a expressão Educação Ambiental em um evento promovido pela Universidade de Keele, no Reino Unido, em 1965. Desde então, surgiram diversas subclassificações e subdenominações que tentam explicitar as concepções que norteiam as práticas e reflexões pedagógicas relacionadas ao tema educação e o meio ambiente (LOUREIRO, 2004a, 2007). O debate das questões ambientais tem conduzido à veiculação de algumas imagens distorcidas sobre as questões ambientais e à abrangência da própria Educação Ambiental. Há um senso comum generalizado e pouco reflexivo sobre os conceitos da EA, que ao serem 1 Educação Ambiental é um vocábulo composto por um substantivo e um adjetivo, que envolvem, respectivamente, o campo da Educação e o campo Ambiental. Enquanto o substantivo Educação confere a essência do vocábulo “Educação Ambiental”, definindo os próprios fazeres pedagógicos necessários a esta prática educativa, o adjetivo Ambiental anuncia o contexto desta prática educativa, ou seja, o enquadramento motivador da ação pedagógica (BRASIL, 2004a, p.7). 16 apropriados indistintamente e sem rigor teórico, geraram a perda da competência para se esclarecer o que é realmente o fazer educativo ambiental. Para Layrargues (2003, p.2) existe um “[...] grave equívoco da interpretação do pensamento do movimento ambientalista como se fosse um bloco monolítico, coeso e orgânico”. Tal concepção resulta no erro da generalização da temática ambiental e na consequente verificação da existência de variados elementos contraditórios2. Para Grünn (1996) a utilização da palavra “Educação Ambiental” é quase uma redundância, pois toda educação é ambiental, já que nascemos em um ambiente e nele vivemos durante toda nossa vida. Esse argumento é contestado, pois tal concepção dilui a especificidade da prática educativa ambientalmente orientada no contexto geral da educação e não pode-se afirmar que toda educação, independentemente da proposta pedagógica implantada, seria considerada como Educação Ambiental (LOUREIRO, 2004 a) Esse entendimento é reforçado por Layrargues (2000; 2006) quando explica que a EA designa uma modalidade pedagógica específica para uma educação que não seria automaticamente acrescida da temática ambiental. Esse autor questiona o fato da própria UNESCO3, a principal agência das Nações Unidas para a educação, a partir de determinado momento histórico resolver adotar outro vocábulo em substituição à Educação Ambiental: a educação para o desenvolvimento sustentável, sendo que este último é um termo muito amplo, que possibilita variadas interpretações e entendimentos. Posto dessa forma, percebe-se que a Educação Ambiental constitui um espaço social que abriga uma variedade de concepções. E justamente por possuir essa amplitude pedagógica, essa diversidade de metodologias de formação de sujeitos, generalizou-se o uso do termo Educação Ambiental, sendo possível atribuí-lo a “práticas muito diferentes do ponto de vista de seu posicionamento político-pedagógico” (CARVALHO apud BRASIL, 2004 a, p. 18). Este trabalho assumirá a concepção voltada para a Educação Ambiental Crítica dentro do espaço escolar, que será melhor esclarecida no 2° capítulo desse trabalho. Na perspectiva crítica, a educação em geral é concebida como um processo de instrumentalização dos sujeitos para a prática social transformadora, por meio da socialização do saber sistematizado. Assim pode-se “afirmar que a educação escolar tem como principal 2 Segundo Oudin as contradições do ambientalismo se manisfestam através de posturas catastrofistas contra posturas otimistas, posturas arcaístas contra tecnicistas, etc. (LAYRARGUES, 2003). 3 O Brasil é signatário e um dos países fundadores da UNESCO (United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization). A Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura mantém uma Representação no Brasil, desenvolvendo atividades de cooperação em estreita articulação com o governo e com segmentos expressivos da sociedade civil. 17 função promover a consciência dos educandos para a compreensão e a transformação da realidade”, garantindo a apropriação do saber elaborado e a contextualização histórica e social, dos conhecimentos, inclusive na dimensão ambiental. (BRASIL, 2008, p.48). A Educação Ambiental Crítica por sua vez, possui objetivos similares, porém mais direcionados para a discussão das questões relativas à interação entre o homem e a natureza. Tozoni-Reis (2006) afirma que o papel da Educação Ambiental Crítica é tematizar não apenas o ambiente natural, mas os aspectos socioambientais dessa relação. A Educação Ambiental Crítica deve inserir o homem, em especial o urbano, no foco das discussões ambientais, promovendo uma maior articulação entre o mundo natural e o mundo social. Desta forma, esta prática pedagógica deve transcender a perspectiva da abordagem de conteúdos meramente biologizantes das ciências naturais, ou seja, aqueles focados apenas na natureza e englobar aspectos socioeconômicos, políticos e culturais das ciências sociais e humanas (TANNER apud LAYRARGUES, 2000). Como parte dessa difusão da Educação Ambiental Crítica dentro da escola, foi estabelecido pelo Ministério da Educação e Cultura, no ano de 1997, o meio ambiente como um dos temas dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), sugerindo que ele fosse trabalhado de maneira transversal integrando todo o ensino formal. Os PCN, com o tema meio ambiente, objetivam “[...] contribuir para a formação de cidadãos conscientes, aptos a decidir e atuar na realidade socioambiental de um modo comprometido com a vida, com o bem-estar de cada um e da sociedade, local e global” (BRASIL, 1997 b, p. 187). Ao incluir a temática ambiental no currículo, de forma a compor um conjunto articulado e aberto a novos temas, os PCN, com o tema meio ambiente, buscam um tratamento didático que contemple sua complexidade e sua dinâmica, dando-lhe a mesma importância das áreas convencionais. O currículo escolar torna-se flexível, visto que a temática ambiental será priorizada e contextualizada de acordo com as realidades locais e outras particularidades regionais. Os conteúdos de meio ambiente foram integrados às outras áreas numa relação de transversalidade, de modo a permear toda a prática educativa e, ao mesmo tempo, criar uma visão global e abrangente da questão ambiental. Na parte final do 3° capítulo serão analisados com maior ênfase, pontos e questões importantes sobre a transversalidade. Seguindo essa mesma tendência, a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), institucionalizada pela da Lei n° 9.795, define a EA como uma prática pedagógica onde são construídos valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas 18 para a conservação do meio ambiente, essenciais à manutenção da qualidade de vida e sua sustentabilidade (BRASIL, 1999). A PNEA também entende que a temática da Educação Ambiental tem um caráter transversal, em virtude da sua abrangência conceitual e por isso não deve ser implantada como disciplina específica no currículo escolar. Por ser um componente essencial e permanente da educação nacional, a Educação Ambiental deve estar presente, em forma articulada, em todos os níveis e modalidades do processo educativo em caráter não-formal e formal (BRASIL, 1999). É realizada, no âmbito não-formal, por meio de ações desenvolvidas por Organizações Não Governamentais (ONGs), ou mesmo por IE fora do espaço escolar e, no âmbito formal, dentro das escolas, como uma prática educativa integrada ao currículo. Incluem-se especialmente nesse contexto os cursos de formação técnica, visto que a educação profissional constitui uma das dimensões que melhor evidencia as inter-relações do sistema educativo e de outros sistemas sociais. A educação profissional e tecnológica, no Brasil e no mundo, tem se revestido cada vez mais de importância tornando-se elemento fundamental para a construção da cidadania e para uma melhor inserção de jovens e trabalhadores na sociedade, plena de grandes transformações e marcadamente tecnológica. O Técnico em Meio Ambiente (TMA), segundo o Ministério da Educação e Cultura (MEC), está inserido na área de conhecimentos de tecnologia ambiental, que é a responsável pelo conhecimento: da natureza, dos processos nos recursos naturais, das consequências das alterações humanas, dos aspectos e impactos ambientais, das ações preventivas e das tecnologias corretivas que objetivam à melhoria, à recuperação da qualidade ambiental e à preservação dos recursos naturais do planeta. Ainda segundo o MEC, os Cursos Técnicos em Meio Ambiente deveriam se constituir instrumentos eficazes visando à capacitação dos recursos humanos para a prática de ações no meio ambiente em nível operacional, contribuindo, dentre outras atribuições, para a conscientização da população através de projetos de Educação Ambiental (BRASIL, 2000). Os Cursos Técnicos de Meio Ambiente são baseados em Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente, e objetivam formar Técnicos em Meio Ambiente, cujas competências e habilidades, bem como as bases tecnológicas relacionadas a essas competências, possibilitem um amplo conhecimento da problemática socioambiental e das ações de mitigação desses impactos. Desta forma, entende-se que na educação profissional do TMA realiza-se uma articulação entre o mundo do trabalho e a temática ambiental, possibilitando a conscientização dos educandos para com a amplitude e gravidade das consequências dos problemas ambientais. 19 Os Referenciais Curriculares Nacionais orientam que os Técnicos em Meio Ambiente devem desenvolver três funções ou competências principais em suas atividades: (1) o reconhecimento dos processos existentes nos recursos naturais, que envolvem os estudos das ações de conservação e da degradação natural; (2) a avaliação das ações antrópicas onde são identificadas as atividades dos seres humanos que causam desequilíbrio à natureza e ao próprio homem; e (3) a aplicação dos princípios de prevenção e correção para se mitigar os impactos socioambientais. Estas competências principais são subdivididas em outras subfunções e competências específicas. (BRASIL, 2000). Estas competências, em termos conceituais, são muito amplas e complexas, e não devem se restringir a um entendimento linear, com a redução do treinamento do educando apenas para o mercado visando sua empregabilidade, tampouco limitando-se à detenção de uma visão reduzida, preparando o trabalhador pura e simplesmente para a realização de tarefas instrumentais. Apesar das orientações do MEC nesse campo da educação, relatórios atuais afirmam que a atual oferta de cursos de meio ambiente é precária e de qualidade questionável. (BRASIL, 2000). Nesse contexto, reconhece-se que a educação do Técnico em Meio Ambiente deve ser concebida como um “processo de construção social que ao mesmo tempo qualifique o cidadão e o eduque em bases científicas e ético-políticas, para compreender a tecnologia como produção do ser social” (BRASIL, 2004 c, p.5). Dessa maneira, a educação se torna um processo mediador que estará relacionando a base cognitiva com a estrutura material da sociedade e, no caso dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente, contemplará de maneira eficiente a temática ambiental e as competências indicadas para essas atividades: A problemática do meio ambiente está presente em todas as áreas de Educação Profissional. Este fato exige que todos os cursos das diversas áreas profissionais contenham competências sobre os riscos no exercício de suas atividades. Além desses aspectos, deve ser considerado o fato da necessidade profissional especializada e voltada inteiramente para este problema (BRASIL, 2000, p.23). Segundo o MEC, os currículos de Cursos Técnicos em Meio Ambiente, de um modo geral, não correspondem às características, necessidades e anseios da sociedade, pois aplicam um “modelo pedagógico centrado num desenho curricular por disciplina e estrutura desarticulada apesar dos esforços de planejamento integrado na aula tradicional” (BRASIL, 2000, p. 18). 20 No tocante à inserção da Educação Ambiental na educação profissional, Serrano (apud REIS & MORAIS, 2009) constatou que as escolas não estão conseguindo propiciar uma mudança de valores e atitudes nos alunos. Por um lado, os alunos, em geral, não se comprometem com os padrões comportamentais ambientalmente corretos; por outro, percebese uma defasagem de cultura ambiental dos educadores e gestores que atuam na esfera educacional, pois estes não receberam uma formação integral sob a ótica da sustentabilidade e, portanto, evidenciam dificuldades em promover essa cultura em seus alunos. Os próprios Referenciais Curriculares do MEC para essa modalidade da educação, embora faça uma breve citação sobre a Educação Ambiental em seu contexto, não a elenca nas competências que os egressos destes cursos devem desenvolver ao término de seus estudos (NOVICKI & GONZALEZ, 2003). As recomendações das Conferências Internacionais relacionadas com a EA, os PCN e a Política Nacional de Educação Ambiental determinam a abordagem transversal da Educação Ambiental, por meio de uma concepção de meio ambiente que englobe o ser humano. Desta forma, percebe-se que mediante o conjunto de fatores citados acima são apresentados enormes desafios à gestão educacional para que sejam adotados “desenhos curriculares e alternativas metodológicas inovadoras, dinâmicas que substituam o modelo centrado nas aulas tradicionais” que possibilitem os atuais Técnicos em Meio Ambiente atuarem de uma maneira ampliada e abrangente em relações as questões ambientais (BRASIL, 2000, p. 23). 1.1 ANTECEDENTES E OBJETIVO DA PESQUISA A pesquisa apresentada aqui foi realizada no Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II (CP II), referência no ensino não somente no estado do Rio de Janeiro, mas também em todo o país. Esta investigação inicialmente estava vinculada à outra pesquisa mais ampla intitulada “Formação e Mercado de Trabalho do Técnico em Meio Ambiente”, coordenada pelo Prof. Dr. Victor de Araujo Novicki, no Programa de Pós-Graduação em Educação da UNESA, que analisou o perfil dos alunos e Cursos Técnicos em Meio Ambiente, de nível público, no estado do Rio de Janeiro. Fizeram parte desse estudo os Cursos Técnicos em Meio Ambiente do Colégio Estadual Presidente Kennedy (CEPK) em Belford Roxo, e o Colégio Agrícola Nilo Peçanha (CANP) em Pinheiral (NOVICKI, 2008, p. 2, 4). Posteriormente o estudo realizado no Colégio Pedro II desvinculou-se da pesquisa Formação e Mercado de Trabalho do Técnico em Meio Ambiente, mas os resultados aqui obtidos 21 fornecem subsídios para a realização futura de paralelos e considerações entre os estudos realizados nos 3 cursos Técnicos em Meio Ambiente supra-citados. O CP II é uma autarquia do Governo Federal. Trata-se de um complexo escolar composto de dez Unidades Escolares (UEs) situadas no Centro (Matriz), Engenho Novo I e II; Humaitá I e II; São Cristóvão I, II e II e Tijuca I e II. No ano de 2010 contava com mais de 12.000 alunos matriculados na educação básica, níveis infantil, fundamental e médio. O Colégio Pedro II foi fundado em 2 de dezembro de 1837. Sua história às vezes se confunde com a própria história da educação brasileira, especialmente no tocante à educação pública. Em 1739 foi fundado o Colégio dos Órfãos de São Pedro, desejado e inspirado pelo 4º bispo do Rio de Janeiro, D. Antônio de Guadalupe. Passados 27 anos, no ano de 1766, o colégio ganhou novas instalações no centro do RJ, localizadas aproximadamente onde o CP II (Matriz) se encontra atualmente. Nesse ínterim, transformou-se no Seminário de São Joaquim dando sequência ao ensino moral, religioso e intelectual que já realizavam anteriormente. D. João VI de forma arbitrária extinguiu as atividades do Seminário no ano de 1818, sendo restabelecido no ano de 1821 pelo príncipe regente, o futuro D. Pedro I. Não foi senão no ano de 1837 que o ministro do Império, Bernardo Pereira de Vasconcelos, apresentou o decreto que reorganizou completamente as atividades do Seminário de São Joaquim, que dentre algumas modificações, passaria a ser chamado de Colégio Pedro II, homenageando o imperador-menino, filho de D. Pedro I, no dia de seu aniversário em 2 de dezembro (BRASIL, 2002). O CP II foi organizado segundo os padrões educacionais europeus e se espelhou no Colégio Henri IV da cidade de Paris. No ano de 1857, o Colégio foi dividido em duas seções: externato e internato. O internato, com sua sede na Chácara do Engenho Velho, na Tijuca, tinha como objetivo ampliar novas vagas do Colégio necessárias para a formação cultural (Educação Propedêutica) dos filhos das elites regionais e futuros governantes4. No ano de 1888 o internato foi transferido para o Campo de São Cristóvão. Em 1961, as antigas instalações de internato foram destruídas por um incêndio, porém até a data de hoje ainda se constata a existência de edificações nos prédios atuais que foram utilizados com esse objetivo. Atualmente se encontram nessa unidade as modernas instalações da Direção-Geral e as Unidades escolares de São Cristóvão. Nessa unidade é que fica sediada a Coordenação e o 4 Como exemplo, alguns ex-alunos inscritos na história política do País foram: Marechal Hermes da Fonseca, Nilo Peçanha e Washington Luiz, todos ex-presidentes da república. Além desses, em anos mais recentes, outros ex-alunos se destacaram em outros campos de atuação como o Cultural: Caribé, Cecil Thiré, Gilberto Braga e Mario Lago. 22 Curso Técnico em Meio Ambiente, objeto principal de consideração do estudo aqui apresentado (id., 2002). Figura 01: Foto da Unidade de São Cristóvão do Colégio Pedro II Fonte: Fabrinny Araujo da Silva No ano de 1976, o Colégio passou a tratar de forma mais organizada a educação profissionalizante implantando-a no 2° grau (atual ensino médio) seguindo a determinação da Lei n° 5.692/71. Hoje, é um dos colégios do estado do Rio de Janeiro que possuem o ensino médio integrado a educação profissional. O Ensino Médio Integrado à Educação Profissional é regulamentado pelo Decreto nº 5.154/2004 e deve assegurar aos alunos uma oferta de formação geral associada a uma qualificação profissional. A composição curricular dessa proposta deve ser idêntica à do Ensino Médio, acrescida de componentes da formação profissional articulados de maneira pedagógica, para que não haja um empobrecimento do Ensino Médio em favor de uma formação profissional. O Ensino Médio Integrado à Educação Profissional no CP II é realizada visando à seguintes formações5: Técnico em Informática e Técnico em Meio Ambiente. Além dessas formações é realizada também na modalidade Educação de Jovens e Adultos (PROEJA) com as seguintes formações: Técnico em Manutenção e Suporte em Informática, Técnico em Administração e Técnico em Manutenção Automotiva. O Curso Técnico em Meio Ambiente do CP II foi criado no ano de 2006 e iniciou suas atividades com duas turmas neste mesmo ano. Conforme expresso no projeto pedagógico do curso, este foi idealizado para atender a grande demanda de profissionais capazes de 5 Esses dados foram retirados do site www.cp2.g12.br em março de 2011. 23 identificar e auxiliar a preservação dos recursos naturais, avaliar e controlar os fatores antrópicos de intervenção no meio ambiente. Uma das competências elencadas nesse documento afirma que os egressos do curso deverão “propor e desenvolver programas de educação e conscientização ambientais adaptados à realidade sócio-ambiental em que está inserido” (PEDRO II, 2006, p. 5). Em face do acima descrito destaca-se que o objetivo desta pesquisa remete especificamente a uma análise da percepção dos alunos do Curso Técnico em meio Ambiente para com a Educação Ambiental. Conforme definido pelas Conferências Internacionais sobre Educação Ambiental, pelos Parâmetros Curriculares Nacionais e pela Política Nacional de Educação Ambiental, a temática do meio ambiente deve permear de forma transversal os conteúdos ministrados no espaço escolar. Além do que, conforme expresso em seu projeto pedagógico, os egressos do curso deverão atuar de maneira significativa em atividades de Educação Ambiental. Espera-se então que os alunos do curso possam ter assimilado os conceitos e informações básicas sobre esse tema a fim de implementarem essa prática pedagógica em seus futuros ambientes de trabalho. Portanto, a grande questão a ser respondida é como a Educação Ambiental se expressou sob a ótica dos alunos do curso. Para atingir esse objetivo, foram analisadas: (1) a organização curricular do Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII mediante o modelo de competências pautado pelo MEC para essa modalidade de ensino e (2) as respostas dos egressos das duas primeiras turmas concluídas no ano de 2009 referentes aos principais conceitos relacionados ao meio ambiente e principalmente a temática da Educação Ambiental. Foi utilizado um questionário que foi respondido por 47 alunos6 concluintes do curso. Os dados foram tabulados e analisados utilizando-se do software IBM® SPSS® Statistics 7. 6 Esse número representa a totalidade de alunos matriculados nas duas turmas do Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII concluídas no ano de 2009 que participaram de maneira voluntária a anônima nessa pesquisa. Havia no total 54 alunos matriculados. 7 O IBM® Statistical Package for the Social Sciences – SPSS® (Pacote Estatístico para as Ciências Sociais) é um programa que simplifica todo o processo analítico, desde o acesso aos dados e preparação, até a análise, entrega e relatórios dos resultados. 24 2: EDUCAÇÃO AMBIENTAL:Trajetórias, Características e Fundamentos Sabe-se que até bem pouco tempo atrás, o meio ambiente era entendido como um bem utilitário, inesgotável, disponível a um tipo de desenvolvimento sem limites e fundado em uma concepção fundamentalmente antropocêntrica. Nesse contexto de conflitos e esperança de soluções, surge a Educação Ambiental como um dos vários instrumentos necessários para o enfrentamento dos conflitos ambientais. Para iniciar a análise e apresentação do assunto em pauta, faz-se necessário mostrar a diferença entre dois tipos principais de educação relacionadas ao meio ambiente atualmente em vigor: a Educação Ambiental Conservacionista e a Educação Ambiental Crítica. Desta forma espera-se identificar suas especificidades e diferenças, o que permitirá demonstrar como e que tipo de Educação Ambiental deve ser trabalhada nos cursos de formação dos Técnicos em Meio Ambiente. Uma comparação entre a Educação Ambiental Conservacionista e a Educação Ambiental Crítica (ou emancipatória) entende que a principal característica da primeira é o foco no ambiente e não no homem, enquanto que a segunda evidencia uma aproximação com os aspectos sociais. A Educação Ambiental Conservacionista privilegia basicamente as ciências naturais como conteúdo a transmitir, sendo seu principal objetivo mostrar ao educando os impactos decorrentes das ações antrópicas na natureza, para então enfatizar as tecnologias capazes de mitigá-los. Tem um enfoque Tecnicista. Daí o motivo desta ser também reduzida frequentemente ao estudo da natureza. O problema ambiental é fruto de um desconhecimento dos princípios ecológicos geradores de “maus comportamentos”, portanto caberia à Educação Ambiental Conservacionista erigir um instrumento de socialização humana perante a natureza, contribuindo para os chamados “bons comportamentos” ou boas práticas ecológicas. Essa interpretação rompe diretamente com a percepção evidenciada por muitos educadores segundo os quais as causas dos impactos ambientais residem, entre outros aspectos, na explosão demográfica, na agricultura abusiva e na crescente urbanização e industrialização, como se tais situações estivessem dissociadas da própria sociedade na qual foram gerados. Contudo, persiste ainda, na concepção de muitos educadores, uma confusão conceitual entre a abrangência da Educação Ambiental Conservacionista e a Educação 25 Ambiental Crítica. Assim, quando se fala dos impactos ambientais gerados pelas atividades humanas, é costumeiro o desenvolvimento de atividades educativas que abordam as questões relativas aos efeitos e não necessariamente as causas. Consequentemente desenvolvem-se práticas que evidenciam os processos dos impactos ambientais, priorizando suas consequências, em detrimento do esclarecimento das verdadeiras causas dos impactos ambientais. Sabe-se que as causas do mau uso dos recursos naturais decorrem basicamente de três fatores: (1) o desconhecimento dos efeitos colaterais prejudiciais de um uso abusivo e errado dos bens naturais, o que enfatiza a dimensão da falta do conhecimento ecológico na atividade produtiva do homem; (2) a ausência de conhecimento de tecnologias modernas que permitem a adequação ou mesmo a intensificação da produção com o mínimo de impactos nocivos ao ambiente; e (3) a ganância individual de certos agentes sociais na exploração do recurso natural, a fim de obter ganhos em curto prazo, maximizando sua atividade produtiva (LAYRARGUES, 2000). É importante destacar que, para os dois primeiros casos, a Educação Ambiental Conservacionista bastaria por si só, pois através desta se fornece aos educandos conhecimentos técnicos que abordam a interação humana com a natureza, ou seja, as diversas possibilidades com que o homem conta para viver e produzir sem esgotar os recursos existentes. Pode-se resumir esse fato com a palavra “conscientização” que implica no reconhecimento de que o ser humano, para respeitar os limites existentes entre desenvolvimento e proteção ambiental, basta ser educado para modificar os seus comportamentos. No terceiro caso, entretanto, faz-se necessária a realização de outras estratégias educacionais adicionais, por parte do educador ambiental, que deve delimitar as relações sociais e identificar os conflitos de uso dos recursos naturais, utilizando-se das políticas públicas relacionadas ao tema. Ressalta-se que a educação que realmente deseja transformar a realidade, não deve apenas objetivar a mudança de comportamentos, mas também intervir nas condições do mundo em que as pessoas moram. Assim, percebe-se a grande falha da Educação Ambiental Conservacionista, cujo pano de fundo é o caráter profundamente tecnocrático, pois se baseia na solução apresentada pelo especialista técnico que apontará as tecnologias adequadas para proteção e mitigação dos danos gerados ao ambiente. A respeito da relação entre tecnologia, sociedade e democracia, destaca-se o fato de que o progresso técnico caminha no rumo das necessidades do homem. Nesse pressuposto, 26 cada indivíduo, persegue seu próprio interesse, fazendo com que o mercado se aperfeiçoe e atinja um ponto de equilíbrio, pois avança em função de suas próprias carências. Estes se concentram no valor de troca, e não nas necessidades sociais, fundamentadas nos valores éticos e humanos. Percebe-se assim, que o uso de certa tecnologia, em muitos dos casos, pode acabar gerando efeitos colaterais negativos à coletividade. Por outro lado, a Educação Ambiental Crítica, ao passo que inclui o ambiente humano em suas práticas pedagógicas, incorpora a participação como um valor fundamental a ser considerado na proteção do ambiente. Enquanto a Educação Ambiental Conservacionista vincula-se a uma perspectiva tecnocrática e comportamental, a Educação Ambiental Crítica envolve a cidadania, sendo essa a principal diferença de cunho sociológico que se deve mencionar. Porém, para alguns autores a Educação Ambiental Crítica embora tenha substituído a Educação Ambiental Conservacionista, no sentido de ter conquistado maior espaço entre seus simpatizantes e defensores, não a sucedeu. A Educação Ambiental Crítica substituiu a Educação Ambiental Conservacionista porque ganhou popularidade no final dos anos 60 e conquistou a simpatia dos educadores mais tradicionais, passando a ser regra na prática. Mas não a sucedeu porque trata-se de duas teorias com doutrinas diferentes, e que hoje ainda atuam concomitantemente. A Educação Ambiental Crítica não tem a pretensão de solucionar a “babel” existente nas diversas propostas do ensino ambiental8 e não pretende reduzir as múltiplas orientações das práticas pedagógicas voltadas para o meio ambiente numa única e monolítica Educação Ambiental. A Educação Ambiental Crítica desponta como uma prática educativa importante, contribuindo para a mudança de valores e atitudes e formação de um sujeito ecológico (LAYRARGUES, 2000; BRASIL, 2004 a). Apesar de tudo isso, intensificou-se o descrédito pela própria Educação Ambiental Crítica no cenário internacional, em virtude da falta de resultados concretos, e pela fragilidade metodológica da sua prática. Apesar de ela sempre ser lembrada como uma ferramenta vital para o enfrentamento dos conflitos ambientais, não se percebe ainda total reconhecimento de sua eficácia, o que resultou numa onda de desqualificação entre os profissionais atuantes nesse segmento. 