Bertília Madeira Ferreira Alves O FUTURO DA EXPLORAÇÃO ESPACIAL EUROPEIA DO SISTEMA SOLAR FACULDADE DE CIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA APLICADA Porto, 2007 Bertília Madeira Ferreira Alves O FUTURO DA EXPLORAÇÃO ESPACIAL EUROPEIA DO SISTEMA SOLAR Tese Submetida à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto para obtenção do grau de Mestre FACULDADE DE CIÊNCIAS DA UNIVERSIDADE DO PORTO DEPARTAMENTO DE MATEMÁTICA APLICADA Porto, 2007 Ao meu filho João Pedro Agradecimentos Agradecimentos As últimas palavras que deposito neste trabalho são de agradecimento e para dedicar a todas as pessoas que estiveram ao meu lado ao longo destes meses de trabalho. Nesta página do meu trabalho espero encontrar a melhor forma de comunicar a todos o quanto lhes estou agradecida e o quanto sinto que, a todos, devo alguma parte deste trabalho. Ao Professor Doutor Pedro Viana, orientador científico desta dissertação, agradeço a completa disponibilidade, sempre demonstrada, para me auxiliar na escrita desta dissertação, tal como o empenho, as sugestões, os esclarecimentos, os comentários e o todo o material que me disponibilizou. Agradeço ainda, porque foi mesmo muito importante para mim, as palavras de compreensão, apoio, incentivo e de confiança, pois foram elas que me fizeram chegar aqui. A todos os Professores que tive o prazer de conhecer no primeiro ano do Mestrado em Ensino da Astronomia, quero deixar uma palavra de agradecimento, pelos conhecimentos transmitidos e pelo carinho no trato. A Simplicidade é apanágio dos Grandes. Aos meus amigos Paula Almeida e Manuel Augusto, porque já não existem pessoas como vós. Tenho-vos no meu coração e manter-vos-ei lá para sempre. Obrigada pela amizade, pela compreensão, pelo apoio e por nunca me teres deixado desistir. À minha colega e amiga Cristina, quero expressar o meu agradecimento, pelos importantes esclarecimentos e auxílio na tradução de alguns documentos em Inglês. Quero agradecer aos meus pais e aos meus sogros que ao longo deste longo período de trabalho muitas vezes me substituíram e me aliviaram das mais diversas tarefas, e, sobretudo, cuidaram de mim, do meu marido e do meu filho. E à minha irmã Alice pelo tempo e amor dedicados ao meu filho João Pedro. Ao João, meu companheiro de sempre, meu amor e meu amigo, agradeço por ser um excelente marido e ainda melhor pai. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 5 Resumo Resumo O objectivo principal de O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar é a abordagem à temática da exploração espacial prevista no programa da Agência Espacial Europeia (ESA) “Cosmic Vision 2015/2025” e foi elaborado essencialmente a pensar nos alunos do ensino secundário, onde o processo utilizado visa ser um bom contributo para o conhecimento académico e desenvolvimento cultural do discente. A disciplina de Ciências Físico-Químicas possui uma forte componente em Astronomia e dos assuntos relacionados. A pensar neste facto foi elaborado um primeiro capítulo, “Explorando o Sistema Solar”, onde são explorados os assuntos previstos nos programas da disciplina de 7º e 10º anos de escolaridade e 12º ano de Química. O segundo capítulo deste documento, “ESA – Uma Agência Espacial”, pretende transmitir ao leitor a missão da ESA, que passa por desenvolver e pôr em prática as potencialidades dos projectos científicos e espaciais. O terceiro capítulo, “O Futuro da Exploração Espacial Europeia no Sistema Solar” visa descrever e explicar as missões da Agência Espacial Europeia planeadas para a década de 2015 a 2025 no âmbito da exploração espacial do Sistema Solar. O quarto capítulo, “Propostas de Actividades a realizar com os alunos do Ensino Básico e Secundário no âmbito d'O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar”, inclui a apresentação de propostas de actividades a realizar com os alunos do ensino básico e secundário no âmbito do programa espacial “Cosmic Vision 2015/2025”. Em particular, foi elaborado um projecto a implementar ao longo de um ano lectivo na área curricular não disciplinar de “Área de Projecto”, do 12º ano, que visa envolver os alunos na concepção, realização e avaliação de projectos que visem a intervenção dos discentes no processo de decisão d'O Futuro da Exploração Espacial Europeia no Sistema Solar, através da articulação interdisciplinar. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 5 Resumo Concluindo, o objectivo geral deste trabalho passa por situar o planeta Terra no Universo e, em particular, no Sistema Solar, tal como definir a sua inter-relação com este sistema. Este documento permite reflectir sobre a ideia de exploração espacial do Sistema Solar, prevista para os próximos anos, nomeadamente entre 2015 e 2025, no âmbito do programa Cosmic Vision, e permitirá aos alunos identificar a Ciência como uma actividade humana, fortemente dependente de factores sociais. 6 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Abstract Abstract The main goal of The Future of European Space Exploration of the Solar System is to explore the theme of space exploration in the program of ESA (European Space Agency) “Cosmic Vision 2015/2025” and it was prepared for secondary school students, where it intends to contribute to the academic knowledge and to the cultural development of the student. The subject of Physics and Chemistry has a strong component of Astronomy and of the topics related to it. With this in mind was elaborated the first chapter, “Exploring the Solar System” where was subjects of the 7th, and 10th grades and also of the 12th grade of Chemistry are contemplated. The second chapter of this document, “ESA - European Space Agency”, informs about the mission of the ESA, developing and working out the potentialities of the scientific and space projects. The third chapter, “The Future of the European Space Exploration of the Solar System”, describes and explains the missions of ESA planned for the decade from 2015 to 2025 in the context of the space exploration of the Solar System. The fourth chapter, “Proposals of activities to be done with the students of the Basic Education and the Secondary Education in the content of the Future of the European Space Exploration of the Solar System”, includes the presentation of the proposals of activities to be done with the students from the levels of education mentioned above but now in the context of the space program “Cosmic Vision 2015/2025”. In particular, it was elaborated a project to be implemented along the school year in the subject “Área de Projecto” of the 12th grade. Its aims are to involve students in the conception, realization and evaluation of projects, allowing them to participate in the process of decision of the “Future of the European Space Exploration of the Solar System”, through an interdisciplinary articulation. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 9 Abstract In summary, the main goal of this project is to situate the Planet Earth in the Universe and in particular in the Solar System, as well as to define its interrelation with this System. This document reflects about the idea of space exploration of the Solar System which is contemplated for the next years, namely between 2015 and 2025, in the content of the program Cosmic Vision, which allows students to identify the Science as a human activity strongly dependent on social factors. 10 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Resumo Résumé L'objectif principal de: “Le Futur de L'Exploration Spatiale Européenne du Système Solaire”, c'est l'abordage au thème de l'exploration spatiale prévu dans le programme de l'Agence Spatiale Européenne (ESA) du “Cosmic Vision 2015-2025” qui a été fait en pensant aux élèves de l'enseignement secondaire, où le processus utilisé sert parfaitement l'objectif des élèves car il permet les connaissances académiques et le développement culturel des élèves. Les disciplines de Physique et de Chimique ont dans leur programme une part très importante dédiée à l'astronomie et ses dérivés, c'est pour cela que l'on a écrit un premier chapitre nomme “En Explorant le Système Solaire” où sont traités les sujets prévus dans les cours de Physique et de Chimique en quatrième seconde et de Chimique en Terminale. Le deuxième chapitre de ce document “ESA – Une Agence Spatiale” prétend donner au lecteur la mission de développer et d'exerciter les possibilités des projets scientifiques et spatiaux. Le troisième chapitre nommé, “Le Futur de L'Exploration Spatiale Européenne du Système Solaire” sert à décrire et à expliquer les missions de l'Agence Spatiale Européenne prévues pour la décennie de 2015 à 2025 à propos de l'exploration spatiale du Système Solaire. Le quatrième chapitre intitulé, “Exemples d'activités à réaliser avec les élèves de l'enseignement primaire et secondaire à propos du Futur de L'Exploration Spatiale Européenne du Système Solaire”, contient des propositions d'activités à faire avec les élèves de l'enseignement primaire et secondaire au niveau du programme spatial “Cosmic Vision 2015-2025”. Á titre particulier, il existe un projet qui permet de travailler pendant l'année scolaire en "Área de Projecto", de la terminale, la conception, la réalisation et l'évaluation des projets qui incluent l'intervention des élèves dans le processus de décision du Futur de L'Exploration Spatiale Européenne dans le Système Solaire, au travers de l'articulation interdisciplinaire. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 11 Resumo En conclusion, l'objectif général de ce travail consiste à situer la planète Terre dans l'Univers et en particulier dans le Système Solaire, ainsi que définir son interrelation avec le Système. Ce document permet de réfléchir sur cette idée de l'exploration spatiale du Système Solaire prévue pour les prochaines années, plus précisément entre 2015 et 2025, inséré dans le programme Cosmic Vision et permettra aux élèves d'identifier la Science comme une activité humaine, très dépendante de facteurs sociaux. 12 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice Índice Página Resumo 7 Abstract 9 Résumé 11 Introdução 29 Capítulo 1: Explorando o Sistema Solar 31 1.1. Perspectiva Histórica 31 1.2. A Formação do Sistema Solar 33 1.3. Descrição, Características e Dinâmica do Sistema Solar 34 1.3.1. 35 O Sol A Estrutura Interna do Sol 36 O Campo Magnético Solar 40 O Futuro do Sol 43 A Exploração do Sol 43 1.3.2. 45 O Reino do Sol Mercúrio 46 A Superfície de Mercúrio 47 A Estrutura Interna de Mercúrio 48 Os Movimentos de Mercúrio 50 A Exploração de Mercúrio 50 Vénus 51 A Estrutura Interna de Vénus 51 A Superfície de Vénus 52 A Atmosfera de Vénus 53 Os Movimentos de Vénus 54 A Exploração de Vénus 54 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 13 Índice Terra 57 A Estrutura Interna da Terra 57 A Superfície da Terra 58 A Atmosfera Terrestre 59 O Campo Magnético Terrestre 60 A Lua 61 A Estrutura Interna da Lua 62 A Superfície da Lua 62 A Origem da Lua 63 A Exploração da Lua 64 Marte 69 A Estrutura Interna de Marte 69 A Superfície de Marte 70 A Atmosfera de Marte 72 Vida em Marte 72 A Exploração de Marte 73 Os Satélites Fobos e Deimos 77 Asteróides 79 Júpiter 83 A Estrutura Interna de Júpiter 84 A superfície de Júpiter 84 A Energia Gerada por Júpiter 85 O Campo Magnético de Júpiter 86 O Sistema de Anéis de Júpiter 87 A Exploração de Júpiter 87 Os Satélites Galileanos de Júpiter 90 14 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice Os Satélites Menores de Júpiter 94 Saturno 95 Estrutura Interna de Saturno 95 A superfície de Saturno 96 A Densidade de Saturno 96 A Energia Gerada por Saturno 97 O Campo Magnético de Saturno 97 Anéis de Saturno 98 Satélites de Saturno 100 Exploração de Saturno 105 Úrano 106 Estrutura Interna de Urano 106 A Atmosfera de Urano 107 A Rotação de Urano 107 A Energia Gerada por Urano 107 Campo Magnético de Urano 108 Anéis de Urano 108 Satélites de Urano 109 Exploração de Urano 112 Neptuno 112 Estrutura Interna de Neptuno 113 A Atmosfera de Neptuno 113 A Energia Gerada por Neptuno 114 Campo Magnético de Neptuno 114 Anéis de Neptuno 114 Satélites de Neptuno 115 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 15 Índice Exploração de Neptuno 117 Plutão – O Planeta Anão 118 Estrutura Interna de Plutão 119 Superfície de Plutão 119 Atmosfera de Plutão 120 Caronte 120 Planeta Anão 121 Cintura de Kuiper 122 Cometas e Nuvem de Oort 123 Meteoróides 126 Capítulo 2: ESA – Uma Agência Espacial 129 2.1. A Agência Espacial Europeia – ESA 129 Quem são os membros da ESA? 129 Em que consiste o trabalho da ESA? 130 Onde está localizada a ESA? 130 Quem são as pessoas que trabalham na ESA? 132 Quem sustenta a ESA? 132 Quanto custa a cada europeu financiar a ESA? 133 Como funciona a ESA? 134 2.2. Porque é que a ciência espacial precisa de uma planificação a longo termo? 135 2.2.1. Horizonte 2000 e Horizonte 2000 Plus 139 2.2.2. Cosmic Vision 2015-2025 141 Capítulo 3: O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 147 3.1. Quais as condições para a formação de um planeta e surgimento da vida? 148 3.1.1. A Vida e a Habitabilidade no Sistema Solar 150 Exploração de Marte 151 16 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice 152 Mars Express Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Mars Sample Return, incluída no Programa Aurora 154 O Programa Aurora 154 ExoMars 157 Mars Sample Return – Missão de Retorno de Amostras de Marte 159 Objectivos do Programa Aurora 161 Exploração do Satélite Europa 162 Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Europa orbiter and/or lander , incluída no Programa de Exploração de Júpiter 163 Exploração das Zonas Polares do Sol 167 3.2. Como funciona o Sistema Solar? 168 3.2.1. Do Sol ao Limite do Sistema Solar 169 Exploração do Sol e da Heliosfera 169 Ulysses 171 SOHO 171 Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Solar Polar Orbiter 172 Exploração da Magnetosfera Terrestre 177 Cluster 179 Double Star 180 Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Earth Magnetospheric Swarm 181 Exploração da Magnetosfera de Júpiter e Processos Associados 185 Exploração das Magnetosferas de Outros Planetas 186 BepiColombo 186 Exploração do Meio Interestelar 186 Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Interstellar Heliopause Probe 187 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 17 Índice 3.2.2. Os Planetas Gigantes e Seus Ambientes Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Jupiter Exploration Programme; Jupiter Probes; Europa Lander 190 192 3.2.3. Asteróides e Outros Pequenos Corpos 197 Exploração de Cometas 197 Rosetta 197 Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Near-Earth Object Sample Return 201 Capítulo 4: Propostas de Actividades a realizar com os alunos do Ensino Básico e Secundário no âmbito do Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 205 Actividade proposta nº1: Concurso 206 Actividade proposta nº2: Como ser astronauta? 208 Actividade proposta nº3: Trabalho no Espaço 209 Actividade proposta nº4: Colaboração Internacional 212 Actividade proposta nº5: Viagem turística de uma semana a Marte 213 Actividade proposta nº6: Construção de um calendário 3D 215 Actividade proposta nº7: A Vida e a Habitabilidade no Sistema Solar 216 Actividade proposta nº8: Oficina da Heliosfera 218 Actividade proposta nº9: Estudo da praticabilidade de uma "Near-Earth Object Sample Return" 221 Capítulo 5: Conclusão 223 Lista de Referências 229 18 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice das Figuras Índice das Figuras Fonte 1 Modelo Heliocêntrico de Copérnico 31 http://www.proyectonautilus.com.ar/web/revista s/6/faltaron4.htm 2 O Radiotelescópio de Arecibo, (...), é um dos principais rádio observatórios do mundo 32 http://www.geneseo.edu/~meisel/Arecibo_Dish. jpg 3 As diversas fases da formação do Sistema Solar, situação actual e final da vida do Sol 34 http://www.space.com/images/060807_life_cycl e_02.jpg 4 O Sol 35 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 5 Estrutura do Sol 36 http://www.ajornada.hpg.ig.com.br/ciencia/cien cia00005.htm 6 Eclipse Total de 11 de Julho de 1981 38 http://nautilus.fis.uc.pt/astro/mirror/np/npp/sol.html 7 Mancha Solar 39 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 8 Intensos campos magnéticos são os responsáveis pela erupção de gases a elevadas temperaturas, (…) 40 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 9 Protuberância solar 40 http://www.astromia.com/fotosolar/filamentos.h tm 10 Magnetosfera Solar 41 http://www.astromia.com/fotosolar/magnetsolar. htm 11 Aurora Boreal 42 http://pt.wikipedia.org/wiki/Vento_solar 12 Nebulosa planetária NGC 2440 43 http://www.astromia.com/fotouniverso/enanabla nca.htm 13 Trajectória da Sonda Ulisses 44 http://pt.wikipedia.org/wiki/Ulysses 14 E só ficaram oito!! 45 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 15 Relação entre os tamanhos da Terra e de Mercúrio 47 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 16 Mariner 10 47 http://nssdc.gsfc.nasa.gov/nmc/tmp/1973085A.html 17 Superfície de Mercúrio 48 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 18 Interior de Mercúrio 48 http://www.astromia.com/fotosolar/interiormerc urio.htm 19 Mercúrio e o seu campo magnético 49 http://www.on.br/glossario/alfabeto/m/mercurio. html Figura Página Capítulo 1: Explorando o Sistema Solar Legenda O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 19 Índice das Figuras 20 Vénus 51 http://www.astromia.com/fotosolar/fotovenus.ht m 21 Interior de Vénus 52 http://www.astromia.com/fotosolar/interiorvenu s.htm 22 Maat Mons 52 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 23 O trânsito de Vénus 54 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 24 Venera 13 na superfície de Vénus em Março de 1982 55 http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/i ndex.html 25 A Sonda Magalhães no Centro Espacial Kennedy 55 http://www2.jpl.nasa.gov/magellan/image14.ht ml 26 Visão artística da Venus Express por cima de uma tempestade atmosférica 56 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&type=I&mission=Venus%2 0Express&single=y&start=47 27 Planeta Terra 57 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 28 Estrutura Interna da Terra 58 http://www.astromia.com/fotosolar/interiortierra .htm 29 As camadas da Atmosfera Terrestre 59 http://usrlazio.artov.rm.cnr.it/concluse/scienza2001/modu lo-snaturali/dimenno/pressione.htm 30 Campo magnético terrestre 60 http://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_magn%C3 %A9tico_terrestre 31 Auroras Polares fotografas pelo HST 61 http://www.uc.pt/iguc/atlas/05terra.htm 32 A Lua 61 http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Moon_mer ged_small.jpg 33 Mapa topográfico de South Pole- Aitken baseado em informações da sonda Clementine 63 http://en.wikipedia.org/wiki/South_PoleAitken_basin 34 O Homem na Lua 64 Enciclopédia do Universo, O Espaço, Porto Editora, 2000 35 Diagrama do veículo Surveyor - NASA 65 http://pt.wikipedia.org/wiki/Surveyor 36 Apollo 11 66 Enciclopédia do Universo, O Espaço, Porto Editora, 2000 37 Eugene Cernan a conduzir o Lunar Rover na missão Apollo 17 67 http://en.wikipedia.org/wiki/List_of_Apollo_ast ronauts 38 Fotografia tirada pela sonda Clementine onde se vêem a Lua, a corona solar e Vénus. 67 http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:Clementine ObservesTheMoonSolarCoronaAndVenus.jpg 39 SMART-1 68 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=31407 40 O planeta Marte 69 http://www.astromia.com/fotosolar/fotomarte.ht m 41 A estrutura interior de Marte 69 http://www.astromia.com/fotosolar/interiormart e.htm 42 Fotografia (…) a missão Pathfinder 70 http://mpfwww.jpl.nasa.gov/MPF/index1.html 20 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice das Figuras 43 Imagem a 3D de Olympus Mons 71 http://www.exploringmars.com/science/olympus _mons.html 44 Esta imagem de alta resolução (…) a notícia de que poderá ter existido vida em Marte (…) 73 http://www.portaldoastronomo.org/npod.php?id =453 45 Nave Viking 74 http://www.matemagica.hpg.ig.com.br/space5.ht m 46 Marte vista do Viking Lander 75 http://www.matemagica.hpg.ig.com.br/space5.ht m 47 Sojourner Rover 75 http://mpfwww.jpl.nasa.gov/MPF/index1.html 48 MRO em Marte 76 49 À esquerda, Fobos, e à direita, Deimos 78 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 50 Ceres 79 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 51 Gaspra 81 52 Ida e Dactyl 81 53 Cintura de Asteróides 82 http://cftc.cii.fc.ul.pt/coccix/capitulos/capitulo2/ modulo2/topico5.php 54 O Planeta Júpiter 83 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 55 A estrutura interna de Júpiter 84 http://www.astromia.com/fotosolar/interiorjupit er.htm 56 A Grande Mancha Vermelha de Júpiter 85 http://www.solarviews.com/portug/jupiter.htm 57 Magnetosfera de Júpiter 86 http://www.ualg.pt/ccviva/astronomia/sistema_s olar/jupiter.htm 58 Anel de Júpiter 87 http://cftc.cii.fc.ul.pt/coccix/capitulos/capitulo2/ modulo2/topico5.php 59 Visão artística da Sonda Galileu 89 http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei 60 A família joviana, o grande Júpiter e seus maiores satélites, observados pela primeira vez por Galileu 90 http://www.ualg.pt/ccviva/astronomia/sistema_s olar/jupiter.htm 61 Galileu Galilei 90 http://pt.wikipedia.org/wiki/Galileu_Galilei 62 Io 90 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 63 Europa 91 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 64 Ganimedes 92 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 65 Calisto 93 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 66 O Planeta Saturno 95 http://nautilus.fis.uc.pt/astro/ss/htmlpt/saturno/intro.php 67 Estrutura interna de Saturno 95 http://www.astromia.com/fotosolar/interiorsatur no.htm 68 Auroras Polares em Saturno 97 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar http://www.bbc.co.uk/portuguese/especial/208_ mronasa/ Moore,Sir Patrick, Atlas Of The Universe, Philip’s, 2004 Moore,Sir Patrick, Atlas Of The Universe, Philip’s, 2004 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 21 Índice das Figuras 69 Os anéis de Saturno em cores falsas- Imagem Voyager 98 http://www.uc.pt/iguc/atlas/17saturno.htm 70 As diferentes orientações dos anéis, (…) 99 http://www.astrosurf.com/nc/sis_solar/sat_galeri a.html 71 Estrutura dos anéis de Saturno 100 http://cftc.cii.fc.ul.pt/coccix/capitulos/capitulo1/ modulo6/topico6.php 72 Titã 101 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 73 Reia 101 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 74 Jápeto 102 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 75 Dione 102 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 76 Tétis 103 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 77 Encélado 103 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 78 Mimas 103 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 79 Voyager 1 105 http://pt.wikipedia.org/wiki/Voyager 80 Visão artística da Cassini (…) 106 http://es.wikipedia.org/wiki/Saturno_(planeta) 81 O Planeta Úrano 106 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 82 Estrutura interna de Úrano 107 http://www.astromia.com/fotosolar/interioruran o.htm 83 Campo magnético de Urano 108 http://www.solarviews.com/cap/uranus/vuranus 1.htm 84 Anéis e principais satélites de Úrano 109 http://www.astromia.com/fotosolar/uranorings.h tm 85 À esquerda, Oberon, e à direita, Titânia 110 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 86 À esquerda, Umbriel, e à direita, Ariel 110 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 87 Miranda 111 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 88 O Planeta Neptuno 112 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 89 Estrutura interna de Neptuno 113 http://www.astromia.com/fotosolar/interiorneptu no.htm 90 Estas duas exposições de 591 segundos dos anéis de Neptuno (…) 115 http://www.solarviews.com/portug/neptune.htm 91 Tritão 115 http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar 92 Missão Voyager 117 http://voyager.jpl.nasa.gov/science/neptune.html 93 O Planeta Plutão 118 http://pt.wikipedia.org/wiki/Plut%C3%A3o 94 À esquerda, o Sistema Solar até a órbita de Júpiter, (…) 119 http://www.atica.com.br/Artigos/?a=17 95 Sistema Plutão-Caronte 120 http://www.if.ufrj.br/teaching/astron/pluto.html 96 Tamanhos relativos dos principais objectos da Cintura de Kuiper conhecidos até (…) 123 http://www.atica.com.br/Artigos/?a=17 22 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice das Figuras 97 Cometa Hale-Bopp 123 http://www.astromia.com/fotosolar/halebopp.ht m 98 Nos confins do sistema solar (Cintura de Kuiper e Nuvem de Oort), para além da órbita de Neptuno, (…) 124 http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto_transneptu niano 99 Orientação da cauda do cometa 125 http://www.todooceu.com/detalhamento/general idades_cometas.html 100 Colisão dos fragmentos do cometa ShoemakerLevy 9 com o planeta Júpiter em Julho de 1994 126 http://www.solarviews.com/cap/sl9/sl9rend.htm 101 Cratera do Meteorito 127 http://www.zenite.nu/tema/ 102 O meteorito ALH84001 127 http://www.lpi.usra.edu/lpi/meteorites/The_Met eorite.html Capítulo 2: ESA – Uma Agência Espacial 103 Países membros da ESA 129 http://www.astro.auth.gr/elaset/hipparchos/hipp archos_v2_1.pdf 104 Visão artística da missão Cluster 130 http://news.bbc.co.uk/2/low/science/nature/8710 78.stm 105 Principal centro de controlo no ESOC, em Darmstadt, na Alemanha 131 http://www.esa.int/SPECIALS/ESOC/index.htm l 106 Equipa de astronautas da ESA 132 http://www.esa.int/esaHS/ESA75G0VMOC_ast ronauts_0.html 107 O quotidiano no espaço 132 http://www.esa.int/esaHS/ESA1RMGBCLC_ast ronauts_1.html 108 Poster apresentado pelos Portuguese Trainees (…) Holanda. 133 http://www.portuguesetrainees.esa.int/actividad es.html 109 Envisat - Programa de Observação da Terra 134 http://www.raumfahrer.net/multimedia/4images/ details.php?image_id=859 110 XMM – Newton 135 http://chandra.harvard.edu/chronicle/0405/gaens ler/xmm.jpg 111 Cometa Halley visto pela Giotto 136 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=11981 112 Sonda Giotto 137 http://www.uc.pt/iguc/atlas/25cometas.htm 113 A viagem da Cassini-Huygens 138 http://www.tiosam.com/enciclopedia/encicloped ia.asp?title=SONDA_CASSINI-HUYGENS 114 Visão artística da missão Cassini-Huygens 139 http://en.wikipedia.org/wiki/Cassini-Huygens 115 Telescópio Espacial Hubble 140 Enciclopédia do Universo, O Espaço, Porto Editora, 2000 116 Poster da missão SOHO-CLUSTER (© ESA/NASA) 141 http://www.pierrebastin.info/gravitation/astrob3. html 117 Cosmic Vision 2015-2025 142 http://www.esa.int/esaCP/SEMDH41XDYD_in dex_1.html O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 23 Índice das Figuras 118 “Como funciona o Sistema Solar?” 143 http://www.esa.int/esaSC/SEMNNJ2IU7E_inde x_1.html#subhead3 119 Como é que uma missão é escolhida? 144 http://sci.esa.int/science-emedia/img/ef/ACFGAB5waqXc.jpg Capítulo 3: O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 120 Terra, à esquerda, e Marte, à direita 151 http://www.abmbrasil.com.br/news/marte/img/t humb-terra-e-marte.jpg 121 Meteorito ALH84001 153 http://www.editorialbitacora.com/bitacora/marte /meteorito.jpg 122 Visão artística do Programa Aurora 154 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&mission=Aurora&single=y &start=4 123 Programa de Exploração Aurora 154 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&mission=Aurora&single=y &start=26&size=b 124 Visão artística da base lunar Aurora 155 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&mission=Aurora&single=y &start=7 125 Há água em Marte! 156 http://planicieheroica.weblog.com.pt/arquivo/aguaemMARTE .jpg 126 Visão artística do ExoMars Orbiter 157 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&type=IVA&mission=ExoM ars&start=1 127 Visão artística do módulo de descida da ExoMars 158 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&type=IVA&mission=ExoM ars&start=1 128 Visão artística do ExoMars rover a perfurar a superfície de Marte 158 http://www.esa.int/esammg/mmg.pl?b=b&type=IVA&mission=ExoM ars&start=2 129 Visão artística do Mars Sample Return Orbiter 159 http://www.esa.int/images/MSRorbiter_tga_L.jp g 130 Visão artística da entrada, descida e aterragem na superfície de Marte da missão Mars Sample Return 160 http://www.jpl.nasa.gov/images/mer/2004-0302/26-jg-02-edl-380.jpg 131 Os primeiros passos à Lua, a Marte e além deles 161 http://www.esa.int/SPECIALS/Aurora/ESAON KTHN6D_0.html 132 Ampliação da imagem de Europa onde se observam as rachadelas na superfície de gelo 162 http://www.cielosur.com/imagenes/i_lunasjupiter/europa7b.jpg 133 Visão artística da missão Europa orbiter and/or lander 166 http://www2.jpl.nasa.gov/files/images/browse/p 48326.gif 134 Sistema Joviano 164 http://www.multimeios.pt/public/imagens/activi dades/7_166_grande.jpg 135 Visão global de Europa 164 www.cao.pt 136 Esquema da NASA, Agosto de 2000 165 http://www.if.ufrgs.br/oei/solar/solar16/solar16. htm 24 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Índice das Figuras http://www.space.com/businesstechnology/tech nology/cryobot_test_020115.html http://www.space.com/businesstechnology/tech nology/cryobot_test_020115.html http://www.lws.nasa.gov/news/solar_sails_conf/ McInnes.pdf 137 Visão artística do Europa Lander 166 138 Visão artística do Submarine Rover 166 139 Solar Polar Orbiter 168 140 Actividade Solar - os filamentos escuros são proeminências 169 http://astro.if.ufrgs.br/esol/esol.htm 141 Diagrama da Heliosfera no Sistema Solar 170 http://pt.wikipedia.org/wiki/Heliosfera 142 Raios-X do Sol 171 143 Sonda Ulysses 171 144 Módulo payload da SOHO, constituído por 12 instrumentos 172 http://en.wikipedia.org/wiki/Solar_and_Heliosp heric_Observatory 145 Tecnologia (…) Solar Polar Orbiter (…) vela solar 173 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=36025 146 Foguetão Soyuz na plataforma de lançamento 174 147 Trajectória do Solar Polar Orbiter 175 148 Vela Solar 176 149 Vela Solar 176 150 Movimento orbital em torno do Sol induzido pela acção do fluxo solar no sail 177 http://solarsail.jpl.nasa.gov/introduction/howsails-work.html 151 A interacção do vento solar com a magnetosfera terrestre (…) 178 http://pt.wikipedia.org/wiki/Campo_magn%C3 %A9tico_terrestre 152 Visão artística das quatro naves da missão Cluster 179 http://www.esa.int/esaSC/120383_index_0_m.ht ml 153 Double Star 180 154 Bow shock junto a uma estrela jovem (…) 183 155 Órbita com passagens perto do equador e (…) da missão Earth Magnetospheric Swarm 184 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=38982 156 Proposta da configuração científica da missão Earth Magnetospheric Swarm 184 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=38982 157 Visão artística da missão BepiColombo 186 http://en.wikipedia.org/wiki/BepiColombo 158 Zona fronteiriça entre a Heliosfera e o Meio Interestelar (…) 187 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=36022 159 Representação da Interstellar Heliopause Mission 188 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=36022 160 Jovian Minisat Explorer (JME) 192 161 Jovian Relay Spacecraf (JRS) 193 162 Jovian Europa Orbiter (JEO) 194 http://heasarc.gsfc.nasa.gov/nasap/docs/solar2_p /sun_p.html http://www.esa.int/esaSC/120395_index_0_m.ht ml http://en.wikipedia.org/wiki/Soyuz_launch_vehi cle http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=36025 http://www.lws.nasa.gov/news/solar_sails_conf/ McInnes.pdf http://www.lws.nasa.gov/news/solar_sails_conf/ McInnes.pdf http://www.esa.int/esaSC/120381_index_0_m.ht ml http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=38982 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=35982 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=35982 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=35982 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 25 Índice das Figuras http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=35982 http://www.esa.int/SPECIALS/CDF/SEMV5D ULWFE_0.html 163 Composição JRS - JEO 195 164 Esquema da Jupiter Entry Probe 195 165 Constelação de três naves espaciais (…) 196 http://www.esa.int/esapub/br/br247/br247.pdf 166 Visão artística do encontro da Giotto com o cometa Halley 197 http://www.esa.int/SPECIALS/Rosetta/ESAP6F 7708D_1.html 167 Encontro da missão Rosetta com o cometa Churyumov-Gerasimenko 198 http://www.esa.int/SPECIALS/Rosetta/ESAIBF 7708D_1.html 168 A missão Rosetta fará aterrar um lander pela primeira vez num núcleo cometário 198 http://www.esa.int/SPECIALS/Rosetta/ESAIBF 7708D_1.html#subhead2 200 http://neo.jpl.nasa.gov/missions/hayabusa.html 169 170 171 172 Visão artística da nave espacial Japanese Hayabusa a descer sobre o asteróide Itokawa Há mais de 365 000 asteróides no Sistema Solar. (…) A selecção do local de aterragem (…) danificar a nave. Configuração possível (…) Near-Earth Object Sample Return (HAYABUSA/JAXA) 202 203 203 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=40608 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=40608 http://sci.esa.int/sciencee/www/object/index.cfm?fobjectid=40608 Capítulo 4: Propostas de Actividades a realizar com os alunos do Ensino Básico e Secundário no âmbito do Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 173 Programa espacial Cosmic Vision 2015/2025 206 174 O astronauta Bruce McCandless numa EVA 208 175 Equipamento para os fatos espaciais 211 176 Os parceiros internacionais 212 177 Turismo Espacial 213 178 Europa Orbiter 216 179 Os limites da Heliosfera 218 26 http://images.spaceref.com/news/aurora.esa.2.jp g http://pt.wikipedia.org/wiki/Imagem:AstronautEVA.jpg http://esamultimedia.esa.int/docs/issedukit/pt/ht ml/subj4t.html http://esamultimedia.esa.int/docs/issedukit/pt/ht ml/subj4t.html http://www.portaldoastronomo.org/images/autot emas/tema_115_1146037978_2407931.jpg http://www.jpl.nasa.gov/news/profiles/wright/i mages/europaorbiterbig.jpg http://www.nasa.gov/images/content/52997main _bubble_v2.jpg O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Indice das Tabelas Página Tabela Índice das Tabelas Legenda Fonte 1 Características Gerais do Sol 35 Monteiro, Mário João P.F.G., Sebenta de O Sol e Evolução Estelar, FCUP, 2004 2 Composição Química do Sol 36 Monteiro, Mário João P.F.G., Sebenta de O Sol e Evolução Estelar, FCUP, 2004 3 Características dos planetas do Sistema Solar 46 Viana, Pedro, Sebenta de Sistema Solar, FCUP, 2004 4 Camadas da atmosfera terrestre 60 http://usrlazio.artov.rm.cnr.it/concluse/scienza2001/modulosnaturali/dimenno/pressione.htm 5 Características de Lua 62 Viana, Pedro, Sebenta de Sistema Solar, FCUP, 2004 6 Características de Fobos e Deimos 77 http://en.wikipedia.org/wiki/Deimos_(moon) http://pt.wikipedia.org/wiki/Fobos_(sat%C3%A9lite) 7 Algumas características dos maiores asteróides 79 Geografia Universal, Grande Atlas do Século XXI, Volume 15, Planeta De Agostini, 2005 8 Algumas características dos Satélites Galileanos 93 Geografia Universal, Grande Atlas do Século XXI, Volume 15, Planeta De Agostini, 2005 9 Alguns satélites menores de Júpiter 94 Moore,Sir Patrick, Atlas Of The Universe, Philip’s, 2004 10 Distâncias e períodos orbitais dos anéis e satélites interiores de Saturno 104 Moore,Sir Patrick, Atlas Of The Universe, Philip’s, 2004 11 Os principais satélites de Urano 111 Moore,Sir Patrick, Atlas Of The Universe, Philip’s, 2004 12 Os principais satélites de Neptuno 117 Moore,Sir Patrick, Atlas Of The Universe, Philip’s, 2004 13 Os maiores objectos transneptunianos encontrados até hoje 122 http://pt.wikipedia.org/wiki/Objecto_transneptuniano 14 Características da vela 177 http://www.lws.nasa.gov/news/solar_sails_conf/McInnes.p df O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 27 Indice das Tabelas 28 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Introdução Introdução Ao longo dos últimos anos tem sido consensual a ideia de que há uma disparidade crescente entre a instrução dada aos alunos nas escolas e as necessidades e os interesses dos mesmos. A maior parte das pessoas interessa-se por temas como a vida, os seres vivos, a matéria, o Universo e tudo o que se possa encontrar nele, como, por exemplo, o nascimento, a vida e a morte das estrelas; a origem, evolução e constituição do Sistema Solar, etc. Mas a mais pertinente das interrogações foi, é e será (pelo menos enquanto não surgir uma explicação cientificamente fundamentada): “Será que a vida existe noutros mundos ou estaremos sozinhos no Universo?” As explicações são mais vezes fornecidas pela comunicação social, fidedigna ou não, do que pela escola. A Ciência transformou não só o ambiente natural, mas também a nossa forma de pensar sobre nós próprios e sobre o planeta que habitamos. O papel da Ciência e da Tecnologia no nosso dia-a-dia exige uma população com conhecimento e compreensão suficientes para entender e seguir debates sobre temas científicos e tecnológicos e envolver-se em questões que estes temas colocam, quer para eles como indivíduos quer para a sociedade como um todo. Ao longo da educação básica e secundária, o aluno precisa de adquirir competências necessárias à qualidade da vida pessoal e social. Assim, à saída da sua educação de base, o aluno deverá ser capaz de dominar saberes culturais, científicos e tecnológicos para compreender a realidade e para abordar situações e problemas do quotidiano; usar adequadamente diferentes linguagens das diferentes áreas do saber cultural, científico e tecnológico para se expressar; pesquisar, seleccionar e organizar informação; adoptar estratégias adequadas à resolução de problemas e à tomada de decisões; realizar actividades de forma autónoma, responsável e criativa; cooperar com os outros em tarefas e projectos comuns. Para que os alunos possam adquirir o conhecimento científico, há necessidade de uma intervenção planeada do professor, a quem cabe a responsabilidade de encaminhar o aluno na sua aprendizagem, adaptando o processo de ensino-aprendizagem ao contexto escolar. Para que o professor possa agir de acordo com estes pressupostos, tem de possuir algum domínio dos conteúdos a leccionar, tal como dispor de um leque de fontes de informação e O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 29 Introdução actualização dos assuntos. Sabe-se que na Ciência “aquilo que se descobriu ontem, estará desactualizado amanhã”! O objectivo principal deste documento é a abordagem à temática da exploração espacial do Sistema Solar, prevista no programa da Agência Espacial Europeia (ESA) Cosmic Vision 2015/2025, e foi elaborado essencialmente a pensar nos alunos do ensino secundário, onde o processo utilizado visa ser um bom contributo para o desenvolvimento cultural do discente. No entanto, uma vez que a disciplina de Ciências Físico-Químicas possui uma forte componente em Astronomia e dos assuntos relacionados, este documento apresenta um primeiro capítulo que remete directamente para o programa da disciplina de 7º e 10º anos de escolaridade e 12º ano de Química. Um quarto capítulo inclui a apresentação de propostas de actividades a realizar com os alunos do ensino básico e secundário no âmbito do futuro da exploração espacial europeia do Sistema Solar. Em particular, foi elaborado um projecto a implementar ao longo de um ano lectivo na área curricular não disciplinar de “Área de Projecto”, do 12º ano, que visa envolver os alunos na «concepção, realização e avaliação de projectos, através da articulação de saberes de diversas áreas curriculares/disciplinares ou disciplinas em torno de problemas ou temas de pesquisa ou de intervenção, de acordo com a necessidade e os interesses dos alunos». Ao longo da elaboração deste trabalho foram seleccionadas e integradas no documento um elevado número de figuras com o objectivo de complementar o texto, facilitando a compreensão dos conteúdos. Em Astronomia, “uma imagem vale mais do que mil palavras”! Para concluir, espero que O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar também possa constituir uma mais valia nas aulas de alguém que pretenda aprofundar um pouco mais o tema da exploração espacial na Europa para os anos que se avizinham. 30 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Capítulo 1: Explorando o Sistema Solar 1.1. Perspectiva Histórica Na história do estudo do Sistema Solar podem salientar-se os seguintes períodos característicos: • Período compreendido entre a mais remota antiguidade e a invenção do telescópio; O modelo geocêntrico de Ptolomeu, do século XII, defendia a Terra como centro do Universo em torno da qual giravam a Lua, o Sol e todos os planetas conhecidos na altura, contra um fundo “crivado” de estrelas. No século XVI, Nicolau Copérnico, recuperou o modelo heliocêntrico, colocando o Sol no centro do Universo e a Terra a girar em torno deste, numa órbita perfeitamente circular. Inicialmente este modelo foi rejeitado, tendo a contribuição dos trabalhos de Galileu Galilei, Tycho Brahe e Johannes Kepler sido fundamental para que, um século depois de ter sido proposta, fosse finalmente aceite. As observações dos movimentos planetários e a análise dos resultados obtidos deram então origem ao acontecimento científico mais importante da época renascentista, isto é, à recuperação do sistema heliocêntrico de Copérnico. Figura 1: Modelo Heliocêntrico de Copérnico • Período compreendido entre a invenção do telescópio e meados do século XIX; Galileu descobriu os quatro maiores satélites de Júpiter com o auxílio do primeiro telescópio astronómico, os quais ficaram conhecidos por satélites galileanos. Foram ainda descobertas as fases de Vénus, a estrutura da superfície lunar e os anéis de Saturno. Kepler concluiu que as O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 31 Explorando o Sistema Solar órbitas dos planetas são elípticas e que estes estão sujeitos a uma interacção com o Sol. Para esclarecer esta interacção, Newton elaborou a Lei da Gravitação Universal. • Período compreendido entre meados do século XIX e século XX; No final do séc. XIX, os telescópios, no que diz respeito à qualidade do seu sistema óptico, atingiram, praticamente, o nível moderno de perfeição. Durante este período foram descobertos os satélites de Marte, muitos dos satélites dos planetas gigantes, assim como a estrutura fina da imagem de Marte e as variações sazonais neste planeta. As observações visuais foram sendo substituídas pelas observações fotográficas. No entanto, as observações telescópicas à superfície terrestre são limitadas pela atmosfera. • A partir dos anos 20 do séc. XX; Iniciaram-se as primeiras observações astrofísicas dos planetas: a avaliação da temperatura pela radiação infravermelha, a fotometria e a polarimetria dos discos planetários para estudar as características da superfície e da atmosfera, a espectroscopia. • Período compreendido entre 1950 e 1970; Neste intervalo de tempo, a astrofísica foi completada por novos processos muito eficientes: a espectroscopia no infravermelho e a radioastronomia. Na segunda metade deste período foram iniciados os voos espaciais, primeiro à Lua e depois rumo a Marte e a Vénus. Figura 2: O Radiotelescópio de Arecibo, no Novo México, é um dos principais rádio observatórios do mundo. 32 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar • Período compreendido entre 1970 e a actualidade. Sondas espaciais já visitaram a superfície de Marte e Vénus, ao passo que satélites foram colocados a orbitar em torno destes planetas. Nos aparelhos colocados em órbita usam-se quase todos os meios astrofísicos de estudo dos planetas. A passagem do ponto de observação da Terra para estes aparelhos tem três vantagens fundamentais: - aumento considerável da resolução espacial; - possibilidade de observar zonas da superfície dos planetas não visíveis da Terra; - a ausência das interferências causadas pelas atmosfera terrestre, especialmente no que diz respeito à absorção nas bandas do ultravioleta e infravermelho. Embora as sondas espaciais constituam, actualmente, processos fundamentais de estudo dos planetas, os observatórios astronómicos serão ainda utilizados, e por muitos anos, para observação dos planetas. 