Irmãos da Floresta Tropical Por David Dudenhoefer Ilustrado por Deirdre Hyde Para a Rainforest Alliance © Rainforest Alliance, 2002. U ma manhã bem cedinho, Nelson remou com sua canoa rio acima no Rio Branco. O rio estava abundante de piranhas, pirarucus, peixes voadores e outros peixes, e a pescaria era melhor durante a manhã. De vez em quando, um peixe voador pulava fora da água marrom e espirrava água por todos os lados. Um grupo de papagaios de cabeça azul voou por cima grasnando. Nelson estava preste a começar a pescaria quando ouviu ciganas gralhando depois da próxima curva do rio. Ele continuou remando para tentar ver por que as aves estavam gralhando. Conforme ele se aproximou, as ciganas grasnaram mais alto e voaram para dentro da floresta. 2 3 Nelson viu por entre os ramos uma pequena canoa flutuando e remou rapidamente até ela. Ele ficou bastante surpreso quando viu dentro da canoa um garoto que se parecia com um índio e que estava deitado de barriga para baixo. O garoto estava vestindo apenas uns calções e estava tremendo. Nelson perguntou a ele por seu nome e o que ele estava fazendo lá, mas o garoto apenas olhava para ele. Ele parecia doente, então Nelson puxou o barco até Boa Vista do Ramos e foi buscar ajuda. O garoto passou uma semana em uma clínica, onde Nelson o visitava diariamente. A enfermeira contou a Nelson que o nome do garoto era Davi e que ele era um índio Yanomami. Ela disse que ele estava se recuperando de malária. 4 5 Nelson deu a Davi uma de suas camisetas e levou para ele refeições que sua mãe havia preparado. Davi era tímido e não falava muito Português, mas de qualquer modo Nelson gostava de visitá-lo. Nelson tinha somente três irmãs mulheres e sempre havia desejado ter um irmão. Ele queria que Davi morasse com sua família e assim poderiam pescar juntos. Quando Davi melhorou, Nelson convenceu seus pais a deixarem-no viver com eles. 6 7 Na tarde em que Davi se mudou para a casa, Nelson queria ir pescar, mas sua mãe disse que Davi ainda não estava recuperado o suficiente. Nelson foi pescar sozinho e pegou uma boa quantidade de piranhas que sua mãe fritou para o jantar. Durante o jantar, Nelson disse a Davi -Se você se sentir melhor amanhã podemos ir pescar. Davi apenas consentiu com a cabeça. Davi quase não falou durante o jantar, mas comeu muito peixe, arroz e lentilhas, sempre com as mãos. Nelson mostrou a ele como comer as lentilhas usando uma colher, mas Davi não pareceu interessado. -Tudo bem -disse o pai de Nelson-, Davi pode comer com as mãos. -Posso comer com as mãos também? -perguntou Nelson. -Não! -disse sua mãe. Naquela noite Nelson dormiu com sua irmã de forma que Davi pudesse dormir em sua cama. Mas na manhã seguinte, a cama de Nelson estava vazia. Eles encontraram Davi dormindo na rede da varanda. O pai de Nelson disse que eles iriam colocar a rede para dentro da casa naquela noite, para que Davi pudesse dormir para dentro. Davi pareceu bem para sair e então Nelson pegou suas linhas de pesca e ambos caminharam até o rio. Eles passaram por pequenas casas de madeira em palafitas e a praça central gramada cercada pela igreja e as construções governamentais. -O seu vilarejo é como Boa Vista? -perguntou Nelson. -Não -respondeu Davi-. Os índios Yanomami não têm casas. Nós dormimos no shabano. Ele explicou que todos em seu vilarejo vivem numa grande cabana circular chamada shabano. 8 9 Quando eles chegaram à barranca do rio, um grande barco passou puxando quarenta toras de madeira. -Mahogany -disse Nelson. Davi olhou para as toras. -Nahpey destrói a floresta para obter madeira -ele disse. -Quem é Nahpey? -perguntou Nelson. -Você é Nahpey -disse Davi apontando para Nelson, para alguns homens numa canoa, e também para o vilarejo atrás deles-. Nós Yanomamis protegemos a floresta. Vocês Nahpey a destroem. -Eu não destruo a floresta -disse Nelson embarcando em sua canoa-. Eu gosto da floresta. -Vamos para a floresta -disse Davi. -Vamos pescar -disse Nelson. Ele fez um sinal a Davi para que entrasse na canoa, mas Davi ficou na margem. -Você não quer pescar? -perguntou Nelson. -Não -disse Davi-. Vamos para a floresta. -Certo -disse Nelson se levantando-. Vamos para a floresta. 