8 É possível denominar Educação Ambiental a práticas muito diferentes do ponto de vista de seu posicionamento político-pedagógico. As práticas agrupadas sob o conceito de educação ambiental têm sido categorizadas de muitas maneiras: educação ambiental popular, crítica, política, comunitária, formal, não formal, para o desenvolvimento sustentável, conservacionista, socioambiental, ao ar livre, dentre outras (BRASIL, 2004). 27 A Educação Ambiental Crítica não tem conseguido provar, por meio de resultados concretos, a reversão da atual crise ambiental. Faz-se necessário evidenciar resultados reais, através do uso de instrumentos consistentes de avaliação. Esclarece-se que os objetivos para a minimização dos impactos danosos ao meio ambiente, não foram atingidos até agora simplesmente porque as pessoas ainda confiam que as inovações tecnológicas sempre conseguirão solucionar os problemas ambientais, não sendo assim necessária, a transformação de seu estilo de vida. Persiste ainda a ocorrência de uma confusão conceitual existente entre essas duas práticas educativas. Muitas das chamadas atividades de Educação Ambiental são na verdade apenas atividades de Educação Ambiental Conservacionista, uma vez que são desenvolvidas de forma reducionista, com enfoque apenas nas dimensões natural e técnica, apesar do consenso dos estudiosos na área de que a EA transformadora deve ser trabalhada sob uma perspectiva mais ampla, englobando os aspectos socioambientais, visando a formação do sujeito humano enquanto ser individual e social (BRASIL, 2004). É de conhecimento amplo a existência de uma divergência clara a respeito das diversas metodologias empregadas nas práticas da Educação Ambiental. Não se conhece perfeitamente a dosagem certa entre o domínio afetivo e cognitivo. Sobre o domínio afetivo, tampouco se sabe a correta dosagem entre a abordagem positiva e negativa; sobre o domínio cognitivo, a correta dosagem entre os conteúdos reducionistas e biologizantes ou abrangentes e socioambientais. Pairam dúvidas sobre o momento mais apropriado para a sensibilização dos educandos em relação aos problemas ambientais e ao seu efetivo engajamento no enfrentamento desses conflitos. Em suma, apesar dos princípios e objetivos da Educação Ambiental Crítica estejam hoje bem mais esclarecidos, ainda se desconhecem os meios para realizá-los. São essas as incógnitas geradoras de seu descrédito, e que precisam ser devidamente esclarecidas e explicadas a fim de que essa prática pedagógica possa ser realizada efetivamente em prol da sociedade e meio ambiente como um todo. 2.1 CONFERÊNCIAS INTERNACIONAIS RELACIONADAS À EDUCAÇÃO AMBIENTAL Nos últimos anos ocorreram algumas conferências importantes relacionadas com os temas ambientais e a própria Educação Ambiental, as quais serão relacionadas a seguir. 28 A primeira grande reunião internacional sobre o meio ambiente foi a Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano, ocorrida em Estocolmo de 5 a 16 de junho de 1972. A Conferência de Estocolmo aprovou uma declaração de princípios conhecida como Declaração de Estocolmo, de caráter declarativo e recomendatório. Essa Declaração pretendeu minimizar as diferenças existentes entre o desenvolvimento econômico e a proteção ao meio ambiente, instituindo princípios básicos que foram e são utilizados até hoje. A Conferência de Estocolmo é considerada um marco inicial de interesse da educação ambiental. O Plano de Ação da Conferência basea-se na premissa de que se deve educar o cidadão para solução dos problemas ambientais. A Conferência de Belgrado, a segunda reunião internacional, realizada na exIugoslávia em 1975 e promovida pela UNESCO, foi produzida por estudiosos e especialistas de 65 países. A carta de Belgrado, como ficou conhecida, se constitui no Documento que culminou com a formulação de princípios e orientações para um programa internacional de Educação Ambiental e preconiza uma nova ética planetária para promover a erradicação da pobreza, fome, analfabetismo, poluição, exploração e dominação humanas. Censura o desenvolvimento de uma nação à custa de outra e sugere a criação de um programa mundial em Educação Ambiental. Uma terceira reunião foi a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental, realizada em Tbilisi, capital da Geórgia no ano de 1977, considerada como um dos principais eventos sobre Educação Ambiental do Planeta. Esta conferência foi organizada a partir de uma parceria entre a UNESCO e o Programa de Meio Ambiente da ONU - PNUMA9 e, estiveram reunidos cerca de 300 especialistas, representantes de 68 países do mundo e de vários organismos internacionais. As Recomendações dessa Conferência se converteram em uma referência indispensável para as instituições e pessoas preocupadas com a educação. Deste encontro, saíram às definições, os objetivos, os princípios e as estratégias para a Educação Ambiental a ser disseminada no mundo. Segundo Dias (2000), até o presente 9 O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), principal autoridade global em meio ambiente, é a agência do Sistema das Nações Unidas (ONU) responsável por promover a conservação do meio ambiente e o uso eficiente de recursos no contexto do desenvolvimento sustentável. Estabelecido em 1972, o PNUMA tem entre seus principais objetivos manter o estado do meio ambiente global sob contínuo monitoramento; alertar povos e nações sobre problemas e ameaças ao meio ambiente e recomendar medidas para aumentar a qualidade de vida da população sem comprometer os recursos e serviços ambientais das futuras gerações. 29 momento a Conferência de Tbilisi é a referência internacional para o desenvolvimento de atividades de Educação Ambiental. O documento de Tbilisi afirma que o processo da Educação Ambiental deve proporcionar a construção de valores e a aquisição de competências (conhecimentos, atitudes e habilidades) voltadas para a participação responsável da sociedade para com o meio ambiente. Tal conferência convocou os Estados-membros a incluírem em suas políticas de educação, medidas que visaram incorporar um conteúdo, diretrizes e atividades ambientais em seus sistemas. Um dos pontos principais relacionados com a proteção do meio ambiente é citado na recomendação nº 1, no ponto c, no qual afirma que : [...] um objetivo fundamental da educação ambiental é lograr que os indivíduos e a coletividade compreendam a natureza complexa do meio ambiente natural e do meio ambiente criado pelo homem, resultante da integração de seus aspectos [...] e adquiram os conhecimentos, os valores, os comportamentos e a habilidades práticas para participar responsável e eficazmente da prevenção e solução dos problemas ambientais, e da gestão da questão da qualidade do meio ambiente (UNESCO, 1978). Percebe-se aqui uma noção importante sobre meio ambiente: a Educação Ambiental deve criar nas pessoas sentimentos de interação com o próprio meio ambiente, para que se sintam parte deste e, portanto, co-responsáveis pela sua proteção. Muito se fala hoje sobre Educação Ambiental e sobre projetos de Educação Ambiental, mas, na maioria das vezes, são apenas atividades sobre e no ambiente. Só podemos falar de Educação Ambiental quando existe a componente para, ou seja, quando entre as finalidades do programa se encontram a melhoria e a conservação do ambiente, a conscientização e mudanças de comportamento. É esta transformação que a Educação Ambiental deve promover conforme as recomendações da conferência de Tbilisi. Uma quarta importante Conferência relacionada com o meio ambiente foi o Congresso Internacional sobre Educação e Formação Ambientais, que ocorreu dez anos depois da Conferência de Tbilisi, na qual 300 especialistas de cem países reuniram-se em Moscou no ano de 1987. Em sua primeira parte, a Conferência apresentou algumas necessidades e prioridades do desenvolvimento da Educação e Formação Ambiental, resultantes da implantação de experiências desenvolvida desde a Conferência de Tbilisi. Em sua segunda parte destacou elementos para uma estratégia internacional de ação para a década de 90. Ressalta-se a necessidade de fortalecer as grandes orientações formuladas pela Conferência de Tbilisi, adaptando-as às novas problemáticas, mediante o fomento da investigação e a aplicação de modelos eficazes de educação, formação e informação em matéria de meio 30 ambiente; da conscientização generalizada das causas e efeitos dos problemas ambientais; do reconhecimento da necessidade de adotar um enfoque integrado para resolver os problemas ambientais; da formação em diferentes níveis, dos recursos humanos necessários para uma gestão racional do meio ambiente, com a perspectiva de um desenvolvimento auto-sustentado nos níveis comunitários, nacional, regional e internacional. Uma quinta Conferência importante, mais relacionada com a proteção ambiental num contexto mais amplo, foi a II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, também conhecida por ECO-92, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro em 1992. Nesta Conferência Mundial para o Meio Ambiente e Desenvolvimento foi apresentado o documento Estratégia Global para a Biodiversidade, elaborado pelo World Resources Institute (Instituto de , dos EUA, e pela União Mundial para a Natureza, da Suíça. O documento contém 85 propostas para a preservação da diversidade biológica no planeta e um plano para o uso sustentado de recursos biológicos, foi aprovado pelo Programa de Meio Ambiente da ONU e pelas Organizações Não-Governamentais (ONGs) que participaram do Fórum Global. Cabe destacar a Jornada Internacional de Educação Ambiental, como um dos vários eventos que ocorreram paralelamente a esta Conferência no Rio de Janeiro. Seu conteúdo contido na publicação da Coordenação de Educação Ambiental da Secretaria de Meio Ambiente, conforme expressado por Pedrini (1997), enriqueceu os outros tratados já existentes, diferindo dos outros por ter sido formulado e aprovado por pessoas comuns e ser fruto de calorosas discussões entre educadores. Sem dúvida, é um dos muitos documentos importantes relacionados com a Educação Ambiental. Observa-se a evolução das concepções ambientais sofridas ao longo dos últimos anos. Num primeiro momento, a idéia de conservação do ambiente possuía um viés estético. Já nos anos sessenta, a proteção ao ambiente vinculava-se à qualidade de vida, tendo como princípio, o bem estar das pessoas. Atualmente, a preservação da natureza, tem um valor de cunho social, aliado a um desenvolvimento menos abusivo, que gere menos conflitos ambientais. A partir de 1990 mudanças significativas no debate internacional sobre os problemas ambientais passariam a ser vislumbradas no cenário mundial. A ECO-92 constituiu-se um fator importante para a institucionalização da problemática ambiental. Apesar de todos os esforços e boas intenções os resultados desta conferência foram aquém dos almejados pelos organismos proponentes. A noção de um desenvolvimento econômico aliado à proteção do 31 ambiente perdeu gradualmente o caráter totalizante que o havia marcado desde os primeiros momentos, e se tornou deliberadamente vago e contraditório. O debate internacional, iniciado em Estocolmo, 20 anos antes da ECO-92, transcendeu a perspectiva tecnocrática até então realizada no tratamento da crise ambiental. Para todos, ou pelo menos, para uma maioria dos presentes nessa reunião em terras cariocas, ficou evidente a ingenuidade da crença de que os avanços do conhecimento científico seriam suficientes para permitir o surgimento de um estilo sustentável de desenvolvimento que não fosse aliado a mudanças significativas na maneira de viver e de se conviver com a cadeia produtiva e proteção ao ambiente. Por fim, uma sexta reunião relacionada com a Educação Ambiental, foi a ocorrida em Tessalônica, no ano de 1997. O documento resultante da Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade reforçou os temas levantados na ECO-92 e chamou a atenção para a necessidade de se “articularem ações de Educação Ambiental baseadas nos conceitos de ética e sustentabilidade, identidade cultural e diversidade, mobilização e participação, além das práticas interdisciplinares” (SORRENTINO, 1998 apud JACOBI, 2003). Os objetivos da Conferência de Tessalônica frisaram o papel crítico da Educação Ambiental e sua contribuição na sociedade moderna para a mobilização de ações voltadas para a conscientização das pessoas visando à sustentabilidade. Atenderam a seis aspectos principais: (1) Educação para sustentabilidade através de um consenso internacional como estímulo para as ações; (2) Reorientação da educação formal com relação as ações sustentáveis; (3) Conscientização e entendimento da problemática ambiental pela sociedade; (4) Sensibilização da população para estilos de vida menos agressivos ao ambiente; (5) Investimentos na educação para a construção de um futuro sustentável e (6) Ética, cultura e equidade visando a sustentabilidade. 2.2 DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E A EDUCAÇÃO AMBIENTAL O conceito de desenvolvimento sustentável foi e tem sido objeto de controvérsias, pois até recentemente, via-se desenvolvimento e crescimento econômico como sinônimos, o que a na prática evidencia-se opostamente, pois uma nação pode crescer economicamente sem realizar um efetivo desenvolvimento interno, especialmente relacionado com questões sociais e ambientais. 32 Os fatores materiais e os indicadores econômicos, podem se relacionar com a ampliação do horizonte social e cultural da vida das pessoas. A questão material do processo de desenvolvimento é importante, mas deve ser considerada como um meio e não como um fim em si. Reconhece-se que a capacidade produtiva conduz, via de regra, a uma melhoria da qualidade de vida em comum. E como se discute a complicada relação entre desenvolvimento econômico e meio ambiente? A incorporação do marco ecológico nas questões econômicas e sociopolíticas tem na construção do conceito de desenvolvimento sustentável um referencial que assume notória visibilidade, colocando o desenvolvimento como uma maneira de modificar a natureza contrapondo-se tanto os objetivos de atender às necessidades humanas como também seus impactos, e dentre os quais, aqueles que afetam a base ecológica. Tal incorporação do marco ecológico nas decisões econômicas e políticas implicam reconhecimento referente aos resultados prejudiciais, ecologicamente falando, do modo como a sociedade utiliza os recursos do planeta, mediante o modelo de desenvolvimento adotado na maioria dos países. Tem se explicado essas questões pela crise que afeta o planeta, que “configura o esgotamento de um estilo de desenvolvimento ecologicamente predador, socialmente perverso, politicamente injusto, culturalmente alienado e eticamente repulsivo”. Apesar de certo consenso, o “desenvolvimento sustentável” tem se convertido num conceito plural que se expressa em diferentes concepções e entendimento do verdadeiro significado da sustentabilidade (GUIMARAES apud JACOBI, 2005, p. 235) Existem várias tensões entre desenvolvimento e conservação ambiental das quais destaca-se o forte viés economicista como um dos fatores de questionamento das organizações e grupos de proteção do meio ambiente que assinalam as enormes diferenças de significados e abordagens do chamado desenvolvimento sustentável. Nos anos de 1970, o conceito de desenvolvimento sustentável aparece sob diferentes denominações, buscando-se um consenso e sua institucionalização. Objetivou-se com isso elevar a problemática ambiental a um plano de visibilidade na agenda política internacional fazendo com que o tema meio ambiente fosse melhor discutido. Em 1973, utilizou-se pela primeira vez o termo ecodesenvolvimento, que caracterizava uma concepção alternativa de desenvolvimento econômico até então praticado, sendo que os princípios inerentes neste conceito integraram-se à chamada Comissão Brundtland, 14 anos mais tarde. Os pressupostos baseavam-se em cinco dimensões, a saber: (1) a sustentabilidade social, (2) a sustentabilidade econômica, (3) a sustentabilidade ecológica, (4) a 33 sustentabilidade espacial e (5) a sustentabilidade cultural (LAYRARGUES, 1997; JACOBI, 2007). Em 1987, a Comissão Brundtland elaborou e projetou o conceito de desenvolvimento sustentável, convenientemente sem sentido, visto que foi baseado num conjunto vago de análises e recomendações, apresentando-se mais como um documento político do que um tratado científico sobre os problemas ambientais existentes no planeta. Dessa forma, o relatório recebeu críticas dos mais variados setores, mesmo por parte daqueles que enfatizavam a importância desta iniciativa. O movimento “desenvolvimento sustentável não foi capaz de desenvolver um conjunto de conceitos, critérios e políticas coerentes ou consistentes tanto do ponto de vista interno como o da realidade social e física” (LELE apud JACOBI, 2005, p. 238). Apesar das diversas críticas, o termo desenvolvimento sustentável, ou simplesmente sustentabilidade, se tornou quase que universalmente aceito, embora reúna sob si posições teóricas e políticas contraditórias e até mesmo opostas. A institucionalização da noção de desenvolvimento sustentável sempre esteve permeada por diversas interpretações, além de servir como instrumento de ancoragem da política ambiental mundial, por meio das agências internacionais, mais notadamente, as Nações Unidas. O desenvolvimento sustentável, em um sentido mais abrangente, remete à necessária redefinição das relações entre sociedade e ambiente, e, desta forma, a uma mudança substancial do próprio processo da civilização e sistemas financeiros em vigor. Entretanto, a falta de especificidade e as pretensões desejadas têm tornado este conceito difícil de ser classificado em modelos mais concretos e precisos. Por isso, afirma-se que ainda não se constitui num paradigma, no sentido clássico do conceito, mas sim numa perspectiva que abrange princípios que devem ser seguidos. Desta forma, a noção de sustentabilidade deriva da premissa de que é preciso determinar limites bem definidos nas possibilidades de crescimento e um conjunto de iniciativas que levem em conta a existência de outros agentes sociais relevantes e ativos, através de práticas educativas e diálogo, reforçando o sentimento de co-responsabilidade para a construção dos valores éticos. A ECO- 92 caracterizou-se como ponto alto do projeto de institucionalização e de uma nova estrutura teórica e política do debate em torno da problemática ambiental. A sustentabilidade transformou-se no carro-chefe do paradigma de desenvolvimento dos anos de 90. O termo desenvolvimento sustentável passou a ser usado tão amplamente e com sentidos 34 tão diferentes que se tornou uma palavra que pode servir a várias correntes. Duas correntes interpretativas se sobressaem ao longo deste processo. A primeira evidencia-se por seu caráter econômico e técnico-científico, propondo a articulação do crescimento econômico e a preservação do meio ambiente. Esta abordagem influencia mudanças no desenvolvimento econômico instituído pelas nações, especialmente as chamadas de primeiro mundo. A segunda relaciona-se com a crítica ambientalista ao modo de vida atual, e que passou a ser mais difundido a partir da Conferência de Estocolmo em 1972, momento no qual a questão ambiental ganhou visibilidade pública internacional. O paradigma do caminho do desenvolvimento sustentável tinha como proposta um desenvolvimento que harmonizasse os objetivos econômicos, sociais e ambientais. Nota-se que tem ocorrido uma crescente confluência dessas duas vertentes, economicista e ambientalista, principalmente pelo fato do avanço da crise ambiental e aprofundamento dos problemas econômicos e sociais para a maioria dos países. A constante degradação do ambiente e o crescimento da desigualdade têm assumido um lugar de destaque na discussão mundial o que reforça a importância de se adotarem esquemas integradores. Hoje se torna mais explícita a articulação dessas duas correntes para a compreensão da crise de dimensões globais. Articulam-se, de um lado, os impactos da crise econômica e a necessidade de se repensarem os atuais paradigmas; e, de outro, o alarme dado pelo próprio planeta através de fenômenos naturais como o aquecimento global, a destruição da camada de ozônio, dentre outros problemas. Desta forma, o que se observa são o agravamento dos problemas sociais e o aprofundamento da distância entre os países pobres e os industrializados, ou, os chamados países de terceiro e primeiro mundo, através das diversas manifestações da crise ambiental, relacionadas diretamente com os padrões de produção industrial e de consumo prevalecentes atualmente. Sabe-se que os princípios de proteção ambiental, os mesmos tão discutidos em todas as reuniões internacionais nos últimos quarenta anos e do tão desejado “desenvolvimento sustentável” continuam a ser taxados como um entrave para o crescimento econômico, e os resultados não poderiam ser diferentes: a degradação da qualidade do ambiente nas grandes cidades dos países do terceiro mundo, a perda de biodiversidade dos ecossistemas e a redução dos recursos não renováveis, como o petróleo e outros mais. Portanto percebe-se que a atual situação, corroborada pelos constantes estudos científicos, indicam que os ecossistemas continuam sofrendo com o impacto dos padrões insustentáveis de produção, e, mesmo de 35 urbanização. Acrescente-se ao fato de que durante a última década, diversos países aumentaram sua vulnerabilidade a uma série mais intensa e frequente de fenômenos tornando os sistemas ecológicos e sociais muito mais sensíveis e frágeis, gerando insegurança e incertezas ambientais, econômicas e sociais. Sobressai ainda desejado progresso, o qual minimiza as questões ambientais, seja na prática como na teoria. A problemática ambiental tornou-se um tema muito favorável para o aprofundamento da reflexão e da prática em torno do impacto das ações de resistência e de expressão das demandas das sociedades residentes nas áreas mais atingidas pelos crescentes agravos ambientais. Representou, até certa maneira, a possibilidade de abertura dos espaços para implementação das alternativas diversificadas de participação social, da garantia do acesso à informação e da consolidação de canais de expressão, que se mostrem abertos a todos. Assim, percebe-se que a desinformação e a falta de consciência ambiental, geradoras de um déficit nas práticas comunitárias ancoradas na participação e no envolvimento dos cidadãos, são fomentadas por uma postura de dependência de outros setores e da não responsabilização da população perante seus atos e decisões diárias impactantes ao meio ambiente. As práticas educacionais ambientais devem apontar para propostas pedagógicas direcionadas para mudança de hábitos, atitudes e práticas sociais, desenvolvimento de competências, capacidade de avaliação e participação dos educandos. Isto desafia a sociedade na elaboração de novas epistemologias que possibilitem uma reforma do pensamento e da maneira de agir de toda a população. Este novo contexto do conhecimento do qual emergem as novas epistemologias socioambientais, representa a busca da (re) união do conhecimento, ambiente e a sociedade, que gerararia uma nova racionalidade ambiental, capaz de subverter a ordem imperante entre as lógicas de vida e o destino das sociedades. Assim, o conceito de meio ambiente situa-se numa categoria não apenas biológica, mas constitui “uma racionalidade social, configurada por comportamentos, valores e saberes, como também por novos potenciais produtivos”. A Educação Ambiental busca uma mudança na percepção e nos valores humanos, orientando de maneira decisiva a formação cognitiva das atuais gerações, para gerar um pensamento complexo e aberto capaz de (re) construir, num processo contínuo, novas possibilidades de ação voltadas para proteção e conscientização ambiental (LEFF, apud JACOBI, 2005. p. 241). 