1.2. A Formação do Sistema Solar “O Sistema Solar constitui o nosso minúsculo e conhecido canto do Universo. Há cinco mil milhões de anos, o Sol e todo o séquito de corpos que o rodeia, não eram mais do que gás e poeira.” Texto retirado de Astronomia – O Guia Essencial Graças ao desenvolvimento da exploração espacial, a partir dos anos 70 o problema da origem do Sistema Solar começou a ser abordado muito seriamente. Em finais do século XVIII, Kant e Laplace propuseram a teoria da nuvem primordial, que é a teoria aceite actualmente. Há cerca de 4,6 mil milhões de anos atrás, uma nuvem de gás e poeiras entrou em colapso gravítico. À medida que a nuvem se ia contraindo, a sua velocidade de rotação aumentava originando um disco mais denso e quente no centro do que na periferia. O centro da nuvem atinge uma temperatura suficientemente elevada para se iniciarem reacções nucleares e dar origem a uma proto-estrela. O disco de acrecção em torno da estrela torna-se mais frio e liso e as instabilidades gravitacionais começam a surgir e a colapsar devido à própria gravidade. Ter-se-ão formado assim os planetas, mas de forma diferente na zona interior do Sistema Solar, até à órbita de Júpiter, e para além dela. Na zona interior, a radiação solar terá mantido no estado gasoso os elementos mais voláteis, que por sua vez foram empurrados, pelo vento O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 33 Explorando o Sistema Solar solar, para lá da órbita de Júpiter, onde se mantiveram principalmente na forma de gelos. Por isso, os planetas exteriores são mais ricos em hidrogénio, hélio e outros elementos leves, enquanto os planetas interiores são essencialmente rochosos. Os cometas e asteróides são provavelmente restos deste processo de acrecção, sendo assim os objectos mais primitivos do Sistema Solar. A sua composição química reflecte, portanto, a da nuvem primordial, sendo por isso actuais e fundamentais objectos estudo. Figura 3: As diversas fases da formação do Sistema Solar, situação actual e final da vida do Sol 1.3. Descrição, Características e Dinâmica do Sistema Solar O Sistema Solar é constituído pelo Sol, por oito planetas principais e respectivas luas, planetas anões, asteróides, meteoróides, cometas e poeira interplanetária. 34 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar 1.3.1 O Sol “O nosso Sol é uma esfera gigantesca de hidrogénio e hélio que através de reacções nucleares, gera quantidades inimagináveis de energia no seu interior, entre elas a luz e o calor, de que tanto dependemos aqui na Terra.” Texto retirado de Astronomia – O Guia Essencial Figura 4: O Sol O Sol é uma dos milhares de milhões de estrelas que constituem a nossa galáxia. Esta estrela encontra-se situada num dos braços em espiral da Via Láctea, o braço de Orion, a cerca de 7,5 mil parsecs do centro desta. O Sol move-se, em conjunto com todas as estrelas que constituem a Galáxia, em torno do seu centro e demora cerca de 200 milhões de anos a efectuar uma volta completa. Tabela 1: Características Gerais do Sol Características Gerais do Sol Massa Raio Equatorial 1,989X1030Kg 6,95x105 Km 99,86% mSistemaSolar 109 RTerra Densidade Média 1,4 g/cm3 Período de Temperatura Rotação à superfície 25 dias no Equador 5800 K O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Idade 4,7X109 anos 35 Explorando o Sistema Solar Tabela 2: Composição Química do Sol Composição Química do Sol % em massa Hidrogénio 73 Hélio 25 Outros Elementos (Oxigénio, Carbono, Azoto, Néon, Ferro, Silício, Magnésio, Enxofre, etc.) 2 Estrutura Interna do Sol Figura 5: Estrutura do Sol O Sol produz a sua energia no núcleo através de reacções nucleares que convertem por segundo cerca de 700 milhões de toneladas de hidrogénio em hélio, onde são libertadas o equivalente a 5 milhões de toneladas de energia. O núcleo tem uma temperatura estimada em cerca de 14 000 000 ºC e uma pressão de 340 milhares de milhões de vezes superior à da atmosfera da Terra ao nível do mar. A produção de energia decorre dos processos de fusão nuclear. A fusão nuclear consiste na junção de núcleos de elementos leves, fundindo-se num núcleo mais pesado. No processo liberta-se energia, devido ao facto da massa do núcleo final ser inferior à soma das massas do núcleo a fundir. Este processo só é possível se o combustível usado for composto por elementos mais leves do que o ferro, o que não constitui qualquer problema, pois no seu início o Sol tinha (e ainda tem) quase só hidrogénio e hélio. A energia gerada no interior do Sol demora cerca de um milhão de anos a atingir a superfície, tendo de passar pela zona radiativa - região onde a energia é transportada pela radiação (em 36 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar forma de fotões) – e zona convectiva - região onde a energia é transportada pela convecção (como um fluido em ebulição). Este último é o principal processo e transporte de energia perto da superfície e inclui a fotosfera. Como o Sol é gasoso não existe nenhuma separação abrupta na sua estrutura que marque a sua superfície. A atmosfera solar é constituída pela fotosfera, cromosfera e corona. É a partir da fotosfera que é emitida a grande parte da energia solar recebida na Terra. A fotosfera pode-se ver durante as observações directas do Sol, à luz branca, formando a “superfície” solar aparente. É por este motivo a parte mais brilhante do Sol. O primeiro fenómeno que se vê durante as observações é a diminuição do brilho do disco solar à medida que se aproxima do seu bordo, o que se deve ao facto de que na fotosfera se dá um aumento da temperatura em função da profundidade. A fotosfera é uma camada fina de gás com extensão de várias centenas de quilómetros, bastante opaca, com concentração de partículas na ordem dos 1016 – 1017 partículas por cm3, temperatura de 5 – 6 mil graus Kelvin e pressão de 0,1 atm, aproximadamente. As observações visuais e fotográficas da fotosfera realizadas nos dias muito favoráveis permitem descobrir a sua estrutura fina que lembra uma superfície encoberta por grãos de arroz, dando-se o nome de grânulos às formações arredondadas brilhantes e de granulação a toda a estrutura. As dimensões dos grânulos não excedem os 700 km da superfície solar. Cada grânulo tem um período de duração de 5 – 10 minutos, depois do qual se desintegra surgindo novos grânulos. Os grânulos ficam separados por intervalos escuros, o que significa que o material dos grânulos tem movimento ascendente, enquanto que o material dos intervalos tem movimento descendente. Conclui-se, portanto, que a granulação é um fenómeno observado na fotosfera onde se manifesta a zona de convecção situada abaixo desta. A densidade solar, na fotosfera, diminui rapidamente com o aumento da altitude. Nas camadas exteriores da atmosfera solar, a densidade diminui até 3x10-8 g/cm3 e a temperatura cai até aproximadamente 4500 K. Este valor é o mínimo da temperatura em toda a atmosfera solar, e a camada onde este mínimo se verifica dá pelo nome de cromosfera. Nas camadas superiores, onde a rarefacção alcança 10-15 g/cm3, dá-se uma vez mais o aumento brusco da temperatura até aproximadamente 1 milhão de graus. Aqui começa a parte mais externa do Sol, a corona solar. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 37 Explorando o Sistema Solar O brilho da cromosfera é centenas de vezes inferior ao brilho da fotosfera. Portanto, para observação da cromosfera é necessário usar processos que permitam distinguir as suas radiações, mais fracas, das radiações da fotosfera. O método mais prático é a observação da cromosfera por altura dos eclipses solares totais, pois a fotosfera é completamente encoberta pela Lua ao passo que a cromosfera fica visível. Figura 6: Eclipse Total de 1977 Por vezes, na fotosfera, na cromosfera e na corona solares surgem manifestações da actividade solar que se devem ao campo magnético solar. Na fotosfera solar podem-se observar formações activas que diferem nitidamente das regiões não perturbadas vizinhas, isto porque as primeiras se apresentam excessivamente brilhantes e resultam dum campo magnético fraco que provoca um aumento da intensidade de convecção nessas regiões. As fáculas ou faculae são formações relativamente estáveis, podendo durar, sem alterações visíveis, várias semanas ou até meses. Nas zonas de fáculas ou faculae com campos magnéticos mais fortes podem formar-se as manchas solares. Uma mancha solar pode atingir dimensões na ordem dos 20 000 km. A sua zona central é mais escura e chama-se umbra, a zona periférica, mais clara, denomina-se penumbra. As manchas correspondem a zonas com temperatura inferior à da fotosfera (aproximadamente menos 2000K). Através das manchas solares é possível medir a velocidade de rotação do Sol. O período de rotação é de 25 dias no equador e 35 dias nos pólos. Esta diferença só se verifica, porque o Sol não gira como um corpo rígido, pois na realidade ele é um corpo gasoso. A mancha solar aparece como um poro que difere muito pouco dos intervalos escuros que separam os grânulos. Este desenvolve-se e transforma-se numa mancha escura circular de configuração nítida, cujo diâmetro cresce até atingir várias dezenas de 38 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar milhares de quilómetros. Este fenómeno é acompanhado por um aumento gradual da intensidade do campo magnético. Por vezes, aparecem uma série de manchas numa zona paralela ao equador. As manchas isoladas formam-se geralmente nas margens oeste e leste da zona onde se desenvolvem duas manchas com maior intensidade. Os campos magnéticos das duas manchas principais e das pequenas que se lhes associam, têm sempre polaridades opostas, razão porque este tipo de manchas se chama bipolar. O número de manchas, tamanho e localização variam de uma forma aproximadamente cíclica, correspondendo àquilo a que se chama “ciclo magnético solar”. A diminuição da temperatura na mancha deve-se à influência exercida pelo campo magnético sobre a convecção. O campo magnético, em especial quando for de grande intensidade, retarda os movimentos da matéria cuja direcção é transversal às linhas de força. Portanto, na zona de convecção por baixo da mancha fica diminuída a circulação dos gases que transporta a maior parte de energia proveniente das camadas mais profundas. Em consequência disso, a temperatura da mancha é menor do que na fotosfera não perturbada. Figura 7: Mancha Solar Na cromosfera, em especial, numa pequena zona entre as manchas crescentes, designadamente, perto da linha de divisão da polarização dos campos magnéticos de grande intensidade, podem observar-se as mais fortes e dinâmicas manifestações da actividade solar, chamadas flares (ou fulgurações). Além do aumento do brilho, durante os flares verificam-se movimentos intensos dos gases, assim como enormes jactos luminosos de nuvens de plasma. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 39 Explorando o Sistema Solar Figura 8: Intensos campos magnéticos são os responsáveis pela erupção de gases a elevadas temperaturas, os quais formam arcos que seguem as linhas de campo magnético As formações activas observadas na corona e constituídas por nuvens mais densas e menos quentes de gás luminoso suportadas pelo campo magnético local denominam-se protuberâncias ou proeminências. A maior parte das vezes, as protuberâncias são constituídas por jactos luminosos compridos e quase perpendiculares à superfície solar. As protuberâncias são as formações activas mais grandiosas da atmosfera solar, cujo comprimento atinge centenas de milhares de quilómetros. Figura 9: Protuberância solar O Campo Magnético Solar O campo magnético solar foi descoberto em 1952, no entanto ainda não existe um modelo satisfatório que explique como ele se forma e como evolui. Ainda que não seja possível medir directamente a extensão do campo magnético solar, há modelos que permitem mapear o campo magnético tridimensional do Sol a partir das observações da fotosfera. A uma distância de quatro ou cinco raios solares do centro do Sol, o fluxo transportado pelo vento solar rompe 40 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar todas as estruturas magnéticas e transporta o campo magnético do Sol pelo espaço interplanetário. Assim, a magnetosfera solar, isto é, a região da heliosfera controlada pelo campo magnético do Sol antes de ser deformada pelo vento solar, estende-se por uns quatro raios solares desde o centro da nossa estrela e a sua forma é praticamente esférica. Figura 10: Magnetosfera Solar Por outro lado, a magnetosfera solar está sujeita a um ciclo de 22 anos ao longo do qual sofre alterações drásticas. O número de manchas e doutras manifestações da actividade solar relacionadas com elas varia ao longo deste período. O intervalo de tempo durante o qual se verifica o número máximo de centros de actividade tem o nome de máximo da actividade solar, enquanto que o intervalo de tempo durante o qual deixam de existir estes centros de actividade ou o seu número é mínimo, chama-se mínimo da actividade solar. Assim, os máximos e os mínimos alteram-se ao fim de um período médio de onze anos. A variação da polaridade magnética das manchas constitui uma característica muito importante do ciclo da actividade solar. Durante cada ciclo de onze anos todas as manchas anteriores dos grupos bipolares têm a polaridade de um dado sinal no Hemisfério Norte e a de sinal oposto no Hemisfério Sul. O mesmo se verifica no caso das manchas posteriores, cuja polaridade é sempre oposta à das manchas anteriores. Em cada ciclo inverte-se a polaridade das manchas anteriores e posteriores. Simultaneamente, verifica-se também a inversão da polaridade do campo magnético do Sol. A magnetosfera solar, ao contrário das magnetosferas planetárias, apresenta-se aberta, isto é, as linhas de campo estão sempre coordenadas com o vento solar, salvo raras excepções. No período correspondente ao mínimo de manchas solares, a corona toma a forma alongada com jactos compridos e encurvados ao longo do equador. Nos pólos observam-se os jactos curtos O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 41 Explorando o Sistema Solar formando “escovas polares”. Durante o máximo de manchas a configuração da corona é arredondada devido ao grande número de jactos radiais. As razões que determinam o ciclo da actividade solar constituem ainda um dos enigmas do Sol. Por outro lado, o vento solar corresponde à emissão contínua de partículas electricamente carregadas provenientes da corona solar. Estas partículas podem ser electrões, protões ou partículas carregadas de átomos mais pesados. A velocidade do vento solar, em regiões próximas da Terra, varia entre os 400 e os 800 km/s e a sua densidade ronda as 10 partículas por centímetro cúbico. O mecanismo exacto de formação do vento solar ainda não é conhecido, no entanto, o vento solar manifesta-se, por exemplo, na orientação das caudas dos cometas, as quais apontam sempre na direcção oposta ao Sol. As variações na corona solar, devido à rotação diferencial do Sol e às suas actividades magnéticas, fazem com que o vento solar se torne instável e variável. Assim quando ocorrem explosões na “superfície” do Sol, verifica-se um aumento da radiação emitida, a densidade do vento solar aumenta, e gera-se uma tempestade magnética que deforma a magnetosfera terrestre e produz fenómenos como as auroras polares. Figura 11: Aurora Boreal As tempestades magnéticas são causadas pela emissão para o espaço de grandes quantidades de partículas e radiação em virtude das explosões solares, as quais estão associadas ao aparecimento cíclico de manchas solares na superfície do Sol. As tempestades geomagnéticas que se fazem sentir na Terra provocam alterações meteorológicas e interferem com satélites, estações espaciais e comunicações por rádio. Actualmente, os cientistas já conseguem ter uma visão ampla do campo magnético global e das tempestades magnéticas da Terra. As 42 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar observações estão a ser feitas a partir do satélite IMAGE (Imager for Magnetopause to Aurora Global Exploration) que está em órbita polar. O Futuro do Sol O Sol já viveu cerca de 4,5 mil milhões de anos e brilhará ainda por mais 4,5 mil milhões de anos. Quando o seu combustível – hidrogénio - começar a escassear, o sol começará a queimar o hélio transformando-o em elementos mais pesados como o carbono. Nesta fase, o raio da nossa estrela aumentará o suficiente para “engolir” a Terra, transformando-se numa gigante vermelha. Esta fase prolongar-se-á por cerca de mil milhões de anos, até que o núcleo do Sol colapse numa anã branca, com um diâmetro semelhante ao da Terra. As camadas exteriores do Sol serão ejectadas para o espaço circundante formando uma nebulosa planetária. Figura 12: Nebulosa planetária NGC 2440 Exploração do Sol O Sol e a sua heliosfera têm sido explorados pelas missões Ulysses e pelo Observatório Solar e Heliosférico (SOHO). A 6 de Outubro de 1990, a sonda Ulysses, uma missão conjunta entre a Europa e os Estado Unidos, foi enviada como objectivo de estudar as regiões polares do Sol. Ulysses sobrevoa os pólos do Sol a cada cinco anos para observar a nossa estrela a partir de direcções inacessíveis a partir da Terra. Pioneira neste campo, Ulysses produziu a primeira caracterização tridimensional do Sol, demonstrando diferenças muito significativas entre o mínimo e o máximo do ciclo de actividade solar e revelou grandes lacunas na nossa O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 43 Explorando o Sistema Solar compreensão e nos nossos conhecimentos acerca de como os campos magnéticos e as partículas preenchem a heliosfera. Figura 13: Trajectória da sonda Ulysses O Observatório Solar e Heliosférico (SOHO), lançado em 1995, também um projecto europeu e norte-americano, foi destinado a estudar a corona e a actividade solar desde o espaço. A SOHO tem usado técnicas pioneiras no estudo da superfície solar, através da heliosismologia, revelando uma complexa série de movimentações que transportam energia e campo magnético através da zona de convecção solar. Instrumentos a bordo da SOHO têm revelado uma nova corona solar, a qual tem forçado os cientistas a repensar as suas ideias acerca da forma de como a corona é “aquecida”. Finalmente, a SOHO tem demonstrado uma forte ligação entre as erupções solares massivas e as perturbações no ambiente terrestre, dominadas pelas ejecções de massa a partir da corona. No futuro, a missão “Solar Orbiter” da ESA irá examinar o Sol de pontos únicos no que concerne a dois aspectos: muito próximo, a cerca de 1/5 de distância Sol-Terra, e muito próximo dos pólos solares. 44 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar 1.3.2. O Reino do Sol Figura 14: E só ficaram oito!! Os planetas Mercúrio, Vénus, Marte, Júpiter e Saturno são conhecidos desde a antiguidade. Em 1781, W. Herschel descobriu Úrano e, em 1846, foi descoberto Neptuno. O astrónomo norte-americano C. Tombaugh descobriu Plutão, agora reclassificado como planeta anão. Galileu Galileu descobriu que em torno de Júpiter também orbitavam satélites e, posteriormente, foram descobertos satélites em torno de Marte, Saturno, Úrano, Neptuno e Plutão. Conforme as suas características físicas, os planetas principais dividem-se em telúricos (Mercúrio, Vénus, Terra e Marte) e gigantes gasosos (Júpiter, Saturno, Úrano, Neptuno). Todos os corpos do Sistema Solar orbitam em torno de um corpo central; os planetas em torno do Sol e os satélites e anéis em torno dos respectivos planetas. O movimento de translação dos planetas em torno do Sol faz-se no mesmo sentido e as suas órbitas são executadas praticamente no mesmo plano. Já Plutão apresenta uma inclinação de 17º relativamente ao plano da elíptica. A excentricidade das órbitas planetárias é próxima de zero, o que significa que elas são praticamente circulares. Mas, por exemplo, a órbita de Plutão possui uma O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 45 Explorando o Sistema Solar excentricidade de tal forma elevada que chega a “ultrapassar” Neptuno por um período de vinte anos durante a sua translação, a qual dura 247,7 anos terrestres. Os planetas e satélites têm também movimento de rotação em torno de si próprios, no sentido directo ou retrógrado. A obliquidade dos planetas, isto é, a inclinação do equador do planeta relativamente ao plano orbital, é geralmente moderada, com excepção de Vénus, com uma obliquidade de 177º, e Úrano, com 97º. Por isso, Vénus roda no sentido retrógrado e Úrano roda “deitado”. Os movimentos de rotação são os responsáveis pela sucessão dos dias e das noites, enquanto que os movimentos de translação, associados à obliquidade dos planetas, originam as estações do ano. Tabela 3: Características dos planetas do Sistema Solar Planetas Mercúrio Vénus Terra Marte Júpiter Saturno Urano Neptuno Distância média ao Sol (UA) 0,39 0,72 1,0 1,5 5,2 9,5 19,2 30,1 Densidade (g/cm3) 5,43 5,25 5,52 3,95 1,33 0,69 1,29 1,64 Raio (Terra=1) 0,38 0,95 1 0,53 11,2 9,4 4 3,9 Massa (Terra=1) 0,05 0,89 1 0,11 318 95 15 17 Período de Translação (Terra=1) 0,2408 0,6152 1 1,8809 11,882 29,458 84,01 164,79 Inclinação Orbital (º) 7 3,394 0 1,850 1,308 2,488 0,774 1,774 Excentricidade 0,2056 0,0068 0,0167 0,0934 0,0483 0,0560 0,0461 0,0097 Período de Rotação (dias terrestres) 58,8 -244 1 1,029 0,411 0,428 -0,748 0,802 Obliquidade (º) 0 177,4 23,45 23,98 3,08 26,73 97,92 28,8 Luas 0 0 1 2 63 31 27 13 Mercúrio Mercúrio é um pequeno mundo rochoso, cuja superfície acidentada faz lembrar a nossa Lua. Por estar tão próximo do Sol e não ter atmosfera apresenta um clima de extremos: um calor abrasador durante o dia e um frio intenso durante a noite. 46 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Figura 15: Relação entre os tamanhos da Terra e de Mercúrio Mercúrio, um pequeno planeta e o mais próximo do Sol, é por estes motivos muito difícil de observar, razão pela qual os astrónomos têm pouca informação acerca deste astro. A maior parte dos conhecimentos que possuímos sobre Mercúrio foram revelados em 1974 pela sonda norte-americana Mariner 10, o único veículo espacial que até agora visitou o planeta. Figura 16: Mariner 10 A Superfície de Mercúrio A sonda Mariner 10 transmitiu para a Terra imagens televisivas do planeta Mercúrio, aproximadamente com os mesmos pormenores que se conseguem ao estudar a Lua com telescópios terrestres. A superfície de Mercúrio lembra a lunar. Foi-nos apresentado um mundo estéril e árido. O grande número de crateras das mais variadas dimensões é imediatamente notado e não foi detectada a presença de placas tectónicas, pois Mercúrio é muito pequeno para que o processo de placas tectónicas tenha lugar. No entanto as diferenças entre estes dois astros também são relevantes. Em Mercúrio não há grandes regiões onde a superfície seja relativamente lisa, O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 47 Explorando o Sistema Solar isenta de crateras, ou seja, mares. Por outro lado, na superfície de Mercúrio observam-se terrenos escarpados até 3000 metros de altura por 20 a 500 quilómetros de comprimento. A mais impressionante característica de Mercúrio, descoberta pela Mariner 10, é uma enorme cratera gigante chamada Caloris Basin com 1300 quilómetros de diâmetro. Esta foi provavelmente formada pelo impacto de um corpo com cerca de 100 quilómetros de diâmetro, há 3,9 ou 3,8 mil milhões de anos. O impacto produziu montanhas concêntricas com 3000 metros de altura e terá projectado material a 800 quilómetros de distância. As ondas sísmicas produzidas neste impacto revelaram-se no lado oposto do planeta produzindo uma vasta região de terreno caótico. Este forte impacto terá reactivado temporariamente o vulcanismo do planeta. Figura 17: Superfície de Mercúrio A Estrutura Interna de Mercúrio A elevada densidade de Mercúrio (5,42 g/cm3) similar à da Terra (5,52 g/cm3), sugere que o planeta será constituído por 70% de metal, principalmente ferro, e cerca de 30% de silicatos (rocha). Assim cerca de ¾ do planeta serão ocupados por um núcleo ferroso. Figura 18: Interior de Mercúrio 48 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Pensa-se que o material metálico pesado fundido no interior do núcleo se comporte como um dínamo, tal como acontece na Terra. Daí a presença de um leve campo magnético na ordem de 1% do da Terra, medido pela sonda Mariner 10. Mercúrio está coberto por uma crosta e um manto relativamente finos e em sequência disto pensa-se que é muito pouco provável que, até ao momento da sua formação, o planeta Mercúrio tivesse um núcleo ferroso de dimensões tão elevadas, portanto põe-se a hipótese que tenha perdido parte do seu manto rochoso externo. Este fenómeno poderá ter ocorrido no decurso de uma colisão com outro objecto, que teve lugar por altura da formação do planeta. Uma outra teoria defende que a energia libertada pelo Sol, nos seus primórdios, vaporizou parte da camada superficial de Mercúrio. Uma terceira teoria aponta a elevada densidade da nebulosa inicial na zona mais próxima do Sol como responsável pelo facto de Mercúrio ser essencialmente constituído por elementos mais pesados. Figura 19: Mercúrio e o seu campo magnético As características específicas deste planeta podem resumir-se da seguinte forma: exteriormente é semelhante à Lua e interiormente é semelhante à Terra. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 49 Explorando o Sistema Solar Os Movimentos de Mercúrio Com uma distância média de cerca de 58 milhões de quilómetros ao Sol, a órbita de Mercúrio é caracterizada por uma excentricidade elevada (0,206), dado que a distância entre o planeta e o Sol varia durante o percurso orbital em cerca de 24 milhões de quilómetros. A velocidade com que mercúrio se move em torno do Sol varia consoante o planeta se encontra no afélio, 38,7 km/s, ou no periélio 56,6 km/s. O período de rotação do planeta é de 58,65 dias terrestres, exactamente 2/3 do período de translação, 87,97 dias. O facto da rotação do planeta ser extremamente lenta implica que as diferentes faces de Mercúrio permaneçam durante longos períodos de tempo voltadas para o Sol. Também por isso se manifesta um contraste tão grande entre o dia e a noite em Mercúrio. Durante o dia as temperaturas podem ascender aos 430 ºC e durante a noite descem até aos 180 ºC negativos. Por outro lado, e dado que o eixo de rotação forma quase um ângulo recto em relação ao plano orbital, em Mercúrio não existem estações do ano como na Terra, o que implica que nos pólos existam áreas nunca iluminadas pela luz do Sol. Investigações efectuadas com o radiotelescópio de Arecibo, em Porto Rico, detectaram zonas de gelo de água nos pólos de Mercúrio. A confirmar-se, poder-se-á dizer que Mercúrio é mesmo um planeta de extremos. A Exploração de Mercúrio Como já foi referido, a observação de Mercúrio através de um telescópio terrestre é muito difícil, porque o planeta está muito próximo do Sol. Antes de missão Mariner 10 pouco se sabia acerca deste planeta. A Mariner 10 partiu em Novembro de 1973 e a sua trajectória foi calculada de maneira que, três meses mais tarde, passasse a 6000 quilómetros de Vénus. Aproveitando a posição dos dois planetas foi possível beneficiar da gravidade de Vénus para acelerar a sonda em direcção a Mercúrio. Nunca uma sonda espacial esteve tão perto do Sol e por este motivo teve de ser reforçada para se proteger das elevadas temperaturas que se fazem sentir durante o dia mercuriano. A órbita a realizar pela Mariner 10 foi cuidadosamente calculada pelo cientista italiano Giuseppe Colombo, de maneira que a sonda passasse três vezes nas proximidades de Mercúrio antes de deixar de funcionar. A bordo da sonda encontravam-se telecâmaras para observar a superfície, um espectrómetro para procurar eventuais vestígios de gases atmosféricos, um sensor de raios infravermelhos para medir a temperatura superficial e um magnetómetro, apto para revelar eventuais campos magnéticos. 50 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar A Mariner 10 chegou a Vénus em Fevereiro de 1974 e a Mercúrio em Março do mesmo ano. À passagem tirou milhares de fotografias que cobriram cerca de 40% da superfície do planeta. As imagens revelaram um mundo profundamente craterizado, muito semelhante à nossa Lua. Os instrumentos a bordo descobriram também que Mercúrio tem um fraco campo magnético. Depois de uma órbita em volta do Sol, a Mariner 10 visitou Mercúrio mais duas vezes, tirando fotografias e estudando mais a fundo o campo magnético acabado de descobrir. A missão foi um sucesso e demonstrou a possibilidade de utilizar a gravidade de um planeta como propulsante para enviar uma sonda em direcção a outro planeta, ou outro objecto celeste, ainda mais distante. Vénus Vénus manteve os seus segredos ocultos por detrás de um grande manto de nuvens, até há bem pouco tempo. As sondas espaciais mostraram um mundo proibido, ao mesmo tempo fascinante com temperaturas abrasadoras, planícies rochosas e enormes vulcões. “Astronomia – o Guia Essencial” Figura 20: Vénus A Estrutura Interna de Vénus O núcleo de Vénus, de raio 2900 km, é rico em ferro e, à semelhança da Terra, espera-se que seja parcialmente liquefeito. As camadas exteriores do manto são mais quentes do que na Terra e estão num estado de fusão parcial. A crosta é muito grossa, entre os 20 e os 60 km de diâmetro, e de origem basáltica. À partida, o núcleo ferroso deveria criar um campo magnético que, porém, não existe, talvez devido à sua rotação muito lenta. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 51 Explorando o Sistema Solar Figura 21: Interior de Vénus Superfície de Vénus A superfície de Vénus apresenta-se praticamente plana, normalmente as oscilações não vão além dos 500 metros, mas existem excepções consideráveis. Atalanta Planitia, Guinevere Planitia e Lavinia Planitia surgem como depressões a referir, enquanto Istar Terra, no Hemisfério Norte, e Afrodite Terra, ao longo do equador, constituem formações bastante extensas, semelhantes aos continentes na Terra. No interior de Istar Terra existe um grande planalto, Lakshmi Planun, que está rodeado pelas maiores montanhas de Vénus, incluindo os Maxwell Montes de 11 km de altura. Não existem pequenas crateras em Vénus, porque certamente a densa atmosfera protege a superfície de pequenos meteoritos e apenas os objectos maiores sobreviveram ao trajecto atmosférico até chegar à superfície. As crateras são bastante jovens em termos geológicos, com idades inferiores a 500 milhões de anos. Ao que parece, a imensa actividade vulcânica, existente na altura, cobriu as crateras de impacto mais antigas. Figura 22: Maat Mons 52 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar A Atmosfera de Vénus Vénus e Terra são muito semelhantes no que respeita à massa (M=0,82MTerra) e ao tamanho (R=0,95RTerra). Assim sendo, supunha-se que as condições físicas na superfície de Vénus e da Terra seriam aproximadamente iguais. Não podíamos estar mais enganados! A superfície de Vénus está completamente coberta de nuvens que provocam uma elevada reflexão da luz do Sol, fazendo com que ele seja, depois do Sol e da Lua, o objecto mais brilhante no céu. As observações espectroscópicas demonstraram que em toda a atmosfera de Vénus existe dióxido de carbono e, em percentagem muito inferior, outros gases, tais como vapor de água, monóxido de carbono, dióxido de enxofre, vapores de ácido clorídrico e vapores de ácido fluorídrico. Antes das investigações in situ efectuadas pelas Venera-4, Venera-5 e Venera-6 e comparando com a Terra, supunha-se que na atmosfera de Vénus existisse uma grande quantidade de azoto. Na realidade a proporção de dióxido de carbono nas camadas inferiores da atmosfera de Vénus constitui aproximadamente 97% contra os 2% de azoto. A proporção de água nas camadas profundas da atmosfera é apenas na ordem de 0,002% conforme dados fornecidos pelas Venera-11, Venera-12, Venera-13 e Venera-15. É de realçar que a quantidade de água que se pode detectar na atmosfera deste planeta nada tem a ver com a quantidade de água presente na Terra. No entanto, Vénus terá possuído grandes quantidades de água, perdida para o espaço interplanetário devido à elevada temperatura. A atmosfera de Vénus mostra zonas estratificadas com composição e estruturas das nuvens diversa. Na parte mais alta existem ventos com velocidades na ordem dos 350 km/h, o que faz com que a camada mais alta de nuvens dê uma volta completa em redor de Vénus em apenas quatro dias. Na parte baixa da atmosfera – aproximadamente 50 km de altitude - há uma faixa de nuvens, também de ácido sulfúrico (tal como nas camadas de nuvens mais elevadas) que, no entanto, se condensou em gotas de maior tamanho. Graças às elevadas temperaturas em Vénus, o ácido sulfúrico nunca cai na superfície sob a forma de chuva. Nestas altitudes, a densidade é elevada e a visibilidade fraca. Em baixo a densidade mantém-se de tal forma elevada que restringe muito o horizonte visível. A densa atmosfera de Vénus é responsável pelo elevado efeito de estufa, o que eleva a temperatura média aos 460 ºC à superfície de Vénus, a mais alta do Sistema Solar. Como a atmosfera de Vénus é constituída por moléculas pesadas, a coluna de gás que assenta num metro quadrado de terreno “pesa” muito e a pressão à superfície é altíssima: cerca de 90 atmosferas. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 53 Explorando o Sistema Solar Os Movimentos de Vénus Tal como Úrano, Vénus roda em torno de si próprio no sentido retrógrado. Para além disto, a rotação de Vénus é muito lenta, pelo que demora 243 dias terrestres a efectuá-la, 18 dias mais do que demora a girar à volta do Sol. Isto é, o período de rotação é maior do que o período de translação, ou seja, o dia é maior do que o ano. Imagem 23: O trânsito de Vénus Exploração de Vénus Vénus, um dos corpos celestes mais luminosos no céu nocturno, já foi investigado por dezoito sondas soviéticas e três americanas, desde 1960. As sondas soviéticas Venera foram as primeiras a explorar o planeta e, durante muitos anos, os soviéticos mantiveram uma espécie de monopólio na exploração de Vénus. Começaram uma longa série de lançamentos e a primeira sonda, Venera 1, partiu exactamente no mesmo ano em que Yuri Gagarin se tornou no primeiro homem a orbitar em torno da Terra, 1961. As duas primeiras sondas perderam-se, mas a Venera 3 e a Venera 4, pelo contrário, conseguiram transmitir, pela primeira vez, dados sobre a composição da atmosfera de Vénus. Em 1970, a Venera 7 penetrou na atmosfera de Vénus e transmitiu informações para a Terra durante mais de 20 minutos, mediu uma temperatura de 475 ºC e uma pressão de 92 atmosferas. Era a primeira vez que um objecto produzido pelo Homem pousava noutro planeta. Os lançamentos continuaram durante os anos 70 e os resultados obtidos puseram fim a quaisquer ilusões sobre a existência de vida neste planeta. Em 1975, a Venera 9 tirou as primeiras fotografias a preto e branco do planeta. No início dos anos 80 do século XX, a União Soviética construiu os últimos modelos da série Venera, as sondas 14 e 15. Estas sondas destinavam-se ao encontro com o cometa Halley, no entanto, à passagem pelo planeta Vénus deixaram cair dois módulos 54 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar e dois balões atmosféricos que efectuaram uma série de medições a 50 quilómetros de altitude. Alguns anos antes, os americanos lançaram as duas sondas Pioneer-Venus, também elas equipadas com módulos de investigação da superfície do planeta. Figura 24: Venera 13 na superfície de Vénus em Março de 1982 No entanto, a sonda que mais contribuiu observadas estruturas vulcânicas circulares para o conhecimento do planeta Vénus foi em forma de panquecas tendo adoptado o a Magalhães, que no início dos anos 90 mesmo nome. cartografou a superfície de Vénus com um detalhe até então nunca conseguido. A sonda Magalhães foi lançada a partir do vaivém espacial Atlantis a 4 de Maio de 1989. Um mapeamento por radar teve início em Setembro de 1990 e em 1993 já se tinha feito a cobertura de 98% da superfície do planeta. A sonda Magalhães resolveu características abaixo dos 120 metros e revelou detalhes do vulcanismo à superfície. Para exemplo, a sonda revelou múltiplos rios de lava em forma de serpentina e superfícies rochosas. A sonda Magalhães mostrou também muitas Figura 25: A Sonda Magalhães no centro Espacial Kennedy coronae, em tempos causadas por plumas de material quente em ascensão partindo abaixo da superfície. Também foram O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 55 Explorando o Sistema Solar A Venus Express foi lançada a 9 de Novembro de 2005, a partir de um Soyuz-Fregat em Baikonur, no Casaquistão, e chegou a Vénus em Abril de 2006. A duração da viagem da Terra a Vénus foi de 150 dias e a órbita em torno do planeta será de 1000 dias. O nome da missão, Venus Express, vem do curto intervalo de tempo que decorreu entre a aprovação de missão, a sua consecução e lançamento, cerca de três anos. Para tornar isto possível, a ESA reutilizou o mesmo projecto usado na missão Mars Express e as mesmas equipas industriais que trabalharam nesta missão. Assim, projecto Venus Express tornou-se numa missão mais barata e prontamente conseguida. A missão Venus Express também utiliza instrumentos desenvolvidos para a missão da sonda Rosetta. A Venus Express é a primeira nave espacial da ESA a visitar este planeta. Figura 26: Visão artística da Venus Express por cima de uma tempestade atmosférica Graças a um conjunto de avançados instrumentos para as investigações planetárias, a missão Venus Express estuda a atmosfera de Vénus, a sua dinâmica e composição química, a interacção entre a atmosfera e a superfície, e também as nuvens venusianas em detalhe. Estuda a interacção entre a atmosfera e o ambiente interplanetário (vento solar), para melhor compreendermos a evolução deste planeta e faz mapas das temperaturas à superfície do planeta e da sua atmosfera. 56 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Terra “A Terra é apenas mais um planeta do Sistema Solar. Isto pode estar certo, mas quanto mais aprendemos sobre os outros planetas, mais apreciamos as características que tornam especial o terceiro rochedo a partir do Sol.” Texto retirado de Astronomia – O Guia Essencial Figura 27: Planeta Terra A Estrutura Interna da Terra A existência de biosfera e hidrosfera, assim como a grande actividade dinâmica da crosta e da atmosfera, constituem características únicas do nosso planeta. A atmosfera e a crosta terrestres têm também sofrido grandes modificações ao longo da vida do planeta e também em consequência da evolução dos organismos vivos. O estado inicial do planeta Terra era bem diferente. As elevadas temperaturas mantinham-no num estado de fusão que veio favorecer a fase de diferenciação, ou seja, os materiais mais densos migraram em direcção ao centro do planeta, como o ferro e o níquel, enquanto que os materiais menos densos, tais como os silicatos responsáveis pela formação das rochas, permaneceram à superfície. Entretanto o processo terminou, a temperatura baixou e o planeta solidificou. Além disso, condições favoráveis levaram a que grande parte do planeta se cobrisse de água líquida. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 57 Explorando o Sistema Solar Figura 28: Estrutura Interna da Terra O estudo da estrutura interna da Terra processa-se de forma indirecta, isto é, através do estudo da propagação das ondas sísmicas. A estrutura interna do nosso planeta é estratificada em núcleo, manto e crosta. O núcleo, por sua vez, distingue-se em núcleo interior, com um raio de 1200 quilómetros, e um núcleo exterior, de espessura 2300 quilómetros, constituído essencialmente por ferro e níquel. No centro da Terra, a temperatura poderá atingir os 7500K, que quando comparada com a temperatura à superfície do Sol, se verifica que esta é inferior. O manto divide-se em manto interior, com silício, magnésio, oxigénio, algum ferro, cálcio e alumínio na sua constituição, e em manto superior, formado por silicatos de ferro, magnésio, cálcio e alumínio. O manto inferior é caracterizado por uma estrutura rígida, enquanto que o manto superior apresenta uma maior plasticidade. A parte superior do manto tem de espessura cerca de 100 quilómetros e em conjunto com a crosta toma o nome de litosfera. A crosta é essencialmente constituída por dióxido de silício e outros silicatos. A parte continental da crosta, menos densa, tem uma espessura de cerca de 30 quilómetros e a parte oceânica, mais densa, cerca de 8 quilómetros. A Superfície da Terra A litosfera é formada por placas que estão sujeitas a um constante movimento determinado pelas correntes convectivas provocadas pela mistura de rochas fundidas, ainda a decorrer, e que é responsável pelo fenómeno que os geólogos denominam de tectónica de placas. O afastamento das placas leva ao aparecimento de uma nova crosta como resultado do magma que surge à superfície. Por outro lado, também se pode verificar o deslizamento de uma placa sob a outra ou até o movimento transversal ao longo das suas divisórias, o que origina falhas 58 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar sísmicas e vulcanicamente instáveis. As colisões entre as placas continentais dão origem à formação de cadeias montanhosas, ao passo que o afastamento produz os oceanos. A superfície da Terra é relativamente recente, pois a erosão e a tectónica de placas destruíram e recriaram a grande parte da superfície terrestre nos últimos 500 milhões de anos. A Terra é o único planeta do Sistema Solar com água no estado líquido e numa tal quantidade que cobre 71% da superfície terrestre. A erosão e a manutenção de uma menor amplitude térmica à superfície do planeta são da responsabilidade desta característica. A Atmosfera Terrestre À semelhança do que aconteceu com o planeta propriamente dito, também a atmosfera terrestre sofreu uma grande evolução desde Actualmente a a sua atmosfera formação. terrestre é constituída em 78% por azoto, 20,9% por oxigénio, 0,9% de árgon, 0,2% de dióxido de carbono, água, néon, hélio e hidrogénio. A quantidade de dióxido de carbono terá diminuído drasticamente ao longo dos tempos como resultado da combinação com rochas formando carbonatos, por dissolução nos oceanos ou terá até sido consumido em processos fotossintéticos. Processos como a tectónica de placas também providenciam uma troca contínua de dióxido de carbono entre a litosfera e a atmosfera. O dióxido de carbono presente na atmosfera representa um importante papel no efeito de estufa responsável por um aumento na temperatura média do planeta permitindo a existência de vida tal como nos é apresentada. Figura 29: As camadas da atmosfera terrestre O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 59 Explorando o Sistema Solar Tabela 4: Camadas da atmosfera terrestre No me Ca ract e r ístic as Va r iação da t e mp eratu ra A lt it ud e ( km) Tro posfera É a c a ma d a d a a t mos f era q u e es t á em c o n ta c to com a sup er f íc i e ter r e s tre e qu e con té m o ar qu e re sp ir a mo s. É ond e se g eram as nuvens e todos os f enó me nos me teo ro lóg ic os. -50 ºC e -80 ºC 0-15 0 ºC na zona sup er ior 15-50 É onde se en con tra a cama d a d e Es trato sf era o zono, qu e f iltr a o s r a io s u ltr av io le ta (UV) nocivo s à v ida na Terra. M eso sfe ra D iminu ição d a concen tração d e o zono, o ar torn a-se cada v ez ma is r ar efe i to . Cheg a ao s –100 ºC co m a altitude. 