10 11 Eles andaram por um longo tempo passando por pastagens e plantações até chegar à floresta. Dentro da floresta era fresco e um pouquinho escuro. Árvores gigantescas os cobriam e aves cantavam alto nos galhos. Um cricrió assobiou à distância. Um casal de araras grasnou no topo de uma árvore. Nelson queria ficar na trilha, mas Davi andava por fora dela. Ele quase não conseguia acompanhar Davi, que arrancou uma paca de um buraco e fingiu estar a espetando com uma flecha. Davi usou um pedaço de pau para abrir o tronco de uma palmeira caída e arrancou algumas larvas brancas da madeira podre. -Óptimo! Podemos usá-las como isca -disse Nelson. -Não. Nós vamos comê-las -disse Davi. Ele mordeu e cuspiu as cabeças das larvas e então ofereceu o restante das larvas, que ainda estavam se retorcendo, para Nelson. -Sua mãe pode cozinhá-las -ele disse. -Eca! Minha mãe não vai cozinhar essas coisas -disse Nelson balançando a cabeça negativamente-. De jeito nenhum. Davi olhou para ele como se ele fosse um louco. Elas são gostosas -disse ele. -Bem, minha mãe não vai cozinhá-las -Nelson colocou as larvas no bolso-. Vamos usá-las para isca. Minha mãe vai cozinhar os peixes que pegarmos. Davi mostrou coisas que Nelson nunca havia visto antes. Ele encontrou frutos e cogumelos que eles dividiram e mostrou a Nelson uma víbora saltadora que estava enrolada próxima à raiz de uma árvore. Quando eles descobriram um ninho de abelhas no alto de uma árvore oca, Davi soltou um grito alto e agudo e dançou ao redor da árvore. Ele queria fazer fogo para esfumaçar o ninho e trazer as abelhas para fora, mas Nelson explicou a ele que tinham mel em casa. -Um vilarejo próximo faz o mel -disse Nelson. 12 13 -As pessoas fazem mel? -riu Davi-. Abelhas fazem mel! -Sim, mas as pessoas criam as abelhas -disse Nelson-. É um projeto da IMAFLORA. Davi sorriu. -Você tem mel? Nelson balançou a cabeça positivamente. -Nós só podemos comer mel depois do almoço. Acho que nós devíamos voltar para casa agora. É quase hora do almoço. Quando eles chegaram à margem da floresta, ouviram uma moto-serra atrás deles. Davi parou para ouvir. -Nahpey destrói a floresta -ele disse. -Não esta floresta -disse Nelson-. Ela pertence à nossa comunidade. Eles entraram numa fazenda com plantações de café e árvores frutíferas. Havia uma linha de formigas cortadoras cruzando a trilha na frente deles, cada formiga carregando um pedaço de folha. As formigas haviam cortado quase todas as folhas de uma laranjeira próxima. Davi apontou para os ramos da laranjeira. -Nahpey são como formigas -disse ele-. Eles destroem tudo, destroem mahogany, destroem pacas, destroem abelhas. -Não a gente. Meu pai trabalha com a IMAFLORA manejando esta floresta -disse Nelson apontando para os bosques atrás deles. Eles ainda podiam ouvir a moto-serra. -Seu pai corta árvores? -perguntou Davi. -Somente algumas árvores -disse Nelson-. Eles deixam a maior parte da floresta crescer, assim ainda existirão árvores no futuro. -Nahpey sempre destrói a floresta -disse Davi. 14 15 -Os Yanomami não cortam árvores? -perguntou Nelson. -Somente algumas árvores -respondeu Davi. -É isso que meu pai faz -disse Nelson-. Cortam-se algumas árvores enquanto o restante é protegido. Venha. Eu quero te mostrar uma coisa. Ele guiou Davi de volta à cidade até um grande prédio com uma pequena serraria próxima a ele. Dentro do prédio, Nelson encontrou seu primo Gilberto, que mostrou tudo a eles. O local era uma escola onde as pessoas estavam aprendendo a fazer instrumentos musicais. -A madeira vem da floresta comunal disse Nelson-. Meu pai diz que nós podemos ganhar mais dinheiro fazendo estas coisas de madeira do que vendendo as toras. Então, temos condições de proteger nossas florestas. Gilberto mostrou a Davi um violão que ele mesmo havia feito. Ele começou a tocar um samba no violão. Um outro estudante começou a acompanhar o ritmo batendo num banco, enquanto outro batia seu formão numa lata. Gilberto dedilhou mais intensamente. Nelson começou a dançar. -Dance o samba, Davi -ele gritou-. Dança! Mas, Davi somente soltou seus gritos altos e agudos e aplaudiu. 16 17 Quando eles voltaram para casa o pai de Nelson estava conversando com um homem na varanda. Davi e Nelson comeram grandes pratos de arroz, feijão e frango. Para a sobremesa, comeram grandes quantidades de mel. Então, o pai de Nelson os chamou e os apresentou ao homem, o senhor Rocha. Ele disse que o senhor Rocha trabalhava para a Fundação Nacional do Índio e iria levar Davi de volta para a sua tribo. -Davi quer ficar aqui -disse Nelson-. Nós temos de ir pescar! -Davi sente falta do pai e da mãe dele -disse o pai de Nelson. Você não gostaria de viver longe da gente, gostaria? Nelson olhou para Davi. -Acho que você quer ir para casa, não é? Davi consentiu com a cabeça e então se aproximou de Nelson dando tapinhas em seu peito. -Eu vou voltar. Nós vamos pescar. -Pode apostar -disse Nelson. Ele correu para dentro da cozinha, falou algo com sua mãe e então voltou para a varanda com um jarro de mel. -Isto é para você -disse ele dando o jarro a Davi. Nelson e seu pai caminharam até o rio com Davi e o senhor Rocha e os viram partir no barco governamental. Quando o barco desapareceu, Nelson cochichou para si mesmo <<Até mais meu irmãozinho>>. 18