36 2.3 EDUCAÇÃO AMBIENTAL NO BRASIL No Brasil, foi a partir da década de 1970 que iniciou-se o processo de mudanças no entendimento dos conceitos da educação ambiental e do chamado desenvolvimento sustentável, dando origem às diferentes denominações e conceitos, as quais tentavam chegar a um consenso e institucionalização. Questões político-econômicas internas e externas revelaram motivos para as crescentes mudanças e renovados entendimentos dos conceitos de meio ambiente. Torna-se importante esclarecer um pouco mais esses conceitos e seu histórico, pois servirão de base para o entendimento de como se deu o amadurecimento da Educação Ambiental no Brasil num sentido mais amplo. Nos anos de 1970, o Brasil vivia sob o regime militar, sendo este chamado por alguns de Estado “autoritário-burocrático”10. Esta ditadura militar ficou marcada por sua posição autoritária, pois estabeleceu eleições indiretas para presidente, dissolveu os partidos políticos, cassou vários parlamentares federais e estaduais. Além disso, cidadãos tiveram seus direitos políticos e constitucionais cancelados e os sindicatos receberam intervenção militar, dentre outras ações de severa brutalidade. Na área econômica o país crescia rapidamente. Este período ficou conhecido com a época do “Milagre Econômico”, apesar das altas taxas de inflação. Dentre outras ações adotadas em seu programa de governo estavam também o discurso sobre a modernização, a segurança nacional e o desenvolvimento a qualquer custo, que foi pautado pela ideologia tecnocrática e capitalista concebida por economistas vinculados aos militares. No âmbito da educação, a política do regime militar foi pautada: [...] pela repressão, [visto que] o Estado editou políticas e práticas que, em linhas gerais, redundaram no tecnicismo; na expansão quantitativa da escola pública de 1º e 2º graus às custas do rebaixamento da sua qualidade; no cerceamento e controle das atividades acadêmicas no interior das universidades; e na expansão da iniciativa privada no ensino superior (...) Sob uma ditadura que perseguiu, prendeu, torturou e matou opositores, a escola foi um dos meios mais eficazes de difusão da ideologia que respaldou o regime militar. ( FERREIRA JR; BITTAR, p. 1161, 2006). 10 Segundo Guillermo O´Donnell tal expressão foi cunhada, dentre muitos motivos, pelo fato dos regimes políticos militares tentarem despolitizar o tratamento das questões sociais, fechando os canais e critérios de participação popular e de classe, e por promoverem a internacionalização da estrutura produtiva em seus países (O´DONNELL, 1976, apud NOVICKI, 1988, p. 34,35). 37 Nesse clima de liberdades restritas, nem a crítica nem o debate político prosperavam. A própria abordagem da questão ambiental sofria influências conservadoras. Observava-se, assim, a desarticulação da dimensão da educação geral em relação à Educação Ambiental – e consequentemente - as questões socioambientais nesse período. Em 1973, timidamente e mais por forças de políticas externas, como as expressas nas Recomendações da Conferência de Estocolmo, da qual o Brasil era signatário, inicia-se o processo de institucionalização da Educação Ambiental em âmbito governamental. Isto se deu com a criação da Secretaria Especial do Meio Ambiente (SEMA) pelo Decreto Nº 73.030 (BRASIL, 2008). A SEMA estabeleceu, como parte de suas atribuições, realizar um esclarecimento para a educação do povo brasileiro, visando a conscientização sobre o uso adequado dos recursos naturais, tendo em vista a conservação do ambiente, responsabilizando-se pela capacitação de pessoal e sensibilização inicial da sociedade para as questões ambientais. Tal iniciativa, porém, caracterizou-se como uma educação meramente conservacionista, não incluindo as questões socioambientais. As Conferências internacionais, como as que ocorreram em Estocolmo (1972), Belgrado (1975) e Tbilisi (1977) relacionaram as questões de meio ambiente, desenvolvimento e sociedade, identificando os principais instrumentos de mudanças de paradigmas para a Educação Ambiental e temas relacionados as questões ambientais. Em 1979, apenas dois anos após Tbilisi, o MEC publicou um documento denominado “Ecologia – uma proposta para o ensino do 1º e 2º graus”, em que foi apresentada uma visão reducionista (conservacionista) de meio ambiente condicionando a Educação Ambiental apenas ao ensino das ciências biológicas, de acordo com os interesses do capitalismo e processos de industrialização. Segundo Tanner (apud LAYRARGUES, 2000), a Educação Ambiental deve inserir o homem, em especial o urbano, no foco das discussões ambientais, promovendo uma maior articulação entre o mundo natural e o mundo social. Desta forma a Educação Ambiental Crítica deve transcender a perspectiva da abordagem de conteúdos biologizantes das ciências naturais para então englobar os aspectos socioeconômicos, políticos e culturais das ciências sociais e humanas. Entretanto, no documento “Ecologia – uma proposta para o ensino do 1º e 2º graus” foram desconsiderados os aspectos socioambientais, indutores de uma visão crítica para o homem, através de atitudes e ações voltadas para mudanças, solução dos problemas e conflitos ambientais e sociais. A Educação Ambiental foi inserida nos “[...] setores governamentais e científicos vinculados à conservação dos bens naturais, com forte sentido 38 comportamentalista, tecnicista e voltada para o ensino de ecologia e para a resolução de problemas” (LIMA, 2009, p.149), evidenciando uma forte desarticulação da educação em geral com a Educação Ambiental em sua visão socioambiental. 2.3.1 Institucionalização da Educação Ambiental no Brasil Um dos principais passos para a institucionalização da Educação Ambiental no Brasil foi dado no âmbito legislativo, com o estabelecimento da Política Nacional de Meio Ambiente (PNMA), no ano de 1981, confirmando a necessidade de inserção da Educação Ambiental em todos os níveis de ensino, incluindo “a educação da comunidade, com o objetivo de capacitar para a participação ativa na defesa do meio ambiente, evidenciando a capilaridade que se desejava imprimir a essa prática pedagógica no país” (BRASIL, 2005, p. 22). Porém, nota-se no teor dessa lei, que ainda era preconizada uma visão reducionista, enfocada apenas em questões físicas, químicas e biológicas, visto que o meio ambiente, conceito base para toda atividade de Educação Ambiental, fora definido apenas como “[...] o conjunto de condições, leis, influências e interações de ordem física, química e biológica, que permite, abriga e rege a vida em todas as suas formas [...]”, sem incluir as dimensões: social, política, cultural e mesmo a econômica (BRASIL, 1981, Art.3º). Desta forma somente em anos recentes foi rompida a visível desarticulação entre a dimensão mais ampla da política educacional e a tratada na Educação Ambiental, quando no ano de 1987 o Brasil finalmente reconheceu as premissas da educação ambiental acordadas na Conferência de Tbilisi, com a aprovação, pelo Conselho Federal de Educação, do parecer 226 de 11 de março de 1987, que ratificou a necessidade da inclusão da Educação Ambiental dentro dos conteúdos das propostas curriculares das escolas de 1º e 2º graus, e sugeriu a criação de centros de Educação Ambiental. No ano seguinte, as questões relacionadas ao meio ambiente também foram abordadas na Constituição Federal (CF) de 1988, não somente contemplando seu conceito normativo, ligado ao meio ambiente natural, mas também reconhecendo suas outras faces: o meio ambiente artificial, o meio ambiente do trabalho, o meio ambiente cultural e o patrimônio genético, também tratados em diversos outros artigos da Constituição. Ampliava-se assim no Brasil o entendimento, já consolidado mundo a fora, sobre a Educação Ambiental Crítica. O Artigo 225 exerce o papel de principal norteador do meio ambiente, devido a seu complexo teor de direitos, mensurado pela obrigação do Estado e da Sociedade na garantia de 39 um meio ambiente ecologicamente equilibrado, já que se trata de um bem de uso comum que deve ser preservado e mantido para as presentes e futuras gerações. Em seu inciso VI do mesmo artigo 225, ratifica também a necessidade de se “[...] promover a educação ambiental em todos os níveis de ensino e a conscientização pública para a preservação do meio ambiente [...]”. A CF faz o embasamento para o aprofundamento das questões socioambientais no início do seu texto ao tratar da cidadania e direitos dos brasileiros (BRASIL, 2005, p. 22). Em seu primeiro artigo, e, diga-se de passagem, pela primeira vez na história do país, a CF explicita a base do Estado brasileiro ao elencar os direitos civis, políticos e sociais dos cidadãos, quando diz que o Brasil “[...] constitui-se em Estado democrático de direito e tem como fundamentos: [1] a soberania; [2] a cidadania; [3] a dignidade da pessoa humana; [4] os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa e [5] o pluralismo político” (BRASIL, 1988, Art.1º). É verdade que tais fundamentos e princípios estão longe de ser exatamente a expressão da realidade atual, e correspondem muito mais a metas e planos ainda a serem atingidos, pois reconhece-se a distância entre as leis e a sua aplicação, e do mesmo modo entre a consciência e o exercício dos direitos por parte dos cidadãos. Porém, a Carta Magna não poderia deixar de explicitar tais objetivos a serem alcançados dentro da sociedade atual. Todos os direitos conquistados até o momento, desde os civis, políticos, até as conquistas nas áreas sociais não ocorreram automaticamente, mas a duras penas, através de processos de lutas – árduas e longas. A Constituição Federal destaca no seu artigo 227 o dever da família, da sociedade e do estado em “[...] assegurar à criança e ao adolescente, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer e à profissionalização [...]” (BRASIL, 1988, Art. 227). Esta aborda também os direitos dos cidadãos, os quais são base para mudanças na legislação educacional no país, relacionadas inclusive às questões socioambientais, conforme ainda veremos à frente. Segundo a visão da legislação constitucional, a cidadania seria o produto de histórias vividas pelos grupos sociais, constituindo-se nesse processo por diferentes tipos de direitos e instituições. Assim, os princípios constitucionais e a legislação daí decorrente, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, Estatuto dos idosos, dentre outros, tornaram-se instrumentos que orientam e legitimam a busca pela transformação da realidade. Portanto, quando se discute a cidadania do Brasil atual, e em consequência a dimensão socioambiental, aponta-se para a necessidade de transformação das relações sociais nas dimensões política/econômica/cultural, garantindo a todos a efetivação do direito de serem 40 cidadãos. No âmbito da educação, estes são fundamentos que permitem uma análise mais detida, envolvida nas ações pessoais, coletivas e políticas na direção da democracia, pois a Educação Ambiental possui uma relação direta com o exercício da cidadania demonstrando seu compromisso com a formação da cultura democrática. A cidadania baseia-se na “[...] consciência do cidadão como pertencente a uma coletividade, antepondo-se esse dado a qualquer interesse individual que porventura exista, decorrendo daí a constatação de uma maior importância ao educador ambiental” (LEONARDI, 1997 apud LAYRARGUES, 2000, p. 2, 3). 2.3.2 Educação Ambiental na Educação Brasileira Em seu artigo 22º, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB/96) a fim de evitar uma interpretação reducionista e dualista entre cidadania e trabalho, acrescenta que é próprio de uma educação que visa à formação de cidadãos e não somente de trabalhadores, enfatizar tanto o trabalho quanto o prosseguimento dos estudos posteriores. Compreende-se a educação como um direito do cidadão e um dever do Estado em atendê-lo visando à formação de cidadãos ativos que ocupem um lugar no mercado. Para Jacobi (2005, p. 243), “[...] as práticas educacionais inseridas na interface dos problemas socioambientais devem ser compreendidas como parte do macrossistema social [...] que condiciona sua direção pedagógica e política”. A Educação Ambiental vista num contexto mais amplo se torna dessa maneira uma educação para a cidadania configurando-se como elemento determinante para a consolidação da formação de sujeitos cidadãos (CURY, 2002; GRACINDO, 2008) Como proposta do MEC para uma educação comprometida com esta cidadania e com o desenvolvimento das capacidades de intervenção na realidade em 1997, foram criados os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), segundo os quais, os projetos pedagógicos deveriam ser orientados por três grandes diretrizes que devem (1) posicionar as escolas em relação às questões sociais, interpretando a tarefa da educação como uma possibilidade de intervenção na realidade do presente; (2) não tratar os valores apenas como conceitos ideais e (3) inserir essa perspectiva no ensino dos conteúdos das áreas do conhecimento escolar (BRASIL, 1997 c) Ainda segundo os PCN, os princípios que devem reger a educação escolar são a (1) dignidade da pessoa humana, (2) a igualdade de direitos, (3) a participação e (4) a coresponsabilidade pela vida social. “A relação educativa é uma relação política, por isso a 41 questão da democracia se apresenta para a escola da mesma forma que se apresenta para a sociedade” (BRASIL, 1997 c, p.23). O conjunto de temas dos PCN envolvem a Ética, Meio Ambiente, Pluralidade Cultural, Saúde e Orientação Sexual e estes receberam o título geral de Temas Transversais, indicando a metodologia proposta para sua inclusão no currículo e seu tratamento didático: [...] a transversalidade implica que os conteúdos dos Temas Transversais sejam contemplados pelas áreas e não configurem um aprendizado à parte delas. Com isso buscou-se garantir que cada tema seja compreendido integralmente, isto é, desde sua fundamentação teórica até sua tradução em elementos curriculares. Por um lado, para possibilitar que as equipes pedagógicas façam novas conexões entre eles e as áreas e/ou outros temas; por outro lado, porque o trabalho didático com as áreas não é suficiente para cobrir toda a demanda dos Temas Transversais (BRASIL, 1997 c, p. 35). Seguindo essa mesma metodologia, a Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), instituída pela Lei n° 9.795 no ano de 1999, também preconiza a aplicação transversal da temática ambiental. Ela define por Educação Ambiental todos os “processos por meio dos quais o indivíduo e a coletividade constroem valores sociais, conhecimentos, habilidades, atitudes e competências voltadas para a conservação do meio ambiente” (BRASIL, 1999, art. 1º) As Legislações, as Conferências Internacionais e a Política Nacional de Educação Ambiental, determinam a abordagem transversal da temática ambiental, através de uma concepção de meio ambiente que englobe o ser humano. Na escola, tudo isso deve ser realizado em um contexto de gestão democrática da educação, com a participação dos professores, alunos e sociedade no processo decisório, contextualizando os problemas locais, o que lança desafios aos sistemas de ensino, à gestão escolar e aos professores. Segundo o MEC, os currículos de Cursos Técnicos na área profissional de Meio Ambiente, de um modo geral, não tem correspondido às características, necessidades e anseios da sociedade, pois aplicam um “[...] modelo pedagógico centrado num desenho curricular por disciplina e estrutura desarticulada apesar dos esforços de planejamento integrado na aula tradicional [...]” (BRASIL, 2000, p. 18). Desta forma, percebe-se que mediante as recomendações da Constituição Federal Brasileira, a Política Nacional de Educação Ambiental, os Parâmetros Curriculares Nacionais com o tema Meio Ambiente e os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico para os cursos Técnicos em Meio Ambiente, são apresentados enormes desafios a gestão educacional para que sejam adotados “desenhos curriculares e alternativas metodológicas inovadoras, dinâmicas que substituam o modelo centrado nas aulas tradicionais” e que desta forma as 42 escolas consigam trabalhar a temática ambiental em um caráter transversal (BRASIL, 2000, p. 18). Como visto, a Educação Ambiental deve permear toda prática educacional na busca de uma ação reflexiva e crítica da realidade, e como tema transversal, deve possibilitar a formação de várias situações desejadas, como a responsabilidade, solidariedade e respeito pela vida e outros. Dentro de uma visão interdisciplinar do conhecimento, a EA objetiva a consolidação da cidadania a partir de conteúdos vinculados ao cotidiano e aos interesses da sociedade (LUCAS, et al, 2007). Um dos grandes desafios para os educadores ambientais é o de resgatar e desenvolver valores e comportamentos como a responsabilidade, solidariedade e a iniciativa. No âmbito escolar, o objetivo da Educação Ambiental é o de sensibilizar alunos e professores para que haja uma participação mais consciente no contexto da sociedade, o questionamento de comportamentos, atitudes e valores, propondo novas práticas pedagógicas para estimular uma visão global e crítica das questões ambientais e promoção de um enfoque interdisciplinar que resgate e construa saberes (JACOBI, 2005). Sabe-se que a educação está diretamente relacionada com a produção de sentidos e de valores, porém, deixa-se claro que a formação de valores sustentáveis não depende somente da escola, mas sim de um conjunto de ações: quer sejam sociais, políticas, econômicas ou ambientais, conduzindo na direção de uma sociedade mais justa, econômica e ecologicamente eficaz. A Educação Ambiental Crítica se destaca pela concepção dialética de educação, sendo vista como atividade social de aprimoramento pela aprendizagem e pelo agir, vinculados aos processos de transformação da sociedade capitalista (LOUREIRO, 2004b). Cabe enfatizar que, embora se acredite que a Educação Ambiental possa contribuir para amenizar os problemas socioambientais, não deve ser considerada como o único instrumento de mudanças políticas, econômicas ou culturais, e que para muitos autores, é denominado como “utopismo pedagógico”. Entende-se que a Educação Ambiental pode e deve ser um dos catalisadores para o enfrentamento desses desafios, mas não a “panacéia” milagrosa dos problemas socioambientais que afligem a sociedade (ORSI e BONOTTO, 2009). É necessário ainda ressaltar que a Educação Ambiental está longe de ser uma atividade tranquilamente aceita e desenvolvida, porque ela exige mobilização por melhorias profundas do ambiente, mudanças de comportamento pessoal e coletivo, bem como atitudes e valores visando à formação do homem/cidadão (BRASIL, 1997 c). 43 Ao incorporar a perspectiva dos sujeitos sociais, a Educação Ambiental estabelece uma prática pedagógica contextualizada e crítica que reafirma a importância “[...] de uma abordagem ambientalista e pedagógica emancipatória, voltada para o exercício da cidadania na problematização e transformação das condições de vida e na ressignificação de nossa inserção no ambiente” (LOUREIRO, 2004 a). Desta forma a Educação Ambiental revela-se como uma proposta que desenvolve: [...] o processo educativo, contemplando tanto o conhecimento científico como os aspectos subjetivos da vida, que incluem as representações sociais, assim como o imaginário acerca da natureza e da relação do ser humano com ela. Isso significa trabalhar os vínculos de identidade com o entorno socioambiental. Só quando se inclui também a sensibilidade, a emoção, sentimentos e energias se obtêm mudanças significativas de comportamento. Nessa concepção, a educação ambiental é algo essencialmente oposto ao adestramento ou à simples transmissão de conhecimentos científicos, constituindo-se num espaço de troca desses conhecimentos, de experiências, de sentimentos e energia. É preciso então lidar com algo que nem sempre é fácil, na escola: o prazer (BRASIL, 1997 c, p. 182). Na realização desse tipo de Educação Ambiental, crítica e emancipatória, capaz de motivar e direcionar planos e ações individuais e coletivas, faz-se necessário o envolvimento efetivo e afetivo das partes envolvidas, pois o fator motivação em geral não acontece de forma espontânea e automática. O simples reconhecimento da gravidade dos problemas ambientais, resultante das informações obtidas de diversas interações externas e processos educativos, não se mostram suficiente para a construção da sustentabilidade socioambiental. Infelizmente, o que ainda se percebe no espaço escolar é a concepção restrita do ensino voltado apenas para percepção da gravidade dos problemas ambientais e suas consequências para o meio ambiente. E apenas a constatação da crise ambiental, baseada em uma visão reducionista, tecnicista e “biologizante” desse tema no currículo escolar, não se mostrou suficiente para um tipo de Educação Ambiental capaz de contribuir para a intervenção do processo de transformações socioambientais (TREIN, 2008; PEREIRA et al., 2007; TOZONI-REIS, 2006; BRASIL, 2008). Embora se saiba que a escola não é o único agente educativo e que existam outras fontes externas ao espaço escolar que exercem forte influência sobre os adolescentes e jovens, a grande tarefa da escola é proporcionar um ambiente escolar saudável e coerente com aquilo que ela pretende que seus alunos apreendam, para que possa, de fato, “[...] contribuir para a formação da identidade como cidadãos conscientes de suas responsabilidades com o meio 44 ambiente e capazes de atitudes de proteção e melhoria em relação a ele”. (BRASIL, 1997 c, p. 187). Dentre outras tarefas importantes, a escola e os docentes devem estar preparados para utilização da temática ambiental como modelo pedagógico em sua grade curricular. Segundo o documento “A Declaração de Brasília para a Educação Ambiental11”, um dos principais problemas relacionados à utilização da Educação Ambiental no espaço escolar está relacionado com a prática pedagógica de ensino adotada nas instituições educacionais, pois: [...] o modelo de educação vigente nas escolas e universidades responde a posturas derivadas do paradigma positivista e da pedagogia tecnicista que postulam um sistema de ensino fragmentado em disciplinas, o que se constitui um empecilho para a implementação de modelos de educação ambiental integrados e interdisciplinares (BRASIL, 1997 a, p. 21-2). Isto se dá pelo fato de as escolas não estarem preparadas para uma estrutura pedagógica que trate o ensino de forma interdisciplinar12. Segundo Tozoni-Reis (BRASIL, 2008) observou, no ensino superior, por exemplo, pouco se tem realizado para se introduzir efetivamente nos cursos de Licenciatura o tema meio ambiente na formação dos futuros educadores. Por não haver uma cultura de tratamento interdisciplinar, nem na formação inicial dos docentes, nem no dia-a-dia da vida escolar, o tratamento transversal da temática ambiental se mostra pouco explorado e trabalhado nas escolas. Isso não significa que não existam experiências de desenvolvimento profissional de docentes introduzindo uma cultura que vise à transformação das práticas escolares através da transversalidade interdisciplinaridade, mas estas iniciativas esbarram na “[...] estrutura estática e burocrática das escolas”. Apesar disso, inúmeras experiências “têm demonstrado que é possível, na construção coletiva do projeto político-pedagógico das escolas, sob uma perspectiva que integra teoria e prática, realizar atividades de cunho interdisciplinar” (BRASIL, 2001, p.43-44; BRASIL, 2008, p.45). O texto dos Parâmetros Curriculares Nacionais reitera que o ensino de Educação Ambiental deve considerar as esferas locais e mundiais para a compreensão e tratamento 11 A Declaração de Brasília para a Educação Ambiental constitui a síntese de uma construção coletiva que, resgatando o saber acumulado depois de 20 anos de Tbilisi, reafirmou a educação ambiental como o espaço de criação da ecocidadania. Resultado de um processo participativo que culminou com a realização da I Conferência Nacional de Educação Ambiental. Governo e entidades da sociedade civil criaram um marco de referência para a concepção de políticas e a criação de instrumentos dirigidos para a construção de uma nova ética ambiental. 12 A Educação Ambiental não é uma matéria suplementar que se soma aos programas existentes, exige a interdisciplinaridade, quer dizer uma cooperação entre as disciplinas tradicionais, indispensável para poder se perceber a complexidade dos problemas do meio ambiente e formular uma solução (GONZÁLEZ-GAUDIANO, 2005 apud PEREIRA, 2007). 45 crítico dos problemas socioambientais. Assim, os conteúdos de Educação Ambiental deveriam integrar-se no currículo escolar a partir de uma relação de transversalidade e interdisciplinaridade, impregnando a prática educativa, “[...] exigindo do professor uma readaptação dos conteúdos abordados na sua disciplina [...] reconhecendo a educação ambiental como uma temática a ser inserida no currículo de modo diferenciado, não se configurando como uma nova disciplina” (BRASIL, 2001, p.51). Quando a escola trabalha com essa visão mais ampliada, evita-se que o conhecimento se fragmente, integrando os conhecimentos e promovendo assim uma aprendizagem voltada para as transformações da realidade, conforme delineado nos Parâmetros Curriculares Nacionais. Entretanto, a maior dificuldade dos educadores está em como implementá-las. Na pesquisa apresentada nesse trabalho verificou-se a percepção dos alunos para com a temática da Educação Ambiental no Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II. Porém, antes da apresentação dos resultados da pesquisa, serão abordados aspectos importantes sobre a Educação Profissional no Brasil que possibilitará um entendimento mais ampliado dos cursos técnicos no Brasil e as competências profissionais por eles fornecidas (PEREIRA et al, 2007). 