50-80 T e r mo sf e ra N es ta zona o ar é ma is r ar efe ito . É tamb ém onde se d e sin tegr a m o s me teo r itos, or ig in ando o ef eito d as “ e s tr e la s cad en te s” . A s te mp e r a tu r as s ão e lev ad ís s ima s, ch eg a m a ating ir o s 2000 ºC, d evido à absor ç ão d a r ad ia ç ão s o l ar . Mais d e 80 Exosfera Nesta cama d a orb itam o s satélites a r t if i cia i s. _______ Mais d e 600 O Campo Magnético Terrestre Figura 30: Campo magnético terrestre 60 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar O núcleo metálico fundido e a rotação rápida do nosso planeta produzem um extenso campo magnético que, em conjunto com a atmosfera, gera a magnetosfera que age como escudo contra o vento solar, um fluxo de partículas carregadas provenientes do Sol. A interacção da atmosfera com essas partículas, presas no campo magnético terrestre produz as auroras boreais e austrais, espectáculos de luzes conhecidos como auroras polares. Da análise das antigas rochas extraídas das profundidades oceânicas, foi descoberto que o pólo sul e o pólo norte do campo magnético terrestre têm sofrido inversões a intervalos regulares de cerca de 100 000 anos. Na magnetosfera existem duas zonas de forte radiação, detectadas pelo satélite americano Explorer1, em Fevereiro de 1958, e são conhecidas por Cinturões de Van Allen. Estas zonas são formadas por plasma constituído por partículas do vento solar que foram capturadas pelo campo magnético da Terra. Os Cinturões de Van Allen dividem-se em exterior, que varia entre os 19 000 e os 41 000 quilómetros de altitude, e anterior, que pode medir entre 7600 e 13 000 quilómetros de altitude. Figura 31: Auroras polares fotografadas pelo HST A Lua Figura 32: A Lua O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 61 Explorando o Sistema Solar Tabela 5: Características de Lua Distância Satélite média à Terra Diâmetro Massa (kg) (km) Lua 3,844x105 0,272 0,0123 DTerra MTerra Período Densidade Média Gravidade Temperaturas 3 (g/cm ) 3,34 de Rotação (dias) 0,166 -235ºC a gTerra 125ºC 29,531 Período de Translação (dias) 29,531 A Lua é o único satélite do planeta Terra e o corpo celeste mais próximo do planeta, tão próximo que é facilmente observável com um simples binóculo. A Lua tem um diâmetro de 3476 quilómetros, igual a um quarto do diâmetro terrestre. Com um período de translação igual ao de rotação, para um observador na Terra, a Lua apresenta sempre a mesma face. A Estrutura Interna da Lua A estrutura interna da Lua foi estudada através do registo de alguns “lunamotos” de fraca intensidade, efectuado pelos sismógrafos deixados pelos astronautas, confirmando que esta é muito semelhante à da Terra, embora as proporções entre os diferentes estratos sejam muito diferentes. A Lua poderá ter um núcleo ferroso com cerca de 700 quilómetros de diâmetro e contendo somente 2% da massa da Lua. A este seguir-se-á o manto que ocupa grande parte do volume lunar. A crosta lunar apresenta-se muito variável em termos de espessura: cerca de 100 quilómetros na face escondida da Lua e que corresponde a uma superfície quase coberta de crateras e montanhas; e cerca de 60 quilómetros na fase voltada para a Terra, onde predominam os mares. Pensa-se que esta diferença na morfologia do satélite se prenda precisamente com a diferença de espessura da crosta e que em tempos a lava presente no manto emergisse mais facilmente em zonas de crosta mais fina, determinando a formação dos mares. A Superfície da Lua A superfície lunar é caracterizada por dois tipos de terrenos principais: os marea, que correspondem a zonas mais escuras e lisas, e os terrea, zonas mais brilhantes, montanhosas e bastante craterizadas. A superfície actual da Lua estará relacionada com dois momentos fundamentais: o primeiro terá ocorrido há cerca de 3,8 mil milhões de anos, devido a um intenso bombardeamento meteorítico; num segundo momento, as crateras resultantes do 62 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar primeiro, terão sido preenchidas por lava resultante da actividade vulcânica, resultando daí os mares. À vista desarmada é relativamente fácil distinguir as zonas mais brilhantes das zonas mais escuras. As primeiras são cordilheiras montanhosas, terrenos elevados, materiais expulsos pela formação de crateras, e rególito, o fino e poeirento solo lunar. O rególito formase à custa da erosão provocada nas rochas lunares por incontáveis meteoritos minúsculos. Este solo tem dois a oito metros de profundidade na zona dos mares e chega a atingir os quinze metros nas terras altas. A maior cratera de impacto na Lua, com 2250 quilómetros de diâmetro e 12 quilómetros de profundidade, encontra-se no lado não visível da Lua e dá pelo nome de South Pole- Aitken. Figura 33: Mapa topográfico de South Pole- Aitken baseado em informações da sonda Clementine As regiões escuras correspondem a vales ou planícies com poucas crateras. O Maré Tranquillitates, Crisium e Serenitates são visíveis durante a fase de Quarto-Crescente, no hemisfério oriental da Lua. A Origem da Lua A origem do satélite da Terra é ainda hoje um tema de discussão. Até à realização das missões Apollo, existiam três teorias sobre a formação da Lua: a teoria da “captura”, a teoria da “agregação” e a teoria da “fissão”. A teoria da “captura” defende que a Lua se terá formado noutra zona do Sistema Solar, tendo posteriormente sido capturada pela Terra por acção da gravidade. Esta teoria explicaria a diferença entre as composições químicas da Terra e da Lua, mas tal acontecimento é altamente improvável, pois um corpo de dimensões lunares dificilmente seria capturado pela gravidade da Terra, provavelmente só sofreria algum tipo de desvio na sua trajectória. A teoria da “agregação” aponta para uma formação comum e em O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 63 Explorando o Sistema Solar simultâneo da Terra e da Lua, a partir da nebulosa primordial. Esta teoria não explica as diferenças na composição química dos dois astros, pelo que não é bem aceite. A teoria da “fissão” avança que a Lua se terá formado a partir da fragmentação da Terra, no seu período de formação. O estudo dos materiais rochosos trazidos para a Terra, revelou que a origem provável da Lua terá por base a colisão da Terra com um corpo de dimensões semelhantes às de Marte. Esta colisão terá levado à projecção de material que ficou a orbitar em torno da Terra, tendo-se mais tarde compactado e levado à formação da Lua. Esta hipótese explica a diferença entre o material lunar e o manto terrestre. Se esta teoria for efectivamente correcta, a sonda Smart1deverá ter detectado na Lua uma menor razão do que na Terra entre a abundância de ferro e de elementos mais leves como o magnésio e o alumínio. A Smart-1 foi a primeira das Small Missions for Advanced Research in Technology e foi lançada a 27 de Setembro de 2003, para estudar, com maior detalhe do que até então conseguido, a superfície lunar. A missão Smart-1 já foi concluída, tendo a sonda colidido propositadamente com a Lua. Exploração da Lua A 20 de Julho de 1969, os astronautas Armstrong e Aldrin conquistaram a Lua em nome da Humanidade, no entanto, a corrida à conquista da Lua tinha começado bastante tempo antes. Figura 34: O Homem na Lua Os russos foram os primeiros a fazer uma alunagem controlada com uma sonda automática. O Luna 9 desceu no Oceanus Procellarum, a 3 de Fevereiro de 1966, disposto a confirmar a 64 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar teoria que indicava que os mares lunares estariam cobertos por uma profunda camada de poeira. Algum tempo depois, os russos já estavam preparados para enviar veículos para a Lua que coleccionariam amostras de material lunar, que depois seriam transportadas para a Terra. Por outro lado, os americanos colocaram na Lua os veículos Ranger que enviaram informações e fotografias para a Terra antes de se auto-destruirem. Os Surveyors obtiveram uma grande quantidade de informação. Entre 1966 e 1968, os cinco Orbiters providenciaram mapas muito detalhados da superfície lunar. Figura 35: Diagrama do veículo Surveyor - NASA Entretanto tinha chegado o momento do programa Apollo. A 21 de Dezembro de 1968, Frank Bormen, James Lovell e William Anders tripulavam a Apollo 8 e após uma viagem de 400000 quilómetros entraram na órbita circunlunar. Estes astronautas foram os primeiros a ver o nosso planeta a uma distância tão grande e a observar a face escondida da Lua. Seguiu-se-lhes a Apollo 9 que orbitou em torno da Terra, testando o módulo lunar que iria descer à superfície lunar. A Apollo 10 consistiu numa preparação exaustiva para o sucesso da primeira alunagem. A célebre missão que levou o Homem à Lua passa obrigatoriamente pelo nome dos três astronautas envolvidos: Neil A. Armstrong, Michael Collins e Edwin “Buzz” Aldrin. Columbia era o nome do módulo de comando e o LEM chamava-se Eagle. O foguetão Saturno V ergueu-se da plataforma a 16 de Julho de 1969 e a 20 de Julho já a Apollo 11 se encontrava em órbita circunlunar. É então que o LEM, com Armstrong e Aldrin a bordo, se O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 65 Explorando o Sistema Solar separa do módulo de comando. Doze minutos e meio de grande tensão e nervosismo foi o tempo necessário para a alunagem. As primeiras palavras proferidas ficaram célebres: “Controlo de Houston, Base da Tranquilidade, a Águia pousou”. Os dois astronautas passaram mais de duas horas fora do LEM a fixar o primeiro ALSEP – Apollo Lunar Surface Experimental Package – que incluía vários instrumentos, entre os quais um sismómetro, um projecto para procurar quaisquer vestígios de atmosfera lunar e um instrumento preparado para recolher partículas do vento solar. Figura 36: Apollo 11 É visto que quando o Homem alunou pela primeira vez já o projecto Apollo para a conquista da Lua estava no auge. Um grande sucesso também foi a Apollo 12 lançada em Novembro de 1969. Os astronautas Charles Conrad, Richard Gordon e Allan Bean estiveram nesta missão, entre 14 e 24 de Novembro. O LEM Intrepid transportou Corad e Bean para a superfície lunar, apenas a 180 metros da sonda lunar Surveyor, que se encontrava na lua desde 1967. Em Abril de 1970, os astronautas James Lovell, John Swigert e Fred Haise foram os três protagonistas da quase-desastrosa missão Apollo 13. Evitaram por pouco o desastre depois da explosão de um reservatório de oxigénio ter danificado o módulo de comando a meio caminho da Lua. Em Janeiro de 1971, os astronautas Shepard e Michell, na missão Apollo 14, colocaram na Lua o primeiro “cart lunar” para transportar o equipamento dos astronautas. A missão Apollo 15, partida a 26 de Julho de 1971, foi a primeira a utilizar o famoso todo-oterreno lunar: o Rover. Os astronautas da Apollo 15 fizeram três viagens diferentes com o Rover, permanecendo, ao todo, mais de dezoito horas sobre a superfície lunar e percorrendo mais de 27 quilómetros durante as explorações do desfiladeiro de Ridley Hill. Durante este processo foram recolhidos cerca de 80 quilogramas de material rochoso lunar, que depois foram transportadas para a Terra. Os Rovers também foram utilizados nas missões Apollo 16, lançada em Abril de 1972, e Apollo 17, de Dezembro de 1972, e depois foram abandonados na Lua onde ainda permanecem. Graças aos Rovers, os astronautas podiam-se afastar do LEM e recolher uma maior variedade de material rochoso. Sem estes aparelhos teriam de se cingir 66 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar ao encontrado na zona de alunagem. Um dos astronautas da Apollo 17 , Dr. Harrison Schimitt, geólogo, encontrou pedras cor-de-laranja que remontam a 3800 milhões de anos. Nenhum homem voltou à Lua desde 1972. Figura 37: Eugene Cernan a conduzir o Lunar Rover na missão Apollo 17 A sonda Clementine foi lançada da Base da Força Aérea de Vanderburg, na Califórnia, a 24 de Janeiro de 1994. Esta sonda inspeccionou e fotografou toda a Lua e mapeou as regiões polares com o maior rigor até então conseguido. Por exemplo, foram obtidas observações detalhadas da zona do Pólo Sul, Aitken Basin, com 2250 quilómetros de diâmetro por 12 quilómetros de profundidade. A sonda Clementine detectou indícios da existência de água dentro de crateras polares, permanentemente na sombra, onde nunca incide a luz solar. A sonda que lhe seguiu, Prospector, foi lançada a 3 de Janeiro de 1998, com a intenção de levar a cabo uma inspecção da superfície lunar. A 31 de Julho de 1999, chocou violentamente com uma cratera lunar a fim de procurar maiores evidências da presença da água nos escombros, mas nenhum sinal de gelo de água foi encontrado e a ideia foi, pelo menos genericamente, abandonada. Figura 38: Fotografia tirada pela sonda Clementine onde se vêem a Lua, a corona solar e Vénus. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 67 Explorando o Sistema Solar A SMART-1 foi lançada a 27 de Setembro de 2003, tendo-se tornado na primeira missão da Agência Espacial Europeia (ESA) a visitar a Lua. Este lançamento foi inserido num conjunto de missões de baixo custo, SMART (Small Missions for Advanced Research in Technology Pequenas Missões para a Investigação Avançada em Tecnologia), cujo objectivo primordial era testar novas tecnologias para futura espaciais. utilização em missões Figura 39: SMART-1 No caso da SMART-1, o objectivo primário foi testar e validar um motor de propulsão eléctrica para missões interplanetárias. Adicionalmente foram testadas novas tecnologias para sondas e instrumentos. A bordo foram colocados diversos instrumentos científicos, em que alguns serviriam para estudar o desempenho do motor e outros foram destinados à aquisição de dados científicos, em especial da Lua. Os instrumentos científicos relacionados com a investigação lunar foram uma câmara de alta resolução (AMIE), com a qual foi possível obter imagens com uma resolução nunca antes conseguida a partir de uma nave em órbita lunar. A SMART-1 contou também com um espectrómetro de infravermelho (SIR), para análise de compostos da superfície lunar, entre eles a água. A sonda possuía também um inovador espectrómetro de raio-X (DCIXS) com o objectivo de fazer uma análise dos elementos da superfície lunar. A missão terminou a 3 Setembro 2006 quando a nave espacial se despenhou propositadamente na superfície lunar na região de Lacus Excellentiae. 68 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Marte Figura 40: O planeta Marte Os dados e as imagens enviadas pelas sondas espaciais mostram que o planeta vermelho é um deserto onde reina um clima muito severo. Mesmo assim, Marte continua sendo o objectivo principal para a procura de vida fora do planeta. Marte, o primeiro planeta para além da órbita da Terra, sempre teve especial interesse para o Homem, mas agora mais que nunca, uma vez que nos encontramos na expectativa de encontrar vida neste planeta. A Estrutura Interna de Marte Marte é menos denso do que a Terra e silicatos, também muito mais pequeno, o seu aproximada de 1800 quilómetros, enquanto tamanho que encontra-se numa situação intermédia entre a Terra e a Lua. Ao a abrange crosta pode uma atingir espessura os 100 quilómetros. contrário de Vénus, Marte tem uma atmosfera muito ténue, o que favorece a observação da sua superfície. À semelhança de Vénus e da Terra, Marte apresenta uma estrutura interna dividida em núcleo, manto e crosta. O núcleo, composto por ferro, níquel e enxofre, tem um raio estimado entre os 1300 e os 2000 quilómetros. O manto, essencialmente de Figura 41: A estrutura interior de Marte O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 69 Explorando o Sistema Solar Os resultados das medições do campo magnético, realizadas pelas sondas Mars – 2, 3, 5, levaram a crer que o planeta possui o seu próprio campo magnético, embora muito fraco, aproximadamente 10-3 do campo magnético terrestre. Se tal se verificar poder-se-á concluir acerca de um núcleo líquido de Marte. A Superfície de Marte Marte não parece ter tectónica de placas, no entanto não está completamente posta de lado a ideia de que o poderá ter tido num passado remoto. Se considerarmos Marte um planeta com uma única placa, não existirá movimento da crosta relativamente ao manto, o que explica o planalto de Tharsis e os seus enormes vulcões, actualmente inactivos. Quase metade da superfície de Marte corresponde a regiões ocupadas pelas antigas crateras, embora o seu número por unidade de superfície seja consideravelmente inferior ao que se verifica na Lua e no satélite Fobos. Em Marte há enormes montanhas de origem vulcânica, mas não existem cordilheiras. Na superfície de Marte realçam-se os canais curvilíneos que poderão ser leitos de rios secos. Actualmente é impossível a existência de água no estado líquido na superfície marciana, pois se existisse evaporar-se-ia devido à baixa pressão atmosférica neste planeta. No entanto, os leitos de antigos rios são indícios de que há milhões de anos o planeta tinha uma atmosfera mais densa e de que nele existia água líquida. Estes podem ter sido causados por grandes fluxos de água, cuja origem ainda não é certa, mas que pode estar associada a gelo derretido por acção da actividade vulcânica, erupções de água sob pressão, liquefacção de finos sedimentos saturados de água ou ainda pela erosão lenta de glaciares. Figura 42: Fotografia panorâmica de Marte obtida durante a missão Pathfinder 70 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar O solo marciano consta essencialmente de matéria fragmentada (rególito) e de um grande número de blocos de pedra à superfície. Das análises feitas ao solo de Marte, conclui-se que, comparativamente com as rochas terrestres, as de Marte são mais ricas em magnésio, ferro e cálcio e mais pobres em potássio, sílica e alumínio. Detectou-se também a presença de minerais hidratados e de minerais magnetizados. Entre o Hemisfério Norte e o Hemisfério Sul existem diferenças notáveis: o Hemisfério Norte apresenta planícies lisas e uma craterização moderada, enquanto que no Hemisfério Sul existem enormes crateras. Isto talvez se deva ao facto do Hemisfério Sul ser “mais velho”, remontando a cerca de 3,8 mil milhões de anos, uma época em que se deu o grande bombardeamento meteorítico que envolveu todo o Sistema Solar. Entre os dois hemisférios existe um enorme planalto que se estende por 4000 quilómetros e com uma altura de 10 quilómetros e que se denomina Região de Tharsis. Outras formações geológicas relevantes são Olympus Mons, a maior montanha do Sistema Solar, elevando-se a uma altura de 24 quilómetros acima da planície que o rodeia com um diâmetro de 500 quilómetros delimitada por uma escarpa de 6 quilómetros de altura; Valles Mariners, um complexo sistema de desfiladeiros que serpenteia pela superfície marciana ao longo de mais de 4000 quilómetros, possuindo uma profundidade de entre 2 a 7 quilómetros e Hellas Planitia, cratera de impacto no Hemisfério Sul de Marte, com um diâmetro de 2000 quilómetros e uma profundidade de 6 quilómetros. Figura 43: Imagem a 3D de Olympus Mons As calotes polares são formações de estrutura complexa, podendo distinguir-se nelas partes permanentes e outras que variam de estação para estação. É de referir que analogamente ao que acontece na Terra, também Marte, devido à inclinação do eixo de rotação, possui estações do ano. Estas áreas estão cobertas por calotes de gelo de água a que, no Inverno, se sobrepõe O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 71 Explorando o Sistema Solar um estrato de gelo seco de dióxido de carbono. Na Primavera, o dióxido de carbono sublima, sendo “transportado” para o hemisfério oposto, constituindo as zonas que variam ao longo das estações do ano. Por vezes, a sublimação pode provocar a emissão de grandes quantidades de gases para a atmosfera, o que gera ventos violentos acompanhados por tempestades de poeira à escala planetária, capazes de tornar opaca a atmosfera durante algumas semanas. Durante a estação fria, as duas calotes expandem-se atingindo respectivamente 60º de latitude norte e 60º de latitude sul, onde as camadas de dióxido de carbono chegam a atingir os 50 centímetros. Existem também as partes permanentes das calotes polares que constam essencialmente de gelo de água. Nas zonas polares de Marte são típicas as acumulações estratificadas de gelo, separadas por camadas de poeira de pouca espessura. A temperatura à superfície de Marte varia bastante ao longo do seu dia. A temperatura média neste planeta é de -63 ºC, com uma temperatura máxima no equador de +20º e mínima de 140º. A Atmosfera de Marte A atmosfera de Marte é muito pouco densa, pelo que a pressão ao nível do solo é muito baixa, cerca de seis milésimos da terrestre. As sondas revelaram que esta atmosfera é composta por 95,32% de dióxido de carbono, 2,7% de azoto molecular, 1,6% de árgon, 0,13% de oxigénio, 0,07% de monóxido de carbono e 0,03% de vapor de água. A sonda Mars Express, através do instrumento Planetary Fourier Spectrometer (PFS) detectou metano na atmosfera de Marte, cerca de dez partes em mil milhões. Em algumas centenas de anos, o metano presente na atmosfera transformar-se-á em água e dióxido de carbono, logo a sua existência indica a presença de mecanismos contínuos de produção de metano. A actividade vulcânica, processos hidrotermais ou, melhor ainda, fenómenos biológicos são hipóteses a considerar. Vida em Marte O interesse pelo planeta Marte foi grande durante muito tempo e, na realidade, continua a sêlo. Até à visita da sonda Mariner 4, em 1965, a ideia de que Marte podia ser habitado por uma civilização semelhante à da Terra, capaz de gigantescas obras como os famosos canais “observados” por Schiaparelli, inspirou escritores de ficção científica e deliciou as mentes dos leitores. Por isso, quando as sondas começaram a enviar para a Terra os dados e as imagens recolhidos “in situ”, a desilusão foi grande. Na superfície de Marte não existiam artefactos ou 72 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar vestígios da civilizações marcianas - Mariner 4 – nem sequer formas de vida primitiva – Viking 1 e 2. Os laboratórios das sondas Viking realizaram experiências bioquímicas que confirmaram a ausência de qualquer forma de actividade biológica. No entanto, meteoritos encontrados na Antártida levantaram novamente a polémica. O mais famoso destes meteoritos é o ALH 84001, onde cientistas da NASA afirmam ter identificado compostos orgânicos fossilizados, que, em conjunto com outras características mineralógicas do meteorito, constituem para estes investigadores a evidência da existência de vida em Marte, pelo menos no passado deste planeta. De acordo com a comunidade científica, este meteorito terá sido formado em Marte nos primórdios do Sistema Solar e expelido do planeta por ocasião de um violento impacto com um corpo de dimensões consideráveis. O meteorito marciano terá viajado durante cerca de 15 milhões de anos e caiu na Antártida, tendo sido recolhido em 1984. A dúvida persistirá, pelo menos até que as numerosas missões a Marte, previstas para os próximos anos, permitam dar uma resposta definitiva à interrogação sobre se existe ou terá existido alguma forma de vida em Marte. Figura 44: Esta imagem de alta resolução obtida com um microscópio electrónico tornou-se mundialmente famosa em 1996 ao mostrar algumas formações misteriosas. A imagem foi obtida a partir do meteorito ALH84001. Este meteorito terá vindo de Marte e foi encontrado na Antártida. Os estudos realizados levaram a NASA a lançar a notícia de que poderá ter existido vida em Marte no passado. Exploração de Marte O trabalho de Schiaparelli, apoiado pelo americano Percival Lowell, que construiu, propositadamente para estudar Marte, um observatório no Arizona, EUA, e que defendia vigorosamente a existência de vida em Marte, levou a que o Homem revelasse uma curiosidade acrescida pela exploração do planeta vermelho. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 73 Explorando o Sistema Solar A exploração “in situ” com o envio de sondas para Marte permitiu a obtenção de valiosas informações e também a resolução de muitas questões até então por solucionar. Durante cerca de 10 anos antes do envio das duas sondas americanas Viking, uma série de naves aproximaram-se do planeta e estudaram algumas das suas características gerais abrindo caminho para as Viking. A primeira sonda que chegou às proximidades de Marte foi a Mariner 4, que em Julho de 1965, a 10 000 quilómetros de altitude tirou e enviou para a Terra 22 fotografias da superfície marciana. Em 1969, a Mariner 6, dotada pela primeira vez de um computador reprogramável a partir da Terra, tirou 75 fotografias a 3429 quilómetros de altitude, revelando, entre outros, a calote polar sul. As sondas soviéticas Mars 2 (1971) e a série Mars 4-5-6 (1973-1974) também prestaram um notável contributo na recolha de dados. A sonda americana Mariner 9 veio então revelar a mais alta montanha de todo o Sistema Solar, Olympus Mons, com a altura de 24 quilómetros. Figura 45: Nave Viking No entanto uma ambiciosa missão para explorar o misterioso planeta vermelho foi enviada em 1975 e consistia em duas sondas. Cada uma destas sondas continha um módulo de aterragem que se separaria do aparelho, uma vez atingida a órbita marciana, e pousaria na sua superfície. Em Junho de 1976, a Viking 1 entrou em órbita à volta de Marte e a partir das fotografias enviadas por esta para a Terra foi escolhido o melhor local de aterragem para o Viking Lander. No dia 20 de Junho de 1976, e pela primeira vez, uma máquina construída pelo Homem “passeava” pela superfície de Marte. Poucos dias depois, a Viking 2 realizou a mesma proeza, a cerca de 6000 quilómetros de distância da primeira, para poderem explorar zonas diferentes do planeta. As duas sondas foram equipadas com um braço telescópico que permitiu recolher amostras do solo que foram analisadas no micro-laboratório a bordo. As sondas possuíam também instrumentos metereológicos, uma telecâmara digital e um 74 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar sismógrafo. A superfície marciana surgiu então como um deserto avermelhado desprovido de vida, cuja cor se deve à elevada quantidade de óxido de ferro presente. As Viking, tanto em órbita como no solo, tiraram dezenas de milhar de fotografias e recolheram uma enorme quantidade de informações. Projectadas para transmitir dados durante três meses, as duas sondas tiveram uma vida muito mais longa, tendo terminado a sua missão nos anos 80, mais precisamente em 1982 para a Viking 1 e em 1980 para a Viking 2. Figura 46: Marte vista do Viking Lander Em Julho de 1997 aterrou em Marte a sonda Pathfinder, com o seu rover Sojourner. Em dois meses e meio tirou 16 000 fotografias, estudou a atmosfera, a meteorologia e os ventos e realizou 15 análises químicas pormenorizadas ao solo e rochas marcianas. Figura 47: Sojourner Rover O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 75 Explorando o Sistema Solar A sonda Mars Global Surveyor entrou em órbita em torno de Marte em Setembro de 1997 e revelou novas evidências da existência de água líquida em Marte, num passado remoto. Seguiu-se-lhe a Mars Odissey que chegou a Marte a 24 de Outubro de 2002. A missão seguinte, Mars Express, é uma missão não tripulada da ESA e da Agência Espacial Italiana. A sonda foi lançada a 2 de Junho de 2003 no Cosmódromo de Baikonur, no Casaquistão, pelo foguetão Soyuz-Fregat. A Mars Express consistia numa sonda orbital e na sonda de entrada Beagle 2, destinado a pesquisas exobiológicas e geoquímicas. Os sete instrumentos a bordo da sonda orbital foram projectados para realizar uma série de pesquisas a fim de estudarem a atmosfera, a estrutura, a geologia e a composição de Marte. O veículo de reconhecimento Beagle 2 não conseguiu cumprir o seu objectivo de realizar as experiências de pesquisa de formas de vida, pois foi dado como perdido. Porém, a sonda orbital opera normalmente, e, em Setembro de 2005, foi anunciado que a missão seria prolongada por mais dois anos, a partir de Dezembro de 2005. Entre os finais de 2003 e inícios de 2004 aterraram em Marte os veículos de reconhecimento geológico Spirit e Opportunity, cujo objectivo era a análise de material rochoso. Estes objectos permitiram a descoberta de minerais cuja origem poderá estar associada à presença de água e continuam a enviar dados para a Terra, muito depois do tempo de vida previsto para estes objectos. A NASA (National Aeronautics and Space Administration) lançou, a 12 de Agosto de 2005, a Mars Reconnaissance Orbiter (MRO), ou Satélite de Reconhecimento de Marte, a partir do Centro Espacial Kennedy, no Cabo Canaveral, na Flórida. Depois de ter viajado 492 milhões de quilómetros ao longo de 7 meses, a sonda deverá permanecer na órbita de Marte durante dois anos. Figura 48: MRO em Marte 76 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar A MRO tem desenvolvido um trabalho precioso a mapear a superfície de Marte, monitorizar a atmosfera e procurar qualquer evidência sobre a existência de gelo e água. A sonda está igualmente a analisar os melhores locais para a aterragem de uma futura missão que levará o primeiro Homem ao Planeta Vermelho. A missão MRO está ainda a revelar alguns dos mais interessantes pormenores da geografia do Planeta Vermelho, que podem ajudar a desvendar o passado remoto do planeta. A sonda está equipada com sofisticados instrumentos, entre eles um espectrómetro, capaz de detectar minerais relacionados com a existência de água; um radiómetro, que analisa a poeira atmosférica, vapor de água e temperatura; e um radar italiano, que pode analisar o subsolo na tentativa de detectar indícios de água. A MRO possui três câmaras: uma é equipada com o telescópio de maior diâmetro já enviado ao espaço, outra tem capacidade para preparar imagens de alta resolução, e uma terceira é capaz de fazer um mapeamento climático de Marte. Os Satélites Fobos e Deimos Tabela 6: Características de Fobos e Deimos Período Orbital Raio da Órbita Densidade (dias) (km) Média (g/cm3) 1,08x1016 0,319 9380 2 1,8x1015 1,26 23460 1,7 Satélite Diâmetro (km) Massa (kg) Fobos 27x22x19 Deimos 15x12x11 O planeta Marte possui dois satélites, Fobos e Deimos, que foram descobertos pelo astrónomo Asaph Hall, em 1877. A difícil observação destes satélites através de telescópios terrestres tem a ver com o facto destes se encontrarem muito próximos do planeta e o seu brilho ser muito fraco. A distância de Fobos ao centro de Marte é igual a 2,77 raios do planeta e a de Deimos é igual a 6,96 raios do planeta. Fobos tem então um raio orbital inferior ao raio necessário para que o seu período de translação igualasse o período de rotação de Marte, à semelhança do que se passa com o sistema Terra-Lua. Desta forma, a forças de maré exercidas por Marte sobre Fobos estão a desacelerar a translação de Fobos e as forças de maré de Fobos sobre Marte estão a acelerar a rotação de Marte. Verifica-se, assim, uma aproximação progressiva entre o planeta e o satélite na ordem dos 180 centímetros por século O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 77 Explorando o Sistema Solar e prevê-se, desta forma, que o destino de Fobos seja um choque inevitável com Marte, o que provocará a desintegração do satélite. Outra ocorrência possível será a fragmentação em órbita e a formação dum anel em torno de Marte. Fobos e Deimos apresentam uma forma irregular e a superfície destes satélites está muito mais marcada pelas crateras do que a do próprio planeta Marte, devido à total ausência de erosão atmosférica. Fobos parece estar coberto por uma fina camada de poeira com um metro de profundidade, muito semelhante ao rególito que se encontra na Lua. A composição dos satélites marcianos revela que são ricos em carbono, sendo muito semelhantes a asteróides do tipo-C. Esta evidência levou a traçar a hipótese que originalmente Fobos e Deimos seriam asteróides da cintura que entretanto foram capturados por Marte. Por outro lado, as formas regulares das órbitas de Fobos e Deimos e num plano quase coincidente com o equatorial de Marte apontam para outra explicação. Os satélites marcianos terão então surgido após a fragmentação do único satélite que orbitaria em torno de Marte, há alguns milhares de milhões de anos. Esta hipótese é apoiada pela forma irregular que Fobos e Deimos apresentam. A densidade apresentada por estes satélites leva a crer que se poderá encontrar neles grandes quantidades de gelo. Figura 49: À esquerda, Fobos, e à direita, Deimos. 78 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Asteróides A 1 de Janeiro de 1801, o astrónomo italiano Giuseppe Piazzi descobriu, por mero acaso, um novo objecto ao qual foi dado o nome de Ceres. Posteriormente foram descobertos mais três objectos idênticos a este: Palas, Vesta e Juno. No final do século XIX já várias centenas destes pequenos astros eram conhecidas e foi-lhes atribuído o nome de asteróides. Figura 50: Ceres À semelhança dos planetas, os asteróides são corpos do tipo rochoso, mas as suas dimensões são demasiado pequenas e as suas formas irregulares para que possam ser classificados como planetas. O asteróide mais brilhante do céu é Vesta, mas o maior é Ceres, com 955 quilómetros de diâmetro, agora reclassificado como planeta anão, seguido de Palas, com 500 quilómetros de diâmetro. A maioria dos asteróides com órbitas bem determinadas são corpos celestes cujo diâmetro não excede algumas dezenas de quilómetros. Tabela 7: Algumas características dos maiores asteróides Asteróide Diâmetro (km) Distância Média ao Sol (UA) Período de Translação (anos) Período de Excentricidade Rotação (horas) da Órbita Ceres 930 2,77 4,60 9,1 0,08 Pallas 552 2,77 4,61 10,1 0,239 Vesta 521 2,36 3,63 10,6 0.089 Juno 242 2,67 4,36 7,2 0,257 Nota: Neste momento, Ceres já não é classificado como asteróide, mas como planeta anão. Este assunto será tratado com maior pormenor mais à frente, ainda neste capítulo. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 79 Explorando o Sistema Solar A grande parte dos asteróides orbitam em torno do Sol à distância média entre as 2 e as 4 unidades astronómicas, o que se situa entre as órbitas de Marte e Júpiter e que constitui a chamada Cintura de Asteróides. Nesta zona do espaço, que curiosamente corresponde à zona de separação entre planetas telúricos e gigantes gasosos, “deveria” existir um planeta, mas devido à instabilidade local tal não é possível. Também pode ser que, durante a formação e evolução do Sistema Solar, na zona da Cintura de Asteróides existisse um antigo planeta de dimensões semelhantes às da Lua, que se tenha fragmentado devido à ocorrência de uma grande colisão ou até por acção da gravidade de Júpiter. Se a acção da força da gravidade de Júpiter se revelar superior à força de atracção que mantém o sistema em equilíbrio, sistema esse que pode ser um planeta, então este tende a fragmentar-se em muitos pedaços que seguirão uma órbita independente. Na Cintura de Asteróides só existem 26 asteróides com mais de 200 quilómetros de diâmetros, motivo pelo qual a massa de todos estes objectos junta é inferior à massa do nosso satélite, a Lua. Os conhecimentos de que dispomos sobre estes corpos celestes vêm essencialmente da observação directa com telescópios terrestres e, mais recentemente, dos dados recolhidos e transmitidos para a Terra pela sonda Galileu ao atravessar a Cintura de Asteróides na sua viagem para Júpiter. A composição química também foi estudada a partir da análise de rochas caídas na superfície terrestre. Os dados recolhidos permitiram classificar os asteróides em três famílias distintas. Os critérios de classificação basearam-se nas características morfológicas e na sua composição química. Os asteróides não emitem luz própria, mas reflectem a luz solar. Como a forma dos asteróides é altamente irregular, a reflexão da luz durante a sua rotação também é muito variável. A morfologia de um asteróide é deduzida a partir da reflexão da luz solar. Assim sendo podemos classificar os asteróides em asteróides carbónicos ou tipo C, asteróides silícicos ou tipo S e asteróides metálicos ou tipo M. Cerca de 75% de todos os asteróides são do tipo C, são extremamente escuros e têm uma abundância relativa dos diferentes elementos químicos, à excepção do hidrogénio, hélio e outros voláteis. Os asteróides do tipo S constituem cerca de 17% dos asteróides, são mais brilhantes do que os do tipo C e são compostos por minerais ferrosos misturados com silicatos de magnésio. Os asteróides do tipo M são compostos unicamente por níquel e ferro e o seu albedo é comparável à dos asteróides de tipo S. Os asteróides de tipo C localizam-se preferencialmente nas regiões mais externas da Cintura de Asteróides. Os asteróides de tipo S povoam a região 80 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar mais interior da cintura e os de tipo M encontram-se na região mais central da Cintura de Asteróides. Os únicos asteróides estudados com algum detalhe foram Ida e Gaspra, pela sonda Galileu. A sonda Galileu revelou uma curiosa descoberta ao detectar um pequeno satélite a Ida, ao qual foi dado o nome de Dactyl. Figura 51: Gaspra Figura 52: Ida e Dactyl Na cintura de asteróides estes corpos não estão uniformemente distribuídos, pelo contrário podemos encontrar vários agrupamentos de asteróides, cujo nome deriva daquele por que é conhecido o maior asteróide: Hungarias, Floras, Phocaea, Koronis, Eos, Themis, Cybeles e Hildas. Assim, na Cintura de Asteróides existem zonas quase vazias que são conhecidas como falhas de Kirkwood. Entre os milhares de asteróides actualmente conhecidos podemos encontrar um com cerca de 10 quilómetros de diâmetro, ao qual foi dado o nome de Portugal pelo seu descobridor Richard West, aquando da assinatura do Acordo entre Portugal e o Observatório Europeu do Sul (ESO). O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 81 Explorando o Sistema Solar Figura 53: Cintura de Asteróides A Cintura de Asteróides não é a única zona do Sistema Solar onde podemos encontrar asteróides. Outros conjuntos de asteróides são os Near-Earth Asteroids (NEAs) e os Troianos. Os Near-Earth Asteroids caracterizam-se por se aproximarem ou até interceptarem a órbita terrestre. Os Atenas e os Apolos interceptam a órbita da Terra, a menos de 1 unidade astronómica e a 1 UA respectivamente, e os Amores aproximam-se bastante, isto é, a cerca de 1,3 UA. Actualmente estão identificados cerca de 250 asteróides com órbitas que poderiam interceptar a da Terra, no entanto, pensa-se que muitos mais existirão nesta condição. O maior deles tem cerca de 40 quilómetros de diâmetro e dá pelo nome de Ganimedes. No que respeita à probabilidade de uma colisão com o nosso planeta, os cálculos apontam para um número muito baixo, mas não completamente desprezável. É de referir que a presença de crateras na Terra demonstra que, num passado longínquo, o nosso planeta esteve sujeito a um intenso bombardeamento. Em particular, pode-se apontar a teoria que atribui a responsabilidade da extinção dos dinossauros à colisão com um asteróide de pelo menos 10 quilómetros de diâmetro, há cerca de 65 milhões de anos. Os únicos asteróides do tipo NEAR estudados com algum detalhe foram Mathilde e Eros, pela sonda NEAR. No final da sua missão, a sonda NEAR acabaria por colidir propositadamente com Eros. 82 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Os Troianos gravitam à volta do Sol na mesma órbita de Júpiter, constituindo dois grupos diferentes: um grupo 60º à frente de Júpiter e o outro grupo localizado 60º atrás de Júpiter. Estes asteróides devem os seus nomes a heróis da guerra de Tróia, daí a designação de Troianos. Por último foram encontrados objectos semelhantes a asteróides, que, no entanto, também podem ter sido cometas, ou até estar em vias de se tornarem cometas de curto período, e que devido às suas excêntricas órbitas interceptam a órbita de vários planetas entre Marte e Neptuno. Estes objectos dão pelo nome de Centauros. Júpiter Figura 54: O Planeta Júpiter Júpiter é o maior planeta do Sistema Solar, um gigante gasoso que “aspirou” a estrela. Na realidade, Júpiter é mais parecido com o Sol do que com a Terra, pois é essencialmente formado por hidrogénio, constituindo 75% da sua massa, e hélio, na proporção de cerca de 25%, podendo ainda encontrar-se metano, água, amónia e outros compostos de elementos mais pesados. Se Júpiter tivesse algumas vezes mais massa do que a que tem seria eventualmente uma estrela. A título de comparação, a massa deste planeta é 318 vezes maior do que a da Terra e constitui 1/1050 da massa do Sol. Por ser considerado uma bola de gás, o raio de Júpiter, tal como o raio dos restantes gigantes gasosos Saturno, Úrano e Neptuno, é definido como a distância do centro do planeta até à camada de nuvens onde a pressão atmosférica iguala o valor de 1 atmosfera, que corresponde à pressão atmosférica no planeta Terra, ao nível do mar. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 83 Explorando o Sistema Solar A Estrutura Interna de Júpiter Figura 55: A estrutura interna de Júpiter A estrutura interna de Júpiter ainda é uma hipótese. Pensa-se que este planeta possui um núcleo de material rochoso, onde estará concentrada a grande parte dos materiais mais pesados, como o magnésio, alumínio, silício, enxofre, árgon, ferro e níquel. A seguir ao núcleo podemos encontrar uma camada de hidrogénio metálico líquido. A existência desta camada só é possível quando se verifica o movimento de uma mistura de protões e electrões livres, isto é, uma espécie de plasma a baixas temperaturas (~6000K), num ambiente cuja pressão atinge valores na ordem dos 4 milhões de atmosferas. Poder-se-á também encontrar algum hélio, gelo de água, amónia e compostos de carbono, cuja abundância irá aumentar à medida que nos aproximarmos da superfície de Júpiter. A camada que se segue representa uma transição entre a camada de hidrogénio metálico e a camada de hidrogénio molecular, e consiste numa camada de hidrogénio líquido, tornando-se gasoso na parte superior. Por último encontramos a atmosfera constituída principalmente por hidrogénio molecular e hélio. A superfície de Júpiter Na superfície de Júpiter há uma série de formações que puderam ser observadas ao longo dos séculos, manifestando alterações da sua posição e aspecto. Estas observações revelaram que a superfície visível de Júpiter consiste num invólucro de nuvens. Desse invólucro destacam-se umas faixas vermelhas nítidas, orientadas paralelamente ao equador. Os intervalos que separam essas faixas chamam-se zonas e têm uma tonalidade mais clara, enquanto que as faixas são mais escuras. Este aspecto alternadamente de zonas claras e faixas mais escuras 84 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar devem-se à dinâmica permanente da atmosfera onde existem ventos que sopram de Este para Oeste e vice-versa. Provavelmente as diferenças de cores e tonalidades estão relacionadas com a composição química e com a profundidade a que se encontram. Figura 56: A Grande Mancha Vermelha de Júpiter Em 1665, Gian Domenico Cassini descobriu a Grande Mancha Vermelha, uma enorme mancha oval, com 12 000 quilómetros por 25 000 quilómetros, existente na zona tropical sul e que permitiu calcular o período de rotação do planeta. Note-se que por ser uma “bola de gás”, Júpiter tem uma rotação diferenciada, mais rápida no equador do que nos pólos. Desta forma, o período de rotação oscila entre as 9 horas e 50 minutos na faixa equatorial e as 9 horas e 55 minutos nas latitudes mais elevadas. Júpiter é ainda o planeta com menor período de rotação, de tal modo que a sua alta velocidade determinou o achatamento dos pólos na ordem de 1/15 do seu diâmetro. Assim, diâmetro do planeta nos pólos é de 134 700 quilómetros, contra os 143 000 quilómetros do diâmetro equatorial. A Energia Gerada por Júpiter As medições da energia emitida por Júpiter comprovam que este planeta irradia cerca 60% mais energia do que aquela que recebe do Sol. No entanto não se pense que as reacções nucleares são a sua fonte de energia. O que deverá suceder prende-se com uma reserva de energia acumulada durante a compressão gravitacional de Júpiter. Isto é, no decurso da formação do planeta a partir da nébula primordial, a energia potencial gravítica transformouse em energia cinética, o que se traduziu num aumento da temperatura. Este mecanismo denomina-se Mecanismo de Kelvin-Helmholtz. A existência de um grande fluxo de calor interno significa que a temperatura cresce rapidamente com o aumento da profundidade. Por O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 85 Explorando o Sistema Solar outro lado, a existência de ventos fortes com velocidades aproximadas dos 360-720 km/h vem reforçar a ideia da convecção no interior de Júpiter, como resultado da energia aí gerada. O Campo Magnético de Júpiter Figura 57: Magnetosfera de Júpiter Júpiter tem um intenso campo magnético, cerca de 10 vezes mais intenso do que o da Terra. A camada da estrutura interna de Júpiter formada essencialmente por hidrogénio metálico líquido é um excelente condutor eléctrico, originando, através do efeito de dínamo, o forte campo magnético. As características do campo magnético de Júpiter são semelhantes às do campo magnético terrestre, no entanto os pólos magnéticos em Júpiter estão invertidos, ou seja, a agulha magnética da bússola indicaria o sul magnético e não o norte como acontece na Terra. A diferença entre o pólo norte geográfico e o pólo sul magnético assenta num ângulo de cerca de 11º. A magnetosfera de Júpiter estende-se por mais de 650 milhões de quilómetros, centenas de vezes superior ao tamanho do próprio planeta. Os electrões e protões muito energéticos, depois de capturados pelo campo magnético de Júpiter, formam zonas de radiação semelhantes às terrestres, mas de muito maiores dimensões. O lançamento das estações interplanetárias automáticas norte-americanas Voyager-1 e Voyager-2 permitiu observar, do lado nocturno de Júpiter, regiões que se pensa corresponderem a zonas de tempestades com relâmpagos, mas também a zonas de auroras polares. Durante as erupções vulcânicas de Io, partículas carregadas electricamente são expelidas do satélite e capturadas pela magnetosfera de Júpiter dando origem aos belos espectáculos de luzes, as auroras polares. 