46 3. EDUCAÇÃO PROFISSIONAL: Histórico, Conflitos e Consensos O trabalho, como criador de valores de uso, como trabalho útil, é indispensável à existência do homem - quaisquer que sejam as formas de sociedade- é necessidade natural e terna de efetivar o intercâmbio material entre o homem e a natureza, e, portanto, de manter a vida humana. MARX. A concepção de trabalho expressada acima enfatiza um conceito sobre o homem e ambiente resultante das relações sociais adquiridas no decorrer da história. Diferentemente do animal, que é governado por seu instinto, e desta forma, não projetando sua existência, mas sim se adaptando e respondendo instintivamente ao meio em que habita, os seres humanos (re) criam pela ação consciente do trabalho sua própria existência. Um dos principais meios para se atingir esse objetivo é por meio da educação. A educação tem como objetivo fundamental o desenvolvimento humano integral com base em valores éticos, sociais, políticos, de modo a preservar a dignidade intrínseca do ser humano e a desenvolver ações junto à sociedade com base nos mesmos valores, levando a uma leitura atualizada do mundo baseado em suas questões econômicas, culturais e científicotecnológicas. O termo “Educação” é abrangente e acolhe diversas modalidades, culturas e formas das práticas pedagógicas quer sejam em caráter formal (escolar) quer informal. Já o termo “Ensino” refere-se ao específico, como ensino a distância, ensino supletivo, etc. Apesar das lacunas, muitos educadores entendem que ambos os termos podem ser adotados como sinônimos, o que será adotado nessa pesquisa ao se referir sobre educação e ensino profissional. Até o século XIX não há registros de iniciativas organizadas que hoje possam ser caracterizadas como pertencentes a educação profissional no Brasil. O que existia até aquele momento era a educação propedêutica para as elites, visando a formação de futuros dirigentes. Somente a partir de 1809, com a criação do Colégio das Fábricas, pelo Príncipe Regente, futuro D. João VI, é que aparecem os primeiros indícios do surgimento de ações focadas na criação da educação profissional (BRASIL, 2007 b). Durante todo o século XIX foram criadas várias instituições (como os Asilos da Infância dos Meninos Desvalidos) especialmente no âmbito da sociedade civil, voltadas para o ensino das primeiras letras e a iniciação em ofícios, cujos beneficiários eram as crianças pobres, os órfãos e os abandonados. 47 Dentro desse breve panorama, percebe-se que a educação profissional no Brasil tem a sua origem dentro de uma perspectiva assistencialista com o objetivo de amparar os mais carentes dentro da sociedade civil, ou seja, visando atender àqueles que não tinham condições sociais suficientes, a fim de que não viessem de encontro aos bons costumes e leis da época. Somente a partir do século XX ficou caracterizado um esforço público na organização da educação profissional, modificando a preocupação assistencialista para os menos abastados, para o da preparação de mão-de-obra para o exercício profissional propriamente dito (BRASIL, 2007 b). Um exemplo disso foi o que aconteceu no ano de 1909, quando o então o Presidente Nilo Peçanha criou as Escolas de Aprendizes Artífices, instalando dezenove delas, no ano de 1910, em vários estados do País. A criação das Escolas de Aprendizes Artífices e do ensino agrícola foi um grande passo ao redirecionamento da educação profissional no país, pois desta forma foi ampliado o horizonte de atuação para as necessidades crescentes dos empreendimentos nos campos da industrial e agrícola no Brasil. As décadas de 30 e 40 foram marcadas por grandes transformações políticas, econômicas e educacionais na sociedade brasileira. É nesse momento que no Brasil se fortalece a nova burguesia industrial em substituição às oligarquias cafeeiras, severamente afetadas pela crise da agricultura do café na década de 20 e pelo crash da bolsa de Nova Iorque, no ano de 1929 (BRASIL, 2007 b). A Constituição de 1937 revelou preocupação para com a educação profissional porém ainda evidenciava traços claros de descriminação social através das escolas. O texto oficial citava que o ensino pré-vocacional e profissional seria destinado às classes menos favorecidas, oficializando essa modalidade da educação como o ensino destinado aos mais pobres (ROMANELLI, 1991). A educação nacional passou a ser tratada de modo diferenciado a partir da primeira etapa dos anos 40, pois os processos de industrialização e modernização das relações de produção exigiram um posicionamento mais efetivo da camada dos dirigentes. Com o objetivo de atender essas demandas, foram promulgados diversos Decretos–Lei para normalizar alguns ramos da educação nacional. O conjunto de decretos ficou conhecido como as “Leis Orgânicas da Educação Nacional” ou “Reforma Capanema”, em função do nome do então ministro da educação, Gustavo Capanema. O quadro seguinte elenca os principais decretos: 48 Quadro 01: Principais Decretos Normalizadores da Educação Nacional Decreto nº. 4.244/42 Lei Orgânica do Ensino Secundário Decreto nº. 4.073/42 Lei Orgânica do Ensino Industrial Decreto-Lei nº. 4.048/1942 Lei de criação do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI) Decreto nº. 6.141/43 Lei Orgânica do Ensino Comercial Decreto nº. 8.529/46 Lei Orgânica do Ensino Primário Decreto nº. 8.530/46 Lei Orgânica do Ensino Normal Decreto nº. 9.613/46 Lei Orgânica do Ensino Agrícola Fonte: Brasil, 2007 a. As Leis Orgânicas que estruturaram o ensino técnico-profissional nesse período foram: o Decreto-lei n.º 4.073, em 30 de janeiro de 1942, que organizou o ensino industrial; o Decreto-lei n.º 6.141, em 20 de dezembro de 1943, que sistematizou o ensino comercial e o Decreto-lei n.º 9.613, em 20 de agosto de 1946, que organizou o ensino agrícola. Tais esforços do governo evidenciaram a importância que passou a ter a educação profissional no país, ao se definirem leis específicas para a formação profissional em cada ramo da economia, e na formação de professores em nível médio. (ROMANELLI, 1991; KUENZER, 1997). Assim, após a Reforma Capanema, a educação regular no Brasil, ficou estruturada em dois níveis: a (1) educação básica, que por sua vez também se dividia em duas etapas - o curso primário (ginasial) e o secundário (colegial) e a (2) educação superior. A educação profissional oferecida na parte final do ensino secundário era constituída pelos cursos: normal, industrial técnico, comercial técnico e agrotécnico. Todos esses com o mesmo nível e duração do colegial (BRASIL, 2007 b; ROMANELLI, 1991). Nesse contexto surge pela primeira vez uma possibilidade de aproximação entre o ramo secundário propedêutico - o colegial com suas variantes: científico e clássico - e os cursos profissionalizantes em nível médio, com a ênfase na inserção dos egressos no mercado de trabalho. Na década de 1970, sob o governo militar, além dos acontecimentos já mencionados anteriormente neste trabalho, houve uma profunda reforma da educação básica, no sentido de estruturar a educação de nível médio brasileiro como sendo profissionalizante. Esta alteração foi promovida pela “Lei no 5.692/71”, também chamada de “Lei da Reforma de Ensino de 1º e 2º graus”. Os cursos denominados primário e ginasial foram transformados em 1º grau, e o 2º grau absorveu o então colegial. 49 É de extrema relevância destacar a obrigatoriedade do aspecto profissionalizante no ensino do 2º grau. Diversos fatores conjugados produziram essa compulsoriedade. Um destes fatores estava relacionado com a resposta do governo para a crescente demanda das classes populares por acesso a níveis mais altos de escolarização, o que gerava uma forte pressão pelo aumento de vagas no ensino superior. Sabe-se que esse governo militar possuía um projeto de desenvolvimento do Brasil baseado em uma nova fase de industrialização que ficou conhecido como o milagre brasileiro. Tal milagre demandava por mão-de-obra qualificada para atender ao crescimento. Para o atendimento desta demanda o governo concentrou-se na formação técnica profissionalizante em nível de 2º grau, que segundo suas intenções, poderia garantir a inserção dos jovens no mercado de trabalho. Porém, na prática, a compulsoriedade se restringiu na área pública nos sistemas de ensino estadual e federal. Nas escolas privadas, em sua grande maioria, os currículos continuaram voltados para as ciências, letras e artes, enfatizando o aspecto propedêutico. Na área estadual a educação profissionalizante compulsória foi problemática não sendo implantada completamente. Primeiramente porque a concepção curricular que permeava a Lei favorecia a formação profissionalizante para o mercado de trabalho empobrecendo a formação geral do estudante. No entanto, ao invés de se ampliar a duração do 2º grau, visando a inclusão de conteúdos da formação profissional de forma integrada aos conhecimentos das ciências, das letras e das artes, houve uma redução dos últimos anos em favor dos primeiros, os quais assumiram um caráter instrumental com baixa complexidade. Tais ações faziam parte da concepção de desenvolvimento e da reforma educacional do país. O resultado dessa política foi verificado através do acentuado movimento dos filhos da classe média das escolas públicas para as privadas na busca de garantir uma formação que lhes permitisse continuar os estudos no nível superior, pois conforme já citado as escolas particulares ainda mantinham o ensino propedêutico visando a formação de dirigentes. Esse movimento aumentou o processo de desvalorização da escola pública estadual e municipal. Por esse e outros fatores, a profissionalização obrigatória foi desvanecendo-se, de modo que ao final dos anos 1980 e início dos anos 1990, e especialmente com a criação de uma nova LDB, a Lei nº 9.394/1996, o 2º grau profissionalizante no país, excetuando-se nas Escolas Técnicas Federais – ETF, Escolas Agrotécnicas Federais – EAF e em poucos sistemas estaduais de ensino, praticamente deixou de existir (BRASIL, 2007 b). 50 No que diz respeito à relação entre a última etapa da educação básica e a educação profissional, no processo de criação da LDB 9.394/96, ressurgiu o conflito da dualidade, pois se de um lado defende-se a formação profissional lato sensu integrada ao 2º grau (hoje chamado de Ensino Médio) nos seus múltiplos aspectos humanísticos e científicotecnológicos (omnilateral), por outro lado, por questões de mercado enfatiza-se a formação exclusivamente enfocada em questões tecnicistas. Nessa proposta, o papel do 2º grau estaria orientado à recuperação da relação entre conhecimento e a prática do trabalho, o que denotaria explicitar como a ciência se converte em potência material no processo produtivo. Dessa forma, “seu horizonte deveria ser o de propiciar aos alunos o domínio dos fundamentos das técnicas diversificadas utilizadas na produção, e não o mero adestramento em técnicas produtivas. Não se deveria, então, propor que o ensino médio formasse técnicos especializados, mas sim politécnicos.” (BRASIL, 2007 b. P. 17). O termo “Politecnia” está relacionado com “domínio dos fundamentos científicos das diferentes técnicas que caracterizam o processo de trabalho moderno” (SAVIANI apud BRASIL, 2007 b. p. 17). Segundo essa visão, a educação escolar, particularmente o 2º grau, deveria propiciar aos estudantes a possibilidade da construção dos princípios científicos fundamentados na multiplicidade de processos e técnicas que possuem como base os sistemas de produção vigentes. Essa perspectiva de formação integral por meio do texto aprovado pela LDB 9.394/96, o substitutivo Darcy Ribeiro, consolidou a dualidade entre a última etapa da educação básica (ensino médio) e a educação profissional. A LDB se mostrou ambígua no que se refere à relação entre ensino médio e educação profissional. Enquanto o ensino médio está no Capítulo II, destinado à educação básica, a educação profissional é apresentada no Capítulo III, sendo constituída por três pequenos artigos. Seguem abaixo dois trechos desses dois capítulos citados que evidenciam essa dualidade: “[...] o ensino médio, atendida a formação geral do educando, poderá prepará-lo para o exercício de profissões técnicas.” (BRASIL, 1996, Cap. II). “[...] a educação profissional será desenvolvida em articulação com o ensino regular ou por diferentes estratégias de educação continuada, em instituições especializadas ou no ambiente de trabalho.” (BRASIL, 1996, Cap. III). Esses pequenos trechos da LDB explicitam o caráter minimalista e ambíguo dessa Lei. Evidenciam que quaisquer possibilidades de articulação entre o ensino médio e a educação 51 profissional poderiam ser realizadas, assim como também a completa desarticulação entre os mesmos. Desta forma, visto que a educação brasileira ficou estruturada na nova LDB em dois níveis, na educação básica e educação superior, a educação profissional não estava inserida em nenhum dos dois, consolidando a dualidade de forma explícita. A educação profissional não fazia parte da estrutura da educação regular brasileira, sendo considerada como algo que em paralelo ou um apêndice. O maior problema gerado pela desvinculação dos cursos de formação profissional dos níveis de escolaridade tem a ver com o fato de que nenhum sistema educacional se responsabilizaria diretamente por ele, já que a LDB trata apenas das obrigações de cada um dos entes federados: federal, estadual e municipal. Desta forma, se a educação profissional na se vincula a nenhum destes sistemas, não tem como alguém ou algum sistema se responsabilizar pela oferta e financiamento desta modalidade da educação. Assim, o governo assume sua postura neoliberal, apoiada e financiada pelos organismos internacionais delegando a obrigação da educação profissional ao setor privado. (RAMOS, 2005). O Decreto nº 2.208/1997 foi criado com o intuito de consolidar a separação do ensino médio e a educação profissional, sem a necessidade enfrentar o desgaste político do trâmite de um Projeto de Lei ao qual havia bastante resistência. Segundo o art. 3° desse Decreto a Educação profissional ficaria dividida em três níveis: Quadro 02: Divisão da Educação Profissional I – Básico II – Técnico III – Tecnológico Destinado à qualificação e reprofissionalização de trabalhadores, Independente de escolaridade prévia. Destinado a proporcionar habilitação profissional a alunos matriculados e egressos do ensino médio, devendo ser ministrado na forma estabelecida por este decreto. Correspondente a cursos de nível superior na área tecnológica, destinados a egressos do ensino médio e técnico. Fonte: BRASIL, 1997 b, art.3°. De acordo com quadro acima, a educação profissional compreenderia o “nível básico” visando a qualificação dos trabalhadores; o “nível técnico” voltados para os alunos concluintes do ensino médio; e o “nível tecnológico” correspondente a cursos de nível superior de Tecnologia. Ao desarticular a educação profissional do ensino regular, consolidou-se uma dualidade na oferta nessa modalidade da educação, pois de acordo com seu artigo 5º “a educação profissional de nível técnico terá organização curricular própria e 52 independente do ensino médio, podendo ser oferecida de forma concomitante ou seqüencial a este”. Isso significou o fim da educação profissional integrada à educação formal (BRASIL, 1997 b, art 5º, III). O ensino médio retomou legalmente um sentido puramente propedêutico, enquanto os cursos técnicos, agora obrigatoriamente separados do ensino médio, passaram a ser oferecidos de duas formas. Porém, no início de 2003, e mesmo antes disso no período de transição, ocorreu o recrudescimento da discussão acerca do Decreto nº 2.208/97, em especial no tocante à separação obrigatória entre o ensino médio e a educação profissional, conforme será abordado adiante. 3.1 ENSINO MÉDIO INTEGRADO A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL No ano de 2003 o Governo Federal iniciou sua atividade disposto a reconstruir a política pública para a educação profissional. Elaborou-se um novo decreto para substituir o Dec. 2.208/97 enfatizando o enfoque do novo governo para as políticas sociais. Em 2004, um ano após o inicio da gestão do novo governo, revogou-se o Dec. nº 2.208/97 passando a vigorar o Decreto nº 5.154 de 2004. No entanto, apesar das alterações realizadas pelo novo decreto, não se modificou substancialmente a organização da educação profissional em relação ao anterior, embora este tenha agregado às modalidades de articulação anteriormente previstas em caráter concomitante e sequencial entre o ensino médio e a educação profissional, que passou então a ser chamada de ensino médio integrado. A educação profissional foi novamente integrada ao ensino médio através do Decreto nº 5.154/2004, assegurando aos alunos uma oferta de formação geral associada e, principalmente, integrada a uma qualificação profissional. A composição curricular dessa proposta deve ser idêntica à do ensino médio, acrescida de componentes da formação profissional articulados de maneira pedagógica, para que não houvesse um empobrecimento do currículo em favor de uma formação profissional. Com a revogação do Dec. nº 2.208/97 buscou-se restabelecer os princípios norteadores de uma política de educação profissional articulada com a educação básica, pois somente e desta maneira se conseguiria sua sistematização, promovendo a integração e a organização da educação nacional através de políticas nacionais coordenadas pelo MEC. Com tal medida 53 verificou-se um considerável aumento nas matrículas conforme dados do censo escolar de 2006: Quadro 03: Estabelecimentos e Matrículas da Educação Profissional de Nível Médio, 2003 a 2005 - Brasil Ano Estabelecimentos 2003 2004 2005¹ 2.789 3.047 3.294 Variação % em relação Matrículas ao ano anterior 9,3 8,1 589.383 676.093 747.892 Variação % em relação ao ano anterior 14,7 10,6 1 - Inclui as três formas de articulação com o ensino médio Fonte: MEC/Inep - Censo Escolar 2003 a 2005. BRASIL, 2006 a. Em 2003, nas Unidades da Federação, em 2.789 escolas, se ofereciam cursos de educação profissional em nível médio, sendo aproximadamente 589,3 mil alunos. Em 2005, já vigorado o Decreto nº 5.154/2004, 3.294 escolas ofereciam essa modalidade de ensino, abrangendo cerca de 747 mil alunos. Tais dados evidenciam um aumento significativo de 505 estabelecimentos (18,1%) e de aproximadamente 158 mil matrículas (26,9%) na educação profissionalizante (BRASIL, 2006 a). O ensino médio integrado a educação profissional, mais do que apenas uma nova medida, representa uma nova e importante oportunidade para a formação dos jovens e adultos para o mercado de trabalho e para a cidadania. Retoma-se a discussão sobre a educação politécnica13, compreendendo-a como uma educação unitária e universal destinada à superação da dualidade entre cultura geral e cultura técnica e voltada para “o domínio dos conhecimentos científicos das diferentes técnicas que caracterizam o processo de trabalho produtivo moderno” (BRASIL, 2007 b, p. 17). Historicamente, a educação sempre se dividiu em duas categorias distintas: (1) a destinada aos que produzem a vida e a riqueza da sociedade com sua força de trabalho e (2) a destinada aos dirigentes e às elites que dão orientação e direção à sociedade, cunhadas pelo próprio modo de produção capitalista existente nas atuais sociedades ocidentais. A escola unitária visa superar a dualidade da formação para o trabalho manual e para o trabalho intelectual. A escola unitária deve superar a dualidade histórica entre formação básica e formação profissional, objetivando o acesso dos alunos aos conhecimentos 13 Politecnia não significa, em vista de sua etimologia, o ensino de muitas técnicas. Politecnia significa uma educação que possibilita a compreensão dos princípios científico-tecnológicos e históricos da produção moderna, de modo a orientar os estudantes à realização de variadas (poli) escolhas (RAMOS, 2005). 54 disponíveis e à cultura. Esse tipo de educação pode ser caracterizado como ensino politécnico; ou seja, aquele que fornece aos sujeitos o acesso aos conhecimentos e à cultura construídos pela humanidade propiciando a realização de escolhas e a construção de caminhos para a produção da vida. Existem dois pilares conceituais em uma escola que promove a educação politécnica ou integrada: (1) não ser dualista, e que pelo contrário, seja unitária, garantindo a todos o direito ao conhecimento; e (2) fornecer educação politécnica que possibilite aos alunos o acesso à cultura, a ciência, ao trabalho, por meio de uma educação básica e profissional. Entende-se trabalho aqui não somente como emprego, gerador de renda, mas principalmente, em seu sentido mais amplo, como realização e produção humana (RAMOS, 2005). Neste ponto cabe explicar o sentido da educação integrada, analisando o conceito de integração em três sentidos que se complementam: (1) a concepção de formação humana (omnilateral); (2) a forma de relacionar ensino médio e educação profissional e (3) a relação entre parte e totalidade na proposta curricular. Em relação ao primeiro sentido da integração, a formação omnilateral, expressa uma concepção com base na integração de todas as dimensões da vida no processo formativo. Implica em integração das dimensões consideradas fundamentais da vida e que estruturam a prática social, que podem ser elencadas em três áreas: (a) o Trabalho, (b) a Ciência e (c) a Cultura. O Trabalho compreende a realização humana inerente ao ser, podendo ser definido num sentido ontológico e como uma prática econômica, ou, definido num sentido histórico associado ao respectivo modo de produção. Já a Ciência é compreendida através dos conhecimentos produzidos pela humanidade possibilitando todos os avanços produtivos. A Cultura corresponde aos valores éticos e estéticos que norteiam a conduta das sociedades. Ainda sobre o primeiro aspecto da formação humana, no que tange a integração do ensino médio, faz-se necessário a construção de um projeto pedagógico que supere a dualidade entre formação específica e formação geral e que desloque o foco de seus objetivos do mercado de trabalho para a pessoa humana, mediante um projeto que, embora unitário em seus princípios e objetivos, possa desenvolver possibilidades formativas que abracem as múltiplas necessidades socioculturais e econômicas dos sujeitos que o constituem, quer sejam eles adolescentes, jovens ou adultos. Em relação ao segundo sentido da integração, a forma de relacionar ensino médio e educação profissional, evidencia a importância da indissociabilidade entre educação profissional e educação básica. Hoje, na educação brasileira, existem dispositivos legais sobre 55 como construir uma formação integrada no ensino médio com a educação profissional. Porém, enquanto o Brasil for um país com as “marcas” de uma história, muitas vezes pautada pela exploração dos trabalhadores, não se pode afirmar que o ensino médio primeiro deve “formar para a vida”, enquanto a profissionalização fica para depois. A classe de trabalhadores e seus filhos não podem esperar por essas condições porque a preocupação com a inserção na vida produtiva é algo que acontece assim que os jovens tomam consciência dos limites que sua relação de classe impõe aos seus projetos de vida. A formação profissional deve possibilitar aos jovens e adultos a apropriação de conhecimentos que estruturem sua inserção na vida produtiva de maneira digna. Conforme visto, o Governo Federal através do Decreto nº 2.208/97, implementou no Brasil uma reforma na Educação desarticulando o ensino médio do profissionalizante, seguindo a mesma tendência que já estava sendo semeada pelo mundo afora. Sabe-se que cada realidade social, cada população, tem a sua história e a sua necessidade. Portanto, o que vem como reforma em nome da tendência mundial requer muita atenção, não sendo necessária e automaticamente aceita como políticas públicas a serem implantadas no país. A partir do Decreto n° 5.154/2004, dispositivo legal cuja formulação se baseou no reconhecimento das necessidades dos trabalhadores, a educação profissional foi novamente integrada ao ensino médio, com o objetivo de possibilitar que os sujeitos tivessem uma formação básica (propedêutica) com foco no exercício profissional. Segue abaixo um quadro comparativo entre os Decretos n° 2.208/97 e o n° 5.154/2004: Quadro 04: Comparativo entre os Decretos nº 2.208/97 e 5.154/2004 Decreto nº 2.208/97 Decreto nº 5.154/2004 Organizava a Educação Profissional em três Organiza a Educação Profissional por meio níveis: Básico, Técnico e Tecnológico de cursos e programas de formação inicial e continuada de trabalhadores; Educação (Art.3°) Profissional Técnica de nível médio; e Educação Profissional Tecnológica, de graduação e de pós-graduação ( Art. 1°). Definiu que a Educação Profissional de nível Define que a Educação Profissional Técnica técnico terá organização curricular própria e de nível médio será desenvolvida de forma independente do Ensino Médio, podendo ser articulada com o Ensino Médio e que esta oferecida de forma concomitante ou articulação entre a Educação Profissional seqüencial a este. Técnica de nível médio e o Ensino Médio dar-se-á de forma integrada, concomitante e subseqüente ao Ensino Médio. Fonte: Parecer CNE/CEB nº 39/2004. BRASIL, 2004 b. 56 Quadro 04: Comparativo entre os Decretos nº 2.208/97 e 5.154/2004 (Continuação) Decreto nº 2.208/97 Decreto nº 5.154/2004 Estabelecia um limite, de 25% do total da carga horária mínima do Ensino Médio para “aproveitamento no currículo da habilitação profissional” (Art. 5°). Não prevê mais esse limite previsto pelo Decreto nº 2.208/97, que constituía, na prática, uma clara herança da mentalidade ditada pela Lei nº 5.692/71. Fonte: Parecer CNE/CEB nº 39/2004. BRASIL, 2004 b. Destaca-se no quadro comparativo acima que o Decreto nº 5.154/2004 regulamentou maneiras pelas as quais os sistemas educacionais e as escolas pudessem buscar a realização de uma formação integrada. O ensino profissional se articulou com o ensino médio de maneira integrada, concomitante e/ou subsequente. Mas afinal de contas o que significa Educação Integrada? Integrar implica em tratar a educação como uma totalidade social, isto é, nas múltiplas mediações históricas que concretizam os processos educativos. No caso da formação integrada ou do ensino médio integrado ao ensino técnico, o que se quer com a concepção de educação integrada é que a educação geral se torne parte inseparável da educação profissional em todos os campos onde se dá a preparação para o trabalho: seja nos processos produtivos, seja nos processos educativos como a formação inicial, como o ensino técnico, tecnológico ou superior. Significa buscar enfocar o trabalho como princípio educativo, no sentido de superar a dicotomia trabalho manual / trabalho intelectual, de incorporar a dimensão intelectual ao trabalho produtivo, de formar trabalhadores capazes de atuar como dirigentes e cidadãos. A idéia de formação integrada sugere superar o ser humano dividido historicamente pela divisão social do trabalho entre a ação de executar e a ação de pensar, dirigir ou planejar. Trata-se de superar a redução da preparação para o trabalho ao seu aspecto operacional, simplificado, escoimado dos conhecimentos que estão na sua gênese científico-tecnológica e na sua apropriação histórico-social. Como formação humana, o que se busca é garantir ao adolescente, ao jovem e ao adulto trabalhador o direito a uma formação completa para a leitura do mundo e para a atuação como cidadão pertencente a um país, integrado dignamente à sua sociedade política. A forma integrada de oferta do ensino médio com a educação profissional, apesar de possíveis obstáculos, ainda é aquela que corresponde às necessidades e aos direitos dos trabalhadores, pois permite a realização de um único curso e ao final, a conclusão da educação básica e da educação profissional. Coerentemente com o primeiro sentido da integração, a forma integrada de oferta do ensino médio com a educação profissional possibilita a 57 integração de conhecimentos gerais e específicos e a construção do conhecimento pela mediação do trabalho, da ciência e da cultura. Quanto à forma concomitante, em que a formação técnica ocorre paralelamente ao ensino médio, em currículos e em estabelecimentos de ensino distintos, entende-se as limitações geradas, porém a concomitância só faz sentido quando as redes de ensino não conseguem oferecer o ensino médio integrado, mas sempre como transição e não como opção definitiva, pois a interdisciplinaridade dos assuntos gerais e específicos sairá prejudicada. Na forma subsequente, a educação profissional se constitui como educação continuada de modo que o jovem e o adulto, que tenham concluído o ensino médio não profissionalizante, possam ainda fazer a formação profissional. Ou já sendo possuidor de uma formação profissional, possam buscar atualizações ou outras áreas. Entende-se como sendo uma lógica de educação continuada que deve constar também das obrigações dos sistemas de ensino. Porém, ela não se confunde com uma alternativa compensatória ao ensino superior. Já em relação ao terceiro sentido da integração: a integração de conhecimentos gerais e específicos como totalidade deve-se rever a ideia de que os conhecimentos gerais sejam teorias e que os conhecimentos específicos sejam a aplicação dessas teorias. Essa separação foi idealizada pelo positivismo, ao longo da história, tendo como base a naturalização da ideia de que o professor da educação básica ministra as teorias gerais, enquanto o professor da formação técnica ministra as suas aplicações (RAMOS, 2005). Assim nota-se que a escola e os sistemas de ensino necessitam de uma visão crítica do mercado de trabalho e construir o processo formativo no qual, ao mesmo tempo em que proporcionam acesso aos conhecimentos, contribuam para que o sujeito se insira no mundo do trabalho e também possam se tornar pessoas críticas a essa lógica do mercado capitalista. Olhando pelo ponto de vista da educação ambiental, o despertar da consciência crítica se faz importante no processo de libertação do homem, impulsionando a conscientizando-o com respeito necessidade de se discutir a problemática ambiental afim de superar as fragmentações e distorções que existem na relação com o ambiente. No trabalho pedagógico, o método de exposição deve restabelecer as relações dinâmicas e dialéticas entre os conceitos, reconstituindo as relações que configuram a totalidade concreta da qual se originaram, de modo que o objeto a ser conhecido revele-se gradativamente em suas peculiaridades próprias. O currículo integrado organiza o conhecimento e desenvolve o processo de ensino-aprendizagem de forma que os conceitos 58 sejam apreendidos como sistema de relações de uma totalidade concreta que se pretende explicar/compreender. Portanto, formar profissionalmente não é preparar exclusivamente para o exercício do trabalho, mas é proporcionar a compreensão das dinâmicas sócio-produtiva das sociedades modernas, com as suas conquistas e os seus revezes, e também habilitar as pessoas para o exercício autônomo e crítico de profissões, sem nunca se esgotar a elas. A integração entre ensino médio e educação profissional, ao garantir-se uma base unitária de formação geral, gerarará possibilidades de formações específicas. Do ponto de vista organizacional, essa relação deve integrar em um mesmo currículo a formação plena do educando, possibilitando construções intelectuais elevadas; a apropriação de conceitos necessários para a intervenção consciente na realidade e a compreensão do processo histórico de construção do conhecimento. Discutiu-se amplamente o projeto do ensino médio integrado à educação profissional sob a ótica do trabalho, da ciência, da tecnologia e da cultura. Precisa-se discutir, agora, a integração de conhecimentos gerais e específicos correspondentes à formação básica e profissional. O currículo é uma seleção de conhecimentos a serem ensinados e aprendidos de acordo com a finalidade e dos objetivos pedagógicos a serem alcançados. A formação integral, que se mostra plena e completa, não pressupõe o ensino de tudo. A questão fundamental é proporcionar compreensões globais, da realidade a partir dos componentes e grades curriculares. Cada fato ou conjunto de fatos, na sua essência, reflete toda a realidade com maior ou menor riqueza ou completude. Desta forma, a possibilidade de se conhecer a totalidade a partir das partes é dada pela possibilidade de se identificar os fatos ou conjunto de fatos que deponham mais sobre a essência do real. Isso significa identificar componentes e conteúdos curriculares que permitam fazer relações cada vez mais amplas e profundas entre os fenômenos e a realidade em que estes se inserem. Na formação profissional dentro do ensino médio, os conhecimentos específicos de uma área profissional não se mostram suficientes para fornecer a compreensão global da realidade. Desta forma, a educação profissionalizante deve contemplar também a formação geral (RAMOS, 2005). Falando-se do ensino médio integrado à educação profissional podem surgir problemas advindos da área profissional para a qual se preparam os educandos. Os processos de produção “dessas áreas se constituem em partes da realidade mais completa, sendo possível estudá-los em múltiplas dimensões, de forma que, para compreendê-los, torna-se 59 necessário recorrer a conhecimentos que explicam outros fenômenos que tenham o mesmo fundamento” (BRASIL, 2007 b, p. 51) Portanto, a partir de questões específicas pode-se necessitar de conhecimentos gerais e, assim, apreendê-los para diversos fins além daqueles que motivaram sua apreensão. Necessita-se para tal, estudar os problemas de uma área profissional em múltiplas dimensões. Os conceitos iniciais para esse estudo convertem-se em conteúdos de ensino organizados nas diferentes áreas de conhecimento e disciplinas. Compreende-se, portanto que a integração de conhecimentos no currículo depende de uma postura epistemológica, sendo cada disciplina ministrada em seu devido lugar com a construção permanentemente de relações, umas com as outras, numa perspectiva interdisciplinar das respectivas áreas profissionais, analisadas através de uma totalidade. O Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII realiza a integração do Ensino Médio com a Educação Profissional conforme delineado pelo Decreto nº 5.154/2004. Desta forma o curso procura assegurar aos alunos uma oferta de formação geral associada a uma qualificação profissional. A composição curricular do curso é idêntica à do Ensino Médio, acrescida das disciplinas específicas para a formação profissional. O desenho curricular delineado para o ensino médio do Colégio Pedro II integra as três áreas curriculares explicitadas nos Parâmetros Curriculares Nacionais do Ensino Médio (PCNEM) que envolvem três eixos de competências para cada uma dessas áreas. Segue abaixo o quadro explicativo: Quadro 05: Matriz da Proposta Curricular por Competências para o Ensino Médio AREA 1 ÁREA 2 ÁREA 3 Linguagens, Códigos e suas Tecnologias Ciências da Natureza Matemática e suas Tecnologias Competências Disciplinares Ciências Humanas e Filosofia LP LE AV EM EF INF B F Q M D G H LP: Língua Portuguesa INF: Informática educativa G: Geografia LE: Línguas Estrangeiras B: Biologia H: História AV: Artes Visuais F: Física S: Sociologia EM: Educação Musical Q: Química F: Filosofia EF: Educação Física M: Matemática D: Desenho Fonte: Projeto Político-Pedagógico do CPII. BRASIL, 2002. S F 60 Os três eixos das competências disciplinares do ensino médio são: (1) representação, que se refere à área de Linguagens, Códigos e suas Tecnologias, (2) investigação e compreensão, que está ligada à área de Ciências da natureza, Matemática e suas tecnologias e (3) contextualização sociocultural, que está relacionada com a área de Ciências Humanas e suas Tecnologias. As competências de cada área e disciplina encontram-se agrupadas e organizadas mediantes esses três eixos, evidenciando que as áreas devem se interligar interdisciplinarmente, construindo suas competências específicas (BRASIL, 2002). O conteúdo de formação geral do Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII foi baseado no PCNEM, sendo estruturado da seguinte forma: Quadro 06: Disciplinas de Formação Geral do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II 1º ano 2º ano 3º ano Disciplinas Carga Horária Total Carga Horária Carga Horária Carga Horária Artes Biologia Desenho Educação Física Filosofia Física Geografia História Inglês Matemática Português Química Sociologia TOTAIS Anual Anual Anual 80 80 120 80 80 80 80 80 80 120 160 80 1120 120 120 80 80 120 120 120 80 120 160 120 80 1320 120 120 120 120 80 160 200 120 80 1120 80 280 240 160 160 360 320 320 240 400 520 280 160 3560 Fonte: Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII. PEDRO II, 2006. O conteúdo específico do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II foi idealizado tomando como base os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente, cujo como objetivo é oferecer subsídios à formulação de propostas curriculares para o nível técnico, aproximando a prática escolar às orientações expressas nesse documento oficial14. A estrutura curricular foi idealizada da seguinte maneira: 14 A carga horária mínima para o conteúdo específico é de 800hs (BRASIL, 2000). 61 Quadro 07: Disciplinas de Formação Profissional do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II 1º ano 2º ano 3º ano Disciplinas Carga Horária Carga Horária Carga Horária Carga Horária Total Anual Anual Anual Estudos de Impacto Ambiental 120 120 Estudos Geoambientais e noções de Ecoturismo Fundamento de Meio Ambiente 120 - - 120 160 - - 160 Legislação Ambiental e Normalização Manejo de Sistemas Aquáticos e Terrestres Memória e Patrimônio do Meio Ambiente Metodologias em Estudos Ambientais Monitoramento Ambiental - - 80 80 - - 120 120 - 80 - 80 - - 80 80 - 120 - 120 Química Ambiental 120 - - 120 Química Analítica - 120 - 120 400 320 400 1120 TOTAIS Fonte: Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII, PEDRO II, 2006. Percebe-se que o Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II busca obter uma abordagem integrada do conteúdo disciplinar do Ensino Médio com a Educação Profissional, articulando-se concomitantemente, especialmente com o domínio das ciências da natureza, visando ao atendimento das necessidades dos educandos. É fundamental que o curso esteja atento aos problemas de meio ambiente, como o uso de agrotóxicos, manuseio de produtos químicos, descarte de resíduos e efluentes, nos mais diversos segmentos como a construção civil, indústrias, saúde, mineração, petróleo e gás, pesca e etc. A área profissional do meio ambiente tem uma interface importante com o mercado de trabalho, pois os Técnicos em Meio Ambiente, em suas atividades, deverão realizar a prevenção à poluição ambiental e a minimização das intervenções antrópicas na natureza ao orientar as empresas no tocante à utilização sustentável dos recursos naturais (BRASIL, 2000). Apesar de todas as mudanças na educação profissional, deve-se continuar procurando uma aproximação da educação profissional às reivindicações educacionais formuladas pelos 62 próprios trabalhadores, para que desta forma obtenha-se significativa oportunidade de formação humana para o trabalho organicamente articulada à elevação dos índices de escolaridade (BRASIL, 2000; KUENZER, 2003). Ver-se-á mais a frente o significado das competências e qualificações para o mercado de trabalho, e mais especificamente, as relacionadas as atividades do Técnico em Meio Ambiente, conforme preconizado pelo MEC. 3.2 COMPETÊNCIAS E QUALIFICAÇÕES PARA O MERCADO DE TRABALHO Segundo o secretário de Educação Profissional e Tecnológica do MEC, Eliezer Pacheco: “O que garante a empregabilidade não é a qualificação, mas sua associação com a escolaridade, a formação geral do indivíduo”. Ou seja, o sistema de ensino, cursos e programas de formação profissional devem propiciar uma elevação de escolaridade, porém existem fatores que devem ser analisados em relação ao próprio conceito de qualificação (BRASIL, 2007 a, p. 7). Historicamente o conceito de qualificação foi consolidado em torno de padrões de formação ligados ao emprego, carreira e remuneração. Inicialmente era compreendido numa perspectiva essencialista identificado como propriedade dos postos de trabalho. A qualificação também foi analisada sob uma perspectiva historicista ou relativista, centrando a análise no homem, não como fenômeno técnico individualizado, mas sim de cunho social e diferencial. Ou seja, “a qualificação passou a ser compreendida muito mais como uma relação social complexa entre as operações técnicas, a estimativa de seu valor social e as implicações econômico-políticas que advêm dessa relação, do que como estoque de saberes”. (RAMOS, 2002, p. 401). A qualificação pode ser definida em três dimensões: (1) conceitual, (2) social e (3) experimental. A primeira dimensão define qualificação como função do registro de conceitos teóricos e formalizados, ligados aos títulos e diplomas. A segunda relaciona as relações sociais estabelecidas entre os conteúdos das atividades e as classificações hierárquicas. Já a terceira dimensão está relacionada ao conteúdo real do trabalho, onde se insere o conjunto de saberes necessários para a realização do trabalho. O conceito de qualificação tem se chocado com a noção de competência. Em face das transformações atuais no sistema capitalista tem havido um deslocamento conceitual em relação a qualificação para o conceito de competência. A competência expressa mais 63 coerentemente o significado de se qualificar, pois traz a atenção para os atributos subjetivos mobilizados no trabalho, na forma de atributos cognitivos, socioafetivos e psicomotores (FERRETI, 2002). As Diretrizes Curriculares Nacionais da Educação Profissional de Nível Técnico definem qualificação como “conjunto de atributos individuais, de caráter cognitivo ou social, resultantes da escolarização geral e/ou profissional, assim como das experiências de trabalho” Este documento oficial considera apenas duas das três dimensões relacionadas à qualificação: a dimensão conceitual, que reconhece a aprendizagem por vias formais e a experimental, que destaca as competências construídas e demonstradas na prática do trabalho. A dimensão social da qualificação não é considerada, pois esta é compreendida como uma construção social dinâmica, síntese das dimensões conceitual, social e experimental (RAMOS, 2002, p. 405). Os títulos e diplomas são importantes para a inserção profissional, em um primeiro momento, mas não garantem a permanência no mercado de trabalho. A permanência depende das competências adquiridas e constantemente atualizadas, que fornecem ao trabalhador a empregabilidade. A aquisição e renovação das competências ocorre através da educação profissional continuada ou pela diversificação das experiências em atividades profissionais. A dimensão experimental da qualificação permite tomar a noção de competência como referência na educação profissional sob o olhar do currículo. A noção de competência possibilita a análise dos processos de trabalho gerando currículos escolares com conteúdos reais mais direcionados ao mercado de trabalho e situações do dia-a-dia. A qualificação não cumpriria esse papel por apenas se deter em títulos e diplomas, visto que esses são códigos consolidados e rígidos. As competências são bem mais dinâmicas e flexíveis, bem mais apropriadas ao estreitamento da relação escola e empresa. Desta forma, pode-se dizer que as noções do modelo das competências no mundo do trabalho são a flexibilidade, a transferibilidade, a polivalência e a empregabilidade. A gestão por competências exige que os trabalhadores sejam flexíveis para lidar com as mudanças em seu ambiente de trabalho, como por exemplo, de serem transferidos de uma função a outra dentro da empresa exigindo dos mesmos a polivalência e a constante atualização de suas competências, o que lhes fornecerá certa medida de empregabilidade (DELUIZ, 2001). Neste modelo de competências não só é fundamental a posse dos saberes disciplinares, quer sejam escolares ou técnico-profissionais, mas principalmente, a capacidade de mobilizar esse saber-fazer para a resolução dos problemas, especialmente ao se enfrentar os imprevistos no ambiente de trabalho. É de suma-importância ampliar o domínio de competências na 64 formação dos indivíduos. Em face de todas as mudanças no cenário mundial e brasileiro, com respeito à formação do trabalhador, há necessidade da construção de pelo menos quatro competências principais: (1) As competências técnicas abrangentes, que envolvem predominantemente o intelecto, e objetivam o exercício do ‘aprender a pensar’ e ‘aprender a aprender’, desenvolvendo a capacidade de reconhecer e definir problemas, de equacionar soluções, de pensar estrategicamente, atuar preventivamente e introduzir modificações no processo de trabalho, além da de transferência e generalização de conhecimentos, (2) as competências organizativas/ metódicas, que abrangem capacidade do indivíduo de planejar e auto-organizar-se, estabelecendo métodos próprios, gerenciando seu tempo e seu espaço de trabalho. Essas competências implicam na capacidade de auto-avaliação e geram a auto-suficiência, (3) as competências comunicativas, traduzem-se pela capacidade de expressão e comunicação com o seu grupo, superiores hierárquicos ou subordinados, e de cooperação, de trabalho em equipe, de diálogo e de comunicação interpessoal e (4) as comportamentais e sociais, revelam-se na capacidade do indivíduo de utilizar todos os seus conhecimentos - obtidos através de fontes, meios e recursos diferenciados - nas diversas situações encontradas no mundo do trabalho. Trata-se da capacidade de transferir conhecimentos da vida cotidiana para o ambiente de trabalho e vice-versa. Finalmente, as competências comportamentais envolvem a iniciativa, a criatividade, a vontade de aprender, a abertura às mudanças, a consciência da qualidade e das implicações do seu trabalho, isto é, implicam no envolvimento da subjetividade do indivíduo na nova organização do trabalho. (DELUIZ, 1993 apud NOVICKI & GONZALEZ, 2003, p. 117). Portanto, a substituição do conceito tradicional de conhecimentos e de saberes (qualificação) pela visão de competência, não deve ter apenas uma conotação funcionalista em relação às mudanças sociais e laborais, mas deverá intervir para transformar estruturas tradicionais no trabalho e na vida social das pessoas. Além do mais, percebe-se a complexidade de todos os fatos que envolvem a formação profissional, inclusive a do Técnico em Meio Ambiente, sendo que o desenvolvimento das competências profissionais não são uma solução milagrosa para os problemas ligados a educação profissional (GONZALEZ, 1996; MARKERT, 2002). De acordo com o que já foi explanado anteriormente, os Cursos Técnicos em Meio Ambiente são baseados em Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente, e objetivam formar profissionais cujas competências e habilidades, bem como as bases tecnológicas relacionadas a essas competências, possibilitem um amplo conhecimento da problemática socioambiental, bem como das medidas e formas de mitigação desses conflitos (BRASIL, 2000 e 2007). Existe um debate na área de educação, entre o desenvolvimento de competências e a transmissão de conhecimento, com duas visões de currículo: 65 Uma que prioriza os conhecimentos, deixando para a Educação Profissional ou para a vida a mobilização de competências e outra que limita a quantidade de conhecimentos, mas enfatiza a sua mobilização em situações complexas. Na avaliação de Perrenoud este é o principal dilema dos sistemas educacionais: educar para a erudição ou educar para a vida, desenvolver competências (NOVICKI & GONZALEZ, 2003, p. 4). Para Perrenoud (apud NOVICKI & GONZALEZ, 2003, p. 4), a escola se encontra num dilema que envolve o debate entre os paradigmas clássicos, que envolve aulas, manuais, temas e provas, preocupados com o desempenho dos alunos e o paradigma das novas pedagogias, que visa à formação de cidadãos participativos na sociedade. A educação ambiental crítica considera a prática educativa valiosa para a formação do homem enquanto ser individual e social, historicamente situado. Entretanto, a noção de competência é algo multidimensional, e envolve facetas que vão do individual ao sociocultural. Desta forma, ela não pode ser confundida apenas como simples desempenho. A noção de competência profissional envolve não só a dimensão individual, mas envolve outra dimensão: a de ser uma construção balizada por parâmetros históricos e socioculturais. A noção de competência está situada e referida aos contextos, espaços e tempos socioculturais e ancorada em dimensões macro socioculturais, pois: Nesta perspectiva, a identificação, definição e construção de competências profissionais não se pauta pelas necessidades e demandas estritas do mercado, na ótica do capital, mas leva em conta a dinâmica e as contradições do mundo do trabalho, os contextos macroeconômicos e políticos, as transformações técnicas e organizacionais, os impactos socioambientais, os saberes do trabalho, os laços coletivos e de solidariedade, os valores e as lutas dos trabalhadores (DELUIZ, 2001, p.15). Visto que a noção de competência é uma construção social, torna-se um fator primordial enfrentar o desafio de propor alternativas ao modelo de educação profissional vigente, que é calcado na noção de competências em suas concepções não-críticas, mas que por outro lado enfrentem e dêem respostas à dinâmica e às transformações do mundo do trabalho, na perspectiva dos interesses dos trabalhadores. 66 Tal concepção é pautada na matriz crítico-emancipatória15 cujos fundamentos teóricos baseiam-se no pensamento crítico-dialético. Esta pretende não só ressignificar a noção de competência, para que os interesses dos trabalhadores sejam atendidos, mas objetiva “(...) apontar princípios orientadores para a investigação dos processos de trabalho, para a organização do currículo e para uma proposta de educação profissional ampliada” (DELUIZ, 2001, p. 15). A educação profissional e tecnológica, no Brasil e no mundo, tem se tornado de extrema importância para a construção da cidadania e para a melhor inserção de jovens e trabalhadores na sociedade atual, com suas constantes transformações. Estas dimensões, em termos conceituais e práticos, são muito amplas e complexas, e não se restringem a um entendimento linear, que somente treina o cidadão para o mercado, visando sua empregabilidade e tampouco, a terem uma visão reducionista, que objetiva preparar o trabalhador pura e simplesmente para realização de tarefas instrumentais. A grande questão da educação profissional e tecnológica “[...] envolve necessariamente o estreito vínculo com o contexto maior da educação circunscrito aos caminhos históricos percorridos por nossa sociedade” (BRASIL, 2003 a, p.9). Nesse contexto a educação profissional deve ser concebida como um “[...] processo de construção social que ao mesmo tempo qualifique o cidadão e o eduque em bases científicas, bem como em (bases) ético-políticas, para compreender a tecnologia como produção do ser social” (BRASIL, 2004 c, p.5). Dessa maneira, a educação torna-se um processo mediador que estará relacionando a base cognitiva com a estrutura material da sociedade e, no caso dos cursos técnicos em meio ambiente, deverá contemplar de maneira eficiente a temática ambiental e as competências indicadas para essas atividades, pois mesmo sabendo que: A problemática do meio ambiente está presente em todas as áreas de Educação Profissional (...) exige (se) que todos os cursos das diversas áreas profissionais contenham competências sobre os riscos no exercício de suas atividades. Além desses aspectos, deve ser considerado o fato da necessidade profissional especializada e voltada inteiramente para este problema (BRASIL, 2000, p.23). Visto que, conforme citado pelo MEC, os currículos de cursos técnicos na área profissional de Meio Ambiente, de um modo geral, não respondem às características, 15 A educação ambiental crítica e emancipatória exige que os conhecimentos sejam apropriados, construídos, de forma dinâmica, coletiva, cooperativa, contínua, interdisciplinar, democrática e participativa, voltados para a construção de sociedades sustentáveis. 