86 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar O Sistema de Anéis de Júpiter Figura 58: Anel de Júpiter Em 1979, o sistema de anéis de Júpiter foi descoberto pela sonda Voyager-1. Este sistema é bastante menor e menos brilhante do que o de Saturno, tendo início a cerca de 20 000 quilómetros acima da última camada de nuvens e estendendo-se até 222 000 quilómetros de largura, enquanto que a sua espessura é de cerca de 30 quilómetros na zona principal. O sistema de anéis de Júpiter será essencialmente constituído por pequenos grãos de poeira e muito pouco gelo, ao contrário do sistema de anéis de Saturno. O material dos anéis provém muito provavelmente dos satélites mais interiores de Júpiter, Metis, Adrasteia, Amalteia e Tebe, em consequência da respectiva colisão com micrometeoritos. A Exploração de Júpiter Júpiter, o gigante do Sistema Solar, encontra-se a 5 unidades astronómicas da Terra, mas já foi visitado por sete sondas enviadas a partir do nosso planeta. As sondas foram Pioneer 10, Pioneer 11, Voyager-1, Voyager-2, Ulysses, Galileu e Cassini. As duas sondas gémeas americanas Pioneer 10 e Pioneer 11 foram lançadas em Março de 1972 e Abril de 1973. Até este momento nunca ninguém tinha ousado a enviar uma sonda automática para além dos planetas mais próximos, tais como Marte ou Vénus. Mas as sondas Pioneer comportaram-se muito bem e provaram que afinal até é possível atravessar a Cintura de Asteróides sem se ser apanhado por um objecto de maiores ou menores dimensões que viesse a danificar o aparelho. Dada a distância à Terra, a NASA teve de tornar mais potentes as antenas de recepção, caso contrário os sinais enviados pelas Pioneer perder-se-iam no ruído de fundo. As sondas fizeram grandes descobertas quando chegaram a Júpiter. O intenso campo magnético de Júpiter e o facto deste planeta não possuir uma superfície sólida, mas O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 87 Explorando o Sistema Solar sim várias camadas de gases cuja densidade aumenta com a profundidade, são exemplos. A Pioneer 10 continuou viagem até que, a 13 de Junho de 1983, abandonou o Sistema Solar. A Pioneer 11 seguiu para Saturno, onde fotografou e transmitiu imagens dos anéis deste planeta, tendo descoberto mais dois. O projecto Voyager foi desenvolvido na previsão do alinhamento dos planetas exteriores, um fenómeno que se repete de 200 em 200 anos. Este facto tornou possível a exploração dos planetas Júpiter, Saturno, Úrano e Neptuno com uma única viagem. As sondas Voyager-1 e Voyager-2 partiram com quinze dias de intervalo em 1977. A partir de 1979, as duas sondas enviaram para a Terra imagens e informações extraordinárias do planeta e seus satélites. O sistema de anéis de Júpiter foi descoberto e a famosa Grande Mancha Vermelha foi perfeitamente fotografada. As Voyager fizeram também impressionantes observações das luas de Júpiter. Io revelou-se um astro muito activo, de tal forma que as sondas tiveram oportunidade de registar um vulcão em erupção. Era a primeira vez que tal facto era observado fora do planeta Terra. Por outro lado, Europa revelou uma superfície lisa isenta de crateras. A 6 de Outubro de 1990, a sonda Ulysses foi enviada com o objectivo de estudar as regiões polares do Sol, no entanto para alcançar o seu objectivo, a nossa sonda teve de apanhar o impulso de Júpiter. Desta forma, Ulysses aproximou-se de Júpiter e fez uma série de revelações sobre o campo magnético deste planeta, com especial referência ao anel de plasma que órbita em torno do planeta e que está centrado no seu satélite Io. Como já foi referido, o plasma é resultado da ionização pelo vento solar das partículas electricamente carregadas projectadas no espaço pelas erupções vulcânicas que ocorrem em Io. A sonda Galileu chegou a Júpiter a 17 de Novembro de 1995, depois de mais de seis anos de viagem. O objectivo principal da missão era fazer descer da sonda-mãe, em órbita em torno do planeta, um pequeno módulo que viesse a fornecer informações sobre a atmosfera de Júpiter, por isso, a 7 de Dezembro do 1995, e pela primeira vez, um objecto automático entrou na atmosfera do planeta. A sonda conseguiu resistir às difíceis condições ambientais durante 57 minutos, penetrou cerca de 150 quilómetros atmosfera adentro e depois foi destruída pela pressão atmosférica. Os resultados obtidos revelaram uma densidade e temperaturas muito acima das esperadas. Estes resultados diferem das informações enviadas pelas sondas Voyager, pois não se descobriram nuvens de água e as percentagens de hélio, néon, oxigénio e 88 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar enxofre revelaram-se inferiores ao esperado. No entanto, observações com Telescópio Espacial Hubble revelaram que a sonda Galileu penetrou numa zona particularmente quente, densa e seca. Mas a sonda também obteve confirmações de dados já revelados, nomeadamente, que tal como as estrelas, este planeta é formado essencialmente por hidrogénio e hélio, e descobriu que a velocidade e violência com que os ventos sopram é muito superior à esperada. Por outro lado, a Galileu revelou imensa informação sobre Io, tendo mesmo descoberto a estrutura interna do satélite. Um enorme núcleo de ferro rodeado de uma camada de rochas fundidas pelas marés gravíticas geradas pelas luas Europa e Ganimedes. Pensa-se que essas marés sejam a causa do intenso vulcanismo de Io. A sonda Galileu explorou ainda a superfície gelada de Europa. Este satélite, juntamente com a Terra, poderá ser o corpo celeste mais rico em água do Sistema Solar, pois pensa-se que, por baixo da enorme camada de gelo que o cobre, possa existir água no estado líquido, onde talvez se possa encontrar vida, pelo menos no estado primitivo. Figura 59: Visão artística da Sonda Galileu Em 2001, a sonda espacial Cassini, no decurso da sua viagem para Saturno, aproximou-se de Júpiter e fez cerca de 26 000 fotografias. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 89 Explorando o Sistema Solar Os Satélites Galileanos de Júpiter Em 1610, Simon Marius e Galileu Galilei observaram os quatro maiores satélites de Júpiter. Estes satélites ficaram conhecidos por Galileanos. Actualmente conhecem-se 63 satélites deste planeta. Figura 61: Galileu Galileu Figura 60: A família joviana, o grande Júpiter e seus maiores satélites, observados pela primeira vez por Galileu Io Figura 62: Io A superfície de Io é relativamente jovem, pois terá apenas alguns milhões de anos. Io apresenta centenas de vulcões, géiseres, extensas zonas de material fundido e a sua superfície 90 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar é quase isenta de crateras de impacto, o que se deve à imensa actividade vulcânica deste astro. O exame de uma fotografia obtida pela Voyager 1 revelou uma enorme nuvem devida a uma erupção vulcânica. Investigações posteriores revelaram a existência de nove vulcões activos que lançavam material até 300 quilómetros de altitude. Dos nove vulcões observados pela Voyager 1, sete ainda estavam activos quando a Voyager 2 chegou quatros meses mais tarde. Daí se ter concluído que a erupções são frequentes e podem durar de alguns meses a alguns anos. A energia necessária para manter Io vulcanicamente activo provém das intensas forças de maré exercidas por Júpiter, mas também por Europa e Ganimedes. Io deverá ter na sua constituição grandes quantidades de enxofre e seus compostos, o que justifica a cor da sua superfície. Relativamente à estrutura interna de Io, este parece ser constituído por um núcleo ferroso com um raio de cerca de 900 quilómetros, o que é muito grande dado o raio do satélite de 1815 quilómetros. Europa Figura 63: Europa As imagens de Europa revelam uma superfície lisa que não apresenta desníveis para além de algumas centenas de metros e coberta de gelo de água. As crateras são quase inexistentes e apenas três têm mais de 5 quilómetros de diâmetro. Quando observadas, as fotografias de Europa revelam-se muito semelhantes a superfícies geladas do nosso planeta. Estas mostram objectos que parecem enormes icebergs. Para além disto também se podem ver fracturas na superfície do gelo muito semelhantes às que se observam no degelo da Antártida com a chegada da Primavera. Devido a estes factos especula-se que por baixo da camada de gelo possa existir um oceano de água no estado líquido, com uma profundidade que pode atingir os O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 91 Explorando o Sistema Solar 50 quilómetros! Para que este oceano de água se mantenha no estado líquido é necessário uma fonte de calor, que se pensa estar associada à interacção gravitacional entre Júpiter, Io e Ganimedes. Europa revelou um fraco campo magnético, que será devido à presença de sais dissolvidos na camada de água líquida. No que respeita à estrutura interna de Europa, tudo indica que o satélite apresenta um pequeno núcleo ferroso rodeado por um extenso manto constituído essencialmente por silicatos. Estes resultados excepcionais levaram a NASA a decidir pelo prolongamento da missão Galileu por um período de mais dois anos com vista a um melhor e maior mapeamento da superfície de Europa. Ganimedes Figura 64: Ganimedes Ganimedes é o maior satélite de Júpiter e do Sistema Solar. Ganimedes apresenta uma superfície complexa coberta por uma crosta de gelo. Há ainda quem especule que por baixo se poderá encontrar um oceano de água líquida como em Europa! O manto, rico em silicatos, rodeia um núcleo constituído essencialmente por ferro, o que justifica a presença de um campo magnético. Ainda em relação à superfície deste astro, podemos encontrar em Ganimedes dois tipos diferentes de terrenos. O primeiro terreno, mais escuro, apresenta um elevado número de crateras; o segundo, menos escuro do que o primeiro, compreende cumes e vales de idades variáveis, com larguras até 15 quilómetros e comprimentos de muitas centenas de quilómetros, possivelmente de origem tectónica. O segundo tipo de terreno também apresenta crateras. A típica cratera de Ganimedes não 92 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar apresenta um círculo de terreno elevado à sua volta. Pensa-se que este facto se prende com a constituição da superfície, rica em gelos, logo mais flexível. Calisto Figura 65: Calisto Ao contrário dos outros satélites Galileanos, Calisto não parece apresentar um interior diferenciado. Pensa-se que cerca de 60% do satélite seja formado por silicatos e ferro e os restantes 40% se encontrem na forma de gelos, mais abundantes perto da superfície. Também lhe foi detectado um fraco campo magnético que, tal como em Europa, parece ter origem numa camada líquida com sais dissolvidos. O terreno de Calisto é caracterizado por inúmeras crateras pouco profundas e sem grandes quantidades de terreno a circundá-las, que tal como em Ganimendes, se deverá ao relaxamento do terreno ao longo do tempo. O número de crateras em Calisto é tão elevado que faz deste astro o mais marcado do Sistema Solar. Por outro lado, tudo indica que a superfície de Calisto não tenha sofrido alterações consideráveis nos últimos milhares de milhões de anos, o que faz da superfície de Calisto a mais antiga do Sistema Solar. Tabela 8: Algumas características dos Satélites Galileanos Diâmetro Distância Média Período Orbital (xDTerra) a Júpiter (km) (dias) Io 0,286 422 000 1,77 0,015 3,57 Europa 0,245 671 000 3,55 0,008 2,97 Ganimedes 0,413 1 070 000 7,16 0,025 1,94 Calisto 0,378 1 883 000 16,69 0,018 1,87 Satélite Massa (xMTerra) O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Densidade (g/cm3) 93 Explorando o Sistema Solar Os Satélites Menores de Júpiter Júpiter possui 63 satélites conhecidos até ao momento, os 4 Galileanos e 59 satélites que na sua maioria corresponderão a asteróides que a dada altura terão sido capturados pelo campo gravitacional de Júpiter. Em 1610, Galileu Galilei observou os quatro maiores satélites de Júpiter. Desde então e até à chegada da sonda Galileu, em 1995, só foram identificados dez novos satélites, em que quatro deles correspondem aos satélites mais interiores de Júpiter: Metis, Adrasteia, Amalteia e Tebe. Mais tarde, graças às observações feitas pela sonda Galileu e também através do Telescópio Espacial Hubble, foram descobertos os restantes satélites conhecidos até ao momento. À excepção de Amalteia, com 168 quilómetros de diâmetro, e Himalia, com 184 quilómetros, o diâmetro de outros dez satélites varia entre os 10 e os 100 quilómetros, e os restantes satélites são muito pequenos, com menos de 10 quilómetros de diâmetro. Quase todos os satélites menores de Júpiter orbitam a uma grande distância de Júpiter, nomeadamente para além da órbita de Calisto, que é o mais exterior dos Galileanos. Tabela 9: Alguns satélites menores de Júpiter Distância a Período Orbital Júpiter (km) (dias) Méltis 127 900 0,290 40 Adrasteia 128 980 0,298 26 x 20 x 16 Amalteia 181 300 0,498 262 x 146 x 143 Tebe 221 900 0,675 110 x 90 Leda 11 094 000 238,7 8 Himália 11 480 000 250,6 186 Lisiteia 11 720 000 259,2 36 Elara 11 737 000 259,7 76 Ananke 21 200 000 631* 30 Carme 22 600 000 692* 40 Pasife 23 500 000 735* 40 Sinope 23 700 000 758* 35 Satélite Diâmetro (km) * movimento retrógrado 94 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Saturno “Saturno tem muito em comum com o seu vizinho Júpiter, mas distingue-o dele um sistema de anéis espectaculares, que o converte num dos mundos mais fáceis de identificar no Sistema Solar.” Texto retirado de Astronomia – O Guia Essencial Figura 66: O Planeta Saturno Saturno é o segundo dos quatro gigantes gasosos do nosso Sistema Solar e possui uma estrutura semelhante à do planeta Júpiter. Também os componentes principais são comuns aos dois planetas: 75% em massa de hidrogénio e 25% em massa de hélio. Contém ainda metano, água, amónia e compostos de elementos mais pesados. Estrutura Interna de Saturno Figura 67: Estrutura interna de Saturno O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 95 Explorando o Sistema Solar À semelhança de Júpiter, pensa-se que este planeta possui um núcleo de material rochoso rico em ferro, onde estará concentrada também a grande parte dos materiais mais pesados. A seguir ao núcleo podemos encontrar uma camada de hidrogénio metálico líquido. A camada que se segue consiste numa camada de hidrogénio líquido, tornando-se gasoso na parte superior. Por último, encontramos a atmosfera constituída principalmente por hidrogénio molecular e hélio. A superfície de Saturno Embora os dois gigantes gasosos, Júpiter e Saturno, sejam muito idênticos em estrutura e composição, a verdade é que os respectivos aspectos são muito diferentes. Enquanto Júpiter apresenta claramente bandas de tonalidades fortes alternadamente escuras e claras, as bandas de Saturno têm um aspecto mais ténue, ou seja, apresentam-se muito menos marcadas. As cores de um planeta dependem das diversas substâncias contidas na atmosfera, e para Saturno as cores dominantes são o branco das nuvens de amoníaco e o ocre do hidrossulfureto de amónio metálico líquido. A atmosfera de Saturno é composta por 96% de hidrogénio, 3% de hélio e 0,4% de metano gasoso. Existe um nível para o qual a temperatura toma valores suficientemente baixos e a pressão toma valores suficientemente altos, de modo que o amoníaco condensa e forma as nuvens esbranquiçadas que se podem observar à superfície de Saturno. A Densidade de Saturno Uma das características mais relevantes de Saturno prende-se com o facto deste ser muito pouco denso. Frequentemente se ouve dizer que se pudéssemos colocar Saturno no oceano, ele flutuaria. A Energia Gerada por Saturno As medições da energia emitida por Saturno comprovam que este planeta irradia mais energia do que aquela que recebe do Sol. Tal como acontece com Júpiter, parte dessa energia deverse-á ao Mecanismo de Kelvin-Helmholtz, onde a compressão gravitacional de Saturno transforma a energia potencial gravítica em energia cinética, o que se traduz num aumento da temperatura e libertação de calor. Por outro lado, pensa-se que este mecanismo não é 96 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar suficiente para explicar toda a energia que Saturno produz. Se Saturno ainda se encontrar em processo de diferenciação, então o afundamento de hélio em direcção ao centro do planeta, poderá explicar o resto da energia gerada e emitida. De facto a presença de uma menor quantidade percentual de hélio na atmosfera de Saturno do que na atmosfera de Júpiter, vem reforçar esta hipótese. Uma consequência destes mecanismos é a formação de ventos. Em Saturno mediram-se ventos que chegam aos 1800 km/h, uma velocidade elevadíssima que nem os ventos de Júpiter conseguem alcançar. Também em Saturno se manifestam estruturas ciclónicas capazes de persistir no tempo, mas nenhuma delas apresenta nem as dimensões, nem a espectacularidade da Grande Mancha Vermelha de Júpiter. O Campo Magnético de Saturno Figura 68: Auroras Polares em Saturno A composição interna de Saturno com a presença de um líquido condutor, como o hidrogénio metálico, produz, por efeito de dínamo, um campo magnético. Este fenómeno pode-se constatar pela manifestação das auroras boreais e austrais. Em volta de Saturno estende-se uma magnetosfera que assume forma alongada na região do espaço oposta ao Sol, precisamente pela interacção com o vento solar. Assim, a forma da magnetosfera de Saturno assume uma forma muito semelhante à magnetosfera de todos os outros planetas que possuem campo magnético. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 97 Explorando o Sistema Solar Anéis de Saturno Figura 69: Os anéis de Saturno em cores falsas - Imagem Voyager. Saturno apresenta o maior e único sistema de anéis observáveis da Terra, logo os únicos conhecidos durante muito tempo. Galileu Galilei, em 1610, viu “algo” em volta de Saturno, semelhante a duas “protuberâncias” que desapareceram para, depois, reaparecerem com uma forma ligeiramente diferente. Só em 1655, Christiaan Huygens concluiu que tal seria um anel. Gian Domenico Cassini, em 1675, conseguiu observar uma divisão no interior de anel de Saturno que desde aquele momento tomou o nome do astrónomo italiano – Divisão de Cassini. Em 1785, Laplace formulou a hipótese de que os anéis não poderiam ser sólidos, pois se assim fosse seriam destruídos pelas forças de maré. Mais tarde, Maxwell provou teoricamente que os anéis teriam de ser principalmente constituídos por pequenos grãos de poeira, o que veio mais tarde a ser confirmado. A verdadeira origem dos anéis de Saturno ainda hoje é desconhecida, no entanto sabe-se que se um corpo se aproximar de um planeta para além de uma distância mínima (limite de Roche), será fragmentado em pequenas partículas, por acção das forças de maré. Esta poderá ter sido a origem dos anéis. Os anéis de Saturno orbitam em torno do planeta num plano que faz 28º com o plano da órbita de Saturno em torno do Sol. Assim, os anéis assumem um aspecto diferente consoante vão variando as posições dos dois planetas, sendo possível observá-los a partir da Terra de perfil, mas também em toda a sua largura. 98 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Figura 70: As diferentes orientações dos anéis, consoante a posição na sua órbita, ou seja, a sua estação do ano. Estas fotos foram obtidas pelo Telescópio Espacial Hubble entre 1996 e 2000. Os anéis são formados por inúmeras partículas com um alto coeficiente de reflexão, cujo tamanho varia desde os centímetros até alguns metros, existindo também poeiras e objectos com centenas de quilómetros de extensão. Este material é essencialmente formado por gelo de água ou, então, está coberto por gelo de água. O conjunto de anéis de Saturno tem um diâmetro superior a 250 000 quilómetros, mas, no máximo, com 1 quilómetro de espessura. A massa total dos anéis tem um valor muito baixo, de tal forma que se toda a massa se concentrasse num único corpo o seu diâmetro não excederia os 100 quilómetros. O sistema de anéis de Saturno é composto por três anéis principais e outros quatro “menos importantes”. As imagens enviadas pelas sondas mostraram que, na realidade, os anéis são formados por milhares de pequenos anéis alternados com lacunas que, no seu conjunto, fazem lembrar um autêntico disco de vinil. No extenso sistema de anéis de Saturno podemos então encontrar três anéis principais: os anéis A e B, os mais brilhantes, e C. Estes anéis podem ser observados da Terra. O anel B é o anel central, o mais largo e brilhante. Do lado interior situa-se o anel C que é quase transparente. Do lado exterior podemos observar o anel A. Os anéis aparecem separados por uma série de divisões, mais escuras. A maior, que separa os anéis A e B, dá pelo nome de Divisão de Cassini e tem uma largura de 4000 quilómetros. Para explicar a existência destas divisões há que considerar que existem ressonâncias orbitais complexas entre alguns dos satélites de Saturno e o seu sistema de anéis. As órbitas de dois corpos estão em ressonância quando o coeficiente entre os períodos de translação dos dois corpos se pode exprimir como a relação de dois números inteiros pequenos, como, por exemplo, se um período for o triplo do outro, os corpos estarão em ressonância 1:3. O motivo pelo qual algumas zonas estão quase O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 99 Explorando o Sistema Solar vazias de material prende-se com o facto da atracção gravitacional exercida pelos satélites ser suficientemente forte para levar o material a abandonar a essa zona em direcção ao satélite. Por exemplo, tudo leva a crer que o satélite Mimas é o responsável pela ausência de material na Divisão de Cassini. Há satélites que orbitam no interior do sistema de anéis e são fundamentais na manutenção da estrutura do sistema, como por exemplo, Atlas, Prometheus e Pandora. Outra divisão também importante é a Divisão de Encke, que se encontra no interior do anel A. O satélite Pan localiza-se no interior da Divisão de Encke. As sondas Voyager identificaram quatro novos anéis: D, E, F, G e E. Estes anéis são muito mais ténues do que os anéis A, B e C. Figura 71: Estrutura dos anéis de Saturno Satélites de Saturno Actualmente, Saturno possui 33 satélites conhecidos, no entanto até 1981 apenas eram conhecidos 10 satélites, mas com a passagem de várias sondas espaciais perto do planeta, foram descobertos os restantes. A presença dos anéis de Saturno torna a observação dos satélites muito difícil, pois os anéis apresentam-se muito brilhantes ofuscando os pequenos astros. Em 1655, Christian Huygens descobriu Titã e, nas últimas décadas do século XVII, Cassini descobriu Jápeto, Reia, Tétis e Dione. Em 1789, Herschel identificou Mimas e Encélado. Em 1848, dois astrónomos de Cambridge, nos EUA, descobriram Hiperíon. Em 1898, através da análise de fotografias, foi reconhecido Febe. 100 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Titã Titã, com 2575 quilómetros de raio, é o maior satélite de Saturno, o segundo maior satélite do Sistema Solar a seguir a Ganimedes e também maior que Mercúrio. Titã orbita em torno do seu planeta a uma distância média de 1 221 900 quilómetros, demorando cerca de 16 dias a dar uma Figura 72: Titã volta completa em torno de Saturno. Titã apresenta uma atmosfera muito densa, rica em azoto e com algum metano. Pensa-se que esta atmosfera é semelhante à atmosfera primitiva do planeta Terra. Os cientistas, nomeadamente os paleoclimatólogos, estão muito interessados no estudo desta lua com o objectivo de melhor compreender a origem da vida na Terra. Em Janeiro de 1997 foi lançada a sonda Cassini, um projecto conjunto da NASA e ESA, com destino a Saturno. Um dos seus objectivos era o lançamento de uma sonda atmosférica a Titã, a sonda Huygens. Assim, em Janeiro de 2005, a sonda Huygens revelou a superfície de Titã. O terreno onde a sonda aterrou mostrou-se mole e lamacento, o que leva à hipótese da superfície da lua ser formada por uma fina camada sólida que poderá ter sofrido uma inundação provocada por chuva de metano. A análise do material evaporado pela sonda, revelou a presença de hidrocarbonetos, entre os quais metano, etano e etileno. A sonda observou no terreno pedras de gelo de água. Reia Reia, com 765 quilómetros de raio, é a segunda maior lua de Saturno. Esta lua apresenta um terreno muito antigo, coberto de crateras e geologicamente inactivo. Figura 73: Reia O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 101 Explorando o Sistema Solar Jápeto Jápeto tem 730 quilómetros de raio e é um objecto misterioso, pois a característica mais evidente de Jápeto é a diferente reflectividade entre o hemisfério voltado para Saturno e o oposto. O hemisfério voltado para Saturno é pelo menos cinco vezes mais luminoso do que o outro e está coberto de gelo e crateras. Pelo contrário, na face escura é provável que caia material Figura 74: Jápeto pouco luminoso, talvez proveniente de Febe. Dione Dione, de raio 560 quilómetros, deverá ter uma maior densidade de material rochoso do que os outros satélites gelados, à excepção de Titã. Dione tem um elevado número de crateras e, à semelhança de Jápeto, também esta lua apresenta uma diferença morfológica entre as duas faces: de um lado observam-se muitas estrias luminosas que atravessam crateras com Figura 75: Dione diâmetros de 50 a 100 quilómetros, enquanto que do outro lado a luminosidade é praticamente uniforme. 102 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Tétis Tétis tem um raio de 530 quilómetros e a sua superfície, completamente bastante coberta antiga, de está crateras. Figura 76: Tetis Encélado apresenta um raio de 255 quilómetros e uma grande variedade de Encélado formações geológicas à sua superfície. Imagens de alta-resolução da Cassini revelaram jactos que projectam grandes quantidades de material (água e outras substâncias voláteis) que provém de reservatórios próximos da superfície onde o material estará sob pressão elevada. Este material, devido às baixas temperaturas, Figura 77: Encêlado solidifica e cai na superfície, originando o que habitualmente se designa por criovulcanismo. Mimas Mimas tem de raio 196 quilómetros, apresenta um elevado número de crateras e pensa-se estar geologicamente inactivo. Figura 78: Mimas O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 103 Explorando o Sistema Solar Entre os satélites ainda se podem observar pares com órbitas ressonantes, isto é, pares de satélites que interagem gravitacionalmente: Mimas – Tetis; Encélado – Dione; Titã – Hiperíon. Mimas e Tetis estão em ressonância do tipo 1:2, ou seja, o período da órbita de Mimas é metade do período da órbita de Tetis. Encélado e Dione estão também em ressonância do tipo 1:2. Titã e Hiperíon estão em ressonância do tipo 3:4. Tabela 10: Distâncias e períodos orbitais dos anéis e satélites interiores de Saturno 104 Distâncias e períodos dos Distância ao centro de anéis e satélites interiores Saturno Topo das nuvens 60 330 10,66 Limite interior do anel D 67 000 4,91 Limite interior do anel C 73 200 5,61 Limite interior do anel B 92 200 7,93 Limite exterior do anel B 117 500 11,41 Divisão de Cassini 119 000 11,75 Limite interior do anel A 121 000 11,92 Divisão de Encke 133 500 13,82 Pan 133 600 14 Limite exterior do anel A 135 200 14,14 Atlas 137 670 14,61 Prometheus 139 350 14,71 Anel F 140 600 14,94 Pandora 141 700 15,07 Epimetheus 151 420 16,65 Janus 151 420 16,68 Limite interior do anel G 165 800 18 Limite exterior do anel G 173 800 21 Limite interior do anel E 180 000 22 Mimas 185 540 22,60 Enceladus 238 040 32,88 Tethys 294 760 1,88 d Dione 377 420 2,74 d Limite exterior do anel E 480 000 4d Rhea 527 040 4,52 d Período Orbital (h) O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Exploração de Saturno Saturno já foi visitado por quatro sondas, cujos dados enviados para a Terra enriqueceram muito os nossos conhecimentos acerca do planeta, seus anéis e luas. A primeira sonda a chegar a Saturno foi a Pioneer 11, que, depois de ter visitado Júpiter, chegou a Saturno em 1979. As suas imagens deram a conhecer ao “mundo” os anéis de Saturno e uma pequena lua de nome de código 1979 S1. Em Novembro de 1980, as Voyager aproximaram-se de Saturno onde fizeram sucessivas descobertas. A sonda Voyager 1 orbitou a 64 000 quilómetros do planeta, tendo feito o reconhecimento dos seus satélites e, com o objectivo de estudar mais em pormenor o satélite Titã, a sonda Voyager 1 foi desviada da sua rota pré-estabelecida. A grandiosidade dos anéis de Saturno também foi, pela primeira vez, observada pela sua complexidade. As imagens enviadas pelas sondas mostraram que, na realidade, os anéis são formados por milhares de pequenos anéis alternados com lacunas que, no seu conjunto, fazem lembrar um autêntico disco de vinil. A Voyager 2 chegou a Saturno em Agosto de 1981 e depois seguiu viagem em direcção a Úrano e Neptuno e agora encontra-se para lá dos limites do Sistema Solar, mas continua a transmitir o seu fraquíssimo sinal. Figura 79: Voyager 1 A sonda Cassini foi lançada em 1997. Chegou à órbita de Saturno em 2004 e, em Janeiro de 2005, a sonda Huygens, transportada pela Cassini, entrou na atmosfera de Titã e revelou pela primeira vez a sua superfície. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 105 Explorando o Sistema Solar Figura 80: Visão artística da Cassini durante a manobra de inserção orbital no planeta Saturno, logo depois do motor principal ter começado a foguear. Urano O sétimo planeta a contar a partir do Sol é também o terceiro maior gigante gasoso do Sistema Solar. Urano foi descoberto a 13 de Março de 1781, por William Herschel. Figura 81: O Planeta Úrano Estrutura Interna de Urano Os modelos teóricos sugerem que este planeta terá um núcleo rochoso que consiste numa mistura de silicatos e ferro, envolto numa camada de gelos de água, amónia e metano. A sua densidade é semelhante à de Júpiter, mas como a sua massa é muito inferior, tal impediu a formação de uma camada de hidrogénio metálico líquido, à semelhança do que acontece com Júpiter e Saturno. 106 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Figura 82: Estrutura interna de Úrano A Atmosfera de Urano O planeta está rodeado por uma espessa atmosfera constituída por hidrogénio molecular, hélio e metano. A ténue coloração verde-azulada e quase uniforme de Urano prende-se com a presença de metano na sua atmosfera, pois este composto absorve a radiação vermelha da luz solar reflectindo preferencialmente o verde e o azul. A uniformidade da cor de Urano tem a ver com o facto de só raramente se observarem bandas esbranquiçadas de nuvens. Nas latitudes médias sopram ventos com velocidades de 600 km/h paralelamente ao equador. A Rotação de Urano Urano roda “deitado”, pois a inclinação do seu eixo de rotação é muito elevada, mais precisamente de 97,86º, tornando-se quase paralelo ao plano da elíptica. Por outro lado, Urano também roda no sentido dos ponteiros de relógio, ou seja, tem movimento retrógrado em torno de si mesmo. Assim, um observador terrestre verá alternadamente os pólos de Urano durante metade do período de translação, isto é, durante cerca de 42 anos. Assim, as regiões polares de Urano recebem uma maior quantidade de radiação solar do que a zona equatorial, no entanto, por algum processo ainda desconhecido, as regiões polares são mais geladas do que as regiões equatoriais. A Energia Gerada por Urano Como já foi referido, Urano apresenta uma uniformidade única entre os gigantes gasosos e também uma baixa actividade atmosférica. Esta característica poder-se-á dever ao facto de só 30% do calor irradiado por Urano provir do interior do planeta, enquanto que os restantes O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 107 Explorando o Sistema Solar 70% são devidos à radiação solar. Isto contrasta com o que anteriormente foi dito em relação a Júpiter e Saturno, uma vez que o calor emitido à superfície é gerado no interior do planeta, provavelmente pelo Mecanismo de Kelvin-Helmholtz. Campo Magnético de Urano Figura 83: Campo magnético de Urano Urano apresenta um campo magnético significativo, mas com uma característica peculiar, pois o seu eixo de rotação dista 58,6º do eixo magnético. Pensa-se que esta característica se prenda com o facto da formação do campo magnético ocorrer a uma profundidade relativamente baixa em Urano. Anéis de Urano A 10 de Março de 1977, Urano passou em frente a uma estrela ocultando-a. Este acontecimento deu aos astrónomos uma excelente oportunidade para medir o diâmetro aparente de Urano. A presença de um sistema de anéis com características semelhantes às de Saturno, mas mais escuros e menos densos, foi uma surpreendente descoberta. A presença dos anéis foi depois confirmada pela sonda espacial Voyager 2, a qual descobriu dois novos anéis a juntar aos nove descobertos a partir da Terra. Este sistema é então constituído por dez anéis claramente individualizados, mais um que surge a partir do anel 6, e a sua distância ao planeta está compreendida entre os 40 000 e 50 000 quilómetros. Cada um dos anéis possui uma espessura na ordem da centena de metros e a maior parte são pouco extensos. Na constituição dos anéis encontram-se partículas que vão desde as poeiras até corpos com algumas dezenas de metros. A forma irregular e as dimensões do material que compõe os anéis leva a crer que este sistema de anéis terá menos de 100 milhões de anos e que poderia ter-se formado pela 108 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar fragmentação de um satélite, na sequência de uma colisão com outro astro. Por ordem crescente de raio orbital, os principais anéis de Urano apresentam-se com os nomes: 6, 5, 4, alfa, beta, eta, gama, delta, lambda e épsilon. O anel épsilon é o maior e mais excêntrico de todos, a sua largura está compreendida entre 20 e 100 quilómetros. Figura 84: Anéis e principais satélites de Urano Satélites de Urano Após ter descoberto o planeta, William Herschel continuou as suas observações e, em 1787, descobriu as luas Titânia e Oberon. Em 1851, o astrónomo inglês William Lassel descobriu Ariel e Umbriel. A última das cinco luas principais de Urano foi encontrada por Gerald Kuiper, em 1948, à qual foi dado o nome de Miranda. As quatro primeiras luas foram “baptizadas” pelo filho de William Herschel e são os únicos satélites do Sistema Solar cujos nomes não provêm nem da mitologia grega, nem da mitologia romana, pois os seus nomes baseiam-se em nomes de personagens da literatura inglesa. Mais tarde, a Voyager 2 detectou mais dez luas e outras doze foram entretanto descobertas. Assim, Urano possui actualmente 27 satélites conhecidos. À excepção destas cinco luas, as outras conhecidas têm diâmetros entre 10 e 200 quilómetros, a maioria com poucas dezenas. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 109 Explorando o Sistema Solar Oberon e Titânia Figura 85: À esquerda, Oberon, e à direita, Titânia Oberon e Titânia são os maiores satélites de Urano com 1522 e 1578 quilómetros de diâmetro, respectivamente. As superfícies destes satélites encontram-se bastante craterizadas, no entanto, Titânia também apresenta sinais de actividade tectónica, pelo que as suas crateras serão bastante recentes. Umbriel e Ariel Figura 86: À esquerda, Umbriel, e à direita, Ariel Estes dois satélites têm 1169 e 1158 quilómetros de diâmetro, respectivamente. Umbriel é o satélite mais escuro de Urano, é constituído por gelo de água e também apresenta crateras, mas não se denotam as características radiais que costumam acompanhar as crateras. Ariel é, das cinco luas principais de Urano, aquela que melhor reflecte a luz solar. A sua superfície é bastante recente, provavelmente a mais jovem das cinco, o que se prenderá com uma actividade geológica em larga escala, pois o facto é que apresenta indícios disso. 110 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Miranda Miranda, com 471 quilómetros de diâmetro, apresenta uma superfície incrivelmente variada. Aqui podem-se encontrar regiões de tipos completamente diferentes: zonas cobertas de crateras, zonas mais ou menos lisas, penhascos de gelo com alturas acima dos 20 quilómetros e grandes áreas na forma de trapézio ou “coronae”. Ainda não se conhece a razão pela qual Miranda apresenta uma superfície tão Figura 87: Miranda diversificada, mas certamente que a enorme mistura de características que a superfície de Miranda tem se deve a algum acontecimento muito importante. Tabela 11: Os principais satélites de Urano Distância a Período Orbital Úrano (km) (dias) Cordélia 49 471 0,330 26 Ofélia 53 796 0,372 32 Branca 59 173 0,433 42 Créssida 51 777 0,463 62 Desdémona 62 676 0,475 54 Julieta 64 352 0,493 84 Pórcia 66 085 0,513 106 Rosalinda 69 941 0,558 54 Belinda 75 258 0,622 66 1986 U10 75 258 0,620 40 Puck 86 000 0,762 154 Miranda 129 400 1,414 472 Ariel 191 000 2,520 1158 Umbriel 256 300 4,144 1169 Titânia 435 000 8,706 1578 Oberon 583 500 13,463 1523 *Calibã 7 170 000 579 60 *Sícorax 12 214 000 1203 120 Satélite Diâmetro (km) * movimento retrógrado O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 111 Explorando o Sistema Solar Exploração de Urano Depois de ter passado por Júpiter e Saturno, a sonda Voyager 2 continuou até Urano, onde chegou em Janeiro de 1986, mostrando o seu débil sistema de anéis e as suas cinco luas principais, entre as quais a estranha Miranda, e revelou 10 novas luas. A trajectória da Voyager 2 passou a cerca de 30 000 quilómetros de Miranda, tendo fornecido óptimas fotografias da superfície deste satélite. A sonda Voyager 2 apenas permaneceu algumas horas nas proximidades deste planeta, no entanto, foi muito grande a quantidade de informação que enviou para a Terra, tendo esta visita permitido aumentar enormemente o nosso conhecimento acerca do planeta Urano. Neptuno Depois da descoberta de Urano, os astrónomos aperceberam-se que a sua órbita apresentava determinadas irregularidades que só poderiam ser explicadas com a existência do oitavo planeta. Assim, a 23 de Setembro de 1846, Johann Galle, astrónomo do observatório de Berlim, observou Neptuno no céu, numa posição muito aproximada da dos cálculos de Urbain Le Verrier, matemático que elaborou um estudo bastante pormenorizado sobre as possíveis posições do oitavo planeta. Le Verrier e Adams foram os descobridores de Neptuno. Figura 88: O Planeta Neptuno 112 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Estrutura Interna de Neptuno Figura 89: Estrutura interna de Neptuno A estrutura interna de Neptuno será provavelmente muito semelhante à de Urano, isto é, o planeta terá um núcleo rochoso que consiste numa mistura de silicatos e ferro, envolto numa camada de gelos de água, amónia e metano. A Atmosfera de Neptuno Por cima da camada de gelos de água, amónia e metano poder-se-á encontrar uma espessa atmosfera constituída por hidrogénio molecular, hélio e metano. A cor azul de Neptuno devese à presença de metano na sua atmosfera, pois este composto absorve a radiação vermelha da luz solar reflectindo preferencialmente o azul. No entanto, a maior intensidade do azul em Neptuno do que em Urano leva a colocar a hipótese da existência de um composto na atmosfera do planeta que acentue o tom azulado, composto esse que, obviamente, não estará presente na atmosfera de Urano. Neptuno possui uma atmosfera muito turbulenta. Nela observam-se grandes manchas que perduram no tempo. É exemplo disso a Grande Mancha Escura – Great Dark Spot – observada pela Voyager 2 e que tinha o tamanho aproximado do da Terra. No entanto, cinco anos mais tarde, em 1994, quando Neptuno foi observado pelo Telescópio Espacial Hubble, a Grande Mancha Escura tinha desaparecido. A atmosfera de Neptuno é muito dinâmica, o que justifica a duração desta mancha característica. A Voyager 2 fotografou também uma nuvem branca de forma irregular, baptizada de “Scooter” pelo seu rápido movimento. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 113 Explorando o Sistema Solar A Energia Gerada por Neptuno Neptuno possui uma fonte interna de calor muito intensa. A sonda Voyager 2 confirmou que o planeta emite uma quantidade de energia quase igual ao triplo da energia solar absorvida. À semelhança do que acontece com Júpiter e Saturno, o calor libertado por Neptuno prende-se com uma reserva de energia acumulada durante a compressão gravitacional do planeta. Isto é, no decurso da formação do planeta a partir da nébula primordial, a energia potencial gravítica transforma-se em energia cinética, o que se traduz num aumento da temperatura. Este mecanismo denomina-se Mecanismo de Kelvin-Helmholtz. O calor produzido no interior de Neptuno causa movimentos convectivos que estão na origem dos fortíssimos ventos existentes na atmosfera de Neptuno. Campo Magnético de Neptuno Neptuno tem um intenso campo magnético, cujo eixo dista 47º do eixo de rotação. Anéis de Neptuno Neptuno possui um sistema de quatro anéis, sendo três deles muito finos. As observações da sonda Voyager 2 mostraram anéis com uma fraca capacidade de reflexão da luz, o que justifica o facto de se apresentarem muito escuros. Em meados dos anos 80 do século passado, falou-se que Neptuno possuiria anéis que não formariam circunferências completas, mas apenas pedaços delas. A sonda Voyager 2 descobriu o anel mais exterior – anel de Adams - que possui efectivamente três arcos denominados Liberdade, Igualdade e Fraternidade. Este anel apresenta-se bastante estreito e dista do centro de Neptuno 63 000 quilómetros. Ainda não se encontrou uma explicação para a existência dos arcos, pois as leis do movimento prevêem que o material que constitui os arcos se distribua formando um anel mais ou menos uniforme. Nem os efeitos gravitacionais da lua Galateia, situada no interior do anel, são suficientes para explicar a formação dos arcos. 