67 necessidades e anseios da sociedade, pois aplicam um “[...] modelo pedagógico centrado num desenho curricular por disciplina e estrutura desarticulada apesar dos esforços de planejamento integrado na aula tradicional”, torna-se necessário a realização de medidas que possam fornecer melhorias neste segmento da educação profissional (BRASIL, 2000, p. 18, 23). 3.2.1 Competências do Técnico em Meio Ambiente Os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente preconizam que os Técnicos de Meio Ambiente devem desenvolver três funções ou competências principais em suas atividades que são (1) o reconhecimento dos processos nos recursos naturais, que envolvem os estudos das ações conservação e da degradação natural, (2) A avaliação das ações antrópicas onde são identificadas as atividades dos seres humanos que causam desequilíbrio a natureza e ao próprio homem e (3) a aplicação dos princípios de prevenção e correção para se mitigar os impactos socioambientais (BRASIL, 2000). O detalhamento do perfil do Técnico em Meio Ambiente aparece através das suas subfunções, competências específicas, habilidade e bases tecnológicas sugeridas pelos Referenciais Curriculares: As competências e os insumos geradores de competências, envolvendo os saberes e as habilidades mentais, socioafetivas e/ou psicomotoras, estas ligadas, em geral, ao uso fluente de técnicas e ferramentas profissionais, bem como a especificidades do contexto e do convívio humano característicos da atividade, elementos estes mobilizados de forma articulada para a obtenção de resultados produtivos compatíveis com padrões de qualidade requisitados, normal ou distintivamente, das produções da área. As bases tecnológicas ou o conjunto sistematizado de conceitos, princípios e processos tecnológicos, resultantes, em geral, da aplicação de conhecimentos científicos a essa área produtiva e que dão suporte às competências (BRASIL, 2000, p. 22). Segundo o MEC, “seja qual for a configuração do currículo, contudo, deverão estar obrigatoriamente contempladas as competências profissionais gerais identificadas nas Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional” para essa modalidade da educação profissional (BRASIL, 2000). A seguir apresenta-se a descrição da primeira competência principal ou função, suas subfunções e competências específicas: 68 Quadro 08: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Primeira Função FUNÇÃO 1- RECONHECIMENTO DOS PROCESSOS NOS RECURSOS NATURAIS Sub-função 1.1 - Processos de Conservação Sub-função 1.2 - Estudos dos Processos de Degradação Natural Competências Específicas 1-Caracterizar os sistemas e ecossistemas, os 1- Caracterizar os recursos naturais e as elementos que os compõem e suas respectivas grandezas envolvidas nos processos funções. naturais de degradação. 2- Correlacionar elementos e fatores interdependentes na estabilidade dos ecossistemas, avaliando os graus de diversidade dos seus componentes e os fatores limitantes. 3- Identificar e caracterizar as grandezas envolvidas nos processos naturais de conservação. 4- Distinguir e comparar os principais ecossistemas brasileiros. 5- Classificar os recursos hídricos segundo os seus usos, correlacionando as características físicas e químicas com a sua produtividade. 2- Conhecer os processos de degradação natural da atmosfera e dos recursos hídricos identificando os processos de degradação natural de origem química, geológica e biológica. 3- Avaliar o avanço dos processos naturais de degradação, tais como erosão, assoreamento etc. 4- Avaliar as modificações na qualidade dos recursos hídricos degradados. 5- Avaliar processos naturais de degradação tais como: decomposição, fermentação, reciclagem e formação de húmus. 6- Identificar os parâmetros de qualidade ambiental dos recursos hídricos (superficiais e subterrâneos). 7- Conhecer as bacias hidrográficas do Brasil, identificando e avaliando os elementos que compõem o meio e responsáveis pelo ciclo hidrológico. 8- Correlacionar a qualidade da água com a vida aquática. 9- Relacionar as características do solo com os diversos fatores de formação, seus tipos e usos, correlacionando suas características físicas, químicas e bacteriológicas com a sua produtividade. 10- Identificar os parâmetros de qualidade ambiental dos solos. 11- Correlacionar o uso e ocupação do solo com a conservação dos recursos hídricos superficiais e subterrâneos. 12- Identificar e caracterizar os fatores que intervêm na dinâmica da atmosfera. 13- Identificar os parâmetros de qualidade ambiental do ar. 14-Identificar e correlacionar sistemas de unidades e ordens de grandeza. Fonte: Referenciais Curriculares para a Educação Profissional: área de meio ambiente. BRASIL, 2000. 69 Além das competências acima descritas o Referencial Curricular descreve habilidades e bases tecnológicas que os Técnicos em Meio Ambiente devem desenvolver para o bom desempenho de suas atribuições. Entretanto, essas são os componentes diretamente ligados à organização dos currículos da educação profissional. O quadro seguinte elenca a segunda função ou competência principal, suas subfunções e competências específicas, sugeridas pelo Referencial Curricular, relacionadas a avaliação das intervenções do homem no meio ambiente: Quadro 09: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Segunda Função FUNÇÃO 2 - AVALIAÇÃO DAS INTERVENÇÕES ANTRÓPICAS Sub-função 2.1. Exploração dos Recursos Sub-função 2.2. Processos Produtivos Naturais Competências Específicas 1- Conhecer e avaliar as características 1-Conhecer e correlacionar os processos de básicas de atividades de exploração de intervenção antrópica sobre o meio ambiente recursos naturais renováveis e não-renováveis resultantes da atividade produtiva, e seus que intervêm no meio ambiente. impactos ambientais. 2-Conhecer os processos de intervenção 2-Conhecer e avaliar os impactos dos antrópica no meio ambiente e os riscos a eles resíduos sólidos sobre o meio. associados. 3-Compreender os grandes impactos 3-Conhecer e avaliar os efeitos dos poluentes ambientais globais e suas consequências do atmosféricos nos meios urbanos e rurais. ponto de vista econômico. 4-Conhecer e analisar métodos para redução 4-Correlacionar os efeitos dos efluentes de impactos ambientais e de desperdício dos líquidos nos corpos receptores. recursos naturais. 5-Conhecer procedimentos para a exploração 5-Avaliar os efeitos da poluição sobre a saúde racional dos recursos naturais (água, ar, solo, humana. fauna, flora nos meios antrópicos). 6-Conhecer e avaliar as conseqüências das 6-Compreender as perdas econômicas intervenções em sistemas hídricos e no solo decorrentes dos riscos e impactos ambientais. 7-Avaliar riscos ambientais de origem antrópica. 8-Correlacionar efeitos dos poluentes sobre a saúde. Fonte: Referenciais Curriculares para a Educação Profissional: área de meio ambiente , BRASIL, 2000. E finalmente, apresenta-se no quadro na próxima página a terceira função ou competência principal, suas sub-funções e competências específicas, relacionadas a aplicação dos recursos de prevenção e correção dos impactos ambientais gerados pela ação antrópica: 70 Quadro 10: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Terceira Função FUNÇÃO 3 - APLICAÇÃO DOS RECURSOS DE PREVENÇÃO E CORREÇÃO Sub-função 3.1. Legislação e Gestão Sub-função 3.2. Usos de Tecnologias Ambiental Competências Específicas 1-Conhecer e interpretar a Legislação Ambiental Brasileira e internacional de maior interesse (normas, atos, convenções). 2-Conhecer e avaliar modelos de gestão ambiental utilizados na exploração de recursos naturais e nos processos produtivos. 3-Avaliar, interpretar e analisar os efeitos resultantes das alterações causadas por um projeto sobre a saúde e bem-estar do ser humano, prevenindo ou minimizando a deterioração da qualidade ambiental da área pesquisada. 4-Conhecer os mecanismos de AIA, EIA, e RIMA e sua legislação prevista para o PCA, RCA e PRAD. 1-Conhecer os princípios básicos das tecnologias de prevenção e de correção. 2-Conhecer técnicas de uso do solo, do ar e da água. 3-Conhecer as metodologias e tecnologias de redução de efluentes líquidos na fonte, de tratamento de efluentes e dos lodos resultantes, e destinação final. 4-Conhecer as metodologias e tecnologias de prevenção da poluição dos solos, métodos de tratamento de recuperação de solos degradados, dos resíduos e sua destinação final. 5-Conhecer Sistema de Gestão Ambiental 5-Conhecer as tecnologias aplicadas nos segundo a norma NBR/ISO 14001. impactos ambientais globais, nas emissões atmosféricas e sua redução na fonte. 6-Conhecer as técnicas, princípios, requisitos 6-Conhecer as atividades laboratoriais dos legais, procedimentos gerenciais envolvendo os sistemas de tratamento de águas e dos recursos naturais (água, ar e solo). poluentes do ar. 7-Conhecer, ler e interpretar a legislação dos recursos hídricos. 8-Conhecer os parâmetros e padrões de emissão de indicadores de poluição e analisá-los. 9-Analisar e avaliar o desenvolvimento ambiental de uma organização em relação aos efluentes líquidos. 10-Conhecer o comportamento dos diversos tipos de poluentes e interpretação de resultados analíticos referentes aos padrões de qualidade do solo. Fonte: Referenciais Curriculares para a Educação Profissional: área de meio ambiente, BRASIL, 2000. 71 Quadro 10: Competências do Técnico em Meio Ambiente – Terceira Função (Continuação) FUNÇÃO 3 - APLICAÇÃO DOS RECURSOS DE PREVENÇÃO E CORREÇÃO Sub-função 3.1. Legislação e Gestão Sub-função 3.2. Usos de Tecnologias Ambiental Competências Específicas 11-Conhecer analisar o desenvolvimento ambiental de uma organização em relação às emissões atmosféricas e os impactos ambientais causados pelo ruído. 12-Conhecer os mecanismos de percepção e avaliação da significância dos impactos ambientais,domínio de técnicas e procedimentos gerenciais aplicáveis. 13-Avaliar tecnicamente e economicamente tecnologias e práticas gerenciais para a minimização dos impactos ambientais adversos. 14-Conhecer o Plano Diretor local de resíduos sólidos. Fonte: Referenciais Curriculares para a Educação Profissional: área de meio ambiente, BRASIL, 2000. Ao analisarmos as competências sugeridas pelo MEC para os Técnicos em Meio Ambiente, verificamos como esses profissionais devem desenvolver pleno conhecimento da natureza, dos processos industriais que se utilizam dos recursos naturais e principalmente devem conhecer as consequências das alterações antrópicas, seus aspectos e impactos ambientais, afim de promoverem ações preventivas, com o uso de tecnologias corretivas que visando “à melhoria, à recuperação da qualidade ambiental e à preservação dos recursos naturais da vida no Planeta”, onde se incluem as atividades de Educação Ambiental (BRASIL, 2000, p. 47). Percebe-se então que a concepção de meio ambiente que os Técnicos em Meio Ambiente devem desenvolver, obrigatoriamente deve integrar dimensões físico naturais, econômicas, políticas, culturais e sociais, de modo a compatibilizá-la com as experiências históricas de desenvolvimento das sociedades. Sendo assim, a concepção socioambiental não deve ser somente a ampliação do conceito de meio ambiente, mas sim favorecer uma análise dos paradigmas, gerando uma nova percepção da realidade e mudanças no comportamento para com a natureza. A Educação Ambiental tem se mostrado um dos principais instrumentos para o atingimento desse objetivo (PASSOS, 2007). 72 3.2.2 Educação Ambiental no Currículo do Técnico de Meio Ambiente Nas escolas a utilização da Educação Ambiental/Tema Transversal Meio Ambiente deve ser feita por todas as disciplinas indistintamente, conectando o aluno com o mundo ‘fora da sala de aula’, buscando a resolução dos problemas vivenciados no seu dia-a-dia. A Educação Ambiental deve ser trabalhada em caráter transversal e interdisciplinar e a escola tem importante papel nesta trajetória se assumir essa mudança e buscar a realidade dos acontecimentos envolvendo o ambiente em que o aluno se insere. Antes de se verificar a forma com que a Educação Ambiental deve aparecer no currículo dos Técnicos em Meio Ambiente, faz-se necessário apresentar uma análise do significado da interdisciplinaridade. Para entender do que se trata a interdisciplinaridade, deve-se entender primeiro o que é disciplinaridade. Uma disciplina deve estabelecer e definir como a constituição de suas fronteiras: objetos materiais e formais, métodos e sistemas, conceitos e teorias. Assim, podese definir que disciplina tem o mesmo significado de ciência e, portanto, “disciplinaridade significa a exploração científica especializada de determinado domínio homogêneo de estudo” (JAPIASSU, 1976, p. 72) Entende-se aqui então um ponto fundamental: falar da interdisciplinaridade é falar da interação das disciplinas, ou seja, é falar nas interconexões existentes na ciência. Esta realiza a superação ou ultrapassagem das diversas formas de colaboração entre disciplinas diversas, que culminam em interações recíprocas nas trocas de dados, de informações, de resultados e de metodologias. Sabe-se que cada disciplina, por meio de seu enfoque específico, possui a pretensão de fornecer o real e o fato. No entanto, este se revela um real quase sempre reduzido ao ângulo de visão particular daqueles especialistas em questão. Apresentam e explicam a sua realidade através de um ponto de vista particular e próprio. Chega-se então a conclusão de que toda visão monodisciplinar apenas atinge certo sentido parcial e limitado dentro daquela realidade destacada. A visão unidisciplinar fragmenta obrigatoriamente o objeto reduzindo-o a sua escala própria. Desta forma, a Interdisciplinaridade reconstitui a unidade do objeto que a disciplinaridade inevitavelmente pulveriza. Apesar do termo interdisciplinaridade não possuir um sentido epistemológico único e estável, e ser um neologismo cuja significação nem sempre é a mesma, segundo Japiassu (1976) pode-se compreender melhor seu significado ao realizar uma aproximação com outros termos relacionados: multi-, pluri- e transdisciplinaridade. Enquanto os termos multi- e 73 pluridisciplinaridade evocam uma simples justaposição de várias disciplinas, sem necessariamente haver uma interação entre as mesmas, realizando apenas um agrupamento de certos módulos disciplinares, a interdisciplinaridade se caracteriza pela intensidade de trocas entre os especialistas e pelo grau de interação real das disciplinas. Tanto o multi- quanto o pluridisciplinar apenas realizam um agrupamento de módulo disciplinares. No caso do multidisciplinar não há relação alguma entre as disciplinas, apenas exigindo informações tomadas de empréstimo de duas ou mais especialidades sem que as mesmas sejam enriquecidas com as informações das outras. A metodologia multidisciplinar consiste em estudar um objeto sob diferentes olhares. A figura 2 representa esse método da seguinte forma: Figura 02: Multidisciplinaridade - Gama de disciplinas simultâneas sem relações entre as mesmas. Disciplina A Disciplina B Disciplina C Fonte: JAPIASSU, 1976. Já a pluridisciplinaridade apesar de envolver certo grau de relação entre as disciplinas visa apenas à construção de um sistema de um nível só e com objetivos distintos, dando margem a algum envolvimento, porém sem inter-relações entre todas as disciplinas. A figura 3 representa essa metodologia da seguinte forma: Figura 03: Pluridisciplinaridade - Relação entre disciplinas em um nível somente e objetivos distintos. Disciplina A Fonte: JAPIASSU, 1976. Disciplina B Disciplina C 74 No caso da Interdisciplinaridade, refere-se a um grupo de disciplinas conexas e definida no nível hierárquico imediatamente superior, o que introduz a noção de finalidade. Destina-se a um sistema de dois níveis e de objetivos múltiplos no qual há coordenação procedendo do nível superior. A figura 4 exemplifica esse método da seguinte forma: Figura 04: Interdisciplinaridade - Sistema de dois níveis e de objetivos múltiplos com disciplinas conexas. Disciplina D Disciplina A Disciplina B Disciplina C Fonte: JAPIASSU, 1976. Finalmente, apresenta-se a transdisciplinaridade que diz respeito àquilo que está, ao mesmo tempo, “entre” as disciplinas, “através” das diferentes disciplinas e “além” de qualquer disciplina. Seu objetivo é a compreensão do mundo presente, mediante a unidade do conhecimento. Ela não é uma ciência, nem propriedade de uma determinada disciplina. Diferencia-se da pesquisa disciplinar, pluridisciplinar e interdisciplinar, mas é considerada, juntamente com elas, uma das quatro setas do arco do conhecimento. Desta forma, entende-se que o espaço transdisciplinar representa a construção de um sistema total, sem fronteiras sólidas entre as disciplinas, ou seja, de uma teoria geral de sistema e estruturas, que inclua estruturas operacionais e de regulamentação unindo estas diversas probabilidades por meio de transformações reguladas e definidas: 75 Figura 05: Transdisciplinaridade - Sistema de níveis e de objetivos múltiplos; coordenação. Disciplina F Disciplina D Disciplina A Disciplina E Disciplina B Disciplina C Fonte: JAPIASSU, 1976. Os Temas Transversais dos Parâmetros Curriculares Nacionais são uma forma de se tentar viabilizar a interdisciplinaridade, introduzindo assuntos que devem ser tratados pelas diversas disciplinas, cada uma a sua maneira. O currículo passa a ser organizado em disciplinas e em Temas Transversais. Os Temas elencados pelo PCN são: Ética, Saúde, Meio Ambiente, Estudos Econômicos, Pluralidade Cultural e Orientação Sexual (BRASIL, 1997 c). Em síntese, os Temas Transversais são apresentados como assuntos que devem permear as diferentes disciplinas, atravessando-as horizontalmente, mas também cortando verticalmente o currículo, ao longo dos diversos ciclos e séries. Os Temas Transversais não devem, portanto, criar uma nova área curricular. Isso prejudicaria a flexibilidade que se pretende alcançar com sua introdução. Eles devem dizer respeito a temas de um cotidiano dinâmico em transformação, portanto também devem ter a agilidade de poder ser alterados com facilidade e rapidez. Os Parâmetros Curriculares Nacionais não constituem uma alternativa ao currículo disciplinar, são um importante passo para o seu maior aprofundamento. Os Parâmetros Curriculares Nacionais incluem o Meio Ambiente como tema a ser inserido transversalmente nas diversas áreas do conhecimento. A transversalidade no currículo escolar prioriza e contextualiza questões referentes ao meio ambiente de acordo com as realidades locais e regionais. Dessa forma consegue-se estabelecer na prática educativa, 76 não só uma relação entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados, mas também questões da vida real e da sua transformação (BRASIL,1997 e 1998). A inserção da dimensão ambiental na educação profissional é necessária para estimular posturas reflexivas frente às contradições entre “desenvolvimento” e a proteção do meio ambiente. Esse entendimento tem de ser integral. As atividades humanas e profissionais podem ser compatíveis com um desenvolvimento mais sustentável, ou pelo menos, não tão impactante. A Educação Ambiental desenvolvida no espaço escolar não é a solução para problemas ambientais, mas um elemento a mais para preparar as pessoas a fim de que elas próprias procurem as soluções para estes problemas. E esse processo não se limita apenas a uma revisão dos currículos como vimos, mas passa por toda uma nova postura da instituição frente às problemáticas socioambientais, de forma permanente, acompanhando as transformações que se dão no contexto do mundo, do país e da região. Segundo os Referenciais Curriculares para a modalidade do Técnico em Meio Ambiente, além de todas as competências já explanadas nesse trabalho, os egressos do curso deverão estruturar e modular programas de Educação Ambiental para empresas e comunidades, uma vez que a EA pode se transformar num programa educacional completo, podendo ser realizada com eficácia e ser adaptada às necessidades de qualquer organização, a baixo custo (BRASIL, 2000). O mesmo documento cita que o Técnico de Meio Ambiente deverá ser capaz de dialogar com a sociedade implementando projetos de interesse público através de: [...] campanhas de educação ambiental, de campanhas de esclarecimentos de prevenção à poluição e de práticas ambientalmente corretas, por exemplo, incentivando a reciclagem ou o consumo responsável. [...] Assim sendo, novos profissionais de nível pós-médio são necessários para a implementação de projetos ambientais nas esferas pública e privada, envolvendo as áreas da educação ambiental, da pesquisa aplicada e da disseminação de informações (BRASIL, 2000, p.27). Entretanto, destaca-se um fato de suma-importância: apesar de citar a Educação Ambiental, o documento oficial não fazer menção clara às competências, habilidades e bases tecnológicas relacionadas à atribuição de estruturar e modular programas de educação ambiental e de desenvolver campanhas de Educação Ambiental. Isso de certa maneira evidencia uma grande contradição nos Referenciais Curriculares, pois percebe-se claramente que a Educação Ambiental é uma atribuição do Técnico em Meio Ambiente, e deveria ter tido 77 um destaque expressivo. Apenas em uma das habilidades constante na função 3, relacionada a aplicação dos princípios de prevenção e correção, dentro da sub-função 3.2, sobre o uso de tecnologias, referenciam que os Técnicos em Meio Ambiente devem “organizar e atuar em campanhas de mudanças, adaptações culturais e transformações de atitudes e conduta”, fazendo uma alusão a prática pedagógica da Educação Ambiental (BRASIL, 2000, p. 38). Desta forma, chega-se a esse ponto do trabalho observando que, apesar dos alunos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente serem cobrados sobre o desenvolvimento de variadas competências e habilidades profissionais, incluindo-se a Educação Ambiental em suas futuras atividades profissionais, os Referenciais Curriculares deixaram de elencar devidamente essa prática pedagógica para o meio ambiente em suas principais atribuições. Serão então explanados no próximo capítulo os resultados obtidos da pesquisa realizada no Curso Técnico em Meio Ambiente do CP II, o qual também se baseia nos Referenciais Curriculares para essa modalidade da educação profissional. Ver-se-á adiante as percepções dos alunos do curso em relação a temática Educação Ambiental. 78 4 EDUCAÇÃO AMBIENTAL SOB A PERSPECTIVA DOS ALUNOS DO CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE DO COLÉGIO PEDRO II Nesta pesquisa foram utilizados procedimentos qualitativos e quantitativos, com seus fundamentos ancorados no paradigma da Teoria Crítica. A pesquisa qualitativa é, em si mesma, um campo de investigação que atravessa disciplinas, campos e temas, e, por isso, buscou-se realizar um estudo e coleta de dados por meio de materiais empíricos como questionários e documentos que nortearam essa investigação. A pesquisa quantitativa objetiva quantificar os dados colhidos para a realização da análise. A primeira fase da pesquisa foi a exploratória iniciada com o levantamento do Projeto Político Pedagógico do Colégio Pedro II, o Projeto Pedagógico e estrutura curricular do Curso Técnico em Meio Ambiente, objetivando analisar a proposta da escola e do curso no que diz respeito à implementação da Educação Ambiental. Além desses documentos oficiais da escola, também foram analisados as legislações nacionais e internacionais relacionadas ao tema do estudo. Destaca-se aqui a Conferência Internacional de Tbilisi e o documento oficial do MEC, citados por diversas vezes até esse momento: Os Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente (BRASIL, 2000). A segunda fase foi a investigativa, que teve início em novembro de 2009, com a coleta sistemática dos dados para o estudo, utilizando-se de instrumentos auxiliares para a execução dessa atividade. Foram aplicados questionários para a realização de coleta de dados como parte da pesquisa junto aos 47 alunos das duas turmas concluintes do Curso Técnico em Meio Ambiente. Para a escolha dos alunos participantes levou-se em conta a formação das duas primeiras turmas que aconteceu no final do ano de 2009, e que puderam cursar todas as disciplinas ofertadas no curso. Os questionários utilizados continham perguntas abertas e fechadas e objetivaram analisar o grau de percepção dos assuntos relacionados à sua formação profissional especialmente relacionada ao papel de Educador Ambiental. Foi utilizado o modelo do questionário realizado nas pesquisas realizadas no Curso Técnico em Meio ambiente do Colégio Agrícola Nilo Peçanha e no Curso Técnico em Meio ambiente do Colégio Estadual Presidente Kennedy, citados anteriormente, com adequações a novo campo de estudo, participantes e foco dessa pesquisa. 79 Após a aplicação dos questionários, as informações coletadas foram analisadas e possibilitaram o prosseguimento da linha de investigação. Foram realizados, durante a coleta dos dados, constantes processos de identificação de temas e relações, com o objetivo de se construir interpretações e gerar novas questões e/ou aperfeiçoamento das anteriores, até que se encerrasse essa fase. Os dados obtidos foram tabulados utilizando-se o software IBM® SPSS® Statistics (ALVES-MAZZOTTI, 1999; DENZIN & LINCOLN, 2006). 