114 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Figura 90: Estas duas exposições de 591 segundos dos anéis de Neptuno foram obtidas em 26 de Agosto de 1989 a uma distância de 280,000 quilómetros. O clarão luminoso ao centro é devido à sobre-exposição de Neptuno. A Voyager 2 descobriu ainda o anel de Le Verrier, a 53 000 quilómetros do centro do planeta, e o anel de Galle, a 42 000 quilómetros do centro de Neptuno. Um prolongamento exterior ao anel Le Verrier, chamado Lassell, é delimitado por fora pelo anel Arago, à distância de 57 000 quilómetros do centro de Neptuno. Satélites de Neptuno Figura 91: Tritão Actualmente são conhecidos 13 satélites naturais a Neptuno. Tritão e Nereide foram os primeiros a serem descobertos. Tritão, com 2705 quilómetros de diâmetro, orbita em torno de Neptuno numa órbita inclinada de 127º (ou 53º) relativamente ao plano orbital de Neptuno em torno do Sol. Desta forma, as regiões polares e equatoriais recebem alternadamente a maior parte da radiação solar, o que O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 115 Explorando o Sistema Solar provoca grandes variações sazonais. Tritão é também o maior satélite de Neptuno e o maior do Sistema Solar a girar no sentido retrógrado, neste caso, em torno de Neptuno. A descoberta de Tritão data de 1846, no entanto as características da sua superfície só foram reveladas quando a sonda Voyager 2 lá chegou. As fotografias de Tritão revelam uma superfície com crateras, desfiladeiros, cumes com lagos de gelo e amoníaco, fissuras de comprimentos extraordinários e estranhos vulcões que parecem géisers que emitem jactos de azoto líquido e também compostos escuros de carbono provenientes do subsolo. A superfície de Tritão está coberta por azoto e gelo de metano, substâncias que reflectem muito bem a luz solar e que, juntamente com a grande distância a que o satélite se encontra do Sol, tornam a superfície de Tritão uma das mais geladas do Sistema Solar, cerca de -235ºC. Uma outra característica curiosa de Tritão refere-se à sua densidade que é relativamente alta se comparada com a das outras luas. Este facto, associado ao movimento retrógrado de Tritão, levou os cientistas a considerar a hipótese de que Tritão e Neptuno não se terão formado a partir da mesma condensação inicial. Provavelmente, Tritão ter-se-á formado na Cintura de Kuiper (ou noutro local do Sistema Solar), tendo sido depois capturado pelo campo gravitacional de Neptuno. O processo de agregação de Tritão por parte de Neptuno terá envolvido a dissipação de grandes quantidades de energia, suficientes para aquecerem o satélite e provocar a sua diferenciação, o que justificaria as interessantes características à sua superfície. Num futuro distante, se Tritão não for destruído pelas forças de maré, irá inevitavelmente colidir com Neptuno. Este destino tem a ver com a órbita retrógrada de Tritão associada ao facto do período de translação de Tritão ser muito inferior ao período de rotação de Neptuno, o que está a travar o satélite e a diminui o seu raio orbital, enquanto que a rotação de Neptuno aumenta. A lua mais exterior de Neptuno é Nereide, descoberta em 1949 por Kuiper. Nereide, com 340 quilómetros de diâmetro, move-se em torno de Neptuno, numa órbita tão excêntrica, que a sua distância ao planeta varia em mais de 8 milhões de quilómetros. Este facto indica que se poderá tratar de um corpo capturado por Neptuno, provavelmente proveniente da Cintura de Kuiper. Quando a sonda Voyager 2 chegou a Neptuno, em 1989, descobriu mais seis satélites a orbitarem num plano quase coincidente com o equatorial de planeta e no sentido directo. Entre eles encontram-se as quatro luas mais interiores do sistema de Neptuno que são: Naîade, Talassa, Despina e Galateia. Estas são luas muito pequenas semelhantes a asteróides. Larissa é o quinto satélite de Neptuno e Proteu é o sexto e também o segundo em termos de 116 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar tamanho, com cerca de 400 quilómetros de diâmetro. A superfície irregular de Proteu é cinzenta e escura, onde abundam crateras que revelam uma história de colisões com pequenos asteróides. As outras cinco luas foram descobertas nos últimos anos. Tabela 12: Os principais satélites de Neptuno Distância a Período Orbital Neptuno (km) (dias) 54 48 000 0,296 Talassa 80 50 000 0,312 Despina 180 52 500 0,333 Galateia 150 62 000 0,429 Larissa 192 73 500 0,544 Proteu 416 117 600 1,121 Tritão 2705 354 800 5,877 Nereide 240 1 345 500 – 9 688 500 360,15 Satélite Diâmetro (km) Naîade Exploração de Neptuno Depois de ter passado e enviado para a Terra informações preciosas de Júpiter, Saturno e Urano, a sonda Voyager 2 chegou a Neptuno em Agosto de 1989, tinham passado doze anos desde o seu lançamento. A sonda passou a 4500 quilómetros de distância do pólo norte do planeta Neptuno e descobriu seis novas luas, confirmando que também este gigante gasoso possui um sistema de anéis. Figura 92: Missão Voyager O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 117 Explorando o Sistema Solar Plutão – O Planeta Anão A partir de 1880, Percival Lowell, conhecido estudioso de Marte, dedicou-se à procura do nono planeta, o qual seria responsável por algumas perturbações causadas na órbita de Urano. Catorze anos mais tarde, Percival morreu com “a maior desilusão da sua vida”, segundo palavras do seu irmão. A 13 de Março de 1930, outros catorze anos após a morte de Percival, Clyde Tombaugh, jovem assistente do Observatório de Flagstaff, localizou Plutão somente a 6º da posição indicada por Percival Lowell. O nome foi escolhido para, com as suas iniciais, homenagear Percival Lowell. O conhecimento acerca deste astro aumentou muito graças aos dados recolhidos, essencialmente, pelo Telescópio Espacial Hubble. É de referir que nunca nenhuma sonda espacial visitou Plutão na exploração dos planetas exteriores de Sistema Solar. Figura 93: O Planeta Plutão A órbita de Plutão é de tal modo excêntrica que intercepta a de Neptuno durante a translação, ou seja, Plutão chega a encontrar-se mais próximo do Sol do que Neptuno por um período 20 anos dos 248,5 anos que dura o seu período orbital. No entanto, não existe o perigo dos dois astros colidirem, pois estes encontram-se em ressonância 3:2, isto é, por cada três órbitas de Neptuno, Plutão dá duas voltas ao Sol. Por outro lado, a inclinação orbital de Plutão também é muito elevada, 17º, o que ainda o afasta mais de Neptuno. 118 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Figura 94: À esquerda, o Sistema Solar até a órbita de Júpiter, mostrando a Cintura de Asteróides, localizada entre as órbitas de Marte e Júpiter. À direita, a Cintura de Kuiper, situado para além da órbita de Neptuno. A órbita de Plutão - mais excêntrica do que as dos planetas – cruza a órbita de Neptuno. Estrutura Interna de Plutão Plutão é um planeta sólido do tipo terrestre, com um núcleo, um manto e uma superfície. Actualmente existem dois modelos que procuram retratar a estrutura interna de Plutão. O primeiro modelo defende um núcleo de rochas silicatadas parcialmente hidratadas e uma superfície coberta principalmente por azoto, metano e óxido de carbono. O segundo modelo prevê um núcleo interior silicatado, coberto por uma camada de material orgânico, seguido de uma outra camada, mas de gelo. A presença de gelo pode-se justificar com possíveis choques entre Plutão e um ou vários asteróides, acontecimentos que terão aquecido o planeta levando à separação do gelo das rochas primordiais. Por outro lado, caso se prove que Plutão não sofreu nenhuma colisão capaz de desencadear este processo, então também se poderá pensar que o calor libertado pelos materiais radioactivos presentes nas rochas foi suficiente para provocar a subida da água para as camadas mais altas do planeta. Superfície de Plutão Relativamente à superfície, o Telescópio Espacial Hubble revelou variações no brilho do planeta durante a sua rotação. Investigações laboratoriais levam a crer que o material mais brilhante à superfície de Plutão seja constituído principalmente por azoto sólido, mas também O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 119 Explorando o Sistema Solar metano e óxido de carbono. Por outro lado, pensa-se que estes três compostos não deveriam ser os únicos elementos presentes na superfície de Plutão, no entanto, também ainda não se conseguiram observar outros. Investigações efectuadas em infravermelhos, com o telescópio IRAS, revelaram zonas com uma reflectividade mais baixa, uma cor avermelhada e uma temperatura mais elevada, concluindo que estas zonas não estão preferencialmente cobertas por gelo de azoto, no entanto, desconhece-se que elementos estarão presentes. Observações espectrais revelam grandes semelhanças entre Plutão e Tritão, sendo possível que estes dois astros se tenham formado em condições idênticas. A Atmosfera de Plutão Os materiais que se encontram à superfície de Plutão são os mesmos que formam a ténue atmosfera, pois, quando Plutão se aproxima do Sol, uma parte das áreas geladas sublima, formando a atmosfera. Depois, quando o planeta se afasta do Sol, a atmosfera condensa e volta a cair na superfície na forma de “neve”, dando origem a algumas das áreas mais brilhantes. No entanto, à temperatura de Plutão, o azoto é mais volátil do que metano e o óxido de carbono, logo tem uma maior tendência a subir na atmosfera, o que faz dele o principal componente. Caronte Caronte é um satélite de Plutão e foi descoberto em 1978. Por outro lado, Caronte tem cerca de metade do tamanho de Plutão, por isso também se considera que o sistema Plutão – Caronte é um sistema binário. Plutão e Caronte apresentam sempre a mesma face voltada um para o outro, isto é, Caronte está sempre “parado” sobre o mesmo ponto da superfície de Plutão, porque o período de translação de Caronte é igual ao período de rotação de Plutão. Figura 95: Sistema Plutão-Caronte 120 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar A superfície de Caronte é menos reflectora do que a de Plutão. As observações espectroscópicas mostram que é provável que o satélite esteja coberto de gelo de água e outros componentes não identificados que teriam dado origem a manchas acinzentadas na superfície deste astro. Para além de Caronte, Plutão possui ainda dois satélites menores, descobertos em 2005 pelo Telescópio Espacial Hubble e que receberam da União Astronómica Internacional (UAI) os nomes mitológicos de Nix e Hydra. Planeta Anão Encerrada a XXVI Assembleia Geral da União Astronómica Internacional, em Agosto de 2006, o conceito de planeta do Sistema Solar sofre alterações, tendo sido criada uma nova categoria de planetas: os planetas anões. Assim, um planeta anão do Sistema Solar passa a ser todo o corpo celeste que: orbita em torno do Sol; tem massa suficiente para que a sua própria gravidade lhe confira uma forma esférica; não tem uma órbita livre de outros objectos na sua vizinhança e não é um satélite. Mas porquê a necessidade desta reclassificação? A classificação de Plutão como planeta principal do Sistema Solar, já há muito que era contestada por muitos elementos da comunidade científica. O facto de Plutão ser mais pequeno do que algumas luas do Sistema Solar, orbitar em torno do Sol a uma distância de 40 unidades astronómicas e numa órbita extremamente inclinada, a juntar à descoberta de vários objectos de dimensões semelhantes às de Plutão, numa região exterior do Sistema Solar, a partir de 1990, são os motivos apresentados pelos astrónomos. A partir desse momento, muitos astrónomos entenderam que seria mais sensato encaixar Plutão na família dos pequenos corpos gelados encontrados na denominada Cintura de Kuiper. Assim, Plutão passou a ser um planeta anão. Mas desta nova classificação também fazem parte Caronte, Eris e Ceres, o maior asteróide da Cintura de Asteróides que órbita entre Marte e Júpiter. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 121 Explorando o Sistema Solar Cintura de Kuiper Em 1949, o astrónomo irlandês Kenneth E. Edgeworth, e, em 1951, o astrónomo holandês Gerard Kuiper colocaram, independentemente um do outro, a hipótese da existência de corpos de dimensões médio-pequenas localizados nos confins do Sistema Solar, ou seja, para lá da órbita de Plutão. A fundamentação desta hipótese passava pelo facto destes astrónomos acharem estranho que a nuvem primordial que deu origem ao Sistema Solar tivesse terminado a sua obra nas proximidades da órbita de Neptuno de forma tão”brusca”. Os instrumentos da época não lhes permitiram verificar a teoria, mas a confirmação desta hipótese chegou nos anos noventa do século passado com a detecção do objecto 1992 QB1. Actualmente, todos os objectos que se encontram para lá da órbita de Neptuno são classificados de transneptunianos e considerados parte da Cintura de Edgeworth-Kuiper. A fronteira interior da cintura é definida pela órbita de Neptuno e a fronteira exterior estará localizada para lá das 50 unidades astronómicas do Sol. A densidade da Cintura de Kuiper parece aumentar na zona da órbita de Plutão que se encontra em ressonância com a órbita de Neptuno na razão de 3:2, isto é, por cada três órbitas de Neptuno, Plutão dá duas voltas ao Sol. De acordo com a teoria defendida por Edgeworth- Kuiper, actualmente pensa-se que, pelo menos, os objectos mais pequenos que constituem a Cintura de Kuiper se terão formado a partir do material que sobrou da nuvem primordial e como a densidade da nuvem é muito baixa nesta zona, os objectos aí formados não poderam evoluir para tamanhos maiores. É até possível que os maiores objectos encontrados na Cintura de Kuiper se tenham formado numa zona mais interior do Sistema Solar e depois “empurrados” pela influência dos planetas gigantes para as órbitas que ocupam actualmente. Por outro lado, as características e semelhanças entre Plutão, o seu satélite Caronte e o satélite de Neptuno, Tritão, evidencia uma origem comum e muito provavelmente numa zona mais exterior do Sistema Solar. Estes objectos terão sido atraídos pelo campo gravitacional de Neptuno, transformando Tritão num satélite e colocando o sistema PlutãoCaronte em órbita sincronizada com a de Neptuno. Existem ainda objectos provavelmente formados na Cintura de Kuiper, os Centauros, que devido à excentricidade das suas órbitas, podem ser cometas de período curto. Tabela 13: Os maiores objectos transneptunianos encontrados até hoje Objecto Transneptuniano Diâmetro (km) 122 Sedna Quaoar Ixion Varuna 2002 AW197 2000-3000 1200 1065 800 790 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar Figura 96: Tamanhos relativos dos principais objectos da Cintura de Kuiper conhecidos até meados de 2005 Cometas e Nuvem de Oort Figura 97: Cometa Hale-Bopp A partir dos restos nuvem primordial formaram-se os asteróides, que orbitam entre os planetas e em torno do Sol, e os cometas, cujas órbitas podem ser elípticas e muito excêntricas ou hiperbólicas. O astrofísico holandês Jan Oort, no século passado, formulou a hipótese da existência de uma “nuvem” de cometas, com cerca de 1 ano-luz de raio, a rodear o nosso sistema planetário. Os cometas de período longo, por exemplo, o Hale-Bopp e o Hyakutake, estão provavelmente associados a esta nuvem, tal como os cometas com órbitas hiperbólicas, que passam uma única vez perto do Sol e abandonam o Sistema Solar. Os cometas de período curto, como por exemplo o cometa Halley, serão originários da Cintura de Kuiper. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 123 Explorando o Sistema Solar Figura 98: Nos confins do sistema solar (Cintura de Kuiper e Nuvem de Oort), para além da órbita de Neptuno, existem milhares de milhões de pequenos corpos celestes compostos essencialmente de gelo. Os cometas são corpos rochosos gelados, semelhantes a asteróides, que quando se aproximam do Sol desenvolvem cabeleira e cauda que aponta sempre na direcção oposta ao Sol. O Núcleo Cometário Os cometas são muitas vezes descritos como bolas de neve sujas. A sonda espacial Giotto da Agência Espacial Europeia aproximou-se do cometa Halley, em 1986, e confirmou a existência de um núcleo rochoso composto por uma mistura de gelos (80% por água, para além de metano, amónia, dióxido de carbono, monóxido de carbono) e poeiras. Os núcleos cometários são muito difíceis de observar quando se encontram afastados do Sol e os gases se encontram congelados, porque para além de reflectirem muito mal a luz que recebem do Sol, também as suas dimensões são da ordem dos 15 a 20 quilómetros de diâmetro. A Cabeleira À medida que o cometa se aproxima do Sol, os seus gelos começam a sublimar, levando ao aparecimento de uma cabeleira de vapor de água, dióxido de carbono e outros gases. Uma vez que o núcleo cometário apresenta dimensões na ordem dos 15 quilómetros, a gravidade exercida também é escassa, razão pela qual o gás emitido se dispersa no espaço, sendo 124 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar continuamente substituído por novo material. A sublimação do material emitido violentamente pelo núcleo só acontece no lado activado pelo Sol, ou seja, no lado voltado para o Sol e é lançado no espaço em linha recta podendo atingir centenas de milhares de quilómetros. No entanto, devido ao vento solar e ao choque com as suas partículas, o material libertado pelo cometa forma uma cauda que aponta na direcção oposta ao Sol. A Cauda Como já referi, a cauda é formada pelos gases da cabeleira, podendo atingir milhões de quilómetros. Um conjunto de partículas carregadas emitidas pelo Sol constitui o vento solar que é o responsável pela orientação da cabeleira. A força exercida pelo vento solar nas moléculas de gás da cabeleira é muito mais forte do que a força gravitacional do Sol, daí a orientação da cauda surgir no sentido oposto ao Sol, pois as moléculas são empurradas para trás. Normalmente a cauda aparece dividida em duas partes, formando a cauda de poeiras e a cauda iónica. As partículas que constituem a cauda de poeiras são muito mais massivas do que as partículas que formam a cauda iónica. Desta forma, a cauda de poeiras está sujeita a uma maior inércia, o que implica uma menor aceleração das partículas para longe do cometa e dá a esta cauda uma forma encurvada, enquanto que a cauda iónica tem uma forma rectilínea. O brilho da cauda de poeiras resulta da absorção da radiação ultravioleta emitida pelo Sol, mas também da quantidade de poeiras e de cristais de gelo em dispersão. A cauda iónica torna-se visível porque as moléculas são excitadas pela radiação solar e emitem frequências características. Figura 99: Orientação da cauda do cometa O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 125 Explorando o Sistema Solar A Luminosidade dos Cometas A luminosidade aparente de um cometa depende da sua distância ao Sol e também à Terra. Por um lado, uma maior proximidade à Terra permite uma melhor visualização do cometa, daí falar em luminosidade aparente. Por outro lado, o brilho de um cometa é mais ou menos proporcional à quarta potência da distância ao Sol, que indica que os cometas reflectem a luz solar, mas também a absorvem. Outro factor importante a considerar é o ciclo de actividade solar, pois à medida que a actividade solar aumenta verifica-se um aumento da luminosidade do cometa. Por último, há ainda que considerar que a luminosidade dos cometas de período curto diminui à medida que aumenta o número de passagens em torno do Sol, pois por cada passagem verifica-se uma enorme perda de material. É bastante provável que asteróides com órbitas muito excêntricas que atravessam as órbitas dos planetas interiores, incluído os NEAs, sejam antigos cometas. Ao longo da sua trajectória, os cometas libertam material na forma de poeiras, que se mantém a orbitar em torno do Sol. Quando a Terra intercepta esta faixa de material produzem-se as chuvas de estrelas. Figura 100: Colisão dos fragmentos do cometa Shoemaker-Levy 9 com o planeta Júpiter, em Julho de 1994 Meteoróides Os meteoróides são pequenos corpos rochosos, muitas vezes poeiras cósmicas, que quando se atravessam ou aproximam da trajectória da Terra são capturados pela força gravitacional do planeta. À medida que o meteoróide entra em contacto com a atmosfera, o atrito entre o 126 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Explorando o Sistema Solar objecto celeste e as partículas da atmosfera aumenta, verifica-se um sobreaquecimento e o meteoróide inflama. Se o objecto se consumir completamente na atmosfera denomina-se meteoro, mas, se pelo contrário, chocar com a superfície terrestre originando uma cratera, tem o nome de meteorito. Os meteoros originam o fenómeno das “estrelas cadentes”. Figura 101: Cratera do Meteorito Os meteoróides que não se desintegram totalmente ao atravessar a atmosfera e chocam com a superfície terrestre, denominam-se meteoritos. Estes objectos dividem-se em três categorias, conforme a sua composição química: - sideritos (meteoritos metálicos compostos quase totalmente por ferro e níquel); - aerólitos (meteoritos rochosos constituídos sobretudo por silicatos); - siderólitos ( meteoritos formados quer por silicatos quer por ligas metálicas). Cerca de 65% dos meteoritos conhecidos encaixam na categoria dos aerólitos, enquanto que os sideritos constituem 30% dos meteoritos e os restantes 5% são da classe dos siderólitos. Figura 102: O meteorito ALH 84001 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 127 Explorando o Sistema Solar 128 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial Capítulo 2: ESA – Uma Agência Espacial 2.1. A Agência Espacial Europeia – ESA A Agência Espacial Europeia tem como objectivo colocar “a Europa no Espaço”, promovendo o melhor e maior acesso ao conhecimento cósmico. A missão da ESA passa por desenvolver e pôr em prática as potencialidades dos projectos científicos e espaciais e assegurar-se que o investimento dos contribuintes europeus lhes continue a oferecer benefícios na forma de respostas às inúmeras questões científicas. Quem são os membros da ESA? A Agência Espacial Europeia é constituída por 17 estados membros: Alemanha, Áustria, Bélgica, Dinamarca, Espanha, Finlândia, França, Grécia, Irlanda, Itália, Luxemburgo, Países Baixos, Noruega, Portugal, Suécia, Suiça e Reino Unido. Figura 103: Países membros da ESA Como se verifica no parágrafo anterior, nem todos os países membros da União Europeia são membros da ESA, mas também nem todos os membros da ESA pertencem à UE. A ESA é uma organização independente, mas mantém uma ligação à UE, de tal forma que as duas organizações partilham uma estratégia comum no que concerne ao espaço visando uma política espacial europeia. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 129 ESA – Uma Agência Espacial Em que consiste o trabalho da ESA? Figura 104: Visão artística da missão Cluster O trabalho da ESA passa por projectar e desenvolver programas de exploração espacial. Os projectos da ESA visam o estudo do Sistema Solar, para além das fronteiras deste e até todo o Universo. A procura do nosso lugar no Universo é também um dos objectivos da ESA, pois o seu trabalho também aponta na procura de vida noutros planetas, pertencentes a outros sistemas solares, e até no nosso Sistema Solar. A ESA, embora uma seja uma organização independente, também tem acordos de cooperação com outras agências espaciais. Por outro lado, a ESA também desenvolve tecnologias e serviços que passam pela colocação de satélites a orbitar em torno da Terra e pela promoção das indústrias europeias. Onde está localizada a ESA? A Agência Espacial Europeia está sedeada em Paris, onde os programas e as políticas espaciais são decididos. É aqui que o Director-Geral, bem como os restantes Directores têm os seus escritórios. A ESA Paris é também um centro administrativo onde se podem encontrar os principais escritórios para os recursos humanos, departamento jurídico, finanças, orçamento, exame interno, estratégia, relações internacionais e comunicações. Esta agência tem também centros noutros países europeus, cada um dos quais com responsabilidades diferentes: • O EAC, Centro Europeu de Astronautas, localizado em Colónia, na Alemanha, é o local onde os astronautas são treinados para futuras missões espaciais tripuladas; 130 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial • No ESAC, Centro Europeu de Astronomia Espacial, situado em Villafranca del Castillo, perto de Madrid, em Espanha, encontram-se os centros de operação científica relativamente a todas as missões de astronomia e missões planetárias da ESA, juntamente com os seus arquivos científicos; • O ESOC, o Centro Europeu de Operações Espaciais, localizado em Darmstadt, na Alemanha, é responsável pelo controlo dos satélites da ESA, em órbita em torno da Terra e também de outras missões; Figura 105: Principal centro de controlo no ESOC, em Darmstadt, na Alemanha • O ESRIN, o Instituto Europeu de Investigação Espacial, está situado em Frascati, perto de Roma, na Itália, e é responsável por recolher, armazenar e distribuir aos parceiros da ESA, os dados recolhidos da observação da Terra via satélite e é também o centro da tecnologia da informação da agência; • O ESTEC, o Centro Europeu da Investigação e da Tecnologia Espacial, localizado em Noordwijk, nos Países Baixos, é onde são montados, testados e geridos grande parte dos projectos tecnológicos e naves espaciais da ESA. Cada centro da ESA tem também escritórios para os recursos humanos, finanças e comunicações. Para facilitar as relações internacionais, a ESA tem ainda escritórios na Bélgica, nos Estados Unidos e na Rússia, uma base de lançamento na Guiana Francesa e várias estações terrestres um pouco por todo o mundo. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 131 ESA – Uma Agência Espacial Quem são as pessoas que trabalham na ESA? Figura 106: Equipa de astronautas da ESA A equipa de funcionários que trabalha na ESA é constituída por indivíduos altamente qualificados que vêm de todos os estados membros e incluem cientistas, coordenadores, especialistas na tecnologia da informação e pessoal administrativo. Figura 107: O quotidiano no espaço Quem sustenta a ESA? As actividades da ESA, em especial os programas da ciência espacial, são financiadas pela contribuição financeira dos estados membros da Agência, calculada de acordo com o produto nacional bruto de cada país. Por outro lado, a ESA desenvolve um conjunto de programas opcionais e cada estado membro decide que se quer, e em qual deles quer participar e com quanto pretende contribuir. 132 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial Quanto custa a cada europeu financiar a ESA? O investimento de cada cidadão dos estados membros, nos programas espaciais da ESA, provém dos seus impostos pagos ao estado. Como são os cidadãos europeus que financiam a ESA, também é importante que esta se preocupe em revelar ao público os projectos desenvolvidos, tal como os resultados obtidos. Assim, o escritório da comunicação da ESA tem como uma das suas actividades principais a realização de eventos e conferências de imprensa gratuitas e a elaboração de material escrito e audiovisual para determinado público-alvo. Figura 108: Poster apresentado pelos Portuguese Trainees que marcaram presença no ISD2006, realizado a 29 de Maio de 2006 na ESA\ESTEC - Noordwijk, Holanda. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 133 ESA – Uma Agência Espacial Como funciona a ESA? O Conselho da ESA constitui o órgão dirigente da Agência, o qual elabora as políticas básicas a partir das quais a Agência desenvolve os programas espaciais. O Conselho da ESA é formado por todos os estados membros e cada um tem direito a um voto, independentemente da sua contribuição financeira, dimensão populacional ou geográfica. De quatro em quatro anos, o Conselho elege um Director-Geral a quem é atribuída a função de presidir à Agência Espacial Europeia. Cada sector individual de pesquisa tem a sua própria Direcção que reporta ao Director-Geral. As actividades da ESA estão divididas em nove direcções que são: • Programas de Observação da Terra • Gestão Técnica e da Qualidade • Programas do Lançador • Voos Espaciais Tripulados, Microgravidade e Programas Humanos de Exploração • Gestão de Recursos • Relações Externas • Programa Científico • Telecomunicações e Navegação • Operações e Infra-estruturas Figura 109: Envisat - Programa de Observação da Terra 134 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial 2.2. Porque é que a ciência espacial precisa de uma planificação a longo prazo? Depois de cerca de 4000 anos de uma astronomia a olho nu, Galileu iniciou 400 anos de astronomia com telescópios poderosos, seguidos de 40 anos de astronomia espacial. Em cada um destes períodos históricos, os astrónomos têm conseguido mais informação sobre o Universo, num exemplo espectacular de aceleração da ciência. A Astronomia é o caminho para a compreensão do nosso Universo e do lugar que a humanidade ocupa nele. A maioria das nossas informações sobre objectos celestes vem através de radiação electromagnética que os planetas, estrelas e galáxias reflectem. No entanto, a nossa atmosfera não nos permite fazer uma leitura completa das radiações recebidas, daí a importância de colocar telescópios em órbita. Esta possibilidade tem providenciado aos astrónomos um imenso avanço nos seus poderes de observação. Figura 110: XMM – Newton Por outro lado, existe uma outra dimensão de investigação espacial: a exploração in situ. Naves e sondas espaciais europeias já foram enviadas para estudar muitos dos astros do Sistema Solar, incluído a Lua, Vénus, Marte, o sistema Saturno/Titã e, no futuro, Mercúrio. A participação em missões de estudo do Sol tem oferecido uma nova visão da nossa estrela. Tendo em vista o panorama geral dos avanços da ciência espacial, pode-se concluir que através da criatividade, organização e determinação, a Europa tem conseguido a liderança num sem número de áreas de investigação, desde a fundação da ESA. A Agência Espacial O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 135 ESA – Uma Agência Espacial Europeia, obviamente com a preciosa colaboração de outras agências espaciais, tem conseguido avançar com projectos difíceis e altamente originais, como, por exemplo, com a missão Cassini-Huygens ao sistema Saturno/Titã, ou com a colocação em órbita dos telescópios de raios-X mais sensíveis do mundo e raios gama, XMM – Newton e Integral. Giotto A missão Giotto foi a “cereja no topo do bolo”, tornando-se na referência de sucesso da ESA. Na noite de 13 para 14 de Março de 1986, a sonda Giotto da ESA encontrou-se com o cometa Halley. Esta missão consistiu na primeira missão da ESA no espaço profundo e resultou de um grande esforço internacional, no sentido de desvendar os segredos destes misteriosos objectos, que remontam aos primórdios do Sistema Solar. A sonda Giotto permitiu obter as primeiras imagens do núcleo de um cometa e a primeiras evidências da presença de material orgânico. Figura 111: Cometa Halley visto pela Giotto A sonda Giotto foi lançada pelo foguetão Ariane 1, a 2 de Julho de 1985. Após três órbitas à volta da Terra, o motor de bordo foi accionado para a lançar numa órbita interplanetária. A 12 de Março de 1986, após uma viagem de oito meses e quase 150 milhões de quilómetros, os instrumentos da sonda detectaram, pela primeira vez, os iões de hidrogénio do Halley, a uma distância de 7,8 milhões de quilómetros do cometa. Um dia depois, a Giotto aproximou-se do cometa Halley, entrou nas fronteiras da cabeleira e encontrou o núcleo cometário. 136 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial As equipas do Centro Europeu de Operações Espaciais, em Darmstadt, na Alemanha, ficaram entusiasmadíssimos à medida que os primeiros dados e imagens começavam a chegar. As dez equipas experimentais apressaram-se a examinar as informações recolhidas pela sonda e de imediato procuraram fazer uma primeira análise. Em 1992, a sonda Giotto foi dirigida para o cometa Grigg-Skjellerup aproximando-se a uma distância de 200 quilómetros do núcleo, do qual emitiu muitos dados e informações, nomeadamente o estudo da interacção entre o vento solar, o campo magnético interplanetário e o próprio cometa. A missão Rosetta, lançada em 2004, irá lançar um módulo de aterragem no cometa 67 PChuryumov-Gerasimenko em 2014, reforçando a posição de liderança conseguida pela Giotto. Figura 112: Sonda Giotto Os institutos científicos europeus, as companhias aeroespaciais e governamentais, rapidamente se aperceberam que para criar e preservar equipas talentosas capazes de desenvolver e pôr em prática projectos desta envergadura, assim como para manter parceiros de confiança em colaborações internacionais, a ESA precisaria de planos a longo prazo. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 137 ESA – Uma Agência Espacial Cassini-Huygens A Cassini-Huygens a Saturno é, desde sempre, a mais ambiciosa missão na exploração planetária. Christiaan Huygens (1629-1695) foi um cientista holandês a quem se atribui a proeza da descoberta da maior lua de Saturno, Titã, em 1655. Jean-Dominique Cassini (1625-1712), descobriu os satélites Jápeto, Reia, Tétis e Dione de Saturno. Em 1675 descobriu o que é conhecido hoje como a “Divisão de Cassini”, uma estreita abertura que separa dois anéis de Saturno. O verdadeiro nome da missão, Cassini-Huygens, pretendeu homenagear estes astrónomos europeus que exploraram Saturno, os seus anéis e luas, no século dezassete. Um esforço conjunto da ESA, da NASA e da ASI, criou a Cassini-Huygens, uma nave espacial sofisticada enviada a 15 de Outubro de 1997, para estudar o sistema saturniano por um período de quatro anos. As tecnologias básicas – propulsão por roquetes, a aterragem por pára-quedas e a comunicação via rádio - foram todas pioneiras na Europa. A nave espacial chegou a Saturno em Julho de 2004 e o módulo Huygens foi o primeiro objecto a aterrar num corpo do Sistema Solar exterior, nomeadamente na superfície de Titã, a maior lua de Saturno, a 14 de Janeiro de 2005. Os dados de Cassini e de Huygens são uma mais valia na procura da origem da vida. Figura 113: A viagem da Cassini-Huygens Para conceber e executar a missão Huygens levou mais de 20 anos. Em 1982, dois cientistas espaciais europeus propuseram formalmente à ESA, uma sonda para Titã. Seis anos mais tarde, a cooperação NASA/ESA/ASI aprovou a missão Cassini- Huygens. Depois de um trabalho intensivo das equipas de cientistas espaciais e engenheiros, a sonda Huygens foi 138 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial concluída e unida à Cassini para ser lançada em 1997. A continuação da colaboração transatlântica através de um longo voo para Saturno assegurou a entrega perfeita em Titã. A grande antena de Cassini, contribuição da Agência Espacial Italiana, ASI, recebeu sinais de Huygens e enviou-os para a Terra. O sucesso desta missão é, primeiro e acima de tudo, atribuído à perseverança dos cientistas e às soluções engenhosas e altamente criativas desenvolvidas pela indústria espacial na construção de um motor que tem empurrado a exploração espacial para além das fronteiras humanas. Figura 114: Visão artística da missão Cassini-Huygens Equipas de cientistas, técnicos, indústria espacial e parceiros internacionais, todos se empenharam na existência de um plano a longo prazo da ESA, para construir um projecto que levou quase duas décadas a desenvolver, precedido de um longo esforço preparatório. Nada disto teria sido possível se a ESA não tivesse tido um plano científico espacial de longo prazo. 2.2.1 Horizonte 2000 e Horizonte 2000 Plus O plano Horizonte 2000, que projectou a missão Cassini-Huygens, foi preparado em 1984, e os seus objectivos serão atingidos quando as missões astronómicas Herschel e Planck se estabelecerem no espaço em 2007. Ao Horizonte 2000 seguiu-se o Horizonte 2000 Plus, em 1994-1995, o qual inclui missões altamente promissoras. O programa Cosmic Vision 20152025 é a continuação lógica para as próximas décadas dos ciclos científicos da ESA. O estudo da nossa magnetosfera, a “bola magnética” que viaja com a nossa Terra e a protege do vento solar emitido pela nossa estrela e do fluxo de raios cósmicos, é outra área sobre a qual a ESA se irá debruçar. A ideia é fazer voar quatro naves espaciais complementares, O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 139 ESA – Uma Agência Espacial permitindo pela primeira vez o estudo sincronizado em três dimensões de partículas e campos da nossa magnetosfera. Na investigação planetária, a missão europeia Mars Express, provavelmente a missão mais barata alguma vez enviada para Marte, tem vindo a produzir valiosa informação científica. Apesar da perda da Beagle-2, a missão vale pela emissão de imagens tridimensionais de alta resolução e pela confirmação da descoberta de água e metano, tal como de pré-requisitos químicos de possível actividade biótica. O lançamento de uma missão semelhante para Vénus, a Vénus Express, que já se encontra em órbita deste planeta, promete resultados igualmente valiosos, independentemente do facto deste planeta já ter sido visitado por dezoito sondas soviéticas e três americanas, desde 1960. Mais próximo do Sol está o planeta Mercúrio, o alvo para um dos principais projectos do Horizonte 2000 Plus: BepiColombo. O nome da missão pretende reconhecer o trabalho do cientista italiano Giuseppe Colombo ao calcular órbita a realizar pela Mariner 10, de maneira que a sonda passasse três vezes nas proximidades de Mercúrio antes de deixar de funcionar. O cientista também desenvolveu o método de gravidade assistida, isto é, aproveitando a posição dos planetas Vénus e Mercúrio, foi possível beneficiar da gravidade de Vénus para acelerar a sonda em direcção a Mercúrio. O sucesso da ESA passa também pela relação de cooperação com a NASA. Por exemplo, o Telescópio Espacial Hubble, ainda hoje operacional, já cumpriu 16 anos de descobertas astronómicas e cosmológicas. Imagem 115: Telescópio Espacial Hubble 140 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial O Sol e a sua heliosfera têm sido explorados pela missão Ulysses e pelo Observatório Solar e Heliosférico (SOHO). A 6 de Outubro de 1990, a sonda Ulysses, uma missão conjunta entre a Europa e a NASA, foi enviada com o objectivo de estudar as regiões polares do Sol e ainda se encontra operacional. Mas talvez o melhor exemplo de sempre de uma missão cooperativa de sucesso entre a ESA e a NASA seja dado pelo Observatório Solar e Heliosférico (SOHO), lançado em 1995, destinado a estudar a corona e a actividade solar desde o espaço, ainda operacional depois de uma década em órbita. Graças ao SOHO, um grande número de mistérios e questões sobre as estruturas interna e externa do nosso Sol têm sido respondidas. Figura 116: Poster da missão SOHO-CLUSTER (© ESA/NASA) Graças aos programas Horizonte 2000 e Horizonte 2000 Plus, ou seja, programas a longo prazo para a ciência, há agora em órbita 15 naves espaciais científicas da ESA, nove das quais estão directamente operacionais pela ESA, e muitos satélites em órbita por outros programas da ESA. 2.2.2. Cosmic Vision 2015-2025 Trinta anos passaram desde que a ESA foi criada e mantém-se a tradição de uma consciência inovadora e perspectivas a longo prazo dão forma ao programa científico da ESA. Os projectos do Horizonte 2000, elaborado há 20 anos atrás, estão quase concluídos, enquanto que o seu sucessor, Horizonte 2000 Plus, aprovado há 10 anos, revela grandes resultados com os seus satélites e telescópios em órbita. Agora a ESA prepara-se para o novo desafio, a Visão Cósmica – Cosmic Vision. A elaboração do novo programa espacial, Cosmic Vision, implica O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 141 ESA – Uma Agência Espacial um grande trabalho de hoje para superar os desafios científicos, intelectuais e tecnológicos de amanhã. O processo de desenvolvimento do novo programa espacial da ESA a longo prazo começa cerca de dez anos antes da sua implementação, de tal forma que em Abril de 2004 começaram a ser aceites ideias a integrar o Cosmic Vision. A comunidade científica respondeu com mais de 150 novas ideias que foram analisadas por grupos consultivos da ESA. As prioridades científicas resultantes foram apresentadas e debatidas numa workshop em Paris, em Setembro de 2004. As conclusões resultaram num novo programa apoiado pelo Comité Consultivo da Ciência Espacial da ESA. Figura 117: Cosmic Vision 2015-2025 O novo programa, Cosmic Vision 2015-2025, endereça quatro questões principais dando prioridade na agenda de investigação europeia no que diz respeito ao Universo e ao nosso local nele: - Quais são as condições para a formação de um planeta e surgimento da vida? - Como funciona o Sistema Solar? - Quais são as leis físicas fundamentais do Universo? - Como é que o Universo surgiu e de que é que é feito? A primeira questão aborda o surgimento da vida não só no nosso Sistema Solar, como também em exo-planetas a orbitar outras estrelas, enquanto que a segunda questão procura compreender o Sistema Solar como um todo, desde o Sol até aos limites da sua influência, tal como os mecanismos de formação dos gigantes gasosos e suas luas e o papel dos pequenos corpos, tal como asteróides, no processo de formação planetária. 142 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial Este documento remete para a apresentação das missões projectadas para dar resposta às duas primeiras questões, nomeadamente à exploração dentro do Sistema Solar. Figura 118: “Como funciona o Sistema Solar?” Daqui a dez ou vinte anos, uma sucessão de novas naves espaciais mais inteligentes terão de estar prontas para voar no programa contínuo de ciência da ESA, agora chamado Cosmic Vision. Estas serão fundamentais na procura de respostas às grandes questões que são colocadas no programa. Um planeamento a longo prazo já foi provado que valia a pena com o Horizonte 2000 (1984) e Horizonte 2000 Plus (1994-1995). Eles capacitam as equipas industriais, tecnológicas e científicas da Europa a enfrentarem com confiança os muitos anos de trabalho duro que leva a conceber e a executar projectos espaciais de qualidade mundial. A exploração dos planetas do Sistema Solar, bem como das suas luas, tal como a procura de vida e material orgânico, podem ser conseguidos com sondas enviadas a Júpiter e Europa, tal como com o envio de veículos de reconhecimento e missões de recolha de amostras a Marte e aos asteróides. Para compreendermos o nosso Sistema Solar são necessárias missões para exploração do plasma no espaço, tal com uma Solar Polar Orbiter, ou então uma Heliopause Probe, cujo objectivo seria estudar a influência solar no meio interestelar. Como é que uma missão é escolhida? A ESA abre periodicamente concurso para novas propostas de missões espaciais. Neste acto define a dimensão, os custos e a quantidade de missões requeridas, bem como os objectivos científicos a atingir. As missões podem ser do tipo “Cornerstones”, que correspondem às grandes missões, e do tipo “Flexi”, que são as missões de menor envergadura. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 143 ESA – Uma Agência Espacial Os vários comités de peritos científicos da ESA incluem o Grupo de Trabalho da Astronomia (AWG), o Grupo de Trabalho do Sistema Solar (SSWG), o Grupo de Trabalho da Física Fundamental (FFWG), o Comité Consultivo da Ciência Espacial (SSAC) e o Comité de Programas da Ciência (SPC). Também, os membros da equipa de funcionários de ESTEC fazem uma análise preliminar da praticabilidade das missões. Desta fase, só três ou quatro candidatos para cada missão passam à fase de avaliação. Um cientista de estudos da ESA e um gerente de estudos são nomeados para analisarem cada projecto e fazerem um estudo de praticabilidade, no prazo de um ano. É nesta fase que é identificada toda a nova tecnologia que será necessário desenvolver. As conclusões destes estudos são apresentadas aos comités científicos e aos outros cientistas da ESA, normalmente em duas reuniões realizadas em sedes da ESA, em Paris. Aqui os comités fazem a escolha das missões que devem prosseguir para a “Fase A”. A “Fase A” envolve parceiros industriais e a apresentação do “esboço” do projecto da nave espacial aos vários comités científicos. Daqui sairá a decisão final relativamente à selecção do projecto para cada uma das missões. Figura 119: Como é que uma missão é escolhida? Este longo processo pode, por vezes, ser encurtado, como no caso da missão Mars Express ou Venus Express, uma vez que foi possível reutilizar equipamento de voo de missões anteriores. 144 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar ESA – Uma Agência Espacial Por outro lado, estes objectivos precisam de uma base financeira para serem atingidos e muitas das fantásticas missões descritas acima foram decididas antes do Nível de Recursos do Programa da Ciência começar a diminuir. Para além do custo das missões, há que considerar as exigências técnicas e o recrutamento de parceiros internacionais para dividir a despesa, o que levou ao cancelamento de algumas missões. O primeiro cancelamento de uma missão científica da ESA aprovada foi o Eddington. Este pretendia seguir o sucesso da SOHO no estudo do interior do Sol através das variações rítmicas do brilho e usar os mesmos métodos sísmicos para outras estrelas. E, se não tivesse sido cancelada, a Eddington teria verificado meio milhão de estrelas para determinar a possível presença de planetas do tamanho da Terra através do seu trânsito em frente às respectivas estrelas. Também foi eliminada a sonda Europe’s Mercury Lander que pretendia voar na BepiColombo. É ainda de referir que a data exacta de quando uma missão poderá ser lançada irá depender do Nível de Financiamento do Programa Científico, mas também, em parte, das colaborações internacionais que possam ser arranjadas. Em qualquer caso, alguma flexibilidade deve ser mantida no programa da ciência espacial para permitir oportunidades imprevistas, ou dificuldades, quer na ciência quer na tecnologia. A prontidão da tecnologia será um factor na selecção e sequência de eventuais missões. A Direcção Científica da ESA irá procurar a colaboração internacional com as agências espaciais não europeias, incluindo a NASA, o que será fundamental na implementação do programa Cosmic Vision. Dentro da Europa, interacções com programas espaciais nacionais, também com Observatório Europeu do Sul (ESO) e a Organização Europeia para a Investigação Nuclear (CERN) serão exploradas. Dentro da própria ESA, uma forte coordenação com o Programa de Observação Terrestre, o Programa de Exploração Aurora e outros programas, será uma mais valia para as actividades científicas e tecnológicas propostas no Cosmic Vision. Acima de tudo, o programa Cosmic Vision 2015-2025 trará muitos benefícios, educacionais, industriais e culturais, pois consiste num ambicioso programa espacial, para o qual muitos cientistas contribuíram com as suas melhores ideias e experiências. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 145 ESA – Uma Agência Espacial 146 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Capítulo 3: O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar “devemos reconhecer que tais combinações de outros átomos, produzem-se noutro lugar do Universo e formam mundos como este ... com raças humanas diferentes e animais distintos” Poeta e filósofo romano Lucrécio, século I a.C. Não há provas concludentes da existência de vida por estas bandas cósmicas. Ainda assim, as sondas espaciais proporcionaram algumas descobertas sugestivas. As imagens enviadas pela sonda da NASA, Mars Global Surveyor, em 2000, mostram sulcos na superfície de Marte, formados por correntes de água, assim como, depósitos de areia e rochas transportadas por elas. Crê-se que estes sulcos se devam a acumulações de águas subterrâneas. Se a vida chegou a existir em Marte estas zonas húmidas representam os primeiros lugares onde deveríamos procurá-la. Talvez exista um mundo aquoso similar debaixo da crosta de gelo que cobre o satélite de Júpiter, Europa. (...) Há ocasiões em que os indícios de vida extraterrestre se encontram mais à mão. Em 1996 procedeu-se ao estudo de um meteorito marciano que caiu na Antártida há 13 000 anos e descobriu-se o que pareciam ser bactérias fossilizadas procedentes da antiga superfície do planeta vermelho. No entanto nem todo o mundo ficou convencido. Análises posteriores efectuadas por outras equipas de cientistas, sugerem que as estruturas tubulares podem deverse a restos de compostos orgânicos depositados na rocha enquanto esteve nas planícies geladas da Antártida. O debate continua. Texto retirado de Astronomia – O Guia Essencial O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 147 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 3.1. Quais as condições para a formação de um planeta e surgimento da vida? Como se formam as estrelas e as galáxias? Quais as condições para a origem da vida? São estas questões que fascinam a Humanidade, mas de todas as interrogações que nos cativam talvez as mais intrigantes sejam: “Será que a vida existe noutros mundos ou estaremos sozinhos no Universo? E, se assim for, em que formas, em que tipo de planetas e a orbitarem que tipo de estrelas?” Para já resta-nos admitir que nunca tivemos qualquer sinal da existência de vida algures, excepto na Terra. As formas de vida noutros planetas não têm necessariamente de ser idênticas às nossas, mas provavelmente serão feitas dos mesmos ingredientes – afinal não existe qualquer semelhança entre a aparência do Homem, do golfinho ou de um insecto. Em 1995, dois astrónomos suíços, Michel Mayor e Didier Queloz, detectaram um planeta a orbitar a estrela 51 Pegasi, a 54 anos-luz de distância. A massa do planeta observado corresponde a pouco mais de metade da massa de Júpiter, logo é claramente um gigante gasoso. Verificou-se ainda que o planeta se encontra muito próximo da estrela e que o seu período é de apenas 4,2 dias. Desde então muitos outros exo-planetas foram descobertos e hoje o seu número já excede os 160. Três planetas, todos gigantes gasosos, foram encontrados a orbitar a estrela Upsilon Andromedae, duas vezes mais luminosa do que o Sol, a 44 anos-luz de distância, embora o planeta mais interno, aproximadamente a 9 milhões de quilómetros da estrela, seja menos massivo do que Júpiter. Desta forma comprovou-se a existência de sistemas de multi-planetas. É agora claro que sistemas planetários são muito comuns na galáxia. Por outro lado, qualquer planeta emite/reflecte uma muito pequena quantidade de energia quando comparado com uma estrela normal, logo é muito difícil conseguir observar directamente um exo-planeta. No entanto, existem outras formas de detectar estes planetas. Técnicas actuais, baseadas principalmente na medição do movimento periódico que uma estrela apresenta se tiver um planeta em órbita, permitem apenas descobrir planetas com bastante mais massa do que a que 148 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar compõe a Terra. Mundos parecidos com a Terra são demasiado pequenos e pouco massivos, estando fora do alcance dos instrumentos ao dispor dos astrofísicos. Mas outras técnicas podem ser usadas. Quando um planeta passa em frente de uma estrela poderá causar uma pequena diminuição no brilho aparente da estrela. Se a missão não tivesse sido cancelada, em 2008, a ESA lançaria o Eddington, um satélite que revolucionaria o estudo e a procura de outros sistemas solares. Este satélite seria equipado com um sensor que permitiria medir a variação no brilho de centenas de milhares de estrelas. Os instrumentos do Eddington seriam de tal forma sensíveis que iriam permitir aos astrofísicos detectar planetas do tamanho de Marte. Deste modo poderíamos descobrir dezenas de “luas” em torno dos exo-planetas, supondo que, à semelhança do que acontece no Sistema Solar, planetas gigantes, tais como os agora descobertos em torno de outras estrelas, possuem também os seus próprios satélites. Nós estamos agora num momento único da história da Humanidade. Pela primeira vez procuramos uma resposta rigorosa e quantitativa a duas questões fundamentais: -Haverá outras formas de vida no Sistema Solar e terão elas uma origem independente daquelas que se desenvolveram na Terra? -Haverá outros planetas, semelhantes à nossa Terra, a orbitar outras estrelas e poderão eles ter vida? Para podermos ser mais específicos enunciamos as seguintes questões: -Quais são as condições para a formação de estrelas e onde é que elas se formam? -Como é que elas se desenvolvem em função do seu ambiente interestelar? -As estrelas que estes planetas orbitam têm características especiais? -Quais são as condições para os planetas se formarem à volta das estrelas? -Quais são os diferentes tipos de planetas a orbitar estrelas? Qual é a sua massa? Há planetas parecidos com os do Sistema Solar? -Que planetas são rodeados por atmosfera? Quais as características dessas atmosferas? -Quais são as condições para a vida (de qualquer forma) surgir nesses planetas? -Para a vida sobreviver e evoluir, quais são as condições ambientais - geológicas, hidrológicas, atmosféricas e climatéricas, e o magnetismo estelar e radiação ambiente necessários? O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 149 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Para podermos compreender a sucessão de fenómenos que levaram ao surgimento e evolução da vida na Terra é fundamental descobrirmos planetas semelhantes à nossa Terra. Desta forma precisamos de conhecer como, onde e quando se formam as estrelas a partir das nuvens de gases e poeiras e como, onde e quando os planetas emergem deste processo. Este é um dos objectivos e desafios científicos mais importantes que a ESA propôs a si própria. No entanto, relativamente a esta questão fico-me pela introdução. Ao longo deste capítulo limitar-me-ei a “explorar” o Sistema Solar e a procurar nele as origens da vida. 3.1.1. A Vida e a Habitabilidade no Sistema Solar A procura da origem da vida no Sistema Solar deve começar com a compreensão do que torna um planeta habitável e como as condições de habitabilidade se alteram com o tempo, ou seja, como mudam com o tempo. Por exemplo, actualmente as condições ambientais na Terra são muito diferentes das existentes na altura em que a vida surgiu neste planeta. O início da Terra, com a sua atmosfera livre de oxigénio, alta radiação ultravioleta, altas temperaturas e águas ácidas não podiam suportar a evolução de formas de vida tão familiares para nós. As condições básicas para o surgimento e evolução da vida, como a conhecemos agora, passam pela existência de água líquida, uma fonte de carbono, uma fonte de energia e uma fonte de nutrientes incluindo nitrogénio (N), fósforo (P), enxofre (S), magnésio (Mg), potássio (K), cálcio (Ca), sódio (Na) e ferro (Fe). Para a vida sobreviver, os nutrientes necessários têm de ser renovados e este processo pode ser feito pelos processos geológicos activos, tais como reciclagem da crosta através de alguma forma de actividade tectónica. Para a vida evoluir, no entanto, as condições ambientais num planeta precisam de evoluir também. Na Terra, o fenómeno da evolução do habitat está relacionado com processos de evolução geológica e da interacção dos processos da vida com o planeta, liderando mais o aparecimento de oxigénio livre e uma camada de ozono protectora na atmosfera. Para compreendermos o aparecimento da vida no planeta Terra precisávamos de conhecer as suas condições iniciais, no entanto, as placas tectónicas eliminaram completamente os 150 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar primeiros 500 milhões de anos de história e alteraram severamente os 500 milhões de anos seguintes. Figura 120: Terra, à esquerda, e Marte, à direita Exploração de Marte Esta falha no nosso conhecimento pode ser preenchida pelo estudo de outros planetas que não desenvolveram placas tectónicas e ainda têm uma imagem das primeiras condições ambientais. Marte é o objectivo ideal. Embora as condições actuais da superfície do planeta não sejam conclusivas acerca da sobrevivência da vida, Marte tem uma história inicial semelhante à do início da Terra, tal como condições que serviram para o surgimento da vida. Uma questão também muito importante é: - Como é que a continuidade da evolução do planeta afectou o meio ambiente habitável e o que é que aconteceu ao planeta Marte para tornar a sua superfície aparentemente inabitável actualmente? Uma missão espacial a Marte pode ajudar a responder às seguintes questões básicas respeitantes à habitabilidade do Sistema Solar: - Durante o período inicial na história dos planetas terrestres, quais eram as condições quando a vida apareceu, pelo menos na Terra? - A evolução geológica em Marte afectou o ambiente habitável? - O que é que aconteceu ao planeta para tornar a sua superfície inabitável actualmente? E finalmente, - Houve, ou ainda há, vida em Marte? O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 151 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Tendo em conta estas questões (e outras que poderão eventualmente surgir), torna-se importante o desenvolvimento de missões espaciais cujos objectivos passem por investigar a estrutura, a geoquímica e a mineralogia das rochas em várias localizações geológicas em Marte. Desta forma os nossos conhecimentos acerca das origens e história geológica do planeta vermelho podem aumentar consideravelmente. Mars Express A Mars Express encontra-se a mapear a superfície marciana e a monitorizar o seu sistema climático, com novos instrumentos que tem providenciado grandes descobertas, revelando recente vulcanismo, glaciares, reservatórios de gelo de água e permitindo também a identificação de minerais que se evaporam e que se formaram na presença de água líquida. Além disso, foram detectados traços de metano na atmosfera. Novas características de Marte estão a ser reveladas, através das imagens a 3D com elevada resolução, providenciadas pela câmara High Resolution Stereo Camera (HRSC) e também a determinação da composição mineral através do estudo da luz visível e infravermelha reflectida na superfície do planeta, com o espectómetro OMEGA Visible and Infrared Mineralogical Mapping Spectrometer. Por outro lado, é fundamental a recolha de dados que nos permitam obter informação sobre os mecanismos que controlaram a evolução do ambiente marciano e a história da água em Marte. É essencial que perguntas como, por exemplo, se as rochas se terão formado num ambiente de água líquida, possam ser respondidas. Para que estes objectivos sejam atingidos é fundamental que a missão espacial se faça acompanhar de um mini-laboratório integrado que levará a cabo ensaios in situ e também procurará encontrar evidências da extinção da vida neste planeta. Há ainda que considerar a necessidade de equipar a missão com um instrumento de perfuração e recolha de amostras, para que investigações geofísicas da profundidade e da 152 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar estrutura da crosta do planeta sejam feitas. Estes dados são necessários para compreender o seu estado presente e a sua actividade. Investigar em condições específicas, nomeadamente em terreno duro e alto e à sub-superfície, será essencial para identificar muitos ambientes geológicos diferentes. Há também que efectuar medidas das condições climáticas para traçar a evolução e as condições do habitat em tempos remotos. Figura 121: Meteorito ALH84001 Conclui-se que os objectivos enunciados pedem uma missão equipada com módulos de reconhecimento, o que implica o desenvolvimento de novas tecnologias para estes aparelhos. A sonda orbital será usada para transmitir as informações para a Terra e permitir, à distância, melhorar o nosso conhecimento acerca do planeta, da sua atmosfera, do clima e do seu ambiente magnético-plasma. A monitorização do ambiente é necessária para compreender a condição actual do sistema e também para preparar as missões futuras. Finalmente, um objectivo de grande prioridade, que deverá ser conseguido entre 2015 e 2025, é o projecto Mars Sample Return – missão de retorno de amostras de Marte - que consiste na recolha de amostras de locais seleccionados em Marte, já estudados por outros módulos de reconhecimento. Enquanto medidas in situ em localizações múltiplas vão providenciar informação valorizável, há algumas investigações que exigem análises em laboratórios terrestres, incluindo medidas isotópicas, identificação microfóssil e datação. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 153 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Mars Sample Return, incluída no Programa Aurora O Programa Aurora O Programa Aurora resulta da estratégia da Europa para alargamento dos seus horizontes no estudo do espaço. Este ambicioso programa foi concebido pela União Europeia e pela ESA, em 2001. Os objectivos do Programa Aurora remetem para a exploração do Sistema Solar, para o desenvolvimento da indústria tecnológica e, essencialmente, para uma maior motivação da Europa na procura de resposta às grandes questões da Humanidade: “Quem somos?”; “De onde Figura 122: Visão artística do Programa Aurora vimos?”; “Para onde vamos?”. O Programa Aurora é um desafio que visa criar e executar um programa espacial europeu, a longo prazo, de exploração robótica e humana no Sistema Solar. Os alvos principais deste programa serão Marte, a Lua e os asteróides. Por outro lado, o Programa Aurora também tem por objectivo a procura de vida noutros planetas. As missões futuras estarão equipadas com sofisticados instrumentos capazes de investigar a existência de vida em outros planetas do Sistema Solar. Figura 123: Programa de Exploração Aurora 154 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar A ambição da descoberta, da exploração de novos mundos favorece a criação de tecnologia capaz de promover essa mesma exploração. É um ciclo virtuoso! Aquando da elaboração do Programa Aurora, a ESA abriu concurso a novas propostas de projectos de exploração espacial. Em 2001, as comunidades científica e industrial responderam com mais de 300 novas ideias. Em 2002, a necessidade de projectos tecnológicos de implementação dos programas de exploração espacial, levou a ESA a abrir novo concurso. Todas as propostas foram apresentadas com um estudo da praticabilidade da missão, do tempo necessário para o desenvolvimento da tecnologia e dos custos envolvidos. Entre os projectos recebidos está uma missão a Plutão, fazendo escala na Lua, onde a Terra construirá uma base de lançamento. Por altura de 2025 também se prevê uma missão humana internacional a Marte. Também neste caso a Lua será ponto de passagem antes da longa viagem para Marte. Figura 124: Visão artística da base lunar Aurora Nos 20 anos que se seguem, as missões não tripuladas serão fundamentais na preparação das missões humanas, colectando tanta informação quanto possível de forma a percebermos quais as condições necessárias, ou seja, novas tecnologias, para colocar cientistas in situ e voltar a trazê-los ao planeta Terra, em segurança. As novas tecnologias serão igualmente fundamentais na procura de vida em Marte, ou noutros planetas, ou luas. Estas missões transportarão instrumentos, tipo mini-laboratórios de exobiológia, e através das análises feitas in situ, poderão ser capazes de responder às grandes questões: “Existe, ou alguma vez existiu, vida em algum dos corpos do Sistema Solar, à excepção da Terra?”. À semelhança do que já vem a ser feito por outras missões, destas espera-se também o retorno de amostras, a fim de serem estudadas em laboratórios na Terra. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 155 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Por outro lado, uma missão tripulada a Marte envolve quer a adaptação da tecnologia desenvolvida, quer a inovação tecnológica, pois numa missão deste género há que considerar novas necessidades adaptadas à presença humana. Em primeira instância há que criar sistemas capazes de suportar a vida e permitir aos astronautas viver em ambientes tão hostis como o espaço. Por outro lado, também serão necessários sistemas de propulsão que permitam encurtar o tempo de viagem, assim como sistemas de navegação de precisão e aterragem, entre outros. Embora o Aurora seja um programa da ESA e promova a indústria europeia, muitas missões envolverão a cooperação internacional. Por exemplo, o Canadá, que tem um acordo de cooperação com a ESA, já se encontra a participar no programa Aurora. O Programa de Exploração Aurora é um programa multi-disciplinar, uma vez que envolve uma grande variedade de campos da ciência, da tecnologia e do espaço, e também um dos maiores desafios da Europa, onde se encontram a trabalhar grandes mentes da actualidade. Porquê Marte? A recente descoberta de água em Marte poucos metros. A experiência conseguida levantou a polémica acerca da provável com as estadias de alguns astronautas nas existência de vida, talvez extinta, em estações espaciais, ou até em treinos Marte. Por outro lado, apesar de Marte ser levados a cabo na Terra, serão de extrema o segundo planeta mais próximo da Terra, importância no estudo da forma de superar ainda se encontra à distância de meia tais obstáculos. unidade astronómica, o que implica uma viagem de longa duração, com todas as implicações que isso possa trazer. Nunca o Homem se aventurou numa missão espacial tripulada a tão grandes distâncias, pois a Lua encontra-se a uns meros 400 000 quilómetros. Com a tecnologia actual, uma viagem a Marte, de ida e volta, levaria cerca de dois anos. Por outro lado, há que ter em conta o stress e a pressão Figura 125: Há água em Marte! psicológica da tripulação, ao viver, por longos períodos de tempo, confinados a 156 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Embora o objectivo final seja uma missão humana a Marte, antes que tal seja posto em prática, muito trabalho de exploração e recolha de dados terá de ser feito. Um veículo de retorno também terá de ser testado e várias missões suficientemente sofisticadas terão de mostrar provas de que estão capacitadas para sustentar vida humana e de que a sua tecnologia está apta a apoiar o trabalho de exploração humana. ExoMars A ExoMars será a primeira missão do Programa Aurora, cujo objectivo é caracterizar o ambiente biológico de Marte. Os dados recolhidos fornecerão uma base mais alargada de conhecimentos de exo-biologia, os quais nos permitirão avançar na procura de vida noutros planetas. Esta missão tem também em vista a preparação para missões robóticas e humanas futuras. Figura 126: Visão artística da sonda orbital ExoMars No que respeita à tecnologia, a ExoMars irá envolver uma sonda orbital em torno de Marte, um módulo de descida e um veículo de reconhecimento de Marte. Este será incorporado no módulo de descida, o qual será transportado pela sonda orbital até Marte. Na aterragem será usado um sistema de travagem insuflável e um sistema de pára-quedas. Ambos os sistemas são suficientemente robustos para sobreviver à entrada na atmosfera e permitir a exactidão no processo de aterragem. Depois o módulo de descida abandonará o veículo de reconhecimento à superfície do planeta vermelho. As informações serão então transmitidas para a sonda orbital, que se manterá em órbita do planeta, e deste para a Terra. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 157 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Figura 127: Visão artística do módulo de descida da ExoMars A vida do veículo de reconhecimento em Marte será alimentada pela energia solar captada através de painéis solares. Este aparelho viajará pela superfície de Marte transportando consigo um mini-laboratório de exo-biologia, de aproximadamente 40 quilogramas, um sistema relativamente leve de perfuração da superfície e um conjunto de instrumentos científicos capazes de detectar sinais de vida. Figura 128: Visão artística do ExoMars rover a perfurar a superfície de Marte Os objectivos da missão ExoMars trarão consigo um grande desenvolvimento tecnológico empreendido pela indústria espacial europeia, mas também pela indústria dos países membros da parceria, nomeadamente o Canadá. A fim de ser bem sucedida, a ExoMars requererá um grande desenvolvimento dos sistemas de aterragem e de travagem insuflável, navegação, autonomia, de fonte de energia e dos veículos de reconhecimento. 158 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Mars Sample Return – Missão de retorno de amostras de Marte A missão Mars Sample Return consiste num projecto cujo principal objectivo recai sobre a recolha de amostras da superfície marciana, fazendo-as depois chegar à Terra para poderem ser analisadas em laboratórios especializados e devidamente equipados com instrumentos de análise criteriosa. As amostras serão transportadas em condições de isolamento extremo a fim de se evitar a contaminação. A Mars Sample Return é uma missão muito ambiciosa, pois implica o desenvolvimento de muita e alta tecnologia. Para esta missão são necessários uma nave de transferência Terra/Marte, uma sonda orbital de Marte, um módulo de descida, um módulo de ascensão e um veículo de reentrada na atmosfera terrestre. Quando a sonda orbital se encontrar em órbita de Marte e a “baixa” altitude, o módulo de descida à superfície do planeta atracará e a plataforma de aterragem servirá como colector de amostras e também como veículo de ascensão, o qual permitirá o regresso à Terra. Depois das amostras recolhidas e guardadas no veículo de ascensão, este abandonará o planeta e partirá ao encontro da nave de reentrada na atmosfera terrestre. Figura 129: Visão artística do Mars Sample Return Orbiter À semelhança da ExoMars, para esta missão também deverá ser desenvolvido um dispositivo de travagem insuflável para ser usado na descida à superfície de Marte. Para a reentrada na atmosfera da Terra serão necessários um sistema de pára-quedas e um sistema insuflável. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 159 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Figura 130: Visão artística da entrada, descida e aterragem na superfície de Marte da missão Mars Sample Return O desenvolvimento e o projecto final da missão estão dependentes de alguns factores muito importantes. Em primeira instância é necessário um conhecimento mais aprofundado das características geológicas e ambientais de Marte para que se possa decidir acerca do melhor sítio para a aterragem da nave. Em segundo lugar, será necessário desenvolver uma broca para perfurar o solo marciano a fim de se recolherem amostras a alguma profundidade. Ao contrário da atmosfera da Terra, a atmosfera de Marte não filtra a radiação, pois é muito pouco densa. Assim a camada superficial de Marte deverá ser completamente estéril e daí a necessidade de recolhermos as amostras a alguma profundidade. Por outro lado, relativamente à protecção das amostras há que considerar que não só devemos pensar em evitar a contaminação das amostras de Marte por organismos da Terra, mas também é necessário evitar a contaminação da Terra por possíveis organismos de Marte. 160 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Objectivos do Programa Aurora Figura 131: Os primeiros passos à Lua, a Marte e além deles As missões que acabei de descrever, ExoMars e Mars Sample Return, constituem os pilares do Programa Aurora, na medida que através delas se irão procurar atingir os objectivos do Aurora. Com estas missões terá também início o desenvolvimento tecnológico específico inerente a este programa, tal como a preparação científica. O Programa Aurora desenvolver-se-á, a longo prazo, em duas fases principais. A primeira fase decorrerá entre 2005 e 2015 e consistirá no desenvolvimento de conhecimentos e tecnologia para a implementação de uma missão humana à Lua e a Marte, ou seja, esta primeira fase determinará a viabilidade de se prosseguir com tais missões. A primeira fase será seguida por uma segunda fase a ocorrer entre 2015 e 2030, onde a verificação e implementação dos esforços europeus, tal como a colaboração internacional, serão desejados. Os objectivos principais do Programa Aurora são duas missões com retorno de amostras a Marte, a realizar entre 2011 e 2017, a decisão de avançar com uma missão humana a Marte, a tomar em 2015, uma missão robótica a Marte e uma missão humana à Lua, a implementar entre 2020 e 2025, e, por último, uma missão humana a Marte, entre 2025 e 2030. Estas missões foram seleccionadas pelo Comité Consultivo do Programa de Exploração (EPAC) entre um elevado número de propostas recebidas de toda a Europa e Canadá, em 2001. O EPAC é constituído por conselheiros científicos e técnicos independentes do Director-Geral da ESA. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 161 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Exploração do Satélite Europa A procura das origens da vida no Sistema Solar não se resume apenas ao planeta Marte. Por outro lado, a lua de Júpiter, Europa, revelou, devido às suas características, a probabilidade da existência de vida num possível oceano de água líquida existente por baixo de uma grande camada de gelo. Aquando da visita da missão Galileu, os resultados conseguidos foram de tal forma surpreendentes, que levaram a NASA a decidir pelo prolongamento da missão Galileu por um período de mais dois anos com vista a um melhor e maior mapeamento da superfície de Europa. As imagens de Europa revelam-se muito semelhantes a superfícies geladas do nosso planeta e mostraram uma superfície lisa que não apresenta desníveis para além de algumas centenas de metros, coberta de gelo de água. As crateras são quase inexistentes e apenas três têm mais de 5 quilómetros de diâmetro. As fotografias mostram objectos que parecem enormes icebergs. Para além disto também se podem ver fracturas na superfície do gelo muito semelhantes às que se observam no degelo da Antártida com a chegada da Primavera. Pelos motivos apresentados, Europa é uma grande prioridade na procura de vida no Sistema Solar. Figura 132: Ampliação da imagem de Europa onde se observam as fracturas na superfície de gelo É importante determinar a estrutura interna de Europa e especialmente as suas fontes internas de calor, embora se pense que a fonte de calor que mantém o oceano no estado líquido está associada à interacção gravitacional com Júpiter, Io e Ganimedes. 162 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar As análises da composição do oceano e da crosta gelada são de uma grande importância para podermos determinar o tipo de nutrientes presentes. O plasma e a radiação à volta de Júpiter, tal como a sua interacção com Europa irão também providenciar informação importante acerca da sobrevivência de qualquer forma de vida ao longo da história desta lua. Estes objectivos da ciência poderão ser conseguidos por um Europa orbiter and/or lander. Apesar de muito desejado, uma nave europeia poderá não ser tecnologicamente possível entre 2015-2025. Figura 133: Visão artística da missão Europa orbiter and/or lander Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Europa orbiter and/or lander , incluída no Programa de Exploração de Júpiter O Sistema Joviano é frequentemente comparado a um mini-sistema solar. Júpiter é o maior planeta do Sistema Solar, um gigante gasoso que “aspirou” a estrela. Na realidade, Júpiter é mais parecido com o Sol do que com a Terra, pois é essencialmente formado por hidrogénio, constituindo cerca de 75% da sua massa, e hélio, na proporção de cerca de 25%, podendo ainda encontrar-se metano, água, amónia e outros compostos de elementos mais pesados. Se Júpiter tivesse algumas vezes mais massa do que a que tem seria eventualmente uma estrela. A título de comparação, a massa deste planeta é 318 vezes maior do que a da Terra e constitui 1/1050 da massa do Sol. Em torno de Júpiter orbitam 63 satélites conhecidos, sendo quatro O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 163 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar deles conhecidos por galileanos, pois foram pela primeira vez observados por Galileu Galilei, em 1610. Io, Europa, Ganimedes e Calisto são os satélites galileanos e também os maiores de Júpiter. Figura 134: Sistema Joviano O Sistema Joviano é um dos alvos principais do programa espacial “Cosmic Vision 20152025” e a sua lua Europa, pelos motivos já apresentados, que se prendem com probabilidade da existência de vida num possível oceano de água líquida existente por baixo de uma grande camada de gelo que cobre a superfície desta lua. Figura 135: Visão global de Europa 164 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Figura 136: Esquema da NASA, Agosto de 2000 Uma missão a este satélite teria o objectivo primordial de perfurar a camada superficial de gelo, e “mergulhar” no gelado oceano de Europa. Um robot exploraria este oceano tanto quanto possível na expectativa de encontrar indícios de vida. O robot consistiria num sistema móvel que pode ser utilizado no contexto da exploração planetária. Estes robots movimentarse-iam dentro de água. Na Terra encontram-se vários exemplos da utilização destes veículos, nomeadamente em trabalhos aquáticos de engenharia, na exploração e fins militares. Na exploração do Sistema Solar, o uso de um robot deste tipo só foi, até hoje, solicitado para uma missão a Europa. Neste caso, o ideal, seria um aparelho que fosse capaz de perfurar a camada O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 165 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar de gelo que cobre a superfície de Europa, que se pensa ter alguns quilómetros de espessura, e ao mesmo tempo ser capaz de se deslocar nas águas do oceano submerso. Figura 137: Visão artística do Europa Lander Figura 138: Visão artística do Submarine Rover O Grupo de Automatização e Robótica da ESA é responsável pela criação e manutenção da base da indústria tecnológica para a automatização e controlo remoto das operações espaciais. No entanto, no que concerne ao robot necessário à missão Europa Orbiter and/or Landers, o Grupo de Automatização e Robótica da ESA ainda não revelou qualquer esforço no desenvolvimento deste tipo de robots. Por outro lado, a forte radiação a que Europa está sujeita, implica o desenvolvimento de tecnologia de modo a que a nave seja suficientemente robusta. Desta forma, é provável que uma nave europeia possa não estar tecnologicamente pronta a tempo de voar entre 2015-2025. A missão Europa Orbiter and/or Landers é uma missão muito ambiciosa e, por esse motivo, é importante referir o impacto científico que poderá advir desta investigação. Muitos são os objectivos que se prendem com a missão Europa Orbiter and/or Landers, entre eles: 166 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar • Estudo das características da água líquida em Europa e da potencial actividade biológica; • Caracterização de Europa como objecto planetário, tal como Calisto e Ganimedes, em termos da sua estrutura e evolução interna, fontes de energia, oceano interior e estado da superfície. A missão Europa Orbiter and/or Landers, quando for empreendida, seguirá o sucesso conseguido pela Cassini-Huygens. A exploração de Europa e a possibilidade da existência de vida num astro tão afastado do Sol é um estudo interessante. No tema 3.2., “Como funciona o Sistema Solar?”, voltarei a referir esta missão no âmbito do Programa de Exploração de Júpiter, onde abordarei novos objectivos previstos para a missão a Europa. Exploração das zonas polares do Sol Por outro lado, o facto do satélite natural Europa estar continuamente sujeito a uma forte radiação torna a vida praticamente impossível à sua superfície. Mas daqui também resulta um importante aspecto a ser estudado: a interacção entre o Sol e o seu sistema planetário. No que concerne à relação entre o Sol e a Terra, pode-se dizer que a habitabilidade neste planeta é mantida pelo Sol que ilumina o planeta constantemente. Também o vento solar, que se expande desde a corona solar através da heliosfera, arrastando consigo turbulentos campos magnéticos, protege a Terra reduzindo o fluxo de raios cósmicos. Assim, para caracterizar completamente as condições necessárias para a sobrevivência e evolução da vida, nós devemos compreender o sistema magnético solar, a sua variabilidade, as erupções solares e as interacções entre a heliosfera, as magnetosferas e atmosferas dos planetas. O nosso conhecimento acerca da estrutura do campo magnético do Sol poderá ser conseguido com a missão Solar Polar Orbiter, especialmente se for efectuada a observação por cima dos pólos, pois são zonas dificilmente observadas a partir da Terra. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 167 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Figura 139: Solar Polar Orbiter 3.2. Como funciona o Sistema Solar? A procura das origens da vida deve começar no nosso próprio Sistema Solar. Compreender o comportamento do Sol, como é que os planetas se conseguem proteger do campo magnético e plasma solares, porque é que os planetas do Sistema Solar são tão diferentes uns dos outros e como é que os pequenos corpos, tais como cometas e asteróides, nos irão revelar as nossas origens, são alguns dos pontos sobre os quais assentam as questões propostas nestes tema. As circunstâncias que tornam um planeta habitável são desconhecidas, mas devem depender da actividade magnética da estrela vizinha, do comportamento do ambiente espacial em torno dos planetas, do material que os planetas inicialmente agregaram, e mais ainda. A exploração do Sistema Solar também acompanha muitas outras questões científicas de fundamental importância, para além das origens da vida: • Porque é que o Sol e as outras estrelas geram campos magnéticos? • Porque é que estes campos resultam de uma corona a elevada temperatura e do vento solar (ou estelar)? • Como é que as atmosferas planetárias e magnetosferas respondem à interacção com o vento solar? 168 • Porque é que os planetas e as luas têm tanta variedade de atmosferas e superfícies? • O que determina a presença de água nos planetas, agora ou no passado? O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar • De que é que são feitos os cometas e asteróides e o que a sua constituição nos diz sobre as origens do Sistema Solar? Os cientistas europeus e a ESA têm tido um papel determinante na exploração do nosso Sistema Solar nos últimos 40 anos, considerando estas e outras questões. 3.2.1. Do Sol ao Limite do Sistema Solar Exploração do Sol e da Heliosfera O Sol é “dono e senhor” do Sistema Solar. O nosso astro, através da sua radiação providencia meios para sustentar a vida, pelo menos no nosso planeta, mas as manifestações da actividade solar, que se devem ao campo magnético solar, contínuas e ocasionalmente violentas oferecem meios para destruir essa mesma vida. São, por isso, importantes áreas a estudar, o campo magnético do Sol e a interacção do vento solar com os ambientes planetários. Figura 140: Actividade Solar - os filamentos escuros são proeminências O campo magnético variável do Sol é directamente responsável pela alteração na emissão de radiação solar ultravioleta e raios-X e está também relacionado com os ciclos solares e possível influência nas variações climáticas. É responsável pela actividade solar, que ejecta o plasma no espaço e que é depois transportado pelo vento solar, levando-o a interagir com os ambientes planetários. O campo magnético solar está continuamente a ser gerado e a destruirse em intervalos de tempo que vão desde as fracções de segundo até décadas e os seus efeitos O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 169 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar preenchem a heliosfera, um espaço cujo volume se estende até pelo menos 10 mil milhões de quilómetros do Sol. Figura 141: Diagrama da Heliosfera no Sistema Solar O campo magnético solar foi descoberto em 1952, no entanto ainda não existe um modelo satisfatório que explique a estrutura global do campo magnético na superfície visível do Sol e a sua determinação irá exigir observações de ambos os pólos. Pensa-se que a origem do campo magnético solar está relacionada com um processo de dínamo que ocorre na região de convecção. Para compreender a sua origem, há modelos que permitem mapear o campo magnético tridimensional do Sol a partir das observações da fotosfera, especialmente nos pólos, e imaginar a estrutura da subsuperfície através da heliosismologia local e global. Desta forma, podemos obter uma imagem de como o campo é transportado imediatamente abaixo da superfície. É assim fundamental o desenvolvimento de uma missão Solar Polar Orbiter. O campo magnético da corona solar provoca a emissões de raios-X e ultravioletas a partir da corona. No entanto, técnicas importantes para medir aquele campo só agora estão a ser desenvolvidas. No presente, algumas dessas técnicas estão a ser pioneiras usando instrumentação colocada no solo. No entanto, a realização de tais observações a partir do espaço é provável que venha a ser fundamental devido aos comprimentos de onda que não atravessam a atmosfera terrestre, principalmente no domínio do ultravioleta. 170 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Figura 142: Raios-X do Sol O Sol e a heliosfera têm sido explorados pelas missões Ulysses e Observatório Heliosférico e Solar (SOHO). Ulysses Ulysses produziu a primeira caracterização tridimensional do Sol através do seu voo pioneiro aos pólos solares, demonstrando diferenças muito significativas entre o mínimo e o máximo do ciclo de actividade, assim como revelando grandes lacunas na nossa compreensão de como ao campos magnéticos e as partículas preenchem a heliosfera. Figura 143: Sonda Ulysses SOHO A SOHO tem usado técnicas pioneiras no estudo da superfície solar, através da heliosismologia, revelando uma complexa série de movimentações que transportam energia e campo magnético através da zona de convecção solar. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 171 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Os instrumentos de observação da corona a bordo da SOHO têm revelado uma nova corona solar, dinâmica e multitermal que tem forçado os cientistas a repensar as suas ideias de como a corona é aquecida. Finalmente, a SOHO tem demonstrado que a ligação entre as erupções solares massivas e as perturbações no ambiente espacial da Terra, são dominadas pelas ejecções de massa a partir da corona. Figura 144: Módulo Payload da SOHO, constituído por 12 instrumentos No futuro, a missão Polar Solar Orbiter da ESA irá examinar o Sol de pontos únicos no que concerne a dois aspectos: a cerca de 1/5 de distância Sol-Terra, e muito próximo dos pólos solares, como já foi referido. Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Solar Polar Orbiter O Sol e a sua heliosfera têm sido explorados pelas missões Ulysses e pelo Observatório Solar e Heliosférico (SOHO). A 6 de Outubro de 1990, a sonda Ulysses, uma missão conjunta entre a Europa e os Estado Unidos, foi enviada com o objectivo de estudar as regiões polares do Sol. Ulysses sobrevoa os pólos do Sol a cada cinco anos para observar a nossa estrela sobre direcções inacessíveis a partir da Terra. O Observatório Solar e Heliosférico (SOHO), lançado 172 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar em 1995, também um projecto europeu e norte-americano, foi destinado a estudar a corona e a actividade solar desde o espaço. Estas missões já fizeram muitas descobertas surpreendentes sobre o Sol e de como as suas erupções afectam a vida na Terra. Em 1998, dum encontro de cientistas europeus, ocorrido em Tenerife, saiu um relatório que traçaria o caminho da astronomia solar europeia para os próximos anos. Uma das ideias contidas neste relatório previa a realização de uma missão capaz de revelar imagens do Sol em todo o espectro electromagnético. A tecnologia necessária seria parecida à usada na missão SOHO, mas a trajectória a efectuar pelo aparelho seria semelhante à prevista para a sonda Ulysses, ou seja, fora do plano da eclíptica. Uma segunda ideia passava por aproximar a sonda a uma distância de cerca de metade da distância de Mercúrio ao Sol, ou seja, aproximadamente 0,15 unidades astronómicas, e obter imagens de elevada resolução. Em 1999, o resultado de um estudo combinava estas duas ideias numa só missão, a qual se aproximaria do Sol a uma distância mínima de 45 raios solares, uma vez que a esta distância os painéis solares atingiriam o limite máximo de calor que seriam capazes de suportar. A orbitar a 45 raios solares, a sonda não conseguiria uma órbita co-rotatória, mas muito perto disso. Por outro lado, foi definido que a missão iria usar a propulsão por energia solar, a vela solar. Figura 145: Tecnologia requerida para o desenvolvimento do Solar Polar Orbiter baseado no sistema de propulsão da vela solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 173 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar A missão Solar Polar Orbiter será controlada e financiada pela ESA, mas com uma forte colaboração internacional, nomeadamente da NASA. A missão Solar Polar Orbiter será a primeira sonda a revelar as características das regiões polares do Sol, a uma distância de apenas 45 raios solares, ou 0,21 unidades astronómicas. Os objectivos científicos da Solar Polar Orbiter são: • Observar a extensão global e a dinâmica dos efeitos das ejecções de massa a partir da corona solar; • Identificar as fontes, a estrutura longitudinal, a curva rotacional e a variabilidade no tempo das características coronais; • Estabelecer relação entre as observações das partículas e do campo magnético e as imagens do Sol, da corona solar e da heliosfera, ao longo de todas as latitudes; • Determinar as estruturas magnéticas e os padrões de convecção nas regiões polares; • Seguir a evolução das estruturas solares durante uma rotação solar completa. A Solar Polar Orbiter consiste numa única nave espacial, lançada a partir de um Soyuz Fregat 2B, em Kourou. Figura 146: Foguetão Soyuz na plataforma de lançamento A nave espacial utilizará uma vela solar para aproximar a sua órbita em torno do Sol a menos de 0,5 unidades astronómicas deste, antes de aumentar a sua inclinação. A nave aproveitará a gravidade de Vénus para se impulsionar para uma órbita mais inclinada, o que lhe permitirá visualizar claramente as zonas polares do Sol, o que constitui um dos objectivos principais da missão. Após quatro anos aproximadamente, os instrumentos do Solar Polar Orbiter poderão efectuar observações do Sol de um ângulo de 83 graus relativamente à eclíptica. Nesse 174 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar momento ocorrerá a separação da vela solar a fim de se poderem executar as medições científicas para que foi destinada. Figura 147: Trajectória do Solar Polar Orbiter A sonda orbital solar irá enfrentar a radiação solar a um quinto da distância Terra-Sol, onde a luz solar é 25 vezes mais intensa do que na Terra. A nave espacial terá também de resistir às enormes erupções solares e consequente elevação da quantidade de partículas carregadas projectadas a partir da atmosfera solar. A tecnologia a desenvolver para a Solar Polar Orbiter terá como ponto de referência a missão BepiColombo a Mercúrio. Mercúrio é o planeta mais próximo do Sol e, como tal, a sonda foi projectada com vista a suportar as elevadas temperaturas que se fazem sentir na vizinhança de Mercúrio. Assim, todo o equipamento e instrumentos serão construídos para resistir ao calor. Será implementado o sistema de propulsão usando a energia solar, a vela solar. Superados os desafios tecnológicos inerentes a esta missão, os resultados obtidos poderão ser surpreendentes. Esperam-se imagens com quase dez vezes maior resolução do que a melhor imagem conseguida até hoje. A sonda orbital solar terá uma massa total de 1600 quilogramas na altura do lançamento. Dois conjuntos de instrumentos constituirão, de grosso modo, a nossa nave. Um conjunto será formado por detectores para estudar partículas e acontecimentos nas vizinhanças da sonda. O seu objectivo consiste essencialmente em detectar partículas electricamente carregadas e campos magnéticos associados ao vento solar, entre outros. O segundo conjunto de instrumentos observará a superfície do Sol do ponto de vista da sonda solar. O gás atmosférico é facilmente observado devido à forte emissão de radiação ultravioleta de baixo O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 175 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar comprimento de onda. A atmosfera superior do Sol será revelada pelos coronografos de ultravioleta e luz visível. A observação no visível da superfície e a medição de campos magnéticos locais será feita usando um telescópio e um magnetómetro de alta resolução. Um radiómetro medirá a variação energética emitida pelo Sol. Como já referi, o conceito de Solar Polar Orbiter emprega uma vela solar quadrada com uma área total de aproximadamente 25 000 m2. A vela solar constitui um processo de propulsão da nave espacial usando grandes espelhos de membrana e funciona devido à pressão da radiação e não precisa de combustível. A pressão da radiação exercida na vela solar é pequena e diminui com o quadrado da distância, mas, enquanto a vela estiver desdobrada, é constante. Figura 148: Vela Solar Figura 149: Vela Solar Como funciona uma vela solar? A nave espacial desdobra um grande espelho de membrana que reflecte a luz solar. A pressão exercida pela radiação no espelho, ou seja, na vela, permite alterar a sua inclinação e a sua distância. A vela orbita, logo não precisa de pairar, de se aproximar ou afastar do Sol. O seu sistema de membrana permite-lhe alterar a sua órbita. Quase todas as missões poderiam utilizar uma vela solar para alterar as suas órbitas, em vez de se aproximarem ou afastarem do 176 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar astro em questão. A máxima eficiência da vela solar é conseguida quando ela é projectada para orbitar próxima do Sol, onde a elevada intensidade da radiação solar aumenta a pressão exercida no aparelho. Por esta razão, a maioria das velas são projectadas para suportarem altas temperaturas. Uma aproximação ao Sol pode ter diferentes objectivos, entre eles a exploração dos pólos solares a curta distância, o qual constitui o objectivo da missão Solar Polar Orbiter. Tabela 14: Características da vela solar Características do Sail Aceleração mm/s2 0,42 Lado da frente da vela solar (m) ~150 Carregamento do conjunto da vela solar (g/m2) 8 Espessura da vela solar 2 mícrons O material da vela tem de ser leve e desenvolvido com as propriedades ópticas que o sistema requer. Estas propriedades deverão ser preservadas ao longo da fase de vela, ou seja, enquanto esta se mantiver desdobrada. Figura 150: Movimento orbital em torno do Sol induzido pela acção do fluxo solar na vela Exploração da Magnetosfera Terrestre A expansão da atmosfera solar preenche a heliosfera com o plasma e o campo magnético que são colectivamente conhecidos como vento solar. Alguns planetas (Mercúrio, Terra e os gigantes gasosos) têm campos magnéticos que providenciam campos protectores parciais. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 177 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Marte tem uma fina atmosfera e um campo magnético muito fraco, enquanto Vénus tem uma atmosfera densa e não tem campo magnético. Com tantos planetas diferentes, o Sistema Solar providencia uma grande variedade de laboratórios para estudar as possíveis interacções dos exo-planetas com as suas respectivas estrelas. Figura 151: A interacção do vento solar com a magnetosfera terrestre dá forma ao ambiente de plasma no espaço próximo da Terra Enquanto que as magnetosferas planetárias ocupam vastas regiões do espaço (acima de 10 milhões de quilómetros no caso de Júpiter), a interacção entre os campos magnéticos do planeta e do Sol ocorre numa escala entre poucos quilómetros e alguns raios planetários. Assim sendo, as medidas não têm sido feitas nas pequenas escalas exigidas, mesmo na magnetosfera da Terra. Para compreender os processos genéricos da física do plasma, é necessário mudar da Cluster, que tem quatro satélites a operar em conjunto a distâncias relativamente grandes, para um número muito maior de observações simultâneas. A possibilidade de usar uma frota de satélites na missão Earth Magnetospheric Swarm seria uma mais valia e também um projecto muito interessante a desenvolver na escala de tempo do Cosmic Vision 2015-2025. O ambiente espacial da Terra foi explorado pela HEOS-1 e HEOS-2 em tempos da Organização da Investigação Espacial Europeia, anterior à ESA, e mais recentemente pelas pioneiras e inovadoras quatro nave espaciais da missão Cluster. Pela primeira vez, na magnetosfera da Terra, tem sido possível obter medidas precisas do movimento dos plasmas lá encontrados, assim como da forma das fronteiras que se estendem entre os campos magnéticos terrestre e solar. É agora claro que o Sol e o vento solar exercem 178 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar uma enorme influência sobre a magnetosfera terrestre. Cluster, juntamente com a missão Double Star, levada a cabo em colaboração com a Agência Espacial Chinesa, têm também revelado pela primeira vez novos dados sobre esta interacção. Cluster A missão Cluster consiste num conjunto de quatro naves espaciais postas a orbitar em torno da Terra. Cada nave espacial carrega um conjunto de 11 instrumentos para investigar as partículas eléctricas do vento solar e os campos magnéticos. Este programa tem providenciado valiosa informação, a três dimensões, acerca do vento solar e da forma como este afecta o nosso planeta. As quatro naves Cluster passaram vários anos a sair e entrar no campo magnético terrestre, de forma de estudarem, a pormenor, a interacção entre campos magnéticos terrestres e solares. Figura 152: Visão artística das quatro naves da missão Cluster O Sol emite continuamente um gás de partículas ionizadas que arrasta consigo o campo magnético solar através do espaço. A magnetosfera é camada da atmosfera terrestre, controlada pelo campo magnético da Terra, que protege o nosso planeta do vento solar. No entanto, nas zonas polares, o vento solar consegue penetrar nas camadas superiores da atmosfera. As partículas energéticas do vento solar chocam com os átomos e moléculas que encontram na atmosfera superior e originam belos espectáculos de luzes denominados auroras polares. Cada colisão fornece energia aos átomos, excitando-os. Á medida que estes átomos regressam ao estado fundamental, emitem a energia anteriormente recebida sob a forma de fotões, denominando-se este fenómeno de fluorescência. De um modo geral, o efeito luminoso das auroras deve-se à emissão de fotões pelos átomos de oxigénio presentes nas O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 179 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar mais altas camadas da atmosfera terrestre, essencialmente na zona do espectro associada ao verde. No entanto, o vento solar também pode atingir camadas mais baixas da atmosfera onde a excitação dos átomos de azoto (predominantes nestas zonas) e de oxigénio origina a emissão de fotões na zona do espectro associada ao vermelho. Os objectivos da Cluster passam por determinar os processos físicos envolvidos na interacção entre o vento solar e a magnetosfera, que se pensa conseguir com a visita e estudo destas regiões. O mapeamento, a três dimensões, das estruturas do plasma contido nestas regiões e as medidas da quantidade de plasma no tempo e no espaço são também objectos de estudo. A importância da compreensão da interacção entre o vento solar e a magnetosfera e como os níveis de plasma na magnetosfera são afectados é fundamental para que nos possamos preparar para os efeitos repentinos e turbulentos da radiação solar na Terra. O tempo de vida previsto inicialmente para esta missão seria de Fevereiro de 2001 a Dezembro de 2005. Entretanto, em Fevereiro de 2005, a ESA aprovou a extensão da missão até Dezembro de 2009. Double Star Figura 153: Double Star A missão Double Star seguiu os passos da Cluster, estudando os efeitos do Sol no ambiente terrestre, nomeadamente explorando a magnetosfera da Terra. Como o seu nome sugere, a missão Double Star envolve dois satélites. Cada um destes objectos foi projectado, desenvolvido, lançado e operado pela Agência Espacial Chinesa. Os dois satélites mantêm-se em órbitas complementares em torno da Terra, uma nave voa numa órbita polar, enquanto que a outra nave órbita em torno do equador terrestre. Esta configuração orbital permite aos 180 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar cientistas obter dados simultâneos da variação campo magnético e das partículas eléctricas, em diferentes regiões da magnetosfera. Os dois satélites da missão Double Star foram lançados a partir de locais diferentes na China e em datas diferentes, Dezembro de 2003 e Julho de 2004. Um importante facto que determinou a participação da ESA no projecto Double Star foi a inclusão de sete instrumentos semelhantes aqueles que integram actualmente a Cluster. Um instrumento europeu adicional consiste num tonalizador que monitoriza átomos energéticos neutros na magnetosfera da Terra. Uma vantagem adicional deste programa consiste na possibilidade de sincronizar as duas órbitas dos satélites da missão Double Star com as órbitas dos quatro satélites da missão Cluster, de forma que as seis naves espaciais se encontrem a explorar a mesma região do espaço, simultaneamente. Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Earth Magnetospheric Swarm A zona do espaço próxima da Terra, onde a magnetosfera da Terra interage com o vento solar, é um laboratório natural e acessível para estudar os processos dinâmicos e complexos do plasma do espaço. A missão Earth Magnetospheric Swarm foi seleccionada em 2004 e compreende uma frota de satélites em órbitas a baixa altitude e com passagens perto dos pólos. O seu lançamento está previsto para 2010. A missão Earth Magnetospheric Swarm visa fornecer a melhor exploração de sempre do campo geomagnético e da sua evolução temporal, com vista a melhorar a nossa compreensão do interior da Terra, do clima e do seu efeito no espaço circundante, isto é, na vasta região em torno da Terra, onde os processos electrodinâmicos são influenciados pelo campo magnético terrestre. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 181 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O conceito da missão Earth Magnetospheric Swarm consiste numa frota de 12 satélites distribuídos por três órbitas polares distintas entre os 400 e os 550 quilómetros de altitude. Cada satélite fornecerá medidas de alta precisão e elevada resolução da intensidade e do sentido do campo magnético terrestre. A combinação dos dados obtidos por cada um dos satélites da frota permitirão desenvolver modelos das várias fontes possíveis do campo magnético terrestre. Por outro lado, os receptores do GPS, que consistem num acelerómetro e num instrumento do campo eléctrico, fornecerão informação suplementar ao estudarem a interacção do campo magnético com outras características físicas terrestres, como, por exemplo, o Swarm poderá informar acerca dos movimentos dos oceanos. Nos diferentes satélites que compõem a frota da missão Earth Magnetospheric Swarm existe uma nova geração de magnetómetros que permitirão fazer mediações simultaneamente a partir de diferentes regiões da Terra. A monitorização da variação das características do campo magnético no tempo será feita pelo Swarm, o que revela um grande progresso relativamente ao método actual, o qual é baseado em estudos estatísticos e observações da Terra. Os modelos do campo magnético terrestre que resultarão da missão Earth Magnetospheric Swarm promoverão a nossa compreensão dos processos atmosféricos relacionados com o clima e ensinar-nos-ão a lidar com os perigos da radiação. O campo magnético protege-nos das partículas altamente energéticas do Sol e do espaço exterior. A monitorização contínua do campo magnético em órbitas de baixa altitude, tal como os modelos que daí vêm, têm um importante papel na previsão de eventuais perigos relacionados com a radiação que nos chega do espaço. Os campos magnéticos desempenham um importante papel em muitos processos físicos em todo o Universo. No caso particular do planeta Terra, o seu forte, grande e complicado campo magnético é produzido por um efeito de dínamo auto-sustentável no núcleo metálico fundido. No entanto, os dados disponíveis são de medidas feitas à superfície ou muito perto dela e, como tal, reflectem a sobreposição do campo magnético originado no núcleo metálico fundido com os campos gerados por rochas magnetizadas na crosta de terra, correntes 182 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar eléctricas que fluem na ionosfera, magnetosfera e oceanos, e pelas correntes induzidas na terra por campos externos variáveis no tempo. É agora compreensível a necessidade de uma separação e compreensão detalhada dos processos internos e externos que contribuem para a formação de campos magnéticos da Terra. A missão Earth Magnetospheric Swarm visa estes objectivos para além de um novo estudo detalhado do campo litosférico. A compreensão do campo magnético é também importante no conhecimento do ambiente externo da Terra. Resultados recentes da missão alemã CHAMP indicaram que a densidade do ar está afectada localmente pela actividade geomagnética. A missão Earth Magnetospheric Swarm é referida no Cosmic Vision 2015-2025 como um projecto candidato para o estudo dos processos do plasma, em diferentes escalas de medida, como parte de uma estratégia possível para responder à pergunta “Como funciona o Sistema Solar?” Os três domínios fundamentais e universais dos processos do plasma espacial são os choques, a reconexão e a turbulência. Estes três fenómenos envolvem variações temporais, não-lineares e interacções multi-escalares que geram as estruturas complexas do plasma. Figura 154: Bow shock junto a uma estrela jovem - NASA e Hubble Heritage Team (STScI/AURA) As três escalas de comprimento, que correspondem às distâncias típicas no espaço próximo da Terra, dividem-se em: escala cinética do electrão (~10 quilómetros), escala cinética do ião (~100 - 1000 quilómetros) e líquido magneto-hidrodinâmico ou macro-escala (~5000 - 10 000 quilómetros). O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 183 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O projecto para a missão Earth Magnetospheric Swarm consistirá então numa frota de naves espaciais equipadas com instrumentos desenvolvidos para o estudo do plasma, colocadas numa órbita altamente elíptica em torno da Terra. Uma órbita com passagens perto do equador é ideal para a investigação e estudo detalhado das seguintes regiões: bow shock, magnetosheath e magnetotail. Figura 155: Órbita com passagens perto do equador e altamente elíptica da missão Earth Magnetospheric Swarm O número de naves espaciais, o número de instrumentos desenvolvidos para o estudo do plasma, tal como a configuração da constelação de naves ainda estão em estudo. No entanto e até à altura, pensa-se que a melhor configuração científica passa por um conjunto de três tetraedros concêntricos. Cada tetraedro será destinado a uma escala e portará quatro naves espaciais. Figura 156: Proposta da configuração científica da missão Earth Magnetospheric Swarm 184 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Exploração da Magnetosfera de Júpiter e Processos Associados A magnetosfera de Júpiter é outro excelente laboratório para estudar a forma como os plasmas se comportam no espaço. Por um lado, podemos comparar o Sol e Júpiter a um sistema estelar binário, pois Júpiter possui uma rápida rotação, um forte campo magnético e fontes internas de calor. Este gigante gasoso torna-se assim o ambiente mais acessível para estudar processos fundamentais, tais como as interacções do plasma com gás neutro e com os satélites naturais do planeta, a estabilidade dos magnetodiscos, a relaxação da energia rotacional e processos energéticos associados e a perda de momento angular resultante das interacções magneto-plasma. Os últimos dois processos referidos são importantes na compreensão de mecanismos de agregação que levam à formação de sistemas planetários. Um grupo de pelo menos três naves espaciais a operar conjuntamente com sofisticados instrumentos de análise de plasma, como parte do Programa de Exploração de Júpiter Jupiter Exploration Programme - irá permitir os primeiros avanços fundamentais na compreensão da estrutura e da dinâmica deste ambiente de plasma. O Sistema Joviano é frequentemente comparado a um mini-sistema solar e é um dos principais alvos do programa espacial Cosmic Vision 2015-2025. Os objectivos científicos do Programa de Exploração de Júpiter passam pelo estudo da origem, da formação e da evolução do Sistema Joviano, estudo da composição e dinâmica da atmosfera de Júpiter e estudo dos fenómenos magnetosféricos e da magnetosfera comparativa. No tema que se segue “Os Planetas Gigantes e os Seus Ambientes”, uma atenção especial será dada a Júpiter, pois juntamente com o seu sistema de anéis, os seus 63 satélites conhecidos, os seus complexos ambientes de poeiras, gás e plasma, constitui uma boa analogia de um minisistema solar, como já foi referido. Estudá-lo pode ajudar a construir uma compreensão firme da formação em larga escala dos sistemas planetários. Assim, o Programa de Exploração de Júpiter será abordado e explorado no tema que se segue. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 185 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Exploração das Magnetosferas de Outros Planetas BepiColombo A comunidade espacial de plasma está ansiosa pela exploração da enigmática magnetosfera do planeta Mercúrio como parte da ESA-JAXA Missão BepiColombo. A missão BepiColombo consiste em duas sondas orbitais individuais: a sonda Planetária de Mercúrio (MPO), a qual fará o mapeamento da superfície de Mercúrio, e a sonda Magnetosférica de Mercúrio (MMO), que investigará a magnetosfera do planeta. Esta sonda constitui um projecto ambicioso e dispendioso. Figura 157: Visão artística da missão BepiColombo A missão BepiColombo constitui um verdadeiro desafio, porque a órbita de Mercúrio é muito próxima do Sol, o que torna muito difícil colocar uma nave espacial numa órbita estável em torno de Mercúrio, devido à força da gravidade exercida pela nossa estrela. Deve-se também a esta distância, a dificuldade em observar o planeta a partir da Terra, pois o brilho do Sol obscurece o pequeno planeta. Exploração do Meio Interestelar A fronteira da heliosfera, que traça a separação do meio interestelar, é a heliopausa. Aqui termina a influência do campo magnético solar. Uma missão a esta região permitir-nos-ia investigar in situ, pela primeira vez, o ambiente interestelar, certamente muito diferente do Sistema Solar. Uma Interstellar Heliopause Mission iria poder atravessar os limites do meio 186 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar interestelar e providenciar as primeiras verdadeiras medidas deste meio, observando directamente a interacção entre os vários componentes do meio interestelar – plasma, poeiras, campos magnéticos e átomos neutros – com Sistema Solar. Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Interstellar Heliopause Probe O limite da interacção entre o vento solar e o plasma interestelar constitui a denominada heliopausa. Esta zona delimita a heliosfera, definindo os limites do reino do Sol. O vento solar protege os astros incluídos na heliosfera das partículas energéticas e dos campos magnéticos do meio interestelar. A observação destes dois últimos fenómenos tem de ser obrigatoriamente feita para além dos limites da heliosfera. Figura 158: Zona fronteiriça entre a Heliosfera e o Meio Interestelar (ESA & Lotfi Ben Jaffel, Martin Kornmesser e Lars Lindberg Christensen) Uma missão aos limites da heliosfera, nomeadamente à heliopausa e para além desta, consiste num grande desafio tecnológico, pois estamos a falar de distâncias na ordem das 200 unidades astronómicas do Sol. Desta forma, o desenvolvimento de tecnologias indispensáveis a esta missão seriam aproveitadas para futuras missões planetárias exteriores. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 187 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Os verdadeiros objectivos duma Interstellar Heliopause Mission prendem-se com a possibilidade de poder atravessar os limites do meio interestelar e providenciar as primeiras verdadeiras medidas deste meio, observando directamente a interacção entre os vários componentes do meio interestelar com o Sistema Solar. Desta forma poderiam surgir as respostas ás seguintes questões: - Qual a natureza do meio interestelar? - Como é que o meio interestelar afecta o Sistema Solar? - Quais as características da zona fronteiriça entre o Sistema Solar e o meio interestelar? A tecnologia necessária à missão Interstellar Heliopause Mission passa por desenvolver instrumentação que transporte a nave aos confins do Sistema Solar, isto é, a uma distância de 200 unidades astronómicas, não ultrapassando os 25 anos terrestres de viagem. Para alcançar o meio interestelar no menor intervalo de tempo, a Interstellar Heliopause Mission terá de ser lançada na direcção das seguintes coordenadas: 7,5º de latitude e 254,5º de longitude, relativamente ao plano da elíptica. Figura 159: Representação da Interstellar Heliopause Mission O sistema de propulsão da nave consistirá numa vela solar capaz de atingir uma aceleração de 1,1 mm/s2. Para obter a velocidade de escape do Sistema Solar, a Interstellar Heliopause Mission fará duas aproximações ao Sol. Da nave espacial farão parte diferentes instrumentos que consistem em: • Um analisador do plasma; • Uma experiência cujo objectivo é detectar a emissão de ondas rádio a partir do plasma; • 188 Um magnetómetro; O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar • Um detector de átomos electricamente neutros ou carregados; • Um detector energético de partículas; • Um analisador de poeiras; • Um fotómetro de ultravioleta. A composição elementar e isotópica do plasma, tal como os níveis de energia associados à variação temporal são determinados pelo analisador do plasma; as medidas de campo magnético serão efectuadas pelo magnetómetro; a distribuição dos níveis de energia, da composição, da massa e da energia de átomos neutros é determinada pelo detector de átomos electricamente neutros ou carregados; a detecção dos níveis energéticos de raios cósmicos será feita pelo detector energético de partículas; os níveis energéticos, a massa e a composição das partículas de poeira serão medidas pelo analisador de poeira; por último, a densidade do hidrogénio será medida pelo fotómetro de ultravioleta. A Interstellar Heliopause Mission envolve o desenvolvimento de alta tecnologia a outros níveis. A vela solar consiste um processo de propulsão da nave espacial usando grandes espelhos de membrana. A vela solar funciona devido à pressão da radiação e não precisa de combustível. Desta forma, as velas solares requerem estruturas de grandes dimensões. No caso particular da vela para a Interstellar Heliopause Mission, a sua área rondará os 50 000 m2 e o seu desdobramento constituirá um enorme desafio. Para este fim terá de ser desenvolvido um mecanismo de distribuição suficientemente estável e seguro, para que o desdobramento da vela ocorra sem quaisquer danos ou rupturas da estrutura. Este mecanismo de distribuição da vela tem de ser construído num material muito leve, cuja massa ronda os 100 gramas por metro e um comprimento aproximado de 120 metros. Por outro lado, o material da vela terá de suportar um fluxo 16 vezes superior ao fluxo solar recebido na Terra. Assim, é fundamental que o material da vela seja desenvolvido com propriedades ópticas que o sistema requer. Estas propriedades deverão ser preservadas ao longo da existência da vela. Um factor muito importante a ter em conta, consiste nas fontes de energia alternativas a que o aparelho terá de recorrer uma vez que para além da órbita de Júpiter, o fluxo da radiação solar baixa significativamente e se torna ineficiente. A única alternativa passa pelo uso de energia nuclear. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 189 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 3.2.2. Os Planetas Gigantes e os Seus Ambientes Juntamente com o Sol e o meio interplanetário, o Sistema Solar é constituído por oito planetas principais e respectivas luas, planetas anões, asteróides, meteoróides, cometas e poeira interplanetária. Como é que surgiu este ambiente único? Como é que o Sistema Solar evoluiu desde a sua formação? Estas são questões científicas de grande importância e encontrar uma resposta envolve o estudo detalhado de todos os objectos que compõem o Sistema Solar. A ESA tem estudado a grande parte dos astros do Sistema Solar. O sistema Saturno/Titã tem vindo a ser estudado com a missão Cassini-Huygens, a Lua recebeu a SMART – 1, Mars Express e Vénus Express já foram lançadas rumo aos respectivos planetas e a missão BepiColombo está a ser preparada para Mercúrio. Um objectivo principal do programa espacial Cosmic Vision 2015-2025 é agora uma exploração aprofundada do mais próximo planeta gigante no Sistema Solar exterior. O planeta Júpiter, juntamente com o seu sistema de anéis, os seus 63 satélites conhecidos, os seus complexos ambientes de poeiras, gás e plasma, constitui uma boa analogia de um minisistema solar. Estudá-lo pode ajudar a construir uma compreensão firme da formação em larga escala dos sistemas planetários. Actualmente, a exploração in situ do Sistema Solar é a única forma de examinarmos os planetas gigantes em detalhe e elaborar teorias fundamentadas acerca da sua formação. Na exploração dos sistemas planetários gigantes surgem questões importantes, das quais se podem salientar as seguintes: - Como se formaram os planetas e respectivas luas a partir da nebulosa solar? Os diferentes cenários de formação precisam de ser analisados e testados. 190 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar - Qual é a estrutura interna dos planetas gigantes? Os planetas gigantes terão um núcleo sólido? E de que tamanho? Estas questões podem ser respondidas levando a cabo investigações in situ, bem como efectuando medidas precisas da gravidade planetária e campos magnéticos. - Quais são os processos envolvidos na formação e evolução das atmosferas desses planetas e suas luas? Uma exploração à semelhança da que foi feita pela missão de Cassini-Huygens na lua de Saturno, Titã, será necessária para obtermos resposta a esta pergunta. - Qual é a estrutura interna e da sub-superfície dos satélites dos planetas gigantes, especialmente os mais gelados? Qual é a sua história geológica? Como é que isso reflecte a sua formação? Para respondermos a estas perguntas é necessário estudar a gravidade, os campos magnéticos, assim como a morfologia, a topografia, a mineralogia e a composição. - Como é que o plasma e o ambiente de gases e poeiras se juntam no planeta central gigante, nos seus satélites e anéis e no meio interplanetário? As medidas in situ precisam de ser relacionadas com o plasma que provém do vento solar, das luas, tais como Io, e do próprio planeta. Também a rotação planetária e a consequências de qualquer actividade magnetosférica, tais como auroras, precisam de ser consideradas. O grande número e a variedade de questões que se põem sugerem uma série de missões a um gigante gasoso como Júpiter. Espera-se assim obter um conhecimento mais alargado acerca da composição e da dinâmica atmosférica, dos campos magnéticos e gravitacionais, dos plasmas, das superfícies planetárias e das superfícies dos satélites. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 191 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Programa de Exploração de Júpiter - Jupiter Exploration Programme; Sondas a Júpiter - Jupiter Probes; Módulo de Reconhecimento a Europa - Europa Lander Programa de Exploração de Júpiter O Programa de Exploração de Júpiter aponta para diferentes objectivos que determinam a necessidade do desenvolvimento de uma série de novas tecnologias divididas em três tópicos principais: • Jovian Minisat Explorer (JME) • Jupiter Entry Probe (JEP) • Jovian System Explorer (JSE) O Jovian Minisat Explorer (JME) será usado na exploração do Sistema Joviano, em particular da lua Europa, o Jupiter Entry Probe (JEP) consiste na sonda que será usada na exploração in situ da atmosfera de Júpiter até à pressão máxima de 100 bar e, por último, Jovian System Explorer (JSE) cujo objectivo será o estudo da magnetosfera de Júpiter e do Sistema Joviano. Jovian Minisat Explorer (JME) Figura 160: Jovian Minisat Explorer (JME) A praticabilidade de uma missão ao Sistema Joviano, nomeadamente à lua Europa, está a ser estudada. No entanto, pelos motivos já apresentados no tema 3.1.1., uma nave europeia poderá não estar tecnologicamente pronta a tempo de voar entre 2015-2025. 192 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Europa é um dos poucos lugares no Sistema Solar onde se acredita que exista água no estado líquido, tornando este astro um potencial candidato a ter vida extraterrestre. Os objectivos de estudo de Europa passam por confirmar a presença de um oceano de água líquida encoberto por uma camada de gelo, traçar a espessura dessa mesma camada de gelo, fazer um levantamento topográfico da superfície de Europa, caracterizar a composição global da geologia do satélite e da sua superfície em geral, observar o seu campo magnético e efectuar medidas de radiação emitida. No que concerne à tecnologia a ser utilizada na missão, o cenário actual prevê a utilização de duas naves espaciais relativamente pequenas (~ 400 a 600 quilogramas cada), a Jovian Relay Spacecraft (JRS1/2) e a Jovian Europa Orbiter (JEO). A Jovian Relay Spacecraft (JRS) orbitará em torno de Júpiter, numa órbita altamente elíptica e fora das zonas de maior radiação. Os instrumentos que não forem directamente necessários no processo de observação de Europa serão integrados neste módulo. Assim, o sistema de comunicação que permitirá estabelecer a ligação entre a Terra e o JEO, tal como o conjunto de instrumentos para o estudo do Sistema Joviano, encontrar-se-ão na Jovian Relay Spacecraf. Figura 161: Jovian Relay Spacecraf (JRS) O Jovian Europa Orbiter (JEO) orbitará em torno de Europa e carregará consigo um sistema de detecção remota e outro de comunicação para estabelecer ligação com o Jovian Relay Spacecraf e com a Terra. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 193 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Figura 162: Jovian Europa Orbiter (JEO) A praticabilidade de uma micro-sonda encontra-se a ser avaliada. Este aparelho, com menos de 1 quilograma, teria a missão de determinar in situ a espessura camada de gelo que envolve o oceano submerso. Caso venha a ser integrada na missão, a micro-sonda fará parte da instrumentação do JEO. A JEO e a JRS formarão uma única composição durante o lançamento, a viagem de seis longos anos e durante a fase de inserção na órbita de Júpiter. No lançamento será usado o foguetão Soyuz Fregat 2B, de Kourou. Depois de se encontrarem a orbitar em torno de Júpiter, as duas naves separar-se-ão, desfazendo a composição, e cada uma delas efectuará a trajectória que lhe está programada. A Jovian Europa Orbiter irá traçar uma trajectória polar em torno de Europa, enquanto que a viagem da Jovian Relay Spacecraft terá como destino uma órbita altamente elíptica em torno de Júpiter. A órbita sobre Europa será fortemente afectada pela presença de Júpiter. Este facto limitará o desempenho da JEO numa órbita a 200 quilómetros do satélite e por um período de 60 dias. Depois disto a nave colidirá inevitavelmente com a superfície de Europa. O tempo de vida previsto para a JEO é demasiado curto para que esta efectue a transmissão de todos os dados para a Terra. Assim, a JEO transmitirá as informações para a JRS, a qual, por estar fora da zona de radiação intensa, terá uma vida significativamente mais longa, cerca de 2 anos. A distância da JRS a Júpiter reduz significativamente a dose de radiação que receberá e a sua esperança média de vida aumenta, durante a qual pode emitir todos os dados da JEO para a Terra, juntamente com os próprios dados recolhidos. No seu curto período de actividade, a JEO fará a análise e o mapeamento da superfície de Europa usando os seguintes instrumentos: uma câmara estereográfica, uma câmara de ultravioleta, um espectrómetro de mapeamento para o visível e infra-vermelho próximo, um 194 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar altímetro de laser, um radar de monitorização da sub-superfície, um radiómetro e um magnetómetro. Figura 163: Composição JRS - JEO Jupiter Entry Probe (JEP) Figura 164: Esquema da Jupiter Entry Probe A missão Jupiter Entry Probe prevê a entrada de uma sonda na atmosfera de Júpiter até à pressão máxima de 100 bar. Esta missão ainda se encontra em estudo, tal como a Jovian System Explorer, cujo objectivo é estudar a magnetosfera de Júpiter. Por outro lado, está a ser avaliada a possibilidade de combinar uma sonda atmosférica com uma missão à magnetosfera. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 195 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Jovian System Explorer (JSE) A missão Jovian System Explorer prevê a exploração da magnetosfera de Júpiter. O estudo e planificação desta missão terá por base a bem sucedida missão Cluster à magnetosfera terrestre, a qual consiste numa constelação de quatro naves espaciais cujo objectivo consiste em determinar os processos físicos envolvidos na interacção entre o vento solar e a magnetosfera, que se pensa conseguir com a visita e estudo destas regiões. A missão Cluster também realizou o mapeamento, a três dimensões, das estruturas do plasma contido nestas regiões e as medidas da quantidade de plasma no tempo e no espaço. Assim, numa primeira fase da missão Jovian System Explorer, as duas naves espaciais Jovian Relay Spacecraf 1/2 transportarão consigo o conjunto de instrumentos destinado ao estudo da magnetosfera de Júpiter. Estas duas naves espaciais efectuarão duas trajectórias diferentes, uma JRS terá uma órbita muito excêntrica, porque se destina a estudar a magnetotail, enquanto que a outra orbitará numa órbita mais circular, pois irá observar a zona da magnetopausa. A Jupiter Polar Orbiter será associada a esta constelação para estudar a interacção entre o plasma e a magnetosfera de Júpiter nas zonas polares. Figura 165: Constelação de três naves espaciais, incluindo as duas Jovian Relay Spacecraf e a Jupiter Polar Orbiter cujo objectivo é o estudo da magnetosfera de Júpiter 196 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 3.2.3. Asteróides e Outros Pequenos Corpos Exploração de Cometas A Europa é líder na exploração de cometas a partir do momento que, em 1986, a nave espacial Giotto se encontrou com o cometa Halley. Esta missão mostrou pela primeira vez a forma dum núcleo cometário e os processos complexos de sublimação do material a partir do núcleo até à forma particular da cauda. Revelou ainda a interacção do material libertado pelo cometa com o vento solar, formando a cauda que se estende por milhões de quilómetros a partir do núcleo. Figura 166: Visão artística do encontro da Giotto com o cometa Halley A Comunidade Europeia Cometária está ansiosa pela chegada da nave espacial Rosetta e respectiva aterragem no cometa Churyumov-Gerasimenko, em 2014. Rosetta A nave espacial Rosetta da ESA será a primeira a explorar um cometa, a longo prazo, e foi lançada a 2 de Março de 2004, pelo foguetão Ariane-5G, a partir de Kourou. Esta missão é constituída por uma sonda orbital, que foi projectada para operar durante dez anos a grande distância do Sol, e por um pequeno módulo de reconhecimento. Cada um destes aparelhos transporta um conjunto de instrumentos capazes de realizar um estudo, tão detalhado quanto possível, de um cometa. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 197 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Após interceptar e colocar-se em órbita em torno do cometa Churyumov-Gerasimenko, em 2014, a nave espacial lançará um módulo de reconhecimento na direcção do gelado núcleo cometário. Durante os dois anos seguintes, a nave orbitará em torno do cometa na sua aproximação ao Sol. Ao longo da sua viagem até ao cometa Churyumov-Gerasimenko, Rosetta receberá a assistência gravitacional da Terra, de Marte e passará pela Cintura de Asteróides. A viagem de Rosetta transportá-la-á até 5,25 UA do Sol. A duração prevista da viagem é de 10 anos e a missão deverá ter terminado em Dezembro de 2015. Figura 167: Encontro da missão Rosetta com o cometa Churyumov-Gerasimenko O cometa Churyumov-Gerasimenko tem um núcleo com cerca de 4 quilómetros de diâmetro e órbita em torno do Sol cada 6,6 anos. Durante este tempo, comuta entre as órbitas de Júpiter e da Terra. No entanto pouco se sabe sobre ele, apesar das suas visitas regulares ao Sistema Solar interior. Figura 168: A missão Rosetta fará aterrar um módulo de reconhecimento, pela primeira vez, num núcleo cometário O cometa Churyumov-Gerasimenko foi descoberto, em 1969, por K. Churyumov, da Universidade de Kiev, na Ucrânia, e por S. Gerasimenko, do Instituto de Astrofísica Dushanbe, em Tajikistan. 198 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Os cometas são os mais primitivos corpos do Sistema Solar. O seu material remota aos primórdios da formação do nosso sistema planetário. Assim, o estudo destes astros possibilitar-nos-á o acesso à mistura química a partir da qual todos os outros astros se formaram e permitir-nos-á compreender os processos pelos quais o material interestelar se torna em novos sistemas planetários com a possibilidade de alojar vida. Os cometas estão dinamicamente ligados à família de asteróides, pelo que o estudo de um asteróide pode providenciar respostas a muitas questões: - Quais eram as composições e as propriedades físicas dos blocos de construção dos planetas terrestres? - Quais foram os processos que se desencadearam na nébula solar à medida que ocorria a formação planetária? - Qual é a natureza e a origem dos materiais orgânicos, nos asteróides primitivos? - Será que podemos tirar conclusões acerca da origem da vida no Sistema Solar, a partir do estudo destes objectos? - Será que a classe mais primitiva de asteróides contém material pré-solar ainda não detectado em amostras de meteoritos? - Como é que as propriedades elementares, mineralógicas e isotópicas de amostras de asteróides variam no contexto geológico da sua superfície? - Como é que o clima espacial e os impactos afectam a composição da superfície de um asteróide? - Qual é o tempo de duração dos principais acontecimentos, tais como aglomeração, libertação de calor e desaparecimento de gás? - Como é que as várias classes de asteróides e meteoritos se formam e adquirem as suas propriedades actuais? - Como se relacionam as diferentes classes de meteoritos e asteróides? A resposta a estas questões passa pelo envio de uma Near-Earth Object Sample Return, a qual consistirá na recolha de amostras que serão trazidas para a Terra. Em laboratórios especializados, no planeta Terra, serão depois feitas análises criteriosas e exaustivas às amostras recolhidas. Em seguida poder-se-á proceder à combinação detalhada entre os resultados obtidos da análise em laboratório às amostras de asteróides e as investigações espectroscópicas e de observação deste corpos. Uma melhor compreensão da natureza dos meteoritos e asteróides poderá assim ser esperada. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 199 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Uma compreensão completa das populações, histórias e relação de asteróides e meteoritos irá eventualmente exigir missões de recolha de material a asteróides pertencentes a cada uma das classes espectrais. A primeira missão de recolha de material de um asteróide, a nave espacial japonesa Hayabusa, chegou em 2005, ao nearEarth 25143 Itokawa. Um regresso destas amostras irá revelar a natureza diferenciada do material que constitui os asteróides tipo S. Figura 169: Visão artística da nave espacial japonesa Hayabusa a descer sobre o asteróide Itokawa No entanto, apenas uma missão de recolha de material a um dos mais primitivos objectos do Sistema Solar, ricos em carbono tipo C, irá apresentar resposta às principais questões acerca das origens do Sistema Solar. 200 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Cosmic Vision 2015/2025 - Missões Futuras: Near-Earth Object Sample Return Uma missão de recolha de material a um asteróide próximo da Terra foi incluída no programa científico Cosmic Vision e visa responder a uma série de questões relacionadas com a origem do Sistema Solar, com parte integrante do tema “Como funciona o Sistema Solar?”. Os conhecimentos de que dispomos sobre estes corpos celestes devem-se essencialmente à observação directa com telescópios terrestres e, mais recentemente, aos dados recolhidos e transmitidos para a Terra pela sonda NEAR. A composição química também foi estudada a partir da análise de meteoritos. Os asteróides são formados pelo material mais antigo do Sistema Solar. Estudá-los permitirnos-ia conhecer os ingredientes da nuvem primordial e, assim, a história do Sistema Solar. Um conhecimento mais alargado acerca do processo de formação dos planetas rochosos, da possível relação entre os diferentes tipos de meteoritos e a classificação dos asteróides, tal como sobre a origem das moléculas pré-bióticas necessárias ao desenvolvimento da vida, seria possível de obter. No Sistema Solar podemos encontrar muitas diferenças entre os asteróides. Destas diferenças podemos destacar se as suas órbitas passam perto ou longe da Terra, se a interceptam ou não, se o asteróide pertence à Cintura de Asteróides, localizada entre Marte e Júpiter, ou então aos Troianos, ou até a outro grupo de asteróides. Relativamente às suas características físicas, podemos distinguir os asteróides quanto à massa, ao volume, à densidade, à forma, etc. No que respeita à sua composição, podemos estudar a sua mineralogia e constituição química. No que concerne à antiguidade, os asteróides carbonáceos serão os mais antigos e primitivos asteróides do Sistema Solar. Serão estes o objecto de estudo do Cosmic Vision 2015-2025. Mas porquê escolher um asteróide próximo da Terra (NEA) como objectivo da missão? O facto da órbita destes objectos passar próximo da Terra, facilita a missão em termos mecânicos e tecnológicos, pois torna-os muito mais facilmente acessíveis. Por outro lado, os NEAs representam uma população semelhante aos asteróides da Cintura que orbita entre O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 201 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Marte e Júpiter. Estes, por sua vez, reflectem as características do material que deu origem aos planetas. Na vizinhança da órbita da Terra já foram descobertos mais de 4200 asteróides, no entanto, para objecto da missão foi seleccionado o asteróide tipo-C, 1999 JU3. Dentro deste tipo, este asteróide será facilmente alcançável. No entanto, existem outros asteróides mais acessíveis do que o JU3, mas dadas as dificuldades de observação a partir da Terra, ainda não foi possível determinar o seu tipo. Figura 170: Há mais de 365 000 asteróides no Sistema Solar. A verde encontra-se representada a cintura de asteróides, enquanto que a vermelho estão representados os NEAs Todas as missões que permitam transportar para a Terra as amostras de outros astros são de enorme importância científica. Depois de analisadas em laboratórios científicos terrestres, as amostras extraterrestres são uma enorme fonte de conhecimentos. Salvaguarde-se o facto das amostras lunares transportadas para a Terra pelos cientistas das missões Apollo ainda hoje são objecto de estudo. E isto já foi há 40 anos! Por outro lado, as sample return missions representam o passo seguinte relativamente às missões in situ anteriores, tais como Giotto, Mars Express, Cassini-Huygens, Vénus Express, entre outras, no que concerne às investigações científicas e ao desenvolvimento tecnológico. A praticabilidade da missão Near-Earth Object Sample Return já foi analisada. O lançamento da missão será feito em Kourou, na Guiana Francesa, em 2016. No lançamento será usado o 202 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar foguetão Soyuz 2-1B. A nave orbitará cerca de 8 meses em torno do asteróide. A reentrada na atmosfera terrestre está prevista para 2019. Figura 171: A selecção do local de aterragem é uma fase crucial durante as operações de detecção remota, para evitar locais que possam danificar a nave. O conjunto de instrumentos da missão a ser quer dos instrumentos a serem utilizados, utilizado in situ estará dividido em duas ainda irão sofrer alterações. partes principais: detecção remota e superfície. No que concerne à detecção remota, este será constituído, entre outros, por equipamento científico e de experiências rádio, câmara de ângulo largo e estreito, espectrómetro infravermelho, de ultravioleta-visível- radiómetro térmico, espectrómetro de radiação gama, etc. Em relação à superfície, será incorporado um pacote de geo-química, um espectrómetro de infravermelho, um tonalizador subsuperficial, etc. É de referir que esta missão ainda se Figura 172: Configuração possível de dois módulos encontra em estudo, de maneira que a para a nave espacial da missão Near-Earth Object selecção, quer do asteróide-alvo da missão, Sample Return (HAYABUSA/JAXA) Concluindo: O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 203 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar A ESA mantém um projecto de estudo muito abrangente, com a exploração dos planetas Mercúrio, Vénus e Marte, através das missões BepiColombo, Venus Express e Mars Express. Irá continuar a olhar para o Sol com a ESA-NASA SOHO e com a nave espacial JAXA- ESA Solar-B, e eventualmente com a Solar Orbiter, assim como contribuir para a missão internacional STEREO. A extensão da missão Cluster irá possibilitar à Europa que continue qualificar e quantificar, a nível internacional, a magnetosfera terrestre, complementado este trabalho com as investigações das magnetosferas de Mercúrio e Saturno. E o futuro? O que virá depois? O futuro da Ciência Europeia do Sistema Solar é brilhante para as próximas décadas. Uma Mars Sample Return, prevista no Programa Aurora, consiste na recolha de amostras de locais seleccionados em Marte. Um Europa orbiter and/or lander explorará a lua de Júpiter, Europa, o único corpo do Sistema Solar, para além da Terra, que se pensa possuir um oceano subterrâneo de água líquida. O nosso conhecimento acerca da estrutura do campo magnético do Sol poderá ser conseguido com a missão Solar Polar Orbiter. A exploração da magnetosfera terrestre passa por uma missão Earth Magnetospheric Swarm. O Programa de Exploração de Júpiter estudará o Sistema Joviano, como um todo, e permitirá construir uma compreensão firme da formação em larga escala dos sistemas planetários. A Interstellar Heliopause Mission será projectada para passar para além dos limites da heliopausa e entrar no meio interestelar e, consequentemente, para observar directamente a interacção entre o meio interestelar e o Sistema Solar. O estudo do material primordial a partir do qual se formaram os planetas será conseguido com uma missão Near-Earth Object Sample Return. 204 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Capítulo 4: Propostas de Actividades a Realizar com os Alunos do Ensino Básico e Secundário no Âmbito do Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar O presente capítulo visa a contextualização dos três primeiros capítulos no processo de ensino-aprendizagem do 3º ciclo e secundário. Assim, para cada assunto abordado, tentei elaborar, pelo menos, uma actividade prática. Estas actividades não são mais do que propostas, pelo que devem ser adaptadas ao nível e número de alunos que as irão realizar. Por outro lado, qualquer uma das actividades aqui descritas visa proporcionar aos alunos conhecimentos sobre a ciência e tecnologia, que lhes permitam a expressão de opiniões e a tomada de decisões sobre questões do domínio público. Nesta linha de raciocínio, este capítulo pretende: - Promover a interdisciplinaridade; - Desenvolver o trabalho de grupo e de cooperação; - Incentivar o espírito crítico, método de trabalho e de pesquisa; - Desenvolver a autoconfiança e a autonomia, o espírito de equipa e de cooperação; - Promover a criatividade e a imaginação; - Promover os diferentes domínios da Língua materna; - Desenvolver a capacidade de comunicar e de ouvir os outros, de argumentar, de chegar a um consenso e de tomar decisões. Em particular, a área curricular não disciplinar de “Área de Projecto” visa envolver os alunos na «concepção, realização e avaliação de projectos, através da articulação de saberes de diversas áreas curriculares/disciplinares ou disciplinas em torno de problemas ou temas de pesquisa ou de intervenção, de acordo com a necessidade e os interesses dos alunos». A actividade nº8 integra-se perfeitamente no tipo de temas a desenvolver neste espaço. Por outro lado, revela-se ambiciosa, quer no que respeita à pesquisa, reflexão, método de trabalho individual e em grupo, quer em tempo dispensado. Por estes motivos, a actividade Oficina da Heliosfera será um projecto candidato a desenvolver em Área de Projecto, no 12º ano. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 205 Actividades Actividade proposta nº1 Concurso Contextualização: O público em geral pensa que os assuntos da exploração espacial, por mais aliciantes que sejam, irão sempre depender das estratégias delineadas por um pequeno grupo de cientistas. Na realidade, o sucesso da ESA é um esforço conjunto da indústria tecnológica, da cooperação internacional, da vontade política e, em última instância, do reconhecimento de toda a sociedade. A 21 de Novembro de 2006, a ESA lançou um desafio à população, em geral, e aos amantes da exploração espacial, em particular. O concurso “Ajude-nos a definir o futuro da Europa no Espaço” da Agência Espacial Europeia (ESA), em cooperação com o Centro Nacional do Espaço Britânico (BNSC), convidou os europeus a dar sugestões e ideias para as próximas actividades de exploração espacial. As respostas a este concurso serviram para seleccionar cinco membros do público em geral que assistiram a uma conferência sobre a Exploração Europeia que teve lugar em Edimburgo, no Reino Unido, de 8 a 9 de Janeiro de 2007. Figura 173: Programa espacial Cosmic Vision 2015/2025 À semelhança do que fez a ESA, uma actividade deste género poderá ser implementada na nossa escola. Com esta actividade pretende-se dar a palavra aos alunos do ensino básico e secundário, para que eles possam sugerir e apresentar ideias acerca do futuro da exploração espacial. 206 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Concurso: Para participar neste concurso responda a cada uma das questões que se seguem. 1. Na sua opinião, é a exploração espacial importante para a Europa? Fundamente a sua resposta. Que benefícios para os cidadãos europeus podem derivar da exploração do espaço? 2. Para que destinos do espaço deveria dirigir-se a ESA nos próximos 30 anos? Fundamente a sua resposta. Todas as respostas válidas serão avaliadas pelo Professores dinamizadores do Clube de Astronomia, que seleccionarão as duas melhores participações de cada nível de ensino. Os vencedores do concurso ganharão um prémio a definir pelo Clube de Astronomia. Regulamento: 1. O concurso destina-se aos alunos do 3º ciclo de escolaridade e secundário. 2. As respostas deve ser apresentadas em folha A4 e não devem ultrapassar as duas páginas. 3. O júri seleccionará duas respostas entre os participantes do 3º ciclo e outras duas entre os participantes do ensino secundário. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 207 Actividades Actividade proposta nº2 Como ser astronauta? Não é difícil encontrarmos uma criança que diga: - Quando for grande quero ser astronauta! Mas é diferente quando este sonho nos acompanha ao longo de cerca de 18 anos. Há três anos atrás tive um aluno de 12º ano, determinado a seguir este caminho. Foi a pensar nele e na sua determinação que surgiu a ideia desta actividade. Figura 174: O astronauta Bruce McCandless numa EVA Está seriamente interessado em ser astronauta? Da última vez que surgiu uma oportunidade de integrar o Corpo Europeu de Astronautas, houve cerca de 22 000 candidatos. Cerca de 5000 deles tinham boas qualificações. Mas apenas 16 pessoas são actualmente membros do Corpo Europeu de Astronautas. O que é que os torna tão especiais? Descrição da actividade: Faça uma pesquisa na Internet acerca deste assunto, depois elabore uma apresentação em Power Point, para apresentar na aula de Ciências Físico-Químicas, cujo objectivo será elucidar os colegas acerca do percurso e trabalho dos astronautas. Destinatários: Alunos do 3º ciclo de escolaridade 208 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Actividade proposta nº3 Trabalho no Espaço Um astronauta, após uma missão de reparação no espaço, explicou em tom de brincadeira, durante uma entrevista, que trabalhar em condições de imponderabilidade é como trocar um pequeno fusível da bateria de um carro usando luvas de esqui e equilibrando-se sobre patins. Os objectivos do jogo: O objectivo imediato é simular, de maneira divertida, a sensação das dificuldades encontradas ao se trabalhar num ambiente diferente daquele a que se está acostumado e, para o qual se está naturalmente equipado. Para reforçar esta ideia, o jogo contará com duas equipas: uma a trabalhar em condições de «imponderabilidade» (máscara, luvas grossas, patins), e outra, em condições terrestres normais, alternadamente. Finalmente, o jogo deve conduzir a uma discussão sobre a importância do trabalho em equipa, as dificuldades de comunicação (tanto no espaço como no dia-a-dia), primeiro com a opinião do grupo de «astronautas», durante e depois do trabalho no espaço, e o conceito de como, por exemplo, o corpo humano se adapta à vida na Terra. Pode ser feito um trabalho escrito sobre o modo como o corpo humano poderia ter evoluído se a gravidade terrestre fosse muito menor. Descrição do jogo: A competição será entre duas equipas de quatro jogadores. Na primeira fase, a equipa A trabalhará em condições de «imponderabilidade», enquanto que a equipa B fará a reparação em condições terrestres normais. Na segunda fase, a equipa B ocupará o lugar da equipa A e vice-versa. A equipa vencedora será a primeira a ter apertado quatro parafusos numa superfície colocada acima dos jogadores, mas ainda assim ao seu alcance, ou seja, a que conseguir o melhor tempo total no final do jogo. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 209 Actividades Em cada equipa, haverá quatro jogadores: Jogador 1: representa o “centro de controlo”, que fornece aos Jogadores 3 e 4 instruções sobre o que devem fazer (exemplo: Jogador 4, passa parafuso ao Jogador 3! – Jogador 3, coloca o parafuso...). Define o idioma a utilizar, pois os astronautas provavelmente não serão da mesma nacionalidade! Jogador 2: cronometra o tempo de realização da tarefa. Jogador 3: representa um dos dois astronautas e executa a operação (apertar os parafusos). Jogador 4: representa um dos dois astronautas e ajuda e assiste o Jogador 3 (os astronautas nunca estão sozinhos durante os passeios espaciais). No início do jogo, o Jogador 4 deve dispor de todo o equipamento de trabalho e, depois, entregá-lo ao Jogador 3, consoante as indicações do Jogador 1. Um Mestre de Jogo (o professor, por exemplo) informa aos Jogadores 1 e 2 quais são as suas missões. Os Jogadores 3 e 4 não devem saber exactamente o que têm de fazer – é o Jogador 1 que lhes dirá. Quando todos os jogadores estiverem prontos para começar, o Mestre de Jogo dará início à prova. Equipamento necessário Material comum às equipas A e B • um cronómetro • 4 parafusos pequenos • uma chave de fendas pequena • uma superfície (ex.: um pedaço de madeira) onde os parafusos possam ser apertados, marcando os pontos designados. A superfície deve ser posicionada de tal maneira que os jogadores tenham de se esticar para a alcançar. 210 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Material para a Equipa A: Equipamento para os fatos espaciais necessários aos Jogadores 3 e 4: • um par de patins, patins em linha ou skate • capacetes • um par de luvas grossas de esqui Figura 175: Equipamento para os fatos espaciais Outros equipamentos podem ser utilizados para dificultar ainda mais a tarefa, como um cinto para transportar as ferramentas ou um cabo para atar os Jogadores 3 e 4 um ao outro, etc... Destinatários: Alunos do 3º ciclo de escolaridade Nota: Consulte: http://esamultimedia.esa.int/docs/issedukit/pt/html/subj4t.html O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 211 Actividades Actividade proposta nº4 Colaboração Internacional Os parceiros internacionais Figura 176: Os parceiros internacionais Descrição da actividade 1. Realiza uma composição escrita sobre um ou vários dos seguintes tópicos: • Corrida à Lua • Estação Espacial • Colaboração Internacional 2. Escreve uma história de ficção científica sobre uma estação espacial do futuro. 3. Descreve os teus próprios sonhos e planos para o futuro – em que gostarias de trabalhar e porquê? De que tipo de formação e experiência necessitarias para realizar os teus sonhos? Destinatários: Alunos do 3º ciclo de escolaridade Nota: Consulte: http://esamultimedia.esa.int/docs/issedukit/pt/html/subj4t.html 212 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Actividade proposta nº5 Viagem turística de uma semana a Marte Desde o início da era espacial, Marte Mas, imagina que ganhaste o Euromilhões fascina As e agora vais ter a oportunidade de fazer a primeiras sondas lançadas para Marte, já viagem turística a Marte, com que sempre nos anos 60 e 70, representaram uma sonhaste! cientistas e engenheiros. grande conquista, mas trouxeram más notícias a todos aqueles que esperavam que houvesse vida no nosso planeta vizinho. O lugar é muito frio: a temperatura nunca ultrapassa 15°C, até mesmo em pleno Verão sobre o equador, e a temperatura invernal, à noite, desce a -130°C. Cerca de 95% da sua atmosfera é composta de dióxido de carbono, além de ser muito fina, o que a torna incapaz de proteger a superfície da radiação ultravioleta proveniente do Sol. Assim, como podes imaginar, uma missão humana a Marte tem de ser muito bem planeada. Figura 177: Turismo Espacial Começa já a preparar esta fantástica viagem …….. Elabora um relatório onde deverás procurar responder à seguintes questões: 1. Porque é que escolhi Marte? 2. Quais são as características de Marte que mais me impressionam? O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 213 Actividades 3. Como é que me penso preparar para a viagem? 3.1. Como irei lidar com a ausência de gravidade? 3.2. Como me sentirei a viver em poucos metros quadrados? 3.3. Como farei as minhas refeições? E o que comer? 3.4. Também levitarei enquanto durmo? 4. Como seria a nave espacial? Que tecnologias seria necessário desenvolver para efectuar esta viagem tripulada? 4. Na realidade, com a tecnologia actual, uma viagem a Marte, de ida e volta, levaria cerca de dois anos. Na tua opinião, como é que os astronautas conseguiriam lidar com o stress e a pressão psicológica, ao viver, por longos períodos de tempo, confinados a poucos metros? Destinatários: Alunos do 3º ciclo de escolaridade e secundário Sugestão: Consulte: http://esamultimedia.esa.int/docs/issedukit/pt/html/subj4t.html 214 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Actividade proposta nº6 Construção de um calendário 3D A prioridade das missões espaciais previstas no “Cosmic Vision 2015/2025” dependem da tecnologia requerida e do seu desenvolvimento, tal como do orçamento disponível para as pôr em prática. Por outro lado, algumas missões, como, por exemplo, uma missão humana a Marte, requerem que outras missões a antecedam como forma de preparação. O Programa Aurora é um bom exercício prático. Este desenvolver-se-á, a longo prazo, em duas fases principais. A primeira fase do Programa Aurora decorrerá entre 2005 e 2015 e consistirá no desenvolvimento de conhecimentos e tecnologia para a implementação de uma missão humana à Lua e a Marte, ou seja, esta primeira fase determinará a viabilidade de se prosseguir com tal missão. Descrição da actividade Nesta actividade pede-se os alunos que construam de um calendário a três dimensões sobre as missões previstas no Programa Aurora. Destinatários: Alunos do 3º ciclo de escolaridade e secundário. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 215 Actividades Actividade proposta nº7 A Vida e a Habitabilidade no Sistema Solar A procura das origens da vida no Sistema Solar passa pela exploração da lua de Júpiter, Europa, a qual revelou, devido às suas características, a probabilidade da existência de vida num possível oceano de água líquida existente por baixo de uma grande camada de gelo. Figura 178: Europa Orbiter Descrição da actividade O objectivo desta actividade é planificar, projectar e desenvolver uma missão a Europa com vista à procura de eventuais sinais de vida. Numa primeira fase, os alunos deverão definir: 216 • os objectos científicos da missão; • o tipo de nave a utilizar na missão; • o sistema de propulsão da nave; • os instrumentos que deverão integrar a nave; • a necessidade, ou não, de sondas de superfície; • a duração da missão; • a trajectória a efectuar. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Uma missão espacial a Europa terá de contar com a colaboração internacional, pois será demasiado dispendiosa para ser suportada por uma entidade só. No entanto, sabe-se que tanto os EUA como a Europa ambicionam poder explorar este satélite de Júpiter. Assim, a segunda fase deste trabalho consistirá numa reunião/debate entre as duas agências espaciais, numa tentativa de chegarem a um acordo no que toca à realização de uma missão conjunta a Europa, que satisfaça ambas as partes. Para isso, um grupo de alunos representará a ESA e o outro grupo representará a NASA. Que ganhe o melhor argumento! Sugestão: Consulte: http://esamultimedia.esa.int/docs/issedukit/pt/html/subj4t.html Destinatários Esta actividade destina-se aos alunos do ensino secundário. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 217 Actividades Actividade proposta nº8 Oficina da Heliosfera Contextualização Quase todo o Sistema Solar parece reduzir-se, em volume, a um vazio completo. Longe de ser um nada absoluto, este vácuo compreende o meio interplanetário. Ele inclui várias formas de energia e pelo menos dois componentes: a poeira interplanetária e o gás interplanetário. A poeira interplanetária consiste em partículas sólidas microscópicas e o gás interplanetário corresponde ao fluxo de gás e partículas carregadas, principalmente protões e electrões, que afluem do Sol, ao qual se dá o nome de plasma. O plasma é transportado através do espaço interplanetário pelo vento solar. Figura 179: Os limites da Heliosfera A velocidade do vento solar, em regiões próximas da Terra varia entre os 400 e os 800 km/s e a sua densidade ronda as 10 partículas por centímetro cúbico. O mecanismo exacto de formação do vento solar ainda não é conhecido, no entanto, o vento solar manifesta-se, por exemplo, na orientação das caudas dos cometas, as quais apontam sempre na direcção oposta ao Sol. As variações na corona solar, devido à rotação diferencial do Sol e às suas actividades magnéticas, fazem com que o vento solar se torne instável e variável. Assim quando ocorrem explosões na “superfície” do Sol, verifica-se um aumento da radiação emitida, a densidade do vento solar aumenta, e gera-se uma tempestade magnética que deforma a magnetosfera e produz fenómenos como as auroras polares. 218 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades O ponto onde o vento solar encontra o meio interestelar é chamada de heliopausa. Esta é a fronteira teórica do limite do reino do Sol, a cerca de 200 UA de distância dele. O espaço contido pelas fronteiras da heliopausa, contendo o Sol e o resto do Sistema Solar, é chamado de heliosfera. Por outro lado, o campo magnético solar estende-se para além no espaço interplanetário e corresponde ao campo magnético dominante em todas as regiões interplanetárias do sistema solar, excepto nas imediações dos planetas, que possuem seus próprios campos magnéticos. Descrição da actividade: Nesta actividade propõe-se a organização e elaboração da Oficina da Heliosfera. Esta oficina será um género de Oficina da Astronomia, mas unicamente orientada para a apresentação à comunidade escolar da heliosfera, do que se sabe acerca dela e do que pensa vir a descobrir no próximos anos com o programa espacial “Cosmic Vision 2015/2025”. A Oficina da Heliosfera comportará uma grande variedade de actividades, como, por exemplo, trabalhos escritos e práticos feitos pelos alunos, curiosidades, maquetas, recortes de jornais, revistas, estudos, entrevistas, exploração da informação de sítios da Internet, propostas de missões espaciais às magnetosferas da Terra e de Júpiter, das regiões polares do Sol e dos limites da heliosfera, a heliopausa, no âmbito do programa espacial “Cosmic Vision 2015/2025”, etc… Destinatários O maior desafio desta Oficina da Heliosfera será proposta aos alunos do ensino secundário. Pede-se a estes discentes que, entre o leque de missões propostas, criem e desenvolvam o seu próprio projecto. Este trabalho, moroso e ao mesmo tempo ambicioso, deverá ser feito em grupo. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 219 Actividades Cria desenvolve o projecto da tua própria missão espacial Entre as seguintes missões, escolhe uma: • Solar Polar Orbiter • Interstellar Heliopause Probe • Earth magnetospheric Swarm Faz uma pesquisa tendo em conta: • os fundamentos teóricos que se encontram por trás desta missão; • os objectos científicos da missão; • o tipo de nave a utilizar na missão; • a necessidade, ou não, de uma constelação de naves; • o sistema de propulsão da nave; • os instrumentos que deverão integrar o conjunto de instrumentos; • a duração da missão; • a trajectória a efectuar. Para terminar, desenha o teu logótipo para esta missão. Para cada missão espacial há um logótipo. O logótipo geralmente inclui diversos elementos, por exemplo, o nome da missão, as cores da bandeira do país, um elemento representando o trabalho realizado durante a missão (ex.: investigação) ou um elemento que indica a natureza da missão (ex.: uma órbita). Cria o teu próprio logótipo e descreve o que representam os seus diferentes elementos. Depois, até poderás enviar o logótipo à ESA e, quem sabe, um dia ele poderá voar! Desafio final: Serás capaz de criar uma maqueta da tua nave espacial? Cria a maqueta da tua nave, ou constelação de naves, com materiais à tua escolha. Poderás usar os métodos aprendidos em Educação Tecnológica e em Educação Visual. 220 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Actividades Actividade proposta nº9 Estudo da praticabilidade de uma Missão de Retorno de Amostras de um Objecto Próximo da Terra - Near-Earth Object Sample Return Contextualização A Europa é líder na exploração de cometas a partir do momento que, em 1986, a nave espacial Giotto se encontrou com o cometa Halley. Agora , a ESA quer alcançar a mesma proeza com a exploração dos asteróides, também os mais primitivos corpos do Sistema Solar. O seu material remota aos primórdios da formação do nosso sistema planetário. Assim, o estudo destes astros possibilitar-nos-á o acesso à composição química a partir da qual todos os outros astros se formaram e talvez nos permita compreender os processos que levaram à formação dos planetas e da origem da vida, pelo menos na Terra. O objectivo de uma Missão de Retorno de Amostras de um Objecto Próximo da Terra será a recuperação de amostras do asteróide tipo-C, 1999 JU3, que depois serão trazidas para a Terra a fim de serem analisadas nos laboratórios terrestres. Descrição da actividade: Todas as missões que permitam transportar para a Terra as amostras de outros astros são de enorme importância científica, mas também se deparam com obstáculos e desafios acrescidos em relação aos módulos de reconhecimento. Nesta actividade, pede-se aos alunos que façam um levantamento de todos os obstáculos e dificuldades que uma missão que aterre num asteróide pode encontrar e que tipo de tecnologia deverá ser desenvolvida de modo que os obstáculos sejam ultrapassados. Destinatários Esta actividade destina-se aos alunos do 3º ciclo e ensino secundário. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 221 Actividades 222 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Conclusão Capítulo 5: Conclusão O programa espacial “Cosmic Vision 2015-2025” foi elaborado a partir de 151 ideias propostas pela Estrutura Consultiva da Ciência da ESA, do qual fazem parte o Grupo de Trabalho de Astronomia (AWG), o Grupo de Trabalho do Sistema Solar (SSWG), o grupo Consultivo da Física Fundamental (FPAG) e o Comité Consultivo da Ciência Espacial (SSAC), assistido pela Direcção Científica da ESA. O tempo de preparação de uma missão pode ser da ordem dos 10 anos, por isso as missões espaciais a lançar a partir de 2015 devem começar a ser preparadas atempadamente – daí a importância dos planos a longo prazo. Concorrem aos programas da ESA consórcios internacionais que propõem diferentes tipos de missões. Cada consórcio é composto por várias equipas especializadas, sendo cada uma destas equipas responsável por uma parte da missão: os corpos celestes a estudar (planetas, estrelas, galáxias, etc.), os instrumentos científicos da missão, a estrutura da nave espacial, os foguetões para o lançamento, a electrónica e sistemas de controlo, o envio e recepção de dados na Terra e a análise dos dados resultantes da missão. O programa espacial “Cosmic Vision 2015-2025” está dividido em quatro questões fundamentais, no entanto, neste trabalho apenas foram exploradas as duas primeiras, as quais remetem para a exploração espacial entre 2015 e 2025, dentro do Sistema Solar. Quais as condições para a formação de um planeta e surgimento da vida? Esta é a primeira do conjunto de questões que a ESA se propôs a resolver com o programa da ciência espacial “Cosmic Vision 2015-2025”. Nós estamos num momento único da história da Humanidade, pois podemos agora construir os instrumentos necessários que nos permitem investigar as origens da vida e se estamos ou não sozinhos no Universo, ou seja, a indústria tecnológica alcançou um estádio de desenvolvimento tal, que a resposta às questões fundamentais sobre a nossas origens poderá estar para breve: O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 223 Conclusão -Haverá outras formas de vida no Sistema Solar e terão elas uma origem independente daquelas que se desenvolveram na Terra? A procura da origem da vida no Sistema Solar deve começar com a compreensão do que torna um planeta habitável e como as condições de habitabilidade se alteram com o tempo, ou seja, como mudam, melhoraram ou se destoem com o tempo. Por exemplo, actualmente as condições ambientais na Terra são muito diferentes das existentes na altura em que a vida surgiu neste planeta. O estudo dos pré-requisitos básicos para o surgimento e evolução da vida no Sistema Solar, tal como das condições da habitabilidade, são objecto de estudo no programa “Cosmic Vision 2015-2025”. As missões espaciais estão a ser pensadas com o propósito de explorar in situ a superfície e a sub-superfície de diferentes astros do Sistema Solar, como fortes candidatos a revelarem a presença de vida, talvez extinta. Marte está na mira dos cientistas como o planeta ideal para dar resposta às questões acerca da habitabilidade do Sistema Solar. As condições actuais da superfície do planeta Marte não são conclusivas acerca da sobrevivência da vida, mas, por outro lado, este planeta tem uma história inicial semelhante à do início da Terra, tal como condições que serviram para o surgimento da vida. Para compreendermos o aparecimento da vida no planeta Terra precisávamos de conhecer as suas condições iniciais, no entanto, as placas tectónicas eliminaram completamente os primeiros 500 milhões de anos de história e alteraram severamente os seguintes 500 milhões de anos. O fenómeno da tectónica de placas são se verifica, pelo menos aparentemente, em Marte, pelo que ainda mantém o cenário que nos interessa estudar. O projecto que visa colmatar algumas das nossas lacunas relativamente a este astro dá pelo nome de Missão de Retorno de Amostras de Marte - Mars Sample Return, incluído no Programa Aurora, e consiste na recolha de amostras de locais seleccionados em Marte, fazendo-as depois chegar à Terra para poderem ser analisadas em laboratórios terrestres. Os objectivos principais do Programa Aurora são duas missões tipo Retorno de Amostras de Marte, a realizar entre 2011 e 2017, uma missão humana à Lua, a implementar entre 2020 e 2025, e, por último, uma missão humana a Marte, entre 2025 e 2030. 224 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Conclusão Por outro lado, Europa, o satélite de Júpiter, poderá ser o único corpo, para além da Terra, com água no estado líquido. Pensa-se que por baixo de uma grande camada de gelo exista um oceano de água líquida, onde talvez se possam encontrar evidências de vida. Assim, um estudo exaustivo da composição do oceano, da crosta de gelo e da estrutura interna de Europa são exigidos. Estes objectivos da ciência poderão ser conseguidos por uma Sonda Orbital e/ou Módulo de Reconhecimento a Europa - Europa orbiter and/or lander. As condições necessárias para o despertar e evolução da vida passam também pela interacção entre o Sol e o seu sistema planetário. Assim, para caracterizar completamente as condições necessárias para a sobrevivência e evolução da vida, devemos compreender o sistema magnético solar, a sua variabilidade, as erupções solares e as interacções entre a heliosfera, as magnetosferas e atmosferas dos planetas. O nosso conhecimento acerca da estrutura do campo magnético do Sol poderá ser conseguido com a missão Solar Polar Orbiter. Como funciona o Sistema Solar? – é a segunda das quatro questões que integram o programa espacial “Cosmic Vision 2015-2025”. É no nosso cantinho do Universo, no Sistema Solar, que a procura das origens da vida deve começar. O conhecimento dos processos solares, da forma como os planetas se protegem do campo magnético e plasma solares, do porquê dos planetas do Sistema Solar serem tão diferentes uns dos outros, da informação que cometas e asteróides nos podem dar acerca das nossas origens, traçam a trajectória para chegarmos à resposta da questão de abertura deste tema. As circunstâncias que tornam um planeta habitável são desconhecidas, mas devem depender do campo magnético do Sol, da interacção entre o vento solar e as magnetosferas dos planetas, do material que os planetas inicialmente agregaram, entre outros. Para respondermos a esta segunda questão temos, em primeira instância, de a dividir em três momentos de estudo. Entre o estudo das magnetosfera da Terra e de Júpiter, vamos ter dois extremos: o estudo das regiões polares do Sol, com a Solar Polar Orbiter, e o alcance da heliopausa, a 200 unidades astronómicas, com a Interstellar Heliopause Probe. O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 225 Conclusão A missão Solar Polar Orbiter será a primeira sonda a revelar as características das regiões polares do Sol, a uma distância de apenas 45 raios solares, ou 0,21 unidades astronómicas. A Interstellar Heliopause Mission será projectada para passar para além dos limites da heliosfera e entrar no meio interestelar e, consequentemente, para observar directamente a interacção entre o meio interestelar e o Sistema Solar. A exploração da magnetosfera terrestre passa por uma missão Earth Magnetospheric Swarm, que visa fornecer a melhor exploração de sempre do campo geomagnético e da sua evolução temporal, com vista a melhorar a nossa compreensão na vasta região em torno da Terra, onde os processos electrodinâmicos são influenciados pelo campo magnético terrestre. Por outro lado, Júpiter constitui um excelente laboratório de estudo para o programa “Cosmic Vision 2015-2025”, pois o Sistema Joviano é frequentemente visto como uma espécie de mini-sistema solar. A exploração deste sistema passa pela criação de uma constelação de pelo menos três naves espaciais a operacionar conjuntamente com sofisticados instrumentos de análise do plasma, no âmbito do Programa de Exploração de Júpiter, o que irá permitir os primeiros avanços fundamentais na compreensão da estrutura e da dinâmica deste ambiente de plasma. Mas, os objectivos científicos do Programa de Exploração de Júpiter não se resumem ao estudo da magnetosfera, pois o estudo do Sistema Joviano, como um todo, permitirá construir uma compreensão firme da formação em larga escala dos sistemas planetários. Daí que o Programa de Exploração de Júpiter também vise o estudo da origem, da formação e da evolução do Sistema Joviano, tal como da composição e dinâmica da atmosfera de Júpiter, para além dos já referidos fenómenos magnetosféricos. Na exploração do Sistema Joviano será necessário o desenvolvimento de uma complexa série de novas tecnologias, que serão divididas em três tópicos principais: o Jovian Minisat Explorer (JME), que será usado na exploração do Sistema Joviano, em particular na lua Europa; o Jupiter Entry Probe (JEP), a sonda que será usada na exploração in situ da atmosfera de Júpiter até à pressão máxima de 100 bar; e, por último, o Jovian System Explorer (JSE), cujo objectivo será o estudo da magnetosfera de Júpiter e do Sistema Joviano. Os asteróides e os cometas, isto é, os pequenos corpos do Sistema Solar, são também os mais primitivos corpos. O seu material remota aos primórdios da formação do nosso sistema 226 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Conclusão planetário. Assim, o estudo destes astros possibilitar-nos-á o acesso à mistura química a partir da qual todos os outros astros se formaram e talvez nos permita compreender os processos que levaram à formação dos planetas e da origem da vida, pelo menos na Terra. O objectivo de uma Missão de Retorno de Amostras de um Objecto Próximo da Terra - NearEarth Object Sample Return - será a recuperação de amostras do asteróide tipo-C, 1999 JU3, que depois serão trazidas para a Terra a fim de serem analisadas nos laboratórios terrestres. Esta missão foi incluída no programa científico “Cosmic Vision” e visa responder a uma série de questões relacionadas com a origem do Sistema Solar, como parte integrante do tema “Como funciona o Sistema Solar?”. Por outro lado, a prioridade das missões espaciais previstas no “Cosmic Vision 2015/2025” difere consideravelmente e depende da tecnologia requerida e do seu desenvolvimento, tal como do orçamento disponível para pôr as missões em prática. Por outro lado, algumas missões, como, por exemplo, uma missão humana a Marte, requerem que outras missões a antecedam como forma de preparação. O planeta Marte constitui um excelente laboratório para estudar questões acerca da habitabilidade do Sistema Solar. Uma Missão de Retorno de Amostras de Marte – Mars Sample Return - incluída no Programa Aurora, constitui uma prioridade no “Cosmic Vision”. No que concerne ao estudo do plasma e dos campos magnéticos do Sol, da Terra e do Sistema Joviano e da região do espaço para além da heliopausa, onde o vento solar intercepta o meio interestelar, as prioridades das missões diferem. Numa primeira instância será levada a cabo a Earth Magnetospheric Swarm, seguida da Solar Polar Orbiter e, finalmente, uma Interstellar Heliopause Mission para alcançar a heliopausa e o meio interestelar. Uma missão aos limites de heliosfera é muito desejada, mas também muito ambiciosa, o que a remete para datas mais longínquas. Em relação à exploração dos gigantes gasosos, com os seus anéis, grande diversidade de satélites e complexos ambientes, estes constituem sistemas fundamentais no estudo dos sistemas planetários. No caso do estudo in situ de Júpiter, da sua atmosfera e estrutura interna, no âmbito do Programa de Exploração de Júpiter, será usada uma constelação de naves O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar 227 Conclusão espaciais cuja prioridade se sobrepõe à exploração da superfície e sub-superfície do seu satélite Europa com um módulo de reconhecimento de Europa - Europa Lander, que será uma missão para mais tarde. O motivo prende-se com o facto da necessidade de tecnologia inovadora para explorar um possível oceano de água líquida por baixo de uma camada de gelo. O objectivo de uma Missão de Retorno de Amostras de um Objecto Próximo da Terra Near-Earth Object Sample Return - será a recuperação de amostras de um asteróide primitivo, que depois serão trazidas para a Terra a fim de serem analisadas nos laboratórios terrestres. O estudo do material primordial a partir do qual se formaram os planetas é uma prioridade no programa espacial “Cosmic Vision 2015/2025”. Para concluir, o objectivo geral deste trabalho passa por focar a localização do planeta Terra no Universo e, em particular, no Sistema Solar e a sua inter-relação com este sistema. A questão de abertura “Será que a vida existe noutros mundos ou estaremos sozinhos no Universo?” é agora mais pertinente do que nunca. Os alunos devem ser sensibilizados para o carácter dinâmico da Ciência, tão evidente em episódios que fazem parte da própria história da Ciência. Este documento permite reflectir sobre a ideia de exploração espacial do Sistema Solar, prevista para os próximos anos, nomeadamente entre 2015 e 2025, no âmbito do programa Cosmic Vision, e permitirá aos alunos identificar a Ciência como uma actividade humana. 228 O Futuro da Exploração Espacial Europeia do Sistema Solar Lista de Referências Lista de Referências Capítulo 1: Explorando o Sistema Solar Sítios na Internet: • http://www.wikipedia.org • http://www.proyectonautilus.com.ar/web/revistas/6/faltaron4.htm • http://www.space.com/images/060807_life_cycle_02.jpg • http://pt.wikipedia.org/wiki/Sistema_Solar • http://www.nasa.gov/ • http://www.nasa.gov/multimedia/imagegallery/index.html • http://www.nasa.gov/multimedia/artgallery/index.html • http://www.astromia.com/fotosolar/filamentos.htm • http://www.ajornada.hpg.ig.com.br/ciencia/ciencia00005.htm • http://www.astromia.com/fotouniverso/galeria1.htm • http://www.geneseo.edu/~meisel/Arecibo_Dish.jpg • 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