4.1 ASPECTOS GERAIS E RESULTADOS Neste ponto do trabalho são apresentados os resultados obtidos a partir da análise de documentos pesquisados e das respostas dos alunos aos questionários aplicados. O questionário abrangeu três campos principais que cobriram os seguintes aspectos: (1) dados pessoais e atividades extracurriculares, (2) a formação acadêmica adquirida no curso e (3) a percepção dos alunos para com a temática da Educação Ambiental, em 3 eixos principais: Sustentabilidade, Meio Ambiente e a própria Educação Ambiental. Este último campo, com respeito a análise da percepção dos egressos do curso, tem destaque especial no trabalho por ser o objetivo principal da dissertação. A tabela abaixo elenca quatro campos relacionados às informações pessoais dos alunos: gênero, etnia e renda familiar e idade. Seguem na tabela 1 os resultados iniciais obtidos: Tabela 01: Informações Gerais dos Alunos Gênero Masculino: 28% Etnia Feminino: 70,2% Brancos: 34% Negros: 23,4% Mulatos: 42,6% Renda Familiar Abaixo de 02 salários mínimos: 6,4% Entre 2 e 3 salários mínimos: 21,3% Entre 3 e 4 salários mínimos: 14,9% Entre 4 e 5 salários mínimos: 19,1% Entre 5 e 6 salários mínimos: 6,4% Idade Acima de 5 salários mínimos: 27,7% 15 a 18 anos: 72,3% 19 a 21 anos: 21,3% 22 a 24 anos: 4,3% 80 Na tabela acima verificou-se que em ambas as turmas, dos 47 alunos participantes da pesquisa16, 29,8% são do sexo masculino e 70,2% do sexo feminino. Com respeito a etnia 23,4% se auto-denominaram da raça negra, 34,0% da raça branca e 42,6 pardos ou mulatos. Sobre a idade, 72,3% afirmam ter entre 15 e 18 anos, 21,3% entre 19 e 21 anos e 4,3% entre 22 e 24 anos. No tocante a renda familiar, 6,4% afirmam que sua família vivem com menos de 2 salários mínimos, 21,3% entre 2 e 3 salários mínimos, 14,9% entre 3 e 4 salários mínimos, 19,1% entre 4 e 5 salários mínimos, 6,4% entre 5 e 6 salários mínimos e 27,7% com renda acima de 6 salários mínimos. Ainda sobre os aspectos pessoais, a respeito da formação recebida anteriormente, 97,9% concluíram o ensino fundamental em escolas/colégios do ensino regular e 2,1% no EJA. 12,8% dos alunos estudaram no próprio Colégio Pedro II, 17,0% em outra escola pública, 55,3% em escola particular, 12,7% parte em escola pública e parte em escola particular. Sabe-se que as questões ambientais estão sendo bem discutidas e desta forma despertam o interesse em toda a sociedade civil. Esse grau de interesse dos alunos nos assuntos ambientais ficou evidente, pois 66% responderam que o principal motivo de realizarem o curso foi o grande interesse nessas questões, 8,5% pela indicação de amigos, 4,3% não tinham outra opção e 21,3% responderam que foi por outros motivos, como por exemplo, o desejo dos pais pelo fato de estudarem no Colégio Pedro II, devido a sua tradição no ensino. No ano de 2001, o colégio Pedro II iniciou o Projeto Área Verde cujo objetivo principal era recuperar áreas degradadas em seu espaço físico. Um dos primeiros a ser restaurados foi o Horto situado no Complexo Educacional de São Cristóvão III. Ao longo dos últimos anos o projeto Área Verde e o Horto ofereceram atividades/oficinas envolvendo os alunos do Colégio, inclusive os do Curso Técnico em Meio Ambiente. Sabe-se que a teoria e prática devem estar relacionadas dentro do curso. Estas são conseguidas por meio do desenvolvimento de projetos, seminários, oficinas, visitas técnicas, pois tratam-se de atividades facilitadoras para se promover a integração entre teoria e a práxis, contextualizando o ensino e envolvendo a solução de problemas e/ou de estudos de caso. Foi indagado aos alunos qual foi o grau de satisfação com respeito as atividades/locais oferecidas pelo curso, obtendo-se as respostas que constam no quadro seguinte: 16 Dos 54 alunos matriculados nas duas turmas concluintes do Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII, 7 não participaram na pesquisa por questões pessoais (faltaram nos dias que foram aplicados os questionários ou decisão individual). 81 Tabela 02: Atividades Extracurriculares Grau de Satisfação Insatisfeito Pouco satisfeito Satisfeito Muito satisfeito Insatisfeito Seminários Pouco satisfeito e palestras Satisfeito Muito satisfeito Insatisfeito Visitas Pouco satisfeito Técnicas Satisfeito Muito satisfeito Horto % 8,5 31,9 31,9 27,7 4,3 21,3 48,9 25,5 23,4 36,2 23,4 17,0 Na tabela acima destaca-se o horto com um dos locais mais bem conceituados pelos alunos para a realização das atividades no curso. Do total dos alunos que responderam essa questão, 27,7% se sentiam muito satisfeitos, 31,9% satisfeitos, 31,9% pouco satisfeitos e 8,5% se declararam insatisfeitos com o horto do Colégio Pedro II. Obteve-se também o retorno dos alunos no que diz respeito a ocorrência de seminários e palestras no decorrer do curso: 48,9% dos alunos responderam que ficaram satisfeitos com essas atividades extracurriculares, 25,5% ficaram muito satisfeitos, 21,3% pouco satisfeitos e 4,3% insatisfeitos. Com respeito as Visitas Técnicas, no geral, os alunos fizeram uma boa avaliação. Com respeito ao segundo campo analisado no questionário, sobre a formação acadêmica adquirida, perguntou-se aos alunos qual foi o conceito obtido nas disciplinas do curso (Formação Geral e Profissional), considerando-se os seguintes quesitos: disciplinas mais difíceis e mais fáceis; sem importância e mais importante, seguidos por justificativas. Segue abaixo a tabela que destaca as duas disciplinas mais citadas dentro dos quesitos estabelecidos: Tabela 03: Disciplinas do Curso Técnico em Meio Ambiente Quesitos 1. Disciplinas mais difíceis 2. Disciplinas mais fáceis Disciplinas % Química Analítica 40,4 Legislação Ambiental 23,4 Estudos de Impactos Ambientais 36,2 Memória e Patrimônio do Meio Ambiente 14,9 82 Tabela 03: Disciplinas do Curso Técnico em Meio Ambiente (continuação) Quesitos Disciplinas % 3. Disciplinas mais importantes Estudos de Impactos Ambientais 19,1 Manejo de Ecossistemas Aquáticos e Terrestres 23,4 4. Disciplinas menos Respostas em Branco 38,3 Memória e Patrimônio do Meio Ambiente 42,6 Importantes Analisando-se os resultados obtidos nessa parte do questionário, destacam-se duas disciplinas que foram as citadas em mais de um quesito: Estudos de Impactos Ambientais (EIA) e Memória e Patrimônio do Meio Ambiente (MPMA). A disciplina EIA foi escolhida pelos alunos como a mais fácil (36,2%) e uma das mais importantes (19,1%) do curso. Neste último conceito a disciplina Estudos de Impactos Ambientais ficou abaixo apenas da disciplina Manejo de Ecossistemas Aquáticos e Terrestres (23,4%). Esse fato é digno de destaque, pois para o conceito de disciplina mais fácil foram citadas outras quatorze disciplinas cujo percentual foi abaixo de 9,0 % de escolha entre os alunos e sobre o conceito de disciplina mais importante, foram citadas outras treze disciplinas cujo percentual foi abaixo de 7,0 % de escolha entre os alunos, evidenciando assim a importância dessa disciplina na percepção dos alunos do curso. Seguem alguns comentários feitos pelos alunos sobre a disciplina EIA: “Ajudou para [obter] a visão de resoluções para os impactos ambientais, importante para o técnico” (Aluno 2); “[Ajudou a] avaliar os impactos causados por cada atividade e seu grau [ de riscos]” (Aluno 22); “[Ajudou a] entender as causas e soluções dos impactos” (Aluno 36). De outro lado a disciplina Memória e Patrimônio do Meio Ambiente foi a mais citada dentre as “disciplinas mais fáceis” (14,9%) e “disciplinas menos importante” (42,6%). Seguem comentários realizados pelos alunos: “Aumentou meu conhecimento sobre a história de bairros como São Cristóvão e Jardim Botânico” (Aluno 2); 83 “[Ajudou em] quase nada” (Aluno 13); “[Ajudou a] estudar a história do colégio” (Aluno 36). Esta disciplina foi a mais citada na categoria de disciplina menos importante. Ressaltase que a segunda escolha dos alunos neste item foi deixar a questão em branco, pois para a maioria desses alunos todas as disciplinas tiveram alguma contribuição e por isso não poderiam escolher outras disciplinas “menos importante”. Quando 42,6% do restante dos alunos afirmam que a disciplina Memória e Patrimônio do Meio Ambiente foi a “menos importante” do curso, observa-se que por um lado, eles podem não ter conseguido enxergar a relação dos assuntos tratados com as questões ambientais, por não considerar o patrimônio cultural como algo relacionado ao meio ambiente, e por outro lado, podem ter tido dificuldades em seu aprendizado através da metodologia aplicada no ensino desta temática. Esse fato não foi devidamente esclarecido nas respostas dos alunos de ambas as turmas. 4.2 PERCEPÇÕES DOS ALUNOS DO CURSO TÉCNICO EM MEIO AMBIENTE SOBRE A EDUCAÇÃO AMBIENTAL O programa dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente fundamentam-se nos Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de Nível Técnico - Área Profissional: Meio Ambiente. Conforme já descrito, o Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII integra o ensino médio com a educação profissional e busca atender as recomendações dos Referenciais Curriculares para essa modalidade. Os resultados apresentados nesta seção enfocam o terceiro e último campo proposto no questionário: a percepção dos alunos em relação ao seu papel como Educadores Ambientais (BRASIL, 2000). A Educação Ambiental deve ser uma das atribuições do Técnico em Meio Ambiente, pois segundo os Referenciais Curriculares do MEC, estes profissionais “poderão estruturar e modular programas de educação ambiental para empresas e comunidades”. Ainda de acordo com este documento, o Técnico em Meio ambiente deverá desenvolver a capacidade “[...] de dialogar com a sociedade civil na implementação de projetos de interesse público, de campanhas de educação ambiental, de campanhas de esclarecimentos de prevenção à poluição e de práticas ambientalmente corretas” visando à construção de pensamentos e atitudes ambientalmente corretas (BRASIL, 2000, p. 20, 27). Apesar dessas colocações referentes a atribuição para os egressos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente, os Referenciais 84 Curriculares não definem claramente a Educação Ambiental como uma competência a ser desenvolvida pelos formandos do curso, destacando apenas o caráter tecnicista e biologizante em seu conteúdo curricular. (NOVICKI; GONZALEZ, 2003). Conforme já expressado, o documento elenca três funções ou competências principais que são (1) o reconhecimento dos processos nos recursos naturais, que envolvem os estudos das ações conservação e da degradação natural, (2) a avaliação das ações antrópicas onde são identificadas as atividades dos seres humanos que causam desequilíbrio a natureza e ao próprio homem e (3) a aplicação dos princípios de prevenção e correção para se mitigar os impactos socioambientais. Cada função ou competência principal se subdivide em duas outras áreas que são chamadas de sub-funções, conforme descrito na tabela 4 abaixo: Tabela 04: Funções e Sub-funções do Técnico em Meio Ambiente Função 1 - Reconhecimento dos Processos nos Recursos Naturais Sub-função 1.1: Processos de Conservação Sub-função 1.2: Estudos dos Processos de Degradação Natural Função 2 - Avaliação das Intervenções Antrópicas Sub-função 2.1: Exploração dos Recursos Naturais Sub-função 2.2: Processos Produtivos Função 3 - Aplicação dos Recursos de Prevenção e Correção Sub-função 3.1: Legislação e Gestão Ambiental Sub-função 3.2: Usos de Tecnologias Fonte: BRASIL, 2000. Sob cada uma das sub-funções ou áreas citadas nos Referenciais Curriculares são elencadas competências específicas que os egressos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente devem desenvolver. Estas totalizam 54 ao todo, além das habilidades e bases tecnológicas alistadas no documento. Porém, em nenhuma das 54 competências específicas, se quer aparece a expressão “Educação Ambiental”. Este é um fato digno de destaque, pois conforme foi abordado no decorrer desse estudo, os Cursos Técnicos em Meio Ambiente devem tomar como base as orientações alistadas no documento do MEC. Desta forma, a falta de informação oficial sobre a Educação Ambiental, pode se tornar um entrave aos Cursos Técnicos em Meio Ambiente no desenvolvimento dessa importante atribuição relacionada com a conscientização e prevenção dos problemas socioambientais. 85 Os Referenciais Curriculares citam habilidades e bases tecnológicas as quais os egressos do curso também deverão desenvolver. Supõe-se que uma das habilidades constante no documento referente a “organizar e atuar em campanhas de mudanças, adaptações culturais e transformações de atitudes e conduta” esteja mais relacionada com essa atribuição (BRASIL, 2000. p.28; NOVICKI & GONZALEZ, 2003). A partir dessa habilidade foi montada uma série de questões que pudessem analisar a percepção dos alunos relacionadas ao seu papel como Educador Ambiental. Foi tida como referência a principal Conferência Internacional voltada a Educação Ambiental, que foi a de Tbilisi analisada no capítulo dois desse trabalho. De acordo com a recomendação n° 1 de Tbilisi cabe à Educação Ambiental fornecer “conhecimentos necessários para interpretar os fenômenos complexos que configuram o meio ambiente e desta forma fomentar os valores necessários que favoreçam o desenvolvimento” de comportamentos e ações visando à preservação e melhoria desse meio ambiente (UNESCO, 1978, p. 25). Visto que a Educação Ambiental deve ser aplicada de maneira transversal, e, portanto, não pode se configurar em uma disciplina específica (facilmente observada e mensurada), para que se pudesse analisar a sua inserção no conteúdo programático do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II, inicialmente foram incluídas algumas perguntas-chave no questionário aplicado as turmas, para que então pudesse observar as percepções dos alunos. As perguntas foram relacionadas a 3 eixos principais: (1) Conceitos básicos sobre Meio Ambiente, (2) Sustentabilidade e (3) a implementação de programas e ações de Educação Ambienta, e objetivaram verificar o entendimento e percepção dos alunos nessas questões. Elaboraram-se três perguntas relacionadas a esses 3 eixos, visando analisar o embasamento conceitual dos alunos do curso: (1) O que você entende por Meio Ambiente? (2) O que você entende por Desenvolvimento Sustentável? (3) O que você entende por Educação Ambiental? 86 Dentro da primeira questão, que abordou o conceito mais básico relacionado a temática ambiental que é a definição de “ meio ambiente”, elencaram-se três opções para que os alunos pudessem escolher sua resposta. Indagou-se aos mesmos sobre o que entendiam sobre meio ambiente e as opções foram: (A) Os animais, as florestas, os rios, os minerais, ou seja, a natureza; (B) A natureza, os seres humanos e os problemas decorrentes da relação entre eles (esgotamento e poluição dos recursos naturais, exclusão/desigualdade social); (C) Tudo que está ao nosso redor e é importante para a nossa sobrevivência. O gráfico 1 apresenta os resultados das respostas dos alunos do curso evidenciando aspectos importantes para essa análise: Gráfico 01: Definição de Meio Ambiente Respostas em branco. 2,1% 2,1% Somente a natureza. Tudo a nossa volta. 17,0% Tudo para nossa sobrevivência. 59,6% Ao observar o gráfico acima, percebeu-se que 59,6% dos alunos escolheram a opção17 “C” e entendem que meio ambiente é tudo aquilo a nossa volta e necessário para nossa sobrevivência; 17% escolheram a opção “B” entendendo que meio ambiente são os seres 17 No questionário aplicado, apesar da resposta em branco ser levada em consideração, apenas será feito referência a mesma se houver um fator de análise importante que deva ser destacado. Caso contrário apenas será citada nos gráficos e quadros explicativos. 87 humanos, a natureza e os problemas ambientais decorrentes do uso dos recursos naturais; e por fim, 2,1% escolheram a opção “A” definindo que meio ambiente é a natureza, como os rios, animais, florestas e etc. excluindo o ser humano desse contexto. Para uma análise dos dados obtidos no gráfico 1, tomou-se por base a Recomendação nº 1 da Conferência Intergovernamental de Tbilisi que afirma que a Educação Ambiental é o resultado da articulação de diversas disciplinas e experiências educativas que propiciam a percepção integrada do meio ambiente, e que o objetivo fundamental da EA é possibilitar que os “indivíduos e a coletividade compreendam a natureza complexa do meio ambiente natural e do meio ambiente criado pelo homem, resultante da integração de seus aspectos biológicos, físicos, sociais, econômicos e culturais” percebe-se um aspecto importante (UNESCO, 1978, p.25). Mediante as respostas obtidas no questionário mais de 60% (somatório das respostas das opções “A” e “C”) dos alunos do curso não compreenderam perfeitamente que o meio ambiente, além de envolver a natureza, os recursos naturais tão necessários para nossa sobrevivência, engloba as inter-relações dos diversos aspectos que compõem a vida humana em nosso planeta, incluindo os seres humanos e os problemas ambientais gerados por essas relações. Tal concepção, conforme delineado pela Conferência de Tbilisi, é necessária para a atuação dos educadores ambientais. Sobre a segunda questão que indagou aos alunos sobre o conceito de “desenvolvimento sustentável” foram elencadas três questões para avaliar o grau de entendimento dos alunos com respeito a esse assunto: (A) Produzir com eficiência, ou seja, produzir mais com um mínimo de matéria prima (preocupação com o não esgotamento dos recursos naturais) e de poluição (baixo ou nenhum lançamento de gases, de efluentes nos cursos d’água etc.) e, desta forma, aumentando o lucro do empreendimento e preservando o meio ambiente; (B) Produzir de acordo com os limites naturais, ou seja, limitar a produção e o consumo ao que a natureza nos oferece; (C) Produzir com um mínimo de matéria prima e de poluição, levando em consideração também a qualidade de vida dos trabalhadores e da sociedade em geral (saúde, alimentação, habitação, educação etc.) e, desta forma, conjugando o aumento do lucro do empreendimento, preservação ambiental e justiça social. 88 O gráfico 2 abaixo apresenta os resultados das respostas dos alunos do curso evidenciando também aspectos importantes para essa análise. Gráfico 02: Definição de Desenvolvimento Sustentável Respostas em branco. 4,3% Produzir com eficiência. 12,8% Produzir com limites. 8,5% Produzir o mínimo. 74,5% Através das respostas dos alunos descritas no gráfico 2 percebem-se aspectos valiosos para essa consideração. Na percepção de 74,5% dos alunos, que responderam a questão “C”, desenvolvimento sustentável seria produzir com um mínimo de matéria prima e de poluição possível conjugando o aumento do lucro do empreendimento, preservação ambiental e justiça social; 12,8% escolheram a opção “A” compreendendo que desenvolvimento sustentável seria produzir com eficiência, ou seja, produzir mais com um mínimo de matéria prima e poluição; e 8,5% optaram pela questão “B” entendendo que seria produzir de acordo com os limites naturais, ou seja, limitar a produção e o consumo ao que a natureza nos oferece. A declaração de Tbilisi em sua recomendação de n° 23 afirma que a Educação Ambiental deve oferecer à população mundial os conhecimentos necessários para utilizar a natureza e os recursos naturais, controlando a qualidade do meio ambiente de modo que este possa continuar melhorando ao invés de se deteriorar. Observou-se na percepção da grande maioria dos alunos (74,5%) o entendimento correto do conceito de desenvolvimento sustentável que vem ao encontro da recomendação de Tbilisi destacada acima (UNESCO, 1978). 89 Para analisar, mas especificamente os conceitos da Educação Ambiental Crítica, adquiridos no Curso Técnico em Meio Ambiente do CPII, elencou-se três questões que os alunos deveriam optar por aquela que julgasse mais adequada ao seu entendimento sobre Educação Ambiental. As opções eram: (A) Processo educativo voltado para a preservação dos recursos naturais, através principalmente da mudança de comportamento individual. (B) Processo educativo preocupado principalmente em datas comemorativas. com a questão ambiental, (C) Processo educativo que visa a construção de conhecimentos e habilidades práticas para a prevenção e a solução dos problemas ambientais, através da mudança de valores, de comportamentos e de atitudes dos indivíduos e da sociedade. O gráfico 3 apresenta os resultados das respostas dos alunos do curso evidenciando o entendimento deles sobre o conceito de Educação Ambiental. Gráfico 03: Definição de Educação Ambiental Respostas em branco. 2,1% Processo Educativo de preservação. 8,5% 2,1% Educação em datas comemorativas. Processo Educativo para mudanças de valores e atitudes. 87,2% Na percepção de 87,2% dos alunos “Educação Ambiental” seria um processo educativo que visa à construção de conhecimentos para a prevenção e a solução dos problemas ambientais, através da mudança de conceitos dos indivíduos e da sociedade. 90 Segundo a recomendação n° 1 de Tbilisi “um objetivo fundamental da educação ambiental é lograr que os indivíduos e a coletividade adquiram os conhecimentos, os valores, os comportamentos e a habilidades práticas para participar responsável e eficazmente” da prevenção e solução dos problemas do ambiente (UNESCO, 1977). A maioria dos alunos optou pela questão que se harmoniza com essa concepção delineada pela Conferência de Tbilisi evidenciando conhecimento sobre o conceito de Educação Ambiental. Em outro trecho do questionário, foi indagado aos alunos se eles se sentiam em condições de criar, implementar e avaliar algumas ações relacionadas a atividade de Educação Ambiental. As questões foram as seguintes: (1) Realizar programas ou campanhas de educação ambiental em suas diversas formas e modelos; (2) Montar um diagnóstico socioambiental local/ regional. Os alunos deveriam responder essas duas questões informando se (A) conseguiram desenvolver as competências solicitadas, (B) não conseguiram desenvolver ou (C) se desenvolveriam as mesmas parcialmente. O Gráfico 4 apresenta os resultados obtidos no questionário. Referente ao primeiro questionamento sobre a realização de programas e campanhas de Educação Ambiental, o gráfico abaixo constatou o seguinte: Gráfico 04: Programas ou Campanhas de Educação Ambiental Sim. Não. Parcialmente. 44,7% 44,7% 10,6% 91 O gráfico na página anterior evidenciou que se de um lado, 44.7% dos alunos responderam que conseguiriam desenvolver programas ou campanhas de Educação Ambiental, de outro lado, o mesmo percentual de alunos, ou seja, 44,7% disseram que conseguiriam desenvolver essas ações parcialmente e 10,6% dos alunos responderam que não conseguiram realizar ações de Educação Ambiental Ao relacionarmos os resultados do gráfico 4 acima com os do gráfico 3, que indagou sobre o conceito de Educação Ambiental, surge um fator digno de nota. Dos 87,2% dos alunos que responderam corretamente sobre o significado do conceito de Educação Ambiental, mais da metade, ou seja, 55,6% dos alunos (somatório dos que responderam que conseguiriam parcialmente [44,7%] com os que responderam que não conseguiriam [10,6%]) afirmaram não se sentir aptos a desenvolver os programas de Educação Ambiental. Alguns depoimentos colhidos junto a este percentual de alunos evidenciam a distância entre o “conhecer” e o “fazer” Educação Ambiental: [...] Pois no curso não tratamos muito sobre esses assuntos (aluno 13); [...] Implementar e avaliar sim, mas pouca base para criar (aluno 15); [...] Porque houve pouco/nenhum incentivo durante o curso (aluno 16); [...] Tenho bastante teoria ambiental, mas falta um pouco de prática (aluno 20). Sabe-se que a educação geral é mediadora da atividade humana ao articular teoria e prática. Da mesma forma, a Educação Ambiental é mediadora da apropriação do homem em sua capacidade de transformar, por meio de suas atitudes, o ambiente em que vivem. Não existe Educação Ambiental Crítica sem práxis. O processo Educativo Ambiental “é o movimento de fazer-se plenamente humano pela apropriação/transmissão crítica e transformadora da totalidade histórica e concreta da vida dos homens no ambiente”. Desta forma, os egressos do Curso técnico em Meio Ambiente do CPII, por meio de suas repostas, evidenciaram conhecer o significado da prática Educativa Ambiental, mas sentem-se em grande parte, inaptos a desenvolverem ações relacionadas (TOZONI-REIS, 2004, p. 147) 92 Ainda segundo Novicki (2006) visto que “a educação, em uma pedagogia crítica, deve ser contextualizada, ou seja, a abordagem dos conteúdos programáticos precisa levar em consideração as desigualdades/diversidades social, cultural e ambiental dos alunos”, se faz necessário antes de todo processo de educação ambiental realizar um diagnóstico “Socioculturalambiental” do entorno da localidade a ser trabalhada. Nessa perspectiva perguntou-se aos alunos se conseguiriam realizar um diagnóstico socioambiental. O gráfico seguinte apresenta os resultados: Gráfico 05: Diagnóstico Socioambiental Local/Regional Sim. Não. Parcialmente. 34,0% 51,1% 14,9% O gráfico 5 evidenciou que 51,1% dos alunos responderam que conseguiriam desenvolver parcialmente um diagnóstico socioambiental local/regional evidenciado assim algum despreparo para com o tema proposto. Na percepção de 34 % dos alunos, conseguiriam implementar o diagnóstico e 14,9% disseram que não estariam aptos para desenvolver essa ação. Seguem abaixo alguns comentários colhidos juntos aos alunos: Não me sinto totalmente seguro para esse tipo de atividade, mas o curso nos oferece esse tipo de conhecimento (Aluno 1); Porque já adquiri conhecimentos no estágio necessário para tal (Aluno 5); Tenho bastante teoria ambiental, mas falta um pouco de prática (Aluno 19); Tenho uma noção básica (Aluno 21). 93 Mais da metade dos alunos responderam que conseguiriam parcialmente ou não conseguiriam realizar um diagnóstico sociocultural ambiental em suas localidades, evidenciando desconforto para as atividades de Educação Ambiental. Ao se cruzar os resultados obtidos nos gráficos 5 com os dados colhidos nos gráficos 3 e 4, mediante as percepções dos egressos do curso, percebeu-se que ainda pairam dúvidas na mente dos alunos sobre o verdadeiro papel de um Educador Ambiental, apesar de sua compreensão em certa medida, dos principais conceitos relacionados ao meio ambiente e da própria Educação Ambiental. Na sequência da observação da ótica dos alunos sobre a Educação Ambiental Crítica, foram elencados seis objetivos no questionário, que estavam no Projeto Pedagógico do Curso, os quais foram analisados e verificados com a seguinte graduação. Caso o aluno considerasse que os objetivos do curso foram atingidos eles teriam duas opções para escolherem: “Totalmente” (T) ou “Parcialmente” (P). Caso eles considerassem que o curso não atingiu o objetivo em determinado ponto eles deveriam escolher a opção “não”. Seguem os resultados na tabela 5 abaixo: Tabela 05: Objetivos do Curso Técnico em Meio Ambiente ATINGIDO (%) Objetivos A Desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão na área ambiental, transformando o CP II em pólo regional de referência em questões ambientais. B Atuar nas esferas da educação, da preservação e da recuperação ambiental. C Capacitar profissionais críticos e aptos a intervir na busca de soluções para os problemas ambientais. D Qualificar recursos humanos para desempenhar funções técnicas, educativas e administrativas ligadas à área ambiental. E Desenvolver nos alunos a capacidade empreendedora como alternativa para inserção no mercado de trabalho. F Preparar os alunos para o trabalho em equipe, desenvolvendo a capacidade de liderança e o discernimento para a tomada de decisões. NÃO (%) TOTAL PARCIAL 12,8 31,9 55,3 51,1 40,4 8,5 53,2 40,4 6,4 53,2 36,2 10,6 48,9 27,7 23,4 59,6 31,9 8,5 Destaca-se na tabela acima a opção “A” que diz respeito ao objetivo em “Desenvolver atividades de ensino, pesquisa e extensão na área ambiental, transformando o CP II em pólo regional de referência em questões ambientais”. Os resultados mostraram que 55,3 % 94 consideraram que o curso não atingiu esse objetivo, 31,9% parcialmente e 12,8% totalmente. Estes percentuais evidenciam um fato importante sobre o curso. Por serem as duas primeiras turmas, naturalmente ainda devem existir questões e aspectos para serem aprimorados em toda a estrutura do curso para que, no futuro, possa ser considerado um “pólo regional de referência em questões ambientais”, apesar da tradição de ensino de qualidade do Colégio Pedro II. Ainda destacando a tabela anterior, ressalta-se a opção “B” que abordou o aspecto da atuação dos alunos nas esferas da educação, preservação e recuperação ambiental. Neste campo, segundo a percepção dos alunos, 51,1% responderam que o curso atingiu esse objetivo totalmente, 40,4% parcialmente e 8,5% indicaram que o curso não atingiu esse objetivo. Destacam-se esses dados, pois tem uma relação com o objetivo principal do estudo aqui descrito. Notou-se, através dos gráficos já analisados nessa pesquisa, que grande parte dos alunos do curso teve dificuldades em assimilar essa temática ministrada no decorrer dos programas das aulas e mais uma vez, segundo a percepção dos alunos do curso, indicam através das respostas da tabela 5, que não obtiveram total preparação para as atividades de EA. Os resultados que serão apresentados na tabela 6 são baseados no campo do questionário aplicados aos alunos onde foram inseridas as três funções ou competências principais sugeridas pelos Referenciais Curriculares: (1) Reconhecimento dos Processos nos Recursos Naturais, (2) Avaliação das Intervenções Antrópicas e (3) Aplicação dos Recursos de Prevenção e Correção. Estas funções correspondem nos questionários às questões “A”, “B” e “C”. Além das principais funções, foi inserida a atribuição citada nos Referenciais Curriculares referente à concepção e elaboração de programas de Educação Ambiental, a qual já foi discutida na pesquisa como sendo muito pouco destacada no documento. Esta atribuição corresponde no questionário à questão “D”. Acrescentou-se no questionário duas outras competências relacionadas com a EA: “Elaborar um diagnóstico/caracterização social e ambiental de uma região/local” (questão “E”) e “Intermediar interesses em uma situação de conflito ambiental” (questão “F”). Seguem os resultados obtidos junto aos alunos do curso: Tabela 06: Avaliação das Competências Socioambientais Competências A Identificar e caracterizar os processos de conservação e de degradação natural. SIM (%) T 27,7 P 72,3 NÃO (%) - 95 B C D E F Avaliar os diferentes impactos ambientais, decorrentes da exploração dos recursos naturais e das atividades produtivas em geral, na perspectiva do desenvolvimento sustentável. Aplicar os princípios de prevenção e correção dos impactos ambientais: legislação, gestão ambiental e uso de tecnologias. Conceber, planejar e executar programas ou campanhas de Educação Ambiental para empresas, órgãos públicos, ONGs e comunidades. Elaborar um diagnóstico/caracterização social e ambiental de uma região/local. Intermediar interesses em uma situação de conflito ambiental. 93,6 6,4 - 25,5 68,1 6,4 19,1 46,8 34,0 34,0 57,4 8,5 26,2 38,3 25,5 Na tabela acima verificou-se que a maioria dos alunos (93,6%) responderam que conseguiriam “avaliar os diferentes impactos ambientais, decorrentes da exploração dos recursos naturais e das atividades produtivas em geral, na perspectiva do desenvolvimento sustentável”. Ao se fazer uma relação dessas respostas com as respostas obtidas na tabela 3, onde foram indagadas sobre as disciplinas “mais importantes” e “mais fáceis”, a disciplina Estudo de Impactos Ambientais (EIA) que foi a mais citada debaixo desses itens, realmente contribuiu para o aprendizado dos discentes nessas competências. Quando indagou-se ao alunos participantes da pesquisa na questão “D”, se ao término do curso haviam desenvolvido a competência de “Conceber, planejar e executar programas ou campanhas de Educação Ambiental para empresas, órgãos públicos, ONGs e comunidades”, as respostas foram: 46,8% (sim/parcialmente), 34% (não) e 19,1% (sim/totalmente). As repostas analisadas evidenciam um conhecimento muito mais tecnicista e biologizante do que crítico e emancipatório. Destaca-se também na tabela acima as respostas da questão “E” onde 57,4% dos alunos responderam que de forma parcial poderiam elaborar um diagnóstico ou a caracterização social e ambiental de uma região para a implementação da Educação Ambiental, 34% responderam totalmente e 8,5% responderam que não conseguiriam realizar essa atividade, evidenciando certa dificuldade no desenvolvimento da competência. Já nas respostas da questão “F” constatou-se que 38,3% conseguiriam parcialmente, 25,5 % não conseguiriam e 26,2% realizariam essa atividade em caráter total. A análise dos resultados da tabela 6 nos indicam que apesar das competências elencadas no questionário serem atribuição relacionadas com a EA para os egressos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente, a maioria dos alunos do Curso Técnico em meio Ambiente do Colégio Pedro II, na maioria das competências se sentiram parcialmente aptos, 96 ou em algumas competências, não se sentiram capazes de realizar essa prática educativa, nas suas mais diversas formas em suas futuras atividades profissionais. Necessita-se de mais pesquisas para afirmar que o Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II não atingiu seus objetivos ao desenvolverem em seus alunos a percepção sobre as questões ambientais e, mais detidamente, sobre as ações de Educação Ambiental nas atividades dos Técnicos de Meio Ambiente. Porém, de acordo com os dados colhidos através da aplicação do questionário junto aos alunos do Curso, e especialmente ao verificarmos os Referenciais Curriculares para essa modalidade de educação, a qual o curso buscou seguir, fica claro que a Educação Ambiental não foi devidamente enfatizada, e desta forma, os egressos do curso evidenciaram dificuldades na assimilação e formação de competências específicas para atividades de Educação Ambiental. 97 CAPÍTULO 5: CONSIDERAÇÕES FINAIS “Se a educação sozinha não transforma a sociedade sem ela tampouco a sociedade muda”. Paulo Freire. Segundo a Política Nacional de Educação Ambiental, o objetivo primordial dessa prática educativa é a construção de valores sociais, habilidades e conhecimentos, atitudes e competências voltadas para a preservação do ambiente. Além disso, deve possibilitar o desenvolvimento de uma compreensão integrada ao ambiente com suas múltiplas e variadas relações, que envolvem questões ecológicas, psicológicas, legais, políticas, sociais, econômicas, científicas, culturais e sobretudo éticas (BRASIL, 1999). Por sua importância, a Educação Ambiental deve ser um componente permanente na educação nacional, estando presente, de forma articulada, em todas as modalidades do processo educativo. Foi destacado nesse trabalho que esta deve ser realizada em caráter formal, através da educação básica, educação infantil, no ensino fundamental e ensino médio, na educação superior, educação especial, na educação de jovens e adultos e na educação profissional, como foi o caso do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II. Além disso, deve ser trabalhada em caráter não-formal, o que inclui programas e campanhas educativas com informações sobre temas relacionados ao meio ambiente com a participação de empresas públicas e privadas, organizações não-governamentais em unidades de conservação com suas populações tradicionais e agricultores. Uma crítica construtiva à Política Nacional de Educação Ambiental tem a ver com a questão de a mesma combinar a educação formal e não-formal, porém se esquecendo da educação informal que nada mais é do que aquela praticada no dia a dia. É a mesma que se dá quando, por exemplo, uma mãe orienta seu filho a reutilizar o lado em branco de folhas rabiscadas para desenhar em sua casa; quando um motorista deixa de lançar do seu carro para fora uma lata de refrigerante ou cerveja para então descartá-la no lixo, ou quando um Técnico em Meio Ambiente fora de seu horário administrativo de serviço, aproveita de seus conhecimentos para elucidar um pormenor ligado à temática ambiental com o intuito de motivar o outro a se aperceber da importância da preservação do ambiente. Talvez esse tipo de modalidade da Educação Ambiental seja um dos que forneça melhores e mais positivos resultados, pois se aproveita da oportunidade e momento específicos para modificar os conceitos, atitudes e valores daquele que se dispôs a ouvir. Essa 98 competência vem ao encontro das orientações dos Referenciais Curriculares para os cursos Técnicos em Meio Ambiente pois estes “deverão constituir instrumentos eficazes visando capacitar recursos humanos para a prática de ações no meio ambiente em nível operacional, contribuindo para a conscientização da população sobre as questões ambientais prementes (BRASIL, 2000, p. 47). Conforme destacado também nesse estudo, ocorreram diversas Conferências Internacionais sobre Educação Ambiental como as de Conferência das Nações Unidas sobre o Ambiente Humano (Estocolmo, 1972), a Conferência de Belgrado, (Belgrado, 1975), a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental (Tbilisi, 1977) o Congresso Internacional sobre Educação e Formação Ambientais (Moscou, 1987), a II Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio de Janeiro, 1992) e a Conferência Internacional sobre Meio Ambiente e Sociedade: Educação e Consciência Pública para a Sustentabilidade (Tessalônica, 1997). Em todas estas chamou-se atenção para a necessidade de se articularem ações de Educação Ambiental entre governo, instituições e sociedade pública. Há uma questão a ser destacada sobre a Conferência Intergovernamental sobre Educação Ambiental ocorrida na Conferência de Tbilisi, marco mundial nesse segmento, pois nesse encontro foram determinados os princípios norteadores das práticas educacionais ligadas à preservação e conscientização ambiental a serem implementadas no planeta. Os conceitos e orientações apresentados em Tbilisi, em treze dias de evento, não surgiram da noite para o dia; foram necessários anos de preparo e estudos para que se chegasse às recomendações finais. Esta Conferência, realizada no ano de 1977, foi considerada um prolongamento da Conferência de Estocolmo, de 1972, e da Reunião de Belgrado, de 1975. Como é de amplo conhecimento, somente 20 anos após a Conferência de Estocolmo o Brasil participou de forma mais efetiva numa grande conferência internacional ligada ao meio ambiente: a ECO-92, ocorrida na cidade do Rio de Janeiro. Nessa reunião as orientações de Tbilisi foram novamente corroboradas. Porém, ações efetivas no âmbito da Educação Ambiental no Brasil só foram implementadas no ano de 1994, quando o Ministério da Educação e Cultura, o Ministério do Meio Ambiente e o Ministério da Ciência e Tecnologia editaram o Programa Nacional de Educação Ambiental (ProNEA18), sendo este o grande 18 O ProNEA é um programa de âmbito nacional, cujo caráter prioritário e permanente deve ser reconhecido por todos os estados e municípios, e tem como eixo orientador a perspectiva da sustentabilidade ambiental na construção de um país de todos (BRASIL, 2005). 99 fomentador da Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA) já analisada e discutida nessa pesquisa. Somente após a construção desses instrumentos pôde-se impor um ritmo mais intenso ao desenvolvimento da Educação Ambiental no Brasil. Tem-se aqui então um pouco mais de uma década de trabalhos voltados para o estímulo e o fortalecimento de uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social. Desta forma, deve-se esperar que a implantação das práticas educacionais que apontem para propostas pedagógicas focalizadas na mudança de hábitos, atitudes e práticas sociais, ainda estejam em processo de (re) criação e que seus resultados ainda não estejam totalmente alcançados. Cabe relembrar que os Referenciais Curriculares do MEC para os Cursos Técnicos em Meio Ambiente foram divulgados como políticas públicas no ano de 2000, e que logicamente sua preparação e discussões aconteceram antes dessa data, ou seja, menos de 8 anos após a ECO-92. Tal documento, conforme já destacado nesse trabalho, ao invés de destacar a Educação Ambiental Crítica, com sua aproximação com as questões socioambientais, revelou um caráter tecnicista e biologizante. Esse fato ratifica a existência ainda no Brasil dos dois eixos do discurso da Educação Ambiental analisados na pesquisa: o conservador e o crítico e suas diferentes interpretações e manifestações, coexistindo nas diversas práticas pedagógicas voltadas para a conscientização ambiental. Foi destacado nesse estudo que a abordagem conservadora, conhecida como estudo da natureza, é pautada por uma visão reducionista com respostas instrumentais e modus operandi predominantemente descontextualizado dos temas principais da sociedade, sem o questionamento do atual padrão civilizatório capitalista de consumo. Esta reflete os paradigmas da moderna humanidade, ao privilegiar o aspecto cognitivo do processo pedagógico, supondo que ao transmitir o conhecimento correto, isso por si só fará com que o indivíduo compreenda a problemática ambiental, transformando seu comportamento perante a sociedade e ao meio ambiente. Já na abordagem crítica, foi visto que a Educação Ambiental constrói um instrumental que promove uma visão crítica e politizada da problemática ambiental, estimulando a participação dos sujeitos. Esta possibilita a construção de ambientes educativos voltados para a mobilização de mudanças da realidade com seus problemas socioambientais, contribuindo desta forma para o exercício de uma cidadania ativa, visando à superação da grave crise vivenciada em tempos atuais. O tempo irá responder se as duas abordagens, conservacionista e crítica, continuarão coexistindo no mesmo cenário ou se à crítica conseguirá sobrepor-se a 100 conservacionista, ao promover uma compreensão complexa do real e instrumentalizar os atores sociais para intervenção nessa realidade (JACOBI, 2005; BRASIL, 2004 a). No tocante a noção de competências, a matriz teórica que fundamenta os textos legais no Brasil segue as reflexões do educador francês Philippe Perrenoud (PERRENOUD, 1999, p. 7), que define a noção de competência como “a capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação e ‘requer’ a sinergia de vários recursos cognitivos entre os quais estão os conhecimentos”. Na avaliação dele o principal dilema dos sistemas educacionais é educar para a erudição ou para a vida (desenvolver competências); assim as escolas se deparam com o debate entre dois paradigmas: o clássico, com aulas manuais, temas e provas, e o das novas pedagogias. A adoção do modelo de competências na política educacional brasileira visa ao atendimento exclusivo às necessidades do mercado, valorizando mais a plasticidade dos trabalhadores para se adaptar às situações novas, do que a sua especialização, sendo que este mesmo trabalhador se torna responsável pela aquisição e atualização de suas competências. A incorporação deste modelo de competências na educação brasileira tem acontecido de forma diferenciada e muitas vezes confusa, começando pelo entendimento do próprio termo “competência”. Além de não ser fornecida uma explicação mais ampla do termo, são utilizadas fontes teóricas variadas e contraditórias que ajudam a perpetuar um desconhecimento de seu verdadeiro significado (NOVICKI & GONZALEZ, 2003). De acordo com a discussão apresentada nessa pesquisa a qualificação pode ser definida como conjunto de atributos individuais, de caráter cognitivo ou social, resultantes da escolarização geral e/ou profissional, assim como das experiências de trabalho. Os Referenciais Curriculares da Educação Profissional adotaram o eixo da competência para a essa modalidade de educação. Estas devem ser desenvolvidas através de situações problemas relacionadas ao mercado de trabalho onde o aluno deve procurar solucionar em associação ao processo de estudo e de leitura. A noção de competência, nesse documento, se mostrou superior a de qualificação pois possibilita a análise dos processos de trabalho gerando currículos escolares com conteúdos reais focados para o mercado de trabalho. Nos Referenciais Curriculares Nacionais da Educação Profissional de nível técnico – Área profissional: Meio Ambiente o processo produtivo compreende “funções e subfunções” que informam as competências, habilidades e bases tecnológicas teoricamente exigidas no mercado de trabalho. O documento enfatizou a descrição das competências, habilidades e bases tecnológicas que possibilitem o Técnico em Meio Ambiente atuar na redução de custos econômicos para a empresa/instituição e para a solução de problemas/ conflitos que 101 porventura surjam no decorrer de suas atividades. E ainda segundo esse documento, “seja qual for o critério referencial para a construção de itinerários de formação, é importante lembrar que as competências profissionais gerais, estabelecidas [...] deverão estar necessariamente contempladas”. No entanto, conforme abordado inúmeras vezes nesse trabalho, a Educação Ambiental não foi devidamente enfatizada no documento (BRASIL, 2000, p. 49). Nesse trecho final serão abordados os resultados analisados no capítulo 4, em relação às duas questões elencadas nos objetivos deste trabalho que dizem respeito a análise da: (1) organização curricular mediante o modelo de competências pautados pelo Ministério da Educação e Cultura para essa modalidade de ensino, em especial no tocante a inserção da Educação Ambiental e (2) as percepções dos alunos das duas primeiras turmas concluídas referente aos principais conceitos relacionadas ao Meio Ambiente e a própria temática da Educação Ambiental. Em relação ao primeiro ponto, sobre a organização curricular do curso com ênfase na inserção da Educação Ambiental, verificou-se que o curso buscou seguir de perto as competências elencadas no documento oficial para essa modalidade. No entanto, justamente pelo fato dessa adaptação na íntegra das orientações elencadas nos Referenciais Curriculares, percebe-se que a Educação Ambiental não foi devidamente assimilada pelos egressos do curso. Os conteúdos de Educação Ambiental deveriam integrar-se no currículo escolar a partir de uma relação de transversalidade e interdisciplinaridade, impregnando a prática educativa dos docentes. Isso exigiria dos professores uma readaptação dos conteúdos abordados em suas disciplinas a fim de conduzirem suas temáticas de forma a introduzirem questões que possam direcionar a elucidação dos conflitos ambientais envolvendo a conscientização e educação para as temáticas do ambiente. Não é possível mensurar especificamente a Educação Ambiental no currículo do curso, até por que esta não deve ser uma disciplina em separado, como as demais contidas na grade curricular. Para a realização da análise realizada nesta pesquisa foram indagados aos egressos do curso conceitos e competências correlacionadas que puderam fornecer um vislumbre sobre essa prática pedagógica a fim de se verificar a percepção e grau de entendimento dos alunos nessas questões. No documento oficial do MEC, fez-se apenas uma ligeira referência a EA em uma das habilidades elencadas referente a “organizar e atuar em campanhas de mudanças, adaptações culturais e transformações de atitudes e conduta” (id.. p.28). Através dos resultados obtidos nesse trabalho e análise dos Referenciais Curriculares Nacionais, constatou-se que essa 102 temática deve ser melhor entendida, discutida e trabalhada para que então possa ser destacada nos currículos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente. Conforme visto, competência é a capacidade de agir eficazmente em um determinado tipo de situação. A competência relacionada a Educação Ambiental portanto deve possibilitar aos egressos dos Cursos Técnicos em Meio Ambiente poderem atuar eficazmente utilizando-se dessa prática pedagógica em suas mais variadas possibilidades. Sobre o objetivo principal da pesquisa, relacionado às percepções dos alunos do curso referente aos conceitos de Educação Ambiental, foram observados detalhes dignos de análise e reflexão. Apesar dos alunos do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio CPII terem compreendido, em certo grau de aproveitamento, os conceitos principais sobre o Meio Ambiente, ao término de seus estudos, quando responderam que este representa tudo aquilo à nossa volta e necessário para nossa sobrevivência (59,6%) ou que envolve os seres humanos, a natureza e os problemas ambientais decorrentes do uso dos recursos naturais (17%), observou-se dificuldades no entendimento desse conceito pelas respostas colhidas, pois este também engloba o homem e sua inter-relações. Sobre o Desenvolvimento Sustentável os alunos entenderam que seria produzir com um mínimo de matéria prima e de poluição possível conjugando o aumento do lucro do empreendimento, preservação ambiental e justiça social (74,5%) e que a Educação Ambiental nada mais é que um processo educativo que visa a construção de conhecimentos para a prevenção e a solução dos problemas ambientais, através da mudança de conceitos dos indivíduos e da sociedade (87,2%). Nestes conceitos, conforme visto, eles responderam de acordo com os conceitos aceitos hoje, conforme destacado na Conferências de Tbilisi. Especificamente sobre a percepção da Educação Ambiental, foi indagado aos alunos se estes conseguiriam desenvolver programas ou campanhas dessa prática educativa. Os resultados colhidos evidenciaram que na percepção de parte dos alunos (44.7%), conseguiriam realizar essa atividade; o mesmo percentual de alunos (44,7%) disseram que conseguiriam desenvolver essas ações parcialmente; e o restante dos alunos (10,6%) responderam que não conseguiram realizar desenvolver os programas e campanhas de Educação Ambiental. Verificou-se que dos 87,2% dos alunos que haviam compreendido o significado do conceito de Educação Ambiental, com base nos conceitos elencados pela Conferência Internacional de Educação Ambiental em Tbilisi, quase metades destes (44,7%) informaram que teriam dificuldades ou não desenvolveriam (10,6%) ações e programas de Educação Ambiental. 103 Quando indagou-se aos mesmos se conseguiriam elaborar um diagnóstico/caracterização social e ambiental de uma região/local, passo inicial na implementação da Educação Ambiental, a maioria dos alunos responderam que teriam certa dificuldade na execução dessa competência (57,4% realizariam parcialmente, 8,5% não realizariam). Em relação à outra competência sobre intermediar interesses em uma situação de conflito ambiental, da mesma forma, a maioria dos alunos respondeu que não desenvolveram essa competência no decorrer do curso (38,3% realizariam parcialmente, 25,5% não realizariam). Desta forma, através dos resultados obtidos nos questionários, verificou-se que a maioria dos alunos do curso evidenciou dificuldades para desenvolver essas práticas caso fossem solicitados em suas atividades profissionais. A Educação Ambiental quando desenvolvida no espaço escolar não é a solução para os problemas ambientais, mas se torna um elemento a mais para a conscientização das pessoas. A incorporação da dimensão ambiental não é uma panacéia milagrosa para os conflitos ambientais. Existem fatores e questões políticas, econômicas e sociais que devem ser resolvidas e discutidas para que as pessoas, em todos os seus níveis sociais, credos e raças consigam entender que o ambiente é muito mais do que a fauna e flora, mas envolvem a si mesmas, seus semelhantes e os problemas resultantes da interação homem/natureza. Concluindo, quando observamos as percepções dos alunos do Curso Técnico em Meio Ambiente do Colégio Pedro II, sob a perspectiva da Educação Ambiental, os resultados colhidos nos remetem a uma reflexão sobre a necessidade de mudanças na formação desse profissional. Do ponto de vista do egresso, faz-se necessário a formação de um profissional mais reflexivo para desenvolver práticas que articulem a educação e o meio ambiente, com um olhar crítico, e que abra perspectivas para uma atuação ambiental sustentada por princípios de criatividade e capacidade de formular e desenvolver práticas de Educação Ambiental. Do ponto de vista da legislação, evidencia também a necessidade de mudanças nos Referenciais Curriculares Nacionais para o Técnico em Meio Ambiente de maneira que a Educação Ambiental possa ser melhor destacada e mais trabalhada, tendo assim maior destaque nas competências sugeridas pelo Ministério da Educação para essa modalidade da Educação Profissional. 104 REFERÊNCIAS ALVES-MAZZOTTI, A. J.; GEWANDSZNAJDER, F. O método nas ciências naturais e sociais: pesquisa quantitativa e qualitativa. São Paulo: Pioneira, 1999. 203p. BRASIL. Política Nacional do Meio Ambiente. Lei n.º 6.938 de 31 de agosto de 1981. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L6938.htm>. Acesso em: 12 de Dezembro de 2008. _______. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF: Senado, 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ constituicao/constitui%C3%A7ao. htm>. Acesso em: 15 de Janeiro de 2009. _______.Lei Federal 9.394. 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